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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira

Prosas e Causos de Banco da Vitória. A história precisa de narradores. Se isso não ocorre, fatos se tornam vagas lembranças e em pouco tempo a memória social de um povo se esvai e é facilmente esquecida. Eu faço nessa oportunidade a minha parte descrevendo os causos e as prosas que eu vivi e/ou ouvi em nossa comunidade. Faço isso para que a história de Banco da Vitória não se perca, como tantas outras. Você, ao ler esse livreto faz a sua parte nesta jornada. Porém, a sua maior contribuição será copiar e distribuir gratuitamente esse livreto para os nossos amigos e moradores. Você fazendo isso, eu saberei realmente que valeu a pena tê-lo escrito esse livro. Eu tive uma oportunidade fantástica na vida: a ter nascido nas fraudas dos cacauais que circundavam Banco da Vitória. Sempre tive a certeza que nasci numa época memorável, pois tive a oportunidade de não somente conhecer mais também conviver, conversar e ser amigo dos moradores mais tradicionais e folclóricos da nossa comunidade. Na ‘venda’ de meu pai, Carrinho, a famosa A Visgueira, todos os dias estavam por lá os verdadeiros catedráticos da história de Banco da Vitória, contando suas estórias ou simplesmente jogando conversas fora. Eu tive a chance de conviver e conversar com moradores de Banco da Vitória, como Seu Xisto Gomes, Nestor Cotó, Pedro Preto, Cabo Jonas, João de Coló, Antônio Isaias, Seu Duba, Seu Juca, Seu Tiago, Bibogo, Seu Feliciano de Assis (meu avó materno), Seu Veio Cotó, Gaguingo, Zé Orlando, Seu Cazeca, Seu Amaro, Seu Agimiro, Seu Manuel Siriaco, Seu Apolônio, Seu Joaquim, Seu Péricles, Seu Zé Melo, Jonas Porco-e-touro, Seu Cazuza, Sobogó, Zé Lavigne, Paulo Rocha, Seu Taurindo, Otacílio, Seu Dedê, Aries, Zé Vieira, Dona Chica, Dona Normélia, Ivone Santos, Dona Raquel, Dona Dete Catatu, Dona, Professora Glaúcia, Dona Lindaura, Buré, Seu Farrabufado, seu Raimundo Ribeiro, Dantinha, Lindor, Seu Lis Delegado, Seu Zé Carioca, Zé Bispo, Dona Cabocla (minha vó materna), Dona Maria Cardoso, (minha vó paterna), Nafital, Dona Romana, Valter e Jailton Ramos, Enéas, Zito costureiro, Bigode, Seu Diva, Nego Nide, Botão, Seu Zé Cotoco, Dona Lia, Dona Lurdes, Nerilda, Cremilda, Zé da Alinhagem, Dona Eurides, Pedro Filho, Seu Péricles Melo, Seu Zé Melo. Seu Milton Nunes, Seu João Batista (o coveiro), Zé Batista, Zé Bolão, Courinho, Dona Margarida, Dona Dete Fateira, Dona Dete de Cabo Jonas, Seu Tum, Zé Jatobá, Dona Eunice, Dona Enaura, Dona Júlia, Arara, Seu Assis, Tonho de Nouzinho, Garapa, Altino (o gordo e o magro), Seu Botão, Seu Nelson Fontes, Jonas Paraíso, Seu Alfredo, Seu Plínio, Oficial, Seu Roque, Seu Joval, Bembéu, Seu João Ruim, Julinho da Taibinha, Dalila, Pedro Melo, Seu Ailton, meu pai Carrinho... e tantas outras pessoas espetaculares da nossa comunidade.

Agora imagine você quantas estórias impressionantes eu ouvi? Quantas versões eu tive oportunidade de ver e presenciar? De quantas mentiras eu sorri, enquanto ouvia essa gente criativa e guerreira, com suas façanhas sociais? Disso tudo que ouvi e vivi, eu, - dentro do possível -, procurei selecionar algumas prosas e causos e agora apresento a você nessa versão de livreto. Esse livreto nasceu de uma idéia que Ivone Santos me deu, quanto eu estava escrevendo o livro Banco da Vitória do Rio Cachoeira – A História Esquecida (em fase de conclusão). Um dia eu mostrei para Ivone o esboço desse livro, com as referências históricas e os diversos estudos que eu estava fazendo na UESC, quando ela me perguntou se eu ia escrever a história ou a ‘estória’ de Banco da Vitória? Eu lhe respondi que eu estava fazendo um livro oficial, com a história verdadeira da nossa comunidade. Ivone então me sugeriu que eu escrevesse também os nossos causos, prosas e estórias, que são tantas e tão alegres. Entusiasmado com a idéia, eu escrevi em 2005 um livreto com 10 estórias, chamado de Prosas e Causos de Banco da Vitória. Eu fiz apenas alguns exemplares xerografados e distribuir para os meus amigos e parentes. Hoje, esses livretos são raridades em nossa comunidade e muita gente gostaria de ter um exemplar dele. Visando melhorar a divulgação da nossa história, antes de lançar o livro oficial sobre Banco da Vitória, eu resolvi revisar, ampliar e incrementar o livro de prosas e causos de Banco da Vitória. Essa versão que você tem em mão é o resultado deste novo trabalho. Por favor, dentro das suas condições, tire cópias deste livreto e distribua para os seus amigos, parentes e colegas. Esse livro é de domínio público. Eu o fiz e o doei para o povo de Banco da Vitória. Ele não pode ser vendido, é totalmente gratuito e você pode também obter uma versão dele no nosso site: www.bancodavitoria.com.br . Fazendo assim, você estará verdadeiramente contribuindo para a cultura e a história de Banco da Vitória e nosso povo. Lembre-se, esse é um livro de prosas e causos. Portanto, é cheio de fabulas, elucubrações e suposições. Metade dele é verdade e a outra metade é verdade vestida de ficção. Tenha boa leitura, seja feliz e ame profundamente o Banco da Vitória todos os dias. Roberto Carlos Rodrigues, São Paulo, SP. Junho de 2009

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Relação dos causos e prosas: 01 - As pescarias de João de Colo 02 - O Agouro Fatal 03 - Futebol! 04 - A Índia 05 - O Inventor do Churrasco de Banco da Vitória 06 - As Conduções 07 - O Conjunto de Oficial do Cavaquinho 08 - A Santa Missão 09 – A estória de Cabo Jonas 10 - Siboney! 11 - O Grande Encontro 12 - Seu Pedro Preto 13 - O Caroço de Bembeu 14 - A Dor na Titela 15 - A Tesoura de Seu Faustino 16 - Os Hippers de Banco da Vitória 17 - 02 Metros e 07 Centímetro de Quase Homem 18 - O carnaval de Banco da Vitória 19 - Quem Bateu em Tum? 20 - O Dia da Trágica Vacinação 21 - A Noite no Circo 22 - O forró de Maria Alcina 23 - Você é de Quem? 24 - O Forró de Dona Raquel 25 - O Cinema de Banco da Vitória 26 A Estrada Ilhéus-Itabuna e a Bica da Água Boa 27 - Lampião e o Banco da Vitória 28 - Os Deliciosos Sabores de Banco da Vitória 2 9 - Os Comem Concretos 30 - O Banco da Vitória na Guerra das Malvinas 31 – O Petróleo de Banco da Vitória 32 – Juracy Martins Santana – O embaixador de Banco da Vitória. 33 – Jorge Amado e o Banco da Vitória 34 – Perdemos Neguinha, ganhamos uma lenda 35 – De quem é esse jegue? 36 – A fantástica oficina de Nestor Pereira 37 – Ah! Não vai dá não! 38 – Como chegar em Banco da Vitória.

1 - As pescarias de João de Coló. Naqueles tempos, João de Coló era um mentiroso risonho que adorava contar sempre as mesmas estórias, com outras versões e novos personagens. Nas suas estórias pitorescas e cheias de pantomimas, sempre havia alguma coisa nova ou um detalhe antes não relatado, para ele acrescentar nas suas falácias vespertinas. Como todo pescador, João de Coló mentia assustadoramente e sempre tinha uma nova estória para alegrar as nossas prosas. Um dia, durante o almoço na casa dos meus avôs, seu Feliciano de Assis e Dona Cabocla (irmã de João de Coló e Nestor Cotó), ele nos contou uma briga que tinha presenciado numa noite sem lua, nas pedras do Poço do Goió, em águas mornas do Rio Cachoeira. João de Coló disse que na escuridão do rio e da noite, ele só se via os fachos de fogo e o barulho dos metais

em profusão. Por curiosidade João de Coló pensou ser uma briga de facão entre dois trabalhadores rurais ou alguns bêbados que rondavam a região. Depois de mais de meia hora da briga feroz e de lascas de fogo para todos os lados, João de Coló rumou a sua canoa ‘Andorinha’ até o local da briga. Foi então que ele viu os maiores siris da sua vida. Cada um dos crustáceos, segundo ele, tinha de três a quatro palmos de casco. Pesava de seis a oito quilos cada um. Os dois crustáceos gigantes brigavam e batiam as puãns de quase um metro de comprimento e da grossura das pernas de moças. As labaredas facheavam no meio da noite e davam para ser vistas e ouvidas do outro lado do rio. Com medo dos bichos em fúria, João de Coló remou como louco e fugiu do lugar da briga animal. Nunca mais ele pescou na redondeza do Poço do Goió á noite com medo dos siris brigões. Para arrematar a prosa, ele ainda disse: - Caboclinha, para aferventar um siri daquele só num tonel de 500 litros. No mínimo de 04 a 06 horas de fogo alto.. Um siri daquele alimenta mais de 20 homens... Meu avô Feliciano pigarreou e minha avó sorri de admiração do seu irmão querido e tão mentiroso. Certa vez, João de Coló pescava na Coroa Grande, perto da Baia da Sapetinga, nas franjas do mar de Ilhéus, quando um peixe fisgou o seu anzol e começou puxar a sua canoa chamada de ‘Andorinha’. O puxão do peixe foi agigantado que a canoa começou correr rio acima em disparada velocidade como uma lança a motor e subiu o rio cachoeira rumando contra a maré vazante do mês de março. Depois de muita briga e teimosia do ‘aquático indomável’, João de Coló amarrou a linha da vara de pescar na canoa e deixou o peixe lhe conduzir até o Banco da Vitória. Na altura da Água Boa, o peixe cansou então ele o tirou o ‘carapicunzinho’ teimoso da água. No dia seguinte João de Coló comeu um pedaço do peixe frito no café da manhã, deu outro pedaço de quase 02 quilos para sua amiga dona Hilda e outro pedaço com mais de 03 quilos para seu primo Seu Juca. Segundo ele só sobrou do peixe a cabeça, que foi dada para mimoso, seu gato de estimação e companheiro de sono vespertino. O gato passou 18 dias para dizimar a cabeça do peixinho. A mais magistral das estórias de João de Coló foi a que ele contou na porta da casa de Seu Juca, numa tarde de agosto, isso nos idos anos oitenta do século passado. João de Coló estava conversando com seu Duba, Zezé Biço de Zinco e Seu Juca, pai de Dui, quando esse último disse que tinha pescado uma curimã imensa de doze quilos. João de Coló pigarreou e se sentiu ofendido na qualidade de maior mentiroso da região. Ele então retrucou: “- Eu não duvido não! Juca. Depois de tantos anos nas águas e ver tanta coisa, a gente já não se assusta com mais nada. Anteontem mesmo, de

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira madrugada já dormida, eu estava pescando lá na Pedra do Meio quando fisguei algo pesado e brilhante. Briga danada, quase meia hora de puxa e repuxa para tirar o bicho da água. Mas não é que quando eu puxei o bicho para fora d´água, foi então que eu descobrir que era um candeeiro acesso!” Seu Duba, antigo marinheiro da empresa Lord e apaziguador das circunstâncias, então disse com veemência: " - Pelo amor de Deus João de Coló, pescar um candeeiro tudo bem, mas acesso isso já é de mais!..." João de Coló passou a mão na barba branca e respondeu sem delongas: "Se Juca diminuir o tamanho da curimã eu apago o candeeiro..." João de Coló era um homem elegante e faceiro. Gostava de vestir ternos e gravatas e andava sempre perfumado, com um guarda-chuva pendurado no braço e com um sorriso fácil nos lábios. Dizia ele ter sido o maior namorador de Banco da Vitória e redondezas. Ele trabalhou durante anos como canoeiro e trapicheiro, levando cargas e mercadorias do Porto do Jenipapo em Banco da Vitória até o antigo porto de Ilhéus. Exímio dançarino e tocador de pandeiro, João de Coló não podia faltar nas festas de Banco da Vitória. Era sempre o primeiro que chegava e o penúltimo que saia. João de Coló era colecionador de curiós e papa-capins que faziam sucesso em Ilhéus, Itabuna, Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ele adorava tomar uma cerveja preta antes do almoço ‘para atiçar a fome’, como dizia e não perdia uma missa, onde comumente tirava longas cochiladas. João de Coló era amigo de todo mundo e matou a fome de muita gente da nossa comunidade, oferecendo os peixes que pescava e jamais os vendia. Um dia, com saudade dos seus filhos que tinham ido morar no Rio de Janeiro, João de Coló embarcou para essa terra distante e jamais voltou. O Banco da Vitória perdeu um dos seus filhos mais ilustre. A cidade do Rio de Janeiro, sem saber, acolheu em seu solo pátrio, um dos maiores amantes da natureza que nascera em solos tupiniquins.

2 - O Agouro Fatal Naqueles tempos, meu pai, apelidado de Carrinho, tinha uma 'venda' chamada A Visgueira, bem em frete ao famoso bar de Seu Xisto Gomes (atual farmácia de Carlos). Ali era o centro comercial de Banco da Vitória. Onde hoje existe a padaria de Loiola, havia a padaria de seu Hugo, que ficava em frente ao Ponto Certo, casa comercial de seu Zé Cotoco e dona Lurdes, no outro lado da rodovia Ilhéus-Itabuna. Havia ainda o armazém comercial e sorveteria de Dona Lia e seu Joaquim (onde há a atual casa de materiais para construção) e a padaria de Seu Pedro Preto, pai de

Pedro Filho (na atual na esquina da Rua de Palha (Rua Dr. Laureano). Havia ainda neste centro comercial o depósito de sue Antônio Isaias, a selaria de seu Miguel, irmão de seu Pedro, a loja de miudezas de seu Amaro (atual casa de Iracema) e o armazém de cacau de seu Zé Lavigne (atual prédio pertencente a professora Cremilda). Nos finais das tardes, se juntavam na Visgueira os aposentados e desocupados de Banco da Vitória para baterem um dedo de prosa e jogarem dominó em frete a antiga casa do saudoso Urânio (atual casa de Dominguinho da Farinha). Num desses dias quente de verão sul baiano, estavam na porta da 'Vasqueira', Carrinho, chupando laranjas, Seu Xisto Gomes, chupando cana, Seu Pedro 'Preto' falando das safadezas das mulheres galegas, Aurindo Motorista dando risada de tudo, Zé Orlando contando suas façanhas automobilísticas e, dentro da 'venda', Pedro Melo, Seu Ailton, Dantinha e Gaginho conversavam como iam resolver todos os problemas do mundo. Enquanto isso, na mesa do dominó se assistia meus tios João de Coló e Nestor Cotó, jogando contra Seu Ernesto Cambista e Seu Cazeca. Mathias Pereira Góis, antigo trapicheiro e amante do 'rabo-de-galo' conversava com Seu Zé Lavigne e Jonas Porco-etouro, enquanto seu Amaro, da janela da sua casa, olhava o movimento da redondeza. Tio João de Coló fazia um alarido danado e zombava dos perdedores da jogatina amadora. Seu Nestor Cotó sorria e se divertia com Seu Júlio da Taiobinha, enquanto seu Oliveira Nunes analisava o jogo e se preparava para entrar também na 'parada dura'. Assessorando no pé de ouvido de João de Coló, estavam Seu Juca e Seu Duba, que esperavam as suas vezes de 'baterem umas pedrinhas' naquela tarde ensolarada. Seu Cazuza comprou algo na venda de meu pai e foi embora diante das perguntas de Seu Pedro, que insistia em lhe questionar se ele já tinha visto mulheres mais safadas de que as 'do Sul'. Oficial do Cavaquinho veio, tomou um conhaque Presidente e voltou para a sua tenda. Foi afinar o instrumento musical que ele chamava amorosamente de 'ousado'. Zé Orlando bebia no canto do balcão enquanto falava para seu Joval sobre o caminhão tombado no dia anterior, na ponte do Fundão. Pedro Melo brincava com Gaguinho, zombando da derrota do Fluminense diante do Vasco da Gama. Foi ai que apareceram nos extremos da rua, Seu Ernesto da Olaria, arrastando as suas pesadas alpargatas e seu João Batista, o coveiros, pai de Zé Batista, com sua barriga lustrosa e seu chapéu de vaqueiro do sertão. João de Coló, como de costume, zombou no meio do jogo e disse: " - aposto até os buracos do meu cinto que Ernesto da Olaria vai dar uma topada desgraçada. Seu Oliveira sorriu e João de

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Coló acertou em cheio no que disse! Seu Ernesto quase arrancou um paralelepípedo do chão da Rua dos Artistas com uma topada miserável. Todos deram risadas do oleiro sergipano que gemia de dor enquanto olhava o dedo que latejava de dor. Depois, apontando sorrateiramente para Zé Lavigne, João de Coló perguntou em alto tom para o coveiro João Batista que passava no meio da rua: - e ai João Batista, quem vai (morrer) hoje? Seu João Coveiro sorriu e respondeu: - por enquanto, somente quem agora está vivo. Filosofou. Seu Zé Lavinge tossiu fortemente e João de Coló zombou mais uma vez: - “Pelo ronco da cuíca, o couro tá afolosado. É caixão e vela preta! Esse aí não assiste a missa de domingo.” Seu Zé Lavigne, sem gostar da brincadeira, disse: - "lá ele!" e cuspiu três vezes no chão. Seu Ernesto, já perto da casa de Seu Taurindo, deu outra topada numa pedra do calçamento da rua e xingou sorrateiramente. Foi o último dia que o velho oleiro sergipano passou, levado pelas suas próprias pernas, pela Rua dos Artistas.

3 - Futebol! Naqueles tempos, o futebol era a maior atração de Banco da Vitória. Havia o lendário e 'imbatível' Ypiranga de Zeca Serafim, comandado por Xisto Gomes; o Cruzeiro de Zé da Linhagem, que era tão bem organizado como qualquer time profissional do Interior do Estado; o Bahia de Zé Pote, - ótimo time composto basicamente por maravilhosos jogadores do Alto da Bela Vista; o Flamenguinho de Seu Roque e Zé Vieira, comandado por Zé Bolão e o América de Miraldo Cardos. Os campeonatos duravam meses e todos os domingos, centenas de pessoas rodeavam o campo de Banco da Vitória para assistir os magistrais jogos de futebol. Nos torneios, realizados nos feriados, chamados de caixeirais, em homenagem aos empregados das lojas comerciais, apareciam os times fabulosos e exóticos como o lendário "Caçarola" de Bigode, Nego Nide e Areis, 'o Sangue', do pessoal do Matadouro Municipal; os excretes das Ruas de Baixo e Rua de Cima, além dos famosos 'Arranca Toco', composto pelos moradores do Morro do Miligui e o 'Última Hora, que, como a morfologia própria indicava, era composto pelos retardatários e amantes do bom futebol amador. Para as crianças, nos domingos pelas manhãs, havia os jogos do Vasco de Seu Nestor e o Vasquinho de Carmerindo. Além do Flamenguinho de Zé Bolão e o Ypirnaguinha de Xisto Gomes. Eram dias memoráveis de futebol e alegria em torno do campo da nossa comunidade.

Os árbitros de futebol, na época eram chamados de juizes. Eles eram verdadeiros espetáculos à parte. Eram os juizes: Seu Nestor e suas performances incomparáveis; Cabo Jonas e seus famosos salvos incontestáveis; Valter Ramos, com o seu profissionalismo e rigidez. Jailton Ramos e suas inovações futebolísticas, Seu Diva e Zé Bolão como aprendizes de Seu Nestor e seu Zé Vieira, que vez por outra surgia com 'uma novidade' arbitral trazida das Capitais Brasileiras, que somente ele tinha ouvido falar na Radio Globo da Capital da Guanabara. Havia também, Zé Miolinho, que pagava até para apitava um racha no Alto da Santa Clara. Depois até Zé Beicinho se enveredou por essa área e até hoje se diz profissional do apito. Eram domingos memoráveis e cheios de alegrias no campo do Banco da Vitória. O campo estava sempre lotado e cheio de gente que vinha de Ilhéus, Salobrinho, Olivença e até Uruçuca e Itabuna para ver o espetáculo dentro de quatro linhas, que era o futebol do campo tosco de Banco da Vitória. Às vezes, os ânimos dos jogadores e as preferências dos torcedores se exaltavam e um 'cacete monumental' rolava no meio de campo. Então se destruíam as cercas de biribas das casas de Seu Cazeca ou de Dona Loura e o pau comia solto nas cabeças quentes. Brigava jogadores, torcedores, mulheres, crianças e até os cachorros. Meia hora depois, tudo estava acalmado, a bola rolava e as nossas tardes de domingos se tornavam inesquecíveis. Uma coisa interessante deste campo de futebol de Banco da Vitória é que ele foi inicialmente formatado no sentido diferente do atual. As traves ficavam em frente às casas do seu Veio, pai de Biinha e a atual casa de Lilá, no outro lado do largo. Foi seu Amerildo quem o construiu quando era administrador do distrito de Banco da Vitória. O atual modelo deste campo foi feito quando da reforma da Rodovia Ilhéus Itabuna nos anos 50. Nessa época, os tratores que pavimentavam essa rodovia foram usados para o aplanarem o terreno. Nessa mesma época foi criado o campo do Pacaembu, na proximidade do matadouro municipal de Ilhéus. Mas isso já outra estória...

4 - A índia Naqueles tempos, havia uma índia verdadeira que vinha todos os dias ao Banco da Vitória para pegar 'baganas' no matadouro municipal e esmolar pelas ruas do distrito de Ilhéus. Ela morava na entrada do atual bairro do Teotônio Vilela (que não existia na época). Essa região se chamava Gomeira. Nos finais das tardes, a índia aparecia na 'Visqueira' para tomar umas cachaças de graça e depois voltava andando para sua morada, na boca do mangue de Ilhéus.

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Meu pai, Carrinho, adorava lhe perguntar sempre a mesma coisa: - onde é que você mora, índia? A índia, toda sorridente e brejeira: balançava a flácida cintura, jogava os cabelos grisalhos para os lados, insinuava posições sexuais e respondia gritando: - No Fudiããããão! Todas as pessoas na porta da Visgueira davam prazerosas risadas e mandavam repetir as dose de rabo-de-galo para índia que na verdade morava no lugar chamado Rio do Fundão. Por causa dessa sua performance pouco convencional para uma mulher da sua idade, dona Elza de Seu Duba, Dona Chica de Seu Jonas e Dona Alice de Zé Lavigne não lhes davam esmolas e lhe repudiavam. Mais a índia todo dia dormia bêbada e com a barriga cheia de carne e verduras doadas pelos seus admiradores. Isso, graça aos seus amigos de Banco da Vitória, principalmente Lindor, Buré, Tonho Cú-debarro, Agenor Bolacha e Seu Alfredo que adoravam vê-la feliz e cheia de alegrias e esmolas. Cada vez que a índia gritava na Visgueira: - No Fudiããããão! ela ganhava um pedaço de carne e um gole de pinga e os freqüentadores da venda sorriam sem cerimônia. Se dependesse dessa índia carismática e alegre, o atual bairro do Teotônio Vilela se chamaria Fundão ou, quem sabe até mesmo, o Fudiããããão!!

5 - O Inventor do Churrasco de Banco da Vitória A tradição de comer carne assada em Banco da Vitória se reporta aos velhos tempos quando se assavam carnes de bois ou de porcos nas fogueiras do Matadouro Municipal de Ilhéus e as comiam como tiragostos em bares da região de Banco da Vitória. Quem iniciou esse hábito pitoresco no “quiosque” de Dico, perto do Matadouro, foi o saudoso funcionário da Prefeitura Municipal de Ilhéus, Seu Nafital de Souza, marido da ‘nossa’ amada professora Gláucia. Nafital era um intelectual primoroso e leitor compulsivo. Tinha o hábito de andar sempre com um livro nas mãos e era um exímio jogador de futebol. Além de trabalhar na Administração do Distrito de Banco da Vitória como escrevente, Nafital atuava também como açougueiro amador nos finais de semana na feira de Ilhéus. Nafital, acompanhado de Pedro Melo, Tonho de Nouzinho, Seu Ailton Costa, Zé Carioca, Zé da Linhagem, Formiga, Buré e vários outros homens do ’sangue’, adoravam comer carnes assadas e distribuir espetinhos para os amigos e fregueses dos bares próximos ao matadouro. Foi Dico quem primeiro viu uma oportunidade de

negócios na idéia de Nafital e profissionalizou o ‘assado’. Com isso se iniciou o ciclo da tradição de churrascarias em Banco da Vitória. Depois do sucesso de Dico, vieram os Bares de Seu Diva e de Juarez, – esse último que se tornou um dos mais famosos churrascos de Ilhéus, nos anos 80 e 90. Em pouco tempo o cheiro do Banco da Vitória se tornou o aroma dos churrascos. O cupim do boi, aqui chamado de mamilo, se tornou tão famoso quanto os pitus e robalos do rio cachoeira. Hoje Banco da Vitória têm hoje verdadeiras churrascarias altamente profissionalizadas que oferecem diariamente carnes de alta qualidade para mais de três centenas de clientes. Tudo isso cria empregos e oportunidades para muita gente da nossa comunidade. Por certo, Seu Nafital, com os seus famosos ‘assados’ de rabo e lombos de porcos, jamais imaginou que o seu hábito culinário iria transformar todo o bairro de Banco da Vitória. Devemos tudo isso a ele e os seus amigos de boêmia e comilança. Quando de folga, Seu Nefital gostava de andar sem camisa, usando uma bermuda larga, que ele dobrava na cintura, como se a prendesse para não a deixar cair. Ele era uma amante mor do pingado chamado de rabo-de-galo e dizia que só bebia comendo. Nafital era um pacifista nato e um homem muito respeitado em nossa comunidade. Mesmo trabalhando no matadouro, ele jamais usava uma faca na cintura. Preferia mantê-as enroladas em panos e escondidas dentro do seu tradicional bocapio, que sempre vinha pendurado no seu braço esquerdo. Só tinha uma coisa que deveras lhe irritava: pessoas que falavam mal de Banco da Vitória. Para essas pessoas mal-quistas, ele mostrava o caminho da rodagem e dizia: - Ilhéus fica logo ali e Itabuna fica na outra direção. Adeus! Nafital costumava ir se banhar no Rio Cachoeira no meio da noite. Normalmente ele ia até a Pedra de Guerra, com uma tarrafa nas costas e ficava contemplando o Rio Cachoeira, as matas da outra margems e o céu impar de Banco da Vitória. Depois pegava uns peixes, se banhava com o famoso sabonete ‘Vale Quanto Pesa’ e voltava do seu banho noturno. Minutos depois, ele se sentava na porta da sua casa, – que ficava em frente ao Clube Social -, e mergulhava nas suas leituras. Depois de dois dedos de prosa com seu Josias Xavier e seu Faustino, ele ia dormir no aconchegante leito do seu lar. Numa noite de um triste domingo, ficamos sabendo que seu Nefital não iria voltar mais para casa, nem para a administração, nem para o matadouro. Chamado por Deus, ele foi ensinar a arte de fazer churrascos vegetarianos para os anjos e querubins. Até hoje ele continua pescando estrelas nos vastos universos celestiais. O Banco da Vitória precisa fazer uma homenagem a esse homem tão importante para a nossa história e cultura. Afinal, todas as vezes que você sentir o cheiro dos churrascos nos ares do Banco da Vitória, lembre-

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira se que tudo isso começou com ele, Nafital ‘dos espetos e assados’. O homem que sabia reunir amigos e construir belos sonhos. Sua família é prova disso.

6 - As Conduções Naqueles tempos, quando alguém passava mal e precisava ser deslocado para um hospital em Ilhéus, tinha de recorrer aos poucos carros que existiam em Banco da Vitória. Esses carros, na época eram chamados de 'conduções'. Havia um punhado de carros na nossa comunidade e o mais interessante era que todos eles tinham nomes, como, por exemplos: a 'rural' de seu Raimundo Ribeiro, a 'rural azul' de Seu Joaquim, o ‘jipe rompedor’ de seu Zé Lavigne, - o recordista em defeitos no meio da estrada de Ilhéus-Itabuna; a 'Fobica', o caminhão de Seu Nestor Cotó e a famosa ‘Patinha’ - um caminhão todo feito de tábuas e com o motor exposto, de seu Pedro Preto. Havia também os caminhões de Aurindo, Seu Joval e Zé Orlando, esses ‘carregavam’ sacas de cacau para o porto de Ilhéus. Para as viagens mais longas se utilizavam as caçambas de Zé Bolão e o caminhão de Seu Plínio. Depois apareceram os carros de Renan de Seu Oliveira, A ‘requenguela’ - uma opala velha e barulhenta de seu Júlio da taiobinha -, dirigida pelo seu filho Bel, a pickup de Tonho Badu, com Marquinho ao volante. Depois surgiram os 'veículos novos' como o carro de Dico, a CD10 Zé Carioca, a caminhonte de Abacate e o charmoso Landau Preto de Zé Ivonildo, bem como a lustrosa opala cor de vinho de Juracy Martins. Todavia, foram os carros de Mário Lapa, com a sua C10 Branca normalmente dirigida por Seni e a variante de Valdo Ferragem, que mais levaram pessoas doentes para os hospitais de Ilhéus nas décadas de oitenta e noventa do século passado. Muitos dos atuais moradores de Banco da Vitória foram socorridos ou nasceram nos bancos destas conduções. João Santana, filho se Seu Antônio Isaias tinha um fusca azul chamado ‘Gagé’ que não conhecia estrada ruim nem tempo fechado. O carro mais parecia uma ambulância pública. Noite sim noite não, o ronco do motor do 'gagê' rasgava a madrugada com alguém gemendo nos seus bancos traseiros. Nessa época havia também o fusca branco de Fernando Menezes, então funcionário da Caixa Econômica Federal, que na noite da abertura da Festa do Cacau em Ilhéus, bateu o recorde de transporte de pessoas. Trouxe passageiros até o Banco da Vitória, só Deus sabe como -, penduradas pelo teto, párachoques, capú e até nos pára-lamas. Há quem diga que Zé Beicinho veio quase sentado no motor de 1.500 cilindradas do fusca de Fernandinho.

Anos depois chegaram carros novos em Banco da Vitória. Carlos da Farmácia veio com o seu chevette envenenado; Coquinha tinha um Fusca que vivia com a descarga estourada e dava susto no povo e dona Lia comprou uma Belina cinza que era a coisa mais linda do nosso lugar. Foi nesse tempo que a 'Marinete', um micro-ônibus da empresa Sulba, guiado por Juvenal, subia e descia o Alto da Bela Vista e muita gente morria de medo dessa aventura automobilística. Foi nessa mesma época que Lilito, pai e Padé e Nicolau ajudou muita gente de Banco da Vitória a aprender 'dirigir'. Lilito mandava Seni ensinar os seus amigos a dirigir um carro de verdade, nas tardes de sábados e domingos. O treinamento era feito se dando voltas na Praça Guilherme Xavier e de vez em quando, na rodovia Ilhéus-Itabuna. Naqueles tempos, quem não tinha carro e gostava de dirigir carros dos outros era chamado de 'zé carburador'. As moças que gostavam de andar de carro eram chamadas de 'Maria gasolina'. Mas isso já é uma outra longa estória.

7 - O Conjunto de Oficial do Cavaquinho Naqueles tempos, Oficial do Cavaquinho ficou famoso com o seu conjunto musical quando mudou sua tenda da Rua dos Artistas para a Rua da Rodagem. Ali, onde hoje é ponto de ônibus para Itabuna, Oficial cortava os cabelos dos homens e meninos. Nos intervalos da profissão, Oficial e ensaiava diuturnamente os tons, acordes dissonantes e toques no seu magistral instrumento musical, chamado por ele de 'ousado’. Aos domingos à tarde, os móveis do antigo 'salão de beleza' eram removidos para um canto e a cantoria corria solta. O conjunto musical era composto de Oficial no cavaquinho, Seu Luiz no primeiro violão e seu Exequiel no violão de 'segundo tom'. Seu Plínio e Domingos atacavam nos banjos, acompanhado de Jonas Paraíso no bambolim e Sargento Valério no saxofone. Courinho batia o tambor grande, Gogó de Sola solava um tambor menor e Cabo Jonas, João de Coló e o aprendiz de músico Jarinho sacudiam e batiam os pandeiros. Tonho de Miguel Farias era ‘a regra’ três do violão. Zé Vaqueiro harmonizava a melodia com a sua sanfona pé de serra. Gaguinho era o cantor principal, acompanhado por Cabo Jonas e vez por outra, o samba-de-roda era puxado por Gogó de Sola. Railson de seu Raimundo Raposo e Otávio também soltavam as vozes nestas cantorias. Seu Juca do banjo, pai de Dui, já não tocava tanto como antigamente e preferia ir ver a festa de Oficial

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira junto com seus amigos Seu Nufo, Odilon de Dona Pureza e Seu Alfredo. Jonas Porco-e-touro, - metido a puxador de escola de samba, de vez enquanto puxava uma 'modinha' e tirava sorrisos de Zé Cuçena e Lito, que não perdiam uma farra na tenda de Oficial. Dizem que Oficial tocava seu cavaquinho com tanta vontade que quebravam mais de trinta cordas por apresentação vespertinas. Mas isso não era problema, pois Oficial consertava todos os instrumento musicais e tinha no seu estoque cordas para mais de ‘trinta dias de seresta de tocar fogo nas sandálias’, dizia ele. Num dia de domingo, uma equipe da TV Bahia, afiliada da Rede Globo, resolveu filmar a performance de Oficial e seu grupo de bambas nas tardes de domingo em Banco da Vitória. No dia seguinte se viu, em rede estadual de televisão, o mais genuíno e famoso conjunto musical de Banco da Vitória, demonstrar os seus dotes musicais. Oficial, que já era famoso entre nós, não se importou com essa exposição na mídia televisiva e continuou fazendo o que mais gostava na sua vida. Todo dia ele cortava cabelos dos seus fregueses, tocava cavaquinho para distrair os dedos e bebia conhaque Presidente para ajudar na subida da ladeira do Alto da Bela Vista, onde morava. Além disto, Oficial adorava chupar e comer melancia, que segundo ele servia para afinar os lábios e tirar o pigarro da caixa dos peitos. Oficial, era um funcionário aposentado da Ceplac e vivia rodeado de amigos e admiradores. Gostava de passar horas e horas afinando ‘ousado’, o seu cavaquinho particular, - que ninguém podia tocar -. Um outro hábito de Oficial era subir a ladeira do alto da Bela Vista assobiando. Dizia ele que fazia isso para avisar aos anjos que ele estava chegando mais perto do céu. Dizem que Oficial é hoje professor de música em ares celestiais e continua fazendo tudo que fazia aqui na Terra. O único hábito seu que ele mudou foi deixar de beber bebidas alcoólicas. Hoje Oficial é vegetariano e amante do suco de uvas tintas, servidos fartamente após as apresentações celestiais.

8 - A Santa Missão Naqueles tempos, a Igreja Católica fez a segunda grande missão de revitalização da fé cristã e o distrito de Banco da Vitória foi escolhido como uma das sedes do grande evento, que durou vários dias e reuniu muita gente de vários lugares, em nossa comunidade. Nestes dias, tinha missa de hora em hora e visitas de padres, seminaristas, freiras e beatas nas casas das pessoas, fazendo evangelização. Foi uma semana inteira de louvores e festas ecumênicas.

Quem não era casado podia se casar diante do altar e do padre. Quem não era batizado na religião de Jesus Cristo não podia perder essa chance e os pecadores tinham os vários padres para ouvirem os seus pecados e recebem as suas penitências. A antiga igreja de Banco da Vitória vivia cheia e a cada missa, mais de oito centenas de pessoas se aglomeravam na praça para assistir as pregações. Além da gigantesca festa e manifestação de fé, o que mais me impressionou nestes dias foi uma missa direcionada para os jovens, conduzida por um padre italiano que pouco falava o idioma português, mas sabia se fazer entender. Este padre jovial e de olhos verdes era carismático e deixou muita moça doida com a sua beleza européia. Teve moças em Banco da Vitória que precisaram de mais de 430 pai-e-nossos e 600 ave-marias para distrair os seus pobres corações apaixonados e pecaminosos. A missa dos jovens foi magistral. Dos presentes na casa do Senhor, na noite de sábado, ainda posso lembrar de alguns adolescentes e jovens da época: nós éramos: Vaninho de Joval, Tonho Bicudinha e Zé Carlos, Cigano, Reno, Corró, Nem de Conceição. Rubem de Dona Terta, Avai, Mané e Rubem de Dodinha, Gordo e Nena de Seu Raimundo, Tiziu e Mique, Toinho de Antônio dos Santos, Gordo de Roquinha, Nico, Nego da Onça e Zé das Cinzas, Evilásio, Gosto, Neto, Bego, Edinho de Dona Marilda, Valmir de Valter, Diu, Undê, Ceni, Tinho, Liminha e Jorge Jovaly, Paulo Coragem, Bel, Coquinha, Orea de Nico, Esso, Godó, Nidão, Lango, Joel de Ailton, Teco e Bira de Cabo Jonas, Roberto, Carlinhos e Zé Gastão de Dolores. Lula e Paulo Tarurin, Jaia e Juranda de Seu Péricle, Zé Ramon e seu irmão Tonho, Zé Beicinho, Zé Pote, Cabeludo, Macho, Palestina, Eribaldo, Salomão Sete-cabeça, Canuto, Julinho e Gilson Soldado, Cosme e Damião, Célio, Carlinhos Limolinha e Raul de Seu Renoel, Tinho de Carmezinho, Gil de Zé Vaqueiro, João cu-de-leão, Chanã, Beré e Bego. Gil Pitlhula, Edinésio, Zé Birro e Pedro de Gringo, Ingá, Zé da Torta, Zabelê, Gazula, Quibe, Edinho, Maroto, Gatão, Fabão, Nido, Dei, Cy, Ziba, Luizinho, Chapinha, Dael e Venâncio, Vera, Nei e Diva de Gaguinho, Nego de Dona Cabloca, Nego de Constância, Derneval e seu irmão Jailson, Biinha, Tonho de Botão. Veio de Dona Mira, Luizão, Roque de Preta, Meu tio Jair Rodrigues, Nito e Nel de Dona Dedê. My, Pica-pau de Agenor Bolacha. Deraldo, Jorge de Osório, Aldair, Dau, João de Júlia, Betinho, Leão, Dui, Galo, Orlando, Zezéu, Marcelo de Dona Elza, Otávio Cantor, Neto, Mique e Gilton, Jorge e Edvaldo de Dona Lia, Neilson de Nelson Fontes, Lito e Nel de Dona Cilú, Birro, Dú e Pelé de Ló, Tonho de Farrabufado e Miguel de Laú... As mulheres eram muitas e infelizmente eu não me lembro de todas. Vou citar algumas mulheres presentes: Crew, Cleide, Cremilda, Suly, Ceilma, Ceiça, Rita e Joelma. Ely, Tânia, Cristina, Nega, Nide, Nida, Tânia, Sandra e Soraia de Lindote. Marlene, Rita de Zé Melo. Fátima, Cila e Iracema. Cema de Dodinha, Nete de Carmé, Iris de Dona Chica, Lia, Cátia, Vera de

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Cabocla, Vaninha, Marcione, Soane, Jaqueline e Luciana, Dine, Elísia e São. Jorgina e Aparecida. Irene, Guda e Maria de Seu Gentil. Careca, Finha, Pedrina, Lúcia, Edna de Lurdes, Júlia, Rita tia de Elísa, Joelma, Tânia, Soraia, Valdirene, Liu de Gaguinho, Nadir, Nanai, Aparecida, Jorgina, Marilha de Nefital, Neguinha, Sely, Maria e Suquinha, Rosa de Seu Paulo, Cy de Zé Bispo, Elidê, Ângela de Pedro Melo, Carmem e Rosilda de Dona Conceição, Maria de Dona Cilú, Ció, Mide, Norma e tantas outras que me faltam à memória. Uma coisa é certa? 90% da população de Banco da Vitória se tornaram católicos praticantes por alguns dias. A missa foi encantadora e profundamente tocante em corações e mentes juvenis. Saímos todos da igreja alegres com as verdades de Cristo e as pregações dos padres. Os participantes que eram adultos foram depois para o Clube Social dançar aos sons do Good Som de Jorjão. Eu, como a maioria dos adolescentes, fui para casa com medo da moreninha. Um tipo de fusca da polícia militar de Ilhéus que era o 'terror das crianças' que andavam sozinhas nas ruas, as noites. Todavia, o que mais me impressionou no meio daquela festa ecumênica foi uma observação feita por Dona Enaura, esposa de seu Oliveira Nunes, referente à presença angelical de Gugú durante toda a missa. Segundo dona Enaura, Gugú entrou calado no templo católico e saiu da missa mudo e compenetrado parecendo um seminarista recém chamado por Deus. Quem o conhecia e sabia das suas travessuras, ficou surpreso com a sua ternura momentânea e candura dos seus atos comedidos. Pena que o milagre divino da paz somente durou em Gugú até o fim da Santa Missão. Depois tudo voltou ao normal.

9 - As Estórias de Cabo Jonas Naqueles tempos, o morador e mais famoso do bairro de Banco da Vitória e um dos mais conhecidos na Cidade de Ilhéus era Cabo Jonas. Ele dizia que era nascido no bairro do Pontal, na época que os besouros (canoas com motor faziam a travessia entre o bairro e o centro da cidade de Ilhéus). Cabo Jonas dizia que tinha servido na aeronáutica e que era exímio atirador. (Na verdade ele tinha trabalhado nas obras do aeroporto de Ilhéus e por ter alcançado o cargo de ‘cabo de turma’ nessa obra, se intitulava “cabo Jonas”). A patente ficou e ele gostou da autoridade do nome. Cabo Jonas era casado com dona Deth e teve como filhos Edinha (exímia dançarina e festeira singular. Grandes saudades!), Teco, Bira e Sió. Cabo Jonas era altamente inteligente, inventivo e gente de primeira qualidade. Ele tinha diversas profissões, como

encanador, eletricista, pintor, sapateiro, letrelista, capoeirista, eletro técnico, compositor, pai-de-santo, escultor, ‘professor’ de educação física, puxador de bloco afro e um prazeroso mentiroso que gostava de ver a gente sorrindo com as suas estórias cheias de detalhes e curiosidades. Apesar de ser uma pessoa humilde, Cabo Jonas era cheio e amigos ilustres e pessoas famosas. Ele estava sempre alegre e cheio de estórias engraçadas e palavras de conforto e entusiasmo. Jamais o vimos triste ou ensaburrado. Sempre ele tinha uma solução para dar para qualquer problema. Era um conselho para ofertar, uma estória para nos alegar, ou em última opção, uma mentira estupenda para falar. Todavia, era no carnaval que Cabo Jonas se destacava no comando dos famosos ‘Pauzinhos de Mestre Cabo Jonas’. Ali ele se realizava com pessoa e amante ímpar de Banco da Vitória. Como era amigo de Tonny Neto, Cabo Jonas dava entrevistas na Rádio Baiana (onde atuava como ‘eletro-técnico”) e ainda atuava como comentarista de emissora, durante os carnavais e datas comemorativas da cidade de Ilhéus. O bloco de Cabo Jonas era uma espécie de espetáculo de danças africanas com fortes influências indígenas. Havia um sincronismo e ritmos africanos tirados de dois bastões de madeiras, que os dançarinos batiam e rebatiam enquanto pulavam, dançavam e cantavam. Cabo Jonas puxava os cantos e comandava o seu bloco que sempre tirava nota máxima no carnaval de Ilhéus. Todos os anos o seu bloco viajava por toda a região cacaueira, levando a cultura de Banco da Vitória para além dos limites de Ilhéus e Itabuna. O bloco dos pauzinhos era tão famoso que aparecia na vinheta da antiga TV Aratu, re-transmissora da TV Globo, no Estado da Bahia. Aquilo nos enchia de orgulho e zelávamos pela cultura do nosso povo. Depois, devido a várias dificuldades financeiras e entristecido com o descaso com a cultura popular imposta pelos ocupantes dos cargos públicos ilheênses, Cabo Jonas acabou com os pauzinhos e se dedicou exclusivamente a ser o puxador oficial do Bloco afro do terreiro de Dona Eunice. Na minha vida, Cabo Jonas foi o artista mais completo que conheci. Ele era o homem mais alegre e famoso que vi. Era o melhor mentiroso do mundo. Cabo Jonas contava estórias criativas e hilariantes com a do dia que ele cansado de tanto ouvir o LP do rei Roberto Carlos (cantor preferido de Dona Deth), ele arrancou o disco da vitrola, foi até quintal e jogou o disco para os ares e o deu como perdido. Dias depois, andando pela Mata da Vitória, Cabo Jonas ouviu o mesmo disco tocando. Cabo Jonas procurou identificar quem o tinha encontrado. Depois de entrar no meio da tiririca, ele avistou o disco pendurado num pé de limoeiro e toda vez que o vento passava, o espinho encostava-se ao sulcro do disco do Rei Roberto Carlos e todas as folhas do limoeiro cantavam: ‘eu te darei o céu meu bem e o meu amor

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira também…” Havia também a estória do peixe de madeira que ele tinha esculpido na tábua de jenipapo. Depois da obra pronta ele colocou a escultura pintada para secar no telhado da casa. De tão perfeita que tinha sido a escultura e a pintura do robalo, o gato angorá de Ció, chamado de mimio, comeu o peixe inteirinho deixando no oitão da casa somente a cabeça e as espinhas… Eram tantas as estórias que Cabo Jonas contava que nunca sabíamos quando era verdade ou mentira. Uma coisa era certa: Cabo Jonas era sempre alegre, integro e predisposto a ajudar todo mundo. Ele não tinha inimigo e era respeitado como iniciado nos estudos da religião Iorubá. De vez em quando, ele dizia que ia fazer um ‘trabalho’ para aproximar amigos, reatar casais ou melhorar os negócios de uma empresa. Funcionava-se ou não, nunca sabemos ao certo. A única verdade que temos é que o Banco da Vitória ficou mais triste quando Cabo Jonas se foi para o além, alegrar os céus com as suas bondosas mentiras. Ah! Ainda tem mais uma coisa: Cabo Jonas andava cheio de trejeitos e gingados, como se puxasse das pernas. Seu Antônio Isaias dizia que Cabo Jonas andava assim devido o peso das suas tantas mentiras que contava. Cabo Jonas dizia também que tinha nascido com os olhos azuis e os cabelos caídos nos ombros. Mas devido um desavença com uma filha de uma feiticeira do bairro da Conquista, em Ilhéus, a sua exsogra tinha feito um feitiço desgraçado que quase o matou. Mas como ele tinha o corpo fechado, o feitiço pegou nos seus olhos que ficam pretos e nos seus cabelos, que ficaram pixains… Deus perdoe Cabo Jonas e suas tantas mentiras. Afinal, a sua causa era nobre: simplesmente nos alegrar.

10 - Siboney Naqueles tempos, Mário Silva, mas conhecido como Gaguinho era o cantor mais famoso de Banco da Vitória. Fã e imitador de Nelson Gonçálves, Gaguinho sempre estava soltando a voz nas serestas, festas e farras que se faziam por essas redondezas. Gaguinho era magarefe, especialmente de carnes de porcos e tinha freguesia requintada na antiga feira da Avenida Dois de Julho, e depois nas feiras da Guanabara e no Malhado, - todas em Ilhéus. Além disso, Gaguinho era exímio jogador de futebol, dançarino desenvolto e uma pessoa altamente alegre e entusiasta. Todos os dias, quando chegava da feira em Ilhéus,

Gaguinho tirava o avental com os bolsos cheios de dinheiro e ia fazer a contabilidade no 'seu escritório' que era um terreiro que existia onde hoje temos a casa de Carlos Buda. Ali, o cantor e magarefe limpava os bolsos e arrumava o dinheiro, colocando pedras pequenas sobre cada ruma de cédulas. "- Esse é de seu Chica Beinha. Esse é do Sal. Esse é seu Zé Cotoco. Esse é do 'homem' de Ibicarai..." E assim ele ia separando os pagamentos do próximo dia. O dinheiro ficava exposto no chão por quase duas horas e ele jamais foi roubado no ‘seu escritório’. Houve casos de Gaguinho guardar algum dinheiro entre a coxa e a perna e quando se levantar o dinheiro cair ao chão e depois ser encontrado por um menino ou um passante. Nesse caso, o dinheiro era devolvido ao dono, que sempre agradecia alegremente a honestidade que imperava no povo de Banco da Vitória. Gaguinho, como já vimos aqui, era o cantor principal do conjunto de Oficial do Caquinho e sempre onde se encontrava, ele cantava as suas duas músicas preferidas, que eram Siboney e Negue, essa última, pérola musical da extraordinária cantora baiana Maria Bethânia. Nas duas interpretações musicais, Gaguinho dava shows espetaculares com performances dignas de um grande astro da musica brasileira. Para marcar o compasso da música, Gaguinho utilizava a contagem dos dedos e como um maestro diante de uma orquestra ele autorizava a introdução dos músicos, cantarorando da seguinte forma: ‘- Pâ, pâ, pâ, pará, pará, pâ, parantâ, tâ, ta, tã!.. Parantãtã!” O violão de Tonho de Miguel Farias solava o Dó Maior. O banjo de Seu Plínio replica a melodia, a bateria de Zito Costureiro marcava o passo e Gaguinho cantarolava: "- Siboney, têm os olhos mais bonitos que já vi...’ Os casais se ajuntavam na dança e a festa rompia a madrugada. A festa só terminava quando o sol pedia licença para a lua e anunciava o dia que raiava lá nas bandas de Ilhéus. Gaguinhos, com os seus dribles desconcertantes, fazia a alegria dos amantes do futebol. Com a sua voz espetacular alegrava as festas de Banco da Vitória e com seu jeito alegre cativava todo mundo. No dia que Gaguinho resolver animar os bales celestiais, o Banco da Vitória ficou sem a sua voz mais bonita, encantadora e apaixonante. Ficamos em silêncio com a sua partida.

11 - O Grande Encontro Naqueles tempos, Carol, filha de Pedro e Marilene, era uma criança sapeca e curiosa que ficava sentada do balcão do quiosque dos pais, brincado com os

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira fregueses e demonstrando os seus dotes relacionamentos humanos e carisma natural.

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Eu, como de costume, ia lá sempre à noite para bebericar algumas cervejas e botar a prosa em dias com os famosos freqüentadores do botequim de beira de estrada. Até aquela noite, eu poderia dizer que já tinha visto de tudo naquele quiosque torto e cheio de alegrias e sonhos. Todavia, o que se viu naquela quinta-feira foi por certo, o maior dos encontros das 'celebridades' de Banco da Vitória. Eu fui testemunha ocular do episódio e agora vou lhe contar o ocorrido: Quando eu cheguei, o quiosque estava vazio e somente a família dos donos conversava envolta de uma velha mesa de metal. Assim que fui servido por Marilene e bebi o segundo gole de cerveja foi que o 'grande ato' começou. Primeiro apareceu o finado Roque de Preta, com um balde cheio de guaiamus. O meu ex-colega dos bons tempos do Grupo Escolar Herval Soledade, já estava 'tomado' e malmente falava as sílabas básicas da língua portuguesa. Querendo tomar uma 51, Roque tentava nos vender os guaiamus e vez por outra soltava no terreiro três ou quatro crustáceos que faziam uma lambança danada em frete ao quiosque de Pedro. Roque, que falava mais que a Nega do Leite, não parava de balbuciar algumas palavras, enquanto falava sobre suas mercadorias andantes e os robalos guardados na geladeira da casa do seu vizinho. Rapidamente, como um passe de mágica, apareceu Moisés carpinteiro debaixo do pé de Amêndoa e foi logo zunindo: - Huumm... Aqui não! Huuuunnn.... Roque não gostou da chegada de Moisés, mas nem teve tempo de falar qualquer coisa, pois Orea de Nico já chegara cambaleando e acompanhado Moisés, pediu logo a atenção e foi cumprimentar o seu velho primo. Roque, - agora no balcão com o copo na mão, olhava para Moisés, que cantava uma velha música de Odair José e pulava feito milho de pipoca em óleo quente. Nos seus pensamentos etílicos, Roque pedia a Deus que o destemido Moisés colocasse a mão dentro da balde cheio de guaiamum e fizesse um reboliço com os animais. Deus não atendeu os pedidos de Roque. Orea de nico, disse-me que tinha passado a tarde com Moisés e sua trupe. Assim que Marilene serviu a cerveja para Moisés, Maroto e Gatão chegaram falando alto, quase brigando. Maroto falava dos cheques que tinha para receber no dia seguinte. Gatão, mais bêbado que um gambá, sorria e dizia que era tudo mentira, que maroto não tinha 'uma banda de conto' nos bolsos.

branquinha vendida na Rua do Cemitério. Maroto fez que não ouviu o chamado, enquanto cambaleando, Zé Birro e o tio atravessaram a rodagem. Após longas apresentações e rebuscados apertos de mãos, Zé Birro disse-me: - Neizinho vem ai...! Deca argüiu veemente: Gil Pitula vem com Diva de Gaguinho. Todos 'mamados' e doidos para tomar mais uma! Eu, atônito com esse grande encontro de celebridades, somente observava a cena que foi inusitada e cheia de surpresas. Veja sôo que acontecia no mesmo instante: Carol chorava. Marilene gritava com Pedro que gaguejava diante dos argumentos de Gatão que queria comprar cigarro fiado. Maroto dava ordem para Orea de Nico e falava dos seus cheques a receber. Roque com um grande guaiamu na mão intimidava Moisés, que pulava de um lado para o outro e cantarolava algo tido como música. Zé Birro tentava sentar Neizinho numa cadeira torta, enquanto Deca e Gil Pitulha falavam ao mesmo tempo com Marilene. Diva de Gaguinho conversava comigo sobre as músicas do passado. De repente, Pedro deu um grito ensandecido. Mandou todo mundo ficar calado, clamando pelo altíssimo, disse: " - pelo amor de Deus, calem a boca!". Marilene perguntou se ele estava endoidando. Carol, no meio daquele encontro inusitado, soltou um choro forte e assustou todo mundo. Zé Birro olhou para a criança e disse: “ - pequena no tamanho mais boa de pulmão... quando isso crescer vai dar uma boa cantora de ópera...” Moisés assentiu com a cabeça e Orea de Nico concordou, empurrando Rogue para o lado. Eu, doido para tomar outra cerveja, pensei em ir embora. Já estava pedindo a conta quanto ouviu alguém chamar o meu nome. Olhei para trás e vi, Vero de Osório, acompanhado de Regi de Dona Dete, que chegavam ao ressinto. A frase santa "vali-me Deus" surgiu automaticamente e tive de partir sem demoras. A minha salvação foi Bibogo que passava de carro e me deu uma carona até o bar de Juarez, onde 'os clientes' do Bar Vento Sol não freqüentava. Foi lá que ficamos até de madrugada bebendo e conversando com Jarinho, Gogó de Sola, Tororomba e tendo a companhia da lua que iluminava todo o céu de Banco da Vitória...

12 - Seu Pedro Preto

Pedro Manhoso - com sua calma peculiar - atendia os seus fregueses e gaguejava diante das conversas repetidas de Moisés e Orea de Nico, que chamavam os guaiamus de Roque de ‘pequenso guaçás’.

Naqueles tempos, chamar alguém de preto ou pretinho não era crime. Era uma forma especial de dengo. Seu Pedro da Padaria Sergipana adorava ser chamado de Pedro Preto e atendia também pela alcunha de Pedro Cordilheira.

Maroto brincava com Carol, quando Zé Birro o gritou do outro lado da rua. "Gabi cadê Buzú?" Zé Birro estava com o seu irmão Deca, ambos 'molhados' pela

Seu Pedro Preto era um crioulo forte e lustroso. Um negro tarugado e ‘pau-para-toda-obra” como ele

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira próprio se qualificava e que adorava contar estórias engraçadas e sorri para a vida, mesmo diante de tantas dificuldades. Quando eu era menino, adorava ouvir as suas estórias contadas no sotaque sergipano. Seu Pedro dizia que já tinha sido rico, homem de posse e bens, que andava de avião para cima e para baixo e que duas vezes por semana ia a Cidade da Bahia (Salvador) fazer negócios e ‘tomar um banho de civilização’. Tudo isso era verdade. Todo mundo sabia disso em Banco da Vitória. Ele tinha sido um empresário de sucesso que sucumbiu diante das agruras da inflação que aterrorizou o Brasil nos anos setenta. Foi vítima também do seu amadorismo para empreender negócios. Além do seu sorriso fácil, da sua falácia diuturna e dos seus maravilhosos pães vespertinos, o que mais eu admirava em seu Pedro Preto era a sua candura e a bondade. Ele era um homem forte que falava alto, gesticulava feito um guindaste na beira de um porto e se dizia destemido. Mais na verdade ele era um menino grande que adorava ajudar as pessoas, contribuir para o crescimento da comunidade e jamais deixava alguém passa fome diante de si. Meu pai me disse que Pedro Preto tinha ficado pobre porque ‘não tinha visgo nas mãos’, dava tudo para os outros, emprestava dinheiro e os devedores não pagava. Mais nada disso tirou de Seu Pedro a sua caridade e a vontade de ajudar os mais necessitados. A padaria de seu Pedro Preto fazia pães deliciosos que salivavam as bocas das pessoas. Havia as Bolachas de coco e de arararutas e os suculentos biscoitos palitos que ficavam em baldes de alumínio e com tampas de roscas. O cheiro do pão assado na padaria de Seu Pedro exalava pela tosca chaminé e invadia os ares de Banco da Vitória, desde a Água Boa até a União. Era o aroma do pão divino. Seu Pedro Preto também adorava contar estórias de Lampião, da temida Volante Nordestina (um tipo de polícia que atacava os jagunços no sertão nordestino) e de vez em quando mentia para alongar as horas e nos fazer alegre. Um dia, seu Tiago Cardoso, pai do nosso querido Bibogo, se queixou a Seu Pedro Preto que estava com uma insônia da molesta dos cachorros. Disse o velho Tiago que estava há mais de 20 dias sem dormir direito e que seu remédio contra a insônia estava sendo beber toda noite uma garrafa da cachaça Bituri, lendária aguardente nordestina. Seu Pedro, encostado no balcão da ‘venda’ de seu Zé Cotoco, pigarreou e disse: - Isso é lá problema, Tiago? E eu que nunca dormi! E até hoje não sei o que sono! Seu Antônio Isaias, que assistia tudo de perto, sorriu e disse. – Ah! não vai dar não!, e bebeu a sua caninha, enquanto seu Pedro Preto atravessava a rodagem no

meio dos carros que passam em alta velocidade e dizia: - carro não atropela chofer!. Um dia a chaminé da padaria de Seu Pedro Preto acordou sem fumaças e povo de Banco da Vitória ficou órfão. Ficamos todos sem os famosos pães em forma de jacarés, pães de leites, doces e de cocos. Ficamos também sem as bolachas ararutas, sem Seu Pedro Preto e sem seu generoso coração sergipano, que foi sepultado no lugar que ele mais amou em toda sua vida: os solos mornos de Banco da Vitória.

13 - O Caroço de Bembeu Naqueles tempos havia em Banco da Vitória um famoso cabaré, reduto de formosas mulheres damas e ponto de encontro da boemia local. Esse ‘brega’ ficava na antiga Ruinha, mas devido a alta criminalidade entre os seus freqüentadores, ele foi transferido para uma área que se chamava ‘Perto da Presa Pequena’, no sopé direito do Alto da Bela Vista. Lá na Rua da Presa, Seu Julio da Taiobinha, Bembeú e o ‘angelical’ Dalila atendiam os fregueses e propiciavam os prazeres da carne. A estrada dessa rua era de barro vermelho e quando chovia nem caranguejo subia a ladeira que se iniciava perto do matadouro. As esposas e mães preocupadas, - para saberem se seus maridos e filhos tinham idos até o brega de Bembeu -, inspecionavam as bainhas das calças e as solas dos sapatos dos maridos rueiros. Se tivesse marcas de lamas vermelhas neles, a resposta era certa: os ‘rapazes’ tinham freqüentado o famoso bate-coxas da Rua da Presa. Antro da perdição. Lugar indecente para homens de bens e exemplares pais de famílias. Foi Dantinha, irmão de seu Oliveira, o maior dançarino de Banco da Vitória, que nomeou o local de “O Caroço” e o nome pegou ao gosto dos fregueses. As ‘meninas”, - como eram chamadas as carinhosas mulheres damas do local -, de vez em quando desciam o morro e desfilavam pelas ruas de Banco da Vitória agarradas em Dantinhas como siris em cordas. Todas faceiras, elas mostravam os seus vestidos floridos e seus andares rebuculosos. “Isso é um ‘assunte’ da peste!” Protestava Dona Normélia. “Renca de Quenga do Cão’. Dizia Dona Chica, mãe de Ivone. Mas Dantinha não se importava com isso e com as suas meninas, ele bebia e dançava o dia inteiro na venda “Visgueira”, do meu pai Carrinho. Todas as noites Dantinha e Seu Júlio iam ‘bater ponto” no Caroço, onde a dança corria solta e a alegria exalava pelos ares. Lá não havia arruaças e quando alguém resolvia brigar no recinto, descia preso pelas mãos severas de Odilon Soldado. Normalmente o arruaceiro dormia na cadeia que ficava no matadouro municipal e só era solto no meio da tarde. (- para passar vergonha, como dizia Odilon Soldado).

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Todas as noites o Banco da Vitória dormia embalado pelas as músicas que tocavam nas radiolas do Caroço. Eram músicas para alegrar os corações de gente grande e despertar ciúmes nas esposas solitárias que esperavam os seus maridos boêmios. Dantinha, dizia que deu o nome de ‘Caraço’ ao brega de Banco da Vitória em homenagem as suas peripécias sexuais. Afinal, ele dizia que toda noite ai até o brega e ‘acertava no caroço’. Seu Juca, pai de Dui, dizia que o caroço que Dantinha acertava era o ‘caroço’ do seu ‘bolso furado’. Garapa, exímio preparador das famosas ‘garrafadas Levanta até Morto’, dizia que Dantinha era o seu melhor freguês e que as ‘meninas’ cientificavam que ele ‘dava no couro’ todas as noites. Tonho de Nouzinho dizia que Dantinha dava mesmo era no couro dos sapatos, pois dançava a noite toda e não se cansava. Lindor, nunca duvidou das artimanhas do seu irmão dançarino. Afinal o sucesso de Dantinha com as ‘meninas’ corria aos quatro cantos de Banco da Vitória e já tinha feito até seguidores como Xisto Gomes, Seu Luiz do violão e Cuorinho, que todas as noites ‘batiam pontos’ no Caroço de Bembeu. Um dia, Deus precisou de um instrutor de danças nordestinas para alegrar o céu e convidou Dantinha. O nosso famoso freqüentador do Caroço não recusou o convite e em plena noite de uma segunda-feira, ele se apresentou no Reino Divino. Nesse dia o xaxado então se tornou a dança preferida dos Santos.

14 - A Dor na Titela Naqueles tempos, as partidas de futebol amador se chamavam babas. Isso porque essas partidas não tinham regras definidas. Por isso não havia números certos de atletas em cada time, nem árbitro, tamanho do campo, nem tempo de duração definido etc. Os ‘babas’ eram redutos dos jogadores chamados de 'pernas de paus' e aconteciam em todos os lugares como nos areais, nas ruas sem calçamentos e nos famosos campinhos. Havia o campinho da União, o da olaria de sue Jasson, o do Alto da Bela Vista, o do Pacaembu e o mais famoso de todos que era o da Amendoeira, que acontecia num campo tosco que havia onde hoje se tem a quadra de esportes da Rua Dois de Julho. Os ‘babas’ não eram jogados, eram 'batidos'. Por isso não eram poucas as vezes que um 'cacete' rolava no meio do jogo e a turma ‘do deixa - disso’ entrava para acalmar os ânimos dos mais exaltados. Quem definia quem era expulso do jogo era o dono da bola. A mesma coisa ele fazia quando resolvia terminar a partida. Pegava sua bola e acabava o jogo. Um dia, teve um baba vespertino no campinho da amendoeira, que entrou para a estória de Banco da

Vitória. Por sinal, essa partida foi assistida por Dona Dedé, mãe de Nida, e o seu cachorro toti, por seu Duba, pai de Marcelo, e Zé Bispo, que não perdia uma partida no campinho da amendoeira. Nesse baba o pau correu solto e a bola sofreu sob os pés descalços. Um dos times era formado por Roberto de Dolores, Liminha e Jorge Jovaly, Dau e seu irmão Tura, Gugu, Seny, Undê, irmão de Zezeca e Nete e Dil de Noémia. O outro time era composto por Cigano, Dael, Geovane, Zé Carlos de Zé Bispo, e Gosto (Juracy). Havia ainda nos bancos de reserva Playboy Pequeno, Danda, Manhão e Neto. Os goleiros eram de um lado Carlinhos de Doloures e do outro lado o famoso esquelético Zé das Cinzas, irmão de Nego da Onça e Nadir. No baba, a bola sofria igual uma mala velha que apanhava para largar a poeira. As jogadas mais pareciam golpes de artes marciais e os passes mais pareciam pulos de capoeira do que de futebol. No meio do baba, Undê fez uma jogada extraordinária e deu um dibre da vaca em Zé Carlos, depois passou a bola para Seny que, num jingado estranho passou pelos zagueiros Dau e Dil. Já na cara do gol de Zé das Cinzas, Seny foi atropelado por uma massa de músculos e ossos. Zé das Cinzas se jogou para proteger sua meta. Jovali deu um chute mortal. A bola eclodiu no tórax esquelético de Zé das Cinzas. Então se ouviu um grito assustador: - Aaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!! Zé das Cinzas agonizava debaixo da massa suada de corpos musculares e E gritava feito um louco sobre efeito da dor mortal. O grito foi tão assustador que todo mundo se calou de repente e foram socorrer o pobre goleiro magro e amarelo que agonizava e rolava no chão, embalado num grito uníssono: - Aaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!! Dona Dedé, vendo a cena, mandou imediatamente pegar um balde de água e Roberto de Dolores jogou o balde inteiro no rosto do enfermo que agonizava na ngrama. Nito, filho de Dina Dedé foi pegar o álcool conforado e Playboy deu uma massagem na caixa dos peitos de Zé das Cinzas, que gemia alucinado de dor. Zé Bispo receitou passar fumo mascado no nariz de Zé das Cinzas, que continuava gemendo como louco. - Aiaiaiaiaiaiaiaiaiaiiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiii Na venda de seu Lindoti, a turma do carteado bebericavam rabos de galos. Entre eles tinha um médico chamado Jorge Medauar, que gostava de freqüentar o local. Ouvindo os gritos mortais do pobre Zé das Cinzas, o médico correu e foi socorrer o goleiro morimbudo. - Afasta! Afasta! Afasta. Ordenou o médico enquanto os jogadores olhavam para o gemedor que se contorcia no chão. O médico se apresentou e começo a apalpar a barriga e o tórax de Zé das Cinzas e lhe

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira perguntava: - Dói aqui? Doi aqui? Onde está doendo meu filho? Zé das Cinzas, com os olhos mergulhados em lágrimas e a voz trémula, respondeu: - É na tittela. Na titela. Na titela!!! - Onde dói, meu jovem, indagou educadamente o médico: - É na titela, doutor. - Na titela! Repetia Zé das Cinzas. O médico no meio da dor sofrida pelo nosso personagem, perguntou ainda: - E onde fica essa tal de ‘titela’, meu filho?. Zé das Cinzas levantou a cabeça, olhou o médico e disse apontando para o abdome: - É aqui doutor. E chorando disse: - E uma dor de facão da peste, perto da titela!! - E onde fica essa titela, meu filho? Perguntou novamente doutor Jorge, querendo entender a dor do pobre rapaz. - Zé das Cinzas olhou novamente para o médico, passou a mão nos olhos lagrimejados e perguntou: - O senhor é médico ou é o que mesmo? Não sabe nem onde fica a titela!! Doutor Jorge Medauar diagnosticou o paciente e disse: - Ah! A cos-te-la!.

duas coisas eram certas: ou eram meninas pequenas ou eram mulheres solteiras. Mulher adulta e casada cortava o cabelo em casa, - sob a ordem do marido ou do pai. Os mais famosos 'cabeleireiros' de Banco da Vitória eram Oficial do Cavaquinho, seu Piu da Tenda da Rua dos Artistas e seu Faustino da Praça Guilherme Xavier. Oficial morava no alto da Bela Vista e era funcionário aposentado da CEPLAC. Seu Piu era um músico impar e cortava cabelos para se divertir. Seu Fastino tinha uma estória á parte. Seu Faustino morava e trabalhava numa casa próxima ao Clube Social e era o mais famoso cabeleireiro do local devido os seus cortes de cabelos. Nos homens adultos ele cortava o modelo chamado de Largarsoni, trazido da Itália e indicado por seu Duba, que era marinheiro de todos os mares e viajantes de longos oceanos. Nas cabeças dos meninos, seu Faustino cortava o famoso modelo ‘pimpão sem perdão’. - Não me diga quem deu esse nome maldito aquele corte terrível!. Tinha menino que chorava e esperneava na cadeira seu Faustino, que para muitos era conhecida como a ‘cadeira de tortura’. Tinha quem chegava aos extremos e se urinava de medo diante das tesouras de Seu Faustino. Mas nada disso tirava a obstinação de seu Faustino que continuava derrubando as madeixas e assobiando a sua música preferida: Asa Branca de Luiz Gonzaga. A tesoura de seu Faustino se chamava ‘ingrata’ e agia insanamente na derrubada dos cabelos. A navalha amolada se chamava pirulito e a máquina manual se chamava lampi, em homenagem a Lampião, o jagunço nordestino.

Deve ter sido uma luxação na costela, perto do baço. Disse o méico. - Traz um emplasto Sabiá e dois melhoral. Daqui a pouco ele vai ficar bom.

Além de cortar os cabelos dos moradores de Banco da Vitória e jogar dominó todas as tardes, seu Faustino era também um educador informal e requisitado conselheiro de família. Isso porque, quando um menino teimoso não atendia a sua mãe, ela logo dizia, em tom assustador:

Zé das Cinzas foi levado para casa e o baba continuou como antes.

“- Se você não ficar quieto eu vou levar você para cortar os cabelos em seu Faustino!”

Uma hora depois, doutor Jorge Medauar comentou na venda de seu Lindotti.

Por conta deste anúncio medonho, o nosso bairro era cheio de meninos educados, porém cabeludos.

- É verdade!!! 25 anos de medicina e sempre aprendendo cada vez mais. Dor da titela e dor de facão. Só em Banco da Vitória que a gente ver essas coisas.

A meninada de Banco da Vitória tinha medo de seu Faustino e das suas tesouras ligeiras. O maior medo era na verdade de uma máquina manual de cortar cabelos: a lampi, da marca Stheiugarrt Haiburg de fabricação alemã e famosa por não reconhecer cabelos, couro cabeludo ou orelhas.

A Tesoura de Seu Faustino

A 'maquina lampi' fica no canto da banqueta da tenda. Quando seu Faustino tocava nela, o chororó começava na Praça Guilherme Xavier. Quando os meninos choramingavam nas cadeiras do salão de seu Faustino, ele chocalhava as tesouras amoladas junto as orelhas dos 'anjinhos' ou então mexia na sua

Zé das cinzas respondeu: - Isso! Titela.

Naqueles tempos não havia cabeleireiros em Banco da Vitória. Os homens e meninos 'faziam' os cabelos nas tendas. As mulheres, - quando cortavam os cabelos,

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira máquina 'nazista', produzindo um som tenebroso para as pobres menininhos. Era um som terrível. Os famosos: “tcetec, tectec, tectec...” nos ouvidos das pobres crianças. Para reforça o seu argumento, seu Faustino ainda dizia: - 'Ainda não cortei uma orelha hoje!' O império do terror estava implantado naquele salão. Tinha menino que se urinava ali mesmo. Outros eram trazidos amarrados e os pais ficavam na porta do salão para não haver fugas. Seu Faustino, - ao seu modo peculiar e digno da sua educação exemplar -, ajudou muitas famílias e tantos meninos em Banco da Vitória. Ele era mais um educador do que um cabeleireiro. Tinha menino que de medo não passava nem nas ruas onde seu Faustino costumava jogar dominós com seus amigos. Profundo conhecedor das traquinagens dos meninos peraltas de Banco da Vitória, o seu Faustino aproveitava os cortes de cabelos para dar uma 'mastigadinhas' com a ponta de tesoura nas orelhas dos meninos mais danados. Desse modo a sua fama era grande em nossa comunidade, pois menino danado respeitava mais seu Faustino de o padre.

16 - Os Hippers de Banco da Vitória Naqueles tempos, - isso no início dos anos oitenta do século passado -, se montou uma aldeia de hippers em Banco da Vitória. De um dia para o outro a rapaziada começou a se vestir com roupas floridas, batas largas, calças de sacos de linhagem e exibiam fartas cabeleiras, psicodélicos colares e pulseiras multicolores. Se ouvia “Paz e amor”, “Salve a mãe natureza!” “E ai Bicho?” por todos os cantos. Banco da Vitória estava imitando Arembepe, redutos dos hippers dos arredores da cidade de Salvador. Essa tribo exótica era composta por Leão (Gilson de Lindote), Beu, filho de Júlio da Taiobinha, (um bar que se tinha na Rua do Campo, perto da casa de Dona França), Paulo Coragem, Marilia e Marta, filhos de professora Gláucia e seu Nafital, Carlinhos de Nerilda, Carlinho de dona Vilma, Coquinha, Orea de Nico, Luizão de seu Otaviano, Esso de seu Amorzinho, Gil Pithula, Miguel de Lau, Tonho de Botão entre outros... Essa galera alegre curtia a vida livre e cantavam e dançavam nas madrugadas de Banco da Vitória. Eram todos amantes dos cantores Novos Baianos, Raul Seixas, Wilson Simonal, Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Roupa Nova, Beto Guedes, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Zé Geraldo, Belchior, Milton Nascimento, Beto Guedes entre outros. O ponto de encontro dessa rapaziada era no velho chafariz que existia onde hoje se tem o posto policial.

Ali eles vaziam reuniões noturnas, cantavam, dançavam e faziam rituais em louvor a lua, a noite e as estrelas. Ali eles bebiam vinhos e cachaças ou então fumavam cigarros envoltos do famoso papel colomy. Tudo era paz e amor, amor e paz. Essa trupe era ao mesmo tempo amada e odiada por muitos moradores de Banco da Vitória. Tinha os que adoravam vê-los tão alegres e em paz com a vida e, os outros que os criticavam e os chamavam de desocupados e preguiçosos. Mas a galera hipper era do bem e viva alegre, curtindo a natureza e as belezas das matas e das águas do rio Cachoeira. Tinha dia que eles faziam rituais para comer somente frutas das matas. Outras vezes faziam caminhadas pela beira do rio onde pescavam e dançavam. Um dia, Orea de Nico, Esso, Mique e Leão resolveram fazer uma viagem psicodélica e fizeram uma infusão de cogumelos selvagens com flores de corneta. Depois fizeram um xarope dessa mistura e beberam o líquido alquímico, numa experiência psíquica. Minutos depois todos estavam ‘doidos’ de jogar pedra, correndo nus pelas ruas e subindo nos poste de iluminação elétrica. Até hoje eu me lembro dos comentários de dona Normélia, esposa de seu Péricles. Ela descreveu o corrido com o seu forte sotaque sergipano: “- Vocês precisavam ver o 'espetáculo dos quintos do inferno que passou por aqui!” os três sem vergonhas passaram aqui completamente nus e aos berros feitos loucos. Orea de nico parecia uma tripa seca de bode, passou pulando no meio da rua feito uma gia. – a coisa mais linda do mundo!. O nego Esso, parecia um exú preto com os olhos esbugalhados e os cunhões do tamanho de um abacate podre. Gilson de Lindote parecia um calango verde morto de fome e esturricado mo meio do sertão. Os três passaram por aqui feito o raio da silibrina. Pulando nas janelas, subindo nos postes. Todos nus! Os policiais correndo atrás do bando e os meninos gritando feito em dia de festa. Que coisa horrível de se ver! A que ponto chegou Banco da Vitória com essa tropa de maconheiros!” A trupe dos rippers de Banco da Vitória se acabou do mesmo jeito que surgiu. Uns foram se casando e outros foram se mudando para outros lugares. Daquela galera alegre só restou em Banco da Vitória Orea de Nico. A única coisa que ainda os unem hoje em dias são as lembranças e as saudades dos bons tempos vividos nos ares deste lindo lugar chamado de Banco da Vitória.

17 - 02 Metros e 09 Centímetros de (quase) Homem Naqueles tempos apareceu em Banco da Vitória um morador ilustre e exótico vindo de Ibirapitanga. O rapaz tinha mais de dois metros de altura e se chama David. Este rapaz era enfermeiro de mão cheia e possuía mais de dois metros de carisma, amor,

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira dedicação, educação e presteza. Logo David conquistou o Banco da Vitória e foi adotado pelas nossas famílias. Prestativo, alegre e carismático, David desfilava pelas ruas de Banco da Vitória em cima de um salto de alto de mais 20 centímetros e conquistava todo mundo com o seu trejeito alegre e surpreendente. Em pouco tempo David era mais filho de Banco da Vitória que muitos filhos nativos daqui. Quando alguém adoecia ou precisava de algum socorro, contava logo com as prestezas do nosso querido enfermeiro David, que não media esforços para atender e socorrer alguém. Mas era nas festas que David se superava e encantava todo mundo. Ele sempre chegava ao clube social vestido num colant brilhoso e reluzente, uma calça justa e em cima de uma plataforma, que poucas mulheres ousavam calçar. Ali ele dançava freneticamente, brincava com todo mundo e deixava as mulheres de queijos caídos com os seus saltos altos e passos dignos de uma gazela que planava nas danças. Uma noite, no meio do baile, David resolveu brincar com o saudoso Evilásio, filho de dona Eunice e Florêncio. Entre um passo e outro da dança, David tascou um beijo nos lábios carnudos de Evilásio e depois disse: - Negão gostoso de mel! Evilásio empurrou fortemente o nosso dançante amigo e saiu da festa com vergonha. Ele foi beber um conhaque no bar Zebrinha de seu Josias Xavier e lavar a boca com álcool puro. Depois daquela noite, a rapaziada de Banco da Vitória, quando queria zombar de Evilásio, o chamava de 'negão gostosão de mel”, isso em timbrs e tons afeminados. O negão recorria a faca amolada que sempre trazia atada na cintura e ninguém ficava nas redondezas. Evilásio dizia, mostrando a lâmina amolada: - Vem chupar! Vem! Vem lamber o mel! Vem! A galera gritava de longe e Evilásio corria atrás de um ou de outro, assustando todo mundo. Mas isso não passava de uma simples brincadeira de uma homem que foi beijado por David, em pleno clube. David toda vez que encontrava Eviláiso dizia: - Negão lindo! Meu lover! Evilásio respondia:: - Davi do cão. Capeta da meia noite. Evilásio não está mais entre nós, mas dorme no solo morno de Banco da Vitória. David, graças a Deus, continua ofertando amor e carinho nas bandas Embu das Artes, em ares paulistas. O Banco da Vitória tem

grandes saudades dos dois.

18 - O carnaval de Banco da Vitória Naqueles tempos havia comemoração de carnaval em Banco da Vitória. A festa ocorria nas ruas e no Clube Social. Tinha desfile do bloco ‘Peru de Zito’ e a turma do Zé Pereira que animam as noites carnavalescas. Tinha um bloco de mascarados que saia da antiga Rua da Presa e assustava a criançada de Banco da Vitória. Homens, mulheres e crianças vestidos com fantasias toscas percorriam as ruas, cantando e fazendo a alegria de todo mundo. O melhor desta comemoração era descobrir quem estava fantasiado e fazia as astrupilias. A festa acabava no terreiro de Maria Etelvina, na União, - isso, já em alta madrugada. Teve um ano que o carnaval de Banco da Vitória teve até trio elétrico, - idéia capitaneado por Nestor Cotó, que era o então administrador do bairro( na época, distrito) e adorava fazer esse povo Feliz. A festa foi memorável e inesquecível. O trio elétrico ficou inicialmente parado ao lado da casa de Pedrão, na Rua do Campo e ali vez a concentração dos carnavalescos e dos bêbados foliões. O trio elétrico era bem diferentes dos trios de hoje em dia. Havia dois pisos no caminhão cheio de altos falantes e enfeitados de fitas e bandeirolas coloridas. No piso de baixo do caminhão tinha dez homens tocando a percussão e no piso superior tinha os demais instrumentos musicais e os cantores, todos do bairro da Conquista, - celeiros de grandes artistas ilheenses. No meio da tarde, o trio elétrico deu o primeiro acorde da música ‘vassourinha’, sucesso do Trio Elétrico de Dodô e Osmar e metade da população de Banco da Vitória pipocou em alegrias e danças eufóricas pelas ruas da nossa comunidade. Os dançarinos menos experientes imitavam os passos de Gaguinho, que feito um dançarino de frevo pernambucano, pulava de um canto ao outro da rua e alegrava todo mundo. Um menino da época, já se encarregava de animar também o nosso povo. Era Dui, que frenético e cheio de trejeitos dançava e mandava beijos para os músicos do trio elétrico. Na frente do trio elétrico, pulando ‘feito pipoca’ em chapa quente, ia Bel de dona Zefa, Edinha de Cabo Jonas, Nete de Carmé, Liu de Gaguinho, Vera de Dona Cabocla e Neide de Dona Júlia de seu Taurimdo. Abrindo o caminho no meio da multidão vinha Marlito, Jovaly, Zé da Torta, Godó, Dau, Teco, Bira, Seni, Jorge de Dona Lia, Undê (irmão de Zezeca), Gugú, Miguel de Dona Terta, Ingá, Orea de Nico, Zé das Cinzas, Vera de Gaguinho, Esso e muitos outros dançarinos. Todos, obviamente em estado de êxtase musical. Atrás do trio do trio elétrico e longe das cotoveladas dos ‘abre-alas’, vinham as moças e crianças, que capitaneada por Nida de Dona Dedé, Hilda de Nerilda, Soraia de Lindote, Vaninha de Jeoval e Iris de Dona

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Chica. Elas coordenavam as danças e cuidavam das crianças, que, mas pareciam amedrontadas com os acordes dos altos falantes que cuspiam sons estridentes. Todo mundo dançava e se alegrava a cada novo acorde do pau-elétrico e dos repliques das caixas de percussão que animavam o trio elétrico de Tony Neto. E o melhor de tudo: apesar da multidão de dançantes não houve um só incidente ou briga. Muita gente passou dias com as pernas inchadas de tantas danças e pulos carnavalescos. Houve quem perdeu algumas unhas dos pés e no dia seguinte, seu Alfredo, pai de Liminha, achou cinco pedaços de dentaduras, oito molhes de chaves, uma calçola, uma aliança e duas notas de um Cruzado. Os restos foram cinzas da festa. Se se pudesse ver do alto, as ruas de Banco da Vitória tomadas por tanta gente, mas parecia uma serpente viva que deslizava pelos paralelepípedos e sorria sob sol. A festa correu por toda tarde e foi até a madrugada. Nunca se viu tanta alegria entre o nosso povo, quanto naquele dia. A mesma coisa também se pôde dizer da quantidade de bêbados caídos pelos passeios e praças e das mães que procuravam as suas filhas ’sumidas’ no meio da festa. O trio elétrico foi um sucesso estrondoso e jamais esquecido pelo nosso povo. Até hoje tem quem se lembre desta festa e mareja os olhos em sinal de saudade. A festa foi tão fantástica, que houve até protestos dos evangélicos da época, que viram muitas das suas fiéis se seduzindo pela festa do ‘capeta’ e caindo na gandaia do melhor carnaval de Banco da Vitória. Há quem diga que até hoje há pessoas em penitências devidas os seus tantos pecados cometidos naquela noite momesca. Uma das coisas que eu jamais esqueci: foi ver a massa humana de Banco da Vitória pulando e cantando ao som do grande sucesso da época. Era uma música que começava assim: “- Kong, Kong, Kong Fú, chinês valente. Homem para chuchu!…” Quando tocava essa música no trio elétrico o povo explodia em alegria e o refrão se ouviu até em Cachoeira e no Morro do Miliqui. Devemos esse momento singular e tantos outros memoráveis a Nestor Pereira, que de tanto amar o Banco da Vitória, dedicou todos os seus dias na promoção da alegria da nossa gente. Por sinal, Nestó Cotó, neste dia de festa carnavalesca vinha no meio do povo, dançando feito criança e cutucando os desavisados da alegria, como o seu toco de braço. De vez em quando ele dava um cascudo num menino cabeçudo, cutucava as costelas de uma moça ou fazia uma fila de dançarinos, que em profusão, o abraçavam calorosamente e diziam em sorrios: amamos-te e jamais lhe esqueceremos. A promessa foi atendida.

Hoje, Nestó Cotó promove festas no céu e é o juiz oficial nas partidas de futebol entre os anjos e os arcanjos celestiais. Entre nós ficaram as alegres saudades.

19 - Quem Bateu em Tum? Naqueles tempos, Osmário, - hoje nosso reconhecido pastor evangélico -, era chamado em Banco da Vitória pelo apelido de 'Seu Tum'. ‘Seu Tum’ era um pescador fantástico e um fabuloso jogador de futebol. Ele jogava de ponta direito arisco – como dizia Zé da Alinhagem. Durante as partidas de futebol, ‘Seu Tum’ fazia gols de todos os tipos e modos. Ele era a alegria das tardes de domingo em nossa comunidade. Os laterais e zagueiros sofriam com os dribles curtos e ligeiros do baixote jogador de futebol. Os goleiros temiam a presença de Seu Tum nos time adversários. Já a torcida adorava ver esse excelente jogador abrilhantar o futebol de Banco da Vitória. Além de excelente jogador de futebol, Seu Tum já foi lutador de box e teve como treinador o exímio boxer da fama internacional, Cabo Jonas. Apesar de baixa estrutura física, Seu Tum era um boxeador ligeiro e arisco e não tinha medo de lutar com ninguém, indiferente do peso ou altura do adversário. Um dia houve uma luta de box memorável no clube social de Banco da Vitória. Seu Tum desafiou outro lutador de box e outras artes marciais, conhecido como Florêncio, o então marido de Dona Eunice do carramachão. Florêncio era um homem tarugado e forte, negro de quase dois metros de altura e beirava os cem quilos de peso. Quando a luta começou todo mundo já sabia do resultado. Ia haver o massacre de seu Tum. Florêncio, auto intitulado ‘O Matador’ ia acabar aquela luta logo no primeiro round. Isso de fato ocorreu, em parte. Seu Tum apanhou igual uma mala velha para largar a poeira antiga, mas não desistiu do desafio. Florêncio bateu em Seu Tum por mais de 10 minutos e a torcida pedia o fim da luta. Mas ai apareceu o elemento surpresa. Cabo Jonas piscou o olho para seu boxer, indicando o golpe secreto e Seu Tum ganhou a luta. O fato aconteceu assim: no meio da pancadaria, ‘Seu Tum’ deu um golpe chute nos testículos de Florêncio. O negão desabou no chão feito um saco cheio de cacau e de lá não se levantou. Florêncio gemia feito um bezerro capado enquanto Seu Tum pulava e mostrava os bíceps. Seu Tum foi então logo dado como vencedor da luta, pelo árbitro, que por ocasião oportuna, era o próprio Cabo Jonas. O clube social só faltou vir abaixo diante dos gritos dos espectadores! As mais de 400 pessoas presentes desta luta memorável saíram com o

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira vitorioso Seu Tum nos ombros, gritando e festejando pelas ruas de Banco da Vitória. Florêncio foi carregado para casa, onde ficou muitos dias sem sair da cama. ‘Seu Tum’ passou uns dias ‘entocado’, sem sair de casa, como medo do revide jurado por Florêncio, diante da imagem de São Jorge, seu santo protetor. Depois, os dois boxeres se encontraram na Taiobinha de Seu Júlio e tudo se acertou entre amizades, risadas e doses de pinga. Uma noite, havia festa no clube social, onde o Good Som de Jorjão animava o baile de Banco da Vitória. O porteiro era Jorjão e os seus mais de dois metros de altura, cento e cinqüenta quilos de raiva e pouca paciência. Foi então que chegou Seu Tum já afogado na cangibrina e os outros sinônimos da aguardente de Banco da Vitória - e subiu os degraus de acesso ao clube. Na portaria, ele tentou entrar na festa sem pagar o ingresso. Jorjão repudiou a sua investida e num só golpe, tirou o pequenino Tum da porta do clube social. Seu Tum se sentiu ofendido pela aversão de Jorjão e por mais de meia hora tentou furar o bloqueio do já irritado porteiro. Por último, o Jorjão deu um violento cascudo em seu Tum e o empurrou de escada a baixo. O pobre Seu Tum caiu quase no meio da Praça Guilherme Xavier e saiu de lá chorando pelas ruas. As pessoas da praça zombaram do choro infantil do nosso fantástico jogador de futebol. ‘Seu Tum’ foi se consolar no bar de Zé da Linhagem, na rua do campo. Lá ele se queixou do acontecido e sensibilizou Cabo Jonas, que resolveu tirar satisfação do ocorrido. Cabo Jonas saiu de venta aberta pela Rua do Campo rumando para aportaria do clube social. Foi seguido por Seu Tum que ainda choramingava e se queixava. Cabo Jonas chegou à porta do clube bradando e enfurecido. De lá gritou forte: - Quem bateu em Tum? Quem bateu em Tum? Quem bateu em Tum? Eu quero saber agora! Me diga que fez essa maldade! Jorjão, vendo a assombração sonora que Cabo Jonas fazia na portaria do clube social, se aproximou do nosso ilustre amigo e também gritando disse, nos bigodes de Cabo Jonas: - Fui eu! e daí? Cabo Jonas olhou o porte físico de Jorjão, tosou o cidadão de cima a baixo, mediu com os olhos a largura dos seus ombros e retrucou na hora. - Bem feito! Bem feito! Tum tá muito ousado quando bebe. Bem feito. Bem feito mesmo. Se fosse eu dava uns dez cascudos nesse menino ousado e teimoso... Cabo Jonas foi embora pela mesma rua por aonde veio.

Na verdade, Cabo Jonas foi para casa tomar um ‘engrossante’ feito por Dona Deth, sua querida e dedicada esposa. Seu Tum foi para a Pedra de Guerra, tomar banho e curar a ressaca.

20 - O Dia da Trágica Vacinação Naqueles tempos as crianças tinham ojeriza por vacinas e principalmente aquelas aplicadas com injeções. Quando se dizia que ia haver vacinação no Grupo Escolar Herval Soledade, as salas de aulas ficam vazias. Somente meia dúzia de alunos aparecia na escola. De uma hora para outra todo mundo adoecia coletivamente e não podia ir para as aulas. Por conta disto, a Secretaria Municipal de Saúde fazia vacinações surpresas e pegava os alunos dentro das salas de aula. Era um verdadeiro alçapão. Naquela manhã, o caminhão com os funcionários da prefeitura que iam aplicar as vacinas chegaram por volta de dez horas e pegaram todo mundo de surpresa. Os meninos e meninas entraram em alvoroço e choraram em coro que se ouvia da Água Boa até a curva da União. Zé Pote pulou a janela da sala e se refugiou na mata da Rinha. Foi acompanhado por Gosto, Neto e Reno. Um menino que morava na Fazenda Porto Novo se jogou no rio cachoeira e foi para casa nadando rio abaixo. Umas meninas se urinaram e choraram. Mas mesmo assim puxaram a fila da vacinada. A primeira que tomou a vacina sem chorar foi Creu, seguida por Edna de Dona Lurdes, Iracema de dona Nomélia e Rita de dona Inês. Na hora dos meninos, a coisa ficou feia. Carlinhos Lee Molinha, filho de seu Renoél tremia feito vara verde, Jaia, irmão de Iracema soava frio, um menino de nome Rodolfo teve um ataque de epilepsia e caiu no chão, Marcelo de dona Elza teve uma crise de gagueira súbita. Eu, no meio de todos, fui para o fim da fila esconder meu medo. Liminha, - como de sempre hilário e zombador -, foi um dos primeiros a entrar na 'sala de tortura' e tomar a temida vacina contra tuberculose. Quando ele foi saindo da sala, deu um grito assustador que quase derrubou a fila inteira de meninos, que já assustados, tentaram correr em fuga. Ao passar por nós, que tremíamos de medo, Liminha disse, em tom de zombaria e segurando um algodão na altura do ombro: “- A máquina da vacina é um revólver trinta e oito deste tamanho! Dentro do cano sai cinco agulhas que entra no braço, vai até o coração e volta. Dá até para ver o céu e os anjos dizendo: - vem pra cá, vem!” Pronto! O terror foi estabelecido e medo imperou na fila da ‘agulhada mortal’. Zé das Cinzas, que era o próximo a ser vacinado, desmaiou ao ouvir a descrição assassina de Liminha.

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Ali mesmo ele foi vacinado pela pistola sanguinária. Os funcionários da prefeitura tiveram um trabalho danado para conter a massa de meninos que tentava fugir com medo da pistola de vacinação. Teve menino que foi vacinado amarrado. Outros foram pegos no meio dos matos e trazidos arrastados pelo chão. Ao final de tudo todo mundo foi vacinado e ninguém morreu naquele dia de cão. Nego da Onça pegou o seu irmão Zé das Cinzas, que estava caído no chão, jogou nas costas e o levou desmaiado para sua casa. Zé das Cinzas ficou três dias acamado sobre o efeito colateral da vacina. Ele teve febre alta e o local da vacina inflamou. Dona Dedé foi ver a inflamação e diagnosticou: - se inflamou é por que a vacina pegou. Todos nós ficamos com cicatrizes nos ombros esquerdos. Nenhum de nós jamais pegou tuberculose. Mas ninguém jamais esqueceu aquela sofrida manhã.

21 - A Noite no Circo Naqueles tempos, a maior atração de Banco da Vitória, além do futebol, era quando chegava um circo. O circo alegrava toda a comunidade e todas as noites havia memoráveis espetáculos com bailarinas de rumbas, mágicos, domadores de animais selvagens, velhos palhaços, trapezistas e malabaristas. No domingo tinha a sessão de matinê para as crianças e depois a sessão principal às 21 horas. Neste horário o circo só faltava explodir de tanta gente. Literalmente a população de Banco da Vitória tentava entrar no tosco circo de lonas remendadas. Além dos 'shows' apresentados nestas sessões, havia os freqüentadores ilustres como Teca do Rolete, com suas risadas hilárias, Gazula e seu amigo Dantinha, Seu Genésio, Zé Cucena, Zabelé, Ratinho, Pica-pau de Agenor Bolacha e Cabo Jonas. Num domingo circense, estávamos todos assistindo o espetáculo bastante anunciado, onde o mestre das mágicas ia atravessar a cabeça de uma linda moça com uma espada enorme. Como havia algumas crianças e senhoras presentes, o mágico avisou que a luz ia piscar e quando voltasse a luminosidade, moça já estaria com a faca no crânio e obviamente, viva. Quando a luz piscou se ouviu um grito assustador no meio do picadeiro e outro mais assustador ainda, nas arquibancadas. Junto a esse último grito se ouviu ainda a queda de um corpo por trás das lonas e amarras. Quando a luz se acendeu a moça andava com a espada 'encravada' no crânio e o mágico se exibia entre aplausos. No chão, perto das lonas do circo, Maroto passava a mão no pescoço e procurava indícios de sangue. Nós entre os meus amigos sorríamos leitos loucos, enquanto mostrava para

maroto o talo de bambu que eu tinha furado o seu pescoço, no momento da mágica assassina. O espetáculo acabou sobre aplausos com o mágico retirando a espada do crânio da moça em plena luz do circo. Para Maroto, aquela noite, não teve mais alegria.

22- O Forró de Maria Alcina Naqueles tempos havia uma festa que o povo de Banco da Vitória não perdia por nada deste mundo. Era o forró de Maria Alcina, uma baiana nascida no sertão de Jeremoabo e que veio para o Sul da Bahia, expulsa pela seca que assolava o Nordeste brasileiro, no inicio do século passado. Dona Maria Alcina morava na antiga estrada da beira do rio Cachoeira, que iniciava em Banco da Vitória e ia até a fazenda Progresso, nas franjas de Itabuna. A roça de dona Maria Alcina ficava na beira do rio, nos fundo de onde se tem hoje um posto de combustível, depois da fazenda Pirataquisé. A data da festa era 19 de junho e se chamava de Forró da Peste. Quem recebia o povo na porteira da roça era o saudoso Nelson Fontes, amigo dos filhos de dona Maria Alcina. João de Coló, Antônio Isaias, seu Oliveira, Dantinha, seu Jeoval e Paulo Rocha eram freqüentadores assíduos e dançavam a noite inteira nesta festa. Os músicos que tocavam no forró de dona Maria Alcina eram todos sertanejos, seus irmãos, cunhados, filhos e sobrinhos. Segundo Tio João de Coló, ele nunca tinha visto um forro daquele em toda sua vida. Ele dizia que a festa era tão animada e cheio de detalhes impressionantes, que era impossível esquecê-la. Um dia, na casa de minha vó dona Cabocla, tio João de Coló se preparava para almoçar conosco, quando meu avô seu Feliciano de Assis, lhe perguntou: - E ai João, como foi aquele forró que você foi à casa de dona Maria Alcina? Tio João de Coló, não perdeu a oportunidade de recontar a mesma estória pela octogésima sexta vez e disse: - Foi um forró da peste! Igual, eu nunca vi. O folgueirão ardia no meio do terreiro feito o sol de verão em Picos, no tórrido Piauí. A meninada soltando bombas e balões toda hora. O milho assado estava por todo canto. O licor de jenipapo escorria pelos cantos das bocas. A carne assada aromava os ares. As moças dançavam todas faceiras e perfumadas. Os homens todos nos trinques e, no carramachão, montado ao lado da casa, o forró corria solto e sem descanso. Tinha gente saindo pelas janelas. - Cabocla – disse tio João – Nelson Fontes e Antônio

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Isaias estão ai de testemunhas. Vivinhos da silva e não me deixarão mentir. O forró era esquentado na chapa quente. Igual, eu nunca vi. O sanfoneiro era um músico extraordinário. Tocava a sanfona, ajudado por dois rapazotes magricelos. O homem tocava a sanfona e batia o pé no chão para marcar o compasso da música. Ele batia o pé com tanta força que fazia um buraco deste tamanho no chão. De hora em hora os dois rapazotes pegavam o sanfoneiro de dentro do buraco e botava ele para fora. Tinha de trazer dois caçoais de terra para tapar o buraco. O zabumbeiro tocava com um estoque preparado de dez a quinze couros de bode e cinco zabundas de reservas. O zabunba sofria sobre porrada dura e de hora em hora se trocava o couro rasgado. O pandeirista, um magricelo chamado Aranha, parecia que sofria de epilepsia. Tocava o pandeiro e tremia todo com se estivesse numa crise de convulsão nervosa. Mas O som era gostoso e eu só fungando nos cangotes das meninas. Minha especialidade! Agora o mais impressionante era o tocador de triângulo. - Feliciano de Assis, - disse João de Coló- o homem tocava o triângulo encostado a um balde grande cheio de água fria. Os ferros gemiam nos tuligulim, tuligulim, tuligulim, tuligulim, tuligulim. O macho batia os ferros com tanta força, que o triângulo fica vermelho em brasa. Aí o tocador de triângulo enfiava o instrumento na água fria e: xiiiiiiiiiiiissssssssss!!!. A água fervia! O cabra puxava o triângulo da água fervente e tudo começa de novo: tuligulim, tuligulim, tuligulim, tuligulim, tuligulim... e eu só no rasta-pé e no fungado gostoso.. Meu avô Feliciano sorria das lorotas de João de Coló e minha avó Dona Cabocla sorria de orgulho do seu irmão festiero e mentiros. João de Colo ainda argumentava: - Foi lá no forró de Dona Maria Alcina que eu conheci Eufrásia, filha de Antônio Antão, morena faceira, ancas largas, boca carnuda, boa de dança e chamego...

Os apelidos sempre foi uma forte característica brasileira. Em Banco da vitória, esses codinomes são famosos, imagine você saber os verdadeiros nomes de: buré(filho de Caburé), Zé Pote, Bigode, Nide, Beré, Gogó de Sola, Zé Birro, Zé Beicinho, Biinha, Esso, Orelha de Nico, Paulo Coragem, Coquinha, Zabelê, Gazula, Quibe, João Marreco, Sete-cabeças, Gazula, Gosto-no-Toba, Seu Piu, seu Duba, Cacá, Pinquela-amotor, Cu-de-leão, Channã, Nego, Cigano, Tiziu, Tatá, Zé das Cinzas, Mique, Dona Loura, Lete, Litinho, Dona 'Dona', Dona Fia, Cassê, Dona Zefa, Maroto, Jatobá, Liminha, Jovaly, Busca-pé, Dey, Diu, Dui, Tura, Tarulim, Vaca, Esquiquire, Careca, Gatão, Gatinha, Seu Tum, Cunuto, Coió, Seu Diva, Juranda, Veinho, Ney, Zezeca, seu Cazeca, Gaguinho... Já o ' de quem' quer dizer, filho ou filha de alguém. É nessa hora que se vislumbrar a verdadeira toponímia da nossa gente. Veja só os 'nossos' sobrenomes caricatos. Veinho de Mira, Nida de Dedé, Lito de Cilú, Roberto de Doloures, Tonho de Nouzinho, Rita de Marilda, Ana de Nerilda, Carol de Pedro, Márcia de Marinalva, Ivone de dona Chica, Jorge de dona Lia, Lula de dona Inês, Rubem de seu Luiz, Célio de Carmerindo, Tonho de Farrabufado, Roque de Dedé, Paulinho de Creu, Marta de Otacílio, Zé de Boaventura, Iran de Iracy, Vaninha de dona Cabocla, Nego de dona Constância, Tonho de Miguél Farias. A lista é sem fim. Como se ver o Banco da Vitória é um verdadeiro celeiro de apelidos e 'de quem'. Temos tantas facilidades de colocarmos nomes em pessoas, que estendemos isso até para as ruas, como: a 'União', o 'Lote', a 'Beira-rio', a 'Praça', o 'Clube', o 'Panavueiro', a Rua do Cemitério', a 'Ruinha' e a 'Beira da Pista'. Hoje o Banco da Vitória está repleto de gente com nomes de artistas, cheios de 'Y', 'W', 'K' e 'Bergs'. Mas mesmo assim, muita gente tem apelidos carinhosos e curiosos.

Meus avôs sabiam que ia começar uma nova estória, desta vez com muitos mais detalhes e poucas verdades, como de costume.

Uma coisa é certa: se você nasceu em Banco da Vitória, devia incluir no seu nome o sobrenome 'Vitorioso'. Pois assim deviam se chamar todos que nascem entre as franjas da Mata Atlântica e o calor das marés do Rio Cachoeira.

23 - Você é 'de quem?'

24 - O Forró de Dona Raquel

Naqueles tempos ninguém tinha sobrenome em Banco da Vitória. Ou a pessoa tinha um apelido ou era 'de alguém'. O apelido valia mais que o nome próprio e muitos dos nossos moradores viveram e sobreviveram nas nossas memórias sem jamais sabermos como realmente se chamavam.

Você já dançou no Forró de Dona Raquel?

O termo 'de quem' queria dizer 'filho de alguém', 'parente de alguém'. Desta forma, se um oficial de justiça chegasse a nossa comunidade procurando uma pessoa pelo o seu nome de registro, por ter certeza que não encontraria a pessoa procurada.

Se a sua resposta for sim, meus parabéns. Se não, me desculpe, mas você é menos feliz que muitos de nós. Dona Raquel era uma católica devota de Nossa Senhora da Conceição e morava na Rua São Pedro. Todos os anos, em sua casa, ela realizava o melhor forró de Banco da Vitória. Dona Raquel era mulher forte e iluminada. Ela sabia sorri da vida e bailava como se fosse uma pluma ao vento. No seu famoso São João, ela era a dançarina mais

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira requisitada e tinha até fila de homens, esperando uma 'mão de dança' com a famosa dona casa e festeira. Todos os anos, no mês de junho, Dona Raquel pedia aos seus filhos Canuto e Julinho que pintasse a casa e reformasse o piso da sala. Os garrafões de licor já estavam esfriando debaixo da mesa da cozinha. Ela enfeitava a frente da casa com bandeirolas coloridas e mandava fazer uma grande fogueira no meio da rua. No dia de São João, as exatas seis horas da tarde, Dona Raquel ligava a radiola Tarteka e o forró começava para jamais acabar. Primeiro, se tinha as crianças dançando e comendo milho cozido e bolo de milho. Depois, a partir das nove horas, se iniciava o forró mais procurado pelos festeiros de Banco da Vitória. A casa de dona Raquel não era grande e na sala pequena só cabiam no máximo doze casais dançando. A festa tinha regras bem definida, como por exemplo: era proibido dá pum no meio do salão; homem não podia portar armas na cintura (todos que chegavam armados entravam pelo beco da casa e davam as suas armas para dona Raquel guardá-las); não se podia dançar a 'indecente bate-coxa”; as mulheres não podiam 'dar malas'; os bêbados não entravam no salão; dançarino 'cintura de pedra' dançava sozinho; mulher vestida de calça não era bem vinda; não podia dançar de rosto colado nem se chamegar demais. Além disto, havia mais duas regras irredutíveis: só se tocava músicas juninas e só haviam dois tipos de licor, o de primeira, oferecido para a 'velha guarda' e freqüentadores ilustres e o de segunda, feito com álcool desdobrado que era oferecidos para os gulosos e perturbados beberrões. Todos os anos, na noite de São João, a casa de dona Raquel ficava pequena devido a quantidade de gente que ia lá dançar forró. Dona Raquel recebia todos com um sorriso encantador, um copo de licor de jenipapo e um punhado de amendoim cozido. Seu João de Coló, Nestor Cotó, Jonas Porco-e-touro, Seu Xisto Gomes, seu Júlio, Dantinha, Antônio Isaias e Nelson Fontes não perdiam este forró por nada deste mundo. Carmerindo, Gogó de Sola, Pedro Melo, Jarinho, Oficial, Seu Alfredo, Deca e muitos outros moradores gastavam os seus sapatos dançando a noite inteira no forró de dona Raquel. As damas não faltavam para a dança. Além de dona Raquel, tinha dona Constância, Dete Catatau, Yracy, Maria Zoinho, Dona Rosália do Alto, dona Margarida, Estelita de Rabada Gorda, dono Maria, Loura, Teca, Dona Vaninha, dona Dete de Cabo Jonas e sua filha Edinha, Maria de Aries, Guda e muitas outras dançarinas de primeira mão. Todos os anos seu Nestor Cotó e seu Diva levavam as suas quadrilhas para dançar na porta casa de dona Raquel e ai então a festa era completa e a nossa geração podia dançar no forró mais animado da região. A festa mesmo só acabava às oito horas da manhã do dia seguinte e dependendo do estoque de licor, no dia de São Pedro tinha mais forró e a casa

ficava lotada de porta-a-porta. Quando junho acabava, dona Raquel ia dançar na festa da Rua Dois de Julho. Ali ela era recebida como a primeira dama das festas juninas. Até hoje é impossível passar pela Rua São Pedro sem olhar para a velha casa de dona Raquel e não sentir saudade da sua festa magistral nas noites de São João. Há quem diga que, passando por lá ainda se ouve as musicas que ali tocava e animava mais da metade da nossa gente festeira. Um dia, Deus percebeu que Dantinha andava triste no céu e pensou em arrumar uma dançarina de primeira, especialista em forró, para animar os ares celestiais. No dia seguinte, no meio da tarde morna do outono de Banco da Vitória, dona Raquel mudou de endereço e foi bailar no céu dos justos e alegres.

25 - O Cinema de Banco da Vitória Quando eu encontro os meus amados conterrâneos, sempre pergunto à mesma coisa: – vocês já assistiram ao filme A Paixão de Cristo, no cinema de Banco da Vitória? Se a resposta for não, eu sei que essas pessoas não moravam em nossa comunidade, nos melhores anos das suas vidas. Se a resposta for sim eu sei que elas, assim como eu, tiveram o privilégio de ver o nosso cinema funcionando e alegrando a nossa comunidade. O cinema de Banco da Vitória era famoso e funcionava no atual clube social. Aos domingos, logo após a missa, tocava a sirene avisando que a sessão ia começar. Normalmente o cinema fica lotado de gente. Tinha muitas pessoas que traziam as suas cadeiras e tamboretes para poder assistir os filmes famosos que eram exibidos ali. Dona Dedé, mãe de Nida, além de levar sua cadeira azul, levava também toti, seu cachorro de estimação, que não perdia uma só sessão de cinema. As moças e rapazes malmente faziam o sinal da cruz na saída da igreja e corriam apressados para o cinema. Afinal no escurinho era possível ‘dar uns ‘amassos’, ‘dar uma de mãos-bobas’ ou até uma triunfal “colada”, como se chamava naquela época o beijo na boca. A idéia do cinema de Banco da Vitória partiu de Seu Amaro, um comerciante que tinha uma bodega, perto da atual casa de Carlos Cambal. Um dia ele trouxe um amigo seu de Itabuna, chamado “Seu Zé” que logo viu que um cinema era uma grande oportunidade de negócio na comunidade. O clube Social era o local perfeito. Tinha um palco grande, cadeiras, sanitários e bilheteria. Na sessão inaugural, a pedido de Dona Lia, se exibiu o fenomenal filme Luzes da Ribalta com o Charles Chaplin no papel principal. Teve gente que se urinou nas calças durante a projeção. O sucesso foi estrondoso e durante vários dias só se comentou esse

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira filme nas ruas de Banco da Vitória. Seu Zé do Cinema morava no Bairro do São Caetano, em Itabuna. Ele era um homem culto e inteligente. Era um cabo-verde de cabelo bom e olhos miúdos. O cinema de Banco da Vitória começou a funcionar no final da década de setenta e durou até o início da década de noventa. Umas das figuras principais deste episódio era Dui, que carregava nas costas uma placa de madeira com os cartazes dos filmes. Dui passava nas ruas e anunciava aos gritos: “Não percam! Hoje às vinte horas e quarenta minutos o magistral filme de artes marciais, o Vôo do Dragão, como o mestre Bruce Lee.” Isso Dui fazia em todas as ruas de Banco da Vitória. Além de anunciar o filme, Dui ainda dava uma ‘palinha do filme” contando algumas cenas ou citando os artistas principais. A noite o cinema estava lotado e os meninos tinham assunto para contar a semana Inteira. Vale lembrar também que o lanterninha era Zé Sucena, que de olhos nas meninas, não deixava ninguém namorar no escurinho do cinema. Como naquela época pouca gente tinha televisão em nossa comunidade, o cinema era a maior diversão para o nosso povo. Para poder pagar um ingresso tinha menino que vendia frutas na rodagem, moça que lavava e passava roupas ou então ficava uma semana inteira sem fazer uma travessura somente para ganhar o dinheiro do um ingresso do cinema. As sessões começavam rigorosamente no horário marcado. Isso porque Seu Zé não podia perder o último ônibus da Sulba para Itabuna que passava as 12:30. Além disso, tinha ainda os problemas com a velha maquina de projeção que queimava as lâmpadas, cortava os filmes, engolia a fita etc. Tudo isso acontecia no meio das projeções, mas eram resolvidas imediatamente pelas mãos hábeis de Seu Zé. Vale dizer que tinha também o intervalo no meio da sessão, quando os homens iam tomar um rabo-degalo no Bar Zebrinha de seu Josias e as crianças iam compra balas, pipocas e roletes de cana. Tarzam, Xita, Jane, Bruce Lee,O Conde Drácula, Charles Chaplin e principalmente os artistas dos filmes de faroeste faziam parte do linguajar do povo de Banco da Vitória. Dizem até que Zé Vieira ia assistir aos filmes dublados, mas não gostava disso não. Ele preferia filmes com legendas, pois assim ele podia lapidar o seu inglês e o seu francês. Agenor Bolacha, Teça, Gaguinho, Courinho, Gazula, Dona Zezé e Cabo Jonas, não perdiam um só sessão de cinema. Eram freqüentadores assíduos. Muitos casais começaram a namorar no escurinho do cinema de seu Zé. Teve gente que até convidou o ilustre ‘operador do projetor’ para ser padrinho de casamento. Mas seu Zé não pode aceitar. O seu coração amante do cinema, já estava combalido com o ocaso das artes em todo o Brasil. Seu Zé insistiu com as projeções em Banco da Vitória até a última sessão, que dizem que só tinha oito pagantes. A televisão tinha decretado o fim do cinema de Banco da Vitória.

Dizem que Seu Zé, quando passava de ônibus por Banco da Vitória, abaixava as vista e marejava em silêncio. Ele sabia o quanto a nossa comunidade lhe proporcionou alegrias e dias prósperos. Afinal, o cinema de Banco da Vitória tinha lhe dado umas casinhas de aluguel em Itabuna, um pedaço de terra com trinta e poucas cabeças de gado em Itapé e uma casa de praia em Olivença. Um outro que ainda hoje sente saudade do nosso cinema é Dui. Afinal, ele era o propagandista, o bilheteiro, tesoureiro e ajudante de toda ordem de Seu Zé e era o único que pegava na mala se trazia o projetor importado. Dui até hoje é capaz de narrar vários filmes que passaram no Cinema de Banco da Vitória, como Laurence da Arábia, A Ponte do Rio Kwai, O Franco-atirador e A Um Passo da Eternidade. O tempo levou seu Zé e nosso cinema. A única coisa que ficou foi a lembrança dos domingos a noite, quando, após a missa o povo de Banco da Vitória ia se deslumbra com a sétima arte e sonhava com dias melhores para nossa comunidade. Por último eu vou lhe fazer a seguinte pergunta: você já assistiu aos seguintes filmes: Adios Sabata!, Ringo, A Morte Não Manda Recado, A Volta do Pistoleiro, A Sombra de Uma Alma, A Morte Anda a Cavalo e A um Passo da Morte? Se sim, você foi feliz em Banco da Vitória. Se não, então que saudade mortal do nosso antigo cinema…

26 - A Estrada de Ilhéus-Itabuna e a Bica da Água Boa de Banco da Vitória A estrada de Ilhéus – Itabuna foi inaugurada em 01 de março de 1928. Essa estrada foi o grande passo para se consolidar o desenvolvimento da Região Cacaueira, uma vez que anteriormente as mercadorias e principalmente o cacau, que chegavam e saiam de Ilhéus rumo a Itabuna e demais cidades regionais, eram trazidas por tropas de burros e mulas pela estrada tosca que beirava o Rio Cachoeira. Essa estrada antiga passava por Itabuna e terminava no Porto do Jenipapo, em Banco da Vitória. Dali as mercadorias iam e viam de/para Ilhéus através de pequenas embarcações que navegavam no Rio Cachoeira. Essa estrada antiga ia além de Itabuna e na localidade de Ferradas, ela se entroncava com a famosa Estrada do Sertão que passava por Vitória da Conquista e dali seguia para o norte do estado de Minas Gerais. O cronista João de Silva Campos cita no seu livro Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus (pag 308) que em 1810 o brigadeiro Felisberto Caldeira Brant mandou construir com recursos próprios uma estrada antiga na margem esquerda do Rio Cachoeira para interligar o Porto do Jenipapo (Banco da Vitória) da Vila de São Jorge dos Ilhéus ao Arraial de

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Conquista. Essa estrada tinha 42 léguas e só atingiu o Rio Salgado, onde habitava os índios querens. Por mais de um século essa foi a estrada que interligava Ilhéus as demais localidades ao oeste que surgiam na antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus. A nova estrada entre Ilhéus e Itabuna foi idealizada 1921 pelo advogado José Nunes da Silva, de Itabuna, e o coronel ilheense Virgílio Amorim. A construção da estrada começou mesmo em 1922 e somente no dia 1ª de março de 1928 é que ela foi oficialmente inaugurada pelo governador Francisco Marques de Góes Calmon. O antigo traçado da estrada entre Ilhéus e Itabuna era muito diferente do que conhecemos hoje. A primeira estrada entre essas duas cidades se iniciava na atual Rua da Esperança em Ilhéus, onde se construiu uma engenhosa ponte de madeira sobre o rio Fundão e dali a estrada seguia para atual Reserva Florestal da Mata da Esperança e surgia em Banco da Vitória na altura da mata da Rinha. Ali a estrada descia a ladeira deste mesmo nome e circundava os sopés do alto do Panavueiro (hoje chamado Alto da Bela Vista). Neste ponto a estrada tomava dois rumos, um novo seguia pela Ruinha, passava em frente ao cemitério, seguia depois para a frente da Fazenda Victória e dali, depois seguia pelas terras da fazenda de Pereira Vanttin, onde logo depois se encontrava em Vila Cachoeira, com o traçado que até hoje se tem até Itabuna. Um outro traçado, chamado de Estrada Velha descia a Ladeira do Posto Médico, entrava na Rua Duque de Caxias, adentrava a atual Rua Dois de Julho, Praça Guilherme Xavier a dali descia para a beira do Rio Cachoiera, onde essa estrada seguia rumando a sua margem esquerda e encontrava a outra bifurcação, na altura de Vila Cachoeira. Vale dizer ainda, que anteriormente essa estrada entrava na cidade de Itabuna na atual bairro da Califórnia. O atual percurso pelo Posto Cachoeira foi feito depois. Na década de cinqüenta do século passado se iniciou a construção da atual rodovia Ilhéus-Itabuna. Essa estrada, ao contrário da antiga, começava na Avenida Itabuna, em Ilhéus, seguia sobre o mangue do Fundão, atravessava a nova ponte de concreto sobre o Rio Fundão e dali seguia para Itabuna, seguindo o atual percurso. Foi nesse novo traçado, cortando desta vez as pedreiras próximas ao Rio Cachoeira, que surgiu Água Boa de Banco da Vitória. Antes a coleta dessa água se dava na margem do rio cachoeira. A água que descia do morro da mata da Rinha era forte e literalmente caia sobre as águas do Rio Cachoeira. Com o corte da pedreira para passar a rodovia que depois seria chamada de BA 415 (hoje, Rodovia Jorge Amado), foi colocado manilhas sob a estrada para escoar a água que descia do morro. No início dos anos setenta, Dr. Halil, um médico que tinha um hospital psiquiátrico em Banco da Vitória, mandou construir um pequeno chafariz na Água Boa onde se colocou até torneiras de

cobre. Dessa forma a comunidade de Banco da Vitória pode usufruir de forma mais higiênica a água da Bica da Água Boa. Essa água era famosa em toda a região devido as suas qualidade minerais e muitos transeuntes entre Ilhéus e Itabuna enchiam latas de água que levam para os seus consumos domésticos. Por muitos anos a água da Água Boa matou a sede do povo de Banco da Vitória que fazia filas diuturnas para coletar o líquido precioso, no tosco chafariz á beira da estrada. A água que caia na Bica da Água Boa nascia no meio da Mata da Rinha, seguia o curso do atual Morro do Iraque, passava pela fazenda de Belmiro e por fim desabava no lugar chamado de Água Boa. Por diversas vezes foram feitas análises da qualidade desta água e em muitas delas se comprovou a sua qualidade de água potável, com forte inclinação para classificação de água mineral. Todavia, com a derrubada da Mata Rinha e a ocupação humana do Alto do Iraque, duas coisas malograram qualidade e volume da Bica da Água Boa. Primeiro foi o assoreamento de sua nascente e percurso, devido ao desmatamento. Como isso o volume de água foi reduzido em quase 70%. O outro fator degradante foi a poluição de dejetos humanos e esgotos, provocados pela favelização do Alto do Iraque. Por esses motivos, estudos recentes de fitologia feitos pela UESC, comprovam que a água da Bica da Água Boa está contaminada por coliformes fecais e é imprópria para o consumo humano. Infelizmente a nossa água especial das pedras da beirada do Rio Cachoeira já não são hoje tão boas quanto as chamamos. Banco da Vitória sempre foi um lugar de água de excelente qualidade. Na antiga fazenda Santa Clara, na ladeira do Descansa Caixão, havia uma grande queda água que fornecia todos os dias vários caminhões do líquido preciso para as casas dos ricaços de Ilhéus e Itabuna. Na Fazenda Victória tinha uma imensa represa com água de excelente qualidade. A mesma coisa se via no alto da Bela Vista, no final da Rua dos Padres, onde se tinha uma fluente bica que fornecia água para os moradores dessa região. A mesma coisa ocorria na Rua da Presa. Na antiga Cerâmica havia também uma queda d´água de ótima qualidade. Segundo estudos feitos pela Petrobras no início dos anos setenta, o Banco da Vitória está situado em cima de um excelente lençol freático, com água de excelente qualidade para consumo humano. É por esse motivo que se têm tantas fontes e cisternas em nossa comunidade. Aos olhos da geologia, pode-se se dizer de forma simbólica que a nossa comunidade está ‘sobre’ a água, na verdade sobre a melhor água do mundo. Sem precisar recorrer aos estudos e testes científicos, se sabe que quem bebe a água de Banco da Vitória, se apaixona pelo lugar e jamais o esquece. Não sabemos ao certo o porque do gosto especial da nossa água, mas ela é simplesmente gostosa, suave e

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira para nós, sagrada. Eu acredito que essa água tem esse gosto especial e efeito encantador porque as chuvas que caem em Banco da Vitória, não são chuvas comuns, águas que caem do céu. São, na verdade, as águas que Deus usa todos os dias para regar o seu lugar mais preferido e amado: o seu jardim particular chamado de Banco da Vitória do Rio Cachoeira.

27 - Lampião e o Banco da Vitória Pouca gente sabe, mas o cangaceiro Lampião foi uma das pessoas que mais influenciou no desenvolvimento de Banco da Vitória. Apesar de jamais ter colocado seus pés em nosso lugar ou simplesmente saber onde ficava Ilhéus, Lampião botou muita gente para correr do Sertão Nordestino e muitas dessas pessoas que fugiam das atrocidades feitas pelo bando dos cangaceiros, vieram parar exatamente na nossa comunidade. Ou seja, ao seu jeito cruel, Lampião acabou ajudando em muito o povoado de Banco da Vitória e o sul da Bahia com um todo. Lampião se chamava Virgulino Ferreira da Silva e nasceu no dia 07 de junho de 1897, numa das fazendas do seu pai que ficava no Vale do Pageu, em Pernambuco. A família de Virgulino era rica e pacífica, mas vivia envolvida nas disputas de terras, que germinava crimes e matanças por todo o sertão brasileiro. Um dia, o pai de Virgulino, o senhor José Ferreira da Silva foi assassinado pelo delegado de polícia Amarílio Batista e pelo Tenente José Lucena, quando o destacamento procurava por Virgulino, Levino e Antônio, seus filhos. Revoltado com essa ação da polícia e da política pernambucana, Virgulino resolveu se alistar na tropa do cangaceiro Sebastião Pereira, também conhecido como Sinhô Pereira. Isso ocorreu em 1920. Em 1922, Sinhô Pereira decidiu deixar o cangaço e passou o comando para Virgulino, que nessa época já se chamava Lampião. Ele recebeu esse apelido porque gostava de atirar a noite, criando um facho de fogo na boca do cano da sua arma. Em pouco tempo Lampião se tornou um dos bandidos mais procurados e temidos de todos os tempos, no Brasil. As suas atrocidades vingativas viraram notícias em todo o território nacional e a sua fama correu o Mundo. O bando de Lampião agia nos Estado de Paraíba, Pernambuco, Ceará Sergipe, Bahia e Alagoas. Em 1930 uma seca sem precedente assola o nordeste brasileiro e então ocorre o grande êxodo de nordestinos para o sul da Bahia e os estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Nessa época, Lampião fazia grandes investidas nos interiores de Alagoas e Sergipe, onde moravam várias famílias que acabaram se mudando para a região cacaueira, onde o cacau era ouro e se ganhava muito dinheiro com muita facilidade.

Muito moradores que vieram parar em Banco da Vitória nessa época, fugiram do sertão mais com medo de Lampião e o seu bando, do que da seca que assolava as terras nordestinas. Entre 1932 e 28 julho de 1938, data da morte de Lampião e dizimação do seu bando pela Volante do coronel João Bezerra, na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, muita gente ‘arribou’ do sertão com medo das tantas mortes provocadas pelos bandos de cangaceiros e principalmente pelo bando de Lampião e pela polícia que vivia em seus encalços. Moradores com os saudosos Seu Cazeca, Paulo Rocha, seu Sebastião, Pedro Preto, João Ruim (pai de Zé Pote) seu Milton Nunes, seu Oliveira, seu Péricles, seu Zé Melo entre tantos outros, contavam essas histórias com bastante propriedade e vários graus de veracidades. No Alto da Bela Vista viveu por muitos anos um excangaceiro sertanejo de nome Genésio, que por fazer jogo do bicho, era conhecido com Genésio Cambista. Esse alagoano dizia ter pertencido a volante (polícia sertaneja) e matado muita gente. Outras vezes ele dizia que tinha sido cangaceiro, todavia não tinha sido do bando de Lampião. Como se ver, Lampião, que teve a sua cabeça cortada e exposta com as demais dos cangaceiros em vária capitais brasileiras, contribuiu e muito para a formação do povo de Banco da Vitória. Se não fosse ele e sua guerra particular, muitos nossos conterrâneos não iriam largar de jeito nenhum o belo luar do sertão e o canto doce do sabiá. Cabo Jonas disse que chegou a ver as cabeças de Lampião e Maria Bonita, exposta no Museu Nina Rodrigues, em Salvador. Ele disse que não achou o ‘cabra’ com cara de brabo não. Para Cabo Jonas, Lampião não era esse homem todo como se dizia… Mas isso já é uma outra estória.

28 - Os Maravilhosos Sabores de Banco da Vitória As minhas melhores lembranças de Banco da Vitória do Rio Cachoeira são todas com contemplativas. Lembro-me dos cheiros dos ares da nossa terra, do gosto de mato fresco do nosso antigo Rio Cachoeira, dos aromas das casas que exalavam delícias, do cheiro bom da nossa gente. Tudo neste lugar tem um perfume especial, um aroma de mato, um gosto especial e único, com pitadas de gotas celestiais. A água da Bica da Água Boa é doce, o ar das ruas é fresco e o cheiro de comida se sente por todos os lados e ares. Iguais aos pássaros, somos todos atraídos pelos cheiros das coisas e das cores. Vivemos, na verdade, hipnotizados pelos os cheiros brejeiros deste lugar salpicado pelas babas do Oceano Atlântico.

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Abaixo vou citar algumas lembranças de gostos, odores e sabores desse nosso lugar amado e jamais esquecido. Eis algumas lembranças oftativas e degustativas de Banco da Vitória. Relembre dessas coisas comigo: • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •

O lelê de Dona Maroca; A moqueca de moréia preta feita por Dona Chica; A moqueca de robalo de Ivone Soares; O pudim de pão de Ivone Santos; Os bolos de tapioca de Dupó; Os bolos de Ivony; Os acarajés de Baiana; Os licores de Dona Cabocla; A fatada de Dona Constância; Os camarões aferventados de Dona Elza; As canas do quintal de seu Cazeca; As jacas da Fazenda Vitória; As goiabas do Baití; Os churrascos do Bar de Juarez; Os pasteis de Teça; Os quibes de Dona Vilma (vendidos por Dui!); Os moapens cozidos de Dona Conceição; A feijoada de Dona Lindaura; A farinha de Dominguinho; Os pães de Seu Pedro Preto Os cavacos de minha prima Vera Lúcia; Os sorvetes de Dona Lia; Os geladinhos de Dona Nilza da Carlos Cambal; As batidas de frutas de Ziba; Os camarões na moranga de Marta Duarte; A carne do sol de Lílian e Marísio; Os corações de boi assado por Seu Diva; As laranjas de Belmiro; Os pitus de Gogó de Sola; Os siris de Cundunga; Os gaiamuns de Roque de Dedé; Os camarões de Tonho de Miguel Farias; Os pasteis de Celuta; O caruru de Neguinha; A jacuba de Pedrão; O quentão de Ariéis; A cachaça desdobrada de Seu Joaquim; O gato cozido por Bigode; Os mamilos assado por Zé Carioca; Os úberes assados por Zé da Alinhagem; O licor de jenipapo de Dona Raquel; O tatu cozido por Dona Maria Cardoso; As cocadas de Dona Iracy e Dona Demy; A jabá com abóbora de Dona Inês; O caruru de Dona Eunice; O banho de Flor de Dona Licinha; O churrasco de rabo de porco de Seu Nafital; O cozido de porco de Tonho de Nouzinho; O filé com pão de Adalto Maia; As cervejas mornas do Bar de Dalila;

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A 51 do Bar de Lindor; Os peixes de Renato; Os cocos de Carmerindo; As moquecas de pitus de Pitu; Os cozinhados de Dona Vaninha; Os churrascos de Paulo, Tonho e Nem; Os churrasquinhos de ‘gatos’ de Carrinho; Os salgados de Dona Loura (vendidos por Marcione); O pirão de Dona Rosilda; O mocotó cozido por Célia de Formiga; A lingüiça de porco feita por ser Ailton; O sarapatel de Luisão; A carne de porco vendida por Pedro Melo; Os refrigerantes gelados do Bar Zebrinha de Josias Xavier; Os doces de carambolas de Dona Alice Lavigne; Os tira-gostos de salame com limão do bar Taiobinha de Seu Julho; Os peixes fritos do Colóio; A passarinha frita do bar de Xisto Gomes; O pão com sardinha do armazém de Seu Zé Cotoco; Os picolés de Dona Lia; As bolachas de ararutas da venda de Dona; O amendoim cozido da barraca de Zé Jatobá; As pizzas de Suquinha; A água de coco engarrafada de Seu Laércio; 0s peixes vendidos por Zé Carlos de Zé Bisco; As bananas da terra de Seu Nelson do Morro; Os tatus de Ruy; 0s aipins de Edvaldo…

Tudo nesse lugar cheira a felicidade. Tudo tem gosto de saudade. Tudo é gostoso de dizer e sentir! Banco da Vitória do Rio Cachoeira, tudo em ti lembrar os ares do paraíso dados aos índios tupiniquins. Adubai os nossos sonhos e fermentais as nossas doces lembranças. Dá-nos somente os dias e suas dignas labutas, pois as noites são para sonhar com os seus cheiros, gostos e paisagens.

29 - Os Comem Concretos Antigamente, quem nascia em Banco da Vitória era conhecido como os ‘comem concreto’. Isso porque a nossa gente era boa de boca, comia de tudo e não fazia cerimônia na hora da mastigação. O nosso povo jamais soube o que era fome, pois tinha os frutos das matas, a abundância de caças e um rio farto de peixes e mariscos. Gente magra em Banco da Vitória não existia. Todo mundo era buchudo e pançudo. Desde criancinha todo mundo aprendia a gostar de pirão de siris, de visgo de jaca e do travor do biri-biri. Comer siris e caranguejos se aprendia aos 03 anos de idade. Aos cinco anos já se sabia pescar carapicuns, robalos e moréias. Aos 08 anos, os meninos mergulhavam no fundo do rio e de lá

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira trazia siris, pitus e aratanhas. As meninas já sabiam pescar de redes e jererés. Comer bem sempre foi uma das nossas qualidades maiores. Em Banco da Vitória todo mundo era bom de boca e comia de tudo. Na verdade a gente comia mesmo era de mão, desprezando talheres de todas as naturezas e fins. As frutas abundavam em todos os quintais. Eram bananas, mamões, jacas, abius, jenipapos, laranjas, carambolas, mangas, cocos e siriquelas. Nas beiras do Rio Cachoeira havia as goiabas, araçás, canas, taramarindo, carambolas, groselhas, amêndoas etc. Junto aos pássaros, todos nós comíamos as frutas e éramos duros de sermos vencidos por doenças bobas. Do Rio Cachoeira viam os peixes e mariscos. Eram as tainhas gordas, robalos ovados, carapebas, moréias, carapicuns, traíras entre tantos outros peixes. Os mariscos fervilhavam sobre as pedras. Eram siris, caranguejos, guaimúns cevados, moapéns, ostras, pititingas, camarões e os famosos pitus. Das matas vinham as caça como as pacas, tatus, teiús, veados, capivaras, sarués, jacaré e até jibóias que eram comidas pelos ‘bebúns’. Naquela época frango se chamava galo e era comida de dia de domingo. Marcarão era comida de rico e leite em pó era capricho de poucos. O povo simples comia mesmo era feijão com arroz e farinha torrada e uma lasca de carne assada na brasa. Moquecas e pirão faziam parte da nossa janta e sopa era comida de doente. As meninas quando estavam apaixonadas chupam limões com sal e pirão de mulher parida se fazia com caldo de galinha cozida no fogão a lenha. No dia de Cosme e Damião se servia um farto caruru e tinha menino que corria as sete-freguesias e cominam mais de dez pratos da iguaria rara e deliciosa. Agente não adoecia facilmente, pois éramos todos bem alimentados pelos ares de Banco da Vitória. Nos ‘babas’ de futebol, as canelas dos meninos se chocavam e só faltava sair labaredas da jogadas poucas amistosas. Raramente se via um menino ou menina com o braço ou pé quebrado. Tudo isso só era possível devido a nossa alimentação farta e principalmente natural. As canas eram rasgadas nos dentes. O coco seco era comido como pudim de menino pobre e o mocotó moqueado se comia desde pequenininho. Como não havia miojos e iogurtes, a gente se lambuzada de frutos e o próprio banho de rio já servia para trazer uns camarões para se comerem aferventados. Normalmente se tomava café com banana da terra, batata doce, aipim ou então fruta-pão. Concreto mesmo a gente não comia, como se dizia. Mas barro era comida de muitas crianças da barriga verde. Tinha gente que não aquentava ver um buraco no reboca da casa de taipas. Ali se ajeitava e fazia

uma boquinha naturalista. Mas isso já é uma outra velha e longa estória do nosso Banco da Vitória do Rio Cachoeira.

30 - O Banco da Vitória na Guerra das Malvinas No dia que eu completei 16 anos de idade, o Banco da Vitória quase foi destruído por causa da Guerra das Malvinas. Eram 04:50 da manhã quando a população de Banco da Vitória acordou assustada com um som infernal que passou sobre a nossa localidade e destelhou várias casas, derrubou muitas plantas, afugentou animais e deitou todos os capinzais das margens do Rio Cachoeira. Depois do susto e dos relatos de alguns moradores que já estavam acordados naquela fria manhã de junho, se soube que sobre Banco da Vitória, passaram dois aviões a jato da Força Aérea Brasileira fazendo vôos rasantes e seguindo o percurso do Rio Cachoeira, rumo ao mar de Ilhéus. Soube-se então depois porque os aviões supersônicos passaram tão baixos e fizeram tantos estragos em nossa comunidade. A razão de tudo isso era o conflito entre o Reino Unido e a Argentina, por causa das ilhas chamadas Malvinas, que deram nome a essa guerra. Em Banco da Vitória, os moradores da beira do rio perderam nesse dia vários utensílios e criações. Teve gente que perdeu o galinheiro inteiro. As aves sumiram nos ares por causa das turbinas dos aviões. Muitas casas perderam as telhas e as cabanas dos pescadores da União foram todas destruídas. Mas quem perdeu mesmo foi a Argentina que teve 649 soldados mortos no conflito e ainda perdeu a guerra. A Inglaterra, que reassumiu as ilhas Malvinas teve um grande custo nessa guerra e ainda viu 255 soldados morrem nessas batalhas. Para saber o porquê dos aviões da FAB sobrevoarem tão baixo sobre Banco da Vitória e fazerem ali tantas destruições, precisamos recorre a um fato que aconteceu exatamente dois dias antes do nosso susto e quase colocou o Brasil no confronto que ocorria no sul do nosso continente. Vamos aos fatos: Eram 10h50 do dia 4 de junho de 1982, quando os radares brasileiros detectaram o bombardeiro britânico Vulcan, da RAF (Royal Air Force), voando a 340 quilômetros ao sul do Rio de Janeiro. O aparelho voltava das Malvinas à sua base na ilha de Ascensão, no oceano Atlântico, mas teve um defeito mecânico que o impediu de fazer um reabastecimento aéreo e ficou sem combustível. Como o avião não respondeu ao contato por terra, dois caças F-5 Tigger II da FAB o interceptaram e o conduziram à base aérea do Galeão. Por estar oficialmente neutro no conflito, o Brasil não poderia autorizar a passagem de um avião de um país beligerante – no caso o Reino Unido – em seu espaço aéreo. A aeronave britânica foi apreendida por vários dias e sua tribulação ficou em solo brasileiro, enquanto

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira se desenrolava as negociações para a devolução do aparelho militar inglês. Dias depois o avião da RAF teve as suas armas apreendidas pela aeronáutica brasileira e foi liberado junto a sua tripulação, que rumaram para a Ilha de Ascensão. Essa interceptação se tornou um triunfo para a Força Aérea Brasileira que se mostrou capaz de proteger e garantir o espaço aéreo do nosso país. Por outro lado, assustou a população brasileira que preferia só assistir o conflito. Depois deste fato histórico a FAB ficou em alerta quanto ao nosso espaço aéreo no período do conflito das Malvinas e para poder demonstrar o seu poder de interceptação fez vários exercícios de guerra e um destes ocorreu exatamente na manhã de 06 de junho de 1982, o dia que o Banco da Vitória quase foi pelos ares. Para entender porque os aviões a jato passaram sobre Banco da Vitória naquela manhã é só recorrer a mapa do Brasil. A base aérea de onde os aviões em exercício de guerra decolaram fica em Anápolis, que dista 140 KM de Brasília. Com bem sabemos, a capital brasileira fica na direção de uma linha reta até Ilhéus. De Anápolis até ilhéus se tem 1.470 km. Naquela manhã os aviões F 5 decolaram para fazer uma interceptação fictícia e demonstrar que a capital brasileira estava também bem protegida, quanto o nosso litoral. Nessa rota de vôo, os aviões supersônicos vieram sobrevoando o percurso do rio Cachoeira e nas imediações de Banco da Vitória resolveram (e só Deus sabe o porquê!) passar a poucos metros do leito do nosso rio. A guerra das Malvinas que se iniciou no dia 02 de abril de 1982 terminou com a vitória do Reúno Unido em 14 de junho deste mesmo ano. Em Banco da Vitória o susto durou por vários dias e gerou diversas versões. Arara, pai de Tatá e Veinho, disse que perdeu naquela manhã umas vinte e tantas galinhas. As barracas de palhas de Cundunga, Gogó de Sola e seu Taurindo que ficavam na beira do rio foram dizimadas pelas forças dos ventos. As canoas do Porto de João de Colo afundaram como pedras. Osório, que já estava no matadouro naquelas horas, disse que viu os aviões passarem ‘varendo’ o rio cachoeira e levando nos seus ventos um bambuzal inteiro. Dona Consessa disse que caiu da cama com o susto e quase quebrou a clavícula. Cabo Jonas disse que as saias de Dona Deth, que estão quarando no varal do quintal da sua casa, foram encontrados três dias depois na casa de um amigo seu, na Sepetinga, em Ilhéus. Pior ainda aconteceu com os sapatos importados da marca mocacy de Tonny Neto. Cabo Jonas tinha os consertado e lustrados primorosamente no dia anterior. Depois o par foi colocado sobre o telhado para tomar sereno e amaciar as solas. No sopapo dos aviões a jato, um pé foi parar em plena Rua Marquês de Paranaguá, no

centro de Ilhéus. Um outro pé do sapato jamais foi encontrado. – Deve ter caído nos quintos do inferno!.Fiquei no prejuízo. Choramingava e dizia Cabo Jonas enquanto mostrava para todo mundo os prefixos dos aviões jatos que passaram sobre Banco da Vitória e somente ele foi capaz de ver e anotar essas numerações.

31 - O Petróleo de Banco da Vitória Após o triste mês de junho de 1974, quando a seleção brasileira de futebol foi desclassificada precocemente da copa do mundo realizada na então Alemanha Ocidental, o Banco da Vitória, pôde por fim arrumar um motivo para se alegrar e festejar. A Petrobrás iniciara estudos de prospecção de petróleo em terras da nossa comunidade. Não poderia haver notícia mais acalentadora do que essa para os nativos dos lábios salgados do Rio Cachoeira. O povo se alvoroçou loucamente e gotas de riquezas salpicaram os sonhos de muita gente. Petróleo era dinheiro vivo que brotava do chão e enriquecia qualquer pessoa e lugar. Dessa vez, o Banco da Vitória ia sair da lama. Se dizia. Esse fato quase pirotécnico correu as ruas de distrito de Banco da Vitória e em poucos dias era notícia nos jornais e rádios de Ilhéus, Itabuna e até na Cidade da Bahia, – como os moradores de Ilhéus gostavam de chamar Salvador, a Capital do nosso Estado. Nessa época a Petrobrás tinha iniciado diversos estudos em solos do Sul da Bahia em busca de petróleo. A caravana de prospecção iniciou os seus estudos pela cidade de Caravelas, no Extremo Sul e veio, Bahia acima, brocando as terras e desenterrando sonhos. Por fim a caravana chegou as terras dos ares mornos de Ilhéus. No nosso município foram perfurados diversos poços nos distrito de Lagoa Encantada, Sambaituba, Iguape, Coutos e nos batentes de Banco da Vitória. Os primeiros furos nas terras de Banco da Vitória foram feito próximo a Presa do Iguape e depois mais três outros buracos foram feitos na Mata da Rinha e um último, do outro lado Rio Cachoeira, na direção do Poço do Goió. Os caminhões e caminhonetes da equipe de estudos da Petrobrás ficavam estacionados na Rua do Campo, e para lá ia todos os tipos de curiosos e bisbilhoteiros para verem os maquinários usados para perfurar o solo e detectar o líquido precioso da terra. Tinha gente que ia para ver as gigantescas brocas, outros iam para arrumar motivos para mentir por um mês inteiro. Algumas moças iam para ver os homens fortes que cheirava a querosene. Seu Pedro Preto ia para se deliciar com os modelos de caminhões da Ford, seu sonho de consumo. Nesses dias de júbilo social, até os famosos radialistas ilheenses chamados Tiro Seco e Adorsival Araújo

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira apareceram em Banco da Vitória para entrevistarem os perfuradores da Petrobras. Junto aos radialistas apareceram também mais de uma dúzia de pessoas dizendo que tinha indícios de petróleo nos quintais das suas casas. Eram moradores da nossa comunidade que queria ficar rico com líquido preto da terra. Seu Cazuza, alegremente:

quando

soube

na

notícia

disse

- Tô rico!! Lá no quintá de casa tem um troço preto que escorre da terra dia e noite, deve ser ‘petroi’! Meia hora depois estava seu Cazuza com uma lata de alumínio cheia do liquido escuro, mostrando-a para o pessoal da Petrobrás. O técnico da Petrobras analisou o liquido rapidamente e disse: Isso não é petróleo, deve ser chorume. Tem algum cemitério por perto da casa do senhor? Perguntou o rapaz. Seu Cazuza, que morava bem em frente ao cemitério de Banco da Vitória, nem respondeu. Pegou a sua lata com o líquido fedorento e a jogou no brejo de Dona Margarida. Depois, foi afogar a sua tristeza na venda de seu Zé Cotoco. O fato virou piada em Banco da Vitória. Seu João Batista, que era o coveiro, quando via seu Cazuza sempre perguntava: - E ai Cazuza, já saiu o resultado do teste do petróleo lá do seu quintal: Seu Cazuza resmungava: - Vai pro inferno, satanás! Seu Thiago Cardoso, que achava que também tinha petróleo no seu quintal, nem ousou ir levar as amostras para os técnicos da Petrobrás. Cabo Jonas, que dizia até ter tomado banho de petróleo na Cidade de Ruy Barbosa, logo se enquadrou como perito no líquido preto da terra e argüia por onde passava. - Petróleo?! Conheço a distância! È só trazer que eu dou na hora o diagnóstico e a qualidade do magma líquido… Em menos de uma semana a comitiva da Petrobras saiu de Banco da Vitória, rumando dessa vez para Camamu, onde realmente se achou uma grande reserva de petróleo. Em Banco da Vitória ficaram lacrados e numerados todos os poços das terras do umbigo da Região Cacaueira. As únicas coisas que não ficam lacradas foram as bocas dos palpiteiros de plantão. Tinha gente que dizia que os poços de petróleo de Banco da Vitória foram lacrados para não explodirem de tanto líquido precioso que se tinha neles. Outras vezes se dizia que em cada poço tinha um guarda tomando conta do reserva nacional. Havia também que argumentasse que além de petróleo se achou nos

poços diamantes, esmeraldas, rubis e ouro. Houve até quem disse que seu Raimundo Ribeiro ia ficar rico só com um poço perfurado perto das suas terras, na Mata da Rinha. Tudo isso, em pouco tempo caiu no imaginário coletivo do povo de Banco da Vitória. Uma coisa é certa, somente a Petrobrás sabe exatamente onde estão as localizações desses poços perfurados em Banco da Vitória. O mato e o tempo se encarregaram de escondê-los dos olhos desta nossa geração. Se havia petróleo ou não, até hoje não sabemos ao certo. Mas uma coisa a Petrobras certificou com a sua incursão em solos de Banco da Vitória: todos os tipos de sonhos e possibilidades podem brotar deste chão sagrado para esse povo que tem a esperança como horta dos seus dias.

32 - Juracy Martins Santana – o Embaixador de Banco da Vitória Em recente viagem a Europa, o Professor Dr. Juracy Martins Santana, Embaixador de Banco da Vitória, visitou as principais capitais do Velho Mundo e aproveitou a oportunidade para provar mais uma das suas tão laboriosas teses. Desta vez, o egrégio filho da terra da Água Boa, emoldurado pela beleza do Palácio de Versalhes, em Paris, capital da França, provou que, quem tem um sonho e faz dele uma meta latente, o objetivo se torna óbvio. Basta somente trabalho e dedicação. Acompanhado por sua esposa e seus filhos, Dr. Juracy pôde visitar as principais cidades européias e caminhar pelas ruas emersas de tantas histórias e vastos conhecimentos. Ele deve ter se emocionado nessas suas andanças, pois sabia que nos seus mais recônditos sentimentos, ele estava escrevendo com os seus passos a prova viva que Banco da Vitória do Rio Cachoeira é uma terra de gente sonhadora e realizadora. Dr. Juracy que nascera nas franjas dos cacauais e ouvira tantas vezes se dizer que visitar a Europa era coisa de ricos, deve ter se sentido realizado e elegantemente satisfeito. Afinal, ele não era apenas mais um turista brasileiro em terras européias. Mas sim, o professor doutor Juracy Martins Santana. Por certo, um dos mais ilustres conhecedores do Direito Penal, no Brasil. Dr. Juracy sabe muito bem o que ele representa para o povo de Banco da Vitória, que se espelha nele como lúcido e sólido exemplo de superação, realização humana e sucesso. Nascido no clã de Antônio Isaias e fecundado com esmero por Dona Lindaura, Dr. Juracy e todos os seus irmãos e irmãs sempre tiverem uma guerra particular contra o destino e resolveram, – unidos e através do saber -, reescrever todas as suas histórias. Preferiram o único caminho que poder transformar humildes seres humanos em celebridades:

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira o estudo. Desta forma, em visitar a Europa, este Martins Santana comprovou que sonho e trabalho se tornam realização concreta. Como é facilmente sabido pelas plagas da Civilização do Cacau, Banco da Vitória é um verdadeiro celeiro de mentes ilustres e pessoas altamente talentosas. Por certo, poucos lugares do mundo têm tantos conterrâneos ilustres quanto a nossa comunidade, comparando isso a nossa pequena população. Isso obviamente se requer estudo mais apurado para saber o porquê dessa preciosidade social. Eu acredito que deve ser a água que bebemos. Dr. Juracy é uma dessas pessoas instigadoras e desafiadoras. Por onde passou ele sempre foi o destaque maior, seja nas escolas, seja no trabalho ou nas comunidades. Aprendeu falar inglês quando isso era privilégio de pouca gente no Brasil. Tornou-se um celebre professor do idioma falado por Barack Obama e surpreendeu muitos alunos ilheenses com a sua didática fácil e permeada de toques de genialidade. Na Telebahia, empresa que trabalhou até se aposentar, ele foi eleito empregado padrão e até hoje é lembrado com um ser humano simplesmente espetacular. Deixou lá centenas de amigos e admiradores. Agora, emergido completamente nos umbrais do Direito, ele leciona nas principais universidades do Sul da Bahia e tem o privilégio de ter como seus alunos verdadeiros vultos do direito brasileiro. Por certo, o seu biógrafo terá muito trabalho. Quem o viu, há quarenta anos caminhando pelos acostamentos da rodovia Ilhéus-Itabuna, rumo à roça de cacau da sua família, com livros debaixo dos braços, jamais acreditou que aquele filho de um simples agricultor um dia ia tão longe. Jura, como é chamado pelos seus familiares, tinha as mãos calejadas pelos cabos dos facões e dos podões. Todavia, enquanto cuidava da lavoura, sonhava andar pelas ruas das capitais européias. Agora, enquanto passeava pelas ruas dos seus sonhos, por certo, Dr. Juracy lembrava da sua lida das roças de cacau e dos tantos desafios que teve de superar na sua vida de tantas lutas e conquistas. Ali, passo a passo, sobre os paralelepípedos testemunhais das principais histórias da humanidade, por certo ele deve ter se sentido muito alegre. Afinal, ele comprovava e cientificava que quem nasce em Banco da Vitória, realmente vai longe. Muito longe. Muito além dos seus sonhos, num lugar chamado realização. Não nos surpreenderá em nada, se em breve, o presidente Barack Obama receber em audiência particular na Casa Branca, o nosso conterrâneo ilustre. Isso, por certo, pode não ser o sonho momentâneo do nosso Dr. Juracy Martins Santana, mas é o de toda a nossa comunidade de Banco da Vitória. Como Dr. Juracy ama incondicionalmente a nossa terra, quando sonhamos qualquer coisa, ele é o primeiro a carregar a nossa bandeira e desnudar os horizontes. Por conta disto, acredito que o seu passaporte já esteja carimbado.

Dessa forma, se em breve o Washington Post notificar em sua primeira página a visita de Dr. Juracy ao solo americano, o povo de Banco da Vitória saberá mais uma vez que o nosso aguerrido irmão, – que resolveu carregar todos os nossos sonhos sobre seus ombros -, cumpriu, como de praxe, mais uma das suas tantas metas. Se Martin Luther King dizia que tinha um sonho e Barack Obama disse que ‘sim, nós podemos’. Por certo, Dr. Juracy deve dizer sempre a sua frase preferida: “Sim, nós podemos sonhar.” Que seja esse o lema de todos os moradores de Banco da Vitória do Rio Cachoeira. Dr. Juracy continua fazendo a parte dele. Cabe a nós apenas o imitarmos prazerosamente.

33 - Jorge Amado e o Banco da Vitória Quase perto do final do ano de 1959, o meu avô, seu Feliciano de Assis, estava na sua lida de quebrar pedras, próximo a bica da Água Boa, quando uma comitiva de automóveis parou enfileirados no acostamento da rodovia Ilhéus- Itabuna. Desceram dos carros diversos homens e algumas mulheres, que em frente à Água Boa admiraram e comentaram a beleza do Rio Cachoeira, que era naqueles instantes, aos poucos era invadido pela grande maré do Atlântico. O meu avô, que só tinha o hábito da leitura da bíblia, não sabia quem eram aqueles célebres senhores e senhoras que lhes fizeram algumas perguntas sobre o seu trabalho, sobre o rio, os peixes existentes ali e a ‘vila de Banco da Vitória’. Dias depois se soube que aqueles apreciadores da linda paisagem do Rio Cachoeira nas fraldas de Banco da Vitória eram Jorge Amado, sua esposa Zélia, Jean-Paul Sarter e Simone de Beauvoir, que eram ciceroneados pelo amigo Jorge Amado, no conhecimento da Civilização Cacaueira. Eles acabavam de vir da Fazenda Progresso, nas franjas de Itabuna, onde literalmente colocaram os pés e as mãos nos frutos de ouro, o cacau. Jorge Amado tinha como hábito, – quando se deslocava entre Ilhéus e Itabuna -, parar em Banco da Vitória para apreciar o Rio Cachoeira, em sua curva magistral entre as matas escuras. Ali ele comprava peixes, (robalos e carapebas), siris e pitus e não partia sem antes beber água de coco no próprio fruto, como gostava e dizia ser assim a forma mais corretar de saborear essa delícia da natureza. O Banco da Vitória aparece como cenário das suas estória da saga do cacau, em dois dos seus livros. Já o Rio Cachoeira foi personagem vezeiro das boas prosas do escritor grapiúna que nasceu na fazenda Aurícia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, em 10 de agosto de 1912 e logo foi morar em Ilhéus.

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira O apreço pela localidade de Banco da Vitória surgiu ainda na sua adolescência quando, em visitas a parentes e amigos da região, o pai de Jorge Amado e seus familiares se deslocavam de trem e depois nas antigas fobicas nas toscas estradas que interligava as cidades de Ilhéus e Itabuna. Como tinha muitos amigos nas fazendas da beira da estrada e nas margens do rio, o pai de Jorge Amado sempre visitava a região com sua prole animada. A parada na redondeza de Banco da Vitória era sempre uma festa, pois somente a parti dali a estrada beirava o Rio Cachoeira, rumo a Itabuna e a paisagem ficava realmente diferente das plagas ilheenses. Quando se construiu a nova estrada entre Ilhéus e Itabuna, isso na década de cinqüenta, Jorge Amado estava a mais de 10 anos sem sentir o ar morno da Região Cacaueira e o aroma de cacau secando nas barcaças. Quando ele percorreu essa estrada pela primeira vez, ele ficou extasiado com tamanha beleza do novo trajeto e suas tonalidades de cores e cheiros da natureza em profusão. Jorge Amado se apaixonou pela paisagem, e em particular, como a aproximação da pista com o Rio Cachoeira nas mediações de Banco da Vitória. Aos amigos mais íntimos Jorge Amado dizia que parar em frente à bica da Água Boa e apreciar a curva do Rio Cachoeira, a mata em sua vastidão na outra margem e o céu de um azul impar, era uma verdadeira oração de louvor à vida. Isso, mesmo para um ateu convicto com ele. Até hoje todos nós tenho essa mesma sensação quando passamos por esse pedaço da Rodovia, que hoje se chama exatamente Jorge Amado. Aquele lugar é uma das paisagens mais bonita do mundo. Jorge Amado realmente tinha razão quando parava ali para ver os cenários vivos das suas tantas estórias cheias de tantos sonhos, belezas, desafios, lutas e ambições. Hoje Jorge Amado repousa sob uma frondosa mangueira, num quintal de uma casa na Rua Ilhéus, no bairro de Rio Vermelho, em Salvador – Ba. Ali onde suas cinzas foram depositadas se sente um cheiro de mato úmido, suor de gente batalhadora e lágrimas de morenas Gabrielas. Ao lado da mangueira tem um pequeno poço artificial, que Jorge Amado docemente chamava de Poço da Água Boa. O Banco da Vitória agradece pela vistosa homenagem.

34 - Perdemos Neguinha, ganhamos uma lenda. Essa semana, o Banco da Vitória acordou triste. Sem nossa autorização e consentimento, a nossa amiga Neguinha resolveu deixar todos nós órfãos. A família do nosso amigo Carmerindo perdeu uma irmã incomum e uma filha singular. O Banco da Vitória perdeu uma das suas moradoras mais amada, aguerrida, guerreira, lutadora e vencedora.

Neguinha foi registrada como Celita Lima dos Santos. Todavia, pouca gente sabia desse seu nome. Era conhecida famosamente em nossa comunidade como a menina e mulher que não via tempo ruim para nada. Se era preciso descarregar um caminhão de coco, Neguinha era a primeira a ‘lombar’ um cacho dos frutos. Se era para bater uma laje, Neguinha era a primeira a chegar e a última a sair. Se era para ajudar, ela era a primeira a tomar iniciativa. Se algo tinha de ser feito, sinônimo disso era Neguinha. Se, porém, era para reclamar, bradar ou emitir a sua forte opinião, Neguinha não pedia licença para ninguém. Ela gostava de dizer que tinha a língua solta, que não guardava segredos nem tinha medo de nada nem ninguém. Por sinal, muitos meninos da minha época tinham medo dos braços de Neguinha que de vez em quando dava umas tapas em uns garotos brabões ou botava para correr um grupo de meninas arruaceiras. Neguinha tinha uma iniciativa incomum para qualquer coisa. Mulher de audácia, não esperava nada para ser feito. Fazia antes de ser solicitado. Não gostava de moleza nem andava choramingando ou triste. Sempre a vimos como adjetivo de trabalho e luta. Sempre soube sorri com facilidade e adorava um arrasta-pé regado a cervejas geladas. Apesar da sua fama de ‘braba’ e ‘esquentada’, Neguinha tinha o coração mole e altruísta e gostava de ajudar todo mundo. Às vezes, fazia o que não podia só ver alguém feliz. Muita gente sabia que ela podia esbravejar com alguém e até mesmo brigar, mas horas depois, já estava sorrindo, pedindo desculpas e dizendo, ‘ – amanhã é outro dia… eu sou assim mesma!’. Neguinha costumava dizer que raramente tinha dormido fora de Banco da Vitória. Isso só acontecia quando ela ia para a Romaria de Bom Jesus da Lapa. Fora disso, ela viveu toda a sua vida entre o Rio Cachoeira e a Mata que circunda a nossa comunidade. Ou seja, ela nasceu, viveu e morreu no melhor lugar do mundo. Quis Deus que o seu coração falhasse exatamente nos melhores anos da sua vida. A família de Carmerindo está, por hora, combalida e ferida. Eles perderam a Neguinha mulher-para-todaobra e filha desejada por todos os pais. Nesse momento, sofremos com eles, mas sabemos que em breve contaremos muitas alegres e famosas estórias deixadas por nossa amiga Neguinha. Eu, em particular, vou sofrer com saudade do caruru delicioso que minha amiga sempre guardava um parto especial para mim. Vou sentir saudade também das nossas longas conversas, ao pé do balcão do seu restaurante, (todas essas, obviamente regadas por cervejas geladas). Vou, como todos os seus amigos, sentir saudade do exemplo de ser humano que foi a nossa amada Neguinha. Estamos todos tristes em Banco da Vitória. Meu amigo Nem está viúvo e seus filhos, Adriana e Chalinho estão órfãos de uma mãe rara, de uma amiga para todas as

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira horas e principalmente de uma mulher que nunca viu dificuldade na vida. Em verdade, Neguinha não viveu simplesmente, mas sim lutou sem temor por toda sua vida. Como todas as guerreiras, ela nos deixou um grande exemplo de perseverança, esperança e fé. Quando daqui a alguns anos se falar em Neguina, ela então se tornará o que sempre foi para todos nós: Uma lenda viva da comunidade de Banco da Vitória. Por ultimo o desejo de todos nós: Viaje em paz minha amiga, pois a sua saudade será capaz de curar a ferida que por hora sangra em nossos corações. E não se esqueça de em vez em quando cantarolar ai pelo céu aquela música que você tanto adorava cantar e dançar. Aquela que dizia assim:

Gazula e Tonho de Miguel Farias tomavam cerveja e assistiam a cena hilária. Seu Xisto já cansado com o animal teimoso teve uma idéia inusitada. Pegou o cabo de madeira da chibata e enfiou no ânus do jegue. O animal deu um pulo magistral e correu em disparada para a beira do rio. Seu Xisto, já aliviado, passou sorrindo em frente a Visqueira e cruzou a esquina da casa do saudoso Zé Lavigne. Assim que ele desapareceu nessa esquina, Gazula gritou “De Quem é Esse Jegue?’. Tonho de Miguel Farias então cantarolou: “É de Xisto Gomes.” Seu Xisto que já ia perto da casa de João de Coló, voltou sobre o rastro e fungando encarou Gazula e Tonho e indagou furioso: - De que é esse jegue? Quem cantou isso?

“Eu já passei Por quase tudo nessa vida Em matéria de guarida Espero ainda a minha vez Confesso que sou De origem pobre Mas meu coração é nobre Foi assim que Deus me fez… E deixa a vida me levar (Vida leva eu!) Deixa a vida me levar…”

Gazula, feito uma estátua perguntou:

Música: Deixa a vida me levar – Composição de Sergio Meriti.

- Tá bom então, não foi vocês não! Disse seu Xisto. Deixa eu ir e um de vocês gritarem para você ver a ‘viana’ cantar nas tripas.

35- De quem é esse jegue?

Assim que seu Xisto cruzou a esquina, Gazula gritou novamente:

Naqueles tempos o cantor e forrozeiro Genival Lacerda fazia sucesso cantando uma música muito cômica chamada de ‘de quem é esse jegue’. Essa música logo se tornou obrigatória em todos os forrós nordestinos e o seu refrão se tornou frase comum em Banco da Vitória. Todavia, por causa dessa música alegre, quase ocorreu uma tragédia em nossa comunidade. O fato se assucedeu da seguinte forma: Um dia Xisto Gomes tocava pelas ruas de Banco da Vitória seus animais de carga que distribuíam areias retiradas do seu porto no Rio Cachoeira, quando um desses animais, na verdade um velho jegue, empacou bem em frente a padaria de Seu Hugo. O sol da tarde de janeiro ardia no eito do céu e Xisto Gomes, já com o juízo quente, resolveu tocar o animal, que insistia em não sair do lugar. Seu Xisto deu chibatadas, puxou as orelhas do animal, tentou empurra-lo com os ombros e nada. O jegue estava determinado na sua posição e não saia do lugar. Xisto Gomes xingava, berrava, batia no animal e nada deste se mover. Na venda de meu pai, ‘A Visqueira’,

- Que jegue, seu Xisto? Seu Xisto então retrucou - Quem foi que zombou de mim perguntando de quem é esse jegue? Tropa de cornos. Eu não fui. Disse Gazula. - Nem eu. Arremedou Tonho.

- De quem é esse jegue? Seu Xisto já veio com a faca na mão e deu uma carreira em Gazula e Tonho, que foram seguidos até perto da União, onde seu Xisto desistiu da tentativa de assassinato. Depois deste dia, quem queria zombar com Xisto Gomes é só gritar o nome da música de Genival Lacerda para a confusão começar. O pobre velho jegue de seu Xisto morreu afogado numa enchente do Rio Cachoeira. Seu Xisto morreu muitos anos depois, mas nunca se esqueceu àquela música de sucesso de Genival Lacerda, que atazanou muito dos seus tantos dias.

36 - A Fantástica Oficina de Nestor Pereira Naqueles tempos, seu Nestor Cotó tinha uma oficina em Banco da Vitória que mais parecia o laboratório do personagem de gibi Professor Pardal. A local era uma mistura de oficina mecânica, hidráulica, elétrica, eletrônica, local de experimentos e biblioteca. A oficina

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira funcionava anexa a Usina da Praça Guilherme Xavier.

amado e genial.

Ali se podia encontrar de tudo em termo de ferramentas e conhecimentos de consertos. Havia desde chaves de fendas minúsculas até alavancas de mais de três metros de altura e pesando mais de 20 quilos. Motores se tinham de todos os tipos e tamanhos. Sucatas e chassis se viam por todos os cantos.

João de Coló, - irmão de Nestor Pereira e de minha vó Dona Cabocla -, me disse uma vez que Nestor Cotó estava construindo um submarino desenhado por Cabo Jonas. Eu, - sabendo das peripécias de João de Coló, de Nestor Cotó e principalmente de Cabo Jonas, - preferi não duvidar da façanha naval. Afinal, nada era impossível para esse três moradores ilustres de Banco da Vitória do Rio Cachoeira.

Todavia, era em grandes tonéis que Seu Nestor Cotó guardava as suas maiores preciosidades. Eram milhares de pregos, parafusos, roscas, arruelas, lâminas, taxas etc. de todos os tipos, formas e modelos. Se alguém precisasse se um pregou um parafuso especial, podia ter certeza que ia encontrar na oficina de Nestor Cotó. Se não o encontrasse, o ‘negócio’ não existia em nenhum outro lugar do mundo. Seu Nestor Cotó não aquentava ver um parafuso ou prego na rua. Catava tudo e levava para sua útil coleção. Uma coisa, porém ele tinha o maior amor, que era por suas ferramentas. Para serem emprestadas, se precisava ouvi a sua ladainha preferida, chamada de ‘toma lá dá cá’, depois mais de cem recomendações para devolvê-las logo e logo e etc. e etecéteras. Seu Nestor Cotó era um homem curioso e altamente criativo. Tudo, feito pelo ser humano, tinha conserto em suas mãos hábeis. Além de ‘cientista’, Seu Nestor era ainda eletricista, mecânico, chofer de caminhão, árbitro de futebol, treinador de futebol, puxador de quadrilha junina e administrador do distrito de Banco da Vitória. Agora a sua predileção maior sua era batizar crianças. Segundo seus relatos próprios, ele era padrinho de mais se cem almas ilheenses. Por onde ele andava logo se via alguém lhe pedi a benção, que ele dava sempre com orgulho e alegria. Todavia, havia nele uma fraqueza, para não dizer medo escondido. Ele não gostava de panela de pressão – que ele chamava de ‘bomba de mulher preguiçosa’, nem tão pouco de conserta-las. - Panelas boas são as de barro feito por Dona Iaiá – Dizia ele zombando das panelas de pressão. Por sinal Seu Nestor Pereira tinha o apelido de Nestor Cotó porque tinha perdido uma das mãos numa explosão de uma bomba de matar peixe, lançada no Rio Cachoeira.. Se algo não encontrasse conserto na oficina de seu Nestor Cotó, por certo ele iria pro lixo. Depois – é claro, de ser sucatado pelo ferramentista da Praça Guilherme Xavier. Um dia, Seu Nestor Pereira foi chamado para consertar as fechaduras do portão do céu e então a sua oficina desapareceu junto com ele. O Banco da Vitória ficou sem um dos seus filhos mais ilustre,

O submarino jamais ficou pronto, mas a eternidade se encarregou de fazer navegar pelos mares dos dias, as estórias e alegres lembranças de Nestor Pereira de Banco da Vitória do Rio Cachoeira.

37 - Ah! Não vai dá não! Alguns homens nascem com talentos. Outros nascem com sorte. Outros ainda nascem para fazer história e serem amados, elogiados e lembrados ao longo dos anos. Poucos homens, porém, nascem com tudo isso e conseguem carregar a força dessa responsabilidade por toda a sua vida. Descrevo assim para poder falar de Antônio Isaias, o menestrel de Banco da Vitória. Por certo, o ser humano mais amado de nossa comunidade e admirado por todo mundo. Antônio Isaias era um homem de bons exemplos e de forte determinação pessoal. Conheceu o sucesso através do trabalho árduo e sem fim. Viveu sem jamais ter um único inimigo e tinha amigos e admiradores entre todos os moradores de Banco da Vitória e num raio de dez mil quilômetros. Ele era o que se podia se chamar de exemplo bom de filho, pai, marido, amigo, colega, companheiro, parceiro, prosista. Em suas mãos o suor de transformava em riquezas e a honestidade dos seus atos era o orvalho que regava a herança dos seus justos e bem vividos dias. Ele viveu no mato e do mato viveu por toda a sua vida. Antônio Isaias sabia conviver com a natureza e com ela tinha íntimo respeito. Ele sabia conversar com aos animais e entender as escrituras feitas nos céus que anunciavam as chuvas dos fins de tardes. Como ele não havia tempo ruim ou situação complicada. Problema ele chamava de desafio e crise para ele era coisa de quem não tinha coragem para enfrentar a vida. Como um predestinado a glória, Antônio Isaias encontrou na candura de sua esposa dona Lindaura, o elo para construir uma linda família e desta fazer o alicerce da sua eternidade. Cumpriu o que almejou. Homem de grande senso de humor e desenvoltura, seu Antônio Isaias levava alegria aonde chegava e

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira 38 - Como Chegar a Banco da Vitória – Ilhéus – Bahia

brincava com todo mundo. Dessa forma, era o homem mais rico dos moradores de Banco da Vitória, quando se falava em felicidade.

Nas festas ele era o dançarino mais animado e procurado pelas mulheres. Nas comemorações religiosas, ele era o verdadeiro ‘dono’ do andor de Nossa Senhora da Conceição e nas partidas de futebol ele era o comentarista mais respeitado e brincalhão das nossas tardes de domingo. Todavia, era com a sua frase famosa: “Ah! Não vai dá não!” que Antônio Isaias demarcava a sua presença onde chegava. Era só ele chegar num local para se ouvi sua frase com prefixo de uma estação da felicidade. Eu um dia lhe perguntei de onde advinha essa expressão tão peculiar e alegre. Seu Antônio Isaias, disse-me que isso surgiu num dia quando ele estava fazendo farinha com Gogo de Sola, que, de praxe, conversava e mentia pelas costas. Ele já cansado das estórias de Gogó, - que a todos os instantes lhe pedia uma dose de pinga - , teria dito frase: “Ah! Não vai dá não ficar lhe servindo de garçom!” Depois, a frase foi se resumindo e todas as vezes que alguém lhe pedia para pagar uma dose de cachaça, Antônio Isaias retruca: “Ah! Não vai dá não!” Dessa maneira, a frase se tornou bordão em Banco da Vitória e marca registrada da presença de Antônio Isaias em nossa comunidade. Antônio Isaias já não está mais entre nós, mas sua lembrança se ver por todos os cantos de Banco da Vitória. É só alguém fazer o bem ou ser justo por princípio, para sentir a presença dele por perto. Por certo, Deus quando quis colocar Antônio Isaias em Banco da Vitória, tinha para com ele uma grande missão: a de nos fazerem felizes e acreditamos que o amor e o trabalho são os maiores dons da vida.

O acesso convencional ao Banco da Vitória se dar pela Rodovia Jorge Amado (BA 415) que interliga as cidades de Ilhéus e Itabuna e corta esse bairro de Ilhéus. A localidade Banco da Vitória distam 06 quilômetros de Ilhéus e 19 quilômetros de Itabuna. O Banco da Vitória fica localizado a 08 quilômetros do bairro de Salobrinho, onde está instalada a UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz e a 16 quilômetros da sede nacional da CEPLAC - Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira. De veículo, se gasta em média 15 minutos para chegar a Banco da Vitória, saindo do centro de Ilhéus. Diversos ônibus passam pelo Banco da Vitória, inclusive o ônibus municipal de Ilhéus que tem como ponto final o bairro de Salobrinho.

Antônio Isaias alcançou a eternidade pelo bom exemplo de ser humano. Cabe a nós manter viva a sua lembrança para jamais nos esquecermos da sua alegria, obstinação e fé na vida.

Pode-se também chegar ao Banco da Vitória navegando pelo Rio Cachoeira. O percurso é o seguinte: adentrando a foz do Pontal (Coroa Grande, formada pelos encontros dos rios Itacanoeira, Cachoeira e Santana) em Ilhéus, as embarcações pequenas podem seguir a ‘entrada do meio’ e chegar ao Rio Cachoeira. Navegando o rio a cima, passa-se pela antiga localidade chamada Golmeira (bairro de Copyright © Roberto Carlos Rodrigues. Obra de domínio público. Distribuição gratuita. Saiba mais: www.bancodavitoria.com.br

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira Teotônio Villela). Um pouco acima atravessa a Fazenda Porto Novo e por fim se chega ao Banco da Vitória. A partir deste ponto o Rio Cachoeira não é mais navegável. Saindo de Banco da Vitória se tem ainda diversas estradas rurais. Uma que inicia na ponte sobre o Rio Cachoeira (a trás do Convento das Freiras) e passa pelo povoado de Maria Jape, onde se tem uma derivação para o Rio do Engenho e a Alta Demanda (fazendas da região do distrito de Cachoeira).

Saindo de Banco da Vitória em direção a Ilhéus se encontra a famosa Bica da Água Boa, local preferido pelo escritor Jorge Amado para apreciar o Rio Cachoeira. Mas á Frente é possível conhecer a centenária Fazenda Porto Novo, onde se faz turismo ecológico e se conhece plantações de cacau orgânico.

Outra estrada se inicia no final da Rua São Pedro e ruma para a Fazenda Victória. Antes desta, logo após o cemitério, se tem um desvio para o alto da Santa Clara, onde se encontrar com outra estrada que se inicia no alto da Bela Vista. A partir dai se alcança a Presa do Iguape e depois a Rodovia Ilhéus Uruçuca. Por último, outra estrada se inicia na Rua da Presa, circunda parte do Alto do Iraque e alcança a Mata da Rinha e depois a Mata da Esperança. Com pontos de visitações recomenda-se a visitação a Bica da Água Boa, o antigo porto do Jenipapo, a Pedra de Guerra, o antigo Matadouro Municipal, a ponte sobre o Rio Cachoeira, A ladeira do Alto da Santa Clara (Descansa Caixão), a histórica Fazenda Victória, o Convento das Freiras, a Creche, os seminários, a escola Daniel Rebouças, a Fazenda Pirataquisé e a Fazenda Aliança. Pode-se também entrar na localidade e conhecer a Rua Aldair, bem como ver a casa onde o jogador da Seleção Brasileira de Futebol nasceu. Na Praça Guilherme Xavier se tem a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e o famoso Clube Social. Pode também conhecer o campo de futebol da localidade, A Rua dos Artistas, Rua Dois de Julho e o Grupo Escolar Herval Soledade. Atrás deste, se localiza o Campo do Pacaembu. Dados do Autor:

O Banco da Vitória se situa entre o rio Cachoeira e os três montes ao Oeste, (Alto Santa Clara, Alto da Bela Vista e Alto da Mata da Rinha, onde se encontra o Iraque). Todos esses montes são remanescentes da Mata Atlântica e fazem divisa com a Reserva Florestal da Mata da Esperança. O prefixo telefônico de Banco da Vitória é 3675 e a área telefônica é 073. Em Banco da Vitória é possível se saborear diversas iguarias da culinária regional como as saborosas moquecas de peixes e camarões e pitus aferventados. Há também na localidade diversas churrascarias e vários bares. Além disto, se vendem ao longo da rodovia frutas regionais e principalmente os famosos cocos gelados. Encontram-se também nessa localidade diversas casas de artesanatos e produtos naturais.

Roberto Carlos Rodrigues Nasceu em Banco da Vitória do Rio Cachoeira – Ilhéus Bahia, em junho de 1966 e morou ali até 2007. É Filho de Carlos Cardoso do Nascimento (Carrinho) e Ilza Rodrigues do Nascimento (Bebé), ambos já falecidos. É irmão de Maísa e Giselle e filho de criação/emprestado de Ivone Santos, Cremilda, Dona Lindaura e Seu Antônio Isaias. O autor é analista de negócio, escritor, articulista e colaborador de diversos jornais e sites brasileiros. É apaixonado por Banco da Vitória e desenvolve estudos e trabalhos de história e cultura do Brasil. Atualmente mora em São Paulo onde faz pro - graduação em

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Prosas e Causos de Banco da Vitória do Rio Cachoeira sobrevivência humana e mestrado em saudade de Banco da Vitória. Saiba mais no nosso site: www.bancodavitoria.com.br Copyright © Roberto Carlos Rodrigues. 2009. Todos os direitos reservado e registrado. Obra de domínio público. Pode ser copiado, divulgado e reproduzido, desde que sejam mantidas as integridades do texto a e referência da autoria. DISTRIBUIÇÃO GRATUITA.

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Prosas e Causos de Banco da Vitória (do Rio Cachoeira  

A história precisa de narradores. Se isso não ocorre, fatos se tornam vagas lembranças e em pouco tempo a memória social de um povo se esvai...

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