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1 Crônicas de Distopias COMO É PAVIMENTADO UM FUTURO APOCALIPTICO A FSP em junho de 2018, em base a pesquisa em banco de dados sobre filmes (IMDB) apontou que os longas que retratam o fim do mundo entre 2001 a 2018, totalizando 211, superam todos os lançamentos do século XX que chegaram a 154 longas. O filtro de pesquisa neste banco de dados foi “end of the world”. A temática do medo, o receio de guerra atômica, religiosas, terrorismo e o imaginário sobre ataques alienígenas, junto ao esgotamento dos recursos planeta ganham cada vez mais plateias interessadas. Diversos vetores podem gerar este pano de fundo, a presença na mídia de atos de terrorismo, mudanças radicais e rápidas no mundo do trabalho que geram insegurança, crescimento demográfico e migrações, as questões ambientais climáticas, a engenharia genética e os limites do crescimento provocam incertezas e angústias. Toda esta carga de tensões é referendada e reforçada por eventos que são projetados instantaneamente e globalmente pelas mídias como se estivessem ao nosso lado incrementando a angustia, gerando impotência e medo aumentando também o índice de suicídios. Agora bem, é parte da peculiaridade de nossa espécie a imaginação futurística, criar futuros imaginados e persegui-los, geralmente projetávamos um futuro utópico positivo (como criar o paraíso após a morte, lugar que superam a dor e o sofrimento, com festa permanente o recepcionado por virgens). A sensibilidade dos artistas, escritores, poetas funcionam como mensageiros de boas novas e quem sabe agora de um incerto futuro. Lembremos artísticas como Leonardo Da Vincci, Julio Verne, a obra de Frankstein, Ashimov, Star Treck, etc., eles projetaram obras futuristas, projetaram o imaginário latente, algo “que estava no ar” e muitas se concretizaram. Na atualidade as expressões massivas de arte são os audiovisuais, a arte cinematográfica. Contudo, agora, estas expressões artísticas fílmicas em número massivo de projetam um futuro catastrófico, apocalíptico e distópicos. Estes artistas não estão imaginando e contribuindo com uma “construção imaginada” ou alertando para um potencial cenário de futuro? Em um mundo de virtualidades, onde as fronteiras do real e o imaginado se tornam diáfanas transformam estas temáticas um “quase um real cotidiano” no imaginário coletivo. É como se este imaginado acontecer no futuro já o estivesse vivido nas projeções imaginadas. A catástrofe se torna como naturalizada. Esta é uma hipótese exploratória dos impactos que este movimento que de certa forma “fortalecem esta narrativa catastrófica do futuro”. Que significado possui esta oferta e demanda de filmes distópicos? Portanto, se o imaginário do futuro tem sido um manancial de criatividade e energia impulsora da nossa espécie, como a conquista espacial, a exploração da matriz da vida com a manipulação do DNA, não é de descartar que a geração de uma espécie de “campo morfogênico” que contamina e fortalece o conceito de um futuro catastrófico, gere também tanta energia coletiva expressada na angustia, melancolia derivando para a fuga no mundo das ilusões virtuais, das drogas e aumento comprovado de suicídio. Esta questão abre uma reflexão para olhar o futuro calcada nos debates e conceitos gerados por reflexões e textos como o de Sigmund Freud, em “O Mal-Estar da Cultura” registrando em outra conjuntura histórica. Sua reflexão teórica e hipóteses e teses sustenta que estamos em embates em busca do equilíbrio, da tranquilidade da paz e do amor, mas convivemos com a violência e a guerra. Temos ligações dinâmicas com as denominadas pulsões originárias de morte e de vida. Será que o paradigma de reflexão de Freud permitiria pensar que a estabilidade e paz não é próprio da vida orgânica ou social, que existe uma dinâmica de constantes arranjos e desarranjos, alcançar um estado de paz e estabilidade seria a morte? O equilíbrio seria inacessível, alcança-lo seria o desmoronamento das civilizações e o triunfo da morte? A tese é de que toda civilização esta assentada sobre a coerção e a renúncia das pulsões, uma vez que a agressividade é um traço indestrutível da natureza humana e o controle e inibição das pulsões aponta evitar ameaça constante de ruina de sociedades civilizadas. Esta dinâmica observada na organização social estaría em sintonia com a própria dinâmica da natureza da vida orgânica em geral e enquadra o destino das civilizações. Os organismos funcionam em um tipo de rito alternado: um conjunto de instintos avança precipitadamente ao objetivo final da vida, e outros ao atingir certa etapa do caminho volta atrás para recomeçar o percurso. Todo o ser vivo ao nascer


2 inicia sua marcha para a um fim a morte, a existência é a soma das mudanças quantitativas e qualitativas desta tendência biológica avança sob os efeitos das pulsações. A tendência de todo organismo vivo e voltar ao estado inorgânico. Mas a dinâmica da natureza projetada na dimensão social demanda redirecionar a agressividade contra o individuo para evitar que exerça em seus congêneres, utilizando assim a agressividade contra ele mesmo. É também, neste contexto que se insere o papel da religião, esta contribui ao equilíbrio com a tarefa de exorcizar as forças da natureza, nos conciliar com a crueldade do destino (como se manifesta a morte) e nos compensa pelos sofrimentos e privações que a vida comunal da civilização impõe aos homens (os 10 mandamentos e o sentimento de culpa conceito essencial da cultura). Assim sendo, para fundar e manter a civilização humana é necessário inibir a pulsão sexual, desviar a denominada energia libidinal para atividades uteis a comunidade, reforçar laços sociais, relações de amizade e inibir a agressividade. A arquitetura da civilização repousa sobre a violência, ao Estado se transfere o monopólio da violência que ganha escala coletiva à agressividade, dando um sentido a pulsão de morte. O Estado faz a guerra se permite todas as injustiças, é o herdeiro do pai primitivo e age contra o individuo a fim de força-lo a integrar a comunidade. A sociedade só sobrevive e ultrapassa a agressividade por meio da agressividade interiorizada e da pulsão de morte. Isto serve tanto para classificar as civilizações e organismos vivos. O processo de civilização é apenas modificação o processo vital. A civilização só pode sobreviver se desenvolve “supereus culturais”, “supereus coletivos”. Civilização é a dimensão social do combate da espécie humana pela vida e depende da luta eros x morte. Introduzir no campo cultural a pulsão de morte se torna um principio ordenador da gênese, do funcionamento e da destruição da civilização. Parece ser neste contexto se insere a cultura fílmica das projeções distópicas? CAIXA DE PANDORA LIBERA O LADO NEGRO DA ESPÉCIE HUMANA Assim, se para a convivência comunitária a matriz civilizatória da espécie esta calcada na imposição de comportamentos e normas de convivência em comunidade, na supressão e coerção sobre os desejos do individuo, controle dos impulsos agressivos com castigos e punições. O recalque é constante para garantir as relações civilizadas, inclusive com repressão, castigos e exclusão da convivência com prisões. A formação e imposição de comportamentos é continuo. Contudo, os mecanismos de expressão e comunicação do individuo eram de difícil acesso para a maioria e a socialização civilizada passava por diversas instituições, escolas, igrejas, partidos, etc; Agora bem, com o advento da INTERNET, o acesso a smatphone poderosos e a individualização em “redes sociais” com, a possibilidade de expressar-se sem coerção e até no anonimato possibilitou a emergência de um fenômeno explosivo multidirecional que poderia por analogia conceitual assemelhar-se a mitologia grega da abertura da “Caixa de Pandora”. Pandora é a primeira mulher criada por Zeus para Prometeu, ela ganha de presente uma “caixa” e é alertada que ali estariam presos “todos os males do mundo”. Contudo a curiosidade irresistível de Pandora a levou a abrir a caixa, deixando todos os males escapassem, ficando no fundo da caixa um dom, a “esperança”. Nesta nossa reflexão sore o presente e futuro a INTERNET é a chave que permitiu abrir a “caixa de pandora” que somos nós mesmos, controlados pela socialização e coerção social, ao cais as peias que nos controlam, liberamos todos os males recalcados, e emerge o lado negro da nossa espécie. A discórdia, a guerra, a inveja, a dor e todas as doenças do corpo e da mente, a calúnia, fake News, agressividade gratuita, pedofilia, o domínio da pornocracia, os jogos, bulling, a tentação de “ser Deus” com o uso de tecnologias invasivas que modificam o DNA, etc., Emerge uma tendência selvagem que pode levar a uma regressão civilizatória voltando ao tribalismo. Quem sabe é necessário cultivar o dom da esperança presa no fundo da “caixa de Pandora” fortalecendo o lado do bem comum contra o lado negro da força. O DESDOBRAMENTO DO MAL ESTAR Em um trecho do livro de Vargas Llosa, “A Civilização do Espetáculo”, ao analisar os temas culturais no capitulo inicial sobre a “metamorfose de uma palavra”, ao aborda com estilo de comentário vários atores que tratam do tema cultura, ali destaca George Steiner e no “Castelo do Barba Azul”,


3 algumas reflexões ou afirmações para repensar a cultura a atualidade e o futuro. Citando Vargas Llosa (pp.15), “Segundo ele (Steiner) depois da Revolução Francesa, de Napoleão, das guerras napoleônicas, da revolução e do triunfo da burguesia na Europa, instala-se no velho continente o grande ennui (tédio feito da frustração, fastio, melancolia e secreto desejo de explosão, violência e cataclismo, cujo testemunho se encontra na melhor literatura europeia e em obras como “O mal-estar da cultura” de S. Freud. O dadaísmo e surrealismo seriam a ponta de lança e a exacerbação máxima do fenômeno. Segundo Steiner, a cultura europeia não só anuncia, como também deseja que venha este estouro sangrento e purificador que serão as revoluções e as duas guerras mundiais. A cultura em vez de impedir provoca esses banhos de sangue”. Estas observações de Vargas Llosa sobre as expressões culturais permite extrapolar as comparações às tendências fílmicas, literárias e “este clima no ar” de raivas, depressão e melancolia que parece marcar nosso tempo nas relações, na política e convivência, especialmente em granes urbes. É necessário prudência. ONDE LEVA A RAIVA, O DESANIMO E A TRISTEZA? Nesta onda do “nada serve” se generaliza o negativo e a raiva aos políticos e a política. Isto tem muitos alimentadores que geram uma onda de mal-estar e desesperança. Esta “energia” que se expande constrói um imaginário coletivo que certamente influi na psique, nos comportamentos e no bem-estar geral da comunidade. Uma comunidade com este perfil de desesperança e medo termina impactada por uma modalidade de enfermidade social. É neste sentido que vale a pena explorar e refletir com a recente pesquisa do DAFOLHA de São Paulo na conjuntura pré-eleição 2018. A sondagem introduz uma pergunta e uma escala para medir “estado de espirito” e emoções. A pergunta: “Quando pensa no Brasil de hoje, você se sente tranquilo ou com raiva?”: 68% responderam sentir raiva, entre estes, os mais raivosos com 74% eram os jovens entre 16 e 34 anos. A maioria dos eleitores brasileiros, segundo a pesquisa esta pessimista com o país. Em uma “escala de 6 sentimentos”, todas as avaliações pendem ao negativo superando os positivos: 88% se sentem inseguros no país, só 11% seguros. A tristeza estende seu manto: 79% estão tristes e só 18% felizes. 78% estão desanimados e só 21% estão animados com o Brasil. Entre medo e esperança, 59% sentem mais medo e entre os jovens este índice vai a 63%. Entre os maiores de 60 anos, 45% são mais esperançosos e 54% têm mais medo. Mas outra resposta à sondagem trouxe aquele elemento que restou no fundo da “caixa de Pandora”, a esperança. O certo é que não existe destino traçado, nada esta pré-determinado. Não existe alguém que nos virá salvar, a “nave mãe”, nós somos donos – até por aí - do destino. Recordando as diretrizes da metáfora real do «Manual de Instruções para a Nave Espacial Terra » de R. Buckminster Fuller. Nossa nave singra o mar cósmico sem manual de instrução, com buracos no sistema de suporte à vida, no casco e passageiros a tribulação não estão se entendendo. Walter Tesch agosto/outubro 2018.

Cronica Distópica: Como Pavimenta o Futuro  

Explorando potencial e função psicossocial dos filme distópico de ficção, a Internet como a "caixa de pandora" liberando o lado negro da...

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