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MARCO ZERO

Curitiba, dezembro de 2010

MARCO ZERO

Jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da Facinter • Ano II • Número 9 • Curitiba, dezembro de 2010

TRILHAS DO TEMPO

Arquitetura em destaque

Adriano Lohmann

Sexo, um tabu?

Claudia Bilobran

O Edifício Garcez, construído em 1920, é referência histórica e cultural para moradores de Curitiba

Página 4

Museu de horrores Museu do IML retrata o cotidiano da violência na Região Metropolitana de Curitiba com acervo impressionante

Página 10

Biblioteca no bondinho Divulgação

Curitibanos agora podem encontrar livros clássicos da cultura brasileira bem no centro da cidade

Página 9

Fazer sexo é pecado? O assunto ainda causa polêmica nos meios religiosos.

Páginas 5,6,7 e 8


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EDITORIAL

Curitiba, dezembro de 2010

ARTIGO

Ao leitor

Em guerra por paz

Nesta última edição do ano do jornal Marco Zero, você irá conferir Simone Leal matérias diversificadas, começando com A violência no Rio de Janeiro uma série de reportagens picantes sobre um assunto polêmico, o sexo, incluindo é em sua maioria oriunda do tráfico tabus e fetiches que envolvem as mais de drogas e do crime organizado que se firma há décadas nos mordiferentes opiniões da sociedade atual, ros, onde também vivem cidadãos enfocando especialmente as visões de de bem que, como se já não basdiferentes religiões quanto ao tema. tassem os problemas que enfren Você, leitor, também irá voltar tam morando em suas respectivas ao passado e descobrir como surgiu o comunidades, também são muitas vezes privados de oportunidades e primeiro edifício construído na capitratados com preconceito. tal paranaense, o Edifício Garcez, na A cidade do Rio é a seAvenida Luiz Xavier, que hoje abri- gunda maior do Brasil, com 6,2 ga um dos mais prestigiados grupos milhões de habitantes, e o estado apresenta o maior índices de ho- cia agiu e vai continuar agindo para educacionais do país. Para quem é fã de assuntos macabros, esta edição faz um passeio pela exposição do Museu do Instituto Médico Legal de Curitiba, cujo acervo, pequeno mas impressionante, mostra de forma crua a violência no cotidiano da capital paranaense. Na sessão perfil, o jovem publicitário Francis de Cristo conta sua história e explica como ganha dinheiro fazendo desenhos e ilustrações. O Marco Zero destaca ainda, entre vários outros assuntos, como encontrar livros clássicos da cultura brasileira bem no centro da cidade. Boa leitura!

Expediente O jornal Marco Zero é uma publicação feita pelos alunos do Curso de Jornalismo da Faculdade Internacional de Curitiba (Facinter) Coordenador do Curso de Comunicação Social: Gustavo Lopes Professores Responsáveis: Roberto Nicolato Tomás Barreiros Diagramação: André Halmata (6º período) Facinter: Rua do Rosário, 147 CEP 80010-110 • Curitiba-PR E-mail: assessoriajr@grupouninter.com.br Telefones: 2102-7953 e 2102-7954.

micídios do país, com 33 mortos o bem da população dos morros, e para cada grupo de 100 mil habi- dessa vez os militares estão sendo tantes. Facções armadas travam vistos como heróis que chegaram lutas pelo controle de territórios, para estabelecer a ordem. Muitas favorecidas por uma rede de cor- pessoas, mais especificamente as rupção e pelo descaso do poder que moram no Complexo do Alemão, ficaram horpúblico em relação “Para amenizar a rorizadas com o ceàs favelas nos morsituação de caos com nário de guerra que ros cariocas. Para que a população das foi montado para amenizar a situação de caos com favelas tem de conviver, cercar e prender os que a população estão sendo instaladas bandidos, mas conseguiram entender das favelas tem de as chamadas UPPs” que tudo isso é por conviver diariamente, estão sendo instaladas unida- uma boa causa. Depois de tudo isso, resdes da polícia nos morros, as cha- madas UPPs (Unidades da Polícia surge a questão: o Brasil tem Pacificadora). Em represália, os pela frente grandes eventos, nos bandidos declararam guerra à polí- quais serão gastos bilhões de recia que também é a que mais mata ais. Com certeza, uma boa parte no Brasil, porém, dessa vez entrou desse dinheiro será destinada à nos morros em missão de paz em segurança dos turistas atraídos relação à população e em missão pela Copa do Mundo de 2014 e pelas Olimpíadas de 2016. de guerra contra os traficantes. Mas como ficam a seguran Com a ação da polícia nos ça, e a qualidade morros do Rio de Ja“A polícia agiu e vai de vida que deveria neiro, ficou evidente continuar agindo para o ser oferecida aos que nada esteve bem da população dos cidadãos brasileiros sob controle, como morros, e dessa vez os que contribuem (anafirmavam alguns militares estão sendo tes e depois desgovernantes (aliás, vistos como heróis” ses eventos) com estava sob controle: impostos que não o controle dos bandidos). Depois de muitas pessoas são poucos nem muito menos bavítimas de balas perdidas e outras ratos? Talvez seja a hora de pensar aliciadas para o mundo crime, foi to- em solucionar o que vivemos aqui mada uma atitude; para se parabe- e não apenas maquiar. Esse seria nizar, diga-se de passagem. A polí- um bom caminho.

Os alimentos vendidos nas ruas do centro cumprem as normas de higiene? Suzayne Machado “Não, porque não tem onde o vendedor fazer sua própria higiene, principalmente ao manusear os alimentos. Com a mesma mão com que eles pegam a comida, eles limpam o suor do rosto.” Gabriel Tardoski, 18 anos, estudante “Não. Pelo fato de ser de rua, e muitas banquinhas não terem como fechar corretamente os alimentos, muitos insetos acabam pousando neles, e isso é muito nojento.” Larissa da Silva Nicolak, 20 anos, promotora de vendas “Sim. Pelo menos nos lugares em que costumo lanchar, os donos são bastante higiênicos e se preocupam com a preparação e manuseio dos alimentos.” Juliane machado Garcia, 19 anos, estudante de Enfermagem “Não, e principalmente no centro, onde eles têm que ser mais rápidos, pois o número de consumidores é maior. Eles deixam a higiene totalmente de lado.” Karoly Wolfrart, 25 anos, professora de ensino básico “Não, de maneira alguma. Os vendedores desse tipo de alimento não possuem formas de armazenamento corretas e por diversas vezes acabam vendendo lanches estragados.” Cristiano Dignoli Esper, 27 anos, consultor de marketing “Não. Na verdade, são poucos os que se preocupam com a refrigeração e armazenamento dos alimentos. Muitos deles não se preocupam com a higiene, pois querem apenas vender mais, sem se importar com a saúde dos consumidores de lanches rápidos.” Sirlene Nunes do Nascimento, 32 anos, empreendedora


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PERFIL

O mundo de um jovem desenhista O publicitário Francis de Cristo, de 23 anos, que trabalha profissionalmente com ilustrações, conta como sua carreira se iniciou e fala sobre suas realizações, inspirações e projetos Divulgação

Letícia Mueller

V

ocê já pensou em ganhar dinheiro com desenhos? Para o jovem publicitário Francis de Cristo, de 23 anos, isso se tornou realidade. Ao contrário do que se costuma pensar, não só é possível ganhar a vida trabalhando com desenhos e ilustrações, como também é muito divertido. “Meu maior objetivo é me divertir com meu trabalho e conseguir passar minha mensagem. Um bom desenhista deve, acima de tudo, gostar do que faz e ver sua obra não como uma obrigação, mas quase um passatempo”, afirma o artista. Formado há quase dois anos em Publicidade e Propaganda pela Universidade Tuiuti do Paraná, Francis atualmente trabalha com ilustrações, como cartoons, retratos e caricaturas. Diz que entrou na faculdade para tentar unir o desenho com a profissão. Porém, ele conta que o processo foi um pouco complicado. “Nas agências em que trabalhei, não consegui o espaço que gostaria de ter, mas, depois que mudei de planos, pude ampliar meu campo de atuação, não trabalhando apenas com comerciais, mas também com livros infantis e didáticos”. Quem descobriu o talento do jovem foi sua mãe, a artista plástica Jandira de Cristo, ao ver uma caricatura de autorretrato feita pelo filho, então com dez anos. “Eu lembro que tudo começou quando fiquei curioso e fui perguntar a minha mãe como se fazia um desenho. Ela me deu uma foto e disse para eu tentar copiá-la da melhor maneira possível, observando todos os traços. Então, depois de mais ou menos uma hora, quando eu mostrei a ela, minha mãe ficou impressionada com o resultado e me matriculou em um curso de retrato”, lembra o desenhista. “Isso foi ótimo, porque foi assim que comecei a me interessar de verdade por desenho”. A técnica do jovem foi se aprimorando com o tempo, até que ele

Francis com o boneco Woody, personagem da animação Toy Story, um dos preferidos da sua coleção

conheceu o seu atual “tutor”, o cartunista Laqua, dono e professor de um estúdio de desenho. Foi no ateliê que Francis começou a desenvolver seus primeiros projetos profissionais relacionados a ilustrações, como o livro “As Aventuras de Pingo”, da escritora Ana Maria Gonçalvez, repleto de desenhos coloridos de animais.

profissional e devidamente regularizado, muitas pessoas ainda veem a profissão de desenhista como um hobby e não a consideram com seriedade. “Alguns conhecidos meus fazem piadinhas, como perguntar o que eu estou fazendo, e, quando falo que estou trabalhando, eles respondem: ué, mas você não tá desenhando? Mas, no geral, as pessoas costumam achar Parceria meu trabalho muito interessante”. Atualmente, Francis e Laqua Francis participa ainda de um estão em fase de elagrupo de desenhistas “O toque que boração de um projeto que se encontra menchamado “Three Little salmente em um eveneu tenho para a Birds”, que envolverá garotada é se divertir to chamado “Costelão diversos tipos de deseIlustrado”, ao qual comcom isso, assim nhos, desde cartoons até parecem não apenas como eu faço”. caricaturas. O objetivo, profissionais da área, segundo os elaboradomas curiosos e simpares, não é criar mais uma concorren- tizantes que se reúnem para tomar te do mercado, mas agregar talentos cerveja, comer costela e dar risada. para a produção do melhor trabalho “Nós nos reunimos em restaurantes possível. de Curitiba para comer, bater papo e Apesar de ser um trabalho ilustrar, mas não é necessário ser de-

senhista para participar. A única regra é que você tem que atender pelo menos um dos seguintes pré-requisitos: saber conversar, ou saber comer, ou saber desenhar”. Todos os trabalhos produzidos nos krafts colocados sobre a mesa são postados no blog Costelão Ilustrado (costelaoilustrado.blogspot.com) e ficam disponíveis para visualização. O encontro, que vem sendo realizado desde agosto de 2009 e já está na sua 14º edição, é na verdade inspirado do “Bistecão Ilustrado”, que acontece em São Paulo. A idéia se espalhou por todo o Brasil, e já existem o “Trem Bão Ilustrado” em Minas e o “Berbigão Ilustrado” em Florianópolis, entre outros. Influência Atualmente, a maior influência de Francis de Cristo é Denis Silver. “O que Denis faz é um objetivo para mim, um nível a que eu pretendo chegar. Já em técnica de pintura digital, admiro Tiago Russel e o próprio Laqua.” Quando questionado sobre seus três filmes de animação preferidos, ele fica em dúvida, e, ainda inseguro, responde: “Coraline” (de Henry Selick), “Tá chovendo Hambúrguer” (de Phil Lord e Chris Miller) e “Horton e o Mundo dos Quem”(de Jimmy Hayward e Steve Martino). Durante a entrevista, Francis deixou “Rei Leão” passando na TV e mostrou com orgulho sua coleção de bonecos. Apontou sua noiva Carina e seu cachorro Farofa como suas principais fontes de inspiração e deixou um recado para os jovens que pretendem seguir carreira de desenhista: “Apesar de eu estar ainda entrando no mercado e ter tido muita sorte, o toque que eu tenho para a garotada é se divertir com isso, assim como eu faço”. Francis, além de desenhista, é vocalista e guitarrista da banda “Retrato ao Contrário”, que toca toda semana no bar Libertadores. Seus desenhos podem ser vistos no seu blog: francisdecristo.blogspot.com.


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TRILHAS DO TEMPO

Uma história e muito concreto O Edifício Garcez, no centro de Curitiba, onde funciona um dos câmpus do Grupo Uninter, foi o primeiro edifício construído na capital paranaense, no final da década de 1920 Adriano Lohmann A cidade de Curitiba sempre se destacou, entre outros aspectos, por sua arquitetura, devido à forte influência dos imigrantes. É impossível caminhar pela cidade e não perceber o mosaico de formas e cores distribuídas pelo conjunto de estruturas erguidas no decorrer dos anos. Um dos pontos fortes da arquitetura da cidade são os templos, que preservam em sua construção as características de determinados locais. São obras que remetem a lugares distantes como Itália e Ucrânia e até ao oriente, representado, por exemplo, pela Mesquita de Al Imam Ali Ibn Abi Taleb e pelo templo budista Nyorenji, da ramificação Honmon Butsuryu-Shu. Seria difícil enumerar as principais obras arquitetônicas da cidade, afinal, o processo de verticalização vem se desenvolvendo desde a década de 1920, quando o país inteiro passava por um momento de prosperidade. Mas dentre a selva de concreto e ferro que cerca a região urba-

Adriano Lohmann

nizada, pode-se citar alguns prédios que se destacam por suaa história e pelo contexto que envolveu sua construção. Um deles, com certeza, é o Edifício Moreira Garcez, o primeiro de grande porte de Curitiba, construído no final da década de 20 do século passado. O Garcez hoje Todo dia é assim, pelo menos de segunda a sexta feira: por volta das seis e meia da tarde, um mar de gente chegando, alguns saindo, os quatro elevadores funcionando à toda para atender a demanda; para os mais apressados ou atrasados, as escadas. É a rotina do campus da Faculdade Internacional de Curitiba (Facinter) no edifício Garcez. Os alunos vão lotando as dependências do prédio, uns indo à pequena praça de alimentação para fazer um lanche antes das aulas, outros diretamente para suas salas. Mas o que será que os alunos acham de estudar num dos prédios mais antigos do Brasil? As opiniões divergem. Poliana Mara Simões, que atua como intérprete no grupo Unin-

Estudantes do grupo Uninter chegam para mais um dia de aula no prédio histórico

ter há dois anos, elogia a estrutura do prédio. Ela diz que o lugar é excelente, e, quando os quatro elevadores têm muita fila, pode usar a escada rolante ou a normal. Segundo a intérprete, foram poucas as vezes em que o elevador enguiçou, mas com ela isso nunca aconteceu. Já o aluno de comércio exterior Luis Igor Jorge discorda. Ele diz que o ponto positivo do prédio é sua

localização, porém, a estrutura deixa a desejar, pois os elevadores estão sempre lotados e às vezes enguiçam, obrigando os alunos a subir os sete ou oito andares pela escada. Ele ainda comenta que as instalações elétricas das salas e as aparelhagens são ruins, o que atrapalha professores e alunos. Apesar do charme do velho prédio, graças à sua idade, nem tudo é romance na história do Garcez.

O maestro por trás de um obra grandiosa Adriano Lohmann

de 1920 a 1928 e de 1938 a 1940.

A história do Garcez começou no final da década de 1920. Os curitibanos pareciam não acreditar no que se erguia à sua frente: aquele colosso de metal e concreto era algo novo, mais ainda, era algo extraordinário que parecia impossível de se realizar. Data do ano de 1927 o início da obra, empreendida pelo engenheiro João Cid Moreira Garcez, que também era prefeito na época, o que chegou a gerar algumas críticas à construção. O engenheiro João Moreira Garcez era um homem com iniciativa e já havia colaborado com o desenvolvimento urbano da cidade e com a fundação da Universidade Federal do Paraná, em 1912. Foi responsável pela abertura de várias avenidas quando só havia ruas estreitas na cidade. Visualizava o crescimento e trabalhava nesse sentido. Foi prefeito em duas gestões:

Construção Para a construção da grandiosa obra, Garcez mandou trazer matéria-prima da Alemanha. Para a sustentação, foram usados grandes troncos de eucalipto embebidos em óleo cru. O acabamento acompanhava a tendência da época, art-decó, um movimento internacional de design com origem na França, popular entre as décadas de 1920 e 1930 e influência do movimento paranista do início do século, que buscava em suas obras representar elementos da fauna e da flora regionais. Por isso, alguns detalhes do acabamento do edifício lembram o pinhão, fruta símbolo do Paraná. Historiadores da cidade dizem que a obra causou tanto furor que vinha gente de várias cidades só para ver a construção. De início, o prédio teria apenas cinco andares, mas Mo-

reira Garcez conseguiu aumentar o número de pavimentos. Em 1933, os primeiros andares estavam prontos, porém, somente em 1946 o prédio foi concluído. Projetado para ser um hotel de luxo, nunca serviu para esse fim e acabou se tornando um prédio comercial, abrigando sedes administrativas de empresas, instituições de ensino e comércio. Dentre alguns ocupantes do edifício, podem ser citados o escritório da Rede Ferroviária Federal, a Federação Paranaense de Futebol e o Ministério do Trabalho. O edifício também foi entrada do Cine Palácio. Na década de 1980, o Grupo Hermes Macedo adquiriu a estrutura, promovendo uma grande reforma que manteve ao máximo as características originais. Por causa dessa reforma, o grupo ganhou um prêmio nos Estados Unidos. Posteriormente, funcionou no prédio o Shopping Garcez. Atualmen-

te, o edifício é um campus do Grupo Uninter, que conseguiu alvará de funcionamento junto à prefeitura e vem ajudando a manter a beleza e imponência do prédio.

Mesmo com o passar dos anos, o edifício mantém o charme dos antigos tempos


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ESPECIAL

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Uma conversa ao telefone Claudia Bilobran

Baladas liberais acontecem em alguns locais discretos Letícia Mueller

Propagandas de garotas de programas são encontradas nos telefones públicos no centro da cidade

Garota de programa atende ligação e fala sobre as dificuldades de sua ocupação, religião e violência As pessoas te tratam mal? Muitas sim, passam aqui pela rua e jo Passeando pelo centro da ci- gam garrafas, xingam, principalmente dade, passei por um telefone público os “playboys”, que gostam de nos hue peguei um folheto de propaganda de milhar. Eles não veem que atrás desse garotas de programa. Resolvi ligar para corpo tem um ser humano, que faz isso fazer uma entrevista. Conversei com para ter dinheiro e ter o que comer. Myuki, de 26 anos. Ela contou como é sua rotina à noite e falou sobre religião Vocês são protegidas por alguém? e violência. Myuki diz que pretende sair Sim, tem um rapaz que fica de olho dessa vida e ter uma família normal. em nós, pois tem muitos que fazem e Ela quer ser aceita pela sociedade. não querem pagar, pagam menos ou ainda nos roubam. Mas também preMarco Zero - Há quanto tempo cisamos pagar por essa proteção. você leva essa vida? Myuki - Comecei quando tinha 21 E existe muita violência entre as anos, pois não tinha mais convívio garotas de programa? com minha mãe. Brigávamos muito, Sim, entre as mulheres e também entre acabei saindo de casa e entrando para os gays. Brigam por causa de ponto e essa vida. também por cobrarem menos. E aqui já aconteceu isso, uma mulher mais É essa a vida que você quer ter da- velha no ramo fez um programa por qui a dez anos, por exemplo? 10 reais a menos, e as outras bateram Não. Quero fazer uma faculdade, ter nela por causa da deslealdade. uma vida normal, ter uma família, porque isso que eu tenho não é vida. E a polícia, como trata vocês? Mas não acredito que eu vá conseguir, Bem mal. Eles gostam de fazer piapois com essa vida que levo, se eu for dinhas e às vezes nos levam para a procurar um emprego para conseguir delegacia só para assinar um caderno dinheiro para pagar meus estudos, mas de frequentadores dos nossos servisem experiência, não irei conseguir. ços. Sempre estamos com o nome fichado. Você segue alguma religião? Quando eu morava com a minha mãe E os moradores do centro, se incoeu ia à Igreja Universal, mas um dia modam com vocês? quiseram me vender um tipo de mel Sim, bastante. Eles vivem nos denunmilagroso só pra ter o meu dinheiro. ciando, tentando acabar com tudo Agora também não sigo nada, apenas isso, mas sabem que não vai ser muito acredito em Deus. fácil, já que somos muitas. Brunna Felippe

Em meio a casas e prédios comuns, em bairros afastados ou centrais, ficam os clubes de swing de Curitiba. Casais jovens e maduros, mulheres e homens solteiros e curiosos frequentam as casas em busca do prazer e do sexo liberado. Os locais de prática de swing são discretos e possuem isolamento acústico, o que explica como os vizinhos muitas vezes não sabem que moram bem ao lado de um clube. Há mais pelo menos cinco clubes de swing em Curitiba, e todos funcionam de maneira semelhante. A entrada para homens solteiros é controlada. Em alguns dias da semana, é proibida e também chega a custar o dobro da entrada para casais. O preço varia de R$ 40,00 a R$ 120,00, dependendo do local. Alguns clubes oferecem promoções que incluem jantar e até café colonial após a noitada. Todos promovem festas temáticas em datas populares, como Halloween, Páscoa e Natal, ou noites especiais em que todos devem ir vestidos de branco, por exemplo. Na maioria dos clubes, é necessário fazer reserva por telefone. Quando chega, o cliente é recepcionado por um segurança que o acompanha e apresenta todas as atrações da casa. Há uma única norma: a mulher é quem manda, mesmo se estiver acompanhada. “Aqui, a mulher faz o que ela quer. O seu companheiro nada pode fazer se ela quiser ter relações com outra pessoa. A mulher manda”, explica o segurança de uma das casas. Cada clube tem suas atrações e salas temáticas específi-

cas, porém, todas contam com uma pista de dança equipada com bons equipamentos de som e iluminação. “É na pista que tudo começa. A música alta e as luzes criam uma ‘vibe’ que faz qualquer tímido se soltar. É dançando que os casais conversam e saem da pista para curtir algo mais quente”, conta um frequentador assíduo que não quis se identificar. Além da pista de dança, as casas contam com passarelas, palcos, pufes com barra para pole dance, cabines privativas, quartos individuais para os casais que querem privacidade, “dark room”, cabine aquário (sala com paredes de vidro onde qualquer um pode entrar e manter relações ou simplesmente ficar olhando do lado de fora), camarotes, grandes camas coletivas e labirinto, entre outras atrações. A pista tem a aparência de uma pista qualquer de uma boate noturna, mas, ao longo da noite, vão ocorrendo shows de streap-tease masculino e feminino, brincadeiras e danças sensuais das quais os frequentadores participam. À medida que a noite vai passando, a pista de dança vai se esvaziando, e as salas vão se enchendo. Dezenas de pessoas praticam sexo livre aos olhos de estranhos, gemendo e gritando de prazer. “Geralmente, só os principiantes não fazem nada, ficam só olhando. Todos os outros interagem”, explica um frequentador. Poucos são os que frequentam as casas de swing para praticar o voyerismo, ou seja, apenas observar sem agir.


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FAZER SEXO É PECAD

Para muitas religiões, liberação sexual ainda é apontada como destruidora d Divulgação

Vinicius Camilo Sexo sempre é um tabu, principalmente quando a religião entra no meio. O assunto é tratado com reservas por alguns credos. Para uma parte das pessoas, os religiosos impedem a liberdade sexual da sociedade. Em questões como masturbação, pornografia e relação homossexual, as quatro maiores religiões são unânimes: é pecado! O ISLAMISMO NÃO PROÍBE SEXO ORAL NEM ANAL Porém, há divergências em alguns pontos. Para o islamismo, religião que mais cresce no mundo, em torno de 16% por ano, a prática do sexo oral não é condenada como no protestantismo, no catolicismo e no judaísmo. Conforme informou o professor Gamal Fouad El Oumairi, 39 anos, solteiro, vice-presidente da Comunidade Muçulmana do Paraná, o Islã não faz nenhuma restrição a essa preferência sexual, apenas não recomenda o sexo anal devido às doenças causadas por esse tipo de relação. Apesar de considerada por alguns uma religião muito radical, o islamismo é flexível com relação à variedade de posições na hora do sexo e aos fetiches. Oumairi afirma que é responsabilidade do homem proporcionar prazer para a mulher. Em caso de disfunção sexual, o parceiro deve procurar um especialista. A relação íntima deve ser um momento agradável, segundo o islamita, e o casal deve sentir prazer no sexo. O que o preocupa é o excesso libertinagem no século 21, que ocasiona aumento de separações decorrentes da promiscuidade. A cultura do não casamento conduz a relacionamentos sem compromisso, como o “ficar”, o que aumenta o índice de mães solteiras. “Aquele que tem relação antes do casamento busca apenas o hedonismo e descumpre os preceitos para uma vida sexual adequada. Isso traz maus hábitos que certamente influenciarão em re-

lações futuras”, afirma Oumairi. JUDAÍSMO: SEXO PARA O PRAZER E A PROCRIAÇÃO A Torá, livro de instruções dos israelitas (judeus não nascidos fora de Israel), não proíbe o uso de estimulantes sexuais, desde que o casal entre em um consenso, conforme a afirmação do líder espiritual Sidnei Paim, 41, casado, membro da Comunidade Israelita Nova Aliança (Cina). Segundo as leis judaicas, a relação sexual tem duas funções: o deleite mútuo e a procriação com a finalidade de dar continuidade ao povo. Na Torá, não existem restrições ao uso de métodos anticoncepcionais, com exceção daqueles que são abortivos, pois o aborto configura-se como assassinato. O líder ressalta que não é a religião que proíbe a liberdade sexual dentro do casamento. “O que deve ser levado em consideração é que alguns mandamentos vão contra certas práticas como sexo oral e anal”, reforça Paim. Entretanto, fantasias eróticas são permitidas, desde que não haja transgressão dos preceitos divinos.

Outra prática considerada grave é a masturbação, qualificada como onanismo. Onan, personagem bíblico do Antigo Testamento, é mencionado no livro de Gênesis. Ao se relacionar sexualmente, a Bíblia diz que ele desperdiçava seu esperma na terra, ou seja, não inseminava a mulher, para ficar com a herança de seu irmão Er, jogando fora sua semente. Sua conduta aborreceu a Deus, que lhe tirou a vida. O CATOLICISMO E O PECADO NO JARDIM DO ÉDEN A sexualidade no catolicismo começa com a história de Adão e Eva. Os dois viviam no paraíso, podendo desfrutar de todas as árvores frutíferas, exceto uma: a árvore do bem e do mal. Adão e Eva desobedeceram a Deus e, insuflados pela serpente (o demônio), comeram do fruto proibido, o que os levou a serem expulsos do jardim do Éden. Deus teria dito que por causa desse pecado todas as mulheres sofreriam a dor do parto, e o homem teria que ganhar o pão com o suor de seu rosto.

Segundo a Igreja Católica Apostólica Romana, a desobediência a Deus foi o chamado “pecado original”, o primeiro pecado da humanidade, que ficou gravado na natureza humana, fazendo com que o a natureza do ser humano fosse naturalmente tendente ao pecado. Tal tendência ao pecado deveria ser purgada com a prática da virtude e a constante vigilância contra as tentações. Apesar de ter feito sexo antes do casamento e viver maritalmente com sua companheira, o operador de empilhadeira Mauricio Pereira de Freitas, de 21 anos, declara-se católico praticante. Ele é pai de Tiffany Temellis de Freitas, de três meses, e acredita que a igreja está certa em proibir a relação sexual antes do matrimônio. “Moralmente, isso seria o correto, mas hoje em dia é complicado para o jovem se manter virgem”, afirma o operador. Freitas relata que não proibirá a filha de trazer namorado para dormir em casa, pois para ele é melhor aconselhar do que proibir. “A proibição instiga os jovens, e é aí que eles fazem”, avalia.


DO?

dos valores morais PARA O PROTESTANTISMO, O SEXO É DIVINO Para o pastor evangélico e presidente da entidade filantrópica Betel, Osmir Banzato, de 49 anos, casado, o sexo é uma criação divina, é um ato puro e prazeroso quando praticado dentro do casamento. “Penso que o relacionamento sexual faz parte das capacidades originais dadas ao homem como presente de Deus”, atesta Banzato. Segundo ele, o Criador formou o ser humano com propósitos diferentes dos animais irracionais, dotando-o de sexualidade não apenas para fins reprodutivos, mas também para complementação da individualidade pela relação íntima dentro dos princípios do matrimônio. O pastor afirma que, quando duas pessoas se unem em uma relação sexual, está em jogo muito mais do que a união de dois corpos: ocorre também a junção de espírito e alma. Quando um casal não compreende isso, pode carregar profundas feridas emocionais, defende Banzato. O pastor relata que conversa abertamente sobre vida sexual com seus dois filhos e diz usar a bíblia para mostrar-lhes que uma vida sexual saudável é pautada em valores. Segundo ele, a sociedade contemporânea menospreza esses valores e sofre as consequências disso, como crianças abandonadas e delinquência. Sobre a virgindade, Banzato diz incentivar os jovens a se manterem castos sob o argumento de que o sexo fora do casamento, além de ser considerado pecado de fornicação, segundo a Bíblia, também acarreta problemas de ordem física e psicológica. “Ensinamos os jovens que devem se conservar em integridade e pureza sexuais até se casarem, pois esse é o preço por uma vida conjugal abençoada”, relata. Quanto à relação entre pessoas do mesmo sexo, o pastor diz que todos são iguais perante às leis de Deus, portanto são livres para viverem como desejam, mas sua união nunca terá a benção divina devido ao uso antinatural de seus corpos.

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Cinema Morgenau, do clássico ao pornô

Gabriel Marchi

Gabriel Marchi

A antiga Sociedade Morgenau, criada em 1919, promovia grandes bailes para toda a comunidade curitibana. Em horas vagas, quando as cadeiras eram recolhidas, o grande salão se tornava um cinema, exibindo clássicos da época. O Morgenau foi o primeiro cinema de Curitiba. O Morgenau passou por diversas mudanças, de local e de proprietários. Em 1960, foi comprado por três irmãos: Jorge, Joaquim e Erasmo de Souza. Em seu 60º aniversário, muitos previam sua extinção, que chegou a ser noticiada, mas não se concretizou. Em uma matéria no jornal Estado do Paraná, Aramis Millarch previa o fim do Morgenau, que ficava então na Rua Schiller, 203, no bairro Capanema. Conta ele que, desde a morte do antigo dono, Bernardo Quickstdt (1898-1976), o pequeno cinema já não apresentava o mesmo glamour de quando estava sob os cuidados dos três irmãos. O cinema estava com as cadeiras sem estofamento e tinha antigos projetores sólidos B-7 e programações que mais pareciam seriados. Mesmo com toda essa discussão sobre o fim do estabelecimento, o Morgenau resistiu. Novos rumos O auge do Cine Morgenau aconteceu em 1983, com apenas um dos irmãos, Jorge, conhecido como Jorginho, gerenciando o local. O filme “Garganta profunda”, permaneceu por 12 semanas em sessões corridas, sempre superlotado. O cinema havia se mudado para o Centro Comercial Rui Barbosa. A funcionária Amélia, de 65 anos, que trabalha no cinema há 26 anos, conta que Jorge tinha um sonho desde os sete anos de idade: ele adorava cinema e realizava um grande desejo ao tornar aquele estabelecimento o centro de grandes filmes dos anos 60 e 70. Mas, nos últimos 20 anos, a programação mudou de clássicos antigos para filmes porno-

O Cine Morguenau funciona atualmente na rua Conselheiro Laurindo

gráficos. O dono não gostava muito da ideia, que partiu de seu filho. Ela também conta que Jorge quase não ficava no local. Aparecia somente de vez em quando e tratava a todos os clientes com grande satisfação. Alunos de faculdades de comunicação, que sempre iam ao cinema para um entrevista, eram bem recebidos pelo dono, que sempre mostrava livros antigos dos seus filmes prediletos e de grandes acontecimentos naquele estabelecimento. A recepcionista do cinema, Mari, de 67 anos, funcionária há mais de 30 anos, diz que muitos dos clientes que vão lá são pessoas de classe média-alta, médicos, advogados, grandes empresários e alguns comerciantes locais. Por ser um cinema de filmes adultos, muitas pessoas sentem certo receio de visitar o local; alguns acham que podem ser assaltados ou que podem encontrar pessoas de má índole. De acordo com ela, não é bem assim. O local é sempre muito bem protegido e nunca aconteceu algo de estranho ou algum tipo de furto ou abuso. Há somente uma única sala, como num cinema normal, várias cadeiras e uma grande tela ao fundo.

“As sessões são variadas, e, mesmo sendo filmes pornôs, são clássicos e nada muito escandaloso”, comenta Mari. Do lado de fora, há uma coleção de quadros do proprietário retratando filmes das décadas de 60 e 70, muitos com grandes astros, como Marilyn Monroe, Elvys Presley, Sean Connery e Charles Chaplin, entre outros. Com o avanço do cinema no Brasil, o surgimento de salas em shoppings centers, a pirataria de filmes e o grande crescimento dos downloads de filmes pela internet, o cine Morgenau perdeu muito de seu prestígio. Hoje, tem pouca clientela e parcos recursos. Aos poucos, vai deixando de existir, sendo conhecido apenas por aqueles que já estiveram lá. Jorge, o último proprietário do estabelecimento, faleceu em outubro deste ano, aos 80 anos de vida, dos quais a maior parte dedicados ao cinema. O Cine Morgenau fica atualmente na Rua Conselheiro Laurindo, 1.010, funcionando das 10h às 21h, com sessões para maiores de 18 anos a partir de R$ 8,00, “sempre atendendo a todos com um grande sorriso”, finaliza Amélia.


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ESPECIAL

Acessórios eróticos esquentam a relação Franciane Bubniak e Miriã Ceccon

Muitas pessoas ficam constrangidas em frequentar uma sex-shop, pois temem o julgamento da sociedade. Aquelas que não visitam essas lojas, muitas vezes por preconceito, não têm conhecimento dos produtos comercializados. Sex-shop é uma boutique que vende acessórios eróticos e produtos que estimulam a relação sexual e aumentam o prazer. O setor não agrega apenas pessoas que têm trabalho fixo, mas também aquelas que vão até os clientes que, por timidezn não frequentam as sex-shops. Uma delas é Graziele Santos, para quem a procura para “esquentar” a relação é constante. No início da profissão, ela ficou um pouco tímida, pois teve medo que as pessoas fizessem um pré-julgamento por ela estar revendendo esses produtos. Graziele diz que existem muitos homens preconceituosos e que são poucos os que procuram esses tipo de produtos. Ela diz também que não está acostumada com esses poucos clientes, que muitas vezes pedem sua opinião sobre os produtos, mas, mesmo assim, ela consegue suprir suas necessidades. Ela relata que os clientes geralmente buscam opiniões de outras mulheres, que não são suas companherias. Alguns dos clientes de Graziele são homossexuais, e ela diz ser divertido e diferente vender os produtos a eles, pois são bem interativos e geralmente sabem o que procuram. Os produtos mais vendidos por Graziele são óleos aromatizantes, bolinhas do prazer, fantasias temáticas e brinquedos eróticos. Márcia Soares Nogueira é casadas há 11 anos e tem dois filhos. Ela gosta de apimentar seu relacionamento para não cair na rotina. É cliente de Graziele há cerca de um ano e meio, por indicação de amigas que também utilizam esses produtos. Márcia afirma que os acessórios vêm causando efeito positivo e satisfazendo tanto ela quanto seu esposo, que a apóia na compra dos acessórios. No começo, ele a achou “louca”, pois tinha um certo preconceito e acreditava que não precisavam daquilo para esquentar a

relação, mas hoje ele é a favor e gosta de utilizar na hora da relação. Já Odete é representante de uma marca de lingerie há pelo menos cinco anos, não tem um ponto comercial e usa uma sala vaga de sua casa para guardar os produtos. Há quase um ano, incluiu no seu mostruário alguns produtos mais “picantes”. A revendedora conta que, quando começou a revender géis, óleos e fantasias ousadas, a clientela aumentou, mas, depois de algum tempo, parecia não estar satisfeita com os produtos. Odete oferecia objetos bonitos, charmosos e divertidos, mas as mulheres queriam algo mais funcional. Foi então que a representante de lingerie começou a revender também próteses e vibradores. “No começo, eu não vendia essas coisas porque achava que não seriam tão procuradas, mas depois vi que são os campeões de vendas”, explica. “As mulheres vêm uma vez, compram uma lingerie, voltam e compram um gel, mas depois voltam e levam um vibrador”, entrega a vendedora, animada. As semanas de maior venda foram as duas que antecederam o Dia dos Namorados, e Odete planeja abrir uma loja física antes do próximo dia 12 de junho. A vendedora diz ainda que, na maioria dos casos, são as mulheres que decidem introduzir objetos na relação, mas que os homens não se sentem incomodados. “Afinal, elas vêm aqui buscando apimentar a relação, então eles gostam”, afirma. Para Odete, o assunto deixou de ser tabu e está quase virando uma necessidade. “Muitas mulheres vêm aqui toda semana, então, acho que não é só fetiche. Se elas se sentem bem, isso melhora muito a qualidade de vida delas”, conclui.

Curitiba, dezembro de 2010

CULTURA

Clima de Natal toma conta do centro A tradicional apresentação do coral infantil do Palácio Avenida completa 20 anos

Criança é preparada para a apresentação de Coral no Palácio Avenida

Janiele Delquiqui Atrás de luzes, cores e encantos, muita gente não sabe, mas existe um projeto especial. É por meio da música que a vida de crianças órfãs e carentes está sendo transformada. Participando do coral de Natal do Palácio Avenida, elas ganham uma nova perspectiva. Para ser um integrante do espetáculo, é preciso se esforçar e mostrar potencial. Renata de Lima tem 12 anos e está na quarta série. Ela mora no Lar Sol Amigo, no bairro São Braz, e tinha dificuldades na escola, mas, como todas suas companheiras de casa participam do projeto, ela se sentiu motivada e se empenhou para também fazer parte do grupo. “Agora eu estudo todos os dias, participo dos ensaios e estou me apresentando pela primeira vez, estou muito feliz”, revela Renata. A mãe social, Ana Freitas, conta que hoje Renata é a melhor da sala de aula: “Me orgulho em ver como ela se desenvolveu. Esse projeto mudou a vida dela, pois ela tem se empenhado muito e se sente motivada também”, diz emocionada. Acompanhando os bastidores, percebe-se muito corre-corre, trabalho e expectativa. Para que saia tudo como esperado, são mais de 400 pessoas trabalhando. “Não vejo a hora de abrir as janelas, estou ansiosa e um pouco nervosa”, conta Maria Eloisa de Souza, de nove anos, que ensaiou desde agosto para se exibir ao público.

Com muita alegria, as crianças ganham gosto pela música com a ajuda da maestrina Dulce Primo, que há 17 anos coordena as 160 crianças. Neste ano, comemorando os 20 anos de apresentações, ela também completa 50 anos de carreira. “Nem penso em me aposentar. Trabalhar aqui me dá prazer enorme”, diz a musicista mineira. Muita emoção Antes de subirem para suas janelas, as crianças passam por um aquecimento vocal muito divertido, que parece mais uma brincadeira. E enquanto se posicionam, do lado de fora, milhares de pessoas aguardam o início do espetáculo. Quando as 100 mil lâmpadas são acesas, as vozes ecoam pelo centro da cidade. A emoção e o encanto do Natal fazem vibrar corações. O Palácio Avenida, um dos principais marcos históricos da cidade, se transforma e ganha cores, formas, expressões e vozes. Embalado pelas canções natalinas, o público não esconde a emoção. “É a segunda vez que tenho a oportunidade de assistir e acho muito lindo. Nunca vi um espetáculo de Natal com esta dimensão”, diz a empresária Márcia Macedo. Neste ano, a novidade é que o público também canta com o Coral. A canção Noite Feliz é projetada no prédio como um videokê. As apresentações, que têm como mestre de cerimônias a atriz Isabela Garcia, acontecem até o dia 19 de dezembro, de sexta a domingo, sempre às 20h30. 


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Curitiba, dezembro de 2010

CULTURA

Sandy do começo ao fim Depois de mais de três anos fora dos palcos, a cantora Sandy Leah estreia sua nova turnê, “Manuscrito”, na capital paranaense Laiz Marina Quem esperou por esse retorno e não deixou de acreditar que a campineira Sandy Leah voltaria aos palcos não se decepcionou com o primeiro show da sua nova turnê, intitulada “Manuscrito”. Muito pelo contrário, o público foi ao delírio ao rever a cantora de volta aos palcos. Sandy nasceu com a música no sangue. Filha do cantor Xororó, que recentemente comemorou 40 anos de carreira ao lado do irmão Chitãozinho, ela cresceu embalada pela música e com o passar do tempo se tornou dona de uma das mais belas vozes do Brasil. Sandy tinha apenas cinco anos de idade e seu irmão Júnior seis quando tudo começou. Depois de uma apresentação no programa “Som Brasil”, cantando a inesquecível “Maria Chiquinha”, os irmãos encantaram o público, mostrando que dali em diante não tinham mais dúvidas, a vida deles era mesmo a música. Passaram-se 17 anos, e o sucesso ainda era enorme por onde os irmãos se apresentavam. Em cada show, em cada apresentação, os fãs iam ao delírio. É do que se recorda Elizabeth Ferreira, de 54 anos, mãe de Mariela, 25, que, assim como as outras garotas de sua idade, fazia loucuras pela dupla: “Uma vez, ela estava viajando e soube que a dupla se apresentaria em um programa de televisão, mas como ia estar na estrada, não conseguiria assistir à apresentação. Ela me ligou na úl-

Divulgação

Sandy e Júnior no começo da carreira

tima hora, aos prantos, pedindo que eu gravasse o programa. Naquela correria para achar uma fita, acabei gravando em cima de um especial do Chico Buarque que guardávamos com muito carinho.” São histórias que para os fãs até parecem comuns: “Ela ganhava mesada e gastava tudo em revistas e CDs. Lembro uma vez em que ela comprou o mesmo CD que já tinha, só porque no atual havia uma música de lançamento”, conta ainda Elizabeth. Essas e outras lembranças jamais serão esquecidas e são guardadas com muito carinho, já que para os fãs tudo vale a pena. Rafaella Machado, de 23 anos, passou a admirar a cantora e suas músicas quando a dupla estava se despedindo dos palcos. “Eles estavam fazendo os últimos shows que finalizariam a carreira. Eu fui ao espetáculo e a partir daí me apaixonei pela voz da Sandy. Eu mal conhecia o trabalho deles e já estava fazendo loucura pela dupla. Arrastei meu na-

morado, e ele teve que ficar comigo o show inteiro em pé. Ele quis me matar”, conta Rafaella. O tempo passou, elas cresceram, e os momentos da infância nunca foram esquecidos. E foi pensando nesses momentos que, quando Sandy anunciou o show de estreia em Curitiba, elas estavam presentes revivendo cada detalhe. Após três anos afastada dos palcos, a cantora pós novamente o pé na estrada. Como diz a música de abertura: “... eu volto pra você”. E Sandy voltou mais apaixonada do que nunca pela música. Ela retomou a carreira muito mais madura, mais brasileira, mais Sandy. Tudo estava a sua cara: o cenário, o repertório, a roupa, os fãs. Ao entrar no palco, a emoção não pôde ser contida. Com muita dificuldade e segurando as lágrimas, ela cantou “Pés Cansados”. Reviveu mais uma vez o delírio do público. Durante o show, a alegria era visível e a emoção constante. Era o encaixe perfeito do que havia procurado. Além das músicas do primeiro CD solo (a maioria composta por ela), Sandy foi de Marisa Monte a Oasis e em todas as letras um pedacinho do que caracterizava a cantora pôde ser sentido por cada um que acompanhou sua vida. Divulgação

Divulgação

A dupla na divulgação da última turnê da carreira, antes de seguirem suas carreiras separados

Sandy em seu show de estréia em Curitiba

Cabe no Bolso

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Elaine Nunes

Bondinho da rua XV agora é biblioteca O programa Curitiba Lê, da Fundação Cultural de Curitiba, teve a iniciativa de reformar o bondinho da Rua XV de Novembro e transformá-lo em biblioteca para levar aos curitibanos o acesso à cultura. Após quatro meses fechado, o histórico bondinho foi reformado e agora conta com mais de 2,5 mil livros. No acervo, encontra-se clássicos da literatura brasileira e universal, e obras atuais de autores brasileiros e estrangeiros. O empréstimo é gratuito. Não há desculpas para deixar de ler um bom livro. Os interessados devem apresentar documento de identidade com foto e um comprovante de endereço. Podem ser emprestados dois livros por 15 dias. Local: R. XV de Novembro Horário: de 2ª a 6ª, das 8h30 às 19h30, e sábados, das 8h30 às 14h30.

Natal em família na Generoso Marques Em dezembro, até o dia 16, o tema do Natal no Paço da Liberdade, na Praça Generoso Marques, vai unir muitas pessoas por meio da música. Serão quatro noites de espetáculos, performances artísticas e outras atrações. O evento é mais uma ação do Sesc Paraná, que tem como objetivo promover a revitalização da cidade por meio da cultura. O palco das apresentações será uma grande caixa de música, que ganhará projeção animada nas datas sem espetáculos. Durante o dia, intervenções artísticas vão animar o público que passa pela praça e os trabalhadores do comércio. Uma boa opção para sair com a família e amigos e aproveitar o clima do Natal.


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CULTURA

A exposição do terror Museu do Instituto Médico Legal retrata alguns dos horrores da violência cotidiana na região de Curitiba André Vinícius Bezerra

Coleção de calcinhas que pertenceu a um maníaco sexual

André Vinícius Bezerra Uma foto de menina morta com três canetas enfiadas no nariz e dois lápis na vagina. Três múmias, uma delas na forca e outra remontada, após ser mutilada por foice. Um pênis artificial de aproximadamente 20 centímetros de largura com resíduos de fezes. Um feto masculino com o pênis nascido na testa e até uma coleção de... calcinhas? Esse é o cenário testemunhado pelos visitantes do Museu do Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba. Sua área não é muito grande (apenas 30 m² distribuídos em uma sala em formato de “L”), contudo, é capaz de causar repugnância em poucos instantes. Logo na entrada, encontram-se dezenas de fetos com má formação congênita, órgãos afetados pelo consumo de drogas e um pênis decepado. A parte superior das paredes é repleta de fotos de cadáveres com todas as mutilações na área da cabeça e do tórax. Restos mortais carbonizados, ossos e moldes de vaginas estupradas compõem a macabra decoração de parede. Uma das múmias é a do assassino curitibano Paraibinha, que atacava suas vítimas a foice e terminou morto por sua arma predileta em 1977. A lascívia humana é exemplificada pelos vibradores nas versões pênis e vagina e pela coleção de calcinhas que pertenceu a um maníaco sexual. O curador, Joel Camargo, tem 30 anos de experiência no IML e é o responsável pelo museu há sete anos. “Gosto do que faço. Eu trabalho com respeito aos mortos”, afirma. Mesmo com muitos anos de experiência, Camargo acha que “tanta violência é algo chocante”. E completa: Agradeço a

Deus pela vida”. De acordo com o curador, o museu surgiu no início de 1975 para fins de estudos científicos, criminais e educacionais. Em um ano, cerca de 3.200 alunos de Medicina, Enfermagem, Direito e outros cursos passam pela horripilante exposição. A estudante de Enfermagem Dayana Augustymczyk, de 26 anos, em sua primeira visita, impressionou-se com o material do museu: “Sinto revolta. Essas coisas não chegam para nós pela mídia, e quando vemos isso de perto parece até que faz parte de outro mundo”. Já a aluna de Biomedicina Diana Cruz, de 20 anos, resume em uma frase chula suas impressões sobre o museu: “O mundo é foda”. Para o também acadêmico de Biomedicina Humberto Ronque, “apesar da banalização da violência, ainda é possível se impressionar com o que o ser humano é capaz de fazer”. As visitas ao museu são guiadas pelo curador Joel Camargo e dependem de autorização prévia do diretor-geral do IML (Cel. Almir Porcides Jr.) ou do interventor geral do necrotério (Antônio Cássia). Não é permitido gravar, filmar ou fotografar seu interior. Menores de 18 anos só podem fazer a visita na companhia de seus responsáveis. O museu está instalado no subsolo do IML, na Avenida Visconde de Guarapuava, 2.652, Centro, em Curitiba. SERVIÇO Horário: das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira. Telefone: (41) 3281-5600.

Curitiba, dezembro de 2010

CONTO

O MONSTRO José Rogério Barbosa Apressado, ele vinha a passos largos pelo longo e estreito corredor cercado por espessas telas e fios de arame farpado que conduzia à área onde se localizavam as residências. A neve acumulava-se em suas botas. Subiu rapidamente os poucos degraus que separavam a casa do chão esbranquiçado. A ânsia por usufruir do calor da mulher e dos filhos estampava-se no rosto lívido devido à rispidez do ar invernal. Embora fosse conhecido como um homem gentil e educado, a ansiedade fez com que abrisse a porta com certa brutalidade. Em resposta, recebeu uma lufada de ar quente proveniente do interior da casa. Assim que entrou, ouviu a gritaria alegre das crianças comemorando sua chegada. Em seguida, veio a correria em direção ao som da porta que se fechava atrás de si. A menina atirou-se ao seu colo, agarrando-se em seu pescoço. O garoto, abraçado nas pernas. Ele mal conseguiu percorrer o pequeno trajeto da porta até a sala. Sorrindo para a mulher, beijou-a com esforço enquanto os filhos, eufóricos, arrastavam-no em direção ao canto do recinto onde de um vaso de barro se projetava um abeto imponente. Prometera às crianças ajudar na montagem da árvore de Natal. Já estavam entrando em meados de dezembro e, embora o trabalho fosse intenso, com vagões de carga chegando à plataforma dia e noite, ficou feliz em conseguir cumprir o prometido. Por todo o sofá, espalhavam-se bolas de Natal de diversas cores. Vermelho, verde, amarelo, azul, tão brilhantes que podiam mesmo refletir os sorrisos de todos. Havia também fitas multicoloridas que envolviam a árvore em uma espiral larga na base da folhagem, terminando estreita e acompanhando seu formato de conífera. Vez por outra, a mão delicada de uma das crianças conduzia uma bola à mão forte do pai, que, apoiado em uma pequena escada de não mais que três degraus, tratava de fixá-las na parte superior da árvore. Quando finalmente terminaram, ficaram por um bom tempo admirando a obra, como se cada um fosse o artista que a distância avalia detalhadamente o produto de sua arte. Foram interrompidos pela mãe que trazia na bandeja o chá quentinho com torradas e geléia de morango. Ficaram assim, tomando chá ao pé da árvore de Natal recém-enfeitada e ouvindo as histórias dos tempos em que o pai era criança em uma cidadezinha alemã do sul da Bavária. Quando finalmente terminaram o chá, levantaram-se, e as crianças foram com a mãe para a cozinha enquanto o pai, sozinho, fumava um último cigarro antes de voltar ao trabalho. Na vitrola recentemente comprada, Chopin atirava suaves noturnos pelo ar. Enquanto tragava e aspergia a fumaça branca no ambiente, Hans aproximou-se pensativamente da janela. Lá fora, o céu polonês ia vagarosamente transformando-se do cinza escuro para o negro profundo e sem estrelas. Nisto, as primeiras luzes dos holofotes foram sendo ligadas uma a uma. De onde se encontrava, Hans podia ver a neve caindo levemente através da luzes agora projetadas. Missão familiar cumprida e de volta ao ar frio do exterior, Hans refez o caminho labiríntico em direção à plataforma da estação. A noite já tinha caído no zênite polonês quando ele juntou-se ao punhado de oficiais à espera do próximo comboio noturno. A conversa era animada e girava em torno de quem se encarregaria das festividades de fim de ano. Hans era conhecido por ser anfitrião bastante atencioso e dar as melhores festas. Foi somente mais tarde, quando caminhava em direção ao seu escritório, que Hans Müller, oficial das SS, entendeu que a neve derramada pelo céu que encobria o complexo de edifícios e cercas de arame farpado chamado Auschwitz não era de fato neve e sim a macabra fuligem expelida por suas grandes e incansáveis chaminés. Hans, homem letrado, apreciador das artes, pai e marido dedicado, seguia pensativamente pelo corredor, em direção aos edifícios administrativos do campo de extermínio sob seu comando, acumulando corpos sob a sola de suas botas, conscientemente ignorando o monstro que se avolumava dentro de si...


CRÔNICA

ESTANTE PARANAENSE

Senhor presidente

Eliaquim Júnior

Diego Gianni Todos os presidentes que o Brasil já teve se reuniram em um jantar. Depois de alguns drinques, entraram numa disputa de egos para ver qual deles havia sido o melhor líder. – Calem a boca! – urrou Castelo Branco. – Ou mando tudo mundo pra cadeia! Costa e Silva, Emílio Médici e Ernesto Geisel sorriram como manifestação de apoio. Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto bradaram com indignação: – Respeite os mais velhos! – Toda essa discussão é uma tremenda bobagem! – disse aquele sentado à esquerda de Peixoto. – Eu fui o presidente mais prudente que o Brasil já teve! – E quem é você?! – questionou Médici. – Prudente de Morais! Ninguém riu da piada, ou talvez nem fosse piada. Mais forçado ainda foi quando Júlio Prestes se levantou e disse: – Não há nada que Prestes neste país. Pouco depois, com alguns dos presidenciáveis à beira do coma alcoólico e os ânimos exacerbados, Epitácio Pessoa gritou: – Café! – Aceito – disse Nilo Peçanha com um sorriso bonachão. –���������������������������������������� Não, idiota! – retrucou Epitácio. – Estou chamando o Café Filho ali no canto da mesa, que não abriu a boca até agora. – É porque estou entretido conversando com meu colega. – disse e virou-se para ele, ignorando os demais. – Como eu ia dizendo, eu prefiro selos. E você, Jânio? – Quadros. Rodrigues Alves e Tancredo Neves ficaram isolados na mesa das crianças, já que não tomaram posse. Tancredo indignouse: – Eu não tenho culpa de ter morrido! – Não – riu José Sarney, piscando o olho para Tancredo – a culpa foi da diverticulite. Um helicóptero passou sobre o telhado da mansão onde os presidentes estavam. Itamar Franco largou seu pão de queijo, colocou a cabeça para fora da janela e avisou seus colegas: – Ulisses Guimarães está brincando de helicóptero de novo! –������������������������������������ Pois manda ele vazar daqui que presidente ele nunca foi! – sentenciou João Figueiredo. – E vê se abaixa esse topete, Itamar! Tocou a campainha. Nereu Ramos olhou pelo olho mágico e disse para os demais: – É a junta militar. – Deixa eles entrarem – sorriu Castelo Branco. – Assim não dá! – choramingou FHC. – Assim não é possível!

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Curitiba, dezembro de 2010

– Calma, Cardoso – abrandou Hermes da Fonseca – a gente não abre a porta e pronto! – Não é isso. Estou chorando porque o Lula é mais popular que eu. –������������������������������������ Companheiro FHC! – disse Lula, cuspindo um bocado de farofa – O companheiro Prudente tinha toda a razão, é bobagem discutirmos. “Eu sou o cara”, e não se fala mais nisso. – Pois pra mim está faltando um dedo nesta história – murmurou Delfim Moreira para João Goulart, que ainda complementou: “Um ex-sindicalista! Onde é que nós estamos?!” Jânio Quadros, bêbado como um gambá, catou uma vassoura e passou pela sala de jantar cantando: –������������������������������������� Vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo... Venceslau Brás torceu o bigode e Afonso ficou com pena. Washington Luís deu um soco na mesa: – Esta discussão vai levar 50 anos! –���������������������������������������� Pois que leve apenas cinco! – fanfarronou Juscelino, majestosamente. A campainha tocou novamente. José Linhares foi fuçar e comunicou aos presentes: – Tem uma mulher lá fora com faixa de presidenta. – Uma mulher presidenta?! – enfureceuse Gaspar Dutra. – Só no dia em que eu estiver morto! – Não vão me deixar entrar?! – berrou a mulher lá de fora. Lula tentou abrir a porta, mas todos os outros o impediram. FHC deu uma chave de braço nele. Linhares, ainda olhando pelo olho mágico, disse com alívio: –������������������������������������� Calma, meu povo. Ela está indo embora. Só que com o carro do Juscelino. – O quê?! Nenhuma mulher pode dirigir minha Brasília! JK saiu como um doido atrás dela. Collor, intuindo que não chegaria sua vez de falar, ficou vermelho feito um pimentão e cuspiu para todos os lados: –����������������������������������� Isto é uma pantomina! É uma patuscada! – Ora, cale a sua boca! – ouviu-se de um cara pintada que apareceu do nada. Aproveitando que a porta estava aberta, a junta militar entrou, tomou posse da casa e colocou fim na discussão. Todos os presidentes foram colocados em um camburão. Bom, todos menos um. E o povo quis saber: – Cadê o Getulinho? Todos os presidentes se olharam. Campos Sales gaguejou: – E-ele foi para o gabinete. Vi uma arma no bolso esquerdo dele.

Histórias do Paraná (2010) Divulgação Jorge Narozniak O livro Histórias do Paraná, escrito pelo jornalista Jorge Narozniak, tem o título auto-explicativo. A obra traz depoimentos de personagens que fizeram a história do Paraná. Mostra os principais fatos do estado, como os navios piratas naufragados com tesouros no litoral, a Revolução Federalista de 1894, a Guerra do Contestado e outras curiosidades. Narozniak, que nasceu na Ucrânia e trabalha há 22 anos na RPCTV, revela que grande parte do material que ficou de fora do programa “Meu Paraná”, está no livro. Uma boa opção para conhecer mais a fundo a cultura e as incríveis histórias do Paraná. Graffiti Curitiba (2010) Elisabeth Seraphim Prosser

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A historiadora social da arte Elisabeth Seraphim Prosser lança o livro mais completo já escrito sobre a arte de rua da cidade de Curitiba. Com uma seleção de cerca de 500 fotos registradas entre 2004 e 2010, a obra é fruto de mais de seis anos de pesquisas e envolvimento com essa arte e seus autores. A autora analisa as obras e seus autores, que são mais que desenhos na parede, são expressões, preocupações sociais e significados. Graffiti Curitiba é dividido em capítulos que abordam os conflitos no meio ambiente urbano, a diferença entre arte e vandalismo e as técnicas utilizadas pelos artistas de rua (graffiti, pichação, stencil, sticker), entre outros assuntos. Guia Politicamente incorreto da história do Brasil (2010) Leandro Narloch Divulgação Zumbi tinha escravos. A origem da feijoada é européia. Santos Dumont não inventou o avião. Essas três frases são verdades incômodas que o jornalista curitibano Leandro Narloch trata no seu livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Se você pensa que o escritor fez isso para irritar seu leitor, acertou. Ele mesmo admite isso no prefácio do livro: “este livro não quer ser um falso estudo acadêmico, como o daqueles estudiosos, e sim uma provocação. Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos”. O escritor conta no livro que Aleijadinho não passou de um personagem de ficção, porém, suas obras sempre foram reais. Leandro explica ainda que os maiores assassinos de índios eram os próprios índios. Essas e outras histórias intrigantes deixarão o leitor com a pulga atrás da orelha. Luiz Carlos Prestes, Jorge Amado, Getúlio Vargas, Lampião e Brizola também não escaparam das garras do autor.


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Curitiba, dezembro de 2010

A magia do Natal

ENSAIO FOTOGRÁFICO

Textos e fotos de Larissa Glass

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magia do Natal toma conta da capital paranaense. As luzes vermelhas enfeitam a Rua XV, trazendo o clima natalino. Como é tradição na cidade, as apresentações no Palácio Avenida enchem o centro de brilho e encanto, este ano com o tema “Unidos por um Feliz Natal”. Em comemoração a seus 20 anos, o espetáculo faz uma homenagem a todos que fizeram parte dessa história, além de promover a união entre familiares e amigos. O coral conta com a participação de 160 crianças que vivem em abrigos de Curitiba e com a ajuda de 210 “anjos” voluntários que cuidam das crianças nas janelas e na preparação das apresentações. Quem comanda a festa este ano é a atriz Isabela Garcia. Com muita luz e interação com o público, o Natal de 20 anos do HSBC arranca sorrisos e lágrimas de pessoas de todas as idades.


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