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Margarida Rebelo Pinto Não há coincidências


OFICINA DO LIVRO

“Entrei disparado e dei com um gajo a dar o nó da gravata sentado na cama. Na minha cama, onde dormi dois anos com ela. Um puto baixote, de cabelo ondulado e olhos azuis, todo pipi com sapatos de berloques. Comecei a mandar vir com ela. Perdi completamente o controle. Chamei-lhe cabra, puta e outras coisas apropriadas à ocasião. Depois virei-me para o gajo e disse-lhe: você nem sabe o que o espera. Esta mulher vai-lhe virar a vida do avesso e quando der por isso já está fodido. Foi então que reparei nos berloques dos sapatos do cabrão. Puta. O que ela gosta mesmo é de gajos queques, do tipo mete nojo. Esperem aí que eu já vos lixo. Virei-me para o gajo e disse-lhe: tem berloques nos sapatos? Olhe que ela tira-lhe os berloques! Daqui a uma semana já não tem nada, nem berloques, nem porra nenhuma. Esta mulher há-de fazer de si um palhaço, isto é, se você deixar. Se eu fosse a si...”

Quando uma mulher não ama um homem, gosta de vários. Vera tem 35 anos, um caso mal resolvido com João, um namorado de circunstância chamado Tiago, que embirra com sapatos de berloques, e Luís, um amante mais velho com quem passa bons momentos. Se Vera não tivesse ido ao Porto naquela sexta-feira, não teria conhecido o Manel por quem se apaixonou, que afinal também era amigo do seu melhor amigo Afonso e escondia um segredo que João tentava há anos descobrir... Uma história de amor onde a amizade acaba por se...


A autora agradece o apoio da ParaRede C) 2000, Margarida Rebelo Pinto e Oficina do Livro - Sociedade Editorial, Lda. Título: Não Há Coincidências Autor: Margarida Rebelo Pinto Revisão: Cátia Ferreira Composição: Oficina do Livro Capa: Maria Manuel Seixas Impressão e acabamento: Rolo & Filhos, Lda. (Portugal) 5ª edição: Maio, 2000 - 3000 exemplares


Aos meus pais, pelo infinito amor e generosidade. À Mafalda, Bruno, Paulo, Vera e Geninha, com quem sei que posso contar para sempre. Ao meu filho Lourenço. Aos rapazes da Oficina, companheiros de sonhos e de luta. Ao Hugo.


Só acreditaria num Deus que soubesse dançar. Nietzsche, in Also sprach Zarathustra: ein Buch für Alle und Keinen

o amor é uma doença (...) quando nele julgarmos ver a nossa cura. Manel Cruz (Ornatos Violeta), in Ouvi Dizer


I Consegui adiantar a reunião no Banco Internacional do Porto à revelia do Jorge, que afinal ficou todo contente porque assim já não tem que lá ir. Às vezes acho que a minha vida não teria a mesma graça se não vivesse constantemente destes pequenos malabarismos que vou improvisando para conseguir ter tempo para tudo. Também ninguém me manda ser directora criativa de uma agência de vão de escada, da qual ainda por cima sou sócia, e ter uma empresa de plantas artificiais chamada o Jardim sem Regador. Giro, não é? São os restos mortais da copy senior que se fartou de aturar pseudo-criativos a babarem-se por prémios publicitários. Quando olho para trás e me lembro que dei sete anos da minha vida às maiores multinacionais do mercado até me dá náuseas. Mil vezes pequena e remediada empresária, a viver numas águas-furtadas em Santa Catarina, do que pujante e escravizada mulher de sucesso com um T2 em Nova Campolide. Sou pobre, mas não sou obrigada a fazer campanhas a champôs que nos põem carecas em menos de três anos ou a convencer o pobre e ingénuo consumidor a alimentar-se de derivados lácteos com zero vírgula sete por cento de leite, isto sem referir a paciência que é preciso ter para aturar directores criativos adjuntos com o cabelinho à foda-se e ambivalências sexuais. Meto o carro no parque depois de ter procurado um lugar cá fora, tentando não pensar na fortuna que vou pagar quando o vier buscar à noite, e subo ao 14º andar da Torre C. Lá em cima não se ouve um pio. É um open space dividido por biombos cinzentos, palidamente ornamentados com umas plantecas rasteiras. Bolas, a estes já não vendo nada, mas também não é isso que vim cá fazer, portanto não me sinto defraudada. Pode ser que quando desatarem a abrir balcões, eu esteja no sítio certo na altura certa e ganhe umas massas a colocar ficis e outras verduras sintéticas inodoras e sem manutenção que fazem a alegria da minha conta bancária. Mas não sei se estes tipos vão abrir balcões. Um banco do Porto em Lisboa. Não vão entrar a matar de certeza. Querem-se discretos e eficientes, à boa maneira da filosofia nortenha. A menina da recepção pertence ao tipo de mulheres que nasceram sem um pingo de feminilidade. Está fardada, com galões de uma dessas empresas de segurança que estão na moda, provavelmente da qual o banco é o accionista maioritário.


Sinergias. Peço para dizer ao Dr. Miguel Não-Sei-Quê que já cheguei. Olho para o meu Gucci preto e dourado que o Afonso acha piroso e que o Tiago me deu nos anos. O gajo é mas é parvo. O relógio é amoroso. Está bem, não é um Rolex, nem um Chaumet, mas também não é uma imitação comprada por dez dólares em China Town como os da Patrícia. Estou quatro minutos atrasada, o que em Portugal é o mesmo que chegar um quarto de hora antes. Sento-me e como não sou capaz de estar quieta abro o Filofax, começo a passar os telefones - já excessivamente rabiscados para a agenda electrónica. Uma pechincha de free-shop que comprei só para ver se me habituo à tecnologia. Com o computador foi o cabo dos trabalhos, mas lá atinei com aquilo. Oiço passos sorrateiros. É o tal Dr. Miguel. Cabelo curto, óculos, fato cinzento, camisa azul, gravata indefinida. Aperto de mão acompanhado de sorriso tímido. O low-profile com pernas. Lá o sigo para o gabinete e sentamonos numa pequena mesa de reuniões a decidir quantas fotos tem esta e aquela fachada e mais isto e mais aquilo. É esperto, o Dr. Miguel. Quer organizar tudo depressa e bem, sem fazer comentários inúteis. Está visivelmente incomodado com a textura fina do meu body que me marca o peito debaixo do casaco de malha entreaberto. Estás com azar filho, porque como isto é um banco púdico vim de saia até aos tornozelos para parecer bem comportada. Ao fim de dez minutos pergunta se não tenho um irmão chamado Pedro. Pois tenho. Fomos colegas na faculdade, diz com um sorriso de quem comeu o primeiro peão ao xadrez. A partir de agora nada será como dantes. Conhecer alguém que está relacionado com outro alguém que se conhece é uma regra básica de sucesso em Portugal. O difícil é ser-se anónimo. Desta vez não sou. Que sorte, faço parte da aldeia global. Anda tudo a olhar para o umbigo, nunca fomos tão provincianos como agora. Lá saio da reunião depois de ter apanhado o Luís no telemóvel. Que prático. As pessoas sempre contactáveis, como se a nossa vida dependesse de ser encontrado nos próximos trinta segundos. O pior são as contas que os elegantes modelitos debitam ao fim do mês. E detalhadas. Já soube de dois casos de maridos atentos que descobriram as infidelidades das mulheres extremosas por causa do descritivo da conta. Ligavam cinco vezes por semana para o mesmo número e não era para a massagista nem para a baby sitter. Galo. O Luís bem tentou resistir à invasão da sua vida privada pelo diabinho sonoro, mas acabou por ceder ao grande pecado dos anos 90 em Portugal.


Espero por ele à porta da Façonnable onde bóiam gravatas lustrosas de cores vivas e camisas de riscas muito largas com a etiqueta devidamente pespegada no lado direito do bolso para não deixar margem a confusões e marcar o status. Ainda bem que o Tiago não usa destas merdas. Não há paciência para o género. O Tiago não liga nenhuma a marcas. Bom, também não liga porque é um ignorante. Quando o conheci andava com fatos assertoados dois números acima do que era suposto, tinha meia dúzia de gravatas velhas e ranhosas e pensava que a Labrador era uma loja que vendia cães. Ao fim de meia hora de seca lá vem o Luís. Infelizmente não trouxe a carrinha. Achou mais giro exibir o MGB de colecção e eu vou chegar ao Guincho com o cabelo todo desfeito. Mas está tão sorridente que não tenho coragem para lhe ordenar que feche capota. À laia de consolação estende-me um daqueles carapuços de pele preta com lã branquinha por dentro para eu não ter frio que parecem saídos do filme A Volta ao Mundo em Oitenta Dias. Do mal o menos. Uma das coisas de que mais gosto no Luís é que tudo o que faz, faz bem. Andar de descapotável significa proteger-se contra o frio, o vento e outras intempéries que as companhias de seguros nunca cobrem. Mas é melhor assim. O volume do cabelo, que me tinha custado uma horinha de secador, é que vai para o galheiro. Chegamos ao Hotel do Guincho e preparamo-nos para almoçar a olhar para o mar, ou para os olhos um do outro, o que acaba por ser mais ou menos a mesma coisa, quando o telemóvel dele começa a tocar. Como a entrada do hotel é de pedra faz um eco ensurdecedor e o Luís apressa-se a atender. Não calha nada ouvir um telefone a tocar no Guincho numa praia deserta à beira-mar. Há anos que as praias da moda no Algarve estão infestadas de tias desocupadas exibindo os seus monstrozinhos como animais de estimação. Até sei duma que ficou sem o brinquedo a meio das férias, porque uns engraçadinhos deixaram recado no atendedor que o número de chamadas tinha ultrapassado os 500 contos, tudo feito de uma forma profissional, com voz de locutor. O marido deitou as mãos à cabeça e confiscou o objecto do desejo. Genial. O Luís despacha a secretária que se tinha esquecido de o avisar da reunião ao fim da tarde e sentamo-nos finalmente à mesa. Há mais ou menos um ano que vimos cá almoçar. Os empregados cumprimentam-nos cerimoniosamente, a ele por sotôr, a mim por menina. Qualquer dia começo a ter rugas e cabelos brancos e eles vão continuar a chamar-me menina. Mas não me importo. O Luís começa a falar dos negócios e vai ouvindo a minha opinião sobre isto ou aquilo.


Não sei porque é que com quase 50 anos leva tão a sério o que penso, mas isso lisonjeia-me e chega-me como explicação. O almoço passa depressa e quando dou por mim são quase quatro da tarde. O Luís olha para mim com cara de Bassett Hound sem orelhas compridas e pergunta-me porque é que não ficamos um bocadinho. Sei demasiado bem o que isto quer dizer. O Luís quer fazer amor comigo agora mesmo, adora namorar depois do almoço, é a hora de ponta dele. Ainda dizem que os homens começam a perder a ponta a partir dos 50. Santa ignorância. A caminho de Lisboa vemos a Lua a levantar-se por cima da cidade. Cheia, cheia a abarrotar. Parece um cenário. Que fim de tarde espantoso. Peçolhe para me deixar nas Amoreiras porque tenho o carro no parque. Ainda tenho tempo para ir devorar um daqueles croissants tipo maçapão com recheio de chocolate que deixam o estômago agradavelmente atafulhado. Depois é a sagrada passagem pelo supermercado para comprar um jantarinho simpático e um quilo de açúcar amarelo, porque o Tiago usa e abusa do dito. Que fim de tarde tão bem passado. Na viagem de regresso, o Luís desabafa comigo as últimas cenas que a mulher lhe fez. Sou ao mesmo tempo cúmplice e crítica da situação. Adoro ouvi-lo falar, mas quando se começa a queixar da mulher apetece-me perguntar-lhe primeiro porque é que se casou com ela e segundo porque é que não se separa. Em vez disso calo-me e pergunto-me pela centésima vez porque é que os homens que têm mulheres fantásticas passam a vida a ter amantes e os que se casaram com chatas são fiéis? O João atura há cinco anos a Sofia e nunca lhe foi infiel. E essa sim, ganhava de certeza o concurso da mulher mais chata do mundo. Sempre de trombas, maldisposta, com cara de que toda a gente lhe deve e ninguém lhe paga. Que falta de paciência. Amanhã vou telefonar ao João, talvez ele não tenha marcado nenhum almoço. O João é só e apenas o mais sério de todos os meus antigos namorados, o homem que já foi a grande paixão da minha vida, daquelas de caixão à cova, com direito a muitas lágrimas e noites sem fim perdidas a sonhar acordada. Os anos suavizaram o amor adolescente e disparatado que hoje se resume a um desejo sublimado e uma enorme amizade. O que o tempo não faz. E pensar que durante mais de dez anos eu sonhei viver com ele, casar com ele, fugir com ele ou apenas deixar-me estar nos seus braços... se calhar já alcancei a última etapa que precede a idade adulta e aprendi a desenvolver a capacidade de renunciar ao que não está ao alcance e de ser feliz com aquilo que a vida me traz. Que


horror! Não pode ser assim, não quero que seja. Deve ser a ordem natural das coisas, apenas isso. Quando me lembro do dia em que o conheci, vem-me à memória a imagem fresca e intacta, como se tudo se tivesse passado há cinco minutos. E já foi há mais de dez anos. O mistério das recordações. É sempre de pormenores que nos lembramos. O essencial dos factos arquiva-se na gaveta mental da memória como um grande embrulho. As fitas que o enfeitavam e que se desenrolam até ao presente, em memórias de curtos fragmentos. Passei com ele muitos momentos, mas só me lembro de alguns. É o primeiro sempre o que fica. Estava em Casa do meu primo Duarte, quando tocaram à campainha e me pediram para abrir a porta. E pela primeira vez vi o João. Bronzeado, olhos azuis rasgados, cabelo castanho-claro, Lacoste verde e calças bege desportivas. Uma verdadeira aparição. Eu era uma miúda com cara de criança: 16 anos de pele leitosa e nem uma curva. Só pernas, braços e pescoço, olhos esbugalhados e piadas fáceis. Os adultos achavam-me impertinente e divertida. Era frequentemente referida como uma miúda precoce, adjectivação que eu mesma aprendi a cultivar para vencer a indiferença e me fazer interessante (achava eu!) a todo o custo. O João a anosluz de mim. Com 23 anos de boa vida em cima, curso de economia em Boston, popó à porta e namoradas em bicha à espera de vez. Mas para mim, nada era impossível. Pus-me à conversa com ele e tentei mostrar-lhe que era muito esperta, pelo menos para a minha idade. O João olhava para mim como um rapaz de dez anos olha para as bonecas, mas acabou por achar-me graça e deume corda. Percebeu que eu estava fascinada e alimentou a sádicas colherinhas de atenção a minha cabeça tonta e o coração ingénuo que ecoava dentro do meu peito com a potência de uma britadeira. Voltei a vê-lo várias vezes nesse Verão e escrevi no meu diário que quando fosse grande ia ser namorada dele. Nada mais natural do que telefonar-lhe no dia em que fiz 18 anos para lhe dizer que já tinha idade para sair com ele. Durante dois anos guardara com secretismo o seu telefone, que tinha roubado da agenda do meu primo Duarte, à espera do Dia D.. O João demorou alguns segundos a perceber que o copo de leite com quem andara ao colo dois anos atrás lhe estava a telefonar, a fazer-se ao piso. Apesar de a minha lata lhe parecer descomunal, mais uma vez divertiuo a ideia de fazer sofrer o franguinho. Com 18 anos já tinha algumas formas, embora fosse ainda um ser fisicamente incipiente, mas ganhara a lábia de muitas noites de Bananas e Ad Lib e estava habituada a seduzir qualquer rapazinho que não tivesse mais de 15 anos do que eu. Achava-me uma malandreca, mas agora quando me revejo nessa idade até me dá vontade de rir,


pensar como no fundo era tão infantil. Uma delícia. E se parasse de contar a minha história da carochinha? Amanhã vou almoçar com ele e pronto. Vamos falar os dois de tudo sem tempo para nada, porque um almoço por mês não dá nem para as migalhas de uma relação de dez anos. Mas é melhor que nada e continuo a gostar de o ver. O Tiago aceita estes almoços com a naturalidade que lhe é própria e que não conheço em mais nenhum homem. Já teve alguns ciúmes, quando começámos a andar, mas desde que o conheceu, diz que não se intimida. E o mais engraçado é que é verdade, porque o Tiago nem pensa em disfarçar o que sente. Não é por aí que passa o seu orgulho. Se se sentisse de algum modo tocado, não hesitaria em protestar. Mas não. Fala do João com à-vontade e simpatia. Aceita a minha antiga paixão por ele como um património natural e inevitável da minha existência e leva o caso com uma souplesse invejável. Mas só porque me sabe próxima dele e está seguro de si. Felizmente há homens assim. Qualquer outro já me teria feito uma cena de ciúmes à antiga portuguesa por causa dos meus almoços com o João, que volta e meia assinalam a minha existência. Como ele não faz fitas, eu não lhe faço segredo e não há mistérios. Bem, não estou a ser completamente honesta. O Tiago não sabe que existe o Luís. Mas também, porque é que tinha que lhe contar? Não somos casados, nãojurámos nem fidelidade nem amor eterno. Bem, ainda não chegámos a esse ponto. O Tiago de vez em quando lança o tema do casamento como um cego a atirar dados para cima de uma mesa, mas também me faço de parva e finjo que não percebo. E depois o Luís é aquilo a que se pode chamar um caso. O máximo do entendimento com o mínimo do envolvimento. Prefiro assim. Além disso, hoje em dia para mim ver o João é como assistir pela décima vez ao Cinema Paraíso. Continuo a adorar, mas já conheço todas as cenas, já decorei os diálogos e não falho uma sequência. O João no fundo, é como se fosse família, já faz parte da mobília. Prefiro não pensar se ainda o amo ou não, porque no fundo sei que sim, mas ando a convencer-me de que tenho o direito de me deixar ser amada por outro homem. Esse homem é o Tiago e também sei que poderia ser outro qualquer. Excepto o Luís, claro que é casado. De qualquer forma tanto faz, porque nenhum deles é o João. Será que só se ama uma vez na vida? Será que não se volta a viver aquele amor total, arrebatador, profundo, violento, inigualável e inesquecível - nunca mais? Temo que sim, mas espero que não. Amanhã, se for almoçar com o João, atiro com o assunto do meu casamento com o Tiago para cima da mesa, só para ver o que é que ele diz. Nem sei bem se me quero ou não casar com o Tiago,


mas depois logo se vê. Pelo menos lanço os dados. Ele que os apanhe como puder. Se ao menos eu gostasse mesmo do Tiago... mas não. O que eu gosto é que ele goste de mim. E o pior é que gosta mesmo.


II Levantar-me às seis e vinte. Desligar o despertador para não acordar a Sofia. Tomar duche, fazer a barba, escolher um fato, uma camisa, a gravata adequada, tudo isto sem sentir que estou a perder tempo. Shorts e meias é simples. Os shorts são todos brancos e as meias pretas. Devia voltar a comprar aqueles boxers do Coup de Coeur que têm coelhinhos em variadas e imaginativas posições erótico-acrobáticas. Tinha uns fabulosos que a Vera me deu, mas não sei onde é que a Sofia os arrumou. Deve ter pensado que foram oferecidos por uma antiga namorada e chamou-lhes um figo. Ou então uns com o Bugs Bunny ou com o Bip-Bip. Mas não. Estou muito mais cinzentão do que alguma vez poderia ter imaginado. Pesa-me a vida cheia na fábrica acumulada pela inépcia do meu irmão e a loucura do meu pai. E a Sofia a reclamar diariamente que já não lhe dou atenção nem ligo nenhuma aos miúdos. Que estupidez. Quando o João Maria fica doente sou eu que o levo ao pediatra. Se a Teresinha chora de noite, quem a vai acalmar e embalar sou eu. Faço o melhor que posso para lhes dar uma vida confortável. E os problemas da Sofia resumem-se ao drama do micro-ondas que pifou ou do enorme transtorno que é levar o João Maria e a Teresinha a casa da mãe antes do jantar, quando combinamos sair ao fim-de-semana. Tragédias domésticas de dona Sofia e o seu pequeno mundo. Ou, em dias piores, os desastres de Sofia, como quando incendiou um candeeiro por lhe ter posto um lençol por cima, ainda o João Maria estava no berço. Rica vida. Rica vida à qual ela nunca se habituará, porque uma portuense é sempre uma portuense em qualquer parte do mundo. E depois, ela não precisa de trabalhar. Mas talvez lhe fizesse bem. A mim fazia-me bem era parar de trabalhar. Desde os 21 anos nisto. Em Boston era diferente. Saía às sete mas voltava às cinco. Fazia jogging,jogava ténis quase todos os dias, coleccionava namoradas e, ao fim-de-semana, ski. Desde que voltei para Portugal que não parei um segundo. E já lá vão cinco anos. Parece-me uma eternidade. Na América tudo era mais fácil. Os gajos podem ser chatos, mas pelo menos não são como aqui. Incompetentes, aldrabões, oportunistas, cabotinos, imbecis.


Depois de tantos anos fora, não me consigo adaptar a isto. Que país tão bonito, que povo tão medíocre. Cada dia de trabalho é um esforço sobrehumano para pôr as pessoas a cumprirem com o mínimo que se lhes pede. E como passo o dia nisto, à noite tenho de trabalhar, porque ninguém me paga para ser polícia, mas se não vigio as coisas fico sem fábrica e sem nada. Uma chumbada. E continuo a descobrir asneiras que o meu pai foi acumulando ao longo dos anos. Vieram todas ao de cima, com juros de fazer empalidecer um agiota profissional. Não há nada a fazer. É o clássico. Uma geração que luta, cria e constrói. E a seguinte que saqueia, descapitaliza e arruina o império. Com sorte, a que se segue tenta recuperar tudo outra vez. E azar para os que nasçam nesta. Às vezes sinto-me tão mecanizado no que faço que dou comigo a pensar se não estou a cumprir uma missão por encomenda ou a pagar uma promessa por conta de outrém. Como se não fosse dono da minha vontade e lutasse por um ideal abstracto. E no entanto, é o futuro da minha família que está em jogo, e tudo aquilo que me ensinaram desde pequeno como “os nossos valores”. Salva-se a minha mãe, cuja tenacidade, inteligência e determinação continuam a comandar o barco e a ajudar-me a zelar pela família desgovernada. Saio de casa ainda é noite cerrada. O portão abre-se silenciosamente, cúmplice nas minhas saídas madrugadoras e regressos tardios. Para trás fica o meu pequeno paraíso. A casa que construí à minha medida, o jardim onde passeio com o João Maria e as árvores que me acolhem quando estou tão cansado que nem o barulho da família me apetece ouvir. Mesmo à entrada, olho para os tufos de alfazema que plantei a pensar na Vera. Um dia ela deu-me um punhado de sementes e pediu-me que as plantasse em sua honra. Coitada da Vera. Não sabe mais o que inventar para fazer parte da minha vida. Como se não fizesse desde sempre. Dois minutos depois, estou na auto-estrada. Prego a meia haste, nos regulares 140 km por hora. Um bocadinho de música, antes que o telefone comece a tocar. Style Council, Confessions of a Pop Group. Uma cassete que a Vera me gravou antes de me casar e que nunca me canso de ouvir. Já não falamos há quase um mês. Nem para lhe ligar tenho tempo. Tenho que pedir à Isabel que lhe ligue. A Isabel é a secretária ideal. Uma solteirona de meia-idade com cara de quem entrou na menopausa antes dos 40, com as dioptrias de uma toupeira e a destreza de um castor. Nunca se esquece de nada, nada lhe escapa. Tem a memória que eu nunca tive e é extremamente discreta. Não sei o que seria de mim sem ela. Está na fábrica desde os 18 anos. Entrou como dactilógrafa e foi ficando. O meu pai protegeu-a e fez dela a sua secretária.


Pergunto-me muitas vezes, adivinhando a resposta que não quero desvendar, se não terá havido ali romance. Lembro-me dela ainda nova, quando era miúdo e o Pai me levava à fábrica para aprender desde pequenino do ofício. Aquelas atitudes dele. Estereótipos e show-off. Com seis anos não há miúdo que se interesse por cortiça, a não ser para fazer uma colecção de rolhas. Mas mesmo assim divertiame. Gostava de ver as máquinas misteriosas e barulhentas e os operários sorridentes. A Isabel tinha sempre caramelos na gaveta e eu nunca me fazia rogado. Hoje ela recorda esses tempos com amargura e saudade. Não perdoa ao Pai o estado a que ele deixou chegar a fábrica e provavelmente não lhe perdoa outras coisas que eu nunca saberei. Mas adorame. Vê em mim o filho que nunca teve e trata o meu irmão Paulo da mesma maneira. Faz parte da casa, coitada da Isabel. Tenho de pensar como é que lhe posso dar uma boa reforma, quando daqui a uns anos a miopia lhe tolher o horizonte e a ciática lhe cortar os movimentos. A esta hora ainda há pouco movimento. Num instante chego a Alfragide. Depois, as curvas e contra-curvas até ao portão da fábrica. Hoje o telefone não tocou. Milagre. Chego às sete e meia e aproveito para pôr em ordem papéis e mais papéis. A Isabel chega às oito e meia, pontual e discreta como sempre, parece uma lâmpada softone. Às dez e picos, depois de ter telefonado para uma boa dúzia de clientes, passa-me uma chamada. «É a menina Vera, senhor Doutor.» Gostava imenso de perceber porque é que a Isabel a trata por menina, embora quando fala directamente com ela a trate por Sodotora. Deve ser por causa da voz dela, que continua a parecer de uma menina. Há muitos anos, ainda a Vera era uma miúda, veio comigo à fábrica e a Isabel engraçou com ela. Refere-se sempre a ela como menina. Com a Sofia é diferente. Começou por dizer a sua senhora, mas eu expliquei-lhe que não era preciso ser tão cerimoniosa, até porque aquilo soava-me pessimamente, e a Isabel passou a chamar-lhe Sodona Sofia. Acho que percebo. As solteiras são as meninas e as senhoras são as casadas. E ela no seu íntimo deve achar que a Vera é solteira. Passa-me a chamada. Do outro lado a voz fresca e jovial a que os anos se encarregaram de baixar o timbre. - Bom-dia querido! - Como estás? Ainda hoje pensei em ti. É um lugar-comum, mas é verdade - acrescentei. - Deve ter sido por isso que te telefonei.


A Vera tem a mania das premonições e das mensagens telepáticas. Ninguém é perfeito. - Pois foi - continuei. Mandei a mensagem num aviãozinho de papel que foi interceptado por um radar. - Ou então ias de janela aberta e houve alguém lá em cima que ouviu e achou graça - disse ela, sem perder o registo. Diverte-me sempre esta mulher. - Vamos almoçar? - Claro - responde -, foi por isso mesmo que liguei. Combinamos a hora, no restaurante do costume. Desta vez não ficamos muito tempo ao telefone. Só ficamos quando sabemos que, por qualquer razão, não nos vamos ver. Acelero o mais que posso para despachar as coisas até ao meio-dia e meia e saio. Quando chego ao Papagaio da Serafina já está à minha espera, o carro estacionado no parque e ela de porta entreaberta a mexer em papéis. Consegue sempre manter a pose de quem não está ansiosamente à minha espera, mas eu já lhe conheço os truques. O olhar brilha quando me vê. Levanta-se do lugar do condutor, fecha o carro e dá-me um beijo caloroso. Traz um conjunto de blazer e calças, todo igual com colete a condizer, uma camisa branca e sapatos de atacadores. O look masculino resulta em cheio, porque fica terrivelmente feminina. As calças estão-lhe largas e meto-me com ela. - Que magra que estás. Não percebe se é um elogio, mas pelo sim pelo não, passa à defesa. - Não estou nada, até estou mais gorda. - Gorda, filha, nem que comesses um borrego por dia com pão a ajudar. Quando era miúda assemelhava-se a uma carga de ossos mal atada. Depois, o corpo ganhou curvas pouco convincentes, mas a figura escanzelada atenuou-se. Agora, perto dos trinta, passa perfeitamente por uma miúda de vinte. Está bonita. O cabelo bem arranjado, o bâton discreto e a pintura muito leve, género que-boa-cara-com-que-estou-não-achas. Igual a si mesma, sempre igual. Caminhamos até ao restaurante e vamos falando. Fala-me com a calma e a eloquência que sempre se habituou a encenar quando está comigo. Com os anos tornou-se uma mulher madura, determinada e, como não perdeu a frescura nem a doçura, encantadora. Mas hoje acho-a mais ansiosa do que o habitual e pressinto que me vai dizer alguma coisa. Acertei. Mesmo antes de escolhermos, entre o cherne e o entrecosto, anuncia-me que se vai casar. - Com o Tiago?


- Com quem querias que fosse? - e remata, pragmática -, Contigo não é com certeza, porque já casaste com outra mulher. Começou o ataque. Finjo que não noto a ligeiríssima inflexão de voz que lhe saiu sem ela reparar. - Mas é mesmo a sério? - Claro, achas que eu ia brincar com um assunto desta natureza?! - e continuou, triunfante -, No princípio do próximo ano, em Março. - Mas isso é daqui a seis meses! - Pois é. E depois? Está-me a desafiar, mas não vou entrar na conversa. - Óptimo, óptimo. Só gostava é de saber se ainda vais achar graça ao Tiago daqui a uns anos. Desta vez não responde logo. Está a pensar a quinhentos à hora como é que se há-de explicar sem que eu possa levantar objecções. Chega o empregado e pedimos o dito cherne e o entrecosto onde tínhamos estacionado no assunto anterior. A minha pulsação acelera e fico irritado por sentir o sangue a correr mais depressa, mas disfarço e começo a fazer as habituais perguntas: onde é que é, se já fez o vestido, onde está o anel de noivado, etc. Mal a oiço. Tento imaginar a Vera casada, mas não consigo. Com filhos sim, sempre a imaginei. Um filho meu, às vezes falávamos disso. Mas casada? Fiz um esforço para me habituar à ideia antes do fim do almoço. A Vera já me tinha falado em casamento, mas sempre achei que era bluff. Desta vez não. A conversa não era só para inglês ver. Tentei espicaçá-la, mas as respostas que obtive já estavam razoavelmente amadurecidas. Cada vez que pensava em interrompê-la, ela atirava-me com os argumentos que me passavam pela cabeça e rebatia-os com a agilidade de um campeão de esgrima e a lucidez de um psicoterapeuta. Ela tinha razão em muito do que dizia. Davam-se bem. Juntos estavam a criar um projecto de vida. Gostavam um do outro. Queriam ter filhos. Tudo como nas telenovelas. Mas todo o discurso era demasiado linear, demasiado construído e racionalizado para ser completamente sincero. Senti que me estava a escapar alguma coisa. - Estás-me a convencer a mim, ou a ti? Baixou os olhos e não respondeu. Condescendi e mudei de assunto. Não me apetecia discutir e achei que no fundo estava certa. Queria apenas protegêla, sempre a quis proteger, como se faz com uma irmã mais nova. Durante muitos anos esperou que eu voltasse para Portugal e alimentou o sonho infantil de se casar comigo. Quando voltei casado, ela tinha perdido a aposta da vida dela. Cinco anos depois ia refazer a sua vida com outro homem


e construir com ele tudo aquilo que nunca lhe disse que construiria com ela. Ainda por cima com um gajo porreiro. Pelo menos foi o que me pareceu, das duas vezes que o vi, deixou-me uma boa impressão. E gosta dela, vê-se à distância. O quadro perfeito. Ou quase perfeito, porque ela não gosta dele. Mas isso não seria pedir demais? Quem é que consegue ficar com a pessoa que realmente quer na sua vida? Não conheço ninguém. Quando o almoço acabou, estava rendido. Falei-lhe da Sofia e do estado deplorável a que o nosso casamento tinha chegado. A Vera ouviu-me com atenção, adivinhando como sempre o fim das minhas frases, com aquele dom que Deus lhe deu de perceber tudo o que digo e tudo o que não quero dizer. Aconselhou-me a não me separar por causa dos miúdos, a não ser que não houvesse mesmo outra hipótese. Como se houvesse. Ambos sabíamos que não e estávamos ali a fingir que a solução mágica ia saltar de uma cartola qualquer. Ambos com o orgulho ferido, nenhum com vontade de dar o braço a torcer. Antes de me casar, apanhei o avião e vim cá falar com ela. Nessa altura estava convencido de que o meu casamento com a Sofia não era um erro. Ela disse-me que ia fazer um disparate, mas que era má conselheira porque continuava apaixonada por mim. Agora, sou obrigado a reconhecer que ela tinha acertado em cheio nas suas previsões. Vens viver com ela para Cascais, ela não se adapta, têm filhos e cada um há-de querer educá-los à sua maneira. E depois, se te separares, ela volta para o Porto com as crianças e ficas reduzido aos fins-de-semana. Dramática, a visão. Mas infelizmente bastante próxima da realidade. Pelo menos até agora tinha acertado em tudo. E já se cumpriram algumas etapas do rally. Sempre me disse que nunca seria minha amante e tinha cumprido a sua palavra. Também nunca tentei que fosse, embora muitas vezes ao longo destes cinco anos me tivesse passado pela cabeça dormir com ela. Mas sei que ela veria como uma humilhação ser minha amante, depois de tantos anos a esperar por mim. Não podia deixar de lhe dar razão. Afinal ela queria ser minha mulher, sempre quis, e não se contentava com menos. Posso voltar a ser tua namorada um dia, se te separares e estiver sozinha nessa altura. Mas tua amante é que não. Além disso tu não precisas de uma amante. Precisas de alguém que te compreenda e te oiça. Acho que a minha amizade é muito mais valiosa do que qualquer outra coisa. As mesmas palavras ditas por outra mulher seriam vulgares, até pretensiosas. Mas saídas da boca dela tinham todo o sentido. E o olhar doce com que falou estava mais uma vez a traí-la. Não resisti a fazer dela a minha melhor amiga. Agora, a minha melhor amiga vai-se mesmo casar.


Despedimo-nos com um beijo rápido e comprometedor, e fiquei a vê-la arrancar de janela aberta e óculos escuros. Prometemos continuar a falar, não desaparecermos da vida um do outro. Como se fosse preciso. A Vera entrou na minha vida sem eu dar por isso e nunca mais vai sair. Fiquei ali especado, no parque de estacionamento, a vê-la descer a rampa e desaparecer do outro lado da rotunda. Depois, lentamente, entrei para o carro e apanhei a auto-estrada para ir para a fábrica. Lembrei-me da última vez que dormimos juntos. Há mais de cinco anos. Tanto tempo. E, no entanto, era como se sentisse ainda o cheiro da sua pele e estivesse ali mesmo ao meu lado, deitada na cama com os lençóis atirados para o chão, a sorrir-me docemente, com a doçura que só as mulheres que têm prazer conhecem. Se eu quisesse, bastava uma palavra e aquela mulher era outra vez minha. Mas não. Agora não. A minha vida já está demasiado complicada. Só precisei de me sentar à secretária para deitar para trás das costas tudo o que me tinha passado pela cabeça. Tenho de trabalhar. Não tenho tempo para viver. Até quando vou ter de aguentar este peso de limpar os disparates do meu pai e assegurar aos meus filhos um princípio de vida sem demasiadas dificuldades? Tenho saudades da universidade em Boston, onde tudo era fácil. Lá, não passava de um assistente. Cá, chamam-me patrão. Não tenho tempo nem espaço dentro da cabeça para pensar se sou ou não feliz com a Sofia, se o meu casamento vai durar mais um mês ou mais um ano. Não tenho tempo para nada. E muito menos para mim.


III Não devia ter ido almoçar com ele. Acabo sempre por cair na ratoeira. Quando vou ter com ele convenço-me de que é como se fosse almoçar com um amigo qualquer. Já lá vai o tempo em que tremia dos pés à cabeça, ficava com a garganta seca e as mãos geladas. A idade tem destas vantagens. Agora é só uma ligeira e domesticada inquietude minutos antes do encontro, a vontade de estar aprazível aos seus olhos sem parecer que me arranjei de propósito para ele. E, quando pontualmente ele aparece, é como se o mundo inteiro deixasse de existir. Mesmo assim, já me domino e a minha atitude é sempre irrepreensivelmente moderada. Pelo menos dou o meu melhor. Ele pensa que eu me tornei numa pessoa calma. E se calhar até já sou. Como disse o Sam Shepard nas Crónicas Americanas, esta gente já é a gente que finge ser. Uma crónica portuguesa um bocado estúpida, este meu caso. Durante anos chamavalhe ironicamente uma fantasia de Natal, porque era sempre nessa época que o João dava à costa. A distância que aprendi a criar da minha própria paixão tornou-me a minha maior crítica. E dou comigo a rir quando alguma amiga minha inicia uma vaga dissertação sobre o caso e faz conjecturas que há dez anos estão enraizadas na minha cabeça. Sempre soube que o João nunca esteve sequer apaixonado por mim e sempre desejei que isso um dia acontecesse. Também sei que foi a minha tenacidade (ou teimosia) que conseguiu aproximar-me dele ao longo de todos estes anos. A porta esteve sempre aberta, mesmo agora que a encostei para ele se sentir um bocadinho de fora. Que estúpida! Passei o almoço inteiro a convencê-lo de que o meu casamento é aquilo que quero e despedi-me a lançar a rede, dizendo que um dia poderia ser namorada dele. E quero eu casar-me para toda a vida e ser feliz para sempre como nos contos de fadas ou, pior ainda, como a minha mãe e o meu pai. Quero mesmo acreditar que o Tiago é o homem certo para mim, mas o João tem razão em tudo o que me disse. Faltam coisas na nossa relação. Curiosamente as mesmas que faltam entre ele e a Sofia. Não quis dar o braço a torcer, mas quando ele me perguntou se estava a dissertar para o convencer ou para me convencer a mim própria, fiquei desarmada. Sou muito óbvia, excessivamente próxima, sempre lhe fui fácil e ele continua a apanhar-me por


dentro, mesmo que eu finja que o estou a pôr de fora. O argumento é vulgar e eu faço um mau papel. Merda! Depois de estar com ele sinto-me indefesa, desarmada e, pior do que tudo, insegura. De repente perco a convicção, a consistência, fico à deriva. E no entanto... no entanto é bom vê-lo, abrir-me com ele, deixá-lo falar, ajudá-lo o muito pouco que posso com a minha proximidade e o meu eterno apoio na pior fase da vida dele. Deve ser isto gostar muito de uma pessoa. Querer sem interferir, desejar sem possuir, amar sem exigir. É ridículo pensar assim. Mas é verdade, a mais pura das verdades. Amanhã vou ao Porto fazer a reportagem à nova sede do BIP. Mais um artigo sobre o banco, dentro da revista que o banco distribui aos seus clientes. Já vi procedimentos menos transparentes. De facto, se a revista é do banco, porque é que não há de servir para autopublicitar a instituição que a sustenta? Ir ao Porto é que não me apetece nada. Parece mentira, mas conheço melhor Madrid, Paris ou Nova Iorque do que a Invicta. E depois, detesto andar de carro e tenho uma alergia letal ao bancário em abstracto. Coitado do Tiago que é bancário! Gosto de o ver sair de manhã todo penteado e engravatado, mas quando vou ao banco ter com ele às vezes, à hora do almoço, e o vejo sentado atrás de uma secretária cinzenta e cheia de papéis, dá-me dó. Preferia quando apresentava o programa de economia na televisão. Pelo menos enchia mais o olho. Além disso o Tiago não é ambicioso, sabe que um dia vai herdar uma dúzia de prédios em Lisboa e, se for esperto, viverá dos rendimentos. Não tem a garra do João. Nem a inteligência. Nem o pedigree. Mas também, quem é que tem? Se ao menos o João não fosse para mim um deus, se ao menos o conseguisse pôr com os pés no chão, se ao menos se partisse o pedestal e ele ficasse reduzido a pó, cinzas e nada. Mas não. Habituei-me a vê-lo assim, não consigo olhar para ele de outra maneira. E, no meio disto tudo, ando enrolada com o Luís. Se o João soubesse nunca mais me falava. Mas o Luís é irresistível. Ou então sou eu que não tenho capacidade para resistir. Cada vez que estou com ele acho sempre que vai ser a última, mas depois ele liga-me e dou comigo a pensar porque não? Qualquer dia tenho que contar ao João que tenho um caso. E já agora que não me dou bem na cama com o Tiago. Mas primeiro tenho que perceber porquê. Não posso estar com o juízo todo. Como é que ponho a hipótese de casar com o Tiago se não gosto dele, não o admiro, não tem nada a ver comigo e nem sequer me apetece ir para a cama com ele? A resposta é aterradoramente simples e abjecta. Quero casar-me. Quero ter filhos. Quero ser mãe.


Quero um estatuto, um papel, uma missão na terra. Não aguento mais ficar especada nas montras das lojas com roupas para bebés, brincar com as crianças dos outros, olhar para as fotografias dos filhos do João e sonhar que são meus. Quero um bebé só para mim. Uma vida. Uma família. Um lar. Uma coisa qualquer que sirva de base para sentir que a minha vida não está sempre na mesma, desde que me apaixonei pelo João. Se ao menos deixasse de gostar dele conseguia libertar-me, recomeçar do zero e ser dona de mim mesma. Mas em vez disso finjo perante ele, o Tiago, o Luís e, pior do que tudo, perante mim mesma, que já não gosto dele. Estúpida. Pode ser que um dia ainda me lixe. Sou chamada à terra com o toque do telemóvel. É o Luís. Quer saber como é que estou. Finjo que a ligação está difícil e desligo a chamada. Depois desligo o telemóvel e encosto o carro. Estou à beira do rio, a poucas centenas de metros do escritório. Preciso de parar e pensar o que é que vou fazer à minha vida. Não me quero casar com o Tiago, só me quero casar. São coisas diferentes, não são? E se ficasse sozinha e esperasse que aparecesse outra pessoa? Bolas, deve haver alguém no mundo com quem eu me consiga entender, de quem eu venha mesmo a gostar e que goste mesmo de mim. Será assim tão difícil acertar? Pelos vistos é. O Luís não acertou com a mulher, o João não acertou com a Sofia e eu não vou acertar com o Tiago. O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita, lá diz o povo com razão. Tenho que me encher de coragem e explicar ao Tiago que estamos aqui a criar um enorme equívoco que nos vai lixar a vida a ambos. Espero que o Tiago perceba. Sensibilidade não lhe falta. Inteligência, alguma, mas sensibilidade não. E não será afinal a sensibilidade uma forma de inteligência? Hoje vou falar com ele. Peço-lhe uns dias para pensar, ele sai de casa temporariamente e depois já não volta. Se tudo fosse assim tão simples! Vem aí o Inverno e já sei que vou morrer de frio debaixo do meu edredon de penas. Mas não posso protelar este equívoco. Tenho que acabar com isto antes de subir ao cadafalso, que é como quem diz ao altar. Porque é que estou a chorar? Se calhar porque tenho medo, como toda a gente, de ficar sozinha. A Maria diz que é uma questão de habituação. Talvez ela tenha razão. Volto para o escritório e acabo de preparar o dia de amanhã. Hoje à noite vou ter uma conversa com o Tiago. Quanto mais depressa melhor. O Tiago mete a chave à porta e vejo-o entrar com a sua cara de sempre, bem-disposto e pronto para passar mais um serão na pacatez da vida sensaborona dos casais que fingem mal que são casais. Chama-me fofinha que é uma coisa que me põe doente.


Disse-lhe uma ou duas vezes que não gostava do petit nom, sugeri-lhe outros como querida, por exemplo, mas aquilo é mais forte do que ele. Não percebe que cada vez que me chama fofinha aumenta o capital de aversão que tenho por ele, em relação ao qual ele nem sequer é totalmente responsável. Às vezes odeio-me por não gostar dele. A Patrícia, coitada, que tem em superficialidade o que lhe falta em inteligência, acha o Tiago o melhor que eu podia ter arranjado. O que a Patrícia não percebe é que não queria nem quero arranjar nada, que o Tiago me caiu na sopa quando saí da televisão, depois de três anos a penar que nem um cão porque me recusei a dormir com o editor do nacional. Deve ter sido a única vez que me arrependi de ter trocado a publicidade por outra coisa. Estava há demasiados anos fechada em gabinetes, apetecia-me variar. Fazer parte da redacção do telejornal pareceu-me irresistível. Entrei sem medo e foi o que me safou, no primeiro dia já estava a visionar cassetes e a fazer peças de internacional. Aprendi tudo o que sei com o José António, um dos melhores jornalistas e pivots de sempre. Tudo corria sobre rodas até à entrada do Victor Lopes. O Victor Lopes tinha a mania de que era engatatão e fez o circuito das meninas da redacção até empancar em mim. Nem alto nem baixo, tinha o charme barato típico dos gajos que sobem a pulso e não olham a meios para atingir os fins. O maior problema não foi dar-lhe uma tampa, foi ter de lhe dar várias. A primeira vez que deu o ar da sua graça estávamos na cantina e resolveu tecer comentários sobre as minhas pernas. Expliquei-lhe com calma que não achava a conversa apropriada, ele pediu desculpa e calou-se. Nessa mesma noite, depois do telejornal acabar, descemos no mesmo elevador até à garagem e resolveu adoptar a táctica do ataque frontal. Encostou-se a mim, estava eu a enfiar a chave na fechadura para abrir o carro e começou a arfar e a dizer coisas sem nexo. Não há dúvida que os homens entre os quarenta e os cinquenta ou apuram ou abandalham. Como este não tinha como apurar, abandalhou. Tive que lhe dar um encontrão e a partir daí as coisas foram-se progressivamente complicando. O tipo nunca mais me largou. Pedia-me para fazer peças que ele próprio sabia que não iriam para o ar, criticava sistematicamente o meu trabalho em alto e bom som para me vexar diante de toda a redacção e fazia tudo para me retirar a pouca confiança que tinha como jornalista. O José António tentou várias vezes proteger-me, mas o Victor estava decidido a acabar comigo. Quando o José António foi para a concorrência com um contrato milionário, fiquei sem apoio. Há uma amiga minha jornalista que diz que nas redacções dos canais de televisão anda metade a foder com a outra metade e quem não fode ninguém está fodido. Era o que eu estava. O tipo ia acabar


comigo de qualquer maneira. Foi então que conheci o Tiago que fazia um programa diário de economia. O Tiago é uma brasa, não há mulher nenhuma que passe por ele na rua sem o fixar. Além disso tem um ar simpático, afável e, talvez por ser tão giro, nunca dá a impressão de andar atrás das mulheres. Ao fim de três anos estava exausta, ainda mais porque o meu último Verão na televisão coincidiu com o casamento do João. O Tiago foi a minha tábua de salvação. Não percebo como é que me envolvi durante dois anos com um homem com quem vou acabar tudo em meia hora. Acho que simplesmente me acomodei. Habituei-me ao corpo e à voz dele, à vida pacata dos namorados sem futuro, a ficar sentada na sala a ler um livro enquanto ele me fazia o jantar. Mas nunca gostei dele. Agora tenho a certeza. Claro que quando tudo começou estava profundamente convencida de que estava muito apaixonada. Havia qualquer coisa nele que me encantava. Só percebi o que era, a primeira vez que o levei a jantar a casa dos meus pais. A minha mãe cumprimentou-o com simpatia e recebeu-o com toda a delicadeza. No dia seguinte telefonou-me e disse-me: - O teu amigo é muito simpático, filha. É pena é ser tão parecido com o João. E tinha razão. O Tiago entra e vem logo dar-me um beijo lânguido que me sabe a enjoativo. - Então fofinha? Como é que foi o teu dia? Às vezes este tipo irrita-me tanto que chego a ter a sensação física das unhas a crescerem de raiva. Caramelo. - Olá. Senta-te aqui. Precisamos de falar. - Aconteceu alguma coisa? O rapaz está a ficar preocupado. A minha expressão de directora de colégio involuntariamente virgem com mais de 50 anos assustou-o. Apetece-me vacilar, ceder, dar-lhe um beijo e esquecer tudo, mas não posso. - Tenho andado a pensar na minha vida, na nossa vida e acho que vamos ter de tomar uma decisão... E então? - Então, acho que já não nos vamos casar. O Tiago faz aquela expressão pouco inteligente de quem se esforça por pensar sem que nada lhe ocorra. E como não lhe ocorre mesmo nada fica calado, feito estúpido, a olhar para mim. - Andas com alguém?


Não lhe posso dizer que sim, até porque nem é por isso que quero acabar. O Luís não tem nada a ver com esta conjuntura, por isso vou continuar a conversa. - Não preciso de andar com ninguém para decidir que já não quero casar contigo, pois não? O Tiago não acredita nas minhas palavras. - Cá para mim, estás-me a enganar com alguma coisa... mudas de ideias, assim de repente... Levanta-se, enfia as mãos nos bolsos e começa a andar de um lado para o outro. - Então... se não queres casar, o que é que queres fazer? É agora. Ou agora ou nunca. TENHO de conseguir. - Tiago... eu queria... o que eu achava melhor era... estive a pensar e cheguei à conclusão que nos... que nos devíamos separar... O Tiago pára à minha frente, com as mãos nos bolsos, reparo que tem uma nódoa de molho de tomate na camisa. É espantoso como há homens que se sujam sempre quando comem. - Para onde é que estás a olhar? Nem lhe posso dizer que de repente estou a divagar sobre a nódoa. Era ofensivo. - Não é nada. Ouviste o que eu disse? - Ouvi - responde num fio de voz. Depois respira fundo e enche-se de coragem. - Se é isso que queres, nem vou discutir... também não nos andávamos a dar bem há algum tempo, entrámos numa rotina estúpida - e continua, olhando para mim com cara de Calimero -, já nem sequer queres dormir comigo... dizme só uma coisa: tu não andas mesmo com ninguém? Minto com todos os dentes que tenho. É tão fácil! Com a prática, tudo se aperfeiçoa. - Não - respondo devagar, muito séria, olhos nos olhos para que nem me restem dúvidas como sou uma boa mentirosa. Posso não ter nascido para isto, mas com os anos já lhe apanhei o jeito. - Olha, acho melhor hoje dormires na sala. Amanhã tenho que ir ao Porto e... - ocorre-me uma ideia brilhante -, talvez tenha que lá ficar um dia ou dois e tu aproveitas e fazes a mudança nestes dias... - Tens a certeza que é isto que queres? Apetece-me responder-lhe que uma mulher nunca tem a certeza de nada. - Não, mas agora tem de ser assim.


Felizmente toca o telefone. É a Patrícia a perguntar se quero ir comer uma pizza. Foi ao Chiado e está a dois passos daqui, apanhava-me à porta. Digo imediatamente que sim. O Tiago olha para mim estarrecido. Não acredita que a conversa acabou ali. Mas eu nem quero acreditar que foi tão fácil e que agora ainda por cima desapareço. Há pessoas com sorte e eu sou uma delas. Dou-lhe um beijo fugidio e desço as escadas num galope nervoso e alvoroçado. Dois minutos depois aparece a Patrícia no seu Mercedes Classe A prateado. Quem tem namorados ricos é assim. - Acabaste tudo??? Mas ele é tão querido!!! A Patrícia não percebe nada. Claro, também nunca percebe nada de coisa nenhuma, não sei porque é que estou tão espantada. - Se quiseres, fica tu com ele - respondo com frieza. - Que engraçada! - põe um ar grave. - Sabes perfeitamente que a minha relação com o Alberto é a sério, como se fôssemos casados. Pois pois. Sabe-te bem a vida que ele te dá, filha. Daí até gostares dele vai um passo que provavelmente nunca conseguirás dar, por mais que queiras. Mas sabe-te bem brincar aos ricos, estás no teu direito. - Em que é que estás a pensar? Às vezes temo que a Patrícia não seja tão burra como parece. Ou então que me transforme momentaneamente num cartoon e os outros leiam os meus pensamentos, esparramados numa nuvem com bolinhas, como na banda desenhada. - Nada, nada. Acabei mesmo tudo. Já não gosto dele. Aliás nunca gostei. A Patrícia olha-me de lado, com ar reprovador. Não sei porque é que ao fim de todos estes anos, continuo amiga dela. É tão burra, superficial e interesseira! Quando éramos miúdas e andávamos no colégio, parecíamos gémeas siamesas. Mas com os anos, cada vez mais acho que não temos absolutamente nada a ver uma com a outra. Só continuamos amigas porque isso nos dá a noção de intemporalidade que é tão grata às amizades. A Patrícia tornou-se uma barbie e as barbies já estão fora de moda. Primeiro tentou arranjar um namorado fino. Há dois anos conheceu o Alberto e mudou de ideias. Afinal quer dinheiro, poder de compra, uma vida desafogada, férias nas Caraíbas. E como sempre foi possidónia, embora tivesse feito um esforço notável para se civilizar, quando conheceu o Alberto achou-o perfeito. Claro, possidónio e armado em promovido como ela, era óbvio que se entenderiam às mil maravilhas. Quando as pessoas são feitas da mesma massa, reconhecem-se automaticamente. - Vais ficar sozinha...


Estúpida. De vez em quando consegue dizer uma coisa inteligente. O João é que tem razão quando diz que ninguém é totalmente estúpido. Cá está a Patrícia para provar tal teoria. Decido mudar o rumo da conversa e daí a trinta segundos a Patrícia já está a falar do duplex fantástico e com uma vista de cortar a respiração que o Alberto quer comprar na Avenida Infante Santo e de como ela o está a tentar convencer a ir para o Estoril, ou quem sabe, Cascais. Sempre sonhou com Cascais, pobre Patrícia. Nunca percebeu que são as pessoas que dão categoria às casas e não as casas que dão categoria às pessoas. Tenho saudades da Maria. Agora mal a vejo, desde que se casou com o António e deu em agricultora. Vive numa quinta a meia dúzia de quilómetros de Santarém, rodeada de patos, galinhas, cães e cavalos. Não percebo como é que uma mulher tão mundana e sofisticada trocou Lisboa pela pasmaceira da província. Ou se calhar até percebo. Cada vez que a vou visitar, está mais nova, mais fresca e com um ar mais feliz. Ao menos com a Maria tinha conversas inteligentes. Percebíamo-nos sempre uma à outra, nunca me falhou em nada, sempre foi a minha grande amiga. Devia falar com ela por causa desta história do Tiago. Quando regresso a casa já lá não está. Deixou um bilhete no íman do frigorífico a dizer que vai dormir a casa da mãe. Sinto um arrepio pela espinha acima. Agora que já consegui o que quero, tenho que me aguentar. O rapaz sempre mostrou alguma personalidade em irse embora esta noite. O melhor é não pensar muito no assunto. Vou-me deitar. Amanhã é dia de viagem. Porto aqui vou eu.


IV O tal Dr. Miguel já está à minha espera quando desembarco na sede do Private Banking do BIP numa daquelas casas de cair para o lado da Avenida Boavista. A viagem correu bem, sem percalços. Não sou uma estradista, mas lá me vou safando. Com a Diana Krall e a banda sonora do Blade Runner por companhia cheguei ao Porto em menos de três horas. Se pudesse, vivia no Porto. Adoro o sotaque, a Ribeira, a Foz, o Castelo do Queijo, as lojas boas e esta doçura provinciana das pequenas grandes cidades. O Porto é um sonho, uma espécie de terra prometida. Quando era pequena, passei férias inesquecíveis em casa dos avós da Maria, um solar gigantesco com um sótão do tamanho do mundo, onde nos mascarávamos com vestidos de baile antigos e tentávamos decifrar cartas e postais de caligrafia artística. Depois, nunca mais cá voltei, por isso, regressar ao Porto, sabe a infância perdida. Perdida ando eu agora nas vias de cintura interna à procura da Avenida da Boavista. Nunca percebo nada disto. Finalmente dou com a coisa, o que até nem é difícil, porque a casa onde o banco se instalou é um monstro que não passa desapercebido nem a uma mula cega. Entro na sede do banco, toda ela decorada em estilo inglês, forrada a quadros de artistas contemporâneos nas paredes. O Dr. Miguel conduz-me a uma saleta confortável e pede-me que espere, enquanto vai buscar o director da sede, um tal de Manuel Menezes. Os dois entram com ar cerimonioso. Baixo, sorriso de circunstância, óculos, discreto, igual a todos os funcionários bancários. Apertamos a mão com pouco à-vontade. O Dr. Manuel pede-me simpaticamente que o trate pelo nome, enquanto insiste em chamar-me Dra Vera, só para eu ter que lhe pedir que corresponda com a familiaridade com que me recebeu. Doutores à parte, começa então a mostrar-me a magnífica sede do Private Banking, iniciando a visita guiada pelas três salas de espera estrategicamente dispostas de forma a que os clientes nunca se cruzem na entrada dos gabinetes. Apetece-me perguntar-lhe porque é que escolheram a avenida mais central do Porto se queriam ser discretos, mas não estou aqui para conversar, estou aqui para ouvir, por isso limito-me a esboçar sorrisos diplomáticos. Os senhores querem uma reportagem “abrangente e elucidativa do excelente trabalho que o BIP tem desenvolvido na área do Private Banking, cujo expoente é o requinte e


o bom-gosto deste edifício, bem como a sua vasta e já considerável colecção de arte.” Ainda lhe respondo que, sendo publicitária, pouco percebo de números, mas o Manuel abana a cabeça para a frente e para trás e condescende, observando que a visão de um leigo é muito mais credível e que além disso estamos a vender imagem e não nenhum produto financeiro em especial. Já percebi que a grande preocupação dele é a imagem, que tudo gira à volta deste conceito. Deve ter um BMW série três preto com estofos de cabedal e frisos metalizados, jantes personalizadas, ou então um descapotável de colecção, talvez um Mercedes antigo ou um Morgan. Fala devagar, pausadamente, é óbvio que está habituado a medir todas as palavras, como se também lhe custasse dinheiro pronunciá-las. É de tipos frios, implacáveis e cautelosos como estes que vivem as grandes instituições bancárias. Mesmo assim, o meu faro de perdigueiro detecta um perfume delicioso que tem qualquer coisa de familiar cujo rasto não consigo identificar. No primeiro andar deparamo-nos com uma escultura horrenda de um artista plástico qualquer, que eles dizem ser muito bom, acerca da qual só consigo pronunciar a palavra interessante. É uma boa palavra. Dá para quase tudo, porque não quer dizer nada. Observo discretamente o meu guia nesta visita profissional ao palácio do cacau. Menezes. A Sofia também é Menezes. Será alguma coisa à Sofia? Não, não deve ser. Ou então pode ser primo, de um ramo qualquer do Porto. Há sempre um ramo do Porto em todas as famílias que se prezam. - Queria perguntar-me alguma coisa ? Parece que não escapa nada a este meu interlocutor. - Sim... de que ano é a casa? - pergunto atrapalhada e sem qualquer convicção. Que chatice. Já percebeu que o estou a observar. E o pior é que não consigo tirar os olhos dele. Nem sequer é um tipo bonito, com boa figura, mas tem quilos de charme, um tom de voz que mexe comigo e deve estar habituado a fazer sucesso com as mulheres. Vê-se logo. Concentro-me a tirar notas, para mais tarde elaborar o texto da reportagem. Evidentemente, eles vão querer lê-lo, por isso organizo as ideias já nesse sentido. Sou uma mercenária, é o que é. Em vez de champôs, estou a vender dinheiro, prestígio e sei lá mais o quê. Que tristeza. Devia era estar em casa a escrever o meu livro. Sempre me sentia melhor. Felizmente trouxe o computador portátil, pode ser que hoje à noite ainda abra o ficheiro e decida o que é que vou fazer daquela história. - Quer almoçar connosco? - pergunta o Miguel em tom de cerimónia. Estou quase a dizer que não, quando o meu olhar se cruza com o do Manuel. - Tenho a certeza que sim...


Mau, mau. Este tipo tem excesso de autoconfiança. Só para o castigar vou dizer-lhe que não. - Agradeço imenso o convite, mas já tenho coisas combinadas... - Nesse caso, não vai recusar uma boleia minha, pois não? Onde é que quer que a deixe? E agora? Não tenho nada combinado, não conheço ninguém no Porto, a minha única amiga de cá é a Maria e vive em Santarém há dez anos. Como é que descalço esta bota? - Dão-me um minuto por favor? - pego na carteira e desço as escadas. Saio e fico à porta a andar de um lado para o outro. Já sei. Vou fingir que telefono a desmarcar o almoço. Ligo o telemóvel. Aparece-me logo o sinal de mensagem. A primeira é do Luís a desejar-me boa viagem. A segunda é do Afonso a saber como é que está tudo. A terceira é do Tiago a pedir para lhe ligar. Logo vi que isto não ia ser tão simples como parecia. Os dois executivos saem e olham-me com olhar inquisidor. Faço um sorriso o mais cool que me é possível, dadas as circunstâncias. - Afinal foi desmarcado. - Óptimo. Conhece bem o Porto? Abano a cabeça. - Estou nas suas mãos... Que estupidez. Porque é que me saiu esta? Agora vou-me mas é calar, senão ainda me lixo. - Então não podia estar em melhores mãos - conclui o Miguel -, o Manel é um grande anfitrião, conhece melhor do que ninguém a nossa cidade. - Mas é mesmo de cá? - pergunto só para fazer conversa. - Mais ou menos - responde o anfitrião com ar distraído -, apetece-lhe carne ou peixe? - Massa. - Nesse caso, o melhor é voltarmos para o banco. De repente, começamos todos a rir. Ele tem qualquer coisa, lá isso tem. - Vamos levá-la ao Cafeína. Já ouviu falar? - Manel, agradeço-te o convite, mas tenho que preparar um relatório antes de voltar para Lisboa - atalha o Miguel com cara de quem se vai pisgar. - A Vera não fica aborrecida se não os acompanhar, pois não? Faço-lhe um sorriso amarelo. Devem ter combinado tudo, enquanto vim cá abaixo fingir que era uma executiva ocupada. - Claro que não, Miguel. Aperta-me a mão com simpatia e frieza ao mesmo tempo.


- Então, encontramo-nos em Lisboa. Gosto em vê-la e obrigado pela sua atenção. Diga ao seu irmão que lhe mando um abraço. O Miguel despede-se com um sorriso de circunstância. Ficamos a olhar os dois para ele, enquanto entra para o carro e arranca. - O Miguel é amigo do seu irmão? - Andaram juntos na faculdade. - E a menina, onde é que andou? Adorei a menina. A Antónia que me criou é que me chamava assim. - A “menina” andou em Comunicação Social, na Universidade Nova. - Incomoda-a que a trate assim? - Não. Até acho giro, para variar. - Vamos? Estes tipos do Porto de facto devem ter a sua graça. Acertei no carro. É mesmo um BMW mas em vez de ser série três é série cinco. O resto, foi na mouche. Estofos forrados de pele, tablier de raiz de nogueira, jantes XPTO, o CD a tocar os Nocturnos de Chopin. Tudo impecavelmente estimado. Vê-se mesmo que o dono adora o veículo. No banco de trás, indícios de um jogador de golfe. - Não se cansa de atirar a bola para longe com o único intuito de ir atrás dela? - Qual bola? - A de golfe. - Não. É como ir à caça, mas sem tiros. E muito mais elegante, não acha? Elegante és tu, meu parvalhão. - Vou levá-la a um dos meus restaurantes preferidos - diz o Manel, enquanto estaciona o carro numa rua perpendicular ao mar, na Foz. - O tal Cafeína? Nunca lá fui. - Há sempre uma primeira vez para tudo - remata com ar absorto antes de desligar o motor. Bem, bem, ainda não nos sentámos à mesa e já começaram as bocas. Isto ainda vai dar molho. Não escondo o meu agrado pela escolha. O Cafeína é daqueles restaurantes que conquistam mesmo antes da primeira garfada. Sento-me com a sensação de que vou cá voltar muitas vezes. Estou hesitante entre um fettuccine e uns tagliatelle quando o meu telemóvel começa a tocar. Bolas, é o Tiago. Peço desculpa ao meu companheiro de mesa e atendo contrariada. O Tiago pergunta-me como é que estou, respondo evasivamente. Pergunta-me quando volto, digo-lhe talvez amanhã. O anfitrião portuense deixa escapar um brilho no olhar que se encarrega imediatamente de disfarçar. Estúpida, já lhe estou a dar margem de manobra. O Tiago diz-me que


precisamos de conversar, respondo-lhe que logo se vê. De repente, perde o registo e começa a falar alto, que eu não lhe posso fazer isto, que é indecente, etc., etc. Peço-lhe para ter calma. À minha frente, o Manel assiste à conversa deliciado. Está nitidamente a gozar o prato. Finalmente digo ao Tiago que estou num almoço de trabalho e que depois lhe telefono. Desligo incomodada com a conversa. O Manel continua a olhar para mim com cara de gozo. - Então? - Desculpe??? - Quer fettuccine ou tagliatelle? Que susto. Pensei que me ia perguntar como é que tinha acabado a conversa. - Tagliatelle. - Faz muito bem. Tenho a certeza de que vai gostar... Você tem muitas certezas... - Não, a menina é que parece ter. Coitado do desgraçado que ainda agora despachou. Não queria estar na pele dele. - Não queira mesmo - respondo secamente. - Desculpe, não quis de modo algum ser indelicado ou indiscreto. - Nem foi. Eu é que fui. Nem sequer devia ter atendido. Não acredito. Tenho esta merda a tocar outra vez. É o Luís. Atendo, apesar de tudo menos contrariada. Dizemos olá, conto-lhe que estou a almoçar no Cafeína e que volto amanhã para Lisboa. O Luís ainda sugere que pode apanhar o avião do fim da tarde e jantar comigo, mas digo-lhe sem hesitar que não vale a pena. O Luís não insiste. Nunca insiste. Ou é do feitio ou é da idade, mas deve ser a pessoa menos chata do mundo. Despedimo-nos com o afecto desprendido típico das relações sem laços. Antes que telefone mais alguém, desligo o bicho com determinação. - A menina deve ser a mulher mais solicitada de Lisboa... - Não, é impressão sua... diga-me uma coisa, já está há muito tempo no banco? - Há algum... - E gosta? - Digamos que não desgosto. - E esteve sempre na banca? - Não. Vivi alguns anos fora. Depois trabalhei em coisas da família... só há três anos é que fui para o banco. E a menina, o que é que faz exactamente, além de atender cinquenta telefonemas por minuto da sua lista de admiradores? Finjo que não oiço a piada. O tipo quer é conversa.


- Sou sócia de uma agência de publicidade, uma coisa pequena, e tenho uma empresa de plantas artificiais chamada O Jardim sem Regador. O Manel desata a rir à gargalhada. - O Jardim sem Regador??? Que nome genial! Aposto que foi a menina que inventou! Coitado, não sabe como é que me há-de fazer charme. Primeiro insinua que sou uma mulher solicitada, depois sugere que tenho algum génio. - Por acaso fui. Era para ser O Jardineiro Preguiçoso, mas depois achei que o adjectivo preguiçoso podia dar uma imagem negativa, imagine, se por exemplo me atrasasse a entregar uma encomenda... O Manel continua a rir. - Posso contratá-la para inventar nomes no dia em que voltar à vida de empresário? Olhe que vou precisar da sua imaginação. - Logo se vê. Podias era contratar-me para pôr plantas na tua chafarica, penso mas não digo. Uma sede de um banco com tanto prestígio não se deve compadecer com as minhas versões plastificadas de naturezas-vivas. Mas que facturava só com uma encomenda mais do que com esta seca da revista trimestral, isso era limpinho. Olho-o fixamente. Este homem tem qualquer coisa. Qualquer coisa de especial que me dá vontade de ficar a tarde toda a conversar com ele. E não é só charme nem simpatia. É outra coisa qualquer que não consigo definir. Uma mistura alquímica de doçura e inteligência. E a cor de olhos igualzinha à do João. - O que é que vai fazer à tarde? - Não faço ideia. - Eu tenho que passar pelo banco a buscar uns papéis e depois se quiser, posso mostrar-lhe o Porto. Tenho todo o gosto. - Mas eu já conheço o Porto! - Olhe que não, olhe que não...Vocês chegam cá acima, vindos da capital do império, convencidos que conhecem isto e depois surpreendem-se. Não vale a pena dizer-lhe que já estou surpreendida. De qualquer maneira, acho que ele já percebeu. - Está com vontade de cá ficar, não está? - O que é que o leva a dizer isso? - Bom, não está com vontade de voltar para Lisboa. Pelo menos foi o que me pareceu quando a ouvi ao telefone... Fala baixo, particularmente baixo, como se nem eu própria pudesse ouvir o que diz. Sinto o olhar dele a entrar-me pela cabeça adentro. E sinto-me


invulgarmente permeável, indefesa perante a sua perspicácia e rapidez. Se não lhe achasse graça, consideraria este tipo de comentários despropositados e de mau gosto. Mas há qualquer coisa nele que me desarma, e o pior é que não me estou a importar nada com o facto de ele me desarmar. - Tem razão, em Lisboa há demasiadas coisas para resolver... - Assuntos pendentes? - Ou dependentes, como lhe quiser chamar. Acabamos de almoçar tarde, depois de uma longa conversa em que ambos revelamos mais do que gostaríamos das nossas vidas. O Manel conta-me que foi para Inglaterra depois de ter acabado um namoro conturbado. Viveu em Londres sete anos. Tirou gestão e aceitou o primeiro emprego nos Estados Unidos, na Nestlé. Depois regressou a Portugal e trabalhou em negócios da família. Foi convidado pelo então presidente do BIP para ser um dos pioneiros do novo projecto. Dois anos depois, montou o Private Banking. - Tenho uma vida pacata e simples, nada que se compare à agitação lisboeta em que vocês lá em baixo vivem - rematou com calma. É isso. É isso mesmo. É a calma, nele, que me seduz. O tom de voz baixo e pausado, o olhar tranquilo, os gestos ponderados, as palavras escolhidas, o sossego e o recolhimento. Este é o tipo de homem que passa horas fechado em casa a ler e a ouvir Keith Jarrett. Aposto que tem uma casa aconchegada, com uns sofás cheios de almofadas e dezenas de molduras com fotografias dos amigos na sala. Pertence ao strong silent type que o Woody Allen tanto inveja. E eu também. - Você nunca perde o registo? O meu interlocutor faz um sorriso deliciado. - O que é que quer dizer com isso? - Quero dizer: você nunca se desmancha? Acho-o com um ar tão sério!... - Mas sou mesmo sério, não é ar nenhum. Nós aqui no Porto não temos ar disto ou daquilo. Limitamo-nos a ser como somos. Esta dicotomia Lisboa versus Porto já me está a irritar. - Você embirra mesmo com Lisboa ou tem pena de não ter nascido lá? Olha-me atentamente. Agora resolveu deixar que o silêncio se instale de uma forma tão incómoda que eu me sinta obrigada a recuar na minha investida. Está bem, não estou no meu território, não é boa ideia hostilizar o meu anfitrião. - Não ligue, foi um disparate. - Deixe lá, já estou habituado. É que vocês lá em baixo não fazem mesmo a mínima ideia de que o Norte é outro mundo... ou pelo menos outro país.


- Pois não, mas com o Futebol Clube do Porto a ganhar há tantos anos e o Porto 2001 acho que é altura de vos passarem os complexos - não resisto à piada fatal -, pelo menos, até construírem o metro... Toma, estavas a pedi-la. Agora se fores esperto nem respondes, mudas a conversa e vingas-te à hora do jantar. - Quer uma sobremesa? Há aqui uma fabulosa, gelado de limão com vodka. Quer experimentar? Aceno com a cabeça enquanto ele olha para mim com um ar enigmático. Está surpreendido comigo tanto como eu com ele. Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si. Não sei porquê, mas tenho a sensação de que esta vinda ao Porto vai mexer comigo. Se possuísse um pingo de bom senso punha-me imediatamente a andar para Lisboa e ainda chegava a horas de jantar com o Tiago e explicar-lhe que estou completamente noutra e que nada me fará mudar de ideias. Mas, como dizem os espanhóis, el sentido común es el menos común de los sentidos. E eu tenho esta atracção fatal pelo abismo, apetece-me sempre pisar o risco e desafiar a sorte. E depois, pagava o que fosse preciso para não ter que ver o Tiago tão cedo outra vez. Porque é que é sempre tão difícil acabar as relações, mesmo quando já estão acabadas? Porque é que uma pessoa tem tanta relutância em enterrar os mortos e cortar laços que sabe que não servem absolutamente para nada senão para nos empatar a vida e atrasar a existência? O João passa a vida a queixar-se de que o casamento com a Sofia foi um erro e não faz nada para mudar a situação. Ninguém faz nada nesta merda de país, preferem todos aderir ao sistema em vez de dar uma volta à vida. - Se pensasse com um bocadinho mais de calma não ficava com tantas rugas nessa testa de boa aluna... Lá está ele outra vez a apanhar-me o fio à meada. A empregada de mesa aproxima-se. - São dois gelados de limão com vodka por favor, enquanto a senhora pensa se me vai ou não mandar à fava - diz ele à rapariga de cabelo escorrido e óculos graduados. - O que é que acha? Acha que eu mereço que ela me mande à fava ou não? Isto é extraordinário. Está a fazer charme à empregada do restaurante e ao mesmo tempo a gozar com a minha cara. A rapariga olha para ele com um ar enfiado e esboça um sorriso falhado em forma de esgar. - Deixe lá, o senhor gosta de dizer estes disparates. A rapariga afasta-se com passos curtos e hesitantes. - Como é que sabe?


- Com tanto à-vontade, deve fazer destas gracinhas todos os dias. - Olhe que não, olhe que não... - fixa-me com ar discretamente sedutor -, se fosse a si, ficava hoje por cá... parece-me que nos vamos dar muito bem... o que é que acha? Cabrão. Estás-me a lançar a rede e está-me a apetecer cair. - Posso reservar-lhe um quarto no Ipanema Park. É um hotel simpático e fica perto da minha casa... assim temos mais tempo para conversar. Era simpático, não era? Lá isso era. Era mesmo muito simpático. - Obrigada, mas decidi voltar hoje para Lisboa. - Se assim o quer. Mas pode voltar à noite e passar a tarde comigo. Não acha boa ideia? A sobremesa aterra finalmente em cima da mesa. O Manel tem razão. Gelado de limão com vodka é uma combinação de primeira água. Saboreio o manjar enquanto o Manel me observa deliciado. - Já vi que gosta das coisas que lhe recomendo... - Pois gosto. - E olhe que ainda não viu nada. Se a presunção pagasse imposto, este gajo levava com a tabela máxima. - O que vi já chega. - Mas o que eu vi ainda não. - O que é que quer dizer com isso? - Quero dizer que você é uma mulher excepcional em demasiadas coisas para eu não me interessar por si. E muitíssimo esperta, sabe o que quer, trabalha bem, é bonita, tem uma maneira de se arranjar que me agrada, é requintada, elegante, tem savoir faire, tem bom ar... olhe, acho-lhe imensa graça, o que é que quer que eu lhe diga? Quero que te cales, estúpido. Sabes muito bem que as mulheres resistem mal a elogios e estás-te a aproveitar disso. Sabes que se não te calares, talvez não vá para Lisboa nem hoje, nem amanhã, nem depois. - Diga o que quiser, Manel. Conheço o seu género. Você é do tipo engatatão profissional, pode-me dizer o que lhe apetecer, entra-me a 100 e saime a 200. - Que giro! Essa nunca tinha ouvido. Vou fixar. Mas olhe que não sou eu o sedutor profissional nesta mesa. A menina é que adora seduzir, mesmo sem saber se a pessoa que tem à frente lhe interessa ou não. O tipo tem alguma capacidade para subverter a realidade.


Está a jogar com o efeito espelho. Diz-me que sou como ele para me desviar a atenção. Isto agrada-me, apesar de me assustar um bocadinho. - Está enganada. Já vi que gosta de fazer juízos precipitados, esse é o primeiro passo para errar. Pelo contrário, sou um solitário. Considero que a amizade é um bem demasiado precioso para se dar a qualquer pessoa. Não falo da minha vida com pessoas a não ser que elas mereçam a minha total confiança. A confiança é como a intimidade, demora anos a cimentar e a fortalecer e pode cair por terra com uma única indiscrição. Já o mesmo não deve acontecer consigo. Deve ser do género de ter muitos amigos, ser muito popular. Vê-se logo que gosta de seduzir, conquistar, usar e depois, quando está farta, desembainha a espada e corta a cabeça a um pobre mortal sem dó nem piedade. Fico calada, sem saber o que responder. Se lhe dou troco, estou a dar-lhe crédito e a admitir que ele tem razão. Mas o pior é que ele tem mesmo. Cortei a cabeça ao Tiago numa conversa de cinco minutos e agora só me quero ver livre dele. Um dia destes farto-me de ter um caso com o Luís e corto-lhe a cabeça com a mesma facilidade. Já fiz isto demasiadas vezes a demasiados homens na minha vida. É evidente que está a fazer bluff, mas como todos os grandes jogadores, ele sabe que o bluff é uma táctica falível mas indispensável em qualquer jogo. E desta vez acertou. - E você, nunca cortou a cabeça a ninguém? - Não. Só quando pressinto que vão tentar cortar a minha. Nessa altura antecipo-me. Mas é um reflexo normal, não acha? - E já lhe cortaram a cabeça? - Claro que sim. Aprendi à minha custa. Doeu um bocado, mas desenvolvi algum poder de antecipação. - Para quê? - Para cortar a do adversário. Fico a olhar para ele com o garfo na mão. Quero avaliá-lo e não consigo. É um tipo frio e calculista, implacável e totalmente racional, ou está apenas a defender-se? - Lembra-se de há um bocado termos falado da minha primeira namorada? Quando me fui embora do Porto para Inglaterra foi por causa dela. Não aguentava estar na mesma cidade que ela, era-me totalmente insuportável a ideia de a poder encontrar na rua e já não fazermos parte da vida um do outro... - Mas você não devia ter mais de vinte anos, ainda era um miúdo... - Isso não tem nada a ver. Até pelo contrário. São as primeiras paixões que nos marcam para toda a vida.


Olha-me fixamente. - E pela sua cara já percebi que lhe aconteceu a mesma coisa. Estúpido. Não lhe escapa nada. Ou então sou eu que sou mais transparente que um vidro. Opto por não responder. Estamos numa de divã terapêutico, mas daí a contar-lhe a minha vida, vai uma distância que não me interessa nada percorrer. - Acontece a toda a gente, isso é um lugar-comum. - Não é não, Vera. Pense bem. Nem toda a gente passa por isto. Mas quando passa é algo que nos marca para toda a vida. A Marta foi a minha grande paixão, a mulher de quem mais gostei... talvez esteja a exagerar, ou talvez não, se disser que foi a mulher que de facto amei. E só tinha 17 anos quando a conheci. Quando acabámos, pensei que ia morrer. Fechei-me uma semana no quarto, não queria ver ninguém. A minha mãe deixava-me a comida à porta, demorei quase um mês para voltar a sair de casa. Se não fosse um grande amigo meu que me obrigou a reagir, não sei o que teria acontecido. Estava desfeito, completamente destruído. E, quando algum tempo mais tarde a voltei a ver, senti-me tão mal que percebi que não podíamos viver na mesma cidade. E foi por isso que me fui embora. E foi por isso que estive sete anos fora. Estou sem palavras. Nunca tinha ouvido antes uma confissão amorosa feita com tanto fervor e sinceridade. Só de mulheres, mas entre mulheres é diferente. Há uma proximidade imbatível, à qual nenhum homem com algum bom senso se atreve a ceder. Este homem conseguiu surpreender-me. Abriu-me a alma de um momento para o outro. Mostrou-me a sua maior fragilidade. Volto a observar a cara dele. Arredondada, suave, as feições bem delineadas, sem um traço de dureza. Os olhos azuis, o nariz perfeito, a boca pequena, o sorriso afável, caloroso, uma expressão de menino pequeno que o torna irresistível. - Não olhe para mim com essa cara. Isto já passou, foi há mais de dez anos, hoje em dia não tem importância nenhuma. - E nunca mais a viu? - Não. Soube que se casou e depois se separou. Que tem um filho com três anos, que continua a viver no Porto. Mas não sei mais nada, nem quero saber. Pedimos dois cafés e o Manel pede a conta. Estou a perder a capacidade de reacção. Rebobino a minha vida e lembro-me da paixão avassaladora que tive durante toda a minha adolescência pelo João. De como me tremiam as pernas a primeira vez que ele me deu a mão. Do primeiro beijo que demos no Bananas, ao som de uma música do Phil Collins Against All Odds.


Usavam-se mini-saias pretas travadas e saltos altos com camisolas de cores vivas da Benetton. Eu sentia-me crescidíssima, tinha 18 anos e um homem com 25, que reparava em mim, achava-me graça, apertava-me a cintura e chamava-me queriducha, pequenina, bebé. E eu pairava no céu, como um pássaro que nunca quer deixar de voar, e exibia o troféu com orgulho. O João andava de mão dada comigo. Dava-me beijos em frente a toda a gente, como se quisesse mostrar ao mundo que tinha uma namorada. Mas era apenas o engate de uma noite, a ele tanto lhe fazia que fosse eu ou outra qualquer. Andava-se a vingar das mulheres todas, não gostava de nenhuma. Se não fosse a minha persistência e abnegação, nunca teríamos ficado amigos, alguns anos depois, quando ainda continuava convencida de que ele havia de gostar de mim um dia e ele reparou que a miúda com pernas de girafa que o idolatrava afinal tinha dois dedos de testa e se tornara numa mulher. Against All Odds. Engraçado. Fui sabendo, tantas vezes sem saber como, ficar na vida dele, apesar de todas as previsões e contrariedades, até fazer parte da família e ele olhar para mim e sentir que estaria ali para sempre, à espera dele, consoante o que ele quisesse, sempre disponível, sempre próxima, sempre à espera. Será que estou finalmente a aprender que quem espera raramente alcança? - Todos nós temos as nossas Martas. O Manel olha-me devagar, como se estivesse a ler-me a alma. E está. Já percebeu que também eu carrego uma história assim, que a minha cruz é como a dele, a cruz de uma paixão inacabada, de um amor contido e falhado, a tristeza de ter investido tudo e ter perdido tudo, de termos sobrado num mundo ímpar onde provavelmente nunca conseguiremos encaixar com mais ninguém, porque eram aqueles o corpo e o espírito certos e únicos para a comunhão das almas. Deseja-se muita gente, perde-se a cabeça com algumas pessoas, há entusiasmos, paixões, atracções mais ou menos fatais. Mas amor, há só um. O primeiro. O último. O único e derradeiro. Só se ama uma vez na vida. - Só se ama uma vez na vida. - Não diga isso. A vida não pode acabar aí. Não é possível que não haja uma segunda oportunidade. Ficamos os dois calados, a olhar um para o outro. Ambos sabemos que é verdade, nenhum quer acreditar que assim é. Estamos os dois a pensar que afinal talvez não seja assim, que há sempre uma segunda oportunidade para tudo na vida. Que a segunda oportunidade pode ser aqui e agora, neste momento, neste encontro de almas, nesta sensação inexplicável e arrebatadora de ver crescer o embrião daquilo que se pode um dia transformar num grande amor, naquele amor.


O silêncio aproxima-nos. Vejo a mão do Manel estender-se por cima da mesa e cair sobre a minha. Sinto a magia do primeiro toque, quando duas peles trocam as primeiras palavras. A temperatura da mão dele é perfeita, tépida e aconchegante, sem ser quente. E os olhos, outra vez os olhos a espreitar para dentro dos meus segredos, azuis, iguais aos do João. E o perfume, já sei, descobri, é Davidoff. É o mesmo perfume que o João usa. Tinha de ser assim. Não pode ser. Isto não me pode estar a acontecer. Mas Deus queira que aconteça. Deus queira. Deus vai querer. E eu também. - Vamos dar um passeio? - Vamos. Aonde? - Aqui pela Foz. Levanto-me com pouca firmeza. O vinho do almoço e o vodka do gelado fizeram uma combinação explosiva e entraram-me no sangue à velocidade da luz. Agora tenho que esperar que o café corte o efeito do álcool. O ar da rua faz-me bem. O Manel dá-me um braço como fazem as senhoras de idade umas com as outras, quando vão na rua e têm medo de se desequilibrar e fracturar a bacia. Descemos lentamente em direcção à marginal. Está um sol radioso, já se sente a Primavera a despontar, apesar do frio. Ponho as luvas de pele e enfio as mãos nos bolsos do sobretudo. Caminhamos de braço dado enquanto lhe falo da minha infância na Praia Grande, na Quinta das Três Fontes em Colares, que o meu avô vendeu a seguir ao 25 de Abril. Da minha amiga Maria, que foi viver para Santarém e das saudades que tenho de a ter em Lisboa, perto de mim, ali à mão de semear. Da Patrícia, das suas parvoíces e do seu namorado novo-rico. Do espírito crítico da minha mãe, da morte do meu pai logo a seguir à morte do meu avô, em 1980. O Manel conta-me a sua infância passada na Granja, com aulas de natação onde engolia cinco litros de pirolitos por aula mas que lhe tiraram de vez o medo da água, das corridas de vespa por ruelas a trocar as voltas à polícia, das senhoras inglesas que levavam livros para a praia e olhavam com olhar reprovador a moda dos biquinis. Cantamos músicas do José Cid que aprendemos com dez anos e rimo-nos da figura de parvos que fazemos. As pessoas que passam por nós observam-nos com desconfiada perplexidade, mas nem nos importamos. Estamos completamente entregues a nós próprios. Não. Estamos entregues um ao outro. Caminhamos toda a tarde, palmilhamos a Foz, o Manel mostra-me as casas mais bonitas e vai-me dizendo quem mora onde, como se eu conhecesse as grandes famílias do Porto. A pouco e pouco apercebo-me de que a cidade vive parada no tempo, que os conhecidos ainda ficam a dar dois dedos de conversa quando se cruzam na rua, como as gentes aqui são cerimoniosas,


acolhedoras e afáveis, sem no entanto se desmancharem em simpatias palacianas. Já passa das sete quando vamos a casa dele e decidimos ficar por lá a jantar. É tal e qual como eu tinha imaginado: um andar pequeno e aconchegado num condomínio privado, com vista para o mar, pintado de amarelo-mostarda, com quadros modernos e gravuras antigas, caixas de prata e terrinas da Companhia das Índias. Clássico e sóbrio como ele. Sinto-me estranhamente confortável nesta casa que respira bons livros e boa música. Descubro instintivamente Keith Jarrett no meio de CDs de Wim Mertens, Tony Bennett e Charles Aznavour e fico impressionada com a quantidade de discos que temos em comum. Delicio-me a ver poemas de Alberto Caeiro sublinhados a lapiseira que ficaram esquecidos em cima da mesa. A letra dele é miudinha, discreta, difícil de ler, não lhe decifro as notas escritas com rigor e precisão. Passamos a noite a conversar, a fazer amor, a conversar e a fazer amor outra vez, sem nunca nos cansarmos, como se o tempo não passasse, as horas não pesassem e a vida na terra nem sequer existisse. Estou a apaixonar-me minuto a minuto, segundo a segundo. Sinto-me dissolvida nele e em tudo o que o rodeia. Sei que este jogo é perigoso e arriscado, há muitos anos que não o jogo, mas agora não me interessa. Quero perder a cabeça e deixar-me ir nos braços deste homem. Do aplauso nasce o amor, escreveu Gabriel García Marquez, e eu admiro este homem. Admiro-o em tudo o que faz e que diz, pela forma como o faz e como o diz. Admiro a sua calma e ponderação, a sua forma sossegada de amar, o seu espírito crítico e observador, a sua cabeça pensante e a sua personalidade vincada sem um traço de dureza. Quero tê-lo perto de mim, nem que seja por um dia, nem que seja por um instante. Estou a apaixonar-me outra vez, masjá nada me preocupa. Perdi o medo, sou só vontade. O Manel olha-me com os olhos cheios de curiosidade e prazer, como se quisesse registar na memória cada momento, cada gesto, cada movimento da minha boca. - Há momentos na vida em que me sinto tão próximo da perfeição que podia morrer daqui a uma hora e não me importava. Respondo-lhe: eu também, eu também... Quando olho para o relógio passa das cinco da manhã e espanto-me com a frescura que sinto, como se o corpo não fosse meu, como se apenas o meu espírito ali estivesse a pairar, suspenso no tecto a vaguear... - Só quero que me prometa uma coisa: no dia em que se fartar de mim e me cortar a cabeça, faça-o devagar, muito devagarinho, para eu não sentir nada...


O Manel abraça-me outra vez, levanta-se e traz-me o pequeno-almoço à cama. O dia começa a clarear lá fora enquanto dançamos durante horas esquecidas, fundidos um no outro, como se tivéssemos crescido a dançar juntos. E nessa mesma manhã, algumas horas mais tarde, quando acordo ao lado dele e o vejo erguer-se a abrir ligeiramente as cortinas, reparo que daqui a alguns anos ele vai ficar careca e que não me vou importar.


V Grande vaca. Despachou-me e depois desligou o telefone. Desde ontem que estou à espera que volte do Porto e nada. Ligo-lhe de meia em meia hora e a cabra tem aquela merda desligada. Deve ter ido com um gajo qualquer para lá, mas quem? Será aquele sócio dela na agência, o Jorge? Não pode ser, tem mau hálito e menos dois palmos que ela. Além disso nem sequer são amigos. Trabalharam juntos muitos anos, mas isso não faz deles amigos. Falo por mim, que estou há três anos na mesma sucursal e é como se tivesse para lá entrado ontem. Mas ela anda com um gajo qualquer, isso anda, ninguém me tira essa merda da cabeça. E não é o João. O João é uma espécie de irmão mais velho, do tipo protector. Uma coisa platónica, mal resolvida, mas platónica. Pelo menos agora. Além disso o João já a comeu todas as vezes que quis, ainda ela era uma miúda, não, ele não é. Se bem que é um gajo perigoso. Ou não mudou ela de ideias acerca do casamento, no dia em que foi almoçar com ele? Está-se a ver que falaram no assunto, de certeza que o gajo a desencorajou. Mas não é ele. Ela sempre disse que esperou demasiados anos por ele quando ainda era solteiro para lhe dar o gozo de andar com ele casado. Só se for o gajo do BIP, o tal Miguel que é amigo do irmão dela. Ela sempre gramou os amigos do irmão. Se calhar é o gajo. Ainda por cima pela descrição dela o gajo é do género “encadernadinho”, caixa-de-óculos e ar de bemcomportado... estava com tanta vontade de ir ao Porto fazer a reportagem para a revista do banco, deve ser ele. Está-se mesmo a ver. Estou fodido. A vida toda arrumada, uma miúda simpática que eu pensava que gostava de mim, gira, boa como o milho, com uma casa porreira, independente e deu-lhe para mudar de ideias. Ainda bem que não comprei a merda do anel. Agora ficava-se a rir na minha cara e com uma jóia no dedo. A minha mãe é que tem razão. Diz que ela nunca foi de fiar. Sempre a achou muito queque, muito menina fina. Mas gostei daquele ar de beta, dá-lhe pinta, distinção. Se não fosse ela, ainda andava a comprar fatos nas lojas erradas. E sapatos de vela em hipermercados. Ela civilizou-me um bocado, isso tenho de reconhecer. E sempre me disse que gostava de mim porque eu não era um queque, como os amigos dela. Foi ela


que se meteu comigo na RTP, quando foi despedida por causa daquele idiota que tinha a mania que papava as estagiárias todas. Coitada. Pagou cara a factura de não se deixar ir na conversa. O gajo é que foi estúpido em pensar que alguma vez uma mulher como ela iria olhar para a cara dele. Tudo isto não teria qualquer importância se não tivesse ficado desempregada. Mas teve imensa pinta. Chegou à redacção, virou-se para as gajas todas e disse-lhes na cara: a diferença entre nós é que vocês fodem por dever e eu fodo por prazer. Mesmo típico da Vera. Não tem papas na língua, isso foi uma das coisas de que sempre gostei no feitio dela. Um gajo no seu perfeito juízo não diz que não a uma mulher gira e esperta que nos dá trela. Só se for paneleiro. Convidei-a para jantar num sábado à noite, já passava das nove e meia. Ainda me mandou a boca que eu devia ter dado a volta à agenda até chegar ao número dela, mas consegui convencê-la e fomos jantar ao Alcântara Café. Às vezes um gajo tem sorte. Tinha escolhido o restaurante preferido dela sem saber. A partir daí estávamos os dois predispostos a descobrir mil e uma coincidências que inevitavelmente nos aproximariam, que era exactamente o que nós queríamos. Aquilo começou bem. Bem demais para ser verdade. Mas deixei-me ir na onda e porque não? Afinal porque é que um gajo porreiro e com boa pinta como eu não há-de ter uma namorada porreira e gira? Tem tudo a ver. Ou pelo menos eu achava que tinha. Saiu-me uma grande vaca, a gaja. Se pensa que é chegar aqui e pôr-me a andar, está muito enganada. Não lhe dei anos da minha vida para nada. Se isto não fosse uma democracia, ela devia mas era levar uns bons tabefes. Foda-se. Como se alguma vez fosse capaz de lhe dar uns tabefes. Mas tenho que apertar com ela, isso é que tem de ser. Não lhe pode dar um ataque e deitar tudo a perder. Mesmo que ande a comer outro gajo, se calhar não é nada de importante. Eu também não lhe contei que mandei uns pirafos à secretária do contencioso lá da sede, na noite do jantar de Natal, o ano passado. Era uma Sónia Pura. Começou a piscar-me o olho e quando me meti com ela disse-me não olhes assim para mim que não sou um bitoque. Ai não, que não era. Lombo e de primeira. Foi logo ali, na sala de reuniões do terceiro andar. É o que dá sedes grandes, há sempre uma sala desconhecida que espera por nós. Assunto arrumado. Como é óbvio não contei nada à Vera. Para quê? Foi só uma gaja que eu comi e que nunca mais vi na puta da vida.


Vamos por partes. Ela pode andar a comer um gajo sem gostar dele. Há muitas mulheres assim e ela é do estilo. Mas se ela gostar do gajo? Aí é que é pior. Se ela anda a comer um gajo só por comer, pode ser que se farte, eu aperto com ela, mas finjo que não percebo, deixo a coisa andar e um dia ela farta-se do gajo. As pessoas acabam sempre por se fartar, se não gostam umas das outras. Mas o pior não é ela gostar ou não de outro gajo. O pior é que isso significa que ela se está a cagar para mim. Se gostasse de mim não andava metida com outro gajo. Bem, na teoria. Na prática, anda meio mundo a comer outro meio, a vida é mesmo assim. Mas quem será este gajo? Será mesmo o tal Miguel? Outro bancário como eu, embora director, sempre ganha mais do que um gerente de sucursal. Não é que viva do meu ordenado, mal estaria. Todos os meses vai caindo um cheque das rendas dos prédios. Mas a minha mãe já me disse que isto só continuava se me casasse com separação de bens. Senão, adeus cheques, adeus rendas, adeus futuro garantido de papo para o ar sem me chatear. Não é que não goste de trabalhar. Por acaso até gosto. Mas apetece-me fazer outras coisas. Viajar por exemplo. Aperfeiçoar o inglês. E o espanhol. Já comi muita bifa à conta de falar bem a língua delas. Lá em Cascais ia comê-las para o jardim do tribunal, uma casa antiga à beira da praia. Num Verão comi três gajas em três noites seguidas, aquilo era sempre a aviar. Passei a chamar-lhe o tribunal da relação. Andava com uma bifa porreira quando conheci a Vera. Ela vinha cá passar fins-de-semana comigo. Deixou de vir. Mudei-me para casa da Vera pouco tempo depois de termos começado a andar, acho que é uma das razões que fez com que a Vera se fartasse de mim. Mas agora é tarde. Ou talvez não. Talvez ela ainda mude de ideias. Quando ela chegar não vou fazer ondas. Não lhe vou perguntar o que é que andou a fazer nem com quem anda metida. Vou tratá-la bem. Sempre a tratei bem e sempre me dei bem com isso. O pior é que ela já não gosta de ir para a cama comigo. Diz que perdeu o tesão. Que já não lhe dou pica. As mulheres são uns bichos mesmo estranhos. Tão depressa comem um gajo até ao tutano como se armam em freiras. E um gajo raramente percebe porquê. Porra, uma pessoa ou tem tesão ou não tem. É uma merda bastante simples. Não é uma coisa que desaparece assim, de um dia para o outro, como aconteceu à Vera. Quando começámos a andar não queria outra coisa. Até era demais. Andava estoirado. De repente começou a ficar fria, fazia cara de pescada enjoada cada vez que lhe tocava e há mais de um mês que nada. Nada vezes nada. Vá lá um gajo perceber estas merdas. As mulheres é que complicam. Um


gajo faz um comentário qualquer e lá se vai a magia. Ou então é porque chegou tarde. Ou porque não reparou no penteado novo. Ou porque não se lembrou de uma data que elas acham importante, do tipo hoje fazemos 15 meses de namoro. Como se um gajo tivesse que adivinhar estas merdas e não tivesse mais nada em que pensar. E depois, ninguém é perfeito. Quanto mais um gajo dá, mais querem. Nisso a Vera é porreira. Nunca me pede nada. Nem roupa, nem sapatos, nem aquelas parvoíces em que as mulheres adoram derreter o papel. Outro dia um cliente lá do banco contou-me que tinham roubado o cartão de crédito à mulher e que ele nunca deu baixa porque o ladrão gastava muito menos do que ela e assim tinha desculpa para não lhe dar outro. Mulheres. Dão um trabalho do caraças e às tantas não compensa. Nunca se sabe o que é que lhes passa pela cabeça. Mas esta porra está-me a deixar doente. É que por acaso, até gosto mesmo dela. Gosto da companhia dela, gosto da vida que temos juntos, dos amigos dela e da mãe dela, gosto da casa dela, do corpo dela e da cabeça dela. Se largo esta mulher nunca mais arranjo outra como esta. Há sempre gajas porreiras à procura de gajos giros como eu, mas como a Vera há poucas. Falta-lhes cabeça, bons modos, educação. Podem até ter um bom par de mamas, mas o que é que interessa se num jantar romântico à luz da vela pedem ao empregado uma mousse di chiquelate? Se for só para dar umas voltas até tem graça, mas se for para andar a sério, nenhum gajo aguenta uma bimba que nem saiba falar. Ou que diga portantos e prontos a propósito de tudo e de nada. Eu também dizia prontos, mas a Vera acabou com os erros de português. E obrigou-me a comprar sapatos com berloques. Ainda não me habituei bem àquilo. Acho um bocado à paneleiro, mas os putos queques lá da sede usam todos, por isso deve ser de bom-tom, como ela costuma dizer. As coisas a que um gajo se sujeita quando gosta de uma mulher. Se um dia isto acaba mesmo, arranco a merda dos berloques e mando-lhos pelo correio. Já são oito da noite e ela nada. Ligo o CD e começo a ouvir um disco da Marly Simon, mas farto-me logo. A mania que ela tem de ouvir estes xaropes. Músicas de água com açúcar. É espantoso como as mulheres se perdem com estas coisas. Das últimas vezes que fomos para a cama, tive que fazer ambiente: velas aromáticas, música suave, que grande seca. Nem sequer me telefona. Puta. Eu aqui a sofrer e a cabra a jantar fora à conta dum filho da puta qualquer. São todas iguais. Adoram jantar fora. Cozinha não é com elas. Só ao princípio, para impressionar um gajo. Pargos no forno, sopas sofisticadas com fios de natas a enfeitar, sobremesas requintadas


tipo semi-frio com molho de chocolate, daqueles que põem um gajo a peidar-se durante duas horas. Será que as mulheres também se peidam? Dizem que sim, mas nunca assisti a tal coisa. Mas onde é que ela anda? O que é que tinha que fazer no Porto para ficar lá esta noite? Sabe perfeitamente que precisamos de conversar, está mas é a fugir com o rabo à seringa. Mas eu dou-lhe o arroz. Ai não que não dou. Posso ser corno, é uma merda que mais dia menos dia toca a todos na vida. Mas corno manso é que não. Ela vai ter que se haver comigo. Era o que me faltava agora. Se calhar devia telefonar ao Helder que andou comigo no liceu e é segurança do Champanhe Club. Combinava ir ter com ele ao fim da noite e íamos beber um copo com as miúdas. Elas passam a noite toda a levar com a baba dos clientes, mas alguém tem que comer aquilo e o Helder não deixa os créditos por mãos alheias. Mas isso dava para o tarde, o último show de strip é às duas e ainda agora são oito e um quarto. Não, nem pensar. Não há tesão que aguente tanta espera. Já sei, vou ligar à secretária do contencioso e convidá-la para jantar. É divorciada e as divorciadas andam sempre aos caídos, pode ser que não tenha programa para hoje. O pior é que não me lembro do nome da gaja. Seria Sónia? Vanda? Parece-me que era Vanda. Espera aí. Eu fiquei com o número dela. Escrevi-o em qualquer lado. Não foi na agenda. Já sei. Foi na parte de trás de um cartão meu. Devo ter essa merda na carteira. Deixa ver. Cá está. Vou-lhe ligar. - Está lá... - Está sim?... Deve ser ela. - É a Vanda? - Não, é a Sónia, deve ser engano... - Claro, Sónia, desculpe, era mesmo consigo que eu queria falar... sou o Tiago Prates do banco, lembra-se de mim? Pausa silenciosa. A rapariga deve estar a dar corda à memória. - Tiago??? Não, francamente não me lembro... Porquê francamente? Esta deve ser do género que gosta de utilizar palavras caras fora do contexto. Deve ser daquelas que quando tem que sair diz tenho necessidade de me ausentar do meu local de trabalho em vez de vou lá fora e já venho. - Então, não se lembra de mim no jantar de Natal do ano passado? - Ah... é você, o loirinho... já me lembro... - Logo vi que não se tinha esquecido de mim.


- Você é que se esqueceu. Ficou de me telefonar e nunca mais me disse nada... Ou é impressão minha ou a miúda está-me com um pó de morte. - É que perdi o seu contacto e... - E não sabia procurar a minha extensão na lista interna do banco? Chama-se Sónia mas não é parva. Isto não vai ser tão simples como eu pensava. - Ouve, estou-te a telefonar agora, mais vale tarde que nunca... - E quem é que lhe disse que me podia tratar por tu? A gaja está mesmo com as garras de fora. Isto é o máximo. Já a comi, mas não a posso tratar por tu. Está armada em fina. - Oiça lá, Sónia, eu só liguei para mandar um beijinho e saber como é que está, mas se não quer falar comigo, então o melhor é desligar, longe de mim querer incomodá-la. - Não incomoda nada. Assim está melhor. Agora toca a lançar o isco. Com a fúria com que estou hoje, isto não me pode escapar. - Nem imagina há quanto tempo é que ando à procura do papel onde assentei o seu número, mas agora que já encontrei, estou a ligar porque queria imenso que viesse jantar comigo. Este imenso saiu-me bem. A rapariga está a ponderar a resposta. Pode ser que me safe. - Não me vai dizer que não, pois não?... - Pensando bem... não. - Não o quê? - O que é que acha? - Que não me vai dizer que não. - Então enganou-se. O não quer dizer que não, não vou jantar consigo, primeiro porque acho que você é um cabrão e depois porque tenho mais que fazer do que aturar putos armados em espertos. - Ó Sónia, também não é caso para tanto... eu posso explic... Porra. Desligou-me o telefone na cara. Parva. A fazer-se de cara. E agora, ligo, ou não ligo? Não ligo. Mas se não ligo é que não vou mesmo jantar. Se ligo, faço figura de parvo. Bem posso sempre fingir que a chamada caiu. Quer dizer, é um bocado estúpido, não estou a falar de telemóvel para telemóvel, senão ainda dava a desculpa de ter ficado sem rede. Vou-lhe ligar. Quem não chora não mama. - Está lá? Sónia?...


- Oiça lá seu idiota, ainda não percebeu que a Sónia não quer falar consigo? Se volta a ligar cá para casa, juro que vou ao banco e lhe parto os cornos, ouviu? Puta. Com um gajo lá em casa e eu aqui a fazer figura de parvo. Nunca mais lhe telefono. Bom, o melhor é ir jantar a casa da mamã. Sozinho é que não fico.


VI - Venha comigo passar o fim-de-semana a Lisboa... – deixo escapar enquanto entro para o carro. O Manel olha-me hesitante. - Não há nada que me apeteça mais, mas já tenho coisas combinadas para este fim-de-semana. E se for o próximo? Ponho automaticamente cara de passarinho que apanhou uma molha. - Oh... não pode mesmo vir? - Este, não posso mesmo. Mas prometo ir visitá-la a meio da semana. Aliás, tenho uma reunião com o Miguel na terça-feira, se quiser fico lá para quarta. Acha bem? Achava melhor se viesses já comigo, meu estúpido. Não percebes que terça-feira é só daqui a cinco dias e quando uma mulher está apaixonada, cinco dias é uma eternidade? - Está bem. Cinco dias passam num instante. Até logo. O Manel debruça-se para dentro do carro e dá-me um beijo na boca, daqueles inocentes que se davam no Liceu. Que delícia. - Cuidado a guiar. A menina deve ser toda acelerada, olhe que não conhece bem a estrada... - Não te preocupes, vou com juízo. Fecho o vidro contrariada e arranco devagar, como se quisesse eternizar o último momento em que ainda o vejo pelo retrovisor a dizer-me adeus. Agora tenho que descer à terra, continuar a viver e organizar a minha vida com este dado novo. Apaixonei-me. Tenho que acabar de vez com o Tiago, essa é a grande prioridade. E falar com o Luís. Não tem sentido nenhum continuar esta relação de cama que nós temos por vício. Podemos ser só amigos. Isso era o ideal. E o Luís é um tipo fabuloso, tenho quase a certeza que isso é possível. Com muitos homens que conheço não era, mas ele é diferente. No fundo, se analisar com mais atenção a nossa relação, a cama é um pormenor. O que nós gostamos é de estar, de conversar. Somos bons amigos. A cama vem a seguir, mas não é isso que nos liga. O pior é o Tiago. Tenho que ser implacável e arrumar o assunto duma vez. Que estupidez ter andado com ele este tempo todo!... Podia-me ter poupado a este


disparate. Agora já foi. Não vale a pena chover no molhado. Tenho é que chegar a Lisboa e despachar de vez o caso. Cortar-lhe a cabeça, nas palavras do Manel. Um dia ainda me cortam a minha. O carro vai sozinho, seguindo com rigor e sem hesitações as setas que indicam o caminho de regresso a Lisboa. Placas castanhas na auto-estrada indicam os monumentos que se podem visitar ao longo da minha descida a caminho de Lisboa. Para me distrair ponho uma cassete do Tony Bennett. Menos de uma hora depois de ter passado a ponte da Arrábida, o Manel telefona-me. Quer saber se estou a fazer boa viagem. Quer, com a sua voz mimada, saber, sem me dizer, se faço o caminho de regresso a casa a pensar nele. Como se pudesse pensar noutra coisa senão nesta paixão súbita que me apanhou desprevenida e me encheu a cabeça de planos e o coração de ideias. Falamos do futuro próximo, de terça-feira que já está quase a chegar, dos momentos que passámos juntos e de tudo de bom que pode vir. Desligo ao fim de alguns minutos com vontade de ficar a falar durante toda a viagem. Apeteceme outra vez dançar com ele, deixar-me ir ao som dos seus passos, sentir a sua cara contra a minha e rodar lentamente, descalça, num torpor delicioso e sublime... Depois de passar Torres Novas, lembro-me de ir visitar a Maria. É sábado à tarde, de certeza que está em casa. Vou-lhe telefonar. Não, vou-lhe fazer uma surpresa e aparecer sem avisar. Assim é melhor. - Vera! Não acredito! O que é que te deu? A Maria estava à porta de casa a arranjar as sardinheiras. Desgrenhada, de luvas e tesoura de podar, a cara tisnada pelo sol, linda como só ela é. Por momentos ficou com a tesoura espetada no ar, sem reacção. Só depois correu para o carro para me dar um abraço. - Vinha do Porto a caminho de Lisboa e não resisti a fazer-te uma visita. Tira as luvas e convida-me a entrar. - Anda. As miúdas devem estar mesmo a acordar da sesta. A sala cheira a lenha e a carne assada. A mesa ainda está posta, com chávenas de café sujas e cinzeiros por despejar. A Maria acende mecanicamente um cigarro. - Queres um café? Olho-a nos olhos e aceno com a cabeça. A Maria percebe que não estou ali numa visita de cortesia. Que tenho a alma a rebentar e sempre que tenho a alma a rebentar só posso falar com ela, porque tenho a sensação que só ela me ouve, que só ela me entende. - Senta-te. Vou-te buscar o café num instante.


E desaparece pela porta que dá para a cozinha. Recosto-me no sofá de flores azuis, típico padrão inglês e regalo-me a observar esta casa de campo onde me sinto melhor do que na minha própria casa. Gravuras de cavalos nas paredes, os troféus dos concursos hípicos do António, fotografias da criançada e do casamento aqui e ali, um cesto enorme de lenha junto à lareira, uma manta dobrada em cima de um sofá de orelhas. - O António? - Foi ao stand dos tractores ver se resolvia um problema que lhe apareceu na debulhadora. Vida de campo. A doce vida de campo a que a Maria se votou, qual carmelita de botas cardadas. Tractores, vacas, galinhas, debulhadoras, geada, apanha da maçã e o diabo a quatro. A Maria regressa com o café a fumegar. - Sabes como é a nossa vida, nunca se consegue estar sossegado um minuto. Senta-se ao meu lado depois de ter ido buscar um cinzeiro. - Continuas a fumar que nem uma chaminé... - É mais forte que eu. E tu, o que é que te traz por cá? - Apaixonei-me. - Outra vez? - Outra vez como? - Da última vez que cá estiveste foi com o Tiago e estavam todos derretidos... não estás a falar dele, pois não? - Claro que não, Maria. Achas que estava apaixonada por aquele idiota? - Tu é que dizias que estavas! Eu nunca achei, mas limitava-me a ouvirte... - Não me gozes. Sabes perfeitamente que nunca gostei dele. Achava-lhe graça. - E agora já não achas. - Nenhuma. - Já percebi. E então? A Maria fala comigo como se estivesse a falar com uma criança. Já está habituada aos meus devaneios. - Fui ao Porto em trabalho e... olha, perdi mesmo a cabeça. Fico calada, sem saber o que dizer, esmagada por tudo o que sinto. Nem à minha melhor amiga consigo explicar o que aconteceu. A pouco e pouco começo a contar-lhe: o encontro no banco, a conversa ao almoço, o passeio a pé pela Foz, o jantar em casa, a noite passada em branco, a madrugada a dançarmos nos braços um do outro. A Maria ouve tudo silenciosamente, sem


me interromper, com aquela paciência infinita que as mulheres têm umas para as outras quando são amigas. - Então e agora? O que é que vais fazer? - Vou acabar com o Tiago, como é óbvio. - Isso já percebi. Mas não é disso que estou a falar. O que é que vais fazer com esse Manel do Porto? - Vou andar com ele! O que é que achas? - E como é que sabes que ele quer andar contigo? - Tu estás-me a gozar? Se eu te contei tudo o que se passou, é evidente que sim!... Levanta-se e começa a andar de um lado para o outro. - És sempre a mesma coisa, Vera, não tens emenda. Não percebes que esse gajo pode só ter querido uma aventura? Não vês como é prático seduzir-te, sabendo que de qualquer maneira regressarias a Lisboa no dia seguinte? - Mas tu não estás a perceber, apaixonámo-nos um pelo outro e... - Sabes lá! Tu apaixonaste-te por ele, como é que sabes que ele se apaixonou por ti? A Maria olha-me expectante, com o cigarro na mão. A cinza está quase a cair e estendo-lhe o cinzeiro. Apaga a beata com determinação e senta-se ao meu lado. - Ouve, não te quero cortar a onda, vejo-te tão feliz, mas essa história parece-me boa demais para ser verdade, percebes? Ninguém se apaixona tão de repente, de um momento para o outro! As coisas não são assim... - Mas foram assim com o João e... - O João, outra vez o João! Porra, devias ter aprendido alguma coisa todos estes anos!... O João andava a divertir-se com uma miúda porreira que se apaixonou por ele. Além disso eras uma criança, com 18 anos essas coisas são mesmo assim; uma pessoa apaixona-se só de olhar, é próprio da idade. Mas com 35 anos, francamente, Vera, não podes estar boa da cabeça. Estiveste com o tipo 24 horas, não te podes ter apaixonado em tão pouco tempo. Chama-lhe uma aventura, um caso. Mas paixão, assim, de um momento para o outro, já não tens idade para isso, por amor de Deus. Há aqui qualquer coisa que não bate certo. A Maria sempre me soube ouvir, sempre aceitou os meus disparates. Sinto-a a reagir de uma forma demasiado céptica. - O que é que se passa? Porque é que eu não posso apaixonar-me por um homem em 24 horas e ele por mim? Não estou a dizer que é normal, estou só a contar-te o que é que aconteceu, e mesmo que aches uma loucura isto é mesmo importante, percebes? Bolas! Porque é que me estás a cortar a onda?


Está a pensar, tentando ordenar as ideias para me responder. Levanta-se outra vez. Começa a enrolar nervosamente os dedos uns nos outros, à procura de palavras para se explicar. - Ouve, eu nasci no Porto... conheço bem aquela sociedade, aquilo não tem nada a ver com Lisboa, é muito feio, muito mais do que tu possas imaginar... as pessoas vivem muito fechadas, não abrem a sua vida e a sua casa a qualquer pessoa que chega de fora, muito menos de Lisboa... esse Manel, como é que disseste que se chamava? - Menezes. Manel Menezes. - Esse Manel... Menezes é de certeza do género típico de menino do Porto, conservador, cheio de preconceitos, habituado a andar atrás das mulheres e não a ser caçado por uma... - Mas eu não cacei ninguém! - protesto, irritada com o comentário injusto. - Não estou a dizer que caçaste, mas caíste-lhe no colo, tudo isto me parece demasiado rápido para ser à Porto, percebes? Aquilo lá é à antiga, eles são cheios de tradições, de manias... Claro que é tudo aparências, é uma sociedade cheia de podres e vícios como qualquer outra, mas há regras de conduta, há normas de comportamento e há qualquer coisa nessa história que não bate certo. - Mas estamos em 1999! Não me venhas dizer que eles são assim tão antiquados, tão conservadores... - São, Vera. São mesmo. Muito mais do que possas imaginar. Sinto-a agitada, nervosa, inquieta. - Ouve lá... tu conheces este Manel? - Não tenho bem a certeza, talvez, de miúda, mas não me lembro do nome... - E não tens maneira de saber que tipo de pessoa é? Podias telefonar à tua irmã Mónica que o conhece de certeza... - Sabes que eu detesto esse tipo de coisas! - Eu também, mas não se perdia nada... - Cusca! - Tu é que lançaste a semente da desconfiança. - Desculpa. É que não queria ver-te outra vez a sofrer como com o João. - Ouve Maria, eu sofri com o João porque quis. Sempre soube que ele não gostava de mim, aguentei tudo porque quem corre por gosto não cansa e sabes como sou teimosa e obstinada... - Claro, até ao dia em que se casou com a Sofia e ficaste completamente destruída. - Isso já passou.


- Isso é o que tu dizes. Nem sequer lhe posso responder. Ela tem razão. Não passou nada, se calhar nunca vai passar. - Bem, não vamos entrar por aí - contemporiza com um olhar apaziguador -, o que fizeste foi arranjar outra confusão para te distraíres, assim é fácil. A Maria está-me a irritar. Porque é que não hei-de ter sorte desta vez? - E porque é que não hei-de ter sorte desta vez? - Porque a sorte não se tem, constrói-se. E tu não sabes fazer luto das relações, mergulhas de cabeça logo na seguinte, quando a anterior ainda não acabou e vais acumulando uma série de assuntos pendentes na tua vida. E essa confusão não te pode fazer bem. Sei que ela tem outra vez razão. Lembro-me dos anos de luto sentimental que a Maria fez antes de conhecer o António. Esteve sozinha mais de dois anos. - Sei que é difícil estar sozinha, mas diz-me uma coisa: Podias ou não podias ter evitado esta história com o Tiago? Sempre soubeste que não gostavas dele. - Podia, mas não me apeteceu. - Enquanto fizeres só o que apetece, não vais a lado nenhum. Ouve lá, ainda andas às voltas com o tio? O tio é o Luís. Antes que tenha tempo de lhe responder, a sala é invadida por dois seres barulhentos de um metro e meio metro, o primeiro pelo seu pé e o segundo a gatinhar. As duas filhas da Maria. Iguais uma à outra e igualzinhas à mãe. A Matilde com quatro anos e a Maria com dez meses. - Se não soubesse a paixão que tens pelo António, diria que as tuas filhas eram de geração espontânea - comentei. A Maria pegou na mais pequena e cheirou-lhe a fralda. - Temos presente - declarou fleumática. Segui-a até ao quarto para a muda inevitável. Com a prática dos gestos repetidos milhares e milhares de vezes, retirou o objecto, enrolou-lhe as pontas e colocou um igual mas limpo por baixo enquanto limpava mecanicamente o rabinho rosado da filha. - Às vezes acho que nunca mais vais assentar e isso preocupa-me. Qualquer dia tens 40 anos, e depois 50 e depois começas a envelhecer e passas o resto da tua vida a olhar para os filhos dos outros e a sonhar com tudo o que não conseguiste. - Credo, que visão tão apocalíptica!


- Chama-lhe o que quiseres, mas ficaste escrava dos teus ataques de paixão e tenho a impressão de que chegaste a um dead end. Exageras e trocas tudo, não dás tempo para que as relações cresçam por si mesmas. Assim não vais lá. Minha querida Maria. Observadora e certeira, como sempre. Estarei com a síndroma do parque de estacionamento? O meu amigo Afonso é que no casamento de uma amiga comum desenvolveu a brilhante teoria. - Lembras-te da teoria do Afonso do parque de estacionamento? - Não. - É assim: é véspera de Natal e ainda não compraste presentes. Então decides concentrar os teus esforços numa ida ao centro comercial mais próximo. Quando lá chegas, o parque de estacionamento está cheio e começas a dar voltas ao quarteirão à procura de um lugar. Chove torrencialmente e está um frio de rachar. Avistas um lugar a mais de 500 metros da entrada e pensas, este lugar é mau, estou muito longe da entrada. Ao fim de três voltas ao quarteirão o lugar continua à tua espera. Então começas a achar que o lugar afinal já não é tão mau e arrumas o carro toda satisfeita, olhando de lado para os outros palermas que não aproveitaram aquele lugar. Sentes-te uma sortuda porque afinal conseguiste um óptimo lugar para o carro. Achas que já cheguei a este estado? - Pode ser - responde a Maria com ar distraído, enquanto muda o babygrow à Maria que arrulha como uma pomba - mas acho que o pior é ainda não teres filhos. Vives completamente centrada em ti própria. Os filhos dão-nos outro sentido à vida e por mais trabalho e chatices que tragam são a nossa continuação e revemo-nos neles - pega na Maria -, olha para isto: sem elas a minha vida fechada aqui na quinta com o António sempre às voltas com a apanha da maçã e as avarias nas máquinas era uma neura. Assim, é um prazer. Às vezes dá-me aquela saudade louca de sair à noite, passar a tarde nas compras e fazer vida mundana, mas nunca teria a paz que tenho se não estivesse aqui, se não tivesse a minha estrutura, um marido bestial e umas filhas adoráveis. A Maria pára de falar e muda repentinamente de expressão. - Tens visto o Afonso? Estava a ver que não perguntava por ele. Quando invoquei a teoria do parque de estacionamento nem me lembrei do pequeno pormenor, não sem a sua importância, de o Afonso ter sido o João da Maria. Uma paixão conflituosa e arrebatadora que acabou da pior maneira, que é quando as pessoas não sabem porque é que se afastam, embora as suspeitas da Maria apontassem para uma possível tendência homossexual do Afonso.


Nunca aprofundei a história pelo respeito que tenho pelos dois, mas tentei desde então detectar no Afonso qualquer indício, o qual nunca consegui apurar. Para mim sempre foi um conquistador nato, do alto do seu metro e oitenta e sete, ar aristocrático, cabelo ondulado. Hoje, passados mais de sete anos, o Afonso continua solteiro, coleccionando casos mais ou menos irrelevantes dos quais se destacam de vez em quando umas namoradas que apesar de tudo singram durante escassos meses. Vejo-o como um diletante, um escravo dos seus ataques de paixão, como magistralmente a Maria o definiu. - Não tenho visto, mas está na mesma. Muda de gaja como quem muda de camisa, sabes como é... A Maria sabe demasiado bem o que quero dizer e suspira com ar de quem não está para desenterrar fantasmas. Cartesiana e ordenada, duma forma ou doutra arrumou a vida como achou melhor, e, como é sensata, enterrou os fantasmas num sítio qualquer onde não se lembra, para que não os possa desenterrar, mesmo que um dia queira ceder à tentação. - Gostava de ser como tu, de ter essa capacidade estóica de enterrar os meus fantasmas, mas em vez disso passeiam-se todos os dias à minha frente. - Não sei o que é menos saudável... - responde, subitamente entristecida. A minhoca de meio metro afasta-se, gatinhando a 200 à hora pelo corredor, ao ver o vulto da irmã mais velha ao fundo -, às vezes ainda sonho com ele, que fazemos amor como acho que só fiz com ele na vida... sabes, aquela sensação de sentires que te estão a massajar o coração? Isso só acontece quando há mesmo amor. Não lhe pergunto se entre ela e o António também não é assim. Aprendi que respeitar os segredos dos amigos é fundamental para manter uma boa amizade, por isso desvio o assunto para coisas mais triviais e o tempo voa. Quando dou por mim, são oito da noite e regresso a Lisboa, contrariada por me sentir outra vez só. A Maria pede-me para ficar o fim-de-semana, mas tenho que resolver a situação com o Tiago o mais rapidamente possível, senão o que é que o Manel ia pensar de mim? Esta súbita paixão devia trazer-me alguma alegria e fazer-me sentir acompanhada, porque é que o germe da angústia se instalou de repente? A Maria tem razão. Não posso pensar que encontrei o homem da minha vida, só porque houve um tipo com charme e inteligência suficientes para me seduzir. Tenho que me refrear, antes que me espete na próxima curva. Uma relação não pode ser uma descida de uma rampa a pique numa bicicleta sem travões. Mas desta vez, gostava mesmo de não falhar. É a merda do mito do Príncipe Encantado. Que estupidez. Enchem-nos a cabeça destas merdas quando somos miúdas e depois nunca mais nos libertamos do cliché ridículo e


ainda por cima completamente absurdo. Não há príncipes encantados. Há homens que gostam de nós e homens que não gostam. E há os que sabem gostar e os que não sabem. À saída da quinta, ao passar a ponte do riacho, oiço sapos a coaxar. Príncipes que se transformam em sapos, é o que é. E cá estamos nós prontinhas para os engolir.


VII Estou velho. Velho e cansado. Chega-se aos 50 e sem se dar por isso fica-se com tiques de velho. Óculos de lentes bifocais para ler a carta nos restaurantes, dores nas costas, pêlos brancos no peito, barriga, por mais desporto que um tipo faça. Mesmo assim nem sequer estou careca, como 90 por cento dos tipos da minha idade. Já tenho umas brancas, mas não me chateiam nada. Afinal tenho 50 anos, mal seria se pelo menos não tivesse ganho um ar mais respeitável. Mas estou mesmo velho. Sinto-me velho e isso é que é o pior de tudo. A Carmo também está a envelhecer, perdeu a cara de miúda que tanta graça lhe dava, ficou seca e rezingona. Vive mergulhada na mais estéril das preguiças, acha tudo um frete; ir à neve, fazer ski aquático, andar de mota, já nada a seduz. Passa os fins-de-semana fechada em casa em frente à televisão a falar ao telefone com as amigas sobre merdas que não interessam nem ao menino Jesus, a ler revistas daquelas que não têm nada para ler, cheias de fotografias mal tiradas de festas, cocktails e outras merdas do género. Os miúdos não nos ligam nenhuma. Têm todos namoradas, saem até às sete da manhã, dormem o dia todo e quando acordam ao fim da tarde, são outra vez horas de ir ter com os amigos para mais uma noite de borga. No meu tempo tínhamos um grupo divertido: andávamos de bicicleta, fazíamos piqueniques e peças de teatro. Claro que apanhávamos umas boas bebedeiras e dávamos umas Curvas com uma ou outra gaja mais liberal que de vez em quando aparecia, mas não era esta vida que eles agora levavam. Não consigo perceber onde é que ficam até às sete da manhã e que gozo é que isso dá. Eu disse no meu tempo? Porra, estou mesmo a ficar velho. O meu pai que era outro chato é que dizia estas coisas. Felizmente só temos rapazes, sempre facilita um bocado a nossa vida. Mas mesmo assim, já apanhei o mais velho com a namorada no quarto. Também já tem 18 anos, é normal que queira dar as suas voltas. A Carmo ficou furiosa, armou-se em moralista e fez-lhe uma cena. Tive que lhe lembrar que ela com 18 anos por acaso já andava às curvas comigo. Argumentou que isso não era chamado para o caso, o que me irritou, irrita-me sempre a mania que ela tem dos argumentos ilógicos. Das duas uma; ou é burra, ou acha que o burro sou eu. Infelizmente parece-me que é a primeira. Também não me casei com ela por ser


inteligente. Casei-me porque era porreira, era a que estava ali à mão e porque meteu na cabeça que ia casar comigo. A Vera costuma dizer que são as mulheres que escolhem os homens, e não o contrário, e acho que ela tem razão. Um de nós nasceu na geração errada, devo ter sido eu. Apetecia-me ter menos vinte anos e não ficar estoirado depois de correr uma hora com os cães. A Vera faz-me sentir que tenho a idade dela, nunca olha para mim como um tipo mais velho. Ou se calhar olha, mas estou tão cego que nem reparo. Uma vez em Paris andávamos a passear nos Jardins do Luxemburgo e deu-me a mão. As pessoas olhavam para nós, eu de cabelo já grisalho e ela com ar de Lolita, sempre pareceu muito mais nova do que é. A Vera irritou-se. Mas porque é que olham assim para nós? Não se nota a diferença de idades, achava ela. Eu não noto, dizia com um ar óbvio. Eu também não, mas quem está por dentro das situações raramente tem distância para ver as coisas com as cores originais. Para quem nos veja, eu sou um velho baboso por um pedaço de carne fresca. Um triste, um gajo casado que procura na companhia de uma mulher mais nova o elixir da juventude. E se for, qual é o mal? A juventude também está no espírito, se a Carmo não passasse o dia em frente da televisão transformada numa alforreca e gostasse de se divertir, e lhe tivesse sobrado um bocado de vitalidade, se ao menos vivesse a vida com prazer e ainda gostasse de sexo, talvez não me parecesse tão óbvio e normal arranjar uma miúda para me fazer companhia. Porque é a companhia que me faz falta, mais do que umas quecas bem dadas. De alguém com quem possa conversar sobre a minha vida, os meus projectos, de alguém que me oiça e que me faça rir, que me faça sentir que a vida pode ser sempre vivida com prazer, tenha um gajo 20 ou 50 anos. Tive sorte em encontrar a Vera. É porreira, está sempre mais ou menos disponível e, como tem namorado, dá pouco nas vistas. Enquanto tiver namorado é tudo muito mais fácil. O pior é que fica sozinha. Daí a querer que eu saia de casa e vá viver com ela é menos de um fósforo. Assim está tudo no seu lugar, cada macaco no seu galho. Não é que não gostasse de viver com ela. Mas não ia dar. Estas coisas nunca dão. Quando eu tivesse 60 anos ela teria 40 e andava aí pronta para as curvas. Eu estaria mais velho e ela igualmente nova, fresca e cheia de speed. Num instantinho perdia a paciência. E depois, não tem filhos, o que é bom por um lado porque não está presa, mas mau por outro, porque como todas as mulheres, vai querer ter, o que aliás é natural e legítimo. Eu é que já não tinha paciência para ser pai aos 50 anos. Agora que os meus filhos estão finalmente a chegar à idade adulta, nem pensar


em começar tudo outra vez. Ia ser um pai velho, rabugento e sem paciência, com um filho de 20 e eu com 70 anos. 70 anos. Hei-de lá chegar, mas nem quero pensar nessa merda. Se calhar não sei envelhecer. Por isso é que tenho a mania das motos. Por isso é que gosto dela. Encontramo-nos para almoçar, que é aquela hora inocente que dá para conversar e mais alguma coisa se nos apetecer. A Vera chega radiosa, com um decote pronunciado e uma saia pelo joelho que lhe marca a cintura e as ancas. Cumprimenta-me com aquela doçura das relações prolongadas, mas menos entusiasmo do que é costume. Pedimos uma dourada grelhada enquanto olhamos para o rio, hoje mais azul do que é habitual. - Adoro estes dias de sol, aquecem a alma - comenta com um sorriso bemdisposto. Depois olha-me nos olhos e diz, sem pré-aviso - temos que falar. - Falar de quê? - De nós. Passa-se aqui alguma coisa. - Acabaste com o Tiago? - Como é que sabes? - Calculei. - Acabei, mas não é por causa disso. Só preciso de cinco segundos para pensar. - Então é porque arranjaste outra pessoa. A Vera olha-me, estupefacta. O empregado aproxima-se com a carta de vinhos. Escolho Esporão e recomendo ao empregado que verifique se está mesmo fresco. A Vera continua de boca aberta a olhar para mim. - Fecha a boca, miúda, senão ou entra uma mosca ou te sai alguma asneira - comento com ar paternal. - Tu nem me deixas contar-te as coisas... - responde com um suspiro. Pronto. Vou-me encher de paciência e ouvi-la. Afinal, ela também me ouve sempre. - Então conta lá. - Apaixonei-me. E fica calada, a olhar para mim, com cara de cão que foi atrás da presa e a perdeu no mato. - E então? - E então... conheci um tipo no Porto e... e perdi a cabeça. Penso que isso deve querer dizer que me apaixonei, não achas?


- Depende - respondo placidamente, enquanto lhe estendo um bocado de pão com manteiga -, podes ter ido para a cama com ele e não teres perdido a cabeça, percebes a diferença? - Claro que percebo, mas é isso mesmo que te estou a dizer. - E então? - Ai, estás a tornar as coisas tão difíceis!!! Nestas alturas as mulheres são mesmo todas iguais. Nunca percebe o que é que elas querem. Começo a rir. - Porquê? Querias que te ouvisse, estou só a tentar perceber o que é que se passa. A Vera continua a olhar para mim como se estivesse à espera que eu lhe desse umas reguadas por mau comportamento ou a mandasse para o canto da sala com orelhas de burro na cabeça. A dourada aterra na mesa, devidamente rodeada de batatas e legumes. Sirvo-a e inicio o interrogatório da praxe, mais para ela desabafar do que para ouvir as respostas. - Como é que se chama? - Manel Menezes. - Que idade tem? - A minha. - É solteiro? - É - dá mais uma garfada, enquanto me fita, perplexa. - Estás a reagir de uma forma tão estranha, como se achasses a coisa mais natural do mundo... - Ouve, sempre soube que isto um dia te podia acontecer. Tu nunca estiveste apaixonada pelo Tiago, nem sequer gostavas dele, senão não tinhas andado este tempo todo enrola achasses piada a alguém. - E tu não te importas??? Fixa-me num misto de estranheza e pena, como se eu fosse uma espécie em vias de extinção. - Não tenho como importar-me ou não. Sou casado, sempre soubemos os dois muito bem o que é que queríamos desta relação e sempre nos demos bem assim. Talvez não me esteja a explicar bem. A Vera olha para mim confusa, sem saber o que pensar. - Mas estou a dizer-te na cara que me apaixonei por outra pessoa e tu nem sequer reages... - Ouve-me com atenção: aquilo que nós temos, e que é óptimo, estaria sempre condenado, tu tens a tua vida e eu a minha, tenho mais 20 anos do que tu, somos bons amigos e gostamos de estar juntos. Tu gostas de sexo e eu


também. É outro ponto a nosso favor. Mas a nossa relação é mais de amizade e de companhia do que de outra coisa, pelo menos sempre foi assim que tu própria a definiste. Ou não estavas a dizer a verdade? - Claro que estava. Não é essa a questão. Tu acabaste de definir a nossa relação tal como ela é, tal como sempre a vi. Mas daí a eu te dizer na cara que me apaixonei por outro homem e tu ficares na mesma, como se nada fosse, vai um passo um bocado grande. - Quem é que te disse que fico na mesma? Já percebi que isso vai mudar a nossa relação em algumas coisas, senão não terias tido necessidade de me dizer que estavas apaixonada por alguém. - E estou mesmo. - Tens a certeza? - Tenho. Ele é fabuloso... é inteligente, tem uma cabeça óptima, trata-me bem... - Bem, isso ainda não tiveste tempo de ver. - Pois não, mas sabes como é que eu sou, irremediavelmente optimista. Sabes o que eu costumo dizer, não sabes? Entre o optimismo e a inconsciência existe uma linha muito ténue e... ... e tu pisas essa linha todos os dias, já sei e não acho mal. Desde que tudo corra bem... - Vai correr, vais ver. Não há nada a fazer. A miúda perdeu mesmo a cabeça com o tal Manel do Porto. Há cabrões com sorte na vida. Paciência. Cá fico eu para apanhar os restos. - Mas não deixo de gostar de ti nem de ser teu amigo por causa disso. A expressão desanuvia-se, volta à mesma cara de sempre, iluminada e fresca. - Assim está melhor. - Desculpa, mas nunca pensei que reagisses de uma forma tão... digamos tão... Falta-lhe a palavra, mas não a vou ajudar. - ... democrática, pronto. Democrática é uma boa palavra - remata triunfante. - Também me parece - respondo, piscando-lhe o olho. A Vera entusiasma-se e acaba por me contar o que é que o tal Manel faz, onde é que foram almoçar, mas já não a oiço. Que chatice, estava tão bem com ela. Agora onde é que vou arranjar outra miúda que tenha paciência para me ouvir e que goste da minha companhia, independentemente de eu a levar para a suite presidencial do Ritz ou para o motel da auto-estrada? Onde é que eu


encontro outra Vera, que goste de rir e de ter conversas sérias ao mesmo tempo, que olhe para mim sem ver a idade que tenho? - Não estás a ouvir nada do que te estou a dizer, pois não? - pergunta depois de deglutir uma fatia enorme de bolo da casa. - Estava a pensar se não terias nenhuma amiga simpática para me apresentares... - Parvalhão! - Parvalhão? Tu é que arranjaste um namorado, eu agora que me amanhe. A Vera olha-me outra vez fixamente, desta vez não se ri, apesar do meu tom descontraído. - Desculpa. - Não tens nada que pedir desculpa. Se é aquilo que queres... - Acho que é. - Vê lá bem é que tipo de gajo é. Olha que as pessoas raramente são aquilo que parecem... - Eu sei. São quase sempre piores. E às vezes melhores, como tu. Despedimo-nos com um abraço apertado, daqueles que dão vontade de partir os ossos. Não vale a pena dizer-lhe que não tenho grande feeling em relação ao tal Manel, que tudo o que ela me contou me fez lembrar a cantiga do bandido que eu dava às miúdas quando ainda tinha paciência para andar à caça, que este tipo pode ser muito miúdo para ela, ou pode simplesmente não voltar a viver as coisas com a mesma intensidade que lhe leio nos olhos e lhe sinto na pele. Já tenho saudades do corpo dela porque sei que nunca mais vamos dormir juntos, que se fechou uma página, que casos como estes acabam de um dia para o outro e que, como a maior parte das coisas na vida, são irrepetíveis, mas quero continuar próximo dela, quero seguir-lhe os passos, talvez como faço com os meus filhos... Porra, estou mesmo a ficar velho. Até olho para a miúda com quem andei como se fosse minha filha. A idade é mesmo uma merda que não perdoa.


VIII Ainda não acredito no que me aconteceu. Quando um gajo entra em maré de azar, não há nada que não nos aconteça. É a Lei de Murphy: tudo o que poderá eventualmente correr mal, corre mal de certeza. A Vera voltou do Porto mais fria que um icebergue. Disse-me que queria acabar tudo e pediu-me para tirar as coisas lá de casa. No fundo, já estava à espera, mas só quando um gajo ouve as coisas ditas na cara é que se confronta com a realidade. Apertei com ela, perguntei-lhe se tinha alguém, respondeu-me não tens nada a ver com isso. Além de corno, ainda queria que eu fosse dos mansos. Estúpida. As mulheres são todas umas cabras. A discussão foi violenta mas totalmente infrutífera. Não lhe consegui arrancar nada. Por fim saí, furioso, mas saí. Mudei-me para casa da minha mãe que me recebeu com aquela cara típica já-sabia-que-isto-te-ia-acontecer. Irrita-me um bocado a minha mãe. Já com 60 anos e continua a vestir-se como se tivesse 20. Era linda quando era mais nova, mas deve estar convencida de que não envelheceu. Ainda de ténis e calças justas. Outro dia esticou-se toda: papada, olhos e testa. Disse às amigas que ia passar uns dias ao Sul de Espanha e meteu-se três semanas em casa para ninguém dar pela coisa. Nem atendia o telefone nem nada. O pior foi explicar à Adosinda que a Dona Zimi não queria que soubessem que estava em Lisboa. A mulher que está lá em casa há 20 anos ainda não atinou com as manias da mamã. Aquilo foi um stress para a mulher. Primeiro viu a minha mãe com a cara inchada, cheia de nódoas negras, daquelas feitas por maridos ciumentos quando se dão conta das actividades extraconjugais das esposas. Ah, é verdade, não se diz esposa que é foleiro, explicou-me a Vera, que tem a mania das palavras proibidas. Também não se diz brique para cor de tijolo, em rosa, mas cor-de-rosa. Nem vivenda, diz-se casa. E não se dão prendas, dão-se presentes. As estopadas que eu gramei aquela convencida, com os seus códigos insuportáveis de menina de boas famílias. Mas depois dizia foda-se e caralho e até achava chique. Que estupidez. Era uma presunçosa. Punha um ar superior e rematava, uma pessoa bem-educada pode dizer as asneiras que quiser, como se fosse mais do que os outros. Ainda ficou admirada quando a puseram a andar da televisão.


Ninguém tem paciência para aturar meninas convencidas. Só o José António é que gostava dela, mas quando se baldou para a concorrência, a Vera com os seus ares de menina rica que trabalhava por gosto e porque achava giro fazer televisão, tá a ver, ficou sem rede e foi despachada num abrir e fechar de olhos. Ainda me lembro como se fosse hoje de a ver a andar na redacção com aquele porte superior e irritante que têm os queques como se pertencessem a outro mundo. A princípio embirrei com ela, embora o par de pernas que a sustentava não me deixasse totalmente indiferente. Mudei de ideias no dia em que entrou pela sala de montagem e reconheceu imediatamente o meu perfume. Parecia uma cadelinha a farejar o ar com a maior descontracção. Disse triunfalmente o nome e a marca e pediu-me para montar a peça dela primeiro do que a minha, porque era para o telejornal que ia para o ar antes do meu programa. Disse-lhe logo que sim e fiquei a pensar naquela miúda atrevida com cara de mosca-morta e um charme descomunal. A minha mãe é que nunca a gramou, vá-se lá saber porquê. Reconhecia que era simpática mas dizia sempre que ela não era de fiar e que não gostava de mim. Mas onde é que eu ia? Já sei, na anedota do marido que diz à mulher que já está com os dois olhos esmurrados, já te avisei duas vezes. Grande cabra, tinha merecido umas lambadas. É que a hora do corno toca a todos. Já percebi que esta merda é mesmo assim e não há nada a fazer. Deixei passar uns dias à espera que os ventos mudassem. Não lhe voltei a telefonar, a contar que ela me ligasse. Nada. Cagou completamente em mim. Passou-se o fim-de-semana e nada. A gaja sem dar sinais de vida. A mamã começou a deitar achas à fogueira. Vais ver que já arranjou outro tipo, etc., etc. Uma mãe pode ser muito persuasiva e convincente quando quer. E a minha sempre quis ver-me a milhas da Vera, por isso aproveitou como pôde a aberta que lhe dei. E o pior é que estava certa. Na quarta-feira de manhã passei por lá para ir buscar meia dúzia de coisas de que me tinha esquecido. Os meus CDs do Seal e do Eric Clapton, uns botões de punho e um frasco de perfume. Bati à porta e nada. E o carro dela estacionado lá em baixo. Bati pelo menos umas vinte vezes. Passou-me pela cabeça que estava metida com um gajo em casa. Desatei aos pontapés à porta até ela abrir. Estava de camisa de noite e roupão de seda, desgrenhada, com uma cara de cama que não enganava ninguém. Entrei disparado e dei com um gajo a dar o nó da gravata sentado na cama. Na minha cama, onde dormi dois anos com ela. Um puto baixote, de cabelo ondulado e olhos azuis, todo pipi com sapatos de berloques. Comecei a


mandar vir com ela. Perdi completamente o controlo. Chamei-lhe cabra, puta e outras coisas apropriadas à ocasião. Depois virei-me para o gajo e disse-lhe: você nem sabe o que o espera. Esta mulher vai-lhe virar a vida do avesso e quando der por isso já está fodido. Foi então que reparei nos berloques dos sapatos do cabrão. Puta. O que ela gosta mesmo é de gajos queques, do tipo mete nojo. Esperem aí que eu já vos lixo. Virei-me para o gajo e disse-lhe: tem berloques nos sapatos? Olhe que ela tira-lhe os berloques! Daqui a uma semana já não tem nada, nem berloques, nem porra nenhuma. Esta mulher há-de fazer de si um palhaço, isto é, se você deixar. Se eu fosse a si... A conversa acabou ali mesmo. O gajo vociferou meia dúzia de ameaças sem consistência, tirei-lhe as medidas e não tinha mais de um metro e setenta, se lhe desse duas bolachas esborrachava-lhe a tromba por isso nem me dei ao trabalho. Bati com a porta e vim-me embora. A minha mãe é que tinha razão. A gaja não podia ser boa peça. Estas meninas finas pensam que fazem tudo o que lhes passa pela cabeça nas barbas dum gajo e que ele é cego, surdo e estúpido. Mas desta vez apanhei-a com a boca na botija. Nunca mais lhe falo. Vaca. Se calhar já andava metida com aquele xoninhas há meses e eu feito estúpido a acender velas. O que as gajas precisam é de porrada. Rédea curta e porrada na garupa, como se costuma dizer. Os árabes é que têm razão quando dizem: quando chegares a casa bate sempre na tua mulher; mesmo que não saibas porquê, ela sabe. Como tenho algum espírito prático já mandei importar a bifa, aquela do tribunal da relação. Chama-se Tracy As gajas são todas Kathies e Tracies, é tipo molde. Brancas, com uns grandes cus e umas mamas do caraças, doidinhas para levarem com ele, que os gajos lá da Britânia devem ser todos fracos da piça. Chegam cá e com o calor ficam completamente doidas. Andam sempre aos pares, deve ser porque assim é mais fácil engatar. A Tracy veio com uma amiga, que era a Kathy, claro. Não comi a Kathy por mero acaso. Não que a dita não tivesse tentado pôr-se debaixo de mim, mas achei chato. Só depois é que percebi que a Tracy não se chateava nada, mas era tarde, já andava o Afonso a comê-la. O Afonso é um gajo porreiro. Está sempre na maior e quando ouve falar em gajas fica mais excitado do que o Tio Patinhas se lhe falam em dinheiro. É do caraças, o gajo. E sempre pronto para a confusão. Um dia destes telefono-lhe, vamos os dois para a Kapital engatar miúdas. O gajo diz que aquilo está a dar imenso, que está cheio de pitinhas com vinte anos,


interessadas em experimentar gajos com barba rija e pêlos no peito. Tenho que ver se volto às lides. Não é por um gajo deixar de ir às corridas que perde a aficción, já dizia o meu avô que era transmontano mas não era parvo. Chegou a Lisboa com uma mão à frente e outra atrás e com 40 anos já tinha mais de dez prédios. Há coisas em que um gajo tem sorte. Eu tive a sorte de ser filho único e neto único, por isso o que há vem tudo parar à mão aqui do je. Levei um par de cornos, e depois? Faz parte da vida. A Tracy chega daqui a uma semana, o que quer dizer que daqui a 15 dias já sou outra vez um homem pronto para o que der e vier. O bom das namoradas estrangeiras é que são porreiras quando chegam e porreiras quando se vão embora. Como respondeu uma vez o Jack Nicholson que tem fama de ser o maior fodilhão de Hollywood a um jornalista que lhe perguntou porque é que ele recorria às meninas de Heidi Fleiss: você não percebe nada, sua besta, pois não? Nós não pagamos para elas virem ter connosco, nós pagamos para elas se irem embora. Anda Tracy, que com a fomeca com que estou, regressas ao país da Tia Lilibeth, como dizia a Vera, com menos dez quilos e muitas histórias para contar às tuas conterrâneas. Ainda dizem que o macho latino é uma espécie em vias de extinção. Ignorantes.


IX Há mais de um mês que não sei da Vera. Às vezes passamos semanas sem nos falarmos, mas algo me diz que se passa qualquer coisa. Não devíamos ter tido aquela conversa, a última vez que fomos almoçar. Porque é que ela não se há-de casar com o Tiago ou com outro gajo qualquer? Porque é que não há-de ter uma família e filhos como eu e como toda a gente? Não sei porquê, mas não imagino a Vera casada com ninguém. Acho que não é do género de se casar. E no entanto, tenho a certeza que dava uma mãe excepcional. Tem tudo para ser uma boa mãe. É inteligente, meiga, generosa e tem uma paciência infinita para aturar tudo e mais alguma coisa quando gosta mesmo de alguém. Quando era miúda passou uns maus bocados comigo. Fazia-lhe a vida negra. E nem sequer era de propósito. Ela era mais uma da lista enfadonha de miúdas que me telefonavam cada vez que chegava a Portugal. Mas vi logo que ela tinha qualquer coisa. Qualquer coisa que prende um homem. Que me faz lá voltar outra e outra e outra vez. Uma espécie de magnetismo, não consigo, nunca consegui definir. Hoje é aquilo que qualquer homem deseja numa mulher. Até eu. Mas é melhor nem pensar nisso. A Sofia é a minha família, os meus filhos estão acima de todos os meus devaneios. E depois, como é que podia fazer isso à Vera? Gosto demasiado dela para a ter na minha vida como amante. Mas continuo a desejála, a querê-la na minha cama. Às vezes acordo a meio da noite encharcado em suor a sonhar que estamos a fazer amor. Tenho saudades do corpo dela. Já nem me lembro bem como era. Lembro-me dos ombros magros e muito direitos, das pernas compridas e musculadas, um pescoço comprido e anguloso que ainda consigo observar por debaixo daquelas camisolas de gola alta, brancas, que ela gosta de usar no Inverno. Mas são imagens vagas, perdidas na memória, desvanecidas pelo tempo e pela ausência. Quando estou com ela observo-lhe os traços e vejo a mulher em que se tornou. A cara alongou, os olhos ficaram maiores, ou então foi a expressão que se alterou, talvez tenha ficado mais grave, mais séria. A testa é percorrida por três ou quatro rugas de expressão muito finas, quase imperceptíveis que ganham visibilidade quando a obrigo a pensar em coisas que não quer. Pensando bem, fiz bem em desencorajá-la quanto ao casamento.


Claro que ela podia casar com o Tiago ou com outro gajo qualquer, mas porque é que ela há-de cair no mesmo erro em que toda a gente cai? É tão fácil errar!... Quando me casei com a Sofia, estava firmemente convencido de que era o melhor que devia fazer e hoje, cada vez que chego a casa e olho para a cara dela, vejo que me enganei. Enganei-me redondamente. A Sofia é feita de outra massa, passa a vida a preocupar-se com coisas que não têm para mim qualquer importância. E depois, tem um grupo de amigas insuportável. Todas divorciadas, ressabiadas com os homens, com falta de peso em cima. Deve ser duro ser trocada por outra, mas bolas, uma pessoa tem de manter o seu orgulho, a sua dignidade. Quando as oiço queixarem-se dos ex-maridos só me apetece apertar-lhes a garganta, estrafegá-las até retirarem tudo o que dizem. Como se os homens fossem todos uns filhos da puta e se pudessem pôr todos no mesmo saco. Não estou a defender a classe nem vender a ideia peregrina de que somos uns santos, mas há homens e homens. Faz-me impressão esta mania feminina de lavar a roupa suja em sistema de terapia de grupo. Nós só fazemos isso com as gajas de quem não gostamos. E depois não preciso de andar por aí a comer gajas para provar o que quer que seja a quem quer que seja. Também nem tenho tempo para isso. Se não limpo o passivo da fábrica em dois anos, lá se vai tudo para as mãos dos bancos. Lá se vai a segurança do João Maria e da Teresinha. Isto da Sofia não trabalhar também já me começa a irritar. Percebo que não o tenha feito enquanto os miúdos eram pequenos, mas agora que a Teresinha já fez quatro anos, bem podia arranjar qualquer coisa para fazer. Nem sequer é pelo dinheiro, é uma questão de princípio. Passa os dias a fazer ginástica e a almoçar com as amigas, tão ou mais preguiçosas do que ela, sempre a dizer mal dos ex-maridos enquanto lhes estoiram com o orçamento a sugar pensões de alimentos. Inúteis. Se um dia me separar da Sofia espera-me a mesma sorte. É completamente dependente. E não estou só a falar de dinheiro. Sou eu que decido tudo. Tudo. Não me importava de pagar as contas se ela fizesse outras coisas. Mas nada. Não mexe nem uma palha. Quando o João Maria nasceu, era eu que lhe mudava as fraldas e dava o biberon a meio da noite. Estou tão cansada, está-me sempre a dizer. Acorda cansada, passa o dia cansada e adormece cansada. Cansada de não fazer nada. O tédio mata. E o ócio é a mais absorvente das tarefas. Às vezes apetece-me meter a Vera num avião e ir passar dois meses às Caraíbas. Dois meses, não, seis. Um ano. A vida toda. Às vezes apetece-me mudar de vida. Mudar de vida. Dito parece tão fácil. Há uns meses largos não conseguia adormecer e vim para a sala ver televisão. Peguei num álbum de fotografias antigo e vi o fio da minha vida linear como


um filme para crianças. Aqui e ali, lá estava Vera, ao meu lado. A Vera, a Vera, a Vera. A Vera tem a vida dela e eu a minha. Linhas paralelas nunca se cruzam, não é esta uma das leis da geometria? Será que estamos condenados a assistir impávidos ao desenrolar da vida um do outro, sem as conseguirmos cruzar? Toca o telemóvel. Claro que só podia ser ela. - Olá... - Olá Vera. - Ouve, precisava imenso de falar contigo. - Passa-se alguma coisa? - Sim e não... achas que podemos almoçar hoje? - Não, mas amanhã posso. O silêncio do outro lado faz-me mudar de ideias. - Espera, eu posso adiar o almoço de hoje para amanhã, é com uma pessoa daqui da fábrica. Está bem assim? - Obrigada. Queres ir ao sítio do costume? - Não. Vem ter comigo aqui à fábrica e vamos experimentar um restaurante de bife na pedra que me recomendaram aqui perto. - É que... preciso, precisamos de falar um bocado e não queria ir a um sítio onde estivesse muita gente... - Mas aconteceu alguma coisa? - Depois conto-te. Passo por aí à uma, está bem? Desliga com ar comprometido. Deve ter acabado tudo com o Tiago. Estáse mesmo a ver. Pôs a mão na consciência e percebeu que era uma estupidez casar com ele. Maldita lucidez, abriu-lhe as portas da clarividência, fechou-lhe a possibilidade de uma utópica felicidade. E agora está outra vez só, entregue a si própria e vai-me perguntar se acho que fez bem. E eu vou-lhe dizer que sim, como se pudesse dar-lhe uma solução alternativa. A Isabel assoma à porta entreaberta e faz menção de entrar. - Entre Isabel, diga. A Isabel está com cara de caso. Espero que não me venha pedir um aumento, agora que estou com a corda ao pescoço. - Sotor... vinha-lhe pedir uma coisa. - Diga. Isabel É sempre assim. Quando me quer pedir um favor põe sempre uma cara de Maria Antonieta a caminho da entrevista com o cadafalso. O efeito é o mesmo, porque com a sensação de que estou a perder tempo, começo a impacientar-me e apetece-me mesmo cortar-lhe a cabeça. - Se ao Sotor não fizesse muita diferença, eu gostava de tirar a próxima sexta-feira para ir ao Porto ver o meu filho...


A Isabel tem um filho? Esta é nova. - Não sabia que tinha um filho... A Isabel desvia o olhar com uma expressão aflita. - Pois... é natural... deixe lá, também não tem importância, se o Sotor vir que não lhe dá jeito... Vira as costas e prepara-se para sair da sala. Aqui há gato. - Espere aí... porque é que quer ir ao Porto ver o seu filho? - Ele faz anos e pediu-me para ir jantar com ele... Coitada, a mulher não sabe onde se há-de meter. Também não é para menos. Trabalha na fábrica há mais de trinta anos e é minha secretária há sete. Eu devia saber que ela tem um filho. Como se tivesse sido apanhada em falta, começa a caminhar silenciosamente para a porta. - Espere aí. A Isabel pára no meio da sala com ar indefeso, qual coelho apanhado a entrar à porta da toca. Vou mudar de estratégia. - Quer então a sexta-feira, não é? Está bem, eu dou-lhe o dia. Pode ir. Fica a olhar para mim especada. - Pode ir, Isabel. Pode ir na sexta e pode ir agora - repito, indicando-lhe a porta com um gesto. Se o meu pai fosse vivo podia-me explicar isto. Mas já não é. Se o meu pai fosse vivo podia-me explicar outras coisas, como por exemplo como é que conseguiu hipotecar a fábrica e dever mais de seiscentos mil contos à banca sem nunca me ter dito nada. Ou porque é que pôs a minha mãe fora de casa quando éramos miúdos e não deixou que a víssemos durante quase dez anos. E já agora porque é que vendeu a herdade do Alentejo com mais de novecentos hectares de cortiça antes de morrer a um construtor civil do Porto sem nos dar conhecimento. Ainda hoje chegam facturas de dívidas que ele deixou incautamente aqui e ali. Patife! Se fosse vivo, matava-o. Ainda hei-de descobrir quem era esse tal Adérito Gomes com quem o meu pai fez o negócio. Um dia, quando tiver tempo, quando isto estiver tudo desembrulhado e conseguir ter um minuto por dia para respirar. Só um minuto chegava para melhorar a minha qualidade de vida. Embrenho-me nos papéis e quando dou por mim passa da uma e a Isabel entra no gabinete com um sorriso a dizer que a menina Vera já chegou. A Vera segue-a e entra no gabinete com ar de peixe fora de água. A Isabel sai da sala. A Vera olha instintivamente para cima da minha secretária, onde reina o caos das pastas pendentes, e vê a fotografia da Sofia com os miúdos. Deve-lhe estar a passar pela cabeça se tenho por aí escondida alguma fotografia dela. Por acaso até tenho várias no cofre, mas isso ela nunca há de saber.


Pega na moldura e esboça um sorriso triste. - Que giros... também, com este pai e esta mãe não têm a quem sair feios. Encolhe os ombros e leio-lhe nos olhos qualquer coisa parecida com estes filhos deviam ser meus. Pois deviam, mas não são, por isso o melhor é irmos almoçar. - Vamos almoçar? - Embora. Ajudo-a a vestir o casaco e dirigimo-nos em silêncio para o carro. Durante o trajecto ainda tento meter conversa, mas responde-me com evasivas de tal forma alheadas que opto pelo silêncio até que ela se decida a falar. Está estranha, tensa, as rugas da testa sulcadas mais fundo do que é habitual. Só com a pedra ao lado a fumegar, uns nacos de lombo com ar delicioso, é que começa a falar, com alguma hesitação e a convicção de um pardal anestesiado. Acabou tudo com o Tiago depois do nosso almoço. Agradece-me por a ter alertado para os perigos da relação, por lhe ter demonstrado que o casamento com o Tiago ia ser uma asneira. Conta-me que foi ao Porto e conheceu uma pessoa. Que acha que se apaixonou. Que o Tiago lhe apareceu em casa um dia de manhã sem a avisar e lhe fez uma cena quando percebeu que ela estava com alguém. Mencionou um episódio qualquer com berloques nos sapatos que não fixei e rematou a narrativa pedindo-me para não nos voltarmos a ver. Perguntei-lhe o que é que isso tinha a ver com o resto. Engoliu em seco e desfiou um discurso confuso acerca de todos os anos durante os quais esteve irremediavelmente ligada a mim e como isso a tinha impedido de construir outras relações de forma séria e consistente com outras pessoas. Tentei relativizar, demonstrar-lhe que o que ficou não foi mais do que uma amizade de longa data sem qualquer carga emocional, mas olhou de tal maneira para mim que meti os pés pelas mãos e acabei por aceitar passivamente a sua decisão. Desfiou um discurso pensado, pouco espontâneo, por momentos tive a sensação que tinha ensaiado palavra a palavra, argumento a argumento, como um aluno aplicado numa prova geral. - Tenho de me afastar de ti, não percebes? Há anos que vivo neste limbo de ser a tua melhor amiga e de me convencer que faço parte da tua vida quando no fundo não tenho lugar nenhum, tu chegas à noite e vais para casa, passas os fins-de-semana com a Sofia e os miúdos e não gostas de mim, porque se gostasses já terias tido tempo de sobra para mudar a tua vida e optares por me teres ao teu lado. No fundo sempre soubeste que era o que eu queria, o que sempre quis.


Respirou fundo e continuou, com a maior convicção que conseguiu alugar à sua performance. - Além disso, acho que pela primeira vez em muitos anos estou mesmo a gostar de alguém e por isso não quero deixar passar mais uma oportunidade e para que haja esta oportunidade o meu coração tem que estar vazio, percebes? Parou por uns momentos e rematou. - Uma das mais antigas leis da física diz que o mesmo corpo não pode ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Tu não podes estar ao mesmo tempo instalado na tua vida e na minha. Há outra lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Eu quero que isto entre mim e o Manel dê mesmo certo, por isso tens de sair da minha vida para sempre, senão ele não pode entrar e se não entrar ninguém, fico entregue a mim mesma e sozinha que nem um cão. E isso é a última coisa que quero na vida. Disse tudo com um ar grave, com lentidão e rigor, como quem quer ter a certeza de que não se esquece de nada. Depois ficou calada e limpou discretamente os olhos. Fingi que não reparei nas lágrimas que teimosamente lhe turvaram os olhos enquanto falava. Tudo o que fui capaz de lhe dizer foi que, acontecesse o que acontecesse, podia contar comigo, que ela não era apenas a minha melhor amiga e que seria sempre uma pessoa especial para mim, mesmo que nunca mais nos víssemos, mesmo que a vida não nos voltasse a juntar. Assim que acabei de falar, soou-me a cliché e não disse mais nada. Não lhe disse que costumava sonhar que fazia amor com ela, que acordava encharcado em suor sempre que isso acontecia, que tinha saudades de lhe ver as linhas do corpo e de lhe sorver o cheiro da pele sem ser por cima da roupa, que às vezes me apetecia metê-la num avião e fugir para as Caraíbas durante todo o tempo que me apetecesse, que quantos mais anos passavam, mais achava que era com ela que me devia ter casado, mas que os miúdos, a Sofia, a fábrica e todos os problemas que o meu pai me tinha deixado me consumiam de tal forma que eu sentia que não tinha direito a fazer as minhas próprias escolhas, que estava na terra com uma missão e só iria descansar no dia em que essa missão chegasse ao fim. Não lhe disse isso, nem que às vezes imaginava que um dia íamos ficar mesmo juntos e que ainda podíamos ter um filho. Podia ter-lhe dito tudo isto e muito mais coisas que me inundaram o espírito, mas fiquei calado porque soube que ela estava certa, que aquilo que sonhamos e aquilo que a realidade nos dá não é nem nunca pode ser coincidente, que o amor raramente se sente da mesma maneira e quase nunca ao mesmo tempo. Que eu já tinha perdido a minha oportunidade há muito tempo, quando me casei com a Sofia e não com ela, mas que o tempo não volta atrás e que o passado não se muda, nem o presente, nem sequer o futuro, que é


a vida que manda em nós, mesmo quando vivemos convencidos de que somos nós que mandamos. Quando me deixou outra vez à porta da fábrica, tinha o ar vazio e a voz sem expressão, como se já tivesse partido para sempre. Fez-me uma festa na cara antes de nos despedirmos e pediu-me para não lhe voltar a telefonar. - Se precisar mesmo de alguma coisa muito importante, telefono-te eu. Até lá... é melhor assim. E arrancou devagar, sem olhar para trás. A Vera apaixonada por outro homem. Será que é mesmo verdade? Ou será que é apenas mais um entusiasmo, igual a tantos outros que daqui a dois meses se esfumou e lhe deixou apenas a memória de mais uma aventura? Volto para o gabinete e vou ao cofre buscar as fotografias dela. Uma passagem de ano, com um vestido verde-escuro de veludo que a fazia parecer ainda mais nova. Devia ter 20 anos. Os olhos pintados, a cara redonda que o tempo alterou. Parece-me que foi a primeira vez que fomos para a cama. Levei-a a casa e ficámos até de manhã a dar beijos dentro do carro como dois adolescentes. Outra, tirada no Algarve, no Verão de 92. Neste Verão eu já andava com a Sofia, mas a Vera foi lá passar um fim-desemana comigo. Andámos a fugir de toda a gente e por estranho que pareça, conseguimos. Outra fotografia de 93, quando jantámos juntos pela última vez antes do meu casamento. Lembro-me perfeitamente da conversa que tivemos, dela a dizer-me que a Sofia não se ia adaptar à vida de Lisboa, numa visão pessimista mas infelizmente realista daquilo em que se tornou o meu casamento. Eu estava incógnito, tinha vindo passar meia dúzia de dias a Lisboa a pretexto de tratar de papelada, a Sofia estava em Boston, não queria ser visto com a Vera, por isso ainda reclamei quando um daqueles velhinhos de máquina fotográfica ao ombro, mais ou menos da idade dele, apareceu e apontou a objectiva. Mas ela insistiu e pediu-lhe que enviasse duas cópias para casa dela. Só recebi a fotografia quando a voltei a ver, já depois de o João Maria ter nascido. Enviou-ma pelo correio no dia dos meus anos e atirei-a para o cofre, nem me queria lembrar dessa noite em que fizemos amor pela última vez. Subimos as escadas a correr do apartamento de Santa Catarina, que estava quase vazio, ela mudara-se semanas antes. Era Verão e estava calor. A lua cheia iluminava a sala pequena, Lisboa espalhava-se na imensa janela em telhados pejados de antenas e pontos de luz, numa vista de cortar a respiração. Lembro-me do sofá novo, branco, que tinha chegado nesse mesmo dia.


Quando acabámos, eu disse que bom, que bom e a Vera encostou a boca dela ao meu ouvido e sussurrou: pode ser assim toda a vida, se quiseres... Não quis. E o pior é que agora tenho que imaginar a minha vida sem ela.


X Estou à espera que o Manel chegue do Porto. Na última semana passou por cá um dia a correr e ficou para dormir. Claro que não dormimos nada, passámos outra vez a noite quase em branco a namorar e a conversar, a conversar e a namorar, fundidos um no outro, e eu voltei a sentir aquela sensação de estar tão próxima da perfeição que nada nem ninguém me poderia tirar o que já vivi. De manhã voltámos a dançar os dois descalços, ele de shorts e T-shirt e eu de pijama, enrolados um no outro como bichos de conta, ao som do Aznavour. Enchi a casa de flores, comprei almofadas novas, pendurei os quadros que estavam encostados atrás do sofá há mais de três anos, arrumei os tachos nos armários, as gavetas e o roupeiro. Fiz o melhor que pude para o receber. Que inveja que eu tenho daquela arrumação cartesiana que ele tem lá em casa. Os fatos todos alinhados por tons: os cinzentos e os azuis. As camisas por padrões, obedientes, ordeiras nas gavetas: lisas, às riscas e aos quadradinhos. As meias milimetricamente arrumadas por tons e texturas como se de um ficheiro se tratasse. Os shorts empilhados ao centímetro, num patchwork de cores suaves. Os sapatos em ordem. A casa de banho impecavelmente arrumada, os frascos de champô com a tampa enroscada, a saboneteira sempre limpa e à mesa, nos castiçais de prata, velas sempre novas. A cozinha é outro modelo de primor e ordem. Se se abrissem os armários, estavam prontos para serem fotografados para um artigo de uma revista de decoração do género Como ter uma cozinha impecável. O serviço da Vista Alegre criteriosamente empilhado e arrumado. Os copos de pé alto da Marinha Grande brancos e azuis a dar com o serviço. Os talheres de prata como soldados na forma, alinhados na gaveta. A ordem aparente das mentes turbulentas. Tanta arrumação tem de ter algo de obsessivo, não pode ser Completamente saudável. Mas mesmo assim invejo-lhe a ordem e acho que, com um bocadinho de esforço e espírito de disciplina, lhe posso seguir o exemplo e aproximar-me do padrão. Como ele costuma dizer com aquela voz pausada, o que é preciso é ter calma. Ou, no meu caso, mais calma. Foi o que tentei fazer, depois de mais horas de uma paixão alucinada que já não me preocupo sequer em disfarçar. O Manel sentiu-se bem cá em casa e isso deu-me alguma segurança. Quando voltou para o Porto tive que fazer mais uma vez um esforço sobre


humano para descer outra vez à terra, concentrar-me no trabalho e no facto evidente e inegável de que vivemos em cidades diferentes, temos vidas separadas e de o futuro ser neste momento completamente incerto e totalmente imprevisível. O resto da semana arrastou-se entre o trabalho e as encomendas do Jardim sem Regador e por várias vezes fui assaltada por uma vontade incontrolável de ir ter com ele ao Porto, mas dobrei a língua cada vez que vinha a propósito enunciar a ideia no meio dos telefonemas diários, à espera que ele me convidasse. Não convidou. Fiz-me de parva e ignorei o assunto. Por fim lá se justificou, com o argumento de que já tinha coisas combinadas com amigos e que não faltariam oportunidades de estarmos juntos. Conformei-me sem me conformar, tentando convencer-me de que antes de o conhecer já tinha sobrevivido 35 anos com alguma alegria e que por isso não precisava dele para continuar a ser feliz. O Afonso ligou-me na sexta-feira à tarde e combinámos ir jantar nessa mesma noite. Fiquei contente, porque apesar de ver o Afonso só meia dúzia de vezes por ano, queria contar-lhe o que se passava na minha vida e partilhar com ele o prazer desta paixão, que também é para isso que servem os amigos. Eram nove e meia quando me veio buscar, visivelmente excitado com a recente aquisição de um Audi TT cinzento metalizado que comprou em segunda mão com poucos quilómetros e umas boas centenas de contos abaixo do preço de stand. - Agora só te falta pôr umas miúdas a render e abrir uma conta nas Ilhas Cayman - comentei com algum desagrado ao ver a viatura que ele exibia com um orgulho infantil e até ridículo. Não gosto de carros a armar, prefiro-os o mais escuros e discretos possível, de preferência neutros e robustos e sem associações a estereótipos mais ou menos determinísticos. Torceu o nariz e encolheu os ombros, depois lá acabou por admitir que para chulo não tinha feitio, mas que por acaso o esquema do off -shore já estava a funcionar. Sou amiga do Afonso há tantos anos que às vezes tenho a sensação de que já perdi há muito tempo capacidade para o avaliar objectivamente. Sempre o achei convencido, mas talvez por ser um tipo extraordinariamente inteligente e com um sentido de humor imbatível me tenha deixado levar por uma imagem que não sei até que ponto corresponde à realidade. Fomos colegas de curso no primeiro ano, até ele decidir mudar para Direito.


Apesar de só termos andado um ano juntos na faculdade, nunca mais deixámos de nos ver. Foi amizade à primeira vista, daquelas raras entre um homem e uma mulher que se alimentam exclusivamente de entendimento mental sem necessidade da quase inevitável troca de corpos. É raro, mas às vezes acontece. E o mérito nem sequer foi meu, mas do Afonso que sempre me achou um pau de virar tripas sem o menor sex appeal. Adorava dar-me postais com frases do género Small breasted Women have big hearts e outras brincadeiras de gosto duvidoso que me irritavam, mas às quais não podia deixar de achar uma certa piada. - És gira, mas não me dás tesão - disse-me com a maior descontracção, algum tempo depois de nos conhecermos. Fiquei um bocado chateada, devíamos ter 18 ou 19 anos, ainda estava na idade da afirmação sexual. Bem, se pensar melhor, há muitas pessoas que nunca passam dessa idade e o Afonso é um caso típico. Aquilo irritou-me. Sempre me habituei a investidas sedutoras mais ou menos óbvias dos homens que se aproximavam de mim. É uma espécie de regra tácita do comportamento masculino, se não mundial pelo menos latino, este reflexo condicionado de tentar alguma coisa. Mas depois, à medida que os anos foram passando, fui dando mais valor a esta relação de amizade pura e dura, desprovida de qualquer encanto ou manobras de sedução. - Acho-te uma mulher fantástica, mas para mim és um homem. Ouvi coisas destas da boca do Afonso durante tantos anos que agora, quando ele me faz um elogio, sinto-me a mulher mais sortuda do mundo. Claro que sempre lhe respondi que ele para mim também era um homem, o que obviamente o fazia rir, porque às vezes sinto imensa atracção por ele e nesses momentos só me apetece atirar-lhe coisas à cara, bater-lhe, dar-lhe estalos, e expandir-me noutros comportamentos infantilóides que vou controlando com algum esforço. É que o Afonso é uma brasa. A Maria chamava-lhe o Monumento. Mas sempre falhou ali qualquer coisa, nunca soube explicar o quê. Não é, nem inteligência, nem charme, nem corpo, nem espírito, nem presença. Acho que é coração. Poucas vezes vi o Afonso ao natural, isto é, desprovido de todo o cinismo e espírito sarcástico que tão bem o caracterizam. Está sempre pronto a soltar a piada mordaz no momento certo, a deixar cair o comentário mais duro no momento exacto, e o pior é que é de uma precisão cirúrgica nas suas análises, o que lhe dá uma margem de erro mínima. Tem em dom de observação e capacidade de análise o que lhe falta em espontaneidade e generosidade de afectos. Sim, talvez seja isso que me desencanta nele, o facto de ser tão forreta de sentimentos. Nunca vi o Afonso apaixonado por uma mulher. Está sempre interessado, ou então acha-lhes uma certa graça. Quando se


entusiasma, acha-lhes muita graça. É até onde ele vai. E depois, as pessoas vistas à lupa de uma maneira fria e estritamente racional acabam sempre por ter defeitos insuportáveis, sobretudo quando não se gosta delas. E o Afonso nunca gostou a sério de uma mulher. Talvez da Maria, mas não ficou com ela, e não foi porque ela não quisesse, mas porque ele não soube ou não quis. Nessa noite fomos jantar à Bica do Sapato que tinha acabado de abrir e para se conseguir arranjar mesa deve ter-se operado uma espécie de milagre, porque quando chegámos havia pelo menos dez pessoas à nossa frente. O Afonso piscou o olho a um empregado qualquer que disse que conhecia, e em menos de cinco minutos estávamos sentados ao fundo da sala, onde ficam as mesas mais sossegadas. O Afonso contou as suas últimas aventuras com ar de quem desdenha quer comprar, mas a conversa mudou imediatamente de tom quando lhe disse que tinha estado com a Maria. De repente, ao ouvir falar dela e das miúdas, adoçou, ficou nostálgico e sonhador. - Era a única mulher com quem me podia ter casado – comenta entre duas garfadas de soufflé de marisco. - Só não te casaste porque não quiseste - cortei. - Lá estás tu com a mania de reduzir tudo a frases feitas. Não foi assim. - Mas afinal o que é que aconteceu? - Ela afastou-se. - Isso sei eu, mas porquê? O Afonso ficou calado, como se não tivesse ouvido a pergunta. Esticou o pescoço, olhou para a porta e disse: - Está ali a tua amiga Patrícia com um caramelo qualquer. Virei instintivamente a cabeça. Lá estava a Patrícia, espampanante como sempre, com o Alberto. Tive a impressão que estava a fingir que não nos tinha visto. Olhei-a fixamente durante alguns segundos e nada. - Achas que ela não nos viu, ou está a fingir que não viu? - Pode estar a fingir - responde o Afonso com um ar malicioso -, mas também vou fingir que não a vi. E esboçou o sorriso inconfundível do cabrão de barriga cheia. - Não me digas que tu andas outra vez... - Pois. Pois. Pois claro. O Afonso há mais de dez anos que dá trancadas com a Patrícia. Conheceram-se através de mim e mantiveram o caso durante anos. O Afonso foi um dos primeiros alvos da Patrícia. Como percebeu que nunca seria


namorada dele, deve ter achado que terem um caso sempre era melhor que nada. - Pensei que isso já tinha acabado. - Eu também, mas ela diz que este Alberto não vale nada... Ela gosta de vir ao castigo. Vir ao castigo. As merdas que uma mulher tem que ouvir. - Bem, pelo menos um Mercedes Classe A já lhe valeu - respondo com alguma indignação. Bolas, não tenho nada contra a Patrícia, mas andar a encornar o namorado e a sacar-lhe carros ao mesmo tempo não me parece o comportamento mais ético do mundo. - Não tens vergonha de andar enrolado com essa maluca? - Ó Vera, mas tu não percebes que eu ando enrolado com ela ao fim destes anos todos exactamente porque ela é completamente maluca? Olha, pelo menos não é complicada como a maior parte das mulheres, que ficam inibidas por ir para a cama com um gajo só porque não foram à depilação. Ao menos a Patrícia é descontraída, para ela está sempre tudo bem. Além disso não tem importância nenhuma. É uma queca esporádica. Sabes que o sexo é uma coisa que me faz falta. Foi aí que me enchi de coragem, perdi momentaneamente o decoro a que obriga uma amizade que se preze e fui directa ao assunto da forma mais simples que achei que era a melhor. - Ouve lá... não te chateies comigo, mas há mais de meia dúzia de anos que ando para te fazer esta pergunta... tu és paneleiro? O Afonso ficou com o garfo espetado no ar e a boca aberta, paralisado com a minha pergunta. - Mas tu estás doida ou quê? Eu adoro mulheres! - Eu sei que adoras mulheres, mas uma coisa não invalida a outra. Desculpa ser tão directa, mas não me respondeste: és paneleiro? - Ó Vera, francamente... eu... eu nem percebo que pergunta é essa... como é que tu podes pensar que... enfim... Porque é que me perguntas isso? - Porque sei que a Maria acabou tudo contigo quando teve suspeitas de que podias dar para os dois lados. Foi uma situação horrível e até um bocado assustadora. Na altura ela desabafou comigo, e depois nunca mais tocou no assunto e eu também não voltei a falar nisso, como é óbvio. - E o que é que lhe disseste? - Disse-lhe que achava isso um disparate, que nunca tinha detectado em ti qualquer indício que me levasse a pôr tal hipótese. - E ela?


- Ela respondeu que isso nunca lhe tinha passado pela cabeça, mas que lhe tinham dito que tu eras paneleiro, que a informação vinha de uma fonte segura e... - E quem era essa fonte segura? - o Afonso arrumou os talheres e ficou da cor da toalha, que é branca. Apeteceu-me carregar no rewind e rebobinar a existência antes de ter feito a pergunta fatal, mas já era tarde, a bola de neve iniciara a descida. Respirei fundo para poder continuar. - Era outro paneleiro. - Outro??? - o Afonso está-se a irritar. Daqui a nada levanta-se e dá-me um estalo. - Desculpa, não é isso que quis dizer. O que quis dizer é que a informação lhe chegou aos ouvidos por um tipo que era gay, e nem sequer foi directamente, foi alguém que disse à Mónica, irmã dela. O Afonso fixa-me de forma neutra e devastadora, como se me visse à transparência. Deve estar à espera que me cale, por isso continuo a comer o bife do lombo com toda a placidez que consigo encenar. O coração disparou as pulsações para pelo menos umas 600 por minuto, mas controlo-me e fico à espera de que ele fale. - Não sou paneleiro. Mas se fosse, tens alguma coisa contra os gays? - Depende. Se gostarem só de homens, não. Mas se forem bissexuais, isso incomoda-me. - Porquê? - Porquê??? Tu ainda me perguntas porquê? Então como é que tu achas que se sente uma mulher, se descobre que o homem com quem ela dorme gosta de homens? Não percebes que isso é horrível para uma mulher? Não percebes que numa relação homossexual passam-se coisas anatomicamente impossíveis entre um homem e uma mulher? Nós não temos pila, porra! - Schiu! Fala mais baixo. - Desculpa - volto a respirar fundo, mas agora é para tomar balanço e ir até ao fim -, não percebes que é assustador e até inimaginável para nós mulheres, que o homem de quem gostamos goste de outros homens? Que nos mete nojo, medo, nem sequer é medo, mas um pavor horrível de não estarmos nunca à altura de ganharmos essa corrida? - Até parece que já passaste por isso - comenta com algum azedume. - Nunca passei, mas lembro-me do que a Maria me disse quando vocês acabaram, e sabes que hoje em dia há imensos bissexuais, tenho ouvido demasiadas histórias para não me preocupar com o assunto. O Afonso continua a fixar-me à transparência, à espera que eu remate a conversa. Não aguento mais, vou-me render.


- Desculpa esta estupidez toda. Nunca devia ter puxado o assunto. Afinal tu podes ser o que quiseres e como tua amiga há tantos anos tenho o dever de te respeitar e tu tens o direito de me contar ou não o que se passa na tua vida. - Também acho. Pede a conta e paga em silêncio. Para desanuviar sugiro irmos ao Lux beber um copo. Caminhamos em silêncio pela beira do rio, mas antes de entrarmos no Lux dou-lhe o braço de forma carinhosa e desafio-o para um passeio a pé. - Desde quando é que gostas de andar a pé? - Desde que arranjei um namorado novo, mas depois conto-te. Começamos a andar com o passo acertado e de repente apetece-me que o Manel esteja aqui a passear comigo e a olhar para o rio que parece um espelho preto e luzidio. O Afonso aperta o meu braço contra o dele e caminha alguns minutos em silêncio, enquanto prepara aquilo que posso chamar a maior confissão que já ouvi em toda a minha vida. Devagar, muito devagar, o Afonso começa a falar da sua vida desde miúdo, da separação dos pais, dos anos passados num internato no Norte, no isolamento e no medo dos primeiros meses, na cumplicidade e proximidade que desenvolveu com os outros miúdos, tal como ele amedrontados e tal como ele acabados de sair debaixo das saias da mãe, atirados para uma vida para cuja dureza e aridez não estavam preparados. E foi assim que me contou a sua primeira experiência sexual com um colega dois anos mais velho que sempre o protegeu no colégio e que é ainda hoje um dos seus melhores amigos. - As mulheres vieram mais tarde, durante anos só as víamos em revistas pornográficas que conseguíamos arranjar à socapa e que estavam escondidas em fundos falsos das malas de viagem. Masturbávamo-nos todos em conjunto e imaginávamo-nos com elas, acariciávamo-nos uns aos outros, descobríamos o prazer de uma forma desajeitada e infantil. Quarenta miúdos de 14 anos com as hormonas aos saltos fechados durante três meses não podia dar noutra coisa. A primeira vez que experimentei uma mulher era uma miúda da aldeia mais próxima que se punha do lado de fora do muro às quintas-feiras à noite, a quem pagávamos quinhentos escudos para nos pormos em cima dela. Foi comida pelo colégio inteiro e eu também lá fui duas vezes. A primeira correu mal e a segunda ainda pior. Chamava-se Leopoldina, era feia como os trovões, tinha os dentes para fora, cara de coelho e fazia aquilo sabe-se lá porquê. Fiquei a achar que as mulheres eram uma merda que não interessava a ninguém. Só quando saí aos 17 anos e voltei para Lisboa é que comecei a ver miúdas giras e a perceber o que é uma mulher. E depois, nunca mais parei. Lembras-te da quantidade de miúdas que comi na faculdade? Era um acto compulsivo, um


prazer indefinido e para mim o menos importante. O que eu sempre gostei foi do jogo, da sedução, de as conquistar, de as ver aos poucos e poucos a deixarem-se ir... como quando vais à caça e o melhor momento não é quando disparas, é quando vês a presa e não tens a certeza se a vais conseguir apanhar, se de um momento para o outro ela pode escapar e nunca mais a vês, percebes o que quero dizer? Continuamos a andar, a lua subiu ligeiramente e desenha um quarto minguante que parece uma goma de lima iluminada a néon. Oiço e tento perceber. Tento imaginar o Afonso com 14 anos sozinho no colégio, vejo-o a trepar o muro e cair desajeitado do lado de fora onde a Leopoldina o espera como quem está à espera do autocarro. Mas não consigo imaginá-lo a tocar outros rapazes, a imagem repugna-me de tal forma que faço um esgar. - Não percebo porque é que nunca me contaste. Somos amigos há tantos anos, sempre te contei o que se passava na minha vida... - Porque isso faz parte do meu passado, hoje praticamente não tenho aventuras homossexuais. - O que é que queres dizer com praticamente? - Deixa lá, também agora não vale a pena falar nisso. - Ah isso é que vale! O Afonso pára, fica a olhar para a água, à procura de uma resposta. - Se te soubesse responder... mas não sei, Vera. A sério que não sei. Há muito tempo que eu mesmo procuro uma resposta para isso. Não me sinto um homossexual. Tenho cada vez mais desejo por mulheres. Às vezes sinto que devia casar e ter filhos, perpetuar a existência, como qualquer ser humano. Deve ser uma necessidade biológica, mas de vez em quando apetece-me dormir com um homem. São sempre relações fugazes, puramente carnais, sem continuidade. Uma noite e já está. Gosto do corpo de um homem em cima de mim, gosto da luta física, é uma relação mais animal, medem-se forças, percebes? É uma coisa de igual para igual. Não, não percebo, mas não lhe posso dizer que não percebo porque sou mulher, ele não entenderia o argumento porque é homem e por mais que o mundo queira homens e mulheres são feitos de massas diferentes. - E o teu amigo? - Qual? - O do colégio, aquele que te protegia... fez o mesmo percurso que tu ou... - Estás-me a perguntar se é gay? - responde com ar de gozo. Depois cala-se e fica a olhar para o rio.


- Vocês, mulheres são o bicho mais curioso do mundo. Mas vou satisfazer a tua curiosidade. Sim, é gay, embora de vez em quando durma com mulheres que usa como puro objecto sexual. - Isso quer dizer que se envolve emocionalmente com homens mais do que com mulheres e que tu evoluíste ao contrário? - Sim, acho que isso é uma boa definição. - E vocês nunca mais tiveram nada um com o outro? - Claro que não. Somos os melhores amigos, contamos um com o outro para tudo, temos uma relação familiar, como irmãos. Já estamos à porta do Lux e subimos ao primeiro andar. Pedimos um vodka-limão que bebo quase de um gole, tenho a garganta seca e um mal-estar espalhado pela alma que o álcool anestesia com alguma rapidez. O Afonso continua calado, com o olhar cansado, aquele cansaço de quem esvaziou a alma e ficou sem nada para dizer. Finalmente pergunta-me pelo namorado novo. Conto-lhe que é do Porto, que vive num apartamento delicioso na Foz e que trabalha no Private Banking do BIP. - Como é que se chama? - Manel Menezes. O Afonso acaba de esvaziar o copo e pede à menina de olhos pintados e cabelo comprido que anda por ali mais um vodka tónico. - Também queres mais um? Abano a cabeça. Com a angústia que tenho no peito depois de tantas revelações, se bebo mais um copo fico grossa de todo. A menina afasta-se com aquele andar escorregadio e neutro das raparigas que trabalham na noite. - Manel Menezes... conheci um Manel Menezes. Como é que ele é? - É um tipo de estatura média e cabelo ligeiramente encaracolado, com uns olhos azuis, ar sossegado... - Já sei quem é - e remata, como se o que fosse dizer não tivesse a menor importância -, também andou lá no colégio. Sinto o sangue a fugir-me da cara à velocidade da luz. - Não me estás a querer dizer que... - Não estou a querer dizer nada, Vera. Não seja paranóica! - Então, mas se ele andou no mesmo colégio, depois de que me contaste... - Nada disso! Não me lembro muito bem dele, era um tipo muito calmo, sossegado, não tinha nada a ver com os nossos disparates. Espera... ele tinha uma história qualquer complicada... Era filho ilegítimo ou uma coisa assim. Acho que não o iam buscar aos fins-de-semana... sim, lembro-me desse pormenor, tinha a mãe a viver em Lisboa e ficava muitas vezes sozinho. Houve uma vez em que ele fazia anos e


perguntei à minha mãe se o podia levar comigo para casa e ele veio passar esse fim-de-semana connosco. Ele ainda se deve lembrar disso. - Que idade tinham? - P'raí uns 14 ou 15... talvez 16... Com que então vive no Porto e é director de um private? Sim senhor, não se safou mal. Ainda bem, era um gajo porreiríssimo. Gostava imenso de o ver outra vez. - Também eu - respondo com um suspiro. - Porquê? Não andas com ele? - Eu ando, mas ainda não percebi se ele anda comigo, estás a ver a diferença, não estás? Há mais de uma semana que não o vejo e não percebo quando é que o vou ver outra vez, se é ele que cá vem ou se sou eu que vou ao Porto, olha, é uma merda! O Afonso põe o braço à volta dos meus ombros e olha-me num misto de carinho e compaixão. - Apaixonaste-te outra vez, não foi? Aceno a cabeça com ar de cão sem dono. - E já estás insegura, não é? Entusiasmaste-te e agora não sabes como hásde gerir a coisa... É por estas e por outras que é bom ter amigos de infância. Percebem sempre tudo sem nunca termos que lhes explicar nada.


XI Desligo o telefone depois de mais de uma hora a falar com a Vera. Ligoume às onze da noite, em pânico, completamente alterada, a contar o jantar que teve ontem com o Afonso. Ainda a desafiei para vir cá passar o fim-de-semana, mas disse-me que se sentia tão cansada que nem pensar em enfrentar a autoestrada. O António teve que ir a Badajoz e estou entregue a mim própria. Fiquei contente quando ouvi a voz dela, acabo sempre por estar um bocado isolada aqui na quinta e às vezes sinto que esta solidão me mata, mas fui eu que escolhi passar o resto da minha vida ao lado de um agricultor e as escolhas são para se respeitar. Não me queixo de nada, tenho uma casa óptima e uma qualidade de vida que nunca poderia ter em Lisboa, o meu casamento é sólido, somos unidos e a nossa vida corre sem percalços nem desentendimentos. Cada dia que passa olho para o António e dou graças a Deus pela sorte que tive em o ter encontrado. Como dizia a minha sogra, há três regras de ouro para que uma relação entre um homem e uma mulher resulte: a primeira é gostarem mesmo um do outro. Mesmo. Para o bem e para o mal, nos melhores e nos piores momentos. Não é só gostar de estar com ou por causa disto ou daquilo. É gostar, ponto final. Depois, é preciso que se entendam. Que quando um fala, o outro perceba o que disse, o que não quis dizer e o que quis que se lesse nas entrelinhas. Que se entendam no sentido de se darem bem, de trazerem paz e harmonia um ao outro. Um casamento pode sobreviver à morte de uma paixão, mas sobrevive mal ao desentendimento e ao conflito. Finalmente, que sejam do mesmo género. Mais em valores do que em gostos, mais em princípios do que em interesses. Se houver interesses semelhantes, então melhor. Mas a base de formação deve ser parecida, para que o entendimento naquelas pequenas coisas às quais achamos que não ligamos nenhuma seja tão natural que nem se dê por ele. Como arrumar os talheres quando se acaba de comer. Pequenos pormenores com a máxima importância. Às vezes dá-me a nostalgia da vida de solteira. De me meter num avião e ir uma semana para Londres com a Vera. Ou de passar um dia inteiro na praia a torrar ao sol, sem o radar permanentemente ligado, sempre a ver onde é que estão as miúdas e a pôr-lhes protector solar factor 50, a pedir-lhes que não tirem o chapéu e não corram entre as toalhas. Ser mãe é um full-time job sem remuneração até ao fim da vida. E qualquer dia crescem, empinam o nariz,


entram na adolescência e começam a querer ser independentes e a ter a vida delas. Quando isso acontecer é que me vou sentir velha. O António ri-se dos meus medos. Acha que sou especialista em antecipar problemas. Que nasci com um dispositivo incorporado no cérebro a que chama, com imensa graça um complicómetro, que, segundo ele, liga e desliga automaticamente uma vez por semana de forma imprevisível e arbitrária. Invejo a serenidade com que encara a vida e a calma com que resolve os problemas, quando diz que só nos devemos chatear com aquilo que podemos resolver. Que só se chateia com quem quer. Que tudo tem uma solução, a não ser a morte. Tem o feitio igual ao da mãe. Era uma mulher fabulosa. Morreu em 24 horas, com um aneurisma, o ano passado. Deus só chama aqueles que ama. Até nisso o António reagiu bem; sofreu como um louco mas recuperou com alguma rapidez. Agora diz que a Maria pequenina é igual à mãe dele e, por coincidência ou não, a miúda está cada vez mais parecida com a avó. Nada na vida acontece por acaso. E é verdade. Esta história de o Afonso ter andado com o tal Manel no colégio é daquelas coincidências que dão que pensar. O Afonso. A Vera diz que continua uma brasa. Insuportável, convencido, blasé e cínico como só ele, mas mais sedutor que nunca. Gostava de o voltar a ver um dia destes e lhe mostrar as minhas filhas. Parece que ficou emocionado quando a Vera lhe falou delas. Aquele homem nasceu com o sexo errado. Tudo nele são indícios de um espírito feminino, apesar da sua virilidade e da masculinidade que faz tanta gala em demonstrar. Se calhar foi por isso que me envolvi tanto com ele. Para fora era o Afonso frio e calculista, distante e arrogante. Por dentro, quando se dava só a mim, era o homem mais doce do mundo. Ainda mais doce que o António. Aqueço a água para uma botija e sento-me à mesa da cozinha a fumar mais um cigarro. Maldito vício. Está-me a dar cabo dos dentes e da pele. Mas não consigo deixar de fumar, é mais forte do que eu. Afinal sempre era verdade. O Afonso é bissexual. A sua primeira experiência foi com homens e isso marcou-o para sempre. Devia sentir-me aliviada por ter finalmente conseguido desvendar um mistério que durante tantos anos ensombrou a minha vida. Que carreguei silenciosamente como uma cruz invisível, sem o partilhar com ninguém, a não ser com a Vera. Mas não. Em vez disso sinto-me profundamente triste. Destruída. Derrotada. Enganada. Defraudada. Cabrão. Não lhe perdoo a falta de tomates. E a falta de confiança para me contar o seu passado. Talvez o tivéssemos enterrado juntos. Foi a dúvida permanente e implacável que me afastou dele para sempre. Se me tivesse contado a verdade,


talvez naquela altura fosse capaz de perdoar e esquecer. Quando se ama, perdoa-se tudo. Não se esquece nada, mas perdoa-se tudo. Ele não me podia ter mentido, não me podia ter negado quando o confrontei com as minhas suspeitas. Se gostasse mesmo de mim, tinha-me contado. E falava ele de confiança como regra básica numa relação. Um homem que me escondeu o seu passado, a sua adolescência problemática, que me chamou louca e desequilibrada, que me acusava de ser insegura e de usar a minha insegurança como arma contra ele. Inseguro era ele. Inseguro e estúpido. Mais dia menos dia a verdade viria ao de cima, pela boca dele ou de outra pessoa. Vem sempre, sempre. Nada nem ninguém lhe escapa. Mas não. Achou que podia passar incólume. Que com o tempo eu me iria esquecer e a dúvida se iria desvanecer na minha cabeça. Nada mais errado. Passei quase dez anos a pensar nisto, recorrentemente, dia após dia, com a dúvida a envenenar-me a existência. Deixei de ter confiança nas pessoas, passei a ver em cada homem um perigo iminente. Por causa dele mergulhei num deserto emocional profundo e teria ficado lá para sempre se o António com toda a sua doçura e paciência, com aquele charme tímido dos homens que pensam que não têm charme nenhum, não tivesse conseguido chegar ao meu coração enregelado e encolhido com tanta dúvida e tristeza. O Afonso fez-me muito mal. Tanto mal que às vezes ainda me dói o peito quando me lembro dele. Por momentos apeteceu-me estar no lugar da Vera, trocar tudo o que tenho e aquilo que a ela tanta falta lhe faz, um marido extraordinário e uma família fabulosa, só para estar sentada à frente dele por um par de horas, para passearmos de mão dada à beira do rio... Devo estar completamente louca, como é que posso pensar uma coisa destas? Esborracho com violência a beata no cinzeiro e encho a botija com a água que já estava a desaparecer com tanta fervura. Devia tomar uma pastilha para dormir e tentar encerrar esta história duma vez por todas, esquecer o Afonso, pensar que apesar de tudo tive muita sorte, que a minha vida é exactamente aquilo que sempre quis, embora quando a imaginasse não era assim que a via. Quem me dera ter conhecido o António mais cedo, quem me dera nunca ter tido que passar por isto com o Afonso. Perdi a inocência perante a vida, perante os outros, deixei de acreditar. Ainda hoje não consigo olhar para um homem sem imaginar se tem histórias paralelas, com outros homens ou mulheres, tanto faz. Daqui a uns anos as miúdas entram-me em casa com os namorados e vou achar que têm todos ar de maricas. Que merda! Porque é que a memória não é igual à de um computador onde se manda para o lixo aquilo


que queremos apagar? O pior é que é mesmo como o computador. Vai para o lixo, mas fica lá tudo na mesma. Está é arrumado noutro sítio. Estou preocupada com a Vera. Vejo-a muito envolvida e tenho a sensação de que este Manel não anda à procura de uma namorada. Que se meteu com ela por graça e nunca pensou que ela caísse. Que depois da fase inicial, ficou sem saber o que fazer. Como dizia o Picasso, bom mesmo é o princípio, porque logo a seguir começa o fim. Não queria ver a Vera mais uma vez a sofrer por causa daquela forma inconsciente e adolescente como se atira de cabeça para as relações. Mas ela é mesmo assim. Adora missões impossíveis, está convencida que é a super-mulher. Por causa disso é que aguentou o João durante anos a fio a tratá-la abaixo de cão e depois a usá-la como amiga, por isso é que deu corda àquele palerma do Tiago que tinha a inteligência de um salmonete e o charme de uma folha de alface. Mas o Tiago foi um paliativo, uma bengala para tentar esquecer o João. Coitada da Vera. Ao fim de todos estes anos ainda não percebeu que não se esquece uma pessoa como a que aparece a seguir, que é a terceira que faz esquecer a primeira e depois é preciso aparecer uma quarta para esquecer a segunda e quando se dá por isso já se tem um património ingerível de amores fracassados que pesam muito mais do que uma solidão escolhida, estóica mas sossegada, como a que tive enquanto afastei o Afonso e deixei que o António se aproximasse. Dois anos de luto, de auto-exílio amoroso, a acordar de manhã e a pensar ainda não é hoje que posso voltar a ouvir o meu coração. Ainda não, ainda não... A Vera usou o Tiago para esquecer o João e esqueceu automaticamente o Tiago quando o Manel apareceu, mas não esqueceu o João e se nem tudo correr como ela gostava, e o mais natural é que não corra, quem é que ela vai arranjar para esquecer o Manel? Quando é que ela pára para pensar? E quando parar, será que ainda vai a tempo? Será que não está já viciada nesta sucessão imparável de tapa-buracos gratuita e desgastante que só a vai cansar e desencantar? Será que ela não percebe que é preciso deitar tudo por terra, não deixar pedra sobre pedra, fazer o luto e enterrar a dor para começar outra vez do zero? Devia-lhe ter dito isto tudo ao telefone, quando me ligou, histérica com a coincidência entre o Manel e o Afonso, mas não fui capaz. Já estou cansada de lhe dizer as mesmas coisas há anos sem fim e de perceber que ela não me ouve, nunca me ouviu, nunca conseguiu aprender nada e continua sem se saber proteger dos disparates em que se mete. Não deixo de ser amiga dela por causa disso, mas já desisti de a ajudar. Não. Pensando melhor, ainda bem que não conheci o António antes de me ter envolvido com o Afonso. O que sofri ensinou-me a dar valor a coisas fundamentais na vida. Se não tivesse sentido falta de firmeza no Afonso, nunca teria dado valor à solidez do António. Se


nunca tivesse desconfiado do Afonso e sentido na pele o medo de o perder por outro homem, nunca me teria apercebido de que a limpidez e a segurança com que o António encara o amor e a vida são o seu maior encanto e o meu maior tesouro. Sim, tenho sorte, mas a sorte não se tem, constrói-se, escolhe-se e cultiva-se, não se inventa, a não ser nos bilhetes da lotaria. A paz que hoje tenho foi conquistada a pulso e fruto de alguma luta interior na qual aprendi a dominar os meus fantasmas. E continuo a lutar, dia a dia, como estou agora a fazer, para conseguir distinguir entre o que é mesmo importante e o que é apenas circunstancial e efémero, entre aquilo que quero e que me apetece, entre a aparência e a essência das coisas. Aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes, costumava dizer a minha sogra. Ficou viúva a seguir ao 25 de Abril, quando o marido se suicidou com a falência da empresa e o medo das perseguições comunistas. Arregaçou os braços e começou a ganhar a vida para alimentar o António e as três irmãs, a fazer comida para fora. Era uma senhora à antiga, de boas famílias, que não tinha tirado nenhum curso a não ser o de piano. Nunca tinha trabalhado na vida, nem tal lhe tinha alguma vez passado pela cabeça. Mas era uma cozinheira extraordinária e uma doceira sobredotada. O António e as irmãs trabalhavam com ela, apoiavam-na em tudo. Acompanhavam-na às festas e jantares, ajudavam-na a levar as travessas e os arranjos de mesa que ela fazia com muito gosto e tantas vezes já sem inspiração, estoirada de cozinhar sozinha para dezenas de pessoas para ter dinheiro para não ter de vender a casa de Lisboa e a quinta, a casa onde agora vivo. Cinco anos depois, arranjou uma sócia e criou a mais prestigiada empresa de catering de Lisboa. Quando morreu, a Basílica da Estrela encheu até muito depois da porta e o cemitério dos Prazeres ficou atulhado de pessoas. Um mar de gente a chorar a morte de uma das mulheres mais extraordinárias que conheci. Uma semana antes de morrer, tinha a Maria acabado de nascer, passou cá o fim-de-semana. Olhou para a miúda no berço e disse: só há uma coisa tão boa como ser mãe, é ser avó. Vais aprender a viver com o coração fora do peito, mas também vais perceber que os filhos nunca são aquilo que nós esperamos, são sempre melhores. E, se Deus quiser, ainda vou viver muitos anos para ver as minhas netas tornarem-se mulheres como tu e como eu. Deus não quis. Aquilo que não nos mata, ,torna-nos mais fortes, repito em surdina deitada na cama, cheia de frio, com saudades do António, do corpo do António, das mãos do António, da pele do António, do seu olhar míope de menino pequenino quando se deita na cama e diz que não me vê com nitidez, só uma escultura de Rodin. Amo o meu marido para lá e acima de tudo.


Amo a minha vida e as minhas filhas. Amo esta casa e esta vida. Amo a Vera e sofro por ela. Amo a minha sogra que me adoptou como filha e foi durante alguns anos a mãe que nunca tive. Aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes. Tenho que ir visitar a minha sogra ao cemitério da próxima vez que for a Lisboa. Tenho saudades de conversar com ela. Aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes. Mas só aquilo que não nos mata...


XII Levantar-me às seis e vinte. Desligar o despertador para não acordar a Sofia. Tomar duche, fazer a barba, escolher um fato, uma camisa, a gravata adequada, tudo isto sem sentir que estou a perder tempo. Procurar um par de meias, apertar o cinto, dar o nó da gravata e escolher os sapatos. Vou à cozinha e em dois minutos faço um café com leite fumegante. Corto duas fatias de pão e faço torradas. Olho as alfazemas pela janela da cozinha enquanto como em silêncio. Cresceram muito este Verão. Já amanhece mais tarde, os dias começaram a encurtar. Daqui a pouco tempo chega o Natal e depois mais um ano. E eu sempre na mesma. Com chatices na fábrica e problemas em casa. A Sofia e eu quase não falamos um com o outro. Se não fossem os miúdos... mas os miúdos são tudo e ainda bem. Ontem telefonei ao tal Adérito Gomes a quem o meu pai vendeu a herdade em 1988. Disse-lhe que ia ao Porto em trabalho e gostava de me encontrar com ele. O tipo tratou-me com deferência, chamou-me doutor à esquerda e à direita e quando desliguei mandou saudades à esposa do doutor. Palavroso, com aquela conversa do construtor civil oportunista e habituado a triunfar perante as fraquezas alheias. Já os conheço. O meu pai sempre teve o dedo podre para escolher as pessoas com quem fazia negócios. De onde é que virá este Adérito Gomes que fez logo publicidade à sociedade de construção que tem com um sobrinho que também é doutor? Quero lá saber dos sobrinhos, doutores ou não. Estes tipos adoram arrotar postas de pescada. Mas eu passo-o à capa. Tenho que perceber o que é que se passou ali. Por que raio é que o meu pai vendeu em 1988 a herdade por um preço muito abaixo do valor de mercado? Teria dívidas para com este tipo? Não percebo. Já se tinham resolvido todos os problemas das ocupações, tanto no Alentejo, como na fábrica. Estaria o meu pai a precisar assim tanto de dinheiro? Hoje em dia já nada me espanta. O meu pai era capaz de tudo e foi capaz de tudo. Até de pôr a minha mãe fora de casa quando éramos miúdos e de não a deixar ver os filhos durante quase dez anos. De levar lá para casa as amantes, quando a minha mãe ainda lá vivia. Um dia destes sento-me com a Isabel e peço-lhe que me conte umas coisas. Ela foi secretária dele durante vinte anos, o que ela não souber, ninguém saberá. As secretárias sabem sempre mais do que aquilo que aparentam. Quando não sabem mais, é porque sabem muito mais.


Adérito Gomes. Quem será este cabrão? Um pato-bravo de Mercedes branco e fatos cor de mel, está-se mesmo a ver. Saio de casa ainda é noite cerrada. O portão abre-se silenciosamente, cúmplice nas minhas saídas madrugadoras e regressos tardios. São sete e um quarto. Com sorte, chego à fábrica antes das oito. Assino os cheques dos ordenados e despacho o que for preciso com a Isabel. Vou convidá-la para tomar o pequeno-almoço comigo. Talvez ela se lembre da história da venda da herdade. Talvez ela saiba quem é o tal Adérito Gomes. Espera aí. A Isabel se calhar é do Porto. Deve ser. O filho mora lá, porque é que o filho mora lá, se não tem lá família? Só se foi lá colocado em serviço, mas o mais certo é ser de lá e ela também. Mais uma razão para falar com ela. Foi lá passar o fim-de-semana há menos de um mês, começo a conversa por aí. Não sei porquê, mas acho que a Isabel se vai abrir comigo. A auto-estrada está com pouco movimento, num instante estou na fábrica. Apanho o desvio e entro pelo portão velho e ferrugento. O carro da Isabel ainda não está no parque. Subo ao meu gabinete e acendo as luzes. Lá fora já começa a clarear, mas está uma manhã cinzenta e fria. O Verão já se foi. A Isabel chega pontualmente às oito e meia. Traz-me os cheques e meia dúzia de cartas que ficaram por assinar. - O Sotor quer um café? - Traga dois, se faz favor. A Isabel olha-me, espantada. - Está à espera de alguém? - Não. E traga também daqueles croissants pequeninos que costuma ter no frigorífico. Hoje vai-me fazer companhia. A Isabel sai obedientemente, disfarçando com alguma dificuldade o ar intrigado. Coitada, não faz a menor ideia do que quero. Regressa minutos depois com um tabuleiro com dois cafés e croissants miniatura. Está na moda tudo o que é mini. Mini-aparelhagens, mini-telemóveis, mini-canetas, óculos que se dobram em oito até ficarem do tamanho de um polegar. - Sente-se. Preciso da sua ajuda. - Com certeza. Estou ao seu dispor. Formalidade e fidelidade eternas. O segredo do sucesso de uma boa secretária. Então gostou de ir visitar o seu filho ao Porto? Gostei muito Sotor, muito obrigada por ter perguntado. Olha-me atentamente, à espera que lhe pergunte o que quero saber.


- Muito bem. Lembra-se de quando o meu pai vendeu a Herdade das Gafas em 1988? - Lembro-me sim, Sotor. - Lembra-se a quem? - Então, foi àquele senhor Adérito Gomes, aquele de quem o Sotor andava à procura do contacto e que eu lhe dei há duas ou três semanas. - Isabel, você é do Porto? - Não, sou dali perto, nasci em Gondomar. - E conhece esse tal Adérito Gomes pessoalmente? - Sim... conheci-o na altura em que ele veio cá para comprar a herdade. - E já o conhecia antes? - Bem, ele é casado com a minha irmã Odete. Curioso. Uma secretária remediada com um cunhado abastado. - Então e não o conhecia antes? A Isabel semicerra os olhos, como quem está a fazer contas de cabeça. - Não. Ele casou com a minha irmã em 87, depois de ela ter enviuvado do primeiro marido. Nessa altura já estava aqui a trabalhar com o seu pai. - E seu filho, onde é que estava? - Foi criado pela Odete, Sotor. Eu não podia, estava a trabalhar. - E o seu marido, onde é que estava? - Morreu na guerra do Ultramar, Sotor. Na Guiné. Era o miúdo pequeno. - E a Isabel mandou o rapaz para a sua irmã porque não o podia criar sozinha, foi? - Pois, eu ainda pensei em voltar para o Porto, mas o seu pai disse que pagava o colégio do rapaz, que eu não me preocupasse e olhe, fui ficando. - Muito bem. Agora pode ir. - O Sotor não precisa mais de mim? - Não, Isabel. Ligue-me para o telemóvel se houver alguma coisa urgente. Agora pode ir. Curioso. Muito curioso. O meu pai a pagar os estudos do miúdo. A Isabel sempre fiel ao meu pai, deixando que a irmã lhe criasse o filho. E aparece este Adérito que se abarbata com a herdade e faz o negócio da vida dele. Saio da fábrica direito à auto-estrada. Aproveito as viagens de carro para pôr a cabeça em ordem. Se não fossem estes momentos em que estou sozinho já tinha dado um tiro na cabeça. Ao menos aqui ninguém me chateia. Desligo o telemóvel e de repente desapareço e ninguém dá pela minha falta. Estou reunido comigo próprio como dizia o Alexandre O'Neill: diz-lhe que estás ocupado, a entrevistar-te a ti mesmo. A Sofia não tem vida própria, nunca teve, por isso não percebe que os


outros precisam de estar sozinhos, precisamente porque, estando sós, se sentem acompanhados por si mesmos. Aproveitou logo para se pendurar e amanhã mete-se no comboio com os miúdos para vir passar o fim-de-semana com os pais e comigo. Vai ser uma confusão, e eu que só me apetece estar ocupado comigo próprio. O O'Neill. Foi a Vera que numa das nossas noites abriu um livro enorme e começou a ler-me poesia dele. Foi a Vera que me contou da paixão que ele teve pela Nora Mitram e me leu os poemas que ele lhe escreveu quando, anos mais tarde, soube da sua morte. Ainda oiço a voz dela, junto ao meu ouvido... Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser, que já é o teu desaparecimento, digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti. Devia voltar a ler o O'Neill. Ou talvez não. Talvez seja melhor deixá-lo, mudo e sossegado. Ao menos não acordo a memória, não mexo no passado, deixo-o arrumado num canto qualquer do meu subconsciente onde também está a Vera e a vida que nunca tive. Tenho que perceber como é que este Adérito comprou a herdade. Não pode ter sido um simples negócio, o meu pai era maluco mas não era estúpido. Ou lhe devia alguma coisa, mas mesmo assim, não se pagam favores com negócios ruinosos. Devia tirar informações sobre o tipo antes de lá chegar, mas não tenho ninguém conhecido no Porto a não ser os meus sogros e os meus cunhados. Não lhes vou pedir nada, nunca pedi, não é agora que as coisas vão mudar. Ou então... então ligava à Vera e pedia-lhe para perguntar ao tal Manel se por acaso ele conhece ou sabe quem é este tal Adérito. Marco o código para me ligar outra vez ao mundo. - Estou, Vera?... - Quem fala? - Sou eu, o João. Silêncio do outro lado. - Estás a ouvir? Sou eu, o João. - Já percebi. Silêncio outra vez. Ou a ligação está má, ou então é ela que está furiosa. - Estás boa? - Estou. Porque é que me estás a ligar? A ligação está óptima. Ela é que não. - Ouve, eu sei que tínhamos combinado que não te telefonava mais, mas preciso que me ajudes numa coisa importante. Pode ser? - Diz lá. Bolas, não lhe devia ter telefonado. Mas agora já está.


- Ouve, eu não te chateava se não fosse mesmo importante, mas só tu é que me podes ajudar, ou pelo menos, da forma que preciso. Queres-me ajudar ou não? - Claro que sim, João, deixa-te de mistérios e explica-me o que é. - Lembras-te daquela história da venda da herdade do Alentejo há mais ou menos dez anos que eu nunca percebi como é que tinha sido feito o negócio? - Aquela que tu me contaste que o teu pai vendeu por um preço ridículo? - Essa mesmo. Vou a caminho do Porto visitar alguns clientes e aproveitei para marcar uma reunião com o tipo que comprou a herdade. Dava-me jeito se conseguisse saber alguma coisa sobre ele. Podias ligar ao teu namorado e perguntar-lhe se conhece. Silêncio outra vez. A Vera está furiosa comigo porque não respeitei a distância por ela imposta, porque me aproximei outra vez e ainda por cima para lhe pedir um favor, mas paciência, os amigos são para as ocasiões, ou então não são amigos. - Está bem, mas só te posso saber isso amanhã, quando for ao Porto e estiver com o Manel. Como é que se chama o tipo? - Adérito Gomes. - E o que é que faz? - É construtor. Um pato-bravo qualquer. Eu hoje no Porto e a Vera amanhã. Não venho ao Porto há quase três anos e tinha que vir na mesma altura que ela. - Ouve, eu vou ficar no Porto até domingo à noite, se souberes de alguma coisa, telefona. - Está bem, vou ver o que é que consigo saber. Mas não te prometo nada. E por favor João, POR FAVOR, não me voltes a telefonar. Não consegues respeitar o que combinámos? - Claro que sim, desculpa. Não te volto a incomodar. Um beijo. Desligo com a garganta seca. Nunca, em todos estes anos, a Vera me falou assim. Mas as pessoas mudam e a Vera mudou. Quer ter a vida dela, não a posso censurar. Com o tempo vou—me habituar à ideia de ter a Vera fora da minha vida.


XIII Finalmente um fim-de-semana com o Manel. Há quase um mês que não nos vemos. Apanho o comboio das 10 da manhã que chega a Campanhã antes das duas da tarde. Três horas e meia entregue a mim própria antes de o voltar a ver. Tenho o coração aos saltos, quase o vejo a tremer debaixo da camisola de tão agitada que estou. Todos estes dias em que não o vi só serviram para potencializar o que sinto. É a primeira vez que nos vamos ver depois daquela manhã fatídica e grotesca em que o Tiago entrou inesperadamente porta adentro e elaborou a inesquecível dissertação sobre os berloques. Depois do choque, Manel e eu decidimos mesmo classificá-la na nossa memória como O Episódio dos Berloques, título sugestivo e inolvidável para dez minutos de total absurdo e consequente risota. A risota que fica da nervoseira. Acho que adquiri o reflexo condicionado de me rir nos momentos de maior tensão com a Maria, que só ri quando está preocupada ou triste. O Manel e eu rimo-nos da coração, apesar de ter sentido instintivamente que algo se estragou para sempre na nossa relação. O confronto com o Tiago deixou uma marca de falta de pureza e de ausência de candura que o Manel dificilmente esquecerá. Os homens divertem-se quando estas coisas acontecem aos outros, mas detestam quando lhes toca directamente. E não posso deixar de pensar em tudo o que a Maria disse acerca do Porto e da forma como as pessoas pensam e agem, até que ponto estão presas a preconceitos e com que facilidade julgam os outros. Espero que ele se esqueça da história tão depressa como esqueci o Tiago, que desapareceu para sempre do mapa. Nesta espera silenciosa e contida, fui ficando cada vez mais isolada, deixando os dias escorregarem-me entre os dedos, alimentada a telefonemas diários nos quais me sinto momentaneamente próxima e por isso feliz. No fim-de-semana seguinte perguntei-lhe se o podia ir ver, mas disse-me que tinha visitas de família em casa e por isso não podia estar comigo. Visitas de família, perguntei. Mas os teus pais não vivem no Porto? Cortou a conversa de forma delicada mas definitiva, fazendo-me sentir inoportuna e indiscreta e disse qualquer coisa do género, se tenho que lhe dar conta de tudo o que faço ou combino, assim não vamos a lado nenhum. Depois calou-se e concluiu: não me pressione, sabe que quando sou sujeito a este tipo de pressão começo a ficar um bocado confuso. Adoro a forma subtil como usa as palavras. Confuso


quando quer dizer chateado, por exemplo. Não voltei a insistir. Agarrei-me à ideia de que já estava viva e era feliz antes de o conhecer por isso continuaria viva de qualquer forma. Mas quando a paixão inicia um novo reinado, tudo muda. Paira uma loucura invisível e latente que nos alimenta os dias e as horas. O amor tem sempre o seu quê de loucura, ou não seria amor e não valeria a pena. E a loucura tem sempre alguma razão, ou não seria loucura. Comecei a amar este homem num só instante e temo amá-lo até ao fim da minha vida. Como se me estivesse debaixo da pele, me corresse no sangue e fizesse parte de mim. Antes dele, tudo era relativo. Vivia com o Tiago, sonhava com o João e às vezes dormia com o Luís, todos eles coexistiam pacificamente na minha vida. O João era um sonho, o Tiago uma fraude e o Luís um escape. Mas por nenhum deles sentia amor. Ou talvez sentisse pelo João, mas aquele tipo de amor vencido pela evidência das circunstâncias, pela certeza da derrota. O amor desistente, passivo, ausente de si próprio. O Tiago enchia-me os dias de nada. Era uma forma torpe e idiota de evitar a solidão, sem a conseguir evitar. O Luís era mais importante do que o Tiago. Era com ele que conversava, era a ele que dizia o que me ia na alma. Às vezes tenho vontade de lhe falar, mas não lhe quero ligar. Não quero mostrar-me vulnerável aos seus olhos. E depois, não adiantava nada vê-lo. O que nós tínhamos era uma boa relação de cama e uma boa companhia. Tudo isso parece tão pouco quando uma pessoa se apaixona, é como se nunca tivesse existido. Para matar as saudades que me foram consumindo nestas semanas comecei a escrever cartas ao Manel, daquelas cartas que já se sabe à partida que nunca serão lidas pelo destinatário, uma espécie de exercício de lucidez, um vício de auto-análise para matar o tempo e abafar o desassossego. Não cartas de amor, mas cartas cheias de amor, a abarrotar, a transbordar de saudades contidas e desejo calado de o ver, o ouvir, o ter outra vez ao meu lado, sentado no sofá a conversar, à minha frente, a jantar e a rir, ou então agarrado a mim, a dançar... as folhas do caderno estão agora quase cheias e no entanto nenhuma foi arrancada. As cartas que escrevo ao Manel morrerão comigo ou ser-lhe-ão enviadas se este meu amor tiver um fim e eu quiser apagá-lo para sempre da minha vida. Receio que esse dia chegue, mas nem quero pensar nisso, nem quero imaginar a minha vida sem ele. Já amei assim uma vez, tinha 18 anos, e nunca acreditei que isto pudesse acontecer-me de novo, mas aqui estou eu metida num comboio para uma viagem de mais de três horas agarrada ao meu caderno e aos meus sonhos, aterrorizada com os meus medos, como uma adolescente idiota e desprevenida, como se nunca tivesse vivido nada ou pior


ainda, não tivesse aprendido nada com a vida. Regresso ao Porto acompanhada pelo barulho surdo do comboio e fecho os olhos para ver melhor a ponte D. Luís, as caves do vinho dispostas em armazéns de médio porte na outra margem, a Foz com as suas ruas sossegadas e as suas casas antigas e aquela tranquilidade nostálgica e serena que encerra a poesia de uma cidade tão grande e tão pequena como só o Porto sabe ser. Para mim o Porto é o Manel e o Manel o Porto unidos na mesma realidade e à medida que o comboio avança para norte e a paisagem se vai alterando, ganhando curvas e novos contornos, vou sonhando embalada pela voz dele que ecoa dentro de mim, uma espécie de registo eterno e constante que me guia e me acompanha. O Manel e o seu mundo sossegado, a casa aconchegante, a cama pequena, os armários arrumados, um saber viver que não se aprende e que me enche os dias de prazer e de bem-estar, mesmo sem o ver, mesmo sem lhe tocar. A Marguerite Duras diz que ainda quando só existem palavras, o amor vive-se na mesma. Que a pior coisa é não amar, que isso não existe. Mas começo a ter medo de amar, se ele não me amar também. Vejo-o demasiado autónomo, isolado no seu mundo, como se erguesse em seu redor um muro de auto-suficiência construído para nunca mais amar outra vez. Às vezes fala-me para me fazer sentir próxima. Outras, para deliberadamente não me deixar aproximar dele. E fala-me da Marta e de outras mulheres que amou, para que eu perceba, sem ter que me dizer, que posso apenas ser mais uma, que aquilo que temos não é afinal tão raro, único e especial como eu ingenuamente penso. E faz comigo o que fiz com os outros homens: relativiza-me, dilui-me, dissolve-me entre as suas memórias, faz-me sentir que são mais poderosas que o presente, que tudo aquilo que vivemos juntos. Calo-me e não lhe respondo, não lhe digo o quanto me dói ouvi-lo a explicar-me sem me explicar que não sabe o que sente por mim nem que lugar me há-de dar na vida dele. Devia afastar-me agora mesmo, sair na próxima paragem e apanhar o comboio do lado contrário da linha e regressar à minha caótica mas controlada normalidade. Mas não. Só consigo imaginar o momento em que vou mergulhar outra vez nos braços dele e esquecer-me de que u resto do mundo existe. Só então terei alguma paz, quando me sentir outra vez perto da perfeição. E estar com ele é estar perto da perfeição. perfeição das relações raras em que não há só comunhão de corpo e coração, mas de alma. Só que tanta proximidade em tão pouco tempo é algo de assustador. Deixei-me ficar com ele quando percebi que era um disparate não o deixar entrar na minha vida, mas agora tenho a sensação de que não sabemos o que fazer um com o outro. Ambos estamos habituados a controlar as relações e agora vivemos uma que nenhum dos dois


controla. E é por isso que o Manel joga, é por isso que se esconde por detrás da capa confortável, da sua vida controlada, do seu passado dourado, da distância que há entre as duas cidades e que nos une quando ele quer e nos afasta quando ele bem o entende. Para mim é tudo muito mais simples. Gosto dele e gosto que faça parte da minha vida, mesmo que se encoste à ombreira da porta : hesite em entrar. O Manel gosta de hesitar, primeiro porque não gosta de se comprometer, depois porque isso lhe dá margem e manobra para me observar, como um adversário num jogo de Poder, à procura das falhas alheias para melhor conduzir a sua estratégia. E joga sempre, é um jogador compulsivo, às vezes a meu lado, outras contra mim, para que eu não saiba com o que posso contar. E fala-me do futuro, do dele, do meu e às vezes do nosso. E discutimos os nomes que gostaríamos de dar aos nossos filhos, mas nunca sabemos se vamos estar juntos ou não no fim-de-semana seguinte. Levanto-me e vou à carruagem-restaurante buscar uma água fresca. Atravesso duas carruagens e reparo numa criança de olhos azuis com um ar que me é familiar. Está de calções azuis e camisola de losangos, com ar de menino de colégio inglês, sentado a ler um livro com desenhos do Walt Disney. Ao seu lado uma miúda mais pequena, que não deve ter mais de quatro anos a ver o livro com ele. Olho distraidamente para a mulher que está em frente deles. É a Sofia! Não é possível! A Sofia e os filhos do João no mesmo comboio que eu a caminho do Porto! Acelero o passo, rezando para que ela não me tenha visto. Era só o que faltava, dar de caras com a mulher do João. Claro, vem passar o fim-de-semana com ele. Mas que coincidência, ter apanhado o mesmo comboio. Bolas, e ainda não perguntei ao Manel se conhece o tal Adérito Gomes. Vou-lhe telefonar agora. Se descubro alguma coisa e telefono ao João com a Sofia ao lado é que vai ser o cabo dos trabalhos. A mulher nem pode ouvir falar do meu nome, quanto mais ouvir-me. Será que me viu? E se me viu, será que me reconheceu? Volto a passar pela carruagem onde estão sentados e o pequeno João olha para mim como se me conhecesse. Que impressão! Ao vivo ainda é mais parecido com o pai. Faço-lhe um sorriso enternecido, daqueles sorrisos das mães que ainda não têm filhos que me é imediatamente retribuído e continuo a andar, sem olhar para trás. A Sofia não me reconheceu. Melhor assim. O João está fora da minha vida e tudo o que tem a ver com ele. Ainda bem que nunca fomos apresentadas. Em tempos foi amiga da Maria, mas eram muito pequenas quando deixaram de se ver e a Maria não criou nenhum tipo de relação com ela, embora a conheça bem. Faz-me impressão tanta convergência, tanta proximidade entre as pessoas. A minha


melhor amiga que já esteve apaixonada pelo meu melhor amigo, conhece desde pequena a mulher que se casou com a grande paixão da minha vida. E o Afonso conhece o Manel. E o Manel deve conhecer a Sofia, está-se mesmo a ver. O Manel atende o telefone visivelmente bem-disposto. - Bom dia minha querida! Já vem a caminho? - Vou, acabei agora de passar Santarém. - Santarém, gosto muito dessa cidade. - Também eu. É onde vive a minha amiga Maria. - Não foi em Santarém que o Dom Pedro mandou arrancar o coração aos carrascos da Inês, um pela frente, outro pelas costas? - As coisas de que você se lembra! Como é que quer que eu saiba? - Gosta tanto de dramas, achei que sabia a história da maior tragédia portuguesa amorosa de todos os tempos... como é que eles se chamavam? Havia um que era o Pacheco... - Mas esse foi o que fugiu. - Fugiu? Então D. Pedro não os mandou matar aos três? - Não, minha querida, o Pacheco, aliás Diego Lopes Pacheco fugiu vestido de mendigo, juntou-se às tropas disfarçado de escudeiro e conseguiu chegar a Avignon são e salvo. Os outros é que foram apanhados. O Pêro Coelho e o Álvaro... Gonçalves, parece-me que era Gonçalves. As coisas que este gajo sabe. - Oiça, estou a adorar a lição de história, mas liguei-lhe para lhe perguntar uma coisa: você conhece um tal de Adérito Gomes? - Porquê? - Pediram-me que lhe perguntasse. - Mas porquê a mim? - Porque é um amigo meu que conhece pouca gente no Porto e como sabe que eu ando consigo... - Mas eu não ando consigo, a menina é que meteu essa ideia na cabeça. Mau, mau. Primeiro vem-me com a conversa da matança do Cru e depois dá-me baile. - Isso agora não interessa para o caso. Conhece ou não conhece um tal de Adérito Gomes? - Por acaso conheço. Até conheço muito bem. - E que género de pessoa é? - É uma óptima pessoa. Só tenho a dizer bem. - Mas conhece-o mesmo bem, ou é daquelas pessoas que se sabe quem são e pouco mais?


- Não, conheço-o mesmo bem. Mas porque é que quer tirar informações sobre ele? - Deixe lá, não tem importância. - Ah isso é que tem. Diga lá. - Deixe estar, quando chegar aí falamos melhor. Vai-me buscar à estação? - Claro! Acha que a ia deixar especada na bicha dos táxis? A que horas chega? - À uma e meia. - Lá estarei. Um beijo. Desligo ligeiramente incomodada. Fiquei sem saber nada sobre o tal Adérito, mas se o Manel diz que é gente de bem é porque deve ser. O Manel é rigoroso e exigente com as pessoas, tem poucos amigos mas certos e seguros, é do tipo de pessoa que quando faz juízos de valor sobre outras pessoas, sabe o que está a dizer. Telefono ao João e digo-lhe a pouca informação que consegui. O João agradece-me e pede para lhe ligar se descobrir mais alguma coisa. Confidencio-lhe que vi a Sofia e os miúdos no comboio e o João entra em pânico com medo de haver encontros imediatos de terceiro grau. - Não te preocupes, ela não me viu e quando chegarmos à estação, espero que ela desça e saio depois. - Que pena, não me importava nada de te ver... - Não comeces... - Não começo nada. Até logo e obrigado de qualquer forma. - Assim que souber mais alguma coisa, digo-te, está bem? - Está. Olha... espero que voltes inteira da Invicta. Um beijo. Desligo u telemóvel e fico quieta nu meu lugar a gerir alguma perplexidade que me assaltou. Qual será a relação entre o Manel e o tal Adérito? Será cliente dele no banco? Será que já trabalharam juntos? E como vai ser o meu fim-de-semana? Como é que me vou sentir outra vez nos braços dele. Apetece-me fazer amor com ele durante horas, tê-lo nos meus braços e dar-me de corpo e alma. Quando dormimos juntos, sinto algo de eterno e intemporal. É um sexo com alma, feito de amor e de partilha, onde nada é mecânico e funcional. Um sexo bom, puro, doce, quase pueril, meigo e sossegado, como diria a Maria, que aquece a alma e massaja u coração. Estarei a imaginar coisas ou é mesmo assim? Às vezes não percebo se aquilo que sinto é a realidade ou se quero transformar em realidade aquilo que sinto, mesmo não sendo realidade para ele. Mas a verdade das coisas nunca é exacta. Cada verdade é apenas uma parte de um todo ambivalente e complexo, confuso e contraditório, feito das diferentes


verdades de cada um. O que eu sinto pelo Manel não é exactamente o que ele pensa que sinto por ele, nem aquilo que eu gostava que fosse. O que u Manel sente por mim não é aquilo que ele me diz. E mesmo que seja, eu não conseguirei ver a realidade pelos olhos dele. Cada alma tem o seu mundo e conhecer outra alma é entrar num mundo transcendente ao nosso. Talvez por isso as almas que estão mais próximas vivam a ilusão da comunhão, que não passa de uma proximidade tocada, mas nunca total. Para as mulheres essa sensação nunca é de estranheza como para os homens. Porquê? Porque só nós, mulheres, carregamos outros seres dentro de nós. E, a essa intrusão de um corpo estranho, feito em parte dos nossos genes e em parte dos genes de um homem, a que chamamos os nossos filhos, cresce dentro de nós e é graças a nós que chega ao mundo. Os homens vivem cá dentro, mas não aceitam a proximidade, porque não geram vida. Entram e saem, nunca ficam, nunca ficam. Mesmo quando se deixam escolher por nós. Por isso é que o Manel não sabe o que fazer desta relação. Por isso é que me fala de outras mulheres e me faz sentir uma entre tantas. Por isso é que diz que não anda comigo. Mas não faz mal. Eu ando com ele e Deus sabe que havemos de chegar a algum lado.


XIV Perco-me sempre à entrada da Inbicta. Nunca percebi a orgânica da coisa, com as vias de cintura externa e interna e a circunbalasón, como eles dizem. Mesmo a tempo viro à direita a seguir à ponte da Arrábida, deixando para trás o Campo Alegre, onde a Sofia passou a sua infância, em direcção a Matosinhos e vou seguindo as setas que dizem Leça da Palmeira onde o misterioso Adérito Gomes me espera para uma reunião. Aube lá ó murcon, aundas ó num aundas? Maldito sotaque. Quando a Sofia se enerva e perde as estribeiras, lá lhe saem uns bês máiores e mais nítidos do que ela gostava. É o vernáculo, está-lhe no sangue, coitada. Once Porto, always Porto, disse a Vera há alguns anos quando lhe contei uma fúria da Sofia em que esta me gritava, não te chegues à minha beira, que te dou uma lambada, oubíste? Sigo não muito depressa, atento às placas, não vá o diabo tecê-las. Bem diz a Vera que el sentido común es el menos común de los sentidos. E o sentido de orientação pelos vistos também não é o meu forte. Não devia ter cá vindo de propósito só para investigar esta história, mas sou teimoso como uma mula e aplicado como um castor, quando meto uma na cabeça não descanso enquanto não descubro a verdade. Além disso a Sofia tem uma boa desculpa para levantar o cu do sofá onde morre de tédio todos os dias e visitar os pais dela. O Adérito. Deve ser um cromo. O tipo tem aquela conversa típica dos aldrabões, todo salamaleques e falinhas mansas, vários graus abaixo de vendedor de automóvel. Mas não faz mal, faço-me de parvo e logo se vê. Se ele achar que sou parvo, acaba por me dizer tudo o que quero ouvir, incluindo o que provavelmente tinha decidido não me dizer. Telefono para a secretária a avisar que estou a chegar. Encontro a morada com alguma dificuldade e estaciono o carro numa rua estreita a poucos metros da entrada de um prédio dos anos 70, com a entrada forrada a azulejos que desenham grandes e pomposos medalhões de um mau gosto inexcedível. Quarto andar. À porta uma placa diz Adérito Gomes & Associados. Construção Civil. Entro para uma sala de reuniões com as cadeiras em pele castanha e uma mesa de mármore que quer parecer uma coisa com bom aspecto e não podia ser mais horrenda e pretensiosa. Não há descrição para o mau gosto. Só há seis cadeiras, mas são de couro, e dois candeeiros indescritíveis, do género modernóide anos 70. Na parede, alguns quadros com ar suspeito, de paisagens


a óleo do Porto e do Douro, maravilhosamente emoldurados em dourados e arabescos com forte pendor barroco, ou será bacoco? Muito bem. O Adérito tem aqui aquilo a que se chama uma sala de reuniões luxuosa. Dois minutos depois entra a figura. Tal e qual como o tinha imaginado: baixo, atarracado, um Danny de Vito liofilizado em versão subsuburbana. Once binbo, always binbo. Gostava de saber onde é que se compram gravatas destas, com brilho e padrão de interferências televisivas do tempo em que ainda era tudo a preto e branco. O de Vito deu-me um aperto de mão vigoroso, quase diria amigável. - Doutor, muito prazer. Sente-se, sente-se, esteja à vontade. - Boas instalações, hem? Danny mira o território com um brilho nos olhos. É óbvio que está orgulhoso. - Foi a minha esposa que decorou. Ainda me quiseram impingir umas moças daquelas que fazem decoração, mas não fui em cantigas. Pedi à Odete e ela tratou do assunto. - Muito bem. Olhamo-nos nos olhos por breves instantes. Tiro os cigarros do bolso e acendo um, depois de lhe oferecer u maço aberto. - Agradecido, mas o médico não me deixa, senão ainda se me pára a máquina e depois é que são elas - responde com um gesto junto ao peito. - Disseram-me que tem sociedade com um sobrinho seu: ele está? - Não, por acaso não está. - Pena. Gostava de o conhecer. - É natural. Mas não está. Mau. É natural porquê? - Hem, então vamos ao que interessa: o que o traz por cá, Doutor? - Algumas dúvidas, coisa sem grande importância. Aliás, aproveitei para passar por cá antes de seguir para mais duas reuniões que tenho com vários clientes, pensei que o senhor me pudesse satisfazer a curiosidade. - Ó amigo, estou à sua disposição. - Sei que comprou ao meu pai em 1988 a Herdade das Gafas, com mais de novecentos hectares de cortiça... - Novecentos e noventa e três, Doutor. - Isso. Uma vez que o meu pai já morreu e como não consigo encontrar a cópia da escritura, gostaria de ter acesso ao documento e, caso o senhor ache possível, de o fotocopiar. - Eu não me importava nada de lhe dar esses elementos, mas a papelada está com o meu sobrinho. Ele é que tem os arquivos. Eu é mais as obras, está a ver? Controlar o pessoal, ver se estão a fazer tudo como deve ser.


- Muito bem. Gostaria que transmitisse ao seu sobrinho o meu interesse em ver esses documentos, penso que ele não tem nada a opor. - Com certeza que não, Doutor. - Quanto é que pagou pela herdade? - Foi barato, Doutor. O seu pai fez-me um preço jeitoso. - Imagino que sim... mas quanto? O Adérito perde momentaneamente a pose vitoriosa dos Vitos de bairro, mas recompõe-se num ápice. - Olhe Doutor, sem o querer ofender, aquilo foi por um preço que o Doutor nem conseguia imaginar. - Deixe-me adivinhar: 80 mil contos? - Mais ou menos, Doutor. - Mais, ou menos? - Isso é que não lhe posso dizer Doutor, porque o negócio nem foi para mim. - A herdade não foi comprada por si? - Sim, mas não sou o proprietário, não sei se está a ver, eu tinha uma procuração da pessoa que adquiriu a propriedade. - E quem foi? - O seu paizinho nunca lhe contou, pois não? - Contou o quê? - Porque é que nos fez, à Odete, a mim e ao rapaz este favor. - Mas qual rapaz? - Ao meu sobrinho, doutor. - Aquele que é seu sócio? - Esse mesmo doutor. Fixo-o outra vez nos olhos. Agora tens que falar, filho da puta. Não me dizes o preço, mas desbobinas-me a história, lá isso é que desbobinas. - A minha cunhada Isabel ainda trabalha lá na fábrica, não trabalha? - É minha secretária. Ficou a trabalhar comigo quando o meu pai morreu. - Pois. - Pois o quê? - É que a Isabel e o pai do Doutor, não sei se está a perceber o que lhe estou a dizer... - Não, não estou a perceber. - Eles foram amantes, Doutor. O meu pai fazer da Isabel amante dele. Não é nada que me espante, mas então porque é que sinto um arrepio pela espinha acima? - Está bem. E depois?


- O rapaz, o meu sócio, o meu sobrinho, não sei se está a perceber?. - Não, não estou. - É filho do seu pai. O meu pai. Mesmo depois de morto continua a conseguir surpreender-me. Com certeza que a minha mãe sabe desta história, mas como é óbvio nunca a revelou, seguindo o princípio sagrado para uma senhora da geração dela, o de manter as aparências e a boa reputação. E o meu pai, sempre armado em moralista, a chamar nomes à minha mãe quando ela saiu de casa e foi viver com o tio Carlos. Que hipocrisia! Trinta anos a fingir-se de vítima, quando, como é óbvio, tinha uma amante fixa à qual teve a brilhante ideia de fazer um filho. O que é extraordinário é como nunca soube da história. Como é que estou há sete anos todos os dias com a Isabel e nunca me apercebi de nada estranho. A Isabel e o seu ar seráfico e imperturbável. O ar de quem já passou por tantas na vida que nada a pode afectar. E o mais extraordinário é como ela foi cúmplice do meu pai durante toda a vida. É tão estranha, esta capacidade feminina de abnegação e sacrifício, ainda por cima por uma besta como o meu pai, que a tratava quase como uma criada. Há coisas do arco-da-velha. Saí pouco tempo depois da sala de reuniões do Adérito, mais atordoado do que outra coisa. Como é que uma pessoa pode esconder um filho a vida inteira? Vou até à baixa e tenho duas reuniões rápidas com clientes da fábrica, com quem acabo por assinar os contratos de fornecimento que trazia na pasta. São dois bons contratos, vão-me dar alguma folga para este ano e além disso são antigos clientes a quem o meu pai tinha feito das suas, por isso a vitória soube a dobrar. Mas saber aos 40 anos que tenho um irmão não me pode deixar calmo. Cabrão do meu pai. Se continuo a puxar o fio à meada, o que é que vou descobrir a seguir? Chego à estação de Campanhã ao mesmo tempo que o comboio e espero com impaciência para ver se a Vera sai antes da Sofia, mas já a conheço. Vai ser a última a sair para não me encontrar. Ela não me quer ver. Fechou a porta para sempre. Estive demasiados anos na vida dela para adquirir um estatuto pacífico. Talvez me engane, mas quando as mulheres se afastam e fazem questão de bater com a porta, estão muitas vezes a pedir-nos que as sigamos e façamos tudo aquilo de que ainda não fomos capazes para ficar com elas. A despedida é um ritual a que elas se obrigam, uma manobra de autocomiseração disfarçada de coragem para nos lançar o isco. A Vera sempre disse que só há uma forma de prender aqueles que amamos: largá-los, deixá-los ir para onde eles quiserem que se gostam de nós


voltam sempre. E ela voltou sempre. Sempre. Não acredito que tenha deixado de gostar de mim ao fim de todos estes anos. A não ser que o Manel seja tão importante que... não, não pode ser. Ela acabou de o conhecer, a relação que têm não pode ser séria nem profunda, não houve tempo para isso. Não vi a Vera, mas a Sofia desceu do comboio com umas trombas até ao chão. - Bolas, estás cá com uma cara! - E tu? Parece que viste um fantasma! - responde com secura. Apetece-me responder que por acaso até vi, mas não me apetece contarlhe a história. Ia pôr-se a fazer perguntas idiotas e conjecturas absurdas, se bem a conheço. Já bastam as histórias do meu pai e da Isabel, este filho-mistério e os golpes de negociatas pouco claras à volta desta gente. Será que o perfilhou? Não o deve ter feito, senão o tipo tinha aparecido quando o meu pai morreu a reclamar a herança. A não ser que o meu pai o tenha querido beneficiar antes de morrer. Talvez tenha sido isso. Por isso é que vendeu a herdade por um preço irrisório, passando parte do seu património para o filho, garantindo assim o futuro do ilegítimo. Será mesmo assim, ou sou eu que estou a imaginar coisas? A Vera é que me podia desvendar a história. É isso mesmo, vou pedir à Vera que me apanhe o fio à meada. Pode ser que o tal Manel tenha ouvido falar da história. O Porto ainda é uma cidade de província, sabe-se tudo. Ela não me vai falhar. Nunca me falhou nas coisas importantes, não é nesta que vai falhar. - Então, correu-te bem o dia? - Sim, podia ter sido pior. E tu, fizeste boa viagem? - Mais ou menos. A tua antiga namoradinha, aquela que era completamente obcecada por ti, também vinha no comboio. Não desvio o olhar da estrada para evitar qualquer alteração na minha expressão que me possa trair. - Qual antiga namoradinha? - Aquela com quem andaste não sei quantas vezes, a Vera Lorena. - Mas isso foi há mais de dez anos, era uma miúda. - Miúda ou não, vinha no comboio. - E então? - Então achei um bocado estranho. - Não sei porquê. Passa-se a vida a encontrar pessoas nos comboios e nos aviões. - Pois, mas tinha de ser logo aquela gaja, sabes perfeitamente que não gosto dela. - Nem sequer a conheces. - Nem preciso. É uma parva.


- Parva és tu, sempre com a mania de julgar as pessoas sem as conhecer. - Não sejas assim. - Não tenho ciúmes, se é isso que pensas. Só acho que tem cara de parva. Continuo a guiar em silêncio até casa dos meus sogros, um solar típico do Porto ao lado do Campo Alegre. Felizmente há pouco trânsito e demoramos uns minutos até ao portão. Apetece-me meter a Sofia na ordem, dizer-lhe que nunca me devia ter casado com ela, que não temos nada a ver um com o outro, mas o João Maria e a Teresinha riem-se para o espelho retrovisor e retribuo-lhes com doçura. Se não fossem os meus filhos...


XV Vera desce do comboio com aquele passo ondulado que A caracteriza. Espero-a na plataforma, é uma das últimas pessoas a sair. Mas sou paciente, sempre fui, a vida ensinou-me a esperar sempre antes de agir. Vem com a cara luminosa, o olhar inquieto e um sorriso irresistível. Que bonita que é esta mulher. Com um porte aristocrático que às vezes a faz parecer mais alta do que eu. Caminha com leveza e desenvoltura, como se os pés não chegassem a pousar no chão. Traz um saco de pele que obviamente é demasiado pesado e que imediatamente passo para a minha mão. Cumprimentamo-nos com alguma cerimónia e recato, como se estudássemos momentaneamente a temperatura das nossas almas ou a velocidade a que bate o nosso coração. Temia e desejava o regresso dela. Depois da sua partida, não me apeteceu voltar a vê-la tão cedo. Ia desarrumar-me a vida e gosto de ter tudo em ordem. Três dias depois da sua partida encontrei a Marta na rua. Não via a Marta há quase dez anos e nunca, desde que regressei ao Norte, voltei a encontrá-la. Ia a andar na Marechal Gomes da Costa ao fim da tarde depois de um dia agitado no banco quando a vi, ao longe, a cruzar a rua na minha direcção. Não me viu logo, por isso esperei que me reconhecesse, o que só aconteceu a escassos metros de distância. Parámos a menos de um metro e ficámos um bom bocado em silêncio a olhar um para o outro antes de nos falarmos. Tremiam-me as mãos e as pernas, como há quase 15 anos, quando me apaixonei por ela. Estava na mesma. Não, estava muito mais bonita. A mulher que amei em rapariga e que nunca cheguei a conhecer. Foi um encontro estranho, tanto para ela como para mim. Como é que podia adivinhar que me perturbasse tanto vê-la? Perguntei pelo filho e pedi-lhe o telefone. Queria vê-la outra vez. E ela também, por isso combinámos jantar nessa semana. Vim para casa a guiar lentamente, ao som de um disco que a Vera me enviara na véspera pelo correio, os duetos do Frank Sinatra. Ausente de tudo, reencontrado comigo mesmo. Num relance revivi o meu namoro adolescente com a Marta e todas as loucuras que fizemos. As minhas entradas sorrateiras pela janela do quarto dela na casa da avó no Campo Alegre, que entretanto foi demolida. Desligava o carro antes de iniciar a descida a seguir ao portão e travava devagar, a poucos


metros da porta de entrada. Depois subia pela hera até à janela do quarto dela, apoiado pelas pedras da cantaria, um rés-do-chão alto que demorava menos de um fósforo do canteiro de amores-perfeitos até à janela. A Marta esperava-me deitada na cama, nua e plena e amávamo-nos como dois loucos horas a fio. Várias vezes o pai ou a mãe tentaram entrar no quarto. Uma vez estive meia hora escondido debaixo da cama. Era arriscado o que fazíamos, mas não tinha medo de nada, estava completamente cego, como se não fosse vivo e se não estivesse ao lado dela. Quando tudo acabou, achei que ia morrer. Tive de me ir embora de Portugal, não aguentava a ideia de viver na mesma cidade e não a ver, não lhe tocar, não fazer parte da sua vida. Foi então que o tio Adérito me deu dinheiro para ir para Londres estudar. A minha tia que me viu desfeito suspirou e percebeu que o melhor era deixar-me ir. A minha mãe estava em Lisboa, esteve sempre em Lisboa, para ela tanto fazia que eu vivesse no Porto ou na Sibéria. Nunca largou o trabalho, nunca foi minha mãe. Se não fosse a minha tia Odete nunca teria sentido o que é ser filho. Foi a tia Odete que me criou, me levou pela mão à escola, me ensinou a distinguir o cantar dos pássaros e me consolava depois das aulas de natação na piscina da Granja, onde bebia em menos de uma hora água para a semana inteira. Tenho saudades dessa infância dourada e ignorante em que pensava que a tia Odete era a minha mãe e vivíamos felizes os dois um para o outro. O idílio durou pouco tempo, até a minha tia casar outra vez. Depois foi o colégio interno, a solidão, o medo inicial de não fazer parte do grupo, de um grupo qualquer, até perceber que só se é feliz e se está verdadeiramente seguro quando não se precisa de ninguém. Percebi isso muito cedo, quase instintivamente, ao ver os miúdos da minha idade a serem manipulados nas mãos dos mais velhos, quais fantoches sem dignidade nem cabeça. Vi o suficiente e suficientemente cedo para me afastar de forma diplomática. Percebi que se estivesse calado, ninguém daria pela minha existência, ou se dessem, não a achariam relevante. E resultou. Passei toda a minha adolescência completamente desapercebido, mergulhado num estado de neutralidade e sossego que me protegeu de qualquer força invasora. Quando voltei ao Porto, com 16 anos e o 11º ano terminado com média de 17, tinha planos para entrar para Direito. Foi então que conheci a Marta. Quando se cresce com muito amor como eu tive a sorte de crescer, dar é uma coisa fácil, natural, espontânea. A Marta virou-me a cabeça, o coração e o corpo do avesso, foi a primeira mulher com quem dormi, e talvez aquela com quem tive mais prazer. Depois dela, tanto fazia. Nunca mais voltei a amar assim, nem quis sequer pensar que um dia poderia passar pelo que passei. Tive muitas mulheres


depois dela, mas não estive de facto com mais nenhuma. Habituei-me a seduzilas pelo prazer de as ver apaixonadas por mim, mas não me dava, nunca mais me dei. E depois, é tão fácil encontrar nas pessoas defeitos que as diminuem para sempre aos nossos olhos! Sem amor nem paixão também não há nenhuma compaixão, não no sentido católico e abusivo que a educação cristã deu à palavra, mas no sentido real, o de protecção e carinho que a compaixão deve comportar. Habituei-me a não amar e a deixar-me ser amado. E agora tenho à minha frente uma mulher que me apetece amar, mas que não sei como. Conduzo lentamente para casa enquanto trocamos palavras vagas sobre tudo e acerca de nada. Não sei como lhe dizer isto, que tenho visto a Marta e que tenho dormido com ela, que apesar de todos estes anos e de tanta distância e tristeza que me separaram da Marta é por ela que quero lutar e que a Vera é apenas uma mulher que deixei entrar na minha vida com a leveza própria das relações de consumo rápido, sem sequer me passar pela cabeça que ela me levasse a sério. Não que não goste dela. Gosto e muito. Gosto de tudo nela. Nada lhe falta. Boa cabeça, valores, uma vontade imensa de viver, generosidade e frontalidade, doçura e suavidade, humor e alegria de viver, um conjunto notável de qualidades que dificilmente encontrarei noutra mulher. Só que não sei se é isto que quero. - Não estás a ouvir nada do que estou a dizer, pois não? - Desculpa querida, estava a pensar noutra coisa. Queres que te leve a almoçar a qualquer lado? Vou ter que falar com ela, mas não agora, não hoje, é ainda demasiado cedo. Tenho que perceber o que é que sinto, como sinto e o que quero. - Então andaste num colégio interno quando eras miúdo? - Pois andei! Como é que sabes? - Sabes quem é um Afonso Meireles? - Sei muito bem! É um tipo óptimo! Andou comigo no colégio. É teu amigo? - É o meu melhor amigo. - Não pode ser! E porque é que nunca me falaste dele? - Ó Manel, tu achas que com esta merda da distância entre nós, com esta relação alimentada a fio de telefone ou a telefones sem fios eu consigo partilhar a minha vida contigo de alguma forma que não seja sempre parcial? Nem dos meus amigos tive ainda tempo de te falar. Há mágoa na voz dela. Mágoa profunda de estar longe de mim. Como se eu pudesse mudar isso. - O Afonso... há muitos anos que não o vejo. Como é que ele está?


- Igual a si próprio. Vocês eram muito amigos? - Mais ou menos. Ele é um ou dois anos mais velho, acho que tinha um sentido de protecção em relação a mim. E fez-me uma coisa que nunca mais esqueci: eu ficava muitas vezes sozinho no colégio aos fins-de-semana e um dia convidou-me a passar um fim-de-semana em casa dele em Lisboa. É um tipo óptimo, inteligente... que giro seres amiga dele. Quando o vir mande-lhe um abraço da minha parte. - És tão formal... - Porque é que dizes isso? - É a forma como falas, como te explicas, medes todas as palavras, és muito sério. - Pois sou. Por isso é que gostas de mim. - Isso é uma das coisas de que gosto em ti, é verdade. Mas não é por isso que gosto de ti. Se eu soubesse porque é que gosto de ti não gostava, percebes? - O que é que quer dizer? - Quero dizer que se gosta e pronto. Apetecia-me dizer-lhe que não é bem assim, só pelo prazer de a ouvir argumentar, adoro conversar com ela, debater tudo até à exaustão, mas o que ela diz tem sentido. Também não sei por que é que gosto da Marta, o que é que me prende desta forma tão profunda e doentia a ela, mas é dela que gosto. - Sempre está com fome, ou quer ir a casa deixar as coisas? - Não sei, está um dia tão bom, porque é que não me leva a passear ao pé do mar? Apetece-me ver tudo azul... Sinto-a triste, como se pressentisse que algo não está bem. Tem aquele olhar perdido de quem não faz a menor ideia do terreno que está a pisar. Escolho a esplanada na praia da Ouriga onde pedimos um café. Ficamos horas a conversar e a pouco e pouco vou-me deixando envolver pela sua voz, pela sua presença, pelo cheiro do seu corpo, a pele lisa e luminosa, os olhos ansiosos, as mãos suaves e irrequietas que se aquecem nas minhas... Conversamos muito e conto-lhe a pouco e pouco a minha infância, a ausência permanente da minha mãe em Lisboa, os primeiros anos de vida criado pela tia Odete, anos sossegados e felizes até ao dia em que descubro que a tia Odete não é a minha mãe e que se vai casar pela segunda vez com o Adérito. Conto-lhe como fiquei chocado com a minha mãe por nunca ter querido ficar comigo, mas como encontrei nos meus tios os pais que nunca tive e é por isso que chamo pai ao Adérito, mãe à tia Odete e mãe à minha mãe, que vejo de vez em quando.


Conto-lhe a morte do meu pai de sangue na Guiné, romanceada pela tia Odete que sempre se pelou por histórias melodramáticas de amor e guerra. Da mania dos karts quando descobri que tinha jeito para guiar e era leve como uma pluma. Ela fala-me do avô que estoirou a fortuna, das saudades que tem da quinta de Colares, do medo que tem de nunca acabar o livro que começou a escrever e eu digo-lhe que tenho a certeza que um dia o vai acabar. Quero vê-la feliz e faço tudo o que posso para que se sinta bem comigo. Deixome levar pela sua alegria, pela doçura com que me olha, pelo sorriso aberto e franco, pelo ar feliz de menina pequena que lhe dá leveza e lhe tira idade. Regressamos a casa e envolvo-a nos meus braços, dançamos juntos durante uma eternidade e depois levo-a para a cama. E ela deixa-se levar, deixame amá-la de uma forma quase tímida, como uma rapariguinha inexperiente. Quero amá-la, quero que este prazer físico se eternize numa comunhão de corpo e alma, quero acreditar que aquilo que sinto aqui e agora é verdade e que dura e que posso amar esta mulher frágil e quase perfeita que me apareceu sem aviso. Gosto de lhe ver o corpo e de lhe tocar a pele, de a sentir abandonar-se em ondas sucessivas de prazer, de a sentir estremecer, vulnerável e encantadoramente feminina, gosto do depois de, de ficar horas e horas esquecidas a conversar, mesmo calado, debruçado sobre a sua cara, a passear a ponta dos dedos no seu pescoço esguio e na cara angulosa. - Manel... - O que foi minha querida? - O que é que se passa contigo? Queres-me contar alguma coisa, não queres? - Talvez, mas esta não é a melhor altura para falarmos. - Todas as horas são boas, aproveita agora. Calo-me por instantes. - Então? - Está bem, mas depois não te queixes. - Meu Deus, que tom sério! Não me vais anunciar nenhuma catástrofe, pois não? Vá lá, o que quer que seja, é melhor que o digas do que te cales, não achas? - Espera, deixa-me arrumar as ideias. Quero explicar-te tudo com calma, para que percebas exactamente o que sinto... lembras-te de termos falado da Marta? - Sim, aquela namorada que tiveste quando eras miúdo. - Isso mesmo. Lembras-te da nossa conversa no Cafeína acerca da inevitabilidade do primeiro amor?


- Claro! Acho que foi nesse momento que comecei a olhar para ti doutra forma, quando me agarraste a mão e me disseste que tinha que haver uma segunda oportunidade, que a vida não podia acabar aí e eu senti que a minha vida podia mudar, ali, naquele instante... - Eu quero acreditar que existe mesmo essa segunda oportunidade, sabes? Quando estamos aqui os dois e fazemos amor da forma como fizemos, quando ficamos horas juntos numa união quase perfeita neste conforto feito de proximidade, eu quero acreditar que isto é real, mas eu penso na Marta, percebes? Penso no amor que tenho por ela, que guardei cá dentro de uma forma inconsciente ao longo de todos estes anos e que não morreu... A Vera olha-me, completamente inexpressiva. Não sabe o que há-de sentir, o que há-de pensar e eu já não sei muito bem o que dizer. - Ouve, depois de teres cá estado, eu pensei que estávamos no princípio de uma relação que podia ser importante, não lhe desenhava nenhum futuro mas já lhe via alguns contornos, tu interessaste-me logo, fiquei muito entusiasmado... mas dois ou três dias depois voltei a ver a Marta, ao fim destes anos todos e percebi que ela era muito importante, compreendes? Voltei a sentir alguma coisa de muito forte por ela, apeteceu-me imediatamente trazê-la para esta cama, amá-la outra vez. Fomos jantar no dia seguinte, ela contou-me a vida dela e... A Vera ergue-se ligeiramente e tapa-me a boca. - Cala-te estúpido! Não estou deitada contigo na cama para me falares de outra mulher. Vou tomar um duche. Levanta-se com brusquidão e bate a porta da casa de banho com veemência. Deixo-me ficar deitado na cama, à espera que ela volte. Foi para o duche porque não tinha para onde ir. Porque lhe disse da única forma que encontrei, e foi talvez a pior, que estou apaixonado por outra pessoa. Que entretanto já me deitei com outra mulher nesta mesma cama onde agora mesmo acabámos de fazer amor. Fiz tudo mal, mas fiz bem. De alguma forma, não posso deixar de sentir um certo alívio, não podia, por uma questão de princípio esconder-lhe a verdade. Aliás, tentei dar-lhe a entender algumas vezes, quando falámos ao telefone, que a Marta ainda era muito importante para mim. Mas, ou não fui suficientemente claro ou a Vera simplesmente não me quis ouvir. Regressa ao quarto, enrolada na toalha, a cara opaca, sem expressão e senta-se em silêncio ao meu lado. Respira fundo, como se estivesse agora ela a escolher palavra a palavra o que me vai dizer. - Estás-me a querer dizer que estás apaixonado por outra mulher? - Mais ou menos.


- Não há mais nem menos nas paixões, Manel. Ou estás, ou não estás. Responde-me: é da Marta que tu gostas? Respondo quase em surdina, fechando os olhos, como se não quisesse ouvir a minha própria resposta. - É. - Muito bem. Vamos dar uma volta a pé para continuar esta conversa? Este quarto está-me a fazer claustrofobia. - Vamos - respondo fazendo-lhe uma festa no cabelo despenteado. Mas a Vera trava o meu pulso com dureza e determinação. - Não me toques, ouviste? Sobretudo não me toques. Levanta-se, pega na roupa e regressa à casa de banho para se vestir. Volto a pôr música para desanuviar o ambiente. Bom gosto desta mulher, gosto de estar com ela, ela enche-me: às vezes imagino o que seria o meu futuro ao lado dela, isto é uma brincadeira, mas não posso estar com ela a pensar na Marta, não posso fazer isso, nem a ela, nem a mim próprio, já foi longe demais. E agora?


XVI Não acredito. Não acredito. Não posso acreditar. A água escorre-me a escaldar pelas costas, mas ponho-a ainda mais quente, numa espécie de castigo que infrinjo voluntariamente a mim própria por ter sido tão estúpida. Não pode ser. Isto não me pode estar a acontecer. Que merda é esta da história da Marta? Como é que este cabrão não me disse antes que tinha estado com ela? Porque é que me fez vir ao Porto? Para gozar com a minha cara? Para me ver sofrer? Ou para ver o que é que sente por mim? Vim com o coração nas mãos e ele sabe disso. Sabe que me apaixonei por ele. Não me devia ter apaixonado, eu sei, mas o amor não tem razões e tem sempre razão. Este homem não gosta de mim, nem sabe gostar. Não sei se alguma vez fui amada, mas já houve homens que souberam gostar de mim. E os que souberam gostar de mim, aqueles que me reconheceram as qualidades que os faziam gostar de mim, foram esses os que nunca me amaram. Como o João. Ou o Luís. Mas este homem dorme comigo e diz-me que está apaixonado por outra mulher quando estou deitada ao lado dele. Que espécie de sádico é que fui arranjar? O que é que estou aqui a fazer? Porque é que não lhe pedi para me deixar na estação e volto imediatamente para Lisboa? Não, eu tenho que perceber o que é que se passa naquela cabeça. Qual a verdadeira importância desta Marta, até que ponto ele gosta mesmo dela, até que ponto gosta ou não de mim. Primeiro vou acalmar-me. Passo o gel de duche pela pele. Cheira bem. O cheiro pacifica-me momentaneamente. Lá fora oiço música. Harry Connick Jr. A mesma que ouvimos há um bocado, antes de fazermos amor. Lavo a cara, esfrego-a com força, como se conseguisse arrancar o que sinto por ele. Saía tudo pelos poros, células mortas, invisíveis, irrecuperáveis. Arrancava-o da minha pele, limpava o corpo e o espírito, livrava-me dele. Estou a endoidecer. Estou mesmo a endoidecer. Meu Deus, o estado em que estou. Tenho que me acalmar, custe o que custar. Já devem ter passado mais de dez minutos. Vou voltar ao quarto. Vou-lhe perguntar se está apaixonado por ela. Tenho obrigação de o fazer e ele tem obrigação de responder. Enrolo-me na toalha e antes de sair, olho a imagem que o espelho reflecte. A cara que era minha, transfigurou-se. Sou agora um corpo com um nariz, dois


olhos, boca, cabeça e cabelo que não reconheço. Tenho que me guardar, tenho que me esconder, tenho que me aguentar. Uma pessoa pode perder tudo, mas o registo é que não. Aproximo-me da cama e sento-me em silêncio. Pergunto-lhe se está apaixonado por ela. Diz-me com voz sumida que sim, como que a pedir-me que não oiça a resposta. Cabrão. Agora tenho que pensar no que é que vou dizer a seguir. Não lhe vou pedir que me leve à estação, isso seria demasiado fácil. Posso perder esta guerra, mas não por desistência, nem na primeira batalha. Se me quer derrubar, vai ter que me empurrar até eu cair. Que estupidez. Isto não é nenhuma guerra. Já sei. Vamos passear. Ele adora passear e eu também. Não aguento estar mais tempo neste quarto. - Muito bem. Vamos dar uma volta a pé para continuar esta conversa? Este quarto está-me a fazer claustrofobia. - Vamos - responde, tentando desajeitadamente fazer-me uma festa no cabelo com ar de compaixão. Mas eu não quero compaixão. Quero paixão, ou então nada. Travo-lhe o pulso. - Não me toques, ouviste? Sobretudo não me toques. Levanto-me e espero que ele se arranje. Toma um duche rápido e veste uns jeans e um pólo azul-escuro que lhe fica a matar. Estúpido. Ainda olho para ele com desejo, onde é que está o meu amor-próprio? Saímos de casa em silêncio. O Manel rói placidamente uma maçã enquanto conduz devagar o seu avião silencioso. Descemos até à marginal em direcção ao porto de Leixões. Decido ficar calada. É que não sei por onde começar. O que é que eu lhe digo? Que estava à espera de tudo menos disto? Que ele bem podia ter encontrado a Marta na rua antes de me ter conhecido e me ter dado a volta? Mas ele não me deu a volta. Eu é que me deixei ir. Não tenho nada que fazer o papel da virgem enganada. Sabia os riscos que corria. Sabia que se me envolvesse com ele de um dia para o outro estava a dar um salto no escuro. Não o conhecia, foi uma inconsciência, um disparate. Nem sei quem ele é, que tipo de pessoa tenho ao meu lado, conheço muito pouco e o que conheço pode ter sido enviesado pelo que sinto, pelo que quis ver, pelo que ele quis que eu visse. Dói-me a cabeça. Baixo a pala para me ver ao espelho. Olheiras e cara baça. O brilho de que tanto me orgulho, aquele brilho que faz com que o João diga que tenho uma luz na nuca que se espalha pela cara desapareceu. Tenho que me aguentar, a partir daqui nada vai ser fácil.


O Manel estaciona o carro ao pé da marina. - Vamos dar um passeio? - pergunta com a suavidade que o caracteriza. Só que agora parece estar ainda mais suave, como se quisesse apagar a memória de qualquer desentendimento. E para o provar, estende-me o braço. - Embora. Tenho uma coisa para te mostrar. Andamos devagar, o passo acertado um pelo outro, os olhos em frente, as bocas caladas, cada uma à espera que a outra finalmente se abra. É ele que quebra o silêncio. - Sabes velejar? - Porquê? - Um dia, quando eu comprar o barco que quero, e já não falta muito tempo para que isso aconteça, tenho este sonho de fazer uma viagem com uma pessoa de quem goste muito. Comprava uma grade de champanhe, aquelas bolachas de chocolate de que tu gostas, levava para bordo os discos do Frank Sinatra e do Keith Jarrett, zarpávamos para longe de tudo, num final de tarde daqueles quentes, do fim do Verão e ficávamos ali sossegados, ancorados num ponto qualquer de azul... e então eu agarrava-te nos meus braços e dançávamos até tarde, muito tarde... o que é que achas? - O que é que me querias mostrar? - Espera, não sejas impaciente, já lá chegamos. - Queres mostrar-me o barco que vais comprar não é? Já tive surpresas que me chegassem por hoje, Manel. O Manel pára e olha-me com doçura. Passa ao de leve a ponta dos dedos na minha testa enrugada para a aliviar e sorri com ar enigmático, como sempre, sem nunca perder a calma. Esta calma dá-me cabo dos nervos. - Tens que aprender a ter mais calma. Queres viver tudo com uma tal sofreguidão, como se o mundo acabasse amanhã... Tem calma, vive a vida devagar, saboreia cada instante, não temas nem programes o futuro, não queiras controlar tudo o que vai acontecer. - Controlar??? Tu é que queres controlar tudo, tu é que vives fechado numa redoma, rodeado por esse muro de auto-suficiência para que nada na tua vida entre em descontrolo e vens-me dizer que sou eu que quero controlar? Não vês que eu aqui não controlo nada? Estou na tua cidade, a passear contigo e a ouvir-te dizer uma data de disparates, depois de me teres confessado que gostavas de outra mulher! E ainda me pedes para ter calma...bolas, não me podias ter dito isso pelo telefone? - Claro que não, Vera, não percebes que isso era uma falta de educação e...


- E não achas uma falta de educação dizeres-me isso quando estamos deitados na cama? Tu não és bom da cabeça. Não podes ser. Para ti o que é importante é a educação, é sempre a forma das coisas, o conteúdo é secundário. Tudo te é permitido, desde que seja bem feito, não é? Trazes-me para aqui para me fazeres sentir bem, porque não queres conflitos, atiras-me com esta história da viagem de barco, afinal o que é que queres? Continuamos a andar. Numa das pontas da marina está um veleiro novinho em folha que deve ter mais ou menos 15 metros. O meu olhómetro mede-o de uma ponta à outra. É lindo e deve custar pelo menos quarenta mil contos. O Manel aponta o dedo. - É aquele. Não quis ouvir o que lhe disse. Não me quer ouvir, sabe que o que digo é verdade, sabe que começámos depressa demais e que agora nenhum sabe como parar, não sabe o que sente por mim, e por isso não lhe apetece perder-me. Mas tenho que tomar uma atitude. Tem de ser, senão é porque não estou a aprender nada com o que a vida me traz. - Muito giro. Espero que um dia o consigas compreender. Agora ouve-me com atenção. Falas-me em ter calma, e por isso vou seguir o teu conselho. Digote com toda a calma que me quero afastar de ti. Quero que tenhas tempo e espaço para pensares naquilo que queres. A Marta vive cá. Há muitos anos que faz parte da tua vida, se calhar tem muito mais a ver contigo do que eu. Tu gostas de controlar as situações, ou pelo menos gostas de ter tudo sob controlo. Eu sou de Lisboa, tenho a ver com um mundo que conheces mal e não dominas, não temos amigos comuns, não conheço a tua família nem tu a minha, no fundo aquilo que temos a ver um com outro é apenas intrínseco e isso incomoda-te. Com a Marta é diferente. Há proximidade e familiaridade, apesar de tudo. Vocês cresceram juntos, talvez ela tenha sido a única mulher que amaste verdadeiramente. A partir deste momento retiro-me do jogo. Não jogo a três, para mim um parceiro chega perfeitamente. Afasto-me de ti e pronto. É melhor assim. Se quiseres, vais-me buscar outra vez. Mas só se quiseres. Agora leva-me a casa que eu quero-me ir embora. Regressamos ao carro em silêncio. O Manel está a pensar no que me há-de dizer. Ponho música e abro a janela para respirar fundo, tão fundo quanto me é possível. Disse o que devia ter dito. Não sei se é aquilo que sinto, mas pelo menos tentei. Em casa arrumo as coisas num instante e fico de pé junto à porta da entrada para que perceba que me quero mesmo ir embora. O Manel olha-me com cara de quem quer pedir-me para ficar, mas não diz nada. Se me pedisse, eu ficava. Não tenho orgulho nem amor-próprio, estou vazia, não tenho nada,


ele podia fazer de mim o que quisesse, eu não resistiria a nada. E se calhar até sabe que é assim, mas prefere ficar calado e quieto. Na dúvida, o Manel escolhe sempre o silêncio, é menos comprometedor. Consulto o horário. Merda, acabou de sair um comboio a às duas. Tenho que esperar pelo das quatro e vinte. - Qual é o comboio que quer apanhar? Está-me outra vez a tratar por você. Deve ser para me amaciar. - Acabei de perder um agora mesmo, vou apanhar o das quatro e vinte. - Quer ir comer alguma coisa leve. - Pode ser. - Então vamos a uma esplanada nova muito gira ao pé da ponte D. Luís, está bem? - Está bem, vamos onde tu quiseres, de qualquer forma não vamos a lado nenhum, por isso é o que te apetecer. - Idiota. Egoísta. Imbecil. Tens cara de menino mimado e é assim que me levaste à certa. Cabrão, cabrão, cabrão. Um dia ainda havemos de ajustar contas. Antes de lá chegarmos, toca o telefone dele. - Estou... Olá Marta, como é que estás? Ouve, posso-te ligar daqui a um bocado? Está bem, às cinco, está combinado. Até logo. Era o que me faltava. Vejo a gota de água a resvalar em câmara lenta pela borda do copo. Acabou-se, não tenho nem paciência nem feitio para esta merda. Sentamo-nos e peço um pão-de-leite com fiambre e um leite com chocolate. O Manel bebe um café. É claro que há qualquer coisa entre ele e ela. Não faço perguntas, mas também não preciso. - Está muito bonita, com esses óculos escuros e a T-shirt azul-clara, ficamlhe bem essas cores. - Não me chateies. - Só estava a dizer o que penso. Está muito bem. De repente oiço atrás de mim uma voz terrivelmente familiar. Viro instintivamente a cabeça. Não pode ser. Isto é demais. O João com a Sofia e os miúdos a escolherem uma mesa mesmo atrás de nós. O João vê-me, hesita e decide vir cumprimentar-me. Dá-me um beijo na cara e sorri com ar enrascado. - Olá, Vera, por aqui! Mas que coincidência! O Manel estende-lhe a mão enquanto os apresento. Cumprimentam-se com alguma cerimónia. O João está visivelmente nervoso por me ter encontrado e o Manel fixa-o com olhar clínico. A Sofia observa tudo de soslaio e o Manel pergunta com a delicadeza que lhe é


habitual: desculpe, aquela não é a Sofia? O João acena com a cabeça e o Manel levanta-se: se me permitem, vou ali falar à Sofia. É que somos amigos de miúdos e há mais de dez anos que não a vejo. Levanta-se e fica de pé a falar com ela. Esta merda parece um filme. É que nem de propósito! Além de encontrar o João, o Manel conhece a Sofia. Claro que conhece. São da mesma idade e o Porto é uma aldeia. Estranho era se não se conhecessem. De repente, tenho um ataque de sentido de oportunidade e digo ao João: já sei quem é o tal Adérito. Então, pergunta o João, ansioso. É tio dele. Tio de quem? Tio do Manel. O quê, diz o João com ar totalmente incrédulo. Não pode ser. Pode, pode, respondo-lhe entredentes, enquanto o Manel regressa à mesa, sorridente e afável e inicia uma conversa de circunstância com o João, justificando-se, dizendo que há muitos anos que não via a Sofia e dando-lhe os parabéns pelos filhos que entretanto estão sentados a lamber cada um o seu gelado. O João regressa à mesa com ar de quem acabou de ver um elefante corde-rosa às bolinhas amarelas a sobrevoar o céu montado num zepelim e eu digo ao Manel que já nos podemos ir embora. - Simpático, o seu amigo. Que engraçado ser casado com a Sofia. Conheçoa desde miúda. - Ele é a minha Marta. - Quem? O tal João? - Sim, esse mesmo. - Como é que disse que ele se chamava? - Não disse. É João Assis Teles. O Manel desacelera o passo e olha para mim com ar intrigado. - Da família Assis Teles da cortiça? - Sim, entre outras coisas. Porquê, conhece-os? - Não, só de nome - continua a andar -, gostou muito dele, não gostou? - Claro que sim, mas já não gosto. Deve ser isso que nos separa, a mim e a ti. Olho-o fixamente, mas finge que não vê. Caminhamos ao longo da ribeira. É domingo e a rua está cheia de gente. Os barcos descem o rio, dourado pelos reflexos do sol, a dançar em pequeníssimas e melodiosas ondas. Que bonita que é esta cidade! Que pena que tenho de me ir embora. O Manel vai-me contando como a cidade resistiu heroicamente às invasões francesas e aponta para as colinas. - Esta cidade respira força, não achas? Olha para a muralha fernandina. Aquelas pedras estão ali há séculos, pedra sobre pedra, nada as demove, ligadas umas às outras, fazendo parte de um todo indissociável. Um todo


comum, o património de um lugar. Aquelas pedras pertencem à cidade e a cidade pertence-lhes. Depois cala-se, fixa o olhar no rio e sinto uma vontade estúpida e irracional de chorar. Então, como bom jogador que é, atira a cartada final. - Eu também sou assim com as pessoas de quem gosto. Trago a Marta dentro de mim, tal como trago outras pessoas de quem gostei. Foram poucas, mas ficaram para sempre. Sou aquilo que já fui e que carrego comigo. As pessoas que já amei são pessoas que estarão sempre comigo, entendes? Entendo Manel, entendo, mas não te posso dar razão. Também carrego o João dentro de mim, também sei que as pessoas que já amámos ficam dentro de nós para sempre. Mas perdi a voz e a vontade de conversar, estou vazia, apática, derrotada e só te posso ouvir, antes que sejam horas de me ir embora, sem saber sequer se um dia vou voltar. Mas o Manel não quer fechar a porta e está a tentar dizer-me alguma coisa. Depois de um breve silêncio, remata, com ar douto e magistral: - Podes afastar-te de mim, se queres. Mas eu não me vou afastar, porque fazes parte de mim. Apanho o comboio mesmo a tempo. O Manel ainda tenta dar-me um beijo de despedida, mas viro-lhe a cara e subo apressadamente para a carruagem, sem verificar sequer se entrei na que corresponde ao meu lugar. O resultado é uma caminhada penosa ao longo de todo o comboio até encontrar o meu lugar, separado dos outros, no fim de uma carruagem quase vazia junto à janela. Sinto-me exausta, esgotada depois de ter carregado o saco que me parece inutilmente grande, as mãos doridas pelo peso e o coração cansado de bater. Então, e só então, embalada pelo sussurrar monótono e encantatório das rodas metálicas nos carris, me deixo afundar numa enorme tristeza e choro silenciosamente, os óculos escuros postos para disfarçar a cara molhada onde as lágrimas teimam em cair aos pares, como gémeas separadas à nascença que nunca se hão-de encontrar, umas atrás das outras, formando dois fios de água paralelos que hesitam junto à curva do queixo, até que as costas das minhas mãos os reduzam a pingos perdidos, absorvidos por kleenexes competentes e discretos. O tempo está para o amor como o vento para os incêndios. Apaga os fracos e ateia os fortes. É uma espécie de teste, uma prova cega, uma forma inequívoca de clarificar aquilo que tanto queremos chamar amor e que não é mais do que o minúsculo embrião de um futuro incerto e tantas vezes improvável. Mas o amor está para o tempo como uma vela acesa ao luar, trémulo, impaciente, frágil, volúvel, fácil de acender e ainda mais fácil de apagar. Apaixonei-me pelo Manel sentada à mesa de um restaurante, unida a


ele por uma mesma mágoa. Separo-me dele pouco tempo depois com a sensação de que nada do que vivemos juntos faz agora sentido. Se ao menos percebesse o que me prendeu tanto a este homem. Mas não percebo e agora quero esquecê-lo. Hei-de conseguir seguir o meu caminho, embora não haja caminho, embora o caminho se faça ao andar. Quem parte nem sempre sabe porquê e sabe que não podia ser de outra maneira. Se ele me amar, há-de vir buscar-me. Agora quero descansar, parar, esquecer. Quero pensar e perceber porque é que chegámos aqui e para onde vamos daqui para a frente. Isto não pode acabar assim. Não pode. Não pode. NÃO PODE.


XVII Segunda-feira de manhã. Saio cedo, como de costume, e antes das oito ligo à Vera, que me atende com voz de sono, a pedir-lhe que venha almoçar comigo. Nem pergunta porquê. Conhece-me demasiado bem para saber que se lhe ligo a esta hora é porque é mesmo importante. Sei que não lhe devia ter telefonado, mas espero que ela perceba. Isto é grave. Grave e complicado. Tenho que perceber como é que o meu pai deitou fora 1000 hectares que valem agora um milhão de contos. Ele nunca foi generoso, deve ter sido de alguma forma obrigado a fazer o que fez. A Herdade das Gafas era apenas uma parte do seu património, além da fábrica e de quase vinte prédios em Lisboa, para não falar da Herdade das Tréguas, com 2800 hectares de cortiça, que felizmente não foi parar às mãos de ninguém. Mas por que raio é que ele preferiu vender a herdade por um preço muito abaixo do seu valor? Para esconder o filho ilegítimo? Ele sabia que provavelmente hoje em dia seria fácil provar a paternidade. O tipo é parecido com ele, porra! Tem a mesma estatura, a mesma forma de andar, o mesmo olhar de lince sacana e imperturbável. Até está a perder cabelo no mesmo sítio em que o meu pai começou a perder, no alto da cabeça. Não há dúvida que o tipo é filho dele. Não é preciso ADN nenhum, basta olhar e ver quando o encontrei no Porto com a Vera, até fiquei maldisposto. O meu pai ali, à minha frente. O cabrão ainda é mais parecido do que eu. E isto de o tipo andar com a Vera dá-me a volta ao estômago. Com tantos gajos que há no mundo, porque é que havia de se envolver com um meio-irmão meu? É preciso ter pontaria. Mas ela vai ter que me ajudar. Se não for ela, ninguém me ajuda. Não posso contar com a Isabel. Seria injusto confrontá-la com tudo isto ao fim de tantos anos. Há que manter uma certa ordem. E depois, não sei porquê, mas acho que a chave do mistério está no tal Adérito e na mulher. Foram eles que sacaram isto ao meu pai, provavelmente com o beneplácito da Isabel, mas se ela tivesse de facto ganho alguma coisa com isto, porque é que ainda estava na fábrica a trabalhar, longe do filho e da família? Não, a Isabel não meteu aqui nem prego nem estopa. Depois de ter sido toda a vida fiel ao meu pai, não me parece que tenha mudado. As pessoas não mudam. Podem evoluir, disfarçar, alterar pequenos comportamentos, mas nunca mudam. A sua natureza persiste sempre, acima de tudo. A Isabel é


profundamente boa, tanto quanto o meu pai era profundamente mau. O Adérito é profundamente ambicioso e a esposa Odete não lhe deve ficar atrás. Depois de terem educado o miúdo, fizeram contas à vida e magicaram um plano para sacar alguma coisa ao meu pai. Hoje a Gafa deve valer um milhão de contos. No mínimo. E dar de rendimentos pelo menos dez mil contos por ano. Dez mil contos por ano sem mexer um dedo não é um mau negócio. Tenho que saber em que nome está aquilo. Num minuto, ligo ao advogado que me garante que ainda nessa tarde descobre, que é fácil, basta ligar para a conservatória do registo predial de Évora onde trabalha um antigo aluno e antes das quatro da tarde fornece-me todos os dados. Mas a Vera é que me pode ajudar. Espero que apareça conforme o combinado. Aparece com certeza. Não me vai falhar. Chego à fábrica antes das oito e meia e espero que a Isabel chegue, pouco depois. Oiço-a a entrar e ainda hesito em chamá-la ao gabinete, mas opto por não o fazer. Falarei com ela mais tarde, depois de saber mais coisas. Ainda é cedo, não a quero assustar e muito menos deixar escapar o tal Manel que ando a investigar. Às dez liga-me para o telefone directo o Miguel, meu gestor da conta do Private Banking do BIP a propor-me a compra de novas acções que segundo ele constituem um óptimo investimento. Conheço o Miguel há muitos anos, é um tipo sólido e bem formado que sabe o que faz, é competente e cauteloso, graças a ele não me tenho dado mal. Por descargo de consciência, lembro-me de lhe perguntar se conhece um tal Manuel Menezes do Porto. - Conheço lindamente, pá. É o director da sede do private lá de cima, porquê? Mau. O tipo além de ter ganho uma pipa com a herdade está metido na banca? - Tens a certeza que é o mesmo? - Não sei, como é esse tipo que tu conheces? - É um tipo baixo, com olhos azuis e um ar todo pipi... - Então é o mesmo. Um gajo calmo, com um ar porreiro que fala devagar... - Isso já não sei. Só falei com ele trinta segundos. - Mas deve ser o mesmo. - E o que é que sabes dele? - Nada de especial, pá. Sei que trabalha bem, que é um tipo muito ambicioso, parece-me que estudou lá fora e tem uns negócios quaisquer de família, mas de resto não faço ideia. É um tipo discretíssimo, do género que


nunca tem conversas pessoais. Mas porque é que tens tanta curiosidade em saber quem é o gajo? - Um dia destes conto-te. - Está bem. Olha, não sei se isto te interessa, mas a última vez que estive com ele foi há dois meses, quando fui ao Porto fotografar a sede do private para a revista do banco com uma, por acaso bem gira, que nos faz a revista do banco, uma Vera Lorena, sabes quem é? O gajo não sabe que eu conheço a Vera. Não pode saber senão estava a gozar comigo. - Sim, vagamente, mas de onde é que a conheces? - Andei com o irmão dela na faculdade. A miúda por acaso é gira. Chegou lá e ficou logo caidinha por ele, estás a ver aquela cena típica quando elas nos caem no colo? Há gajos com sorte. Apetece-me mandá-lo calar por falar assim da Vera. Não acredito que as coisas se tenham passado dessa maneira, mas o melhor é calar-me. Se calhar o Miguel também é amigo do gajo e não faz a mínima ideia do que se passa, o melhor é mantê-lo na ignorância. A informação é um bem escasso, deve ser gerida como tal. - Bem Miguel, compra lá seiscentos contos desse papel e vai-me dizendo como é que as coisas evoluem, ok? Adeus, pá. Mal desligo, toca outra vez o directo. É a Vera. Ou o que resta dela, porque o fio de voz diz-me que algo não está bem. - Então já acordaste? Desculpa ter-te acordado logo às oito da manhã, mas preciso mesmo de falar contigo. Vamos almoçar? - João... eu não vou almoçar contigo. - Mas porquê? - Porque estou completamente na merda e... Percebo que se calou para conter as lágrimas. Está à beira de um ataque de choro, quando éramos miúdos pu-la várias vezes a chorar, é como se de repente estivesse a reviver tudo. - O que é que te aconteceu Vera? Fala, sabes que comigo podes falar. - Não posso João, a sério. - Ouve, já percebi que estás mal, mas eu faço o que for preciso, vou-te buscar à uma, ou se preferires levo o almoço, fico aí e faço-te companhia. - Eu sei que deve ser uma coisa muito importante, mas francamente, no estado em que estou, não sei como é que te posso ajudar... - Se há uma pessoa no mundo que me pode ajudar, essa pessoa és tu. Sempre foste e sempre serás - respondo com doçura.


Bolas, o que é que lhe terá acontecido para estar neste estado? Só se foi o outro cabrão que lhe fez alguma. Ela estava tão entusiasmada. - Vou aí ter à uma, está bem? Se quiseres pedimos uma pizza e conversamos um bocado. Vá lá, anima-te. Um beijo, até logo. A casa da Vera. Tenho saudades de lá ir. Nunca mais lá voltei depois da última noite que passámos juntos. Já foi há tanto tempo que nem me lembro. Anos e anos. Lembro-me do seu corpo encaixado em cima do meu, os dois sentados no sofá, a lua cheia a iluminar-lhe o contorno do peito, o pescoço e os olhos, uma peça perdida para sempre de um puzzle desemparelhado. Mutilei a minha vida por não ter ficado com ela, mas agora é tarde. Já não sei quem é que escreveu Eu não sou eu, sou eu e as minhas circunstâncias mas tinha razão. Eu sou eu, a Sofia, o João Maria, a Teresinha, os disparates do meu pai e os problemas da fábrica e não vale a pena pensar que pode ser de outra maneira. Toco à campainha antes da uma, a Vera tarda em abrir. Subo as escadas íngremes que conduzem às águas-furtadas do prédio e volto a entrar no santuário que há muito não pisava. Nunca quis cá voltar depois de ter casado, nem a Vera tão-pouco me convidou, mas hoje, não sei porquê, achei natural cá vir e ela também. No dia em que não estivermos com o mesmo cumprimento de onda, não é dia. A Vera abre a porta de camisa de noite, enrolada num roupão azul-bebé que a faz parecer um delicioso chouriço. - Só com essa merda em cima é que consegues parecer gorda. Sempre gostei mais de a ver assim, íntima e desprotegida do que de saltos altos ou lingerie sexy. Quando um homem gosta mesmo de uma mulher, gosta tanto mais de a olhar quanto mais ela está próxima daquilo que é. As mulheres não percebem isto porque mesmo na maior intimidade continuam a arranjar-se. Mas se calhar não é para nós. É para elas. Tem a cara inchada e os olhos papudos, como se tivesse passado a manhã a chorar. Nunca a vi assim triste, insegura, despida da sua capa de mulher perfeita e bem sucedida que, com mais ou menos convicção, sempre me quis vender. À minha frente tenho outra vez a Vera que conheci com 16 anos, de ramelas nos olhos e o nariz a fungar, o olhar perdido e o passo hesitante de uma miúda que nunca quis crescer. Deixa-se cair no sofá com um ar exausto e pergunto-lhe o que se passa, embora já tenha adivinhado o que se passou. - Sou tão estúpida! Tão estúpida! Como é que me deixei enrolar nisto? - Queres contar-me o que se passou? Levanta-se e começa a andar de um lado para o outro, aleatoriamente, sem rumo.


- Nem penses nisso! Era o cúmulo da ironia, eu pôr-me agora a chorar no teu ombro por causa de outro gajo, não achas? Já bem basta o que chorei por tua causa no ombro de outras pessoas! Que diabo!, não posso passar a vida nisto, qual Maria Madalena. Levanto-me e ponho-me em frente dela, com as mãos pousadas nos seus ombros. - Ouve Vera, nós somos muito mais do que aquilo que em tempos fomos. A nossa relação ao fim de todos estes anos, é feita de muitas coisas, de amor, de amizade, de cumplicidade, de proximidade, de solidariedade, de carinho, de uma data de coisas que se combinam e que fazem com que possamos contar um com o outro, independentemente de tudo o que se passou entre nós. Tu és a pessoa mais próxima de mim, quer queiras ou não, e eu sou provavelmente a pessoa que te conhece melhor. Sei o que tu sentes, do que é que tens medo, o que é que te inspira e te motiva, o que é que te assusta e o que mais queres. Conheço-te por dentro e por fora, cresceste comigo, fazes parte da minha vida e mesmo que nunca mais nos víssemos, nada nem ninguém me poderia tirar o que temos. Abraço-a com a mesma ternura com que abraço a Teresinha quando tropeça no jardim e se aninha a seguir no meu colo em busca de protecção. Se calhar é isso mesmo que sinto pela Vera. Um laço familiar, quase visceral, um laço que nem uma eternidade conseguiria apagar. - Não tenhas pena de mim, João, por favor não tenhas pena de mim. É a pior coisa que se pode sentir por uma pessoa. - Não penses nisso. Eu preocupo-me contigo, mas não tenho pena. Só tenho pena que esse cabrão não saiba dar valor a uma pessoa como tu. - Tu também não soubeste - responde baixinho, com a cara encostada ao meu braço, à espera que eu não oiça ou finja que não oiça. - Não, eu apaixonei-me por outra pessoa, mas nunca deixei de ser teu amigo. - E eu também, não percebes? Ele também se apaixonou por outra pessoa. Porra, o que é que eu tenho de tão errado que os homens de quem gosto se apaixonam sempre por outras mulheres? - Então e o Tiago? - O Tiago não conta, era um erro à espera de vaga, não percebes? Um erro à espera de vaga. Esta é fabulosa. Vou ver se não me esqueço. - Se Calhar não és tu, são eles. - O que é que queres dizer com isso? - Quero dizer que tu és perigosa, representas uma ameaça para qualquer homem. Não aparentas nenhum defeito, nenhuma fragilidade e os homens


desconfiam das mulheres perfeitas. Além disso és independente, fazes o que queres, tens algum mau feitio e dizes tudo o que te passa pela cabeça, isso assusta qualquer um, porque fazes-lhes sentir que nu fundo não precisas deles para nada. - Estás a dizer-me que afugento os homens? - Estou a dizer-te que não correspondes ao padrão regular da mulher portuguesa a que os homens estão habituados e que eles têm alguma dificuldade em lidar com isso. - Mas tu sabes que quando gosto de alguém, faço tudo por essa pessoa, até demais. - Então deve ser o demais que está a mais. Conta-me lá o que se passou com o Manel? - Apaixonei-me por ele, mas ele não se apaixonou por mim. Ele é uma pessoa fechada, um tipo difícil... - Não há homens difíceis, Vera. Acredita em mim. As mulheres são difíceis por natureza, os homens não. Não existem homens difíceis, ou disfarçam muito bem ou não têm ponta, são apáticos. Aquilo que as mulheres tomam por indiferença não é mais do que falta de iniciativa. Ou então são tão orgulhosos que viram a cara. E na maior parte das vezes são apenas confusos, acham que aquilo que sentem não pode ser aquilo que racionalmente devem querer e baralham tudo, percebes? - Também podem simplesmente não gostar. - Como não gostar? - Não gostar. É óbvio que o Manel não gostou de mim. Entusiasmou-se, mas não gostou. E não gostou porque gosta de outra mulher. - Não acho tão linear quanto isso. Se calhar começou tudo depressa demais para o ritmo dele. Eu conheço-te. Conheceste-o e começaste logo a andar com ele, não foi? - Como é que sabes? - Eu sei como tu és. Comigo foi a mesma coisa. Mas era diferente. Eras uma miúda e eu também ainda não era propriamente um adulto. - Deves ter confundido rapidez com facilidade. Vocês confundem sempre as duas coisas. - Ou então começou a gostar e viu que não ia poder controlar a situação, por isso afastou-se antes de perder totalmente o controlo. - Que estupidez! - Estupidez para um homem é perder o controlo, não percebes? Os homens vivem na ilusão de que mandam, fogem de situações que não


dominam como o diabo da cruz. Esse tipo tem, como todos os homens, um problema de controlo. Ainda para mais com os antecedentes complicados que tem. - Do que é que estás a falar? Sentamo-nos os dois nu sofá conto-lhe que o João é filho da Isabel e do meu pai, o que faz dele meu meio-irmão. A Vera ouve tudo em silêncio, com um ar completamente atónito, sem disfarçar a estupefacção. Levanta-se e anda de um lado para o outro enquanto me ouve, passando as mãos pelas têmporas e levantando o cabelo, num gesto mecanizado e repetitivo. Está chocada e surpreendida. - Mas ele é um tipo tão bem-educado, tão civilizado. Tu tinhas que ver a casa dele, tudo impecável com imenso bom gosto, bons móveis, bons quadros, gravuras antigas, como se soubesse o que é bom desde pequeno, percebes? - Se calhar aprendeu depressa. Deve ser um tipo inteligente, senão não te tinhas apaixonado por ele. E depois, o bom-gosto também tem um lado inato e genético. A Isabel é uma óptima pessoa. Ele não tinha a quem sair mal-educado, a não ser que fosse beber alguma coisa ao Adérito, que é um tipo inconcebível. - Tens razão. Que estupidez da minha parte. A nobreza está na alma, não tem a ver com as origens. Mas explica-me lá o que se passa. Conto-lhe a minha conversa com o Adérito e que preciso de saber o que é que fez com que o meu pai vendesse a Herdade das Gafas por um preço dez vezes abaixo do valor real. - Mas não percebes que não te posso ajudar? Ele nunca mais me vai telefonar. - Claro que vai, Vera. Claro que vai. O que é que ele te disse antes de te vires embora? A Vera conta-me a conversa sobre a Marta, o passeio à beira do rio e a conversa das pedras e da muralha fernandina. Há gajos cá com uma lábia que deviam ser condecorados. Bolas, é preciso ter lata. Lembro-me imediatamente do Ramón, um amigo meu espanhol, que andou comigo em Boston e quando via o Guido, o italiano mais garanhão do grupo lá do campus a sacar miúdas umas atrás das outras, comentava com raiva: me encantaria ser un cabrón. Era o que me apetecia agora, ser um grande cabrão. Pegar-lhe ao colo, levá-la para a cama e amá-la como tantas vezes fiz quando era ainda uma miúda, sabendo que no dia seguinte nem sequer lhe iria telefonar. Mas isso era dantes. Agora gosto demasiado dela para lhe fazer uma coisa dessas. Afasto a ideia do espírito com pouca convicção e sugiro-lhe irmos à tasquinha da esquina comer qualquer coisa. A Vera desaparece para o quarto, veste-se em dois minutos e regressa penteada e aparentemente calma.


- Então, recapitulando: queres que a próxima vez que estiver com ele lhe saque a história toda da compra da herdade, não é? - Se conseguires e se quiseres, claro. - Bem, é um bocado sacana da minha parte, mas até me dava um certo gozo, sobretudo depois do que ele me fez. - Tu és a única pessoa que me pode ajudar neste processo, Vera. Mas se vês que não consegues... O olhar dela ilumina-se. - Não te preocupes. O cabrão andou a brincar comigo. Eu vou sacar a história toda, ou não me chame Vera - respira fundo, dá mais uma garfada e comenta, sorridente -, isto é só o tempo de ir ao fundo da piscina e voltar. Este bitoque da tasquinha é imbatível, não achas?


XVIII Regresso a casa em silêncio, mais uma vez ausente de mim próprio, depois de ter deixado a Vera na estação. Partiu apressada, sem se despedir, como se não quisesse deixar nada para trás. Voltei para o carro depois de a procurar com um derradeiro olhar por entre os vidros das janelas do comboio. Não me viu, caminhava com ar determinado pelo corredor da carruagem, carregando o saco de fim-de-semana que parece sempre demasiado pesado para ela. De novo em casa, recolhido no meu solitário aconchego, fecho os olhos para me lembrar do seu corpo esguio, da boca ansiosa, dos olhos a pedirem-me em silêncio que a ame. Como se isso se pudesse pedir a alguém. A nossa relação nunca iria resultar, quanto mais a conheço, mais me convenço disso. Há demasiadas diferenças que nos aproximam e semelhanças que nos afastam. A mesma determinação, o mesmo hábito de controlar as relações, a mesma ambição, a mesma sensibilidade, a mesma argúcia, a mesma inteligência. Outra cidade, outra educação, outro passado, outra forma de estar. Uma vida mundana que não me agrada. Toda uma vivência, um passado que não conheço, não controlo e nem me interessa. Aquele namorado idiota que me fez a cena dos berloques. Como é que andou com um imbecil daqueles? Sem contar com o que não conheço da vida dela. A facilidade com que se deitou na minha cama assusta-me. A facilidade com que se entregou ainda me assusta mais. Não a sinto segura, sensata, equilibrada, tudo me parece pouco reflectido e inconsistente, tão firme como uma espiga que se inclina ao sabor do vento. Há qualquer coisa na sua sinceridade que me faz desconfiar dela. Aquela necessidade de ter sempre tudo muito clarificado, como se aquilo que se sente não pudesse ser confuso e ambivalente, como se houvesse apenas uma verdade. Não há uma verdade, há verdades. A verdade deixa de ser verdade logo que mais do que uma pessoa acredita nela. Sei que não a amo, embora o desejo permaneça e não me queira desligar dela, sinto-me preso como a um vício, ela seduz-me, fascina-me, desafia-me intelectualmente, o corpo prende-me, a voz prende-me, a forma como se deixa levar nos meus braços quando dançamos faz-me sentir que vale a pena tê-la na minha vida, mas assusta-me o seu feitio impulsivo, a pressa, a impaciência. Não tem a ver comigo esta falta de calma, o desassossego, a ansiedade, o querer tudo de uma vez e exigir-me coisas que não


se pedem. Foi-se embora chateada comigo como se não me tivesse portado decentemente, quando fiz a única coisa decente que me era possível: contar-lhe a verdade sobre a Marta. Qualquer outro gajo teria provavelmente mantido as duas histórias paralelas, seria muito mais fácil e cómodo para todos. Não sei o que quero, mas sei que a Marta nunca chegou a desocupar o lugar que sempre lhe guardei e agora que a vejo regressar à minha vida e a deito de novo na minha cama e a tomo nos meus braços, sei que é ela que quero. A Vera devia saber aceitar o que sinto, devia afastar-se como se lhe tivesse feito promessas de um futuro que nunca imaginei, ou se imaginei já não me lembro. São quase cinco horas e telefono à Marta. De novo o coração bate-me dentro do peito só de pensar que a vou voltar a ver, como quando tinha dezassete anos e trepava pela hera para lhe entrar no quarto e amá-la horas e horas seguidas. São cinco e pouco quando chega. Sem querer falarmos deito-a na cama e fazemos amor durante horas a fio, como se quiséssemos recuperar todos os anos perdidos no silêncio e na ausência. Amo-lhe o corpo, o cheiro, o cabelo, amo-lhe a cara, a boca, os olhos, amolhe as mãos, as pernas, o peito e o sexo, amo-lhe o coração e a alma. E quando paramos de nos amar são onze da noite e a Marta parte apressada, preocupada com o filho, com sentimentos de culpa, por não ter estado com ele, por se ter entregue nos meus braços, diáfana, fugidia, etérea como só ela. Às vezes penso que sou apenas uma terapia, que não sirvo para mais nada, um objecto vivo para colmatar carências e maus tratos. Talvez a Marta me use como eu uso a Vera, mas não me importo de ser usado. Depois de Domingo, a Marta não voltou a dar notícias. Liguei-lhe no dia seguinte, tinha o telefone desligado. Deixei recado e esperei que me retribuísse a chamada. Mas a Marta faz sempre o contrário daquilo que é normal. Não me telefonou nem voltou a aparecer. Tenho vontade de a ver, de a agarrar de novo, de a proteger, de lhe dizer que esta reaproximação ao fim de tantos anos significa que ela entrou outra vez para a minha vida sem nunca ter saído do coração, mas não posso falar com quem não me quer ouvir. As sequelas da separação turbulenta secaram-lhe o coração, não gosta de mim nem de ninguém, está perdida, e quando uma pessoa está perdida, nunca consegue encontrar um rumo, mesmo que lhe ponham à frente setas luminosas. A Marta sempre foi assim, alheia e complicada, ausente na presença, perdida dentro de si mesma, nunca soube o que queria e a prova disso é o caos da sua vida, dois cursos deixados a meio, uma paixão por animais que a seduziu para tirar veterinária, para desistir a meio do segundo ano, por causa da queda para as artes que a levou para o curso de pintura. Finalmente


um vago interesse por crianças que a pôs a trabalhar num jardim infantil até o filho nascer e perceber que afinal o que queria mesmo era ser mãe e tomar conta dos seus próprios filhos. Comparo-as e quase tenho pena de não amar a Vera, que, com todos os seus defeitos, sabe o que quer, para onde vai, que caminho seguir consoante os seus objectivos. Do aplauso nasce o amor, costuma dizerme, como sinónimo do amor que tem por mim, uma mistura de orgulho e admiração, alquimia perfeita de corpo e espírito. Partilhei com ela momentos inesquecíveis e quando olho para trás e revivo o pouco tempo que passámos juntos, sinto que às vezes o menos é mais e vejo como foi importante tê-la por perto e poder possuí-la, não apenas como mulher, mas como espírito. O que não se compreende não se possui, é por isso que a Vera não me percebe, apesar de eu a perceber. Não devia desistir dela, damo-nos bem em demasiadas coisas e, tal como ela me disse uma vez, são as diferenças que nos aproximam, se as soubermos gerir. Já passaram três dias que a Vera cá esteve e de repente apetece-me telefonar-lhe e medir a proximidade. É fim da tarde e a luz cai sobre o rio enquanto guio para casa ao som de uma cassete que ela me ofereceu, onde o Tony Bennett, a Ella Fitzgerald cantam a melhor colecção de melodias de amor que ouvi em toda a minha vida. Se não fosse a Vera, ainda ouvia a Idade da Inocência. Claro que continuo a ouvir, mas já não é a mesma coisa. Já nada é a mesma coisa desde que ela entrou na minha vida e a virou do avesso, qual bola de neve incontrolável. Ligo-lhe para o telemóvel e responde-me uma voz surpreendida e feliz por me ouvir. Falo-lhe docemente, como é meu hábito, e percebo imediatamente que ela continua presa a mim como sempre esteve, desde o primeiro instante em que me cruzei com ela na sala de espera do banco. Falamos um pouco de tudo, pergunto-lhe o que tem feito, como é que está e sinto-a mais próxima do que nunca, como se a conversa que tivemos no Domingo à tarde, enquanto caminhávamos pela margem do rio com o Porto a enfeitar-nos os olhos, só tivesse sentido quando acabou e lhe disse que não me afastaria dela, porque faz parte da minha vida. Faço-lhe das minhas preocupações e das nossas diferenças, daquilo que nela me assusta, e me faz recuar. Mas a Vera não conhece o significado de palavras como prudência, moderação, desconfiança. Para ela é sempre tudo tão fácil que nem parece verdade. - Tu buscas a perfeição em tudo, Manel, para ti o mundo que te rodeia, tem que ser feito à tua medida, e como não encaixo nele, não sabes o que hás-de fazer comigo, não é verdade? Mas não vais encontrar a perfeição se andares só à procura de imperfeições. Não penses demasiado, sente antes de pensar e age


em função disso. Se Deus quisesse que fôssemos só cerebrais, não nos tinha dotado de alma, não achas? A pouco e pouco deixo-me embalar pelo seu tom de voz, como uma serpente ao som de uma flauta experiente e manipuladora. Mas a Vera não é manipuladora, apenas luta pelo que quer e isso seduz-me. Pressentindo a minha fragilidade, convida-me para ir passar o próximo fim-de-semana a Lisboa, tem bilhetes para um concerto e quer a minha companhia. Reflicto um ou dois minutos, enquanto desvio a conversa para trivialidades e termino o telefonema dizendo-lhe que chego sexta à noite. Quando carrego no botão para terminar a chamada, invade-me uma alegria infantil que me dá vontade de subir a uma árvore ou passar uma tarde a jogar futebol. Passo os dois últimos dias da semana com lições de golfe às sete da manhã e a trabalhar o dobro do que é costume para poder sair na sexta à tarde, sem deixar nada pendurado. Marquei com o meu agente imobiliário de Lisboa para ir a Sintra para ver uma quinta que ele acha que pode ser um bom investimento. Não tenho razão nenhuma para comprar uma quinta nos arredores de Lisboa, mas também nada me impede de o fazer e vale sempre a pena ver o que é que anda por aí no mercado. Podia estar em casa sem fazer nada, mas seria incapaz de não produzir, tenho a sensação que ficava estúpido num instante. Além disso, o trabalho no banco dá-me uma noção abrangente e actualizada do que se passa no mercado financeiro, além de saber o que é que o meu irmão anda a fazer com o dinheiro da família. Não que pense em reclamar aquilo a que por lei teria direito. Sou um homem de palavra e o que foi combinado com o tio Adérito foi a minha renúncia a tudo, incluindo o pedido de reconhecimento da paternidade em troca da herdade. O meu pai fez o pior negócio da vida dele e eu garanti o meu futuro. Logo depois de a ter comprado tive várias propostas para a vender, mas para quê? Cada ano que passa, valoriza sempre mais e com o dinheiro das tiragens anuais, faço outros investimentos. Se tudo correr bem, vou alcançar um milhão de contos antes dos 40, além do património que vai crescendo. Qualquer dia compro o barco. Até já podia comprar, mas quero fazer tudo bem feito. Não se gastam quase quarenta mil contos sem ponderar os prós e os contras. Talvez antes do barco ainda compre um apartamento à minha mãe e a mande vir para o Porto. A vida inteira a trabalhar para aquela gente, já chega. Mas tem que ser tudo feito com calma, com muita calma. O João andou a fazer perguntas ao tio Adérito, não me agradou a ideia. Mesmo assim, e para que nunca me possa acusar de lhe ocultar dados e documentos, enviei-lhe no dia


seguinte por correio uma fotocópia da escritura da compra da herdade. Quarenta mil contos! Coitado do velho, deve-lhe ter custado engolir o sapo, mas cada um paga caro os erros que comete, e mais vale que seja ainda nesta vida, porque na outra ninguém faz ideia como é que se passam as coisas e quem sabe se Deus, na sua magnitude, não acabava por lhe perdoar. Nunca conheci o meu pai. Apesar de a minha mãe ter várias vezes tentado apresentar-mo, o cabrão do velho dizia que aparecia e depois nada. A pior vez de todas, aquela em que mais sofri, foi no fim-de-semana em que fiz 12 anos. Combinou que me vinha buscar, para nos conhecermos. Sentei-me nas escadas da entrada do colégio à espera. Esperei o dia inteiro. Ali sentado imóvel, sem sequer mover um dedo, com medo de que o mínimo movimento interferisse na sua vinda. Depois comecei a chamar baixinho, pai, pai, pai... Estava convencido que devia ficar ali quieto, à espera, para não o desviar da sua rota. Não apareceu. Telefonei à minha mãe, com toda a calma que consegui, e depois fechei-me no quarto. Ninguém me viu chorar ou ouviu os meus gritos de raiva. Aprendi a dominar as minhas fraquezas perante os outros, a nunca, em circunstância alguma dar parte fraca. Treinei o orgulho e a discrição a partir desse dia e tomei-os como traços de carácter indissociáveis da minha postura. Aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes, diz tantas vezes a Vera, diz que foi a Maria que lhe ensinou, mas antes de ela me ensinar, já tinha aprendido à minha custa. No dia seguinte a minha mãe veio-me buscar e a partir daí nunca mais perguntei por ele nem o quis conhecer. Aquilo que não nos mata às vezes também nos mata de outra forma e o meu pai matou a minha capacidade de acreditar nas pessoas. Cobarde. Cobarde e desumano. Um filho é um filho, como é que um homem que tem um filho se recusa a conhecê-lo? Eu fui o quarto, antes de mim nasceram três legítimos, mas mesmo assim, cada vez que penso nisso odeio-o mais e odeio a minha mãe que pôs sempre à frente do filho o amor cego e idiota por um homem que sempre se serviu dela e nunca a amou. Mas há mulheres assim, estóicas e obstinadas, que preferem um amor falhado a nenhum amor, como se morressem se não pudessem amar. Talvez a Vera também pertença a esse tipo de mulheres, as que amam compulsivamente, as que amam por amar, que amam mais o próprio amor do que o objecto amado. Nunca acreditei em amores-relâmpago, acabam tão depressa como começam, basta um sopro, uma palavra, um desentendimento para os destruir. A pressa é inimiga da consistência, da verdade, da perfeição.


Sei que não se encontra a perfeição na busca de imperfeições, mas evito tudo o que não me parece cem por cento correcto e controlado. Uma mulher como a Vera pode mudar a vida de um homem para sempre, e eu não quero mudar a minha em absolutamente nada. Ou talvez queira, mas a única mudança que desejo tem a ver com a Marta e a Marta continua desaparecida. Provavelmente porque não quer que eu faça parte de nenhuma mudança significativa na sua vida. Ironia pura. Eu aqui a pensar numa mulher que não me ama e sem saber o que fazer de outra que daria tudo para que eu a amasse. Uma mulher que aparentemente tem muito mais a ver comigo do que a Marta, com quem eu podia construir a minha vida com base num entendimento difícil, mas possível. Além disso, que interesse teria se fosse fácil? Mas a vida é isto, é sempre isto, é inevitavelmente isto, o que é preciso é perceber exactamente o que se passa. É a única forma de não perder o controlo da situação. Até Deus se enganou, quando criou para Adão uma mulher com cabeça e ideias. Lilith deixou-se seduzir pelo Diabo e foi rapidamente retirada da história. Depois dela, só uma Eva saída de uma costela, fácil de controlar, que mesmo assim arranjou forma de envolver Adão numa boa trapalhada com o episódio da maçã. As mulheres são tanto mais perigosas quanto inteligentes, mas é necessário um número infindável de mulheres estúpidas para se esquecer uma mulher inteligente. Tudo começa na cabeça e o amor não é excepção. Se eu conseguisse amar só com a cabeça, seria o paraíso. Quando perdi a Marta, perdi tudo. A vontade de dormir, de comer, de viver. Depois de uma semana fechado no quarto sem falar com ninguém, peguei em todos os presentes que a Marta me tinha dado, as cartas, as fotografias, os bilhetes de comboio e os pacotes de açúcar escritos a letra de colegial, amo-te, amo-te, amo-te, meti tudo dentro de uma mala, caminhei até meio da ponte D. Luís e, com o coração a estoirar-me o peito, atirei a mala pelo ar. Fiquei ali, transido pelo frio e pela chuva miudinha que caía nessa tarde cinzenta e gelada de Dezembro, as pessoas passavam por mim mas eu não via nada, o motor dos carros era um zumbido perdido e distante no meu cérebro desligado, não tinha mãos, nem corpo, nem pés, nem cara, só olhos para ver a mala, perdida nas águas agitadas do rio, descendo em direcção à Foz, levando a minha alma lá dentro, e com ela o meu amor pela Marta, os meus sonhos com a Marta, a minha vida com a Marta e aquela sensação de perda irreparável, de vazio imenso e profundo, de raiva contida por ter perdido tudo o que era importante e a determinação de nunca mais voltar a cometer os mesmos erros, nunca mais voltar a dar-me a uma mulher.


A Vera não tem culpa, nenhuma das mulheres que quis amar a seguir à Marta e não consegui tem culpa, mas mais uma vez só estou preparado para abrir a minha alma a uma mulher, à primeira que me rasgou o peito e me fez sentir feliz. Parto para Lisboa alheado de mim mesmo, como tantas vezes ando, num mecanismo que se transformou num reflexo condicionado. Um esquema de autodefesa perante o meu próprio coração, que começo a querer desmontar, esperando que nos braços da Vera possa descobrir qualquer coisa de novo, qualquer coisa de diferente, resgatar a ternura há tanto perdida, mergulhar num sono profundo e descansado depois da entrega, essa entrega da qual a Vera tanto fala e da qual já esqueci há muito o sabor. Quando o meu pai morreu não quis ir ao enterro. E nunca pisei o cemitério para visitar a sua campa. Ele nunca existiu enquanto estava vivo, para quê conviver com a sua imagem depois de morto? Reneguei-o para sempre, renunciar à sua herança fez parte do meu processo de rejeição. Não quero ter nada a ver com aquela gente podre e mal preparada para a vida, não quero conhecer os meus irmãos, não quero sequer pensar que sou filho de um homem que sempre tratou a minha mãe como uma criada, que nunca teve um gesto de generosidade ou nobreza, ele que era todo títulos e brasões. A nobreza está na alma, ou se nasce com ela ou nunca se ganha, é um traço de carácter não um atributo postiço. A única coisa que me faz alguma pena é não conhecer o meu irmão João. Tem de ser um tipo com algumas qualidades para a Vera se ter apaixonado por ele. Ou talvez não. Talvez seja apenas mais um menino filho de pai rico com o nariz no ar e a barriga cheia. Mas paciência. Paciência e calma nunca me faltaram. Coisas que a Vera nunca terá, coitada. Já estou a poucos quilómetros da entrada de Lisboa, é fim da tarde e faz-me falta a luz do Porto, as estradas do Porto, a Foz e o Douro. Não sou daqui, só venho cá de passagem, para fugir ao silêncio da Marta, à indiferença da Marta, ao seu alheamento intransponível. Tenho à minha espera uma mulher excepcional em qualidades e defeitos, uma mulher que me ama e espera que lhe dê alguma coisa em troca. Mas não tenho nada, nada, estou vazio, perdido, esquecido de mim mesmo, há demasiado tempo mergulhado nesta não-existência confortável e doce da qual não quero abdicar. Pelo menos assim é mais fácil viver.


XIX Ele está a chegar, fecho os olhos e vejo-o a guiar pela auto-estrada demasiado depressa, sempre demasiado depressa, guiar é a única coisa que faz depressa, só guia devagar quando está preocupado. Deve-lhe ter ficado dos karts quando era miúdo e passava a vida nos campeonatos que obviamente ganhava, ganhava quase sempre, o suficiente para se consagrar campeão até que a Marta o desvia para outras corridas. Deve ser daí que lhe ficou o vício de acelerar, de voar sempre pela faixa da esquerda, de ultrapassar mais de dez carros seguidos para depois travar a fundo mesmo em cima do risco, com um carro a menos de um metro à frente, o outro carro na faixa certa e o dele na errada, mas sem medo, sem susto, nem sequer o mais leve temor, como se não se importasse se a vida terminasse naquele segundo e o que viesse depois não fosse mais que uma viagem eterna e essa sim, certamente lenta, muito lenta, a viagem das almas quando se soltam dos corpos e vagueiam na eternidade. À velocidade a que anda, vai chegar em menos de duas horas e meia, duas horas e meia passam num instante, são seis da tarde e saiu agora do Porto. Regresso a casa com o coração numa algazarra ensurdecedora, parece a bateria de uma escola de samba, tuntum, tuntum, tuntum, o trânsito está um inferno, o Jorge está insuportável, o novo número da revista do BIP está pronto, um mimo, com aquela reportagem sobra a sede do Private Banking na Avenida da Boavista e se não fosse a reportagem, não estava agora a caminho de casa, ensurdecida com o meu próprio coração, à espera de um homem que não tem nada para me dar a não ser hesitações e dúvidas, que tem medo daquilo que sente e que quer, que prefere sempre pensar com a cabeça, como se a cabeça valesse alguma coisa sem coração, como se pensar fosse tão vital à sobrevivência como sentir. Mas o Manel é demasiado cartesiano para perceber o que lhe tento explicar e quando lhe digo que não há relações perfeitas e que a perfeição não existe, sei que são inúteis as minhas palavras, que vive demasiado viciado no seu equilíbrio para, de alguma forma, por mais inofensiva que seja, o pôr em risco. Sei que com ele não tenho nada a ganhar, que não posso nem devo investir numa relação que não tem qualquer futuro, primeiro porque ele não gosta de mim, segundo porque não quer investir, terceiro e mais importante porque gosta de outra mulher e é a essa ideia a que tenho de me habituar, doa o que doer, doa o tempo que tiver de doer. A dor afasta a dor, aprendi isso há


muito tempo, quando ainda não tinha 20 anos e me deixava ir com o primeiro que aparecia cada vez que o João me rejeitava e me apaixonava de propósito pelo substituto para esquecer a dor maior. A dor voluntariamente inflingida em cima da anterior relativiza-a, atenua-a, tira-lhe força e sentido. No fundo é uma defesa como outra qualquer. Talvez me tenha viciado nesta forma estúpida, desgastante e estéril de viver, mas não consigo parar, para mim a vertigem está em ficar quieta, em não sentir, em acordar de manhã e pensar que a minha vida é cheia de nada porque não amo ninguém. É por isso que continuo a entregar-me, confiando mais no meu instinto do que no meu bom senso, tão fraco e escasso, coitado, atenta ao coração e surda da cabeça. Se o amor fosse racional, encontrávamos todos a pessoa certa, bastava criar um formulário com a lista das qualidades pretendidas e defeitos indesejados e distribuir cópias, depois recolhê-las e seleccionar quem errasse menos, como nos exames de código para a carta de condução, como faz a Patrícia e afinal tanta gente. Nunca usei o formulário, embora tantas vezes o tenha elaborado secretamente, rindo-me da minha própria estupidez. Não quero uma pessoa feita à minha medida em que tudo encaixe como uma luva, quero alguém suficientemente igual para me dar conforto e suficientemente diferente para que eu tenha sempre alguma coisa a aprender. E o Manel tem essa combinação alquímica de cabeça e corpo, sensibilidade e bom senso que me seduzem e me fazem sonhar com ele na minha vida nem hoje nem amanhã mas sempre e para sempre. Amar também é não saber porquê, deixar-se ir. Enquanto amo um homem ele vive dentro de mim, viaja comigo, faz-me sonhar, olho o mundo e vejo-lhe melhor os contornos, os sons apuram-se, estou atenta, sinto-me viva e que vale a pena viver. A dor afasta dor, mas é melhor doer do que não sentir nada. Como o Afonso que consome carne humana sem alma, que nunca se entrega e anda, sem saber, sempre à procura de si mesmo. Ou como o Manel, que teme aquilo que deseja, que impõe a si mesmo barreiras intransponíveis que só existem na cabeça dele para não alcançar o que afinal está ali mesmo à mão, acessível, próximo, possível. Prefiro a dor ao vazio, ao lago estagnado, ao deserto sentimental, ao luto emocional. Prefiro a dor, que dia após dia acaba por se esvair até não ficar mais do que um monte de cinzas e recordações ténues. Passo os olhos pelo caderno onde quase todos os dias escrevo cartas ao Manel. Não me canso de lhe escrever, mesmo sabendo que são cartas de gaveta, que nunca conhecerão envelope nem destinatário. Escrevo o que me vai no coração e o coração tem sempre voz e coisas para dizer.


O mais provável é o meu destinatário nunca saber da existência das cartas. Mas o meu coração é o meu escudo. Enquanto ele bater, está tudo bem. É o meu coração que me faz sonhar e que, como o tempo, há-de fazer de mim uma pessoa melhor. Chego a casa e preparo um banho de imersão. O vapor inunda a casa de banho de nevoeiro e o cheiro da espuma de banho espalha-se no ar. O coração continua a bater mais alto e mais depressa do que aquilo que seria recomendável. Se não me acalmar, estarei completamente exausta quando ele chegar. A eterna gestão das expectativas. Já devia ter aprendido a não esperar nada das relações. Se assim fosse, tudo o que viesse, viria por bem. A cada minuto que sinto o Manel a aproximar-se, galgando a distância à velocidade da luz, sinto-o mais distante, como se estivesse a fazer o percurso inverso. Se tivesse alguma capacidade estratégica, não o tinha convidado para vir ter comigo, mas fui outra vez precipitada, fui outra vez óbvia e vou pagar por isso. O Manel pertence ao tipo de homens que precisa que lhe dêem para trás para dar valor ao que tem e não sei nem quero aprender a jogar esse jogo. Prefiro perdê-lo à partida, aceitar uma derrota por falta de sentido táctico, do que lutar de uma forma em que não acredito. Se uma relação precisa deste tipo de artifícios e jogos logo no seu início, então do que é que vai precisar no futuro? De nada, porque não tem futuro. E o pior é que também não tem presente. Só existe um embrião de um sonho que se vai esfumar antes de se desenhar, como um balão que rebenta antes de se ter acabado de encher. O som do telefone traz-me de volta à realidade. É o Afonso. Quer saber como estou, ficou preocupado quando fomos jantar no outro dia à Bica do Sapato. Tento disfarçar, dizendo-lhe que o Manel vem a caminho e, sem querer, acabo por combinar um jantar com ele e com a Patrícia para amanhã à noite. Quando desligamos, já me arrependi, o meu instinto diz-me que estou a cometer uma imprudência se juntar a Patrícia com o Manel, ou será que estou tão insegura que me deu para ficar paranóica? Pouco tempo depois saio do banho, enxugo-me com lentidão e perfeccionismo de gueixa no roupão, espalho creme hidratante por todo o corpo e pela cara, dou ao cabelo molhado uma massagem que me alivia e me faz sentir mais leve e começo a dança das roupas, que é aquilo que uma mulher faz quando está insegura ou confusa; em vão experimento várias combinações de saias com camisolas, camisas com calças, num esforço militante mas pouco eficaz de encontrar a combinação ideal. Acabo por vestir uma saia azul-escura e uma camisola azul-clara colada ao corpo. O


Manel gosta de me ver de azul-claro e nunca fica indiferente às minhas pernas, assim estarei bem com certeza. Quase uma hora depois, o telefone toca outra vez. É o Manel que está a estacionar e já não se lembra do número da porta. Que pontaria, agora que acabei de me arranjar. Olho-me pela milésima vez ao espelho. Não estou bem nem mal, estou nervosa. Nervosa e triste. Mas heide me aguentar. O melhor é não esperar nada e tudo o que vier que venha por bem. O Manel chega impecavelmente arranjado, com um saco de cabedal daqueles com ar de que custaram os olhos da cara e dá-me um beijo leve e afectuoso. No fundo da sua indesmontável fleuma, noto-lhe um brilhozinho nos olhos. Está contente por ter vindo. Observo-o com a maior objectividade que me é possível e não consigo perceber o que é que vi nele para perder a cabeça. Não é o meu género, nem fisicamente, nem na sua forma de ser e estar. É formal e cerimonioso, liga demasiado a bens materiais para o meu gosto e vive demasiado para o culto da sua própria imagem. Se calhar apaixonei-me por ele porque estava a precisar de me apaixonar por alguém, porque precisava de limpar de vez o João da minha cabeça e do meu coração. Apaixonei-me pela sua inteligência e argúcia, mas não pelo seu feitio meticuloso e perfeccionista. Ou, sem saber, fui ainda mais básica, mais instintiva e vi nele outra vez o João. O João, sempre e ainda o João na minha vida. Mesmo quando penso que o esqueci, é só porque me apaixonei por um homem que por acaso é meio-irmão dele. Também é preciso ter pontaria. Puta de vida, é preciso ter azar. E com esta mania que tenho de gostar de coisas difíceis, não há dúvida que me meti numa das boas. Apaixonada pelo meioirmão do homem que mais amei em toda a minha vida e que por acaso está apaixonado por outra mulher. A história da Marta está a dar cabo de mim. Faz-me sentir diminuída, reduzida a uma insignificância que não quero. Não há mulher nenhuma que goste de ser posta em segundo plano em favor de outra. Entre as mulheres há poucas coisas mais apuradas do que o sentimento de competição. Mas ainda o desejo na minha cama, ainda sonho com o seu corpo a pesar em cima do meu, ainda me apetece senti-lo dentro de mim como se de alguma forma, por alguns momentos me pertencesse, me amasse e me quisesse para ele. Deve ser essa a magia do acto sexual. A sensação de pertença, a posse transformada em temporária propriedade, a certeza efémera da proximidade inquebrável, da união de corpos que se encaixam como peças de puzzle. Só que o puzzle é uma utopia, somos nós que o inventamos, que o recriamos, que o tornamos real,


mesmo quando a relação não passa de uma equação impossível entre dois seres que nunca poderão inevitavelmente construir nada juntos. - Estás com um ar cansado, passa-se alguma coisa? - É sexta-feira, chego sempre assim ao fim da semana - respondo evasivamente. Falo-lhe do número da revista que está pronto e ele rasga elogios ao meu trabalho. Apetece-me contar-lhe que comprei um caderno onde lhe escrevo cartas, mas é ainda cedo, ou talvez já seja demasiado tarde, de qualquer forma não é este o momento. Em vez disso desvio a conversa para o jantar que combinei com o Afonso e a Patrícia para amanhã à noite, ideia que o deixa bemdisposto por voltar a ver o Afonso ao fim de quinze anos. Saímos pouco tempo depois para não chegarmos atrasados ao concerto da Gulbenkian. O programa é um dos meus preferidos: Rachmaninoff, o concerto de piano nº 2 de Tchaikovsky, o concerto nº 1. Um repertório perfeito para massas, tipo bestseller da música, mas quero lá saber. Há poucas coisas que me dêem mais gozo do que ouvir uma peça sinfónica da qual conheço quase todas as notas de cor. Chegamos no minuto exacto. Pouco depois, o pianista senta-se e deixo-me levar em cada nota, voo à volta da sala como uma borboleta cega, fecho os olhos e imagino-me na cama com o Manel, deitada em cima do seu corpo pequeno e proporcionado, balançando-me suavemente, as mãos entrelaçadas, os braços dobrados junto à cabeça, a minha boca a morder suavemente a sua, o seu olhar de menino pequenino quando se aninha junto ao meu peito e obedientemente segue o meu ritmo, tímido, discreto, perfeito como sempre foi, como sempre é, sem uma falha, uma hesitação, um passo em falso ou um gesto mal medido. Num reflexo instintivo passo a mão pelo pescoço, desço-a devagar até quase ao peito, as pontas dos meus dedos tocam a minha pele arrepiada. O Manel parece adivinhar o que sinto, como se esta onda de calor se tivesse colorido à minha volta e desenhasse anéis de desejo de todas as cores, olha-me intensamente e agarra-me a mão, desce-a e pousa-a no seu colo, fazendo pressão com a sua contra as calças, onde lhe sinto o sexo a crescer devagar. Regressamos a casa em silêncio, o Manel guia depressa, furando as ruas da cidade. Os deuses estão a nosso favor, um lugar mesmo à porta de casa aparece por milagre e antes de subirmos as escadas, começa a beijar-me apaixonadamente, enfia as mãos espalmadas e sequiosas por baixo da camisola. Depois, de repente, e sem me dar tempo para reagir, encosta-me contra a parede do fundo, debaixo das escadas, vira-me de costas e num gesto cirúrgico e preciso puxa-me as cuecas para baixo abre as calças e entra dentro de mim sem pedir licença.


Sinto-lhe o sexo a ferver, a pele a ferver, a boca a ferver encostada à minha orelha, as mãos a ferverem coladas ao meu peito que cresce. A minha boca cresce, o meu sexo cresce, o meu desejo cresce, não quero parar, não quero parar nunca e ele adivinha tudo o que quero, agarra-me o cabelo e puxa-me a cabeça para trás, acelera o ritmo enquanto repete em voz baixa o meu nome e diz quero-te, quero-te, quero-te. O tempo pára, o mundo pára, o barulho da rua pára, desaparece tudo, esfuma-se a existência, agora somos só um corpo e um espírito, ele dentro de mim, meu, só meu, para sempre meu enquanto esta eternidade durar. Sinto-o mais próximo do que nunca, como que a pedir-me que o deixe gostar de mim, que o deixe estar sempre e para sempre onde está, parte daquilo que somos e de tudo o que ainda queremos ser, sonho e matéria, desejo e vontade, corpo do meu corpo, carne da minha carne. Subimos as escadas devagar, cansados, desgrenhados, as pernas trememme de prazer, as mãos ajeitam a saia e o cabelo. Entramos e encostamo-nos ao balcão da cozinha a arfar, a respiração incerta e atrapalhada que quase sempre acompanha a paixão, que afasta o medo e as palavras. Ficamos ali uma boa meia hora, a beber copos de água uns atrás dos outros, com sofreguidão e cansaço, a olharmo-nos nos olhos sem que as palavras estraguem este estado de graça sempre único, sempre mágico e sempre irrepetível do amor feito em carne, cheiros e sabores. Passamos a noite em claro a conversar, aninhados nos braços um do outro e abro-lhe a alma e o coração, conto-lhe como me sinto triste e insegura com a nossa relação, mas o Manel está inundado por uma paz celestial, faz-me festas no cabelo e na cara, pede-me para ter calma e saber esperar porque nunca me desejou tanto como esta noite e nunca esteve tão próximo de mim. Falamos outra vez dos nossos medos e dúvidas, das infâncias e adolescências, daquilo que sentimos e não sabemos ainda explicar. O Manel abre também a sua alma e fala-me pela primeira vez da raiva que sempre sentiu pelo pai e pela forma como ele tratou a mãe. Fala-me da vingança planeada por ele com o tio Adérito para sacar ao velho Assis Teles a Herdade das Gafas em troca do anonimato da relação de paternidade e de como em pouco mais de dez anos quintuplicou a sua fortuna pessoal, enquanto o João anda a fazer contas à vida para salvar o que restou do património da família. Fala com uma mágoa gélida, assustadora, quase arrepiante. E conheço outro Manel, o Manel estratega e calculista, jogador e manipulador, frio, meticuloso e implacável, mas nem sequer isso me assusta ou me faz gostar menos dele. Mostro-lhe o caderno cheio de linhas escritas com as cartas cheias de amor que lhe fui escrevendo, mas ele não o quer ler agora, pede-me para o guardar


porque, talvez um dia o possamos ler juntos aos nossos netos e quero acreditar nas suas palavras, deixar-me ir nos seus braços como quando fiquei no Porto. E no dia seguinte, quando ele se levanta para afastar as cortinas do quarto e deixar entrar os primeiros raios de sol, não sei se estarei ao seu lado quando começar a perder cabelo, mas já não me importo, quero viver cada momento como se fosse eterno, adiar o futuro, esquecer que amanhã é outro dia, quero têlo nos meus braços durante o tempo que ele quiser e depois deixá-lo voar, deixar que o seu coração parta para sempre e não mais regresse. E então, e só então, poderei chorar o meu amor falhado, a minha paixão desperdiçada, o medo de ficar outra vez só, entregue a mim própria e a essa imensa solidão que é a das almas que buscam em vão uma companhia.


XX Às vezes perco a paciência para a Vera. Sempre tão séria, como se fosse dona de toda a sabedoria do mundo. Adora citações e tem a mania de se evidenciar. Já no colégio era a mesma coisa. A menina-prodígio. Tinha que ser sempre a melhor em tudo. Menos a matemática. Contas nunca foi o forte dela. Ao contrário de mim, que nasci com uma costela de Tio Patinhas. Deve ter sido de ter passado três anos sem comer bife do lombo, a viver numa casa liliputiana de três assoalhadas no Bairro da Encarnação, depois de regressarmos de Moçambique com uma mão à frente e outra atrás. Retornados, que palavra vomitiva. Deve ser a palavra que mais náuseas me provoca. Tínhamos uma vida porreira lá, mas com o regresso repentino a vida do meu pai nunca mais se endireitou. Ficou completamente apanhado, só falava em voltar para lá. Ainda hoje, fala naquilo como se fosse a terra prometida. Já foi, na geração dele. Agora, só se for para organizar safaris e apanhar um grande bronze. O resto é paisagem. A minha mãe, coitada, que nunca soube mais nada senão dizer ámen a tudo o que o meu pai dizia e fazia, foi-me avisando pelas costas: vê lá se arranjas um tipo melhor, filha, que o teu pai nem é mau, nem é bom, não presta para nada. Pelo menos para ganhar dinheiro nunca serviu. O que vale é que a minha mãe sempre foi inflexível em relação à minha educação e disse que se fosse preciso até cosia bainhas para eu andar num bom colégio. Não coseu e terminei o secundário num dos melhores colégios de Lisboa. Foi aí que aprendi muita coisa que me tem sido útil até hoje. Como por exemplo, comer à mesa sem levantar os cotovelos. Em minha casa nunca ninguém comeu de boca aberta e toda a gente sabia limpar a boca no fim do almoço. Mas o meu pai deixava os talheres pendurados em equilíbrio para fora do prato, usava a mesma faca para tudo e a minha mãe tinha a mania, nos dias de festa, de pôr os guardanapos de papel enrolados dentro dos copos de vidro que imitavam, em estilo e pretensão, copos de cristal. E quando a seguir à revolução desataram a abrir restaurantes chineses, encantou-se com um serviço preto que tinha só para o efeito. Com uma toalha cor-de-rosa e uns guardanapos a dar com a toalha. Aquilo era pior do que vomitado de cão. Lá tive que partir sem querer, um a um, os pratos especiais para a comida chinesa até o serviço estar reduzido a


cacos. A minha mãe até é boa pessoa. Sempre me comprou as roupas, os sapatos e as botas que lhe pedi. Nunca me faltou nada. Também era melhor, sou filha única, a quem é que haviam de dar coisas? Só se fosse ao Lombrigas, um cão-salsicha que a minha mãe adorava e que andava sempre à briga com o pintinhas, um dálmata da vizinha da vivenda geminada lá do Bairro da Encarnação que um dia a minha mãe decidiu envenenar, com tanto azar que foi o Lombrigas que foi à malga do outro e devorou sem qualquer instinto de sobrevivência uma dose mortal de Ratax. Com a morte acidental do Lombrigas, a minha mãe não voltou a pensar em bicharada, isto sem contar é claro com o casal de canários que tinha na marquise junto à porta do quintal. A Vera foi minha colega de carteira desde o primeiro ano. Também esteve quase para sair do colégio a seguir ao ? de Abril por falta de dinheiro, mas era tão boa aluna que a Madre Superiora ofereceu-lhe um ano lectivo para ela continuar e, algum tempo depois, a família conseguiu recuperar do embate e recomeçou a pagar o colégio. E depois ainda há a história daquele avô completamente maluco que estoirou a fortuna ao jogo e com espanholas. Quando o velho morreu, tiveram que vender a Quinta de Colares onde a Vera tinha passado os melhores Verões da sua infância. Eu gosto da Vera, sou amiga dela, mas às vezes põe-me doida com a arrogância e altivez com que fala de certos assuntos, como se fosse mais do que os outros. Como se fosse mais do que eu, que hoje ganho duas vezes o que ela ganha e tenho uma vida do caraças com o Alberto. O Alberto é director-geral de uma farmacêutica. Ganha uma pipa de massa e tem todas as regalias e mais algumas. Há dois ou três anos começou a jogar na Bolsa e sem dar por isso triplicou o investimento. Como já tinha herdado dinheiro do pai, o bolo chegou aos duzentos mil num instante e foi então que percebi que estava ali o meu futuro. Não gosto nem mais nem menos do Alberto do que gostei de outros gajos, ou se calhar até gosto menos, mas é um tipo porreiro que me dá tudo o que quero. Já passei os 30 anos e o corpo, que era o meu orgulho até há bem pouco tempo, começou inexplicavelmente a arredondar. Puta da gravidade, dá cabo de uma pessoa em dois tempos. Isto ou é da pílula ou de nunca mais ter ido à ginástica, pensei. Mas um dia fui jantar a casa dos meus pais, olhei para a minha mãe e percebi que esta merda é genética. A minha mãe é cilíndrica, toda ela, só a cabeça se destaca. É tão gorda, tão gorda, que se fosse ao jardim zoológico, eram os elefantes que lhe atiravam amendoins. E eu, se não tenho cuidado, um dia destes fico igual. Entrei logo em dieta e tratei de me orientar. Foi então que conheci o Alberto. Fui ao banco depositar


um cheque e o tipo estava à minha frente na bicha. Quando saí, dei com ele encostado à parede a perguntar-me porque é que tinha demorado tanto tempo a sair, que estava à minha espera há dez minutos. Achei-o completamente imbecil e virei-lhe as costas, mas o tipo não desistiu, começou a andar ao meu lado na rua. A certa altura franziu o sobrolho e perguntou-me se eu não tinha andado no Sagrado Coração de Maria. É que ele tinha a mania de ir para a porta ver as meninas à hora da saída e lembrava-se da minha cara. Lá fomos beber um café. Eu andava numa fase um bocado à toa, ia para a Kapital às sextas e aos sábados, o Afonso continuava a comer-me quando queria e eu nem sequer já me sentia apaixonada nem por ele nem por ninguém, mas de vez em quando deixava-me ir com um gajo qualquer só para não ficar sozinha e quando uma pessoa entra nessa onda é difícil parar. Depois meti-me com um grupo de malucas que passavam as noites a snifar coca e a convidar gajos para números esquisitos e fiz uns disparates valentes. Até comecei a achar uma certa piada a mulheres, enrolei-me com duas ou três só para ver como é que era e a que é que sabia. Era muito bom e sabia muito bem. Mas não dei em fufa nem nada que se pareça. Só que passei a perceber melhor os homens. Uma mulher só não tem pila, de resto tem tudo e muito melhor que um homem. A pele, o cheiro, o toque. Pelo menos sabe o que faz e quando faz, faz bem, não é como certos gajos a quem mais valia desenhar um croqui. Andava mesmo à toa, papava tudo o que me aparecia à frente, gajos, gajas, miúdos no primeiro ano da faculdade, vendedores de seguros, intelectualóides de esquerda, daquelas com óculos coloridos e cabelos à anos 40 que fumam de boquilha e só se vestem de roxo e preto. Depois houve uma gaja que se apaixonou por mim e ia dando comigo em doida. Tinha estado com ela duas ou três vezes, mas aquilo era só mesmo para partir. Nem me passou pela cabeça andar com uma mulher. Eu não ando com mulheres, como-as e pronto. Foi o cabo dos trabalhos para lhe explicar que uma coisa é tesão e outra é paixão. Comecei a achar que ainda me entalava com tanta merda que andava a fazer. Foi nessa altura que falei com a Vera e desabafei com ela. Estava perdida, precisava mesmo de conversar com alguém. Não ia chegar a casa e dizer à minha mãe que não sabia o que é que havia de fazer à minha vida, porque só me apetecia cocar e lamber gajas. Achei que a Vera era a pessoa indicada. Ficou de boca aberta a ouvir-me, depois chateou-se comigo. Em vez de me apoiar, acusou-me de andar a destruir a minha vida, disse-me que precisava de tratamento psiquiátrico, que tinha entrado em queda livre e achava um nojo a


vida que eu levava. Eu também achava, mas era a última coisa que precisava de ouvir. Quando lhe telefonava para combinar qualquer coisa estava sempre ocupada. E depois aquela amiga do Porto, a Maria, sempre me irritou! Não sei o que é que o Afonso viu naquele pão sem sal. Cabelos louros escorridos, magra e alta como um eucalipto, a pele branca e um nariz de boneca, parecia feita de cera. Aquela fixação que o Afonso tinha por ela não era normal. Às vezes acho que o gajo só me começou a comer porque sabia que não podíamos uma com a outra. Também, deu-se mal. A Maria esteve-se nas tintas, fechou-se na concha e quando demos por isso estava noiva do António de malas aviadas para Santarém. Encontrei o Afonso na noite do casamento dela, para o qual obviamente nenhum de nós tinha sido convidado, com uma torta que nem se aguentava em pé. Levei-o para casa, fiz-lhe um café e passámos o resto da noite a foder. O Afonso não deve saber fazer amor, mas lá foder, fode bem. E é giro que se farta, depressa me habituei à ideia que era melhor ter aquilo dele do que não ter nada. O pior é que como o gajo não gostava de mim, desaparecia quando lhe apetecia e estava semanas sem dar notícias. E a Vera sempre a criticar: és uma tarada, quem te mandou andar com ele, já sabes que ele é maluco, o que é que estás à espera, um sermão que não se aguentava, como se ela não tivesse telhados de vidro, metida com o João já o tipo andava com a Sofia, mas foi bem feita porque o gajo casou-se com a outra e esteve-se cagando para ela. Coitada, nunca mais recuperou. A seguir deu uma de virgem santa até aparecer o Tiago de quem fez gato-sapato. Outro dia o gajo telefonoume e fomos almoçar. Estava completamente fodido. Não há nada mais triste do que um gajo com um par de cornos na cabeça. Ainda pensei em consolá-lo, mas imaginei-lhe uma conta bancária pouco interessante e não sei porquê perdi logo a pica. Ao menos o Alberto é um gajo com planos para o futuro. Tenho que o convencer a comprar uma casa em Cascais, isto do duplex na Infante Santo está muito visto. Cascais é que era uma coisa com nível. Os meus pais iam adorar, coitados, sempre os tirava do Bairro da Encarnação aos fins-de-semana. E o meu pai podia pendurar-me os candeeiros, até dava jeito. Eu tenho que me casar com este tipo e comprar a casa o mais depressa possível, antes que ele mude de ideias. Há que apanhá-los no momento certo e a minha mãe diz que ele está mesmo no ponto de rebuçado. Não é tão giro como o Tiago nem de boas famílias como o Afonso, mas tem massa e trata-me bem, o que é que uma pessoa quer mais? O Mercedes Classe A no meu aniversário veio mesmo a calhar. Nesse dia ainda mais me convenci de que o Alberto era mesmo o tipo certo para mim.


Até saltaram os olhos das órbitas à Vera quando viu o Mercedes. Ela é que é parva. Se quisesse arranjar um gajo com massa, não lhe custava nada. Aquele mais velho com quem ela andou passava a vida a oferecer-lhe coisas e ela a recusar, armada em cara. Se me oferecessem um relógio do caraças, a ver se dizia que não. Só se fosse parva. Mas a Vera é muito fina, muito chique, cheia de manias de independência. Por essas e por outras é que continua enfiada naquelas águasfurtadas em Santa Catarina, que uma pessoa tem que comer dois bifes para chegar lá acima sem cair para o lado. É muito fina, mas nem sequer tem garagem nem elevador. Não percebo estas meninas de boas famílias que andam com uns carros a cair de podre, adoram ir aos saldos e vivem em prédios velhos a cheirar a gato. Devem achar que tudo lhes fica bem, incluindo os trapos que compram aos domingos na feira de Cascais. Fiquei espantada quando me telefonou a convidar-me para ir jantar fora com o Afonso e o novo namorado que veio cá passar o fim-de-semana. A Vera está completamente apanhada por ele. Mas ou me engano muito ou o gajo estáse bem cagando para ela. E ela a fingir que não percebe. É bem feita. Também ninguém a mandou despachar o Tiago. Se fosse a Vera, tinha continuado com o outro gajo mais velho. Não lhe complicava a vida em nada e só lhe trazia vantagens. Acabo de me arranjar mesmo antes de me tocarem à porta. Ainda bem que o Alberto teve um congresso qualquer este fim-de-semana no Vimeiro e só volta na segunda-feira à tarde. É que até gosto dele, mas não apetecia nada misturá-lo com o Afonso e com o tal Manel. São outro género, iam achá-lo um bimbo. Esforçado mas bimbo. Retoco o rímel enquanto o elevador escorrega pelo prédio abaixo. Cá estão os três à minha espera, o Afonso, aquela brasa de sempre, a Vera com aquele ar típico de menina bem-comportada que não parte um prato e o tão falado Manel. Se isto é um gajo com pinta, vou ali e já venho. É um minorca, com cara de quem largou as fraldas há meia hora, cara de rato e olhos azuis. O fato é que é bom. E a gravata também. Para não falar do carro que também não é nada de se deitar fora. Gostei imenso dos estofos, mas ia enfiando um taco de golfe pelo cu acima assim que entrei. O Manel pediu logo imensas desculpas e fiquei a pensar que também tinha que convencer o Alberto a entrar nesta coisa do golfe, sempre dá um certo status e conhecem-se as pessoas que interessa. Este Manel se calhar também interessa, há aqui cacau que nunca mais acaba. A caminho do restaurante o Afonso, que não me põe as patas em cima há mais de três semanas, aproveita logo para enfiar discretamente a mão entre as


minhas pernas. Como vamos os dois no banco de trás, ninguém dá por nada. Mesmo antes de chegarmos ao restaurante, pega na minha mão e roça-a ligeiramente na braguilha dele. Nunca vi um cabrão como este, tudo lhe dá tesão. Uma festa ou duas e arma logo a tenda. Já percebi que isto hoje vai dar molho. Vamos jantar ao XL que é daqueles sítios onde é porreiro uma pessoa ser vista e onde por acaso até não se come mal. O Afonso que é amigo dos donos já tinha telefonado a reservar uma mesa e sentámo-nos ao fundo. A Vera não está nos seus dias. Tem a cara marcada com olheiras e está com um ar um bocado desanimado. O gajo mal olha para a cara dela. Pegou-se à conversa com o Afonso assim que entrámos no carro sobre as aventuras da adolescência no colégio, não lhe liga nenhuma e ela não está a gostar nada da ideia. Mimada como é, não está habituada a isto. O Tiago andava sempre com ela nas palminhas, a minha fofinha para aqui, a minha fofinha para ali, até enjoava. Este não, ela é que está pelo beicinho. Mas é sempre assim. Uma mulher raramente resiste a um sacana com charme, é uma grande merda. Os totós, que são aqueles que não nos dão trabalho nenhum, também não nos dão gozo. A conversa passa do colégio deles para o nosso e o Manel desata a fazer perguntas sobre o meu passado, assunto sobre o qual acho sempre uma perda de tempo falar. Lá lhe explico o regresso de Moçambique, eliminando com critério e discrição as partes mais chatas e aproveito para romancear um bocado a vida que tínhamos lá, tipo princesa russa em período bolchevique. A Vera sabe que estou a fazer bluff, mas não diz nada, limita-se a comer pão com manteiga, fatias umas atrás das outras. Será que esta cabra nunca há-de engordar na vida? Se comesse um terço do que ela já hoje devorou aqui à mesa, quem levava com os amendoins na tromba era eu. Para disfarçar, peço uma salada de frutos do mar e o Afonso encomenda um vinho tinto óptimo que ele garante ser uma especialidade, Cartuxa tinto, de 1994. Observo discretamente o Manel. É óbvio que o gajo não gosta dela, e que me está a fazer charme para a picar. Cabrão. Os homens são todos iguais. Não podem ver uma gaja, começam logo a imaginar como é que ela deve ser nua, na cama, de gatas, com rabo espetado. O gajo estáse a fazer de engraçadinho só para ver até onde ela aguenta. Filho da puta. De mim não levas nada. Posso ser muito doida, mas não fodo deliberadamente a vida às minhas amigas. Muito menos com os gajos que andam com elas. Isso é que não. Coitada da Vera: às vezes irrita-me, mas porra, somos amigas há tantos anos, chateia-me vê-la neste estado. Decido não lhe dar grande troco e desvio a atenção para o Afonso que está sentado à minha frente. Descalço o sapato e


começo languidamente a enfiar o meu pé pelo intervalo entre as meias e as calças. Ele continua impávido a cortar o bife e a relatar as partidas que costumavam fazer aos caloiros no colégio, como quando os despiam e os pintavam de branco, só a pila é que não e depois os fotografavam para a posteridade. Depois começaram os dois a falar com um ar enjoado da Leopoldina, a gaja que eles comiam contra o muro do colégio, uns a seguir aos outros, que era feia como os trovões, tinha os dentes para fora, cara de coelho e fazia aquilo sabe-se lá porquê. O Manel garante que nunca a comeu e o Afonso remata confessando que por causa dela é que demorou imenso tempo a achar que afinal a mulher, enquanto ser, até podia ter alguma graça. O Manel olha-o com uma expressão maliciosa cujo significado me escapa. - É por causa dessas gajas que vocês ficam cheios de ideias erradas na cabeça. As primeiras experiências são muito importantes, muito mais do que nós pensamos - diz a Vera com ar de quem vai começar a desbobinar a teoria freudiana de uma ponta à outra. - Já eu tive mais sorte. Estava apaixonada, ele era mais velho e tratou-me lindamente. O Manel fica com o garfo no ar, entre o prato e a boca, irritado com a franqueza dela. A Vera olha-o fixamente, com ar desafiador. - O que é que foi? Acha que disse alguma inconveniência? - Não, a menina é que sabe o que diz da sua vida. - Não gosta de falar de sexo? - Não é uma questão de gostar ou não, é que não me parece a conversa mais apropriada para um jantar, nós aqui a cortar o bife e... - E a falar de carne, não é? - interrompe a Vera com ar cínico. - Cale-se - rosna o Manel. - Não vê a figura que está a fazer? A Vera baixa os olhos e solta um suspiro enraivecido. O Afonso muda a conversa para a inevitável dicotomia Lisboa/Porto e explica porque é que o Lux se tornou um local obrigatório da noite lisboeta. Gosto mais do T-Clube e da Kapital, mas deve ser por causa do trauma da fufa que se apaixonou por mim e me fez uma cena de choro na casa de banho do Lux. Tem a ver com a minha onda mais down, nem me apetece lembrar-me dessa fase negra da minha vida. A Vera não volta a abrir a boca até ao fim do jantar e o ambiente esfria um bocado. Eles pagam a conta e não posso deixar de reparar no olhar ligeiramente invejoso do Afonso quando o Manel saca da carteira o cartão American Express Gold. Por acaso também gostei de ver. O gajo é chato, mas tem massa e bom gosto, já são dois contra um. Claro que acabamos a noite no Lux. Como sempre o ambiente é híbrido e misturado, pode ser que tenha sorte e não dê de caras com o grupo das fufas


fanáticas, senão ainda me estragam a noite. Pedimos todos um vodka, excepto o Manel que só bebe coca-cola. Este gajo é engraçado. Armado em senhor, e depois coca-cola. Está bem. Quem não está bem é a Vera que desaparece para a casa de banho. Ao fim de dez minutos vou à procura dela e encontro-a encostada a uma parede, muito quieta, os braços cruzados e os olhos com a pintura toda esborratada. Esteve a chorar e é tudo por causa daquele cabrão. Desabafa comigo, diz que se sente insegura, que sente que ele não gosta dela mas que não é capaz de o despachar, que quando estão sozinhos tem um feitio adorável, mas que se passa um bocado e é desagradável com ela quando estão com outras pessoas. Tento acalmá-la. - Vais ver que isso te passa, é um gajo como outro qualquer, um dia destes aparece-te um porreiro da vida e esqueces-te do Manel. - Não me esqueço, não - responde com ar sério. – Não percebes que me apaixonei por este filho da puta e agora não me consigo desapaixonar? - diz com cara de vítima nuclear. - Não sejas parva. Com a nossa idade, uma pessoa só se for estúpida é que se apaixona por um gajo que não gosta de nós. Vá, vamos embora, que isto de estares aqui a carpir as mágoas se calhar é mesmo o que o gajo quer, estás-lhe a dar demasiada importância. Vamos dançar que ficas logo porreira. A Vera dá um jeito à pintura e saímos, mas eles já não estão no mesmo sítio. Descemos as escadas e vemo-los junto ao bar, à conversa com dois putos com calças apertadas e camisolas de alças, patilhas e uma pinta de gays que não engana ninguém. O Afonso à conversa com um, o Manel à conversa com o outro. Estão tão distraídos que nem nos vêem. De repente passa-me uma ideia completamente absurda pela cabeça. Será que o Afonso é bi? A Vera olha para mim como se lesse o que estou a pensar. - Anda, vamos dançar. Vamos as duas para a pista, de costas para eles. A Vera está com umas trombas até ao chão. - Ouve lá, o teu namorado é chegado ao inimigo? - Não, mas o Afonso é - responde com azedume. - Tens a certeza? - Tenho. - Mas como é que tens? - Foi ele que me disse. Cabra. Nunca me contou nada. Nem acredito nesta merda. O gajo que é o maior papa-gajas que eu conheço, nunca me passou pela cabeça que desse para os dois lados.


- Foda-se, podias ter-me contado que o gajo dá para os dois lados resmungo entredentes. - Porquê? Tu também dás! Vocês é que estão bem um para o outro.


XXI Para a próxima veja lá o que é que diz. Aquela história do jantar foi de uma falta de gosto! - Para a próxima vê lá o que é que fazes. Uma hora a dar corda a dois paneleiros! - Não sejas parva! - Deves achar que eu e a Patrícia somos estúpidas, com certeza. - Olha, o Afonso é que ficou com o telefone de um deles. - Que lhe faça bom proveito. - A menina está mesmo ressabiada. O que é que se passa? - Porra, pára de me tratar por menina! Estou farta dessa merda! - Pronto, pronto. Tenha calma, quero dizer, tem calma. Não te irrites, que não é caso para isso. - Não! Não é caso para isso!!! Primeiro ignoras-me durante o jantar inteiro e depois pões-te a dar corda a uns paneleiros quaisquer. - Não precisas de ser desagradável... - Não, TU é que não precisavas de ter sido desagradável comigo, percebes, meu idiota? - Estás com um ataque de menina mimada? - Posso ser mimada, mas não sou cega. Estavas muito entretido com o Afonso, foda-se, também és paneleiro? - Que estupidez! Tu de facto és muito disparatada, não pensas no que dizes! - E tu não pensas no que fazes! Não sejas parva! - Agora é parva? Parva era se não te dissesse nada, não achas? O Manel senta-se no sofá a abanar a cabeça com um ar desolado. - Que feitio que tu tens! É preciso ter cá uma paciência para te aturar! - E para te aturar a ti, meu querido? Fizeste umas trombas até ao chão só porque falei da primeira vez que fui para a cama com alguém, como se estivesse a cometer alguma inconfidência! - E estavas! Não percebes que se contas isso a toda a gente é uma falta de discrição da tua parte?


- Desculpa lá, mas falar disso com a Patrícia que andou comigo no colégio e com o Afonso que é dos meus melhores amigos, não me parece que seja escandalosamente indiscreto, não achas? - Mesmo assim. Que mania de contar, de falar tudo, de levar tudo à praça pública! A esta hora a Patrícia e o Afonso já sabem o que é que fazemos e não fazemos. Essa tua maneira de ser não me dá confiança nenhuma. - Deixa lá que passar uma hora a dar corda a duas bichas também não me dá lá muita confiança. - Que estupidez, essa história outra vez! Não percebes que estávamos no gozo? - Estávamos? Fala por ti, que o Afonso gosta mais de homens do que eu! - Lá estás tu a descer o nível da conversa. - Não me digas que não sabias que o Afonso gosta de gajos! - Está bem, mas eu não sou como o Afonso. - Ai não? E como é que eu sei? - Não sabes. Simplesmente não sabes, percebes? Ou acreditas naquilo que eu te digo ou não acreditas. É muito simples. Eu estou-te a dizer que nunca fui nem sou gay. Se quiseres acreditar, acredita. Se não quiseres, não acredites. A escolha é tua. - Qual escolha? Não tenho nada para escolher! - Pois não. Tens razão. E olha, agora o melhor é irmos dormir que estamos os dois um bocado bebidos, para ver se amanhã já acordamos sem discussões. Levanta-se e vai para o quarto. Fecho-me na casa de banho. Lavo a cara, depois aplico o hidratante e vou tirando com um bocado de algodão as porcarias que me entretive a pôr na cara antes do jantar. O trabalho que dá ser mulher. Tanto trabalho para nada. Cheiro a fumo, o cabelo cheira a gente, o algodão vem preto e não é do rímel, é do ar pesado e conspurcado desta maldita vida da noite. Detestei a noite. Detestei o jantar, aquela forma protectora que o Manel tem de falar comigo quando estamos com outras pessoas. A sua frieza e indiferença. O seu ar superior, de quem até sabe tudo o que se passa, mesmo que finja que as coisas lhe passam ao lado. E aquela mania de controlar tudo, o que faz, o que sente e o que diz. Ainda por cima convencido que pode fazer isso às outras pessoas. Que estúpido! Nunca contei a ninguém o que se passa na nossa vida, mas se contasse qual era o mal? Antes de sair da casa de banho visto a camisa de noite que está pendurada no cabide e dobro a roupa num montinho que levo para o quarto. A luz do lado dele está apagada e ele virado de costas. Deve estar a fingir que está a dormir. - Manel?...


- Sim... - Vira-te para cá. - O que é que foi? - responde sem se virar. - Diz-me só uma coisa: porque é que vieste cá passar o fim-de-semana? - Ó querida, falamos amanhã, está bem? - Não, falamos agora. O Manel vira-se. - E tu, porque é que me convidaste? Fico sem saber o que dizer. Estava cheia de saudades dele e alimentei a esperança de o ver outra vez, de fazer amor com ele e ontem foi uma noite fabulosa, mas lembro-me do João e sei que também o convidei para descobrir a história da herdade e contar ao João. Já não sei o que sinto por ele. - Já não sei o que sinto por ti - deixo escapar baixinho. - E eu nunca soube o que sentia por ti, mas isso não me impede de querer estar aqui ao teu lado, pois não? - responde, agarrando-me e encaixando o meu corpo contra o dele -, Vá, agora vamos dormir, amanhã conversamos o resto, está bem Verinha? Ainda vou a responder, mas quando me chamou Verinha acabou comigo, aninhei-me a ele e adormecemos assim, colados um ao outro, completamente exaustos. Acordámos antes do meio-dia, estou ainda muito cansada, mas o Manel levanta-se e vai à cozinha buscar-me um prato de All Bran para me obrigar a acordar. Está bem-disposto, com cara de bebé, a discussão de ontem parece nem ter existido. Por isso finjo que não existiu mesmo e decidimos ir almoçar a Sintra. Tomamos um duche rápido e saímos antes da uma da tarde. Para variar está um dia de sol esmagador, não corre nem uma aragem e o céu estampa-se todo de azul forte, este azul que só há no céu de Portugal, tem azul luminoso e quente, não sei como é que a cor mais fria pode ser tão quente, mas deve ser do meu coração destilado em calor que vê tudo filtrado. Apanhamos o IC 19 e pouco tempo depois vemos a silhueta da serra recortada como nas imagens dos livros dos contos de fadas, tudo verde com o castelo no topo, cujas cores se reflectem a uma distância impressionante. Depois de restaurado, o castelo dos mouros parece um bocado de pedra roubada à Disney World, só faltam balões gigantes com a cabeça do Mickey e bandos de anões de barrete encarnado a cantarem eu vou, eu vou, para o trabalho eu vou, a esconderem a Branca de Neve da bruxa que carrega uma verruga nojenta e um cesto de maçãs envenenadas. Cada vez que vou a Sintra experimento esta deliciosa sensação de mergulhar num outro mundo povoado de duendes e


hobbits, de fadas e bruxas, de meninos que nunca crescem e histórias com happy ends. Deve ser isto que me falta para entrar na idade adulta. Aprender a viver com a ideia que não existem happy ends, que a vida não é nem como nos filmes nem como nos livros, continua sempre, para lá do justo, do razoável e do absurdo e só acaba com a morte. Que os príncipes encantados são a maior fraude da civilização ocidental e que a frase viveram felizes para sempre devia ir para o novo Index, o Index da credulidade. - Sabes - digo em voz baixa -, o que se passou entre nós foi tão intenso que ambos vamos demorar muito tempo a digerir e provavelmente só daqui a alguns meses é que teremos capacidade para avaliar o que realmente se passou. Aperta-me a mão e olha-me ternamente, como tantas vezes o João fez. Estremeço dos pés à cabeça. É o mesmo olhar, a mesma expressão. - Pareces o João... - deixo escapar. - É natural - responde, desviando o olhar com uma tristeza indizível. Que estúpida. Devia era ter ficado calada. Se aprendesse de uma vez por todas a pensar antes de falar, era de certeza mais feliz. - Onde é que queres ir almoçar? - pergunta suavemente assim que chegamos a São Pedro. - Pode ser aqui mesmo no cantinho de São Pedro. Conheces? - Não, mas se tu gostas é bom com certeza. Estaciona o carro e sentamo-nos numa mesa junto à janela. As empregadas de camisa branca e avental aos quadrados a dar com as toalhas, rodopiam à volta das mesas como cerejas gigantes e sorridentes. Peço uma açorda de marisco e o Manel fica-se por umas lulas recheadas com puré de batata, precedidas por um caldo verde que sabe mesmo a caldo verde. Conversamos um bocadinho sobre tudo, sempre com o cuidado de não entrarmos em pormenores pessoais. Pressinto que quer falar de tudo menos de nós e respeito a sua vontade. De qualquer forma, tudo o que não conseguir perceber ou resolver, o tempo há-de fazê-lo por mim, por isso tento ficar calada e dominar a minha impaciência. Já percebi que pode não gostar de mim, mas adora a minha companhia, agora só tenho que aprender a viver com isso. No entanto, apesar de me ter avisado um sem-número de vezes a mim mesma para estar calada, no final do almoço não resisto a fazer um pequeno resumo daquilo que se passa, concluindo com o poder de síntese que me caracteriza, e do qual tanto me orgulho, que a nossa relação é fruto de um equívoco algo absurdo que me tem vindo a fazer pensar nele nos últimos dias. - A nossa relação não pode ir a lado nenhum porque se baseou num duplo equívoco: tu nunca acreditaste que eu gostasse mesmo de ti, embora goste. E eu nunca acreditei que não gostasses mesmo de mim, embora de facto não gostes.


O Manel olha-me e pondera antes de responder. - Não sei se é exactamente isso. Mas também não dás tempo às relações para elas respirarem. És sôfrega, queres logo tudo de uma vez. Assustei-me com a tua impaciência, vi-a como sinónimo de alguma fraqueza. - Fraqueza de não encarares as coisas como elas são, criares situações dúbias, indefinidas. Além disso tu nem sabes bem se gostas. Se calhar até gostavas de gostar e por isso não sabes bem como lidar com a situação. É como se objectivamente eu tivesse todas as qualidades de que mais gostas numa mulher, mas subjectivamente não chegasse e por isso hesitas. - Não confundas fraqueza com hesitação. Nem sempre uma pessoa pode confiar nos seus sentimentos. Nem sempre sabemos para onde vamos e porquê. Acho uma arrogância da tua parte quereres ser sempre dona da verdade. É absurdo e pouco inteligente da tua parte, porque nunca há só uma verdade, percebes o que te quero dizer? O estarmos aqui os dois e sentirmos que fazemos de algum modo parte da vida um do outro é uma verdade cujos contornos se alteram quando eu regressar ao Porto e voltar e ver a Marta, percebes? - Mais ou menos. - Percebes, eu sei que percebes. Estou a ser duro contigo, mas tu mereces a minha frontalidade e espero poder sempre contar com a tua - responde-me enquanto me estende a mão que agarro com força -, anda, vamos embora que eu tenho uma pessoa à espera e quero-te mostrar uma coisa. Apanhamos a estrada velha. Passamos Seteais, a Quinta da Regaleira, a Quinta da Bela Vista e outras tantas que conheço de cor, são património vitalício e indestrutível da minha infância. Esta é a estrada mais bonita do mundo. Por todo o lado as copas das árvores tapam o céu e deixam passar em pequeníssimos fios de luz um sol distante e ameno. A vida deve ser mesmo isto, uns fios de luz aqui e ali, nada mais do que uns fios de luz ténues e outros... E quando este amor acabar mesmo antes de ter começado, vou ter que fazer este mesmo exercício, o de viver a vida dos pequenos e grandes momentos que ela me vai dando, sem nunca pedir nada. Aprender a estender as mãos e a receber sem pedir, deve ser esse o segredo. - Ali em baixo à direita era a quinta do meu avô - comento, absorta com o fio dos meus pensamentos. - Eu sei - responde o Manel imperturbável - é para lá que vamos. O que é que ele disse? Não acredito no que acabei de ouvir. - Não pode ser! Como é que sabes que é a mesma? - A quinta do teu avô não é a Quinta das Três Fontes? - É! Mas como é que sabes? - Eu sei mais do que tu pensas, Vera.


Nem consigo articular sequer um som. A garganta fechou-se, a voz fugiume do corpo, só tenho mãos e pernas que tremem como gelatina. Não pode ser, não é possível, este filho da puta vai-me levar ao lugar mais bonito do mundo, ao lugar que me dá mais saudades, onde passei os melhores momentos da minha vida. - Porque é que me levas lá? - articulo com esforço e em surdina. O Manel parece nem ter ouvido a minha pergunta. Chegamos. O portão está aberto. No pátio deserto, um Honda Civic encarnado e um tipo de meia estatura encostado ao carro, a falar ao telemóvel. Quando vê o carro, desliga e dirige-se a nós com um sorriso cordial. O Manel estaciona e sai do carro. Apertam a mão. Sem saber como, porque não consigo perceber que força é que me faz mover, saio e também estendo a mão ao desconhecido com um sorriso totalmente mecânico. - Vera Lorena, muito gosto. - Firmino Mota, muito prazer. - Vamos então visitar a propriedade? - pergunta -, Querem começar pela casa ou pelo jardim? - Pode ser pelo jardim - responde o Manel, afável e polido. O vendedor acerta o passo com o do Manel e caminha devagar, enquanto desdobra as plantas do terreno. Sigo-os alguns passos atrás, as pernas andam sozinhas porque o cérebro está desligado, as mãos abanam-se desengonçadamente no fim dos braços, se agora os abrisse e ficasse quieta, caía-me um chapéu de palha do céu e crescia-me uma cenoura no lugar do nariz, sinto-me um espantalho com medo de si próprio em cima de quem todos os pássaros pousam para fazer troça. Damos uma volta de reconhecimento pelo jardim, descemos a alameda dos cedros e passeamos por entre os buxos recortados que conduzem ao recanto mais bonito do jardim. Ao fundo as três fontes contam a lenda da lavadeira que três vezes foi ao poço e três vezes viu a imagem da morte nele reflectida. De todas as vezes avisou a sua senhora. Da primeira, o marido deitado ao lado da linha do comboio. Da segunda, o menino caído do cavalo. Da terceira, a menina envolta em ligaduras. A senhora pediu ao marido que no dia seguinte adiasse a ida a Lisboa e o comboio descarrilou. Manteve o filho fechado, sem montar a cavalo e o caseiro levou um coice na cabeça e morreu. Mas a menina, quando chorou à noite de dores, e a levou para o hospital, já não voltou. Então a lavadeira, não aguentando o desgosto, atirou-se para o poço e morreu. Depois da sua morte, os donos da Quinta mandaram erguer as três fontes: a fonte da prudência, a fonte da incerteza e a fonte da fé. Em todas elas há a escultura talhada na pedra de uma mulher, a lavadeira dedicada e sacrificada que salvou a família da desgraça, mas não conseguiu


salvar a filha mais nova. Por causa desta história, a Quinta ganhou fama entre escritores e poetas do século passado. A minha bisavó Mariana gostava de receber poetas e artistas, houve tempos em que este lugar foi o ponto de encontro entre grandes nomes da literatura portuguesa. Mas o meu avô só herdou da mãe o lado mau da boémia: perdeu-a ao jogo, mesmo a seguir ao 25 de Abril, a revolução não teve nada a ver com o caso. E aqui estou eu outra vez, junto às fontes, a ouvir a história que já conheço de cor, a história que a minha família carregou durante quatro gerações, de volta ao lugar mítico da minha infância, a esta terra sagrada que passa incólume de mão em mão, vendida e comprada por estranhos. O Manel e o vendedor entram na casa vazia e deserta que sofreu danos visíveis com a humidade e falta de manutenção. O vendedor explica que desde os anos 70 a casa foi habitada por uma família colombiana que comprou a Quinta a uns franceses e mais tarde a vendeu a um casal de americanos que a pôs agora à venda por um preço convidativo e negociável. O meu telemóvel toca e tem escrito no visor o nome do João. Saio, pedindo desculpas pelo incómodo e atendo o telefone com um fio de voz. - Está, Vera, sou eu. - Olá. - Passa-se alguma coisa? - Nem ias acreditar se eu te contasse! - Conseguiste saber alguma coisa? - Estavas certo, a tua teoria confirma-se. Ele abdicou da herança e do reconhecimento da paternidade em troca da Herdade das Gafas. Parece que o teu pai nunca lhe ligou nenhuma. Ele odiava mesmo teu pai, João. - Claro, não o censuro. Também já o começo a odiar, pelo mal que ele fez a tanta gente. O que é que tens? Passa-se alguma coisa? - Deixa lá. Depois conto-te com calma. - Isso quer dizer que afinal nos podemos encontrar? - Claro que sim, João. Sabes, começo a achar que não mudou nada e além disso fazes-me falta. - Tu também me fazes falta, Vera. Muita falta. Desligo, alheada de tudo o que me rodeia. O Manel assusta-me, aparecendo atrás do meu ombro com um sorriso de circunstância. - Quer dar uma volta ou podemos ir embora? Que engraçado. Continua a tratar-me por você em frente às outras pessoas. Deve ser mais forte do que ele. É sempre tão formal, tão cerimonioso. - Então?


- Como quiseres - respondo distraída. Porque é que o João ainda me faz vibrar? Porque é que lhe estou outra vez a abrir a porta? Porque é que me meti nesta embrulhada? O Manel despede-se do vendedor que lhe aperta a mão com a firmeza de uma alforreca e entramos no carro. - Estás com um ar atrapalhado. Fizeste alguma coisa que não devias? - Porque é que perguntas isso? - Não sei, mas estás com cara de quem roubou um chocolate no supermercado e tem medo de ser apanhado. - Que disparate! Estou só cansada, mais nada. - Muito bem - remata com ar furibundo. Para trás, o vendedor tira o carro e fecha o portão. Arrisco uma pergunta em tom inocente. - Aconteceu alguma coisa? - Isso podes-me dizer tu a mim. - O que é que queres dizer com isso? - Nada, deixa lá. O melhor é a conversa ficar por aqui para não nos chatearmos. Guia a uma velocidade assustadora. Ainda o tento avisar para ir devagar, que a estrada é traiçoeira, mas manda-me calar com brusquidão e fico tolhida no meu assento, como um pardal assustado que vê o gato a enfiar a pata dentro da gaiola. Será que ouviu a minha conversa? Não é possível, ele estava lá dentro, a conversar com o outro caramelo. Se calhar ouviu alguma coisa. Pelo menos a parte final em que disse ao João que o ia continuar a ver. Como é que fui tão imprudente? Ver o João não tem em si qualquer significado, a nossa relação será sempre platónica, mas não é esse o problema. O problema é que o Manel não sabe se a minha relação com o João é ou não platónica. Só sabe que ele foi a maior paixão da minha vida e que, além disso, é filho do homem que lixou a vida à mãe dele, o meio-irmão de sangue que representa o lado legítimo da família, ao qual o Manel nunca pertenceu. O melhor é ficar calada e fingir que não percebo que está chateado. Quem não deve, não teme e eu não fiz nada de mal. Ou talvez tenha feito, mas não tão mal que possa ser condenada à partida sem julgamento prévio. Quando chegarmos a casa vou falar com ele. Tenho que lhe explicar o que é exactamente a minha relação com o João, uma espécie de fraternidade, um laço familiar eterno mas ténue, recordações de uma relação que já não existe, da qual ficou uma amizade feita de solidariedade. Apenas isso e só isso. De repente, apercebo-me da importância vital que o Manel teve na minha vida e finalmente compreendo qual o papel que tem.


Por causa dele, esqueci finalmente o João, reduzi-o à sua verdadeira dimensão, encaixei-o na realidade a que pertence, arrumei-o na prateleira dos casos passados que não têm regresso, quebrei a lei do eterno retorno. Só por isso devia estar-lhe agradecida. Planeio contar-lhe tudo isto quando chegarmos, mas o Manel estaciona o carro com os quatro piscas ligados à porta da minha casa e desliga o motor com brusquidão. - Vamos. Quero ir buscar as minhas coisas. - Mas o que é que aconteceu? - Cala-te. Não me obrigues a ser mal-educado contigo – abana a cabeça com ar de desprezo - e eu feito estúpido a levar-te à Quinta do teu avô, a quinta que eu estava a pensar comprar para um dia mais tarde, nós podermos lá viver e tu... e tu ao telefone com aquele gajo, a falar de mim e da minha vida... - Mas eu... eu não fiz nada... - balbucio sem convicção. - Sou um idiota! O tempo que eu perdi contigo, feito estúpido a falar-te de frontalidade e para quê? Para nada! Absolutamente nada! Tu não és feita da mesma massa, não tens os mesmos valores... - Mas do que é que estás a falar? - Tu julgas que eu sou parvo? Julgas que eu não percebi que estavas a falar com o João? Foi por isso que me disseste para vir cá este fim-de-semana, não foi? Para me sacares coisas da minha vida e as contares ao João. Isso é tão feio Vera, tão feio que não tem classificação. E, sem aviso, arranca-me as chaves de casa que entretanto tinha tirado da carteira e enfiado nervosamente no dedo indicador e desaparece pela porta. Encosto-me ao carro. Tenho a cabeça a andar à roda, os olhos a latejar, as pálpebras pesam-me e as lágrimas sobem-me em catadupa, descem pela cara abaixo como duas torneiras mal vedadas. Estraguei tudo. Tudo. Traí a confiança dele. Traí tudo o que para ele é o mais importante. A frontalidade. A lealdade. A franqueza. A honestidade. Portei-me como uma cabra. Que estúpida que fui. Como é que me deixei enrolar nesta situação? Porque é que acedi a espiar a vida dele para o João, que nunca gostou de mim, que nunca me quis ao lado dele, que há de continuar na sua paz podre com a Sofia até ao fim da vida? O Manel desce com o saco da roupa. Está completamente transtornado, com os olhos raiados de sangue, furioso, capaz de matar alguém. - Não me podias ter feito isto - diz-me em voz baixa. – Como é que podes dizer que gostas de mim e ao mesmo tempo fazer-me isto? - Estás a ser injusto.


- Não. Estou a ser duro, mas injusto não. Traíste a minha confiança, Vera. As pessoas só traem a minha confiança uma vez na vida. E tu já tiveste a tua. - Tenho tanta pena... - Não tens não. Se tivesses pena, tinhas pensado antes de agir. Tu não és burra, Vera. Sabes muito bem o que fizeste. Quiseste-me cortar a cabeça e acabaste de cortar a cabeça a ti própria. Não me voltes a ligar, preciso de arrefecer a cabeça e pensar nisto com calma. Adeus. Entra no carro e arranca sem olhar para trás. Fico no meio da rua, especada como um poste. Podia-me passar agora um camião TIR por cima que ficava exactamente na mesma. Acabou-se. Acabou-se tudo.


XXII Então, não comes nada? E O João olha para mim como se estivesse a falar com uma criança. O bife está a boiar no molho, mas tenho um nó na garganta como uma pedra, que não me deixa passar nem uma migalha de pão. - Não me apetece. Fui perdendo gradualmente a fome e agora é como se me tivesse desabituado de comer, não sei, sinto-me estranha. Já passaram seis meses. O tempo passa, acaba sempre por passar, mesmo quando os dias se prolongam numa agonia vã e estéril, mesmo quando a cada manhã que se acorda e se pensa que é impossível chegar ao fim daquele dia. Depois de o Manel ter regressado ao Porto, esperei que me telefonasse. Estive três dias sem comer nem dormir, à espera. Depois fui passar uns dias a casa da Maria. A companhia dela e do António foram a pouco e pouco sarando a minha dor. Brinquei com as miúdas e de alguma forma elas trouxeram-me um pouco de paz. Numa noite estrelada, a Maria leu-me poesia, para me distrair a alma e pôla a voar noutras direcções, disse-me com a sua inefável e irresistível doçura. De mão dada comigo, leu-me baixinho David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill e um poema de José Agostinho Baptista que nunca mais esqueci. Agora, nem o vento move as cortinas desta casa. O silêncio é como uma pedra imensa, encostada à garganta. O Manel não telefonou, nunca mais telefonou. O vento fez voar as cortinas da minha casa sossegada e solitária, mas a pedra continua aqui, encostada à garganta. - Estás mesmo em baixo de forma, nunca te vi assim. - Isto passa - respondo, sem conseguir disfarçar uma ponta de amargura. - Gostavas mesmo dele, não gostavas? - Gostava e gosto. Não se deixa de gostar só porque as coisas acabam, João, sabes isso muito bem. - Mas acho que deves pensar que é melhor assim. Ou querias continuar uma relação com uma pessoa que não sabia o que havia de fazer contigo? - Não, acho que isso também me estava a fazer mal. - Vês?!!! Estás-me a dar razão. Corto um bocado do bife que levo à boca sem qualquer convicção. Não me apetece comer, não me apetece dormir, não me apetece viver. Estou farta disto.


- Estou farta de não ter uma pessoa ao meu lado, percebes? Faço tudo sozinha, sinto-me completamente avulso no mundo, qualquer dia tenho 40 anos e não construí porra nenhuma, nem família, nem filhos, nada. A minha vida é uma merda de um deserto, estou farta. - Tem calma. Vais ver que com o tempo consegues esquecê-lo. As pessoas que não gostam de nós também não merecem ficar connosco, não achas? Acabo de mastigar antes de lançar à mesa a pergunta inevitável, provocadora. - Como tu comigo? O João hesita, mas como sempre responde com franqueza e algum optimismo. - Sim, de certa forma. Não digo que se agora pudesse voltar atrás, faria tudo da mesma maneira, mas eu também te perdi quando não fiquei contigo e fico contente por saber que te apaixonaste por outra pessoa, apesar de não teres ainda encontrado um tipo à tua altura. - Mas o Manel estava à minha altura! - Não estava não. Senão, tinha ficado contigo. Arrumo os talheres no prato após ter deglutido com grande esforço um terço do bife. O empregado aproxima-se e retira os pratos depois de lhe ter feito sinal com a cabeça. - Queres uma sobremesa? - Não, só um café. Está uma tarde solarenga, o ar morno pôs a voar milhões de partículas que vejo entre o rio e a margem sul. Do outro lado, os silos da fábrica de cimento assassinam o litoral e o Cristo-Rei abre os braços para Lisboa, silencioso e redentor. - João... - Sim? - Se vivesses outra vez... imagina que voltavas cá e tinhas outra vida... casavas-te comigo? - Casava-me contigo já nesta vida, se pudesse. Mas não posso. E se és mesmo minha amiga, não voltas a falar nesse assunto, está bem? - Está bem. Regresso a casa, depois de ter telefonado ao Jorge a avisar que estou com uma intoxicação alimentar e não passo à tarde pelo escritório. Claro que é mentira, mas sinto a alma intoxicada, o que se calhar é pior. O Jorge ainda me começa a falar sobre os artigos do próximo número da revista do BIP mas corto-lhe a palavra, alegando que estou sem bateria no telemóvel.


Eu é que estou sem baterias, preciso de me deitar na cama, baixar as persianas, pôr o último disco do Keith Jarrett e pensar na minha vida. Desligo os telefones e escondo-me de mim própria debaixo do edredon. Dormito meia hora e quando acordo, ligo o computador. Tenho que fazer isto hoje e arrumar para sempre, senão no meu coração, pelo menos na minha cabeça, esta história. As palavras hão-de me guiar e hei-de descobrir um caminho qualquer. Como diz o poeta António Machado caminante no hay cantino, el camino se hace al andar. As palavras são os meus passos, cada frase será como uma pedra que deixo atrás de mim para não me perder no regresso. Querido Manel: Não sei como começar esta carta, nem sei se ela fará algum sentido, mas preciso de te transmitir tudo o que ficou por dizer, antes que rebente de mágoa e de tristeza, antes que os dias se sucedam num absurdo tão vazio e idiota que perca a vontade de viver. Aceito a tua partida inesperada e a tua fúria. Ambas são justificáveis, mas permite-me deixar-te nestas que serão certamente as últimas palavras que terás de mim, uma explicação nas folhas de papel que agora te escrevo e que são o único caminho até ti. Ensinaste-me que a verdade nunca é exacta, que cada realidade encerra em si mesma tantas verdades quantas as pessoas nela envolvidas. Por isso sempre preferiste a dúvida ao conflito. Detestas o conflito e nisso és parecido comigo. Nisso e noutras coisas, mas não é para falar daquilo que nos une que te escrevo. Se assim fosse, estaria ao teu lado a dizer-te coisas que já sabes, só pelo prazer de te as dizer, como tantas e tantas vezes fazem aqueles que se amam, numa doce repetição que fortalece o amor, como quem rega uma planta todos os dias e a vê crescer no silêncio de um parapeito desamparado e solitário. Mas escrevo-te pela razão oposta, em nome de tudo aquilo que nos separa. Talvez haja mais sentido nas nossas semelhanças do que nas diferenças. Essas, aproximam-nos mais do que tu julgas, porque é da diferença e da complementaridade que nascem as melhores relações. Claro que, para que elas nasçam e cresçam, têm que sobreviver ao conflito, à luta, tantas vezes dura e implacável, mas sempre necessária. Tenho à minha frente o caderno que te comecei a escrever, uma espécie de diário da minha paixão contida por ti, aquele que nunca quiseste ler, embora me tivesses alimentado a esperança de um futuro longínquo, que um dia talvez pudéssemos partilhar, um projecto de vida futura que nunca passou da minha


imaginação ou do teu delírio. Mas de que vale o amor sem um futuro sonhado, mesmo que nunca se concretize? Toda a nossa existência tem por condição a infidelidade a nós próprios. Fui muitas vezes na minha vida infiel aos outros, mas sobretudo a mim própria, quando me recusava a escutar o meu próprio coração. E tantas vezes o fiz que receei tornar-me igual a quase toda a gente, que sobrevive nesse estado de nãoexistência, sem sequer ter a consciência de como e quão fundo nele se pode estar aprisionado. Sem saber nem como nem porquê, e, apesar da minha aparente desorganização caótica, fui mantendo algumas réstias de lucidez que me foram permitindo analisar-me, se não com objectividade, pelo menos com alguma justeza. Se fosse objecto era objectiva, como sou sujeito, só posso ser subjectiva, não tenho por isso pretensões a alcançar aquilo que nem deuses nem homens poderão cingir no seu espírito: o cerne da verdade absoluta. Mas, talvez porque sou de mim mesma o meu maior carrasco, posso debruçar-me sobre estas folhas para te falar não da verdade, mas da minha verdade, daquela que carrego no coração. Há muitos anos que aprendi que, se há alguma verdade, ela está no que se sente e assim tenho vivido, até porque entregar a minha existência a outro modo de vida que não seja regido pela franqueza, não faz para mim qualquer sentido. Olho para trás e vejo com tristeza que os meus erros contaminaram as recordações do tempo em que ainda não os havia cometido e isso faz-me sentir culpada de coisas que não fiz. Por isso aplico a mim mesma uma espécie de autoflagelação, esperando que a dor infligida apague a original e, quando a segunda se esfumar, pouco mais reste da primeira, a não ser o sabor eterno e amargo de uma perda irreparável. E os erros desfilam, qual parada silenciosa perante os meus olhos. O primeiro erro que cometi foi ter-me apaixonado por ti. Não sei ainda hoje explicar o que me aconteceu. É como se de repente tivesse saído de dentro de mim própria e assistisse ao desenrolar da paixão que crescia desmesuradamente, sem que nada pudesse fazer para o evitar. Talvez, sem quereres ou saberes, tenhas tocado nos pontos cardeais da minha insegurança e deles se tivesse acendido uma luz que segui, cega e surda, como os insectos numa noite de Verão à volta de uma lâmpada que alguém se esqueceu de apagar. Mas o amor é mesmo assim: absoluto, estúpido e tudo menos sensato. Ou talvez me tenha apaixonado apenas pela tua imagem e, quando te tornaste real aos meus olhos, te tenha adaptado a um ideal humanamente perfeito, à luz do meu desejo. De qualquer forma, apaixonei-me por ti e esse foi o erro primordial, o primeiro de todos, provavelmente o único importante. Os outros erros nunca se teriam dado se este primeiro não tivesse crescido como uma bola de neve


perdida numa avalanche. Não sei avaliar exactamente o que aconteceu, mas também há tão pouco de exacto na observação dos mistérios mais simples! O mundo, para cada um de nós só existe na medida em que se confina na nossa vida, naquilo que vemos, sentimos, ouvimos, sonhamos, tememos e acreditamos. E cada um de nós encerra o seu mistério que nem o próprio entende. É por isso que ao sermos espectadores da nossa existência, sofremos quando a vemos caminhar para onde não queremos ir, mas assistimos, impávidos e impotentes ao curso natural das coisas. O segundo erro, e deste assumo toda a culpa, foi não te ter escondido que te amava. Queria-te tanto que pensei que isso te obrigaria amar-me. Como fui burra e infantil! O amor e a gratidão nada têm a ver um com o outro, embora ambos mascarem estados de afecto. O amor não se procura. Simplesmente vemnos parar às mãos e só amamos o que é diferente, mesmo que nos pareça de algum modo semelhante. Tu tens essa diferença, que me cativou. Mas devia ter aprendido a escutar os teus sinais e a decifrá-los, antes de me denunciar com os meus, bem menos subtis, bem mais temerários. Sou uma guerreira, Manel, o amor é a minha arma. O meu coração é o meu escudo, avanço sem lança nem capacete, caio e levanto-me as vezes que for preciso, mas não paro nunca. A não ser que o caminho se feche. Quando te foste embora, percebi que a tua porta se tinha fechado para sempre. O António Lobo Antunes diz que o coração quando se fecha faz muito mais barulho do que uma porta, e acredita, oiço ainda o barulho do teu silêncio, como uma pedra encostada à garganta. Mas serviu-me para aprender algumas coisas, entre as quais que estar quieta também é uma acção. E ao ficar quieta, consegui parar de sonhar, e comecei a viver cada dia um atrás do outro, a sair para a rua e respirar o ar aquecido pela luz do Sol como uma dádiva de Deus. Quando sonhamos muito, corremos o risco de deixar de viver neste mundo, passamos para outra dimensão e não raras vezes transportamos connosco aqueles que amamos. E aquilo com que sonhamos, passa a ser o nosso desejo e é em função disso que respiramos, vivemos, adormecemos e acordamos. Mas, onde vou e o que te quero dizer com as minhas palavras? Ah, é verdade, íamos então na enumeração dos meus erros. Não te sintas tentado a sentir algum tipo de compaixão, lê-me apenas até ao fim, é tudo o que te peço. Só quero que me oiças. O meu terceiro erro, já te disse qual foi. Caímos num duplo equívoco: nunca acreditaste que eu gostasse de ti e sempre gostei; nunca acreditei que não me amasses e afinal não chegaste sequer a gostar de mim. No amor, os homens são paranóicos e as mulheres obsessivas.


Eles não acreditam no amor delas e elas não admitem a falta de amor neles. Tu e eu fomos apenas mais um caso entre tantos e tantos milhões e mais uma vez a história repetiu-se. Outro dos meus erros foi o de não reconhecer em ti aquilo que eu própria sou, o que me fez vítima das minhas próprias armas. Tu és um sedutor compulsivo e um jogador nato. Seduzes para conquistar e jogas para ganhar. Podes nem sempre vencer o jogo da sedução, porque quem seduz também acaba por ser seduzido, quanto mais não seja pelas suas próprias manobras, mas quando jogas é sempre para ganhar. Foi o que fizeste com o teu pai, foi o que fizeste na gestão da tua carreira e do teu património, é o que continuas e continuarás sempre a fazer em tudo na tua vida. Devia ter pressentido em ti que a sede de vitória iria sempre suplantar qualquer outro interesse ou valor. Ou talvez o tenha pressentido. E assim Como os pressentimentos, imaginamos que os tivemos porque não nos perdoamos por não os ter tido. Talvez tenha pressentido por debaixo da tua capa de calma e tranquilidade, de bonomia e tolerância, um espírito bélico e implacável, habituado a seduzir, a ter, a controlar e a vencer. Cá está outro dos meus erros. Não reconhecer na tua personalidade o desejo obsessivo, quase doentio de controlar todas as situações, como se a vida se levasse pela trela e se esticasse ou encolhesse conforme aquilo que mais nos convém ou interessa. Ao contrário de ti, não jogo para ganhar, nem sequer jogo, porque não sei esperar, não tenho qualquer aptidão para estratega, não respeito regras nem sigo os tempos. Mas cometi ainda outro erro ao me calar, ao não te ter dito, desde o primeiro instante tudo aquilo que pensava. Sempre achei que o silêncio acabaria por estoirar com a nossa relação. Acusas-me de falta de sinceridade, mas como podia dizer-te o que se passava, se nunca me autorizaste a dizer-te o que sentia? Posso ser pouco frontal, mas não sou como tu, dúbio, indefinido, indeciso, lábil, secreto, manipulador, subtil no teu jogo, cauteloso nos teus passos, sinuoso e volúvel. Com o tempo aprendes a observar-te e a analisar-te com a mesma militância com que um cientista se atira às provetas em busca de fenómenos semelhantes ou diferenciadores que lhe permitam construir regras, fórmulas ou teorias. Falta-me a clareza de espírito, por vezes penso tanto que as ideias se misturam numa amálgama disforme e absurda de raciocínios sem fio, mas logo retomo o leme, logo apanho a direcção e volto a estudar-te à lupa, como sempre fazem aqueles que amam quando querem perceber em que é que falharam. É tão fácil julgar os outros! Como se essa tua postura te desse alguma impunidade. Nada nem ninguém é impune diante dos seus próprios erros. Acabamos sempre por pagá-los de uma forma ou de outra.


Talvez não sintas tudo à flor da pele como eu, que sou toda feita de coração, nem sei porque é que Deus me deu miolos, nunca os uso para as coisas mais importantes da vida. Tu és frio, cerebral, foges dos sentimentos como uma criança de um cão grande, sem perceberes que tudo começa e acaba nos afectos, que o mundo é feito de coisas tão simples e grandiosas como o sexo, o amor, o ódio, a raiva e a saudade e que são os instintos mais básicos que fazem o mundo andar, sempre com conflito e luta, sempre e ainda com vontade. O teu cinismo e indecisão em relação ao amor criaram-te uma carapaça da qual nem tu próprio te consegues libertar. Talvez por isso a Marta seja a tua luz, todos temos uma luz que é a nossa luz, aquela que nos guia através dos nossos medos e afugenta os nossos fantasmas. Pensei que fosses a minha, mas agora sei que não, porque a minha luz é grande e sabe perdoar e quando se ama, como diz a Maria, perdoa-se tudo. Não se esquece nada, mas perdoa-se tudo. Soube que compraste a Quinta do meu avô, foi por acaso, não há coincidências, ainda outro dia encontrei o tal Firmino, vê lá tu o azar, mora no fim da rua aqui em Santa Catarina, que me deu os parabéns pela compra. Deve ter pensado que era um presente que me ias dar, que éramos casados ou coisa do género, seria o fim perfeito para uma comédia romântica, mas a vida não tem nada de comédia romântica, nunca acaba como nos filmes, nunca acaba bem, só acaba quando a morte chega e nos leva. E então aí é tarde, já não temos tempo para nada, rebobinamos a nossa existência a uma velocidade astronómica, as recordações ganham contornos aquáticos, ouvimos as vozes dos outros como se estivéssemos todos a conversar no fundo de uma piscina e lamentamos todos aqueles de quem nos afastámos, com quem nos zangámos, por quem nos tornámos piores pessoas. Não renego o amor que tive por ti, mas não aceito a tua intolerância, a facilidade com que julgas os outros, a leviandade com que me condenaste. Pouco tempo depois da tua partida falei com a Maria. Sentia-me tão irremediavelmente só que fiquei por lá meia dúzia de dias a cozer a mágoa e a tristeza de te ter perdido. A Maria, que como tu, nasceu e cresceu no Porto. Ela tinha falado com a irmã dela e perguntado por ti. A resposta foi inquietante: pouco se sabia de ti, eras um tipo reservado e misterioso, não se te conheciam namoradas, só alguns amigos cujas tendências sexuais não eram totalmente definidas. Nunca duvidei da tua heterossexualidade, sempre acreditei na tua palavra. E no entanto, era-me tão fácil duvidar! Nas casas antigas, não são os fantasmas que nos assustam, mas a possibilidade de, porventura, existirem. Vês agora aquilo que nos separa? Não te julgo, nem a ti nem a ninguém.


Apenas acredito, ou não, nas pessoas. Amei-te de uma forma desajeitada, arrebatadora e incondicional, sempre querendo e desejando o melhor para ti. O melhor, só tu mesmo poderás encontrar e hoje estou certa que não passa por mim. Não é a dor da rejeição que me massacra, é a dor de saber que nada poderá sobrar deste amor. Que a amizade não tem espaço nem voz entre duas pessoas que desconfiam uma da outra com a facilidade de um inquisidor contratado a soldo. Cada vez mais acredito que amar é dar e tudo o que não é dado, perde-se. E que a amizade é talvez a mais bela forma de amor, porque é gratuita e intemporal, não precisa de promessas nem de carne, não se desfaz com zangas nem se desvirtua com o tempo. Mas não te posso dar o meu carinho, o meu afecto, o meu amor domesticado em amizade, se nem sequer tens a grandeza de abrir os braços para a receber. As mulheres demoram algum tempo a transformar um sentimento em pensamento, tanto mais quanto este é profundo, e no sossego da minha casa, onde só comunico com o mundo exterior o suficiente para me manter viva, guardo intacto tudo o que sinto por ti. Fechada para o mundo e para os outros, sinto-me cada vez mais só, mergulhada numa escuridão voluntária e estéril que me aplaca a vontade e os sentidos. Com a morte deste amor por ti, morre também uma parte de mim, algo cujos contornos não consigo ainda delinear mas que com o tempo perceberei, quando a alma apaziguada fechar as feridas desta minha dor derrotada e passiva perante o teu silêncio e a tua mascarada indiferença. Mas é melhor que nunca mais se cruzem os nossos olhares, é melhor que a palavra adeus seja mesmo essa e não outra. Chegámos ao fim do caminho. A partir daqui todas as palavras serão inúteis. Nunca saberei até que ponto ages com o coração ou apenas com a cabeça. Até que ponto te entregas ou apenas jogas. Até que ponto sentes e ages, ou apenas observas. E é por nunca ter sabido quem és, que um dia te conseguirei esquecer. Sempre disse que as diferenças iriam servir mais para nos unir do que para nos afastar. Mas agora sei que não. Ao contrário de ti, não sou, nem nunca serei, espectadora da minha própria vida. Lisboa, 1 de Fevereiro de 2000


Nascida em Lisboa em 1965 desde cedo revelou uma enorme paixão pela escrita. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade de Lisboa e começou a colaborar na imprensa com 22 anos, passando por publicações como O Independente, Sete, Marie Claire e Diário de Notícias. Foi repórter do Canal 1 e trabalhou como copy-writer. Retomou a crónica O Meu Pequeno Mundo em 1999 na revista Olá e é cronista regular da Elle, colaborando também com outras publicações. Escreve guiões para cinema e televisão, tem sempre mais ideias e projectos do que tempo para os realizar, é mãe, nada três quilómetros por semana e escreve em qualquer lado, desde que leve um caderno de capa preta. Não Há Coincidência é o seu segundo romance, escrito ao sabor da pena.

Não Há Coincidências (Margarida Rebelo Pinto)  
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