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A eletrificação do frevo

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Fortaleza - Ceará - Junho | Julho | Agosto - N° 01 - R$ 1,00

Tropicália, a semente da música baiana

A origem do trio elétrico

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Na década de 60, no rastro da contracultura, quando a juventude promoveu uma revolução comportamental ao questionar os padrões da cultura ocidental, surgiram na Bahia dois movimentos importantes para o cenário nacional: o Cinema Novo (Glauber Rocha) e a Tropicália (Caetano Veloso e Gilberto Gil).

Luiz Caldas, o “pai do axé” P.4

Em plena tarde de domingo de carnaval, a dupla subiu a ladeira da Montanha em direção à Praça Castro Alves e Rua Chile, arrastando milhares de pessoas. Dodô e Osmar, em cima da “fobica” decorada e eletronicamente equipada, fizeram, assim, sua primeira aparição como os inventores do trio elétrico.

O surgimento da musicalidade baiana P.2


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O lendário carnaval de 1884

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ano de 1884 é considerado o marco decisivo para o carnaval baiano, uma vez que foi nesse ano que a organização dos festejos de ruas e os desfiles de corsos, carros alegóricos e de vários populares tiveram início. O Carnaval de 1884 pegou Salvador em um período de crescimento rápido, provocado pelo progresso da agricultura em outras regiões e pelas exigências de um melhor ordenamento do espaço urbano com o êxodo rural. Respirava-se progresso e os comerciantes já utilizavam a publicidade nos jornais durante a festa. Tanto as pessoas que se fantasiavam como as que esperavam o cortejo vestiam-se a rigor, algumas em ternos de linho, polainas e chapéus. Fundado em 1833, o Clube Carnavalesco Cruz Vermelha fez seu primeiro desfile em 1884, realizando um cortejo pelas ruas de Salvador na presença de um carro alegórico com o tema “Crítica ao jogo de loteria”, ricamente decorado com peças importadas da Europa. A iniciativa foi um verdadeiro sucesso e ganhou milhares de aplausos e pétalas de flores dos populares que se encontravam nas ruas. O Cruz Vermelha mudou consideravelmente o carnaval. Em março do mesmo ano, um grupo de jovens da alta sociedade da época fundou o Clube Carnavalesco Fantoches da Euterpe, tendo como um de seus fundadores Antônio Carlos Magalhães Costa, bisavô do saudoso senador Antônio Carlos Magalhães. Em 1885, a disputa entre os dois clubes foi ainda maior. O Diário de Notícias, o jornal mais influente da época, publicou um anúncio de um quarto de página, a pedido do Cruz Vermelha, descrevendo a sua passeata. Já o Fantoches reagiu publicando o seu programa de festas em três colunas. Ambos foram às ruas com temas maravilhosos e indumentárias vindas da Europa. O carro-chefe do Cruz Vermelha apresentava “A Fama” e o Fantoches, “A Europa”.

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A popularização do carnaval baiano

O carnaval era algo da elite, que desfilava nas ruas e frequentava os bailes dos teatros da Cidade Alta. A população pobre se divertia através de outras manifestações como, por exemplo, os afoxés Embaixada Africana e Pândegos da África, que desfilavam pelas ruas da Cidade Baixa, principalmente as do Pelourinho. Quando os negros tentavam subir a ladeira para se integrarem ao carnaval das elites eram proibidos, mas, ainda assim, continuavam a fazer sua festa. A partir da década de 1940, devido ao grande desenvolvimento cultural e social, as fantasias que vinham da Europa passaram a ser importadas com dificuldade e, aos poucos, as camadas populares passaram a ocupar espaços em áreas nobres da cidade, como o Campo Grande e a Praça Castro Alves, locais onde a folia baiana acontece com força total, fazendo o verdadeiro carnaval da Bahia que acontece hoje.

“Scène de Carnaval”, comemoração do Entrudo Popular nas ruas brasileiras, de Jean-Baptiste Debret, 1834

Na época, não havia uma comissão julgadora para estabelecer quem vencia os desfiles e o julgamento era determinado pela imprensa, que media a aprovação da população através dos aplausos. O Cruz Vermelha, mais popular, sempre vencia, pois o Fantoches, mais ligado à aristocracia, tinha uma torcida bem menor. Todas as outras entidades representavam a classe média. No ano de 1886, os presidentes dos clubes resolveram se reunir na Associação Comercial a fim de planejarem um trajeto para os desfiles. Quatro anos depois, alguns dissidentes do Cruz Vermelha, inspirados por um grupo de meninos que passavam pelas ruas cantando e tocando latas, fundaram o Clube Carnavalesco Inocentes em Progresso, que se tornou a terceira força carnavalesca da Bahia.

O surgimento da musicalidade baiana

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relação entre a Bahia e a música é bastante antiga, e os africanos possuem um papel fundamental nessa herança. Nas praças, locais de frequentes reuniões entre os escravos, era bastante comum um deles, inspirado pela saudade da sua “Mãe Pátria”, recordar um canto. Os outros, ao ouvirem a voz daquele companheiro, entusiasmavam-se e o acompanhavam em cada canto, fosse através de um refrão nacional ou de um grito determinado, surgindo daí a expressão que diz que “baiano fala cantando”.

Os africanos trouxeram para cá diferentes batidas e, segundo a tradição, cada orixá ou entidade era saudada por uma batida particular. Quando os africanos aqui chegaram, os colonizadores portugueses, com o objetivo de desarticularem culturas para evitar possíveis rebeliões, resolveram misturar os escravos das diversas tribos e etnias. Porém, ao invés de desconstruírem identidades culturais, acabaram influenciando a criação de uma nova cultura com muitos ritmos. É por essa razão que nos terreiros de candomblé, nas ruas, nos ônibus, na fala e em qualquer lugar da Bahia a musicalidade se faz presente.


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A origem do trio elétrico

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m um período de esvaziamento cultural no carnaval, surge em Recife o grupo musical Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas. O Vassourinhas era um conjunto de frevo com cerca de 150 músicos que tocavam em cima de um carro. Em 1950, após uma temporada no Rio de janeiro e de passagem por Salvador, o grupo foi convidado pelo Governador da Bahia, Otávio Mangabeira, para desfilar pelas ruas do Centro da cidade na quarta-feira anterior ao carnaval. Este dia constituí um novo marco na história do carnaval da Bahia, pois o que se viu pelas ruas foi uma grande novidade: o povo seguia atrás do grupo e dançava tudo que tocava. Estava sendo quebrado um paradigma: outro formato para a folia se tornava possível. Na manhã seguinte àquela apresentação, Dodô e Osmar, inspirados pela alegria contagiante dos pernambucanos e pela grande aceitação popular, começaram a trabalhar no projeto de construção do que viria a ser o trio elétrico. Osmar, proprietário de uma oficina mecânica, retirou do galpão um Ford 1929, conhecido como “fobica”, e iniciou o processo de decoração, pintando em todo o veículo vários círculos coloridos, como se fossem confetes, e confeccionou em compensado, no formato de violão, duas placas com os dizeres “Dupla Elétrica”. Dodô, com formação em radiotécnica, decidiu montar uma fonte que, ligada à corrente de uma bateria de automóvel, iria alimentar a carga para o funcionamento dos alto-falantes instalados na “fóbica”, onde eles se apresentariam com os seus “paus elétricos”. Em plena tarde de domingo de carnaval, a dupla subiu a ladeira da Montanha em direção à Praça Castro Alves e Rua Chile, arrastando milhares

de pessoas. Dodô e Osmar, em cima da “fobica” decorada e eletronicamente equipada, fizeram, assim, sua primeira aparição como os inventores do trio elétrico. No entanto, o primeiro desfile do trio elétrico de Dodô e Osmar foi recebido com vaias de um lado e aplausos do outro, visto que a estreia da “fóbica” acontecia às 17 horas do domingo de carnaval, mesmo horário do desfile do bloco Fantoches da Euterpe. A diretoria do Fantoches, de fraque e cartola, pedia para que a “dupla elétrica” desligasse o carro de som, porém, quando Dodô e Osmar obedeciam, a multidão pedia que voltassem a tocar as marchinhas e os frevos. Dirigida por Olegário Muriçoca, o primeiro motorista de trio do mundo, e acompanhada por uma pequena multidão, a “fóbica” foi abrindo espaço na avenida em direção à Praça Castro Alves, onde havia mais espaço para tocar. Estava sendo criado também o frevo baiano, uma mistura entre o verdadeiro frevo pernambucano e a marchinha carioca, como definiu Caetano Veloso. O som saía de duas cornetas, uma instalada na frente e outra atrás. Em uma faixa na parte externa, estava escrito: “A dupla elétrica”. No chão, um grupo de músicos tocava caixa, surdo, bumbo, pandeiro e prato, acompanhando a marcha lenta da “fóbica”. Naquela época, o carnaval de Salvador em nada lembrava a festa popular que é hoje. A brincadeira no Centro era apenas um desfile de fantasias ao som de marchinhas lentas, assistido por pessoas nas calçadas. Algumas chegavam a levar as cadeiras para descansar entre a passagem de um bloco e outro. O surgimento do velho calhambeque pilotado por dois jovens tocando instrumentos “esquisitos” foi mais que uma revolução: cadeiras guardadas, a folia nunca mais foi a mesma.

A eletrificação do frevo

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s soteropolitanos Adolfo Nascimento (o Dodô) e Osmar Álvares Macedo (o Osmar) foram responsáveis por um dos capítulos mais férteis da história musical brasileira.

No ano de 1942, o violonista Benedito Chaves chegava à Bahia para fazer uma apresentação com seu violão elétrico no Cinema Guarani, na Praça Castro Alves. Dodô e Osmar foram conferir a apresentação do músico e, apesar do sucesso, observaram que o instrumento dava muita microfonia, precisando o artista ter que interromper a apresentação para mudar a posição do amplificador. Dodô, que era especialista em eletrônica e trabalhava construindo instrumentos de som, além de tocar violão, descobriu como corrigir o fenômeno

da microfonia, retirando a caixa acústica do instrumento e montando suas cordas em um pedaço de pau (o cebo maciço) adaptado com o braço de um violão. Fez o mesmo com um cavaquinho, criando, assim, a guitarra baiana, conhecida como “pau elétrico”, um ano depois do norte-americano Lês Paul ter criado seu primeiro protótipo de guitarra elétrica. A partir de então, a dupla elétrica passou a tocar em clubes, festas e bailes com seus próprios instrumentos. Dodô e Osmar elevaram o frevo a um nível instrumental jamais imaginado pelos pernambucanos, estabelecendo novos padrões para o ritmo e incorporando outros gêneros musicais à folia, mudando a face do carnaval da Bahia e, posteriormente, de todo o país.

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A origem do nome “trio elétrico“

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Em 1951, Dodô e Osmar resolvem convidar o amigo e músico - arquiteto Temístocles Aragão para integrar a dupla e tocar nas ruas de Salvador em uma picape Chrysler, em cujas laterais se liam em duas placas: “O trio elétrico”. Osmar tocava a famosa “guitarra baiana”, de som agudo; Dodô era responsável pelo “violão-pau-elétrico”, de som grave, e Aragão pelo “triolim”, como era conhecido o violão tenor, de som médio. Estava formado o trio musical. Na cronologia da história do carnaval, uma coisa é certa: o trio elétrico e a guitarra baiana constituem o pontapé inicial para que a festa popular na Bahia chegasse hoje ao grande evento mundial que é. Mesmo após a saída de Temístocles do grupo,em 1954, o negócio continuou a ser chamado de trio elétrico, ou seja, independentemente do número de músicos, onde houver um caminhão com uma banda em cima é dado o nome trio elétrico.


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Tropicália, a semente da música baiana

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a década de 60, no rastro da contracultura, quando a juventude promoveu uma revolução comportamental ao questionar os padrões da cultura ocidental, surgiram na Bahia dois movimentos importantes para o cenário nacional: o Cinema Novo (Glauber Rocha) e a Tropicália (Caetano Veloso e Gilberto Gil).

Na busca por universalizar a linguagem da MPB, a Tropicália incorporou o rock e a guitarra elétrica, modernizando não só a música, mas também a cultura nacional, dando um passo importante para o Brasil e plantando a semente para mais de quatro décadas do que podemos chamar de música baiana, influenciando desde os pioneiros da mistura de ritmos, como Moraes Moreira até as gerações atuais, como Carlinhos Brown, passando por Raul Seixas, que apesar de não ser reconhecido como parte da história do carnaval baiano, deu uma importante contribuição para ele. Depois de Raul, muitas bandas originalmente do rock migraram para o trio elétrico, trazendo todas as influências do gênero, inclusive suas distorções e solos de guitarra. Essas bandas seguem até hoje fazendo grande sucesso com um estilo próprio, como Asa de Águia e Chiclete com Banana.

Luiz Caldas, o “pai do axé”

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m 1982, Luiz Caldas foi contratado para integrar a equipe do Estúdio WR, um dos pioneiros no mercado fonográfico da Bahia e que possuía em sua equipe músicos, como Carlinhos Brown, que mais tarde se tornariam grandes estrelas da música baiana.

ver uma “negrinha bonitinha” passar e ao ouvir um homem que vinha atrás gritar , “pega ela aí pra passar batom”, compôs “Fricote”, nascendo daí um novo ritmo que levou o mesmo nome da composição e que representou a fusão de ritmos do Trio Elétrico com ritmos dos blocos afros.

Na WR, Luiz tocava guitarra, guitarra baiana, teclado, baixo, bateria, cantava e ainda compunha jingles para os mercados publicitário e musical da Bahia e de Sergipe. Luiz Caldas levava essa carreira paralela à de músico de trio, onde tocou com o Tapajós e o Traz os Montes. Em 1984, ao mudar para o bloco Beijo, seu trabalho passou a se aproximar mais da classe média, ao formar junto com outros músicos da WR a banda Acordes Verdes.

Depois disso, Luiz foi fazer uma apresentação e resolveu em cima da hora tocar “Fricote”, ficando surpreendido com a aceitação do público. Um radialista da Itapoam FM tinha em mãos a fita com a gravação do show e, mesmo sem muita qualidade, resolveu colocar “Fricote” para tocar na programação da rádio. Resultado: a música foi um sucesso.

Ainda no ano de 1984, Luiz Caldas, estando em Simões Filho, cidade próxima a Salvador, conferindo a apresentação do trio Tapajós e tomando cerveja com seu amigo Paulinho Camafeu, ao

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Orlando Tapajós

Em 1955, entrou em cena um personagem importante na história do trio elétrico, Orlando Campos, mais conhecido como Orlando Tapajós. Aos 22 anos, contratou o trio Cinco Irmãos para tocar em uma festa no subúrbio de Salvador, porém, inconformado com o não aparecimento da atração, resolveu criar seu próprio trio, comprando a carroceria do trio de Dodô e Osmar, dando início a adaptação de estruturas metálicas e a substituição completa da carroceria do caminhão, passando a usar somente o eixo original do veículo. Além disso, construiu banheiros nos trios. O Tapajós foi o grande responsável pelo fato do trio elétrico, como estrutura física, ter se mantido e se expandido como fenômeno carnavalesco. As máquinas de Orlando Campos fizeram história pelas ruas, com destaque para o Tapajós e para a Caetanave, criada em homenagem a Caetano Veloso, em seu retorno do exílio em 1972. No início da década de 1980, o Trio Traz os Montes inovou ainda mais com um sistema transistorizado, onde caixas de som substituíram os auto-falantes, levando para cima do caminhão uma banda completa, inclusive com bateria e percussão que, antes disso, caminhavam em baixo, ao lado do trio.

Wesley Rangel, ao observar o apelo popular que a música tinha, resolveu arriscar na produção do primeiro disco de Luiz Caldas, “Magia”, que vendeu 380 mil cópias. Naquele momento, a estrada que ligaria a música da Bahia para o mercado do Sul e do Sudeste do país estava pavimentada.


Jornal Por Trás do Trio