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AGIR COMUNICATIVO E RAZÃO DESTRANSCENDENTALIZADA NO TWITTER DO GOVERNADOR CID GOMES Washington Forte1 Carla Michele Andrade Quaresma 2

RESUMO O presente artigo discute o papel do agir comunicativo na formação de uma esfera pública pautada na razão destranscendentalizada, de acordo com os conceitos do filósofo alemão Jürgen Habermas. O trabalho traz um levantamento das referências do teórico acerca da formação e decadência da esfera pública, conceituação da razão prática, a divisão da sociedade em mundo vivido e mundo sistêmico e o papel da comunicação para uma esfera pública democrática. A análise se concentra no discurso adotado pelo governador do Estado do Ceará, Cid Gomes, na rede social Twitter. Estudamos os enunciados emitidos pelo governador e como eles dialogam com o discurso dos internautas que acompanham as suas publicações na rede supracitada. A partir daí, ponderamos as possibilidades de formação de uma esfera pública virtual que possa gerar a ação comunicativa. Palavras-chave: esfera pública virtual, agir comunicativo, razão destranscendentalizada.

ABSTRACT This article discuss about the theory of communicative action in the formation of the public sphere. It is based in the transcendental reason, according to the concepts of the german philosopher Jürgen Habermas. It offers a survey of theoretical references about the formation and decay of the public sphere, conception of practical reason, the division of society into the world of life and systemic world and the role of communication for a democratic public sphere. The analysis focuses in the discourse adopted by the Governor of the State of Ceará, Cid Gomes, in the social network Twitter. We studies the statements issued by the governor and how they relate the discourse of Internet users who accompany their publications in the network above. From there, we ponder the possibilities of forming a virtual public sphere that can generate communicative action. Keywords: virtual public sphere, communicative action, atranscendental reason.

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Graduando do Curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Faculdade Integrada do Ceará. Profa. Ms. em Sociologia. Orientadora da pesquisa.


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1 INTRODUÇÃO Historicamente, as pesquisas na área de Comunicação e Política se concentram no campo “mídia e eleições. Quando não, a abordagem se refere à relação de poder entre comunicação e política, “problemas atinentes à comunicação e a democracia nunca receberam a devida atenção” (GOMES, 2008 p. 13). De certo modo, o processo comunicativo em si perde espaço para o estudo dos seus efeitos. Não rejeitamos a importância das pesquisas eleitorais, mas ressaltamos que é preciso dar mais ênfase ao papel da comunicação nos processos políticos. A teoria que permeia este artigo traz uma visão mais integrada da democracia com a comunicação social: o agir comunicativo, idealizado por Jürgen Habermas. O filósofo foi assistente de Adorno e Horkheimer, estudiosos da Teoria Crítica, que se baseava na influência cultural que os meios de comunicação exerciam na sociedade. Este pensamento inspira Habermas em Mudança Estrutural da Esfera Pública (2003), dissertação de mestrado em que o teórico mostra as transformações conceituais e práticas que ocorreram na formação da opinião pública. Porém, ao teorizar a ação comunicativa, Habermas rompe com a Escola de Frankfurt e dá ao indivíduo a capacidade de se emancipar por meio da interação discursiva, contribuindo assim para a construção de uma sociedade democrática, na qual os indivíduos voltam a discutir a vida social nas esferas públicas. Para nortear a base dessa teoria, trazemos uma breve conceituação da esfera pública burguesa, seu surgimento e o papel dos meios de comunicação no seu declínio. Após essa referência primária da publicidade, o foco principal é destinado à ação comunicativa. É nesta teoria que Habermas critica a razão técnica, voltada somente para a produção intelectual, e propõe o uso de uma razão prática, com viés pragmático, voltada para o agir. Assim, o filósofo chega à razão destranscendentalizada, o pensamento integrado com o mundo e com as realidades. Com estes conceitos expostos, voltamos nossa atenção para o ambiente virtual da comunicação em rede. Mais precisamente para o perfil do governador do Estado do Cearán (gestão 2007 – 2010), Cid Gomes, na rede social Twitter. Por meio da análise do discurso, mostramos a imagem que o governador transmite em suas postagens e qual a interação discursiva que ela promove com o enunciado de outros usuários. Buscamos, neste exame, mostrar como o dialogismo pode se construir no Twitter. Em seguida, o artigo procura refletir as possibilidades práticas de que as discussões virtuais gerem uma ação comunicativa.


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2 ESFERA PÚBLICA: DA PÓLIS À AÇÃO COMUNICATIVA Em sua dissertação de mestrado, Mudança Estrutural da Esfera Pública, Habermas (2003) detalha o surgimento e as mudanças da esfera pública burguesa europeia, situando-a historicamente e mostrando as influências que essa esfera teve para a formação da sociedade contemporânea.

2.1 Esfera pública burguesa O conceito de público, atribuído a essa esfera, se refere àquilo que é contrário ao privado. Habermas (2003) mostra que na Grécia antiga a contraposição das esferas já era reconhecida semanticamente. A pólis representava a esfera pública, comum, aberta aos cidadãos. Enquanto a óikos consistia no espaço privado, a vida particular dos indivíduos. Na ágora, a praça pública das cidades gregas, os cidadãos se reuniam e discutiam as questões pertinentes à pólis, levando-se em conta a livre opinião de cada um – o princípio da democracia direta. O discurso era a ferramenta de debate das propostas. A partir do conflito de ideias, os cidadãos decidiam a posição mais adequada para o bem comum. Assim, chegamos ao conceito básico de uma esfera pública: um local em que os indivíduos podem se reunir, discutir questões comuns e gerar a opinião pública, a ideia construída coletivamente por meio dos debates. Com o passar dos anos, as civilizações se expandiram e esse modelo se dissolveu. Porém, ao fim da Idade Média, a esfera pública ressurge em outro contexto. Nos últimos anos do século XVII, a Revolução Industrial dava os primeiros passos para alcançar seu ápice no século XVIII. Naquela época, a elite europeia se concentrava na França, Inglaterra e Alemanha, onde era comum observar o que Habermas chama de esfera literária, espaços nos quais esta elite podia compartilhar opiniões sobre arte e literatura. Com o desenvolvimento industrial e a concentração de poder econômico nas mãos da burguesia, a temática dos debates passou a abranger outros assuntos. A arte deu espaço para reflexões mais políticas, envolvendo os interesses comuns da burguesia. Nascia ali a esfera pública burguesa, ansiosa por defender seus interesses e buscar a participação no Estado que era comandado pelos nobres. A partir daí, a burguesia pode se organizar e passar a interferir em outras esferas além da econômica. O acesso da classe às decisões políticas foi gradativamente aumentado,


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tanto pela presença de burgueses na corte3, como pela legitimação que o Parlamento buscava na esfera pública. Ao mesmo tempo, a queda da nobreza também foi influenciada pelo próprio contexto histórico que a Europa vivia naquele momento, no qual podemos destacar a Revolução Francesa. Este conjunto de fatores levou à formação do Estado de Direito Burguês, com uma esfera pública institucionalizada em que o Parlamento passou a ser um órgão de Estado que legitima a opinião “pública”. Entretanto, faz-se importante ressaltar que essa esfera não era tão pública assim, já que somente os comerciantes e resquícios da nobreza podiam ter voz nas decisões. A classe trabalhadora, portanto, era excluída deste espaço. Ou seja, a mesma burguesia que lutou para o fim da opressão monarca garante agora equipamentos estatais que oprimem outra classe. Aos poucos, a barreira existente entre público e privado foi reduzida e uma esfera se mesclou com a outra, gerando interferências públicas em âmbito privado e vice-versa. A esfera pública moderna se transformou então em uma “pseudo-esfera pública, encenada, fictícia. (...) As pretensões ainda têm de ser mediadas discursivamente, mas não mais no interior da esfera pública e sim para a e diante da esfera pública”. (GOMES, 2009, p. 46; 49) Somado a isso, temos a expansão da imprensa, que assume papel fundamental no processo de mudança. Por meio da comunicação de massa, as organizações (com interesses privados) que formam a esfera pública institucional (o próprio Estado, comerciantes, meios de comunicação de massa, etc.) apresentam e tentam convencer a sociedade a aprovar uma proposta de ação social. Não há discussão dos vários pontos que essa ação pode ter, a decisão é tomada pelas organizações e condicionada aos indivíduos. Um exemplo é o processo de escolha dos gestores públicos que foi adotado no Brasil. Os meios de comunicação e os órgãos governamentais reforçam o voto como uma ação democrática, já que é através dele que a população define quem irá representá-los na esfera pública institucional. Contudo, é dada uma lista de opções pré-definidas à sociedade. Os indivíduos não têm espaço para conhecer outros possíveis candidatos e avaliar racionalmente qual seria o melhor, ficam presos ao que lhes é posto. Deste modo, a comunicação de massa contribui para o simulacro de uma esfera pública, que na realidade, fere aos princípios de livre discussão e acesso.

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Na ânsia de uma elevação na pirâmide social, muitos burgueses compraram títulos de nobreza para fazer parte da corte.


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2.2 Agir comunicativo Ao escrever Agir Comunicativo e Razão Destranscendentalizada (2002), Habermas dá uma nova perspectiva para o papel dos meios de comunicação de massa na formação e desenvolvimento de uma esfera pública. O modelo dessa nova esfera exige, antes de tudo, a comunicação como interação social. O destaque que esta teoria dá ao discurso é de suma importância para compreender como a ação comunicativa pode contribuir para a emancipação do sujeito. “Nosso contato com o mundo é mediado lingüisticamente, o mundo se exime igualmente tanto do acesso direto do sentido como de uma constituição direta” (2002, p.56). Ou seja, o sentido que o indivíduo dá ao mundo que conhece é determinado pela compreensão que possui do mesmo, e não pela objetividade concreta dos ambientes que o cercam. Essa compreensão se forma a partir dos discursos aos quais o indivíduo está sujeito em uma sociedade. É na comunicação social que ele forma a sua compreensão e visão do mundo. Entretanto, Habermas evidencia que o discurso só pode se tornar uma ação comunicativa quando os sujeitos usam a razão prática. Conceito este, que é utilizado em conformidade com o pensamento kantiano. Guazzelli (2010) explica que a razão prática, para Kant, é a capacidade de empregar o raciocínio humano para uma ação, enquanto a ração teórica permanece somente na valorização do intelecto. A partir desta ideia, Habermas (2002, p. 36) lista quatro pilares de “parentesco” da sua teoria com a de Kant: (a) ideia cosmológica do mundo: um ambiente integrado e comum; (b) ideia da liberdade: a razão prática aplicada com ausência de coação, na qual todos têm o direito de se expressar conforme desejam; (c) capacidade das ideias: consiste na validade incondicional das ideias racionais discutidas em conjunto, sem pré-julgamentos; (d) capacidade dos princípios: relação entre a razão regulativa, como “tribunal supremo” e a capacidade das ideias. Logo, representa e prevalência da moral sobre a ética. Estes conceitos já estavam presentes na esfera pública burguesa, que defendia seus interesses públicos a fim de interferir no Estado (ideia cosmológica); era acessível e paritária, até certo ponto, por se concentrar em locais públicos onde “todos” poderiam participar (ideia da liberdade); discursiva, enquanto abria espaço para o diálogo entre os participantes (capacidade das ideias) e despida de uma ética pré-determinada, já que eram as discussões e argumentos daquele momento que definiam as decisões posteriores (capacidade dos princípios).


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As mesmas referências persistem na razão destranscendentalizada, que é, antes de tudo, uma razão prática. Mas o contexto é outro. Agora, Habermas mostra uma divisão na sociedade que também divide a razão prática. A conjuntura sócio-econômica pós-industrial – na qual se pode destacar a consolidação do capitalismo, o desenvolvimento tecnocientífico e a expansão dos meios de comunicação – contribuiu para a separação da sociedade em dois mundos: o mundo vivido, que compreende a práxis social, e o mudo sistêmico, onde se encontram as organizações que constroem a pseudoesfera pública. O mundo vivido é o locus do conhecimento integral, dialógico, sem conceitos absolutos. É neste mundo que vivemos cotidianamente, enfrentamos conflitos e aprendemos a raciocinar. É nele também que as reflexões práticas ocorrem e podem gerar discussões e ações posteriores. No outro lado, o mundo sistêmico privilegia a razão teórica, constituindo o ambiente estrutural em que a ciência 4 tenta isolar a si própria e aos objetos que estuda. Não obstante, as organizações que simulam a pseudoesfera pública se isolam do mesmo modo, decidindo com base em interesses particulares, questões que afetam o coletivo. A discussão perde espaço para os paradigmas. Por conta do próprio contexto social capitalista e da concentração do poder público, o mundo sistêmico começa a se apoderar do mundo vivido. Essa ação, classificada por Habermas como “colonização do mundo vivido”, gera a transcendentalização da razão prática. Ou seja, o pensamento racional produzido no mundo vivido é colonizado pela razão técnica do mundo sistêmico, no qual ideias são apresentadas e aceitas como corretas sem o processo de discussão prévio. Do mesmo modo, a lógica da razão pragmática, pautada nos fins e objetivos individuais, sai da esfera do sistema e chega à pública. Aqui é importante ressaltar a diferenciação entre a teoria crítica de Adorno e Horkheimer e a colonização do mundo vivido de Habermas. A primeira supõe que os meios de comunicação de massa constroem uma indústria cultural que manipula os indivíduos através do controle psicológico. O sujeito é produto da sociedade e se torna um fantoche das normas sociais. Habermas reconhece essa influência do sistema na formação do sujeito, mas não tira do indivíduo a capacidade de agir racionalmente. Mesmo utilizando uma razão transcendental, fora do mundo em que vive, o ser social não decide suas ações por imposição ou condicionamento dos meios de comunicação. Ele decide de modo racional a partir das 4

Não me refiro apenas à ciência clássica (Matemática e Ciências da Natureza), mas à scientia ligada a todas as formas de conhecimento.


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realidades as quais têm acesso, incluindo as que lhe são apresentadas como verdadeiras pelos mass media. Mas o que seria a verdade? Os meios de comunicação mentem ao relatar fatos de acordo com os interesses do sistema e levam os indivíduos ao erro por conta da omissão da verdadeira realidade? Habermas esclarece isso ao afirmar que a verdade incondicional e irrefutável possui dois aspectos principais que nos levam ao erro. De um lado, é sugerido que a verdade possa ser concebida como assertabilidade ideal, por meio da qual esta, em compensação, se limita a um consenso alcançado sob condições ideais. Mas uma afirmação encontra a concordância de todos os sujeitos racionais porque é verdadeira; ela não é por isso verdadeira, porque poderia criar o conteúdo de um consenso alcançado idealmente. Por outro lado, o quadro conduz o olhar não para o processo de justificação, em cujo decorrer as afirmações verdadeiras deveriam resistir a todas as objeções, porém para o estado final de uma concordância em constante revisão. (HABERMAS, 2002, p. 58)

Na primeira questão, a verdade limita-se a um determinado contexto ideal de uma esfera, sem considerar a multiplicidade de conceitos que podem existir para além daquela. O que é verdade consensual para determinado grupo pode muito bem não o ser para outro, já que as realidades e contextos são diferentes. Prosseguindo a sua contestação à verdade absoluta, Habermas retoma o quadro formado pela colonização do mundo vivido, no qual a visão racionalista do sistema prioriza os fins, o estado final da verdade e não a sua justificação. É assim que o filósofo deixa claro que no mundo vivido a verdade incontestável é impossível. O que existe é uma “aceitabilidade racional” do que é posto pelo sistema. O sujeito aceita, ou não, as ideias que lhe são ofertadas a partir dos argumentos que elas oferecem, racionalmente. O problema é que esta razão foi transcendentalizada, portanto, não há discursos adicionais para estabelecer um processo dialógico, a razão se baseia no que é transmitido pelo mundo sistêmico. E aqui os meios de comunicação assumem um papel importante, ao propagarem as “verdades absolutas” do sistema ou reduziram as realidades do mundo vivido. A saída proposta por Habermas é a razão destranscendentalizada, o retorno da razão prática ao mundo vivido, complexo, repleto de conflitos ideológicos, vivências práticas e realidades diferentes. Nesse mundo, o indivíduo tem a possibilidade de estabelecer relações múltiplas e, a partir de sua própria vivência, refletir a sociedade em que vive para chegar à ação comunicativa. Uma razão destranscendentalizada é integral, construída a partir da multiplicidade de conceitos e da relação dialógica do discurso. É a partir dela que a ação comunicativa pode


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se concretizar, indicando “aquelas interações sociais para as quais o uso da linguagem orientado para o entendimento ultrapassa um papel coordenador da ação” (HABERMAS, 2002, p. 72). Assim, a ação comunicativa e a razão destranscendentalizada surgem como elementos de formação de uma esfera pública contemporânea voltada para o complexo mundo vivido. Afinal, é neste mundo que as relações linguísticas se desenvolvem e mediam discursos.

3 METODOLOGIA DE ANÁLISE

Já que o agir comunicativo baseia-se nas relações dialógicas entre os sujeitos, escolhemos a AD - Análise do Discurso como metodologia de pesquisa para este artigo. A AD procura descrever, explicar e avaliar os processos de produção, circulação e consumo dos sentidos vinculados aos textos na sociedade, para isto engloba diversos conhecimentos. As raízes da análise do discurso encontram-se na Grécia antiga, onde duas práticas surgiram. Uma ligada à interpretação (hermenêutica) e a outra à produção (retórica) de textos. A hermenêutica enfatiza a interpretação dos textos, inicialmente era aplicada na decodificação das previsões dos oráculos, como o de Delfos. Aos poucos foi ampliada para outros textos religiosos, jurídicos e literários. Possui como principal objetivo o resgate da semântica original do texto, tendo servido muitas vezes para impor uma interpretação privilegiada. Por volta do ano 485 a.C, nas colônias gregas da Sicília, surgia a retórica, inicialmente como um conjunto de regras para textos proferidos ao ar livre. Posteriormente se ampliou para os textos deliberativos. Milton Pinto salienta que “por ser uma técnica de produção textual, a retórica é também, de modo mais ou menos implícito, a primeira teoria da produção e recepção de textos.” (2002, p.16). Na história da análise de discursos duas tradições se destacam: a francesa e a americana. A tradição francesa aborda discursos definidos como práticas sociais determinadas pelo contexto sócio-histórico, enquanto a americana combina a descrição da estrutura e do funcionamento interno do texto. Nesta pesquisa, adotaremos a tradição francesa como referência.


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3.1 A interação discursiva Como o discurso não é constituído somente pela superfície textual, os conceitos de emissor e receptor desaparecem e transformam-se em sujeitos e assujeitados da interação. O texto, quando contextualizado, torna-se um enunciado. O emissor dá lugar ao sujeito da enunciação, que produz o enunciado, e ao sujeito do enunciado, que o profere. O receptor, por sua vez, assume a postura de sujeito falado, a quem o enunciado é dirigido./ Para Bakhtin, citado por Saldivar (2004), “a realidade fundamental da linguagem é o dialogismo”, visto que a linguagem se contextualiza através da interação. Aqui também surge outro termo definido por Bakhtin que está muito próximo do dialogismo, a polifonia, que faz referência à intertextualidade, às inúmeras vozes que se fazem presentes em um texto. A heterogeneidade compreende a polifonia e o dialogismo, manifestando-se explicitamente, quando a menção a outros textos é claramente visível, e implicitamente, quando a alusão se faz presente nas “entrelinhas” do enunciado. Estes elementos estão presentes nas discussões que acontecem em uma esfera pública e no próprio conceito habermasiano desta. A variedade de discursos é heterogênea, ao integrar cada uma das posições dos indivíduos privados. Mas essa diferenciação inicial parte para o entendimento comum, o diálogo entre as diversas vozes que compõem o debate.

4 COMUNICAÇÃO EM REDE Com base na ideia de destranscendentalização da razão, analisaremos a possibilidade do agir comunicativo no espaço virtual, mais precisamente na rede social Twitter, que tem ganhado diversos usuários na internet. Com a expansão desse meio de comunicação e das novas tecnologias, surgiu a comunicação em rede. Ao contrário dos outros mass media, aqui não existe alguns emissores e vários receptores. De acordo com Amstel (2006, p. 02), “nesse novo cenário, pessoas comuns podem ser mais do que receptores, participando ativamente da criação e significação das mensagens”. Todos emitem e recebem mensagens, formando uma “teia de fluxos e nódulos (...), trama complexa de percursos e entrecruzamentos que entrelaça comunicação e contemporaneidade” (RUBIM, 2000, p. 27). Assim, o indivíduo dá lugar ao sujeito, propiciando-lhe escolher qual caminho deseja percorrer para decodificar a mensagem. Essa possibilidade fez com que a internet crescesse em ritmo acelerado. As estatísticas são calculadas por IP (Internet Protocol), um número de identificação único que


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cada computador em rede possui. Contudo, o mesmo terminal de acesso pode ser usado por várias pessoas, por isso, a aferição destes dados não tem 100% de precisão, mas serve como um indicativo do avanço da web5. De acordo com o Internet World Stats, 1,3 bilhões de pessoas usam a rede no mundo. Só no Brasil, calcula-se que 67,5 milhões6 utilizam a internet em qualquer ambiente (casa, trabalho, escola, telecentros, etc.). O número representa apenas 36,1% da população brasileira, que até 2009 era composta por 193,5 mi habitantes 7. A estatística ainda fica menor quando se verifica o número de pessoas com acesso à internet residencial. Conforme pesquisa do IBOPE, em abril de 2010, apenas 46.986 estavam conectados à rede mundial de computadores a partir de suas casas. Apesar dessa desigualdade, há um ponto crucial no que diz respeito à acessibilidade da internet: a sua rápida expansão. Ao fim de 2005, apenas 20,9% da população tinha acesso. Hoje, após quatro anos e meio, a cifra é de 36,1%. Esse nível de crescimento levou o país a se tornar o quinto maior mercado mundial para celulares e internet, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Conquistando cada vez mais usuários e reduzindo as barreiras entre espaço e tempo, a internet possibilitou um maior nível de interação entre os internautas através do compartilhamento de textos, fotos, músicas, atividades, etc. Essa interação ocorre de modo especial nas redes sociais, sites em que o internauta pode cadastrar um perfil e relacioná-lo com outros a partir de suas afinidades. Estes espaços também funcionam como fóruns abertos, nos quais os usuários podem expressar sua opinião de acordo com temas pré-estabelecidos ou ainda propor as temáticas que devem ser discutidas. Dentre as redes sociais mais movimentadas da web, encontra-se o Twitter, um serviço no qual os internautas cadastram uma página pessoal e realizam postagens que respondem a pergunta “what are you doing?” (o que você está fazendo?) em até 140 caracteres. O limite foi imposto a partir do tamanho de uma SMS – Short Message Service, mensagens de textos que podem ser enviadas por celulares, a fim de que fosse possível atualizar a página pelo dispositivo móvel. Mas a integração do Twitter não ficou só nos celulares, por ter uma API8 livre, a plataforma pode ser incorporada em qualquer serviço de 5

Web significa teia, em inglês. A palavra é usada como um diminutivo de World Wide Web (teia mundial) para designar a cadeia de informações formada pelos sites. 6 Dados referentes ao ano de 2009, de acordo com o Instituto de Pesquisa IBOPE. 7 Indicators on Population. In United Nations Statistics Division. Demographic and Social Statistics. Statistical Products and Databases. Social Indicators, 2009. 8 Application Programming Interface (Interface de Programação do Aplicativo) – código de programação que permite a integração de um software com outros.


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publicação. Hoje, há ferramentas de integração do Twitter com emails, páginas pessoais, portais de notícias, smartphones, câmeras de vídeo, foto e outros aparelhos eletrônicos. Essa descentralização do conteúdo permite que o Twitter seja acessado de qualquer lugar, sem a necessidade obrigatória de um computador, basta apenas um dispositivo de comunicação e uma rede de conexão disponível, que pode ser a própria rede de celulares. Com isso, a ferramenta ganhou a adesão massiva dos internautas, principalmente no Brasil. O Instituto Qualibest divulgou, em 2009, que 91% dos brasileiros com mais de 18 anos, com acesso à internet, conhecem ou já ouviram falar no Twitter. Destes, 34% são usuários ativos do serviço, acessando-o mais de cinco vezes por semana. Para o jornalista Juliano Spyer (2009), o sucesso dessa rede se deve tanto à sua capilaridade quanto ao ambiente de interação livre que propicia, comparando a rede a uma “mesa de bar”. Essa analogia é perfeitamente aplicável às relações desenvolvidas no Twitter. Desde o encontro de amigos para conversas triviais até a mobilização popular de internautas com objetivos comuns. Tanto que uma comunidade discursiva se formou entre os usuários do serviço, adotando termos próprios para ações no site. Dentro do vocabulário oficial do Twitter, destaco aqui alguns termos que serão recorrentes neste artigo: - Usuário: internauta cadastrado no Twitter. Possui uma página pessoal que pode ser acessada através do seu nome de usuário, um registro único de cada pessoa registrada no serviço. A citação do usuário em mensagens segue um padrão com o sinal de arroba à frente do nome (@usuario). - Tweet: cada mensagem, com até 140 caracteres, inserida na página pessoal do usuário; - Reply/Replies: tweet que cita o nome de outro usuário, geralmente para enviar ou responder um questionamento; - Retweet: republicação de um tweet que foi postado anteriormente por outro usuário; - Hashtag: é uma palavra-chave precedida pelo sinal “#” (#exemplo). A hashtag serve para categorizar o tweet. Ao clicar nela os outros usuários podem ver todas as pessoas que usaram aquela hashtag. É um recurso muito utilizado para divulgar serviços e campanhas; - Seguidores: usuários que acompanham as postagens de outro usuário. Tendo em vista essa interação discursiva, escolhemos analisar o perfil no Twitter do governador do Estado do Ceará, Cid Gomes. Nossa meta é examinar a aplicação do agir comunicativo neste espaço e assim verificar possibilidade de formação de uma esfera pública virtual.


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A escolha do objeto se deu por conta do caráter público, interativo e descentralizado que o serviço de microblog apresenta. Estabelecendo assim, um ambiente favorável ao uso da razão destranscendentalizada. Por conseguinte, o perfil do governador Cid Gomes (@cidfgomes) foi definido para a análise buscando-se uma possível relação das discussões em torno da figura pública no Twitter e a influência destas nas suas ações enquanto chefe de Estado.

4.1 O governador no Twitter De janeiro a março de 2010, Cid Gomes realizou 180 atualizações no Twitter. A maioria (34) com informações georreferenciadas pelo programa MotionX9, e com fotos (26) de obras e ações do Governo do Estado, inseridas a partir do Twitpic10. Já em abril, o governador fez 224 postagens, divididas da seguinte maneira: 23 com texto próprio, 15 do MotionX, 24 indexadas pelo TwitPic, 83 replies, e 79 retweets. A comparação com os meses anteriores é detalhada no gráfico abaixo. .

Abr | 224

23

Mar | 19

9

Fev | 19

2

Jan | 42

11

15

24

83

Texto

79 5

2

MotionX

3

TwitPic 9

6 16

2 15

Replies Retweets

Gráfico 1 – Comparativo de atualizações do governador Cid Gomes no Twitter FONTE: Observação do perfil @cidfgomes de 01/01/2010 a 30/04/2010. Conforme se observa, de janeiro à março, Cid Gomes priorizou uma comunicação de mão única, com apenas 4 respostas às perguntas feitas por seus seguidores. Enquanto em abril, os replies e retweets foram mais recorrentes, criando um diálogo direto com os internautas. Esse aumento se deu, sobretudo, devido às respostas publicadas no dia 21 de abril, feriado de Tiradentes. Aproveitando o tempo disponível, o governador ficou cerca de quatro horas online respondendo à perguntas de diversas temáticas. Só neste dia, foram postados 75 dos 83 replies referentes ao mês em questão. Em entrevista, Cid Gomes (2010) justifica a ausência de respostas explicando que não deseja “criar espectativas nessas pessoas de que vão poder ter todas as suas dúvidas, 9

Aplicativo para smartphone que permite o envio de informações com latitude e longitude referenciadas no serviço de mapas Google Maps. 10 Site integrado ao Twitter que possibilita o envio de fotos, pelo computador ou por telefone móvel, para o perfil do usuário no microblog.


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perguntas, críticas resolvidas”. Apesar disso, o perfil de Cid Gomes no Twitter gera debates mesmo sem o retorno do governador.

5 O DISCURSO DE CID GOMES A partir do panorama apresentado, a análise do discurso de Cid Gomes no Twitter será realizada em três partes: apresentação inicial, textos (postagens próprias, replies e retweets) e aplicações (MotionX e TwitPic). Busca-se assim, mostrar a diferença na estrutura e objetivos do discurso em cada uma destas áreas, bem como a interação existente entre elas.

5.1 Apresentação inicial Em sua página inicial, no campo “Bio”, onde o usuário faz uma breve descrição pessoal, Cid Gomes apresenta-se da seguinte maneira: “46, Governador do Estado do Ceará, PSB”. O discurso emitido pela frase demonstra a experiência de vida de Gomes, ao citar sua idade; a posição pública que ocupa e a sua filiação partidária, no caso o PSB – Partido Socialista Brasileiro. A página também apresenta o brasão do Estado como papel de fundo, impresso com a mesma tipologia e croma das peças de divulgação do Governo do Estado. A utilização do símbolo oficial se une à descrição do perfil e emite um enuciado que reforça tanto o caráter de pessoa pública, como a autoridade política que o cargo de governador representa. Deste modo, o discurso inicial da página deseja mostrar que os assuntos ali tratados correspondem à opinião de Cid Gomes, enquanto governador, pessoa pública. Logo, dá-se relevância pública ao que é postado neste espaço, como declaração oficial do gestor do Estado.

Figura 1 – Página inicial do perfil @cidfgomes no Twitter FONTE: Impressão de tela em 28/04/2010.


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5.2 Textos A análise dos textos diz respeito aos tweets publicados sem links externos, replies e retweets. Como mostra o gráfico 1, Cid Gomes não possui o hábito de usar esse tipo de postagem, a maior incidência é de tweets de aplicativos. Porém, devido ao feriado de Tiradentes, o seu perfil registrou 83 replies, 79 retweets e 23 tweets com texto próprio no mês de abril. Como os retweets constituem uma heterogeneidade explícita 11, focaremos esta análise nos principais tweets e replies. Em geral, as perguntas que Cid Gomes escolheu para responder questionam prazos de obras iniciadas, detalhes sobre projetos, dão sugestões ou simplesmente elogiam a gestão.

Figura 2 – Perguntas (retweets) e respostas no perfil @cidfgomes em 21/04/2010 FONTE: Recorte de tela do perfil @cidfgomes no Twitter. Impressão em 23/04/2010. Neste recorte, é possível observar um aumento expressivo no nível de interação do governador com seus seguidores. Ele utiliza-se de um modo de dizer mais coloquial, próximo dos internautas. Ao responder o comentário da usuária veramagalhaes acerca do número de tweets e retweets, Gomes emprega o termo “azedando” com referência à pertinência do discurso naquele momento. A seguir, a gíria “rsrs”12 expressa um discurso bem humorado, transmitindo um enunciado leve, lúdico e participativo, ao passo que se questiona, implicitamente, se os participantes do diálogo ainda o consideram adequado. Mas Cid Gomes também preserva a sua linguagem formal, característica de uma pessoa pública. Ao falar sobre as obras de infraestrutua para a Copa do Mundo de 2014, o governador publica uma série de siglas como PPP (Parceria Público-Privada), VLT (Veículo 11

Os retweets do governador reproduzem a postagem original Ipsis Litteris – na maioria das vezes, a pergunta de um seguidor – para em seguida publicar uma resposta. 12 Redução de “risos” com utilização comum em meios virtuais de interação como redes sociais, salas de batepapo ou programas de mensagens instantâneas.


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Leve sobre Trilhos) e PMF (Prefeitura Municipal de Fortaleza). O uso de abreviaturas e reduções é comum no Twitter, devido ao limite de caracteres, mas deve-se lembrar que o sujeito falado desse discurso é um público heterogêneo que não tem a obrigação de conhecer o significado das siglas supracitadas. Assim, corre-se o risco de que a mensagem não seja decodificada da maneira que deveria, haja vista que sujeito falado e sujeito do enunciado fazem parte de diferentes comunidades discursivas. Por isso mesmo, Cid Gomes deveria buscar pontos de interssecção entre essas comunidades, a fim de garantir que seu discurso possa ser entendido por todos ou pelos menos pela maioria de seus seguidores. Mesmo assim, ressalvamos que, por se tratar de um meio em rede, o discurso do governador pode ser reconstruído por ele próprio ou por outros internautas. Deste modo, a dificuldade inicial de compreensão dos conceitos pode ser esclarecida por outras referências, diferente de mídias como Rádio, TV e Impresso. Este recorte também dá uma amostra da multiplicidade de assuntos discutidos pela rede de seguidores do governador. Esporte, infraestrutura e educação estão presentes nos dez tweets citados. Mas, dentre as 224 atualizações do mês de abril, surgem outras temáticas variadas como segurança, saúde, turismo, abastecimento de água, conjuntura política e outras. Atendendo, portanto, à ideia da liberdade, a livre opinião com ausência de coação e paridade de discursos. Após falar de assuntos ligados a essas diversas temáticas por cerca de quatro horas seguidas, o governador publica seu último tweet do dia 21 de abril com a seguinte mensagem: “Vou ter mesmo que sair... Amanhã tem trabalho... Vou a Brasília numa reunião sobre Transnordestina”. Aqui o enunciado reforça o discurso já empregado pela página inicial e pela linguagem formal da maioria dos replies. Existe a interação, a aproximação discursiva e, sazonalmente, a resposta direta do governador a questões levantadas pelos internautas, mas Cid Gomes não é mais um cidadão cearense no Twitter. A posição e a autoridade do cargo que ocupa são lembradas a todo momento. A justificativa para que o tempo do diálogo não se estendesse naquele dia foi justamente a agenda do Governo do Estado. Essa polifonia que destaca a face pública de Cid Gomes faz com que o sujeito falado não perca a referência de publicidade que os discursos do governador possuem. Ao mesmo tempo, o reforço constante dessa ideia propaga a imagem de um gestor consciente, que se preocupa em informar à população as ações que executa, as decisões públicas que toma e se refletem na vida cotidiana dos sujeitos.


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5.3 Aplicações Utilizo o termo aplicações para as postagens inseridas por sites ou softwares externos ao Twitter. Dentre estes, Cid Gomes utiliza com maior frequência o MotionX e o TwitPic. Em abril, os seis primeiros tweets foram inseridos pelo MotionX:

Figura 3 – Atualizações inseridas pelo software MotionX no início do mês de abril. FONTE: Recorte de tela do perfil @cidfgomes no Twitter. Impressão em 23/04/2010. Ao clicar em um desses links, o internauta é direcionado para uma página semelhante a esta:

Figura 4 – Mapa com informação georreferenciada FONTE: Recorte de tela do site Google Maps. Impressão em 16/04/2010. O software instalado no smartphone do governador mostra a visão de satélite, georreferenciada com latitude e longitude, do local da obra, evento ou ação divulgada. Alguns ainda apresentam a miniatura de uma foto. Os 15 tweets publicados em abril pelo MotionX emitem um discurso que atende à lei da pertinência, pois estão em conformidade com o enunciado inicial do assunto público. Todos tratam de uma obra do Governo que está em execução ou que foi finalizada recentemente. A lei da informatividade também se aplica ao caso, pois dá aos internautas a possibilidade de se informar sobre ações que nem sempre são noticiadas pelos meios de comunicação convencionais. Todavia, a lei da exaustividade não é cumprida. Estes tweets não emitem as informações básicas necessárias para que o sujeito falado possa decodificar a mensagem em sua totalidade. A estrutura é composta pela hashtag #MotionX, o termo Share (compartilhar, em inglês) e o link de acesso ao mapa em questão. Não se sabe qual a obra ou o local em


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questão até que se clique no link. Para quem já acompanha as atualizações do governador, há uma referência mínima do tema do tweet marcado com a hashtag citada, é um mapa com informação de alguma obra pública. Mas essa compreensão é prejudicada pela ausência de informações para os novos seguidores do perfil. Quem não souber o que é o MotionX ou o siginificado da palavra Share, não terá um código interpretável. É até possível descobrir a que o link se refere ao clicar nele, porém, nesse caso, a ação se dará por mera curiosidade, não por interesse na informação pública que se encontra no tweet.

5.3.1 TwitPic O TwitPic é um site paralelo, mas integrado ao Twitter. Ele permite a exibição de fotos em um espaço próprio e publica o link da mesma no microblog. Em abril, foram 24 imagens publicadas no perfil do governador. O teor do discurso atribuído às atualizações pelo MotionX também pode ser aplicado aos enunciados emitidos pelas fotos do TwitPic. Não há referência à vida pessoal de Cid Gomes, as imagens e ilustrações continuam a tratar de questões públicas: diagramas de projetos, eventos de órgãos ligados ao Governo e obras em execução. Com isso, Gomes reforça o discurso de um gestor responsável, preocupado com a coisa pública e a transparência de suas ações.

Figura 5 – Links postados pelo Twitpic FONTE: Recorte de tela do perfil @cidfgomes no Twitter. Impressão em 16/04/2010. Entretanto, há duas diferenças importantes entre as aplicações. A primeira é que as postagens do TwitPic atendem à lei da exaustividade. Mesmo sem ter conhecimento do site, o internauta tem a informação básica do assunto do link e saberá a temática do que pode acessar. Em segundo lugar, há o fato de que o TwitPic constrói uma rede análoga ao Twitter, que permite comentários das fotos por qualquer usuário do site, seja ele seguidor ou não do perfil de Cid Gomes. Ao comentar uma imagem, o texto é postado na página do autor, junto com o link da foto comentada. Temos assim uma expansão da rede inicial e um dialogismo de discursos.


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Mais uma vez se distanciando do modelo convencional da comunicação de massa, a comunicação em rede dá ao sujeito a possibilidade de responder ao emissor da mensagem, sem a interferência de linhas editoriais, a pertinência do discurso é avaliada pelo próprio indivíduo e por aqueles que compõem a comunidade virtual. Mesmo que o governador não tenha a rotina de responder às questões levantadas por seus seguidores, a opinião do usuário é expressa e o debate pode ser gerado. Vejamos o exemplo a seguir, sobre a inauguração de uma delegacia no município de Trairi-CE.

Figura 6 – Foto publicada por Cid Gomes em 11 de abril de 2010 FONTE: Recorte de tela do perfil @cidfgomes no TwitPic. Impressão em 27/05/2010. Quadro 1 – Resumo dos 23 comentários sobre a delegacia de Trairi Usuário Jehcordeiro

Raphaelrsr

Edwalcyr

Vascaoce

Fredericopbf

Comentário publicado (sic) “no dia que eu fui em Trairi eu vi, muito linda, parabéns” “jehcordeiro, não se iluda, esta delegacia terá mais TERCEIRIZADO que Policial Civil, é um absurdo o que estão fazendo conosco, chega a ser HUMILHANTE. Tenho fé que o troco será dado nas urnas, meu voto desta vez não será em vão!” “Pq nomear mais de 5 mil pm´s pro Ronda da eleição, e não nomear apenas 400 policiais civis remanescentes, formados e aptos, à espera de nomeação, há mais de 1 ano (230 escrivães + 119 delegacos + 52 inspetores)? Exigimos respeito, já chega!!!” “Sr. Gov. gostaria de parabenizá-lo pelo excelente trabalho q vem fazendo como governador do Estado, sabemos q o Estado precisa melhorar ainda muito por contade administraçõs anteriores q deixaram muito a desejar. Sem exagero, usando o raciocínio lógico. Se nomeasse 400 policiais, a crítica questionaria pq não 5 mil defendendo a geração de empregos.” “edwalcyr Você sabe diferenciar o papel da Polícia Ostensiva (Preventiva) da Polícia Repressiva? Você sabe o real papel da Polícia Judiciária? Você sabe diferenciar uma Polícia de rua para uma Polícia investigativa? Tomara que a população cearense abra os olhos antes das eleições! Aliás, o povo cearense já entende a situação atual da Segurança Pública. Carros de luxo e fardas estilizadas x Polícia mal estruturada com relação ao pessoal.” “Governador, existe um processo de exoneração em seu gabinete, Nº 095518754, relação 041/2010, que se encontra a quase 3 meses esperando sua assinatura. Informo-lhe que nem as 223 vagas do concurso de ESCRIVÃO foram completadas.”


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Até a conclusão deste artigo, Cid Gomes não havia postado nenhuma resposta para esses comentários. Contudo, conforme dito, a resposta do governador não é necessária para a construção do debate. Bastou apenas que a temática da segurança pública fosse levantada. O espaço aberto para a opinião e livre de coação propiciou a multiplicidade de expressões sobre o investimento público e a definição de prioridades adotada por Cid Gomes. A usuária jehcordeiro parabeniza o governador pela obra, valorizando a face positiva do discurso de Gomes. Em resposta, raphaelrsr reivindica a convocação de todos os aprovados no último concurso público da Polícia Civil do Ceará, apresentando ainda, a sua visão do caso para jehcordeiro. Utilizando-se da heterogeneidade discursiva, edwalcyr concorda com o primeiro comentário e parabeniza a gestão, que diz usar o “raciocínio lógico”. Ao mesmo tempo, ele reprova as críticas levantadas por raphaelrsr. Por sua vez, vascaoce questiona o conhecimento de edwalcyr e afirma que a população cearense conhece a realidade da segurança pública. Com os comentários de outros usuários e as réplicas daqueles que já haviam se posicionado, a postagem de Cid Gomes recebeu 23 respostas. Um número insignificante se comparado aos 8.547.80913 habitantes do Ceará. Contudo, mesmo que em pequena escala, esse debate mostra os primeiros sinais de uma potencial razão destranscendentalizada no meio virtual. As visões expressas são construídas a partir da vivência de cada um em sua própria realidade, no mundo vivido. Os sujeitos também têm a oportunidade de conhecer outros pontos de vista, contrários e coniventes com os seus. O embate de ideias pode ocorrer sem a influência de mundo sistêmico, baseando-se apenas na apresentação racional de argumentos apresentados por meio do discurso.

6 DA RAZÃO À AÇÃO: A CAMPANHA RESPONDE CID

Durante a análise do discurso no Twitter de Cid Gomes, entramos em contato com a assessoria de comunicação do Gabinete do Governador, ao fim de março deste ano, com o objetivo de solicitar uma entrevista, na qual o governador pudesse falar de sua experiência de interação na rede social. Diante da agenda lotada do gestor, a assessoria informou que era impossível marcar uma entrevista presencial ou por telefone. Assim, no dia 7 de abril, foram

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População estimada em 2009 segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.


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enviadas por email à assessora de comunicação, que se comprometeu em encaminhar as questões ao governador para que ele respondesse, se possível, em seu tempo livre. Pouco mais de uma semana após o primeiro contato, continuamos sem nenhum retorno. Assim, estabelecemos contato telefônico com a assessoria de comunicação, que disse não ter recebido as perguntas e solicitou o reenvio. Este foi realizado no mesmo dia, 19 de abril, e confirmado por telefone. Mais um mês se passou e a assessoria continuou sem dar nenhuma resposta. Em uma última ligação, realizada no dia 18 de maio, a assessora confirmou que não poderia dar um prazo para envio das respostas, haja vista que a agenda pública do governador havia se intensificado neste mês. Como última alternativa de conseguir uma declaração oficial de Cid Gomes para este artigo, surgiu a ideia de encaminhar mensagens ao perfil do governador no Twitter, solicitando a respostas das perguntas. Na noite do dia 18 de maio, foi enviado o primeiro tweet para o perfil @cidfgomes com a hashtag #RespondeCid. A partir daí, começamos uma mobilização com amigos(as), blogueiros(as) e seguidores para pedir o apoio de Cid Gomes nesta pesquisa. Em três dias, a campanha registrou 51 mensagens marcadas com a hashtag #RespondeCid. Todas encaminhadas ao perfil do governador. Foi então que, no dia 20 de maio, Cid Gomes respondeu à campanha. Como a assessoria não havia encaminhado as perguntas, o governador enviou uma mensagem direta solicitando um telefone para entrar em contato e responder às questões. No mesmo momento, enviamos um contato. Minutos depois, Gomes ligou e concedeu uma entrevista em que comentou sua experiência de interação com os internautas no Twitter. O governador declarou que descobriu a rede social por acaso. Ele possui um aplicativo, o MotionX, em seu smartphone que usa para mapear as obras do Estado e construir um banco de dados pessoal. Na última atualização do aplicativo, ele dava a possibilidade de postar as informações no Twitter. Assim, Cid Gomes criou seu perfil e começou a atualizá-lo com informações georreferenciadas. Sobre o motivo que o levou a continuar usando a ferramenta, Gomes diz que a sua “maior preocupação é tomar conhecimento do que as pessoas falam. É um instrumento importante, serve como um feedback da gestão”. Todavia, como demonstrado nos dados outrora citados, o governador não deseja criar uma rotina de uso da rede social, tampouco responder constantemente às demandas levantadas no Twitter. Para ele, isso pode gerar uma expectativa que não poderá ser atendida. “Na hora que você passa isso, as pessoas começam a


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cobrar. Eu não sou capaz de atender cobranças. Também não consigo ler como se fosse responder todos os comentários. (...) Sempre que posso dou uma olhada e dou alguma resposta. Mas não aceito provocação, sempre que alguém faz provocação eu não registro. Dou a oportunidade da pessoa se expressar, mas não respondo provocação”, ressalta. Essa posição adotada pelo governador explica, salvo o mês de abril, a quantidade pequena de respostas publicadas. Mesmo assim, temos a formação de um espaço em que a opinião pública pode se formar e chegar ao poder público, fato que não é possível, ao menos não diretamente, nos meios de comunicação convencionais. Para Cid Gomes, a opinião das pessoas é importante para tomar decisões democráticas. Ele afirma que os comentários interferem diretamente na gestão do Estado. Como exemplo, o governador conta um caso desportivo que tomou conhecimento pelo Twitter: “Outro dia que acessei, vi uma série de reclamações de que teria havido uma negativa, uma solicitação do Fortaleza [time de futebol] de fazer um jogo no sábado que antecedia o Campeonato Brasileiro, que o Ceará [time adversário] vai fazer. Então liguei pro secretário [de esportes] e perguntei por que isso estava acontecendo. Era verdade e ele me disse que sim tinha uma série de problemas, por que precisava de pelos menos dois dias pra limpar o estádio. E eu ponderei a ele que era um caso ímpar, um time de fora que vinha para uma comemoração e eu queria ajudar, pedi movimentos de outros órgãos para fazer essa limpeza em tempo recorde e deixar o Castelão pronto para o jogo seguinte”. (GOMES, 2010)

Em outras palavras, podemos dizer que o discurso dos internautas chegou ao Estado e fez com que este adotasse uma postura prática para responder a um dos anseios da população. Ou seja, o início de uma ação comunicativa, desenvolvida a partir de enunciados formados numa esfera pública virtual e concretizada com uma ação do Estado.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O dialogismo e a proximidade de realidades diferentes que se encontram na rede mostram que é possível construir uma razão destranscendentalizada na web. Primeiro, há a comunicação como base da interação em um local livre, no qual “todos” podem emitir sua opinião com uma ação regulada pelo próprio indivíduo. É ele que julga o que deve publicar ou não, diferente dos meios de comunicação de massa que possuem linhas editoriais a serem seguidas. Por isso mesmo não têm como atender todas, ou pelo menos a maioria, das temáticas que a sociedade desejaria debater. Nesse contexto, a rede também contribui para a reabilitação da razão no mundo vivido, com a múltipla visão das realidades. Um usuário pode ver a interpretação de várias pessoas a partir de um mesmo assunto. Aqui, a ideia cosmológica


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do mundo se faz presente a partir do momento em que o internauta visualiza os fatos do mundo vivido discutidos em rede no mundo virtual. A discussão sobre segurança pública gerada pela foto que Cid Gomes publicou no TwitPic mostra que essa possibilidade é concreta. A priori, a inauguração da delegacia em Trairi-CE representa um investimento benéfico para a população. Porém, alguns usuários expressaram outra opinião, que só foi possível graças à razão do mundo vivido. A informação de que os escrivães aprovados em concurso público do Estado não foram convocados parte da vivência prática e privada de um indivíduo, mas ganha relevância pública quando é contextualizada na realidade em que os equipamentos de segurança se encontram. Com isso, outros sujeitos aparecem no debate e também mostram sua posição, a favor ou contra o investimento do governo. O resultado é uma cadeia de enunciados que dialogam entre si através de vários discursos, que resguardam o ponto de vista individual, mas tratam de uma questão pública. Deste modo, a rede social Twitter apresenta uma infraestrutura adequada para a construção da razão destranscendentalizada. Isso não significa dizer que o microblog assegura o desenvolvimento da ação comunicativa. É possível conhecer e debater outras “verdades” além das ditas por Cid Gomes ou pela mídia, mas a ação comunicativa só se concretiza quando o discurso é convertido em posição prática. Exemplo disso é a própria campanha #RespondeCid. O debate foi gerado em torno da ausência de respostas do governador, vários discursos questionaram essa posição e pediram que ele respondesse às perguntas deste artigo. Ao analisar essa “opinião pública”, com base no que foi dito e em seu pensamento individual, Cid Gomes tomou a ação prática de conceder uma entrevista. Ou seja, houve a formação de uma micro-esfera pública que influenciou a ação de um gestor público. Obviamente, esse fato não tem a relevância de outros assuntos bem mais pertinentes para a sociedade, como educação, saúde, infraestrutura e equidade social. Mas ele mostra que existem outros meios da opinião pública se formar e se fazer presente no Estado, além de um processo eleitoral que ocorre a cada dois anos. Também é necessário ressaltar que, dentro de uma esfera que gere ações comunicativas, a internet se insere como apenas mais um espaço de discussão. Uma forma diferente, já que possibilita uma rede de intersecção entre esferas, mas não representa a totalidade de uma opinião pública, tanto pelo fato de ainda não ser acessível a todos, como pela própria destranscendentalização, que exige a complexidade de vivências do mundo vivido, em seus diversos locus.


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Por fim, é possível afirmar que a comunicação em rede representa um meio importante para a formação de uma esfera pública contemporânea. Mas, para que isso seja possível, é fundamental que a reabilitação do mundo vivido ocorra de maneira integrada. O acesso a essa rede não é puramente tecnológico, é social. Mais do que um elo de ligação com a web, os indivíduos precisam reconhecer o reflexo disso na práxis cotidiana, o que exige o contraponto de realidades dentro e fora do mundo virtual.

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Formação de esfera pública no Twitter