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comer como ato político p.02

alimentos orgânicos p.04

agricultura familiar p.10

Você pensa sobre o que come?

Quem ganha com o mercado de orgânicos?

O que a TV não quer que você saiba sobre o agronegócio.

CULTIVE

VEG NEGA p.06 Veganismo periférico, politizado e democrático ANO I | NUMERO 1 | DEZEMBRO 2019


CULTIVE Ano I - Número 1 Dez. 2019 Wellington Oliveira Vegano e Straight Edge, acredita na mudança social através da conscientização sobre os processos e mudanças de consumo. Considera o acesso à informação e a discussão sobre o que é dado como certo, os pontos iniciais para a subversão do atual sistema econômico, político e social. Idealizador da revista Cultive e responsável pela diagramação, fotografias e textos.

Capa e Contracapa: Veg Nega Wellington Oliveira


CARDÁPIO

comer como ato político

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Os alimentos para além do sabor

alimentos orgânicos

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Entre a precariedade e a gourmetização

veganismo periférico

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Veganismo periférico, politizado e democrático

agricultura familiar Na contramão do Agro: a farsa midiática do agronegócio

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COMER COMO ATO POLÍTICO 02 | CULTIVE

Os alimentos para além do sabor O que está por trás do “não pensar” na hora de comer? Quem faz isso acontecer e o que ganham com isso? Será que comer é só uma ação automática e, no máximo, baseada no sabor? Ou existe relação com as desigualdades sociais do país? Os alimentos são só uma pequena engrenagem em um sistema muito maior do que pensamos.

Wellington Oliveira

A responsabilidade dessa matéria, como a primeira matéria da primeira edição da Cultive, é de explicar o porquê de a revista abordar a alimentação, assim como nosso entendimento sobre o ato de comer. Comer é um ato, em grande parte, irreflexivo, pois é uma experiência repetitiva e rotineira, chegando, no máximo, a ser questionada em relação aos sabores e valores nutritivos do alimento. Muitas vezes, as refeições vem

acompanhadas de outras atividades, o que nos impede até mesmo de perceber o próprio sabor do que está sendo comido. Não é preciso muito esforço para nos lembrarmos da última vez em que comemos em frente a uma TV, a caminho de algum compromisso ou até mesmo trabalhando. Esse estilo de vida é cada vez mais comum, principalmente dentro de uma sociedade na qual é preciso correr o tempo todo, seja para trabalhar, estudar ou descansar.

Alface da horta comunitária do Centro Infantil Celina Viegas Wellington Oliveira


Porém, esse “não pensar” sobre o que comemos é de interesse de uma pequena parcela da população. Essa condição gera lucro para alguns setores, principalmente o agronegócio e o farmacêutico, aumentando seu poder de influência na política e na mídia. Assim, facilitam o controle sobre isenções fiscais, leis e informação, dificultando a reflexão e crítica sobre suas ações. Quantas vezes por dia vemos que o agronegócio é que faz o país se desenvolver? Que é a indústria que coloca alimentos em nossa mesa? Isenções sobre venenos agrícolas, disfarçados com o nome de defensores agrícolas, e sobre a exportação de alimentos da agropecuária diminuem a arrecadação dos cofres públicos, geram custos com saúde pública e causam danos graves à biodiversidade. Partindo desse entendimento, acreditamos no boicote como instrumento de ação frente às condutas legalmente aceitas, mas eticamente

questionáveis. Visando isso, incentivamos o consumo de produtos com cadeias produtivas sem exploração (humana e não-humana), de produtores locais e de movimentos que buscam enfrentar todas as formas de desigualdade social e opressão, sem hierarquizá-los. Pois, entendemos que todas as lutas estão interligadas e são contra o mesmo sistema explorador e cruel. É impossível pensar em uma mudança estrutural sem entendermos as dores de um país onde muitos ainda não têm acesso a alimentação e saneamento básico. Milhões de pessoas estão preocupadas com sua sobrevivência 24 horas por dia, e condicionados pelo descaso a favorecerem o funcionamento desse mesmo sistema que as esmaga. Por isso a mudança deve ser buscada de forma continua e coletiva, trazendo recortes de classe, raça e gênero para a discussão, de forma horizontal e entendendo as diferentes dores, limitações e privilégios.

Manutenção das plantas, sem uso de venenos, na horta comunitária Wellington Oliveira

Em 2018, o Brasil deixou de arrecadar R$2,07 bilhões com a isenção fiscal dada aos agrotóxicos, valor que tende a subir se considerarmos o crescente número de desonerações e de liberação de novos agrotóxicos no país. Além da não arrecadação, a cada dólar gasto com a compra de agrotóxico, outros US$ 1,28 são gastos no tratamento de intoxicação aguda, segundo a revista Saúde Pública. CULTIVE | 03


ALIMENTOS ORGÂNICOS Hortaliças no Dia de Feira Wellington Oliveira

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Entre a precariedade e a gourmetização Sabe aquela couve da horta do seu vizinho? Ou aquele tomate com formato esquisito que você viu na feira? Provavelmente são alimentos orgânicos! Acha estranho? Por quê? Por não ter preço abusivo ou por não estar em lojas de classe média alta? Nós entedemos. Hoje produtos orgânicos carregam essa aura elitista, mas não precisa ser assim. Eles estão a nossa volta muito antes dessa “tendência” de consumo.

Wellington Oliveira

O mercado de produtos orgânicos vem crescendo no Brasil e no mundo. Em 2018, o faturamento oficial no país foi de R$ 4 bilhões, valor 20% maior do que em 2017. Esse valor é ainda maior ao se considerar que boa parte de produtos orgânicos produzidos no país são de produtores sem certificados. Porém, esse mercado ainda sofre problemas como excessos burocráticos, logística e falta de incentivo fiscal. Há alguns anos vem ocorrendo o desmonte dos poucos programas de incentivo à produção orgânica e agroecológica. A grande influência do lobby dos ruralistas na política nacional dificulta a criação de leis para beneficiar o setor. Além disso, essas grandes empresas do setor alimentício se apropriam de rótulos que não os pertencem e com isso acabam por esvaziá-los, como o caso

dos artesanais, utilizados em alimentos ultraprocessados, como os pães. Outro ponto discutível é sobre a certificação. Selos são emitidos para “comprovar” que os alimentos são orgânicos, gerandos custos ao produtor que já não recebe incentivo. Essa marcação não garante que o produto seja 100% orgânico, pois não existe rigidez na fiscalização que certifique a origem do produto. Ao mesmo tempo, produtos que utilizam agrotóxicos, com suas várias isenções em níveis federais e estaduais, não precisam pagar para identificar que seu produto contém veneno, criando mais um ponto de resistência ao orgânico. Todas essas condições dificultam o crescimento do setor agroecológico e orgânico, que ganharam hoje contornos elitista, pelo público que buscam esse tipo de alimento e, principalmente, por


seu preço no mercado. Mas é preciso entender que existem vários fatores que levam isso a acontecer e poucos, ou nenhum, beneficiam tanto o produtor primário. Atravessadores lucram mais de 100% nos produtos, sendo essa uma das principais situações que encarecem os produtos orgânicos. O modo de produção também é mais caro, pois a plantação não é em larga escala e não utiliza veneno para controle massivo, aumentando o custo da mão-de-obra. Na produção agroecológica, em seu sentido real, existe a preocupação com o custo ambiental, existindo a preocupação com a não poluição da água, do solo, dos produtores e dos consumidores. É preciso agregar tudo isso ao valor final do produto. Os orgânicos também trazem um mito, atendendo interesses, de que, se a alimentação dependesse apenas deles, não existiria alimentos para todos. A produção orgânica, principalmente através de agroflorestas, consegue utilizar os espaços de terra de maneira mais eficiente que monoculturas. Enquanto, utilizando sistemas caríssimos de alta tecnologia e agrotóxicos, um sistema de monocultura produz cerca de 15 toneladas de milho, soja ou feijão, por hectare por ano, a agrofloresta pode produzir até 80 toneladas de produtos variados, melhorando o solo e com baixo custo. Então é possível alimentar a população somente com produtos orgânicos, mas para isso é preciso

incentivar e tornar viável essa forma de cultivo. E é importante lembrar que existem pessoas sem acesso a alimentos, com ou sem veneno, mesmo com essas técnicas tidas como tradicionais, mostrando que a condição de escassez é um projeto, não uma falha. A compra diretamente do produtor é uma boa saída, fomentando a produção, incentivando o comércio local, adquirindo produtos de bom procedimento. A proximidade com o produtor além de facilitar a fiscalização da produção do alimento pelo próprio consumidor, gera boas relações, melhora o preço e valoriza quem produz. Outra boa saída é ocupar espaços urbanos não utilizados, criando hortas urbanas comunitárias, que além de produzir alimentos, aumenta a segurança do espaço e servem como exercício mental.

Geléias artesanais no Dia de Feira Wellington Oliveira

Segundo cálculos da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), um terço da produção total de alimentos no mundo, aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas, vai para o lixo e seria suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas. Somente no Brasil, estimasse que 8,7 milhões de toneladas sejam jogadas no lixo, quantidade suficiente para alimentar 13 milhões de pessoas. Condição contraditória para um país que retornou ao mapa da fome em 2019 e tem mais de 5,2 milhões de pessoas que vão dormir sem se alimentar de forma regular e satisfatória durante o dia. CULTIVE | 05


VEGANISMO PERIFÉRICO

Veganismo periférico, politizado e democrático Em tempos de elitização do veganismo, o Veg Nega vem na direção contrária, oferecendo comida sem crueldade animal, preços acessíveis e muita informação. Em entrevista à Cultive, Maria Tereza e Gabriela, fundadoras do Veg Nega, falam sobre veganismo periférico, opressão, desmistificação do veganismo e democratização de informação.

Wellington Oliveira

O que é o Veg Nega?

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Gabriela: O Veg Nega surgiu de uma necessidade. Teve o Samba Caiana, que foi um samba na antiga casa que a gente morava, a Casa Caiana, e foi organizado pela Isis Ferreira, que é cantora em São João del-Rei. Nesse samba tinha uma cozinha da casa e a gente fez parte dela. Lógico que era uma cozinha vegetariana, porque não tinha como ser diferente sendo nossa. Foi aí que surgiu o projeto do Veg. Depois eu comecei a vender salgados na universidade, vendia no

CTAN. Perguntei a Tê (Maria Tereza), já que a gente tava com o Veg Nega na cozinha do Samba Caiana, se ela queria fazer comigo. O Veg Nega é essa ideia de uma cozinha vegetariana, e a Maria Tereza me ajudou a tornar mais sustentável não só em termos ambientais, mas emocionais também, porque o mangueio é muito cansativo. Enfim, nós temos o ideal do veganismo, uma alimentação vegetariana diante disso, e o Veg é o que a gente acredita. Faz parte da nossa vida.


Gabriela e Maria Tereza do Veg Nega Wellington Oliveira

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VEGANISMO PERIFÉRICO

Como é essa relação de mangueio e sustentabilidade? Gabriela: É muito difícil lidar com algumas pessoas. Nós somos mulheres pretas na universidade, mangueando, então tem os olhares, tem o peso. Tem o corre do dia-a-dia para fazer, sabe? Daí entra essa sustentabilidade individual mesmo, desse autocuidado da mulher preta, da gente conseguir se cuidar e conseguir pensar ainda no outro. Pensar uma alimentação bacana para a outra pessoa, cozinhar com cuidado, para que, nesse sistema que ela vai comer uma coisa rápida, ela coma uma coisa saudável. A ideia de o quibe ser com batata doce, e não batata inglesa, é porque ela tem mais nutrientes. Fazer um recheio na esfiha e com uma massa que também seja gostosa, que vá satisfazer e com um preço mais acessível. Porque o veganismo é visto de uma forma elitista, não precisa ser, mas ele é visto assim. E aí o Veg tem essa proposta também de não ser elitista, sabe? De ter um preço acessível e o sustentável também entra nisso. Tem que ser sustentável pra gente, mas também para o outro. Como que eu estou propondo uma outra alimentação, uma outra ideia, e vendendo um salgado, só porque ele leva o nome de vegano, por 5 ou 6 reais? Maria Tereza: Quando a gente vendia no CTAN era muito exaustivo. É uma galera branca, sabe? E a gente é preta. Então é opressor, essa galera é opressora e ela não tá nem aí pra você, para o seu trabalho. Ela nem vê aquilo como um trabalho, mas é um. Você tem que ter um respeito com o trabalho do outro, independente de qual seja. E aí eu penso a sustentabilidade nesse sentido também. Emocional, com certeza, porque é tudo dividido entre nós duas. Financeiro, porque as vezes vai ter recheio de couve-flor, porque ela vai estar dois reais o quilo. Mas tem vez que não vai ser couve-flor, vai ser abobrinha, porque isso vai depender do valor do produto e da sazonalidade dele. E pensar tudo isso do ideal vegano, no sentido de que não somos a favor da exploração animal, nem de humanos, inclusive a nossa. Além disso, buscamos trazer essa questão para o povo preto também. De pensar a alimentação do povo preto, que é um problema histórico. Existe um nutricídio e é preciso falar da morte do povo preto através da alimentação. Como vocês veem essa mistificação do veganismo? Gabriela: Tem algumas coisas que a gente sempre escuta sobre veganismo, tipo “é mais caro”. E aí eu tenho um contraponto que, em São João del-Rei por exemplo, é totalmente possível. Quem não tem um pé de couve, sabe? Os vegetais aqui são mais acessíveis,

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comparado com a realidade de São Paulo, que é de onde eu venho. Aqui eu vejo que tem essa possibilidade, mas daí tem a ponto do acesso à informação também. De como lidar com a alimentação, de entender a importância da alimentação na vida. A falta desse entendimento faz as pessoas muitas vezes não priorizarem a alimentação. Porém, existe o problema econômico, sim. Lá em São Paulo tem as feiras, onde muitas vezes os produtos são mais acessíveis, mas se você for olhar em um hortifruti de um supermercado, o hamburger ou a salsicha sai muito mais barato. No geral, as pessoas não comem carne de corte caro, elas comem o resto mesmo. Como é produzido um hamburger? Como é produzida uma salsicha? É embutido! É uma questão de praticidade também. Para ter essa mudança, elas precisariam abrir mão de muita coisa, e ter acesso à informação, que muitas vezes não se tem na periferia. E isso não é só nas periferias, mas falo de lá porque existe essa ideia de que, para se ter uma alimentação saudável, é preciso gastar muito dinheiro. Hoje em dia isso é vendido também. Existem várias barreiras, mas tem como fazer o corre por fora, mas pra isso você precisa realmente pensar sua alimentação. Existe essa glamourização de um estilo de vida para capitalizar um barato que era comum, tirando da população pra vender.

Maria Tereza e Gabriela do Veg Nega Wellington Oliveira


Qual a percepção de vocês em relação à democratização da informação e como isso pode chegar na periferia? Maria Tereza: Eu acho que conversar e as pessoas entenderem que veganismo não é um bicho de sete cabeças. Se eu estou aqui, posso conversar com quem está perto. É muito louco pensar isso de acesso! Eu sou uma pessoa preta e periférica, que vim de São Paulo. Quando pensei em ser ovolacto, inicialmente, foi porque eu comecei a ter essas informações no cursinho que eu fazia e com a Gabi. Então foram nesses momentos que eu comecei a pensar sobre o vegetarianismo, que existia isso. Até então, pra mim tava tudo certo, tudo normal. Carne é de boa, vem

na embalagem e nem fazia associação que era vaca que morria naquilo. Acho que você pode tentar pensar isso de acesso à informação nesse sentido, de conversar com as pessoas, no contato humano mesmo. Se você tem esse ímpeto de pesquisar de onde vem a carne, isso já vai abrir sua mente. É tentar trazer de uma forma mais simples e depois ir aprofundando. O veganismo tem profundidade, é um estilo de vida, mas você não tem que levar a coisa pronta. Tem vez que estou lá no estágio e falo que sou vegetariana, daí as pessoas ficam de cara. Eu gosto quando elas ficam de cara! Porque muitas vezes elas vêm perguntar: “Existe chocolate vegano?”. Eu falo: “Existe, vou trazer pra vocês”. E levo chocolate vegano pra elas. Eu faço estágio em uma escola periférica, onde a maioria é preta, então é esse o momento. Gabriela: Eu acho que o negócio é essa proximidade, porque a ideia do veganismo não é próxima. Quando me tornei vegetariana e fui em um evento em Curitiba, eu acho que eu era a única preta. Aí entra isso da proximidade, quando a gente fala, traz uma possibilidade por conviver com as pessoas, elas ficam: “Verdade, né? Dá pra viver assim”. Tem pessoas que não comem carne porque não gostam, ou por questões políticas mesmo, e vivem assim. Só que quando fala o nome “veganismo”, fica elitizado. Maria Tereza: Tanto é que a frase clichê que a gente escuta, né? “Mas você come o quê?” e é porque existe aí um imaginário que veganismo é uma coisa de outro mundo. Tem até uma menina que sigo no instagram, ela é cozinheira vegetariana, e ela escreve receitas nos muros da favela, como grafitti. Pra você ver, é coisa simples. Ela não fala que as receitas são veganas, mas ela tem um posicionamento. Ela escreveu lá receitas diferentes, mas um diferente que é simples. Então, a gente pode ver uma esfiha de berinjela, ela é simples, mas é diferente no imaginário das pessoas. Mas todo mundo come berinjela e todo mundo come esfiha. Isso é uma forma genial de tornar acessível.

Esfiha do Veg Nega em produção Wellington Oliveira

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AGRICULTURA FAMILIAR 10 | CULTIVE

Na contramão do Agro: a farsa midiática do agronegócio Desinformação e status quo. A cultura colonial, assassina e cruel do agronegócio que você não vê na TV. Enquanto a campanha “Agro: a Indústria-Riqueza do Brasil” mostra uma faceta tecnológica da produção latifundiária, buscando legitimar seus privilégios, seus crimes, assim como a precariedade da agricultura familiar, não são discutidos.

Wellington Oliveira

O problema agrário no Brasil não é recente. Não começou com Temer, com o PT ou com o FHC. Existe uma classe latifundiária e colonial há tempo e seu principal braço hoje age no agronegócio. No entanto, é preciso se atentar a alguns detalhes ao falar dele. O agronegócio representa boa parte da economia brasileira, porém isso não se deu por alguma forma de meritocracia, mas pela estrutura fundiária do Brasil. O país tem histórico de favorecer a concentração de terras e a produção em larga escala. Esse modelo está diretamente relacionado à monocultura, agrotóxicos, desmatamento, trabalho escravo, genocídio indígena e exploração animal, e não estamos falando só do Brasil colonial, mas de hoje. Porém, mesmo com todo ônus gerado, a política nacional é voltada para o agronegócio, sendo que 90% dos recursos voltados para esse fim são consumidos por eles. Sua influência na política institucional se dá por um forte lobby e uma grande bancada que defende seus interesses, e seus lucros, acima de qualquer bem-estar coletivo. Isso gera um ciclo onde, quem detém a terra se torna relevante para a economia, facilitando investimentos pelo Estado. Essa desigualdade entre o pequeno produtor familiar e os latifundiários pode ser percebida na posse de terras, onde menos de 1% das propriedades concentram 45% das terras de produção agropecuária e florestal. O crescimento dessa concentração se deu, e ainda se dá, através de crimes como grilagem, assassinatos e desmatamento. Assim podemos perceber que o Agro não é pop, como nos dizem. A campanha “Agro: a Indústria-

Riqueza do Brasil” é uma estratégia de legitimar todas essas ações do agronegócio, o colocando como o responsável pelo desenvolvimento do país, de forma limpa e moderna, onde se posicionar contra é ser contra o desenvolvimento do país. Muito se esconde nessas propagandas, desde o trabalho escravo ou em condições extremas de precariedade, que eles abordam como geração de emprego, até os nomes das empresas, que em boa medida são as mesmas envolvidas em casos de corrupção, como a JBS. Na contramão dessa indústria temos a agricultura familiar, grande responsável pela produção dos alimentos que vão para nossas mesas. Mesmo nascida sob a precariedade econômica, social, jurídica e de produção, a agricultura familiar é essencial para o país. Em municípios de pequeno porte tende a ser a base da economia, enquanto em municípios maiores é responsável pela segurança alimentar. A relação com a terra dentro desse meio de cultivo também é diferente, sendo ligado a uma tradição familiar e fazendo parte da cultura local, principalmente em municípios com menos de 20 mil habitantes. Pensando nisso, e entendendo a propriedade fundiária como elemento central na atividade agrícola, se faz necessária uma reforma agrária que fortaleça essa parcela da população, fomentando o desenvolvimento pleno de suas atividades, aumentando a rentabilidade para os produtores, reduzindo o preço de alimentos saudáveis para o consumidor e reduzindo o impacto ambiental. A reforma é fundamental para

Senhor Sávio na horta comunitária do Centro Infantil Celina Viegas Wellington Oliveira


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AGRICULTURA FAMILIAR 12 | CULTIVE

dar força na política institucional para os produtores, que poderiam mudar da condição de resistência para protagonista em uma disputa menos assimétrica. Um dos movimentos que atuam nessa luta é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), constantemente criminalizado na mídia tradicional. Além de grande produtor de alimentos orgânicos, sendo o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, o movimento produz sementes que não precisam de agrotóxicos para se desenvolverem, gerando conflitos com interesses do mercado.

Outra alternativa que vem crescendo no país é a de Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA). Esse modelo de produção visa estabelecer uma relação mais direta entre quem produz e quem consome os produtos orgânicos, oferecendo maior segurança econômica para o produtor e boa qualidade nos produtos para o consumidor. Ele funciona através de um acordo onde os consumidores dão apoio financeiro ao produtor, recebendo alimentos em troca, além de poderem se interar do processo de produção e até participar.

Existe no Brasil um grave problema de falta de acesso à terra pela população de baixa renda, ao mesmo tempo em que muitas áreas urbanas permanecem ociosas, atendendo a interesses de especulação imobiliária. Além das consequências decorrentes da desigualdade, esses lotes vagos podem gerar problemas como acúmulo de lixo, doenças e usos indevidos, colocando em risco os moradores locais e pessoas que transitam. Uma possível solução é a criação de hortas urbanas, onde famílias em situação de vulnerabilidade têm oportunidade de trabalho e geração de renda, enquanto oferecem alimentos saudáveis a preços mais acessíveis para a população do entorno, bem como lotes limpos e produtivos. Esse uso foge também da espetacularização, já que a população cotidiana é o principal beneficiado, e oferece novas formas de pensar os espaços.

Manutenção do canteiro pelo Senhor Sávio Wellington Oliveira


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CULTIVE

ANO I | NUMERO 1 | DEZ 2019

Profile for Wellington Oliveira

Cultive  

Revista produzida na disciplina Produção Editorial do curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei.

Cultive  

Revista produzida na disciplina Produção Editorial do curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei.

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