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Artur Rogério

Recebi as flores dela 33 dos mais belos poemas que o amor inspirou

Recife, maio de 2009.


4 Artur Rogério © Alguns direitos reservados

Projeto Gráfico Wellington de Melo Revisão Bruno Piffardini Imagem da página 45: Munroe, Randall. Boyfriend. Disponível em http://xkcd.com. Tradução disponível em http://www.tirinhas.com.


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Por qué cantáis la rosa, ¡oh, Poetas! Hacedla florecer en el poema; Sólo para nosotros Viven las cosas bajo el sol. El Poeta es un pequeño dios. Vicente Huidobro, poeta chileno, Arte Poética.

Quem tem as flores não precisa de Deus. Alberto Caeiro, fragmentos.


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7 01 – TRÊS VELAS Revelei a coxa do padre Eu sabia Ele não flutuava Carne de madeira marchetada pela pele náutica Mais vazando muito mar estocado à ossada do barco pirata É uma veia sumida pra dentro do corpo das velas São duas bandeiras cravadas na ilharga de cera naufragada E uma vela não acesa E uma vela apagada E uma ponta de pano ejaculada

Santa Maria, Nina, Pinta, tênis, hambúrguer, telefone, chaveiro, perfume, boné, peru, ovo de Páscoa, etc, nenhuma oferta Nem lanterna, nem o borbotado coração do filho, nada Iluminada Pros seus, ele também falha Ele também é filho de Deus Assim Como eu


8 02 – TORNEIRA Artur, ela disse que em qualquer lugar do mundo se abre torneira assim, assim, assim, repetindo, assim, uma frase a Buda. E você ensaboava a cueca e ouvia do tanque o mantra entrando pela bunda. E você ainda se lembrava de como a vida era muito muito e muito boa mesmo quando saía pelo cu, de Barreiros. E você não se lembrou de como é que se usa uma torneira, que é assim, assim, assim. Chorou, esperneou porque lá não havia mar, espelho, mamadeira, e, sobretudo, não havia banheiro. Artur, ela não é Edilene, apesar de também ter lhe ensinado coisas fundamentais à vida. Artur, ela disse que em qualquer lugar do mundo se abre torneira assim, assim, assim, assim, assim, e você mijou nas calças, tomou naquele dia uma sopa branca e rala, botou pra dentro um churrasco grego. Mas você não morreu na cidade que, de tão dramática, parece reproduzir sobre os prédios uma outra cidade, grande espelho suado. Ela disse que em qualquer lugar do mundo se fecha torneira assim, assim, assim. Ao menos isso você aprendeu. É que ela tem um jeito dela e dele que faz a voz ficar parecendo com a voz de uma poeta, que sabe muito bem como é ruim não beber um copo de água gelada, enquanto você andava na Antártica. E também ela tem dois olhos lixados como os dos cavalos da polícia de São Paulo. Além disso, e muito mais além disso, ela sabe que em qualquer lugar da Terra se abre torneira assim, assim, assim Sim, você recebeu as flores dela


9 03 - TE AMO Eu sou um rio naquele largo que lava os pés dos penhascos, a correnteza leva o concerto, segredos da noite viram água, a neblina e o lençol beliscando a virilha, mas também tem um carro de corrida, eu dirijo esse carro de corrida que voa entre a água e a neblina e a neblina também espectra aqui, vapor de sangue, cano de escape Te amo Te falei que os ursos panda não têm graça, mas eu quis dizer que você é mais bonita que essas minhas historinhas e você não precisa ficar falando sobre essas coisas que nem existem na vida Te dei um chiclete verde e você me deu uma rosa Me disseram que essa é a diferença entre homens e mulheres, mas não me sinto, assim, um homem assim e também acho que você não é assim uma mulher assim, entende? Acho que tou mais pra rosa e você tá mais pra chiclete verde Te amo e sei que não preciso postar o que tou escrevendo aqui porque o que sinto por você é amor de verdade, e todas as palavras do mundo só poluem, avacalham a poesia, elas todas fodem a comunicação, espinham a convivência, matam, vestem a alma, as palavras são como a televisão Te amo e você não precisa de poemas pra saber disso, não precisa de poemas, nem de poetas, de nada dessa babaquice, porque nós nos beijamos e minha língua tocou o teu coração, e eu senti


 10  quando o teu coração pulou e correu e deixou pegadas de açúcar que alegraram as nossas bocas insossas, aguadas, bocas de criança. E isso é a coisa mais linda que pode existir, mais lindo que um poema de Florbela Espanca, mais lindo que qualquer mulher, e só nós dois sabemos disso. Depois, ficamos em silêncio, unidos, uns quarenta e sete minutos, assim, tipo, soterrados, desconhecidos, como se tivessem acabado de nos plantar ali, num canteiro, como se aquela praça há dois mil anos nos amasse Me sinto como alguém que não morre ou que morre como antigamente Me sinto como uma mulher fumando Te amo como uma mulher fumando e você sabe bem disso E você Apenas você sabe bem o que é isso Aceito a arma que mata toda essa farsa de poetas e de livros


 11  04 - RECEBI AS FLORES DELE A minha dor é mais grande que a daquela mulher ali escorada Fiquei em dúvida entre margarina, manteiga, óleo se soja gordura hidrogenada O queijo queima na barriga , pega essa sacola Recebi as flores dele Então ele me disse: amo ela Margarida, Hortência, Rosa, Acácia, Violeta, Angélica, Gardênia, Íris, Camélia Narciso E o caule sem pétalas Pega essa coroa de prego A minha dor é mais grande que a daquele homem ali no pau , pega essa sacola A raiz, a raiz tá onde? A raiz, a raiz? A raiz Boto botão, boto perfume Bota o ferro Ele disse assim que não tem jeito pra essas coisas de mulher Boto o pastel no papel absorvente Ele me deu uma rosa , pega essa sacola Ele me deu uma rosa


 12  Aí ele disse que roubou as flores dela Depois ele disse depois que na verdade roubou as flores do vizinho dela e que depois ele depois deu a ela A minha dor é mais grande que uma semana de fome A minha dor é mais grande que a daquele cara que não tá nem aí pra gostosa na praia E enfeitou a barba, queijo ralado, margarina, manteiga, óleo de soja, gordura, maionese, suco de graviola E ele me disse: amo ela E ele me disse: mas prefiro o seu cozinho E depois ele me beijou e me levou e me deu e baixou e lavou e se vestiu e voltou pra casa leve e pesado como um homem depois que come E depois a minha dor voltou mais grande que a dor de um homem


 13  05 – RECEBI AS FLORES DELAS Eu lembro que estarei com os pés virados pro lado dalgum buraco do cemitério de São Miguel. Aquela é ela menos triste que hoje e ali é a outra mais triste que a outra hoje. Eu lembro que ainda estarei vivo naquelas duas bóias. Nem lembro direito. Aquilo são cinturas por baixo da porta. É o que vejo agora quando estarei trancado. Mas isso era passado e, já que, o futuro nunca tem uma boa história. Eu só lembro que não escolherei a roupa e terei barro, sal e pêlos nas sobrancelhas. Talvez eu sentirei o desejo de coçar o joelho, ou morder um carrapato no rabo dum macaco. Grama, entojo, capim dourado. Ou um carrapato gordo no rabo dum cachorro. Ou água abrindo grotões, lavando bundas pelos quatro cantos, lançando fósforos acesos na cara do Diabo. Eu lembro que o sol apoiaria uma pata na minha cara. Esquece, negocia, ressona. Assa a ressaca do coveiro. Elas duas são a minha musa. Se eu estava vivo, já estarei de cueca molhada. É a vida, elas duas. E a barra da saia dança sobre a minha barba. Um cara falou, com humor, que morri de amor. Mas esse cara também narrara bombas da primeira guerra e segunda e outras coisas que não existem como pinturas impressionistas e poesia concreta. Então uma ela agradeceu a presença do pequeno grupo de traças ao meu redor. Partiu e deixou uma mulher num vestido branco e preto pelo lado direito da minha cova. Na alça. Ela arranhará a beirada do caixão e um fiapo


 14  de madeira furara sob a unha verde. Tudo o que saindo dela terá a densidade dramática do leite dum mamão verde riscado Não lembro não Lembro agora Não foram embora até que eu fosse. Me deixarão na porta Elas é a minha musa É que elas é mais grande que a matéria Lembro dos nossos filhos grávidos e do nosso primeiro beijo que acontecerá através do vidro suado da tampa Lembro Não Agora Recebi as flores delas


 15  06- RECEBI AS FLORES DELA E esperando o líquido pintar no vaso O dente caiu no poço Saiu à pena Diferentemente da época do futebol O nome dela era um nome de mulher Recebi as flores dela As letras pardas moem a massa de neve e também a areia da praia e o muro do shopping e o poste e a calçada da loja e todos os lugares no carnaval e a cama Sempre encontro pela cama o hálito da maconha E a marca daqueles cabelos de cigarro e as cores É as flores dela ainda pintando pelos campos regados com lágrimas que jorram dum pau estourado Fura Meus pés são um casal de couve-flor Diferentemente da época Da cama Engulo a chave, mergulho, tou esperando Desbarato Desratizo Desbatizo


 16  Desfibrilo A minha língua é e uma cabeça de alho Eu tava Estive no vaso Acompanhado Eu e uma salsicha de frango congelada E, como o combinado, mais uma vez saltou do precipício o líquido de algodão desovado Diferentemente da época Da bola


 17  07 - RECEBI AS FLORES DELA Eu disse Tu tem uma flor. Além de tu ter tudo isso, tu tem o cabelo mais bonito que o daquela menina, mas às vezes tu fala como uma mulher que quer que o marido tome banho antes de deitar na cama. E tu ainda acredita que existe salvação pra esse mundo merda Aliás, eu disse Tu tem dois seios Aliás, eu disse Tu tem dois peitos Aliás, eu disse Quero tomar o leite dos teus dois peitos. Quero mamar Aí ela falou assim Vá mamar nos peitos duma vaca Aí eu disse, acho que eu disse, assim A tua pele é iluminada como o pêlo daqueles cavalos vermelhos. E a tua bunda de tanajura é feita de filé de siri Eu disse A maçã é argentina, mas o caroço é preto Eu disse Se você fosse homem, eu virava gay, Se beleza desse cadeia, você pegaria prisão perpétua, Oi, o cachorrinho tem telefone?, Anal? Se amar é viver, vivo porque amo você


 18  Ela ficou fazendo assim com o guarda-chuva e eu não parei de falar, parei não. Aí eu disse assim Tu deve ter é um repolho no meio das coxas. Quero lamber a tua bunda, quero chupar o teu umbigo, quero morder o teu pastel, quero te amar Aí, daí pra frente, não lembro mais de nada. Aí acordei. No mesmo quarto. E agora só espero a hora de sair pra fora e novamente chamar ela e falar pra ela Eu disse Recebi as flores dela


 19  08 - RECEBI AS FLORES DELA Recebi as flores dela recebi as flores dela recebi as flores dela recebi as flores dela Surpresa de uva, açúcar de confeiteiro, beijinho Livrinho nojentinho Calda de abacaxi empapando as páginas Além do mais, amor não é esse monstro, essa dúvida, não é nesse tom Amor não é essa repressão sexual Sem falar no excesso de rimas descabidas Sem falar no obsoleto apelo à homossexualidade Sem falar num vocabulário pra matar de desgosto até esse tal de J. G. de Araújo Jorge Sem falar no apelo sobre a idéia fixa da fictícia cidade de Barreiros Suspiro Um novo nome que assina poemas vergonhosos O que quer, esse moço? Suspiro Duas flores? Três flores? Uma dúzia? Uma flor? Dinheiro, cachaça, folia? Esse moço precisa de uma casa De um jardim E de um amor Pirulito


 20  09 – RECEBI AS FLORES DELA De corrente e me vestem à pedra Dum lado o corpo desmembrado Dum outro lado A mesma pedra Sempre arrombo as canelas sempre me escapa o tatu-peba sempre Ainda umas folhas fiam os seios Dum lado atiro baldes no buraco Do outro lado Pedra a pedra Dum lado Terra e do outro outra pedra que muda de céu à oferta da noite ou do dia ou se chove ou se não chove ou se desejo qualquer dia A corrente cola a minha barba atrás do palco Na água ria do metrô, bóia um ombro. A água ria do metrô é o oposto, é o que me abandona o tempo todo. Bóia um osso, uma córnea. Engulo a chave e afundo Fica ali a África e a ali no mapa os ovos dela Uma unha assanha a guelra Um óleo navega À pedra Recebi um coco Recebi um tigre Recebi um tatu


ď Ą 21 ď ˘ Recebi as flores Morta A pedra Morta Recebi as flores dela


 22  10 – PRIMO Farinha de charque batata doce banana prata banana ouro banana maçã banana nanica e banana anã e banana comprida e batata frita e chambaril do mato Segredos e açúcar mascavo Nunca entendi esse vício safado de colocarem em oposição uma mão, um amor, um anel e um primo Bolo de cenoura, bolo de rolo, Romeu, nata, mortadela, mostarda e tapioca e goiabada, manga rosa, pirão de buchada pulam das rochas que cataratam flores sobre as peias e a faca E eu pensava: amo ele E ele dizia: te amo até a última pranta da mata, mais grande que este frio dos anos dois mil, mais belo que um pingüim na Antártica, onde é seca a terra debaixo do rio, no leite do tijolo da casa E eu pensava: amo ele Aí ele depois ele disse que ia prum sítio de Camaragibe Ele queria um fio Aí ele depois ele disse que ia prum sítio de Camaragibe Ele queria um fio


 23  Esperei encaralhada feito uma galinha que tá pra pôr uma melancia Ardia um coração Aí ele apois ele foi pra China Ele não existe E a bala deflagrada – o leite do tijolo marchou de volta às rachaduras dos calcanhares da última árvore Ele não existe Vivo com uma melancia estourada Ele não existe Vivo com uma melancia na cloaca Ele não existe E as pracas ariadas no início e no fim do meio-fio do meio-docaminho E as palavras no lugar dos tijolos da casa Onde ninguém fala nada As lágrimas rolaram pelas pedras de fraga E pelos morros estriados de cana-de-açúcar e pelo fundo da calça e feito uma foice cravada no meio da cara Até hoje restaram detidos no baço e nos cílios uns estilhaços de vrido


ď Ą 24 ď ˘ E um tapuru na goiaba Sangue no barro cozido Barro no sangue do rio


 25  11 – POEMA POÉTICO Um pica-flor traspassou o jardim e trucidou as flores da mulher*, inclusive as papoulas Ela chorou pelo leite derramado no papel de carta Mas baços ainda paraquedam e enraízam-se e desovam uns aos outros dentro duns quatro campos de futebol sem a parte da arquibancada Fernando Pessoa gostava de escrever E Álvares de Azevedo E aquele cara que escreveu Amor de Perdição E aquele outro cara que escreveu Os Sofrimentos do Jovem Werther E aquele outro cara que escreveu um livro de poesias 1 - O amor derrubou um vaso de orquídeas no poço do elevador 2 - A gema de mel piscou no centro da flor 3 - Alguém falou, Mrs. Dalloway? 4 - Acho que ainda sobrou uma cerveja e uma palmeira e uma omelete no rosto dele 5 - Mas degolaram o corpo do meu coração Eles não sabiam usar aquela arma Deram um tiro no espelho


 26  Mataram a casa Fico mais aflito quando vejo um bonsai do que quando mastigo um refogado de carne de boi moída, ainda mais se for preparado pela minha tia Neida Não sei se estou me fazendo entender, vosso leitor, a partir destes belos poemas, mas não se apegue ao todo Todos vivemos na superfície e, sobretudo, todos morreremos aqui Só vi agora, depois da festa, as mensagens de afeto, os poemas poéticos grampeados na testa É tarde pra não aceitar o valor da carta Ninguém goza na rosa Na rosa nada Fernando Pessoa gostava de escrever E Álvares de Azevedo E aquele outro cara *Acho que o nome dessa mulher é Mariane Alcoforado.


 27  12 - PEIXARIA Ninguém pedia, mas a jaca já tava cagando os ossos pra fora da gordura E dava pra ver a parte branca no corte do jambo rosa Ninguém pedia, mas a jaca já tava cagando E o cabelo de cabelo de coco E o descoco no coco do coco da macaíba E flor de nastúrcio, calêndula, amor-perfeito, flor-de-borago, begônia, tulipa, capuchinha, lavanda, violeta, dente-de-leão, gerânio, alfazema O caldo das frutas desinfetando as sandálias, e o cheiro de feira narcotizando as abelhas E uma abelha repartindo com a mosca um prato de sopa Nunca chegou tanta água nas torneiras e nem no abacaxi e nem no maxixe e nem naquela fruta e nem no caqui E tanto rosa sob a copa do jambo roxo E ela era uma verruga crescendo entre o anel e o anelar Esse peixe não tem espinha Dá o rabo com molho de alho e pimenta daquela pimenta bem vermelhinha Ela abria as pernas E o perfume invadia todas as casas da rua feito uma padaria de manhazinha


 28  Ela vestida na armadura prateada que rebate raios contra o trono de Deus Protegida Toda alma Ela não vestia nada Um dia o enfeite de flores voou da cabeça e voltou pro jardim da vizinha e ela ria Nem lava as roupas Com toda aquela pele escamada, os contornos, a marcha, as botas, as frutas, a tuba e o tambor Ela ainda preparou um licor de jenipapo e me deu um beijo de língua e eu nem queria Eu nem queria nada Era ela Mas era a rua toda babada


 29  13 - PARTILHA EU ama TU que ama NH que ama PN que ama AR que ama RA que ama WW que ama todo o alfabeto EU enviou uma mensagem pra TU que enviou uma mensagem pra NH que enviou uma mensagem pra PN que enviou uma mensagem pra AR que enviou uma mensagem pra RA que enviou uma mensagem pra WW que enviou uma mensagem pra todos os seus seguidores Depois de hora sem respostas, EU deletou TU que deletou NH que deletou PN que deletou AR que deletou RA que deletou WW que deletou todos os seus seguidores Depois de hora sem respostas, WW enviou uma mensagem pra EU que enviou uma mensagem pra RA que enviou uma mensagem pra TU que enviou uma mensagem pra AR que enviou uma mensagem pra NH que enviou uma mensagem pra XY que enviou uma mensagem pra XX que enviou uma mensagem pra YY que enviou uma mensagem pra PN Depois de hora sem respostas, o amor retornou triunfante e pungente, vivo, mais grande que o que está guardado em livros, mais grande que os poemas de antigamente


 30  14 - PAISAGEM O amor não quebra mais o gelo. A pele fere o osso. A bochecha vira tipo, tipo assim..., um calo da rocha translúcida. Também deixou de singrar o perfume que era quando a água alagava ali onde eram meus pés ali acachapados como duas crianças que voltam pra casa no banco de trás do carro enquanto chove e depois da chuva O sangue não pesca mais. O sangue some de rastros sob a extensa pupila viva furada no centro pela goteira. O único espaço é este aqui que tu tá vendo, este aqui, meu umbigo, até onde alcança as cores das flores cremadas. O único espaço é este aqui que tu tá vendo, este aqui, dentro da minha cabeça, cremada, aqui, por trás da geleira Antes era maior. Antes dava até pra cruzar as pernas e coçar o saco. Antes tinha uma mancha verde que ficava ali depois dali e essa mancha verde às vezes ficava rosa e às vezes ficava amarela e às vezes ficava branca, mas por baixo era sempre porca glutona e até acendia e apagava uma luz que devia ser produzida por algum tipo de vírus implantado no centro disso tudo isso Um bloco de carne em pedra na bandeja, uns dentes na boca, um sorriso, um algodão na boca, um algodão no nariz, uma seda, um sossego Na paisagem Um bloco vermelho e o gelo


 31  15 - NÃO RECEBI AS FLORES DELA Não é a correnteza na testa, nem os urubus moídos nas turbinas, nem aqueles tsurus que tanto fascinam uns maconheiros Não é o gengibre vencido que racha a caixa onde detonam o meu coração, nem o tule preto que é minha sombra e se arrasta em mim vultosa como esta vida e que, às vezes, de forma estúpida, degola meus pêlos das pernas Não é a panela Não é o feijão Não é a lei Maria da Penha Não é o cravo Não é a rosa Não é o buquê Não é esse Deus que só gera flores negras e uma fruta que é doce e mole por fora e travosa e espinhenta por dentro Não é que acima da cabeça não haja uma mão que nos diz a entrada e a saída ou nos aterroriza do último fio de cabelo até o dedão Não é a sarna que pisa o cachorro talvez morto na calçada, nem é a mariposa que vampiriza a última lâmpada na madrugada Não é que não faz diferença se o cachorro talvez morto na calçada seja um cachorro, uma baleia, uma cadela, uma arara ou um tubarão Não recebi as flores dela


 32  No caixão Foi quando não morri depois que matei um cara barbudo cheio de viadagem de entendedor de literatura que conheci depois que me mataram Não é o prazer de dividir um prato, nem é o prazer de dividir uma guerra Não é aquela história da flor de lótus Não é a estupidez dos fãs de Pink Floyd Não é namorar numa praça de Pequim, de Tóquio, pelo sítio do padre, pular no rio Una Não é os pombos, nem é o cágado, nem é os espíritos dos cavalos que rondam o Parque 13 de Maio, nem o dente no dente no dente no beijo, nem o pato no pato no pato no lago, nem o jeito quadrado de Robert Pattinson, nem aquela praia que ninguém conhece, tirando nós dois e Wellington de Melo Não é o nosso amor Não é as pedras, tipo, tipo, assim, meio que..., tipo aquelas lindas pedras da Praia do Porto, nem é a Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Engenho Pau Ferro, nem é a Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Engenho Fina Flor Não é o fato de estarmos nus, deitados, abraçados e, por um tempo, cagando pra quem está neste momento lendo livros Não Não é isso


 33  16 – NAMORADOS Os habitantes já haviam sido defenestrados quando decidiu sair da casa Nada nos caixas, apenas dinheiro, nem nas calçadas, além do mato, ainda com medo, crescendo pra cima e pelo passeio quase como se ali fosse um telhado A rua, o rio, o outro rio A ponte, o hospital, bares abstêmios A estrada estacionada, o araçazeiro de araçás, a placa violada, a caramboleira de carambolas, a cajazeira de cajás, o vago e o ocupado, tudo em seu lugar Tem uma carta nos correios E um bode silencioso, e um coelho numa cartola E uma vaca pescando sossegada entre as prateleiras duma farmácia morta Muitos grandes aposentos pra muitos pequenos pássaros e aranhas e pra cachorros, pra morcegos e pra jacarés e pra pacas e pros cupins um milhão de igrejas ofertadas e todos os teatros E uma abelha Na flor Voltou, entrou dentro da casa e ele ainda não havia acordado Abriu a jaca e só nesse instante percebeu como são tagarelas os pés do seu namorado


 34  17 - MULHER A reta desata o outro lado da renda Despetala a lã Dois bares Dois peitos Dois chapéus Dois bonés Um homem Um troféu Dois sacos Dois cigarros Dois trabalhos Dois olhos roxos O reto preso no pescoço pela teta Projeta o gozo da mulher Dois pés Um pé Um pé Um do lado do outro Dois ovos Um ovo Um ovo Um seguido do outro Duas vias


 35  Uma vaca Duas mãos Pra uma aliança no dedo Uma mata delgada Uma galha glabra Uma faca quente Uma moça moça A seta toca a zorra do outro lado da reta Acocha os músculos Esbugalha zarolho Dois orgasmos Dois arroubos Dois fluidos Um homem Uma menina com lombriga O que lhe falta na barriga? Um homem Uma mão Um balão Um mar Uma marina


 36  18 – MARANATA Uma mulher fumando é quando usam a corda do sino e quando transportam uma mão de milho Isso ainda conjugado ao terraço, ao espremedor de alho, ao espremedor de batata, ao espremedor de limão e ao marido Marido Era bom se chovesse O calor empoça a esponja gelada A chaminé, fumaça de palha de coqueiro, índio faminto, cego em tiroteio É uma mulher fumando E um cálice de vinho seco num copo de requeijão e um cigarro aceso entre os dedos de unhas meio lilases, meio encardidas, apontadas pro chão É uma mulher fumando Como um estômago Ainda mastigam os olhos de égua umas histórias duras As lágrimas caçadas pisam as sandálias No lugar do cachorro Um rato no terreiro No lugar do rato


 37  Um buraco negro No lugar do terreiro O lugar do cachorro no terreiro Mel de cavalo É uma mulher fumando É um homem dormindo É um rato cagando Uma mulher fumando é uma filha pescando no colo do pai Uma mulher fumando na varanda é uma casa Branca, vela de sete dias, folga a calça, solta um buquê à brisa, veste cigarras, lagarta, traga a água do pilar de madeira Índia, vaca, polaca, estrela d’Alva, coalhada Na Amazônia, um macaco pula duma galha E uma remota morte noutro livro sega a faca E uma brasa estala onde temos luz apagada Ela plantou um pé de planta ali E um pé de flor E um pé de dinheiro e aquele outro pé de planta que dá aquelas flores rajadinhas E um copo de leite E a faca usada já tá no armário


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Depois do cachorro Depois da varanda Coçou os olhinhos Estourou as ervilhas pretas, borrou as bochechas e os quadris Um matinho que tinha ali arreganhou a boca, engoliu a brasa Maranata


 39  19 - KAKÁ Dentadura de preto na feira de bantos pra europeu comprar Não convém escrever a palavra Brasil Na grama do vizinho embola um carcará E, pra acabar, também rola uma rima E ele mais uma vez sorriu pro lado de cá É esse samba que nunca nasce É um olho no padre Outro na missa E o outro olho na hóstia E dois ovos de chocolate branco desejando a terceira bola Ki-hot-dog Ki-coxa Ki-caldo Ki-suco Ki-guaraná Cabelos de anjo, músculos de homem, moço de leite, moça Ok Esse nosso negócio não podia dar errado A felicidade na tigela bronzeia o comércio na praia E abre a beleza dos surfistas agazelados Que pagam no papo de macho e também viajam se aparece um perna de pau de olho tapado Têm fé no jacaré


 40  No poder da grana da igreja universal E no meu Deus Jeová e no ketichupe Na kaiser Na kibon No kiko Na kika No Ford Ka E nos pilotos kamikaze Onde Kaká pisa cresce grama Ki-grama, moça, ki-grama, moço E quando sua um novo sol sai do corpo É a estrela de Iemanjá Que assiste ao jogo de camarote Que larga uma gargalhada recebendo as flores e ofertando os seus dentes de ouro Do mesmo lado, do mar


 41  20 - HOMEM A reta toca o ponto do outro lado da reta Descabela a corda Um bar Um peito Um chapéu Um boné Uma mulher Um troféu Um saco Um cigarro Um trabalho Um olho roxo O reto boto no oposto da roseta Arrolha a seta do homem Um pé Um pé Dois pés Um do lado do outro Um ovo Um ovo Dois ovos Um do lado do outro Uma via


 42  Duas vacas Uma mão Pra uma aliança no dedo Um pêlo no dente Um cara calvo Uma barba rente Um garoto morto A seta toca a zorra do outro lado da reta Acocha os músculos Esbugalha zarolho Um orgasmo Um arroubo Um fluido Duas mulheres Um menino com lombriga O que lhe falta na barriga? Um homem Uma demão Feijão Um rio Uma ria


 43  21 – HOGE De: D. S. Para: M. C. Senpre cuando lenbro de você aparesse aqui na mina cama o perfume do teu sovaco Ai tiro um feijão no naris e às vezes tiro um carosso de jaca Atiro nu zunbido Aranco um pé Ai aranco uns pelos Conjelo a poupa das acerolas que devolvi pro dono da serca quando eu era só uma crianssa Quando lenbro dois traveiseiros dentro dois teus ceios de gala, jogo fora a pedra e toco com a espada Eu estou apaixonado Não posso esperar a té domingo A lua é voçê durmindo e o sol é voçê surrindo Hoge vi o teu marido aqueli bruto, cavalo, burro, jomento Ele não sabe nem uzar as palavras, não sabe nem o qui e um poeta acim entelijenti Enquanto eu ti escrevo estes verssos de amor tam lindos Quero vistir o teu vistido, quero vistir a tua calssinha, quero ti vê nua, ai love you Hoge eu precizo ficar contigo


 44  Jorar o meu amorrrrrrrrrrrrrrrrr.... S2.... Nein amanha, nein no dia da festa da padroera, nein domingo Meu amor, não a vagas, não a mais concerto Não a mais nada Só a mina poezia e tu éis a minha muza E a poezia e o que mim sauvas Hoge! Hoge! Hoge! Eu sou o teu parafuzo E voçê e a mina porca Eu sou o teu lapiz E voçê e a minha boraxa Eu sou a tua flôr E voçê e o meu vazo Eu sou o teu vento E voçê e o meu sentido Hoge! Hoge! Hoge! So hoge! Não poço mas jorar sozinho...


 45  22 – EU E ELA E claudicar E assar as castanhas E nascer E besuntar E bocejar E besourar E acertar E escrever E admirar o homem de smoking vermelho E ser E publicar

E matar, e residir, e dançar, e corrigir, errecebiasfloresdela, e matar, e oferecer, foder E reciclar E dar E amar E matar E aguar


 46  E botar coco E botar água no coco E gerar E bater E botar as flores no baldo E não saber abrir uma torneira que se abre assim, assim, assim, assim E pisar na grama plantada E só rola porque são irmãos, da porta frouxa que divide os dois lados, o barro e o barro somente o barro, até onde avoa a bala à mão E morrer E Eu e ela É o amor Perdão Perdão


 47  23 – D’ELE Ele me deu uma olhadela Recebi as flores d’Ele Minha vida eu dei a Ele Eu nem sei E eu só sei que Ele é Ele E nada muda o mal de Ele ter aquela catinga de gente, de Ele rir da piada, de Ele ter toda alma Não muda a beleza das flores d’Ele Não muda a beleza das minas d’Ele Nada muda a beleza delas Vê Um cachorro de raça (a mais pura raça) me adotou Vê Não tenho razão para abrir a fivela , pega Nem pra me matar - E nem morrer eu morro Já comi o talo, o cartão, a vaca, o amor e a abelha Meu corpo é o vaso onde Ele veve Agora Não posso sair pra fora, Ainda há muita história, Eu nem sei Recebei as flores d’Ele


 48  24 - DELA Menina É-se mais um dia Daqui nem dá pra enxergar , pega essa sacola Deixou baixar a quentura, a pipa, a lagarta, o ladrão, a banana, a falta de pão e de gás e de pilha Lavou a dinamite fabricada no centro da cabeça Desmembrou no penhasco o boneco incinerado que era um tufo loiro dum lado e um olho azul e um olho laxado Ele plantou trigo pro diabo Quebrou o porco Ele passou mais de um dia , pega essa sacola Descascou a banana, aguou um vaso, tremeu na base, descabelou o palhaço Não deu pra colher tanta pele solta pelo mundo E tem na carteira uma mecha Estudou as bolas , pega essa sacola E ainda invadiu uns motéis, uma casa de ervas, uma lan house, apostou no camelo do jogo do bicho Mas comprou quatro pilhas De modo que tava entre a cruz e a espada a presença da flor


 49  Passou E passou mais de um dia Era dor Daqui não dá pra enxergar , pega essa sacola Menina


 50  25 - DEI-LE AMOR Dei-le amor E ele me deu uma flor Dei-le amor E ele me mostrou o buraquinho por onde saía esse meu sentimento gordo Dei-le amor E ele engordou, passou a ler e a escrever, calçou um tênis, vestiu uma camisa de estampa, inventou um nome, criou um avatar na Internet Dei-le amor E ele me deu amor Dei-le amor E ele passou a conhecer o estilo de Manuel Bandeira e de Lucila Nogueira Dei-le amor E ele virou uma flor Dei-le amor E ele me deu um chá de cadeira Dei-le amor E ele me falou que do jeito que as coisas andam eu vou virar um poeta marginal ou tão somente um poeta pernambucano Dei-le amor E ele me deu um chá de erva cidreira


 51  Dei-le amor E ele passou a andar num carro popular coberto por adesivos de campanha publicitária duma agência de publicidade supermoderna Dei-le amor E ele partiu e levou consigo umas revistas de design que farão a festa duns imbecis numa loja em Porto de Galinhas Dei-le amor E ele me disse que jamais se esquecerá de mim, mas que é melhor eu tampar o meu buraquinho Dei-le amor E ele virou um escritor


 52  26 – CHUPA QUE É DE UVA Poseidon jamais chafurdou nessas águas que ela joga fora E as ondas, as moréias, as uvas, a capa arrepiada A espuma na beirada O mar que entalha o fóssil na rocha Prorroga a boa nova Na parte baixa do céu nasceu um olho de peixe Esqueceu o farol desligado A prata cega, a prata fixa solidifica a portentosa bata duma paisagem de gás etiquetado Agora sou obrigado a acreditar em Deus Mas isso não interessa Ela frita o sexo do ogro A sensação nova de Eça não revela o piche do poço que há no fundo no fundo do caderno rosa de Hilda Hilst Basta Lisístrata cruzar as pernas pra encurralar o homem nos homens da Guerra do Peloponeso Ela fala que aos domingos de tarde serve cicuta aos gregos Ela fala com os dentes empachados de pêlos Ejaculo nas folhas secas Ela vem com o ancinho Duas conchas de lesmas empacam na tábua do meu coração: espumo na horta: vazo nuns girassóis Ela descostura o pastel


 53  Falo que não acredita na existência de orquídeas do mesmo jeito que nunca viu uma poesia nascida de homem Ela traga um líquido pastoso caçado na cova do meu umbigo Ela bota um ovo na cloaca Passa a piaçava Morre pela boca feito piaba Avisto a raposa velha fugindo por uma estradinha de estrelas multiplicadas através dos círculos do corpo dela O tapuru endurece na goiaba E ela repete que curte brega Voa na pluma Pinta as unhas Fura a espuma Bate o abacate Passa fome e come e eu pago mais uma Chupa que é de uva


 54  27 – A RUA DA CIGANA Esta noite o dia aparenta mais anoitecido. Roubaram o sino da igreja. E o contorno da igreja chamuscado por causa do fundo preto, uma lona perdida. A rua da vidraça. O gelo de volta, o fim da fogueira na praça. A rua é uma estradinha corcunda, vesga, encerada, empoeirada, desdentada e ladrilhada. Hoje o chão até parece o casco duma escultura de tartaruga ou uma inflada malha de células vivas por onde piso como se fossem paralelepípedos. Pelas portinhas só dá pra passar gatos ou bebês e pelo passeio só dá pra passear filhotes de gatos e ratos em horários distintos. Quase voa o telhado da passarela por causa da altura dessa música. Estamos na curva e esta é a mesma rua, é esta aqui, a Rua da Cigana. A sola do sapato magoa o vento desmaiado. Um peixe prateado adeja embriagado e quase bate o carro. Sou tragado por uma fumaça funcionária e deslizo pro estômago duma cobra. Examino o cuidado da arquitetura sustentando a carne cristalina escondida depois do couro cingido e dos dentes de vacina. Fui regurgitado assim que a cobra fugiu pra dentro duma dessas gaiolas. Pelas portinhas só dá pra passar gatos, bebês ou cobras. Choveu uma chuva de baba e barro, quase tudo de acordo com o combinado. Um vento perdeu a cor, saiu pra fora e voltou sem a carteira. A tartaruga come o que passa pelo rio e também mama o sangue que ainda pinga da barra da minha camisa de tarlatana rosa. Não precisa vestir a farda. Agora já engomado e de banho tomado


 55  e perfumado e bronzeado e maquiado e satisfeito e depois desta curva é a mesma rua, a Rua da Cigana. E de novo nado sobre a ponte que tem cidade apenas dum lado. Não sai a bala. Ali é um barco ancorado num buraco. Aqui, é a Rua da Cigana. E sempre que aperto os olhos e saio desta parte morta, toda vez que dou as costas, ela me arrasta de volta


 56  28 - A J. G. DE ARAÚJO JORGE Poeta, hoje tenho o perfume das tuas flores! Que não te abandonam, nem ao teu túmulo Que não desprezam a dor do poeta, nem do culto, Avivam-se no campo dos românticos e seus arvores... O que são os teus versos, esses sonhos que nunca acabam? Que são o fogo, o ar, a terra e a água? Que são lagostas vivas à mesa dos doutores, Que agridem o gosto pelo fato de tê-los feito saídos do peito... Em que parte caçaste todo esse fardo d’amor? Em que parte nasce essa malha de infante doçura, De farpada ternura, esse desapego solitário, esse coração? Somente em ti cabe a quantidade dessa paixão... Somente em ti, só, encontraria espaço A colossal musa angélica Que apenas nos atiça a nós, copiadores, Como uma rata decrépita Somente em ti, só, ela montaria a festa Como quando os maiores açoitam menores... Somente em ti, só, aproveitas essa mesma festa


 57  Como fazem as abelhas por toda a floresta... Ah... O que teus olhos não viram? A mulher que tanto amavas? Ou a poesia de que tanto falavas? Ah... Jorge, não te acanhes, pois sois casado com um sentimento olvidado! Nem te admoestes por teres publicado tudo o que é necessário! Mesmo se não quisesses, seríamos todos tocados... Às vezes fatigado, às vezes doente, às vezes livre, o amor sempre suporta! Quero viver com estas flores abertas no peito! Quero morrer se essa utopia é morta...


 58  29 – A CEGA E um bebê engatinha na barra da praia Baba O oceano desafoga um sorriso cerrado O oceano desafoga um sorriso de alto-mar, bica umas rochas, capina uns sargaços, dá as costas ao céu vedado A língua desfia uma lâmina de recife morto, uma onda cozinha uma manga espada e uma caravela roxa espreita nalguma parte da água A praia também espreita algum trânsito de tatuís pelo reflexo das conchas dos óculos escuros E um tatuí caça uma baleia Ela mastiga a massa do biscoito de maisena, arrota guaraná Três caras secam uma gata A areia é dourada, a areia é seca, a areia é molhada, a areia é cinza, a areia é dourada Caranguejo é peixe Caranguejo não é peixe Uma árvore é vomitada pela onda empachada E no alto duma rocha alaranjada despencam urubus obesos Dá uma rosa Lá na África Lá onde ninguém enxerga E um navio navega


 59  E o oceano desafoga a escultura de um deus muito viril, cabelos de parafuso, mãos de poeta E um navio navega Tudo passa pelos olhos da cega


 60  30 - A BRUXA Avistei uma borboleta correndo solta numa praça de Pequim Abro o papel laminado É meio-dia e a elefanta sobrevoa reverenciando-se naquela macaquice de elefanta, quem é ela? Eu amo ela Um dente da frente preto Roubaram uma bicicleta Roubaram uma bicicleta numa praça de Pequim Patê de siri, nó de marinheiro, drag queen, o que é isso? Uns óculos graúdos e uns vestidinhos estreitos amenizam a exclusividade do reflexo da marmita abandonada no lixeiro A menina disparada sobre os jatos que águam as flores e a grama e ensopa a franja E os sapatinhos pretos dela e os joelhinhos pretos E um papel caiu do cós da saia Ela abana os braços nascendo Bebe a Fanta Ela me olha por baixo da franja colada e não revela nada, tirando o fato de ter estirado a língua pra fora, um sinal de reprovação ou uma língua tingida laranja O vento derruba uma folha Um carro pintado de verde


 61  As histórias ficam assim dividas entre a grama verde, o céu chumbado, a língua rosa, o semáforo amarelo e a vassoura E um laço de fita que se solta da roupa O laço de fita e um guardanapo preto coroam os dedos dum redemoinho com vitiligo Ela solta raios Ela coça o cotovelo Ela caça uma jia Ela pisa um lírio Ela amarra uma pedra na cintura da jia Ela é uma criança Ela voa pelos bancos e quase esbarra onde se encontram nossos segredos e quase faz ginástica na área de ginástica pra velhos E agora de costas parece que amaldiçoa o nosso tempo jogado fora Só vejo um olho parado e parece que também um sorriso que não revelará o feitiço desse dia Avistei uma borboleta daquelas miudinhas


 62  31 – A BICICLETA Um menino roubou um homem E o homem alcançou o menino, foi lapada na capa da orelha, abriu a caixa, roeu o palito, tirou sangue E o menino botou pra fora uma lama Uma carne brilhosa Um arame liso, uma capa de sofá, um dvd e um dvd pornô E um dente da frente preto Na rua No chão da rua E o menino sem o short de náilon, o tórax esboçado na tábua A bicicleta toda enfeitada de adesivo Uma brita entrou no ouvido Uma dor de cabeça Camarão vermelho Azedo Na rua Uma bóia murcha, uma sacola de lixo e um vento sem sentido Um homem roubou A flor do vaso que caiu do edifício


 63  32 - A AUTÓPSIA DA FLOR Incrustado nas sépalas, descobriram um livro de auto-ajuda desses assim com uma foto assim do autor assim e uma pá de pedrinhas coloridas de aquário E uma pá de terra preta E um poodle, um urso panda, um dragão, uma princesa, um sapo, um castelo, um lago e um besouro-do-cão Usaram-se das partes onde copulam as cores distintas para abrir com o escalpelo Ouvi dizer que também descobriram não na coroa, mais abaixo, no caule, no alto de uma daquelas agulhas, uma mulher nua, deitada numa pedra, passando creme hidratante na pedra . Antes de continuar com este poema, peço licença pra dividir com você um fato que há vidas me mata: Para não ver, basta fechar os olhos Para não sentir um cheiro, basta respirar pela boca Entretanto, como é possível não ouvir? A não ser que se queira parecer um imbecil enfiando os dedos no ouvido Sei que não conseguiria parecer mais imbecil do que já sou quando paro pra escrever estes textos, mas E o que acontece com os que não têm dedo? Os surdos são, portanto, os mais aptos a escrever os mais delicados poemas

. Para o androceu, uma rosa, para o gineceu, uma cobra, e todo o resto e tudo aquilo que vive na terra e no céu


 64  Uma cobra e uma rosa enroscadas fora da flor Uma cobra e uma cobra enroscadas fora da flor Uma rosa e uma rosa enroscadas fora da flor E todo o resto E tudo aquilo que resiste à terra e ao céu No corpo da flor, só não descobriram essa vida sem poesia, essas mãos que nos abortam da mesma forma que sovam as nossas flores num pilão de plástico e assopram as cinzas sobre os carros na avenida Um pé de coelho e uma flor que faz chá O Cão encontraram, e mel e mel estocaram para o dia em que tiverem peito para matar a última poesia E a última poesia encontraram


 65  33 - A ARTUR ROGÉRIO Já deu pra entender que a tua poesia é que não sobreviveremos ao mundo dos poemas, mas você não tem culpa Não tive tempo pra te falar, mas na nossa rua havia um urso panda, uma zebra, um beija-flor e um cachorro do gelo E também uma cobra que às vezes suspirava debaixo do calçamento E às vezes atacavam os cabelos umas abelhas africanas E às vezes passava vagaroso um caminhão gigante de cana queimada E agora aquelas flores não importam, nunca importaram, agora, nem o urso, nem a cana, nem a rua, na verdade, na razão, agora, tanto faz E as flores que te dei também dei a muitas outras pessoas sem que houvesse qualquer tipo de prioridade ou predileção Mas só você não me matou E só você não esqueceu que a existência de uma flor é mais importante que a existência de um escritor E só você ainda acredita no amor E só você zelou pelas flores por uma vida, tempo suficiente pra se viver Me sinto como uma poeta recitando numa praça do Recife ou Olinda todo o ódio pela existência medíocre e por Recife ou Olinda não fazer sentido e por eu ser uma poeta dona do


 66  sentimento do mundo que deve ser gritado assim no meio duma praça de Pequim Me sinto como uma beata que troca intimidades com Deus e que há muito sabe que será sempre aluna e sempre boa aluna e boa de briga e apesar de tudo o que se perdeu pela selva nunca deixou de ter uma roseira no terreiro simplesmente pra cuidar e pra dizer que estão lindas as rosas Me sinto no momento em que, sentados naquele banco da praça, te dei as flores e você não conseguiu me responder, e só deu pra entender que a tua idéia de pureza é mais eterna que a tua idéia de sofrimento e que você me agradeceu com os olhos vivos lançados ao céu Te amo


 67  ÍNDICE 01 – TRÊS VELAS.......................................................................7 02 – TORNEIRA.........................................................................8 03 – TE AMO..............................................................................9 04 – RECEBI AS FLORES DELE..............................................11 05 – RECEBI AS FLORES DELAS............................................13 06 – RECEBI AS FLORES DELA..............................................15 07 – RECEBI AS FLORES DELA..............................................17 08 – RECEBI AS FLORES DELA..............................................19 09 – RECEBI AS FLORES DELA..............................................20 10 – PRIMO..............................................................................22 11 – POEMA POÉTICO...........................................................25 12 – PEIXARIA..........................................................................27 13 – PARTILHA........................................................................29 14 – PAISAGEM........................................................................30 15 – NÃO RECEBI AS FLORES DELA...................................31 16 – NAMORADOS.................................................................33 17 – MULHER..........................................................................34 18 – MARANATA.....................................................................36 19 – KAKÁ.................................................................................39 20 – HOMEM...........................................................................41 21 – HOGE...............................................................................43 22 – EU E ELA.........................................................................45 23 – D’ELE...............................................................................47


 68  24 – DELA.................................................................................48 25 – DEI-LE AMOR..................................................................50 26 – CHUPA QUE É DE UVA.................................................52 27 – A RUA DA CIGANA.........................................................54 28 – A J. G. DE ARAÚJO JORGE............................................56 29 – A CEGA.............................................................................58 30 – A BRUXA...........................................................................60 31 – A BICICLETA...................................................................62 32 – A AUTÓPSIA DA FLOR..................................................63 33 – A ARTUR ROGÉRIO......................................................65


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Este livro foi composto com a fonte Adobe Garamond Pro caixa 12 para o corpo e títulos.

Recebi as flores dela - Artur Rogério  

Livro pertencente à Decalogia Ladrona