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Q UEBRANDO O ENCANTO A religião como fenômeno natural

Ttradução: Helena Londres


Copyright © 2006 by Daniel C. Dennet Copyright da tradução © 2006 by Editora Globo Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. - nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora. Título original: Breaking the spell Preparação: Beatriz de Freitas Moreira Revisão: Maria Sylvia Corrêa e Otacílio Nunes índice onomástico: Luciano Marchiori Capa: Ricardo Assis, sobre Visão após o sermão: Jacó lutando com o anjo (1888), de Paul Gauguin, óleo sobre tela, 73 x 92 cm, National Gallery of Scotland, Edimburgo, Reino Unido. CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ ---------------------------------------------------------------------------------------------D46q Dennett, Daniel C., 1942Quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural / Daniel C. Dennett; [tradução Helena Londres]. - São Paulo: Globo, 2006. Tradução de: Breaking the spell Inclui bibliografia ISBN 85-250-4288-9 1. Religião - Literatura polêmica. I. Título. 06-4035. 03.11.06 07.11.06 ----------------------------------------------------------------------------------------------Direitos de edição em língua portuguesa, para o Brasil, adquiridos por Editora Globo S. A. Av. Jaguaré, 1485 - 05346-902 - São Paulo – SP www.globolivros.com


ORELHA DE LIVRO Fenômeno humano universal, a religião parece ser independente da filosofia, conforme uma opinião bastante generalizada. Adotando tal perspectiva, o leitor não se verá imediatamente conduzido a questionar o sentido desta obra? Religião, afirmamos comumente, cada um tem a sua, cada uma delas sendo incomensurável em relação às outras. No mundo globalizado, o ecumenismo relativista deveria, pois, ser a tônica. Caminhando em sentido contrário a esse "respeito" irrefletido devotado a todas as religiões indistintamente, e apoiando- se não apenas na filosofia, mas também em dados e teorias oriundos das mais diversas ciências - biologia, psicologia, neurobiologia, genética etc. -, o autor pretende contribuir para que possamos efetuar uma "escolha informada" sobre nossas vidas, se já não a efetuamos ainda, ou nos inteirarmos sobre ela caso já tenhamos abraçado uma fé religiosa. Pois, afirma, se "a ignorância nada tem de vergonhosa", é também verdade que a "imposição da ignorância é vergonhosa". Assim, este livro pretende, em suas concisas páginas, conceder a mais estrita liberdade a quem deseja refletir sobre a religião de forma rigorosa, seguindo a via dos dados e teorias científicas disponíveis e atuais. No interior da obra o leitor será confrontado com a discussão de temáticas ousadas que incidem, inclusive, sobre o valor e o sentido da religião. Ela nos tornaria mais felizes? Ou, do ponto de vista da teoria evolutiva, mais prolíficos do que - caso porventura existissem - homens não religiosos? Será possível ser ético sem acreditar em Deus? Como e por que as "religiões populares" se institucionalizaram introduzindo a necessidade da submissão a um código e uma autoridade para serem praticadas? O leitor será conduzido, através dessas indagações instigantes, a retirar os véus - do dogmatismo, do autoritarismo e do obscurantismo - que, historicamente, foram pouco a pouco acobertando os mistérios religiosos. Véus destinados não a torná-los mais ou menos misteriosos, mas previstos para coibir as possíveis tentativas de cada um refazer por sua própria conta e risco o caminho que a eles conduz. Nas palavras do autor: "as discussões sobre a existência de Deus tendem a se fazer numa bruma piedosa de limites indeterminados". Este livro, se não dissolve essa "bruma", contribui ao menos para amenizá-la e redescobrirmos, sob o marasmo dos cultos habituais, a efervescência desse fenômeno sobre o qual, juntamente com a atitude ereta e a razão, se apóia nossa vocação eterna para a verticalidade. JOSÉ LUIZ FURTADO Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto


PREFÁCIO Vou COM EÇAR com um fato óbvio: sou um escritor norte-americano, e este livro é dirigido, em primeiro lugar, aos leitores norte-americanos. Mostrei rascunhos deste livro a diversos leitores, e a maior parte dos não norte-ame- ricanos achou isso não apenas evidente, mas perturbador - até mesmo censurável em alguns casos. Não poderia eu fazer um livro de uma perspectiva menos provinciana? Como filósofo, não deveria tentar abranger um público-alvo mais universal? Não. Não neste caso, e meus leitores não norte-americanos deverão examinar o que eles conseguirem aprender a respeito da situação nos Estados Unidos a partir daquilo que eles encontram neste livro. Para mim, mais irresistível do que a reação dos meus leitores não norte-americanos foi o fato de tão poucos dos norte-americanos perceberem esse viés - ou, se perceberam, não objetaram. Esse é um padrão a ser considerado. Comumente observa-se - tanto nos Estados Unidos como fora - que há diferenças impressionantes entre as atitudes com respeito à religião nos Estados Unidos e nos demais países do Primeiro Mundo, e este livro, entre outras coisas, é um dispositivo sonoro que tem a intenção de medir a profundidade dessas diferenças. Resolvi que, se eu tivesse qualquer esperança de alcançar o meu público-alvo, teria de expressar as ênfases encontradas aqui: os cidadãos curiosos e conscienciosos do meu país natal - tantos quanto possível, e não apenas os acadêmicos. (Não vi sentido em pregar para o coro.) Essa é uma experiência, um desvio dos objetivos de livros anteriores, e aqueles que ficarem desorientados ou decepcionados agora sabem que tive meus motivos, bons ou ruins. E claro que posso ter errado o alvo. Veremos. Minha concentração na América do Norte é proposital; quando se trata de religião contemporânea, por outro lado, meu foco, primeiro no cristianismo, e depois no islamismo e no judaísmo, não é intencional, mas inevitável: simplesmente não conheço outras religiões o suficiente para escrever sobre elas com segurança. Talvez devesse ter dedicado vários anos a mais ao estudo antes de escrever este livro, mas como a urgência em me comunicar me pressionou em razão dos acontecimentos atuais, tive de me contentar com as perspectivas que consegui alcançar até agora. Um dos desvios das minhas práticas estilísticas anteriores é que, pela primeira vez, estou usando notas de final de capítulo, e não notas de pé de página. Em geral não gosto dessa prática, já que obriga o leitor estudioso a usar um segundo marcador de livros, enquanto vira as páginas para a frente e para trás. Mas resolvi que um fluxo amigável para uma platéia mais ampla era mais importante que a conveniência dos estudiosos. Isso então me permite acomodar mais material que de costume, em notas mais longas, de modo que a inconveniência traz alguma recompensa para aqueles que estão em busca de novos argumentos. Com o mesmo espírito, retirei quatro partes do material direcionado, sobretudo aos leitores acadêmicos do texto principal e as coloquei no final, como apêndices. As referências a eles estão no local em que constituiriam capítulos ou partes de capítulos. *** Mais uma vez, graças à Tufts University, tive a possibilidade de bancar o Tom Sawyer e caiar a


cerca com um grupo de alunos notavelmente corajosos e conscienciosos, na maior parte estudantes de graduação, qne trouxeram à luz suas convicções religiosas, muitas vezes profundas, ao estudarem meu rascunho inicial em um seminário, no outono de 2004, corrigindo diversos erros e guiando-me por seus mundos religiosos com bom humor e tolerância com relação às minhas gafes e outras ofensas. Se eu conseguir encontrar meu público-alvo, o feedback dado por eles merece grande parte do crédito. Obrigado, Priscilla Alvarez, Jacquelyn Ardam, Maurício Artinano, Gajanthan Balakaneshan, Alexandra Barker, Lawrence Bluestone, Sara Brauner, Benjamin Brooks, Sean Chisholm, Erika Clampitt, Sarah Dalglish, Kathleen Daniel, Noah Dock, Hannah Ehrlich, Jed For- man, Aaron Goldberg, Gena Gorlin, Joseph Gulezian, Christopher Healey, Eitan Hersh, Joe Keating, Matthew Kibbee, Tucker Lentz, Chris Lintz, Stephen Martin, Juliana McCanney, Akiko Noro, David Polk, Sameer Puri, Marc Raifman, Lucas Recchione, Edward Rossel, Ariel Rudolph, Mami Sakamaki, Bryan Salvatore, Kyle Thompson-Westra e Graedon Zorzi. Obrigado também à minha alegre equipe no Centro de Estudos Cognitivos, aos professores, assistentes de pesquisa, pesquisadores associados e assistentes de programa. Eles fizeram comentários sobre os ensaios dos alunos, aconselharam os estudantes que estavam perturbados com o projeto, deram-me conselhos; ajudaram-me a projetar, melhorar, copiar e traduzir questionários; registraram e analisaram dados; procuraram centenas de livros e artigos em bibliotecas e sites na web; ajudaram-se uns aos outros e ajudaram-me a me manter nos trilhos; Avery Archer, Felipe de Brigard, Adam Degen Brown, Richard Griffin e Teresa Salvato. Obrigado também a Chris Westbury, Diana Raffman, John Roberts, John Symons e Bill Ramsey pela participação de suas universidades em nosso projeto de questionários, que ainda está em andamento, e a John Kihlstrom, Karel de Pauw e Mareei Kinsbourne por me indicarem leituras valiosas. Agradecimentos especiais a Meera Nanda, cuja corajosa campanha para levar o conhecimento científico da religião à sua índia natal foi uma das inspirações para este livro e também para o título. (Ver o livro dela, Breaking the S-pell of Dharma, de 2002, além do mais recente Prophets Facing Backwards, de 2003.) Entre os leitores mencionados no primeiro parágrafo há alguns que preferiram permanecer anônimos. Agradeço a eles e também a Ron Barnette, Akeel Bilgrami, Pascal Boyer, Joanna Bryson, Tom Clark, Bo Dahl- bom, Richard Denton, Robert Goldstein, Nick Humphrey, Justin Junge, Matt Konig, Will Lowe, Ian Lustick, Suzanne Massey, Rob McCall, Paul Oppenheim, Seymour Papert, Amber Ross, Don Ross, Paul Seabright, Paul Slovak, Dan Sperber e Sue Stafford. Mais uma vez, Terry Zaroff fez um extraordinário trabalho de edição de texto para mim, identificando não só escorregadelas no estilo como também fraquezas concretas. Richard Dawkins e Peter Suber são duas pessoas que forneceram sugestões especialmente valiosas durante nossas conversas, do mesmo modo que meu agente, John Brockman, e sua mulher, Katinka Matson. Permitam-me também agradecer, sem dizer os nomes, às muitas outras pessoas que se interessaram por este projeto no curso dos dois últimos anos e deram sugestões, conselhos e apoio moral muito apreciados. Por fim, devo mais uma vez agradecer à minha mulher, Susan, que faz de cada livro meu um dueto, e não um solo, de maneira que eu jamais conseguiria imaginar.


Daniel Dennett


PARTE I B E R T U R A D A C A I X A D E PA N D O R A

1. QUEBRA DE QUAL ENCANTO? 1. O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

E ele lhes falou muitas coisas em parábolas, dizendo: olhai, um semeador foi semear, e quando ele semeou, algumas sementes caíram à heira da estrada e as aves vieram e as devoraram. [Mateus 13, 3-4] Se a "sobrevivência do mais apto" tiver qualquer valor como slogan, então a Bíblia parece ser um bom candidato para o prêmio de texto mais apto. [Hugh Pyper, O texto egoísta: a Bíblia e a memética] OBSERVE UMA FORMIGA em um prado, laboriosamente subindo por uma folha de capim, cada vez mais alto, até que cai, depois sobe outra vez, e mais outra, como Sísifo rolando sua pedra, sempre tentando chegar ao topo. Por que ela faz isso? Que benefício estará buscando para si própria nessa estranha e extenuante atividade? A pergunta é que está errada. Não há benefícios biológicos para a formiga. Ela não tenta obter uma visão melhor do território, nem procura comida ou se exibe para um parceiro em potencial, por exemplo. Seu cérebro foi dominado por um parasita minúsculo, Dicrocelium dendriticum, que precisa entrar no estômago de um carneiro ou de uma vaca para completar seu ciclo reprodutivo. Esse pequeno verme cerebral dirige a formiga a uma situação que beneficie sua progênie, e não a da formiga. Esse não é um fenômeno isolado. Do mesmo modo, parasitas manipuladores infectam peixes e camundongos, entre outras espécies. Esses caronas fazem com que seus hospedeiros se comportem de modos bizarros - até mesmo suicidas - para benefício do parasita, não do hospedeiro.' Será que com os seres humanos acontece alguma coisa parecida? Acontece sim. Com grande freqüência encontramos seres humanos que deixam de lado seus interesses pessoais, sua saúde, suas oportunidades de terem filhos e dedicam a vida inteira a promover uma idéia que se fixou em seus cérebros. A palavra árabe islam significa "submissão", e todo bom maometano dá testemunho disso, reza cinco vezes por dia, dá esmolas, jejua durante o Ramadã e tenta fazer a


peregrinação ou hajj a Meca, tudo em nome da idéia de Alá e de Maomé, o mensageiro de Alá. Cristãos e judeus fazem coisa parecida, é claro, devotando a vida a disseminar a Palavra, fazendo sacrifícios enormes, sofrendo bravamente, arriscando a vida por uma idéia. Os sikhs, os hindus e os budistas fazem o mesmo. E não nos esqueçamos dos muitos milhares de humanistas seculares que deram a vida pela Democracia, pela Justiça ou pela simples Verdade. Há muitas idéias pelas quais se pode morrer. Nossa possibilidade de dedicar nossa vida a algo que consideramos mais importante que nosso bem-estar pessoal - ou nosso próprio imperativo biológico de ter filhos - é um dos aspectos que nos diferenciam do resto do mundo animal. Uma mãe ursa defenderá bravamente um espaço que tenha alimentos e defenderá com ferocidade sua cria, ou até sua toca vazia. Provavelmente, contudo, já morreu mais gente na brava tentativa de proteger locais e textos sagrados do que na tentativa de proteger reservas de alimentos para seus filhos e suas casas. Como outros animais, temos desejos inatos de nos reproduzir e de fazermos o que for necessário para atingir essa meta, mas também temos crenças e a capacidade de transcender nossos imperativos genéticos. Esse fato nos torna diferentes, mas é em si mesmo um fato biológico, evidente para a ciência natural, e algo que exige uma explicação da ciência natural. Como apenas uma espécie, o Homo sapiens, veio a ter essas perspectivas extraordinárias quanto à sua própria vida? Dificilmente alguém dirá que a coisa mais importante na vida é ter mais netos que seus rivais, mas esse é o default summum bonum de todo animal silvestre. E tudo o que eles sabem. Eles não passam de animais. Existe uma exceção interessante, parece: o cachorro. O "melhor amigo do homem" não consegue mostrar uma dedicação que rivaliza com a de seu amigo homem? O cachorro não chega a morrer, se necessário, para proteger seu dono? Sim, e não se trata de mera coincidência o fato de que esse traço seja encontrado nas espécies domesticadas. Os cachorros de hoje são descendentes daqueles que nossos ancestrais mais amaram e admiraram no passado; sem sequer tentar criá-los para a lealdade, conseguiram que isso acontecesse, tirando o que há de melhor (de seu ponto de vista, do nosso ponto de vista) nos animais que nos servem de companhia.2 Será que, inconscientemente, modelamos essa dedicação a um dono segundo nossa própria devoção a Deus? Estaríamos modelando os cachorros à nossa própria imagem? Talvez; mas, então, de onde tiramos nossa devoção a Deus? E provável que a comparação com que comecei este livro, entre um verme parasita que invade o cérebro de uma formiga e uma idéia que invade um cérebro humano, pareça um tanto forçada e também ultrajante. Ao contrário dos vermes, as idéias não são seres vivos e não invadem cérebros; elas são criadas por cérebros. As duas coisas são verdadeiras, mas não são objeções tão reveladoras como a princípio parecem. Idéias não são seres vivos; elas não conseguem enxergar aonde estão indo e não têm membros com os quais guiar um cérebro hospedeiro, mesmo que conseguissem enxergar. E verdade, mas um Dicrocelium dendriticum também não é exatamente um cientista de foguetes espaciais; não é mais inteligente que uma cenoura, na verdade; nem sequer tem um cérebro. Tudo o que tem é a boa sorte de ser dotado com características que afetam os cérebros de formigas dessa maneira útil sempre que entram em contato com elas. (Essas características são como as manchas semelhantes a olhos nas asas de borboletas, que algumas vezes enganam as aves predadoras, fazendo-as pensar que algum animal grande as está olhando. Os pássaros se afastam e as borboletas se beneficiam, mas sem mérito


algum por isso.) Uma idéia inerte, se for projetada acertadamente, poderá ter um efeito benéfico sobre um cérebro sem precisar saber que isso está acontecendo! E, se tiver, ela poderá prosperar, porque é feita por aquele projeto. A comparação entre a Palavra de Deus e um Dicrocelium dendriticum é inquietante, mas a iniciativa de comparar uma idéia a uma coisa viva não é nova. Tenho uma partitura de música escrita em pergaminho de meados do século xvi que achei há meio século em um sebo de Paris. O texto (em latim) conta a moral da parábola do semeador (Mateus 13): Semen est ver- bum Dei; sator autem Christus. A Palavra de Deus é uma semente, e o semeador da semente é Cristo. Parece que essas sementes se enraízam em indivíduos e fazem com que esses seres a disseminem, por toda parte (e, em compensação, os hospedeiros humanos alcançam a vida eterna - eum qui audit manebit in eternum). Como as idéias são criadas pelas mentes? Pode ser por inspiração milagrosa, pode ser por meios mais naturais, já que as idéias se disseminam de mente para mente, sobrevivendo a traduções entre linguagens diferentes, pegando carona em cantigas, ícones, estátuas e rituais, unindo- se em combinações estranhas na cabeça de pessoas em particular, onde dão origem ainda a outras novas "criações", que trazem semelhanças de família com as idéias que as inspiraram, mas acrescentam características novas e outros poderes à medida que avançam. E talvez algumas das idéias "selvagens" que inicialmente invadiram nossas mentes tenham tido descendentes que foram domesticados e amansados quando tentamos nos tornar seus donos, ou pelo menos seus administradores, seus pastores. Quais são os antepassados das idéias domesticadas que hoje se disseminam? Onde e por que elas foram originadas? E uma vez que nossos antepassados assumiram o objetivo de disseminar essas idéias, não apenas as abrigando, mas nutrindo-as, como essa crença na crença transforma as idéias que estão sendo difundidas? As grandes idéias da religião têm nos mantido, nós, seres humanos, enfeitiçados há milhares de anos, ao longo de um tempo maior que o da história registrada, porém ainda um breve momento em termos de tempo biológico. Se quisermos compreender a natureza da religião, hoje, como um fenômeno natural, devemos examinar não apenas o que ela é hoje, mas o que era antes. Um relato das origens da religião, nos próximos sete capítulos, irá nos dar uma nova perspectiva para examinar, nos últimos três capítulos, o que a religião é agora, por que ela significa tanto para tanta gente, e sobre o quê elas podem ter ou não razão em seu entendimento como pessoas religiosas. Aí poderemos ver melhor aonde a religião poderá ir no futuro próximo, nosso futuro neste planeta. Não consigo pensar em um tópico mais importante para ser investigado.

2. UMA DEFINIÇÃO QUE FUNCIONA PARA A RELIGIÃO Os filósofos ampliam, o significado das palavras até que elas pouco conservem de seu significado original; ao chamar de "Deus'' alguma abstração vaga que criaram para si mesmos, eles se apresentam como deístas, crentes, ante o mundo; podem até se orgulhar de terem atingido uma idéia mais elevada e mais pura de Deus, embora o Deus deles não passe de uma sombra sem substância e não seja mais a personalidade poderosa da doutrina


religiosa. [Sigmund Freud, O futuro de uma ilusão] Como defino religião? Não importa apenas como a defino, já que tenho planos de examinar e discutir os fenômenos seus vizinhos que (provavelmente) não são religiões - espiritualidade, compromisso com organizações seculares, devoção fanática a grupos étnicos (ou times esportivos), superstição... Então, seja onde for que eu "trace o limite", de qualquer modo irei ultrapassá-lo. Como se verá, aquilo que em geral chamamos de religião é composto de uma variedade de fenômenos bastante diferentes, que surgem de circunstâncias diferentes e têm diferentes implicações, formando uma família frouxa de fenômenos, não um "tipo natural", como um elemento químico ou uma espécie. Qual a essência da religião? Esta pergunta deve ser encarada com certa desconfiança. Ainda que haja uma afinidade profunda e importante entre muitas ou mesmo a maioria das religiões do mundo, certamente há variações que compartilham de alguns aspectos típicos, ao mesmo tempo que carecem de uma ou outra feição "essencial". Assim como a biologia da evolução progrediu durante o século passado, nós aos poucos avaliamos os motivos profundos para agrupar as coisas vivas do modo como o fazemos - esponjas são animais, e as aves têm relações mais estreitas com os dinossauros que os sapos -, e novas surpresas ainda são descobertas a cada ano. Dessa forma, deveríamos prever- e tolerar - alguma dificuldade na tarefa de chegar a uma definição à prova de contra-exemplos para algo tão diverso e complexo como a religião. Tubarões e golfinhos se parecem bastante e apresentam vários comportamentos semelhantes, mas não são de jeito algum o mesmo tipo de coisa. Talvez, uma vez conhecido melhor o campo inteiro, vejamos que o budismo e o islamismo, apesar de todas as suas semelhanças, merecem ser considerados como duas espécies de fenômeno cultural diferentes. Podemos começar com o senso comum e a tradição, considerando-os, os dois, religiões, mas não devemos nos deixar cegar pela perspectiva de que nossa classificação inicial pode ter de se ajustar à medida que aprendemos mais. Por que dar de mamar a seus filhotes é mais fundamental que viver no mar? Por que ter uma coluna vertebral é mais fundamental que ter asas? Agora isso pode parecer óbvio, mas não era óbvio no raiar da biologia. No Reino Unido, a lei que diz respeito à crueldade com os animais traça um importante limite moral que leva em conta se o animal é vertebrado: no que diz respeito à lei, você pode fazer o que quiser com um verme, uma mosca ou um camarão, mas não com uma ave, um sapo ou um camun- dongo vivo. Este pode ser um lugar bastante bom para traçar o limite, mas as leis podem ser modificadas - e esta o foi. Cefalópodes - polvos, lulas - recentemente foram promovidos a vertebrados honorários, na verdade, porque, ao contrário de seus primos moluscos, os mexilhões e ostras têm sistemas nervosos bastante sofisticados. Parece-me um ajuste político sábio, uma vez que as semelhanças importantes para a lei e a moralidade não se alinhavam perfeitamente com os profundos princípios da biologia. Podemos achar que o problema de traçar um limite entre religião e seus vizinhos mais próximos pertencentes aos fenômenos culturais está cercado de questões parecidas, embora mais perturbadoras. Por exemplo, Daniel C. Dennett uma lei (pelo menos nos Estados Unidos) que separa religiões segundo sta- tus especiais, declarando que algo que era encarado como religião na verdade é alguma outra coisa, está fadada a ter mais do que interesse acadêmico para aqueles


envolvidos. A Wicca (bruxaria) e outros fenômenos do movimento Nova Era têm sido defendidos como religiões por seus seguidores exatamente com o objetivo de elevá-las ao status legal e social tradicionalmente desfrutado pelas religiões. Por outro lado, há quem declare que a biologia da evolução é na verdade "apenas mais uma religião", e, portanto, que suas doutrinas não têm lugar no currículo das escolas públicas. Proteção da lei, honra, prestígio e uma isenção tradicional de determinados tipos de análises e críticas - tudo isso depende bastante de como definimos religião. Como devo lidar com essa delicada questão? Como uma primeira tentativa, proponho definir as religiões como um sistema social cujos participantes confessam a crença em um agente ou agentes sobrenaturais cuja aprovação eles buscam. É claro que essa é uma maneira tortuosa de articular a idéia de que uma religião sem Deus ou deuses é como um vertebrado sem coluna vertebral.3 Alguns dos motivos para essa linguagem em circunlóquios estão bastante claros; outros aparecerão com o tempo - e a definição está sujeita a revisão, é um ponto de partida, não algo esculpido em pedra para ser defendido até a morte. De acordo com essa definição, um devotado fã-clube de Elvis Presley não é uma religião, porque embora os membros possam, em um sentido bastante óbvio, adorar Elvis, ele não é considerado por eles literalmente sobrenatural, mas apenas um ser humano especialmente grandioso. Se alguns fã-clubes resolverem que Elvis é realmente imortal e divino, então estarão realmente no caminho de iniciar uma nova religião. Um agente sobrenatural não precisa ser muito antropomórfico. O Jeová do Velho Testamento é sem dúvida um tipo de homem divino (não uma mulher) que vê com olhos e ouve com ouvidos - e fala e age em tempo real. (Deus esperou para ver o que Jó faria e então falou com ele.) Muitos cristãos, judeus e maometanos contemporâneos insistem em que Deus, ou Alá, é onisciente, não tem necessidade de coisas como órgãos dos sentidos, e, sendo eterno, não age em tempo real. Isso é intrigante, uma vez que muitos deles continuam a rezar para Deus, a esperar que Deus responda a suas preces amanhã, a expressar gratidão a Deus por ter criado o universo, e a usar expressões como "o que Deus quer que nós façamos", e "Deus tem misericórdia", atos que parecem estar em contradição direta com sua insistência de que o seu Deus de modo algum é antropomórfico. De acordo com uma tradição já bem antiga, essa tensão entre Deus como agente e Deus como um Ser eterno e imutável é um aspecto que está além da compreensão humana, e seria bobagem e arrogância tentar entendê-lo. Até aqui é o que se pode ter, e esse tópico será tratado com cuidado mais adiante, porém não podemos prosseguir com minha definição de religião (ou qualquer outra definição, na verdade) até que (de modo experimental, dependendo de maiores esclarecimentos) nos tornemos um pouco mais explícitos em relação ao espectro de opiniões perceptíveis por trás desse nevoeiro piedoso de recatada incompreensão. Precisamos buscar outras interpretações antes de decidir como classificar as doutrinas que as pessoas esposam. Para algumas pessoas, a prece não é literalmente falar com Deus, mas uma atividade "simbólica", um jeito de falar consigo mesmo a respeito de suas mais profundas preocupações, expressadas de modo metafórico. É como iniciar um diário com "Querido Diário". Se o que elas chamam de Deus realmente não é um agente, a seus olhos, um ser que pode atender às preces, aprovar e desaprovar, aceitar sacrifícios e impor castigos ou perdão, então, embora elas possam chamar este Ser de Deus e reverenciá-lo (e não a Ele), esse credo, seja lá qual for, não é verdadeiramente uma religião, de acordo com a minha definição. E talvez um maravilhoso (ou


terrível) substituto da religião, ou uma religião primitiva, descendente de uma religião genuína que apresenta muitas familiaridades com a religião, mas é uma espécie inteiramente diferente.4 Com o objetivo de esclarecer o que são as religiões somos obrigados a admitir que algumas delas podem ter se transformado em algo que não é mais religião. Isso certamente aconteceu com práticas e tradições particulares que faziam parte de religiões genuínas. Os rituais de Halloween não são mais rituais religiosos, pelo menos nos Estados Unidos. As pessoas que despendem grandes esforços e dinheiro para participar desses rituais não estão, portanto, praticando uma religião, embora suas atividades possam ser alocadas em uma clara linhagem de descendência das práticas religiosas. A crença em são Nicolau (Papai Noel) também perdeu seu status de crença religiosa. Para outros, a prece significa realmente falar com Deus, que (como pessoa, e não coisa) de fato ouve e perdoa. Seu credo é uma religião, de acordo com minha definição, desde que seja parte de um sistema social ou de uma comunidade mais ampla, e não a congregação de apenas um. Sob esse aspecto, minha definição está profundamente em conflito com a de William James, que qualificou a religião como "os sentimentos, atos e experiências de homens, individualmente, em sua solidão, desde que se vejam em relação com qualquer coisa que possam considerar divina" (1902, p. 31). Ele não teria dificuldade em identificar um crente isolado como uma pessoa dotada de religião; ele próprio, aparentemente, era um deles. Essa concentração na experiência religiosa individual, privada, era uma escolha tática para James. Ele achava que crenças, rituais, armadilhas e hierarquias políticas da religião "organizada" serviam para desviar a atenção da raiz do fenômeno, e esse caminho tático deu frutos maravilhosos. Mas James dificilmente poderia negar que esses fatores sociais e culturais afetavam sobremaneira o conteúdo e a estrutura da experiência individual. Hoje há motivos para trocar o microscópio psicológico de James por um telescópio grande-angular biológico e social, examinando os fatores ao longo de grandes extensões de espaço e de tempo que moldam as experiências e ações de pessoas individualmente religiosas. Assim como James dificilmente poderia negar os fatores sociais e culturais, eu dificilmente poderia negar a existência de indivíduos que, com grande sinceridade e devoção, se consideram os comungantes solitários daquilo que podemos chamar de religiões particulares. Em geral essas pessoas tiveram uma considerável experiência com uma ou mais religiões existentes e preferiram não ser seus adeptos. Sem negar importância a elas, mas tendo necessidade de diferenciá-las das pessoas religiosas, muito mais comuns, que se identificam com um credo ou uma igreja em particular que possui muitos outros membros, eu as chamarei de pessoas espirituais, mas não religiosas. Elas seriam, por assim dizer, vertebrados honorários. Há muitas outras variantes a serem consideradas no devido tempo - por exemplo, pessoas que rezam e crêem na eficácia da prece, mas não acreditam que essa eficácia seja canalizada por um Deus agente, que literalmente ouve as preces. Quero adiar a discussão de todas essas questões até que tenhamos um sentido mais claro a respeito de onde surgiram essas doutrinas. Proponho que o núcleo do problema da religião invoca deuses que são agentes eficazes em tempo real e que representam um papel central na maneira como os participantes pensam sobre o que deveriam fazer. Lanço mão aqui da evasiva palavra "invocar" porque, como veremos adiante, a palavra-padrão "crença" tende a distorcer e camuflar alguns dos aspectos mais interessantes da


religião. Como provocação, diria que a crença religiosa nem sempre é crença. E por que é preciso buscar a aprovação do agente ou dos agentes sobrenaturais? Essa cláusula serve para distinguir religião de "magia negra" de diversos tipos. Há pessoas - muito poucas, na verdade, embora interessantes histórias populares a respeito de "cultos satânicos" possam nos fazer pensar o contrário - que se acham capazes de aliciar demônios com quem formam algum tipo de aliança pecaminosa. Esses sistemas sociais (quase inexistentes) estão nos limites da religião, mas acho apropriado deixá-los de fora, uma vez que nossas intuições se horrorizam com a idéia de que as pessoas que se envolvem com esse tipo de bobagem mereçam o status especial de devoto. O que aparentemente enraíza o respeito amplamente disseminado e mantido por religiões de todos os tipos é o sentimento de que as pessoas religiosas são bem-intencionadas, tentam levar uma vida moralmente boa, são honestas em seu desejo de não fazer o mal e reparar suas transgressões. Alguém que seja ao mesmo tempo egoísta e crédulo a ponto de tentar fazer um pacto com agentes sobrenaturais malévolos a fim de conseguir o que quer, vive em um mundo de superstição de histórias em quadrinhos e não merece o mesmo respeito.5

3. QUEBRAR OU NÃO QUEBRAR A ciência é como um tagarela que estraga um filme, contando o fim. [Ned Flanders, personagem fictício em Os Simpsons] Você está em um concerto, encantado e sem fôlego, ouvindo seus músicos favoritos em sua tumê de despedida, e a música doce o enleva, levando- o para outro lugar... Aí o telefone celular de alguém começa a tocar, quebrando o encantamento. Odioso, vil, indesculpável! Um idiota sem consideração estragou seu concerto, roubou um momento precioso que jamais poderá ser recuperado. Que maldade quebrar o encantamento de alguém! Eu não quero ser essa pessoa com o telefone celular, e tenho perfeita consciência de que, para muitas pessoas, pareço cortejar exatamente esse destino ao embarcar neste livro. O problema é que há bons e maus encantamentos. Se ao menos algum providencial telefone celular pudesse ter interrompido os procedimentos em Jonestown, na Guiana, em 1978, quando o lunático Jim Jones mandava suas centenas de seguidores enfeitiçados cometer suicídio! Se ao menos pudéssemos ter quebrado o feitiço que levou o sábio japonês Aum Shi- rinkyo a liberar gás sarin no metrô de Tóquio, matando uma dezena de pessoas e ferindo outras centenas! Se ao menos pudéssemos imaginar algum jeito, hoje, de quebrar o feitiço que atrai milhares de pobres meninos maometanos para as fanáticas madrassahs, nas quais são preparados para uma vida de martírio assassino em vez de serem ensinados a respeito do mundo moderno, da democracia, da história e da ciência! Se ao menos conseguíssemos quebrar o feitiço que convence alguns de nossos concidadãos de que são mandados por Deus para bombardear clínicas de abortos! Cultos religiosos e fanáticos políticos não são os únicos a lançar feitiços malévolos hoje em dia. Pensem nas pessoas que são viciadas em drogas, jogo, álcool, ou pornografia infantil. Elas necessitam de toda a ajuda possível, e duvido que alguém esteja propenso a lançar um manto de proteção sobre esses enfeitiçados e admoestar, "Psiu! Não quebre o encantamento!". E pode ser que a melhor maneira de quebrar esses encantamentos do mal seja introduzir um encantamento do


bem, um bom feitiço, uma doutrina de regeneração. Pode ser, pode não ser. Deveríamos tentar descobrir. Talvez, ao longo do percurso, devêssemos inquirir se o mundo seria um lugar melhor caso pudéssemos estalar os dedos e curar os workaholics também - mas aí estou entrando em águas controversas. Muitos trabalhadores compulsivos alegariam que seu vício é benigno, útil para a sociedade e para seus entes queridos, e, além disso, insistiriam eles, é direito deles, em uma sociedade livre, seguir seus anseios até onde eles os levem, desde que não prejudiquem ninguém. O princípio é inatacável: não temos o direito de nos intrometer em suas práticas particulares, desde que possamos ter a certeza de que não estão prejudicando outras pessoas. Mas está cada vez mais difícil ter certeza disso. As pessoas ficam viciadas em várias coisas. Alguns acham que não podem viver sem o jornal diário e uma imprensa livre, enquanto outros acham que não conseguem viver sem cigarros. Alguns acham que uma vida sem música não valeria a pena, e outros acham que uma vida sem religião não valeria ser vivida. Serão essas coisas vícios? Ou serão necessidades legítimas que devemos tentar preservar quase a qualquer custo? Por fim, precisamos chegar a questões a respeito de valores supremos, e nenhuma investigação factual conseguiria resolvê-las. Em vez disso, o melhor que podemos fazer é nos sentar e pensarmos juntos; um processo político de convicções e instrução que podemos tentar levar a cabo de boa-fé. Mas, para fazer isso, temos de saber o que estamos escolhendo e precisamos ter um motivo claro a respeito das razões que podem ser apresentadas a favor e contra as diferentes opiniões dos participantes. Aqueles que se recusam a participar (porque já sabem a resposta em seu íntimo) são, do nosso ponto de vista, parte do problema. Em vez de serem partícipes do nosso esforço democrático para buscar a concordância entre os seres humanos nossos companheiros, eles se colocam no inventário de obstáculos com que se deve lidar, de um jeito ou de outro. Como no caso do El Nino e do aquecimento global, não tem sentido tentar discutir com eles, mas há todos os motivos para estudá-los assiduamente, gostem eles ou não. Eles podem mudar de idéia e se unir à nossa congregação política, nos ajudar na procura das bases para seus posicionamentos e práticas, mas, façam isso ou não, temos a obrigação de aprender tudo o que pudermos a respeito deles, porque eles ameaçam o que nós prezamos. E mais do que tempo de submetermos a religião como fenômeno global à mais intensiva pesquisa multidisciplinar possível, aliciando as melhores mentes do planeta. Por quê? Porque a religião é algo muito interessante para que nos mantenhamos ignorantes a seu respeito. Ela não afeta apenas nossos conflitos sociais, políticos e econômicos, mas os próprios significados que encontramos em nossas vidas. Para muitas pessoas, provavelmente a maior parte das pessoas na Terra, não há nada mais importante que a religião. Exatamente por esse motivo, é imperioso que aprendamos o máximo que pudermos a respeito dela. Em resumo, esse é o argumento deste livro. *** Será que uma análise tão exaustiva e invasiva não danificaria o próprio fenômeno? Não poderia quebrar o encanto? Esta é uma boa pergunta, e eu não sei a resposta. Ninguém sabe a resposta. E por isso que apresento a questão, para agora explorá-la cuidadosamente de modo que nós (i) não nos atiremos de cabeça em indagações que seria melhor não empreendermos, e no entanto (2) não escondamos de nós mesmos fatos que poderiam nos orientar no sentido de melhorar a vida de


todos. As pessoas neste planeta enfrentam uma série terrível de problemas - pobreza, fome, doenças, opressão, a violência da guerra e do crime e muitos mais - e, no século xxi, temos poderes incomparáveis para tomar alguma providência. Mas o que faremos? Boas intenções não são suficientes. Se aprendemos alguma coisa no século xx, aprendemos isso, já que cometemos erros colossais com as melhores intenções. Nas primeiras décadas do século, os comunistas pareciam ser para milhões de pessoas ponderadas e bem-intencionadas, uma solução maravilhosa e até evidente diante da terrível injustiça que todos podemos enxergar, mas estavam enganadas. Um erro obscenamen- te caro. A Lei Seca também pareceu na época uma boa idéia, não apenas para pudicos com fome de poder, tentando impor seu gosto aos concidadãos, mas também para muitas pessoas decentes que conseguiam ver o terrível ônus do alcoolismo e calculavam que nada menos que uma proibição total bastaria. Ficou provado que eles estavam errados, e ainda não nos recuperamos de todos os efeitos maléficos que aquela política bem- intencionada pôs em movimento. Houve uma época, há não muito tempo assim, em que a idéia de manter os negros e os brancos em comunidades separadas, com instalações separadas, parecia, a muitas pessoas sinceras, uma solução razoável para os problemas persistentes do conflito. Foi preciso o movimento pelos direitos humanos nos Estados Unidos, e a dolorosa e humilhante experiência do apartheid, e, por fim, sua derrubada na África do Sul, para mostrar quanto essas pessoas bem-intencionadas estavam enganadas. Que vergonha para elas, você poderá dizer. Deveriam ter tido um discernimento melhor. E nisso que eu insisto. Podemos atingir um melhor entendimento se tentarmos compreender melhor, e não temos desculpas para não fazer isso. Ou temos? Estarão alguns tópicos fora de questão, a despeito das conseqüências? Hoje, bilhões de pessoas rezam pedindo a paz, e eu não me surpreenderia se a maior parte delas pensasse de coração que o melhor caminho a seguir para conseguir a paz no mundo é um caminho que passa por suas instituições religiosas particulares, sejam elas cristianismo, judaísmo, isla- mismo, hinduísmo, budismo ou qualquer das centenas de outros sistemas religiosos. Na verdade, muita gente acha que a melhor esperança para a humanidade é reunir todas as religiões do mundo para uma conversa mutuamente respeitosa e um acordo final de como se tratarem respectivamente. Isso pode ser verdade, mas as pessoas não sabem. O fervor de suas crenças não substitui as boas provas concretas, e as provas em favor dessa maravilhosa esperança dificilmente são esmagadoras. Na verdade, não são nada persuasivas, uma vez que muitas pessoas, aparentemente, acreditam com sinceridade que a paz no mundo é menos importante, tanto a curto como a longo prazo, que o triunfo global de sua religião particular sobre a dos concorrentes. Alguns vêem a religião como a melhor esperança para a paz, um bote de salvação que não ousamos sacudir para que não vire e não pereçamos todos; outros vêem a identificação religiosa como a principal fonte de conflito e violência no mundo, e acreditam com igual fervor que a convicção religiosa é um substituto terrível para a calma, o raciocínio bem informado. As boas intenções pavimentam as duas estradas. Quem terá razão? Eu não sei. Nem o sabem milhões de pessoas com suas convicções religiosas apaixonadas. Nem aqueles ateus que têm certeza de que o mundo seria um lugar muito melhor se todas as religiões fossem extintas. Existe uma assimetria: os ateus em geral acolhem bem o exame intensivo e objetivo de suas opiniões, práticas e raciocínios. (Na verdade, sua exigência incessante de autocrítica pode se tornar bastante aborrecida.) Os religiosos, ao contrário, muitas vezes se arrepiam com a impertinência, a falta de respeito, o sacrilégio


implícito representado por qualquer pessoa que queira investigar suas opiniões. Eu respeitosamente contesto: existe realmente uma tradição antiga à qual eles apelam, mas ela é errada e não se deveria permitir que continuasse assim. Esse encanto deve ser quebrado, e já. Os que são religiosos e crêem que a religião seja a melhor esperança para a humanidade não podem, de modo razoável, esperar que aqueles de nós que são céticos contenham a expressão de suas dúvidas se eles próprios não estão dispostos a submeter suas convicções a exame. Se eles estiverem certos - especialmente se ficar evidente que estão certos, depois de maiores ponderações -, nós, céticos, não apenas aceitaremos isso, mas nos uniremos entusiasticamente à causa. Nós queremos aquilo que eles (a maior parte) diz querer: um mundo em paz, com o mínimo de sofrimento possível, com liberdade, justiça, bem-estar e significado para todos. Se o caminho deles não puder ser provado, isso é algo que eles -próprios gostariam de saber. E simples assim. Eles reivindicam um elevado fundamento moral; pode ser que mereçam e pode ser que não. Vamos descobrir.

4. ESPIANDO O ABISMO Filosofias são questões que podem nunca ser respondidas. Religião são respostas que podem nunca ser questionadas. [Anônimo] O encanto que eu digo que deve ser quebrado é o tabu contra uma pesquisa direta, científica e sem obstáculos dos segredos da religião como fenômeno natural, entre muitos outros. Mas certamente um dos motivos mais insistentes e plausíveis para a resistência a essa reivindicação é o medo de que o encanto seja quebrado - se a religião for posta sob as luzes fortes e o microscópio. Há um sério risco de quebrar um encanto diferente e muito mais importante: o encantamento que enriquece a vida vindo da própria religião. Se a interferência causada pela investigação científica de algum modo invalidar as pessoas, tornando-as incapazes de desfrutar os estados mentais que servem de trampolim para a experiência religiosa ou a convicção religiosa, isso poderia ser uma calamidade terrível. Só se pode perder a virgindade uma vez, e alguns têm medo de que a imposição do conhecimento sobre alguns aspectos poderia roubar a inocência das pessoas, aleijando seu coração sob a desculpa de expandir-lhes a mente. Para ver o problema, basta refletir sobre a recente exterminação global promovida pela tecnologia e pela cultura secular ocidental, varrendo centenas de línguas e culturas rumo à extinção em poucas gerações. Não poderia ocorrer algo parecido à sua religião? Na dúvida, não poderíamos deixar em paz o que está funcionando? Que bobagem arrogante, escarneceriam outros. O Mundo de Deus é invulnerável às investidas insignificantes de cientistas intrometidos. A presunção de que os infiéis curiosos precisem andar pé ante pé para não perturbar os fiéis é ridícula, dizem eles. Mas, nesse caso, não faria mal olhar, não é? E poderíamos aprender alguma coisa importante. O primeiro encanto - o tabu - e o segundo encanto - a própria religião - estão ligados em um abraço curioso. Parte da força do segundo pode ser - veja bem, pode ser - a proteção que recebe do primeiro. Mas, quem sabe? Se somos proibidos pelo primeiro de investigar esse possível elo causai, então o segundo encanto tem à mão um escudo útil, quer precise dele ou não. O


relacionamento entre esses dois encantos está vivi- damente ilustrado na encantadora fábula de Hans Christian Andersen "A roupa nova do imperador". Algumas vezes falsidades e mitos que são "sabedoria popular" podem sobreviver ao infinito simplesmente porque a perspectiva de expô-los vem a se tornar, ela própria, ameaçadora ou imprópria devido a um tabu. Um indefensável pressuposto mútuo pode se manter hegemônico durante anos, ou até séculos, porque se acha que alguém tem algum motivo muito bom para mantê-lo e ninguém ousa desfiá-lo. Até agora tem havido uma concordância mútua não amplamente examinada de que os cientistas e outros pesquisadores deixarão a religião em paz, ou vão se restringir a uns poucos olhares de esguelha, já que as pessoas ficam tão perturbadas diante da simples idéia de uma investigação mais intensa. Proponho romper esse pressuposto e examiná-lo. Se não for para estudarmos todos os aspectos da religião, eu quero saber por quê, e quero ver raciocínios bons, apoiados em fatos, e não apenas um apelo à tradição que estou rejeitando. Se for para deixar onde está o tradicional manto de privacidade ou "santuário" deveríamos saber por que fazemos isso, já que se pode levantar uma atraente causa de que estamos pagando um preço terrível pela nossa ignorância. Isso estabelece a ordem do processo: primeiro, precisamos examinar a questão de se o primeiro encanto - o tabu - deve ser quebrado. É claro, ao escrever e publicar este livro, estou queimando a saída, precipitando-me e tentando quebrar o primeiro encanto, mas é preciso começar de algum ponto. Antes de continuar, então, e possivelmente piorando as coisas, vou fazer uma pausa para defender minha decisão de tentar quebrar esse encanto. Depois, tendo montado a minha defesa para iniciar o projeto, vou começar o projeto! Não respondendo as grandes questões que motivaram toda a empreitada, mas fazendo as perguntas, o mais cuidadosamente que puder, chamando a atenção para o que já sabemos sobre como responder a essas perguntas - e mostrando por que precisamos respondê-las. Sou um filósofo, não um biólogo, um antropólogo, um sociólogo ou um teólogo. Nós, filósofos, somos melhores em fazer perguntas do que em respondê-las, e isso pode parecer, para algumas pessoas, uma cômica admissão de futilidade - "Ele diz que sua especialidade é só perguntar e não responder. Que tarefa insignificante! E pagam a ele por isso? Mas qualquer pessoa que tenha abordado um problema realmente difícil sabe que uma das tarefas mais árduas é encontrar as perguntas certas e a ordem certa de fazer essas perguntas. Você tem de calcular não apenas aquilo que não sabe, mas o que precisa saber, o que não precisa saber e o que precisa saber para calcular o que precisa saber, e daí por diante. O formato adotado por nossas perguntas abre alguns caminhos e fecha outros, e não queremos desperdiçar tempo e energia batendo nas portas erradas. Os filósofos às vezes podem ajudar nessa empreitada, mas é claro que às vezes também já atrapalharam. Então, outros filósofos tiveram de entrar e tentar arrumar a bagunça. Eu sempre gostei do modo como John Locke apresentou o problema na "Epístola ao leitor", no início de seu Ensaio sobre o entendimento humano (1690): [...] já é ambição suficiente ser empregado como um subtrabalhador para limpar um pouco o terreno e retirar um pouco dos detritos que estão no caminho do conhecimento; - que certamente teria sido muito mais avançado no mundo se as tentativas de pessoas engenhosas e laboriosas não tivessem sido muito estorvadas pelo uso culto, mas frívolo, de termos insólitos, afetados ou incompreensíveis, introduzidos nas ciências, e lá tornados uma arte, a ponto de a Filosofia, que nada


mais é que o verdadeiro conhecimento das coisas, passar a ser considerada inadequada ou incapaz de ser trazida ao convívio bem-educado e à conversa polida. Outro de meus heróis filosóficos, William James, reconheceu melhor do que qualquer filósofo antes a importância de enriquecer nossa dieta filosófica de abstrações e argumentos lógicos com grande ajuda de fatos conseguidos arduamente, e, apenas há cerca de cem anos, ele publicou sua pesquisa clássica: As variedades da experiência religiosa. Ela será citada com freqüência neste livro porque é uma preciosa coletânea de insights e argumentos, deixados de lado com muita freqüência nos dias de hoje, e eu vou começar dando um novo uso a uma velha história que ele conta: Uma história freqüentemente contada por evangelizadores é a de um homem que se encontrou à noite escorregando por um precipício. Por fim ele conseguiu agarrar-se a um galho, que lhe interrompeu a queda, e lá ficou sofrendo durante várias horas. Mas finalmente seus dedos tiveram de largar o suporte e, com um desesperador adeus à vida, ele se deixou cair. A queda foi de apenas quinze centímetros. Se ele tivesse desistido da luta mais cedo, teria sido poupado de sua agonia. [James, 1902, p. m] Do mesmo modo que o evangelizador, eu lhes digo: Ó gente religiosa que teme quebrar o tabu: Larguem! Larguem! Vocês mal vão notar a queda! Quanto mais cedo começarmos a estudar a religião do ponto de vista científico, mais cedo serão acalmados seus mais profundos temores. Mas isso é apenas uma súplica, não um argumento, de modo que tenho de persistir em minha causa. Só peço que você tente manter uma mente aberta e se restrinja de prejulgar o que digo porque sou um filósofo sem Deus, ao mesmo tempo que faço o melhor que posso para entendê-lo. (Sou um bright. Meu ensaio "The bright stuff", que saiu no The New York Times de 12 de julho de 2003, atraiu a atenção para os esforços de alguns agnósticos, ateus e outros adeptos do naturalismo para cunhar um novo termo para nós, não-crentes, e a grande reação positiva a esse ensaio ajudou a me convencer a escrever este livro. Houve reações negativas também, em grande parte em objeção ao termo que tinha sido escolhido (não por mim): bright [brilhante, inteligente], que pareceria implicar que os outros fossem pálidos ou burros. Mas o termo, modelado na carona altamente bem-sucedida da palavra comum gay, para significar homossexual, não parecia ter essa implicação. Os que não são gays não são necessariamente sorumbáticos; são straight, espadas. Aqueles que não são brilhantes não são necessariamente burros. Eles podem querer escolher um nome para si. Já que, ao contrário de nós, brights, eles acreditam no sobrenatural, talvez gostassem de se chamar super. É uma bela palavra, com conotações positivas, como gay e bright, espada. Algumas pessoas não se associariam de bom grado com alguém que fosse abertamente gay, e outros não leriam de bom grado um livro de alguém que fosse abertamente bright. Mas há uma primeira vez para tudo. Tente. Sempre é possível voltar atrás, se a coisa ficar muito ofensiva. Como você já pode perceber, vamos fazer uma espécie de viagem em uma montanha-russa. Entrevistei muitas pessoas profundamente religiosas durante os últimos anos, e a maior parte desses voluntários nunca tinha conversado com alguém como eu a respeito desses temas (e eu certamente nunca tinha tentado abordar temas tão delicados com pessoas tão diferentes de mim),


de modo que houve mais que algumas poucas surpresas desajeitadas e desentendimentos constrangedores. Aprendi bastante, mas, apesar de meus melhores esforços, sem dúvida ofenderei alguns leitores e demonstrarei minha ignorância a respeito de questões que eles consideram da maior importância. Isso lhes daria uma razão prática para descartar meu livro sem pensar exatamente em que aspecto eles não concordam e por quê. Peço que eles resistam a se esconder por trás dessa desculpa e perseverem na leitura. Vão aprender alguma coisa e, assim, poderão nos ensinar algo. Algumas pessoas acham que é profundamente imoral até pensar em ler um livro desse tipo! Para elas, pensar se deveriam lê-lo seria tão vergonhoso como pensar se assistiriam a um filme pornográfico. O psicólogo Philip Tetlock (1999, 2003, 2004) identifica os valores como sagrados quando são tão importantes para aqueles que os mantêm que o próprio ato de pensar sobre eles é ofensivo. O comediante Jack Benny era famoso por sua contundência - ou pelo menos é assim que ele se apresentava no rádio e na televisão - e um dos melhores momentos de seu programa era o esquete no qual um assaltante punha uma arma em suas costas e gritava "A bolsa ou a vida!". Benny só ficava lá parado, em silêncio. "A bolsa ou a vida!", repetia o assaltante com crescente impaciência. "Estou pensando, estou pensando", respondia Benny. Isso é engraçado porque a maioria de nós - religiosos ou não - acha que ninguém deveria nem sequer pensar nesse tipo de barganha. Deveria ser impensável, "básico". A vida é sagrada, e se você ainda não sabe disso, o que há de errado com você? "Transgredir esse limite, acrescentar valor de moeda aos amigos, filhos ou à fidelidade ao seu país é se desqualificar dos papéis sociais que o acompanham" (Tetlock et al., 2004, p. 5). E isso que faz da vida um valor sagrado. Tetlock e seus colegas fizeram experiências engenhosas (e algumas vezes perturbadoras) nas quais os sujeitos da experimentação eram obrigados a pensar em "barganhas-tabu", como comprar ou não partes de um corpo humano vivo para alguma finalidade rentável, ou pagar ou não outra pessoa para ter um filho que você criaria, ou pagar para alguém fazer o serviço militar em seu lugar. Como o modelo deles prevê, muitos dos sujeitos demonstram um forte "efeito meramente contemplativo": eles se sentem culpados e algumas vezes ficam zangados por terem pensado a respeito dessas escolhas terríveis, mesmo quando fazem todas as escolhas acertadas. Quando os experimentadores lhes dão a oportunidade de se envolverem na "limpeza moral" (oferecendo-se como voluntários para algum serviço relevante na comunidade, por exemplo), os sujeitos que tiveram de pensar a respeito de barganhas-tabu, significativamente, apresentam maior probabilidade de se oferecer como voluntários para tais tarefas boas que os integrantes do grupo de controle. (Pediu-se aos sujeitos-controle para pensarem em barganhas puramente seculares, como contratar uma empregada ou comprar comida em vez de fazer alguma outra coisa.) Assim, este livro poderá fazer algum bem se pelo menos aumentar o nível de caridade daqueles que se sentem culpados ao lê-lo! Se você se sentir contaminado por causa da leitura deste livro, talvez você se ressinta, mas também vai ficar mais ansioso do que ficaria se trabalhasse esse ressentimento envolvendo-se em alguma limpeza moral. Espero que se envolva, e não precisa me agradecer pela inspiração. *** Apesar das conotações religiosas do termo, até os ateus e agnósticos podem ter valores sagrados, valores que simplesmente não estão livres de uma reavaliação. Eu tenho valores sagrados - no


sentido de que me sinto vagamente culpado só de pensar se eles são defensáveis e de que jamais pensaria em abandoná-los (quero acreditar!) na resolução de um dilema moral. Meus valores sagrados são evidentes e bastante ecumênicos: amor, democracia, justiça, verdade e vida (na ordem alfabética). Mas como sou um filósofo, aprendi como deixar de lado a vertigem e o embaraço de me perguntar o que, afinal, dá sustentação até a esses valores, o que deverá ceder quando eles entram em conflito, como muitas vezes tragicamente eles entram, e se há alternativas melhores. E essa tradicional abertura de mente dos filósofos para qualquer idéia que algumas pessoas acham imoral. Elas julgam que os filósofos deveriam ter a mente fechada quando se trata de determinados tópicos. Sabem que partilham o planeta com outras pessoas que discordam delas, mas não querem começar um diálogo com essas pessoas. Eles querem desacreditar, suprimir ou até matar esses outros. Ao mesmo tempo que reconheço que diversas pessoas religiosas nunca conseguiriam aceitar ler um livro como este - essa é uma parte do problema que o livro tem a intenção de esclarecer -, tenho a intenção de alcançar o mais amplamente possível o público de crentes. Outros autores escreveram há pouco tempo livros e artigos excelentes sobre a análise científica da religião, dirigidos fundamentalmente a seus colegas de academia. Meu objetivo, aqui, é fazer o papel de embaixador, apresentando (distinguindo, criticando e defendendo) as idéias principais dessa literatura. Isso põe os meus valores sagrados para funcionar: quero que a solução para os problemas do mundo seja tão democrática e justa quanto possível, e tanto a democracia como a justiça dependem de serem postas à mesa para que todos vejam o máximo de verdade possível, lembrando que às vezes a verdade dói, e, portanto, às vezes deve permanecer oculta, por causa do amor àqueles que sofreriam se ela fosse revelada. Mas estou preparado para levar em consideração os valores alternativos e reconsiderar as prioridades que encontro entre os meus próprios valores.

5. RELIGIÃO COMO FENOMENO NATURAL Como toda investigação que se refere à religião é da maior importância, há dois tipos de questão em particular que desafiam a nossa atenção, a saber: aquela que diz respeito aos seus fundamentos na razão, e as que se referem à sua origem na natureza humana. [David Hume, História natural da religião] O que quero dizer quando falo de religião como fenômeno natural? Posso querer dizer que é como alimento natural - não apenas gostoso mas saudável, não adulterado, "orgânico". (Esse, de qualquer modo, é o mito.) Então eu quero dizer: "Religião é saudável; é boa para você!"? Isso pode ser verdade, mas não foi o que eu quis dizer. Posso querer dizer que a religião não é um artefato, não é um produto da atividade intelectual humana. Espirrar e arrotar são naturais, recitar sonetos, não. Mas é evidentemente falso que a religião seja natural nesse sentido; andar nu - au naturel - é natural; usar roupas, não. Mas é obviamente falso que a religião seja natural nesse sentido. As religiões são transmitidas


culturalmente, por intermédio da linguagem e do simbo- lismo, não por meio dos genes. Você pode receber o nariz de seu pai e a aptidão para música de sua mãe por intermédio dos genes, mas se você adquirir a religião de seus pais, adquire-a do mesmo modo como adquire a linguagem, por meio da educação. Então, é claro que isso não é o que quero dizer com o termo natural. Dando uma ênfase ligeiramente diferente, posso querer dizer que a religião está fazendo o que vem naturalmente, não é um gosto adquirido ou um gosto artificialmente cuidado ou educado. Nesse sentido, falar é natural, mas escrever, não; beber leite é natural, mas tomar um martíni seco, não; escutar música tonai é natural, mas ouvir música atonal, não; olhar o pôr-dosol é natural, mas olhar os últimos quadros de Picasso, não. Há alguma verdade nisso: a religião não é um ato pouco natural, e esse será um aspecto explorado neste livro. Mas isso não é o que quero dizer. Posso querer dizer que a religião é natural como oposta ao sobrenatural, que é um fenômeno humano composto de eventos, organismos, objetos, estruturas, padrões e coisas parecidas que obedecem, todos, às leis da física ou da biologia, e que portanto não envolve milagres. E é isso que quero dizer. Note que pode ser verdade que Deus exista, que Deus seja mesmo o criador inteligente, consciente e amoroso de todos nós, e no entanto, ainda assim, a religião em si, como um conjunto complexo de fenômenos, é perfeitamente natural. Ninguém pensaria que escrever um livro subintitulado Esporte como um fenômeno natural ou Câncer como um fenômeno natural é ateísmo. Tanto o esporte como o câncer são amplamente reconhecidos como fenômenos naturais, e não sobrenaturais, apesar dos bem conhecidos exageros de diversos divulgadores. (Estou pensando, por exemplo, em dois famosos passes para touchdown, no futebol americano, conhecidos, respectivamente, como Ave Maria e Imaculada Recepção, para não falar do alarde semanal feito por pesquisadores e clínicas no mundo inteiro anunciando uma cura "milagrosa" para o câncer.) Esporte e câncer são objetos de intenso escrutínio científico por parte de pesquisadores que trabalham em diversas disciplinas e cultivam credos religiosos diferentes. Todos eles pressupõem, tentativamente e a bem da ciência, que os fenômenos que estudam são naturais. Isso não condena o veredicto de que sejam. Talvez haja esportes que desafiam as leis da natureza; talvez algumas curas de câncer sejam milagres. Se assim for, a única esperança de um dia chegar a demonstrar isso para um mundo em dúvida seria adotar o método científico, com sua suposição de que não existem milagres, e mostrar que a ciência foi inteiramente incapaz de explicar os fenômenos. Caçadores de milagres devem ser cientistas escrupulosos, ou então estarão desperdiçando seu tempo - aspecto há muito Reconhecido pela Igreja católica, que pelo menos dá alguns passos para submeter as suposições de milagres feitos pelos candidatos à santidade à investigação científica objetiva. Desse modo, nenhuma pessoa profundamente religiosa deveria fazer objeções ao estudo científico da religião com a pressuposição de que ela seja um fenômeno inteiramente natural. Se não for inteiramente natural, se houver realmente milagres envolvidos nela, a melhor maneira - em verdade, a única maneira - de mostrar isso aos que duvidam seria a demonstração científica. A recusa de agir sob essas regras só cria a suspeita de que a pessoa não acredita realmente que a religião seja sobrenatural. Ao supor que a religião é um fenômeno natural, não estou prejulgan- do seu valor para a vida


humana, de um jeito ou de outro. A religião, do mesmo modo que o amor e a música, é natural. Mas também são naturais fumar, a guerra e a morte. Nesse sentido de natural, qualquer coisa artificial é natural! A represa de Assuã não é menos natural que a represa feita por um castor, e a beleza de um arranha-céu não é menos natural que a beleza de um pôr-do-sol. As ciências naturais consideram qualquer coisa na natureza como sendo objeto seu, e isso inclui tanto as selvas como as cidades, tanto os pássaros como os aviões, o bom, o mau e o feio, o insignificante e o essencial também. Há mais de duzentos anos David Hume escreveu dois livros sobre religião. Um era sobre a religião como fenômeno natural, e sua frase inicial é a epígrafe desta seção. O outro era a respeito do "fundamento sobre a razão" da religião, seus famosos Diálogos sobre a religião natural (1779). Hume queria ponderar se haveria algum bom motivo -- qualquer motivo científico, podemos dizer - para acreditar em Deus. A religião natural, para Hume, seria uma crença que fosse tão bem sustentada por provas e argumentos quanto a teoria da gravitação de Newton ou a geometria plana. Ele a contrastava com a religião revelada, que depende das revelações da experiência mística ou de outros caminhos extracientíficos para a fé. Eu dei aos Diálogos de Hume um lugar de honra no meu livro de 1995, A idéia perigosa de Darwin - Hume é mais um dos meus heróis -, de modo que você poderia pensar que tenho a intenção de aprofundar a questão neste livro, mas esse não é de fato meu intento. Desta vez estou procurando o outro caminho de Hume. Os filósofos têm levado dois milênios ou mais arquitetando e criticando argumentos para a existência de Deus, como o Argumento do Projeto e o Argumento Ontológico; e argumentos contra a existência de Deus, como o Argumento do Mal. Muitos de nós, brights, dedicamos tempo e energia consideráveis, em algum momento de nossas vidas, a examinar os argumentos a favor e contra a existência de Deus, e muitos brights continuam a perseguir essas questões, demolindo vigorosamente os argumentos dos crentes como se tentassem refutar uma teoria científica rival. Mas eu não. Há algum tempo decidi que rendimentos minguantes se puseram ao lado dos argumentos sobre a existência de Deus, e duvido que haja em vista qualquer nova descoberta dos dois lados. Além disso, muitas pessoas profundamente religiosas insistem em que todos esses argumentos - dos dois lados - simplesmente estão longe da questão da religião, e sua demonstrada falta de interesse nos argumentos con- venceram-me de sua sinceridade. Tudo bem. Então, para que a religião? O que é esse fenômeno ou conjunto de fenômenos que significam tanto para tantas pessoas, e por que - ou como - ela impõe a lealdade e molda tantas vidas com tamanha força? Essa é a questão principal de que tratarei aqui, e uma vez separadas e esclarecidas (não resolvidas) algumas respostas conflitantes à questão, teremos uma nova perspectiva a partir da qual olhar, de modo breve, para a questão filosófica tradicional que algumas pessoas insistem ser a única questão: se há ou não bons motivos para acreditar em Deus. Aqueles que persistem na convicção de que sabem que Deus existe e podem prová-lo terão seu dia no tribunal.6 *** Capítulo 1. As religiões estão entre os fenômenos naturais mais poderosos no planeta, e precisamos entendê-los melhor se quisermos tomar decisões políticas bem informadas e justas. Embora haja riscos e desconfortos envolvidos nesse tema, devemos tomar fôlego e deixar de lado nossa relutância tradicional em investigar cientificamente os fenômenos religiosos, de modo


a compreender como e por que as religiões inspiram tal devoção, e descobrir como deveríamos lidar com todas no século xxi. *** Capítulo 2. Há obstáculos ao estudo científico da religião, e há desconfianças a serem atendidas. Uma exploração preliminar mostra que é tanto possível como recomendável dirigirmos nossas luzes investigativas mais fortes para a religião.


2. ALGUMAS QUESTÕES A RESPEITO DA CIÊNCIA 1. A CIÊNCIA PODE ESTUDAR A RELIGIÃO?

Com certeza, do ponto de vista zoológico, o homem é um animal. No entanto, é um animal exclusivo, diferindo de todos os outros de tantos modos fundamentais que se justifica uma ciência separada para o homem. [Ernst Mayr, O crescimento do pensamento biológico] TEM HAVIDO alguma confusão a respeito de saber se as manifestações terrenas de religião deveriam contar como parte da natureza. Estará a religião fora de limites para a ciência? Tudo depende do que você quer dizer. Se você se refere a experiências religiosas, práticas, textos, artefatos, instituições, conflitos e história do Homo sapiens, então esse é um catálogo volumoso de fenômenos inquestionavelmente naturais. Considerada como estados psicológicos, alucinação induzida por drogas e êxtase religioso, seria passível de ser estudada tanto por neurocientistas como por psicólogos. Encarada como o exercício de competência cognitiva, decorar a tabela periódica dos elementos é o mesmo tipo de fenômeno que decorar o Pai-Nosso. Vista como exemplos de engenhosidade, pontes suspensas e catedrais tanto obedecem à lei da gravidade como estão sujeitas ao mesmo tipo de forças e tensões. Considerada como um artigo manufaturado vendável, tanto romances de mistério quanto a Bíblia estão sob as regulamentações da economia. A logística das guerras santas não difere da logística de conflitos inteiramente seculares. "Louva o Senhor e passa a munição!" - como dizia uma canção da Segunda Guerra Mundial. Uma cruzada ou uma jihad podem ser investigadas por pesquisadores no interior de diversas disciplinas, da antropologia e da história militar à nutrição e à metalurgia. Em seu livro Rocks of Ages (1999), o já falecido Stephen Jay Gould defendeu a hipótese política de que ciência e religião são duas "magisteria que não se sobrepõem" - dois domínios de interesse e especulação que podem coexistir pacificamente, desde que nenhuma delas invada a região especial da outra. O magisterium da ciência é a verdade factual sobre todas as questões, e o magisterium da religião, argumentava ele, é o reino da moralidade e do significado da vida. Embora o desejo de Gould pela vigência da paz entre essas duas perspectivas freqüentemente em guerra fosse risível, sua proposta não encontrou muita aprovação de qualquer dos dois lados, uma vez que, na cabeça dos religiosos, ela propunha abandonar qualquer reivindicação religiosa com relação às verdades factuais e ao entendimento do mundo natural (inclusive as alegações de que Deus criou o universo, ou que faz milagres, ou escuta preces), enquanto na cabeça dos seculares ela dava autoridade demais à religião em questões de ética e significado. Gould expôs


exemplos claros de tolice desavergonhada dos dois lados, mas o argumento de que todos os conflitos entre as duas perspectivas se devem à reação excessiva de um lado ou do outro é implausível, e poucos leitores ficaram convencidos dele. Mas, possa-se ou não defender a proposta de Gould, minha proposta é diferente. Pode ser que haja algum domínio no qual só a religião tenha autoridade, algum reino da atividade humana que a ciência não consiga explicar adequadamente, ao passo que a religião possa, mas isso não significa que a ciência não possa ou não deva estudar exatamente esse fato. O próprio livro de Gould era supostamente um produto de tal investigação científica, mesmo que esta tenha sido informal. Ele olhou a religião com olhos de cientista e achou que podia ver um limite que revelava dois domínios de atividade humana. Teria ele razão? Esta seria, presumivelmente, uma pergunta científica, factual, não uma pergunta religiosa. Não estou sugerindo que a ciência devesse tentar fazer o que a religião faz, mas que deveria estudar, cientificamente, o que a religião faz. Uma das descobertas surpreendentes da psicologia moderna é como é fácil ser ignorante a respeito da nossa própria ignorância. Normalmente você não se dá conta de seus próprios pontos cegos, e as pessoas ficam em geral pasmas ao descobrirem que não vemos cores na nossa visão periférica. Parece que vemos, mas não vemos, como você pode verificar por si mesmo balançando cartões coloridos na margem de sua visão - você verá o movimento muito bem, mas não será capaz de identificar a cor do que está se movendo. É preciso uma provocação especial como essa para fazer com que a ausência de informação se revele para nós. E é para a ausência de informação quanto à religião que quero chamar a atenção de todos. Deixamos de reunir muitas informações a respeito de algo que tem grande importância para nós. Isso pode ser surpreendente. Não é verdade que temos examinado cuidadosamente a religião há muito tempo? Sim, é claro. Há séculos de estudos ricos de insight a respeito da história e da variedade dos fenômenos religiosos. Essa obra, do mesmo modo que a pujança dos dedicados observadores de pássaros e outros amantes da natureza antes da época de Darwin, tem construído uma fonte imensamente valiosa para aqueles pioneiros que agora começam, pela primeira vez, na verdade, a estudar o fenômeno natural da religião com os olhos da ciência contemporânea. As descobertas de Darwin na biologia foram possíveis pelo seu profundo conhecimento da riqueza de detalhes empíricos armazenados com escrúpulo por centenas de historiadores naturais prédarwinianos e não-darwi- nianos. A inocência teórica deles foi, ela própria, um freio em seu entusiasmo; não tinham coletado os fatos com o objetivo de provar que a teoria de Darwin estava correta. Podemos ser igualmente gratos ao fato de que quase toda a "história natural da religião" tenha sido acumulada, até agora, se não de modo teoricamente inocente, pelo menos inconsciente dos tipos de teorias que agora podem ser comprovadas ou minadas por ela. Até esta data, no entanto, a pesquisa dificilmente tem sido neutra. Nós não abordamos os fenômenos religiosos e os estudamos de forma direta, simplesmente como se fossem fósseis ou grãos de soja num campo. Os pesquisadores tendem a ser respeitosos, deferentes, diplomáticos, hesitantes - ou hostis, invasivos e desdenhosos. É impossível ser neutro na abordagem da religião, porque muitas pessoas encaram a própria neutralidade como hostil. Se você não estiver conosco, está contra nós. Desse modo, como é claro que a religião significa tanto para tanta gente, os pesquisadores quase nunca tentaram ser neutros; eles têm uma tendência a errar pelo lado da deferência, calçando luvas de pelica. É isso ou hostilidade aberta. Por esse motivo, tem havido um padrão infeliz no trabalho realizado. As pessoas querem estudar religião, em geral,


por algum motivo pessoal. Ou querem defender sua religião favorita das críticas, ou querem demonstrar a irracionalidade e futilidade da religião, e isso tende a contaminar o método com um desvio. Essas distorções não são inevitáveis. Em todos os campos os cientistas têm teorias que eles esperam confirmar, ou hipóteses-alvo que anseiam por destruir, mas, sabendo disso, adotam diversos passos de comprovação para evitar que seus pontos de vista contaminem a coleta de provas: experiências com duplo-cego, revisão pelos pares, testes estatísticos e muitas outras restrições-padrão de bom método científico. Mas, no estudo da religião, parece que as apostas têm sido mais altas. Se você pensar que a falta de confirmação de uma hipótese a respeito de um ou outro fenômeno religioso não seria apenas uma rachadura indesejável na fundação de alguma teoria, mas uma calamidade moral, você tende a não usar todos os controles. Ou, pelo menos, é isso o que tem parecido muitas vezes aos observadores. Essa impressão, verdadeira ou falsa, criou um ciclo positivo de feed- back: os cientistas não querem lidar com colegas de segunda classe, de modo que tendem a se manter afastados de tópicos nos quais 'percebem o que consideram um trabalho medíocre. Essa auto-seleção é um modelo frustrante que começa quando os alunos pensam a respeito de "escolher um tema principal no início da faculdade. Em geral, os melhores alunos olham tudo, e se não ficam bem impressionados com o trabalho ao qual são apresentados no primeiro curso de uma área, eles riscam aquela área de sua lista para sempre. Quando eu era aluno de graduação, a física ainda era o campo mais atraente, e, na época, a corrida à Lua atraiu mais talentos do que deveria. (Um vestígio fóssil é a expressão "Ei, não é uma ciência de foguetes".) Em seguida, durante algum tempo, veio a ciência da computação, e o tempo todo - durante meio século ou mais - a biologia, em especial a biologia molecular, que atraiu muitas das cabeças mais inteligentes. Hoje, a ciência cognitiva e os diversos ramos da biologia da evolução - bioinformática, genética, biologia comportamental - estão em crescimento. Mas, durante todo esse período, a sociologia e a antropologia, a psicologia social e o meu próprio campo, a filosofia, batalharam, atraindo aqueles cujos interesses se combinam bem com a área, entre eles algumas pessoas brilhantes. Mas estas têm de lutar contra algumas reputações pouco invejáveis. Como o meu velho amigo e antigo colega Nelson Pike, um respeitado filósofo da religião, disse, com pesar: Se você está na presença de pessoas de ocupações diversas, e alguém pergunta o que você faz, e você diz que é professor universitário, aparece uma expressão perplexa no olhar dela. Se você está na companhia de professores de diversos departamentos e alguém pergunta qual a sua área, e você diz filosofia, aparece uma expressão perplexa no olhar dela. Se você está em uma conferência de filósofos e alguém pergunta em que você está trabalhando, e você diz filosofia da religião [...] [Citado em Bambrough, 1980] Esse problema não é exclusivo dos filósofos de religião. É também dos sociólogos da religião, psicólogos da religião e outros cientistas sociais - economistas, cientistas políticos -, e dos corajosos neurocientistas e outros biólogos que resolveram examinar o fenômeno religioso com os instrumentos de seu ofício. Uma das questões é que as pessoas acham que já sabem tudo o que precisam sobre a religião, e essa sabedoria recebida é bastante insípida, não é provocante o suficiente para inspirar a refutação ou o aprofundamento. Na verdade, se você resolve construir uma barreira impermeável entre cientistas e um fenômeno inexplorado, vai ser difícil fazer algo diferente da triste aura de baixo prestígio, calúnias e resultados duvidosos que atualmente envolve o tema da religião. E, como sabemos desde o início que muita gente acha que esse tipo


de pesquisa viola um tabu, ou que pelo menos se intromete em questões que é melhor deixar no domínio privado, não é tão surpreendente que poucos bons pesquisadores de qualquer disciplina queiram encarar esse tema. Eu mesmo sentia isso até recentemente. Esses obstáculos podem ser suplantados. No século xx, aprendeu-se muito a respeito de como estudar fenômenos humanos, fenômenos sociais. Levas de pesquisas e críticas aguçaram nossa avaliação a respeito de armadilhas especiais, como desvios na coleta de dados, efeitos de interferência do investigador e interpretação dos dados. Técnicas estatísticas e analíticas ficaram muito mais sofisticadas, e começamos a deixar de lado os modelos ultra-simplificados de percepção humana, emoção, motivação e controle de ações, e a substituí-los por modelos mais fisiológica e psicologicamente realistas. A crescente fissura que separa as ciências da mente (Gesteswissenshaften) das ciências naturais (Naturwissenschaften) ainda não conta com uma ponte segura, mas muitos cabos foram jogados por cima do fosso. Suspeita mútua e ciúmes profissionais, além de genuína controvérsia teórica, continuam a sacudir quase todos os esforços para levar os insights de um lado para outro nessas rotas de conexão, mas o tráfego cresce a cada dia. A questão não é se a boa ciência da religião como fenômeno natural é possível: a questão é se devemos fazê-la.

2. DEVERIA A CIÊNCIA ESTUDAR A RELIGIÃO? Olhe antes de pular. [Esopo, "A raposa e a cabra"] Pesquisa é algo caro e que às vezes tem efeitos colaterais. Uma das lições do século xx é que os cientistas não estão livres da tentação de forjar justificativas para o trabalho que querem fazer, levados por curiosidade insaciável. Haverá, de fato, bons motivos, além de pura curiosidade, para tentar desenvolver a ciência natural da religião? Será que precisamos dela para alguma coisa? Será que ela nos irá ajudar a escolher políticas, resolver problemas, melhorar nosso mundo? O que sabemos sobre o futuro da religião? Pense sobre cinco hipóteses inteiramente diferentes: 1. O Iluminismo já acabou faz tempo; a arrepiante "secularização' das sociedades modernas, que foi prevista durante dois séculos, está se evaporando diante dos nossos olhos. A maré está virando, e a religião fica mais importante que nunca. Nesse cenário, a religião logo retoma uma função parecida com o papel social e moral dominante que tinha antes do surgimento da ciência moderna no século xvn. A medida que as pessoas se recuperam de seu fascínio pela tecnologia e os confortos materiais, a identidade espiritual passa a ser o atributo mais valorizado de uma pessoa, e as populações passam a ser mais nitidamente divididas do que nunca entre cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo e algumas outras grandes organizações religiosas multinacionais. Por fim - pode levar ainda mais um milênio, ou pode ser apressada por alguma catástrofe -, uma fé fundamental varre o planeta. 2. A religião está em seus estertores de morte; as explosões de fervor e fanatismo de hoje não passam de uma transição breve e desajeitada para uma sociedade realmente


moderna, na qual a religião represente no máximo um papel de cerimônia. Nesse cenário, embora possa haver alguns revivais locais e temporários, e até algumas catástrofes violentas, as principais religiões do mundo vão ser extintas como as centenas de religiões secundárias que desaparecem tão rapidamente que os antropólogos mal conseguem registrá-las. No período de vida dos nossos netos, a Cidade do Vaticano passa a ser o Museu Europeu do Catolicismo Romano, e Meca é transformada em Reino Mágico de Alá da Disney. 3. Religiões se transformam em instituições diferentes de qualquer outra coisa vista antes no planeta: basicamente associações sem credos que vendem auto-ajuda e capacitam grupos de trabalhos morais, usando a cerimônia e a tradição para cimentar relacionamentos e construir "fidelidade de fãs de longo prazo". Nesse cenário, ser membro de uma religião se torna cada vez mais semelhante a ser um torcedor do Flamengo, ou do Corin- thians. Cores diferentes, canções e gritos diferentes, símbolos diferentes e competição vigorosa - você gostaria que sua filha se casasse com um torcedor dos Corinthians? -, mas, fora alguns poucos enraivecidos, todo mundo aprecia a importância da coexistência pacífica numa Copa Global de Religiões. Arte e música religiosas florescem, e a rivalidade amigável leva a um grau de especialização. Uma religião se orgulha de sua administração ambiental, fornecendo água limpa para os bilhões do mundo, ao mesmo tempo que outra se torna devidamente famosa por sua organizada defesa da justiça social e da igualdade econômica. 4. A religião diminui em prestígio e visibilidade, assim como fumar; é tolerada, uma vez que há aqueles que dizem não poder viver sem ela, mas é desencorajada, e o ensino de religião para crianças pequenas impressionáveis é desaprovado na maioria das sociedades, e até mesmo proibido em outras. Nesse cenário, os políticos que ainda praticam religião podem ser eleitos se provarem que são dignos em outros aspectos, mas poucos proclamariam suas filiações religiosas - ou atribulações, como os politicamente incorretos insistem em chamá-las. E considerado falta de educação chamar a atenção para a religião de alguém, do mesmo modo como fazer comentários em público sobre sua sexualidade ou se a pessoa é divorciada. 5. O Dia do Julgamento chega. Os abençoados sobem corporalmente ao céu, e o resto fica para trás para sofrer a agonia dos condenados, já que o Anticristo foi vencido. Como as profecias da Bíblia previram, o renascimento da nação de Israel em 1948 e o permanente conflito a respeito da Palestina são sinais claros do Fim dos Tempos, quando a Segunda Vinda de Cristo varre todas as outras hipóteses para o esquecimento. Outras possibilidades podem ser descritas, é claro, mas essas cinco hipóteses sublinham os extremos que devem ser levados seriamente em conta. O notável nesse conjunto é que qualquer pessoa irá considerar pelo menos uma delas absurda, ou perturbadora, ou até mesmo profundamente ofensiva, mas cada uma delas não apenas é prevista, mas ansiada. As pessoas agem de acordo com aquilo que anseiam. Nós estamos em campos opostos sobre religião, para dizer o mínimo, de modo que podemos prever problemas que vão desde os esforços desperdiçados e as campanhas contraproducentes, se tivermos sorte, até a guerra generalizada e a catástrofe genocida, caso não tenhamos.


Apenas uma dessas hipóteses (no máximo) se mostrará verdadeira; o resto não apenas está errado, mas muito errado. Muitas pessoas acham que sabem qual hipótese é a verdadeira, mas ninguém sabe. Será que esse fato por si só não basta como motivo para estudar a religião cientificamente? Queira você que a religião floresça ou desapareça, pense você que ela deva se transformar ou continuar do jeito que está, dificilmente poderá negar que, não importa o que aconteça, isso terá um tremendo significado para o planeta. Seria útil para suas esperanças, não importa quais sejam, conhecer mais a respeito daquilo que tem probabilidade de acontecer - e por quê. A esse respeito, vale a pena notar a assiduidade com que aqueles que acreditam firmemente na hipótese número 5 examinam as notícias do mundo à procura de provas de profecias realizadas. Eles classificam e avaliam suas fontes, debatendo os prós e os contras de diversas interpretações dessas profecias. Eles acham que há um motivo para investigar o futuro da religião, e nem sequer lhes passa pela cabeça que o curso dos eventos futuros pode ser determinado a partir do interior dos poderes humanos. Os demais têm ainda mais motivos para investigar os fenômenos, já que é bastante evidente que a complacência e a ignorância poderão nos levar a desperdiçar nossas oportunidades de orientar os fenômenos nas direções que consideramos benignas. Olhar para adiante, prever o futuro, essas são as conquistas da nossa espécie. Conseguimos, em poucos milênios de cultura humana, multiplicar o suprimento de previsões do planeta em muitas ordens de magnitude. Sabemos quando os eclipses vão ocorrer com séculos de antecedência; podemos prever os efeitos sobre as atmosferas dos métodos pelos quais geramos eletricidade; conseguimos prever, em termos gerais, o que irá acontecer quando as reservas de petróleo diminuírem nas próximas décadas. Não fazemos isso por meio de profecia milagrosa, mas com percepção básica. Reunimos informações sobre o ambiente, usando nossos sentidos, e então lançamos mão da ciência para alicerçar nossas previsões, com bases nessas informações. Retiramos minério das minas, depois o refinamos, repetidas vezes, e ele nos permite que vejamos o futuro - fracamente, com muita incerteza, mas muito melhor do que o método de jogar uma moeda para o alto. Em todas as áreas de interesse humano, aprendemos como prever e quando evitar as catástrofes que costumavam ficar em um ponto cego.' Conseguimos recentemente impedir um desastre global causado pelo crescente buraco na camada de ozônio porque alguns químicos de longa visão conseguiram provar que alguns de nossos compostos manufaturados causavam esse problema. Evitamos colapsos econômicos em anos recentes porque nossos modelos econômicos mostraram-nos problemas iminentes. Uma catástrofe evitada é um anticlímax, é claro, de modo que tendemos a não nos dar conta de como são valiosos os nossos poderes de previsão. "Vê?", queixamo-nos. "Afinal de contas, não ia acontecer." A temporada de gripes de 2003-2004 foi prevista como severa, já que tinha chegado antes da época habitual, mas as recomendações de vacinação foram de tal modo seguidas que a epidemia acabou tão rapidamente quanto começou. Amém. Passou a ser mais ou menos um costume, ultimamente, os meteorologistas exagerarem, na televisão, os efeitos de um furacão em curso, ou outra tempestade, e depois o público ficar pouco impressionado com a tempestade real. Mas avaliações ponderadas mostram que muitas vidas são salvas, que a destruição é minimizada. Aceitamos o proveito de estudar intensamente El Nino e outros ciclos nas correntes oceânicas para que possamos melhorar as previsões meteorológicas. Mantemos registros completos de muitos eventos econômicos para que possamos fazer uma melhor previsão


econômica. Deveríamos estender esse mesmo escrutínio aprofundado, pelos mesmos motivos, aos fenômenos religiosos. Poucas forças no mundo são tão potentes, tão influentes, como a religião. Quando lutamos para resolver as terríveis desigualdades econômicas e sociais que atualmente desfiguram nosso planeta, e minimizamos a violência e a degradação, devemos reconhecer que, se há um ponto cego a respeito da religião, nossos esforços quase com certeza irão falhar, e isso poderá ainda piorar a situação. Não permitiríamos que os interesses mundiais na produção de alimentos nos desviassem do estudo da agricultura e da nutrição humanas, e aprendemos a não eximir o mundo dos bancos e seguros de um exame intenso e contínuo. Os efeitos deles são importantes demais para ficarmos confiantes. Por isso, o que estou pedindo é um esforço orquestrado para formar uma concordância mútua sob a qual a religião - qualquer religião - se torne um adequado objeto de estudo científico. Nesse aspecto, acho que as opiniões estão divididas entre aqueles que já estão convencidos de que essa seria uma boa idéia, aqueles que estão ambivalentes e duvidam de que ela seja de grande valor, e os que acham a proposta malévola - ofensiva, perigosa e burra. Não querendo pregar para os convertidos, estou especialmente preocupado em abordar os que odeiam essa idéia, na esperança de convencê-los de que a repugnância deles está mal colocada. É uma tarefa atemorizante, como tentar convencer sua amiga com sintomas de câncer de que ela realmente deveria ir ao médico já, uma vez que a ansiedade dela pode estar mal colocada, e quanto mais cedo ela souber disso, mais cedo poderá prosseguir com sua vida, e que se ela tiver câncer, uma intervenção a tempo poderá fazer muita diferença. Amigos podem ficar bastante aborrecidos quando você interfere em suas negativas nessas ocasiões, mas é preciso perseverança. Sim, eu quero pôr a religião na mesa de exame. Se for fundamentalmente benigna, como insistem muitos de seus devotos, ela vai se sair muito bem; as suspeitas serão acalmadas, e poderemos nos concentrar nas poucas patologias periféricas das quais a religião, como qualquer outro fenômeno natural, é presa. Caso contrário, quanto mais cedo identificarmos os problemas, melhor. A pesquisa em si irá gerar algum desconforto ou constrangimento? É quase certo, mas o preço é baixo. Haverá risco de que tal exame invasivo torne doente uma religião sã, ou até incapacitada? E claro que sim. Sempre há riscos. Será que vale a pena correr esse risco? Talvez não, mas ainda não vi qualquer argumento que me convença disso, e logo iremos examinar o melhor deles. Os únicos argumentos que vale a pena satisfazer terão de demonstrar que (i) a religião fornece benefícios indubitáveis à humanidade, e (2) esses benefícios provavelmente não sobreviveriam ao exame. Eu, por exemplo, temo que, se não submetermos a religião a tal escrutínio agora, e trabalharmos juntos em quaisquer revisões e reformas necessárias, passaremos aos nossos descendentes um legado de formas cada vez mais tóxicas de religião. Não posso provar essa hipótese, e os que têm certeza absoluta de que isso não irá acontecer são encorajados a afirmar aquilo que sustenta suas convicções - fora a fidelidade às tradições, o que não é preciso declarar e que aqui não conta para nada. Em geral, saber mais melhora nossas probabilidades de conseguir aquilo a que damos valor. Isso não é apenas uma verdade da lógica, já que a incerteza não é o único fator que pode diminuir a probabilidade de uma pessoa alcançar suas metas. O preço de saber (como o preço de vir a saber) deve ser computado, e esse custo pode ser alto, motivo pelo qual "Improvise!" pode ser um bom conselho. Suponha que haja um limite para o máximo de conhecimento sobre algum tópico que é bom para você. Se for assim, então, sempre que esse limite for alcançado (se isso


for possível - o limite poderá ser inalcançável por um motivo ou outro), deveríamos proibir ou pelo menos desencorajar fortemente qualquer outra busca de conhecimento sobre aquele tópico, como se fosse uma atividade anti-social. Isso pode ser um princípio que nunca venha a entrar em ação, mas não sabemos disso, e certamente deveríamos aceitá-lo. Pode ser, então, que alguns de nossos maiores desentendimentos no mundo, hoje, sejam acerca de se alcançamos esse limite. Essa reflexão põe a convicção islamítica2 de que a ciência ocidental é ruim sob uma luz diferente: pode ser menos um engano ignorante do que uma visão profundamente diferente de onde está o limiar. Algumas vezes a ignorância é uma bênção. Precisamos pensar sobre essas possibilidades com cuidado.

3. PODERIA A MÚSICA SER RUIM PARA VOCÊ? A música, o maior bem que os mortais conhecem, E todo o céu que temos aqui embaixo. [Joseph Addison] Não é estranho que as tripas de carneiros puxem as almas para fora do corpo dos homens? [William Shakespeare] Não que eu não simpatize com o desgosto daqueles que resistem à minha proposição. Ao tentar imaginar quais seriam suas reações emocionais à minha proposta, cheguei a uma perturbadora experiência do pensamento que me parece funcionar. (Agora estou falando àqueles que, como eu, não ficam horrorizados com a idéia dessa experiência.) Imagine como você se sentiria se lesse na seção de ciência do The New York Times que pesquisas recentes realizadas na Universidade de Cambridge e no Caltech demonstraram que a música, há muito considerada um dos mais puros tesouros da cultura humana, é na verdade ruim para a sua saúde, um grande fator de risco para o mal de Alzheimer e as doenças cardíacas, um distorcedor de humor que impede o juízo, de maneira sutil, mas deletéria, contribuindo significativamente para as tendências agressivas, a xenofobia e o enfraquecimento da vontade. Exposição desde cedo e habitual à música, tanto fazendo como escutando, torna a pessoa 40% mais propensa a sofrer de depressão, diminui uma média de dez pontos no Qi e quase dobra a probabilidade de que ela cometa um ato de violência em algum momento de sua vida. Um painel de pesquisadores recomenda que as pessoas restrinjam suas doses de música a não mais de uma hora por dia (incluindo tudo, desde música de elevador e música ambiente na televisão a concertos sinfônicos), e que a prática amplamente disseminada de aulas de música para as crianças seja imediatamente suspensa. Fora a suprema descrença com que eu acolheria um relatório com tais "descobertas", posso detectar em minhas reações imaginadas uma onda defensiva visceral, junto com as frases "Azar de Cambridge e do Caltech! O que eles sabem sobre música?" e "Não estou nem aí se for verdade! E quem quer que tente tirar minha música é melhor estar preparado para uma briga, porque uma vida sem música não vale a pena ser vivida. Não me importa se me 'faz mal', e nem me incomodo se 'faz mal' a outras pessoas - vamos ter música, e pronto . É assim que eu ficaria tentado a responder. Eu preferiria não viver num mundo sem música. "Mas por quê? - poderia perguntar alguém. "A música não passa de bobagem de serrar e fazer barulho juntos. Não alimenta os famintos nem cura o câncer ou [...]" Eu respondo: "Mas traz grande consolo e alegria


a centenas de milhões de pessoas. Certo, há excessos e controvérsias, mas mesmo assim ninguém pode duvidar que a música é, em todos os sentidos, uma coisa boa". "Bem, é", vem a resposta. Há seitas religiosas - os talibãs, por exemplo, mas também seitas puritanas de antanho no cristianismo, e sem dúvida outras - que afirmavam que a música é um passatempo ruim, um tipo de droga a ser proibida. A idéia não é claramente insana, de modo que devemos aceitar o ônus intelectual de mostrar que isso é um erro. Reconheço que muita gente sente, a respeito da religião, o mesmo que eu sinto pela música. Eles podem ter razão. Vamos descobrir. Ou seja, vamos permitir que o assunto religião seja submetido ao mesmo tipo de indagação científica que é feita sobre o fumo e o álcool, e também a música. Vamos descobrir por que as pessoas amam suas religiões e para que elas servem. E não devemos deixar que as pesquisas existentes resolvam o assunto, do mesmo modo que não aceitamos como verdadeiras as campanhas dos fabricantes de cigarros a respeito da segurança do fumo. Claro, a religião salva vidas. O fumo também - perguntem àqueles soldados norteamericanos para os quais o fumo era um consolo ainda maior que a religião durante a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e a Guerra do Vietnã. Estou preparado para examinar atentamente os prós e os contras da música, e, se realmente for verdade que a música causa câncer, ódio étnico e guerra, então terei de pensar seriamente a respeito de como viver sem ouvir música. Só porque tenho tanta certeza de que a música não faz muito mal é que posso curti-la com uma consciência tão pura. Se pessoas críveis me disserem que a música pode ser danosa ao mundo, considerando todos os aspectos, vou me sentir moralmente obrigado a examinar as provas tão desapaixonadamente quanto puder. Na verdade, eu me sentiria culpado a respeito de minha devoção à música se não as examinasse. Mas não é a hipótese de que os custos da religião ultrapassam os benefícios ainda mais absurda que a fantástica alegação a respeito da música? Eu não acho. A música pode ser o que Marx disse da religião: o ópio do povo, mantendo os operários em submissão tranqüilizada. Mas pode também ser a inspiração de canções revolucionárias, unindo as fileiras e dando coragem a todos. Sob outros aspectos, a música parece muito menos problemática que a religião. No decorrer de milênios, a música iniciou algumas desordens, e músicos carismáticos podem ter abusado sexualmente de um número chocante de jovens fãs suscetíveis, e seduzido muitos outros a largarem a família (e o juízo), mas nunca houve cruzadas ou jihads por causa das diferenças de tradições musicais, nenhum pogrom foi instituído contra os amantes de valsas, ragas ou tangos. Populações inteiras não foram levadas a tocar escalas obrigatórias ou mantidas na penúria para montar salas de concerto com a melhor das acústicas e os melhores instrumentos. Nenhum músico teve qualquer fatwa pronunciada contra ele por organizações musicais, nem mesmo os que tocam acordeom. A comparação da religião com a música é especialmente útil aqui, já que a música é outro fenômeno natural que tem sido competentemente estudado há centenas de anos, mas que só agora começa a ser objeto do tipo de estudo científico que estou recomendando. Não há falta de pesquisa profissional sobre teoria musical - harmonia, contraponto, ritmo - ou sobre as técnicas de se fazer música, ou a respeito da história de todo tipo de instrumento. Etnomusicólogos estudaram a evolução de estilos e práticas musicais em relação a fatores sociais, econômicos e outros aspectos culturais, e neurocientistas e psicólogos têm, há relativamente pouco tempo,


começado a estudar a percepção e a criação de música, usando todas as mais recentes tecnologias para revelar os padrões de atividade cerebral associados à experiência musical, à memória musical e temas cor- relatos. A maior parte dessa pesquisa, porém, ainda aceita a música sem questionamentos. Raramente pergunta: por que a música existe? Há uma resposta mais curta, e é verdadeira, em suas limitações: existe porque nós gostamos dela, e portanto continuamos a trazer mais música para a nossa existência. Mas por que gostamos dela? Porque achamos que é bonita. Mas por que ela é bonita para nós? Essa é uma ótima pergunta biológica, mas até agora ainda não há uma boa resposta para ela. Compare-a, por exemplo, com a pergunta: por que gostamos de doces? Aqui sabemos a resposta do ponto de vista da evolução, em alguns detalhes, e ela tem alguns aspectos curiosos. Não é por acaso que achamos as coisas doces do nosso agrado, e, se quisermos ajustar nossas políticas em relação a coisas doces no futuro, é melhor conhecermos as bases evolutivas da atração que sentimos por elas. Não devemos cometer o erro do homem na velha piada, que se queixou de que, quando finalmente conseguiu treinar seu burro para não comer, a besta do animal morreu. Algumas coisas são necessárias à vida, e algumas coisas pelo menos aumentam tanto a qualidade ou a capacidade de vida que nos arriscamos ao lidar com elas, e precisamos calcular esses papéis e necessidades. Desde o Iluminismo, no século XVIII, muitas pessoas bem informadas e brilhantes confiavam em que a religião desapareceria em pouco tempo, sendo objeto de um gosto humano que poderia ser satisfeito por outros meios. Muitos ainda estão esperando por isso, de modo um tanto menos confiante. Seja o que for que a religião nos dê, muitos acham que não podem prescindir dela. Dessa vez vamos levar essas pessoas a sério, porque elas podem ter razão. Mas só há um meio de as levarmos a sério: precisamos estudar a religião cientificamente.

4. SERIA MELHOR DEIXAR PARA LÁ? É doce o conhecimento trazido pela natureza; Nosso intelecto intrometido Deforma os belos feitios das coisas: --Assassinamos para dissecar. [William Wordsworth, "The tables turned"] Então por que a ciência e os cientistas têm de continuar a ser governados pelo medo - medo da opinião pública, medo das conseqüências sociais, medo da intolerância religiosa, medo da pressão política, e, acima de tudo, medo do fanatismo e do preconceito - tanto dentro como fora do mundo profissional? [William Masters e Virgínia Johnson, A resposta sexual humana] E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. [Jesus de Nazaré, em João 8, 32] É hora de enfrentar a preocupação de que uma investigação possa na verdade matar todos os espécimes, destruindo algo de precioso em nome de descobrir sua natureza interior. Não seria


mais prudente deixar as coisas em paz? Como já observei, a causa para dominar nossa curiosidade, aqui, tem duas partes: deverá mostrar tanto (i) que a religião oferece benefícios claros para a humanidade e (2) que esses benefícios teriam pouca probabilidade de sobreviver a uma investigação. O problema tático que nos confronta é que não há, na verdade, uma maneira de demonstrar o primeiro ponto sem de fato se envolver na investigação. A religião parece, para muita gente, ser a fonte de diversas coisas maravilhosas, mas outros duvidam disso, por motivos forçados, e nós não devemos apenas fazer concessões por causa de um respeito sem sentido pela tradição. Talvez esse próprio respeito seja como a camada exterior protetora que muitas vezes esconde vírus mortais de nosso sistema imunológico, algum tipo de camuflagem que livra das críticas, muito necessárias. Então, no máximo, podemos dizer que o ponto 1 ainda não ficou provado. Podemos, no entanto, proceder tentativamente e considerar como o ponto 2 seria provável se assumíssemos, a bem da argumentação, que a religião é mesmo algo de grande valor. Podemos assumir isso inocentemente até que se prove sua culpa - em outras palavras, exatamente como funciona o nosso sistema legal. Agora, e o ponto 2? Quanto mal supomos que uma investigação possa causar, no pior dos casos? Será que ela não poderá quebrar o feitiço e nos desencantar para sempre? Essa preocupação tem sido uma base favorita para resistir à curiosidade científica durante séculos. Mas embora não seja responsável negar que desmontar instâncias particulares de coisas maravilhosas - plantas, animais, instrumentos musicais - algumas vezes possa destruí-las de maneira irremediável, outras coisas maravilhosas - poemas, sinfonias, teorias, sistemas jurídicos - vicejam quando estão sob análise, mesmo que muito trabalhosa, e é difícil negar o benefício para outras plantas, animais e instrumentos musicais derivado da dissecção de alguns espécimes. Apesar de todas as advertências ao longo dos séculos, não consegui chegar ao caso de algum fenômeno que tenha realmente sido destruído, ou até seriamente danificado, pelo escrutínio científico. Os biólogos que trabalham no campo muitas vezes são confrontados por um terrível dilema ao estudarem espécies ameaçadas: será que suas bem-intencionadas tentativas de recenseamento, envolvendo capturar animais vivos e depois soltá-los, acabam mesmo apressando a extinção da espécie? Quando os antropólogos estudam povos até então isolados e primitivos, suas perguntas, não importa quão discretas e diplomáticas, rapidamente mudam a cultura que eles tanto anseiam conhecer. Com respeito a casos anteriores, não estudarás é uma política que pode realmente ser invocada com propriedade em determinadas ocasiões, mas, com respeito ao último caso, prolongar o isolamento de pessoas pondo-as, de fato, em um zoológico cultural, embora seja algumas vezes uma idéia defendida, não resiste a um exame mais atento. São pessoas, e não temos o direito de mantê-las ignorantes do mundo mais amplo que elas partilham conosco. (Se elas têm o direito de se manter ignorantes é uma das questões exaspe- rantes a serem abordadas mais adiante, neste livro.) Vale lembrar que foram necessários muitos anos aos bravos pioneiros para sobrepujar o forte tabu contra a dissecção de cadáveres humanos durante os anos iniciais da medicina moderna. E devemos observar que, não obstante o ultraje e a repulsa com que a idéia de dissecção foi recebida na época, passar por cima dessa tradição não levou ao temido colapso da moralidade e da decência. Vivemos em uma era em que os cadáveres humanos ainda são tratados com o devido respeito - na verdade, com maior respeito e decoro do que eram tratados na época


em que ainda se encarava a dissecção como algo indecoroso. E quem de nós escolheria dispensar os benefícios da medicina, tornados possíveis pela ciência invasiva e intrometida que Wordsworth deplora? Mais recentemente, outro tabu foi quebrado, com uma gritaria ainda maior. Alfred C. Kinsey, nos anos 1940 e 1950, começou a investigação sobre as práticas sexuais humanas nos Estados Unidos que levou ao notório Relatório Kinsey, Comportamento sexual no homem (1948) e Comportamento sexual na mulher (1953). Houve falhas consideráveis nos estudos de Kinsey, mas o peso das provas que ele reuniu levou a conclusões surpreendentes que não precisaram mais que pequenos ajustes nas investigações mais bem controladas que se seguiram. Pela primeira vez, meninos e homens puderam saber que mais de 90% dos homens norte-americanos se masturbam, e que cerca de 10% são homossexuais; meninas e mulheres puderam saber que os orgasmos são normais e podem ser alcançados por elas, tanto no coito como na masturbação, e nada surpreendente, visto hoje - que as lésbicas são melhores que os homens para induzir orgasmos em mulheres. Os instrumentos de pesquisa de Kinsey foram entrevistas e questionários, mas logo William H. Masters e Virgínia Johnson reuniram a coragem suficiente para submeter a excitação sexual humana à investigação científica no laboratório, registrando as reações fisiológicas de voluntários envolvidos no ato sexual, usando os instrumentos da ciência, inclusive cinematografia em cores (isso foi antes da disponibilidade imediata do videoteipe). O trabalho pioneiro dos dois, A resposta sexual humana (1966), encontrou uma extremada mistura de hostilidade e ultraje, divertimento e fascinação lasciva - e cautelosos aplausos da comunidade médica e científica. Ao iluminar com a forte luz da ciência o que até então era feito no escuro (com uma grande dose de segredo e vergonha), eles dissiparam uma multiplicidade de mitos, revisaram o conhecimento médico de alguns tipos de dis- função sexual, liberaram incontável número de pessoas ansiosas cujos gostos e práticas haviam estado sob uma nuvem de desaprovação socialmente inculcada, e - maravilha das maravilhas - melhoraram a vida sexual de milhões. Pelo menos nesse caso conseguiu-se quebrar e não quebrar o encanto ao mesmo tempo. Você pode violar o tabu contra o estudo desapaixonado de um fenômeno - eis um encanto quebrado - e não destruí-lo no processo - eis um encanto sob o qual se pode alegremente cair. Mas a que custo? Eu deliberadamente chamo a atenção para o trabalho ainda controverso de Masters e Johnson, pois ele ilustra muito claramente as difíceis questões com as quais este livro está preocupado. Muitos concordarão comigo quando digo que, graças ao trabalho pioneiro de Kinsey, Masters e Johnson, o conhecimento que adquirimos não destruiu o sexo, tornou o sexo melhor. Há também, contudo, aqueles que se enfurecem com a comparação e declaram que é exatamente por isso que eles se opõem a qualquer exploração científica da religião: há uma possibilidade de que ela possa fazer com a religião o que Kinsey et al. fizeram com o sexo - nos ensinar mais do que seria bom para nós. Deixe-me pôr palavras na boca dessas pessoas: Se a masturbação não acompanhada de vergonha, a tolerância à homossexualidade e o maior conhecimento de como alcançar o orgasmo feminino forem exemplos dos benefícios que a ciência nos pode trazer, então pior para a ciência. Ao tratar o sexo como uma coisa natural (no sentido de nada há de que se envergonhar), ela contribuiu para uma explosão de pornografia e degradação, profanando o ato sagrado da união procriadora entre marido e


mulher. Estaríamos melhor sem conhecer todos esses fatos, e deveríamos tomar todas as medidas possíveis para proteger nossas crianças dessas informações contaminadoras! Essa objeção é muito séria. Não se pode negar que a sinceridade terra-a- terra a respeito do sexo promovida pela pesquisa de Kinsley provocou alguns efeitos colaterais terríveis, abrindo novos e férteis campos de exploração por parte daqueles que estão sempre procurando formas de oprimir seus concidadãos. A revolução sexual da década de 1960 não foi a liberação gloriosa e inteiramente benévola como muitas vezes a representam. As explorações do "amor livre" e do "casamento aberto" magoaram muitos corações e roubaram de muitos jovens o sentido profundo da importância moral das relações sexuais, encorajando uma visão rasa do sexo como mero entretenimento dos sentidos. Embora se acredite amplamente que a revolução sexual contribuiu para a negligência e a promiscuidade, que aumentaram o flagelo das doenças sexualmente transmissíveis, a coisa pode não ter sido bem assim. A maior parte das provas sugere que, quando as informações sobre sexo são amplamente disseminadas, o comportamento sexual se torna mais responsável (Posner, 1992). Qualquer um que tenha de criar uma criança hoje deve se preocupar com o excesso de informações que nos sufoca atualmente. Conhecimento é realmente poder, para o bem ou para o mal. O conhecimento pode ter o poder de romper padrões antigos de crença e ação, de subverter a autoridade, de mudar as mentes. Pode interferir com tendências que são ou não desejáveis. Em um famoso memorando ao presidente Richard Nixon, Daniel Patrick Moynihan escreveu: Chegou a hora em que a questão da raça se beneficiaria de um período de "negligência benigna". Têm-se falado muito no assunto. O foro foi tomado por histéricos, paranóicos e picaretas - dos dois lados. Talvez necessitemos de um período em que o progresso dos negros continue, e a retórica racial diminua. A administração pode ajudar nisso prestando atenção cuidadosa a esse progresso - do jeito que estamos fazendo -, ao mesmo tempo que deveria tentar evitar situações que dêem aos extremistas de qualquer uma das raças oportunidades de martírio, heroísmo, farsas ou seja lá o que for. (Moynihan, 1970) Provavelmente jamais saberemos se Moynihan estava certo, mas talvez ele estivesse. Os que suspeitam que ele tinha razão podem esperar que sigamos seu conselho agora, adiando a atenção vigorosa para a religião o máximo possível, desviando a inquirição e esperando o melhor. Mas é difícil ver como essa política poderia ser alcançada em qualquer dos casos. Desde o Iluminismo, já tivemos mais de duzentos anos de curiosidade deferente, abafada, e isso não parece ter levado à diminuição da retórica religiosa, não é? A história recente sugere fortemente que a religião vai atrair cada vez mais atenção, e não menos, no futuro imediato. Se é para receber atenção, melhor que seja atenção de boa qualidade, e não do tipo que histéricos, paranóicos e picaretas de todos os lados apresentam. *** O problema é que hoje em dia é simplesmente difícil demais guardar segredos. Enquanto em épocas anteriores a ignorância era a condição que faltava à maior parte da raça humana, e era preciso um considerável exercício de investigação para aprender sobre o resto do mundo, hoje todos nadamos em um mar de informações e desinformações sobre qualquer assunto, desde a masturbação até como construir armas nucleares para a Al Qaeda. Do mesmo modo como


deploramos as tentativas feitas por alguns líderes religiosos no mundo islâmico de manter suas meninas e mulheres sem instrução e sem informações a respeito do mundo, dificilmente podemos aprovar embargos semelhantes ao conhecimento em nossa própria esfera. Ou será que podemos? Talvez esse ponto de discórdia seja o divisor continental, no Espaço da Opinião, entre aqueles que acham que nossa melhor esperança é tentar pregar a tampa da caixa de Pandora e nos mantemos eternamente ignorantes, e os que acham que isso é politicamente impossível e imoral, só para começar. Os primeiros sempre pagam um preço alto pela pobreza factual imposta a si mesmos: eles não conseguem imaginar em detalhes as conseqüências da política que escolheram. Será que não conseguem enxergar que nada aquém de um Estado policial, eri- çado de leis que proíbem a investigação e o conhecimento disseminado, ou o aprisionamento da população em um mundo sem janelas, conseguiria realizar esse feito? Será que é isso mesmo o que eles querem? Será que acham que têm métodos que nem os mulás conservadores sonharam para impedir o fluxo inexorável da informação libertadora para sua sociedade? Adiantem-se. Aí há uma armadilha esperando aqueles que não têm antevisão. Talvez nenhum pai ou mãe seja imune a um toque de remorso quando vê a primeira prova da perda de inocência do filho, e o impulso de protegê-lo dos perigos do mundo é forte, mas a reflexão deveria mostrar a qualquer um que isso não vai funcionar. Precisamos deixar nossos filhos crescerem para enfrentar o mundo armados de conhecimento, com muito mais conhecimentos do que nós mesmos tínhamos na idade deles. É assustador, mas a alternativa é pior. Há algumas pessoas - milhões, aparentemente - que declaram com orgulho que não se devem prever as conseqüências: elas sabem, em seus íntimos, que esse é exatamente o caminho certo, não importando os detalhes. Como o Dia do Julgamento está próximo, não há motivos para planejar o futuro. Se você for um desses, eis o que espero ser uma reflexão sem fantasias: já pensou que talvez você esteja sendo irresponsável? Você iria de boa vontade arriscar não apenas a vida e o bem-estar futuro dos que você ama, mas também a vida e o bem-estar futuro de todos nós, sem hesitação, sem o devido cuidado, guiado por uma revelação ou outra, uma convicção cuja solidez você não tem um bom método para examinar. "Todos os homens prudentes agiram com o conhecimento: mas a tolice de um tolo é visível" (Provérbios 13, 16). Sim, eu sei que a Bíblia também tem um texto que diz o contrário: "Porque está escrito, eu destruirei a sabedoria do sábio, e levarei a nada o conhecimento do prudente" (1 Coríntios 1, 19). Qualquer pessoa pode citar a Bíblia para provar qualquer coisa, e é exatamente por isso que você deveria se preocupar em não ser confiante demais. Alguma vez você já se perguntou: E se eu estiver errado? É claro que há uma grande multidão de outras pessoas ao seu redor que compartilham de sua convicção, e isso distribui - e, ai, dilui - a responsabilidade, de modo que se alguma vez tiver a oportunidade de sussurrar uma palavra de arrependimento, você terá uma desculpa à mão: você foi varrido por uma multidão de entusiastas. Mas certamente você terá notado um fato perturbador. A história nos dá muitos exemplos de grandes multidões de pessoas iludidas, incitando-se umas às outras rumo ao alegre caminho da perdição. Como você pode ter a certeza de que não faz parte desse grupo? Eu, por exemplo, não dou a mínima para a sua fé. Estou espantado pela sua arrogância, pela sua certeza pouco racional de que tem todas as respostas. Fico pensando se algum crédulo do Fim dos


Tempos terá a honestidade intelectual e a coragem de ler este livro até o fim. O que imaginamos sem muita clareza, em temida antecipação, muitas vezes acaba sendo muito pior que a realidade. Antes de lamentarmos nossa incapacidade de parar a crescente onda de informações, deveríamos pensar com calma em suas conseqüências possíveis. Elas podem não ser tão más. Imagine, se puder, que nunca tivemos o mito de Papai Noel, que o Natal era apenas outra festa cristã, como o Domingo de Ramos ou Pentecostes, celebrado, mas dificilmente esperado no mundo todo. E imagine que os fãs das histórias de Harry Potter, de J. K. Rowlings, tentassem iniciar uma nova tradição: todos os anos, no aniversário da publicação do primeiro livro de Harry Potter, as crianças receberiam presentes dados pelo menino, que entraria pela janela em sua vassoura mágica, acompanhado por sua coruja. Vamos tornar o Dia de Harry Potter um dia mundial para as crianças! Os fabricantes de brinquedos estariam todos a favor, supostamente, mas imaginem as cassandras que fossem contra: Que idéia terrível! Pensem nos efeitos traumáticos sobre as crianças pequenas quando eles ficarem sabendo, como acabarão por saber, que sua inocência e confiança foi explorada por uma gigantesca conspiração pública dos adultos. Os custos psicológicos e sociais de tal decepção maciça poderiam ser cinismo, desespero, paranóia e sofrimento, que poderiam marcar algumas crianças pelo resto da vida. Poderia haver alguma coisa mais malévola que maquinar um conjunto sedutor de mentiras para espalhar entre os nossos filhos? Eles nos odiarão amargamente, e nós mereceremos sua fúria. Se essa preocupação bastante admirável tivesse sido efetivamente levantada nos dias iniciais que envolveram a mitologia de Papai Noel talvez se tivesse evitado a Grande Catástrofe do Papai Noel de 1985! Mas sabemos que não é isso. Não houve nem nunca haverá tal catástrofe. Algumas crianças realmente sofrem ataques relativamente curtos de vergonha e amargura ao saberem que Papai Noel não existe, mas outros sentem um delicioso orgulho de seus triunfos de Sherlock Holmes, e curtem seu novo status entre Aqueles que Sabem, contribuindo ansiosamente para as artimanhas do ano seguinte, e respondendo sobriamente às perguntas inocentes feitas a eles pelos irmãos mais novos. Tanto quanto sabemos,3 a desilusão do Papai Noel não causa males. Mais especificamente, é provável (mas não ainda pesquisado, que eu saiba) que parte da duradoura atração do mito de Papai Noel se deva ao fato de que os adultos, que já não podem mais ter a experiência das alegrias inocentes da espera pelo velhinho, se contentam com a animação vicária de curtir a excitação de seus filhos. As pessoas se submetem a grandes esforços e despesas para perpetuar a mitologia de Papai Noel. Por quê? Será que estão tentando recapturar a inocência perdida da infância? Será que são mais diretamente motivadas por sua própria gratificação do que pela generosidade? Ou será que os prazeres da conspiração, com a absolvição da comunidade (não manchada pela culpa que acompanha as conspirações de adultério, desfalque ou sonegação de impostos, por exemplo), são suficientes em si mesmos para compensar os custos substanciais? Essa maneira de pensar tão impertinente vai avultar ainda mais nos capítulos subseqüentes, quando nos voltarmos para as questões mais perturbadoras a respeito de por que a religião é tão popular. Não são questões retóricas. Elas podem ser respondidas, se tentarmos. Reconheço que muitos leitores ficarão profundamente desconfiados da direção que estou tomando. Eles me verão apenas como mais um professor liberal tentando convencê-los a


abandonar algumas de suas convicções, e estão inteiramente certos a esse respeito - é exatamente isso o que sou, e é exatamente isso que estou tentando fazer. Por que, então, deveriam eles prestar atenção? Estão pasmos diante da queda moral que vêem em todos os lados, e estão sinceramente convencidos de que a proteção de suas religiões com relação a qualquer pesquisa e a toda crítica é o melhor modo de mudar a maré. Concordo com eles de todo coração, que há uma crise moral, e que nada é mais importante que trabalhar em conjunto na busca de caminhos para sairmos de nossos dilemas atuais. Mas acho que há um modo melhor. Prove-o, dirão eles. Deixem-me pensar, respondo eu. E este o propósito deste livro, e eu peço a eles que tentem lê-lo com uma mente aberta. *** Capítulo 2. A religião não está fora dos limites da ciência, apesar da propaganda em contrário, vinda de uma variedade de fontes. Além do mais, a pesquisa científica é necessária para fornecer informações às nossas decisões políticas mais graves. Há risco e até dor envolvidos, mas seria irresponsabilidade usar isso como desculpa para a ignorância. *** Capítulo 3. Se quisermos saber por que valorizamos as coisas que amamos, precisamos mergulhar na história da evolução do planeta, revelando as forças e as restrições que geraram a série gloriosa de coisas que nos são preciosas. A religião não se exime desse levantamento, e podemos traçar uma variedade de caminhos promissores para novas pesquisas, ao mesmo tempo que chegamos a compreender como podemos alcançar uma perspectiva em nossas próprias pesquisas, da qual todos possam compartilhar, independentemente de seus diferentes credos.


3. POR QUE AS COISAS BOAS ACONTECEM 1. TRAZENDO À TONA O QUE HÁ DE MELHOR A alegoria religiosa tornou-se uma parte do tecido da realidade. E viver nessa realidade ajuda milhões de pessoas a lutarem e serem melhores. [Langdon, herói de O código Da Vinci, de Dan Brown] QUANDO COMECEI a trabalhar neste livro, fiz entrevistas com muitas pessoas para tentar perceber um sentido nos diferentes papéis que a religião desempenha na vida delas. Não se tratava de coleta científica de dados (embora eu também tenha feito um pouco disso), mas, antes, uma tentativa de deixar de lado as teorias e os experimentos e ir direto às pessoas de verdade, deixando-as contar, em suas próprias palavras, por que a religião era tão importante para elas. Essas entrevistas eram rigorosamente confidenciais, realizadas quase tête-à-tête,' e embora eu fosse bastante inquisiti- vo, não interpelei meus informantes nem discuti com eles. Essas ocasiões eram muitas vezes emocionantes, para dizer o mínimo, e aprendi um bocado. Algumas pessoas suportaram dificuldades as quais eu não imaginaria sobreviver, e algumas tinham encontrado na religião a força para tomar e manter decisões que chegavam a ser heróicas. Menos dramáticas, porém até mais impressionantes, em retrospecto, eram as pessoas de talentos e realizações modestos, que eram, de um jeito ou de outro, simplesmente pessoas muito melhores do que se poderia esperar que fossem; não apenas a vida tinha significado para elas - embora isso fosse certamente verdadeiro -, mas também elas realmente faziam do mundo um lugar melhor com seus esforços, inspiradas por suas convicções de que sua vida não lhes pertencia para fazerem o que quisessem. A religião realmente pode trazer à tona o que há de melhor em uma pessoa, mas não é o único fenômeno com essa propriedade. Ter um filho muitas vezes surte um maravilhoso efeito de amadurecimento sobre uma pessoa. Os tempos de guerra, notoriamente, dão às pessoas muitas ocasiões de se mostrarem à altura, do mesmo modo que os desastres naturais, como enchentes e furacões. Mas, para o revigoramento no dia-a-dia ao longo da vida, provavelmente não há nada tão eficaz como a religião: ela torna as pessoas poderosas e talentosas mais humildes e pacientes, faz com que pessoas medianas se superem, fornece apoio firme para muita gente que precisa desesperadamente de ajuda para se manter afastada da bebida, das drogas ou do crime. Pessoas que poderiam permanecer centradas em si mesmas, ou superficiais, ou sem refinamento, ou simplesmente desistentes, são muitas vezes enobrecidas pela religião, adotando uma perspectiva na vida que as ajuda a tomar decisões difíceis, que todos nós nos orgulharíamos de tomar.


E claro que nenhum julgamento de valor total pode se basear em um levantamento tão limitado e informal. A religião faz isso tudo de bom e mais, sem dúvida, porém poderíamos inventar alguma outra coisa para fazer o mesmo, ou até melhor. Afinal, existem muitos ateus e agnósticos sábios, engajados, comprometidos moralmente. Talvez um levantamento pudesse mostrar que, como grupo, ateus e agnósticos respeitam mais a lei, são mais sensíveis às necessidades dos outros, mais éticos que as pessoas religiosas. Certamente ainda não se fez nenhum levantamento confiável que mostre o contrário. Pode ser que o melhor que se possa afirmar da religião é que ela ajuda algumas pessoas a alcançarem o nível de cidadania e moralidade em geral encontrado nos assim chamados brights. Se você achar essa conjectura ofensiva, precisa ajustar sua perspectiva. Entre as questões que precisamos considerar, objetivamente, estão: o islamismo é mais ou menos eficaz que o cristianismo para manter as pessoas afastadas das drogas e do álcool (e os efeitos colaterais, em qualquer dos casos, não são piores que os benefícios)? O abuso sexual é mais ou menos um problema entre os sikhs que entre os mórmons? E daí por diante. Você não anuncia todo o bem que sua religião faz sem antes, escrupulosamen- te, subtrair todo o mal que ela provoca e sem levar seriamente em conta a questão de se alguma outra religião, ou nenhuma religião, será melhor. A Segunda Guerra Mundial certamente trouxe à tona o que havia de melhor em muitas pessoas, e os que passaram por ela inúmeras vezes dizem que foi a coisa mais importante em suas vidas, sem ela a vida não teria sentido. Mas certamente não se deduz disso que devamos ter outra guerra mundial. O preço que você tem de pagar por qualquer argumento a respeito das virtudes de sua religião, ou de qualquer outra religião, é a disposição de ver seu argumento ser abertamente posto em questão. Minha proposta, desde logo, é apenas reconhecer que já conhecemos o suficiente sobre religião para saber que, não importa quão terríveis seus efeitos negativos sejam - intolerância, fanatismo assassino, opressão, crueldade e ignorância imposta, para citar o óbvio -, as pessoas que encaram a religião como a coisa mais importante na vida têm muitas boas razões para pensar assim.

2. CUI BONO? Bendito seja o Senhor, que diariamente nos cumula de benefícios, o Deus da nossa salvação. Selah. [Salmo 68, 19] Quanto mais aprendemos a respeito dos detalhes dos processos naturais, mais evidente se torna que esses processos são, eles mesmos, criativos. Nada transcende a natureza como a própria natureza. [Loyal Rue] As boas coisas não acontecem por acaso. Há "golpes de sorte", mas manter uma coisa boa não é apenas sorte. Pode ser a Providência, é claro. Pode ser que Deus se assegure de que as coisas boas aconteçam e se mantenham quando, sem a intervenção de Deus, aconteceria o contrário. Mas qualquer dessas visões terá de esperar sua hora, pelo mesmo motivo pelo qual os pesquisadores de câncer não estão dispostos a tratar remissões inesperadas apenas como


"milagres" que não precisam ser mais explorados. Que conjunto natural de processos, não milagroso, poderia produzir e manter esse fenômeno que é tão valorizado? A única maneira de considerar seriamente a hipótese dos milagres seria excluir as alternativas não milagrosas. A sovinice da natureza pode ser encontrada em qualquer lugar para o qual olhemos, se soubermos o que procurar. Por exemplo, os coiotes estão surgindo como um acréscimo bemvindo à vida silvestre da Nova Inglaterra, uivando macabramente nas noites de inverno, mas esses predadores lindos e espertos têm medo dos seres humanos e raramente são vistos. Como se consegue distinguir, na neve, as suas pegadas das de seus primos, os cães domésticos? Até de perto seria difícil distinguir a impressão deixada pela pata de um coiote da impressão deixada por um cachorro do mesmo tamanho - as garras dos cães tendem a ser mais longas, já que eles passam pouco tempo cavando. Mas, mesmo de longe, a trilha do coiote pode ser prontamente distinguida da de um cachorro - as pegadas do coiote seguem uma quase extraordinária linha reta e em fila única, com as patas traseiras em alinhamento quase perfeito com as patas dianteiras, enquanto a trilha de um cachorro é em geral desordenada, já que o cachorro corre exuberantemente para lá e para cá, satisfazendo qualquer desejo curioso (David Brown, 2004). O cachorro é bem alimentado e sabe que vai ganhar o jantar, não importa o que aconteça, enquanto o coiote está em uma situação apertada e precisa conservar cada caloria para a tarefa mais premente: a autopreservação. Seus métodos de locomoção foram impiedosamente otimizados para obter eficiência. Mas, então, o que explica o uivo característico da matilha? Que benefício o coiote recebe desse evidente gasto de energia? Dificilmente é a discrição. Não serviria para espantar o jantar e chamar a atenção de seus próprios predadores para sua presença? Tais custos não seriam reembolsados, pensaríamos. Essas são boas perguntas. Os biólogos as estão analisando, e mesmo que ainda não tenham respostas definitivas, certamente têm razão em buscálas.2 Qualquer padrão de gasto conspícuo como este exige uma prestação de contas. Pense, por exemplo, nos enormes gastos de esforços humanos dedicados, no mundo inteiro, ao açúcar: não só o plantio e a colheita da cana-de- açúcar e das beterrabas produtoras de açúcar, mas o mundo mais amplo, de fabricação de balas, publicação de livros de receitas cheios de sobremesas, publicidade de refrigerantes e chocolates, comercialização na Páscoa, além das contrapartidas do sistema: clínicas de obesidade, pesquisas patrocinadas pelo governo sobre a epidemia de diabetes prematuro, dentistas e a inclusão de flúor nas pastas de dentes e na água potável. Mais de uma centena de milhão de toneladas de açúcar é produzida e consumida todos os anos. Para explicar os milhares de aspectos desse enorme sistema, que provê o trabalho vital de milhões de pessoas e pode ser discernido em todos os níveis da sociedade, precisamos de muitas investigações diferentes, científicas e históricas, sendo que apenas uma pequena fração delas é biológica. Precisamos estudar a química do açúcar, a física da cristalização e da caramelização, a fisiologia humana e a história da agricultura, mas também a história da engenharia, da fabricação, do transporte, dos bancos, da geopolítica, da publicidade e muito mais. Nenhum desses gastos de tempo e energia relacionados com o açúcar existiria se não fosse a barganha feita, há cerca de 50 milhões de anos, entre plantas que cegamente "buscam" um jeito de dispersar suas sementes polinizadas e animais que igualmente buscam fontes eficientes de energia para alimentar seus próprios projetos de reprodução. Há outras maneiras de dispersar as sementes, tais como o vento e os redemoinhos, e cada método tem seus custos e benefícios


associados. Frutas pesadas, carnudas, cheias de açúcar, são uma estratégia de alto investimento, mas podem ter um bônus como resultado: o animal não apenas leva as sementes, mas as deposita em um pedaço de solo adequado, envolvidas em uma boa dose de fertilizante. A estratégia quase nunca funciona - nem uma vez em mil tentativas -, mas só precisa funcionar uma vez ou duas durante o período de vida da planta para que ela se reproduza no planeta e dê continuidade à sua linhagem. Este é um bom exemplo da sovinice da Mãe Natureza na prestação de contas final, combinada com o desperdício absurdo dos métodos. Nem um esperma em um milhão cumpre sua missão na vida - ainda bem -, mas cada um é projetado e equipado como se tudo dependesse de seu sucesso. (Espermas são como s-parn em correio eletrônico, tão barato de fazer e enviar que uma taxa de retorno imperceptivelmente pequena é suficiente para garantir o projeto.) A co-evolução endossou a barganha entre planta e animal, aguçando a capacidade de nossos antepassados para discriminar o açúcar por sua "doçura". Ou seja, a evolução supriu os animais com moléculas receptoras específicas que reagem à concentração de açúcar altamente energético em qualquer coisa que eles provem, e fixou essas moléculas receptoras à maquinaria de busca, para falar cruamente. As pessoas em geral dizem que gostamos de algumas coisas porque elas são doces, mas na verdade é o contrário: seria mais exato dizer que algumas coisas são doces (para nós) porque gostamos delas! (E nós gostamos delas porque nossos antepassados, que foram energizados para gostar delas, tiveram mais energia para a reprodução do que seus pares menos afortunadamente energizados.) Não existe nada "intrinsecamente doce" (seja lá o que isso signifique) nas moléculas de açúcar, mas elas são intrinsecamente valiosas para organismos necessitados de energia, de modo que, assim, a evolução deu um jeito para que os organismos tivessem uma preferência potente e intrínseca por qualquer coisa que excite seus detectores especiais para alta energia. É por isso que nascemos com um gosto instintivo por doces - e, em geral, quanto mais doce, melhor. Os dois lados - plantas e animais - se beneficiaram, e os sistemas se aperfeiçoaram através dos tempos. O pagamento por todo o projeto e pela fabricação (da planta inicial e do equipamento animal) foi feito pela reprodução diferenciada de animais frugívoros e onívoros e plantas que dão frutas comestíveis. Nem todas as plantas "escolhem" a barganha de fazer frutas comestíveis, mas as que o fizeram tiveram de criar suas frutas atraentes para competir. Tudo isso tem um perfeito sentido, do ponto de vista econômico; foi uma transação racional, levada a efeito com um passo mais lento que o glacial ao longo de eras, e é claro que nenhuma planta ou animal teve de saber nada disso para que o sistema progredisse. Este é um exemplo do que eu chamo de base racional descomprometida (Dennett, 1983, 1995b). Processos evolutivos cegos, sem direção, descobrem projetos que funcionam. Eles funcionam por diversos aspectos, e esses aspectos podem ser descritos e avaliados em retrospecto como se fossem realmente a criação de projetistas inteligentes, que perceberam de antemão os motivos fundamentais do projeto. Com relação ao funcionamento geral dos casos, isso não representa controvérsias. As lentes de um olho, por exemplo, são maravilhosamente projetadas para fazer sua tarefa, e as razões fundamentais da engenharia dos detalhes são inequívocas, mas nenhum projetista jamais a articulou, até que o olho fosse passado por uma engenharia reversa realizada pelos cientistas. A racionalidade econômica das trocas mútuas das barganhas na co-evolução é inequívoca, mas até muito recentemente, com o advento do comércio humano, há poucos milênios, os motivos fundamentais para esses bons negócios nunca podiam ser representados em qualquer mente.


Digressão: Esse é um ponto de impasse para os que ainda não avaliaram como está bem estabelecida a teoria da evolução por seleção natural. De acordo com um levantamento recente, apenas cerca de um quarto da população dos Estados Unidos sabe que a evolução está tão bem estabelecida como o fato de que a água é H2O. Essa estatística constrangedora exige algumas explicações, já que outros países cientificamente avançados não demonstram o mesmo padrão. Será que tanta gente poderia estar errada? Bem, houve uma época, não há tanto tempo assim, em que apenas uma pequena minoria dos habitantes da Terra acreditava que o planeta era redondo e girava em torno do Sol, de modo que sabemos que as maiorias podem estar redondamente enganadas. Mas como, em face de tantas confirmações impressionantes e de maciças provas científicas, poderiam tantos norte-americanos não acreditar na evolução? Simples: foi dito solenemente a eles que a teoria da evolução é falsa (ou, pelo menos, não provada) por pessoas em quem confiam mais do que confiam nos cientistas. Aqui jaz uma pergunta interessante: de quem é a culpa dessa informação errônea disseminada entre a população? Suponha que os sacerdotes da sua fé, que são pessoas ajuizadas e boas, garantam a você que a evolução é uma teoria falsa e perigosa. Se você for um leigo, pode ser inocente acreditar na palavra autoritária deles e passá-la adiante, autoritariamente, a seus filhos. Todos nós confiamos nos especialistas a respeito de muitas coisas, e os sacerdotes são os seus especialistas. Mas onde, então, eles adquiriram essa informação errônea? Se alegarem tê-la adquirido dos cientistas, foram enganados, já que não há cientista de renome que afirme isso. Nenhum. Há muitos que são fraudes e charlatões, no entanto. Como vê, não vou poupar palavras. E os proponentes do Criacionismo Científico e do Projeto Inteligente que são tão falantes e visíveis em campanhas bem orquestradas? Eles todos têm sido cuidadosa e pacientemente refutados por cientistas conscienciosos, que se deram o trabalho de penetrar suas cortinas de fumaça de propaganda e desnudar os argumentos de má qualidade e suas falsidades e evasivas aparentemente deliberadas.3 Se você discorda visceralmente desse repúdio categórico, tem duas boas escolhas a fazer ao levar em consideração este tema: 1. Instrua-se em teoria da evolução e suas críticas e veja por si mesmo se o que eu digo é verdade, antes de prosseguir. (As notas deste capítulo fornecem todas as referências de que você vai precisar para prosseguir. Instruir-se em teoria da evolução e nas suas críticas, e ver por si mesmo, não exigiria mais de dois meses de trabalho árduo.) 2. Suspenda temporariamente a descrença para aprender o que um evolucionista pensa da religião como fenômeno natural. (Talvez seu tempo e energia como cético poderiam ser mais bem gastos tentando penetrar no núcleo da perspectiva desse evolucionista em busca de uma falha fatal.) Como alternativa, você pode acreditar que não precisa leVar em consideração as provas científicas, já que "a Bíblia diz" que a evolução é falsa, e pronto. Essa posição é mais extrema do que algumas vezes se reconhece. Mesmo se você acreditar que a Bíblia tem a última e perfeita palavra sobre todos os temas, você deve reconhecer que há pessoas no mundo que não partilham de sua interpretação da Bíblia. Por exemplo, muitos consideram a Bíblia como a Palavra de Deus, mas não a lêem para excluir a evolução. Assim, não passa de um simples fato corriqueiro a questão de que a Bíblia não fala clara e inequivocamente para todos. Desse modo, a Bíblia não é um candidato plausível como fundamento comum a ser compartilhado sem maiores discussões


em uma conversa razoável. Se você insiste que é, você está fazendo "fiau" para toda a pesquisa. (Adeus, espero vê-lo outra vez algum dia.) Mas será que não há uma assimetria injustificada, aqui? - eu me recuso a defender meu anticriacionismo aqui e agora, ao mesmo tempo que despeço os bíblicos infalíveis por não seguirem as regras da discussão racional? Não, porque orientei todo mundo para a literatura que defende a recusa ao criacionismo contra todas as objeções, enquanto os infalíveis estão se recusando a adotar até mesmo essa obrigação. Para serem simétricos, os infalíveis deveriam encorajar-me a consultar a literatura, se existir, que se proponha a demonstrar, contra qualquer objeção, que a Bíblia é mesmo a Palavra de Deus, e que exclui a evolução. Ainda não fui orientado para nenhuma literatura desse tipo, nem a encontrei em nenhum site da web, mas, se existir, iria verdadeiramente garantir essa consideração como tema para outro dia e outro projeto - exatamente como o criacionismo e suas críticas. Os leitores que permanecerem não exigirão nenhuma consideração adicional de mim sobre o criacionismo e suas variantes, já que eu lhes disse onde encontrar as respostas que endosso, para o bem ou para o mal. Fim da digressão. O advogados têm uma expressão latina básica, cui bono?, que quer dizer "quem se beneficiará disso?", uma pergunta que é ainda mais central em biologia da evolução que no direito (Dennett, 1995b). Qualquer fenômeno no mundo vivo que aparentemente excede o funcional exige uma explicação. A suspeita é sempre de que devemos estar perdendo alguma coisa, já que uma despesa gratuita é, em uma palavra, pouco econômica, e, como os economistas estão sempre nos lembrando, não existe almoço grátis. Não ficamos admirando um animal que persistentemente fuça a terra com o nariz porque calculamos que está procurando comida, mas se ele regularmente interrompe seu desenterrar com sobressaltos, queremos saber por quê. Como os acidentes acontecem, é sempre possível que alguma característica de alguma coisa viva que parece ser um excesso sem sentido seja mesmo tão sem sentido quanto parece (em vez de um estratagema profundo e desconcertante em algum jogo que não compreendemos). Mas a evolução é notavelmente eficiente em varrer da cena acidentes sem sentido, de modo que, se encontramos um padrão persistente de equipamento ou atividade caros, podemos bem ter a certeza de que alguma coisa se beneficia deles no único inventário honrado pela evolução: a reprodução diferenciada. Deveríamos lançar nossas redes de modo amplo ao caçar os beneficiários, uma vez que eles são muitas vezes fugidios. Suponhamos que você encontre ratos que arrisquem extravagantemente suas vidas na presença de gatos e pergunte cui bono?. Que benefícios esses ratos obtêm desse comportamento maluco? Será que eles estão se mostrando para impressionar parceiros em potencial ou o comportamento extravagante de algum modo melhora o acesso deles a boas fontes de alimentos? Pode ser, mas provavelmente você está procurando pelo beneficiário no lugar errado. Como o Dicrocelium dendriticum que adotou como residência a laboriosa formiga com a qual iniciei este livro, existe um parasita, o Toxoplasma gondii, que consegue viver em qualquer mamífero, mas precisa entrar no estômago do gato para se reproduzir, e, quando infecta os ratos, ele tem a propriedade útil de interferir no sistema nervoso deles e tornálos hiperativos e relativamente destemidos - e, portanto, com muito maior probabilidade de serem comidos por qualquer gato na vizinhança! Cui bono? O benefício vai para o mais apto - o sucesso reprodutivo do Toxoplasma gondii, não para os ratos que ele infecta (Zimmer, 2000). Toda barganha na natureza tem sua razão descomprometida, a não ser que por acaso seja uma


barganha projetada por regateadores humanos, os únicos representantes de razões que evoluíram no planeta. Mas uma razão pode se tornar obsoleta. A medida que as oportunidades e os perigos na natureza mudam, uma boa barganha pode diminuir. A evolução demora a "reconhecer' isso. Nosso gosto por doces é um bom exemplo. Como os coiotes, nossos antepassados caçadorescoletores viviam com orçamentos energéticos muito limitados e tinham de se valer de qualquer oportunidade prática de armazenar calorias para uso em uma emergência. Um apetite quase insaciável por doces fazia sentido naquela época. Agora que desenvolvemos métodos para criar uma superabundância de açúcar, essa insa- ciabilidade se torna uma séria falha no projeto. O reconhecimento da fonte evolutiva dessa falha nos ajuda a calcular como lidar com ela. Nosso gosto pelo doce não é apenas um acidente ou um erro sem sentido em um sistema de outro modo excelente; ele foi projetado para desempenhar a tarefa que desempenha, e, se nós subestimamos seus muitos recursos, sua resistência à perturbação e supressão, nossos esforços em lidarmos com ele podem ser contraproducentes. Existe uma razão para gostarmos de açúcar, e é - ou era uma razão muito boa. Podemos encontrar outros amores aposentados que precisam de nossa atenção. Mencionei a música no capítulo anterior - e iremos nos voltar para um exame mais detalhado de suas possíveis fontes evolutivas -, mas quero antes fazer um aquecimento em coisas mais fáceis das quais gostamos. E o álcool? E o dinheiro? E o sexo? O sexo apresenta alguns dos problemas mais interessantes e desafiadores na teoria da evolução, porque, aparentemente, a reprodução sexuada é realmente um mau negócio. Esqueça - por um momento - nosso tipo de sexo humano (sexo sensual), e pense nas variedades mais básicas da reprodução sexuada no mundo vivo: a reprodução sexuada de quase todas as formas vivas multicelulares, dos insetos e mexilhões a macieiras, e até muitos organismos unicelulares. O grande biólogo da evolução, François Jacob, uma vez comentou jocosamente que o sonho de toda célula é se tornar duas células. Cada vez que essa fissão ocorre, uma cópia completa do genoma da célula é inscrita em seus descendentes. Os pais se clonam a si próprios, em outras palavras; os organismos resultantes compartilham 100% de seus genes. Se você pode fazer cópias perfeitas de você mesmo, por que quereria incorrer no gasto de uma reprodução sexuada, que envolve não apenas encontrar um parceiro, mas, e muito mais importante, passar apenas metade de seus genes para seus descendentes?4 Essa redução de 50% (do ponto de vista do gene) é conhecida como o custo da meiose (o tipo de divisão que ocorre nas células sexuais, para distingui-las da divisão de clonagem, a mitose). Alguma coisa deve pagar esse custo, e deve pagar na hora, não em alguma data futura, já que a evolução não tem previsões e não pode aprovar barganhas nas bases especulativas de um retorno eventual em alguma época distante. A reprodução sexuada é portanto um investimento caro e que se deve pagar a curto prazo. Os detalhes da teoria e da experiência sobre esse tema são fascinantes (ver, por exemplo, Maynard Smith, 1978; Ridley, 1993), mas para nossos propósitos, alguns melhores momentos da teoria que está atualmente na ponta são muito instrutivos: sexo (nos vertebrados como nós, pelo menos) se paga ao fazer com que nossos descendentes sejam relativamente inescrutáveis para os parasitas com os quais os dotamos desde que nascem. Os parasitas têm períodos vitais curtos, se comparados a seus hospedeiros, e em geral se reproduzem muitas vezes durante o período de vida do hospedeiro. Os mamíferos, por exemplo, são hospedeiros de trilhões de parasitas. (Sim, já não importa quão saudável e limpo você seja, há trilhões de parasitas de milhares de espécies


diferentes habitando seus intestinos, sangue, pele, cabelos, boca e todas as demais partes do seu corpo. Eles vêm evoluindo rapidamente para sobreviver ao massacre de suas defesas desde o dia em que você nasceu.) Antes que uma fêmea possa estar madura para a idade reprodutiva, seus parasitas evoluem para se ajustarem a ela melhor que qualquer luva. (Enquanto isso, o sistema imunológico dela evolui para combatê-los, um empate - se ela for saudável - em uma permanente corrida armamentista). Se ela desse à luz um clone, os parasitas dela iriam pular em cima dele e estariam à vontade desde o início. Eles já estariam otimizados com relação a seu novo ambiente. Se, em vez disso, ela usasse a reprodução sexuada para dotar seus descendentes com um conjunto misturado de genes (metade dos de seu parceiro), muitos desses genes - ou, mais diretamente, seus produtos, nas defesas internas do descendente - seriam estranhos ou enigmáticos para os parasitas invasores. Em vez de lar doce lar, os parasitas iriam encontrar-se em terra ignota. Isso dá ao descendente uma grande vantagem inicial na corrida armamentista. Será que essa barganha se paga? Essa é a questão de fundo da atual pesquisa sobre biologia da evolução, e se a resposta positiva resistir ao maior escrutínio, então teremos encontrado a fonte antiga, mas permanente, na evolução, do enorme sistema de atividades e produtos que normalmente levamos em conta quando pensamos em sexo: rituais de casamento e tabus contra o adultério, roupas e penteados, produtos para refrescar o hálito, pornografia, camisinha, HIV e todo o resto. Para explicar o motivo da existência de cada uma e de todas as facetas desse enorme complexo, teremos de lançar mão de muitos tipos e níveis diferentes de teoria, nem todos biológicos. Mas nada disso existiria se não fôssemos criaturas de reprodução sexuada, e primeiro precisamos entender suas bases biológicas, se quisermos ter uma visão clara daquilo que é opcional ou mero acidente histórico e do que é altamente resistente à perturbação, o que é explorável. Há motivos pelos quais gostamos de sexo, e eles são mais complicados do que você poderia pensar. Com o álcool surge uma perspectiva um tanto diferente. O que paga pelas cervejarias, os vinhedos e as destiladas, e pelos maciços sistemas de entrega que trazem as bebidas alcoólicas até o alcance fácil de praticamente qualquer ser humano no planeta? Sabemos que o álcool, como a nicotina, a cafeína e os ingredientes ativos no chocolate têm efeitos específicos sobre moléculas receptoras no nosso cérebro. Vamos supor que esses efeitos, no início, sejam apenas coincidências. O fato de que algumas moléculas grandes em algumas plantas por acaso são semelhantes a moléculas grandes que desempenham importantes funções de moduladores nos cérebros de animais é, suponhamos, tão provável quanto o contrário. A evolução deve sempre começar com um elemento de probabilidade bruta. Mas, então, não é de surpreender que, ao longo de milhões de anos de ingestão exploratória, nossa espécie e outras venham a descobrir as plantas que contêm ingredientes psicoativos e que desenvolvem disposições de preferência ou aversão em relação a elas. Sabe-se que os elefantes - e os babuínos e outros animais africanos caem de bêbados depois de comerem frutas em fermentação das árvores de marula, e há provas de que os elefantes viajam grandes distâncias para chegar à árvore da marula exatamente quando suas frutas amadurecem. Parece que a fruta fermenta no estômago dos elefantes quando células de levedo residentes na fruta sofrem uma explosão populacional, consumindo o açúcar e liberando dióxido de carbono e álcool. O álcool por acaso tem no cérebro dos elefantes o mesmo tipo de efeito prazeroso que tem nos nossos. Pode ser que a barganha básica contratada entre árvores frutíferas e frugívoras - o negócio


de espalhar sementes em troca de açúcar - seja enfatizada por uma parceria a mais entre a levedura e a árvore frutífera. Isso criaria uma atração extra que é paga pelo aumento nas perspectivas reprodutivas tanto da levedura como das árvores, ou pode ser apenas um acidente ao acaso. De qualquer modo, outra espécie, o Homo sapiens, fechou o círculo e iniciou exatamente essa barganha co-evolutiva: domes- ticamos tanto a levedura como a fruta e, durante milhares de anos, temos selecionado artificialmente as variedades que produzem melhor os efeitos de que gostamos. As células da levedura provêem um serviço pelo qual elas são pagas em proteção e nutrientes. Isso significa que as culturas de levedura, cuidadosamente criadas por cervejeiros, vinhateiros e padeiros, são simbiontes humanos tanto quanto as bactérias E. coli que habitam nossos intestinos. Ao contrário das bactérias endossimbiontes, como o Toxaplasma gondii, que devem entrar nos corpos tanto do rato como do gato, as células de leveduras são um tipo de ectossimbionte - como o peixe "limpador" que cuida de peixes maiores -, que depende de outras espécies, mas não precisa entrar no corpo delas. Elas podem - como um peixe limpador desobe- diente - ser engolidas por nós mais ou menos por acidente, mas realmente só o que secretam precisa entrar em nós para elas prosperarem! Agora pensem em um tipo de coisa boa espantosamente diferente: dinheiro. Ao contrário das outras coisas que levamos em consideração, ele está restrito (até agora) a uma única espécie, a nós, e é projetado e transmitido pela cultura, e não pelos genes. Terei mais a dizer a respeito da evolução cultural em capítulos posteriores. Nesta visão geral introdutória, quero chamar a atenção apenas para algumas impressionantes semelhanças entre o dinheiro e tesouros "mais biológicos" que acabamos de mencionar. Como a vista e o vôo, o dinheiro evoluiu mais de uma vez,5 e portanto é um forte candidato àquilo que chamo de Bom Estratagema - uma movimentação no espaço do projeto que será "descoberto" outra vez, e mais outra, por processos cegos de evolução, simplesmente porque tantos caminhos adaptati- vos levam a ele, e, portanto, o endossam (Dennett, 1995b). Os economistas calcularam o raciocínio para o dinheiro em alguns detalhes. O dinheiro é claramente uma das "invenções" mais eficazes de nossa espécie inteligente, mas essa base racional era descomprometida até há pouco tempo. Usamos e valorizamos o dinheiro, confiamos nele, e ocasionalmente matamos e morremos por dinheiro, muito antes da razão de seu valor ficar explícita em nossas mentes. O dinheiro não é a única invenção cultural a não ter um inventor ou autor específico. Ninguém inventou a linguagem ou a música, tampouco.6 Coincidência divertida é o fato de que um termo antigo para dinheiro sob a forma de moeda e papel ser espécie (a mesma palavra usada para falar de espécie biológica), e, como muitos já notaram, a base racional descomprometida da espécie poderia decair, em um futuro previsível, e ela poderia se extinguir na esteira dos cartões de crédito e de outras formas de transferência eletrônica de fundos. O dinheiro em espécie, como um vírus, viaja sem bagagem e não carrega consigo sua maquinaria reprodutiva, mas, ao contrário, depende da persistência de seu tipo para provocar um hospedeiro (nós) a fazer cópias dele, usando nossa dispendiosa maquinaria de reprodução (prensas de impressão, matrizes e tintas).7 Moedas e pedaços de papel-moeda, individualmente, podem se gastar com o tempo, e, a não ser que outros sejam feitos e adotados, o sistema inteiro pode se extinguir. (Você pode confirmar isso tentando comprar um barco com uma pilha de conchas de cauri.) Mas já que o dinheiro é um Bom Estratagema, pode-se esperar que outras espécies de dinheiro adotem o nicho que ficou vago pela espécie que partiu.


Tenho outro motivo para mencionar o caso do dinheiro. Os bens que foram levantados açúcar, sexo, álcool, música, dinheiro - são todos problemáticos porque, com relação a cada um deles, podemos desenvolver uma obsessão e querer demais uma coisa boa, mas o dinheiro talvez tenha a pior das reputações como coisa boa. O álcool é condenado por muitos pelos maometanos em particular -, mas entre aqueles que o apreciam como os católicos romanos -, uma pessoa que gosta dele com moderação não é considerada vil ou tola. Presume-se, contudo, que todos nós desdenhemos o dinheiro como uma coisa em si, e apenas o valorizemos como instrumento. O dinheiro é "lucro sujo", algo a ser curtido apenas por aquilo que pode proporcionar, como objetos de valor mais meritórios, de valor "intrínseco".8 Como diz a velha canção, sem convencer inteiramente, as melhores coisas da vida são gratuitas. Será isso por que o dinheiro é "artificial", e as outras coisas são "naturais"? Pouco provável. Será um quarteto de cordas, ou um uísque single malt, ou uma trufa de chocolate menos artificial que moedas de ouro? O que devemos deduzir desse tema de cultura humana é uma questão interessante, a respeito da qual me alongarei posteriormente. Mas, enquanto isso, devemos observar que a única âncora que temos até agora para o valor "intrínseco" é a capacidade que alguma coisa tem de provocar uma reação de preferência bem diretamente no cérebro. A dor é "intrinsecamente ruim", mas sua valência negativa é tão dependente de uma razão evolutiva como a "coisa boa intrínseca" da fome saciada. Uma rosa, sob qualquer outro nome, seria igualmente perfumada, sem dúvida, mas também é verdade que, se fuçar carcaças de elefante em apodrecimento fosse bom para nossas perspectivas reprodutivas do mesmo modo que o é para os urubus, esse elefante morto seria para nós tão perfumado como uma rosa.9 A biologia insiste em investigações profundas abaixo da superfície dos valores "intrínsecos" e em indagar por que eles existem. Qualquer resposta apoiada em fatos tem o efeito de mostrar que o valor em questão é - ou foi algum dia - realmente instrumental, e não intrínseco, mesmo que não o vejamos dessa maneira. Um valor verdadeiramente intrínseco não poderia ter tal explicação. Seria bom apenas por ser bom, não porque é bom para alguma coisa. Uma hipótese a ser seriamente levada em conta, então, é que todos os nossos valores intrínsecos começaram como valores instrumentais, e agora que seus objetivos originais desapareceram, pelo menos aos nossos olhos, eles permanecem como coisas de que gostamos apenas porque gostamos. (Isso não significaria que estamos errados em gostar delas! Significaria - por definição - que gostamos delas sem precisar de outros motivos posteriores para gostar delas.)

3. QUAL É A PAGA PELA RELIGIÃO Mas quais são os benefícios: por que as pessoas querem a religião? Elas a desejam porque a religião é a única fonte plausível de determinadas recompensas para as quais há uma demanda geral e inesgotável. [Rodney Stark e Roger Finke, Acts of Faith] Não importa o que mais a religião seja como fenômeno humano, ela é uma empreitada imensamente cara, e a biologia da evolução mostra que nada tão caro acontece apenas por acaso.


Qualquer gasto regular desse tipo, em tempo e energia, deve ser equilibrado por algo de "valor" obtido, e a principal medida de "valor" evolutivo é a aptidão: a capacidade de se replicar com maior sucesso que a concorrência. (Isso não significa que deveremos valorizar a replicação acima de tudo! Significa apenas que nada consegue evoluir e permanecer durante muito tempo nesse mundo exigente a não ser que de algum modo provoque sua própria replicação melhor que a dos rivais.) Já que o dinheiro é uma inovação tão recente da perspectiva da história evolutiva, é estranhamente anacrônico perguntar qual a vantagem de uma feição biológica ou outra como se fossem transações reais e livros-razões na firma de contabilidade de Darwin. Essa metáfora, no entanto, capta bem o equilíbrio subjacente, observado em tudo na natureza, e não sabemos de qualquer exceção à regra. Então, arriscando a ofensa ao desprezar esse risco como apenas mais um aspecto do tabu que deve ser quebrado, pergunto: qual a vantagem da religião? Odeie a linguagem, se quiser, mas isso não lhe dá nenhuma boa razão para desconsiderar a pergunta. Qualquer alegação no sentido de que a religião - a sua religião, qualquer religião - fica acima da biosfera e não tem de satisfazer a essa demanda é simplesmente bazófia. Pode ser que Deus implante em todos os seres humanos uma alma imortal que tem sede de oportunidades para adorar Deus. Isso realmente explicaria a barganha feita, a troca de tempo humano e a energia para a religião. A única maneira honesta de defender essa proposta, ou qualquer coisa parecida com ela, é por meio de um exame correto de teorias alternativas sobre a persistência e a popularidade da religião, e excluí-las, mostrando que não conseguem dar conta do fenômeno observado. Além disso, você poderá defender a hipótese de que Deus criou o universo para que evoluíssemos para amar a Deus. Se for isso, gostaríamos de saber como ocorreu essa evolução. O mesmo tipo de investigação que desvendou os mistérios do doce, do álcool, do sexo e do dinheiro pode ser empregado para a religião. Houve um tempo, não tão distante assim, pelos padrões evolutivos, em que não havia religião neste planeta, e agora há muitas delas. Por quê? Pode haver uma fonte evolutiva, ou muitas, ou pode-se desafiar totalmente a análise evolutiva, mas não saberemos responder até que a procuremos. Será que realmente precisamos indagar a esse respeito? Será que não podemos simplesmente aceitar o fato evidente de que a religião é um fenômeno humano, e que os seres humanos são mamíferos e, portanto, produtos da evolução, e então deixar assim as bases biológicas da religião? As pessoas fazem religiões, mas também fazem automóveis, literatura, esportes, e certamente não têm necessidade de recuar profundamente na pré-história para compreender a diferença entre um sedã, um poema e um torneio de tênis. Será que a maior parte dos fenômenos religiosos que precisam ser investigados é cultural e social - ideológicos, filosóficos, psicológicos, políticos, econômicos, históricos --, e, portanto, estariam eles um tanto "acima" do nível biológico? Essa é uma pressuposição conhecida entre pesquisadores nas ciências sociais e humanas, que muitas vezes consideram "reducionista" (e de uma forma muito ruim) até fazer perguntas a respeito das bases biológicas desses encantadores e importantes fenômenos. Posso ver alguns antropólogos e sociólogos culturais virando os olhos com desdém - "Ah, n£o! Lá vem Darwin outra vez, se metendo onde não é chamado!" -, enquanto outros historiadores e filósofos da religião e teólogos dão risadinhas com a vulgaridade de espírito de quem conseguir perguntar de cara limpa a respeito das bases evolutivas da religião. "E depois, uma busca pelo gene católico?" Esta resposta negativa é em geral impensada, mas não é boba. E sustentada em parte por lembranças desagradáveis de campanhas passadas que falharam: investidas ingênuas e mal


informadas por biólogos nas brenhas da complexidade cultural. Existe uma boa causa que pode ser defendida, de que as ciências sociais e humanas - as Geisteswissenchaften, ou ciências da mente - têm suas próprias metodologias "autônomas" e questões, independentes das ciências naturais. Mas, apesar de tudo o que possa ser dito em favor dessa idéia (e eu vou gastar mais tempo examinando o melhor caso na hora adequada), o isolamento disciplinar que isso motiva tornou-se um grande obstáculo para a boa prática da ciência, uma péssima desculpa para a ignorância, uma muleta ideológica que deveria ser jogada fora.'° Temos motivos especialmente fortes para investigar as bases biológicas da religião agora. Algumas vezes - raramente - as religiões não dão certo, desviando-se para algo como uma insanidade ou histeria grupai e causando grande dano. Agora que criamos as tecnologias para causar catástrofes globais, nosso risco é multiplicado ao máximo: uma mania religiosa tóxica poderia terminar a civilização da noite para o dia. Precisamos compreender o que faz a religião funcionar para podermos nos defender, de modo informado, de circunstâncias nas quais as religiões saem do controle. Do que é composta a religião? Como as partes se ajustam? O que constituem a saúde e a patologia do fenômeno religioso? Essas questões podem ser abordadas pela antropologia, pela sociologia, pela psicologia, pela história e por qualquer outra variedade de estudos culturais que se queira, mas é simplesmente indesculpável que pesquisadores, nesses campos, deixem o ciúme disciplinar e o medo do "imperialismo científico" criarem uma cortina de ferro ideológica, que possa vir a esconder importantes restrições e oportunidades subjacentes para eles. Pense nas nossas controvérsias atuais com respeito à nutrição e à dieta. O conhecimento da base racional da maquinaria no nosso corpo que nos leva a comer doces e gorduras demais é a chave para encontrar as medidas corretivas que irão realmente funcionar. Durante muitos anos os nutricionistas acharam que a chave para evitar a obesidade era simplesmente cortar a gordura da dieta. Agora parece que essa abordagem simplista da dieta é contraproducente: quando você mantém insatisfeito, à força, o seu sistema com fome de gorduras, isso intensifica os esforços compensatórios do corpo, levando ao excesso de ingestão de carboidratos. O pensamento evolutivo singelo do passado recente ajudou a construir e pôr em ação o movimento do baixo teor de gordura, que então se mantém auto-sustentável sob o cuidado solícito dos fabricantes e dos anunciantes de alimentos com baixo teor de gordura. Taubes (2001) faz um relato que abre os olhos para os processos políticos que criaram e sustentaram esse "evangelho do baixo teor de gordura", e faz também uma advertência oportuna para o empreendimento que estou propondo aqui: "E uma história daquilo que pode acontecer quando as exigências das políticas de saúde pública - eas exigências do público em busca de conselhos simples [grifos meus] - vão de encontro à ambigüidade perturbadora da ciência real" (p. 2537). Mesmo se fizermos justiça ã ciência da religião (pela primeira vez), devemos vigorosamente defender a integridade do processo seguinte, a redução dos resultados complexos da pesquisa em decisões políticas. Isso não é nada fácil. Basil Rifkind, um dos nutricionistas que foram pressionados a dar um veredicto prematuro sobre a dieta com baixos teores de gordura, resume: "Chega um ponto em que, se você não tomar uma decisão, as conseqüências também podem ser grandes. Haverá também um resultado, se você se limita a permitir que os norte-americanos continuem a consumir 40% das calorias em gorduras" (Taubes, 2001, p. 2541). As boas intenções não são suficientes. Esse é o tipo de campanha mal orientada que queremos evitar quando tentamos corrigir o que achamos ser


os excessos tóxicos da religião. A gente se encolhe de horror com os efeitos possíveis de tentar uma "dieta radical" mal orientada ou outra qualquer com aqueles que estão famintos de religião. Pode ser tentador argumentar que todos nós estaríamos em melhores condições se não fosse por nutricionistas sabe-tudo que se intrometem em nossas dietas, para começar. Comemos o que é bom para nós apenas baseados em nossos instintos moldados pela evolução, do jeito que os outros animais fazem. Mas isso é simplesmente errôneo, tanto no caso da dieta como no da religião. A civilização - a agricultura em particular e a tecnologia em geral - alteraram imensa e rapidamente nossas circunstâncias ecológicas em comparação com as circunstâncias de nossos ancestrais bastante recentes, e isso faz com que a maior parte dos nossos instintos seja obsoleta. Alguns deles ainda podem ter valor, apesar de sua obsolescência, mas é provável que outros sejam positivamente danosos. Não podemos confiar na volta à abençoada ignorância do nosso passado animal. Estamos fadados a ser espécies sabedoras, e isso significa que teremos de usar da melhor forma possível o nosso conhecimento para adaptar nossas políticas e práticas de modo que elas possam enfrentar nossos imperativos biológicos.

4. UMA LISTA MARCIANA DE TEORIAS Se você fosse Deus, você teria inventado o riso? [Christopher Fry, The Ladys Notfor Burning] Pode ser que estejamos perto demais da religião para podermos vê-la claramente, de início. Esse tem sido um tema familiar entre artistas e filósofos durante anos. Uma das tarefas que se impuseram é "tornar o familiar estranho"," e alguns grandes golpes de gênio criativo nos levam a atravessar a crosta de familiaridade excessiva e a olhar para coisas comuns, óbvias, com olhos novos. Os cientistas não poderiam deixar de concordar com isso. O momento mítico de sir Isaac Newton foi se fazer a estranha pergunta a respeito de por que a maçã caiu para baixo. ("Bem, por que não cairia?", pergunta o não-gênio do dia-a-dia; "É pesadal" - como se isso fosse uma explicação satisfatória.) Albert Einstein fez uma pergunta igualmente estranha: todo mundo sabe o que "agora" significa, mas Einstein perguntou se você e eu queremos dizer a mesma coisa com "agora quando estamos nos separando um do outro em uma velocidade próxima à da luz. A biologia tem algumas perguntas estranhas também. "Por que os animais machos não lactam?", pergunta o finado grande biólogo evolucionista John Maynard Smith (1977), vividamente nos despertando de nossos sonos dogmáticos para confrontar uma perspectiva curiosa. "Por que piscamos os dois olhos ao mesmo tempo?", pergunta outro grande biólogo evolucionista, George Williams (1992). Boas perguntas, ainda não respondidas pela biologia. Eis algumas outras. Por que rimos quando acontece alguma coisa engraçada? Podemos achar que é simplesmente óbvio que o riso (ao contrário de, por exemplo, coçar a orelha ou arrotar) é a reação apropriada ao humor, mas por quê? Por que alguns formatos femininos são sensuais, e outros não? Não é claro? É só olhar para elas! Mas isso não encerra o assunto. As regu- laridades e as tendências nas nossas reações ao mundo realmente garantem, de modo trivial, que elas fazem parte da "natureza humana", mas isso ainda deixa a questão do porquê. Curiosamente, exatamente essa feição do


questionamento evolutivo é muitas vezes encarada com profunda aversão por... artistas e filósofos. O filósofo Ludwig Wittgenstein tem um dito famoso, que a explicação deve parar em algum lugar, mas essa verdade inegável nos orienta mal, se nos desencoraja de fazer tais perguntas, acabando prematuramente com a nossa curiosidade. Por que a música existe, por exemplo? "Porque é naturall", vem a resposta diária, complacente, mas a ciência não tem nada natural como garantido. Pessoas no mundo inteiro dedicam muitas horas - muitas vezes suas vidas profissionais - fazendo, escutando e dançando com música. Por quê? Cui bono? Por que a música existe? Por que a religião existe? Dizer que é natural é apenas o início da resposta, não o final. A notável escritora autista e especialista em ciência animal, Temple Grandin, deu ao neurologista Oliver Sacks um ótimo título para uma de suas coleções de estudos de caso de seres humanos pouco comuns: Um antropólogo em Marte (1995). Era assim que ela se sentia, disse a Sacks, ao lidar com outras pessoas aqui na Terra. Em geral essa alienação é um impedimento, mas afastar-se um pouco do mundo comum ajuda a focalizar nossa atenção naquilo que, de outro modo, é óbvio demais para ser notado, e ajuda se temporariamente nos pusermos nos sapatos (três calçados verdes brilhantes) de um "marciano", integrante de uma equipe de investigadores alienígenas, que podem ser imaginados como pouco familiarizados com os fenômenos que estamos observando aqui no planeta Terra. O que eles vêem hoje é uma população de mais de 6 bilhões de pessoas, sendo que quase todas dedicam uma fração significante de seu tempo e energia a algum tipo de atividade religiosa: rituais, como preces diárias (tanto públicas como privadas) ou comparecimento freqüente a cerimônias, mas também sacrifícios custosos - não trabalhar em alguns dias, não importando que crise iminente necessite da atenção imediata; deliberada- mente destruindo propriedades valiosas em cerimônias pródigas, contribuindo para o sustento de praticantes especialistas dentro da comunidade e a manutenção de prédios sofisticados e seguindo uma multiplicidade de proibições e exigências arduamente observadas, inclusive evitando determinados alimentos, usando véus, ofendendo-se com comportamentos alheios aparentemente inócuos, e daí por diante. Os marcianos não teriam dúvidas de que tudo isso fosse "natural" em um sentido: eles o observam quase em todo lugar na natureza, em uma espécie de bípedes falantes. Como os outros fenômenos da natureza, este exibe tanto uma diversidade de tirar o fôlego como espantosas banalidades, projetos lindamente engenhosos (rítmicos, poéticos, arquitetônicos, sociais etc.) e, no entanto, uma pasmosa inescrutabilidade. De onde vem todo esse projeto e o que o sustenta? Além de todos os gastos contemporâneos de tempo e esforço, há todo o implícito trabalho de projeto que o precedeu. Trabalho de projeto - P &D, pesquisa e desenvolvimento - também é caro. Alguns projetos de P &D podem ser observados diretamente pelos marcianos: debates entre líderes religiosos a respeito de abandonar ou não elementos desajeitados de sua própria ortodoxia, decisões de comitês de construção para aceitar uma proposta vencedora de arquitetura para um novo templo, compositores executando encomenda de novos hinos, teólogos escrevendo tratados, televangelistas encontrando-se com agências de publicidade e outros consultores para planejarem suas novas estações de difusão. No mundo desenvolvido, além do tempo e da energia gastos na observação religiosa, existe um imenso empreendimento de crítica e defesa pública e privada, e interpretação e comparação de todos os aspectos da religião. Se os marcianos apenas se concentrarem nisso, eles formarão a impressão de que a religião, como a ciência, a música ou


o esporte profissional, consiste em sistemas de atividade social que são projetados e reprojetados por agentes conscientes, deliberados, que conhecem os pontos ou objetivos dos empreendimentos, os problemas que precisam ser resolvidos, os riscos, os custos e os benefícios. A National Football League foi criada e projetada por indivíduos identificáveis para satisfazerem um conjunto de objetivos humanos, do mesmo modo que o Banco Mundial. Essas instituições mostram evidências claras de projeto, mas não são "perfeitas". As pessoas cometem enganos, erros são identificados e corrigidos ao longo do tempo, e quando há discordâncias sérias entre os que têm o poder e a responsabilidade de manter tal sistema, buscam-se acordos, muitas vezes firmados. Um tipo de P &D que moldou e ainda está moldando a religião cai claramente dentro dessa categoria. Um caso extremo seria a cientologia, uma religião inteira que foi criação inquestionável, deliberadamente projetada por um único autor, L. Ron Hubbard, embora ele tenha evidentemente tomado de empréstimo elementos que deram certo em religiões já existentes. No outro extremo, não há dúvida de que as igualmente intricadas e projetadas religiões populares, ou religiões tribais, difundidas pelo mundo todo, nunca foram submetidas por seus praticantes a nada como os processos de "conselho de revisão do projeto" exemplificados pelo Concilio de Trento, ou o Vaticano n. Do mesmo modo que a música popular e a arte popular, essas religiões adquiriram suas propriedades estéticas e outras feições de projeto por meio de um sistema de influência menos acanhado. E, seja lá quais tenham sido, ou ainda sejam, essas influências, elas exibem profundas características e padrões em comum. Quão profundas? Profundas como os genes? Haverá "genes para" as semelhanças entre as religiões existentes no mundo? Ou serão os modelos que importam mais geográficos ou ecológicos que a genética? Os marcianos não precisam invocar os genes para explicar por que as pessoas, em climas equatoriais, não usam casacos de pele, ou por que as embarcações no mundo inteiro são tanto alongadas como simétricas em torno do eixo longo (fora as gôndolas venezianas e algumas jDutras poucas embarcações especializadas). Os marcianos, tendo dominado as linguagens do mundo, irão notar logo que existe uma enorme variedade na sofisticação dos construtores de barcos pelo mundo todo. Alguns deles conseguem dar explicações articuladas e precisas sobre exatamente por que insistem em que seus vasos sejam simétricos, explicações que qualquer arquiteto naval com doutorado em engenharia aplaudiria; mas outros têm uma resposta simples: construímos barcos assim porque esse é o jeito como sempre os construímos. Eles copiam os projetos que aprenderam de seus pais e avós, que fizeram o mesmo na época deles. Essa cópia mais ou menos desatenta, notarão os marcianos, é um paralelo tentador com o outro meio de transmissão que eles identificaram, os genes. Se construtores de barcos, cera- mistas ou cantores têm o hábito de copiar velhos projetos "religiosamente", eles podem preservar características do projeto durante centenas ou até milhares de anos. A cópia humana é mais ou menos variável, de modo que surgirão muitas vezes ligeiras variações nas cópias, e embora a maior parte dessas variações desapareça logo - já que são consideradas defeituosas, "de segunda" ou, de qualquer modo, pouco populares com os fregueses -, de vez em quando uma variação vai engendrar uma nova linhagem, em algum sentido uma melhora ou inovação para a qual existe um "nicho de mercado". E, olhe só, sem que ninguém se dê conta ou tenha a intenção, esse processo relativamente desatento durante longos períodos pode moldar projetos a um grau maravilhoso, otimizando-os para as condições locais.


Um projeto transmitido culturalmente pode, dessa maneira, ter uma base racional descomprometida, exatamente como um projeto transmitido geneticamente. Os fabricantes e os donos dos barcos não precisam entender mais os motivos por que suas embarcações são simétricas do que o urso que come frutas precisa conhecer seu papel na propagação de macieiras silvestres quando defeca na floresta. Aqui temos o projeto de um artefato humano - transmitido culturalmente, não geneticamente - sem um projetista humano, sem um autor ou inventor, ou mesmo um editor ou crítico conhecedor. 12 E o motivo pelo qual o processo consegue funcionar é exatamente o mesmo na cultura humana e na genética: replicação diferenciada. Quando são feitas cópias com variações, e algumas variações são, sob alguns aspectos, "melhores" (apenas melhores o suficiente para que novas cópias delas sejam feitas na leva seguinte), isso levará inexoravelmente ao lento processo de melhora de projeto que Darwin chamou de evolução por seleção natural. O que é copiado não tem de ser um gene. Pode ser qualquer coisa que satisfaça às exigências básicas do algoritmo de Darwin.'3 Esse conceito de replicadores culturais - itens que são copiados repetidas vezes - receberam um nome, por Richard Dawkins (1976), que propôs chamá-los de memes, termo que tem sido, recentemente, centro de controvérsias. Por ora, quero apontar para algo que não deveria ser controverso: a transmissão cultural pode às vezes imitar a transmissão genética, permitindo que variantes concorrentes sejam copiadas em velocidades diferentes, resultando em revisões graduais das características desses itens culturais, e essas revisões não têm autores deliberados, previdentes. Os exemplos mais bem pesquisados são as línguas naturais - francês, italiano, espanhol, português e umas poucas outras variantes -, todas descendentes do latim, preservando diversas das características básicas, ao mesmo tempo que revisam outras. Serão essas revisões adaptações? Ou seja, serão elas, em algum sentido, melhoras de seus antepassados latinos em seus ambientes? Há muito a se dizer sobre esse tema, e os pontos "óbvios" tendem a ser simplistas e errados, mas pelo menos uma coisa fica clara: uma vez que um desvio começa a emergir em uma localidade, em geral leva as pessoas do local a adotá-lo, se quiserem ser compreendidas. Quando estiver em Roma, faça como os romanos, ou seja desconsiderado ou não compreendido. Assim também acontece com as peculiaridades da pronúncia; idiomas de gíria e outras novidades "são fixados", como um geneticista diria, em uma linguagem local. E nada disso é genético. O que é copiado é o jeito de dizer alguma coisa, um comportamento de rotina. As mudanças graduais que transformaram o latim em francês, português e outras línguas descendentes não foram intencionais, planejadas, previstas, desejadas, ordenadas por ninguém. Em raras ocasiões, a pronúncia peculiar de alguma palavra por parte de alguma celebridade local pode "pegar", uma moda que acabou se transformando em um clichê e, então, em uma parte estabelecida da linguagem local - e, nesses' casos, podemos identificar plausivelmente o "Adão" e a "Eva" na raiz da árvore da família. Em ocasiões ainda mais raras, indivíduos podem decidir inventar uma palavra ou uma pronúncia e realmente conseguir cunhar alguma coisa que acaba entrando para a linguagem, mas, em geral, as mudanças que se acumulam não têm autores humanos manifestos, deliberados ou não. Arte popular, música popular, medicina popular e outros produtos desses processos populares muitas vezes são brilhantemente adaptados a objetivos bastante avançados e específicos, mas, não importa quão maravilhosos sejam esses frutos da evolução cultural,


devemos resistir à forte tentação de postular algum tipo de gênio popular mítico, ou consciências místicas compartilhadas para explicá-los. Esses projetos excelentes muitas vezes realmente devem algumas de suas feições a melhorias deliberadas impostas por indivíduos ao longo do processo, mas elas podem surgir exatamente pelo mesmo tipo de processo cego, mecânico, de triagem e duplicação, sem previsão, que produziu o projeto maravilhoso de organismos por seleção natural; e, nos dois casos, "o julgamento é rude, austero e sem imaginação". A Mãe Natureza é uma contadora ignorante que só quer saber a respeito do lucro imediato em termos de replicação diferenciada, não dando margem a candidatos promissores que não conseguem ficar à altura da competição contemporânea. De fato, o cantor desafinado que mal consegue cantar uma melodia e esquece quase todas as canções que ouve, mas, consegue se lembrar dessa única canção memorável, contribui tanto para o controle de qualidade do processo popular (pela replicação desse clássico em produção, à custa de todas as canções concorrentes) quanto o mais bem-dotado compositor popular. As palavras existem. De que elas são feitas? Ar sob pressão? Tinta? Algumas instâncias da palavra "gato" são feitas de tinta, e algumas são feitas por jatos de energia acústicas na atmosfera, e algumas são feitas de padrões de pontos brilhantes nas telas de computador, e algumas ocorrem silenciosamente em pensamentos, e o que elas têm em comum é apenas que contam como "o mesmo" (símbolos do mesmo tipo, como dizemos nós, filósofos) em um sistema de representações conhecido como linguagem. As palavras são itens tão familiares no nosso mundo mergulhado em linguagem que tendemos a pensar nelas como se elas fossem coisas tangíveis sem nenhum problema - tão reais como xícaras de chá ou gotas de chuva -, mas elas são, na verdade, bastante abstratas, até mais abstratas que vozes ou canções ou cortes de cabelo ou oportunidades (e do que são elas feitas?). O que são as palavras? Palavras são basicamente pacotes de informações de algum tipo, receitas para usar o aparato vocal e os ouvidos da pessoa (ou mãos e olhos) - e cérebros - de modos bastante específicos. Uma palavra é mais que um som ou um modo de escrever. Por exemplo, a palavra fast tem o mesmo som e o mesmo modo de escrever em inglês e em alemão, mas tem significados e papéis inteiramente diferentes nos dois idiomas. São duas palavras diferentes, compartilhando apenas algumas de suas propriedades superficiais. As palavras existem. Será que os memes existem? Sim, porque as palavras existem, e as palavras são memes que podem ser pronunciados. Outros memes são a mesma coisa pacotes de informação ou receitas para fazer outras coisas além de pronunciar -, comportamentos como apertar mãos ou fazer um gesto rude, em particular, ou tirar os sapatos quando se entra em casa, ou dobrar à direita, ou fazer seus barcos simétricos. Esses comportamentos podem ser descritos e ensinados explicitamente, mas não precisam sê-lo; as pessoas podem apenas imitar os comportamentos que vêem os outros fazerem. As variações de pronúncia se espalham, e do mesmo modo podem se espalhar variações em métodos culinários, lavar roupa, plantar roças. Há problemas irritantes para saber exatamente quais são os limites dos memes - será que usar um boné com a aba para trás é um meme ou dois (usar o boné e pô-lo ao contrário)? -, mas problemas semelhantes aparecem para limites de palavras - será que devemos contar "dar para trás" como duas ou três palavras? - e, de fato, para genes. As condições de contorno são claras para moléculas simples de DNA, ou suas partes constituintes, como os nucleotídeos ou códones (tripletos de nucleotídeos, como AGC ou AGA), mas os genes não se enquadram claramente nesses limites. Eles às vezes desmontam em diferentes pedaços separados, e os motivos pelos quais os


biólogos chamam as seqüências de partes de códones de um único gene, em vez de dois genes, são praticamente os mesmos pelos quais os lingüistas identificariam "aguce [minha, sua, a dele] fantasia" ou "leia [-me, a ele, a ela] o ato do motim" como expressões idiomáticas manifestas, e não apenas verbos compostos em expressões com diversas palavras. Essas partes atreladas levantam problemas para quem quiser contar genes - não insuperáveis, mas também nada óbvios. E o que é copiado e transferido tanto no caso dos memes como no dos genes é informação. Terei mais a dizer a respeito dos memes em capítulos posteriores, e já que os ultra-ansiosos entusiastas dos memes e igualmente os ultra-ansiosos delatores de memes transformaram o assunto em questão delicada para muita gente, eu preciso proteger uma versão (relativamente!) sóbria do conceito de alguns de seus amigos e inimigos. Nem todo mundo, contudo, precisa participar desse exercício de higiene conceituai, de modo que copiei minha introdução básica aos memes - "The new replicators' - da recente Encyclopedia of Evolution, em dois volumes, publicada pela Oxford University Press em 2002 - como Apêndice A no final do livro.' 4 Para os nossos objetivos, agora, a principal razão para levar a sério a perspectiva dos memes é que ela nos permite examinar a pergunta cui bono? para todas as características projetadas da religião, sem prejudicar a questão de se estamos falando de genética ou de evolução cultural, e se a base racional para uma característica projetada é descomprometida, ou, explicitamente, não constitui o motivo fundamental de alguém. Isso expande o espaço de teorias evolucionárias possíveis, abrindo caminho para que consideremos processos de níveis múltiplos, misturados, que nos levarão para longe das idéias simplistas dos "genes da religião", em um extremo, e "uma conspiração de padres", no outro, e permitindo que levemos em consideração relatos muito mais interessantes (e mais prováveis) de como e por que as religiões evoluem. A teoria da evolução não é o pônei do filme, que só sabe um truque, e quando os marcianos começarem a teorizar a respeito da religião terrena, terão muitas opções para explorar, que eu esquematizarei rapidamente, em versões extremas, só para dar uma idéia do terreno a ser explorado com maior cuidado nos capítulos seguintes. Teorias do gosto por açúcar: primeiro, pense na variedade de coisas que gostamos de ingerir, ou de inserir de qualquer outro jeito em nossos corpos: açúcar, gordura, álcool, cafeína, chocolate, nicotina, maconha e ópio, para começar. Em cada um desses casos, existe no corpo um sistema receptor desenvolvido, projetado para detectar substâncias (ou ingeridas ou construídas pelo próprio corpo, como as endorfinas ou análogos endógenos da morfina) que esses favoritos possuem em alta concentração. Ao longo do tempo, nossa espécie inteligente andou fazendo prospecções, experimentando quase tudo no ambiente, e, depois de milênios de tentativas e erros, conseguiu descobrir meios de juntar e concentrar as substâncias especiais de modo a podermos usá-las para estimular (demais) nossos sistemas inatos. Os marcianos poderão ficar pensando se há também sistemas evoluídos geneticamente nos nossos corpos, projetados para reagir a alguma coisa fornecida sob forma intensificada pela religião. Muitos já acharam que sim. Karl Marx pode ter tido mais razão do que se pensa quando chamou a religião de ópio do povo. Será que podemos ter um centro de Deus no nosso cérebro, junto com nosso gosto pelo doce? Ele serviria para quê? Qual seria o lucro? Como diz Richard Dawkins, "se os neurocientistas encontrarem um centro de Deus' no cérebro, os cientistas darwinianos como eu vão querer saber por que o centro de Deus evoluiu. Por que aqueles dos nossos antepassados que tinham uma tendência genética para o crescimento de um centro de Deus sobreviveram melhor que os rivais, que não o tinham?"


(2004b, p. 14). Se algum desses motivos evolutivos estiver correto, então aqueles dotados de um centro de Deus não apenas sobreviveram melhor que os que não têm; eles apresentam tendência a ter mais filhos. Mas devemos cuidadosamente pôr à parte o anacronismo envolvido em pensar a respeito desse sistema inato hipotético como um "centro de Deus", já que seu alvo original pode ter sido bem diferente da reação intensa que ele dispara hoje - não temos um centro inato de sorvete de chocolate no cérebro, afinal de contas, nem um centro de nicotina. Deus pode ser apenas o confeito mais recente e mais intenso que faz disparar os centros do quê em tantas pessoas. Qual o benefício adquirido por aqueles que satisfizeram os desejos de seus centros do quê? Pode ser até que não haja nem nunca tenha havido realmente nenhum alvo a ser obtido no mundo, mas apenas um alvo virtual imaginário, na verdade: o que deu a vantagem da aptidão foi o buscar e não o conseguir. De todo modo, se a necessidade, ou pelo menos o gosto, com relação a esse tesouro ainda não identificado se tornou uma parte geneticamente transmitida da natureza humana, o risco de mexer com ele é nosso. As teorias, nessa família, levantam algumas possibilidades interessantes. Tanto o açúcar como a sacarina disparam o nosso sistema de gosto por açúcar. Será que há substitutos para a religião que possam ser encontrados ou preparados por psicoengenheiros inteligentes? Ou - ainda mais interessante - serão os próprios religiosos um tipo de sacarina para o cérebro, menos pesado, debilitante ou intoxicante que o alvo original e potencialmente mais perigoso? Será a religião propriamente dita uma subespécie da medicina popular, na qual nós nos automedicamos para termos alívio, usando terapias esmerilhadas por milhares de anos de desenvolvimento por tentativa e erro? Haverá variação genética na sensibilidade religiosa, como a enorme variação genética recentemente descoberta entre os seres humanos no gosto e no olfato? Aqueles que detestam coentro têm um gene para um receptor olfativo que os que gostam de coentro não têm. Para nós, o coentro "tem gosto" mais de sabão. William James há cem anos especulou que ele não todo mundo - tinha uma necessidade bruta de religião: "Chame isso, se quiser, de meu germe místico. É um germe muito comum. Ele cria a turma dos crentes. Do mesmo modo que resiste no meu caso, resiste, na maior parte das vezes, a toda crítica puramente atéia" (carta para Leuba, citada na introdução de James, 1902, p. xxiv). O germe místico de James pode realmente ser um gene místico. Ou pode ser, exatamente como ele disse, um germe místico, alguma coisa que uma pessoa pega de outra, não "verticalmente" (por descendência dos pais), mas "horizontalmente", por infecção. Teoria do simbionte: pode ser que as religiões acabem sendo espécies de simbiontes culturais que conseguem vicejar pulando de um hospedeiro humano para outro. Eles podem ser mutualistas - melhorando a aptidão humana e até mesmo tornando a vida humana possível, do mesmo modo que as bactérias no nosso intestino. Ou comensais - neutros, nem bons para nós nem maus, mas companheiros de jornada. Ou podem ser parasitas: replicadores deletérios sem os quais ficaríamos melhor - pelo menos no que diz respeito a nossos interesses genéticos -, mas que são difíceis de ser eliminados, já que evoluíram tão bem para enfrentar nossas defesas e melhorar sua própria propagação. Podemos esperar que parasitas culturais, como parasitas microbianos, explorem quaisquer sistemas preexistentes que estejam à mão. O reflexo de espirrar, por exemplo, é em primeiro lugar uma adaptação para livrar as passagens nasais de


agentes irritantes estranhos, mas quando um micróbio provoca o espirro, em geral é o germe, e não quem espirra, o principal beneficiário, obtendo um lançamento de alta energia para uma vizinhança em que hospedeiros em potencial possam inalá-lo. O espalhamento de micróbios e o espalhamento de memes podem explorar mecanismos semelhantes, como impulsos irresistíveis de transmitir histórias ou outros itens de informação para os outros, fortificados por tradições que aumentam o comprimento, a intensidade e a freqüência dos encontros com outros, que poderão ser prováveis hospedeiros. Quando olhamos para a religião a partir dessa perspectiva, o cui bono? muda dramaticamente. Agora não é a nossa aptidão (como membros reprodutores da espécie Homo sapiens) que é supostamente melhorada pela religião, mas a aptidão dela (como um membro reprodutor - auto-replicante - do gênero simbionte Cultus religiosus). Ele poderá vicejar como mutua- lista porque beneficia o hospedeiro bem diretamente, ou poderá florescer como um parasita, embora oprima seus hospedeiros com uma doença viru- lenta que os deixa pior, fracos demais para combater a disseminação. E o aspecto principal a ser esclarecido desde o início é que não podemos dizer qual desses é mais provavelmente o ser verdadeiro sem fazer uma pesquisa cuidadosa, objetiva. É possível que sua religião pareça evidentemente benigna para você, e outras religiões podem muito bem parecer, para você, muito evidentemente tóxicas aos infectados por elas, mas as aparências enganam. Pode ser que a religião deles lhes esteja dando benefícios que você simplesmente ainda não entende, e talvez a sua religião o esteja envenenando de modos que você nunca suspeitou. Você realmente não coYisegue ver de dentro. É assim que os parasitas trabalham: silenciosamente, despercebidos, sem perturbar os hospedeiros mais que o absolutamente necessário. Se (algumas) religiões são parasitas evoluídos culturalmente, podemos esperar que tenham sido insidiosamente bem projetadas para esconder sua verdadeira natureza de seus hospedeiros, já que essa é uma adaptação que faria sua disseminação avançar. *** Essas duas famílias de teorias, a do gosto pelo açúcar e a do simbionte, não são exclusivas. Como já vimos com o exemplo do fermento excretor de álcool, há possibilidades simbióticas que combinam diversos desses fenômenos ao mesmo tempo. Pode ser que um gosto inicial seja explorado por simbiontes culturais que incluam tanto formas mutualistas como parasitas. Um simbionte relativamente benigno ou inócuo pode sofrer uma mutação sob determinadas condições para algo mais virulento e até mortal. Durante milênios as pessoas imaginaram que outras religiões podiam ser uma forma de doença ou mal-estar, e apóstatas muitas vezes olham para trás, para seus dias iniciais, como um período de aflição ao qual eles de algum modo sobreviveram. Mas as perspectivas evolutivas nos permitem ver que há tanto cenários positivos como negativos depois que começamos a encarar a religião como possível simbionte cultural. Há simbiontes amigáveis por toda parte. Seu corpo talvez seja composto de ioo trilhões de células (Hoo- per et al., 1998)! A maior parte desses trilhões de hóspedes microscópicos é inócua ou útil; só vale a pena se importar com uma minoria. Muitos deles, na verdade, são auxiliares valiosos que herdamos de nossas mães e seríamos bastante indefesos sem eles. Essas heranças não são genéticas. Alguns podem ser passados adiante via fluxo sangüíneo compartilhado entre mãe e feto, mas outros são apanhados por contato corporal ou proximidade. (Uma mãe substituta


que não faz contribuições genéticas ao feto implantado em seu útero, no entanto dá uma grande contribuição à microflora que o bebê levará pelo resto da vida.) Simbiontes culturais - memes - são passados adiante para os filhos do mesmo modo, por vias não genéticas. Falar a "língua materna", cantar, ser educado e muitas outras aptidões de "socialização" são transmitidos culturalmente de pais para filhos, e os recém-nascidos humanos privados dessas fontes de herança muitas vezes são profundamente prejudicados. Sabe-se bem que o elo entre pais e filhos é a maior via de transmissão da religião. Os filhos crescem falando a língua dos pais e, na maioria das vezes, identificando-se com a religião deles. A religião, não sendo genética, pode ser disseminada "horizontalmente" para os não-descendentes. Tais conversões desempenham um papel desprezível na maior parte das circunstâncias. Uma avaliação frágil desse aspecto levou, no passado, a alguns programas grosseiros e cruéis de "higiene". Se você acha que a religião é, apesar de tudo, uma característica maligna da cultura humana, um tipo de doença da infância com efeitos posteriores duradouros, a política de saúde pública a ser adotada para isso seria politicamente drástica, mas bem simples: vacina e isolamento. Não deixe os pais darem a seus próprios filhos uma educação religiosa! Essa política já foi tentada, em grande escala, na antiga União Soviética, com conseqüências calamitosas. A reação da religião na Rússia pós- URSS sugere que a religião tem papéis a desempenhar e recursos nem sonhados por essa visão simples. Uma possibilidade evolutiva de tipo inteiramente diferente é representada pelas teorias da seleção sexual. Talvez a religião seja como o ninho de determinados pássaros. Os machos dedicam tempo e esforço extraordinários para construir e decorar estruturas elaboradas, projetadas para impressionar a fêmea da espécie, que escolhe um parceiro apenas depois de avaliar cuidadosamente os ninhos concorrentes. Esse é um exemplo de seleção sexual fugitiva, subvariedade da seleção natural em que o papel central da função seletiva é desempenhado pela exigente fêmea, cujas preferências podem, ao longo de muitas gerações, se acumular em exigências altamente específicas e onerosas, como os caprichos das pavoas, que obrigam os pavões a criar caudas espetaculares - e especularmente caras e desajeitadas. (Ver Cronin, 1991, para um belo apanhado.) A coloração viva dos pássaros machos é o exemplo mais bem estudado de seleção sexual. Nesses casos, um viés inicial no capricho inato das fêmeas, como a preferência por azul com relação ao amarelo, adquire um feedback positivo em machos intensamente azuis; quanto mais azul, melhor. Na natureza, nada há que faça com que o amarelo seja melhor que o azul, ou vice-versa, a não ser o gosto reinante da fêmea da espécie, que exerce uma potente, embora arbitrária, pressão seletiva. Como poderia alguma coisa do tipo da seleção sexual fugitiva moldar as extravagâncias da religião? De muitas maneiras. Primeiro, poderia ter sido uma seleção sexual direta por parte das mulheres pelos traços psicológicos que reforçam a religião. Talvez elas preferissem homens que demonstrassem sensibilidade à música e às cerimônias, o que poderia então ter se intensificado para uma propensão ao entusiasmo elaborado. As mulheres que tinham essa preferência não precisariam saber por que a tinham; poderia ser apenas um capricho, um gosto pessoal cego que as impelia na escolha, mas se os homens que elas escolheram por acaso eram melhores provedores, homens de família mais fiéis, essas mães e pais tenderiam a criar mais filhos e netos do que outros, e tanto a sensibilidade à cerimônia como o gosto por aqueles propensos à cerimônia se espalhariam. Ou o mesmo capricho poderia ter uma vantagem seletiva apenas


porque mais mulheres partilhavam dele, de modo que os filhos aos quais faltasse a sensibilidade à cerimônia em moda eram desprezados pelas mulheres exigentes. (E se uma amostra influente de nossas antepassadas, sem nenhuma outra razão, tivesse um gosto por homens que pulassem para cima e para baixo na chuva, nós, caras, poderíamos agora ser incapazes de ficar quietos quando chovesse. As garotas poderiam ou não compartilhar nossas tendências de pular sob essas condições, mas elas definitivamente escolheriam aqueles de nós que pulassem - é essa a implicação da clássica hipótese da seleção sexual.) Certamente é conhecida a idéia de que o talento musical é o caminho real para os braços de uma mulher; ela provavelmente vende milhões de violões por ano. E pode muito bem haver algum fundamento nela. Isso poderia ser uma propensão geneticamente transmitida, com variação significante na população, mas deveríamos também considerar os análogos culturais da seleção sexual. As cerimônias do potlatch encontrada entre nativos norte- americanos do Noroeste eram impressionantes: demonstrações cerimoniais de generosidade conspícua, nas quais os indivíduos competem entre si para ver quem consegue dar mais de seus bens, algumas vezes ao ponto da ruína. Esses costumes trazem a marca de terem sido criados por uma escalada de feedback positivo como o que estabeleceu as caudas dos pavões ou os gigantescos chifres dos cervos irlandeses. Outros fenômenos sociais também exibem espirais inflacionárias de competição cara e essencialmente arbitrária: rabos-de-peixe nos carros dos anos 1950, modas de adolescentes e exibições de iluminação do lado de fora da casa durante o Natal estão entre os mais freqüentemente discutidos, mas há outros também. Durante mais de um milhão de anos, os nossos ancestrais fizeram lindíssimos "machadinhos acheulianos", implementos de pedra com o feitio de pêra, de tamanhos variados, amorosamente lixados e raramente exibindo qualquer sinal de uso. Fica claro que os nossos antepassados gastaram muito tempo e energia fazendo esses machadinhos, e o desenho mal se alterou ao longo das eras. Encontraram-se grandes esconderijos com centenas e até milhares desses machados (Mithen, 1996). O arqueólogo Thomas Wynne (1995) opinou que "seria difícil superenfatizar como esses machados são estranhos quando comparados aos produtos da cultura moderna". "Eles são biofatos", disse uma vez um arqueólogo, cunhando um termo novo e inspirando o divulgador de ciência Marek Kohn (1999) a apresentar uma hipótese espantosa. Geofatos são aquilo a que os geólogos chamam de pedras, que parecem artefatos, mas não são - são apenas o produto não intencional de algum processo geológico. Kohn propõe que esses machados podem não ser artefatos, mas biofatos, mais semelhantes a ninhos elaborados dos pássaros que ao arco-e-flecha de um caçador, publicidades evidentemente caras da superioridade masculina, plano que foi transmitido culturalmente, não geneticamente, em uma tradição que dominou a batalha entre os sexos durante um milhão de anos. Os hominóides que trabalharam tanto para participar dessa competição não precisavam entender mais das bases racionais do empreendimento que as aranhas macho que apanham um inseto e embrulham-no cuidadosamente em seda para dar como "presente nupcial" à aranha fêmea durante a corte. Esse argumento é altamente especulativo e controverso, mas ainda não há prova em contrário, e ele é útil para nos alertar sobre as possibilidades que, de outro modo, talvez nos escapem. Sejam quais forem as razões para isso, nossos antepassados esbanjaram tempo e trabalho em artefatos aparentemente não usados sempre que puderam, precedente que vale a pena lembrar quando nos maravilhamos com tumbas, templos e sacrifícios.


A interação entre a transmissão cultural e genética também deveria ser explorada. Leve em consideração o bem estudado caso da tolerância à lac- tose nos adultos, por exemplo. Muitos de nós adultos conseguimos beber e digerir leite cru sem dificuldade, mas inúmeros outros, que, é claro, não tinham dificuldade em consumir leite quando eram bebês, não conseguem mais digerir o leite depois da infância, uma vez que os corpos deles desligou o gene da fabricação da láctase, a enzima necessária, depois de desma- mados, o que é o padrão normal nos mamíferos. Quem não é tolerante à lactose? Para os geneticistas, existe um padrão claramente definido: a tolerância à lactose está concentrada em populações humanas descendentes de culturas que desenvolviam pecuária leiteira, enquanto a intolerância à lactose é comum naqueles cujos ancestrais nunca foram pastores de animais leiteiros, como os chineses e os japoneses.'5 A tolerância à lactose é transmitida geneticamente, mas o pastoralismo, a disposição de cuidar de rebanhos de animais da qual depende o traço genético, é transmitido culturalmente. Supostamente, ele poderia ser transmitido geneticamente, mas, pelo que sabemos, não foi. (Nos cachorros da raça "border collie", ao contrário dos filhos de cães pastores bascos, o instinto de pastoreio foi introduzido [Dennett, 2003c, d].) Além dessas, há as teorias do dinheiro, de acordo com as quais as religiões são artefatos culturais tanto como os sistemas monetários: sistemas desenvolvidos na comunidade que evoluíram, culturalmente, muitas vezes. Sua presença em todas as culturas é facilmente explicada e até justificada: é um Bom Estratagema que espera ser redescoberto vezes sem conta, um caso de evolução social convergente. Cui bono? Quem se beneficia? Aqui podemos considerar várias respostas: a. Todos na sociedade se beneficiam, porque a religião faz com que a vida na sociedade seja mais segura, harmoniosa, eficiente. Alguns se beneficiam mais que outros, mas ninguém pensaria em querer acabar com a coisa toda. b. A elite que controla o sistema se beneficia à custa dos outros. A religião é mais semelhante a um esquema de pirâmide do que a um sistema monetário; ela prospera oprimindo os mal informados e impotentes, enquanto seus beneficiários a transmitem de bom grado a seus herdeiros, genéticos ou culturais. c. As sociedades como um todo se beneficiam. Não importa se os indivíduos se beneficiam, a perpetuação de seus grupos sociais ou políticos é reforçada à custa de grupos rivais. Esta última hipótese, seleção grupai, é problemática, já que as condições sob as quais a seleção de grupos genuína pode existir são difíceis de especificar.' 6 Os cardumes de peixes e bandos de pássaros, por exemplo, certamente são fenômenos que envolvem grupos. Para ver como indivíduos (ou seus genes individuais) são beneficiados pela disposição a formar cardumes ou bandos é preciso conhecer a ecologia dos grupos, mas os grupos não são os beneficiários primários; os indivíduos que os compõem é que o são. Alguns fenômenos biológicos se disfarçam de seleção grupai, contudo, são mais bem tratados como exemplos de seleção em nível individual, que depende de determinados fenômenos ambientais (como formação de grupos), ou até como exemplos de fenômenos de seleção simbiôntica. Como já observamos, um meme simbionte precisa ser espalhado para novos hospedeiros, e, se conseguimos induzir as pessoas a formarem grupos (do jeito como o Toxoplasma gondii leva os ratos para as mandíbulas de gatos)


nos quais elas conseguem facilmente encontrar hospedeiros alternativos, a explicação não é nenhuma seleção grupai. Se os marcianos não conseguirem fazer com que nenhuma dessas teorias se ajuste aos fatos, eles deveriam considerar algum tipo de teoria default, que podemos chamar de teoria da pérola: a religião é simplesmente um lindo subproduto. É criada por um mecanismo, ou uma família de mecanismos, controlado geneticamente, com o objetivo (da Mãe Natureza, da evolução) de reagir a irritações ou intrusões de um tipo ou de outro. Esses mecanismos são desenhados pela evolução para determinados objetivos, mas então, um dia, aparece alguma coisa nova, ou uma nova convergência de fatores diferentes, alguma coisa que nunca foi encontrada antes, e, é claro, nunca foi prevista pela evolução, que por acaso dispara as atividades que geram esse espantoso artefato. De acordo com as teorias das pérolas, a religião não é para nada, do ponto de vista da biologia; ela não beneficia nenhum gene ou indivíduo, ou grupo, ou simbionte cultural. Mas, já que existe, ela pode ser um objet trouvé, alguma coisa que por acaso cativa a nós, agentes humanos, que temos uma capacidade indefinidamente crescente para nos deliciar com novidades e curiosidades. Uma pérola começa com um cisco insignificante de material estranho (ou, mais provavelmente, um parasita), e, depois que a ostra acrescentou cada maravilhosa camada, ela passa a ser algo de valor coincidente com integrantes de uma espécie que por acaso aprecia essas coisas, seja ou não essa cobiça avaliada do ponto de vista da aptidão biológica. Há outros padrões de valores que podem surgir, por motivos bons ou maus, sem justificativa aparente ou altamente articulada. Do mesmo modo que a ostra reage ao elemento irritante inicial, e depois incessantemente reage aos resultados de sua primeira reação, e depois aos resultados dessa reação, e assim por diante, os seres humanos podem ser incapazes de reagir a suas próprias reações, incorporando camadas cada vez mais elaboradas a uma produção que assume, então, formas e características inimagináveis em seu modesto início. O que explica a religião? Gosto por doces, simbionte, ninhos elaborados, dinheiro, pérola ou nenhuma das opções anteriores? A religião pode incluir fenômenos da cultura humana que não têm análogos remotos na evolução genética, mas, se isso for verdade, nós ainda temos de responder à pergunta cui bono?, porque é inegável que os fenômenos da religião são projetados em um grau muito significativo. Há poucos sinais de aleatorie- dade ou arbitrariedade, de modo que alguma replicação diferencial deve pagar pelo P &D responsável pelo projeto. Essas hipóteses não se desenvolvem todas na mesma direção, mas a verdade a respeito da religião pode muito bem ser um amálgama de diversas delas (e mais outras). Se for assim, não obteremos uma visão clara de por que a religião existe até que tenhamos distinguido claramente essas possibilidades e submetido cada uma delas a teste. Se você acha que já sabe qual a teoria certa, ou você é um grande cientista que vem escondendo do resto do mundo uma enorme montanha de pesquisa não publicada, ou então você está confundindo desejos fantasiosos com conhecimento. Talvez lhe pareça que estou, um tanto de propósito, desprezando a explicação óbvia de por que a sua religião existe e tem as características que apresenta: ela existe porque é a reação inevitável de seres humanos esclarecidos ao fato evidente de que Deus existe! Alguns acrescentariam: nos envolvemos nessas práticas religiosas porque Deus manda, ou porque nos é agradável agradar a Deus. Fim de papo. Mas isso não poderia ser o fim do papo. Seja lá qual for a sua religião, há mais pessoas no


mundo que não compartilham dela do que as que compartilham, e cabe a você - a nós todos, na verdade - explicar por que tantas pessoas entenderam errado e como aqueles que sabem (se houver algum) conseguiram entendê-la direito. Mesmo que seja óbvio para você, não é óbvio para todo mundo, ou até mesmo para a maioria. Se você chegou até este ponto, neste livro, é porque está disposto a indagar sobre as fontes e causas das outras religiões. Não seria hipocrisia alegar que sua própria religião está um tanto fora dos limites? Só para satisfazer à sua curiosidade intelectual, você poderia desejar ver como sua religião resiste ao tipo de escrutínio a que submeteremos as outras. Porém, você pode muito bem imaginar, será que a ciência pode ser verdadeiramente imparcial? Será que a ciência, na verdade, não passa de apenas outra religião? Ou, ao contrário, não seriam as perspectivas religiosas tão válidas quanto as científicas? Como podemos encontrar alguma base comum, objetiva, a partir da qual erguer nossas investigações? Essas questões preocupam muitos leitores, especialmente os estudiosos que investiram pesadamente nas respostas. Outros, contudo, ficam impacientes com elas, e nem um pouco preocupados. As questões são importantes - de fato, cruciais para meu projeto -, uma vez que põem em dúvida a própria possibilidade de levar adiante a pesquisa que estou empreendendo, mas elas podem ser adiadas até depois que o esboço da teoria esteja completo. Se você discorda, então, antes de começar a ler o capítulo 4, você deveria ir diretamente ao Apêndice B, "Mais algumas questões a respeito de ciência", que trata desses problemas, especificando com mais detalhes e defendendo o caminho pelo qual podemos trabalhar juntos para encontrar concordância mútua a respeito de como proceder e sobre o que é importante. Capítulo 3. Tudo o que valorizamos - açúcar, sexo, dinheiro, música, amor e religião -, valorizamos por algum motivo. Por trás disso, e diferentes das nossas razões, há razões evolutivas, bases racionais descomprometidas que foram endossadas pela seleção natural. *** Capítulo 4. Do mesmo modo que o cérebro de todos os animais, o cérebro humano evoluiu para lidar com problemas específicos dos ambientes nos quais deve operar. O ambiente social e lingüístico que co-evoluiu com o cérebro do homem dá aos seres humanos poderes que nenhuma outra espécie desfruta, mas também cria problemas, e as religiões populares, aparentemente, evoluíram para resolvê-los. A aparente extravagância das práticas religiosas pode ser explicada nos termos austeros da biologia da evolução.


PARTE 2 E VO LUÇ Ã O D A R E LI G I Ã O

4. AS RAÍZES DA RELIGIÃO 1. O NASCIMENTO DE RELIGIÕES Tudo é o que é porque ficou desse jeito. [D'Arcy Thompson] ENTRE OS HINDUS há uma divergência sobre se é Shiva ou Vishnu o Senhor maior, e muita gente foi morta por causa de sua crença nessa questão. "Os Lingapurãna prometem o céu de Shiva a quem mate ou arranque a língua de quem insulte Shiva" (Klostermaier, 1994). Entre os zulus, quando uma mulher grávida está prestes a dar à luz, algumas vezes a "serpente-espírito de uma mulher velha" faz uma aparição zangada (de acordo com os xamãs), indicando que um cabrito ou algum outro animal deve ser sacrificado para os ancestrais da tribo de modo que a criança nasça com saúde (Lawson e McCauley, 1990, p. 116). Os jivaro, do Equador, acreditam que você tem três almas, a alma verdadeira, que você tem desde o nascimento (esta volta ao seu lugar de nascimento depois da morte, e aí se transforma num demônio, que morre, por sua vez, virando uma mariposa gigante, que quando morre vira nevoeiro); a arutam, uma alma que você obtém por meio do jejum, banho em uma cachoeira e tomando um sumo alucinógeno (torna você invencível, mas tem o hábito infeliz de ir embora quando você está em dificuldade); e a musiak, a alma vingadora que foge da cabeça de uma vítima e mata seu assassino. E por isso que você tem de ficar fora do alcance da cabeça da sua vítima (Harris, 1993). Essas crenças e práticas curiosas não existiram "desde sempre" - não importa o que os devotos delas possam dizer. Mareei Gauchet começa seu livro sobre a história política da religião observando que, "tanto quanto sabemos, a religião tem, sem exceção, existido em todas as épocas e em todos os lugares" (1997, p. 22), mas essa é a visão restrita de um historiador, e esta simplesmente não é a verdade. Houve uma época antes de crenças e práticas religiosas terem ocorrido a qualquer pessoa. Houve uma época, afinal, antes de haver quaisquer crentes no planeta, antes de haver quaisquer crenças a respeito de qualquer coisa. Algumas crenças religiosas são verdadeiramente acidentais (segundo padrões históricos), e pode-se ler a respeito do advento de outras em arquivos de jornais. Como surgiram todas elas? Algumas vezes a resposta parece bastante evidente, em especial quando temos registros históricos confiáveis do passado recente. Quando os europeus, em seus magníficos navios a vela,


visitaram pela primeira vez as ilhas do Pacífico Sul, no século xvm, os melanésios que moravam nessas ilhas ficaram abismados pelos navios e pelos presentes notáveis que receberam do homem branco que morava neles: tigelas de aço e fardos de tecido e vidros através dos quais se podia ver, e outros carregamentos além de seus conhecimentos. Eles reagiram do jeito que provavelmente reagiríamos hoje se visitantes do espaço aparecessem, capazes de nos sobrepujar quanto quisessem e trazendo tecnologias com as quais nem sequer sonhamos: "Precisamos conseguir um pouco dessa carga e aprender como dominar os poderes mágicos desses visitantes". E nossos insignificantes esforços no sentido de usar o que sabíamos para tomar o controle da situação e restaurar nossa segurança e sentimento de poder provavelmente divertiriam esses alienígenas tecnologicamente superiores, tanto quanto nos divertimos com a conclusão dos melanésios de que os europeus deviam ser seus ancestrais disfarçados, que voltavam do reino dos mortos com incontáveis riquezas, semideuses a serem adorados. Quando os missionários luteranos chegaram a Papua Nova-Guiné, no final do século xix, para tentar converter os melanésios ao cristianismo, eles encontraram uma desconfiança obstinada: por que esses sovinas ancestrais estão disfarçados, recusando presentes e tentando nos fazer cantar hinos? Cultos à carga surgiram vezes sem conta no Pacífico. Durante a Segunda Guerra Mundial, as forças norte-americanas chegaram à ilha de Tana para recrutar milhares de homens que ajudassem a construir uma pista de pouso e uma base do exército na ilha Efate, vizinha. Quando os trabalhadores voltaram, com histórias de homens brancos e pretos que tinham posses além dos sonhos do povo de Tana, a sociedade inteira foi lançada em confusão. Os ilhéus, muitos dos quais tinham sido anteriormente convertidos ao cristianismo por missionários britânicos, pararam de ir à igreja e começaram a construir pistas de pouso, armazéns e mastros de rádio de bambu, na crença de que, se tinha funcionado para os norte-americanos, na Efate, funcionaria para eles em Tana. Modelos esculpidos de aviões, capacetes e rifles norteamericanos eram feitos de bambu e usados como ícones religiosos. Os ilhéus começaram a marchar em paradas com as letras USA pintadas, esculpidas ou tatuadas no peito e nas costas. John Frum surgiu como o nome do Messias deles, embora não haja registro de qualquer soldado norte-americano com esse nome. Quando o último G I norte-americano foi embora, no fim da guerra, os ilhéus previram o retorno de John Frum. O movimento continuou a florescer e, em 15 de fevereiro de 1957, uma bandeira norte-americana foi erguida na baía Enxofre para declarar a religião de John Frum. Nesse dia, todos os anos, é comemorado o Dia de John Frum. Eles acreditam que John Frum está esperando escondido no vulcão Yasur com seus guerreiros para entregar seus presentes ao povo de Tana. Durante as festividades, os anciãos marcham em uma imitação de exército, um tipo de treinamento militar misturado com danças tradicionais. Alguns levam imitações de rifles feitas de bambu e usam memorabilia do exército norteamericano, como bonés, camisetas e casacos. Eles acreditam que seus rituais anuais atrairão o deus John Frum do vulcão e entregarão sua carga de prosperidade a todos os ilhéus. [MotDoc, 2004] Ainda mais recentemente, por volta de 1960, na ilha Nova Britânia, em Papua Nova-Guiné, o culto Pomio Kivung foi encontrado. Ainda viceja. A doutrina Pomio Kivung afirma que a adesão às Dez Leis (uma versão modificada do


Decálogo [Dez Mandamentos]) e a execução fiel de um conjunto extenso de rituais, inclusive o pagamento de multas com o objetivo de ganhar absolvição, é essencial para o melhoramento moral e espiritual necessário para apressar o retorno dos ancestrais. O mais importante desses rituais tem como objetivo aplacar os ancestrais, que fazem o assim chamado "Governo da Aldeia". Encabeçado por Deus, o Governo da Aldeia inclui aqueles ancestrais a quem Deus perdoou e aperfeiçoou. Os líderes espirituais do Pomio Kivung têm sido o fundador, Koriam, seu principal assistente, Bernard, e o sucessor de Koriam, Kolman. Os seguidores consideraram todos os três já membros do Governo da Aldeia, e, portanto, divindades. Os três residiram fisicamente na terra (especificamente na região Pomio da província), mas as almas deles habitariam o tempo todo com os ancestrais. A condição decisiva para induzir o retorno dos ancestrais e inaugurar o "Período das Companhias" é alcançar suficiente purificação coletiva. O Período das Companhias será uma era de prosperidade sem precedentes, resultante da transferência de conhecimento e de uma infra-estrutura industrial para a produção de maravilhas tecnológicas e riqueza material igual à do mundo ocidental. [Lawson e McCauley, 2002, p. 90] Esses casos podem ser excepcionais. Sua religião, você pode acreditar, começou a existir quando a sua verdade fundamental foi revelada por Deus para alguém, que então a transmitiu para outros. Ela viceja hoje porque você e outros de sua fé sabem que ela é a verdade, e Deas o abençoou e o encorajou a manter a fé. E simples assim, para você. E por que existem todas as demais religiões? Se aquela gente toda está errada, por que o credo deles não desmorona tão prontamente como as falsas idéias a respeito da agropecuária ou as práticas de construção obsoletas? Elas irão desmoronar no tempo próprio, pode achar você, deixando de pé a única religião verdadeira, a sua religião. Certamente existe algum motivo para acreditar nisso. Além das poucas dúzias de religiões principais no mundo atual - aquelas cujos adeptos somam centenas ou milhares de milhões -, há milhares de religiões menos populosas reconhecidas. Duas ou três aparecem todos os dias, e em geral não duram mais que uma década.' Não há meios de saber quantas religiões diferentes vicejaram durante algum tempo durante os últimos io ou 50 ou 100 mil anos, mas podem ser até milhões, das quais todos os traços estão agora perdidos para sempre. Algumas religiões confirmaram histórias com datas de vários milênios atrás - mas só se formos generosos com nossos limites. A Igreja mórmon tem menos de duzentos anos de idade, como nos lembra seu nome oficial: a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O protestantismo tem menos de quinhentos anos, o islã tem menos de 1 500 anos, o cristianismo tem menos de 2 mil anos. O judaísmo não chega a ter duas vezes essa idade, e o judaísmo de hoje evoluiu significativamente a partir do judaísmo mais primitivo identificado, embora as variedades de judaísmo nada são se comparadas com os tumultuosos florescimentos das variações que o cristianismo gerou durante os dois últimos milênios. Do ponto de vista biológico, esses são períodos curtos de tempo. Nem sequer são longos quando comparados às idades de outras características da cultura humana. A escrita tem mais de 5 mil anos de idade, a agricultura tem mais de 10 mil anos, e a linguagem tem - quem sabe? talvez "apenas 40 mil anos, e pode ser dez ou vinte vezes mais velha que isso. Este é um tema de


pesquisa litigioso, e como há um acordo amplo de que as linguagens naturais inteiramente articuladas devem ter se desenvolvido a partir de algum tipo de protolinguagem (que pode ter evoluído ao longo de centenas de milhares de anos), não existe um consenso a respeito do que chegaria mesmo a ser uma data de nascimento da linguagem. Será que a linguagem é mais antiga que a religião? Não importa como datemos seu início, a linguagem é muito, muito mais velha que qualquer religião existente, ou até mesmo qualquer religião da qual tenhamos qualquer conhecimento histórico ou arqueológico. A prova arqueológica impressionante mais antiga da religião são os elaborados sítios de sepultamento Cro-Magnon na República Tcheca, e eles têm cerca de 25 mil anos de idade.2 E difícil dizer, mas alguma coisa semelhante a religião pode muito bem ter existido desde os tempos iniciais da linguagem, no entanto, ou até antes disso. Como eram os nossos ancestrais, antes de haver alguma coisa semelhante à religião? Eram eles bandos de chimpanzés? A respeito de que falavam, se é que falavam de alguma coisa, fora comida, predadores e do jogo do acasalamento? Do tempo? Fofocas? Qual seria o solo psicológico e sociológico no qual a religião criou raízes pela primeira vez? Podemos tentar trabalhar para trás, extrapolando, sob a orientação das nossas limitações biológicas fundamentais: cada passo inovador devia "se pagar" de algum jeito, no ambiente existente em que ocorreram pela primeira vez, independentemente de qual pudesse vir a ser seu papel em ambientes posteriores. O que, então, poderia explicar tanto a diversidade como as semelhanças nas idéias religiosas que observamos em todo o mundo? Será que as semelhanças se devem ao fato de que todas as idéias religiosas surgem de uma idéia ancestral comum, transmitida ao longo das gerações à medida que as pessoas se espalharam pelo globo, ou serão essas idéias redescobertas, de modo independente por quase todas as culturas porque elas são simplesmente a verdade, e evidentes o suficiente para ocorrerem às pessoas no tempo devido? É claro que essas são enormes simplificações ingênuas, mas pelo menos são tentativas de propor e responder a questões explícitas que muitas vezes não são examinadas por pessoas que perderam o interesse ao encontrarem um objetivo ou uma função para a religião que a elas parecem plausíveis: atendendo a uma "necessidade humana" suficientemente grandiosa para explicar o manifesto gasto de tempo e energia exigido pela religião. Os três objetivos preferidos, ou raisons detre, para a religião são: • confortar-nos

nos nossos sofrimentos e acalmar nosso medo da morte; • explicar coisas que não conseguimos explicar de outro modo; e • encorajar a cooperação em grupo diante de problemas e inimigos. Milhares de livros e artigos foram escritos defendendo esses argumentos, e tais idéias atraentes e familiares provavelmente estão em parte certas, mas se você adotar uma delas, ou até mesmo as três ao mesmo tempo, sucumbirá a uma confusão muitas vezes encontrada nas ciências humanas e sociais: satisfação prematura da curiosidade. Há tanta coisa ainda para se perguntar, tanto mais a ser compreendido. Por que essas idéias confortariam as pessoas? (E por que, exatamente, seriam elas consoladoras? Será que poderia haver idéias mais confortantes a ser encontradas?) Por que essas idéias seriam atraentes para pessoas como explicações de eventos desnorteantes? (E como poderiam elas ter surgido? Será que algum aspirante a protocientista encontrou alguma teoria sobrenatural e entu- siasticamente converteu seus vizinhos?) Como essas idéias de fato conseguem aumentar a cooperação em face da suspeita e da deserção? (E, mais


uma vez, como poderiam elas ter surgido? Será que algum sábio líder tribal inventou a religião para dar à sua tribo uma vantagem de trabalho em equipe sobre as tribos rivais?) Algumas pessoas supõem que não vamos conseguir ir além dessas simples especulações a respeito desses processos e resultados do passado remoto. Alguns insistem nisso, de fato, e a veemência deles trai o fato de que têm medo de estar errados. Estão. Hoje, graças ao progresso em diversas ciências, podemos aprimorar as questões e começar a respondê- las. Neste e nos próximos quatro capítulos, vou tentar narrara melhor versão atual da história que a ciência tem a contar a respeito de como as religiões apareceram e o que elas são. Não estou alegando, de modo algum, que isso seja o que a ciência já estabeleceu a respeito da religião. O ponto principal deste livro é insistir que ainda não sabemos, mas podemos descobrir as respostas a essas perguntas importantes se fizermos um esforço conjunto. Provavelmente algumas das feições da história que eu contar irão, em seu próprio tempo, se provar erradas. Talvez muitas delas sejam erradas. O propósito de tentar esquematizar a história inteira agora é pôr em cima da mesa alguma coisa que seja ao mesmo tempo estável e que valha a pena testar. Em geral é mais fácil consertar alguma coisa que tenha falhas do que reconstruir desde o início. Tentar tapar os buracos no nosso conhecimento nos obriga a formular perguntas que não tínhamos formulado antes, e isso põe as questões em uma perspectiva que nos capacita a formular ainda outras perguntas a serem propostas e respondidas. E isso em si mesmo pode solapar a proclamação derrotista de que esses mistérios estão além da compreensão humana. Muita gente pode insistir em que são questões impossíveis de ser respondidas. Vamos ver o que acontece quando desafiamos seu pessimismo defensivo e fazemos uma tentativa.

2. OS MATERIAIS BRUTOS DA RELIGIÃO Podemos concluir, portanto, que em todas as nações que adotaram o politeísmo, as primeiras idéias de religião surgiram não de uma contemplação das obras da natureza, mas de uma preocupação com respeito aos eventos da vida, e das incessantes esperanças e medos que acionam a mente humana. [David Hume, História natural da religião] Meus orientadores são os cientistas pioneiros que começaram a atacar essas questões com imaginação e disciplina. Um biólogo da evolução ou um psicólogo que não conhece bem mais de uma religião e tem uma (des)informação superficial a respeito de outras (como a maioria de nós), quase com certeza partirá de idiossincrasias e generalizará excessivamente ao formular perguntas. E também pouco provável que um historiador social, ou um antropólogo, que conhece bastante das crenças e práticas dos povos do mundo inteiro, mas é ingênuo com respeito à evolução, consiga formular bem as questões. Por sorte, alguns poucos pesquisadores bem informados recentemente começaram a juntar essas perspectivas distantes com resultados muito atraentes. Vale a pena ler seus livros e artigos até o fim, como espero convencê-los ao apresentar alguns aspectos. Armas, germes e aço, de Jared Diamond (1997), é uma esclarecedora pesquisa de efeitos


muito específicos da geografia e da biologia sobre o desenvolvimento inicial da agricultura em diferentes partes do mundo, em épocas diferentes. Quando os primeiros povos agrícolas domesticaram animais, eles naturalmente começaram a viver em estreita proximidade com eles, e isso enfatizou a probabilidade de os parasitas dos animais passarem para outra espécie. As doenças infecciosas mais sérias conhecidas pela humanidade, como a varíola e a influenza, derivam todas de animais domesticados, e nossos ancestrais fazendeiros passaram por epidemias horríveis, nas quais milhões de pessoas sucumbiram às versões iniciais dessas doenças, deixando apenas aqueles que tiveram a sorte de possuir alguma imunidade natural a ser propagada. Muitas gerações desse gargalo evo- lucionário garantiram que seus descendentes posteriores fossem relativamente imunes, ou tivessem uma alta tolerância, aos descendentes dessas virulentas cepas de parasitas. Quando tais descendentes, morando principalmente na Europa, desenvolveram a tecnologia para cruzar oceanos, eles trouxeram consigo seus germes, e foram os germes, mais que as armas e o aço, que varreram grandes frações das populações indígenas que encontraram. O papel da agricultura na disseminação de doenças infecciosas, e a relativa imunidade a elas, evoluída entre esses povos que viveram durante as devastações dos dias iniciais da atividade agrícola, podem ser estudados agora com alguma precisão, já que conseguimos extrapolar retrospectivamente, a partir do genoma de espécies existentes de plantas, animais e germes. Acidentes geográficos deram aos países europeus uma vantagem inicial que vai longe para explicar por que eles foram colonizadores, e não colonizados, nos séculos posteriores. O livro de Diamond, ganhador do Prêmio Pulitzer, é bem conhecido, como merece, mas não está sozinho. Há uma nova geração de pesquisadores interdisciplinares trabalhando para juntar a biologia com as provas coletadas por séculos de trabalho de historiadores, antropólogos e arqueólogos. Os antropólogos Pascal Boyer e Scott Atran fizeram extensivos trabalhos de campo na África e na Ásia, mas também são formados em teoria da evolução e psicologia cognitiva. Seus livros recentes, Religion Explained: The Evolutionary Origins of Religious Thought (Boyer, 2001) e In God We Trust (Atran, 2002), desenvolvem explicações amplamente harmoniosas dos principais passos pelo pântano que eles e outros têm adotado. E aí temos David Sloan Wilson, um biólogo da evolução que vem se dedicando, nos últimos anos, a analisar essas explorações sistemáticas do Arquivo da Área das Relações Humanas, um banco de dados de todas as culturas do mundo, compilada por antropólogos. Seu livro recente, Darwiris Cathedral: Evolution, Religion, and the Nature of Society (2002), apresenta o melhor argumento até agora para a hipótese de que a religião é um fenômeno humano planejado (pela evolução) para melhorar a cooperação dentro (não entre) de grupos humanos. De acordo com Wilson, a religião surgiu por um processo de seleção grwpal, um vinco controverso na teoria da evolução que é desconsiderada por muitos teóricos da evolução como, na melhor das hipóteses, um processo à margem, cujas condições para o sucesso têm pouca probabilidade de surgir e permanecer durante muito tempo. Existem profundas razões para ceticismo a respeito da seleção de grupos, em especial na nossa espécie, e exatamente porque a tese de Wilson - religião como reforçador de cooperação - é profundamente atraente para muita gente, precisamos nos segurar para evitar o pensamento fantasioso. Há um acordo bastante geral entre seus críticos de que ele (ainda) não conseguiu montar uma causa para sua tese radical de seleção de grupos, mas até uma teoria científica refutada de modo radical pode trazer grande contribuição ao constante acúmulo do


conhecimento científico se as provas arrecadadas a favor e contra ela tiverem sido escrupulosamente reunidas. (Para mais a esse respeito, ver o Apêndice B.) Aqui vou introduzir os principais pontos de concordância, além de reconhecer os pontos de contenda persistentes, deixando a maior parte dos detalhes controversos para as notas deste capítulo e para os Apêndices, nos quais aqueles que gostem disso possam (começar a) buscar as próprias considerações mais profundas sobre eles. Tanto Boyer como Atran apresentam o trabalho de uma comunidade de pesquisadores, pequena, mas crescente, em termos relativamente acessíveis.3 A tese central deles é que, para explicar o domínio que várias idéias e práticas religiosas têm sobre as pessoas, precisamos compreender a evolução da mente humana. Durante muitos séculos, a maioria dos filósofos e teólogos discutiu que a mente humana (ou alma) era algo imaterial, incorpóreo, que René Descartes chamou de res cogitans (coisa que pensa). Em algum sentido, ela era infinita, imortal e inteiramente inexplicável do ponto de vista material. Agora compreendemos que a mente não está, como Descartes confusamente pensou, em comunicação com o cérebro de algum modo milagroso; ela é o cérebro, ou, mais especificamente, um sistema ou organização dentro do cérebro que evoluiu bastante do mesmo jeito que nosso sistema imunológico ou sistema respiratório ou sistema digestivo. Como tantas outras maravilhas naturais, a mente humana é uma espécie de saco de mágicas, reunidas ao longo das eras pelos processos sem previsões da evolução por seleção natural. Levados pelas demandas de um mundo perigoso, ela tem um profundo viés favorável a observar as coisas mais importantes para o sucesso reprodutivo de nossos ancestrais.4 Algumas das características da nossa mente são dons que compartilhamos com criaturas muito mais simples, e outros são específicos de nossa linhagem, e portanto desenvolvidos muito mais recentemente. Essas características algumas vezes exageram, algumas vezes têm subprodutos curiosos, outras vezes estão maduras para exploração por outros replicado- res. De todos os efeitos peculiares gerados pelo saco de mágicas inteiro - nosso conjunto de "artifícios", como Boyer os chama -, alguns poucos por acaso interagem com outros em reforços mútuos, criando padrões observáveis em todas as culturas, com variações interessantes. Alguns desses padrões assemelham-se muito a religiões, ou pseudo-religiões, ou proto- religiões. Os produtos secundários dos diversos artifícios são o que Boyer chama de conceitos: Alguns conceitos por acaso se conectam com sistemas de inferência no cérebro, de tal forma que facilitam a lembrança e a comunicação. Alguns conceitos por acaso fazem disparar nosso programa emocional de modo especial. Alguns conceitos por acaso conectam nossa mente social. Alguns deles são representados de um jeito tal que logo se tornam plausíveis e dirigem o comportamento. Os que fazem tudo isso são os religiosos que de fato observamos nas sociedades humanas, [p. 50] Boyer enumera mais de meia dúzia de sistemas cognitivos distintos que alimentam efeitos nessa receita de religião - um agente detector, um gerente de memória, um detector de mentiras, um gerador de intuição moral, um gosto por histórias e contar histórias, diversos sistemas de alarme e o que eu chamo de postura intencional. Qualquer mente dotada desse conjunto particular de instrumentos e vieses de pensamento tende a abrigar mais cedo ou mais tarde alguma coisa semelhante a uma religião, alega ele. Atran e outros oferecem explicações amplamente


concordantes, e vale a pena explorar os detalhes, mas vou apenas esquematizar algo do quadro geral para que possamos ver o feitio todo da teoria, e não (ainda) avaliar para ver se é verdadeira. Serão necessárias décadas de pesquisa para garantir qualquer parte dessa teoria, mas neste momento podemos ter uma noção de quais sejam as possibilidades, e daí, de que perguntas deveríamos tentar responder.

3. COMO A NATUREZA LIDA COM O PROBLEMA DE OUTRAS MENTES Encontramos faces humanas na Lua, exércitos nas nuvens; e por uma propensão natural, se não corrigida pela experiência e reflexão, atribuímos malícia e boa vontade a todas as coisas, as que nos machucam ou as que nos agradam. [David Hume, História natural da religião] "Eu a vi aceitar o beijo dele!" "É verdade" "Oh, Recato!" "Foi estritamente mantido: Ele achou que eu dormia; pelo menos eu sabia Que ele achou que eu achava que ele achou que eu dormia " [Coventry Patmore, "The kiss"] A primeira coisa que temos de compreender a respeito das mentes humanas como moradias adequadas para a religião é o modo pelo qual nossa mente compreende outras mentes! Tudo o que se move precisa de alguma coisa parecida com uma mente, para mantê-lo fora de perigo e ajudá-lo a encontrar as coisas boas; mesmo um humilde marisco, que tende a permanecer em um lugar, tem uma das características básicas de uma mente - uma retirada para evitar perigos em seu "pé" de alimentação, que se recolhe dentro da concha quando alguma coisa alarmante é detectada. Qualquer vibração ou batida tem a capacidade de pô-la em ação, e provavelmente a maior parte delas é inócua, mas seguro morreu de velho é o lema do marisco (a base racional descomprometida do sistema de alarme do marisco). Animais mais móveis desenvolveram métodos mais discriminatórios; em particular, tendem a ter a capacidade de dividir o movimento detectado nas coisas banais (o farfalhar de folhas, o balanço das algas) e nas potencialmente vitais: o "movimento animado" (ou "movimento biológico") de outro agente, outro animal dotado de uma mente, que pode ser um predador, uma presa, um parceiro, um rival da mesma espécie. Isso faz sentido do ponto de vista econômico, é claro. Se você se assusta com cada movimento que detecta, jamais irá encontrar seu jantar, e se você não se assusta com movimentos perigosos, logo vai ser o jantar de outrem. Esse é outro Bom Estratagema, uma inovação evolutiva - como a própria visão, ou a fuga - que é tão útil a tantos modos de vida diferentes que se desenvolve vezes sem conta em muitas espécies diferentes. Algumas vezes esse Bom Estratagema pode ser uma coisa boa demais: então temos aquilo que Justin Barrett (2002) chama de dispositivo de detecção de agente hiperativo, ou HADD (hyperactive agent detection device). Esse exagero não é exclusivo dos seres humanos. Quando seu cachorro pula e rosna quando um pouco de neve cai dos beirais do telhado com um ruído que o desperta de seu cochilo, ele está


manifestando uma resposta orientada "falso positivo", disparada por seu HADD. Pesquisas recentes sobre inteligência animal (Whiten e Byrne, 1988, 1997; Hauser, 2000; Sterelny, 2003; ver também Dennett, 1996) mostraram que alguns mamíferos e aves, e talvez também algumas outras criaturas, levam essas discriminações de agentes para territórios mais sofisticados. Há provas de que eles não apenas distinguem entre os que provocam movimentos animados e o resto, mas fazem também distinções entre os tipos prováveis de movimentos a serem previstos por parte dos animados: ele irá me atacar ou fugir, irá para a esquerda ou direita, recuará se eu o ameaçar, já me vê, quer me comer ou preferiria ir atrás do meu vizinho? As mentes mais inteligentes desses animais descobriram o outro Bom Estratagema de adotar a postura intencional (Dennett, 1971, 1983, 1987): eles tratam algumas outras coisas no mundo como com • Crenças limitadas a respeito do mundo, • Desejos específicos, e • Bom senso suficiente para fazer o que for racional, dadas essas crenças e desejos. • Agentes

Uma vez que os animais começam a adotar a postura intencional, segue-se uma espécie de corrida armamentista, com manobras e contrama- nobras, movimentos enganadores e detecção inteligente de um movimento enganador, levando as mentes animais a maiores sutilezas e poder. Se você já tentou apanhar ou prender um animal silvestre, tem uma avaliação da esperteza que se desenvolveu. (Desenterrar mariscos, em contraste, é brincadeira de criança. Os mariscos não desenvolveram a postura intencional, embora eles possuam simples HADD disparados por pêlos.) A utilidade da postura intencional em descrever e predizer o comportamento animal é inegável, mas isso não significa que os animais propriamente ditos são instruídos a respeito do que estão fazendo. Quando um pássaro que faz um ninho baixo leva o predador para longe do ninho fazendo uma exibição para distração, ele faz uma imitação convincente de uma asa quebrada, criando a ilusão tentadora de um jantar fácil para o predador que está observando, mas não precisa entender esse ardil. Ele precisa entender as condições de sucesso, para melhor ajustar o comportamento no sentido de se adequar às variações encontradas, mas não precisa estar consciente dos motivos fundamentais para suas ações mais que o bebê cuco, quando empurra os ovos rivais para fora do ninho no intuito de maximizar o alimento que receberá de seus pais adotivos. Pesquisadores têm diversos outros termos para a postura intencional. Alguns a chamam de "teoria da mente" (Premack e Woodruff, 1978; Les- lie, 1987; Gopnik e Meltzoff, 1997), mas há problemas com essa formulação, de modo que vou ficar com uma terminologia mais neutra.5 Sempre que algum animal trata alguma coisa como um agente, com crenças e desejos (com conhecimentos e metas), eu digo que ele está adotando a postura intencional ou tratando aquela coisa como um sistema intencional. A postura intencional é uma perspectiva útil a ser adotada por um animal em um mundo hostil (Sterelny, 2003), já que há coisas ali que podem querê- lo, e podem existir crenças acerca de onde ele está e para onde está indo. Entre as espécies que desenvolveram a postura intencional há considerável variação na sofisticação. Ao deparar com um rival ameaçador, muitos animais podem tomar uma decisão sensível do ponto de vista da


informação, ou para recuar e para desafiar o outro, mas há pouca evidência de que eles tenham qualquer percepção do que estão fazendo e por quê. Existem provas (controversas) de que um chimpanzé pode acreditar que outro agente - digamos, um chimpanzé ou um ser humano - sabe que a comida está na caixa, em vez de estar na cesta. Isso é uma intencionalidade de segunda ordem (Dennett, 1983), envolvendo crenças a respeito de crenças (ou crenças a respeito de desejos, ou desejos a respeito de crenças etc.), mas não há provas (ainda) de que qualquer animal não humano possa querer que você acredite que ele acha que você está se escondendo atrás da árvore da esquerda, e não da direita (intencionalidade de terceira ordem). Mas até mesmo crianças na pré-escola gostam de jogos nos quais uma criança quer que outra finja não saber o que a primeira criança quer que a outra acredite (intencionalidade de quinta ordem): "Você vai ser o xerife e me perguntar para que lado foram os ladrões!'. Seja lá qual for a situação com animais não humanos - e esse é um tema de pesquisa debatido vigorosa e calorosamente6 -, não há dúvida alguma de que os seres humanos normais não têm de ser ensinados a respeito de conceber o mundo como contendo muitos agentes que, como eles próprios, têm crenças e desejos, além de crenças e desejos a respeito das crenças e desejos de outros, e crenças e desejos a respeito das crenças e desejos que outros têm a respeito deles, e daí por diante. Esse uso virtuoso da postura intencional aparece naturalmente e tem o efeito de saturar o ambiente humano com psicologia popular (Dennett, 1981). Em nossa experiência do mundo, ele está cheio não apenas de corpos humanos em movimento, mas de lembradores e esquecedores, pensadores e esperançosos, vilões e bobos, e quebradores de promessas e ameaçadores, aliados e inimigos. De fato, aqueles seres humanos que acham difícil perceber o mundo dessa perspectiva - os que sofrem de autismo são a categoria mais bem estudada - têm uma incapacidade mais significativa que os que nasceram cegos ou surdos (Baron-Cohen, 1995; Dunbar, 2004). Nosso impulso inato para adotar a postura intencional é tão forte que temos uma real dificuldade em desligá-lo quando ele deixa de ser apropriado. Quando alguém que amamos ou apenas conhecemos bastante morre, somos repentinamente confrontados com uma importante tarefa de atualização cognitiva: revisar todos os nossos hábitos de pensamento para se ajustarem a um mundo com um sistema intencional menos familiar. "Fico pensando se ela gostaria...", "Será que ela sabe que estou...", "Ah, olha, isso é uma coisa que ela sempre quis... . Uma porção considerável da dor e da confusão que sofremos quando nos confrontamos com a morte é causada pelas lembranças freqüentes, até obsessivas, sobre as quais nossos hábitos de postura intencional nos jogam como anúncios pop up chatos, mas muito, muito piores. Não podemos simplesmente apagar o arquivo no nosso banco de memória, e, além disso, não gostaríamos de fazê-lo. O que mantém em vigência muitos hábitos é o prazer que temos em nos gratificar com eles.7 E desse modo os prolongamos, atraídos por eles como a mariposa para uma lâmpada. Preservamos relíquias e outras lembranças das pessoas mortas, fazemos imagens delas, contamos histórias sobre elas para prolongar esses hábitos da mente, mesmo quando eles começam a desaparecer. Mas há um problema: um cadáver é uma fonte poderosa de doença, e desenvolvemos um forte mecanismo compensatório inato de repugnância para nos manter à distância. Atraídos pela saudade e distanciados pela repulsa, ficamos em um torvelinho quando nos confrontamos com o cadáver de um ente amado. Não é de espantar que essa crise desempenhe um papel tão central no


nascimento de religiões por toda parte. Como Boyer (2001, p. 203) acentua, alguma coisa tem de ser feita com um cadáver, e deve ser algo que satisfaça ou aquiete concorrentes impulsos inatos de poder ditatorial. O que parece ter se desenvolvido por toda parte, um Bom Estratagema para lidar com uma situação desesperadora, é uma cerimônia elaborada que retira o corpo perigoso do ambiente diário, por sepultamento ou incineração, combinado com a interpretação da ativação persistente dos hábitos de postura intencional partilhados por todos os que conheceram o morto como a presença invisível do agente como um espírito, uma espécie de pessoa virtual, criada pelos perturbados estados dalma dos sobreviventes, e quase tão vivido e robusto quanto uma pessoa viva. Que papel, se é que há algum, desempenha a linguagem nisso? Somos a única espécie de mamíferos que enterra os mortos porque somos a única espécie que pode falar a respeito do que compartilhamos, quando nos confrontamos com um defunto fresco? Será que as práticas fúnebres dos nean- dertalenses mostra que eles devem ter tido linguagem plenamente articulada? Essas estão entre as perguntas que devemos tentar responder. As linguagens do mundo são bem providas de verbos para as variedades básicas da manipulação crença-desejo: fingimos e mentimos, mas também blefamos, suspeitamos, e lisonjeamos, e nos gabamos, e tentamos, e dissuadimos, e mandamos, e proibimos, e desobedecemos, por exemplo. Foi o nosso virtuosismo como psicólogos naturais um pré-requisito para nossa capacidade lingüística, ou foi o contrário: será que o nosso uso da linguagem tornou possível nossos talentos psicológicos? Essa é uma outra área controversa da pesquisa corrente, e provavelmente a verdade é, como freqüentemente ocorre, que havia um processo de co-evolução, no qual cada talento alimentava o outro. Plausivelmente, o próprio ato da comunicação verbal exige algum grau de avaliação de intencionalidade de terceira ordem: eu tenho de querer que você reconheça que estou tentando informá-lo, fazer com que você acredite naquilo que estou dizendo (Grice, 1957, 1969; Dennett, 1978; mas ver também Sperber e Wilson, 1986). Mas, do mesmo jeito que o cuco implume, uma criança consegue avançar sem muitas pistas, sendo bem-sucedida em comunicação sem fazer nenhuma reflexão a respeito da estrutura subjacente a qualquer comunicação intencional, sem sequer reconhecer, de fato, que está se comunicando. Uma vez que começou a falar (com outras pessoas), você será banhado em palavras novas, algumas das quais mais ou menos entende; alguns desses objetos de percepção, como as palavras "fingir", "bravatear" e "tentar", ajudarão a chamar e focalizar a atenção para casos de fingimento, bravatas e tentativas, dando a você uma grande prática barata em psicologia popular. Ao mesmo tempo que alguns chimpanzés e alguns mamíferos podem também ser "psicólogos naturais", como Nicholas Humphrey (1978) os chamou, já que falta a eles a língua que jamais terão para comparar notas ou discutir casos com outros psicólogos naturais. A articulação da postura intencional na comunicação verbal não apenas fortalece a sensibilidade, a discriminação e a versatilidade dos psicólogos populares individuais, mas também amplia e complica os fenômenos de psicologia popular de que eles estão se encarregando. Uma raposa pode ser esperta, mas uma pessoa que consegue lisonjeá-lo declarando que você é esperto como uma raposa tem, de longe, muito mais truques na manga que a raposa. A linguagem nos dá o poder de nos lembrarmos dê coisas que não estão presentes para os nossos sentidos, repisar assuntos que de outro modo seriam elusivos, e isso trouxe para o foco


um mundo virtual de imaginação, povoado pelos agentes que tinham mais importância para nós, tanto os vivos como os ausentes e os mortos, que se foram, mas não estão esquecidos. Liberados da pressão corretiva de outros encontros concretos no mundo real, esses agentes virtuais ficaram livres para se desenvolver em nossas mentes, ampliando nossos anseios ou temores. A ausência faz com que o coração goste mais, ou - se o ausente era na realidade um tanto assustador - se sinta mais atemorizado. Isso ainda não leva nossos ancestrais à religião, mas os leva a ensaios persistentes - até obsessivos - e a elaborações de alguns de seus hábitos de pensamento. *** Capítulo 4. Ao extrapolar retrospectivamente para a pré-história humana, com a ajuda do pensamento biológico, podemos conjecturar como surgiram as religiões populares sem qualquer plano consciente ou deliberado, do mesmo modo como emergiram as línguas, por processos interdependentes de evolução biológica e cultural. Na raiz da crença humana em deuses está um instinto pronto a disparar: a disposição de atribuir agência - crenças e desejos e outros estados mentais - a qualquer coisa complicada que se mova. *** Capítulo 5. Os alarmes falsos gerados pela nossa exagerada disposição de procurar agentes onde quer que a ação esteja são os elementos irritantes em torno dos quais crescem as pérolas da religião. Só as variantes melhores, mais amigáveis à mente, se propagam, atendendo - ou parecendo atender - a profundas necessidades psicológicas e físicas, e, depois, essas variantes são ainda mais aprimoradas pela poda incessante dos processos de seleção.


5 . RELIGIÃO, OS PRIMEIROS DIAS 1. AGENTES DEMAIS: COMPETIÇÃO POR ESPAÇO PARA ENSAIO Posso repetir para mim mesma, de maneira lenta e tranqüila, uma lista de citações maravilhosas, geradas por mentes profundas - se eu conseguir me lembrar do raio de alguma delas. [Dorothy Parker] COISAS QUE parecem luxos úteis que dão a você uma vantagem em um mundo de ritmo acelerado acabam se tornando necessidades. Hoje, nos perguntamos como podíamos viver sem telefone, sem carteira de motorista, sem cartões de crédito, sem computadores. O que começou como um Bom Estratagema se tornou rapidamente uma necessidade prática da vida humana, à medida que nossos antepassados se tornaram cada vez mais sociais, cada vez mais lingüísticos. E, como já foi notado para casos mais simples do HADD, há a possibilidade de se ter algo de bom em demasia. A experiência freqüente da presença de mortos conhecidos como espíritos não é apenas o exagero da postura intencional nas vidas dos nossos ancestrais. A prática de atribuir intenções demais a coisas que se movem no ambiente é chamado de animismo, literalmente, dar uma alma (em latim, anima) ao que se move. As pessoas que amorosamente ficam adulando seus velhos automóveis, ou maldizem seus computadores estão exibindo vestígios fósseis de animismo. Provavelmente elas não levam esses atos verbais inteiramente a sério, mas estão apenas se comprazendo com algo que as faz se sentir melhor. O fato de que isso realmente tende a fazer com que se sintam melhor, e que aparentemente pessoas de diversas culturas se gratifiquem com isso, sugere quão profundamente está enraizado na biologia humana o impulso para tratar coisas especialmente coisas frustrantes - como agentes dotados de crenças e desejos. Mas se nossos acessos de animismo hoje tendem a ser irônicos e amenos, houve uma época em que o desejo do rio de correr para o mar e a intenção benigna ou malévola das nuvens de chuva eram tomados tão ao pé da letra e tão seriamente que podiam se tornar uma questão de vida ou morte - por exemplo, para aquelas pobres almas que eram sacrificadas para apaziguar os desejos insaciáveis do deus da chuva. Formas simples daquilo a que podemos chamar de animismo prático discutivelmente não são completos enganos, mas jeitos extremamente úteis de se manter informado a respeito das tendências de coisas planejadas, vivas ou manufaturadas. O jardineiro que tenta descobrir o que suas flores e legumes preferem, ou engana um galho de corniso trazendo- o para dentro de casa, onde está quente, fazendo-o pensar que é primavera para que ele abra os botões, não tem de exagerar e matutar sobre o que suas petúnias estão pensando. Até mesmo sistemas físicos não planejados podem às vezes ser utilmente descritos em termos intencionais ou animis- tas: o rio


não quer literalmente voltar para o oceano, mas a água busca seu próprio nível, como dizem, e o raio procura o melhor caminho para o solo. Não é de surpreender que a tentativa de explicar padrões observados no mundo tenha muitas vezes batido no animismo como uma boa - de fato antecipativa - aproximação de algum fenômeno subjacentè inimaginavelmente complexo. Mas algumas vezes a tática de buscar a perspectiva de uma postura intencional não dá em nada. Por mais que nossos ancestrais pudessem ter adorado prever o tempo descobrindo o que ele queria e que crenças o tempo teria a seu respeito, a coisa simplesmente não funcionou. No entanto, sem dúvida, muitas vezes pareceu funcionar. Algumas vezes, as danças da chuva eram recompensadas com chuva. Qual seria o efeito? Muitos anos atrás, o psicólogo behaviorista B. F. Skinner (1948) mostrou um impressionante efeito de "superstição em pombos que tinham sido postos em um esquema aleatório de reforço. De vez em quando, não importando o que o pombo estivesse fazendo, aparecia uma recompensa sob a forma de um clique e uma bolinha de ração. Logo os pombos postos nesse esquema aleatório estavam fazendo “danças elaboradas, sacudindo, torcendo e dobrando o pescoço”. É difícil não imaginar um monólogo no cérebro dessas aves: “Agora, vejamos: na última vez em que recebi a recompensa, eu tinha acabado de dar uma virada e dobrei o pescoço. Vamos tentar outra vez... Não, nada de recompensa. Talvez eu não tenha girado o suficiente... Nada. Talvez eu deva sacudir uma vez antes de girar e dobrar... SIMMM! Está bem, agora, o que foi que acabei de fazer?...”. É claro que você não precisa ter a linguagem para ser vulnerável a essas atraentes ilusões. O solilóquio dramatiza a dinâmica que produz o efeito, o qual não exige reflexão consciente, apenas reforço. Mas em uma espécie que realmente representa tanto ela própria como outros agentes a ela mesma, o efeito pode ser multiplicado. Se tal efeito comportamental espantosamente extravagante pode ser produzido em pombos, fazendo-os caminhar para uma armadilha de reforço aleatório, não fica difícil acreditar que efeitos semelhantes possam ser inculcados por algum acidente feliz nos nossos ancestrais, cujo amor intrínseco pela postura intencional tenderia a encorajá-los a acrescentar agentes invisíveis ou outros homúnculos para serem os titereiros por trás do fenômeno intrigante. Nuvens certamente não se parecem com agentes dotados de crenças e desejos, de modo que sem dúvida é natural supor que são na verdade coisas inertes e passivas manipuladas por agentes ocultos que parecem agentes: deuses da chuva, deuses da nuvem e coisas parecidas - apenas se pudéssemos vê-los. Essa idéia curiosamente paradoxal - alguma coisa invisível que parece com uma pessoa (tem cabeça, olhos, braços e pernas, talvez use um capacete especial) - é diferente de outras combinações incoerentes. Imagine a idéia de uma caixa que não tem espaço interior para pôr coisas dentro, ou um líquido que não é molhado. Para dizer cruamente, essas idéias não são interessantes o suficiente para serem enigmáticas durante muito tempo. Algumas coisas sem sentido prendem mais a atenção do que outras coisas sem sentido. Por quê? Apenas porque nossas lembranças não são indiferentes ao conteúdo daquilo que elas guardam. Achamos algumas coisas mais memoráveis que outras, e algumas coisas são tão interessantes que podem muito bem ser inesquecíveis, e ainda outras, como por exemplo a seqüência aleatória de palavras "voluntários treinador sem importar exercício no campo" (tiradas "aleatoriamente" por mim da primeira história de jornal em que pus as mãos agora mesmo), poderia ser lembrada por mais do que poucos segundos apenas se você as repetisse deliberadamente para si próprio dezenas de vezes ou inventasse alguma história interessante que de algum modo desse sentido a essas


palavras exatamente nessa ordem. Hoje em dia temos penosa consciência de que nossa atenção é um artigo limitado com muitos competidores concorrendo para uma porção maior do que aquela a que têm direito. Esse excesso de informações, com publicidade nos bombardeando de todos os lados, mais uma multidão de outras distrações, não é novo; acabamos de nos conscientizar disso, agora que há milhares de pessoas especializadas em projetar novos atratores e mantenedores de atenção. Nós - e de fato todas as espécies animadas - sempre tivemos de possuir filtros e vieses embutidos em nosso sistema nervoso para filtrar do espetáculo em curso as coisas que valem a pena, e esses filtros favorecem determinados tipos de exceção ou anomalia. Pascal Boyer (2001) chama essas exceções de contra-intuitivas, mas o significado que ele dá é, em um sentido técnico, um tanto restrito: as anomalias contra-intuitivas são especialmente dignas de atenção e memoráveis se elas violarem apenas uma ou duas das suposições do default básico a respeito de uma categoria fundamental como pessoas, plantas ou instrumentos. Elaborações que não estejam prontamente passíveis de ser classificadas porque são sem sentido demais não se sustentam na competição pela atenção, e elaborações que são leves demais simplesmente não são suficientemente interessantes. Um machado invisível sem cabo e com uma cabeça esférica não passa de uma bobagem irritante, um machado feito de queijo é um tanto palpitante (há artistas conceituais que ganham bem a vida apresentando essas brincadeiras), mas um machado que fala - ah, agora temos algo que prende a atenção! Junte essas duas idéias - um viés hiperativo em busca de um agente e uma fraqueza por determinadas espécies de combinados memoráveis -, e você obtém um tipo de geringonça geradora de ficção. Toda vez que acontece alguma coisa intrigante, dispara um tipo de susto curioso, uma reação "Quem está aí?", que começa a remoer "hipóteses' de alguma espécie: "Talvez seja Sam, talvez seja um lobo, talvez seja um galho caindo, talvez seja... uma árvore que anda - ei, talvez seja uma árvore que anda!". Podemos supor que esse processo quase nunca gera qualquer coisa dotada de poder de permanência - milhões ou milhões de pequenos arroubos de fantasia que quase instantaneamente se evaporam para além da lembrança, até que, um dia, por acaso, uma ocorra exatamente no momento certo, com exatamente o tipo certo de energia, para ser ensaiado não uma vez e não duas, mas muitas vezes. Uma linhagem de idéias - a linhagem das árvores que andam -- nasce. Cada vez que a mente do iniciador é levada a rever a curiosa idéia, não deliberadamente, mas apenas à toa, a idéia fica um pouco mais forte - no sentido de que tem um pouco mais de probabilidade de ocorrer na mente do iniciador outra vez. E outra vez. Tem um tanto de poder auto-replicativo, um poder um pouco mais auto-replicativo do que as outras fantasias com que ela compete pelo tempo no cérebro. Ainda não é um meme, um item que foge à mente individual e se espalha pela cultura humana, mas é um bom protomeme: uma idéia ligeiramente obsessiva - ou seja, muitas vezes recorrente, muitas vezes ensaiada - como um pequeno cavalo-de-pau. (A evolução trata de processos que quase nunca acontecem. Cada nascimento em cada linhagem é um evento potencial de formação de uma espécie, mas esse processo de formação de espécie quase nunca acontece, não chega a uma vez em um milhão de nascimentos. A mutação no DNA quase nunca acontece - menos de uma vez em um trilhão de cópias -, mas a evolução depende dela. Tomemos o conjunto de acidentes infre- qüentes - coisas que quase nunca


acontecem - e os classifiquemos em acidentes felizes, acidentes neutros e acidentes fatais; amplifiquemos os efeitos dos acidentes felizes - que acontecem automaticamente quando se tem replicação e competição -, e se tem a evolução.) Supostos memeticistas muitas vezes não se dão conta de que parte do ciclo da "vida" de um meme é a competição pari passu com outras idéias - não só outros memes, mas qualquer outra idéia a respeito da qual alguém possa pensar - dentro do cérebro hospedeiro. O ensaio, deliberado ou involuntário, é uma replicação. Podemos tentar tornar alguma coisa um meme - ou só uma lembrança - ensaiando-a deliberadamente (um número de telefone, uma regra a ser seguida); ou, se apenas deixarmos a "natureza seguir seu curso", as preferências inatas do nosso cérebro irão automaticamente remoer ensaios das coisas que lhes são agradáveis. Essa é, de fato, a fonte da memória episódica, nossa capacidade de lembrarmos de eventos na nossa vida. O que você tomou de café-da-manhã no dia do seu último aniversário? Provavelmente não vai se lembrar. O que usou no seu casamento? Provavelmente vai lembrar, porque você já repassou isso muitas vezes, antes, durante e depois do casamento. Ao contrário da memória do computador, que é um armazém com oportunidades iguais que consegue registrar prontamente seja lá o que for jogado dentro dele, a memória do cérebro humano é competitiva e contém preferências. Foi planejada por eras de evolução para lembrar alguns tipos de coisa mais prontamente que outras. Faz isso em parte por ensaio diferenciado, fixan- do-se no que é vital e tendendo a descartar o que for trivial depois de uma única passagem. Funciona bastante bem, ajustando-se em características que, por acaso, se alinharam com aquilo que tendeu a ser vital no passado. Bom conselho a um meme potencial: se você quiser muitos ensaios (repli- cações), tente parecer importantel A memória humana favorece combinações vitais, e também assim, presumivelmente, funciona a memória do cérebro de todos os outros animais. A memória animal provavelmente tem sido relativamente impermeável à fantasia, no entanto, por um motivo simples: por falta de linguagem, os cérebros animais não tiveram um meio de se inundar com uma explosão de combinações não encontradas no ambiente natural. Como um macaco ansioso vai elaborar a combinação contra-intuitiva de uma árvore que anda ou uma banana invisível - idéias que até cativariam a mente de um macaco, se pudessem ser apresentadas a ele? E sabemos nós que alguma coisa do tipo desse processo de geração de fantasia vem acontecendo na nossa espécie (e só na nossa espécie) há milhares de anos? Não, mas uma investigação maior é uma possibilidade séria. Usando apenas materiais que teriam sido organizados pela evolução para outros objetivos, essa hipótese poderia explicar a imaginação notavelmente fértil que deve, de algum modo, ser responsável pela coleção de criaturas e demônios míticos no mundo. Uma vez que os monstros propriamente ditos nunca existiram, eles tiveram de ser "inventados", ou deliberada ou inadvertidamente (do jeito que as linguagens foram inventadas). Eles são criações dispendiosas, e a P &D exigida para a tarefa teve de ser gerada por alguma coisa que pudesse se pagar. Deixei a hipótese bastante não especificada, por hora, porém formas mais restritas dela estão disponíveis e têm a grande vantagem de gerar conseqüências passíveis de ser testadas. Podemos começar varrendo a mitologia mundial em busca de modelos que seriam previstos por algumas versões da hipótese, mas não por outras. E não temos de nos restringir à espécie humana. Experiências ao longo das linhas de


provocação de superstição nos pombos de Skinner podem começar a desvendar as preferências e linhas de falhas nos mecanismos de memória dos símios, do mesmo modo como as experiências de Niko Tinbergen com gaivotas (1948, 1959) mostraram admiravelmente as preferências da percepção desses pássaros. A gaivota fêmea adulta tem uma mancha laranja no bico, a qual os pintinhos bicam instintivamente, para estimular a fêmea a regurgitar e alimentá-los. Tinbergen mostrou que os filhotes bicavam ainda mais prontamente os modelos exagerados da mancha laranja em papelão, nos chamados estímulos swpernormais. Pascal Boyer (2001) observa que, ao longo das eras, os seres humanos descobriram e exploraram seus próprios estímulos supernormais: Não existe sociedade humana sem algum tipo de tradição musical. Embora as tradições sejam muito diferentes, alguns princípios podem ser encontrados em qualquer lugar. Por exemplo, sons musicais são sempre mais próximos dos s o n s puros que do barulho [...]. Para exagerar um pouco, o que se tem com o s s o n s musicais são supervogais (as freqüências puras, ao contrário das misturadas, que definem as vogais comuns) e consoantes puras (produzidas pelos instrumentos rítmicos e o ataque da maior parte dos instrumentos). Essas propriedades tornam a música uma forma intensificada de experiência sonora, da qual o córtex recebe doses purificadas, e portanto intensas, daquilo que normalmente o torna ativo [...] Esse fenômeno não é exclusivo da música. Em toda parte os seres humanos enchem seus ambientes de artefatos que superestimulam seu córtex visual, por exemplo, fornecendo cor pura saturada em vez dos monótonos marrons e verdes de seus ambientes familiares [...]. Do mesmo modo, nosso sistema visual é sensível a simetrias nos objetos. A simetria bilateral, em particular, é muito importante; quando dois lados de um animal ou de uma pessoa parecem iguais, isso significa que eles estão de frente para você, uma faceta importante de interação com pessoas, mas também com presa e predadores. Mais uma vez, você não consegue encontrar um grupo humano em que as pessoas não produzam instrumentos visuais com tais arranjos simétricos, da técnica mais simples de maquiagem ou penteados a padrões têxteis e decoração de interiores, [pp. 132133] Por que outras espécies não têm arte? Mais uma vez, a resposta que se insinua - o que não significa que está provada, mas apenas que pode muito bem ser passível de ser provada - é que, faltando a linguagem, faltam a elas os instrumentos para criar combinações de estímulos substitutos, e, portanto, falta a eles a perspectiva que permite a exploração da análise combinatória de seus próprios sentidos.1 Através do uso de observação perspicaz e tentativas de acerto e erro, Tinbergen arquitetou, de modo inteligente, os estímulos supernormais que atraíram seus pássãros (e outros animais) para uma multidão de comportamentos bizarros. Não há dúvida de que às vezes os animais se deixam prender inadvertidamente ao descobrirem um estímulo supernatural na natureza e deixando que esse estímulo os afete, mas o que fariam eles depois? Repetir, se tiver sido bom, mas a geração da diversidade da qual depende a verdadeira exploração do projeto provavelmente não seria possível para eles. Para resumir a história até agora: as memoráveis ninfas, fadas, duendes e demônios que povoam as mitologias de todos os povos são filhos da imaginação de um hábito hiperativo de gerar atuação sempre que alguma coisa nos intrigue ou amedronte. Isso gera, sem pensar, uma vasta superpopulação de idéias atuantes, a maior parte das quais é boba demais para manter


nossa atenção por um instante; apenas algumas poucas bem planejadas conseguem atravessar o torneio de ensaios, modificando-se e melhorando à medida que avançam. As que conseguem ser partilhadas e lembradas são os vencedores "envenenados" de bilhões de competições por tempo de ensaio no cérebro de nossos ancestrais. E claro que essa não é uma idéia nova, apenas um esclarecimento e uma extensão de uma idéia que tem estado por aí há gerações. Como o próprio Darwin conjecturou: [...] a crença nas ações invisíveis ou espirituais [...] parece ser quase universal [...] não é difícil compreender como surgiu. Assim que as faculdades importantes da imaginação, espanto e curiosidade, junto com algum poder de raciocínio, ficaram parcialmente desenvolvidas, o homem teria naturalmente ansiado por entender o que estava acontecendo ao seu redor, e especulou vagamente sobre sua própria existência. [1886, p. 65] Até aqui tudo bem, mas o que explicamos foi superstição, não religião. Caçar elfos no jardim ou o bicho-papão embaixo de sua cama não é (ainda) ter uma religião. O que está faltando? Para começar, crença! Porque, embora Darwin mencione crença em entidades espirituais, ainda não fornecemos uma explicação que afirme nada assim tão forte. Nada ainda foi dito a respeito de ter de acreditar na idéia cavalo-de-pau que continua rodando pela mente; pode ser um palpite, uma idéia ou até uma pequena parte obsessivamente desacreditada de paranóia - ou apenas uma porção cativante de uma história. Ninguém jamais acreditou na Gata Borralheira ou no Cha- peuzinho Vermelho, mas suas histórias de fadas têm sido transmitidas bastante fielmente (com mutações) por muitas gerações. Diversas histórias de fadas compensam o fato de não serem histórias verdadeiras tendo uma moral, o que dá a elas um valor aparente - aos que contam e aos que escutam -, que compensa o fato de elas não serem informação sobre o vasto mundo. Outras claramente não apresentam uma moral - o que será que "Cachinhos Dourados" ensina a nossos filhos: não invadir a casa de estranhos? - e devem persistir no torneio de transmissão por motivos menos evidentes. Como é comum nas circunstâncias evolutivas, uma rampa gradual de estados de espírito intermediários está ali para ser atravessada, da dúvida atemorizante (será que realmente há bruxas más nas florestas?) e fascinação neutra (um tapete voador - imagine!) à aborrecida incerteza (unicórnios?... bem, eu nunca vi nenhum) e à robusta convicção (Satã é tão real quanto aquele cavalo ali). O fascínio é suficiente para dar força a ensaio e replicação. Quase todo mundo tem uma boa cópia forte da idéia de unicórnio, embora poucas pessoas acreditem neles; mas dificilmente alguém tem a idéia de um pudu, que tem a vantagem distinta de ser real (pode verificar). Há muito mais na religião do que um fascínio dotado de entidades contra-intuitivas do gênero de ações.

2. DEUS COMO PARTE INTERESSADA Por que os deuses acima de mim Que devem estar sabendo Têm-me em tão pouca conta Eles permitem que você parta...


[Cole Porter, "Every time we say goodbye"] A veneração dos ancestrais deve ser uma idéia atraente para aqueles que estão prestes a se tornar ancestrais. [Steven Pinker, Corno a mente funciona] Enquanto outras espécies fazem uso limitado de suas posturas intencionais - para prever os movimentos de predadores e presa, mais um pouco de intimidação e blefe -, nós, seres humanos, somos obcecados a respeito de nossos relacionamentos pessoais com os outros: nos preocupamos com nossa reputação, nossas promessas e obrigações não cumpridas, revisando nossos afetos e fidelidades. Ao contrário de outras espécies, que devem se preocupar o tempo todo com predadores sorrateiros e fontes de alimentos em declínio, nós, seres humanos, temos trocado em larga escala essas preocupações insistentes por outras. O preço que nossa espécie pagou pela segurança de viver em grandes grupos de comunicadores em interação com planos diferentes é ter de se manter a par desses planos complexos e mudar os relacionamentos. Em quem posso confiar? Quem confia em mim? Quem são meus rivais e quem são meus amigos? Com quem tenho dívidas e que dívidas devo esquecer ou cobrar? O mundo humano está repleto de informações estratégicas como essas, para usar o termo de Pascal Boyer, e o mais importante a esse respeito (como em um jogo de cartas) é isso: "Na interação social, supomos que o acesso de outras pessoas a informações estratégicas não é nem perfeito nem automático" (2001, p. 155). Será que ela sabe que eu sei que ela quer largar o marido? Será que alguém sabe que roubei um porco? Todos os enredos de todas as grandes sagas e tragédias e romances, mas também todas as comédias e livros de histórias em quadrinhos giram em torno de tensões e complicações que surgem porque os agentes no mundo não partilham todos da mesma informação estratégica. Como as pessoas lidam com toda essa complexidade?2 Algumas vezes, quando estão aprendendo um novo jogo de cartas, elas são aconselhadas por seus professores a abrir todas as cartas na mesa para que todos possam ver o que os outros têm. Esse é um excelente modo de ensinar as táticas do jogo. Dá uma muleta temporária para a imaginação - você consegue na realidade ver o que cada pessoa normalmente estaria escondendo, de modo que você consegue basear seu raciocínio nos fatos. Você não tem de se manter informado a respeito delas na sua cabeça, já que você pode apenas olhar para a mesa sempre que precisar de um lembrete. Isso ajuda a desenvolver a aptidão de visualizar onde as cartas deverão estar quando se encontrarem escondidas. O que funciona na mesa de cartas não pode ser feito na vida real. Não podemos obrigar as pessoas a divulgarem todos os seus segredos durante uma seção de prática de vida, mas podemos conseguir práticas "fora da linha" contando e escutando histórias narradas por agentes que vêem todas as cartas dos personagens fictícios ou históricos. E se realmente houver agentes que tenham acesso a todas as informações estratégicas! Que idéia! É bem fácil ver que esse ser - nos termos de Boyer, um "agente com acesso pleno" - seria uma elaboração para prender a atenção, mas, fora isso, para que serviria? Por que seria mais importante para as pessoas que qualquer outra fantasia? Bem, pode ajudar as pessoas a simplificarem o processo de pensar para descobrir o que fazer em seguida. Um levantamento das religiões do mundo mostra que quase sempre os agentes de acesso pleno acabam sendo os ancestrais, que se foram mas não estão esquecidos. Do mesmo modo que a lembrança do pai é polida e elaborada em muitas histórias, contadas repetidas vezes para filhos e os netos dos netos,


seu espírito pode adquirir muitas propriedades exóticas, mas no centro da imagem dele está seu virtuosismo no departamento de informação estratégica. Lembra como sua mãe e seu pai muitas vezes pareciam saber exatamente o que você estava pensando, exatamente que malfeito- ria você tentava esconder? Os ancestrais são assim, só que mais: você não pode se esconder deles, nem mesmo seus pensamentos secretos, e mais ninguém tampouco pode. Agora você pode reenquadrar sua perplexidade em relação ao que fazer em seguida: o que os meus ancestrais gostariam que eu fizesse na situação corrente? Você pode não conseguir dizer o que esses agentes, vividamente imaginados, querem que você faça, mas, seja lá o que for, é o que você deveria fazer. Por que, então, nós, seres humanos, focalizamos de modo tão persistente nossas fantasias nos nossos ancestrais? Nietzsche, Freud e muitos outros teóricos da cultura articularam conjecturas elaboradas sobre os motivos e as lembranças subliminares que surgiram das profundas lutas míticas no nosso passado humano, e pode haver muito ouro a ser refinado nesse veio de especulações, uma vez que o reexaminemos de olho em hipóteses testáveis da psicologia evolutiva. Mas, enquanto isso, podemos identificar com maior confiança a disposição mental básica que estabelece esse viés, já que ele é consideravelmente mais antigo que nossa espécie. Os mamíferos e as aves, ao contrário da maior parte dos outros animais, muitas vezes dedicam considerável atenção paterna a seus filhotes, mas existe uma ampla variação nisso: espécies nidífugas são aquelas nas quais os filhotes já caem no chão correndo, como se diz, enquanto as espécies nidícolas têm filhotes que exigem cuidado e treinamento prolongado dos pais. Esse período de treinamento propicia uma multidão de oportunidades para a transmissão de informações dos pais para os filhos, que contornam inteiramente os genes. Os biólogos são muitas vezes acusados de genecentrismo - achando que tudo na biologia é explicado pela ação dos genes. E alguns biólogos realmente exageram em seu fascínio pelos genes. Deveria ser lembrado a eles que a Mãe Natureza não é "genocêntrica"! Ou seja, o próprio processo da seleção natural não exige que todas as informações valiosas transcorram "pela linha germinal" (via genes). Ao contrário, se o fardo puder ser assumido de modo confiável por continuidades no mundo exterior, tudo bem para a Mãe Natureza - retira uma carga do genoma. Pense nas várias continuidades nas quais a seleção natural confia: as fornecidas pelas leis fundamentais da física (gravidade etc.) e as fornecidas pelas estabilidades de longo prazo no ambiente, a respeito das quais se pode dizer que "espera-se" que perseverem (salinidade no oceano, composição da atmosfera, cores de coisas que podem ser usadas como disparadores etc.). Dizer que a seleção natural confia nessas regularidades significa exatamente isto: elas geram mecanismos que são afinados para funcionar bem em ambientes que exibem essas regularidades. O desenho desses mecanismos pressupõe regularidades do mesmo modo que o projeto de uma sonda para pesquisar Marte pressupõe a gravidade do planeta, a solidez e a faixa de temperatura na sua superfície, e daí por diante. (Ela não é projetada para operar nos Everglades, por exemplo.) E aí há as regularidades que podem ser transmitidas de geração a geração por aprendizado social. Essas são um caso especial de regularidades ambientais confiáveis; elas assumem ainda mais importância por serem, elas mesmas, submetidas a seleção natural, direta e indiretamente. Duas supervias de informações foram melhoradas e aumentadas ao longo das eras. Os caminhos genéticos da informação têm, eles próprios, sido submetidos a aprimoramentos incessantes ao longo de bilhões de anos, com a otimização do desenho do cromossomo, a invenção e a melhoria das enzimas leitoras e das provas, e daí por diante, com o efeito de se ter


alcançado a transmissão de informações genéticas em alta fidelidade, em alta banda larga. O caminho instrucional de pai para filho também foi otimizado pelo processo recursivo ou iterativo de reforço. Como Avital e Jablonka (2000) observam, "a evolução da transmissão de mecanismos de transmissão é de importância central para a evolução do aprendizado e do comportamento" (p. 132). Entre as adaptações para melhorar a banda larga e a fidelidade da transmissão pai-filho está a impressão, na qual o recém-nascido tem uma necessidade instintiva, poderosa e já acionada de se aproximar e ficar próximo e dedicar-se à primeira coisa grande que se mova que ele veja. Nos mamíferos, o impulso para encontrar e se agarrar ao mamilo está embutido nos genes e tem o efeito colateral, oportunamente explorado por maiores adaptações, de manter o filhote onde eles possam observar a mãe enquanto não estão se alimentando. Os bebês humanos não são exceção às regras mamíferas. Enquanto isso, indo na direção contrária, os pais foram geneticamente projetados para cuidar dos bebês. Enquanto os filhotes das gaivo- tas são irresistivelmente atraídos para uma mancha laranja, os seres humanos são irresistivelmente cativados pelas proporções especiais de uma "carinha de bebê". Ela provoca a reação "Oh, ele não é uma gracinhal" no rabugento mais empedernido. Como Konrad Lorenz (1950) e outros argumentaram, a correlação entre a aparência facial de um recém-nascido e a reação de cuidados de um adulto não é acidental. Não que as carinhas de bebês sejam de algum modo intrinsicamente encantadoras (que diabo significaria isso?), mas que a evolução acertou nas proporções faciais como sinal para disparar reações nos pais, e isso foi aprimorado e intensificado ao longo das eras em muitas linhagens. Não amamos os bebês e os cachor- rinhos porque eles são uma gracinha. E o contrário: nós os achamos uma gracinha porque a evolução nos projetou para amar coisas que se parecem com eles. A correlação é tão forte que medidas de fósseis de dinossauros recém-nascidos têm sido usadas para apoiar a hipótese radical de que algumas espécies de dinossauros eram nidícolas (Hopson, 1977; Horner, 1984). A clássica análise de Stephen Jay Gould (1980) da gradual "juvenilização", ao longo dos anos, das feições do Mickey Mouse propiciam uma elegante demonstração do modo como a evolução cultural pode ser comparada à evolução genética, acertando naquilo que os seres humanos instintivamente preferem. Ainda mais potente que o viés nos adultos para reagir de modo paren- tal à prole com cara de bebê é o viés nessa prole para reagir com obediência à injunção parental - traço observável em filhotes de ursos, além de bebês humanos. A base racional descomprometida não está longe: está no interesse genético dos pais (mas não necessariamente em outros da mesma espécie!) de informar - não informar erroneamente - sua prole, de modo que é eficiente (e relativamente seguro) confiar nos próprios pais. (Stere- lny, 2003, tem observações especialmente perspicazes sobre as trocas entre confiança e suspeita na competição evolutiva da cognição.) Uma vez estabelecida a supervia de informações entre pai e filho pela evolução genética, ela está pronta para ser usada - ou abusada - por quaisquer agentes dotados de seus próprios planos, ou por quaisquer memes que por acaso tenham feições que se beneficiem das preferências introduzidas na via.3 Os próprios pais - ou alguém que seja difícil distinguir dos próprios pais - têm alguma coisa que se aproxima de um canal direto exclusivo para a aceitação, não tão potente quanto a sugestão


hipnótica, mas às vezes próxima a ela. Há muitos anos, minha filha de cinco anos, tentando imitar o desempenho da ginasta Nadia Comaneci nas barras horizontais, tropeçou na banqueta do piano e dolorosamente esmagou a ponta de dois dedos. Como eu acalmaria essa criança aterrorizada de modo a poder conduzi-la em segurança até a sala de emergência? A inspiração bateu: aproximei minha própria mão da mãozinha latejante dela e severamente ordenei: "Olhe, Andréa! Vou ensinar-lhe um segredo! Você pode empurrar a dor para a minha mão com a sua mente. Vamos, empurrei Empurre!". Ela tentou - e funcionou! Ela tinha "empurrado a dor" para a mão do papai. O alívio (e o fascínio) foram instantâneos. O efeito só durou poucos minutos, mas com algumas outras administrações de analgesia hipnótica improvisada pelo caminho, levei-a à sala de emergência onde ela pôde receber os outros tratamentos de que precisava. (Tente com seu filho, se surgir a ocasião. Você poderá ter a mesma sorte.) Eu estava explorando os instintos dela embora a base racional só me tivesse ocorrido anos depois, quando estava refletindo sobre o fato. (Isso levanta uma interessante questão empírica: será que minha tentativa de hipnose instantânea teria funcionado com tanta eficácia em outra criança de cinco anos que não tivesse imprimido em mim uma figura de autoridade? E se há impressão envolvida, que idade uma criança deverá ter para imprimir um pai com tanta eficácia? Nossa filha tinha três meses de idade quando a adotamos.) "A seleção natural constrói o cérebro das crianças com uma tendência a acreditar seja lá no que quer que seus pais e mais velhos da tribo digam a elas" (Dawkins, 2004a, p. 12). Não é de surpreender, então, que se encontrem líderes religiosos em qualquer parte do mundo martelando na autoridade extra dada a eles pela adoção do título "Pai" - mas isso é adiantar nossa história. Ainda estamos no ponto em que, alega Boyer, nossos ancestrais inconscientemente convocavam fantasias a respeito dos ancestrais deles para aliviar algumas de suas perplexidades a respeito do que fazer em seguida. Uma característica importante da hipótese de Boyer é que esses imaginados agentes com acesso pleno em geral não são considerados oniscientes; se você perder sua faca, não supõe automaticamente que eles saberão onde ela está, a não ser que alguém a tenha roubado de você, ou que você a tenha deixado cair em um lugar incriminador durante algum encontro - ou seja, a não ser que seja uma informação estratégica. E os ancestrais conhecem todas as informações estratégicas porque estão interessados nelas. O que você e seus parentes fazem é de interesse deles pelo mesmo motivo que é de interesse de seus pais, e pelo mesmo motivo que é de seu interesse o que seus filhos fazem e como eles são percebidos na comunidade. A sugestão de Boyer é que a idéia de onisciência - um deus que sabe absolutamente tudo a respeito de tudo, incluindo onde estão as chaves do seu carro, o maior número primo menor que um quadrilhão, e o número de grãos de areia naquela praia - consiste em um vinco posterior, um pouco de sofisticação ou arrumação intelectual adotada muito mais recentemente pelos teólogos. Existe alguma prova experimental em apoio a essa hipótese. As pessoas aprendem desde crianças, e portanto vão admitir, que Deus sabe tudo, mas elas não confiam nisso ao raciocinar sem constrangimento a respeito de Deus. A idéia que está na raiz, a que as pessoas realmente usam quando não estão preocupadas com "correção teológica" (Barrett, 2000), é que os ancestrais ou os deuses sabem as coisas mais importantes: os anseios e planos secretos, e as preocupações e os sentimentos de culpa. Deus sabe onde todos os corpos estão enterrados, como se diz.


3 . FAZENDO COM QUE OS DEUSES FALEM CONOSCO Não há nada mais difícil, , portanto mais precioso, do que ser capaz de decidir. [Napoleão Bonaparte] Mas de que nos servem os conhecimentos dos deuses se não os conseguimos obter deles? Como podemos nos comunicar com os deuses? Nossos ancestrais (enquanto estavam vivos!) tropeçaram em uma solução extremamente engenhosa: adivinhação.*Nós todos sabemos como é difícil tomar as principais decisões na vida: devo permanecer firme ou admitir minha transgressão, devo mudar ou continuar na minha posição atual, devo ir para a guerra ou não, devo seguir meu coração ou minha cabeça? Ainda não descobrimos nenhum jeito sistemático satisfatório de decidir sobre essas perguntas. Qualquer coisa que possa aliviar o fardo de calcular como resolver essas questões difíceis tende a ser uma idéia atraente. Pense em jogar uma moeda para o alto, por exemplo. Por que fazemos isso? Para evitar a obrigação de encontrar uma razão para escolher A em vez de B. Gostamos de ter razões para o que fazemos, mas algumas vezes não conseguimos pensar em nada suficientemente persuasivo, e sabemos que temos de decidir logo, então elaboramos um pequeno artifício, uma coisa externa que tomará a decisão em nosso lugar. Mas se a decisão envolver algo grave, como ir ou não para a guerra, se casar, confessar, cara ou coroa seria, como direi, muito irreverente. Nesse caso, a escolha sem um bom motivo seria obviamente um sinal de incompetência. Além disso, se a decisão for realmente importante, depois de a moeda ter caído você terá de enfrentar a escolha seguinte: vai honrar seu compromisso recém-adotado, vai cumprir o resultado do cara ou coroa, ou deve reconsiderar? Diante dessas dificuldades, reconhecemos a necessidade de algum tipo de tratamento mais forte que jogar uma moeda. Alguma coisa mais cerimoniosa, mais impressionante, como a adivinhação, que não apenas nos diz o que fazer, mas dá um motivo (se você espiar do modo certo e usar sua imaginação). Os estudiosos revelaram uma profusão comicamente variegada de modos antigos de delegar decisões importantes a exterioridades incontroláveis. Em vez de jogar uma moeda para o alto, você pode jogar flechas (belomancia), bastões (rabdo- mancia), ossos ou cartas (sortilégios), e, em vez de olhar para folhas de chá (tasseografia), você pode examinar o fígado de animais sacrificados (hepa- toscopia) ou outras entranhas (haruspicia), ou cera derretida despejada em água (ceroscopia). Ainda há a moleosofia (adivinhação por manchas), miomancia (adivinhação pelo comportamento de roedores), nefomancia (adivinhação pelas nuvens) e, é claro, os velhos favoritos, numerologia e astrologia, entre dezenas de outros.4 Um dos argumentos mais plausíveis elaborado por Julian Jaynes em seu livro brilhante, mas evasivo e pouco confiável, The Origins of Cons- ciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind (1976), é o de que essa tumultuosa explosão de diferentes maneiras de jogar a responsabilidade para um dispositivo de decisão externo foi uma manifestação das dificuldades crescentes do ser humano com o autocontrole, à medida que os grupos humanos ficaram maiores e mais complicados (capítulo 4, "A change of mind in Mesopotâmia", pp. 223-254). E como Palmer e Steadman observaram mais recentemente, "o efeito mais importante da adivinhação é que ela reduz a responsabilidade na tomada de decisão, e portanto reduz a acri- mônia que possa resultar de más decisões" (2004, p. 145). Os fqndamentos generalizados são bastante evidentes:


se você vai transferir a responsabilidade, transfira-a para algo que não possa fugir à responsabilidade, por sua vez, e que possa ser considerado responsável se as coisas não derem certo. E como sempre acontece com as adaptações, você não tem de compreender os motivos fundamentais para se beneficiar deles. A adivinhação - o que Jaynes chama de "métodos exopsíquicos de pensamento ou tomada de decisão" (p. 245) - poderia ter crescido em popularidade simplesmente porque aqueles que por acaso a faziam gostaram dos resultados o suficiente para repeti-la, e, outra vez, os outros começaram a copiá-la, e ela se tornou a coisa a ser feita mesmo que ninguém soubesse realmente por quê. Jaynes notou (p. 240) que a própria idéia de aleatoriedade e sorte tem uma origem bastante recente: nos tempos iniciais, não havia meios nem mesmo para suspeitar que alguns eventos fossem inteiramente aleatórios; a suposição era de que tudo tinha um significado, só se precisava saber qual. A opção deliberada por uma opção sem sentido apenas para se fazer uma escolha qualquer para poder seguir com a vida provavelmente é uma sofisticação muito posterior, embora seja o motivo fundamental para explicar por que ela é mesmo útil às pessoas. Na ausência dessa sofisticação, era importante acreditar que alguém, em algum lugar, que sabe o que é certo, está lhe dizendo. Como a pluma mágica do Dumbo, algumas muletas para a alma funcionam apenas se você acreditar que elas funcionam.5 Mas o que significa dizer que tal método funciona? Apenas que ele realmente ajuda as pessoas a pensarem a respeito de seus planejamentos estratégicos e então adotar decisões a tempo - mesmo que as decisões em si não tenham qualquer informação melhor vinda do processo. Isso não é pouco. De fato, pode ser um tremendo empurrão sob diversas circunstâncias. Suponha que pessoas enfrentando problemas difíceis em geral tenham todas as informações de que precisam para tomar decisões bem fundamentadas, mas não se dão conta de que dispõem delas, ou simplesmente não confiam em seu julgamento como deveriam. Tudo o que precisam para sair fortalecidos da confusão e partir para a ação resoluta é... uma pequena ajuda por parte de seus amigos, seus ancestrais imaginados que pairam invisíveis por perto e dizem o que fazer. (Esse trunfo psicológico seria prejudicado pelos céticos que desdenham a integridade da adivinhação, é claro, e talvez esse reconhecimento - mesmo quando subliminar e inarticulado - tenha sempre motivado hostilidade em relação aos céticos. Psiu. Não quebre o encanto; essas pessoas precisam dessa muleta para que funcionem com eficiência.) Mesmo que as pessoas em geral não sejam capazes de tomar boas decisões baseadas nas informações de que dispõem, pode parecer a elas que a adivinhação as ajuda a pensar a respeito das situações difíceis, e isso pode propiciar a motivação para se aterem à prática. Por motivos que não conseguem avaliar, a adivinhação fornece alívio e faz com que se sintam melhor - assim como o tabaco. E observe que nada disso é transmissão genética. Estamos falando da prática da adivinhação transmitida culturalmente, e não de um instinto. Não temos de estabelecer agora a questão empírica de saber se os memes da adivinhação são memes mutualistas, que realmente fortalecem a aptidão de seus hospedeiros, ou memes parasitas, que é melhor evitar. Seria bom obter uma resposta baseada em provas para essa questão, mas, por hora, estou interessado na pergunta. Note também que isso deixa inteiramente aberta a possibilidade de que a adivinhação (sob circunstâncias específicas, a serem descobertas e confirmadas) seja um meme mutualista, porque é ela verdadeira - porque existe um Deus que sabe o que está dentro do coração de todos


e que em ocasiões especiais diz às pessoas o que elas devem fazer. Afinal, o motivo pelo qual a água é considerada essencial à vida, em todas as culturas humanas, é que ela é essencial à vida. Por agora, no entanto, insisto apenas que a adivinhação, que aparece em todos os lugares, em todas as culturas humanas (inclusive, é claro, entre os que buscam os astrólogos e numerólogos que ainda habitam nossa cultura ocidental high-tech), poderia ser entendida como fenômeno natural, que paga a si próprio na moeda biológica da replicação, sendo ou não fonte real de informação confiável, estratégica ou não.

4 . XAMÃS COMO HIPNOTIZADORES Qualquer pessoa que vá a um psiquiatra deveria ter a cabeça examinada. [Samuel Goldwyn] A adivinhação é um gênero de ritual encontrado no mundo todo; os rituais de cura conduzidos por xamãs locais (ou "curandeiros") são outro. Como apareceu? Em Armas, germes e aço (1997), Jared Diamond mostrou que, em uma primeira aproximação, em todas as culturas de todos os continentes, a pesquisa humana ao longo dos séculos descobriu todas as plantas e os animais locais comestíveis, incluindo muitas que exigem preparação elaborada para torná-las não venenosas. Além disso, domesticaram as espécies passíveis de domesticação. Tivemos o tempo, a inteligência e a curiosidade para realizar uma pesquisa praticamente exaustiva das possibilidades - algo que agora pode ser provado por métodos de alta tecnologia de análise genética de espécies domesticadas e seus parentes silvestres mais próximos. E razoável supor, portanto, que deveríamos também ter feito um excelente trabalho em descobrir a maior parte, se não todas, as ervas medicinais localmente disponíveis, mesmo aquelas que exigem refinamento e preparação elaborados. Esses procedimentos de pesquisa se mostraram tão poderosos e confiáveis que as companhias farmacêuticas têm, nos últimos anos, investido em pesquisa antropológica, adquirindo energicamente - por roubo, em alguns casos - os frutos dessa P &D "primitiva feita pelas populações indígenas em todas as florestas tropicais e ilhas remotas. Tal apropriação ávida dos "direitos de propriedade intelectual e "segredos comerciais' de povos economicamente ingênuos é, não importa quão deplorável, um excelente exemplo do raciocínio cui bono? da biologia evolutiva. P &D é cara e demorada; qualquer informação que tenha resistido à prova do tempo, replicando-se ao longo das eras, deve ter se pagado de algum modo, então, provavelmente, vale a pena ser plagiado! (Cui bono? Pode se ter pago ajudando uma longa série de charlatões a enganarem seus clientes, de modo que não devemos presumir que o pagamento fosse um benefício para todas as partes.) Não intriga nem surpreende que as pessoas tomem ervas para aliviar seus sintomas ou até curar suas doenças, mas para quê todos os rituais que acompanham (e às vezes horrorizam) esse ato? O antropólogo James McClenon (2002) examinou os modelos nos rituais dos curandeiros pelo mundo todo e acha que eles apoiam fortemente a hipótese de que o que as pessoas descobriram, repetidamente, é o efeito placebo - mais especificamente, o poder do hipnotismo, muitas vezes ajudado pela ingestão ou inalação de alucinógenos ou outras substâncias que


alteram o estado mental (ver também Shumaker, 1990). Os rituais de cura, argumenta McClenon, são onipresentes porque eles realmente funcionam - não com perfeição, é claro, mas muito melhor que o sistema médico ocidental em geral está disposto a admitir. De fato, há uma convergência: as doenças que as pessoas vão - e pagam - ao xamã para aliviar são aquelas particularmente hospitaleiras ao tratamento com efeito placebo: estresse psicológico e os sintomas dele decorrente, além da provação do parto, para mencionar talvez o caso mais interessante. O parto, no Homo sapiens, é um evento particularmente estressan- te, e é claro que o dia em que ele irá ocorrer- ao contrário dos traumas de acidentes e de hostilidade - pode ser previsto com bastante exatidão, fazendo do parto uma ocasião ideal para cerimônias elaboradas que exigem um tempo de preparação considerável. Como as taxas de mortalidade infantil e materna no parto eram presumivelmente tão altas nos dias pré- tecnológicos quanto o são agora em culturas não-tecnológicas, houve bastante espaço para uma forte pressão seletiva em favor da coevolução de qualquer tratamento (transmitido culturalmente) e suscetibilidade ao tratamento (transmitido geneticamente) que pudesse melhorar as chances. Do mesmo modo que a tolerância à lactose se desenvolveu em povos que tinham a cultura de pastoreio, a possibilidade de ser hipnotizado pode ter evoluído em povos que tinham a cultura de rituais de cura. A minha hipótese é de que os rituais xamanísticos constituem induções hipnóticas, que as representações xamanísticas propiciam a sugestão, que as reações dos clientes são equivalentes às reações produzidas por hipnose, e que as reações ao tratamento xamanístico são correlacionadas com a propensão do cliente à hipnose. [McClenon, 2002, p. 79] Essas hipóteses são evidentemente testáveis, e, argumenta McClenon, elas propiciam fontes para algumas das características (rituais e crenças) a serem encontradas em quase toda parte nas religiões. É interessante, mas existe uma ampla variação na propensão à hipnose, sendo que cerca de 15% das populações humanas mostram forte propensão à hipnose, e aparentemente existe um componente genético que não foi ainda bem estudado (que eu saiba). Os xamãs tendem a aparecer em famílias, de acordo com uma boa quantidade de provas antropológicas, mas isso poderia, é claro, ser atribuído inteiramente à transmissão vertical cultural (dos memes xamanísticos de pai para filho). Mas por que os seres humanos seriam suscetíveis ao efeito placebo, para começar? Essa é uma adaptação exclusivamente humana (que depende da linguagem e da cultura), ou há efeitos relacionados discerníveis em outras espécies? Esse é um tema de pesquisa e controvérsia atuais. Uma das hipóteses mais engenhosas em discussão é a hipótese de "gerenciamento de recursos econômicos" de Nicholas Humphrey (2002). O corpo tem muitos recursos para curar suas próprias doenças: dor para desencorajar atividade que possa piorar um ferimento, febres para combater infecção, vômitos para livrar o sistema digestivo de toxinas, e respostas imunológicas, para mencionar os mais potentes. Todos esses são eficazes, embora custosos; o uso exagerado, ou prematuro, pode de fato acabar danificando o corpo, mais que ajudando. (Reações imunológicas em grande escala são especialmente custosas, e apenas os animais mais saudáveis conseguem manter um exército de anticorpos inteiramente equipado.) Quando um corpo deveria não poupar despesas na esperança de uma cura rápida? Só quando isso for seguro, ou quando a


ajuda está próxima. De outro modo, pode ser mais prudente para o corpo ser avaro com suas automedicações caras. O efeito placebo, de acordo com essa hipótese, é um gatilho disparado, dizendo ao corpo para retirar todos os impedimentos porque há esperança. Em outras espécies, a variável esperança é supostamente ajustada para qualquer informação que o animal consiga vislumbrar em seus arredores (está em segurança na toca, ou no meio do rebanho, e há bastante comida por perto?); em nós, a variável esperança pode ser manipulada por figuras de autoridade. Essas são questões que vale a pena investigar. No capítulo 3, introduzi brevemente a hipótese de que nosso cérebro pode ter evoluído um "centro de Deus", mas observei que seria melhor, por hora, considerá-lo um centro do quê, que mais tarde foi adaptado ou explorado por elaborações religiosas de um tipo ou de outro. Agora temos um candidato plausível para preencher a lacuna: aquele que capacita a propensão à hipnose. Além disso, em seu livro recente, The God Gene, o neu- robiólogo e geneticista Dean Hamer (2004) alega ter encontrado um gene que poderia ser atrelado a esse papel. O gene VMAT2 é um dos muitos que dão receitas de proteínas - as monoaminas - que fazem o trabalho principal no cérebro. São proteínas que levam os sinais que controlam todos os nossos pensamentos e nosso comportamento: os neuromoduladores e os neurotransmissores que são mandados de um lado para outro entre os neurônios, e os transportadores dentro dos neurônios que fazem todo o serviço doméstico, restaurando os suprimentos de neuromoduladores e neurotransmissores. O Prozac e as muitas outras drogas psicoativas ou que modificam a disposição, desenvolvidas nos últimos anos, funcionam enfatizando ou suprimindo a atividade de uma monoamina ou outra. O gene VMAT2 é polimórfico nos seres humanos, ou seja, há diferentes mutações dele em pessoas diferentes. As variantes do gene VMAT2 são idealmente colocadas, então, para explicar as diferenças nas reações emocionais ou cognitivas das pessoas aos mesmos estímulos, e poderiam justificar por que algumas pessoas são relativamente imunes à indução hipnótica, enquanto outras são prontamente postas em transe. Nada disso está perto de ser provado, e o desenvolvimento da hipótese de Hamer é marcado por mais entusiasmo que sutileza, um ponto fraco que poderá repelir pesquisadores que, de outra maneira, o levariam a sério. Mesmo assim, algo parecido com sua hipótese (mas provavelmente muito mais complicado) é um bom palpite para confirmação no futuro próximo, à medida que o papel das proteínas e suas receitas de genes forem mais analisados. O que é parcialmente tentador nesse caminho de pesquisa é como ela não é reducionista! McClenoon e Hamer trabalharam independentemente um do outro, pelo que sei. Nenhum dos dois menciona o outro, em todo caso, e nenhum é tratado por Boyer, Atran ou os demais antropólogos. Isso não é de surpreender. A colaboração entre geneticistas e neurobiolo- gistas, de um lado, e antropólogos, arqueólogos e historiadores, do outro, tendo como pioneiro Luigi Luca CavalliSforza e seus colegas, é uma tendência recente e irregular. E provável que haja mais fracassos iniciais e decepções do que triunfos nos primeiros dias desse trabalho interdiscipli- nar, e não prometo nada com relação às perspectivas das hipóteses específicas, nem de McClenon nem de Hamer. No entanto, eles apresentam um exemplo vivido e acessível das possibilidades existentes. Lembre-se do trecho de Dawkins citado no capítulo 3: "Se os neurocientistas encontram um 'centro de Deus' no cérebro, os cientistas darwinianos como eu queremos saber por que o centro de Deus evoluiu. Por que aqueles dentre os nossos ancestrais que apresentaram uma tendência genética a criar um centro de Deus sobreviveram melhor que os rivais, que não


tinham?" (2004b, p. 14). Agora temos uma resposta finalmente testável para a questão de Dawkins, e ela invoca não apenas os fatos bioquímicos, mas todo o mundo da antropologia cultural.6 Por que aqueles que apresentam a tendência genética sobrevivem? Porque eles, ao contrário dos que não têm o gene, tinham seguro de saúde! Nos dias anteriores à medicina moderna, a cura xamanística era o único recurso da pessoa que ficava doente. Se você fosse constitucionalmente impermeável aos tratamentos que os xamãs com paciência refinaram ao longo de séculos (evolução cultural), você ficaria sem um serviço de tratamento de saúde ao qual recorrer. Se os xamãs não existissem, não haveria vantagem de seleção em possuir esse gene variante, mas os memes acumulados deles, a cultura de cura xamanística, poderia ter criado uma forte crista de pressão seletiva na paisagem adaptativa, que de outro modo não estaria lá. Isso ainda não nos leva à religião organizada, mas ao que vou chamar de religião do povo, o tipo de religião que não tem credos escritos, teólogos, nem hierarquia ou funcionários.7 Antes de existir qualquer das grandes religiões organizadas, havia as religiões do povo, e estas propiciaram o ambiente cultural do qual as religiões organizadas puderam emergir. As religiões do povo têm rituais, histórias a respeito de deuses ou ancestrais sobrenaturais, práticas proibidas e obrigatórias. Do mesmo modo que as histórias populares, os ditos da religião popular são de autoria tão dispersa que é melhor dizer que não têm autor algum, e não que os autores sejam desconhecidos. Como a música popular, 8 os rituais e cantigas da religião popular não têm compositores, e seus tabus e outras injunções morais não têm legisladores. A autoria consciente, deliberada, vem mais tarde, depois que os projetos dos itens culturais básicos foram aguçados e polidos ao longo de muitas gerações, sem previsão, sem intenção, apenas pelo processo de replicação diferenciada durante a transmissão cultural. Isso tudo é possível? Claro. A linguagem é um artefato cultural sensacionalmente intrincado e bem planejado, e o crédito por isso tudo não é dado a nenhum planejador humano individual. Do mesmo modo como algumas características de linguagem escrita apresentam vestígios claros de seus ancestrais puramente orais,9 alguns dos aspectos da religião organizada podem ser traçados como vestígios de religiões populares das quais eles descenderam. Por vestígios entendo o seguinte: a preservação de uma religião popular ao longo de muitas gerações - sua auto-replicação em face da concorrência inexorável -, adaptações de exigências que são peculiares a uma tradição oral e que não são mais estritamente necessárias (do ponto de vista da engenharia reversa), mas que persistem simplesmente porque ainda não são suficientemente custosas para ser seletivamente eliminadas.

5. DISPOSITIVOS DE ORGANIZAÇÃO DE MEMÓRIA NAS CULTURAS ORAIS O corpo total de conhecimentos dos baktaman está guardado em 183 mentes baktaman, com a ajuda apenas de uma montagem modesta de símbolos crípticos concretos (sendo que seus significados dependem das associações construídas em torno deles na consciência de alguns anciãos) e por comunicação limitada, desconfiada, com os membros de algumas comunidades vizinhas. [Fredrik Barth, Ritual and Knowledge Among the Baktaman ofNew Guinea]


Os seres humanos, parece, são os únicos animais que se envolvem espontaneamente em coordenação corporal criativa, rítmica, para aumentar as possibilidades de cooperação (por exemplo, cantando e balançando quando trabalham juntos). [Scott Atran, In God We Trust] Todas as religiões populares têm rituais. Para um evolucionista, os rituais se destacam como pavões em uma clareira iluminada pelo sol. Em geral, são espantosamente caros: muitas vezes envolvem a destruição deliberada de alimentos e outros patrimônios valiosos - para não falar dos sacrifícios humanos -, muitas vezes são fisicamente extenuantes ou até mesmo danosos para os participantes, e em geral exigem tempo e esforço impressionantes para a preparação. Cui bono? Quem ou o que se beneficia desses gastos extravagantes? Já vimos dois modos pelos quais os rituais podem se pagar, como as características psicologicamente necessárias das técnicas de adivinhação, ou os processos de indução hipnótica nas curas xamanís- ticas.10 Uma vez instalados na cena para esses objetivos, eles estariam disponíveis para adaptação - exaptação, como diria Stephan Jay Gould - a outros usos. Mas há outras possibilidades a serem exploradas. Antropólogos e historiadores da religião teceram teorias a respeito do significado e da função do ritual religioso por gerações, geralmente a partir de perspectivas limitadas, que não dão importância ao background evolutivo. Antes de examinarmos as especulações a respeito dos rituais como expressões simbólicas de uma profunda necessidade ou crença, deveríamos pensar na suposição dos rituais como processos de fortalecimento de memória, projetados por evolução cultural (e não por qualquer projetista consciente!) para melhorar a fidelidade da cópia do próprio processo de transmissão de memes que eles resguardam. Uma das lições mais claras da biologia da evolução é que a extinção prematura está no futuro de qualquer linhagem cuja maquinaria de cópia se quebre, ou apenas se estrague um pouco. Sem a cópia de alta-fidelidade, quaisquer melhoras de projeto que por acaso ocorram em uma linhagem tenderão a ser dissipadas quase imediatamente. Ganhos duramente obtidos, acumulados ao longo de muitas gerações, podem ser perdidos em poucas replicações defeituosas, evaporando os preciosos frutos de P &D da noite para o dia. Desse modo, podemos ter certeza de que as tradições religiosas hipotéticas que não têm bons meios de preservar a confiabilidade de seus projetos ao longo dos séculos estão fadadas ao esquecimento. Podemos observar hoje o nascimento e a morte rápida de cultos, à medida que os adeptos iniciais perdem a fé ou o interesse e se afastam, mal deixando traços depois de poucos anos. Até quando os membros de um grupo desses querem ardentemente mantê-lo em funcionamento, seus desejos são dificultados, a não ser que eles se valham das tecnologias de replicação. Hoje em dia, a escrita (para não falar do videoteipe e outras mídias de registro de alta tecnologia) propicia a via óbvia de informações a ser usada. E desde os dias iniciais da escrita, tem havido uma valorização intensa da necessidade, não só de proteger os documentos sagrados de danos e deterioração, mas de copiá-los repetidamente, minimizando o risco de perda, ao assegurar que múltiplas cópias tenham sido distribuídas. Durante muitos séculos antes da invenção do tipo móvel, que pela primeira vez tornou possível a produção em massa de cópias idênticas, salas cheias de escribas, ombro a ombro em suas escrivaninhas, tomavam ditado de um leitor e assim transformavam uma cópia frágil e muito manuseada em dezenas de novas cópias - uma copiadora feita de gente. Como a maior parte dos originais dos quais essas cópias eram feitas, nesse meio-


tempo, já tinha se transformado em pó, sem os esforços desses escribas não disporíamos de textos confiáveis de nenhuma literatura da Antigüidade, sagrada ou secular, nenhum Velho Testamento, nada de Homero, Platão e Aristóteles, nenhum Gilgamesh. A cópia mais antiga conhecida dos diálogos de Platão ainda existente, por exemplo, foi criada séculos depois da morte do pensador, e até os Manuscritos do Mar Vermelho e os evangelhos Nag Hammadi (Pagels, 1979) são cópias de textos compostos centenas de anos antes. Um texto pintado sobre papiro ou pergaminho é como os esporos duros de uma planta, que podem ficar intactos na areia durante séculos antes de se encontrarem em condições adequadas para deixar a armadura e brotar. Nas tradições orais, ao contrário, o veículo - um verso falado ou um refrão cantado - dura só alguns segundos. Tem de entrar em alguns ouvidos - tantos quanto possível - e se imprimir firmemente no máximo de cérebros possível para fugir do esquecimento. Ficar registrado em um cérebro - ser ouvido e notado acima da concorrência - é menos da metade da luta. Ser decorado diversas vezes, seja na privacidade de um único cérebro ou em repetição pública uníssona, essa é uma questão de vida ou morte para um meme transmitido oralmente. Se você quiser refrescar sua memória quanto à ordem das devoções no serviço dominical de sua igreja, ou checar se deve levantar ou sentar durante as bênçãos finais, quase com certeza haverá algum documento a ser consultado. Os detalhes estão impressos no verso de qualquer hinário, talvez, ou no Book of Common Prayer, ou, se não lá, pelo menos em textos que estão prontamente disponíveis para o padre, o ministro, o rabino ou o imã. Ninguém tem de decorar todas as linhas de cada invocação, cada prece, cada detalhe das vestes, música, manipulação dos objetos sagrados e daí por diante, já que está tudo escrito em um registro oficial ou outro. Mas os rituais não estão, de jeito algum, restritos a culturas letradas. Na verdade, os rituais religiosos de sociedades não letradas são muitas vezes mais detalhados, em geral exigem muito mais fisicamente e demoram muito mais tempo que os rituais das religiões organizadas. Além do mais, os xamãs não freqüentam seminários xamanísticos oficiais, e não existe um conselho de bispos ou aiatolás para manter o controle de qualidade. Como os membros dessas religiões guardam todos os detalhes na memória ao longo das gerações? Uma resposta simples é: eles não guardam! Não conseguem! E é surpreendentemente difícil provar o contrário. Embora membros de uma cultura não letrada possam muito bem ser unânimes em sua convicção de que seus rituais e credos têm sido perfeitamente preservados por eles ao longo de "centenas" ou "milhares" de gerações (mil anos são apenas cinqüenta gerações), por que deveríamos acreditar nisso? Há alguma prova que sustente a convicção tradicional deles? Há, um pouco. Grande parte do entusiasmo que acompanhou a descoberta, pelos estudiosos, da tradição ritual Nambudiri deve-se ao fato de que, embora existam textos delineando os rituais védicos, os Nambudiri não os usaram. Exclusivamente por meios não letrados, eles mantiveram essa elaborada tradição ritual com espantosa fidelidade (tal como se pode depreender pela Strauta Sutras com séculos de idade). [Lawson e McCauley, 2002, p. 153] Desse modo, à primeira vista, parece que os Nambudiri talvez sejam uma cultura oral dotada de uma sorte excepcional, com alguma prova que sustente suas convicções de terem preservado os rituais intactos. Se não fosse pelos textos védicos, supostamente desconhecidos deles e jamais


consultados ao longo dos anos, não haveria um padrão fixo pelo qual medir a confiança na antigüidade de suas tradições. Mas, enfim, a história é boa demais para ser inteiramente verdadeira. A tradição nambudiri pode ser oral, mas eles não são pessoas analfabetas (alguns de seus sacerdotes ensinam engenharia, por exemplo), e é difícil acreditar que tenham se mantido isolados dos textos védicos. "Sabe-se que, durante o período de iniciação, de seis meses, para treinamento, preparação e ensaios que levam ao evento propriamente dito, é feito uso de cadernos preparados pelo AcArya sênior, que já participou de rituais anteriores...".12 Então ôs nambudiri não são realmente um parâmetro independente de quanto a transmissão oral pode ser exata. Compare o problema aqui com a pesquisa em andamento sobre a evolução das linguagens. Por meio de análises probabilísticas complexas e sofisticadas, os lingüistas conseguem deduzir características de linguagens orais extintas, cujos últimos usuários já estão mortos há milênios! Como isso pode ser feito sem consultas a gravações em fita e sem textos na linguagem sobre o qual levantam hipóteses? Os lingüistas fazem uso intenso do enorme corpo de dados textuais em outras linguagens mais recentes, traçando desvios lingüísticos do grego ático ao grego helênico, e do latim para as línguas românicas, e daí por diante. Ao encontrar modelos comuns nesses desvios, eles conseguiram extrapolar retrospectivamente, com algum grau de confiança, para saber como as linguagens devem ter sido antes de a escrita aparecer, fossilizando algumas delas, a serem posteriormente estudadas. Eles conseguiram extrair regularidades de desvios de pronúncia e gramaticais, e justapor essas regularidades em modelos de estabilidade para chegar a conjecturas altamente fundamentadas e confirmadas por cruzamentos a respeito de, digamos, como as palavras indo-européias eram pronunciadas, muito antes de haver linguagens escritas que preservassem os indícios como insetos fósseis em âmbar.'3 Se tentássemos o mesmo estratagema de extrapolação com as crenças religiosas, teríamos primeiro de estabelecer modelos para estabilidade e alterações, e até agora não foi possível fazer isso. O pouco que sabemos a respeito de religiões primitivas depende quase inteiramente de textos que sobreviveram. Pagels (1979) oferece uma perspectiva fascinante sobre os Evangelhos Gnósticos, por exemplo, concorrentes iniciais à inclusão no cânon dos textos cristãos, graças à sobrevivência fortuita de textos escritos transmitidos como traduções de cópias de cópias... dos originais. Não podemos, assim, simplesmente acreditar que as tradições religiosas não letradas ainda existentes no mundo são tão antigas como se diz. E já sabemos que, em algumas religiões dessas, não há uma tradição de preservação obsessiva do credo antigo. Fredrik Barth, por exemplo, encontrou muitas evidências de inovações entre os baktamans, e como Lawson e McCauley (2002, p. 83) observam secamente, "Fidelidade perfeita à prática antiga não é um ideal determinado para os baktamans". Desse modo, embora possamos estar bastante certos de que os povos da tradição oral tiveram algum tipo de religião durante milhares de anos, não devemos descartar a possibilidade de que a religião que hoje presenciamos (e registramos) pode consistir de elementos que foram inventados, ou reinventados bastante recentemente. As pessoas correm, pulam e jogam pedras do mesmo jeito em todo lugar, e essa regularidade é explicada pelas propriedades físicas dos membros e da musculatura humana, pela uniformidade da resistência ao vento em torno do globo, e não por uma tradição de algum modo passada de


geração a geração. Por outro lado, em lugares em que nenhuma dessas restrições garante a reinvenção, os itens de cultura poderão perambular de modo rápido, amplo e irreconhecível, na ausência de mecanismos fiéis de cópias. Braçadas diferentes para pessoas diferentes.'4 E onde seja que ocorra essa transmissão ambulante, automaticamente haverá seleção por mecanismos que enfatizem a fidelidade na cópia sempre que ela surja, independentemente de se as pessoas se importam, já que qualquer um desses mecanismos tenderá a persistir mais tempo no meio cultural do que mecanismos alternativos (e mais baratos) que são copiados com indiferença. Uma das melhores maneiras de assegurar a fidelidade da cópia em muitas replicações é a estratégia da "regra da maioridade", que é a base do estranhamente confiável comportamento dos computadores. Foi o grande matemático John von Neumann que viu um modo de aplicar esse estratagema ao mundo real da engenharia, de modo que a máquina de computação imaginária de Alan Turing pudesse se tornar realidade, nos permitindo fabricar computadores altamente confiáveis a partir de partes inevitavelmente não confiáveis. A quase perfeita transmissão de trilhões de bits é executada de forma rotineira até pelo computador mais barato, hoje em dia, graças ao "multiplexação de Von Neuman", mas esse estratagema foi inventado e reinventado ao longo de séculos em muitas variações. Nos dias anteriores aos da comunicação por rádio e satélites GPS, OS navegadores costumavam levar não um, mas três cronômetros a bordo de seus navios nas viagens longas. Se você tiver apenas um cronômetro e ele começar a atrasar ou adiantar, você nunca vai saber se está errado. Se você levar dois e eles começarem a discordar, você não vai saber se um está atrasando ou o outro está adiantando. Se você levar três, pode ter bastante certeza de que o que está estranho é aquele no qual os erros se acumulam, já que, do contrário, os dois que ainda estão concordantes teriam de funcionar mal exatamente do mesmo modo, coincidência pouco provável na maioria das circunstâncias. Muito antes de ser conscientemente inventado ou descoberto, esse Bom Estratagema já estava incorporado como uma adaptação de memes. Ele pode ser visto em funcionamento em qualquer tradição oral, religiosa ou secular, na qual as pessoas agem em uníssono - rezando, cantando ou dançando, por exemplo. Nem todo mundo vai se lembrar das palavras ou da melodia ou do passo seguinte, mas a maior parte'vai, e os que estão fora do passo irão rapidamente se corrigir para se unirem à massa, preservando as tradições de modo muito mais confiável do que qualquer um deles poderia fazer isoladamente. O todo não depende do virtuosismo dos que decoravam a seqüência; ninguém precisa ser melhor que a média. Pode-se provar matematicamente que tais esquemas "mutiplexado- res" conseguem superar o fenômeno do "elo mais fraco", e construir uma teia que é muito mais forte que seus elos mais fracos. Não é por acidente que as religiões todas têm ocasiões em que os adeptos se reúnem em rituais para agir em uníssono público. Qualquer religião sem essas ocasiões já estaria extinta.1' Um ritual público é um excelente modo de preservar conteúdo com alta fidelidade, mas por que as pessoas são tão ansiosas por participar em rituais, para começar? Já que estamos supondo que elas não têm a intenção de preservar a fidelidade da cópia de seus memes constituindo um tipo de memória de computador social, o que as motivaria a se juntarem a eles? Aqui há um monte de hipóteses conflitantes que levará algum tempo e pesquisa para resolver, uma dificuldade de escolha.'6 Pense naquilo que podemos chamar de a hipótese de publicidade xamanística. Os xamãs em todo o mundo realizam a maior parte de sua prática de cura em cerimônias públicas, e são hábeis em conseguir que o público local não apenas observe enquanto


eles induzem um transe neles mesmos ou em seus clientes, mas que participe, com tambores, cantando, salmodiando e dançando. Em seu clássico Witchcraft, Oracles and Magic Among the Azande (1937), o antropólogo Edward Evans-Pritchard descreve vividamente esses procedimentos, observando como o xamã astutamente arregimenta a multidão de espectadores habituais, transformando-os em chamarizes, de fato, para impressionar os não iniciados, para os quais essa demonstração cerimonial é um espetáculo novo. Pode-se supor, na verdade, que a freqüência a elas tem uma influência informativa importante no crescimento das crenças em feitiçarias nas mentes das crianças, porque as crianças fazem questão de freqüentá-las e participar delas como espectadores e coro. Essa é a primeira ocasião na qual demonstram sua crença, e fica mais dramática e mais publicamente afirmada nessa sessão que em qualquer outra situação. [Evans-Pritchard, 1937; 1976, edição resumida, pp. 70-71] A curiosidade inata, estimulada pela música, a dança rítmica e outras formas de "pompa sensorial" (Lawson e McCauley, 2002), poderia provavelmente explicar a motivação inicial para entrar no coro - especialmente se tivermos desenvolvido um desejo inato de pertencer, de nos juntar com outros, especialmente os mais velhos, como muitos têm recentemente argumentado. (Isso será tema do próximo capítulo.) E então há o fenômeno de "hipnose coletiva", e "histeria da massa", ainda pouco conhecido mas com inegáveis efeitos potentes observáveis quando as pessoas são reunidas em multidão e alguma coisa excitante acontece para que elas reajam. Uma vez que as pessoas se encontrem no coro, outras motivações podem predominar. Qualquer coisa que faça o custo da não-participação aumentar funciona, e os membros da comunidade ficam com a idéia de encorajar os outros membros, não apenas a participar, mas para infligir o custo àqueles que fogem à responsabilidade de participar, e o fenômeno pode se tornar autosustentável (Boyd e Richerson, 1992). Será que não deve haver alguém para promover a operação? Como isso começaria a funcionar a não ser que houvesse algumas pessoas, alguns agentes que quisessem iniciar uma tradição ritual? Como sempre, esse palpite trai uma falha de imaginação evolutiva. É claro que é possível - e em alguns casos certamente provável e até mesmo provado - que algum líder comunitário ou outro agente venha a projetar um ritual para servir a um objetivo em particular, mas vimos que esse agente não é estritamente necessário. Até mesmo rituais elaborados e caros de ensaio público poderiam surgir de práticas e hábitos anteriores, sem qualquer plano consciente.'7 O ensaio público é um processo-chave de fortalecimento da memória, mas não o suficiente. Temos também de examinar as características daquilo que é ensaiado, porque podem, elas próprias, ter sido projetadas para poder interagir cada vez mais com a memória. Uma inovação fundamental foi dividir o material a ser transmitido em algo parecido com um alfabeto, um repertório um tanto limitado de normas de produção. No Apêndice A descrevo como a confiabilidade da replicação do DNA depende da existência de um código ou conjunto finito de elementos, uma espécie de alfabeto, como A, c, G, T. Esta é uma forma de digitação que permite que flutuações ou variações minúsculas na execução sejam absorvidas ou apagadas na rodada seguinte. A idéia do projeto de digitação ficou famosa na era da computação, mas é possível ver aplicações anteriores nos modos pelos quais os rituais religiosos - como danças, poemas e as


próprias palavras - podem ser quebrados em elementos facilmente reconhecíveis, adequados para o que Dan Sperber (2000) chama de "produção acionada" (ver Apêndices A e c). Não há duas pessoas que façam suas mesuras, batam continência ou kowtow exatamente da mesma maneira, mas cada gesto será claramente reconhecível como uma mesura, uma continência ou kowtow pelo resto do grupo, que desse modo absorve o ruído do momento e transmite para o futuro apenas o esqueleto essencial, ou a grafia dos movimentos. Quando as crianças observam os mais velhos fazendo os movimentos, seja em uma dança popular tradicional ou numa cerimônia de religião popular (e essa distinção será bastante arbitrária ou inexistente em algumas culturas), elas aprendem o alfabeto dos comportamentos, e podem se comparar uns aos outros para ver quem consegue fazer o movimento-A mais espetacular, ou o movimento-B mais ondulado, ou a cantilena-C mais alta. Irão todos concordar a respeito do que são os movimentos, e aí jaz uma compressão enorme das informações que devem ser transmitidas. Esse tipo de compressão pode ser medida com exatidão no seu computador de casa, comparando um bitmap de uma página de texto (que não faz distinção entre caracteres alfabéticos e borrões e manchas de tinta, laboriosamente representando cada ponto) a um arquivo de texto da mesma página, que será de magnitude menor. Falar que um "alfabeto" é composto de um conjunto "canônico" de coisas a serem lembradas é duplamente anacrônico, usando tecnologia recente (a linguagem escrita e a elevação consciente e deliberada de um cânon restrito de crenças e textos prescritos) para analisar as potências dos projetos das inovações mais antigas em métodos de transmissão que não tiveram autores. Esses são ainda mais enfatizados pelo uso de ritmo e rima - para praticar ainda outro anacronismo, já que esses termos "técnicos" foram certamente inventados muito depois de a eficácia das propriedades ter sido "reconhecida" pelo relojoeiro cego da seleção cultural. Ritmo, rimas e tons musicais, todos propiciaram respaldo adicional (Rubin, 1995), transformando seqüências de palavras não memoráveis em sound bites (vamos abusar dos anacronismos, já que estamos aqui). Uma característica de projeto menos evidente foi a inclusão de elementos incompreensíveis! Por que isso ajudaria a transmissão? Obrigando os transmissores a voltar à "citação direta", em circunstâncias nas quais eles estariam, de outro modo, tentados a usar a "citação indireta" e a transmitir apenas a parte essencial da ocasião "em suas próprias palavras" - uma perigosa fonte de mutação. A idéia subjacente é bem familiar para todos no (em geral desprezado, mas eficaz) método pedagógico: aprender decorando. "Não tente entender essas fórmulas! É só decorá-lasl" Se você simplesmente não consegue entender as fórmulas, ou alguns aspectos delas, você não precisa do conselho; não há outro recurso além da memorização, e isso reforça a confiança na repetição estrita e no gênio corretor de erros dos alfabetos. O conselho, no entanto, também pode estar lá, assim como outro aspecto de fortalecimento de memória: Repita a fórmula exatamente! Sua vida depende disso! (Se você não disser as palavras mágicas exatamente certas, a porta não vai abrir. O diabo vai pegá-lo se você disser errado.) Para repetir o refrão que deveria ser familiar, a essa altura: ninguém tem de compreender esses motivos fundamentais, nem mesmo querer melhorar a fidelidade da cópia dos rituais de que participou; quaisquer rituais que por acaso sejam favorecidos por essas características teriam uma vantagem replicativa poderosa sobre rituais concorrentes que não as tivessem. Observe que, até agora, as adaptações que revelamos como prováveis colaboradoras na


sobrevivência das religiões têm sido neutras quanto a saber se nós somos beneficiários ou não. Essas são características do meio, não da mensagem, projetadas para assegurar a fidelidade da transmissão - uma exigência da evolução -, ao mesmo tempo que são quase inteiramente neutras para dizer se o que é transmitido é bom (um mutualista), ruim (um parasita) ou neutro (um comensal). Para ter certeza, levantamos a hipótese de que a evolução dos rituais de cura xamanísticos foi um desenvolvimento provavelmente benigno, ou mutualista, não apenas um mau hábito para os quais os nossos antepassados eram atraídos. E há uma boa chance de que a adivinhação realmente ajudasse (e não apenas parecesse ajudar) os nossos antepassados a tomar suas decisões quando precisassem. Mas essas hipóteses ainda são questões empíricas em aberto, e poderíamos revisar nossa opinião sem o colapso da teoria, se elas estiverem garantidas pelas provas. Ninguém poderia objetar, neste ponto, que não começamos a falar a respeito de todo o bem que a religião faz. Ainda não tivemos de tratar dessa questão. Devemos exaurir nossas opções minimalistas para ASSENTAR as fundações de um exame adequado da questão. *** Capítulo 5. O alto preço evidente da religião popular, um desafio à biologia, pode ser explicado por hipóteses que ainda não estão confirmadas, mas podem ser testadas. Provavelmente a população excessiva de agentes imaginários gerados pelo HADD rendeu candidatos para fazer o papel de ajudantes em decisões, em adivinhação, ou como cúmplices do xamã, na manutenção da saúde, por exemplo. Esses constructos mentais, cooptados ou exaptados, foram então submetidos a uma extensa revisão de projeto sob a pressão seletiva para proezas reprodutivas. *** Capítulo 6. À medida que a cultura humana cresceu e as pessoas se tornaram mais reflexivas, a religião popular transformou-se em uma religião organizada; as bases generalizadas dos motivos para os projetos mais antigos foram suplementadas, e algumas vezes substituídas, por razões cuidadosamente elaboradas, à medida que as religiões se domesticaram.


6. A EVOLUÇÃO DA INTENDÊNCIA 1. A MÚSICA DA RELIGIÃO Não significa coisa alguma, se não tiver aquele balanço. [Duke Ellington] O ARGUMENTO CENTRAL deste capítulo é que a religião popular se transformou em religião organizada do mesmo modo pelo qual a música popular gerou aquilo que podemos chamar de música organizada: músicos e compositores profissionais, representações e regras escritas, salas de concerto, críticos, agentes e todo o resto. Nos dois casos, a mudança aconteceu por diversas razões, mas em grande parte porque, à medida que as pessoas passaram a ser cada vez mais reflexivas, tanto a respeito de suas práticas como de suas reações, elas puderam se tornar cada vez mais inventivas em suas explorações das possibilidades. Tanto a música como a religião aos poucos se tornaram "artísticas" ou sofisticadas, mais elaboradas, exigindo mais produção. Não necessariamente melhores, em qualquer sentido absoluto, contudo mais capazes de responder a demandas cada vez mais complicadas de populações que eram, biologicamente, bem semelhantes a seus ancestrais distantes, mas culturalmente ampliadas, tanto do ponto de vista da qualificação como da sobrecarga de tarefas. Existe artifício no planejamento e na execução das práticas religiosas, como sabem todos os que já sofreram durante uma cerimônia religiosa conduzida com incompetência. Um sacerdote gago e prosaico, uma liturgia chata, um canto trêmulo do coro, pessoas que se esquecem de levantar e do que devem dizer e fazer - uma execução falha como esta pode afastar até o membro da congregação mais bem-intencionado. Ocasiões celebradas com mais arte conseguem elevar a congregação a êxtases sublimes. Podemos analisar o artifício nos textos sagrados e nas cerimônias religiosas do mesmo modo como podemos analisar o artifício na literatura, na música, na dança, na arquitetura e em outras artes. Um bom professor de teoria musical consegue desmontar uma sinfonia de Mozart ou uma cantata de Bach e mostrar como as diferentes características do desenho colaboram para sua magia, mas algumas pessoas preferem não mergulhar nessas questões, pela mesma razão por que não querem que se revelem os truques de mágica no palco: para elas, a explicação diminui o "deslumbramento". Pode ser, mas compare a incompreensão reverente dos musicalmente ignorantes diante de uma sinfonia com a avaliação igualmente superficial de uma pessoa, em um jogo de futebol, que não conheça as regras ou os pontos altos do jogo, e só vê muito chute na bola para lá e para cá e corridas vigorosas por todo lado. "Grande ação!", poderão eles exclamar sinceramente, mas estão perdendo a maior parte da excelência oferecida. Mozart e Bach - e um grande time de futebol - merecem coisa melhor. Os projetos e as técnicas da religião também podem ser estudados com a mesma curiosidade


distanciada, e com resultados valiosos. Pense em adotar a mesma atitude inquisitiva em relação à religião, especialmente à sua própria religião. Ela é um amálgama muito bem afinado de procedimentos e estratagemas brilhantes, capazes de manter as pessoas fascinadas e fiéis durante a vida inteira, elevando-as de seus egoísmos e modos mundanos assim como a música, porém com maior eficiência. Entender como ela funciona é tanto um preâmbulo para melhor avaliá-la ou fazer com que ela funcione melhor quanto uma tentativa de desmontá- la. E a análise que estou incentivando é, afinal de contas, apenas a continuação do processo de reflexão que trouxe a religião ao estado em que ela se encontra atualmente. Todos os sacerdotes de todos os credos são como músicos de jazz, ao manter as tradições vivas tocando os padrões amados como devem ser tocados, mas também incessantemente avaliando e decidindo, diminuindo ou apressando o passo, apagando ou acrescentando outra expressão a uma prece, misturando o conhecido e a novidade exatamente nas proporções certas para atrair a mente e o coração dos ouvintes presentes. As melhores execuções não são apenas como boa música; elas são como uma espécie de música. Escutem os sermões gravados do reverendo C. L. Franklin (pai da Aretha Franklin e famoso entre os pregadores gospel antes de ela gravar qualquer sucesso), ou do pregador batista branco irmão John Sherfey, por exemplo.' Esses compositores-executantes não são apenas vocalistas; o instrumento deles é a congregação, e eles o tocam com o talento artístico apaixonado mas instruído de um violinista a quem foi confiado um Stradivarius. Além dos efeitos imediatos de hoje - um sorriso ou "amém!" ou "aleluia! - e dos efeitos de curto prazo - volta à igreja no domingo seguinte, deposição de outro dólar no prato da coleta -, há efeitos de longo prazo. Ao escolher que passagens da Escritura serão replicadas esta semana, o sacerdote molda não apenas a ordem do culto, mas a mente dos devotos. A não ser que você seja um estudioso notável e raro, você só consegue guardar em sua memória pessoal uma fração dos textos sagrados de sua fé - aqueles que você tiver ouvido repetidas vezes desde a infância, algumas vezes entoando-os em uníssono com a congregação, tenha você confiado ou não qualquer deles deliberadamente à memória. Do mesmo modo como as mentes latinas da Roma antiga deram lugar a mentes francesas, italianas e espanholas, as mentes cristãs hoje são bem diferentes das mentes dos cristãos primitivos. As principais religiões de hoje são tão diferentes de suas versões ancestrais quanto a música de hoje é diferente da música da antiga Grécia ou de Roma. As mudanças feitas estão longe de ser aleatórias. Elas percorreram a incansável curiosidade e as mudanças nas necessidades da nossa espécie, que adquiriu cultura. A capacidade humana para a reflexão fornece uma habilidade para observar e avaliar os padrões no nosso comportamento ("Por que continuo caindo nessa”), "Na época pareceu uma boa idéia, mas por quê?" etc.) Isso fortalece nossa habilidade em representar perspectivas e oportunidades futuras, o que, por sua vez, ameaça a estabilidade de qualquer prática social mal fundamentada que não consiga sobreviver a essa atenção céti- ca. Assim que as pessoas começam "a sacar", um sistema que "funcionou" durante gerações pode implodir da noite para o dia. As tradições podem desmoronar mais rapidamente que muros de pedra e telhados de ardósia, e a manutenção preventiva dos credos e das práticas de uma instituição pode se tornar uma ocupação em tempo integral para os profissionais. Mas nem todas as instituições têm, ou exigem, tal manutenção.


2. RELIGIÃO POPULAR COMO KNOW-HOW PRÁTICO Entre os nuer, é particularmente auspicioso sacrificar um touro, mas como os touros são especialmente valiosos, na maior parte das vezes um pepino serve muito bem. [E. Thomas Lawson e Robert N. McCauley, Bringing Rituais to Mind] Em face do gasto inevitável, nada que foi projetado persiste por muito tempo sem renovação e replicação. As instituições e os hábitos da cultura humana estão tão presos a esse princípio, a segunda lei da termodinâmica, como os organismos, os órgãos e os instintos da biologia. Mas nem todas as práticas culturalmente transmitidas precisam de intendência. As linguagens, por exemplo, não exigem os serviços de polícia de usos e gramáticos - embora nas linguagens européias tenha há muito tempo havido um excesso desses assim chamados protetores da integridade. Um dos principais argumentos do capítulo anterior é que as religiões populares são como as linguagens quanto a esse aspecto: podem muito bem tomar conta delas mesmas. Os rituais que persistem são aqueles que se perpetuam por si mesmos, a despeito de alguém dedicar ou não esforços sérios para mantê-los. Os memes conseguem adquirir novos estratagemas adaptações - que podem ajudá-los a garantir essa longevidade para suas linhagens, independentemente de alguém os valorizar. Então, a questão de saber se as religiões populares propiciaram algum benefício claro às pessoas - se os memes que as compõem são memes mutualistas, e não comensais ou parasitas - pode ser deixada sem resposta por hora. Os benefícios da religião popular parecem óbvios - tão óbvios quanto os benefícios da linguagem -, mas precisamos nos lembrar de que um benefício para a aptidão genética humana não é a mesma coisa que um benefício para a felicidade humana ou o hem-estar humano. Aquilo que nos faz mais felizes não nos torna mais prolíficos, que é tudo o que importa para os genes. Até mesmo a linguagem deveria ser olhada com o máximo de neutralidade. Talvez ela não passe de um mau hábito que por acaso se espalhou! Como pode ser isso? Assim: logo que a linguagem começou a ser moda entre nossos antepassados, os que não se atualizaram rapidamente foram deixados fora do jogo do acasalamento. Converse, ou não tenha filhos. (Essa seria a teoria da seleção sexual da linguagem: superficialidade como a cauda do pavão para o Homo sapiens. De acordo com essa teoria, pode ser verdade que, se nenhum de nós jamais tivesse tido a linguagem, estaríamos melhor no departamento de descendentes, mas uma vez que o custoso handicap da linguagem pegou entre as mulheres, os homens sem linguagem tenderam a morrer sem descendentes, sem poder, portanto, se dar ao luxo de não fazer o investimento, a despeito de quanto isso complicasse a vida deles.) Ao contrário das penas da cauda, que você tem de fabricar usando os equipamentos com os quais seus pais porventura o tenham dotado, as linguagens se espalham horizontal ou culturalmente, de modo que temos de considerá-las como co-atrizes no drama, com suas próprias chances de reprodução. Nessa teoria, o motivo pelo qual adoramos falar é como o motivo pelo qual os camundongos infectados com Toxoplasma gondii adoram apoquentar os gatos - as linguagens aprisionaram nossos pobres cérebros e nos fizeram cúmplices ansiosos em sua própria propagação! Essa é uma hipótese forçada, já que as contribuições da linguagem para a aptidão genética são muito evidentes. Somos atualmente mais de 6 bilhões atravancando o planeta e


monopolizando seus recursos, enquanto nosso parente mais próximo, os sem-linguagem bonobos, chimpanzés, orangotangos e gorilas, estão todos ameaçados de extinção. Pondo à parte a hipótese de que a nossa capacidade de correr ou a falta de pêlos é o segredo do nosso sucesso, podemos acreditar firmemente que os memes da linguagem realçaram os mais aptos como mutualistas, e não parasitas. Mesmo assim, o fato de enquadrar a hipótese nos faz lembrar que a evolução genética não promove diretamente a felicidade ou o bem-estar; ela só se preocupa com o número de descendentes, que sobrevivem para fazer outra geração de descendentes e daí por diante. A religião popular pode bem ter tido um papel importante na propagação do Homo sapiens, mas ainda não sabemos isso. O fato de que, pelo que sabemos, todas as populações humanas têm algum tipo de versão não determina isso. Todas as populações humanas conhecidas também tiveram resfriados que - pelo que sabemos - não são mutualistas. Durante quanto tempo a religião popular poderia ser adotada por nossos ancestrais antes de a reflexão começar a transformá-la? Podemos ter alguma idéia disso olhando outras espécies. É óbvio que os pássaros não precisam entender os princípios da aerodinâmica que determinam o formato de suas asas. É menos óbvio - mas mesmo assim verdadeiro - que as aves podem ser partícipes ignorantes em rituais tão elaborados como os leks - os locais de encontro para acasalamento algumas vezes chamados de "boate da natureza" -, nos quais as fêmeas de uma população local de uma espécie se reúnem para observar a exibição competitiva dos machos, que ficam se mostrando. A razão básica para os leks, que são também encontrados em alguns mamíferos, peixes e até insetos, é clara: eles se pagam como métodos eficientes de seleção para acasalamento sob condições passíveis de ser especificadas. Mas os animais que participam dos leks não precisam saber por que fazem o que fazem. Os machos aparecem e se mostram, as fêmeas prestam atenção e deixam sua escolha ser guiada pelos "ditames de seus corações", que, sem que elas saibam, foram moldados por seleção natural ao longo de muitas gerações.2 Será que a nossa propensão para participar de rituais religiosos tem explicação semelhante? O fato de que os nossos rituais sejam passados adiante por meio da cultura, e não dos genes, não elimina de jeito algum essa perspectiva. Sabemos que linguagens específicas são transmitidas pela cultura, não pelos genes, mas houve também evolução genética, que aprimorou nosso cérebro para a aquisição e o uso cada vez mais eficiente da linguagem.3 Nossos cérebros se desenvolveram para se tornar processadores de palavras mais eficazes, e eles podem também ter evoluído para implementar com maior eficácia os hábitos culturalmente transmitidos das religiões populares. Já vimos como o hipnotismo poderia ser o talento para o qual o centro do quê imaginado no capítulo 3 foi moldado. A sensibilidade a rituais (e música) pode fazer parte desse pacote. Não há, de fato, razão alguma para supor que os animais tenham qualquer idéia a respeito dos motivos que os levam a fazer o que instintivamente fazem, e os seres humanos não são exceção; os propósitos mais profundos dos nossos "instintos raramente nos são transparentes. A diferença entre nós e outras espécies é que somos a única espécie que se preocupa com sua ignorância! Ao contrário de outras espécies, sentimos uma necessidade geral de compreender, de modo que, mesmo que ninguém deva compreender ou possuir a intenção de inovar qualquer dos projetos que criaram as religiões populares, deveríamos reconhecer que as pessoas, naturalmente curiosas, reflexivas, e dotadas da linguagem na qual enquadrar e reenquadrar suas perplexidades,


teriam apresentado a probabilidade - ao contrário das aves - de se perguntar qual seria o significado desses rituais. A coceira da curiosidade não é forte em algumas pessoas, aparentemente. A julgar pela variação observável ao nosso redor hoje, seria justo apostar que apenas uma pequena minoria de nossos ancestrais chegou a ter o tempo ou a inclinação para questionar as atividades em que se engajaram com seus parentes e vizinhos. Nossos antepassados caçadores-coletores dos tempos paleolíticos podem muito bem ter tido uma vida relativamente fácil, com alimento abundante e tempo de lazer (Sahlins, 1972), se comparados ao trabalho duro necessário à sobrevivência depois que a agricultura foi inventada, há mais de 10 mil anos, e as populações cresceram de modo explosivo. Desde o início desse período, no neolítico, até, na verdade, muito recentemente na escala de tempo biológica - as últimas duzentas gerações -, a vida, para quase todos os nossos ancestrais, era, como disse Hobbes, admiravel- mente má, bruta e curta, com poucos breves bolsões de tempo livre no qual pudessem ficar... teóricos. Portanto, provavelmente é seguro imaginar que o pragmatismo comprimia os horizontes de nossos ancestrais. Entre as jóias da sabedoria popular encontrada pelo mundo todo está a idéia de que um pouco de conhecimento pode ser uma coisa perigosa. Um corolário não freqüentemente notado é que algumas vezes pode ser mais seguro substituir o conhecimento incompleto por um mito potente. Como o antropólogo Roy Rappaport explicou em seu último livro: [...] em um mundo no qual os processos que governam seus elementos físicos são, até certo ponto, desconhecidos, e, ainda em maior grau, imprevisíveis, o conhecimento empírico desses processos não pode substituir o respeito pela integridade mais ou menos misteriosas que têm, e pode ser mais adaptativo - ou seja, mais adaptativamente verdadeiro - envolver esses processos em véus sobrenaturais do que expô-los ao mal-entendido que pode ser encorajado pelo conhecimento naturalístico empiricamente exato, mas incompleto. [1999, p. 452] As exigências práticas de apresentar um modo de unir toda a mis- celânea intrigante da vida em vôo não são as mesmas que as exigências práticas da ciência, como observa Dunbar (2004, p. 171): "A lei dos rendimentos decrescentes significa que haverá sempre um ponto além do qual simplesmente não vale a pena investir mais tempo e esforço para descobrir a realidade subjacente. Nas sociedades tradicionais, qualquer coisa que funcione serve". Desse modo, podemos esperar que nossos antepassados, não importa quão curiosos fossem por temperamento, fizeram mais ou menos o que todos ainda fazem hoje: fiam-se naquilo "que todos sabem '. A maior parte do que você (acha que) sabe, você simplesmente crê. Com isso não quero dizer a fé em crença religiosa, mas algo muito mais simples: a política prática, sempre passível de ser revista, de simplesmente confiar na primeira coisa que lhe vem à mente, sem ficar obcecado para saber por que é assim. Quais são as chances de que "todo mundo" esteja simplesmente enganado em pensar que bocejar é inócuo, ou que você deva lavar as mãos depois de ir ao banheiro? (Lembra daqueles "belos bronzeados saudáveis" que costumávamos cobiçar?) A não ser que alguém publique um estudo que nos surpreenda a todos, adotamos como verdade que o conhecimento comum que recebemos dos mais velhos e de outros está correto. E estamos certos em fazer isso; precisamos de quantidades imensas de conhecimento comum para nos orientarmos pela vida, e não há tempo para classificar todos eles, testando a veracidade de cada


item.4 Desse modo, numa sociedade tribal, em que "todo mundo sabe" que você precisa sacrificar um cabrito para ter um bebê saudável, você não deixa de sacrificar um cabrito. Seguro morreu de velho. Essa característica marca uma profunda diferença entre a religião popular e a religião organizada: os que praticam uma religião popular não acham de modo algum que estão praticando uma religião. Suas práticas religiosas fazem parte integral de suas vidas práticas, lado a lado com a caça, a coleta, ou arar e colher. E uma forma de saber que eles realmente acreditam nas divindades para as quais fazem esses sacrifícios é observar que não estão o tempo todo falando a respeito de como eles acreditam em suas divindades - não mais do que você e eu saímos por aí garantindo um ao outro que acreditamos em micróbios e átomos. Onde não há dúvidas ambientes que se possa notar, não há necessidade de falar em fé. A maioria de nós só conhece os átomos e os micróbios de ouvir falar, e seria embaraçoso ser incapaz de dar uma boa resposta se um antropólogo marciano nos perguntasse como sabemos que essas coisas existem - uma vez que você não as consegue ver, ouvir, sentir o gosto ou ter o tato para elas. Se pressionada, a maioria de nós provavelmente elaboraria alguma doutrina seriamente equivocada a respeito dessas coisas invisíveis (mas importantes!). Não somos os especialistas - só concordamos com "o que todos sabem", que é exatamente o que os povos tribais fazem. Acontece que os especialistas deles entenderam errado. 5 Muitos antropólogos observaram que, quando perguntam a seus informantes nativos a respeito de detalhes "teológicos" - o paradeiro dos deuses, história específica e métodos de ação no mundo -, os informantes acham todas as perguntas intrigantes. Por que se esperaria que eles soubessem ou se preocupassem com isso7 Dada essa reação amplamente registrada, não deveríamos descartar a corrosiva hipótese de que muitas das doutrinas verdadeiramente exóticas e discutivelmente incoerentes desenterradas pelos antropólogos ao longo dos anos são artefatos de inquirição, e não credos preexistentes. É possível que essas perguntas persistentes feitas pelos antropólogos tenham composto um tipo de ficção inocentemente colaborativa, dogmas recém-cunhados e cristalizados, gerados quando o questionador e o informante conversam até terem como resultado uma história mutuamente coerente. Os informantes acreditam profundamente em seus deuses "Todo mundo sabe que eles existem! -, mas pode ser que nunca tenham pensado antes nesses detalhes (talvez ninguém tenha, naquela cultura!), o que explicaria por que as convicções deles são vagas e impossíveis de determinar. Obrigados a elaborar, eles elaboram, pegando as deixas nas perguntas formuladas.6 No próximo capítulo vamos examinar algumas implicações espantosas dessas questões metodológicas, depois de esquematizarmos uma explicação que sirva de apoio para testes. Por hora, poderia ajudar se você tentasse se pôr no lugar de um informante de antropólogo. Agora que o mundo moderno, com suas complexidades particulares, está caindo em cima dos povos tribais, eles têm de fazer revisões por atacado em seus modos de ver a natureza, e não surpreende que essa perspectiva seja assustadora para eles. Ouso dizer que se os marcianos chegassem com uma tecnologia maravilhosa que nos afigurasse como "impossível e nos dissessem que tínhamos de abandonar germes e átomos e ganharíamos com os programas deles, só os dotados de mente mais brilhante entre os nossos cientistas fariam a transição rapidamente e de bom grado. O resto de nós se agarraria aos nossos queridos e velhos átomos e micróbios o máximo que pudesse, contando prosaicamente a nossos filhos como a água é feita de átomos de hidrogênio e de


oxigênio - pelo menos foi isso que nos contaram sempre i- e adver- tindo-os a respeito dos micróbios, só para ficar do lado da segurança. O que paira amplamente na vida de cada pessoa é o problema sobre o que fazemos agora, e há menos desconfortos estressantes que o dilema de não saber o que fazer ou o que pensar quando aparece alguma novidade desconcer- tante. Nessa hora todos nos refugiamos naquilo que nos é conhecido. O tentado e verdadeiro pode não ser verdadeiro, mas pelo menos é tentado, de modo que nos dá alguma coisa a fazer que nós sabemos como fazer. E geralmente funciona bastante bem, tão bem quanto sempre funcionou.

3 . A REFLEXÃO SORRATEIRA E O NASCIMENTO DO SEGREDO NA RELIGIÃO Você consegue enganar todo mundo durante algum tempo, e algumas pessoas o tempo todo, mas você não consegue enganar todo mundo o tempo todo. [Abraham Lincoln] Aqueles para os quais a palavra dele foi revelada estavam sempre sozinhos em algum lugar remoto, como Moisés. Também não havia ninguém por perto quando Maomé recebeu a palavra. O mórmon Joseph Smith e a cientista cristã Mary Baker Eddy tinham audiências exclusivas com Deus. Temos de confiar neles como repórteres -- e você sabe como são os repórteres. Eles fazem qualquer coisa por lima matéria. [Andy Rooney, Sincerely, Andy Rooney] A física popular do dia-a-dia, e a biologia popular e a psicologia popular funcionam muito bem como regra. Do mesmo modo, a religião popular também funciona, mas aparecem dúvidas ocasionais. As reflexões exploratórias dos seres humanos se acumulam em ondas de dúvidas, e se essas ondas ameaçam a nossa serenidade, pode-se esperar que nos apossemos de qualquer resposta que possa escorar o consenso ou diminuir o desafio. Quando a curiosidade tropeça em um evento inesperado, alguma coisa deve ceder: "o que todo mundo sabe" tem um contraexemplo, e a dúvida desabrocha em descoberta, que leva ao abandono ou à extinção de uma parte duvidosa do saber local, ou os itens duvidosos se garantem com uma emenda ad hoc de um tipo ou de outro, ou se aliam com outros itens que ficaram fora do alcance do ceticismo torturante.7 Essa separação tem o efeito de isolar da refutação um subconjunto especial de itens culturais por trás do véu da invulnerabilidade sistemática - um padrão encontrado praticamente em toda parte na sociedade humana. Como muitos já advertiram (ver por exemplo, Rappaport, 1979; Palmer e Steadman, 2004), essa divisão em proposições que são planejadas para ser imunes à falta de confirmação parecem uma articulação hipotética na qual poderíamos muito bem trinchar a natureza. Exatamente aqui, sugeriram eles, é onde a (proto) ciência e a (proto-) religião se afastam. Não que os dois tipos de doutrinas muitas vezes não se encontrem inteiramente misturadas em diversas culturas. A história natural detalhada da região local, com os hábitos e as propriedades de todas as diferentes espécies intensamente observadas, é em geral mesclada a mitos e rituais que envolvem essas espécies - nas quais as divindades informam que pássaros,


que sacrifícios precisam ser oferecidos antes de se caçar determinada presa, e assim por diante. A linha divisória pode, além disso, ser pouco clara, na prática: um pai conta ao filho como o estorninho dá um grito de aviso para seus parentes que pode ser ouvido pelos ursos selvagens; enquanto outro pai conta para o filho que não sabe como o urso aprende com o estorninho - talvez um deus leve a mensagem, e o filho pode muito bem contar a seu filho a respeito de um deus que protege os estorninhos e os ursos, mas não os antílopes. Pseudocientistas conhecem a tentação: sempre que sua teoria preferida fizer uma previsão que se mostrar errada, por que não deixar sua hipótese se metamorfosear um pouco em outra que, convenientemente, não possa ser questionada sob aquelas condições? Os cientistas devem ser cautelosos com essas migrações para longe da refutação, mas é uma lição dura de aprender. Aterse à sua hipótese e deixar os fatos decidirem é um ato pouco natural, e você tem de se segurar para executá-lo. Os xamãs têm uma programação diferente: eles tentam curar e aconselham as pessoas em tempo real, e podem gratamente se esconder atrás do mistério quando o inesperado acontecer. (Um quadrinho mostra um curandeiro de pé, abatido, ao lado do corpo de um paciente falecido, dizendo para a viúva desolada: "Há tanta coisa que a gente ainda não sabe!".) A postulação de efeitos invisíveis, não detectáveis, que (ao contrário dos átomos e dos micróbios) são sistematicamente imunes à confirmação ou à refutação, é tão comum em religiões que esses efeitos são algumas vezes tomados como definitivos. Nenhuma religião deixa de tê-los, e qualquer coisa que não os tenha não é verdadeiramente uma religião, não importa quanto pareça uma religião em outros aspectos. Por exemplo, sacrifícios elaborados aos deuses podem ser encontrados em toda parte, e é claro que em lugar algum deuses surgem da invisibilidade e sentam-se para comer o maravilhoso porco assado ou beber o vinho. Ao contrário, o vinho é despejado no chão ou no fogo, onde os deuses podem curti-lo em privacidade não observável, e a participação na comida é efetuada queimando-a até se tornar cinza, ou delegando-a aos xamãs, que a comem como parte de seus deveres oficiais como representantes dos deuses. Do mesmo modo que a "clériga" de Dana Carvey exclamaria: "Muito conveniente!". Como sempre, não temos de comprometer os xamãs individualmente, ou mesmo como um grupo difuso de conspiradores, no planejamento desse raciocínio, já que ele só poderia aparecer pela replicação diferenciada dos ritos. Mas os xamãs teriam de ser bem burros se não apreciassem essa adaptação, ou se não apreciassem a necessidade de desviar a atenção dela. Em algumas culturas, apareceu uma conveniência mais igualitária: todo mundo come a comida que, de algum modo, foi também, de forma imperceptível, comida pelos deuses. Os deuses podem ter o bolo e comer o bolo. Não seria a transparência desses arranjos convenientes arriscada em demasia? Sim, então eles quase sempre são protegidos por um segundo véu: São mistérios além da compreensão! Nem tente entendê-los! E, ainda, com muita freqüência, é dado um terceiro véu: é proibido fazer muitas perguntas a respeito desses mistérios! E os próprios xamãs? Será que a curiosidade deles também fica embotada por esses tabus? Nem sempre, evidentemente. Como qualquer trabalhador consciencioso, espera-se que os xamãs notem ou suspeitem de qualquer deficiência em seus próprios desempenhos e então experimentem métodos alternativos: "Estou perdendo fregueses para aquele outro xamã; o que será que ele está fazendo que eu não estou? Será que há um jeito melhor de executar os rituais de cura?". Uma idéia popular conhecida a respeito da hipnose é que o hipnotizador de algum modo incapacita as salvaguardas do sujeito, os típicos mecanismos de defesa, sejam lá quais forem, que inspecionam


a credibilidade de todo o material que entra. (Talvez ele ponha os guardas para dormir!) Uma idéia melhor é que o hipnotizador não incapacita as salvaguardas, mas, em vez disso, as coopta, transformando-as em aliados, fazendo com que dêem o aval ao hipnotizador. Uma forma de fazer isso é jogar alguns pequenos fatos para eles ("Você está ficando com sono, suas pálpebras estão pesando..."), cuja exatidão possa determinar e confirmar de imediato. Se não ficar evidente para o sujeito que o hipnoti- zador sabe esses fatos, isso cria uma leve ilusão de autoridade inesperada ("Como é que ele sabe isso?"), e então o hipnotizador, armado da bênção das salvaguardas, pode ir à luta. Essa parte de sabedoria popular mais ou menos secreta ganha algum apoio de experiências: o sucesso que um hipnotizador tem sobre um sujeito é afetado significativamente caso se diga antecipadamente ao sujeito que o hipnotizador é um novato ou se é experiente (Small e Kramer, 1969; Coe et al., 1970; Balaschak et al., 1972). Essa tática foi descoberta e explorada repetidamente pelos xamãs. Em todo lugar eles assiduamente reúnem com discrição fatos pouco conhecidos a respeito dos indivíduos que poderão vir a ser seus clientes, mas eles não param por aí. Há outras maneiras de demonstrar domínio inesperado. Como observa McClenon (2002), o ritual de caminhar sobre brasas incandescentes sem se queimar tem sido observado no mundo todo - índia, China, Japão, Cingapura, Polinésia, Sri Lanka, Grécia e Bulgária, por exemplo. Duas outras práticas disseminadas pelos xamãs são movimentos de prestidigitação, como esconder entranhas de animais que podem então ser milagrosamente "retiradas" do torso da pessoa doente em uma "cirurgia mediúnica", e o truque de ter mãos e pés amarrados e, de algum modo, conseguir com que a tenda chacoalhe ruidosamente. No imenso Espaço de Planejamento das possibilidades, esses três parecem ser os modos mais acessíveis de criar efeitos espantosamente "sobrenaturais" para impressionar os clientes, já que foram sedescober- tos vezes sem conta. "As equivalências entre as culturas parecem ser mais que coincidentes: os xamãs podem usar formas semelhantes de magia sem treinamento formal algum e sem ter tido contato com outros que usem as mesmas estratégias", afirma McClenon; então, qualquer '"explicação de difusão'parece implausível" (p. 149). Um dos fatos mais interessantes sobre esses inequívocos atos de ilusão é que os executores, ao serem pressionados por antropólogos inquisitivos, apresentam uma série de respostas. Algumas vezes obtemos uma admissão sincera de que eles estão sabidamente usando os truques de mágica de palco para enganar os clientes, e algumas vezes eles defendem essa prática como o tipo de "desonestidade sagrada" (pela causa) da qual fala o teólogo Paul Tillich (ver Apêndice A). E algumas vezes, mais interessantes, um certo nevoeiro sagrado de incompreensão desce rapidamente sobre quem responde para defendê-lo, ou a ela, de outras perguntas corrosivas. Esses xamãs não são muito trapaceiros - não todos eles, pelo menos -, e no entanto eles sabem que os efeitos que obtêm são segredos do ofício, que não devem ser revelados aos não iniciados por medo de diminuir seus efeitos. Qualquer bom médico sabe que alguns simples truques na apresentação compõem bons "modos de beira do leito" e podem fazer uma diferença enorme.8 E não é de fato desonesto, não? Cada padre, pastor, imã, rabino, guru sabe a mesma coisa, e a mesma gradação de conhecimento e inocência pode ser encontrada hoje na prática dos pregadores do revival, como é vividamente revelado no filme Marjoe, o documentário que ganhou o Oscar em 1972. O filme seguia Marjoe Gortner, um jovem pregador evangélico carismático que perdeu a fé, mas que fez uma reaparição como pregador para revelar os truques


do ofício. Nesse filme, perturbador e inesquecível, ele mostra como faz as pessoas desmaiarem quando pratica a imposição das mãos, como ele as incita a dar declarações apaixonadas de seu amor por Jesus, como consegue com que elas esvaziem as carteiras nas bolsas de coleta. 9

4 . DOMESTICAÇÃO DAS RELIGIÕES Quando uma raça de plantas está bastante bem estabelecida, os criadores de sementes não escolhem as melhores plantas, mas apenas dão uma olhada nas sementeiras e retiram as "tratantes", de qualidade inferior, que é como eles chamam as plantas que se desviam do padrão adequado. [Charles Darwin, A origem das espécies] Agora começamos a ver que o que chamamos de cristandade - e o que identificamos como tradição cristã - de fato representa apenas uma pequena seleção de fontes específicas, escolhidas entre dúzias de outras. Quem fez a seleção, e por que motivos? Por que foram aqueles outros escritos excluídos e banidos como "heresia"? O que os tornava tão perigosos? [Elaine Pagels, Os evangelhos gnósticos] As religiões populares surgem das vidas diárias de pessoas que moram em pequenos grupos e compartilham de características comuns pelo mundo todo. Como e quando essas religiões populares se metamorfoseiam em religiões organizadas? Há um consenso geral entre os pesquisadores de que o grande desvio responsável foi o surgimento da agricultura e os maiores assentamentos que ela tornou tanto possíveis como necessários. Os pesquisadores discordam, no entanto, sobre o que enfatizar nessa grande transição. A criação de estocagem não portável de alimentos, e a resultante mudança para residência fixa, permitiu o surgimento de uma divisão de trabalho sem precedentes (Seabright, 2004, é especialmente claro a esse respeito), e isso, por sua vez, deu lugar a mercados e oportunidades para ocupações cada vez mais especializadas. Esses novos modos de interação entre as pessoas criaram novas oportunidades e necessidades. Quando você acha que tem de lidar em bases diárias com pessoas que não são seus parentes próximos, a perspectiva de algumas poucas pessoas que pensam de modo parecido formarem uma coalizão bem diferente de uma família extensa deve quase sempre se apresentar, e muitas vezes deve ser uma opção atraente. Boyer (2001) não é o único a argumentar que a transição da religião popular para a religião organizada foi originalmente um desses fenômenos de mercado. Ao longo da história, as guildas e outros grupos de artesãos e especialistas tentaram estabelecer preços comuns e padrões comuns para evitar que os não integrantes das guildas executassem trabalhos comparáveis. Ao estabelecer quase um monopólio, eles certificavam-se de que todos os direitos fossem para si. Mantendo preços e padrões comuns, eles tornavam difícil, para um membro especialmente habilidoso ou eficiente, vender mais barato que os outros. Desse modo, a maior parte das pessoas paga um preço pequeno para ser membro de um grupo que garanta uma porção mínima do mercado para cada um de seus integrantes, [p. 275]


O primeiro passo para uma organização dessas é o maior de todos, mas os passos seguintes, de uma guilda de padres ou de xamãs para o que são, de fato, firmas (e franquias e marcas), são conseqüências quase inevitáveis da crescente consciência de si mesmos e do conhecimento de mercado daqueles indivíduos que se juntaram para formar as guildas. Cui bono? Quando indivíduos começam a se perguntar como fortalecer e preservar melhor as organizações que eles criaram, mudam radicalmente o foco da questão, trazendo à existência novas pressões seletivas. Darwin avaliou isso, e usou a transição do que chamou de seleção "inconsciente" para a seleção "metódica" como uma ponte pedagógica para explicar sua grande idéia da seleção natural no capítulo inicial de sua obra- prima. (A origem das espécies é uma ótima leitura, aliás. Do mesmo modo como ateus muitas vezes lêem "a Bíblia como literatura" e saem profundamente emocionados pela poesia e os insights sem serem convertidos, criacionistas e outros que não conseguem chegar a acreditar na evolução podem ainda assim ficar emocionados ao ler o documento fundador da moderna teoria da evolução - sem se importar se essa leitura vai mudar ou não suas cabeças a respeito da evolução). Na época atual, criadores eminentes tentam, por seleção metódica, com um objetivo distinto em vista, fazer uma nova linhagem, ou super-raça, superior a qualquer outra existente no país. Mas, para nossos objetivos, um tipo de Seleção, que pode ser chamada de Inconsciente, e que resulta do fato de todos tentarem possuir e criar a partir dos melhores animais individuais, é mais importante. Desse modo, um homem que tem a intenção de criar pointers naturalmente tenta conseguir os melhores cães que puder, e depois cria a partir de seus próprios cães melhores, mas não tem desejo ou expectativa de melhorar a raça permanentemente. No entanto, não duvido que esse processo, continuado durante séculos, melhoraria e modificaria qualquer raça... Há motivos para acreditar que o s-paniel do rei Charles tem sido inconscientemente modificado em grande extensão desde a época do monarca, [pp. 34-35] A domesticação tanto de plantas como de animais ocorreu sem qualquer intenção de sagacidade ou invenção por parte dos administradores das sementes e dos garanhões. Mas que golpe de sorte para aquelas linhagens que se tornaram domesticadas! Tudo o que resta dos ancestrais dos grãos de hoje são pequenas extensões de primos que não passam de grama silvestre espalhada por aí, e os parentes mais próximos de todos os animais domesticados poderiam ser guardados em algumas poucas arcas. Como os carneiros selvagens foram espertos ao terem adquirido essa adaptação tão versátil, o pastor! Ao formar uma aliança simbólica com o Homo sapiens, os carneiros conseguiram terceirizar suas principais tarefas de sobrevivência: encontrar alimento e evitar predadores. Conseguiram até, como bônus, abrigo e assistência médica de urgência. O preço que eles pagam - perda da liberdade de escolher um parceiro para acasalamento, ser abatido, em vez de morto por predadores (se é que isso é um custo) - é uma ninharia se comparado ao ganho na troca, em termos de sobrevivência dos descendentes. Mas é claro que não é a esperteza deles que explica o bom negócio. E a astúcia cega, sem previsões, da Mãe Natureza, a evolução, que ratificou a base racional descomprometida desse arranjo. Os carneiros e outros animais domesticados são, na verdade, significantemente mais burros que seus parentes selvagens - porque podem. O cérebro deles é menor (em relação ao tamanho e ao peso do corpo) e isso não se deve somente ao fato de terem sido criados para aumentar a massa


muscular (carne). Como tanto os animais domesticados quanto seus domesticadores sofreram enormes explosões de população (de menos de 1% da biomassa vertebrada terrestre ro mil anos atrás a mais de 98% hoje - ver Apêndice B), não pode haver dúvida de que essa simbiose foi mutualística - fortalecimento de aptidão para os dois lados. O que pretendo sugerir agora é que, na mesma época da domesticação de animais e plantas, houve um processo gradual no qual os memes selvagens (auto-sustentáveis) da religião popular se tornaram inteiramente domesticados. Eles adquiriram intendentes. Os memes que têm a sorte de ter intendentes, pessoas que irão trabalhar arduamente e usar a inteligência para promover a propagação deles e protegê-los de seus inimigos, são aliviados de grande parte da carga de manter a existência de sua própria linhagem. Em casos extremos, eles não precisam mais ser particularmente atraentes, ou apelar para nossos instintos sensuais. Os memes "tabelas de multiplicação", por exemplo, para não Falar dos memes de cálculo, são dificilmente do agrado das multidões, e no entanto são devidamente propagados pelos professores - pastores memes -, cuja responsabilidade é manter essas linhagens fortes. Os memes selvagens da linguagem e da religião popular, em outras palavras, são como ratos e esquilos, pombos e vírus de gripe magnificamente adaptados para viver conosco e nos explorar, gostemos deles ou não. Os memes domesticados, em contraste, dependem da ajuda dos guardiões humanos para continuar a existir. As pessoas têm meditado sobre suas práticas e instituições religiosas por quase tanto tempo quanto aquele em que vêm aprimorando suas práticas e instituições agrícolas, e esses examinadores reflexivos tiveram, todos, suas agendas - concepções individuais ou compartilhadas do que era valioso e por quê. Alguns foram ajuizados, e outros, tolos, alguns, amplamente informados, e outros, ingênuos, alguns, puros e santos, e alguns, venais e maus. A hipótese de Jared Diamond a respeito da quase exaustiva pesquisa de nossos ancestrais em busca de espécies domesticáveis em suas vizinhanças (discutida no capítulo 5) pode ser ampliada. Praticantes curiosos também teriam descoberto quaisquer Bons Estratagemas que estivessem nas vizinhanças próximas, no Espaço de Planejamento de religiões possíveis. Diamond vê a transição de bandos de menos de cem pessoas para tribos de centenas, para domínios de milhares, para estados de mais de 50 mil pessoas, como uma marcha inexorável "do igualitarismo à cleptocracia", o governo dos ladrões. Falando dos domínios de um chefe, ele observa: Na melhor das hipóteses, eles fazem o bem fornecendo serviços caros, impossíveis de ser contratados em bases individuais. Na pior, eles funcionam desavergonhadamente como cleptocracias, transferindo riqueza líquida dos comuns para as classes superiores [...] Por que os comuns toleram a transferências dos frutos de seu trabalho árduo para os cleptocratas? Essa questão, levantada por teóricos políticos de Platão a Marx, é evocada de novo pelos votantes em cada eleição moderna. [1997, p. 276] Os cleptocratas tentaram quatro maneiras para manter seu poder: (1) desarmar o populacho e armar a elite; (2) tornar as massas felizes redistribuindo grande parte dos tributos recebidos; (3) usar o monopólio da força para promover felicidade, mantendo a ordem pública e reprimindo a violência; (4) construir uma ideologia ou religião que justifique a cleptocra- cia (p. 277). Como pode uma religião sustentar uma cleptocracia? Com uma aliança entre os líderes políticos e os padres, é claro, na qual, em primeiro lugar, declara-se ser o líder divino, ou


descendente de deuses, ou, como Diamond apresenta, pelo menos possuir uma "linha direta com os deuses". Além de justificar a transferência de riqueza para os cleptocratas, a religião institucionalizada traz dois outros importantes benefícios para as sociedades centralizadas. Primeiro, a ideologia compartilhada, ou religião, ajuda a resolver o problema de como os indivíduos que não são parentes devem viver juntos sem se matar - dando a eles uma ligação que não é baseada em parentesco. Segundo, dá às pessoas um motivo, além do interesse genético, para sacrificar suas vidas em favor dos outros. À custa de alguns membros da sociedade, que morrem em batalha como soldados, a sociedade como um todo se torna muito mais eficaz em conquistar outras sociedades ou resistir a ataques, [p. 278] Desse modo, encontramos os mesmos dispositivos inventados outra vez, em praticamente todas as religiões, e em muitas organizações não religiosas também. Nada disso é novo - como lorde Acton disse há mais de um século, "Todo poder tende a corromper; o poder absoluto corrompe absolutamente" -, mas houve um tempo em que isso era novidade, quando nossos ancestrais estavam pela primeira vez explorando revisões de projeto para as nossas instituições mais potentes. Por exemplo, aceitar um status inferior ao de um deus invisível é um estratagema astuto, a despeito de sua astúcia ser conscientemente reconhecida por aqueles que tropeçam nela. Aqueles que se apoiam nela prosperam, conscientemente ou não. Como sabe todo subordinado, as ordens são ainda mais eficazes se puderem ser acompanhadas de uma ameaça de contar para o chefe superior se houver desobediência. (Variações desse estratagema são bem conhecidas dos subalternos da Máfia e vendedores de carros usados, entre outros - "não estou autorizado a fazer uma oferta dessas, de modo que tenho de confirmar com o meu chefe. Desculpe- me um minuto".) Isso ajuda a explicar o que, de outro modo, é uma espécie de enigma. Qualquer ditador depende da fidelidade de sua equipe imediata - simplesmente porque dois ou três deles poderiam sobrepujá-lo com facilidade (ele não pode andar por aí com as adagas desembainhadas). Como você, na condição de ditador, poderia garantir que sua equipe considerasse a lealdade a você acima de quaisquer idéias que ela pudesse muito bem ter de substituí-lo? Introduzir o medo de um poder mais alto na cabeça deles é uma jogada muito boa. E freqüente haver, sem dúvida, uma não declarada détente entre o sacerdote primaz e o rei - um precisa do outro por causa de seu poder, e juntos eles precisam dos deuses no céu. Walter Burkert é especialmente maquiavélico em sua apresentação de como esse estratagema traz em sua esteira a instituição do louvor ritual, e observa algumas de suas complexidades úteis: Pela força de sua competência verbal [o padre] não só é elevado a um nível superior na imaginação, mas consegue reverter a estrutura da atenção: é o superior que deve prestar atenção à cantiga ou ao discurso de louvor do inferior. O louvor é a forma reconhecida de fazer barulho na presença de superiores; de forma bem estruturada, tende a se tornar música. O louvor sobe às alturas como o incenso. Desse modo, a tensão entre alto e baixo se concentra e distende, já que o mais baixo estabelece seu lugar dentro de um sistema que ele aceita de modo enfático. [1996, p. 91] Os deuses vão lhe pegar se você tentar se opor a qualquer um de nós. Já indicamos o papel


dos rituais, tanto os ensaios individuais como as sessões em uníssono de absorção de erros, ao fortalecer a fidelidade da transmissão memética, e observamos que essa transmissão é reforçada tornando cara a não-participação. Além do mais, como sugere Joseph Bulbulia, "Pode ser que os rituais religiosos ponham em exposição o poder natural de uma comunidade religiosa, uma impressionante demonstração aos desertores em potencial daquilo com que se confrontam" (2004, p. 40). Mas o que conduz o espírito da comunidade? Será que o projeto de manter os grupos unidos é, principalmente, apenas uma forma de os cleptocratas inventarem modos de preservar seus carneiros? Ou será que há uma história mais benigna a ser revelada? *** Capítulo 6. A transmissão de religião tem sido tratada por inúmeras revisões, muitas vezes deliberadas e precavidas, à medida que as pessoas que ingressavam nelas se tornavam intendentes das idéias, domesticando-as. Segredo, impostura e invulnerabilidade sistemática à refutação são alguns dos fatos que surgiram, e eles foram planejados por processos sensíveis, novas respostas ao cui bono?, já que os motivos dos intendentes entraram no processo. *** Capítulo 7. Por que as pessoas entram para grupos? Será isso simplesmente uma decisão racional da parte delas, ou será que há forças relativamente irracionais de seleção de grupos em funcionamento? Embora haja muito a dizer em favor dessas duas propostas, elas não esgotam os modelos plausíveis que tentam explicar nossa presteza em formar lealdades duradouras.


7- A INVENÇÃO DO ESPÍRITO DE EQUIPE 1. UM CAMINHO CALÇADO DE BOAS INTENÇÕES E aí vem o embuste. Só uma pessoa má precisa se arrepender; só uma pessoa boa consegue se arrepender perfeitamente. Quanto pior você for, mais você precisa e menos você consegue. A única pessoa que conseguiria se arrepender perfeitamente seria uma pessoa perfeita - e ela não precisaria do arrependimento. [C. S. Lewis, Mere Christianity] TODO SISTEMA de controle, seja o sistema nervoso de um animal, o sistema de crescimento e auto-restauração de uma planta, ou um artefato planejado, como o sistema de orientação de um avião, é projetado para proteger alguma coisa. E essa coisa deve incluir ela mesma! (Se "morrer" prematuramente, a missão falhou, seja ela o que for.) O "interesse próprio" que define desse modo a avaliação da maquinaria de todos os sistemas de controle pode se estilhaçar, no entanto, quando um sistema de controle começa a ser reflexivo. A reflexibilidade humana abre um rico campo de oportunidades para que revisemos nossas metas, incluindo nossos objetivos mais amplos. Quando você consegue começar a pensar a respeito dos prós e dos contras de se unir a uma coalizão existente, em contraposição a separar- se e iniciar uma nova, ou a respeito de lidar com os problemas de lealdade entre sua família, ou a necessidade de mudar a estrutura de poder do seu ambiente social, você cria vias pelas quais escapar das suposições-padrão de seu planejamento inicial. Sempre que um agente - um sistema intencional, na minha terminologia - toma uma decisão a respeito de como melhor proceder, considerando todas as situações, podemos perguntar da perspectiva de quem essa otimização está sendo julgada. Uma suposição default mais ou menos padrão, pelo menos no mundo ocidental, e especialmente entre economistas, é tratar cada agente humano como um tipo de lócus de bem-estar isolado e individualista. O que eu ganho com isso? Egoísmo racional. Mas embora tenha de haver alguma coisa no papel da própria pessoa - alguma coisa que responda ao cui bono? para o tomador de decisão que está sendo examinado -, não há necessidade disso nesse tratamento-padrão, mesmo sendo ele tão comum. O próprio-comoprincipal-beneficiário pode em princípio ser indefinidamente distribuído no tempo e no espaço. Eu me preocupo com os outros, ou com uma estrutura social mais ampla, por exemplo. Nada há que me restrinja a um mim, contrastado a um nós.' Eu ainda posso adotar a minha tarefa de procurar o Número Um, ao mesmo tempo que incluo sob o Número Um não apenas eu mesmo, não apenas a minha família, mas também o islã, ou a Oxfam, ou os Chicago Bulls! A possibilidade, aberta pela nossa evolução cultural, de instalar essas novas perspectivas no nosso cérebro é o que dá à nossa espécie, e apenas à nossa espécie, a capacidade de pensamento moral


- e imoral. Eis aqui uma trajetória bem conhecida: você começa com um desejo sincero de ajudar outras pessoas e a convicção, seja ela bem ou mal fundamentada, de que sua guilda, ou clube, ou igreja é a coalizão que mais bem serve para melhorar o bem-estar de outros. Se os tempos forem especialmente duros, essa intendência condicional - estou fazendo o que é bom para a guilda porque isso será bom para todos - pode ser deslocada pela preocupação mais estreita com a integridade da própria guilda, e por um bom motivo: se você acredita que a instituição em questão é o melhor caminho para a bondade, a meta de preservá-la para projetos futuros, ainda não imaginados, pode ser a meta racional mais alta que você pode definir. Esse passo é curto, para daí perder o rumo ou até mesmo apagar o objetivo maior e dedicar-se ao propósito único de promover os interesses da instituição, não importa a que custo. Uma aliança de fidelidade condicional ou instrumental pode então se tornar indistinguível, na prática, de um compromisso com alguma coisa que seja "boa em si". Mais um outro passo curto perverte esse summum bonum paroquial em direção à meta mais egoísta de fazer o que seja preciso para que você se mantenha no leme da instituição ("Quem melhor do que eu para triunfar sobre nossos inimigos?"). Todos nós já vimos isso acontecer muitas vezes, e pode ser que tenhamos até nos apanhado no ato de esquecer exatamente por que quisemos ser líderes. Essas transições fazem com que decisões conscientes afetem questões que anteriormente tinham sido trilhadas pelo processo sem previsão da replicação diferencial por seleção natural (ou memes, ou genes), e isso cria novos rivais como respostas à pergunta cwi bono?. O que é bom pode não coincidir com o que é bom para a o líder da instituição, mas esses padrões diferentes têm um modo de ser substituídos uns pelos outros sob a pressão do controle reflexivo em tempo real. Quando isso acontece, as bases racionais descomprometidas que são cegamente esculpidas por competições anteriores podem passar a ser ampliadas ou até substituídas por motivos fundamentais representados, motivos básicos que não estão apenas ancorados em mentes individuais, em diagramas e planos, e em conversas, mas usados - sujeitos a argumentos, raciocínios, concordâncias. As pessoas então se tornam intendentes conscientes de seus memes, sem considerar sua sobrevivência garantida do mesmo modo como temos a linguagem como garantida, mas adotando a meta de promover, proteger, enfatizar e espalhar a Palavra.2 Por que as pessoas querem ser intendentes de sua religião? E óbvio, não? Elas acreditam que esse é o modo de levar uma vida moral, uma vida boa, e querem sinceramente ser boas. Será que têm razão? Observe que essa não é a questão de por que as religiões aumentaram a aptidão biológica humana. Aptidão biológica e valor moral são duas questões inteiramente diferentes. Adiei a questão da aptidão até podermos ver que, embora seja uma boa pergunta, empírica, uma questão que deveríamos tentar responder, o fato de respondê-la deixaria inteiramente aberta a questão a respeito de se deveríamos ser intendentes de religião. Com esse ponto firmemente estabelecido, vamos, por fim, considerar - não responder - a questão de se, afinal, as religiões populares e as religiões organizadas nas quais elas se transformaram trouxeram benefícios de aptidão àqueles que as praticam. Essa questão tem preocupado antropólogos e outros pesquisadores há séculos, muitas vezes porque eles a confundiram com a questão do valor (moral) supremo da religião, e não faltam hipóteses familiares a serem exploradas, depois que tivermos limpado o caminho. Duas das hipóteses mais plausíveis receberão maior atenção em


capítulos posteriores, de modo que por hora vou só reconhecê-las. Dunbar (2004) resume uma delas muito bem: Por certo não é por acidente que todas as religiões prometem a seus adeptos que eles - e somente eles - são os "escolhidos de Deus", com salvação garantida, sem importar o resto, estão seguros de que o Todo-Poderoso (ou seja lá a forma que os deuses adotem) irá assisti-los em suas dificuldades atuais se as preces e os rituais corretos forem praticados. Isso sem dúvida introduz um profundo sentimento de conforto em tempos de adversidade, [p. 191] Observe que o conforto em si, ou por si próprio, não seria um impul- sor da aptidão a não ser que também fossem dadas (como quase certamente o são) as vantagens práticas de resolução e confiança, tanto na tomada de decisão como na ação. Que a força esteja contigo! Quando você tem de enfrentar a quase sempre aterradora incerteza de um mundo perigoso, a crença de que alguém vela por você pode muito bem ser um impulsor moral decisivamente eficaz, capaz de transformar pessoas que, de outro modo, estariam incapacitadas pelo medo, em bravos agentes. Essa é uma hipótese a respeito da eficácia individual em tempos conflituosos, e pode - ou não ser verdadeira. Uma hipótese inteiramente diferente é que a participação na religião (em penosos ritos de iniciação, por exemplo) cria ou fortalece as ligações de confiança que permitem a grupos de indivíduos agir juntos com muito maior eficiência. Versões dessa hipótese da aptidão de grupos já foram apresentadas por Boyer, Burkert, Wilson e muitos outros. Pode ou não ser verdadeira na verdade, as duas hipóteses poderiam ser verdadeiras, e deveríamos tentar confirmar ou refutar as duas, nem que fosse pelo esclarecimento que isso lançaria (nada além disso) sobre a questão do valor moral da religião.

2. A COLÔNIA DE FORMIGAS E A CORPORAÇÃO A religião existe principalmente para que as pessoas consigam, juntas, o que não conseguem alcançar sozinhas. [David Sloan Wilson, Daruins Cathedral] Mas quais são os benefícios; por que motivo as pessoas querem uma religião? Elas a querem porque a religião é a única fonte plausível de certeza de determinadas recompensas para as quais existe uma demanda geral e inesgotável. [Rodney Stark e Roger Finke, Acts of Faith] Por que as pessoas se unem a grupos? Porque elas querem - mas por que querem? Por diversos motivos, incluindo o óbvio: para proteção mútua e segurança econômica, para promover eficiência nas colheitas e outras atividades necessárias, para obter projetos em grande escala que, de outro modo, seriam impossíveis. Mas a utilidade manifesta desses arranjos de grupos não explica por si só como é que elas se realizam, já que há barreiras a ultrapassar, sob a forma de medo e hostilidade mútuos, e a perspectiva sempre presente de deserção ou traição oportunista. Nossa incapacidade de alcançar uma cooperação verdadeiramente global, apesar dos argumentos


persuasivos que demonstrem os benefícios a serem alcançados, e apesar de muitas campanhas fracassadas, destinadas a criar instituições de capacitação, mostra que a cooperação e a lealdade limitadas que experimentamos são uma realização rara. De algum modo conseguimos nos civilizar até determinado ponto e de uma forma que outras espécies nem sequer tentaram, pelo que sabemos. Outras espécies muitas vezes formam populações que se juntam em rebanhos, bandos ou cardumes, e fica claro que esses agrupamentos, quando ocorrem, são adaptativos. Mas não somos animais herbívoros, por exemplo, e entre os símios forrageiros (e predadores) que são os nossos parentes mais próximos, os maiores grupos estáveis são geralmente restritos aos parentes próximos, famílias extensas às quais os recém- chegados só são admitidos depois de uma luta e de um teste. (Entre os chimpanzés, os recém-chegados são sempre fêmeas que emigram de seus grupos originais para encontrar parceiros; qualquer macho que tente se unir a outro grupo seria sumariamente morto.) Não há mistério sobre por que nós, como outros símios, teríamos desenvolvido uma ânsia pela companhia dos co-específicos, mas esse instinto gregário tem seus limites. É notável que tenhamos aprendido a ficar à vontade na companhia de estranhos, como Seabright (2004) diz, e uma idéia sempre persuasiva em relação à religião é que ela serve para incentivar exatamente essa coesão grupai, e transforma populações de desafortunadas pessoas sem relação e mutuamente desconfiadas, em famílias com laços estreitos, ou até superorganismos muito eficazes, como colônias de formigas ou colméias de abelhas. A solidariedade impressionante alcançada por muitas organizações religiosas não está em dúvida, mas será que isso poderia explicar o surgimento e a existência continuada das religiões? Muitos acharam que sim, mas exatamente como isso poderia funcionar? Os teóricos de todas as denominações religiosas concordam que a P &D exigida para estabelecer e manter um sistema desses deve ser realizada de algum modo, e à primeira vista parece haver apenas dois caminhos a serem escolhidos: a rota da colônia de formigas e a rota da corporação. A seleção natural moldou o projeto das formigas ao longo de várias eras, fabricando os tipos individuais de formigas como especialistas que coordenam de modo automático seus esforços para que o resultado seja uma colônia normalmente harmoniosa e vigorosa. Não houve formigas individualmente heróicas que calcularam e implementaram tudo. Não havia necessidade, já que a seleção natural fez todas as tentativas de acerto e erro para elas, e não há nem nunca houve nenhuma formiga individual - ou conselho de formigas - para desempenhar o papel de governador. Em contraste, são precisamente as escolhas racionais de seres humanos, individualmente, que dão existência a uma corporação: eles projetam a estrutura, concordam com a incorporação e depois governam suas atividades. Agentes racionais individuais, que olham para seus próprios interesses e, fazendo análises individuais de custo-bene- fício, tomam as decisões que moldam, direta ou indiretamente, as características da corporação. Será que a robustez de uma religião, sua capacidade de perseverar e progredir, em desafio à segunda lei da termodinâmica, é como a robustez de uma colônia de formigas ou de uma corporação? Será que a religião é o produto de um instinto evolucionário cego, ou uma escolha racional? Ou haverá alguma outra possibilidade? (Poderia ser um dom de Deus, por exemplo?) O fracasso em fazer - quanto mais em responder - essa pergunta é a acusação que há muito tempo tem sido usada para desacreditar a escola funcionalista da sociologia, iniciada por Emile Durkheim. De acordo com seus críticos, os funcionalistas trataram as sociedades como se elas


fossem coisas vivas, mantendo sua saúde e vigor por meio de uma multidão de ajustes em seus órgãos, sem mostrar como a P &D exigida para o projeto e o ajuste desses superorganismos foi levada a efeito. Essa crítica é essencialmente a mesma apontada por biólogos evolucionistas à hipótese da Gaia, de Lovelock (1979), e outras. De acordo com a hipótese da Gaia, a biosfera da Terra é ela mesma um tipo de superorganismo, mantendo seus diversos equilíbrios com o fim de preservar a vida no planeta. Uma bela idéia, mas, como disse Richard Dawkins, de modo sucinto: Para que a analogia se aplicasse rigorosamente, deveria haver um conjunto de Gaias rivais, supostamente em diferentes planetas. Biosferas que não desenvolvessem reguladores homeostáticos eficientes para suas atmosferas planetárias tenderiam a se extinguir [...]. Além disso, nós teríamos de postular algum tipo de reprodução, por meio da qual os planetas bem-sucedidos disseminassem cópias de suas formas vivas em outros planetas. [1982,1999, p. 236] Os entusiastas da Gaia, se quiserem ser levados a sério, devem levantar, e responder, a questão de como os supostos sistemas homeostáticos foram projetados e instalados. Os funcionalistas nas ciências sociais devem assumir o mesmo fardo. Entra aí David Slan Wilson (2002) e sua "teoria da seleção multinível", para tentar fazer com que um tipo de funcionalismo não perca o dia, fixando o processo do projeto ao mesmo algoritmo da P &D que explica o resto da biosfera. De acordo com Wilson, as inovações de planejamento que funcionam sistematicamente para ligar grupos humanos são o resultado da descendência do darwinismo com modificação orientada pela replica- ção diferenciada do mais apto, em muitos níveis, inclusive o nível do grupo. Em resumo, ele aceita o desafio de mostrar que a competição entre grupos rivais levou à extinção de grupos mal projetados, ao fracassarem na competição com grupos mais bem desenhados, que foram os beneficiários das bases racionais descomprometidas (para apresentar a coisa do meu jeito) que nenhum de seus membros precisava entender. Cui bono? A aptidão do grupo deve estar acima da aptidão individual de seus membros, e se os grupos devem ser os principais beneficiários, eles devem ser concorrentes. A seleção pode continuar em diversos níveis, ao mesmo tempo, no entanto, graças às competições nos diversos níveis. Os críticos há muito têm zombado das invocações dos funcionalistas de alguma coisa como a sabedoria mística da sociedade (como a imaginada sabedoria de Gaia), mas Wilson tem razão em insistir que não é preciso haver nada de místico ou até de misterioso para que as funções amigáveis dos grupos de Durkheim sejam instaladas por processos evolutivos - se ele conseguir demonstrar os processos de seleção de grupos. A sabedoria distribuída de uma colônia de formigas, que é de fato um tipo de superor- ganismo, tem sido analisada em profundidade e detalhe por biólogos evo- lucionistas, e não há dúvida de que os processos evolutivos podem moldar adaptações de grupos sob condições especiais, como as que prevalecem entre os insetos sociais. Mas as pessoas não são formigas, nem se parecem muito com formigas, e só as ordens religiosas mais rigidamente disciplinadas chegam próximo da inflexibilidade fascista dos insetos sociais. As mentes humanas são dispositivos de exploração altamente complexos, questionadoras de cada detalhe do mundo que elas encontram, de modo que é melhor a evolução


acrescentar alguns sinos e assovios notáveis às suas adaptações à tendência de formar grupos dos seres humanos, se for para haver alguma chance de sucesso pela rota da seleção de grupos. Wilson acha que a competição entre grupos religiosos, com sobrevivência e replicação diferenciadas de alguns desses grupos, pode gerar (e "pagar pelas") as excelentes características de projeto que observamos nas religiões. O pólo teórico oposto - a única alternativa, ou pelo menos assim parece, à primeira vista - é ocupado pelos teóricos da escolha racional, que surgiram recentemente para desafiar a suposição amplamente disseminada pelos cientistas sociais de que a religião é algum tipo de maluquice. Como Rodney Stark e Roger Finke (2000) observam com desdém, "Durante mais de três séculos a sabedoria-padrão da ciência social foi que o comportamento religioso deve ser irracional exatamente porque as pessoas fazem sacrifícios em nome de sua fé - uma vez, é óbvio, que nenhuma pessoa racional faria uma coisa dessas" (p. 42), mas, como eles insistem: Não é preciso ser uma pessoa religiosa para apreender a racionalidade subjacente do comportamento religioso, não mais do que se precisa ser criminoso para imputar racionalidade a muitos atos de desvio comportamental (como fazem as principais teorias de crime e desvios) [...]. O que estamos dizendo é que o comportamento religioso - no grau em que ele ocorre - é geralmente baseado em cálculos de custo-benefício, e é portanto um comportamento racional exatamente no mesmo sentido em que outro comportamento humano é racional, [p. 36] As religiões são mesmo como corporações, alegam eles: "Organizações religiosas são empresas sociais cujo objetivo é criar, manter e fornecer religião a alguns conjuntos de indivíduos e apoiar e supervisar seus intercâmbios com um Deus ou deuses" (p. 103). A demanda pelos artigos que a religião tem a oferecer não é elástica; em um mercado livre de escolha de religiões (como nos Estados Unidos, onde não há uma religião do Estado, e há muitas seitas concorrentes) existe uma competição vigorosa entre as seitas pela dominação do mercado - uma aplicação direta da economia do "lado de oferta". Mas como Wilson observa em uma comparação útil entre a teoria dele e a dos outros, mesmo se tivéssemos de admitir que agora é racional, para os membros da igreja, considerarem o que é basicamente uma decisão de mercado a respeito de em qual religião investir (suposição que examinaremos em breve), isso não atende à questão da P &D: Mas como foi que a religião adquiriu sua estrutura que adaptativamente restringe a escolhas de maximizadores de utilidade exatamente do jeito certo? Devemos explicar a estrutura da religião além do comportamento de indivíduos, uma vez que a estrutura esteja no lugar. Será que costumes bizarros foram conscientemente inventados por atores racionais tentando maximizar suas utilidades? Se for assim, por que eles têm a utilidade de maximizar o bem comum de sua igreja? Será que devemos realmente atribuir todas as feições adaptativas de uma religião a um processo psicológico de raciocínio custo- benefício? Não será possível um processo de variação cega e de retenção seletiva? Afinal, milhares de religiões nascem e morrem sem serem notadas porque nunca atraíram mais de alguns poucos membros (Stark e Bainbridge, 1985). Talvez as feições adaptativas das poucas que sobrevivem sejam como mutações aleatórias, e não o produto de uma


escolha racional, [p. 82] Wilson tem razão em enfatizar a alternativa de um processo de variação cega e retenção seletiva, mas, ao se agarrar à sua versão radical de seleção de grupo, ele perde uma oportunidade melhor: o processo de planejamento evolutivo que nos deu as religiões envolve a replicação diferenciada de memes, não de grupos,3 Wilson menciona isso brevemente como uma alternativa, mas afasta-a sem sequer um olhar, muito porque ele encara a doutrina que as define como aquela em que as características religiosas devem ser disfuncionais. Ele acha que a teoria dos memes exige que todos os memes religiosos sejam parasitas (redutores da aptidão), e raramente, se é que alguma vez, comensais neutros em aptidão, ou mutualistas que enfatizam a aptidão.4 Aqui Wilson é induzido a erro por um mal-entendido comum: Richard Dawkins, que cunhou o termo meme, não é amigo de religião e muitas vezes comparou os memes - memes religiosos, em particular - a vírus, enfatizando a capacidade que têm de se proliferar, a despeito dos efeitos deletérios sobre seus hospedeiros humanos. Embora essa alegação dissonante deva ser considerada uma possibilidade importante, não poderíamos nos esquecer de que a grande maioria dos memes, como a grande maioria dos simbiontes bacterianos e virais que habitam nosso corpo, é neutra ou até útil (da perspectiva da aptidão do hospedeiro). Aqui, então, está minha alternativa memética suave à hipótese do nível de grupos de Wilson: Os memes que promovem a solidariedade nos grupos humanos são especialmente aptos (como memes), sobretudo em circunstâncias nas quais a sobrevivência do hospedeiro (e portanto a aptidão do hospedeiro) depende mais diretamente do fato de o hospedeiro juntar suas forças em grupos. O sucesso desses grupos infestados de memes é, ele mesmo, um potente dispositivo de irradiação, fortalecendo a curiosidade (e inveja) fora do grupo, e portanto permitindo que os limites lingüísticos, étnicos e geográficos sejam mais prontamente ultrapassados. Assim como na teoria mais radical da seleção de grupos de Wilson, essa hipótese em princípio consegue explicar a excelência de planejamento encontrada na religião, sem postular planejadores racionais (a rota da reli- gião-como-corporação). E consegue explicar o fato de que a aptidão individual está aparentemente subordinada à aptidão do grupo para a religião. De acordo com essa teoria, não precisamos postular torneios de replica- ção de grupos, mas apenas um ambiente cultural no qual haja competição de idéias. As idéias que encorajem as pessoas a agir juntas em grupos (da forma que o Toxoplasma gondii encoraja os ratos a se aproximarem destemidamente dos gatos) vão se espalhar com maior eficácia, como resultado dessa tendência a formar grupos, que as idéias que têm um desempenho menos eficiente em unir seus hospedeiros em exércitos.5 Com a visão dos olhos dos memes, podemos unir os dois pólos "extremos" da teoria colônia de formigas versus corporação - e explicar a P &D da tendência dos homens a formar grupos como uma mistura de processos cegos e previdentes, incluindo os processos intermediários de seleção de todos os sabores de conhecimento. Já que as pessoas não são formigas, mas de fato bastante racionais, é pouco provável que elas sejam encorajadas a investir pesadamente em atividades de grupo, a não ser que percebam (ou pensem perceber) benefícios dignos do investimento. Assim, as idéias que maximizam a formação de grupos serão aquelas que atraem, exatamente como Stark e Finke dizem, "recompensas para as quais há uma geral e


inesgotável demanda". Um bônus inesperado dessa perspectiva unificada é que ela dá espaço para uma posição intermediária no status da religião que modifica uma das características mais perturbadoras do modelo da escolha racional. Stark e Finkel, e outros teóricos da escolha racional na religião, gostam de se mostrar como defensores daqueles que têm fé religiosa dizendo, de fato: "Eles não são malucos, eles são espertos!". Entretanto, essa análise racional e a sangue-frio do mercado para os artigos religiosos ofende profundamente muitas pessoas religiosas.6 Elas não querem ser vistas como se estivessem prudentemente fazendo um investimento sólido no provedor mais eficaz de benefícios sobrenaturais. Elas querem se ver como se tivessem deixado de lado essas considerações egoístas, como se tivessem entregado seu controle racional a um poder mais alto. A teoria do meme explica isso. De acordo com essa teoria, os principais beneficiários das adaptações religiosas são os próprios memes, mas a proliferação deles (em concorrência com os memes rivais) depende da habilidade em atrair hospedeiros de um jeito ou de outro. Uma vez conquistada a lealdade, um hospedeiro transforma-se em um servo racional, mas a conquista inicial não precisa ser - na verdade, não deve ser - uma escolha racional do hospedeiro. Os memes às vezes precisam ser inseridos delicadamente em suas novas moradias, sobrepujando a resistência "racional", ao encorajar uma certa passividade ou receptividade no hospedeiro. William James, um memeticista à frente de seu tempo, observa a importância desse aspecto para algumas religiões, e chama proveitosamente a nossa atenção para uma contraparte secular: o professor de música que adverte seus alunos. "Pare de tentar que acontece!" (1902, p. 206). Deixe rolar e limpe sua mente, e deixe aquele pacotinho de informações, aquela pequena receita de hábitos, agir por si mesmo! Pode-se dizer que o desenvolvimento todo do cristianismo em espiritualidade consistiu em pouco mais do que uma ênfase cada vez maior ligada a essa crise de auto-entrega [...] . Se estivéssemos escrevendo a história da mente puramente do ponto de vista da história natural, sem nenhum interesse religioso, ainda assim teríamos de escrever a respeito da propensão do homem a uma conversão repentina e completa como sendo uma de suas peculiaridades mais curiosas, [pp. 210-211 e 230] Vale lembrar que a palavra árabe islã quer dizer "submissão". A idéia de que os muçulmanos devam pôr a proliferação do islã acima de seus próprios interesses já está embutida na etimologia de seu nome, e o islã não está sozinho. O que é mais importante para os cristãos devotos que seu próprio bem-estar, que suas vidas? Eles lhe dirão: a Palavra. Difundir a Palavra de Deus é o summum bonum, e se forem chamados a abrir mão de filhos e netos a bem de difundir a Palavra, este é o mandamento que eles inflexivel- mente tentarão obedecer. Eles não fogem da idéia de que um meme lhes deu ordens e matou-lhes o instinto reprodutivo; eles a abraçam. E declaram que é exatamente isso que os distingue de meros animais; isso dá a eles um valor a perseguir que transcende o imperativo genético que limita o horizonte de decisões de todas as demais espécies. Na busca desse valor, no entanto, eles serão tão racionais quanto puderem. Quando procuram o Número Um, o Número Um é a Palavra, e não sua própria pele, muito menos seus genes egoístas. Formiga alguma pode se pôr a serviço de uma Palavra. Ela não tem linguagem nem cultura


de que se possa falar. Nós, usuários da linguagem, não temos apenas uma Palavra, mas muitas; e muitas palavras competem pela nossa atenção, e, em combinação, elas podem formar coalizões que rivalizam pela nossa fidelidade. É aí que o mérito da teoria das escolhas racionais é reconhecido. Porque, como já vimos, uma vez que as pessoas se tornam intendentes de seus memes preferidos, inicia-se uma corrida arma- mentista para as supostas melhorias. Todo o trabalho de projeto é principalmente uma questão de tentativa de acerto e erro, mas grande parte dele acontece off line, em representações de decisões nas mentes das pessoas que as consideram com cuidado antes de decidir de verdade sobre o que acham que vai funcionar melhor, dadas as informações limitadas a respeito do mundo cruel no qual os projetos serão testados. Pensar cuidadosamente é mais rápido e mais barato que fazer as experiências no mundo e deixar a natureza fazer a domesticação, mas a previsão humana que propicia a velocidade extra é falível e sujeita a desvios, de modo que muitas vezes cometemos enganos. A engenharia memética, do mesmo modo como a engenharia genética, pode criar monstros, se não formos cuidadosos, e se eles escaparem do laboratório, poderão proliferar, apesar de nossos melhores esforços. Temos sempre de nos lembrar da Segunda Regra de Orgel: a evolução é mais inteligente que você. (Peço licença aqui para uma pausa, chamando a atenção para o que acabamos de fazer. O ardente antidarwinismo nas ciências sociais e humanas tem, tradicionalmente, temido que uma abordagem evolutiva fosse afogar seus queridos modos de pensar - junto com seus heróicos autores, artistas, inventores e outros defensores e amantes de idéias. Desse modo, eles tenderam a declarar, com convicção desesperada, mas sem provas ou argumentos, que a cultura e a sociedade humanas só podem ser interpretadas, e nunca explicadas por meios causais, usando métodos e pressuposições que são completamente incomparáveis com os ou intradu- ztveis nos métodos e pressuposições das ciências naturais. "Você não pode chegar aqui por aí!", seria o lema deles. "O abismo é intransponível!" E, no entanto, acabamos de completar uma caminhada esquemática, mas nada milagrosa, e terra-a-terra, desde a natureza cega, mecânica, robótica, até a defesa apaixonada e a elaboração das mais exaltadas idéias conhecidas da humanidade. O abismo era uma ficção da imaginação temerosa. Poderemos nos perceber melhor como campeões de idéias e defensores de valores se primeiro examinarmos como chegamos a ocupar esse papel especial.) Uma vez que haja, no "mercado de idéias", ofertas de alternativas, os rivais maiores e melhores competem pela lealdade, inclusive não apenas das religiões em mutação, mas - no final - de instituições seculares também. Entre as coalizões baseadas no parentesco genético que vicejou na história humana recente estão partidos políticos, grupos revolucionários, organizações étnicas, sindicatos trabalhistas, times esportivos e, por último, mas não menos importante, a Máfia. A dinâmica dos participantes dos grupos (condições de entrada e saída, fidelidade e reforço a ela por punição ou outra coisa qualquer) foi intensivamente estudada nos últimos anos por pensadores evolutivos em diversas disciplinas: economia, ciência política, psicologia cognitiva, biologia e, é claro, filosofia.7 Os resultados emitiram luz sobre a cooperação e o altruísmo em contextos seculares assim como religiosos, e isso ajuda a enfatizar as características que distinguem as organizações religiosas de outras instituições.

3. O MERCADO DO CRESCIMENTO NA RELIGIÃO


Proposição 75: No ponto em que as economias religiosas não são reguladas e competitivas, os níveis gerais de participação religiosa serão altos. (Ao contrário, na falta de competição, as firmas dominantes serão ineficientes demais para sustentar esforços vigorosos de mercado, e o resultado será um baixo nível geral de participação religiosa, e a pessoa média minimiza e atrasa o pagamento dos custos religiosos.) [Rodney Stark e Roger Finke, Acts of Faith] Em todos os aspectos da vida religiosa, a fé norte-americana se encontrou com a cultura norte-americana - e a cultura norte-americana triunfou. [Alan Wolfe, The Transformation of American Religion] Temos um produto melhor que sabão ou automóveis. Temos a vida eterna. [Reverendo Jim Bakker8] Por que fazemos grandes sacrifícios para aumentar as perspectivas das organizações religiosas? Por que, por exemplo, uma pessoa pode escolher a fidelidade a uma religião quando já é, talvez, membro contribuinte de um sindicato trabalhista, um partido político e um clube social? Essas questões de "por que" começam por ser neutras entre dois tipos bastante diferentes de respostas: elas poderiam perguntar por que é racional escolher a fidelidade a uma religião, ou poderiam perguntar por que é natural (de algum modo) que pessoas se vejam atraídas para uma religião que impõe fidelidade a elas? (Pense na questão por que tantas pessoas têm medo de altura? Uma das respostas é: porque é racional ter medo de altura; você pode cair e se machucar! Outra é: nós desenvolvemos um cuidado instintivo, acionado pela percepção de que estamos expostos a uma grande altura; em algumas pessoas essa ansiedade extrapola sua utilidade; o medo delas é natural - podemos explicar a existência dele sem mistérios residuais -, mas irracional.) Se dermos uma boa examinada na primeira resposta com respeito à religião, tal como proposta pela teoria da escolha racional, será proveitoso ver as forças e as restrições que moldam as alternativas. Ao longo das duas últimas décadas, Rodney Stark e seus colegas fizeram um trabalho notável em articular a resposta da escolha racional, e eles alegam que, graças a seus esforços, “agora é impossível fazer um trabalho confiável no estudo científico social da religião com base na suposição de que a religiosidade é um sinal de burrice, neurose, pobreza, ignorância ou consciência falsa, ou representa uma fuga da modernidade (Stark e Finke, 2000, p. 18)”. Eles se concentram na religião nos Estados Unidos, e seu modelo básico é uma aplicação direta da teoria econômica: Realmente, depois de mais de dois séculos para se desenvolver sob condições de mercado livre, a economia da religião norte-americana ultrapassa os sonhos mais loucos de Adam Smith a respeito das forças criativas de um livre mercado (Moore, 1994). Existem mais de 1 500 seitas religiosas distintas (Mel- ton, 1998), muitas das quais de muito bom tamanho - 24 têm mais de um milhão de membros, cada uma. Cada um desses corpos depende inteiramente de contribuições voluntárias, e as doações religiosas norte-americanas atualmente totalizam mais de 60 bilhões de dólares por ano, ou mais de 330 dólares por pessoa com idade acima de dezoito anos. Esses totais incluem muitas


contribuições para fundos de construção de igrejas (a construção de novas igrejas chegou a 3 bilhões de dólares em 1993), além da maior parte das doações feitas a escolas religiosas, hospitais e missões no estrangeiro. Em 1996, mais de 2 bilhões de dólares foram doados para sustentar missionários, e uma quantia significativa foi gasta em missionários na Europa, [p. 223] H. L. Mencken uma vez opinou: "Os únicos protestantes realmente respeitáveis são os fundamentalistas. Infelizmente, eles são também bastante idiotas". Muitos compartilham dessa opinião, especialmente na academia, mas não Stark e Finke. Eles estão especialmente propensos a dissipar a bem conhecida idéia de que quanto mais fundamentalista ou evangélica for a seita, menos racional ela é: Entre as sugestões mais comuns sobre por que as igrejas evangélicas crescem estão sexualidade reprimida, divórcio, urbanização, racismo, sexismo, ansiedades quanto ao status social e rápida mudança social. Nunca os proponentes do velho paradigma ao menos exploram as possíveis explicações religiosas: por exemplo, que as pessoas são atraídas para as igrejas evangélicas por um produto superior, [p. 30] As pessoas suportam os pesados gastos de ser membros da igreja, e a igreja, em troca, é contratada "para apoiar e supervisionar seus intercâmbios com um Deus ou deuses" (p. 103). Stark e Finke esmiuçaram isso cuidadosamente, e a premissa que os estimula é a Proposição 6: "Em busca de recompensas, os seres humanos procurarão utilizar e manipular o sobrenatural" (p. 90). Algumas pessoas vão sozinhas, mas a maioria acha que precisa de ajuda, e é isso o que a igreja oferece. (Será que as igrejas realmente manipulam o sobrenatural? Será que Stark e Finke estão comprometidos com a alegação de que os intercâmbios com um Deus ou deuses realmente acontecem? Não, eles são estudiosamente agnósticos - ou assim dizem - nesse aspecto. Muitas vezes chamam a atenção para o fato de que seria perfeitamente racional investir em ações que acabam não valendo a pena, afinal.) Em um livro mais recente, One true God: historical consequences of monotheism (2001), Stark adota o papel de engenheiro memético, analisando os prós e os contras da doutrina como se ele fosse um consultor de publicidade. "Que tipos de deuses têm maior atratividade?" (p. 2). Aqui, ele distingue duas estratégias: Deus com essência (o Deus como a Base de Todos os Seres de Tillich, inteiramente não antropomórfico, fora do tempo e no espaço, abstrato) e Deus como um ser sobrenatural consciente (um Deus que escuta e atende a preces em tempo real, por exemplo). "Não existe uma diferença religiosa tão profunda quanto aquela entre fés que envolvem seres divinos e aquelas limitadas a essências divinas", diz ele, e julga a última como irremediável, porque "só os seres divinos fazem alguma coisa" (p. 10). Os seres sobrenaturais conscientes são vendedores muito melhores porque "o sobrenatural é a única fonte plausível de inúmeros benefícios que desejamos muito" (p. 12). As pessoas se importam com Deus porque, se ele existir, elas são parceiras em potencial de intercâmbio, de posse de fontes imensas. Além do mais, bilhões de pessoas têm certeza de que os deuses existem, exatamente porque acreditam ter tido a experiência de longas e satisfatórias relações de intercâmbio com eles [...] Porque são seres conscientes, os deuses são parceiros de intercâmbio em


potencial, pois se presume que todos os seres querem alguma coisa em troca daquilo pelo qual elas podem ser induzidas a dar alguma coisa de valor. [pp. 13 e 15]9 Ele acrescenta que um Deus compreensivo, paternal, "funciona como um parceiro de intercâmbio extremamente atraente, com quem se pode contar para maximizar os benefícios humanos" (p. 21). Chega a propor que um Deus sem um Satanás para contrabalançar é um conceito instável - "irracional e perverso". Por quê? Porque "um Deus de abrangência infinita deve ser responsável por tudo, tanto o mal como o bem, e portanto deve ser perigosamente caprichoso, desviando imprevisivelmente e sem motivo as intenções" (p. 24). Essa é a mesma raison detre avaliada por Jerry Siegel e Joe Shuster, os criadores do Super-Homem, quando inventaram a criptonita como algo que contrabalançasse o Homem de Aço: não há drama possível - nenhuma derrota a superar, ninguém pendurado em penhascos - se seu herói for poderoso demais! Mas, ao contrário do conceito da criptonita, esses conceitos de Deus e Satanás têm bases racionais descomprometidas, e não são invenções de nenhum autor em particular: Eu não tenho a intenção de sugerir que esse retrato dos deuses seja o produto de uma "criação" humana consciente. Ninguém se sentou e resolveu: vamos acreditar em um Deus supremo, rodeálo(la) com alguns seres subordinados e postular um ser malévolo inferior, sobre o qual se pode jogar a culpa do mal. Ao contrário, essa visão tende a evoluir ao longo do tempo porque é a conclusão mais razoável e satisfatória da cultura religiosa disponível, [pp. 25-26] Não se pode perder a nota de pé de página de Stark sobre essa passagem: "Tampouco estou preparado para negar que essa evolução reflete a descoberta progressiva da verdade pelo homem". Ah, isso é o que se quer! A história não apenas fica melhor; fica mais próxima da verdade. Uma jogada de sorte? Talvez não. Um Deus realmente bom não arranjaria as coisas dessa maneira? Talvez, mas o fato de que as considerações dramáticas ditem tão convenientemente os detalhes da história, isso realmente propicia uma explicação de por que os detalhes são como são, rivalizando com a suposição tradicional de que são simplesmente "a sincera verdade de Deus".

4. UM DEUS COM QUEM VOCÊ PODE FALAR O papa, tradicionalmente, reza pela paz toda Páscoa, e o fato de nunca ter havido qualquer efeito em evitar ou terminar uma guerra jamais o impediu de fazê- lo. O que será que se passa na cabeça do papa sobre ser rejeitado o tempo todo? Será que Deus tem raiva dele? [Andy Rooney, Sincerely, Andy Rooney] Seja lá o que possamos achar do agnosticismo confesso de Stark sobre esse ponto, certamente ele tem razão a respeito do principal resultado dos conceitos altamente abstratos de Deus: "Como as essências divinas são incapazes de intercâmbios, elas podem apresentar mistérios, mas não propõem questões táticas, e portanto não nos incentivam a fazer esforços para descobrir os termos de permuta (p. 16). Quem consegue ser fiel a um Deus a quem não se pode pedir nada? Não precisa ser o maná dos céus. Como disse uma vez o comediante Emo Phillips, "Quando eu


era criança costumava rezar, pedindo a Deus uma bicicleta. Mas então me dei conta de que Deus não funciona desse jeito - de modo que roubei uma bicicleta e rezei pedindo perdão!". E, como Stark observa, "As recompensas são sempre escassas, e algumas não são inteiramente disponíveis - pelo menos não estão disponíveis aqui e agora por meios convencionais" (p. 17). Um problema-chave de mercado para as religiões, então, é como convencer o cliente a esperar. A recuperação de um câncer é quase nada se comparada à vida eterna. Mas talvez o aspecto mais significativo das recompensas no outro mundo seja que a realização dessas recompensas é adiada (muitas vezes até após a morte). Como conseqüência, em busca de recompensas no outro mundo, os seres humanos irão aceitar um relacionamento estendido de intercâmbio com os deuses. Ou seja, os seres humanos farão pagamentos periódicos durante um período de tempo considerável, muitas vezes até à morte. [p. 19] O que pode ser feito para que as pessoas cumpram esses pagamentos? Curas milagrosas e viradas da sorte pedidas em preces rendem muito, é claro, propiciando provas de benefícios recebidos neste mundo por si próprio ou por outros, mas, mesmo na ausência deles, há características do projeto que se pagam convenientemente. A mais interessante é o efeito de inversão de preço descrito por Stark e Finke (2000): A resposta pode ser encontrada em economia elementar. O preço é apenas um fator em qualquer permuta; qualidade é outro, e, combinados, eles rendem uma estimativa de valor. Aí reside o segredo da força de grupos religiosos de maior tensão: apesar de serem caros, eles oferecem um alto valor; na verdade, eles conseguem fazer isso porque são caros. [p. 145] “A tensão se refere ao grau de distinção, de separação e antagonismo entre um grupo religioso e o mundo lá fora” (p. 143). Desse modo, num espectro de baixo a alto, igrejas grandes estabelecidas são de baixa tensão, e seitas e cultos são de alta tensão. Uma religião cara é alta "nos custos materiais, sociais e psicológicos para a ela pertencer". Não custa apenas tempo gasto nas obrigações religiosas e dinheiro na bandeja de coleta; pertencer pode incorrer em perda de status social e acabar realmente exacerbando - em vez de aliviar - a ansiedade e o sofrimento. Mas você tem aquilo pelo que você paga: ao contrário dos gentios, você é salvo para a eternidade. Até o ponto em que uma pessoa é motivada por valor religioso, deve-se preferir um fornecedor de preço mais alto. Não apenas os grupos religiosos mais caros oferecem produtos de maior valor, mas, ao fazer isso, geram os níveis de compromisso necessários para maximizar os níveis individuais de confiança na religião - na verdade das doutrinas fundamentais, na eficácia de suas práticas e na certeza das promessas no outro mundo. [pp. 146-47] Quanto mais você tiver investido em sua religião, mais você ficará motivado a proteger esse investimento. Stark e Finke não estão sozinhos em ver que os custos podem algumas vezes fazer bom sentido em economia. Por exemplo, os economistas evolutivos Samuel Bowles e Herbert Gintis (1998, 2001) desenvolveram modelos formais de comunidades que promovem normas pró-sociais, "traços culturais governando ações que afetam o bem-estar de outros, mas não


podem ser regulados por contratos impossíveis de ser implementados sem custos" (2001, p. 345). Os modelos mostram que esses efeitos pró-sociais dependem de "acesso de baixo custo a informações sobre outros membros da comunidade , além da tendência a favorecer interações com membros do grupo e restringir a migração para dentro e para fora, aspectos que Stark e Finke também abordam.10 Os altos custos de entradas e saídas são tão cruciais para a sobrevivência desses arranjos como a membrana que recobre uma célula: a automa- nutenção é cara e se torna mais eficiente por uma distinção rigorosa entre eu e o resto do mundo (no caso de uma célula), ou entre nós e eles (no caso de uma comunidade). O trabalho de Bowles e Gintis não fornece apenas o apoio formal para algumas das proposições defendidas por Stark e Finke; ele mostra que a deplorável xenofobia encontrada em comunidades religiosas de "alta tensão" não é uma característica especificamente religiosa. A xenofobia, argumentam eles, é o preço que qualquer comunidade ou grupo deve pagar por um nível elevado de confiança interna e harmonia, e, mais que tudo, é um preço que, no final, podemos estar dispostos a pagar: "Longe de serem vestígios de anacronismos, achamos que as comunidades podem se tornar mais, e não menos, importantes no nexo de estruturas de governo nos anos por vir, já que as comunidades podem reivindicar algum sucesso em abordar problemas de governo não tratáveis por soluções de mercado ou do Estado" (Bowles e Gintis, 2001, p. 364). As aplicações da teoria da escolha racional de Stark e Finke a muitas das tendências e disparidades observadas nas denominações religiosas norte-americanas ainda não foram provadas, e encorajaram detratores, mas elas certamente valem maiores pesquisas. E as implicações de algumas das proposições são mesmo provocadoras. Por exemplo: Proposição 76. Mesmo onde a competição é limitada, as firmas religiosas podem gerar altos níveis de participação, na medida em que as firmas servem como veículos organizacionais primários para o conflito social. (Ao contrário, se as firmas religiosas se tornam significativamente menos importantes como veículos para o conflito social, elas serão, correspondentemente, menos aptas a gerar compromisso), [p. 202] Em outras palavras, espere que as "firmas" religiosas explorem e exacerbem os conflitos sociais sempre que possível, já que este é um modo de gerar negócios. Isso pode ser bom (resistência dos poloneses católicos ao comunismo) ou mau (o interminável conflito na Irlanda). Os detratores irão dizer que nós já sabíamos isso a respeito da religião, mas o argumento de que essa é uma característica sistemática, conseqüência de outras características e que ainda interage com outras de modos previsíveis, é, se for verdade, exatamente o tipo de fato que vamos querer compreender profundamente quando lidarmos com os conflitos sociais no futuro. Quando os líderes religiosos e seus críticos, tanto dentro como fora de suas religiões, pensam em reformas e melhorias possíveis, eles estão se estabelecendo - gostem ou não - como engenheiros meméticos, mexendo nos projetos que foram legados a eles por tradição para que ajustem os efeitos observáveis. Algumas das observações mais reveladoras no livro de Stark e Finke são as críticas acerbas quanto às reformas bem-intencionadas que saíram pela culatra. Será que estão certos quanto ao principal motivo do súbito declínio nas vocações católicas depois do Concilio Vaticano?


Antes, a Igreja católica ensinou que os padres e os religiosos (freiras e monges) estavam em um estágio superior de santidade. Agora, apesar de seus votos, eles são exatamente como todo mundo [...] A laicidade ganhou alguns dos privilégios dos padres e não tem de suportar a carga do celibato ou prestar contas diretas à hierarquia da Igreja. Para muitos, o sacerdócio já não era um bom negócio, depois do esforço de renovação do Concilio Vaticano n. [pp. 177 e 185] Ou será que eles estão errados? A única maneira de descobrir é pesquisar. A falta de palatabilidade não é um sinal confiável de falsidade, e as homílias piedosas que muitas vezes orientaram os reformadores iniciais precisam ser confirmadas, refutadas - ou então desconsideradas. As apostas são altas demais para as mancadas de amadores bem-intencionados. Como fiz anteriormente, nas minhas discussões do trabalho de Boyer, Wilson e outros, não estou declarando um veredicto a respeito da solidez ou conclusividade de nenhum desses trabalhos, mas apenas apresentando o que considero exemplos do trabalho que precisa ser levado a sério daqui para a frente, refutado firmemente e com justiça, ou - não importa quão relutantemente reconhecido por suas contribuições genuínas para o nosso entendimento. No caso do ponto de vista sincero de Stark, eu mesmo tenho profundas dúvidas, algumas das quais surgirão quando nos voltarmos para algumas das complicações que ele tão resolutamente deixa de lado. Stark e Finke expressam o seu posicionamento fundamental quando desacreditam o After God: The Future of Religion de Don Cupitt (1997), que endossa um tipo de religião da qual foram retirados todos os traços do sobrenatural: Mas por que uma religião sem Deus teria futuro? As prescrições de Cupitt nos dão a impressão de que espera que as pessoas continuem a comprar entradas para o futebol e a encontrar-se nas arquibancadas para ver os jogadores que, por falta de uma bola, só ficam por ali. Se não houver entes sobrenaturais, então não haverá milagres, não há salvação, as preces não têm sentido, os Mandamentos não passam de sabedoria antiga, e a morte é o fim. O que faria com que a pessoa racional não tivesse nada a ver com a Igreja. Ou, mais exatamente, uma pessoa racional não teria nada a ver com uma Igreja como essa. [p. 146] Linguagem forte, mas eles têm de reconhecer que Cupitt e os demais que desviaram seu olhar do Deus Negociante estavam plenamente conscientes de suas atrações e devem ter tido suas razões (articuladas ou não) para resistir a ela com tanta arte durante tanto tempo. O que pode ser dito em favor do caminho Deus-como-Essência - ou melhor, caminhos, uma vez que tem havido muitos modos diferentes de tentar conceber Deus em termos menos antropomórficos? Acho que a chave pode ser encontrada em algumas das observações dos próprios Stark e Finke: Dado o fato de que a religião é mercadoria de risco, e que as pessoas muitas vezes podem aumentar seu fluxo de benefícios imediatos por meio da inatividade religiosa, parece pouco provável que qualquer quantidade de pluralismo e comércio vigoroso possa jamais alcançar qualquer coisa próxima à penetração total do mercado. A proporção de norte-americanos que de fato pertence a uma congregação de igreja específica (em oposição a dar o nome de uma preferência religiosa, ao ser perguntado) tem pairado em torno dos 65% durante muitas


décadas - não mostrando qualquer tendência para reagir até aos ciclos econômicos principais, [p. 257] Será interessante tentar saber mais a respeito dos 35% não talhados para a Igreja, além da proporção daqueles que vão à igreja mas não são talhados para religiões de alta tensão, caras, do tipo que Stark favorece. Eles existem pelo mundo todo; de acordo com Stark e Finke, "Existem religiões 'sem Deus', mas seus seguidores estão restritos a elites pequenas - como no caso das formas de elite do budismo, taoísmo e confucionismo" (p. 20). As atrações de unitarismo, episcopalismo e judaísmo reformado não estão restritas às tradições vindas de Abraão, e se as "elites" acham que simplesmente não conseguem "acreditar que experimentaram relações longas e satisfatórias com" Deus, por que persistem com (alguma coisa que eles chamam de) a religião? *** Capítulo 7. A tendência humana a formar grupos é menos calculada e prudente do que parece em alguns modelos econômicos, mas também mais complicada que o instinto de rebanho desenvolvido em alguns animais. O que complica o quadro é a linguagem e a cultura humanas, e a perspectiva dos memes nos permite compreender como os fenômenos da lealdade humana são influenciados por uma mistura de raciocínios generalizados e bem amarrados. Podemos fazer progressos reconhecendo que não é preciso lançar mão da submissão a uma religião como uma decisão econômica deliberada, ao mesmo tempo que reconhecemos o poder analítico e profético da perspectiva que encara as religiões como sistemas planejados, competindo em um mercado dinâmico, por parte de adeptos com diferentes necessidades e gostos. *** Capítulo 8. A intendência de idéias religiosas cria um fenômeno poderoso: crença na crença, o que transforma radicalmente o conteúdo das crenças subjacentes, tornando difícil, se não impossível, sua investigação racional.


8. CRENÇA NA CRENÇA 1. É MELHOR VOCÊ ACREDITAR

Acho que Deus honra o fato de que eu quero acreditar Nele, tenha eu certeza OU não. [Informante anônimo, citado por Alan Wolfe em The Transformation of American Religion] A prova de que o Demônio existe, age e tem sucesso é exatamente não acreditarmos mais nele. [Denis de Rougement, The Devins Share] No final do capítulo 1 prometi voltar à pergunta de Hume em seus Diálogos sobre a religião natural: de se temos boas razões para acreditar em Deus. Neste capítulo vou manter a minha promessa. Os capítulos anteriores lançaram novas bases para essa investigação, mas também desvendaram alguns problemas que a rodeiam e que precisam ser tratados antes de haver qualquer confrontação efetiva entre teísmo e ateísmo. Uma vez que nossos ancestrais se tornaram reflexivos (e hiper-refle- xivos a respeito de suas próprias crenças) e se autonomearam intendentes das crenças que julgaram mais importantes, o fenômeno de acreditar na crença se tornou uma força social em si, algumas vezes eclipsando os fenômenos de ordem inferior que eram seus objetos. Considere alguns casos que têm força hoje. Como muitos de nós acreditamos na democracia e reconhecemos que a segurança da democracia no futuro depende, criticamente, da manutenção da crença na democracia, temos a compulsão de citar (e citar e citar) a famosa frase de Winston Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que foram tentadas até agora". Como gerentes da democracia, muitas vezes entramos em conflito - ansiosos por apontar falhas que devem ser corrigidas e igualmente ansiosos para assegurar às pessoas que as falhas não são tão ruins, que a democracia consegue se policiar, para que a fé delas não se perca. O mesmo aspecto pode ser adotado em relação à ciência. Uma vez que a crença na integridade dos procedimentos científicos é quase tão importante como a integridade propriamente dita, há sempre uma tensão entre os denunciadores e as autoridades, mesmo quando os cientistas sabem que atribuíram, de modo errado, respeitabilidade científica a resultados obtidos fraudulentamente. Será que eles deveriam rejeitar em silêncio o trabalho ofensivo e discretamente demitir o perpetrador, ou fazer um grande estardalhaço?' Parte do intenso fascínio público pelo julgamento de celebridades deve ser explicado pelo fato de que a crença no código de leis é considerada um ingrediente vital na nossa sociedade; desse modo, se as pessoas famosas forem vistas como acima da lei, isso porá em risco a crença


geral no código. Assim, estamos interessados não apenas no julgamento, mas nas reações públicas a ele, nas reações a essas reações, criando uma espiral inflacio- nária de cobertura da mídia. Nós, que vivemos em democracias nos tornamos um tanto obcecados em avaliar a opinião pública sobre qualquer tipo de tema, e com boas razões: em uma democracia, realmente tem importância o que as pessoas acham. Se o público não puder ser mobilizado em períodos longos de vergonha por relatos de corrupção, ou da tortura de prisioneiros por nossos agentes, por exemplo, os limites impostos à nossa democracia estarão em risco. Em seu esperançoso livro Desenvolvimento como liberdade (1999), e em outros lugares (ver especialmente Sen, 2003), o ganhador do Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen apresenta o importante argumento de que não é preciso ganhar uma eleição para atingir seus objetivos políticos. Mesmo em democracias claudicantes, o que os líderes crêem a respeito das crenças que prevalecem em seus países influencia aquilo que eles adotam como suas opções realistas, de modo que a manutenção da crença é um objetivo político importante em si. Ainda mais importante que as crenças políticas, aos olhos de muitos, é o que podemos chamar de crenças metafísicas. O nihilismo - a crença em nada - tem sido visto por muitos como um vírus perigoso, por motivos óbvios. Quando Friedrich Nietzsche inventou sua idéia de Eterno Retorno - ele achou que tinha provado que vivemos nossa vida muitas vezes, infinitamente -, sua primeira inclinação (de acordo com certas histórias) foi matar-se sem revelar a prova, para poupar aos outros essa crença destruidora da vida.2 A crença na crença de que alguma coisa é importante tornou-se compreensivelmente forte e amplamente disseminada. A crença no livrearbítrio é outra visão protegida com vigor pelos mesmos motivos. Aqueles cujas investigações parecem pôr essas crenças em risco muitas vezes são deturpados, deliberadamente, para desacreditar aquilo que parece ser uma tendência perigosa (Dennett, 2003c). O físico Paul Davies (2004) recentemente defendeu o ponto de vista de que a crença no livre- arbítrio é tão importante que pode ser "uma ficção digna de ser mantida". É interessante que ele não pareça achar que sua própria descoberta da horrível verdade (o que ele considera uma verdade horrível) o incapacite moralmente, mas acredita que os outros, mas frágeis que ele, precisam ser protegidos dela. Ser o mensageiro involuntário ou indiferente de boas notícias ou de notícias ruins é uma coisa; ser o autonomeado paladino de um meme é outra coisa inteiramente diferente. Uma vez que as pessoas começam a se comprometer (em público ou apenas em seus "corações") com idéias particulares, tem início um estranho processo dinâmico, no qual o comprometimento original é enterrado em camadas superpostas de reações e metar- reações defensivas. "As regras pessoais são um mecanismo recursivo-, eles continuamente verificam seu pulso, e se sentem que ele vacila, esse fato irá provocar novos tropeços", observa o psiquiatra George Ainslie em seu notável livro, Breakdcrwn ofWill (2001, p. 88). Ainslie descreve a dinâmica desses processos em termos de compromissos estratégicos concorrentes que podem se bater pelo controle em uma organização - ou um indivíduo. Uma vez que você começa a viver por um conjunto explícito de regras, as apostas são formuladas: diante de um deslize, o que deve fazer? Punir-se? Perdoar-se? Fingir que não notou? Depois de um deslize, o interesse de longo prazo é como a posição incômoda de um país que ameaçou entrar em guerra em uma determinada circunstância. O país quer


evitar a guerra sem perder a credibilidade de sua ameaça, e poderá, portanto, procurar meios para fazer ver que não detectou a circunstância. Se você se achar desconsiderando um deslize, seu interesse de longo prazo sofrerá, mas talvez não, se você conseguir um modo de desconsiderá- lo sem ser apanhado nesse ato. Esse arranjo também deve continuar sem ser detectado, o que quer dizer que um processo bem-sucedido de desconsideração deverá estar entre os muitos expedientes mentais que surgem por tentativa e erro - aqueles que você mantém simplesmente porque eles o fazem sentir-se melhor sem você se dar conta do porquê. [p. 150] Essa idéia de que existem mitos dos quais vivemos, mitos que devem ser mantidos a qualquer custo, está sempre em conflito com o nosso ideal de busca da verdade e de dizer a verdade, algumas vezes com resultados lamentáveis. Por exemplo, o racismo tem sido amplamente reconhecido como um grande mal social, de modo que muitas pessoas reflexivas vieram a endossar a crença de que a crença na igualdade das pessoas, independentemente da raça, deve ser vigorosamente promovida. Quão vigorosamente? Aqui as pessoas de boa vontade diferem vivamente. Alguns acreditam que a crença em diferenças raciais é tão perfiiciosa que até mesmo quando é verdadeira deve ser esmagada. Isso levou a alguns excessos bastante infelizes. Por exemplo, há dados clínicos claros a respeito de como as pessoas de etnias diferentes são suscetíveis a diferentes doenças, ou reagem de modo diferente a diversas drogas, mas esses dados são considerados fora de cogitação para alguns pesquisadores e para alguns financiadores de pesquisas. Isso tem o efeito perverso de evitar linhas de pesquisas bem pertinentes, com enorme prejuízo para a saúde do grupo étnico em questão.3 Ainslie revela a manutenção estratégica de crenças em uma ampla variedade de acalentadas práticas humanas: Atividades que são estragadas ao serem relatadas, ou com as quais se conta, devem ser empreendidas dissimuladamente, se for para preservar o seu valor. Por exemplo, o romance empreendido por sexo, ou até "para ser amado", é considerado grosseiro, do mesmo modo que algumas das profissões mais lucrativas, se adotadas por dinheiro, ou a execução de arte, se produzida pelo efeito. Uma percepção exacerbada das condições motivadoras de sexo, afeto, dinheiro ou aplausos estraga o esforço, e não apenas porque desengana as outras pessoas envolvidas. As crenças a respeito do valor intrínseco dessas atividades são valorizadas além de qualquer exatidão que essas crenças possam ter, porque elas promovem a necessária dissimulação. [Ainslie, prelo] Embora não se restrinja à religião, em nenhum outro lugar a crença na crença tem uma máquina de elaboração mais fecunda. Ainslie supõe que isso explica alguns dos desconcertantes tabus epistêmicos encontrados nas religiões: Do sacerdócio à cartomancia, o contato com o intuitivo parece precisar de algum tipo de adivinhação. Isso é ainda mais verdadeiro para as abordagens que cultivam um sentido de empatia com Deus. Diversas religiões proíbem a tentativa de tornar sua divindade mais tangível, produzindo imagens dela, e o judaísmo ortodoxo proíbe até que se pronuncie seu nome. A experiência da presença de Deus deve vir por meio de algum tipo de convite que ele pode ou não aceitar, não


por meio de invocação. [2001, p. 192] O que fazem as pessoas ao descobrirem que não acreditam mais em Deus? Algumas não fazem nada; não param de ir à igreja e nem sequer contam aos seus entes queridos. Simplesmente prosseguem com suas vidas, do mesmo modo moral (ou imoral) como viviam antes. Outros, como Don Cupitt, autor do After God: The Future ofReligion, sentem necessidade de procurar um credo religioso que possam endossar de coração aberto. Eles têm uma crença firme em que a crença em Deus é algo a ser preservado. Desse modo, quando acham os conceitos tradicionais de Deus francamente incríveis, eles não desistem. Procuram um substituto. E a busca, mais uma vez, não precisa ser totalmente consciente ou deliberada. Sem nunca perceber francamente que um ideal acalentado está de algum modo sob ameaça, as pessoas podem ser comovidas fortemente por um medo sem nome, o deprimente sentimento de uma perda de convicção, uma ameaça intuída, mas não articulada, que precisa ser combatida com vigor. Isso as coloca em um estado de espírito que as torna particularmente receptivas a novas ênfases que de algum modo pareçam certas ou justas. Como a fabricação de lingüiça e a elaboração da legislação em uma democracia, a revisão dos credos é um processo perturbador, ao ser examinado de perto, de forma que não é de admirar que a bruma do mistério desça misericordiosamente sobre ela. Muito se tem escrito, ao longo dos séculos, a respeito dos processos históricos pelos quais o politeísmo foi transformado em monoteísmo - a crença nos deuses substituída pela crença em Deus. Menos acentuado é o aspecto de como essa crença em Deus uniu suas forças com a crença na crença em Deus para motivar a migração do conceito de Deus, nas religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), para longe do antropo- morfismo concreto, e em direção a conceitos cada vez mais abstratos e des- personalizados. O notável, a esse respeito, pode ser iluminado em contraste com outros desvios conceituais ocorridos durante o mesmo período. Conceitos fundamentais certamente podem mudar ao longo do tempo. Nosso conceito de matéria mudou bem radicalmente desde os dias dos antigos atomistas gregos. Nossas concepções científicas de tempo e espaço, hoje, graças a relógios, telescópios, Einstein e outros, também são diferentes das deles. Alguns historiadores e filósofos têm argumentado que esses desvios não são tão graduais como podem parecer de início, mas, ao contrário, são saltos abruptos, tão drásticos que os conceitos de antes e depois, de algum modo, tornaram-se "incomensuráveis".' Será que algumas dessas revisões conceituais são mesmo revolucionárias a ponto de tornar a comunicação através das eras impossível, como alguns argumentaram? O caso é difícil, já que aparentemente conseguimos mapear as mudanças com exatidão e em detalhes, compreendendoas, todas, à medida que avançamos. Em particular, não parece haver motivos para acreditar que nossas concepções de espaço e tempo, no dia-a-dia, pudessem ser um tanto estranhas a Alexandre, o Grande, digamos, ou a Aristófanes. Não teríamos muita dificuldade em conversar com qualquer um deles a respeito de hoje, amanhã e ano passado, ou dos milhares de jardas ou passos entre Atenas e Bagdá. Mas se tentássemos conversar com os antigos a respeito de Deus, encontraríamos um abismo muito maior nos separando. Não consigo me lembrar de outro conceito que tenha sido submetido a uma deformação tão dramática. É como se o conceito deles de leite tivesse se transformando no nosso conceito de saúde, ou como se o conceito deles de fogo tivesse se transformado no nosso conceito de energia. Você não pode literalmente beber saúde ou literalmente apagar a energia, e (hoje, de acordo com muitos, mas não todos os crentes) você não pode literalmente escutar Deus ou literalmente sentar-se ao lado Dele. Mas, para os


monoteístas originais, essas reivindicações seriam mesmo muito estranhas. O Jeová, ou Yahweh, do Velho Testamento era bem claramente um super -homem (um Ele, não uma Ela) que conseguia tomar partido em batalhas, ser ciumento e raivoso. O Senhor original do Novo Testamento é mais complacente e amoroso, mas ainda é um Pai, não uma Mãe ou uma Força sem gênero, e encontrase ativo no mundo, nem é preciso dizer, por intermédio de seu Filho fazedor de milagres. A Pessoa sem gênero, sem um corpo, que não obstante atende às preces em tempo real (o ser consciente sobrenatural de Stark), ainda está antropomórfica demais para alguns, que preferem falar de um Poder mais Alto (a essência de Stark), cujas características estão além da compreensão - fora o fato de serem, de algum modo incompreensível, boas, e não ruins.5 Será que o Poder mais Alto tem uma inteligência (criativa)? Como? Será que Isso (não Ele ou Ela) se importa conosco? A respeito de qualquer coisa? A bruma do mistério desceu convenientemente sobre todas as feições antropomórficas que não foram abandonadas por completo. Aí uma adaptação foi enxertada: é falta de educação perguntar a respeito dessas questões. Se você persistir, é provável que receba uma resposta do tipo: "Deus pode ver quando você está fazendo alguma coisa má no escuro, mas Ele não tem pálpebras e nunca pisca, seu ignorante, seu bobo. É claro que Ele pode ler a sua mente, mesmo quando você tem o cuidado de não falar consigo mesmo, mas ainda assim Ele prefere que você faça suas preces em palavras, e não me pergunte por quê ou como. Estes são mistérios que nós, mortais finitos, jamais entenderemos". Pessoas de todos os credos aprenderam que esse tipo de questionamento é de algum modo insultuoso ou degradante para a fé e deve ser uma tentativa de ridicularizar suas opiniões. Que bela tela de proteção é propiciada por esse vírus - permitindo que, sem esforço, ele lance os anticorpos do ceticismo! Mas nem sempre funciona, e quando o ceticismo fica mais ameaçador, medidas mais fortes podem ser invocadas. Uma das mais eficazes é também uma das mais transparentes: a velha mentira diabólica - o termo vem de Rougemont (1944) que fala da "suposta propensão do 'Pai das Mentiras' de aparecer como seu próprio oposto". E quase literalmente um truque com espelhos, e, como muitos bons truques de mágica, tão simples que se torna difícil acreditar que possa funcionar. (Mágicos noviços muitas vezes devem se insensibilizar para executar os truques pela primeira vez em público - simplesmente não parece possível que o público vá cair, mas cai.) Se eu estivesse planejando uma falsa religião, com certeza incluiria uma versão dessa pequena jóia - mas teria dificuldade em dizer isso com a cara séria: Se qualquer pessoa alguma vez levantar questões ou objeções que você não consiga responder a respeito da nossa religião, essa pessoa é, quase com toda certeza, Satanás. De fato, quanto mais razoável for a pessoa, quanto mais ansiosa estiver por envolvê-lo em discussões de mente aberta e agradável, maior certeza você pode ter de que está falando com Satanás disfarçado! Dê- lhe as costas! Não ouça! E uma armadilha! O que é particularmente engenhoso nesse truque é que ele é um perfeito "coringa", tão desprovido de conteúdo que qualquer seita, credo ou conspiração pode usá-lo com eficácia. Células comunistas podem ser avisadas de que quaisquer críticas que tenham de enfrentar são quase certamente obra de membros do fbi infiltrados, disfarçados; grupos de discussão feministas radicais podem esmagar qualquer crítica irrespondível declarando que é propaganda


falocêntrica, inconscientemente espalhada por um trouxa que sofreu lavagem cerebral do patriarcado malvado, e daí por diante. Esse impositor de lealdade de múltiplo uso é paranóia em pílula, um remédio certo para manter os críticos abafados, se não silentes. Será que alguém inventou essa adaptação brilhante, ou será um meme selvagem que se domesticou, agregando-se a qualquer meme que estivesse competindo por hospedeiros na vizinhança? Ninguém sabe, mas agora está disponível para o uso de qualquer um - embora, se este livro tiver algum sucesso, sua virulência possa diminuir à medida que as pessoas começarem a reconhecê-lo pelo seu valor real. (Uma reação mais suave e construtiva ao incansável ceticismo é a vigorosa indústria acadêmica da discussão e pesquisa teológica, que muito respeitosamente pergunta sobre as interpretações possíveis de diversos credos. Esse honesto exercício intelectual arranha a coceira cética daquelas poucas pessoas que não se sentem confortáveis com os credos que lhes foram ensinados quando crianças, e é desconsiderado por todos os demais. A maioria das pessoas não sente necessidade de examinar os detalhes das proposições religiosas que professam.) Declara-se que as diversas concepções de Deus estão rodeadas de mistério, mas não há nada de misterioso no processo de transformação, que está claro para todos nós e tem sido descrito (e muitas vezes desacreditado) por gerações de supostos intendentes dessa importante idéia. Por que os intendentes simplesmente não cunham termos novos para as concepções revisadas e largam os termos tradicionais junto com as concepções descartadas? Afinal de contas, não persistimos na terminologia médica fora de moda de humores e apoplexia, nem insistimos em encontrar alguma coisa na física ou na química contemporânea que possamos identificar como flogístico. Ninguém propôs que tenhamos descoberto a identidade do élan vital (o ingrediente secreto que distingue as coisas vivas da mera matéria); não é DNA (os vitalistas simplesmente não tinham a concepção certa dele, mas sabiam que devia haver alguma coisa). Por que as pessoas insistem em chamar de "Deus" o Poder mais alto no qual acreditam? A resposta está clara: os que acreditam na crença de Deus avaliaram que a continuidade em professar exige continuidade na nomenclatura, que fidelidade à marca é um aspecto tão valioso que seria bobagem mexer com ela. Desse modo, seja lá que outras reformas você possa querer instituir, não tente substituir a palavra "Deus" ("Jeová", "Teos", "God", "o Todo-Poderoso", "Nosso Senhor", "Alá") quando remendar sua religião.6 No início era o Verbo, a Palavra. Devo dizer que isso funcionou bastante bem, até certo ponto. Durante milhares de anos, aproximadamente, mantivemos uma multiplicidade de conceitos de Deus de diversos modos desantropomorfizados, intelectualizados, todos mais ou menos em pacífica coexistência na cabeça dos "crentes". Como todo mundo chama sua versão de "Deus", existe alguma coisa "a respeito da qual podemos concordar" - todos acreditamos em Deus; não somos ateus! Mas é claro que não funciona assim tão bem. Se Lucy acredita que pode morrer por Rock (Hudson), e Desi acredita que pode morrer pelo rock (música), elas realmente não concordam a respeito de coisa alguma, não é? O problema não é novo. Já no século XVIII, Hume tinha decidido que "nossa idéia da divindade" mudou tanto que os deuses da Antigüidade simplesmente não contavam, eram antropomórficos demais: Para qualquer pessoa que pense na questão com justiça, pode parecer que os deuses de todos os politeístas não são melhores que os elfos e fadas dos nossos


ancestrais, e merecem igualmente pouca adoração ou veneração piedosa. Esses pretensos estudiosos da religião são na verdade uma espécie de ateus supersticiosos, e não reconhecem qualquer ser que corresponda à nossa idéia de uma divindade. Nenhum primeiro princípio de mente ou pensamento: nenhum governo ou administrador supremo: Nenhum plano ou intenção divino no tecido do mundo. (1777, p. 33) Mais recentemente, e tomando a direção oposta, Stark e Finke (2000) expressaram consternação quanto às opiniões "ateísticas de John Shelby Spong, o bispo episcopal de Newark, cujo Deus não era suficientemente antropomórfico. Em seu livro de 1998, Why christianity must change orâie, Spong desconsidera a divindade de Jesus, declara que a crucificação é uma "barbaridade" e opina que o Deus dos cristãos mais tradicionais é um ogro. Outro eminente clérigo episcopal confiou uma vez para mim que, quando descobriu no que alguns mórmons tinham fé quando diziam que acreditavam em Deus, ele achou melhor que os mórmons não acreditassem em Deus! Por que ele não dizia isso de seu púlpito? Porque não quer ficar mal. Afinal, há muitas pessoas más e "sem Deus" por aí, e não ia dar certo perturbar a frágil ficção de que "não somos ateus" (Deus nos livre!).

2. DEUS COMO OBJETO INTENCIONAL Disse o insensato no seu coração, não há Deus. [Salmos 14, 1 (também 53,1)] A crença na crença em Deus faz com que as pessoas relutem em reconhecer o óbvio: que muito da sabedoria popular tradicional a respeito de Deus não merece mais crença que a sabedoria popular a respeito de Papai Noel ou da Mulher Maravilha. Curiosamente, tudo bem rir disso. Pense em todas as histórias em quadrinhos que representam Deus como um sujeito severo, barbado, sentado em uma nuvem com uma pilha de raios a seu lado, para não falar das piadas, sujas e limpas, a respeito das diversas pessoas que chegam ao céu e têm uma desventura ou outra. Esse tesouro de humor provoca risadas sinceras de todo mundo, com exceção dos puritanos mais conservadores, mas poucos se sentem confortáveis em reconhecer como nos afastamos do Deus do Gênesis 2, 21, que literalmente arranca uma costela de Adão e fecha a carne (com os dedos, imagina-se) antes de esculpir Eva ali mesmo. Em O ca-pelão do diaho, Richard Dawkins (2003a) oferece alguns conselhos bem fundamentados - mas já sabe de antemão que não serão considerados, porque as pessoas já vêem a frase final da piada: [...] teístas modernos podem reconhecer que, quando se trata de Baal e do Bezerro de Ouro, Thor e Wotan, Possêidon e Apoio, Mithras e Ammon Ra, eles são mesmo ateus. Todos somos ateus em relação à maior parte dos deuses em que a humanidade já acreditou. Alguns de nós só estamos a um deus adiante, [p. 150] O problema é que, como esse conselho não será considerado, as discussões sobre a existência de Deus tendem a acontecer numa bruma piedosa de limites indeterminados. Se os teístas fizessem o favor de fazer uma lista resumida de todos os conceitos de Deus a que eles renunciam como tolice antes de continuar, nós, ateus, saberíamos exatamente que tópicos ainda


estão valendo. Mas, por uma mistura de cuidado, lealdade e relutância em ofender alguém "do lado deles", os teístas em geral se recusam a fazer isso.7 Não ponha todos os ovos na mesma cesta, eu acho. Esse padrão duplo é possibilitado, se não permitido, por uma confusão lógica que continua a desafiar a resolução dos filósofos que trabalharam nele: o problema dos objetos intencionais.8 Em uma expressão (que se mostrará insatisfatória, como logo veremos), os objetos intencionais são as coisas a respeito das quais alguém pode pensar. Eu acredito em bruxas? Depende do que você quer dizer. Se você quer dizer mulheres más que lançam feitiços e voam sobrenaturalmente em vassouras, e que usam chapéus pretos pontudos, a resposta é óbvia: não, eu não acredito em bruxas, do mesmo modo como não acredito no Coelhinho da Páscoa ou na Fada Madrinha. Se você quer dizer pessoas, tanto homens como mulheres, que praticam a Wicca, um culto popular da Nova Era de hoje, a resposta é igualmente óbvia: sim, acredito em bruxas; elas não são mais sobrenaturais do que as "bandeirantes" ou os rotarianos. Acredito que essas bruxas possam lançar feitiços? Sim e não. Elas proferem sinceramente imprecações de vários tipos, esperando alterar o mundo de diversos modos sobrenaturais, mas estão erradas em achar que conseguem, embora possam por esse meio modificar suas próprias atitudes e seus comportamentos. (Se eu lançar um mau-olhado em você, você pode ficar seriamente amedrontado a ponto de cair seriamente doente, mas se isso acontecer, é porque você é crédulo, não porque eu tenho poderes mágicos). 9 Então, tudo depende do que você quer dizer. E como depende! Há cerca de quarenta anos, na Inglaterra, eu assisti a um programa de notícias na BBC no qual crianças do jardim-de-infância foram entrevistadas a respeito da rainha Elizabeth n. O que sabiam elas da rainha? As respostas foram encantadoras: a rainha usava coroa enquanto "pairava" por cima do Palácio de Buckingham, sentava-se no trono enquanto assistia televisão, e em geral se comportava como um cruzamento entre a mamãe e a Rainha de Copas. Essa rainha Elizabeth 11, o objeto intencional trazido à existência (como uma abstração) pelas convicções consensuais dessas crianças, era muito mais interessante e divertida que a mulher real. E uma força política muito mais forte! Existem, então, duas entidades distintas, a mulher real e a rainha imaginária, e, se for assim, será que não existem bilhões de entidades diferentes - a rainha Elizabeth 11 em quem os adolescentes na Escócia acreditam, e a rainha Elizabeth n em quem o pessoal do Castelo de Windsor acredita, e a minha rainha Elizabeth n, e daí por diante? Os filósofos discutiram vigorosamente por quase um século a respeito de como acomodar esses objetos intencionais em suas ontologias - seus catálogos das coisas que existem - sem chegar a um consenso. Outro bretão eminente é Sherlock Holmes, em quem se pensa freqüentemente, embora nunca tenha existido. Em um sentido ou outro, há tanto verdade como falsidade a respeito desses objetos (meramente) intencionais: é verdade que Sherlock Holmes (o objeto intencional criado por sir Arthur Conan Doyle) morava em Baker Street e fumava; é falso que ele tivesse um nariz verde-vivo. E verdade que Pégaso tinha asas, além de quatro patas de cavalo normais; é falso que o presidente Truman tivesse alguma vez sido dono de Pégaso e nele cavalgado desde o Missouri até a Casa Branca. Mas é claro que nem Sherlock Holmes nem Pégaso são ou foram reais. Algumas pessoas podem ter a falsa impressão de que Sherlock Holmes realmente existiu, e de que as histórias de Conan Doyle não são ficção. Essas pessoas acreditam em Sherlock Holmes


no sentido forte (digamos). Outras, conhecidas como "sherloquianas", dedicam seu tempo a estudar Sherlock Holmes e conseguem se divertir com seus conhecimentos enciclopédicos do cânon de Conan Doyle, sem jamais cometer o engano de confundir fato com ficção. A mais famosa sociedade desses estudiosos é a Baker Street Irregulars, batizada em homenagem a uma gangue de garotos de rua que Holmes usou para diversos objetivos ao longo dos anos. Os integrantes dessas sociedades (porque há muitas sociedades "sherloquia- nas" no mundo) se deliciam em saber qual o trem que Holmes tomou em Paddington no dia 12 de maio, mas sabem muito bem que não há como ter certeza se ele se sentou virado para a frente ou para o final do trem, já que Conan Doyle não especificou isso nem qualquer coisa de que se pudesse deduzir. Eles sabem que Holmes é um personagem fictício, mas no entanto dedicam grande parte da vida a estudá-lo, e são ávidos por explicar por que seu amor por Holmes se justifica mais que o amor de outros fãs por Perry Mason ou Batman. Acreditam em um Sherlock Holmes no sentido fraco (digamos). Eles se comportam muito como os estudiosos amadores que dedicam seu tempo livre a tentar descobrir quem era Jack, o estripa- dor, e um observador que não saiba que as histórias de Sherlock Holmes são ficção, ao passo que Jack, o estripador era um assassino real poderia naturalmente supor que os Baker Street Irregulars investigam uma personalidade histórica. É bem possível que um objeto meramente intencional como Sherlock Holmes consiga obcecar as pessoas, mesmo quando elas sabem muito bem que ele não é real. Portanto, não é de surpreender que tal coisa (se for correto, no final, chamar mesmo isso de um tipo de coisa) possa dominar a vida das pessoas que acreditam nelas no sentido forte, como as pessoas que gastam fortunas caçando o Monstro do Lago Ness ou o Abominável Homem das Neves. Sempre que uma pessoa real, como a rainha Elizabeth 11, domina a vida das pessoas, esse domínio é em geral efetuado indiretamente, esta- belecendo-se uma variedade de crenças, dando às pessoas um objeto intencional representado pelo pensamento delas e pelas decisões que podem tomar. Eu não posso odiar o meu rival ou amar o meu próximo sem ter um conjunto bastante claro e amplamente acurado de crenças que sirvam para escolher essa pessoa em meio à multidão, de modo que eu possa reconhecer, seguir e interagir efetivamente com ele ou ela. Na maior parte das circunstâncias, as coisas em que acreditamos são perfeitamente reais, e acreditamos nas coisas que são reais, de modo que em geral podemos desconsiderar a distinção lógica entre um objeto intencional (o objeto da crença) e a coisa no mundo que inspirou / causou / baseou / ancorou a crença. Nem sempre. Por acaso a estrela da manhã não é outra senão a estrela da tarde. "Elas" não são estrelas; "elas" são uma e a mesma coisa - ou seja, o planeta Vênus. Um planeta, dois objetos intencionais? Em geral as coisas que têm importância para nós se tornam certamente por nós conhecidas de uma variedade de modos que nos permita segui-las em suas trajetórias, mas também ocorrem outros cenários. Eu posso perambular à toa, atrapalhando seus projetos, ou, alternativamente, trazendo "boa sorte", dominando sua vida de um jeito ou de outro, sem que você sequer suspeite que eu exista como uma pessoa, coisa ou até uma força na sua vida, mas essa é uma possibilidade pouco provável. Em geral, as coisas que têm importância na vida de uma pessoa aparecem nela como objetos intencionais, sem importar se são identificadas ou interpretadas de modo errado. Quando ocorre uma interpretação errada, surgem problemas para descrever a situação. Suponha que você venha há meses me fazendo subrepticiamente boas ações. Se eu "agradecer à minha boa estrela", quando é realmente a você que eu deveria agradecer, a situação estaria mal interpretada se eu disser que acredito em você e a


você sou grato. Talvez eu seja um bobo ao dizer no meu íntimo que é apenas à minha boa estrela que eu deveria agradecer - dizendo, em outras palavras, que não há a quem agradecer -, mas é nisso que acredito; não há objeto intencional, neste caso, a ser identificado com você. Suponhamos, em vez disso, que eu esteja convencido de que tinha um ajudante secreto, mas que não era você - era a Cameron Diaz. Enquanto eu escrevesse meus bilhetes de agradecimentos a ela, e pensasse amorosamente nela, e me maravilhasse com a generosidade dela, certamente seria enganoso dizer que você era o objeto da minha gratidão, mesmo que você fosse de fato a pessoa que me dirigiu as ações pelas quais eu sou tão grato. E suponhamos que eu, aos poucos, comece a suspeitar que fui um ignorante e estava enganado, e por fim chegue a me dar conta corretamente de que você era realmente o destinatário adequado da minha gratidão. Não seria estranho dizer assim: "Agora eu entendo: você é a Cameron Diaz!". Seria realmente muito estranho; seria falso - a não ser que acontecesse alguma outra coisa nesse ínterim. Suponhamos que os meus conhecidos já estejam tão acostumados a me ouvir cantar louvores a Cameron Diaz e a seus atos generosos que o termo, para eles e para mim, já passou a significar quem quer que seja o responsável pela minha alegria. Nesse caso, algumas sílabas já não mais teriam seu uso ou significado original. As sílabas "Cameron Diaz", supostamente um nome próprio de um indivíduo real, teriam se transformado - gradual e imperceptivelmente - em um tipo de expressão de referência coringa, o "nome" de seja lá quem for (ou seja lá o quê) responsável por... seja lá pelo que sou grato. Mas, então, se o termo fosse verdadeiramente aberto desse jeito, quando eu falo de "minhas boas estrelas" estou pensando exatamente na mesma coisa que quando agradeço a "Cameron Diaz - e você realmente passa a ser a minha Cameron Diaz. A estrela da manhã passa a ser a estrela da tarde. (Como transformar um ateu em um teísta apenas brincando com as palavras - se "Deus" fosse só o nome de seja lá o que for que produziu todas as criaturas, grandes e pequenas, então Deus pode passar a ser o processo da evolução por seleção natural.) Essa ambigüidade tem sido explorada desde que o salmista cantou o insensato. O insensato não sabe do que está falando quando diz que em seu coração não há Deus, de modo que ele é tão ignorante quanto alguém que acha que Shakespeare não escreveu realmente Hamlet. (Alguém escreveu; se, por definição, Shakespeare é o autor de Hamlet, então talvez Mar- lowe seja Shakespeare etc.). Quando as pessoas escrevem livros sobre a "história de Deus" (Armstrong, 1993, Stark, 2001, Debray, 2004, são exemplos recentes), elas estão na verdade escrevendo a respeito da história do conceito de Deus, é claro, traçando as modas e controvérsias a respeito de Deus como um objeto intencional através dos séculos. Esse levantamento histórico pode ser neutro sob dois aspectos: pode ser neutro sobre qual conceito de Deus é correto (foi Shakespeare ou Marlowe que escreveu Hamlet'.3), e pode ser neutro sobre se o empreendimento todo trata de fato ou de ficção (somos os Baker Street Irregulars ou estamos tentando identificar um assassino real?). Rodney Stark começa One True God: Historical Conse- quences of Monotheism com uma passagem que marca sua ambigüidade: "Todos os grandes monoteísmos propõem que o Deus deles funciona ao longo da história, e eu planejo mostrar que, pelo menos do ponto de vista sociológico, eles têm muita razão: que uma grande parte da história - tanto triunfos como desastres - foi construída em nome de Um Deus Verdadeiro. O que poderia ser mais óbvio? [2001, p. 1]


O título do livro sugere que ele não é neutro - um Deus verdadeiro -, mas o livro inteiro está escrito "sociologicamente" -, o que quer dizer que não é a respeito de Deus, é a respeito de objetos intencionais que fazem toda a condução política e psicológica, o Deus dos católicos, o Deus dos judeus, o Deus dos adolescentes que moram na Escócia, talvez. Fica de fato óbvio que Deus, o objeto intencional, representou um papel poderoso, mas isso não diz nada a respeito de se Deus existe, e é insincero da parte de Stark esconder-se por trás da ambigüidade. A história da discordância nem sempre foi um bom divertimento limpo, afinal, como os Baker Street Irregulars contra o Fã-Clube do Perry Mason. Pessoas morreram por suas teorias. Stark pode ser neutro, mas o comediante Rich Jeni, não; do jeito como ele vê, a guerra religiosa é patética: "Vocês estão basicamente se matando uns aos outros para ver quem tem o melhor amigo imaginário". Qual é a opinião de Stark a esse respeito? E qual é a sua? Pode ser certo, até mesmo obrigatório, lutar por um conceito, refira-se o conceito ou não a alguma coisa real? Afinal de contas, pode-se acrescentar, a luta não nos trouxe uma riqueza de grande arte e literatura, na corrida pela glorificação competitiva? Acho que algumas pessoas que se consideram crentes na verdade acreditam apenas no conceito de Deus. Eu mesmo acredito que o conceito exista - como Stark diz, o que poderia ser mais óbvio? Essas pessoas acreditam, além disso, que o conceito é digno de se brigar por ele. Note que eles não acreditam na crença em Deus! Eles são sofisticados demais para isso; eles são como os Baker Street Irregulars, que não acreditam na crença em Sherlock Holmes, mas apenas em estudar e exaltar as histórias. Eles pensam que o conceito deles de Deus é tão melhor que outros conceitos de Deus que deveriam se dedicar a difundir a Palavra. Mas eles não acreditam em Deus no sentido forte. Por definição, poderíamos pensar, os teístas acreditam em Deus. (O ateísmo, afinal, é a negação do teísmo.) Mas há pouca esperança de se conduzir uma investigação efetiva sobre a questão de se Deus existe quando há teístas autodenominados que "acham que propiciar uma ética teística satisfatória exige abrir mão da idéia de que Deus é algum tipo de entidade sobrenatural" (Ellis, 2004). Se Deus não é algum tipo de entidade sobrenatural, então quem saberá se você ou eu acreditamos nele (nisso)? Crenças em Sherlock Holmes, Pégaso, bruxas voando em cabos de vassouras - esses casos são fáceis e podem ser bem prontamente classificados com alguma atenção aos detalhes. Quando se trata de Deus, por outro lado, não há uma maneira direta de atravessar o nevoeiro do mal-entendido para chegar a um consenso a respeito do tema em questão. E há motivos interessantes para que as pessoas resistam a que lhes impinjam uma definição específica de Deus (mesmo se for para o bem da discussão). As brumas da incompreensão e da falha de comunicação não são apenas impedimentos aborrecidos para a refutação rigorosa; elas mesmas são características de projeto de religiões que vale a pena examinar.

3. A DIVISÃO DE TRABALHO DOXASTO


Finja até conseguir. [Alcoólicos Anônimos] Então temos um fenômeno estranho, como Kant nos garante, de uma mente que acredita com toda a sua força na presença real de um conjunto de coisas sobre nenhuma das quais ela consegue formar qualquer idéia. [William James, As variedades de experiência religiosa] A linguagem nos dá muitos presentes, inclusive a capacidade de decorar, transmitir, acalentar e em geral proteger fórmulas que não compreendemos. Aqui vai uma frase que eu acredito firmemente ser verdadeira: (1) H e r

i ns a n d o ga r, ya s a r, v e õ l ür.

Não tenho a mais remota idéia do que (i) signifique, mas sei que é verdadeiro, porque pedi a um colega turco em quem eu confio que me desse uma frase verdadeira exatamente com esse objetivo. Eu apostaria muito dinheiro na verdade dessa sentença - para mostrar como tenho certeza de sua veracidade. Mas como digo, não sei se (i) é a respeito de árvores, ou pessoas, ou história, ou química... ou Deus. Não há nada metafisicamente peculiar, ou difícil, ou improvável ou embaraçador a respeito do meu estado de espírito. Eu simplesmente não sei que proposição essa sentença expressa, porque eu não sou "especialista" em turco. No capítulo 7 observei os problemas metodológicos que os arqueólogos decididos a entender outras culturas enfrentam e sugeri que parte do problema é que os informantes individuais podem não se ver, eles mesmos, como especialistas nas doutrinas que lhes pedem para elucidar. Os problemas que surgem dessas "idéias-meio-entendidas" são exacerbados, no caso de doutrinas religiosas, mas são tão freqüentemente encontrados na ciência como na religião. Aqui, pode-se dizer, está a suprema divisão de trabalho, a divisão do trabalho doxasto, tornado possível por uma linguagem: nós, leigos, acreditamos - contratamos a doxologia - e delegamos a compreensão desses dogmas aos especialistas! Pense na suprema fórmula talismânica da ciência: (2) e

= m c2

Você acredita que e = mc2? Eu acredito. Todos nós sabemos que essa é a grande equação de Einstein, e o núcleo, de algum modo, de sua teoria da relatividade. Muitos de nós sabemos o que e em e c querem dizer, e poderíamos até montar as relações algébricas básicas e detectar erros evidentes de interpretação. Mas apenas uma fração minúscula desses que sabem que "e = mc2" é uma verdade fundamental da física realmente a entendem de algum modo substantivo. Por sorte, o resto de nós não tem de entender; temos físicos especialistas em torno de nós aos quais delegamos, agradecidos, a responsabilidade de entender a fórmula. O que estamos fazendo, nesses casos, não é realmente acreditar na proposição. Para isso, você teria de entender a proposição. O que fazemos é acreditar que, seja lá qual for a proposição expressada pela fórmula "e = mc1", ela é verdadeira.10 A diferença para mim entre (i) e (2) é que sei um bocado - mas não o suficiente! - a respeito do que (2) trata. No espaço infinito de todas as proposições possíveis, posso afunilar seu


significado a um grupamento bastante estrito de variantes quase idênticas. Um físico provavelmente poderia me provocar um tropeço, fazendo com que eu endossasse uma paráfrase quase certa que revelaria a minha ignorância (é isso que os exames de múltipla escolha realmente difíceis podem fazer, separando os alunos que de fato entendem a matéria daqueles que a que entendem pela metade). De (1), no entanto, tudo o que sei é que expressa uma proposição verdadeira - cortando pela metade o espaço infinito de proposições, mas ainda deixando, infinitamente, muitas proposições indistinguíveis por mim como sua melhor interpretação. (Posso adivinhar que provavelmente não é a respeito de como os Red Sox ganharam dos Yankees quatro vezes seguidas para ganhar a American League Championship em outubro de 2004, mas essa redução gradual não nos leva muito longe.) Retirei um exemplo da ciência para mostrar que esse não é um defeito constrangedor só da crença religiosa. Até mesmo os cientistas, se baseiam todos os dias em fórmulas que eles sabem que estão corretas, mas que eles próprios não são especialistas em interpretar. E algumas vezes até promovem a separação entre o entendimento e a memorização. Um exemplo vivo pode ser encontrado nas clássicas aulas introdutórias de Richard Feynman sobre eletrodinâmica quântica, QED: The strange theory of light and matter (1985), na qual ele divertidamente incentiva a platéia a se soltar e não tentar entender seu método de ensino: Então agora vocês já sabem do que eu vou falar. A pergunta seguinte é: será que vocês vão entender o que eu vou dizer a vocês?... Não, vocês não vão conseguir entender. Por que será, então, que vou incomodá-los com tudo isso? Por que vocês vão ficar sentados aqui esse tempo todo, quando não conseguirão entender o que vou dizer? É meu dever convencê-los a não se afastarem porque não entendem. Vocês sabem, meus alunos de física também não entendem. Isso é porque eu não entendo. Ninguém entende. [...] É um problema com o qual os físicos aprenderam a lidar: eles aprenderam a se dar conta de que não interessa se eles gostam ou não de uma teoria, esta não é a questão essencial. Ao contrário, a questão é se a teoria fornece predições que concordam com a experiência. Não é uma questão de se a teoria é filo- soficamente encantadora, ou fácil de entender, ou perfeitamente razoável do ponto de vista do bom senso. [...] Por favor, não se desliguem só porque vocês não conseguem acreditar que a natureza seja tão estranha. Ouçam-me, apenas, e espero que vocês fiquem tão encantados quanto eu quando acabarmos. [pp. 9-10] Ele continua, descrevendo os métodos para calcular amplitudes de probabilidade em termos que deliberadamente desencorajam o entendimento - "Vocês vão ter de se segurar para isso - não porque seja difícil de entender, mas porque é absolutamente ridículo: tudo o que temos de fazer é desenhar setinhas em um pedaço de papel - e pronto!" (p. 24) -, mas defende isso porque os resultados rendidos pelos métodos são tão impressionantemente exatos: "Para dar a vocês um sentimento da exatidão desses números, é alguma coisa do tipo: se você tivesse de medir a distância de Los Angeles até Nova York a esse ponto de exatidão, ela seria exata até a espessura de um fio de cabelo humano. Eis com que delicadeza a eletrodi- nâmica quântica tem, nos últimos cinqüenta anos, sido examinada - tanto teórica como experimentalmente" (p. 7). E essa é a diferença mais importante entre a divisão de trabalho na religião e na ciência:


apesar da peculiar negação hipermodesta de Feyn- man, os especialistas entendem sim os métodos que usam - não tudo, mas o suficiente para explicar uns aos outros e a eles mesmos por que os resultados espantosamente acurados saem deles. É apenas porque estou confiante de que os especialistas realmente entendem as fórmulas que posso, honesta e calmamente, ceder a responsabilidade de lidar com as proposições (e portanto, entendê-las) a eles. Na religião, no entanto, os especialistas não estão exagerando quando dizem que não entendem aquilo de que falam. Há uma insistência sobre a incompreensibilidade fundamental de Deus, como um dogma central da fé, e as proposições em questão são, elas mesmas, consideradas sistematicamente obscuras. Embora possamos acompanhar os especialistas quando eles nos aconselham sobre em que sentenças dizer que acreditamos, eles também insistem que eles mesmos não podem usar sua perícia para provar - mesmo uns para os outros - que sabem do que estão falando. Essas questões são misteriosas para todo mundo, peritos e leigos. Por que alguém aceita isso? A resposta é evidente: crença na crença. Muitas pessoas acreditam em Deus. Muitas pessoas acreditam na crença em Deus. Qual é a diferença? As pessoas que acreditam em Deus têm certeza de que Deus existe, e ficam satisfeitas porque acham que Deus é a coisa mais maravilhosa que há. As pessoas que ainda mais acreditam na crença em Deus têm certeza de que a crença em Deus existe (e quem duvidaria disso?), e acham que isso é bom, algo a ser fortemente encorajado e promovido sempre que possível: se pelo menos a crença em Deus fosse mais disseminada! Deve-se acreditar em Deus. Deve-se tentar acreditar em Deus. Deve-se ficar inquieto, cheio de desculpas, incompleto, deve-se até sentir-se culpado, quando se acha que simplesmente não se acredita em Deus. É um fracasso, mas acontece. E perfeitamente possível ser ateu e acreditar na crença em Deus. Essa pessoa não acredita em Deus, mas mesmo assim acha que acreditar em Deus seria um estado de espírito maravilhoso, se pudesse ser providenciado. As pessoas que acreditam na crença em Deus tentam fazer com que outros acreditem em Deus, e sempre que acham que sua própria crença em Deus está falhando, fazem o que podem para restaurá-la. E raro, mas é possível que as pessoas acreditem em alguma coisa ao mesmo tempo que lamentam sua crença nessa coisa. Eles não acreditam em sua própria crença! (Se eu achasse que acredito em poltergeists ou no Monstro do Lago Ness eu ficaria, bem, constrangido. Eu pensaria nisso como algum daqueles pequenos segredos ruins a meu respeito que gostaria que não existissem e dos quais ficaria contente se ninguém viesse a saber! Poderia adotar medidas para me curar desse inchaço canhestro em minha ontologia no mais impecavelmente astuta e racional.) Há pessoas que de repente acordam para o fato de que são racistas, ou sexistas, ou perderam seu amor pela democracia. Nenhum de nós quer revelar essas coisas sobre si mesmo. Temos todos ideais pelos quais medimos as crenças que descobrimos em nós mesmos, e a crença em Deus tem sido um dos ideais mais dignos de mérito para muita gente, durante muito tempo. Em geral, se você acredita em alguma proposição, você acredita também que qualquer um que não acredite nela está enganado. No todo, é muito ruim quando as pessoas estão enganadas ou são mal informadas ou ignorantes. Em geral, o mundo seria um lugar melhor se as pessoas compartilhassem mais das verdades e acreditassem menos nas falsidades. É por isso que temos campanhas de instrução, informação pública, jornais e daí por diante. Há exceções - segredos


estratégicos, por exemplo, os casos em que acredito em alguma coisa e fico grato por ninguém mais compartilhar da minha crença. Algumas crenças religiosas podem consistir em segredos privados, mas o padrão geral é que as pessoas não só acreditem, mas tentem persuadir os outros, especialmente seus próprios filhos, de suas crenças religiosas.

4. O MÍNIMO DENOMINADOR COMUM? Deus é tão grande que a grandeza exclui a existência. [Raimundo Panikkar, The Silence of God] A prova final da onipotência de Deus é que ele não precisa existir para nos salvar. [Sermão do hiperliberal reverendo Mackerel, herói de The Mackerel Plaza, de Peter De Vries] A Igreja Militante e a Igreja Triunfante se tornaram a Igreja Social e a IgrejaBizarra. [Robert Benson, comunicação pessoal, 1960] Muita gente acredita em Deus. Muito mais gente acredita na crença em Deus! (Podemos ter bastante certeza de que, já que quase todo mundo que acredita em Deus também acredita na crença em Deus, há na realidade mais gente no mundo que acredita na crença em Deus do que aqueles que acreditam em Deus.) A literatura mundial - aí incluídos incontáveis sermões e homílias - está cheia de histórias de pessoas devastadas pela dúvida à espera de recuperar sua crença em Deus. Acabamos de ver que nosso conceito de crença admite que haja uma diferença empírica entre esses dois estados de espírito, mas há uma questão desconcertante: entre todas as pessoas que acreditam na crença em Deus, que percentagem (aproximadamente) também realmente acredita em Deus? A investigação dessa questão empírica é extremamente difícil. Por quê? A primeira vista, parece que poderíamos simplesmente dar às pessoas um questionário com uma questão de múltipla escolha: E u c r e i o e m D e u s :S i m _ _ _ N ã o _ _ _ N ã o s e i _ _ _ Ou a questão seria: D e us e xi s t e : S i m_ _ _ N ã o _ _ _ N ã o s e i _ _ _ Será que o modo como formulamos as questões faria alguma diferença? (Comecei a fazer pesquisas exatamente com essas questões, e os resultados são tentadores, mas ainda não suficientemente confirmados para que eu os publique.) O principal problema com uma abordagem tão simples é óbvio. Dado o modo pelo qual conceitos e práticas religiosas foram projetados, os próprios comportamentos que seriam evidências claras da crença em Deus são também comportamentos que seriam evidências claras de (apenas) crença na crença em Deus. Se aqueles que têm dúvidas tiverem sido arregimentados pela sua Igreja para declarar sua crença nas dúvidas; a dizerem as palavras com o máximo de convicção possível, repetidamente, na esperança de acender a convicção; a darem-se as mãos e recitarem o credo; a rezarem várias vezes por dia em público; a fazerem todas as coisas que um crente faz, então eles iriam marcar a


resposta "sim" com avidez, mesmo que eles realmente não acreditem em Deus; eles crêem ardorosamente na crença em Deus. Esse fato faz com que seja difícil dizer quem - se é que há alguém! - realmente acredita em Deus além de acreditar na crença em Deus. Graças à divisão de trabalho, a coisa é na realidade mais difícil do que isso, como você já pode ter calculado. Você pode achar que, quando você olha para o seu íntimo, simplesmente não sabe se você mesmo acredita em Deus. De que Deus estamos falando? A menos que você seja um especialista e tenha certeza de estar entendendo as fórmulas que expressam oficialmente as proposições de seu credo, seu estado de espírito deve estar em algum lugar entre o meu estado de espírito em relação a (i) (a frase em turco) e o meu estado de espírito em relação a (2) (a fórmula de Einstein). Você não está tão perdido como eu com relação a (1): você terá estudado e provavelmente até decorado as fórmulas oficiais, e você acredita que essas fórmulas são verdadeiras (seja lá o que signifiquem). Mas você deve admitir que não é uma autoridade naquilo que elas significam. Muitos norte- americanos se encontram nessa posição, como Alan Wolfe observa em The Transformation of American Religion: How We Actually Live our Faith, seu levantamento recente sobre o desenvolvimento da religião norte-america- na: "Essas são pessoas que acreditam, muitas vezes apaixonadamente, em Deus, mesmo quando não conseguem dizer muito para as outras pessoas sobre o Deus no qual elas crêem" (2003, p. 72). Se você cai nessa categoria, você deve admitir, ao contrário da maneira como Wolf apresenta, que embora você possa muito bem ser um daqueles que acreditam na crença em Deus, você não está realmente em uma boa posição para julgar se realmente acredita (apaixonadamente ou não) no Deus do seu credo particular, ou em algum outro Deus. (E com quase toda a certeza você nunca fez um teste difícil de múltipla escolha para verificar se você pode distinguir, de modo confiável, o conceito de Deus do especialista daquele dos impos- tores sutis que estão quase certos.) Uma alternativa é estabelecer-se, você mesmo, como sua própria autoridade: "Eu sei o que eu quero dizer quando pronuncio o credo, e isso me basta!". E basta também - hoje em dia - para um número surpreendente de religiões organizadas. Os líderes se deram conta de que a robustez da instituição da religião não depende nem um pouco da uniformidade da crença; ela depende da uniformidade em professá-la. Há muito tempo essa tem sido uma característica de algumas variedades do judaísmo: finja e não se importe em fazê-lo (como meu aluno Uriel Meshoulam me contou uma vez, vivida- mente). Ao reconhecer que a própria idéia de mandar alguém acreditar em alguma coisa é aparentemente incoerente, um convite à falta de sinceridade ou ilusão, muitas congregações judaicas rejeitam a exigência da ortodoxia, a crença certa, e se contentam com a ortopraxia, o comportamento certo. Em vez de criarem bolsões secretos de infectado ceticismo culpado, eles tornam a dúvida sincera uma virtude, expressada respeitosamente. Desde que as fórmulas sejam transmitidas ao longo das eras, os memes irão sobreviver e florescer. Uma postura bem parecida foi recentemente adotada por muitas seitas cristãs evangélicas, em especial o florescente novo fenômeno da "megaigreja", que, como Wolfe descreve com algum detalhe, se esforçam por dar a seus membros bastante espaço para interpretações pessoais das palavras que alegam serem santas. Wolfe distingue nitidamente entre evangelismo e fundamentalismo, que "tende a se preocupar mais com questões de substância teológica". A conclusão dele tem a intenção de ser tranqüilizadora:


Mas aqueles que temem, para os Estados Unidos, uma volta de crenças religiosas fortes não devem ser enganados pelo crescimento rápido do evangelismo. Ao contrário, a popularidade do evangelismo se deve tanto aos seus anseios popularescos e democráticos - sua determinação em encontrar exatamente o que os crentes querem e oferecer a eles - quanto às certezas da fé. [2003, p. 36] Wolfe mostra que a abordagem franca de mercado de Stark e Finke não é de todo estranha aos próprios líderes religiosos. Ele observa sem ironia algumas das concessões que estão dispostos a fazer à cultura secular contemporânea, concessões que ultrapassam de longe os sites da web e os programas de televisão de muitos milhões de dólares, ou a introdução de guitarras elétricas, tambores e PowerPoint em seus serviços. Por exemplo, o termo "santuário" foi afastado de uma Igreja "por causa de sua forte conotação religiosa" (p. 28). Dá-se mais atenção a fornecer um espaço grande de estacionamento gratuito e cuidado com crianças do que a interpretação propriamente dita das passagens da Escritura. Wolfe realizou muitas entrevistas de sondagem com seus informantes, e eles revelaram que muitas vezes é difícil distinguir a revisão da tradição da rejeição direta. Foi cunhado um termo trocista por esses engenheiros meméticos para descrever a imagem que eles estão tentam arduamente apresentar: "churchianity", ou "igrejidade" (p. 50). De fato, Lars e Ann, como muitos evangélicos pelo país todo, dizem que a fé é tão importante para eles que não se deve deixar a "religião" - que eles associam com discórdia e divergência e, portanto, muitas vezes de maneira inesperada, com doutrina - interferir em seu exercício, [p. 73] Não se pode negar os resultados desse conhecimento do mercado. A Calvary Chapei do pastor Chuck Smith tem mais de seiscentas igrejas, muitas delas com 10 mil devotos por semana (Wolfe, 2003, p. 75). A World Changers Church do dr. Creflo Dollar tem 25 mil associados, "mas apenas 30% deles contribuem com o dízimo regularmente" (Sanneh, 2004, p. 48). De acordo com Wolfe, "todas as Igrejas norte-americanas enfrentam o mesmo dilema: personalizar ou morrer. Cada uma faz isso de maneira diferente" (p. 35). Ele pode ter razão, mas seu argumento para essa conclusão generalizada é esquemático e anedótico. Embora não possa haver dúvidas de que o fenômeno que ele descreve existe, a questão de saber se serão aspectos permanentes da religião daqui por diante ou uma moda passageira demanda uma teoria que possa ser testada, e não apenas um conjunto de observações, não importa quão sensíveis. Seja lá qual for seu poder de permanência e os motivos para ela, o exemplo de uma religião com tal laissezfaire "não creditícia" contrasta vividamente com a eterna ênfase da Igreja Católica Apostólica Romana na doutrina.

5. CRENÇAS PLANEJADAS PARA SEREM PROFESSADAS Um alpinista que imprudentemente escala sozinho escorrega e cai em um precipício; vê-se dependurado na ponta de sua corda de segurança, trezentos metros acima de um desfiladeiro. Incapaz de subir pela corda ou de se balançar até encontrar um local em que possa se apoiar


com segurança, ele grita, desesperado: "Alô, alô! Será que alguém pode me ajudar?". Para seu espanto, as nuvens se abrem, uma linda luz escoa de entre elas, e uma voz poderosa responde, "Sim, meu filho, eu posso ajudá-lo. Pegue sua faca e corte a corda!". O alpinista pega a faca, pára e pensa, e pensa. Aí, grita: "Será que há alguém mais que possa me ajudar?". De acordo com a velha máxima, a ação fala mais alto que as palavras, mas isso na verdade não diz nada. Discursos também são ações, e uma pessoa que diga, por exemplo, que os infiéis merecem a morte está adotando uma ação com efeitos potencialmente mortais, que é mais ou menos o máximo de "força" a que uma ação consegue chegar. O significado da máxima, quando se medita sobre ela, é que as ações diferentes dos atos da fala são em geral melhor prova daquilo em que o ator realmente acredita do que quaisquer palavras que o autor possa proferir. As expressões pouco sinceras são fáceis de dizer, mas quando as conseqüências concretas de suas ações dependem de se você acredita em alguma coisa :- se você acredita que a arma está carregada, se você acredita que a porta não está trancada, se você acredita que ninguém o está observando -, as expressões pouco sinceras são um dado ínfimo, facilmente apagado pelo comportamento não-verbal que expressa - na verdade, trai - suas verdadeiras crenças. Eis um fato interessante: a transição da religião popular para a religião organizada é marcada por um desvio nas crenças, daquelas que apresentam conseqüências muito claras, concretas, para aquelas com conseqüências sistematicamente fugidias - proferir as expressões pouco sinceras é praticamente a única maneira que você tem de agir sobre essas crenças. Se você realmente acredita que o deus da chuva não vai mandar a chuva a não ser que você lhe sacrifique um boi, você sacrifica o boi se quiser chuva. Se você acredita que o deus da tribo o fez invulnerável a flechas, você prontamente investe para dentro de um enxame de flechas mortais para chegar ao inimigo. Se você realmente acredita que seu Deus vai salvá-lo, corte a corda. Se você realmente acredita que seu Deus o está observando, e ele não quer que você se masturbe, não se masturbe. (Você não se masturbaria com sua mãe observando! Como poderia se masturbar com Deus observando-o? Você realmente acredita que Deus o está vendo? Talvez não.) Mas o que poderia você fazer para mostrar que realmente o vinho no cálice foi transformando no sangue de Cristo? Você poderia apostar um monte de dinheiro nisso e enviar o vinho para o laboratório de biologia para ver se há hemoglobina nele (e recuperar o genoma de Jesus do DNA, ainda por cima!) - só que o credo foi defendido de maneira inteligente contra esses testes concretos. Seria um sacrilégio retirar o vinho da cerimônia, e, além disso, retirar o vinho do contexto sagrado certamente faria reverter a transubstanciação, transformando-o de novo em vinho comum. Existe de fato uma única ação que você pode adotar para demonstrar essa crença: pode dizer que acredita, repetidamente, com tanto fervor quanto a ocasião exija. Esse aspecto é mencionado sob a forma de narrativa em "Dominus Iesus: sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja", uma declaração escrita pelo cardeal Ratzinger (que mais tarde foi eleito papa Bento xvi), ratificada pelo papa João Paulo n em uma seção plenária em 16 de junho de 2000. Muitas vezes esse documento especifica que os católicos fiéis devem "acreditar firmemente (grifos do original), mas em diversos pontos a declaração desvia a expressão idiomática e fala daquilo que "o fiel católico tem a obrigação de professar"


(grifos do original). Sendo eu mesmo professor, acho o uso desse verbo irresistível. Aquilo que é comumente referido como "crença religiosa" ou "convicção religiosa" pode ser menos enganoso se chamado de professar religião. Ao contrário dos professores acadêmicos, os professores religiosos (não apenas padres, mas todos os fiéis) podem não entender ou acreditar naquilo que estão professando. Eles estão apenas professando, porque isso é o melhor que podem fazer, e são obrigados a professar. O cardeal Ratzinger cita a epístola de Paulo aos Coríntios: "pregar o Evangelho não é motivo para eu me vangloriar; é uma necessidade que recai sobre mim: ai de mim, se não pregar o Evangelho!" (i Coríntios 9, 16). Embora sejam necessárias expressões pouco sinceras, elas não bastam: você tem de acreditar firmemente naquilo que diz. Como é possível obedecer a essa injunção? A declaração é voluntária, mas a crença, não. A crença - quando diferenciada de acreditar que alguma sentença expressa a verdade - exige compreensão, difícil de adquirir mesmo pelos especialistas nessas questões. Você não pode simplesmente se obrigar a acreditar em alguma coisa por tentativa. Então, o que você faz? A declaração do cardeal Ratzinger oferece alguma ajuda nesse ponto: "Fé é aceitação na graça da verdade revelada, que faz com que seja possível penetrar no mistério de um jeito que nos permite compreendê-lo de forma coerente' [citando a encíclica de João Paulo 11, Fides et Ratio, p. 13]". Então você deveria acreditar nisso. E se você puder, acreditar nisso deveria ajudá-lo a acreditar que você compreende, sim, o mistério (mesmo que pareça que você não compreende), e daí a acreditar firmemente em seja lá o que você professe acreditar. Mas você acredita nisso? É preciso fé. Por que ao menos tentar? E se você, pessoalmente, por acaso não compartilhar da crença na crença da doutrina em questão? E aqui que o ponto de vista do olho do meme pode propiciar alguma explicação. Em sua discussão original dos memes, Dawkins notou esse problema e sua solução tradicional: "[...] muitas crianças, e até muitos adultos, acreditam que sofrerão tormentos horríveis depois da morte se não obedecerem às regras clericais [...] A idéia do fogo do inferno é, muito simplesmente, autoperpetuadora, por causa de seu próprio impacto psicológico profundo' (Dawkins, 1976, p. 212). Se você algum dia já recebeu uma carta-corrente que o avisava das coisas terríveis que aconteceriam se você não a passasse adiante, você pode avaliar a estratégia, mesmo que você não tenha caído nela. As afirmações de um padre em quem se confia podem ser muito mais impositoras. Se o fogo do inferno é o bastão, o mistério é a cenoura. As proposições em que acreditar precisam ser desconcertantes! Como Rappaport apresentou de modo incisivo, "Se for para os postulados serem inquestionáveis, é importante que sejam incompreensíveis" (1979, p. 165). Não apenas contra- intuitivos, no sentido técnico de Boyer, de contradizer apenas uma ou duas das suposições-padrão de uma categoria básica, mas ininteligíveis mesmo. Afirmativas objetivas não têm graça, além do mais, é muito fácil verificar sua exatidão. Para uma proposição verdadeiramente impressionante e intrigante, nada bate um paradoxo avidamente admitido. Em um ensaio posterior, Dawkins chamou a atenção para o que podemos chamar de inflação de atletismo de credos-, gabar-me do que minha crença é tão forte que consigo açambarcar mentalmente um paradoxo maior do que você. É fácil e nada misterioso acreditar que, em algum sentido simbólico ou metafórico, o vinho eucarístico se transforma no sangue de Cristo. A doutrina


Católica Romana da transubstanciação, no entanto, exige mais. A "substância inteira" do vinho é convertida no sangue de Cristo; a aparência de vinho que permanece é "meramente acidental", "inerente a substância nenhuma". A transubstanciação é coloquialmente ensinada como significando que o vinho se transforma "literalmente" no sangue de Cristo. [Dawkins, 1993, p. 21]" Há diversos motivos pelos quais essa inflação de incompreensibilidade pode ser uma adaptação que reforçaria a aptidão de um meme. Primeiro, como acabamos de observar, ela tende a evocar espanto e a chamar atenção sobre si mesma. É uma verdadeira cauda de pavão de exibição extravagante, e os meméticos prediriam que alguma coisa como uma corrida de paradoxologia seria iniciada quando as religiões enfrentassem uma diminuição de devotos. Caudas de pavão são finalmente limitadas pela pura incapacidade física dos pavões de carregar caudas ainda maiores, e a paradoxologia também acaba tendo de bater na parede. O desconforto das pessoas com a pura incoerência é forte, portanto há sempre elementos tentadores de narrativas que fazem sentido, pontuados de trechos de incompreensibilidade que causam perplexidade séria. As anomalias dão ao cérebro hospedeiro algo a roer, como uma cadência musical não resolvida, e portanto, alguma coisa a ser ensaiada, e ensaiada outra vez, e a respeito da qual se desconcertarem deliciosamente.'2 Segundo, como foi observado no capítulo 5, a incompreensibilidade desencoraja a paráfrase - que pode ser a morte da identidade do meme -, deixando o hospedeiro sem outra escolha viável além da transmissão verbatim. ("Eu não sei de verdade o que o papa João Paulo 11 quis dizer, mas posso falar a você que o que ele disse foi: 'Jesus é o Verbo Encarnado - uma pessoa una e indivisível'.") Dawkins observou uma extensão ou um refinamento dessa adaptação: "O meme para fé cega garante sua própria perpetuação pelo simples expediente inconsciente de desencorajar a indagação racional" (1976, pp. 212-213). Em uma época em que "iniciativas baseadas na fé" e outros usos semelhantes do termo tornaram "fé" quase sinônimo de "religião", na cabeça de muitos (como na expressão "pessoas de todos os credos"), é importante lembrar que nem todas as religiões têm uma sede para o conceito de qualquer coisa que sequer chegue perto disso. O meme para fé exibe aptidão dependente da freqüência: ela floresce particularmente na companhia dos memes racionalistas. Em uma vizinhança com poucos céticos, o meme para a fé não atrai muita atenção, portanto tende a continuar latente nas mentes, portanto é raramente reintroduzido na memosfera (Dennett, 1995b, p. 349). De fato, esta é sobretudo uma característica cristã, e, como notamos recentemente, o judaísmo chegou mesmo a encorajar o debate intelectual vigoroso a respeito do significado, e até da verdade^ de muitos de seus textos sagrados. Mas um atletismo semelhante é honrado na prática judaica, como é explicado por um rabino: O fato de que a maior parte das leis Kashrut (kosher) seja feita de ordens divinas sem motivos explicitados faz com que se atinja 100% o alvo. E muito fácil não assassinar pessoas. Muito fácil. É um pouco mais difícil não roubar porque há ocasionalmente a tentação. De modo que não é grande prova da minha crença em Deus, ou que eu esteja satisfazendo o Seu desejo. Mas se Ele me diz para não tomar uma xícara de café com leite com carne moída e ervilhas no almoço, isso é um teste. A única razão pela qual estou fazendo isso é porque me mandaram. Essa é uma coisa difícil. [The Guardian, 29 de julho de 1991, citado em Dawkins, 1993, p. 22]


O islamismo, por sua vez, obriga seus devotos a pararem o que estiverem fazendo cinco vezes por dia, não importa quão inconveniente ou até perigoso esse ato de devoção possa ser. Essa idéia de que provamos nossa fé por um ou outro ato extravagante - como escolher a morte, mas não negar um item de doutrina que não compreendemos - nos permite traçar uma forte diferença entre a fé religiosa e o tipo de fé que eu, por exemplo, tenho na ciência. A minha fé no conhecimento de físicos como Richard Feynman, por exemplo, me permite endossar - e, se chegar a esse ponto, apostar pesadamente na verdade de - uma proposição que não entendo. Até aqui, minha fé não é muito diferente da fé religiosa, mas não estou nem um pouco motivado a morrer, mas não negar as fórmulas da física. Olhe só: e não é igual a mc2, não é, não é! Eu estava mentindo, taí! Não me sinto culpado em fazer essa piadinha, ao contrário de muita gente que acharia profundamente difícil proferir palavras blasfemas ou negar seu credo. Mas não é a minha fé na verdade das proposições da mecânica quântica, que admito não compreender, um tipo de fé religiosa, de qualquer modo? Deixe-me inventar uma pessoa profundamente religiosa, o professor Fé,'3 que faça um pequeno discurso a articular essa acusação. O professor Fé quer me ensinar uma palavra nova, apofático: Deus é uma Coisa Maravilhosa. Ele é um recipiente apropriado para preces, e isso é mais ou menos tudo o que podemos dizer a Seu respeito. O meu conceito de Deus é apofáticol O que, você poderá perguntar, significa isso? Significa que eu defino Deus como inefável, impossível de conhecer, alguma coisa além de todo entendimento humano. Ouça o que Simon Oliver, ao escrever a respeito do livro recente de Denys Turner, Faith Seeking (2003), tem a dizer: [...] o Deus rejeitado pelo ateísmo moderno não é o Deus da cristandade ortodoxa, pré-moderna. Deus não é qualquer tipo de coisa cuja existência possa ser rejeitada do mesmo modo como se pode rejeitar a existência de Papai Noel. O Deus de Turner - que deve muito à mística medieval - é profundamente apofático, inteiramente outro e, no final, escuridão impossível de conhecer. Começamos nossa jornada para a alteridade ao nos dar conta de que nosso ser é uma dádiva graciosa, (p. 32) E aqui está Raimundo Panikkar, escrevendo sobre o budismo: O termo "apofático" é usado em geral em referência a um apofaticismo epistemológico, afirmando apenas que a realidade suprema é inefável - que a inteligência humana é incapaz de apreendê-la, de abraçá-la -, embora essa realidade suprema possa ser ela mesma representada como inteligível, até mesmo supremamente inteligível, in se. Um apofaticismo gnosiológico, então, comporta uma inefabilidade da parte da realidade suprema apenas quoad nos. O apofaticismo budista, por outro lado, busca transportar essa inefabilidade para o coração da própria realidade suprema, declarando que essa realidade - desde que seu logos (sua expressão e comunicação) não pertença mais à ordem da realidade suprema, mas exatamente à manifestação dessa ordem - é inefável não apenas a nosso respeito, mas como tal, quoad se. Desse modo, o apofaticismo budista é um


apofaticismo ôntico. (1989, p. 14) Alego que esses argumentos não são realmente tão diferentes daquilo que vocês cientistas dizem. Os físicos chegaram a se dar conta de que a matéria não é composta de agrupamentos de pequenas esferas duras (átomos). A matéria é muito mais estranha que isso, eles reconhecem, mas ainda assim a chamam de matéria, mesmo que saibam principalmente o que a matéria não é, e não o que ela é. Eles ainda os estão chamando de átomos, mas não pensam mais neles como, bem, atômicos. Mudaram o conceito de átomos, o conceito de matéria, e bastante radicalmente. Se você perguntar a eles o que acham que seja a matéria, eles confessam que é mais ou menos um mistério. O conceito deles é apofático, também! Se os físicos podem mudar do concreto para o mistério, os teólogos também podem. Espero que o professor Fé tenha feito justiça a esse tema, que eu muitas vezes enfrentei em discussão. Não me convenceu nem um pouco. Existe uma grande diferença entre a fé religiosa e a fé científica: o que dirigiu as mudanças nos conceitos na física não foi apenas o ceticismo exacerbado de uma clientela cada vez mais mundana e sofisticada, mas uma onda tsunami de resultados positivos maravilhosamente detalhados - os tipos de predições confirmadas para as quais Feynman apontou ao defender sua área. E isso faz uma diferença imensa porque dá às crenças a respeito das verdades da física um lugar de real importância, no qual se pode fazer mais do que apenas professá-las. Por exemplo, você pode construir alguma coisa que dependa da verdade daquelas frases para a segurança da operação, e arriscar sua vida tentando voar para a Lua. Como as crenças das religiões populares em ter de sacrificar um cabrito ou em ser invulnerável a flechas, essas são crenças sobre as quais você pode agir de modos que falam mais alto que as palavras. As pessoas que doam todas as suas posses e sobem para o cume de alguma montanha em antecipação do iminente Fim do Mundo não acreditam apenas na crença em Deus, mas são exceções, e não a regra, quando se trata de convicções religiosas.

6. LIÇÕES DO LÍBANO: O ESTRANHO CASO DOS DRUSOS E DE KIM PHILBY Há mais fatos sistematicamente curiosos a respeito do fenômeno que as pessoas chamam de religião, mas que ficaria melhor se chamados de profissão religiosa. Esse é um aspecto que há muito me cativa, ao mesmo tempo que me convence de que o projeto de Hume de religião natural (avaliação de argumentos a favor e contra a existência de Deus) é em grande escala um esforço desperdiçado. O meu interesse nesse aspecto veio de duas experiências, sendo que as duas envolvem eventos que aconteceram no Líbano há mais de quarenta anos (embora isso seja pura coincidência, pelo que eu saiba). Passei alguns dos meus primeiros dias em Beirute, onde meu pai, historiador do islamismo, era adido cultural (e espião para o oss [Office of Strategic Services, agência anterior à CIA]). O ritmo dos muezins no minarete mais próximo, chamando os fiéis para a reza, era minha experiência diária, junto com o ursinho de pelúcia e os caminhões de brinquedo, e até hoje eu não deixo de sentir arrepios quando ouço o lindo canto persistente. Mas


saí de Beirute quando tinha apenas cinco anos e só voltei em 1964, para visitar minha mãe e minha irmã, que então estavam morando lá. Passamos algum tempo na montanha fora de Beirute, em uma aldeia principalmente de drusos, com alguns poucos cristãos e maometanos. Pedi a alguns habitantes não-drusos da cidade que me falassem da religião dos drusos, e foi isso o que eles me disseram: Ah, os drusos são um povo muito triste. O primeiro princípio da religião deles é mentir para os estrangeiros a respeito de suas crenças - nunca diga a verdade para um infiel! De modo que vocês não devem considerar nada que os drusos lhes digam como autoridade. Alguns de nós acham, na verdade, que os drusos tinham um livro sagrado, sua própria Escritura, mas o perderam, e ficam com tanta vergonha disso que inventaram todo tipo de bobagens solenes para evitar que isso venha à luz. Você vai notar que as mulheres não participam das cerimônias dos drusos; isso é porque elas não conseguiam guardar esse segredo! Eu ouvi essa história de diversas pessoas que alegavam saber, e também a ouvi sendo negada por alguns drusos, é claro. Mas, se for verdade, isso criaria um dilema para qualquer antropólogo: o método normal de questionamento dos informantes seria irremediavelmente uma caça inútil, e se ele fizesse o sacrifício supremo e se convertesse a druso para obter a entrada no interior do santuário, ele teria de admitir que nós, do lado de fora, não acreditaríamos em seu tratado erudito, No que os drusos realmente acreditam, já que teria sido escrito por um devoto druso (e todo mundo sabe que os drusos mentem). Como jovem filósofo, fiquei fascinado por essa versão na vida real do paradoxo do mentiroso (Epimênides de Creta diz que todos os cretenses são mentirosos; será que ele está dizendo a verdade?), e também para os ecos inequívocos de outro exemplo famoso na filosofia: o besouro na caixa, de Ludwig Wittgenstein. Nas Investigações filosóficas (1953), Wittgenstein diz: Suponhamos que nós todos tenhamos uma caixa com algo dentro, a que chamamos de "besouro". A ninguém é dado olhar dentro da caixa dos demais, e todos dizem que só sabem o que é besouro olhando o seu besouro. - Aqui seria bem possível que cada um tenha uma coisa diferente na sua caixa. Pode-se até imaginar tal coisa mudando constantemente. - Mas suponhamos que a palavra "besouro" tenha um emprego na linguagem dessas pessoas. - Se assim for, não seria usada como o nome de uma coisa. A coisa no interior da caixa não tem lugar algum no jogo da linguagem; nem mesmo como alguma coisa: já que a caixa até poderia estar vazia. - Não, podemos nos "dividir quanto" à coisa no interior da caixa; seja lá o que for, ela se anula. Já se escreveu muito a respeito da caixa do besouro de Wittgenstein, mas eu não sei se alguém já propôs alguma aplicação à crença religiosa. De qualquer modo, parece fantástico, a princípio, que os drusos possam ser de fato um exemplo do fenômeno. Será que estou apenas inflando uma calúnia malvada dos drusos feita por seus vizinhos para chegar a um duvidoso aspecto filosófico? Talvez, mas considere o que Scott Atran tem a dizer a respeito de suas tentativas, como antropólogo, de escrever a respeito das crenças dos drusos: Há quase três décadas, como aluno de pós-graduação, passei alguns anos com os drusos no Oriente Médio. Eu queria aprender a respeito das crenças religiosas


deles, que pareciam tecer, de uma maneira intrigante, idéias de todos os grandes credos monoteístas. A aprendizagem a respeito da religião dos drusos é um processo gradual na tradição socrática, envolvendo a interpretação de parábolas no formato de pergunta e resposta. Embora, como não-druso, eu jamais pudesse ser formalmente iniciado na religião, os anciãos pareceram se deliciar com a minha tentativa de entender o mundo como eles o concebem. Mas cada vez que eu alcançava algum nível de conhecimento de algum problema, os anciãos drusos me lembravam que qualquer coisa dita ou aprendida além daquele ponto não seria discutida com pessoas não iniciadas, inclusive outros drusos. Nunca escrevi a respeito da religião dos drusos e acabei envolvido em uma tese sobre as bases cognitivas da ciência. [2002, p. ix] Parece que ainda não sabemos no que os drusos realmente acreditam. Podemos começar a imaginar que eles mesmos não sabem. E podemos também começar a pensar se isso tem importância, o que me leva à minha segunda lição do Líbano. Em 1951, começaram a suspeitar que Kim Philby, um oficial graduado do serviço de inteligência britânico (sis), era agente duplo, um traidor altamente posicionado, trabalhando para a KGB soviética. Um tribunal secreto foi montado pela sis, mas, com as provas apresentadas, determinou-se que Philby não era culpado. Embora a SIS não conseguisse prendê-lo, eles, muito razoavelmente, se recusaram a reconduzi-lo à sua posição, e Philby renunciou e se mudou para o Líbano, para trabalhar como jornalista. Em 1963, um desertor soviético em Londres confirmou o papel de agente duplo de Philby, e, quando a sis foi a Beirute para interrogá-lo, ele fugiu para Moscou, onde passou o resto da vida trabalhando para a KGB. Ou será que não? Quando Philby apareceu pela primeira vez em Moscou, ele era (aparentemente) suspeito, pela KGB, de ser um agente plantado pelos britânicos - um agente triplo, se quiser. Será que era mesmo? Durante anos correu uma história nos círculos de inteligência a esse respeito. A idéia era que quando a sis exonerou' Philby em 1951, eles encontraram um jeito brilhante de lidar com seu delicado problema de confiança: Parabéns, Kim, velho chapa! Sempre achamos que você era leal à nossa causa. E como sua próxima missão, gostaríamos que você fingisse renunciar à sis amargurado por nós não o termos inteiramente reintegrado, você vê - e se mudasse para Beirute, para instalar-se como jornalista no exílio. Na hora adequada, temos a intenção de dar a você um motivo para "fugir" para Moscou, onde você será por fim admirado por seus camaradas, porque você pode derramar um monte de informações secretas relativamente inócuas que você já conhece, e nós forneceremos mais outros presentes cuidadosamen te controlados de inteligência - e desinformação - que os russos ficarão contentes em aceitar, mesmo que já tenham suas dúvidas. Uma vez que você lhes tenha angariado as boas graças, gostaríamos que você começasse a nos dizer tudo o que puder a respeito do que eles estão tramando, que perguntas lhe fazem, e daí por diante. Uma vez dada a Philby sua nova missão, as preocupações da SIS terminaram. Simplesmente


não tinha importância se ele era realmente um patriota britânico fingindo ser agente descontente, ou um agente soviético verdadeiramente leal fingindo ser agente britânico leal (fingindo ser um agente descontente...). Ele se comportaria exatamente da mesma maneira em qualquer dos casos; suas atividades poderiam ser interpretadas e previstas a partir de qualquer um dos dois perfis de imagem especular da atitude intencional. Em uma delas, ele acredita profundamente que a causa britânica merece que se arrisque a vida por ela, e na outra, ele acredita profundamente que tem uma oportunidade de ouro para ser herói da União Soviética, fingindo que acredita profundamente que a causa britânica merece que se arrisque a vida por ela, e daí por diante. Enquanto isso, os soviéticos fariam a mesma inferência, sem dúvida, não se dariam o trabalho de calcular se Philby era realmente um agente duplo, ou um agente triplo, ou um agente quádruplo. Philby, de acordo com essa história, foi habilmente transformado em uma espécie de telefone humano, um mero duto de informações que os dois lados poderiam explorar para quaisquer objetivos que quisessem, confiando que ele fosse um transmissor de alta-fidelidade de seja lá que informações dessem a ele, sem se preocupar a respeito de onde se encontravam suas fidelidades definitivas. Em 1980, quando a posição de Philby estava (aparentemente) melhorando perante seus supervisores em Moscou, eu era um Visiting Fellow no Ali Souls College, em Oxford, outro professor visitante na época, por acaso, era sir Maurice Oldfield, o chefe aposentado do MI6, a agência responsável pela contra-espionagem fora da Grã-Bretanha, e um dos chefes da rede de espionagem responsável pela trajetória de Philby. (Sir Maurice foi o modelo para o " M" dos romances de James Bond, de Ian Fleming.) Uma noite, depois do jantar, perguntei a ele se essa história que eu tinha ouvido era verdade, e ele respondeu bastante irritado que não passava de um monte de bobagens. Ele gostaria que as pessoas apenas deixassem o pobre Philby em paz para viver calmamente sua vida em Moscou. Respondi que agradecia à resposta dele, mas nós dois tínhamos de reconhecer que era o que ele me diria se a história tivesse sido verdade! Sir Maurice franziu o cenho e não disse nada.'4 Essas duas histórias ilustram de forma extrema o problema fundamental enfrentado por qualquer pessoa que tenha a intenção de estudar crenças religiosas. Tem sido notado por muitos comentadores que as crenças religiosas típicas, canônicas, não podem ser testadas para se saber se são verdadeiras. Como sugeri anteriormente, isso é o mesmo que definir credos religiosos característicos. Eles têm de ser adotados "como verdadeiros" e não são submetidos a confirmação (científica, histórica). Porém, mais que isso, por esse e outros motivos, as expressões de crença religiosa não podem ser de fato tomadas pelo seu valor ostensivo. Os antropólogos Craig Palmer e Lyle Steadman (2004, p. 141) citam o lamento de seu distinto predeces- sor, o antropólogo Rodney Needham, que se frustrou em seu trabalho no Penan, no interior de Bornéu: Dei-me conta de que não podia descrever com confiança a postura deles em relação a Deus, fosse isso crença ou qualquer outra coisa [...] De fato, como tive de concluir com tristeza, eu simplesmente não sabia qual a postura psicológica deles em relação ao personagem em quem eu supus que acreditassem [...] Claramente, uma coisa era relatar as idéias recebidas, endossadas pelas pessoas, outra inteiramente diferente era dizer qual o estado interior deles (crença, por exemplo) quando eles expressavam ou nutriam essas idéias. Se, no entanto, um


etnógrafo dissesse que as pessoas acreditavam em alguma coisa quando na verdade ele não sabia o que estava acontecendo dentro delas, então por certo seu relatório sobre elas, ocorreu-me, deve ser muito falho em aspectos bastante fundamentais. [Needham, 1972, pp. 1-2] Palmer e Steadman tomam essa confissão de Needham como um sinal para a necessidade de remodelar as teorias antropológicas como relatos de comportamento religioso, e não crença religiosa: "Ao mesmo tempo que as crenças religiosas não são identificáveis, o comportamento religioso é, e esse aspecto da experiência humana pode ser compreendido. Necessária é uma explicação desse comportamento religioso observável, restrito ao que pode ser observado" (p. 141). Eles continuam dizendo que Needham está praticamente sozinho em se dar conta das profundas implicações desse fato a respeito da inescrutabilidade da confissão religiosa, mas eles próprios não percebem a implicação ainda mais profunda disso: os nativos estão no mesmo barco que Needham! Eles são tão incapazes de penetrar no íntimo da cabeça de seus parentes e vizinhos quanto o antropólogo. Quanto a interpretar as confissões religiosas de outros, todo mundo é estranho. Por quê? Porque as confissões religiosas dizem respeito a questões que estão além da observação, além de testes que tenham algum significado, de modo que a única coisa em que qualquer um pode se basear é o comportamento religioso, e, mais especificamente, o comportamento da profissão. Uma criança que cresça em uma cultura é como um antropólogo, afinal de contas, rodeado por informantes cujas profissões precisam ser interpretadas. O fato de seus informantes serem seu pai e sua mãe, e de falarem em sua linguagem natal, não dá mais que uma ligeira vantagem circunstancial sobre o antropólogo adulto que tem de se basear em uma série de intérpretes bilíngües para inquirir os informantes.'5 (E pense no seu próprio caso: você nunca ficou perplexo ou confuso em relação a exatamente em que você deveria acreditar? Você sabe perfeitamente bem que você não tem acesso privilegiado aos dogmas da fé na qual foi criado. Só estou perguntando para generalizar a questão, para reconhecer que os outros não estão em situação melhor.)


7. DEUS EXISTE?

Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo. [Voltaire] Por fim, eu me volto para a consideração prometida sobre os argumentos a favor da existência de Deus. E, tendo revisto os obstáculos - diplomáticos, lógicos psicológicos e táticos - a serem enfrentados por quem quiser fazer isso de modo construtivo, vou dar apenas uma breve visão superficial do domínio da investigação, expressando meus próprios veredictos, mas não os raciocínios que entraram neles, e fornecendo referências a algumas peças que podem não ser conhecidas de muitos. Existe um espectro de objetos intencionais a serem considerados, estendendo-se ao longo da escala antropomórfica de um Cara no Céu a uma Força Benévola Atem- poral, ou outra. E existe um espectro de argumentos vindos de suposta documentação histórica, como esta: de acordo com a Bíblia, que é verdade literal, Deus existe, sempre existiu e criou o universo em sete dias há uns poucos milhares de anos. Os argumentos históricos são aparentemente satisfatórios para aqueles que os aceitam, mas eles simplesmente não podem ser introduzidos em investigações sérias, já que tão manifestamente admitem tudo como verdadeiro, sem provas. (Se isso não for evidente para você, pergunte se o Livro do Mórmon [1829], ou o documento fundador da Cientologia, o livro Dianética de L. Ron Hubbard [1950], devem ser adotados como prova irrefutável das proposições que eles contêm. Não se pode dar a texto algum o status de "verdade evangélica" sem antes eliminar qualquer investigação racional.) Isso nos deixa com os argumentos tradicionais extensamente discutidos pelos filósofos e teólogos ao longo dos séculos, alguns empíricos - como o Argumento a partir do Projeto - e outros puramente a priori ou lógicos - como o Argumento Ontológico e o Argumento Cosmológico pela necessidade de uma Causa Primeira. Os argumentos lógicos são encarados por muitos pensadores, inclusive muitos filósofos que os examinaram cuidadosamente durante anos, como truques de mágica ou enigmas intelectuais, e não proposições científicas sérias. Veremos em consideração o Argumento Ontológico, formulado pela primeira vez por santo Anselmo no século xi como uma resposta direta ao Salmo 14, i, a respeito do que o insensato disse em seu coração. Se o insensato entende o conceito de Deus, alega Anselmo, ele deveria entender que Deus é (por definição) a maior coisa concebível - ou, em uma famosa expressão complicada, o Ser tal que não se pode conceber nada maior que ele. Entre as perfeições que tal maior Ser concebível teria de ter está a existência, já que se faltasse a Deus a existência, seria possível conceber um Ser ainda maior - ou seja, Deus-comtodas-as-Suas-perfeições- mais-existêncial Um Deus sem existência não seria o Ser tal que nada se pode conceber maior que ele, mas essa é a definição de Deus, então Deus tem de existir. Você acha que isso é um tanto forçado? Ou será que suspeita ser algum tipo de "truque com espelhos"


da lógica? (Será que você poderia usar o mesmo esquema de argumentos para provar a existência do sundae de sorvete de creme mais perfeito concebível - já que se ele não existir haverá um mais perfeito concebível: ou seja, um que existe sim?) Se você estiver desconfiado, estará em boa companhia. Desde Immanuel Kant, no século XVIII, tem havido uma convicção amplamente disseminada - mas de jeito algum unânime - de que você não pode provar a existência de qualquer coisa (diferente de uma abstração) pela lógica pura. Você pode provar que existe um número primo maior que um trilhão, e que existe um ponto no qual três linhas que bisseccionem os três ângulos de qualquer triângulo se encontram, e existe uma "sentença de Gõdel" para qualquer máquina de Turing que seja consistente e possa representar as verdades da aritmética, mas você não pode provar que alguma coisa que tenha efeitos no mundo físico exista, a não ser por métodos que sejam, pelo menos em parte, empíricos.'6 Há os que discordam e continuam a defender versões ultrapassadas do Argumento Ontológico de santo Anselmo, mas o preço que pagam (de boa vontade, imagina-se) pelo acesso deles a provas puramente lógicas é um objeto intencional notavelmente vazio e sem feições. Mesmo que um Ser tal que nada maior do que ele pode ser concebido tivesse de existir, como o argumento deles determina, há uma longa distância a ser percorrida dessa especificação até um Ser misericordioso, ou apenas amoroso -, a não ser que você se assegure de defini-lo desse jeito desde o início, introduzindo antropomorfismo por um desvio que não vai convencer os céticos, nem é preciso dizer. Nem - na minha experiência tranqüiliza os crentes. O Argumento Cosmológico, que em sua forma mais simples declara que, desde que tudo tem de ter uma causa, o universo tem de ter uma causa - ou seja, Deus -, não permanece simples por muito tempo. Alguns negam a premissa, uma vez que a física quântica nos ensina (não ensina?) que nem tudo que acontece tem de ter uma causa. Outros preferem aceitar a premissa e depois perguntar: o que causou Deus? A resposta de que Deus é sua própria causa (de algum modo) provoca a refutação: se alguma coisa pode ser causada por si mesma, porque o universo, como um todo não pode ser a coisa que é causada por si mesma? Isso leva, em várias direções obscuras, para os circuitos estranhos das teorias das séries e das flutuações probabilísticas e coisas parecidas, em um extremo, e um hábil esmiuçamento a respeito do significado de "causa", no outro. A não ser que você tenha um pendor para a matemática e a física teórica, por um lado, ou para os requintes da lógica escolástica, pelo outro, você não conseguirá achar nada disso irresistível ou até mesmo passível de ser avaliado. Mesmo assim, tem gente que quer voltar aos argumentos a priori como algum tipo de rede de segurança, depois de ver o que pode ser feito com o argumento empírico, o Argumento do Projeto, incluindo suas variações recentes que invocam o Princípio Antrópico. O Argumento do Projeto é com certeza o mais intuitivo e popular, e tem sido assim há séculos. E simplesmente evidente (não é?) que todas as maravilhas do mundo vivo devem ter sido arranjadas por algum Projetista Inteligente? Não poderia ter sido um mero acidente, poderia? E mesmo que a evolução por seleção natural explique o projeto das coisas vivas, o "ajuste fino" das leis da física para que toda essa evolução seja possível não exige um Afinador? (O Argumento do Princípio Antrópico.) Não, não é evidente; e, sim, tudo pode não passar do resultado de "acidentes" explorados pelas incansáveis regularidades da natureza; e, não, o ajuste fino das leis da física podem ser explicadas sem se postular um Afinador Inteligente. Eu já discuti esses argumentos bem extensamente em A idéia perigosa de Darwin (especialmente nos capítulos i e 7),17 de modo que


não vou repetir os meus contra-argumentos, mas apenas o meu resumo do recuo causado pela idéia perigosa de Darwin durante o último século e meio: Começamos com uma visão um tanto infantil de um Deus antropomórfico, Artesão, e reconhecemos que essa idéia, considerada literalmente, estava em via de extinção. Quando olhamos pelos olhos de Darwin para os reais processos de projeto pelos quais nós, e todas as maravilhas da natureza, somos os produtos até agora, vemos que Paley tinha razão em considerar esses efeitos o resultado de um bocado de trabalho de planejamento. Mas encontramos uma explicação não milagrosa para isso: um processo maciçamente paralelo, e, portanto prodigiosamente perdulário, de tentativa de projeto irracional, algorítmico, no qual, no entanto, os mínimos incrementos do projeto foram economicamente cuidados, copiados e reusados ao longo de bilhões de anos. A maravilhosa particularidade ou individualidade da criação se deve, não a um gênio inventivo shakespeariano, mas às incessantes contribuições do acaso, uma seqüência crescente do que Crick (1968) chamou de "acidentes congelados". Essa visão do processo criativo ainda deixou para Deus um papel de Legislador, mas este deu, por sua vez, lugar ao papel newtoniano de Encontrador da Lei, que também evaporou, como vimos recentemente, não deixando para trás Ação Inteligente alguma no processo. Foi deixado aquilo que o processo, embaralhado ao longo da eternidade, encontra irracionalmente (quando encontra alguma coisa): uma possibilidade platônica atemporal da ordem. Isso é, de fato, uma beleza, como os matemáticos estão incessantemente exclamando, mas não é em si mesma uma coisa inteligente, mas, maravilha das maravilhas, alguma coisa ininteligível. Sendo abstrata e atemporal, não é algo com um início ou origem, precisando de uma explicação.'8 O que precisa ter sua origem explicada é o universo concreto propriamente dito, e como Philo de Hume indagou há muito tempo: Por que não parar no mundo material? Este, já vimos, realmente executa uma versão do supremo truque da autogeração; ele se cria ex nihilo, ou de qualquer modo, de alguma coisa bastante indistinguível de qualquer outra coisa. Ao contrário da intrigantemente misteriosa autogeração atemporal de Deus, essa autogeração é uma proeza não milagrosa que deixou muitos traços. E sendo não apenas concreta, mas o produto de um processo histórico maravilhosamente particular, é uma criação de suprema singularidade abrangendo e diminuindo todos os romances e pinturas e sinfonias de todos os artistas - ocupando uma posição diferente de todas as demais no hiperespaço das possibilidades. Baruch de Spinoza, no século xvn, identificou Deus com a Natureza, argumentando que a pesquisa científica era o caminho verdadeiro para a teologia. Ele foi perseguido por essa heresia. Há uma perturbadora (ou, para alguns, atraente) característica de faces de Jano na visão herética de Deus sive Natura (Deus ou Natureza) de Spinoza: ao propor sua simplificação científica, ele estava personificando a Natureza ou despersonalizando Deus? A visão mais produtiva


de Darwin propicia a estrutura na qual podemos ver a inteligência da Mãe Natureza (ou será apenas inteligência aparente?) como sendo uma característica não milagrosa e não misteriosa - e por isso ainda mais maravilhosa - dessa coisa autogeradora. [Dennett, 1995b, pp. 184-185] Deve Spinoza ser considerado ateu ou panteísta? Ele viu a glória da natureza e depois viu um jeito de eliminar o intermediário! Como eu disse no final do meu livro anterior: A Árvore da Vida não é nem perfeita nem infinita no espaço ou no tempo, mas é real, e se não for o "Ser tal que não se pode conceber nada maior que ele", certamente é um ser maior do que qualquer coisa que qualquer um de nós jamais chegará a conceber em um detalhe digno de seus detalhes. É alguma coisa sagrada? Sim, digo eu com Nietzsche. Eu não poderia rezar para ela, mas posso afirmar sua magnificência com segurança. O mundo é sagrado. [1995b, p. 520] Será que isso faz de mim um ateu? Certamente, no sentido óbvio. Se aquilo que é sagrado para você não for algum tipo de Pessoa para quem você possa rezar, ou considerar um recipiente adequado de gratidão (ou raiva, quando um ser querido morre sem sentido), você é um ateu, no meu livro. Se, por motivos de lealdade à tradição, diplomacia ou camuflagem autopro- tetora (muito importante hoje em dia, especialmente para políticos), você vai querer negar ser ateu, o problema é seu, mas não se iluda. Talvez no futuro, se um maior número de nós, brights, der um passo à frente e calmamente anunciar que é claro que não acreditamos mais em qualquer desses deuses, será possível eleger um ateu para um posto mais alto do que senador. Atualmente temos senadores judeus e mulheres, e membros do Congresso homossexuais, de modo que o futuro parece brilhante. Basta de crença em Deus. E a crença na crença em Deus? Ainda não investigamos todas as bases dessa crença na crença. Não será ela verdadeira? Ou seja, não é verdade que, exista Deus ou não, a crença religiosa é pelo menos tão importante quanto a crença na democracia, no domínio da lei, no livre-arbítrio? A opinião muito disseminada (mas longe de universal) é que a religião é o bastião da moralidade e do valor. Sem religião, cairíamos na anarquia e no caos, em um mundo em que "qualquer coisa vale". Os cinco últimos capítulos expuseram uma variedade de truques conhecidos, redescobertos inúmeras vezes, e que tendem a ter o efeito de proteger as práticas religiosas contra a extinção ou a erosão que ultrapasse o reconhecimento. Se o lado sombrio disso é o projeto das cleptocracias e de outras organizações manifestamente más que podem oprimir pessoas inocentes, o lado bom é o projeto de instituições humanas e úteis que não apenas merecem a lealdade das pessoas mas podem efetivamente assegu- rá-la. Ainda não abordamos seriamente a questão de se as religiões algumas religiões, uma religião, qualquer religião - são fenômenos sociais que fazem mais bem do que mal. Agora que conseguimos ver através de parte dessa gaze protetora, estamos em condições de abordar essa questão. *** Capítulo 8. A crença na crença em Deus é tão importante que não deve ser submetida aos riscos da refutação ou de críticas sérias, que levem o devoto a "salvar" suas crenças tornando-as incompreensíveis até para eles mesmos. O resultado é que até os adeptos não sabem realmente o


que estão professando. Isso torna a meta de provar ou refutar a existência de Deus uma busca quixotesca - mas também, exatamente por esse motivo, não muito importante. *** Capítulo 9. A questão importante é se as religiões merecem a proteção contínua de seus adeptos. Muitas pessoas amam suas religiões mais do que qualquer outra coisa na vida. Será que a religião deles merece essa adoração?


PARTE 3 A RELIGIÃO HOJE

9. POR UM GUIA DO CONSUMIDOR DE RELIGIÕES 1. PELO AMOR DE DEUS Existe um estado de espírito, conhecido dos homens religiosos, mas não dos demais, no qual a vontade de nos afirmarmos e de mantermos nossa posição foi substituída por uma vontade de calar a boca e sermos como nada nas enchentes e trombas d'água de Deus. Nesse estado de espírito, o que mais temíamos se tornou a habitação da nossa segurança, e a hora da nossa morte moral se transformou no nosso nascimento espiritual. Acabou-se a hora de tensão na nossa alma, e a hora do relaxamento feliz, da calma, da respiração profunda, e um presente eterno, sem futuro discordante com que se preocupar, chegou. [William James, As variedades da experiência religiosa] A MAIORIA das pessoas acredita na crença em Deus, mesmo aquelas que não conseguem acreditar em Deus (o tempo todo). Por que acreditam nisso? Uma resposta evidente é que querem ser boas. Ou seja, querem levar vidas boas e com significado, e querem o mesmo para outros também, e não conseguem ver uma maneira melhor de fazer isso do que se porem ao serviço de Deus. Essa resposta pode estar certa, e elas podem estar certas, mas antes de pensar nessa resposta com o cuidado que ela merece, precisamos cuidar de um desafio. Algumas pessoas - e você pode ser uma delas - acham todo o cenário dessa questão objetável. Vou deixar o professor Fé apresentar uma expressão justa do seu ponto de vista: Você insiste em tratar a questão da religião como se ela fosse semelhante a mudar ou não de emprego, ou comprar um gato, ou fazer alguma cirurgia - uma questão que deve ser resolvida por consideração calma e objetiva dos prós e dos contras, e depois se deve tirar uma conclusão a respeito da melhor decisão, após "considerados todos os pontos". Não é assim que a vemos, de jeito algum. Não é que a crença na crença em Deus seja nossa convicção estabelecida, uma questão da melhor política de vida geral que tenhamos conseguido descobrir. Vai muito além disso! No capítulo anterior você falou de "finja até conseguir", mas nunca chegou a descrever o gosto maravilhoso daqueles que "conseguem" sim, cujas


tentativas honestas para imbuírem-se do espírito de Deus têm sucesso em uma explosão de glória. Aqueles de nós que a conhecem sabem que é diferente de qualquer outra experiência, uma alegria mais viva que a alegria da maternidade, mais profunda que a alegria da vitória nos esportes, mais extática do que as alegrias de tocar ou cantar uma grande música. Quando vemos a luz, não é apenas uma experiência do tipo "Ahá!", como se tivéssemos resolvido um enigma ou subitamente visto uma figura escondida num desenho, ou entendido uma piada, ou nos convencido por um argumento. Não é de jeito algum chegar a uma crença. Nós sabemos, então, que Deus é a coisa maior que poderá jamais entrar em nossas vidas. Não é como aceitar uma conclusão; é como se apaixonar. Sim, estou ouvindo. Eu deliberadamente dei a este capítulo um título provocante, para energizar essa preocupação e focalizar os holofotes sobre essa objeção. Reconheço o estado que você está descrevendo e ofereceria uma retificação amigável: não é apenas como se apaixonar" é um tipo de apaixonar-se. O desconforto, ou até mesmo o ultraje que você sente ao se confrontar com o meu convite calmo para considerar os prós e os contras de sua religião é a mesma reação que se sente quando lhe pedem uma avaliação sincera de seu amor verdadeiro: "E não gosto da minha namorada porque, depois da devida consideração, acredito que suas qualidades maravilhosas têm um peso muito maior que seus defeitos. Eu sei que ela é a mulher da minha vida e a amarei sempre com todo meu coração e minha alma". Os fazendeiros da Nova Inglaterra têm a reputação de ser tão sovi- nas com suas emoções quanto com suas carteiras e suas palavras. Eis uma piada do Maine: "Como vai a vida, Jeb?" "Comparada com o quê?" Poderia parecer que Jeb não está mais apaixonado pela mulher dele. E se você estiver até mesmo disposto a pensar em comparar sua religião com as outras, ou em não ter religião alguma, você não deve estar apaixonado por sua religião. Esse é um amor muito pessoal (diferente do meu amor por jazz, beisebol ou paisagens de montanha), mas nenhuma pessoa individualmente nem o padre, nem o rabino, nem o imã - ou mesmo qualquer grupo de pessoas - a congregação dos fiéis, digamos - é o bem- amado. A devoção imorredoura de um indivíduo não é devoção para ele, individualmente ou juntos, mas ao sistema de idéias que os une. E claro, as pessoas algumas vezes se apaixonam - amor romântico - pelo padre ou algum companheiro da paróquia, e nesse caso vai ser difícil para eles distinguir isso do amor à religião, mas não estou sugerindo que essa seja a natureza do amor sentido pela maior parte das pessoas que amam a Deus. Estou sugerindo, no entanto, que sua devoção inquestionável, sua disposição de até mesmo considerar as virtudes em contraposição aos vícios, é um tipo de amor, e mais parecido ao amor romântico do que ao amor fraterno ou o amor intelectual. Não é por acidente que a linguagem do amor romântico e a linguagem da devoção religiosa são quase indistinguíveis, e, do mesmo modo, não é por acidente que quase todas as religiões (com algumas austeras exceções, como os puritanos, os shakers e os talibãs) deram a seus amados uma cornucópia de beleza para maravilhar os sentidos: arquitetura sublime, decorações aplicadas em todas as superfícies, músicas, velas e incenso. O inventário das grandes obras de


arte no mundo é coroado por obras-pri- mas religiosas. Graças ao islamismo, temos o Alhambra e as maravilhosas mesquitas de Isfahan e Istambul. Graças ao cristianismo, temos a Hagia Sofia e as catedrais da Europa. Não precisamos ser crentes para nos sentirmos hipnotizados pelos templos budistas, hindus e xintoístas, de complexidade surrealista e proporções sublimes. A Paixão segundo são Mateus de Bach e o Messias de Handel, e aquelas pequenas maravilhas dos carols de Natal estão entre as mais arrebatadoras canções de amor jamais compostas, e as histórias postas em música são, elas próprias, composições de extraordinária força emocional. O diretor de cinema George Stevens pode não ter exagerado quando chamou seu filme de 1965, sobre a vida de Jesus, A maior história de todos os tempos. A competição é feroz, com a Odisséia, a Ilíada, Robin Hood, Romeu e Julieta, Oliver Twist, A ilha do tesouro, Huckleherry Finn, O diário de Anne Frank e todas as outras grandes narrativas da literatura mundial. Mas em termos de alegria, perigo, páthos, triunfo, tragédia, heróis e vilões (sem alívio cômico), dificilmente ela é vencida. E é claro que a história tem uma moral. Nós adoramos histórias, e Elie Wiesel usa uma história para explicar isso: Quando o fundador do judaísmo hassídico, o grande rabino Israel Shem Tov, via a desgraça ameaçando os judeus, era seu costume ir a um determinado ponto da floresta para meditar. Lá ele podia acender fogo, dizer uma prece especial, e o milagre se dava, a desgraça era evitada. Mais tarde, quando seu discípulo, o celebrado Maggid de Mezeritch, tinha a ocasião, pelo mesmo motivo, de interceder com os céus, ele ia para o mesmo lugar na floresta e dizia: "Mestre do Universo, escutai! Eu não sei como acender o fogo, mas ainda consigo dizer as preces", e mais uma vez o milagre acontecia. Ainda mais tarde, o rabino Mosheleib de Sasov, para mais uma vez salvar seu povo, ia para a floresta e dizia: "Eu não sei acender o fogo, não sei a reza, mas conheço o lugar, e isso deve ser o suficiente". Era suficiente, e o milagre acontecia. Aí coube ao rabino Israel de Rizhin vencer a fortuna. Sentado em sua cadeira de braços, com a cabeça nas mãos, ele falou com Deus: "Sou incapaz de acender o fogo e não sei a reza e não consigo sequer encontrar o lugar na floresta. Tudo o que posso fazer é contar a história, e isso deve bastar". E bastou, já que Deus fez o homem porque ele adora histórias. (1966, prefácio; não Wiesel, 1972, como dizem muitas páginas da web) Foram-nos dadas muitas coisas para amar, e não apenas arte espetacularmente linda, histórias e cerimônias. Os atos diários das pessoas religiosas resultaram em incontáveis boas ações ao longo da história, aliviando sofrimentos, alimentando os famintos, cuidando dos doentes. As religiões trouxeram o consolo do pertencimento e a companhia para muitas pessoas que de outro modo teriam passado a vida sozinhas, sem glória ou aventura. Elas não apenas propiciaram os primeiros socorros, de fato, para pessoas em dificuldades; forneceram meios para mudar o mundo de modo a remover essas dificuldades. Como Alan Wolfe diz, "A religião pode tirar as pessoas de seus ciclos de pobreza e dependência da mesma forma como conduziu Moisés para longe do Egito" (2003, p. 139). Há muito do que os amantes da religião podem se orgulhar, em suas tradições, e muito pelo qual nós todos podemos ficar gratos. O fato de tanta gente amar suas religiões, tanto quanto ou mais do que qualquer outra coisa na vida, é realmente um fato a ser ponderado. Eu estou inclinado a achar que nada poderia ter mais


importância do que aquilo que as pessoas amam. De qualquer modo, não consigo pensar em nenhum outro valor que eu pudesse pôr acima disso. Eu não gostaria de viver em um mundo sem amor. Será que um mundo em paz, mas sem amor, significaria um mundo melhor? Não, se a paz fosse alcançada retirando-se o amor (e o ódio) de nós pelas drogas ou por repressão. Será que um mundo com justiça e liberdade, mas sem amor, seria um mundo melhor? Não, se isso nos transformasse, por algum modo, em cumpridores da lei sem amor, sem nenhum dos anseios ou das invejas e ódios que são a mola propulsora da injustiça e da submissão. É difícil considerar essas hipóteses, e duvido que possamos confiar em nossas primeiras intuições a respeito delas. Mas, pelo que se apresenta, eu suponho que quase todos nós queremos um mundo no qual o amor, a justiça, a liberdade e a paz estejam presentes, tanto quanto possível. Se tivermos de abrir mão de um deles, contudo, não seria - e não deveria ser - do amor. Mas, é triste dizer, mesmo que seja verdade, que nada pode importar mais que o amor. Não se pode deduzir daí que não temos motivos para questionar as coisas que nós e outros amamos. O amor é cego, como se diz, e como o amor é cego, muitas vezes leva à tragédia: há conflitos nos quais um amor é jogado contra outro amor, e alguém tem de ceder, com sofrimento garantido em qualquer resolução. Suponhamos que eu ame a música mais que a própria vida. Outras coisas ficando iguais, então, eu deveria preferir viver a minha vida em busca da exaltação da música, a coisa de que eu mais gosto, com todo o meu coração e toda a minha alma. Mas isso ainda assim não me dá o direito de obrigar meus filhos a praticarem seus instrumentos dia e noite, ou o direito de impor a educação musical a todo mundo no país do qual sou o ditador, ou de ameaçar a vida daqueles que não têm amor à música. Se o meu amor pela música é tão grande que eu simplesmente não consigo pensar de forma objetiva em suas implicações, esta é uma incapacidade infeliz. Os outros podem, com bons motivos, assegurar o direito que têm de agir como meus substitutos, conscienciosamente decidindo o que é melhor para todos, já que o meu amor me enlouqueceu e eu não posso participar racionalmente da avaliação do meu próprio comportamento e de suas conseqüências. Pode muito bem não haver nada mais maravilhoso que o amor, mas o amor não basta. Um mundo no qual o amor dos fãs de beisebol por seus times os levasse a odiar os outros times e os fãs destes, de tal modo que as partidas fossem acompanhadas de uma guerra assassina, seria um mundo no qual um amor particular, puro e irrepreensível em si próprio, teria levado a conseqüências imorais e intoleráveis. Então, embora eu compreenda e simpatize com aqueles que se ofendem com o meu convite para considerar os prós e os contras da religião, insisto em dizer que eles não têm o direito de se comprazer em declarar seu amor e depois se esconder por detrás do véu da indignação justa ou dos sentimentos feridos. Só amor não basta. Você já teve de enfrentar o problema de cortar o coração de uma amiga querida que se apaixonou perdi- damente por alguém que simplesmente não é digno do amor dela? Se você sugerir isso a ela, você estará arriscando perder uma amiga e ainda levar um tapa como paga de seu esforço, porque para as pessoas apaixonadas muitas vezes torna-se uma questão de honra reagir irracional e violentamente a qualquer desconsideração percebida em relação ao seu amado. Faz parte de todo o processo de estar apaixonado, afinal de contas. Quando dizem que o amor é cego, dizem isso sem pesar. Sabe-se, de hábito, que o amor deve ser cego; a idéia de avaliação deveria estar fora de cogitação, quando se chega ao amor verdadeiro. Mas por quê? A sabedoria comum não responde, os economistas teimosos há muito tempo descartaram a idéia como bobagem romântica, mas o economista evolutivo Robert Frank


chamou a atenção para o fato de haver, na realidade, um motivo racional excelente (base racional descomprometida) para o fenômeno do amor romântico no desordenado mercado da procura humana por um parceiro: Como a busca é cara, é racional estabelecer-se em um parceiro antes de ter examinado todos os potenciais candidatos. Uma vez escolhido um parceiro, no entanto, as circunstâncias relevantes muitas vezes mudam [...] A incerteza resultante torna imprudente adotar investimentos conjuntos que de outro modo seriam fortemente do interesse de cada parceiro. Para facilitar esses investimentos, cada parceiro quer fazer um compromisso de união para permanecer na relação [...] Características pessoais objetivas podem continuar a desempenhar um papel na determinação de que tipo de pessoa sente-se inicialmente mais atraída pelas outras, como sugerem muitas evidências. Mas os poetas certamente têm razão quando dizem que o elo a que chamamos de amor não consiste em deliberações racionais a respeito dessas características. E, ao contrário, um elo intrínseco, no qual a pessoa é valorizada por ela mesma. E exatamente aí está seu valor como solução para o problema do compromisso. [1988, pp. 195-196] Como diz Steven Pinker, "Murmurar que a aparência, o potencial de ganho e o QI do seu amor satisfazem seus padrões mínimos provavelmente mataria o romantismo, mesmo que a declaração seja estatisticamente verdadeira. O caminho para o coração de uma pessoa é declarar o oposto - que você se apaixonou porque não pôde evitar" (1997, p. 418). Esse desamparo demonstrado (ou pelo menos apaixonadamente professado) é o mais próximo que se tem de chegar para obter uma garantia de que você ainda não está olhando em volta. Como todos os sinais de comunicação, no entanto, se ele puder ser facilmente falsificado, o seu sinal de compromisso não será eficaz, e o resultado, como tantas vezes no mundo dos sinais animais, é a espiral inflacionária da sinalização custosa (Zahavi, 1987). Não são só os jovens atingidos pelo amor que cumulam suas amadas de presentes que mal têm como comprar; os ninhos elaborados dos pássaros fazedores desses ninhos são investimentos caros, e também os "presentes nupciais" de alimentos e outras coisas dadas pelos machos de mariposas, besouros, grilos e muitas outras criaturas. Será que a nossa capacidade evoluída para o amor romântico foi explorada pelos memes religiosos? Com certeza seria um Bom Estratagema. Faria com que as pessoas pensassem que era de fato uma coisa nobre ofender-se, atacar todos os céticos com fúria, atacar com selvageria, sem preocupação com a própria segurança - menos ainda pela segurança das pessoas que estão atacando. O ser amado não merece menos que isso, eles acham: um compromisso total de erradicar o blasfemo. Assim são feitas as fatwas, mas esse meme não está de modo algum restrito ao islamis- mo. Há muitos cristãos enganados, por exemplo, que contemplariam com deleite a perspectiva de demonstrar a profundidade de seu compromisso me enchendo de injúrias por ousar questionar o amor que eles têm pelo Jesus deles. Antes de agirem em suas fantasias autoindulgentes, espero que façam uma pausa para pensar que uma ação dessas traria, na verdade, a desonra para sua fé. Alguns dos espetáculos mais tristes do século passado foram a forma como fanáticos de


todos os credos e etnias profanaram seus próprios santuários e locais sagrados, e trouxeram vergonha e desonra para suas causas, por seus atos de lealdade fanática. Kosovo pode ter sido um lugar santo para os sérvios desde a batalha de 1389, mas é difícil ver como os sérvios podem continuar a acalentar sua memória depois da história recente. Ao destruir os monumentos budistas idolatras no Afeganistão, os talibãs se desonraram e à tradição deles de tal modo que serão necessários séculos de boas obras para expiar essa culpa. A matança de centenas de maometa- nos em represália à morte de dúzias de hindus no templo de Akshardham, em Gujarat, mancha a reputação das duas religiões, e seus devotos fanáticos deveriam se lembrar de que o resto do mundo não está apenas pouco emocionado, mas farto e cansado das demonstrações que fazem de sua devoção. O que realmente nos impressionaria, nós, infiéis, seria um anúncio, unilateral ou em conjunto, de que o lado contestado deveria daí para a frente ser considerado o Muro da Vergonha, não mais santo, porém, ao contrário, um lembrete para todos dos males do fanatismo. Desde n de setembro de 2001, eu muitas vezes pensei que talvez tivesse sido uma grande sorte para o mundo o fato de aqueles que atacaram o World Trade Center não tivessem atacado, em vez disso, a Estátua da Liberdade. Porque se eles tivessem destruído o nosso símbolo sagrado da democracia, temo que nós, norte-americanos, teríamos sido incapazes de nos conter, e nos entregaríamos a paroxismos de vingança de um tipo que o mundo nunca viu antes. Se isso tivesse acontecido, o significado da Estátua da Liberdade teria sido conspurcado além de qualquer esperança de redenção posterior - se ainda tivessem sobrado pessoas que se importassem. Aprendi com os meus alunos que esse meu pensamento perturbador está sujeito a infelizes interpretações equivocadas, de modo que me deixem aprofundá-lo para mantê-las afastadas. A morte de milhares de inocentes no World Trade Center foi um crime horrendo, muito pior que uma possível destruição da Estátua da Liberdade. E, sim, o World Trade Center era um símbolo muito mais apropriado à ira da Al Qaeda do que teria sido a Estátua da Liberdade. Mas exatamente por esse motivo não significou tanto como um símbolo, para nós. Foram as Riquezas Iníquas, os Pluto- cratas e a Globalização, não a Senhora Liberdade. Eu realmente suspeito que a fúria com que muitos norte-americanos teriam reagido à profanação de nosso querido símbolo nacional, a imagem mais pura das nossas aspirações como democracia, dificultaria extraordinariamente uma reação sadia e comedida. E esse o grande perigo dos símbolos - eles podem passar a ser "sagrados" demais. Uma tarefa importante para as pessoas religiosas de todos os credos no século xxi será espalhar a convicção de que não existem atos menos honrados do que fazer mal a "infiéis de uma cor ou de outra por "desrespeitar" uma bandeira, uma cruz, um texto sagrado. Ao pedir uma avaliação dos prós e dos contras da religião arrisco receber um soco no nariz, ou pior, e no entanto persisto. Por quê? Porque acredito que é muito importante quebrar esse encanto e fazer com que todos nós examinemos cuidadosamente a questão com a qual inicio esta seção: as pessoas têm razão quando dizem que a melhor maneira de viver uma vida boa é através da religião? William James confrontou o mesmo problema diretamente quando deu as Conferências Gifford, que se tornaram seu grande livro As variedades da experiência religiosa t e farei eco ao seu pleito por paciência: Não sou amante da desordem e das dúvidas como tais. Temo mais, em vez disso,


perder a verdade por essa pretensão de a possuir já inteiramente. Que possamos ganhar cada vez mais ao nos movermos sempre na direção certa, eu creio tanto quanto qualquer um, e espero trazer vocês todos para o meu modo de pensar antes de terminar estas palestras. Até então, eu peço a vocês, não endureçam suas mentes irrevogavelmente contra o empiricismo que professo. [1902, p. 334]

2. A CORTINA DE FUMAÇA ACADÊMICA A palavra Deus se refere a uma "profundidade" e "inteireza" diferentes de qualquer coisa que nós seres humanos sabemos ou podemos saber. Certamente está além da nossa capacidade de discriminar e rotular. [James B. Ashbrook e Carol Rausch Albright, The humanizing brain] Um mistério é um mistério. Se, por outro lado, considerarmos que é importante estudar como as pessoas se comunicam a respeito da idéia de que alguma coisa é um mistério, não há razão a priori para que isso deva estar além do alcance do método científico. [Ilkka Pyysièainen, How religion works] Opor-se à torrente de religião escolástica com máximas tão fracas como essas, que é impossível para a mesma coisa ser e não ser, que o mundo é maior que uma parte, que dois mais três somam cinco, é fingir parar o oceano com um junco. Poria você raciocínio profano contra mistério sagrado? Nenhuma punição égrande demais pela sua impiedade. E os mesmos fogos que foram acesos para os here- ges servirão também para a destruição dos filósofos. [David Hume, História natural da religião] James estava tentando impedir a deserção por parte dos devotos, mas eles não são os únicos que lançam mão do protecionismo. Uma barreira mais sutil, menos direta, mas igualmente frustrante para a investigação direta da natureza da religião foi erigida e mantida pelos amigos estudiosos da religião, muitos dos quais são especialistas ateus ou agnósticos, e não paladinos de qualquer credo. Eles querem estudar religião, mas só do jeito deles, não do jeito que estou propondo, que, do ponto de vista deles, é "cientístico", "reducionista" e, é claro, filisteu. Eu aludi a essa oposição no capítulo 2, quando discuti o lendário abismo que muitos querem ver entre as ciências naturais e as ciências interpretativas, Naturwissenschaf- ten e Geisteswissenschaften. Quem tentar fazer com que uma perspectiva evolutiva seja relacionada a qualquer item da cultura humana, não apenas a religião, deve esperar objeções que podem ir de gritos de ultraje a desprezo altaneiro por parte dos especialistas em literatura, história e cultura nas ciências sociais e humanas. Quando o fenômeno cultural é a religião, a jogada mais popular é a desqualificação mais preferencial, que tem sido bem conhecida desde o século xviii, quando era usada para desacreditar os primitivos ateus e deís- tas (como David Hume, barão d'Holbach e alguns grandes heróis norte- americanos, Benjamin Franklin e Thomas Paine). Eis aqui uma versão do início do século xx de Emile Durkheim: "Aquele que não traz ao estudo da religião um tipo de


sentimento religioso não pode falar dela! Ele é como um cego tentando falar de cores" (1915, p. xvii). E aqui, meio século mais tarde, está uma versão muitas vezes citada do grande estudioso da religião, Mircea Eliade: Um fenômeno religioso só será reconhecido como tal se for apreendido em seu próprio nível, ou seja, se for estudado como uma coisa religiosa. Tentar apreender a essência de um fenômeno desses por meio de fisiologia, psicologia, sociologia, economia, lingüística, arte ou qualquer outro estudo é falso; falta o elemento exclusivo e irredutível nele - o elemento do sagrado. [1963, p. iii] Você pode encontrar argumentos de desqualificação preferencial semelhantes protegendo outros temas. Apenas mulheres são qualificadas para fazer pesquisas sobre mulheres (de acordo com algumas feministas radicais), porque só elas podem sobrepujar o falocentrismo que deixa os homens obtusos e demonstrando tantos desvios que elas jamais poderão reconhecer e a eles se contrapor. Alguns multiculturalistas insistem em que os europeus (incluídos os norte-americanos) nunca conseguem realmente anular seu eurocentrismo incapacitante e compreender a subjetividade do povo do Terceiro Mundo. E preciso conhecer as pessoas, de acordo com esse tema e todas as suas variações. Bem, então devemos apenas nos sentar em nossos enclaves isolacionistas e esperar que a morte nos alcance, já que jamais conseguiremos nos entender? E há o tipo de derrotismo na minha própria disciplina original, a filosofia da mente, a doutrina misteria- na, que insiste em que o cérebro humano simplesmente não está à altura da tarefa de compreender o cérebro humano, que a consciência não é um enigma, mas um mistério insolúvel (portanto, pare de tentar explicá-lo). O que fica transparente em todas essas alegações é que elas são mais protecionistas do que derrotistas: nem tente, porque temos medo de que você tenha sucesso! "Você jamais entenderá a mágica de rua indiana se você não tiver nascido indiano, na casta dos mágicos. É impossível." Mas é claro que é possível (Siegel, 1991). "Você jamais compreenderá música a não ser que tenha nascido com um ótimo ouvido musical - o ouvido absoluto." Bobagem. De fato, as pessoas que têm dificuldade em estudar para ser músicos algumas vezes reproduzem mecanicamente insights a respeito da natureza da música, e de como executá-la, que não estavam disponíveis para aqueles que deslizam sem esforço para o domínio da música. Do mesmo modo, Temple Grandin (1996), que é autista, e portanto não tem ouvido para a postura intencional e a psicologia popular, apresentou observações impressionantes a respeito de como as pessoas se apresentam e interagem, insights que escaparam ao resto das pessoas normais. Jamais deixaríamos os magnatas dos negócios se saírem bem ao dizer que já que não somos plutocratas, nós mesmos, não podemos esperar compreender o mundo das altas finanças e portanto estamos desqualificados para investigar seus negócios. Os generais não podem fugir da supervisão civil alegando que apenas aqueles que usam fardas podem avaliar o que eles estão fazendo; e os médicos tiveram de abrir seus métodos e suas práticas ao escrutínio de conhecedores que não são, eles próprios, doutores em medicina. Seria uma negligência nossa deixarmos os pedófilos insistirem que só aqueles que prezam a prática da pedofilia podem realmente compreendê-las. Desse modo, o que podemos dizer para aqueles que insistem em que só aos que crêem, só aos que têm um profundo apreço pelo sagrado, pode ser confiada a investigação de fenômenos religiosos, é que eles estão simplesmente errados, tanto a respeito dos fatos como dos princípios. Estão enganados em relação aos poderes de imaginação e


investigação daqueles que eles excluiriam, e estão errados em supor que poderia ser justificável, em qualquer base, limitar a investigação da religião àqueles que são religiosos. Se dissermos isso educada, firmemente, e com freqüência, eles poderão por fim parar de jogar esta carta e nos deixar seguir com nossas pesquisas, embora possivelmente prejudicados pela nossa falta de fé. Teremos somente que trabalhar mais. Uma cortina de fumaça relacionada a isso é a declaração mais geral de que os métodos das ciências naturais não apresentam possibilidade de progresso na cultura humana, que não exige experiências, mas "semiótica" e "hermenêutica". Um expoente favorito dessa postura é o antropólogo Clif- ford Geertz, que a apresentou assim: Acreditando, com Max Weber, que o homem é um animal suspenso em teias de significados que ele mesmo teceu, considero a cultura como sendo uma dessas teias, e a análise dela, portanto [grifo nosso], não como uma ciência experimental em busca de leis, mas uma ciência interpretativa em busca de significados. [1973, p. 5]. "Portanto"? Lá por volta de 1973 ele poderia ter sido adequado, mas esse argumento está inteiramente desatualizado. Que nós, seres humanos, tecemos teias de significados, disso não há dúvida, mas essas teias podem ser analisadas por métodos que decisivamente envolvem experiências e pelos métodos disciplinados das ciências naturais. A interpretação, nas ciências naturais, não está em oposição à experiência, e a ciência não é toda subsunção sob a cobertura de alguma lei. Tudo nas ciências cognitivas e tudo na biologia evolutiva, por exemplo, é interpretativo, de tal forma que está em paralelo muito próximo às estratégias interpretativas das humanidades e da antropologia (Dennett, 1983, 1995b). Na verdade, uma das poucas diferenças sérias entre as ciências naturais e as humanas é que muitos pensadores nas ciências humanas decidiram que os pós-modernos têm razão: tudo são só histórias, e toda verdade é relativa. Um antropólogo cultural, que vai permanecer anônimo, recentemente anunciou a seus alunos que uma das grandes coisas a respeito de sua área é que, dado o mesmo conjunto de dados, não há dois antropólogos que cheguem à mesma interpretação. Fim da história. Os cientistas muitas vezes têm exatamente essas discordâncias a respeito de como interpretar um conjunto compartilhado de dados indiscutíveis, mas para eles é o início de uma tarefa de resolução: qual deles está errado? Constroem-se experiências, análises estatísticas e coisas parecidas para resolver a questão - descobrindo a verdade (não a Verdade com "v" maiúsculo a respeito de tudo, mas apenas a verdade rotineira a respeito dessa pequena discordância factual em particular). Esse processo subseqüente (que pode levar anos) foi declarado impossível ou desnecessário por aqueles ideólogos que zombam da própria idéia de que há verdades objetivas a respeito dessas questões a serem descobertas. Eles não poderiam alegar provas de que não haja uma coisa chamada verdade objetiva, é claro, porque isso seria se contradizer ruidosamente, e eles têm pelo menos esse tanto de respeito pela lógica. Então se contentam em dar risadinhas com a presunção e a ingenuidade de qualquer um que ainda acredite na verdade. E difícil transmitir como essa incansável barragem de chacotas defensivas é chata, de modo que não causa surpresa o fato de alguns pesquisadores terem parado de respondê- las, e, em vez disso, resolveram ridicularizar: Por exemplo, neste exato momento, estou digitando no meu teclado, com a


intenção de criar uma história coerente a respeito da lógica do pós-moder- nismo. Se alguém quiser me estudar, poderá olhar além do nível de intenção superficial que acabo de oferecer, e, em vez disso, inferir que o que eu estou realmente fazendo é inventando uma história a partir da minha experiência pessoal, com o objetivo de progredir na minha carreira acadêmica. Para conseguir isso, eles poderão argumentar, estou construindo um discurso que me põe à parte de outras pessoas, e assim aumento meu valor como escritor. (Quanto mais confuso, mais inteligente vou parecer!) Por que faço isso? Porque sou um homem branco, heterossexual, protestante, privilegiado, preocupado com meus próprios interesses, que usa o conhecimento como poder (uma estratégia não de compreensão, mas de manipulação e exploração). Para os pós-modernistas, aquilo que é apresentado como verdade (por exemplo, este livro) é uma invenção, apenas uma opinião sobre a realidade, que mascara aquilo que estou realmente fazendo - enganando todo mundo para adquirir e manter poder. [Slone, 2004, pp. 39-40] Os pioneiros, cujo trabalho científico sobre religião venho apresentando - Atran, Boyer, Diamond, Dunbar, Lawson, McCauley, McClenon, Sperber, Wilson e os demais -, têm todos de lidar com isso. Pode ser divertido, no final, ver como eles se seguram contra esse massacre e, seguindo os passos de William James, imploram uma platéia de mente aberta. Chega de pleitos! A ironia é que esses intrépidos intrusos têm sido muito mais conscienciosos a respeito de suas tentativas para conseguir uma visão favorável e informada da religião do que os autonomeados defensores da religião em tentar entender os pontos de vista e métodos daqueles contra os quais resistem. Quando os defensores humanistas tiverem estudado biologia evolutiva e neurociência cognitiva (e estatística, e todo o resto) com a mesma energia e imaginação que os cientistas dedicaram ao estudo das histórias, ritos e credos das diversas religiões, eles se tornarão críticos dignos do trabalho que temem. Quando o classicista de Zurique Walter Burkert ousou expor seus colegas das ciências humanas ao pensamento biológico das origens da religião em suas Conferências Gifford de 1989, ele se tornou realmente o primeiro de sua área a tentar cruzar o abismo, caminhando na direção contrária. Burkert é um eminente historiador de religiões antigas, amplamente lido em antropologia, lingüística e sociologia, e começou a se instruir na biologia evolutiva, necessária à fundamentação de seus próprios esforços em elaborar teorias. Uma das delícias de ler seu livro, A criação do sagrado: traçados da biologia nas primeiras religiões, é ver como seu tesouro de insights históricos se torna valioso no contexto das questões biológicas. E um dos motivos para espanto é ver quão cuidadosamente ele acha que devemos rodear, pé ante pé, o gatilho sensível das suscetibilidades de seus companheiros de ciências humanas quando introduz essas terríveis idéias biológicas no mundo deles (Dennett, 1997, 1998b). Os cientistas têm muito que aprender com os historiadores e antropólogos culturais. A infraestrutura para a colaboração construtiva já existe sob a forma de periódicos interdisciplinares, como Journal for the Scientific Study of Religion, Method & Theory in the Study of Religion, e Journal of Cognition and Culture, além de sociedades profissionais e páginas na web. Uma das


minhas metas neste livro é fazer com que fique mais fácil para os pesquisadores futuros entrar nessas zonas proibidas e encontrar nativos amigáveis com quem possam colaborar, sem terem de abrir picadas através de uma selva de defensores hostis. Eles descobrirão que os antropólogos e historiadores já pensaram sobre a maioria das "novas" idéias deles e têm muito o que falar a respeito de quais são os problemas delas. Recomendo que se comportem com modéstia, formulem muitas perguntas e simplesmente não façam caso das esnobadas, muitas vezes surpreendentemente rudes e condescendentes, que inspiram naqueles que temem a abordagem deles.1

3. POR QUE AQUILO EM QUE VOCÊ CRÊ TEM IMPORTÂNCIA? Hoje temos de mudar nossa atitude da descrição para a apreciação; temos de perguntar se os frutos em questão podem nos ajudar a julgar o valor absoluto daquilo que a religião acrescenta à vida humana. [William James, As variedades da experiência religiosa] Não é só que eu não acredite em Deus e que, naturalmente, espere que não haja um Deus! Eu não quero que haja um Deus; eu não quero que o universo seja desse modo. [Thomas Nagel, The last word] Temos um último defletor a pôr de lado antes de abordar com segurança a questão principal. Por que acreditamos na crença em Deus? Muita gente responderia: simplesmente porque Deus existe! Eles acreditam em árvores, montanhas, mesas, cadeiras, pessoas, lugares, vento, água - e Deus. Isso explicaria mesmo a crença deles em Deus, mas não o fato de que acham que acreditar em Deus é tão importante. Em particular, por que as pessoas se importam tanto com o que outras pessoas acreditam a respeito de Deus? Eu acredito que o centro da Terra seja constituído principalmente de ferro e níquel fundidos. Com relação a outras coisas em que acredito, isso é um fato bastante grande e animador. Imagine só: há uma bola de ferro e níquel derretidos por aí; é mais ou menos do tamanho da Lua e está muito mais próxima de nós que ela; de fato, está entre mim e a Austrália! Muita gente não sabe disso, e azar o deles -já que é um fato bastante encantador. Mas realmente não me incomoda o fato de eles não compartilharem da minha crença, ou de meu deleite. Por que seria tão importante os outros compartilharem de sua crença em Deus? Será que Deus se incomoda? Posso ver que Jeová talvez ficaria realmente chateado se Ele encontrasse um monte de gente sem saber de Seu poder e grandeza. Parte daquilo que faz Jeová ser um participante fascinante em histórias do Velho Testamento é Seu majestoso ciúme e orgulho, e Seu grande apetite por louvores e sacrifícios. Mas já deixamos esse Deus para trás (não deixamos?). A Inteligência Criativa que muitos supõem ter projetado tudo o que nós, evolucionistas, atribuímos à seleção natural não é o tipo de Ser que poderia sentir ciúme, não é? Conheço professores que podem ficar muito chateados se você fingir que não ouviu falar de seus trabalhos publicados, mas é difícil ver por que a Inteligência Criativa que inventou o DNA, O ciclo metabólico, o mangue e os cachalotes se incomodaria se qualquer de Suas criaturas reconhece ou não Sua autoria. A segunda lei da termodinâmica não está nem aí para se alguém


acredita nela, e eu pensaria que o Fundamento de Todos os Seres deve ser um indutor igualmente pouco emocionado. Um antropólogo uma vez me contou de uma tribo africana (não consigo me lembrar o nome) cujas trocas com os vizinhos progrediam a passos lentos. Um emissário enviado a pé para o assentamento de uma tribo vizinha descansava durante um dia inteiro depois de chegar, antes de conduzir qualquer negociação oficial, já que ele tinha de esperar que sua alma chegasse. As almas nessa cultura andam devagar, pelo jeito. Podemos ver um atraso semelhante na migração que muitos crentes fizeram de um Deus altamente antropomórfico para um Deus mais abstrato e mais difícil de imaginar. Eles ainda usam linguagem antropomórfica quando falam de um Deus que (sic) não é de todo um ser sobrenatural, mas apenas uma essência (para usar a terminologia útil, embora filosoficamente ilegítima, de Stark). Fica bastante claro por que eles fazem isso: permite-lhes transportar todas as conotações exigidas para entender um amor pessoal de Deus. Pode-se sentir, eu suponho, um determinado afeto ou gratidão por uma lei da natureza - "Boa e velha gravidade, ela nunca o deixa na mão!" -, mas o objeto adequado de adoração realmente tem de ser algum tipo de pessoa, não importa quão inconcebivelmente diferente de nós, falantes bípedes implu- mes. Só uma pessoa poderia ficar literalmente decepcionada com você se você não se comportasse bem, ou poderia atender às suas preces, ou perdoá-lo, de modo que a "incorreção teológica" que persiste ao se imaginar Deus como aquele Velho Sabichão no Céu é não apenas tolerada pelos conhecedores, mas sutilmente encorajada. William James, na virada do século xx, opinou: "Hoje, uma divindade que exigisse sacrifícios sangrentos para aplacá-la seria considerada sanguinária demais para ser levada a sério" (1902, p. 328). Um século mais tarde, porém, poucos concordariam publicamente com Thomas Nagel, quando diz, na maior candura, que ele não gostaria que um Deus desses existisse. (Eu duvido que Nagel ache repugnante o Deus sive Natura - Deus ou Natureza - de Spinoza, e ele pode muito bem ser tão indiferente quanto eu em relação ao Fundamento de Todos os Seres, seja ele lá qual for.) Se pressionada, muita gente insiste em que a linguagem antropomórfica usada para descrever Deus é metafórica, não literal. Pode-se supor, então, que o curioso adjetivo "temente a Deus" teria desaparecido por desuso ao longo dos anos, como um traço fóssil ou um período juvenil um tanto embaraçoso do passado religioso, mas longe disso. As pessoas querem um Deus que possa ser amado e temido como você ama ou teme outra pessoa. Religião, em resumo, é um capítulo monumental na história do egoísmo humano. “Os deuses nos quais se acredita - sejam toscos selvagens ou homens intelectualmente disciplinados - concordam uns com os outros ao reconhecer apelos individuais”, observou James. "Hoje, tanto quanto em qualquer época anterior, o indivíduo religioso diz a você que o divino se encontra nas bases de seus interesses pessoais" (1902, p. 491). Para muitos devotos, é claro, isso tudo é óbvio. Deus é - evidente - uma pessoa que lhes fala diretamente -, se não diariamente, pelo menos uma vez na vida, em uma revelação. Mas como James chamou a atenção, os próprios devotos não deveriam apostar muito nessas experiências: Os incidentes sobrenaturais, como vozes, visões e impressões esmagadoras do significado de textos das escrituras apresentados repentinamente, as emoções comoventes e afetos tumultuosos relacionados a crises de mudança, podem vir todos por meio da natureza, ou ainda pior, ser simulados por Satanás. [1902, p.


238] Desse modo, independentemente de quão convencidas algumas pessoas estejam, a partir de suas poderosas experiências pessoais, essas revelações não se saem bem. Elas não podem ser usadas como contribuições para a discussão comunal que estamos conduzindo agora. Filósofos e teólogos muitas vezes debateram a questão de saber se ações são boas porque Deus gosta delas, ou se Deus gosta delas porque elas são boas. Embora essas investigações possam ter algum sentido em uma tradição teológica, em qualquer estabelecimento ecumênico no qual aspiremos ao consenso "universal", teremos de escolher a última suposição. Além do mais, a evidência da história torna claro que, à medida que o tempo passou, o sentido de moral que as pessoas tinham a respeito do que é permissível e do que é odioso mudou, e, junto com isso, suas convicções sobre o que Deus gosta ou detesta. Aqueles que vêem blasfêmia ou adultério como crime merecedor da pena de morte hoje são uma minoria em extinção, graças a Deus. Mesmo assim, o motivo pelo qual as pessoas se incomodam tanto com o que as outras acreditam a respeito de Deus é uma boa razão, até certo ponto: elas querem que o mundo seja um lugar melhor. Acham que fazer com que outros compartilhem de suas crenças a respeito de Deus é o melhor meio de alcançar aquela meta, e isso está longe de ser evidente. Eu também quero que o mundo seja um lugar melhor. Por esse motivo quero que as pessoas compreendam e aceitem a teoria da evolução: eu acredito que a salvação pode depender disso! Como assim? Abrindo-lhes os olhos para os perigos de pandemias, degradação do ambiente e perda da biodiversidade, e informando a elas sobre algumas das fraquezas da natureza humana. Então a minha crença de que a crença na evolução é um caminho para a salvação não é uma religião? Não, existe uma grande diferença. Nós, que gostamos da evolução, não honramos aqueles cujo amor à evolução impede que pensem clara e racionalmente a respeito dela! Pelo contrário, somos particularmente críticos com relação àqueles cujas incom- preensões e declarações românticas errôneas sobre essas grandes idéias desorientaram a eles mesmos e aos outros. Do nosso ponto de vista, não existe porto seguro para o mistério ou a incompreensão. Sim, há humildade, espanto, puro deleite com a glória do panorama evolutivo, mas esses sentimentos não estão acompanhados por (ou ao serviço de) um abandono voluntário (quanto mais arrebatador) da razão. Por isso, sinto como um imperativo moral disseminar a palavra da evolução, mas a evolução não é a minha religião. Eu não tenho religião. Então, agora, com pedidos de desculpas àqueles cuja equanimidade é perturbada por eu fazer uma pergunta tão fundamental: quais são os prós e os contras da religião? Será ela digna da intensa devoção que inspirou na maioria das pessoas do mundo? William James também liderou o percurso desta investigação, e vou usar suas palavras para enquadrar as questões para nós, porque elas são maravilhosas por si mesmas, mas também porque revelam um pouco do progresso que fizemos no século passado, esclarecendo e aguçando nosso pensamento em diversos aspectos. Muito antes de qualquer pessoa falar de memes ou de memética, James observou que as religiões realmente tinham evoluído, apesar de todas as alegações de princípios "eternos" e "imutáveis", e ele percebeu que essa evolução sempre reagiu a julgamentos de valores humanos: O que eu então proponho fazer é, para falar brevemente, testar a santidade pelo bom senso, usar padrões humanos para nos ajudar a decidir até que ponto a vida


religiosa se recomenda como um tipo ideal de atividade humana [...] E quase a eliminação do humanamente não apto e a sobrevivência do humanamente mais apto aplicadas às crenças religiosas; e se olharmos francamente e sem preconceitos para a história, temos de admitir que nenhuma religião jamais se estabeleceu ou se provou a longo prazo, de qualquer outro modo. [1902, p. 331] Quando James fala do que é "humanamente não apto" ele quer dizer algo do tipo "não apto para uso humano", em vez de não apto "biológica" ou "geneticamente", e essa escolha das palavras obscurece a visão dele. Apesar de seu desejo de olhar a história sem preconceitos, sua expressão desvia o julgamento na direção do otimismo: os que resistiram à extinção ao longo dos séculos são apenas aqueles memes que de fato fortalecem de algum modo a humanidade. O que, exatamente, eles fortalecem: a aptidão genética humana? A felicidade humana? O bem-estar humano? James nos dá uma versão muito vitoriana do darwinismo: aquilo que sobrevive tem de ser bom, porque a evolução é sempre uma questão de progresso na direção do melhor. Será que a evolução promove o bom? Depende, como vimos, de como fazemos e respondemos a pergunta cui bono?. Mas agora, pela primeira vez neste livro, estamos nos desviando da explicação e da descrição e nos voltando para a apreciação, como James disse, perguntando o que deveria ser, e não apenas o que é (e como chegou a ser): Se os frutos para a vida do estado de conversão forem bons, deveríamos idealizá-los e venerá-los, mesmo que sejam uma porção de psicologia natural; se não, deveríamos rapidamente dar cabo deles, não interessa que ser sobrenatural o tenha infundido. (1902, p. 237) Será que a religião nos torna melhores? James distinguiu dois modos principais pelos quais isso pode ser verdade. Pode fazer com que as pessoas sejam mais eficazes em suas vidas diárias, mais saudáveis, tanto física como mentalmente, mais constantes e compostas, com maior força de vontade contra a tentação, menos atormentadas pelo desespero, mais capazes de suportar suas infelicidades sem se abandonarem. Ele chama isso de "movimento de cura da mente". Ou pode tornar as pessoas moralmente melhores. As formas pelas quais a religião se propõe a realizar isso ele chama de "santidade". Ou poderia realizar dos dois lados, em graus variados, sob circunstâncias diferentes. Há muito a ser dito em relação aos dois modos, e o restante deste capítulo será dedicado à primeira alegação, deixando a importantíssima questão sobre o papel da religião na moralidade para outro capítulo.

4. O QUE SUA RELIGIÃO PODE FAZER POR VOCÊ? A religião, no formato de cura da mente, dá a alguns de nós serenidade, postura moral e felicidade, e evita determinadas formas de doenças tão bem quanto a ciência, ou até melhor, em determinada classe de pessoas. [William James, As variedades da experiência religiosa]


Ninguém ousa sugerir que letreiros de neon piscando a mensagem de que "Cristo Salva" pode ser propaganda enganosa. [R. Laurence Moore, Selling God] Prece: pedir que as leis do universo sejam anuladas em benefício de um único suplicante, confessadamente indigno. [Ambrose Bierce, The Devils Dictionary] Em um mundo perigoso haverá sempre mais pessoas cujas preces por sua própria segurança foram atendidas do que aqueles cujas preces não o foram. [Lei da Eficácia da Prece de Nicholas Humphrey, 2004P James especulou que pode haver dois tipos inteiramente diferentes de pessoas: os que pensam na saúde e os que pensam na doença; elas precisam de coisas diferentes da religião, e ele observou que as Igrejas enfrentam uma "eterna luta interna da religião aguda de uns poucos contra a religião crônica dos demais" (p. 114). Você não consegue agradar todo mundo o tempo todo, de modo que cada religião tem de fazer lá seus acordos. Os levantamentos e as investigações informais de James foram os precursores das intensivas e algumas vezes bastante sofisticadas pesquisas de mercado empreendidas por líderes religiosos nos últimos anos, além das pesquisas mais acadêmicas realizadas por psicólogos e outros cientistas sociais tentando avaliar as alegações feitas em prol da religião. Movimentos de revival religioso floresceram na época de James, mas igualmente floresceram os promotores de todo tipo de produtos e regimes fantásticos. Os "infomer- ciais" de auto-ajuda na televisão hoje são descendentes de uma longa linhagem de mascates primitivos que ofereciam seus produtos em espetáculos em tendas e teatros alugados. Ouve-se falar do "Evangelho do Relaxamento", do "Movimento Não se Preocupe", de pessoas que repetem para si próprias "Juventude, saúde, vigor!", ao se vestirem de manhã, como seu lema para o dia. [p. 95] James perguntou se as religiões forneciam apoio tão bom ou melhor que suas contrapartes seculares, e observou que, por mais que possam protestar a respeito de seu distanciamento da ciência, de fato a religião se fia na "experiência e verificação" a todo momento: "Viva como se eu fosse verdade, diz [a religião], e cada dia praticamente irá provar que você tem razão" (p. 119). Em outras palavras: você verá os resultados por si mesmo; se quiser, tente. "Aqui, na própria época de maior vigor da autoridade científica, ela continua com uma guerra agressiva contra a filosofia científica, e tem sucesso usando os métodos e as armas peculiares da própria ciência" (p. 120). Os melhores vendedores são os fregueses satisfeitos, e mesmo que este não seja o objetivo para os integrantes de uma Igreja, não há nada de errado em prestar atenção cuidadosa a qualquer fator que possa melhorar a saúde, tanto espiritual como física, daqueles que são membros devotos e ativos. Se eu tentasse projetar uma organização secular para promover a paz no mundo, por exemplo, certamente estaria com os olhos abertos para quaisquer feições que tivessem o benefício incidental de favorecer a saúde e prosperidade dos associados, uma vez que reconheço que a organização estaria sempre competindo com todos os outros modos pelos quais as pessoas podem gastar seu tempo e sua energia. Mesmo que eu esperasse e encorajasse sacrifícios desses que se afiliassem, eu pesaria os sacrifícios com muito cuidado e eliminaria qualquer deficiência gratuita - e os substituiria com benefícios, se possível -, de modo a dar um impulso maior aos sacrifícios essenciais.3


Então a religião faz bem à saúde? Há provas crescentes de que muitas religiões tiveram um sucesso notavelmente bom nesse aspecto, melhorando tanto a saúde como a moral de seus fiéis, de forma bastante independente das boas obras que tenham realizado para beneficiar os outros. Por exemplo, distúrbios da alimentação, como anorexia nervosa e bulimia, são muito menos comuns entre as mulheres dos países islâmicos, nos quais a atração física das mulheres desempenha um papel de figurante em comparação ao que ocorre nos países ocidentalizados (Abed, 1998). Uma onda de interesse, atualmente, concentra todos os instrumentos estatísticos da epi- demiologia e da saúde pública para responder a questões do tipo: aqueles que vão regularmente à igreja vivem mais, têm menor propensão a sofrer ataques cardíacos etc. Na maior parte dos levantamentos, os resultados são positivos, ás vezes muito positivos. (Para uma visão geral, que iestá ficando rapidamente desatualizada, ver Koenig et al., 2000.) Os resultados iniciais são impressionantes o bastante para ter provocado menosprezos céti- cos automáticos de alguns ateus que não pararam para pensar como essas questões independem do fato de qualquer crença religiosa ser ou não verdadeira. Já sabemos, por estudos envolvendo muitos tipos diferentes de desempenhos, que se você disser aleatoriamente à metade de um grupo de sujeitos que eles estão "acima da média" na tarefa em questão, eles terão melhor desempenho, de modo que o poder da crença falsa para melhorar as capacidades humanas já está estabelecido. Há alunos que demonstram, de acordo com alguns pesquisadores (por exemplo, Taylor e Brown, 1988), que ilusões positivas melhoram a saúde mental, mas existem críticos que afirmam não haver certeza quanto a isso (Colvin e Block, 1994). Pode muito bem ser que acreditar em Deus (e envolver-se em todas as práticas que acompanham essa crença) melhore seu estado de espírito, e, portanto sua saúde, em, digamos, 10%. Deveríamos fazer a pesquisa para termos a certeza, lembrando que também pode ser verdade que acreditar que a Terra está sendo invadida por alienígenas do espaço, que planejam levar todo mundo para o planeta deles e ensinar todos a voar (e envol- ver-se em todos os comportamentos apropriados a essa crença), melhora seu estado de espírito e sua saúde em 20%! Não saberemos, até fazermos a experiência. Mas já que a literatura mundial transborda de histórias de pessoas que se beneficiaram enormemente por terem sido enganadas por conhecidos bem-intencionados, não poderíamos ficar surpresos ao encontrar efeitos positivos para falsidades bem escolhidas. Se essas elaborações fossem mais eficazes que qualquer credo religioso conhecido, teríamos de nos confrontar com a questão ética de se qualquer quantidade de benefícios à saúde poderia justificar esse embuste deliberado. Os resultados até agora são fortes, mas é preciso investigação mais profunda.4 Já que os efeitos benignos que as religiões parecem ter provavelmente diminuiriam se o ceticismo se instalasse, independentemente de justificação, é preciso cuidado. Muitos efeitos estudados por psicólogos dependem de sujeitos ingênuos, que estejam relativamente mal informados a respeito dos mecanismos e condições dos fenômenos. Os efeitos diminuem, ou são completamente obliterados, quando os sujeitos recebem mais informação. Deveríamos ficar alertas para a possibilidade de que os bons efeitos, se sustentarem maior escrutínio, estejam ameaçados por qualquer coisa que lance uma luz muito forte do exame público sobre eles. Por outro lado, os efeitos podem ser robustos sob uma barragem de atenção cética. Vamos ter de ver. E, é claro, se os resultados tenderem a se evaporar à medida que os estudarmos intensivamente, podemos prever que aqueles que têm certeza de que os efeitos são reais protestarão que o "clima de


ceticismo" é prejudicial aos efeitos, fazendo com que fenômenos perfeitamente reais desapareçam sob a luz rude da ciência. E eles poderão ter razão. E poderão estar enganados. Isso, também, pode ser testado de modo indireto. Aqui, mais do que em qualquer outra área de conflito entre ciência e religião, os que têm dúvida da autoridade da ciência ou a temem deverão pesquisar sua alma. Reconhecem eles o poder da ciência, conduzida adequadamente, para resolver muitas questões factuais controversas, ou revertem o julgamento, esperando para ver qual será o veredicto? E se acontecer, apesar de todas as provas relatadas e de montanhas de testemunhos, de a religião não ser melhor que as fontes alternativas de bem-estar, será que vão estar dispostos a aceitar o resultado e parar com a publicidade? Algumas das principais companhias farmacêuticas atualmente são bombardeadas por tentar suprimir a publicação de estudos que financiaram e que não mostraram a eficácia de seus produtos. No futuro, parece agora claro, essas companhias serão obrigadas, com antecedência, a consentir na publicação de qualquer pesquisa que financiem, a despeito do resultado. Esse é o éthos da ciência: o preço que você paga pela confirmação qualificada de sua hipótese favorita é arriscar uma refutação qualificada dela. Aqueles que quiserem defender os benefícios da religião para a saúde terão de obedecer às mesmas regras: prove-os ou abandoneos. Se você for provar e falhar, tem a obrigação de nos contar. Os benefícios potenciais de se juntar à comunidade científica nessas questões são enormes: obter a autoridade da ciência em apoio àquilo em que você acreditou com todo o coração e toda a alma. Não é à toa que as novas religiões dos dois últimos séculos receberam nomes como Ciência Cristã e Cientologia. Até a Igreja Católica Apostólica Romana, com o infeliz legado de perseguição aos seus próprios cientistas, recentemente se mostra ansiosa para buscar a confirmação científica - e aceitar o risco da refutação - de suas tradicionais afirmativas a respeito do Sudário de Turim, por exemplo.5 Uma linha da onda atual de pesquisa sobre a religião levanta uma questão muito mais fundamental, em termos inegáveis. Realizam-se estudos sobre a eficácia da prece intercessora, "rezar com esperança real e intenção real de que Deus vá interferir e agir pelo bem de alguma outra pessoa específica ou outra entidade" (Lonogman, 2000). Esses estudos são bem diferentes, em suas implicações, dos estudos mencionados acima. Como acabamos de observar, os cientistas já têm bastantes recursos à mão para explicar os benefícios gerais à saúde para aqueles que rezam, praticam e pagam o dízimo; não é necessário invocar nenhuma força sobrenatural para justificar esses benefícios ambientais à saúde. Mas se um teste conduzido adequadamente, duplocego, rigorosamente controlado, em uma população suficientemente grande de sujeitos, demonstrasse que as pessoas por quem se reza têm uma probabilidade significativamente maior de melhorar que as pessoas que recebem os mesmos tratamentos médicos, mas por quem ninguém reza, isso seria quase impossível de explicar para a ciência, sem uma grande revolução. Muitos ateus e outros céticos confiam tanto em que não é possível a existência desses efeitos que se vêem ávidos para que os testes sejam executados. Aqueles, ao contrário, que acreditam na eficácia da prece intercessora têm uma tarefa difícil. As apostas são altas, já que, se os estudos forem feitos adequadamente e não mostrarem efeitos positivos, as religiões que praticam a prece intercessora seriam obrigadas, pelos princípios da verdade na publicidade, a renunciar a qualquer defesa de sua eficácia - exatamente como as companhias farmacêuticas. Por outro lado,


um resultado positivo faria a ciência parar. Depois de quinhentos anos de retirada constante em face do avanço da ciência, a religião poderia demonstrar, em termos que os cientistas teriam de respeitar, que suas reivindicações à verdade não eram de todo vazias. Em outubro de 2001, o The Neu' York Times fez uma matéria sobre um estudo notável da Universidade Columbia, revelando, supostamente, que as mulheres inférteis por quem se rezava ficavam grávidas com freqüência duas vezes maior que aquelas pelas quais ninguém rezava. Os resultados, publicados em um grande periódico científico, o Journal of Reproductive Medicine, foram dignos das manchetes, já que a Universidade Columbia não é uma faculdade do Cinturão da Bíblia, que estaria imediatamente sob suspeita em muitos setores. A Escola de Medicina de Columbia, bastião do estabelecimento médico, apoiou o resultado em um press-release que descrevia as salvaguardas adotadas para garantir que essa fosse uma investigação adequadamente controlada. Mas, para resumir uma longa e sórdida história, mais tarde foi revelado que se tratava de um caso de fraude científica. Dos três autores do estudo, dois deixaram seus cargos na Universidade Columbia, e o terceiro, Daniel Wirth, que não tinha ligação alguma com a universidade, recentemente se declarou culpado em um caso sem relação com o primeiro, de conspiração para cometer fraudes em correspondências e em bancos - e também não tem credencial médica alguma (Flamm, 2004). Um estudo foi desacreditado, outros têm sido severamente criticados, mas ainda há outros em andamento, incluindo um grande estudo realizado pelo dr. Herbert Benson e seus colegas na Escola de Medicina de Harvard, financiado pela Fundação Templeton, de modo que ainda não há veredictos a respeito da hipótese de que a prece intercessora realmente funciona (ver, por exemplo, Dusek et al., 2002). Mesmo que os estudos acabem mostrando que não funciona, haverá muitas evidências de benefícios menos milagrosos para os integrantes ativos de uma Igreja, que é tudo o que muitas Igrejas têm sempre afirmado. O reverendo Raymond J. Lawren- ce, Jr., diretor da pastoral no Hospital Presbiteriano de Nova York - Centro Médico da Universidade Columbia, expressa a visão liberal: Não há meios de se pôr Deus em teste, e é exatamente isso o que você está fazendo quando projeta um estudo para ver se Deus atende às suas preces. Todo esse exercício barateia a religião e promove uma teologia infantil, de que Deus está lá, pronto para desafiar milagrosamente as leis da natureza em resposta a uma prece. [Carey, 2004, p. 32] Exposição prolongada à fumaça do incenso e de velas acesas pode ter algum efeito deletério para a saúde, concluiu um estudo recente (Lung et al. [não estou brincando], 2003), mas há muitas outras evidências de que a participação ativa em organizações religiosas pode melhorar o moral, e, portanto, a saúde dos participantes. Além do mais, os defensores da religião podem, com toda a razão, apontar para benefícios menos tangíveis, embora mais substanciais, para seus adeptos, como ter um significado para sua vida! As pessoas que sofrem, mesmo que o moral delas não melhore de modo mensurável, podem muito bem receber algum consolo de nada mais do que o fato de saberem que estão sendo reconhecidas, notadas, que se pensa nelas. Seria um erro supor que essas bênçãos "espirituais" não possuem lugar no inventário de motivos que os céticos tentam demonstrar. Do mesmo modo, seria um erro supor que a inexistência de um efeito de prece intercessora mostraria que a prece é uma prática inútil. Há benefícios mais sutis a serem analisados - mas eles precisam ser identificados.


*** Capítulo 9. Antes de responder às questões de se a religião é, sob todas as considerações, uma coisa boa, devemos primeiro examinar diversas barreiras de proteção, como a barreira do amor, a barreira da territorialidade acadêmica e a barreira da fidelidade a Deus. Então será possível considerar calmamente os prós e os contras da devoção religiosa, voltando-se primeiro para a questão: a religião é boa para as pessoas? Até agora, a evidência sobre essa questão é mista. Parece realmente haver alguns benefícios para a saúde, por exemplo, mas é cedo demais para dizer se há outros meios melhores de fornecer esses benefícios, e também para dizer se os efeitos colaterais contrabalançam os benefícios. *** Capítulo 10. A questão mais importante, finalmente, é se a religião é a base da moralidade. Recebemos o conteúdo da moralidade por intermédio da religião, ou é ela uma infra-estrutura insubstituível para organizar a ação moral, ou propicia ela força moral ou espiritual? Muitos acham que as respostas são evidentes, e positivas, mas essas são questões que precisam ser reexaminadas à luz daquilo que aprendemos.


1 0 . MORALIDADE E RELIGIÃO 1. A RELIGIÃO NOS TORNA MORAIS?

Mas Jesus, fitando-o, amou-o e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então vem, pega a cruz e segue- me. [Marcos 10, 21] O Senhor põe à prova o justo e o ímpio: mas o que ama a violência, a sua alma o abomina. Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e o vento abra- sador será a parte do seu cálice. [Salmos 11, 5-6] Acreditando, como acredito, que o homem no futuro será de longe uma criatura muito mais perfeita do que é hoje, o pensamento de que ele e outros seres conscientes estão fadados a uma aniquilação completa depois de tal lento progresso contínuo é intolerável. Para aqueles que admitem inteiramente a imortalidade da alma humana, a destruição do nosso mundo não parecerá tão horrível. [Charles Darwin, Life and letters] Os não-muçulmanos gostam demais da vida, não sabem lutar e são covardes. Eles não compreendem que haverá vida depois da morte. Você não pode viver para sempre, você vai morrer. A vida depois da morte é eterna. Se a vida depois da morte fosse um oceano, a vida que você vive seria apenas uma gota no oceano. Portanto é muito importante que você viva a sua vida para Alá, para que seja recompensado depois da morte. [Um jovem mujaheed (combatente) do Paquistão, citado por Jessica Stern, Terror in the name of God] Pessoas boas farão coisas boas, e pessoas más farão coisas más. Mas para que pessoas boas façam coisas más - é preciso religião. [Steven Weinberg, 1999] O PAPEL MAIS importante da religião é sustentar a moralidade, pensam muitos, dando às pessoas um motivo invencível para serem boas: a promessa de uma recompensa eterna no céu, e (dependendo do gosto) a ameaça de punição eterna no inferno, se não o forem. Sem o incentivo divino, segue o raciocínio, as pessoas ficariam por aí sem metas, ou se entregariam a seus desejos mais baixos, quebrar suas promessas, enganar os esposos, negligenciar suas obrigações e daí por diante. Há dois problemas bem conhecidos com esse raciocínio: (1) não parece ser verdadeiro, o que é uma boa notícia, já que (2) é uma visão muito degradante da natureza humana. Não descobri nenhuma evidência que sustente a alegação de que as pessoas, religiosas ou


não, que não acreditam na recompensa no céu e/ ou na punição no inferno têm mais propensão a matar, estuprar, roubar ou quebrar suas promessas do que as pessoas que acreditam.' A população carcerária nos Estados Unidos é formado por católicos, protestantes, judeus, muçulmanos e outros - inclusive os sem afiliação religiosa -, representados mais ou menos na mesma proporção que na população em geral. Brights e outros sem afiliação religiosa exigem a mesma amplitude de excelência moral e de torpeza que os cristãos renascidos. Exatamente, assim como integrantes de religiões que não enfatizam, ou negam ativamente qualquer relação entre o comportamento moral "na terra" com uma eventual recompensa e castigo pós-morte. E quando se trata de "valores de família", a evidência disponível até agora sustenta a hipótese de que os brights têm a menor taxa de divórcio nos Estados Unidos, e os cristãos renascidos, a mais alta (Barna, 1999). Não é preciso dizer que esses resultados batem muito forte contra as alegações de um maior padrão de virtude moral entre os religiosos suscitaram uma onda considerável de novas pesquisas, encabeçadas por organizações religiosas que tentam refutá-los. Até este momento, não surgiu nada muito surpreendente, e não se alcançou nada que se aproxime do consenso estabelecido entre os pesquisadores. Mas de uma coisa podemos ter certeza, é de que, se houvesse uma relação positiva significativa entre o comportamento moral e a afiliação, prática ou crença religiosa, ela seria logo descoberta, já que tantas organizações religiosas estão ávidas por confirmar cientificamente seus credos tradicionais a esse respeito. (Elas ficam bastante impressionadas com o poder que a ciência tem de encontrar a verdade quando ela confirma aquilo em que já acreditam.) Cada mês que passa sem uma demonstração dessas enfatiza a suspeita de que a coisa não é bem assim. Já está bastante claro o motivo pelo qual os crentes possam querer apresentar provas de que a crença no céu e no inferno tem efeitos benéficos. Todo mundo já conhece as provas para a hipótese contrária, de que a crença na recompensa no céu pode algumas vezes motivar atos de monstruosa maldade. No entanto, há muitos na comunidade religiosa que não acolheriam de bom grado a demonstração de que uma crença na recompensa de Deus no céu, ou o castigo no inferno, faça uma diferença significativa, já que eles encaram isso como uma concepção infantil de Deus, para começar, incentivando a imaturidade, em lugar de encorajar o genuíno compromisso moral. Como observa Mitchell Silver, o Deus que recompensa a bondade no céu tem uma semelhança espantosa com o herói da canção popular "Santa Claus is coming to town" [Papai Noel vem aí]. Assim como Papai Noel, Deus "sabe se você está dormindo, sabe se você está acordado, se você foi mau ou bom"... A letra continua: "então seja bom, pelo amor de Deus". Um solecismo ardiloso, mas lógico. Pela lógica, a canção deveria ter continuado "então seja bom por amor aos equipamentos eletrônicos, bonecas, artigos esportivos e outros presentes que você espera ganhar, mas que só ganhará se o onisciente e justo Papai Noel julgar que você merece". Se você for bom pelo amor de Deus, o Papai Noel que vê tudo seria irrelevante como motivador da sua virtude, [no prelo]. Filósofos da moral que concordam com pouco mais que isso, desde os dias de Hume e Kant, passando por Nietzsche, até o presente, encararam essa visão da moralidade igual à perfeita felicidade como uma espécie de armadilha, uma reductio ad absurdum (redução ao absurdo) na qual só os moralistas mais descuidados cairiam. Muitos pensadores religiosos concordam: uma doutrina que troca as boas intenções de uma pessoa pelos desejos prudentes de um maximizador


racional em busca da felicidade eterna poderá ganhar certas vitórias baratas, atraindo algumas almas egoístas e sem imaginação a se comportar durante algum tempo, mas sob o custo de degradar sua campanha mais ampla pela bondade. Podemos ver um eco desse reconhecimento familiar no escárnio com que muitos dos comenta- dores dos terroristas da Al Qaeda, em n de setembro, adotaram, por suposta meta de se deleitarem no céu com 72 virgens (cada) como recompensa pelo seu martírio.2 Podemos manter afastado esse tema como um fundamento da nossa moralidade hoje, e, no entanto honrá-lo por ter desempenhado um papel fundamental no passado, como uma escada que, uma vez subida, pode ser descartada. Como isso poderia funcionar? O economista Thomas Schelling disse que uma "crença em uma divindade que recompensa a bondade e castiga a maldade transforma muitas situações, de subjetivas em seguras, pelo menos na cabeça do crente" (citado em Nesse (org.), 2001, p. 16). Pense em uma situação em que duas partes se confrontam com uma perspectiva de cooperação sobre alguma coisa que as duas partes desejam, mas cada uma está com medo de que a outra dê para trás em qualquer negócio fechado, e não há autoridade ou outra parte que possa fazê-lo valer. Promessas podem ser feitas e quebradas, mas algumas vezes podem ser garantidas. Um compromisso pode ser garantido pelo fato de ser auto-imposto; por exemplo, você pode queimar as pontes atrás de você para que não possa fugir, mesmo que mude de idéia. Ou pode se garantir por seu desejo maior, de preservar sua reputação. Você pode ter uma boa razão para cumprir o seu lado do contrato, mesmo que suas razões para assiná-lo, em primeiro lugar, tenham desaparecido, simplesmente porque sua reputação também está em jogo, e este é um bem social muito valioso. Ou - e este é o aspecto importante para Schelling - uma promessa feita "aos olhos de Deus" pode muito bem convencer aqueles que acreditam Nele de que se criou um tipo de escritura virtual, protegendo as duas partes e dando a cada uma a confiança de ir em frente, sem medo de ser passada para trás pela outra parte. Pense na situação atual do Iraque, no qual se supõe que uma força de segurança vá propiciar uma plataforma temporária, na qual seria erguida uma sociedade que funcione, no Iraque pósSaddam. Pode até ser que tivesse funcionado desde o início, se a força fosse grande o bastante, bem treinada o bastante e disposta a tranqüilizar as pessoas sem ter de dar um tiro. Com forças insuficientes, a credibilidade dos pacificadores diminuiu, no entanto, e um ciclo defeedback positivo de violência foi posto em andamento, destruindo a confiança na segurança. Como se pode sair de uma espiral descendente desse tipo? E difícil dizer. A democracia falha e frágil que foi instalada ainda pode sobrepujar seu início corrupto e violento, se o mundo tiver sorte, não importa quão sombrio pareça hoje o panorama. Estados fracassados têm um modo de se perpetuar, e perpetuar tanto o sofrimento de seus habitantes quanto a insegurança de seus vizinhos. No passado remoto, a própria idéia de um Deus que tudo vê pode muitas vezes ter permitido que uma população de outro modo caótica e ingovernável se transformasse em um Estado em funcionamento, com leis e ordem suficientes para que essa promessa crível pudesse se firmar. Só em um clima de confiança desses pode florescer o investimento, o comércio, o direito de ir e vir e todas as outras coisas que temos como garantidas. Esse meme seria vulnerável ao colapso se sua credibilidade se visse ameaçada, com tanta certeza como a de que as forças de ocupação no Iraque dependem da credibilidade (problemática) para sua própria eficácia. Os motivos para a incorporação de qualquer dispositivo de supressão de dúvidas que se possa encontrar teriam ficado evidentes (para as forças cegas da seleção cultural e provavelmente para


as próprias autoridades). Hoje, quando os modelos de confiança mútua estão estabelecidos com bastante segurança nos estados democráticos modernos, independentemente de qualquer crença religiosa compartilhada, as nervosas defesas das religiões contra a dúvida corrosiva começam a mostar vestígios, como se fossem traços fósseis de uma era anterior. Já não precisamos mais de Deus, o Policial para criar um clima no qual podemos fazer promessas e, com base nelas, realizar os negócios humanos. Mas ele continua a viver em juras ilegais - e na imaginação de muitos que ficam aterrorizados com a perspectiva de abandonar a religião. Mas a recompensa no céu não é o único - e certamente não o melhor - tema de inspiração na doutrina religiosa. O Deus que o vê não precisa ser visto como o Papai Noel que faz uma lista, ou o Grande Irmão de Orwell, mas, em vez disso, como um herói ou um "modelo de personagem", como dizemos hoje, alguém a ser imitado, e não temido. Se Deus for justo, misericordioso, clemente, amoroso e o Ser mais maravilhoso imaginável, então qualquer pessoa que o ame gostaria de ser justo, misericordioso, clemente, amoroso por amor à bondade. A superposição, em uma só dessas duas visões muito diferentes do papel motivador de Deus, é outra vítima das cortinas de gaze da veneração fora de foco através da qual tradicionalmente inspecionamos a religião. Mesmo assim, pode ser que haja a melhor das razões (bases racionais descomprometidas) para não se espiar muito de perto essas pequenas diferenças entre doutrinas. Por que criar uma divergência onde não existe nenhuma? Não balance o barco. Já se concordou amplamente que todas as religiões fornecem infra-estruturas sociais para criar e manter uma equipe moral. Talvez o valor delas como organizadoras e amplificadoras de boas intenções ultrapasse de longe os déficits criados pela suposta incoerência gerada pela contradição entre (algumas de) suas doutrinas. Talvez seja um perfeccionismo bobo, e um ato de inépcia moral, nos distrairmos com conflitos menores de dogma, quando há tanto trabalho a ser feito para tornar o mundo um lugar melhor. Essa é uma alegação persuasiva, mas tem a desvantagem'de se soca- var, de certa maneira, em público, já que se trata de reconhecer que "bons, nós somos, não somos perfeitos, mas temos coisas mais importantes a fazer do que consertar nossas bases" - admissão modesta que está em conflito com as reivindicações tradicionais de pureza que as religiões acham irresistíveis. Além do mais, esses lapsos do absolutismo ameaçam solapar a principal fonte psicológica do poder organizacional que se está reconhecendo. Os guerreiros da religião de hoje podem ser sofisticados demais para esperar que o seu Deus pare as balas no ar, se eles pedirem, mas sua crença na razão absoluta da causa pode bem ser um ingrediente crucial para criar a calma com a qual os soldados verdadeiramente eficazes vão para a batalha. Com escreve William James: Aqueles que não apenas dizem, mas sentem, "Será feita a vontade de Deus", estão protegidos [com armadura] contra todas as fraquezas; e toda a série histórica de mártires, missionários e reformadores religiosos está aí para provar a tranqüilidade da mente, sob circunstâncias naturalmente agitadas ou perturbadoras, que o ato de se render traz. [1902, p. 285] Esse estado de espírito heróico não se harmoniza bem com a modéstia secular, e embora


muitos pensem ser verdade que os fanáticos religiosos são os soldados mais confiáveis, podemos muito bem imaginar se James tem razão quando segue com a nota (citando "um oficial austríaco de mente clara"): "É muito melhor para qualquer exército ser selvagem demais, cruel demais, bárbaro demais do que possuir sentimentalismo e razoabilidade humanos demais" (p. 366). Aqui está uma questão moralmente relevante, bastante digna de investigação empírica cuidadosa: será que uma força armada secular, motivada sobretudo pelo amor à liberdade ou à democracia, e não pelo amor a Deus (ou Alá), pode manter sua credibilidade, e portanto, sua eficácia, com um mínimo de derramamento de sangue, contra um exército de fanáticos? Até sabermos a resposta, nos arriscamos a ser chantageados pelo puro medo de doutrinar as tropas com barbarismo. E preciso uma combinação de coragem e planejamento ajuizado - e talvez uma boa dose de sorte até para fazer a pesquisa necessária para descobrir isso. Mas a alternativa é ainda mais sombria: a perpetuação da fatal espiral descendente de guerras "justas", lutadas por jovens enganados que são mandados para batalhas duvidosas por líderes que não acreditam realmente nos mitos que sustentam aqueles que estão arriscando suas vidas. E o Grande Inquisidor diz, no romance Os irmãos Karamazov de Dostoievski: "Além do túmulo eles não vão encontrar nada além da morte. Mas temos de guardar o segredo, e para a felicidade deles, os atrairemos com a recompensa do céu e da eternidade . Há ainda mais uma atração para o fanático, e é provavelmente - quem sabe? - uma motivação mais robusta que a perspectiva de recompensa celestial: a licença para matar (para adaptar a fantasia mais que atraente sobre o status oficial do James Bond de Ian Fleming). Parece que algumas pessoas - quem sabe? - são simplesmente sedentas de sangue, ou buscam emoções, e como nossos costumes se tornaram cada vez mais civilizados, em oposição à violência, essas pessoas são altamente motivadas a encontrar uma causa que possa dar a elas uma justificação "moral" para suas fanfarronadas, seja "liberando" animais de laboratório (cujo bem- estar subseqüente não parece motivar os ativistas suficientemente); vingar- se de Ruby Ridge bombardeando Oklahoma City; assassinar médicos que fazem abortos; enviar antraz para funcionários federais "maus", matar uma pessoa inocente sob a cobertura da fatwa; alcançar o martírio numa jihad-, ou se tornar um "colono" (armado até os dentes) no território da Margem Ocidental. A religião pode muito bem não ser a causa fundamental desses anseios perigosos; o desejo inspirado por Hollywood de levar uma vida aventurosa, portanto "significativa", pode desempenhar um papel maior na multiplicação do número de jovens que decidem enquadrar suas vidas nesses termos. Mas as religiões são certamente a fonte mais prolífica das "certezas morais" e dos "absolutos" dos quais esses fanatismos dependem. E embora as pessoas que conseguem enxergar tons de cinza tenham menor capacidade de encontrar desculpas para elas mesmas cometerem atos criminosos, elas também, hoje, têm grande probabilidade de encarar a convicção religiosa devota como um fator significativamente atenuador para medir a punição. (Podemos esperar que isso vá mudar rapidamente, se receber suficiente atenção do público. Costumávamos achar que os bêbados tinham a responsabilidade por suas ações um tanto reduzida - eles estavam bêbados demais para saber o que estavam fazendo, afinal -, mas agora os vemos, e os bartenders que os servem, como inteiramente responsáveis. Precisamos espalhar a notícia de que a intoxicação por religião também não é desculpa.)


2. É A RELIGIÃO QUE DÁ SIGNIFICADO À SUA VIDA? Um fantoche dos deuses é uma figura trágica, um fantoche suspenso em seus cromossomos é apenas grotesco. [Arthur Koestler, Os sonâmbulos] Ohhh! McTavish morreu e seu irmão não sabe; Seu irmão morreu e McTavish não sabe. Os dois estão mortos e estão na mesma cama, E nenhum dos dois sabe que o outro está morto! [Letra da giga "Irish Washerwoman"] De acordo com levantamentos, a maior parte das pessoas no mundo diz que a religião é muito importante em suas vidas. (Ver, por exemplo, a página da web do Pew Research Center, http://people-press.org/.) Muitas dessas pessoas dirão que sem sua religião a vida não teria significado. E tentador acreditar piamente nelas, declarar que, nesse caso, realmente nada mais há a dizer - e sair na ponta dos pés. Quem gostaria de interferir em seja lá o que der significado à vida dos outros? Mas, se fizermos isso, voluntariamente deixaremos de lado algumas questões sérias. Será que qualquer religião dá significado às vidas de um modo que devemos honrar e respeitar? E as pessoas que caem nas garras de líderes de cultos, ou que são enganadas para dar a poupança de sua vida inteira a vigaristas religiosos? Será que a vida delas ainda tem significado, mesmo que sua "religião" particular seja uma fraude? Em Marjoe, o documentário de 1972 a respeito do falso evangelista Marjoe Gortner, mencionado no capítulo 6, vemos pessoas pobres esvaziando suas carteiras e bolsas na bandeja de coleta, seus olhos brilham com lágrimas de alegria, estão emocionadas por ganhar a "salvação" desse impostor carismático. A questão que tem me perturbado desde que eu vi o filme, logo que ele estreou, é: quem está cometendo o ato mais repre- ensível -- Marjoe Gortner, que mente a essas pessoas para tirar o dinheiro delas, ou os cineastas que expõem essas mentiras (com a cumplicidade entusiástica de Gortner), roubando, desse modo, a essa boa gente, o significado que achavam ter encontrado para suas vidas? Será que elas não estavam recebendo aquilo pelo que tinham pago, e até mais, antes de os cineastas chegarem? Pense na vida delas (estou imaginando esses detalhes, que não estão no documentário): Sam largou os estudos no ensino médio, é frentista no posto de gasolina da esquina, espera um dia comprar uma motocicleta; ele é fã do Dallas Cowboys e gosta de tomar algumas cervejas enquanto assiste aos jogos na TV. Lucille, que nunca se casou, é encarregada do turno da noite, repõe as mercadorias no supermercado local e mora na casinha modesta onde sempre morou, cuidando da velha mãe; elas assistem às novelas juntas. Não há nenhuma oportunidade aventurosa acenando no futuro para Sam ou Lucille, ou para a maioria dos outros na dito- sa congregação, mas eles foram postos em contacto com Jesus, e agora estão salvos eternamente, são membros amados em boa posição na comunidade dos renascidos. Eles viraram uma página nova, em uma cerimônia altamente dramática, e encaram a vida, outrora desenxabida, de modo renovado e elevado. A vida deles agora conta uma história, e é um capítulo da Maior História de Todos os Tempos. Você consegue imaginar alguma outra coisa que eles pudessem comprar com aquelas notas de vinte dólares que depositaram na bandeja


de coleta, e que pudesse ser sequer remotamente tão valiosa para eles? Decerto, vem a resposta. Eles poderiam doar o dinheiro para uma religião honesta, que realmente usasse o sacrifício deles para ajudar outras pessoas mais necessitadas. Ou poderiam se unir a alguma organização secular que usasse o tempo livre, energia e dinheiro deles de modo mais eficaz, melhorando alguns dos males do mundo. Talvez o principal motivo pelo qual as religiões fazem a maior parte do trabalho pesado em grandes áreas dos Estados Unidos seja que as pessoas realmente querem ajudar os outros - e as organizações seculares fracassaram na competição com as religiões na devoção das pessoas comuns. Isso é importante, mas é a parte fácil da resposta, deixando intocada a parte difícil: o que deveríamos fazer a respeito daqueles que nós honestamente achamos que estão sendo enganados? Devemos deixá-los em suas ilusões consoladoras ou devemos soar o alarme? Eu acabei adotando a tentativa de conclusão de que Marjoe Gortner e seus cineastas colaboradores fizeram um grande serviço público, apesar da dor e da humilhação que o filme sem dúvida causou para muitas pessoas basicamente inocentes. Mas outros detalhes, ou maiores reflexões sobre os detalhes conhecidos, podem me levar a mudar de idéia. Dilemas desse tipo são conhecidos demais em contextos um tanto diferentes, é claro. Será que se deve dizer à doce velhinha no lar de anciãos que seu filho acabou de ser mandado para a prisão? Será que se deve dizer ao menino de doze anos, desajeitado, que não foi cortado do time de beisebol, que houve uma grita de todos os pais para convencer o treinador a mantê-lo na equipe? Apesar das ferozes diferenças de opinião a respeito de outras questões morais, parece haver algo próximo a um consenso de que é cruel e maldoso interferir com as ilusões que tornam melhor a vida dos outros - a não ser que essas ilusões sejam elas próprias a causa de males ainda piores. As discor- dâncias são a respeito do que esses males maiores podem ser - e isso levou ao colapso do raciocínio inteiro. Muitas vezes pode-se aconselhar a manter em segredo das pessoas, para o próprio bem delas, mas basta alguém revelar um segredo, e como há discordâncias a respeito de que casos a discrição deve ser garantia, o resultado é um miasma detestável de hipocrisia, mentiras e tentativas frenéticas, embora infrutíferas, de disfarce. E se Marjoe Gortner iludisse um conjunto de pregadores evangélicos sinceros para fazerem o trabalho sujo em lugar dele? Sua inocência pessoal mudaria a equação e daria significado legítimo às vidas daqueles cujos sacrifícios eles encorajaram e arrebanharam? Aliás, não são todos os pregadores evangélicos tão falsos quanto Marjoe Gortner? Os muçulmanos certamente acham que sim, mesmo que sejam em geral discretos demais para dizê-lo. E os católicos acham que os judeus estão igualmente iludidos, e os protestantes acham que os católicos estão perdendo tempo e energia em uma religião amplamente falsa, e daí por diante. Todos os muçulmanos? Todos os católicos? Todos os protestantes? Todos os judeus? Claro que não. Há minorias estrídulas em todas os credos que põem isso para fora, como o ator de cinema católico Mel Gibson, ao ser entrevistado por Peter Boyer (2003) em um perfil no The New York Times. Boyer perguntou-lhe se não havia salvação eterna para os protestantes. "Não há salvação fora da Igreja", respondeu Gibson. "Eu acredito nisso." Ele explicou: "Vamos exemplificar. Minha mulher é uma santa. Ela é uma pessoa muito melhor que eu. Honestamente. Ela é, tipo episcopal, Church of England. Ela reza, ela acredita em Deus, ela conhece Jesus, ela acredita nisso tudo. E simplesmente não é justo se ela não for para o céu, ela é melhor do que eu. Mas este é um pronunciamento da cátedra. Eu o sigo."


Esse comentário constrangeu profundamente dois grupos de católicos: aqueles que acreditam nisso mas acham melhor calar a boca, e os que não acreditam de todo - não importa o que "a cátedra" possa pronunciar. E que grupo de católicos é maior ou mais influente? Isso é completamente desconhecido e atualmente impossível de conhecer, uma parte do detestável miasma. Também se desconhece quantos muçulmanos realmente acreditam que todos os inféis, e especialmente os cafres (apóstatas do islã) merecem a morte, que é o que o Corão (5, 44) indubitavelmente diz. Johanes Jan- sen (1997, p. 23) e o cristianismo (ver Atos 3, 23) também encaram a apostasia como uma ofensa capital, mas, dentre os adeptos da fé abraâmica, o islã fica sozinho em sua incapacidade de renunciar a essa doutrina bárbara de modo convincente. O Corão não manda explicitamente matar os apóstatas, mas a literatura hadith (narração da vida do Profeta) certamente o faz. A maior parte dos muçulmanos, eu imagino, é sincera em sua insistência de que a ordem do hadith que manda matar os apóstatas deve ser desobedecida. Mas é desconcertante, para dizer o mínimo, que o medo de ser considerado apóstata seja aparentemente uma grande motivação no mundo islâmico. Como Jansen apresenta: "Não pode haver Hare Krishna ou Baghwan, nada de cientologia, mormonismo ou meditação transcendental em Meca ou no Cairo. Dentro do mundo do islã, a renovação religiosa tem de ficar longe de qualquer coisa que implique ou sugira apostasia" (pp. 88-89). Desse modo, não só nós, os de fora, ficamos imaginando. Até os muçulmanos "do lado de dentro" realmente sabem o que os muçulmanos pensam a respeito da apostasia - eles principalmente não estão preparados para apostarem sua vida nisso, o que é o sinal mais seguro de crença, como vimos no capítulo 8. Aqui, então, percebemos uma face diferente do problema epistemo- lógico que encontramos no capítulo 8, de acreditar na crença. Lá descobrimos que é quase impossível distinguir os que genuinamente acreditam dos que (apenas) acreditam na crença, já que as crenças em questão estão convenientemente retiradas do mundo da ação. Agora vemos que um motivo, com base racional descomprometida ou não, para a existência desses credos sistematicamente mascarados é evitar - ou pelo menos adiar - a colisão entre credos contraditórios que, de outro modo, obrigaria o devoto a se comportar de modo muito mais intolerante que a maior parte das pessoas hoje querem se comportar. (Sempre vale a pena lembrar que não há tanto tempo assim, as pessoas eram banidas, torturadas e até executadas por heresia e apostasia nos recantos mais "civilizados" da Europa cristã.) Então, qual é a atitude prevalecente hoje entre aqueles que se dizem religiosos mas defendem vigorosamente a tolerância? Existem três opções, indo do nada sincero maquiavélico 1. Como uma questão de estratégia política, a hora não está ainda madura para declarações sinceras de superioridade religiosa, de modo que devemos contemporizar e deixar as coisas como estão na esperança de que aqueles de outros credos possam ser delicadamente atraídos ao longo dos séculos. - ao verdadeiramente tolerante eisenhoweriano "nosso governo não tem sentido a não ser que seja fundamentado em uma crença religiosa profunda e eu não me importo com qual seja" 2. Realmente não tem importância a que religião você jure fidelidade, desde que você tenha alguma religião.


- ao ainda mais benigno descaso moynihaniano 3. A religião é simplesmente querida demais para muitos para que se pense em descartá-la, mesmo que realmente não faça muito bem e seja apenas um legado histórico vazio que podemos nos dar ao luxo de manter até que se extinga silenciosamente alguma hora em um futuro distante e imprevisível. Não adianta perguntar às pessoas qual elas escolhem, porque os dois extremos são tão pouco diplomáticos que podemos predizer com antecedência que a maior parte das pessoas escolherá alguma versão de tolerância ecumênica, acreditem eles ou não. (É exatamente como a denúncia previsível de sir Maurice Oldfield sobre a minha hipótese subversiva com relação a Kim Philby.) Estamos presos em uma armadilha de hipocrisia, e não há uma saída clara. Será que somos como as famílias nas quais os adultos dão todos os indícios de acreditarem em Papai Noel pelo amor das crianças, e as crianças fingem acreditar em Papai Noel para não estragar o divertimento dos adultos? Se ao menos nossa difícil situação no momento fosse tão inócua e até cômica como essa! No mundo adulto da religião as pessoas estão morrendo e matando, com os moderados acuados no silêncio pela intransigência dos radicais em seus próprios credos, e muitos têm medo de reconhecer o que eles realmente acreditam por medo de quebrar o coração da vovó, ou ofender seus vizinhos a ponto de fugirem da cidade, ou pior. Se esse é o significado precioso concedido às nossas vidas graças à nossa devoção a uma religião ou outra, na minha opinião, esse não é um negócio tão bom. Será o melhor que podemos fazer? Não é trágico que tantas pessoas pelo mundo todo se encontrem alistadas, contra a vontade, em uma conspiração de silêncio, ou porque acreditam secretamente que a maior parte da população mundial está desperdiçando sua vida em ilusão (mas eles são muito compassivos - ou desonestos - para dizerem isso) porque eles acreditam secretamente que sua própria tradição é exatamente essa ilusão (mas temem por sua própria segurança se admitirem isso)? Que alternativas existem? Há os moderados que reverenciam a tradição na qual foram criados, simplesmente porque é a tradição deles, e que estão preparados para fazer campanha pelos detalhes de sua tradição simplesmente porque, no mercado das idéias, alguém deveria defender cada tradição até podermos separar a boa da ótima, e ficar com a melhor que pudermos encontrar, levando em conta todas as situações. Isso é como a fidelidade a um time esportivo, e pode, também, dar significado a uma vida - mesmo que não se leve muito a sério. Sou fã do Red Sox simplesmente porque nasci na região de Boston e tenho boas lembranças de Ted Williams, Jimmy Piersall, Jackie Jensen, Carl Yastrzemski, Wade Boggs, Luis Tiant e Pudge Fisk, entre outros. Minha fidelidade ao Red Sox é entusiástica, mas alegremente arbitrária e sem ilusões. O Red Sox não é o meu time porque seja, de fato, o Melhor; é "o Melhor" (aos meus olhos) porque é o meu time. Eu me aqueço na glória da vitória deles em 2004 (que foi, é claro, a Saga Mais Espantosa e Inspiradora das Viradas de Todos os Tempos), e se o time vier algum dia a se degradar, eu não ficaria apenas profundamente mortificado, mas pessoalmente envergonhado como se eu tivesse alguma coisa a ver com isso. É claro que eu tenho, sim, alguma coisa a ver com isso; minha minúscula contribuição pessoal para o oceano de entusiasmo e orgulho locais realmente anima o espírito dos jogadores (como eles sempre insistem).


Esse é um tipo de amor, mas não o amor raivoso que leva as pessoas a mentir, torturar e matar. Aqueles que se sentem culpados só de pensar em "trair" a tradição que amam, ao reconhecer que desaprovam alguns elementos dela, deveriam refletir sobre o fato de que a própria tradição a que são tão leais - a tradição "eterna" apresentada a eles na juventude - é de fato o produto evoluído de muitos ajustes, firme mas delicadamente elaborados por amantes anteriores da mesma tradição.

3. O QUE PODEMOS DIZER A RESPEITO DE VALORES SAGRADOS? Estamos na Terra para fazer o bem para os outros. Para que os outros estão aqui, eu não sei. [W. H. Auden] Durante muitos anos nos mandaram calar, a você e a mim, porque éramos como crianças, e nos disseram que não existem respostas simples para os problemas complexos que estão além da nossa compreensão. Bem, a verdade é que existem respostas simples. Elas só não são fáceis. [Ronald Reagan, discurso de posse como governador da Califórnia, janeiro de 1977] Se nosso tribalismo vier algum dia a dar lugar a uma identidade moral ampliada, nossas crenças religiosas não poderão mais ser abrigadas das ondas de investigação legítima ou de críticas legítimas. Ê hora de nos darmos conta de que fingir conhecimento onde se tem apenas esperança piedosa é uma espécie de mal. Sempre que a convicção crescer em proporção inversa à sua justificação, teremos perdido a própria base da cooperação humana. [Sam Harris, O fim da fé] Para adotar uma posição moderada como essa, no entanto, você deve perder seu controle sobre os absolutos que são, aparentemente, uma das principais atrações de muitos credos religiosos. Não é fácil ser moral, e parece que está ficando cada vez mais difícil nos dias de hoje. Antes era porque a maior parte dos males do mundo - doença, fome, guerra - estavam muito além das capacidades que as pessoas comuns tinham de melhorar. Nada havia que elas pudessem fazer, e como "'deveria' implica 'pode'", as pessoas podiam não se impactar com as catástrofes no outro lado do globo - mesmo que soubessem delas -, com consciência limpa, já que eram impotentes para evitá-las. Viver de acordo com algumas poucas máximas simples, aplicáveis localmente, podia garantir mais ou menos que se levasse uma vida tão boa quando possível na época. Agora, não mais. Graças à tecnologia, o que quase qualquer um pode fazer foi multiplicado milhares de vezes, e nosso entendimento moral a respeito do que deveríamos fazer não se manteve no mesmo passo (Dennett, 1986, 1988). Você pode ter um bebê de proveta ou tomar uma pílula do dia seguinte para não ter um bebê; você pode satisfazer seus impulsos sexuais na privacidade do seu quarto baixando pornografia na internet, e você pode copiar sua música favorita de graça, em vez de comprá-la; você pode guardar seu dinheiro em contas bancárias secretas em paraísos fiscais e


comprar ações de companhias de cigarros que estão explorando os países empobrecidos do Terceiro Mundo; e você pode depositar minas terrestres, contrabandear armas nucleares em malas, fazer gás que afeta o sistema nervoso e jogar "bombas inteligentes" com a exatidão de uma cabeça de alfinete. Você pode também arranjar um modo de ter cem dólares por mês transferidos da sua conta bancária para propiciar educação a dez meninas em um país islâmico, sem o que elas não aprenderiam a ler e a escrever, ou para beneficiar centenas de pessoas subnutridas, ou oferecer cuidado médico para doentes de Aids na África. Você pode usar a internet para organizar o monitoramento por cidadãos de perigos ambientais, ou para verificar a honestidade e o desempenho de funcionários do governo - ou espionar seus vizinhos. E agora, o que deveríamos fazer? Em face dessas questões verdadeiramente imponderáveis, é razoável procurar um conjunto curto de respostas simples. H. L. Mencken diz, cinicamente, "Para cada problema complexo existe uma resposta simples [...] e está errada". Mas talvez ele esteja errado! Talvez uma Regra de Ouro, os Dez Mandamentos ou alguma outra lista curta de Faça e Não Faça absolutamente inegociáveis resolva muito bem todas as dificuldades, uma vez que você descubra como aplicálos. Ninguém negaria, no entanto, que está longe de ser evidente como qualquer uma das regras ou princípios favorecidos pode ser interpretado para se ajustar a todos os nossos dilemas. Como Scott Atran chama a atenção, o mandamento "Não matarás" é citado por oponentes religiosos da pena de morte, e também por proponentes religiosos (2005, p. 253). O princípio da Santidade da Vida Humana parece claro e absoluto de maneira estimulante: cada vida humana é igualmente sagrada, igualmente inviolável; como o rei, no xadrez -- não se pode atribuir um preço a ela, fora do "infinito", já que perdê-la é perder tudo. Mas, na verdade, todos sabemos que a vida não é, não pode ser como o xadrez. Existem multidões de "jogos" interferindo ao mesmo tempo. O que fazemos quando mais de uma vida humana está em jogo? Se cada vida é infinitamente valiosa, e nenhuma é mais valiosa do que outra, como vamos distribuir os poucos rins transplantáveis que estão disponíveis, por exemplo? A tecnologia moderna apenas exacerba as questões, que são antigas. Salomão enfrentou escolhas difíceis com sabedoria notável, e cada mãe que alguma vez teve alimento insuficiente para seus próprios filhos (sem falar nos filhos da vizinha) foi obrigada a se debater com a impraticabilidade de aplicar o princípio da Santidade da Vida Humana. Quase todo mundo certamente já enfrentou um dilema moral e desejou secretamente: "Se ao menos alguém - alguém em quem eu confie - pudesse me dizer o que fazer!". Não seria isso moralmente inautêntico? Não somos responsáveis por tomar nossas próprias resoluções morais? Sim, mas as virtudes do raciocínio moral "faça você mesmo" tem seus limites, e se você resolver, depois de consideração conscienciosa, que sua decisão moral é delegar outras decisões morais de sua vida a um especialista em quem confia, então você tomou sua decisão moral. Resolveu aproveitar a divisão de trabalho que a civilização torna possível e adotar a ajuda de especialistas conhecedores. Aplaudimos a sabedoria desse caminho em todas as demais áreas importantes de tomadas de decisão (não tente ser seu próprio médico; o advogado que representa a si próprio tem um insensato por cliente, e daí por diante). Até no caso de decisões políticas, como em quem votar, a política da delegação pode ser defendida. Quando minha mulher e eu vamos ao Conselho Municipal, sei que ela estudou as questões que inquietam a nossa cidade mais assiduamente que


eu, e sigo rotineiramente sua liderança, votando como ela me manda votar, mesmo que eu não saiba muito bem por quê, pois tenho muitas evidências para a minha convicção de que, se gastássemos tempo e energia na discussão dos pontos, ela me convenceria de que a opinião dela é a certa. Será que isso é uma negligência quanto aos meus deveres como cidadão? Não acho, mas isso depende de eu ter boas bases de confiança no julgamento dela. O amor não basta. E por isso que aqueles que têm uma fé inquestionável na correção dos ensinamentos morais de sua religião são um problema: se eles próprios não pensaram conscienciosamente, sozinhos, se seus pastores, padres, rabinos ou imãs são dignos dessa autoridade delegada sobre suas próprias vidas, então eles estão de fato adotando uma postura pessoalmente imoral. Talvez essa seja a implicação mais chocante da minha investigação, e eu não corro dela, mesmo que possa ofender muitos, que se acham profundamente morais. E em geral aceito ser inteiramente exemplar o fato de se adotarem os ensinamentos morais de sua própria religião sem questionamento, porque - para simplificar - é a palavra de Deus (tal como interpretada, sempre, pelos especialistas aos quais foi delegada a autoridade). Eu estou insistindo, ao contrário, em que qualquer um que declare que um ponto de convicção moral não é passível de ser discutido, debatido, negociado, simplesmente porque é a palavra de Deus, ou porque a Bíblia disse, ou porque "é o que todos os muçulmanos [hindus, sikhs etc.] acreditam e sou muçulmano [hindu, sikh etc.]", deveria ser visto como alguém que impossibilita os outros de tomar seus pontos de vista a sério, eximin- do-o da conversa moral, inadvertidamente reconhecendo que suas próprias opiniões não são mantidas de maneira conscienciosa e não merecem continuar a ser ouvidas. A argumentação para isso é direta. Suponhamos que eu tenha um amigo, Fred, que (na minha cuidadosamente pensada opinião) está sempre certo. Se eu disser a você que sou contra as pesquisas com células-tronco porque "meu amigo Fred diz que é errado, e pronto", você vai olhar para mim como se eu não estivesse entendendo o tema da discussão. Esta é supostamente uma consideração de razão, e eu não dei a você uma razão que, de boa-fé, pudesse esperar que fosse avaliada por você. Suponhamos que você acredite que a pesquisa com células-tronco é errada porque foi Deus que lhe disse. Mesmo que você esteja certo - ou seja, mesmo que Deus realmente exista e tenha dito a você, pessoalmente, que pesquisas com células-tronco são erradas -, você não pode razoavelmente esperar que os outros que não compartilhem de sua fé ou experiência aceitem isso como uma razão. Você está sendo pouco razoável em adotar essa postura. O fato de que sua fé seja tão forte que você não possa pensar diferente apenas mostra (se você realmente não conseguir) que você foi inabilitado para a persuasão moral, é um tipo de escravo robótico de um meme que você não é capaz de avaliar. E se você responder que você pode, mas não quer considerar as razões a favor e contra a sua convicção (porque é a palavra de Deus, e seria sacrílego até pesar se ela poderia estar errada), você confessa sua recusa voluntária de ater-se às condições mínimas para uma discussão racional. De qualquer modo, suas declarações acerca de suas opiniões profundamente arraigadas são posturas que estão fora de lugar, são parte do problema, e não parte da solução, e teremos de nos desviar de você da melhor forma possível. Note que esse posicionamento não envolve qualquer desrespeito e nenhum prejulgamento sobre a possibilidade de que Deus tenha falado com você. Se Deus disse a você, então parte do seu problema é convencer os outros, aos quais Deus não falou (ainda) que é nisso que temos de


acreditar. Se você se recusar ou for incapaz de tentar esse convencimento, você estará de fato deixando o seu Deus mal, sob a forma de demonstrar seu amor impotente. Você pode se eximir da discussão, se quiser - é seu direito -, mas então não espere que possamos atribuir ao seu ponto de vista qualquer peso particular que não possamos descobrir por outros meios - e não nos culpe se não "entendermos". Muita gente profundamente religiosa tem ficado o tempo todo ansiosa em defender suas convicções no tribunal da inquisição e da persuasão razoáveis. Eles não terão qualquer dificuldade com essas observações - fora confrontar a decisão diplomática sobre se vão se unir a mim, ao tentar convencer seus correligionários menos razoáveis de que eles estão piorando as coisas para a religião deles com essa intransigência. Eis aqui um dos problemas morais mais intratáveis que confrontam o mundo de hoje. Todas as religiões - fora alguns esparsos cultos desprezíveis, verdadeiramente tóxicos - têm uma população saudável de pessoas de mente ecumênica que estão ansiosas por estender a mão para pessoas de outros^credos, ou sem credo algum, e avaliar os dilemas do mundo racionalmente. Em julho de 2004, o quarto Parlamento das Religiões do Mundo foi realizado em Barcelona,3 e reuniu milhares de pessoas de religiões diferentes para uma semana de oficinas, simpósios, sessões plenárias, apresentações e serviços de adoração, tudo para observarem os mesmos princípios: Ouvir e ser ouvido, de modo que todos os oradores possam ser escutados Falar e ter quem lhes fale de maneira respeitosa Desenvolver ou aprofundar a compreensão mútua Aprender sobre as perspectivas dos outros e refletir a respeito de suas próprias opiniões e Descobrir novos insights. [Caminhos para a paz, programa do Parlamento] Bandos coloridos de padres, gurus, freiras, monges, coro e dançarinos com túnicas diferentes, todos de mãos dadas e ouvindo respeitosamente uns aos outros - era tudo muito gratificante, mas essa gente bem-inten- cionada e enérgica é singularmente ineficaz em lidar com os integrantes mais radicais de seus próprios credos. Em muitos casos têm um justificado terror a esses fiéis. Os muçulmanos moderados até agora foram inteiramente incapazes de virar a maré da opinião islâmica contra os wahhabistas e outros extremistas. Mas os cristãos, judeus e hindus moderados têm sido igualmente fracos em se contrapor às absurdas exigências e atos de seus próprios elementos radicais. É hora de os adeptos racionais de todos os credos encontrarem a coragem e a energia para reverter a tradição que honra o amor desamparado de Deus - em qualquer tradição. Longe de ser honorável, ela não é sequer desculpável. É vergonhosa. E mais vergonhosos são os padres, rabinos, imãs e outros especialistas cuja reação às demandas sinceras de seu rebanho por orientação moral é esconder sua própria incapacidade de apresentar razões para suas opiniões a respeito das difíceis questões, escondendo- se por detrás de alguma interpretação "infalível" (leia-se acima de qualquer crítica) dos textos sagrados. Uma coisa é um leigo bem-intencionado, com uma profunda devoção a uma tradição religiosa, delegar autoridade a seus líderes religiosos, outra muito diferente são esses líderes fingirem desvendar (graças à sua sapiência) as respostas certas na tradição deles por um processo que deve ser aceito de maneira cega e que é inacessível até pelo crítico mais bem-intencionado. Como várias vezes antes, deveríamos admitir que é inteiramente possível que esse


raciocínio evasivo diante da questão seja totalmente independente. Em outras palavras, com certeza é possível que as pessoas acreditem com toda a inocência que o amor delas por Deus as absolve da responsabilidade de pensar nos motivos para esses mandamentos do seu amado Deus, difíceis de avaliar. Não precisamos acusar ninguém de falta de sinceridade ou perfídia, mas o respeito à inocência de uma pessoa não nos obriga a respeitar sua crença. Eis o que deveríamos dizer a tal pessoa: Só há um meio de respeitar a substância de qualquer édito moral supostamente dado por Deus: avaliá-lo conscienciosamente à plena luz da razão, usando todas as provas à nossa disposição. Nenhum Deus que mostre agrado por exibições de amor irracional seria digno de adoração. Eis um enigma: qual a semelhança entre sua religião e uma piscina? E a resposta: as duas são aquilo que é conhecido na lei como um aborrecimento atraente. A doutrina do aborrecimento atraente é o princípio de que as pessoas que mantêm em sua propriedade uma condição perigosa, com alta probabilidade de atrair crianças, têm a obrigação de pôr avisos ou adotar medidas afirmativas mais fortes para proteger as crianças dos perigos daquela atração. E uma exceção à regra geral que não se exija nenhum cuidado particular dos proprietários para proteger os invasores contra os perigos. Piscinas abertas são o exemplo mais conhecido, mas geladeiras velhas cujas portas não foram retiradas, maquinaria, pilhas de material de construção ou outros objetos facilmente escaláveis, que podem ser uma atração irresistível para as crianças pequenas, também foram considerados aborrecimentos atraentes. Os proprietários são considerados responsáveis por danos causados pela posse de algum objeto que porventura atraia pessoas inocentes ao perigo. Aqueles que sustentam religiões e adotam truques para torná-las mais atraentes devem também ser considerados responsáveis pelos danos causados àqueles a quem elas atraem e a quem parecem fornecer um manto de respeitabilidade. Os defensores de religião são rápidos em dizer que os terroristas em geral têm agendas políticas, e não religiosas, o que pode muito bem ser verdade em muitos ou na maior parte dos casos, ou até mesmo em todos os casos - mas isso não esgota a questão. As agendas políticas dos fanáticos violentos muitas vezes os levam a adotar um disfarce religioso, a explorar a infra-estrutura organizacional e a tradição de lealdade sem questionamentos de qualquer religião que esteja à mão. E verdade que esses fanáticos raramente - se é que alguma vez - são inspirados ou orientados pelos mais profundos e melhores dogmas da tradição dessas religiões. E daí? O terrorismo da Al Qaeda ainda é responsabilidade do islã; o bombardeio de clínicas de abortos ainda é responsabilidade do cristianismo; as atividades assassinas dos extremistas hindus ainda é responsabilidade do hinduísmo. Como Sam Harris argumenta em seu bravo livro O fim da fé (2004), existe um "Catch-22" cruel nos esforços meritórios dos moderados e ecumênicos em todas as religiões: por meio de suas boas obras eles fornecem uma camuflagem para seus correligionários fanáticos, que silenciosamente condenam a abertura de mente e a disposição de mudar, ao mesmo tempo que colhem os benefícios das boas relações públicas que obtêm desse modo. Em resumo, os moderados, em todas as religiões, estão sendo usados pelos fanáticos, e deveriam não apenas se ressentir disso, mas deveriam adotar todas as medidas que puderem para restringir o fato, em sua própria tradição. Provavelmente ninguém mais poderá fazê-lo, uma idéia sensata: Se algum dia for possível alcançar uma paz estável entre o islã e o Ocidente, o


islã terá de sofrer uma transformação radical. Essa transformação, para ser palatável para os muçulmanos, deverá, além disso, parecer vir dos próprios muçulmanos. Nada indica que seja exagero dizer que o destino da civilização reside amplamente nas mãos dos muçulmanos "moderados". [Harris, 2004, p. 154] Devemos considerar esses muçulmanos moderados responsáveis por remoldar sua própria religião - mas isso significa que devemos considerar igualmente os cristãos, os judeus e outros moderados responsáveis por todos os excessos em seus próprios preceitos. E, como observou George Lakoff, precisamos provar a esses líderes islâmicos que ouvimos suas vozes morais, e não apenas as nossas: Dependemos da boa vontade e da coragem dos líderes islâmicos moderados. Para ganhá-las, temos de mostrar a nossa boa vontade começando a abordar de maneira séria as condições sociais e políticas que levam ao desespero. [2004, p. 61] Como podemos, todos, evitar que o manto da respeitabilidade religiosa seja usado para abrigar os excessos de lunáticos? Parte da solução seria fazer da religião em geral menos uma "vaca sagrada" e mais uma "alternativa digna". Esse foi o caminho seguido um tanto sem sorte por alguns de nós, brights - ateus, agnósticos, livre-pensadores, humanistas seculares e outros que se libertaram de fidelidades especificamente religiosas. Nós, brights, estamos bastante cientes de todo o bem que as religiões realizam, mas preferimos canalizar nossa caridade e boas ações para organizações seculares, exatamente porque não queremos ser cúmplices no ato de dar um bom nome à religião! Isso mantém nossas mãos limpas, mas não é suficiente - não mais do que é suficiente para os cristãos moderados evitar doar dinheiro para as organizações antisemitas dentro do cristianismo; ou para os judeus moderados restringirem suas caridades a organizações que trabalham para garantir uma coexistência pacífica entre palestinos e israelenses. E um começo, mas há mais trabalho a ser feito. É o trabalho desagradável e até perigoso de dessacralizar os excessos em cada tradição, pelo lado de dentro. Qualquer pessoa religiosa que não esteja ativa e publicamente envolvida nesse esforço está fugindo de um dever e o fato de você não pertencer a uma congregação ou seita ofensiva não é desculpa: o cristianismo, o islã, o judaísmo e o hinduismo (por exemplo) são aborrecimentos atraentes, e não apenas seitas derivadas. Qualquer seita malévola que use as imagens ou textos cristãos como camuflagem deve pesar muito na consciência de todos os que se dizem cristãos, por exemplo. Enquanto os padres, rabinos, imãs e seus rebanhos não condenem explicitamente, pelo nome, os indivíduos e as congregações perigosas dentro de suas fileiras, são todos eles cúmplices. Conheço muitos cristãos que ficam particularmente enojados com muitas das palavras e obras feitas "em nome de Jesus", mas expressões de consternação para amigos íntimos não são suficientes. Em A idéia perigosa de Darwin escrevi sobre bravos muçulmanos que ousaram falar publicamente contra o tra- vestismo obsceno da fatwa pronunciada contra Salman Rushdie, autor de Versos satânicos, condenado à morte por suas heresias. E incitaram: "Vamos todos distribuir o perigo dando as mãos a eles" (p. 5170). Mas aí está o verdadeiramente aflitivo "Catch-22": se nós, nãomuçulmanos, damos as mãos a eles, nós os marcamos, desse modo, como "fantoches dos inimigos


do islã" aos olhos dos muçulmanos. Somente aqueles dentro da comunidade religiosa podem efetivamente começar a desmantelar essa atitude profundamente imoral. Os multiculturalistas que nos incitam a ir devagar com eles estão exacerbando o problema.

4. DEUS ME PROTEJA: ESPIRITUALIDADE E EGOÍSMO Aquele que tem mais brinquedos ao morrer, ganha. [Bordão materialista bem conhecido] Sim, nós temos uma alma; mas é feita de montes de minúsculos robôs. [Meu bordão materialista]4 Examine os dois significados inteiramente diferentes da palavra "materialista". Em seu sentido comum, diário, refere-se a alguém que se preocupa apenas com as posses "materiais", a riqueza e tudo o que vem com ela. No sentido científico ou filosófico, refere-se a uma teoria que aspira a explicar todos os fenômenos sem o recurso de qualquer coisa imaterial - como a alma cartesiana, ou o "ectoplasma" - ou Deus. A negação-padrão de materialista no sentido científico é dualista, que afirma que há dois tipos inteiramente diferentes de substância, a matéria e... seja lá o que supostamente constitua as mentes. A ponte aparente que une os dois significados é bastante evidente: se você não acha que tem uma alma imortal, então você não acredita que terá uma recompensa no céu, então... você pode muito bem ir atrás de tudo o que puder conseguir neste mundo material. Se perguntarmos às pessoas que termo é a negação de materialista no sentido do dia-a-dia, elas podem muito bem ficar com espiritual. Durante o curso da minha pesquisa para este livro, encontrei uma opinião expressa de modos ligeiramente diferentes por pessoas através do espectro de visões religiosas: "o homem tem uma necessidade profunda da espiritualidade", uma necessidade que é satisfeita por algumas das religiões organizadas tradicionais; para outros, por cultos, movimentos ou hob- bies Nova Era; e para outros ainda, pela busca intensa da arte, da música, da cerâmica, ou do ativismo ambiental ou de futebol! O que me fascina nessa fome deliciosamente versátil pela "espiritualidade" é que as pessoas acham que sabem do que estão falando, mesmo que - ou talvez porque - ninguém se dá o trabalho de explicar exatamente o que querem dizer. Deve ser óbvio, imagino. Mas na verdade não é. Quando pedi às pessoas que se explicassem, elas em geral recuaram, recitando uma das frases mais citadas de Louis Armstrong como resposta à pergunta de o que é o jazz: "Se você tem de perguntar, você nunca vai conseguir saber". Isso não serve. Para ver por si próprio como é difícil dizer o que é espiritualidade, tente improvisar sobre essa paródia, já resumida depois de muitos embates frustrados: "A espiritualidade, sabe, é como prestar atenção à sua alma, ou ter pensamentos profundos que realmente o emocionam, e não apenas avaliar quem conseguiu as melhores roupas, se vai comprar um carro novo, o que temos para jantar e coisas desse tipo. A espiritualidade é realmente im-por- tar-se, e não ser apenas, sabe, materialista ". Junto com essa visão comum e pouco reflexiva da espiritualidade vai um estereótipo dos ateus: os ateus não têm "valores"; eles são descuidados, autocentrados, rasos, confiantes demais. Eles acham que sabem tudo, e no entanto perdem completamente o privilégio do espírito. (Você não pode ser


realmente uma boa pessoa a não ser que tenha uma vida espiritual.) Deixe-me agora pôr palavras melhores na boca dessas pessoas. O que elas perceberam foi um dos melhores segredos da vida: largue o seu eu [self\. Você pode abordar as complexidades do mundo, tanto suas glórias como seus horrores, com uma atitude de curiosidade humilde, reconhecendo que, não importa quão profundamente tenha visto, você só arranhou a superfície, você vai encontrar mundos dentro de mundos, belezas que não podia até então imaginar, e suas próprias preocupações mundanas encolherão para o tamanho adequado, nada tão importante no esquema maior das coisas. Conservar essa visão maravilhada do mundo à mão enquanto se lida com as exigências da vida diária não é um exercício fácil, mas, definitivamente, vale o esforço, porque se você consegue se manter centrado e envolvido, vai achar as escolhas difíceis mais fáceis, as palavras certas ocorrerão quando você precisar delas, e você vai mesmo ser uma pessoa melhor. Isso, eu proponho, é o segredo da espiritualidade, e não tem nada a ver com acreditar em uma alma imortal, ou em qualquer coisa sobrenatural. O psicólogo Nicholas Humphrey explorou com alguma profundidade o relacionamento entre crenças nas "forças psíquicas" e o sentido comum da moralidade. Ele observa que quase todas as histórias de paranormais, de percepção extrasensorial, vidência, conversa com amigos e parentes mortos em sessões espíritas têm uma "certa aura de hipocrisia - um distintivo de santidade, um certo sentimento de não-me-toques" (1995, p. 186). E embora isso possa em parte dever-se ao fato de que tantas vezes as histórias tratem das áreas mais emocionalmente sensíveis da vida das pessoas, ele tem outra explicação: [...] origina-se com o que é, discutivelmente, um dos mais notáveis estratagemas de confiança que nossa cultura nos impôs. Esse foi convencer as pessoas de que há uma profunda conexão entre acreditar na possibilidade de forças psíquicas e ser um integrante benévolo, honesto, aprumado, confiável da sociedade [...] Ele habilmente enuncia os princípios generalizados: Tenham ou não recebido qualquer educação religiosa explícita, as pessoas foram todas expostas à idéia de que algum tipo de figura genitora sobrenatural toma conta e cuida delas. Daí pode-se deduzir facilmente que o sentido de justiça e propriedade das pessoas as convença de que, se tal figura existe, então não acreditar nela seria extremamente ingrato - e só crianças más poderiam ser tão ingratas. Mas, se os que não acreditam são em geral maus, é natural (embora dificilmente lógico) supor que os crentes são geralmente bons. Então, acredite ou não nesse genitor sobrenatural, ele se torna em si próprio uma medida da virtude moral [...] O resultado absurdo, mas amplamente aceito, tem sido que toda história paranormal que ouvimos deve ser automaticamente digna de atenção e respeito, (pp. 186-187) Passei a aceitar que esse alinhamento da bondade moral com a "espiritualidade", e do mal moral com o "materialismo", é apenas um fato frustrante da vida, tão profundamente enraizado em nosso esquema conceituai contemporâneo que chega a ser um vento prevalecente contra o qual a ciência materialista tem de resistir. Nós, os materialistas, somos os caras maus, e aqueles que acreditam em qualquer coisa sobrenatural, não importa quão simplória e tola a crença em


particular, têm pelo menos isso a favor deles: estão "do lado dos anjos". Essa expressão conhecida nasceu, aliás, na Oxford Union, uma sociedade de debates na Universidade de Oxford, em um discurso de Benjamin Disraeli, em 1864, em resposta ao desafio do darwinismo: "Qual é a questão que se coloca diante da sociedade com uma desembaraçada segurança extremamente estarrecedora? A questão é esta - será o homem um macaco ou um anjo? Senhor, eu estou do lado dos anjos". O erro de alinhamento da bondade com a negação do materialismo científico tem uma longa história, mas é um erro de alinhamento.5 Não há motivo algum pelo qual uma descrença na imaterialidade ou imortalidade da alma deva fazer uma pessoa ser menos solícita, menos moral, menos comprometida com o bem-estar de todos na Terra do que alguém que acredite "no espírito". Mas um materialista desses não vai se importar apenas com o bem-estar material dos outros? Se isso quer dizer apenas a casa deles, o carro, o alimento, a saúde "física", em oposição à "mental", não. Afinal de contas, um bom cientista materialista acredita que a saúde mental - saúde espiritual, se quiser - é tão física, tão material quanto a saúde "física". Um bom cientista materialista pode estar tão preocupado em saber se há bastante justiça, amor, alegria, beleza, liberdade política e, sim, até liberdade religiosa quanto em saber se há bastante alimento e vestuário, por exemplo, já que tudo isso é benefício material, e alguns são mais importantes que os outros. (Mas, pelo amor de Deus, vamos tentar dar alimento e vestuário para todo mundo que precisa deles o mais rapidamente possível, já que sem eles a justiça, a arte, a música e os direitos civis e o resto parecem zombaria.) Isso deveria corrigir a compreensível confusão lógica. Há também o conceito errado factual a corrigir: muitas pessoas "profundamente espirituais" - e todo mundo sabe disso - são cruéis e arrogantes, autocentra- das e supinamente despreocupadas com os problemas morais do mundo. De fato, um dos efeitos colaterais realmente nauseantes da confusão comum entre bondade moral e "espiritualidade" é que permite que inúmeras pessoas relaxem em sacrifício e boas obras e se escondam por detrás de sua impronunciável (e impenetrável) máscara de piedade e profundidade moral. Não são só os hipócritas, embora haja muitos deles por aí. Há muita gente que inocente e sinceramente acredita que se forem zelosas em atender suas próprias necessidades "espirituais", viverão uma vida moralmente boa. Conheço muitos ativistas, tanto religiosos como seculares, que concordam comigo: essas pessoas estão se iludindo. O gracejo sardônico de Auden pode sacudir a nossa fé na evidência do imperativo de ajudar outros, mas certamente não faz nada para sugerir que apenas cuidar de sua própria "alma" não passa de egoísmo. Pense, por exemplo, nos monges contemplativos, principalmente nas tradições cristãs e budistas, que, ao contrário das freiras que trabalham em escolas e hospitais, dedicam a maior parte de suas horas acordadas à purificação de suas almas, e o resto na manutenção do estilo de vida contemplativo ao qual se acostumaram. De que maneira, exatamente, são eles moralmente superiores às pessoas que dedicam a vida a melhorar suas coleções de selos ou sua jogada no golfe? Parece-me que o melhor que pode ser dito a respeito deles é que conseguem ficar afastados dos problemas, o que vem a ser nada. Não tenho nenhuma ilusão a respeito de como vai ser difícil desfazer os séculos de presunção que tende a juntar "espírito" com "bondade". Já que o "espírito de equipe" é evidentemente bom, como pode a negação do "espírito" ser outra coisa senão ruim? Mesmo no fundo das trincheiras da neuro- ciência cognitiva encontro irritantes ecos e sombras desse preconceito, nós, os materialistas "teimosos", sempre na defensiva contra a agora quase extinta


espécie dos dualistas "de coração mole" que parecem (para os leigos, pelo menos) ocupar a mais elevada posição moral simplesmente porque ainda acreditam na imaterialidade de almas. É uma batalha morro acima, mas talvez seja vantajosa para nós, se combatida em plena luz do dia. Mas, e aquela fome de espiritualismo que tantos dos meus informantes acham ser a mola mestra da devoção religiosa? As boas-novas são que as pessoas realmente querem ser boas. Crentes e brights deploram igualmente o materialismo crasso (no sentido comum) da cultura popular e anseiam não apenas por curtir a beleza do amor legítimo, mas por levar essa alegria aos outros. Pode ter sido verdade muita vezes no passado que, para a maior parte das pessoas, a única rota disponível para essa satisfação envolvia um compromisso com o sobrenatural, e, mais particularmente, uma versão institucional específica do sobrenatural. Mas hoje podemos ver que há muitas outras vias e trilhas alternativas a ser consideradas. *** Capítulo 10. A opinião amplamente prevalente de que a religião é o baluarte da moralidade é, na melhor das hipóteses, problemática. A idéia de que a recompensa celeste é o que motiva as pessoas boas é degradante e desnecessária; a idéia de que a religião, em alto grau, dá significado à vida vê- se ameaçada pela armadilha da hipocrisia em que caímos; a idéia de que a autoridade religiosa fundamenta nossos julgamentos morais é inútil na exploração ecumênica legítima; e a suposta relação entre a espiritualidade e a bondade moral é uma ilusão. *** Capítulo 11. A pesquisa descrita neste livro é apenas o início. É preciso mais pesquisas, tanto na história evolutiva da religião como em seus fenômenos contemporâneos, à medida que eles se apresentem a diferentes disciplinas. As questões mais prementes se referem a como deveríamos lidar com os excessos da criação religiosa e o recrutamento de terroristas, mas isso só poderá ser entendido contra um horizonte de teorias mais amplas sobre a convicção e a prática religiosa. Precisamos garantir nossa sociedade democrática, a base original desta pesquisa, contra as subversões daqueles que usariam a democracia como uma escada para a teocracia, e depois a jogariam fora, e precisamos espalhar o conhecimento, que é o fruto da livre investigação.


11. E AGORA, O QUE FAZEMOS? 1. APENAS UMA TEORIA

Vocês, filósofos, são gente de sorte. Vocês escrevem empapel - eu, pobre imperatriz, sou obrigada a escrever na pele coceguenta de seres humanos. Catarina, a Grande, a Diderot (que a tinha aconselhado em relação a reformas territoriais) DESDE 2002, ESCOLAS em Cobb County, Geórgia, têm posto adesivos em alguns de seus livros de biologia dizendo: "A evolução é uma teoria, não um fato". Mas um juiz recentemente mandou que fossem tirados, já que podem transmitir a imagem de endosso à religião, "em violação à separação entre a Igreja e o Estado da Primeira Emenda e à proibição da Constituição da Geórgia com referência ao uso de dinheiro público para ajudar a religião" (The New York Time s, 14 de janeiro de 2005). Tem sentido, já que o único motivo para dar esse tratamento à evolução é religioso. Ninguém põe adesivos em livros de química ou geologia dizendo que as teorias explicadas dentro deles são teorias, e não fatos. Ainda há muitas controvérsias na química e na geologia, mas essas teorias rivais são contestadas no interior das idéias básicas firmemente estabelecidas em cada área, e que não são apenas teorias, mas fatos. Há inúmeras teorias controversas na biologia, também, mas a teoria básica, que não é contestada, é a da evolução. Há teorias rivais quanto ao vôo de vertebrados, ao papel da migração na especiação, e, mais relacionadas à espécie humana, teorias a respeito da evolução da linguagem, bipedalidade, ovulação oculta e esquizofrenia, só para citar algumas poucas controvérsias bastante vigorosas. Vamos acabar conseguindo classificar todas elas, e algumas se mostrarão não apenas teorias, mas fatos. A minha descrição da evolução de diversas características da religião nos capítulos 4 a 8 é certamente "só uma teoria" - ou, mais especificamente, uma família de prototeorias que necessitam maior desenvolvimento. Em resumo, é isso o que ela diz: a religião evoluiu, mas não precisa ser boa para nós para que evolua. (O fumo não é bom para nós, mas sobrevive muito bem.) Nem todos nós aprendemos a linguagem porque achamos que é bom; nós aprendemos a linguagem porque não temos alternativa (se tivermos sistemas nervosos normais). No caso da religião, há muito mais ensino e disciplina rigorosa, muito maior pressão social deliberada, e há um aprendizado de linguagem. Nesse sentido, a religião é muito mais parecida com a leitura do que com a fala. Há benefícios enormes em saber ler, e talvez haja benefícios semelhantes ou maiores em ser religioso. Mas as pessoas podem muito bem amar a religião independentemente de quaisquer benefícios que ela lhes dê. (Estou encantado em saber que o vinho tinto em


quantidades moderadas é bom para a minha saúde, já que, seja ou não bom para mim, eu gosto dele e quero continuar a bebê-lo. A religião poderia ser alguma coisa parecida.) Não é de surpreender que a religião sobreviva. Tem sido podada, revisada e editada durante milhares de anos, com milhares de variantes extintas no processo, de modo que há muitas características que atraem o público e muitos aspectos que preservam a identidade de suas receitas dessas mesmas características que mantêm afastados ou confunde os inimigos e concorrentes, e garantem a devoção. As pessoas só gradualmente chegaram a ter uma avaliação dos motivos - daqui para diante, as bases racionais descomprometidas - para essas características. A religião é diversas coisas para muitas pessoas. Para algumas, os memes da religião são mutualistas, provendo benefícios inegáveis de tipos que não podem ser encontrados em nenhum outro lugar. Essas pessoas podem muito bem depender da religião para viver, do mesmo modo que todos dependem de bactérias nos intestinos que nos ajudam a digerir a comida. A religião dá a algumas pessoas uma motivação organizada para fazer grandes coisas - trabalhar por justiça social, educação, ação política, reforma econômica e daí por diante. Para outras, os memes da religião são mais tóxicos, explorando aspectos menos atraentes de sua psicologia, jogando com a culpa, a solidão, o anseio por auto-estima e o status. Só quando conseguirmos estruturar uma visão abrangente dos diversos aspectos da religião é que poderemos formular políticas defensivas sobre como reagir às religiões no futuro. Alguns aspectos desse esboço de teoria estão muito bem estabelecidos, mas descer até os pontos específicos e gerar novas hipóteses testáveis é tarefa para o futuro. Eu quis dar aos leitores uma boa idéia do que seja uma teoria testável, que tipos de questões ela levantaria, que tipos de princípios explanatórios ela poderia invocar. Meu esboço de teoria pode muito bem ser falso em diversos aspectos, mas, se assim for, isso se provará quando alguma teoria alternativa do mesmo tipo for confirmada. Na ciência, a tática é apresentar algo que possa ser fixado ou refutado por alguma coisa melhor. Há um século, a possibilidade do vôo motorizado com asa fixa era apenas uma teoria; agora é um fato. Algumas décadas atrás, não passava de teoria a idéia de que a causa da Aids fosse um vírus, mas hoje a realidade do HIV não é apenas uma teoria. Já que a minha prototeoria ainda não está estabelecida e pode mostrar- se errada, ela ainda não deve ser usada para orientar nossas políticas. Tendo insistido, desde o início, em que precisamos fazer muitas outras pesquisas para tomar decisões bem informadas, eu estaria me contradizendo se agora passasse a prescrever os cursos de ação com base em minha incursão inicial. Lembre-se, no capítulo 3, da moral que Taubes tirou de sua história do ativismo mal orientado que nos levou a uma cruzada de baixo teor de gordura: "E uma história que pode acontecer quando as demandas por políticas de saúde pública - e as demandas do público por conselhos simples - se deparam com a ambigüidade confusa da ciência real". Há pressão sobre todos nós, hoje, para agirmos decisivamente, com base no pouco que (achamos) que já sabemos, mas eu aconselho paciência. A situação atual é assustadora - um fanatismo religioso ou outro poderia produzir uma catástrofe global, afinal de contas -, mas devemos resistir aos "remédios" irrefletidos e às outras reações exageradas. Hoje é possível, no entanto, discutir opções, e pensar hipoteticamente o que poderiam ser políticas sólidas se algo como a minha explicação da religião estiver correto. Essas considerações sobre políticas possíveis podem ajudar a motivar novas pesquisas, dando-nos razões prementes para descobrir quais as hipóteses realmente verdadeiras.


Se alguém quisesse colar um adesivo neste livro, dizendo que ele apresenta uma teoria, não um fato, eu concordaria muito alegremente. Cuidado! Deveria dizer. A aceitação de que essas proposições são verdadeiras, sem maiores pesquisas, pode levar a resultados calamitosos. Mas eu insistiria para que também colássemos adesivos em quaisquer livros ou artigos que mantenham ou pressuponham que a religião é o bote salva-vidas do mundo, que não ousamos balançar. A proposição de que Deus existe não é sequer uma teoria, como vimos no capítulo 8. Essa asserção é tão prodigiosamente ambígua que expressa, na melhor das hipóteses, um conjunto desorganizado de dúzias ou centenas - ou bilhões - de teorias possíveis bem diferentes, a maior parte desqualificada como teoria, de qualquer modo, porque sistematicamente imunes a confirmação ou refutação. As versões refutá- veis do argumento de que Deus existe têm ciclos vitais como as efemérides, nascendo e morrendo no intervalo de poucas semanas, se não minutos, à medida que as predições não se tornam verdade. (Cada atleta que reza a Deus pedindo a vitória no grande jogo e vence fica feliz em agradecer a Deus por adotar o lado dele, e obtém algum triunfo na "prova" em favor de sua teoria de Deus - mas silenciosamente revê sua teoria sempre que perde apesar de suas preces.) Mesmo a proposição secular não partidária de que a religião em geral faz mais bem que mal, seja para o crente, individualmente, seja para a sociedade como um todo, dificilmente começou a ser testada da forma adequada, como vimos nos capítulos 9 e 10. Então, aqui está a única receita que vou dar categoricamente e sem reservas: pesquisem mais. Existe uma alternativa, e tenho certeza de que será muitíssimo atraente para várias pessoas: vamos só fechar os olhos, confiar nos preceitos e improvisar. Vamos só adotar como verdadeiro que a religião seja a chave - ou uma das chaves - para a nossa salvação. Como posso discutir com a fé (pelo amor de Deus)? Fé cega? Por favor. Pense. Foi aqui que começamos. Minha tarefa foi demonstrar que há motivos suficientes para questionarmos os preceitos de fé para que possamos, de consciência limpa, voltar nossas costas aos fatos relevantes disponíveis ou passíveis de ser descobertos. Estou bastante preparado para enrolar as mangas e examinar as provas, e para pensar nas teorias científicas alternativas da religião. Mas acho que já apresentei meu argumento de que seria um descuido indefensável não fazer essa pesquisa. O levantamento que fiz enfatizou uma pequena fração do trabalho já feito, usando-o para contar uma das histórias possíveis de como a religião se tornou aquilo que hoje é, deixando de mencionar as outras histórias. Contei o que acho ser a melhor versão corrente, mas talvez tenha deixado passar algumas contribuições que serão reconhecidas, retrospectivamente, como mais importantes. Esse é um risco que um projeto como o meu corre: se, ao chamar a atenção para uma via de pesquisa, ajudar a submergir no esquecimento alguma rota melhor, terei prestado um desserviço. Estou muito atento a esse prospecto, de modo que mostrei rascunhos deste livro aos meus pesquisadores para que dessem sua opinião sobre como progredir na área. A minha rede de informantes tem seus próprios desvios, no entanto, e, para mim, nada seria mais desejável do que este livro provocar um desafio - um desafio científico racional e rico em provas - para pesquisadores com pontos de vista opostos.1 Posso antever que um dos desafios virá daqueles na academia que não se emocionaram com a minha discussão sobre a "cortina de fumaça acadêmica" no capítulo 9, e que acreditam firmemente que os únicos pesquisadores qualificados para fazer a pesquisa são aqueles que


entram em uma exploração da religião com o "respeito adequado" pelo sagrado, com um profundo compromisso com a santificação das tradições, se é que não se convertendo a elas. Eles sustentarão que o tipo de investigação empírica, com bases na biologia, que defendi, além de seus modelos matemáticos, o uso da estatística etc., está fadado a ser lamentavelmente superficial, insensível e intolerante. A história recente mostra que essa é uma preocupação a ser levada a sério. Há algumas décadas nasceu a área de "estudos da ciência", quando sociólogos e antropólogos se uniram a historiadores e filósofos da ciência, e resolveram aplicar suas técnicas, aprimoradas na exploração de culturas tribais isoladas em selvas e arquipélagos distantes, à própria ciência, como as subculturas dos físicos de partículas, dos biólogos moleculares ou dos matemáticos. Algumas das tentativas iniciais, feitas por equipes bem-inten- cionadas de cientistas sociais, para estudar esses fenômenos "na natureza" (do laboratório ou da sala de seminários) levaram à publicação de estudos que encontraram - merecidamente - o escárnio dos cientistas que constituíam o objeto da pesquisa. Não importa quão sofisticados os pesquisadores podiam ser como antropólogos, eram ainda observadores ingênuos, sem idéia das "tecnicalidades" da ciência que testemunhavam. Assim, muitas vezes, eles se saíam com interpretações comicamente ruins daquilo que observavam. Se você não conhece em algum detalhe o empreendimento das pessoas que está estudando, tem pouca chance de compreender suas interações e reações no nível humano. A mesma máxima deve ser aplicada ao estudo do discurso e das práticas religiosas. As pessoas, no estudo das ciências, tiveram de trabalhar duro para superar a má reputação angariada pelo setor em seus dias iniciais, e há ainda muitos cientistas que não se dão o trabalho de suprimir seu desdém por ela. Mas o trabalho mal orientado tem sido agora equilibrado por trabalho mais bem fundamentado e abrangente, que conseguiu de fato abrir os olhos dos cientistas para modelos e falhas em sua própria prática. A chave desse sucesso mais recente é simples: faça seu dever de casa. Qualquer pessoa que tenha a esperança de fazer com que qualquer área altamente sofisticada do esforço humano ganhe sentido precisa se tornar um quase especialista naquela área, além de ter tido o treinamento em seu campo original. Aplicada ao estudo da religião, a receita é clara: cientistas que tenham a intenção de explicar fenômenos religiosos vão ter de explorar profunda e conscienciosamente o corpo de conhecimentos e práticas, os textos e contextos, as vidas no dia-a-dia e os problemas das pessoas que estão estudando. Como se pode garantir isso? Os especialistas religiosos - padres, imãs, rabinos, pastores, teólogos, historiadores da religião - que estejam céticos quanto às qualificações daqueles cientistas que os estudariam poderiam criar e administrar um exame de admissão! Quem não conseguisse passar no exame de admissão que eles concebessem seria apropriadamente considerado não suficientemente instruído para compreender os fenômenos sob investigação e poderiam ser-lhe negados o acesso e a cooperação. Deixem os especialistas elaborarem um exame de admissão tão exigente quanto queiram, e dêem a eles total autoridade para dar as notas, mas exijam que alguns dos especialistas também façam o exame, e exijam que os exames sejam corrigidos às cegas, de modo que os examinadores não possam identificar os candidatos. Isso daria aos especialistas religiosos um modo de confirmar sua estima mútua, ao mesmo tempo que eliminaria os ignorantes de suas próprias fileiras e daria um atestado aos investigadores qualificados.2


2. ALGUMAS VIAS A SEREM EXPLORADAS: COMO PODEMOS NOS CENTRAR NAS CONVICÇÕES RELIGIOSAS? Não responderás a questionários Ou testes a respeito dos Negócios do Mundo, Nem concordarás em Fazer qualquer teste. Não te sentarás Com estatísticos, nem cometerás Uma ciência social. [W. H. Auden, "A reactionary tract for the times"] Que pesquisa é necessária? Examine algumas das questões empíricas não respondidas já levantadas por mim neste livro: Capítulo 4: O que era a vida dos nossos antepassados antes de haver algo parecido com a religião? Éramos bandos de chimpanzés? Do que eles falavam, se é que falavam, fora comida, predadores e o jogo do acasalamento? Será que as práticas fúnebres dos neandertalenses mostram que eles deviam ter uma linguagem plenamente articulada? Capítulo 5: Será que qualquer símio (sem linguagem) poderia elaborar a combinação contraintuitiva de uma árvore que andasse ou uma banana invisível? Por que nós, seres humanos, focalizamos tão persistentemente nossas fantasias nos nossos antepassados? Será que a hipnose improvisada funciona tão eficientemente quando o hipnotizador não é o genitor? Com que grau de perfeição as culturas que não dispunham da escrita preservaram seus rituais e credos ao longo das gerações? Como surgiram os rituais de cura? Tem de haver alguém para iniciar o processo? (Qual é o papel dos inovadores carismáticos na origem de grupos religiosos?) Capítulo 6: Durante quanto tempo a religião popular foi conduzida pelos nossos antepassados até que a reflexão começou a transformá-la? Como e por que as religiões populares se metamorfosearam em religiões organizadas? Capítulo 7: Por que as pessoas se juntam aos grupos? Será a robustez de uma religião parecida com a robustez de uma colônia de formigas, ou de uma corporação? Será a religião o produto do instinto evolutivo cego ou de uma escolha racional? Ou será que existe alguma outra possibilidade? Estarão Stark e Finke certos a respeito do motivo principal para o declínio abrupto de católicos em busca de uma vocação na Igreja depois do Conselho Vaticano 11? Capítulo 8: De todas as pessoas que acreditam na crença em Deus, que porcentagem (aproximadamente) também acredita de fato em Deus? À primeira vista parece que poderíamos simplesmente dar às pessoas um questionário com uma questão de múltipla escolha: C r e i o e m D e u s :S i m _ _ _ N ã o _ _ _ N ã o s e i _ _ _ Ou a questão deveria ser: D e us e xi s t e : S i m_ _ _ N ã o _ _ _ N ã o s e i _ _ _ Faria diferença o modo como estruturamos as questões?


Você vai notar que praticamente nenhuma dessas questões lida, nem mesmo indiretamente, com cérebros ou genes. Por que não? Porque ter convicções religiosas não se relaciona muito com ter ataques epiléticos ou olhos azuis. Já podemos ter bastante certeza de que não há um "gene de Deus", ou até mesmo um gene da "espiritualidade", e não existe um centro de catolicismo no cérebro de católicos, ou até mesmo um centro de "experiência religiosa". Sim, certamente, sempre que você pensar em Jesus, algumas partes do seu cérebro vão ficar mais ativas que outras, mas sempre que você pensar em qualquer coisa isso vai ser verdade. Antes de começarmos a colorir seus mapas cerebrais particulares para pensamentos sobre brincadeiras, jet skis e jóias (e judeus), deveríamos notar que as evidências sugerem que esses pontos quentes são tanto móveis quanto múltiplos, altamente dependentes do contexto - e, é claro, não arrumados em ordem alfabética no córtex! Na verdade, a probabilidade de que as áreas que se acendem hoje serão as mesmas que se acenderão na semana que vem, quando você pensar em Jesus, não é muito alta. É ainda possível que encontremos mecanismos neurais exclusivos para alguns aspectos da experiência e da convicção religiosa, mas as primeiras incursões em uma pesquisa desse tipo não foram muito convincentes.3 Até desenvolvermos teorias gerais da arquitetura cognitiva melhores para a representação do conteúdo no cérebro, o uso de neuroimagens para estudar crenças religiosas é quase tão patético quanto lançar mão de um voltímetro para estudar um computador que jogue xadrez. No tempo certo, estaremos aptos a relacionar tudo o que descobrirmos por outros meios ao que está acontecendo entre os bilhões de neurônios no nosso cérebro, mas o caminho mais frutífero enfatiza os métodos da psicologia e das demais ciências sociais.4 Quanto aos nossos genes, compare a história que contei nos capítulos anteriores com esta versão simplificada do recente artigo de capa da revista Time, "Estará Deus nos nossos genes?": Os seres humanos que desenvolveram um sentido espiritual vicejaram e transmitiram esse traço aos seus descendentes. Aqueles que não desenvolveram se arriscaram a morrer no caos e na matança. A equação evolutiva é simples, mas poderosa. [Kluger, 2004, p. 65] A idéia à espreita nessa passagem ousada é a de que a religião "faz bem" porque foi endossada pela evolução. Esse é exatamente o tipo de darwinismo simplório que dá arrepios aos sutis estudiosos e teóricos da religião. Na verdade, como vimos, a coisa não é assim tão simples, e existem "equações" evolutivas mais poderosas. A hipótese de que existe um "senso espiritual" (geneticamente) passível de ser herdado, que reforça a aptidão genética humana, é uma das possibilidades evolutivas menos prováveis e menos interessantes. Em lugar de um único sentido espiritual examinamos uma convergência de diversas disposições superativas diferentes, sensibilidades e outras adaptações cooptadas que nada têm a ver com Deus ou religião. Nós consideramos, sim, uma das possibilidades genéticas relativamente diretas, um gene para reforço à possibilidade de ser hipnotizado. Isso pode ter propiciado grandes benefícios à saúde nos tempos primitivos, e seria um modo de considerar a hipótese do "gene de Deus" de Hamer seriamente. Ou poderíamos juntá-lo à velha especulação de William James, de que há dois tipos de pessoas, aquelas que necessitam de religião "aguda" e aquelas cujas necessidades são "crônicas" e mais suaves. Podemos tentar descobrir se existem mesmo diferenças orgânicas substanciais entre aqueles que são altamente religiosos e aqueles cujo entusiasmo pela religião é


moderado ou inexistente. Suponhamos que achamos um filão e encontramos exatamente esse modelo. Quais seriam as implicações - se houver - para as políticas? Poderíamos considerar o paralelo com as diferenças genéticas que ajudam a explicar algumas das dificuldades de alguns asiáticos e alguns nativos norte-americanos com o álcool. Da mesma forma que acontece com a tolerância à lactose, existe uma variação transmitida geneticamente na capacidade de metabolizar o álcool, graças à variação na presença de enzimas, principalmente a dehidrogenase alcoólica e a dehidrogenase alde- ídica.5 Não é preciso dizer que, uma vez que o álcool é venenoso - ou pode transformar as pessoas em alcoólatras - para pessoas dotadas desses genes, sem isso ser culpa delas, é altamente aconselhável que abram mão do álcool. Um paralelo diferente se pode fazer com a aversão, geneticamente transmitida, que algumas pessoas descobrem possuir por bró- colis, couve-flor e coentro; elas não têm dificuldade em metabolizar esses alimentos, mas consideramnos desagradáveis ao paladar por causa de diferenças identificáveis nos muitos genes que codificam os receptores olfati vos. Não precisamos ser aconselhados a evitar esses alimentos. Será que pode existir uma "intolerância à experiência espiritual' ou uma "aversão à experiência espiritual '? Pode ser. Pode ser que existam características psicológicas com bases genéticas que se manifestam em diferentes reações a estímulos religiosos por parte de algumas pessoas (entretanto achamos útil classificar esses estímulos). William James oferece observações informais que nos dão alguma razão para suspeitar disso. Algumas pessoas parecem impermeáveis aos rituais religiosos e outras manifestações de religião, enquanto outras - como eu - ficam profundamente comovidas com as cerimônias, a música e a arte - mas inteiramente incapazes de se deixar convencer pelas doutrinas. Pode ser que ainda outros anseiem por esses estímulos e sintam uma profunda necessidade de integrá-los em suas vidas, mas seria aconselhável que se mantivessem longe deles, já que não os conseguem "metabolizar" do mesmo modo que outras pessoas. (Eles se tornam maníacos, fora de controle, deprimidos, histéricos, confusos ou viciados.) Estas são hipóteses que definitivamente vale a pena formular em detalhe e testar se conseguirmos identificar padrões ou variações pessoais, sejam ou não genéticas (elas podem ser transmitidas culturalmente, afinal de contas). Para adotar um exemplo imaginoso, poderia acontecer que as pessoas cuja língua natal fosse o finlandês (não importando sua herança genética) fossem aconselhadas a moderar sua ingestão de religião! Um "sentido espiritual" (seja ele lá o que for) pode se mostrar como uma adaptação genética no sentido mais simples. Contudo, hipóteses mais específicas a respeito de modelos das tendências humanas a reagir à religião provavelmente serão mais plausíveis, mais prontamente testadas, e apresentam maior probabilidade de se mostrarem úteis em desemaranhar algumas das incômodas questões políticas que temos de enfrentar. Por exemplo, seria particularmente útil saber mais a respeito de como as crenças seculares diferem das crenças religiosas (como vimos no capítulo 8, "crença" é uma denominação imprópria aqui; seria melhor chamá-las de convicções religiosas, para marcar a diferença). Como as convicções religiosas diferem das crenças seculares quanto às suas maneiras de aquisição, persistência e extinção, e nos papéis que representam na motivação e no comportamento das pessoas? Houve uma substancial indústria de pesquisas dedicadas a realizar levantamentos sobre todos os aspectos do posicionamento religioso.6 Vemos regularmente os grandes momentos dos últimos resultados na mídia, mas as


bases teóricas e as suposições autorizadas das metodologias precisam passar por uma análise cuidadosa. Alan Wolfe (2003, p. 152), por exemplo, acha que os levantamentos não são confiáveis: "Os resultados são inconsistentes e enigmáticos, dependendo, como é freqüentemente o caso com esse tipo de pesquisa, da formulação das questões no levantamento ou das amostras escolhidas para análise". Mas será que Wolfe está certo? Isso não deveria ser apenas uma questão de opinião pessoal. Precisamos descobrir. Consideremos um dos mais notáveis relatórios recentes. De acordo com O ARIS (American Religious Identification Survey, "Levantamento norte-americano de identificação religiosa"), em 2001, as três categorias que obtinham o maior ganho em número de integrantes, desde o levantamento anterior, em 1990, eram os evangélicos/nascidos outra vez (42%), os sem seita (37%) e os sem religião (23%). Esses dados sustentam a opinião de que o evangelicismo está crescendo nos Estados Unidos. Mas confirmam também a visão de que o secularismo está em ascensão; Aparentemente estamos polarizados, como muitos observadores informais defenderam há pouco tempo. Por quê? Será porque, como acham aqueles que estão do lado da oferta, como Stark e Finke, só as religiões mais custosas conseguem competir com religião nenhuma no mercado pelo nosso tempo e os nossos recursos? Ou será que, quanto mais aprendemos sobre a natureza, mais a ciência passa a idéia de que deixa alguma coisa de fora, alguma coisa que só uma perspectiva anticiência consegue suprir? Ou existe alguma outra explicação? Antes de nos intrometermos para explicar os dados, deveríamos perguntar que grau de certeza temos nas suposições usadas para reuni-los. Exatamente qual é o grau de confiabilidade dos dados, e como foram eles reunidos? (Pesquisa telefônica, no caso do ARIS, e não questionário escrito.) Que controles foram usados para evitar desvio no contexto? Que outras perguntas foram feitas às pessoas? Quanto tempo para realizar a entrevista? E ainda há as perguntas fora do comum que podem ter tido respostas importantes: o que aconteceu nas notícias, no dia em que a pesquisa foi realizada? O entrevistador tinha algum sotaque? E daí por diante.7 Os levantamentos em grande escala são caros, e ninguém gasta milhares de dólares para reunir dados usando um "instrumento" projetado informalmente (questionário). Muita pesquisa foi dedicada a identificar as fontes de desvio e artefatos em levantamentos. Quando devemos usar uma simples pergunta sim/não (e não se esqueça de incluir a importante opção "não sei"), e quando devemos usar uma escala Likert de cinco pontos (do tipo da conhecida concordo fortemente; tendo a concordar, incerto; tendo a discordar, discordo fortemente)} Quando o ARIS fez seu levantamento em 1990, a primeira pergunta era: "Qual a sua religião?". Em 2001, a questão foi corrigida: "Qual a sua religião, se a tiver?". Quanto do aumento nas respostas "sem seita" e "sem religião" pode ser atribuído à mudança na formulação? Por que foi acrescentada a expressão "se a tiver"? Durante a elaboração de How we believe: science, skepticism and the search ofGod (2a edição, 2003), Michel Shermer, o diretor da Skeptic Socie- ty, fez um ambicioso levantamento sobre convicções religiosas. Os resultados foram fascinantes, em parte porque diferem de maneira impressionante dos resultados encontrados em outros levantamentos semelhantes. A maior parte dos levantamentos recentes sugere que cerca de 90% dos norte-americanos acreditam em Deus - não apenas uma "essência' ' de Deus, mas um Deus que atende às preces. No levantamento de Shermer, apenas 64% disseram acreditar em Deus - e 25% disseram que não acreditavam em Deus (p. 79). E uma discrepância enorme, e não se deve a qualquer simples erro de amostragem (do tipo enviar questionários a conhecidos céticos!).8 Shermer especula que a


chave está na educação. Seu levantamento pediu às pessoas que respondessem com suas próprias palavras a uma "questão aberta", explicando por que acreditavam em Deus: As pessoas que completaram nossa pesquisa eram significativamente mais instruídas que o norte-americano médio, e maior instrução está associada à menor religiosidade. De acordo com o u.s. Census Bureau, para 1998, um quarto dos norte-americanos acima de 25 anos completou sua graduação, enquanto na nossa amostra a taxa correspondente era de quase um terço. (E difícil dizer por que isso aconteceu, mas uma possibilidade é a de que as pessoas instruídas têm probabilidade maior de completar um questionário moderadamente complicado.) [p. 79] Mas (como o meu aluno David Polk apontou), uma vez reconhecida a auto-seleção como um fator sério, deveríamos fazer a próxima pergunta: quem gastaria tempo para preencher um questionário desses? Provavelmente apenas quem tem crenças mais firmes. As pessoas que simplesmente não acham que religião seja importante apresentam pouca probabilidade de preencher um questionário que envolva respostas discursivas. Apenas uma em dez pessoas que receberam o levantamento por correspondência o enviou de volta, uma taxa de retorno relativamente baixa, de modo que não podemos tirar nenhuma conclusão interessante desse número de 64%, como ele reconhece (Shermer e Sulloway, no prelo).9

3. O QUE DEVEMOS DIZER ÀS CRIANÇAS? Foi o garoto de escola que disse, "Fé é acreditar naquilo que você sabe que não é assim." [Mark Twain] Um tema de pesquisa de urgência particular, mas também de ética particular e sensibilidade política, é o efeito da formação e da educação religiosa entre as crianças pequenas. Há um oceano de pesquisas, algumas boas, algumas ruins, sobre o desenvolvimento no início da infância, a aprendizagem da linguagem, a nutrição, o comportamento dos pais, o efeito dos pares e praticamente qualquer outra variável que possa ser medida para os primeiros doze anos da vida de uma pessoa. Quase tudo isso - pelo que eu pude determinar-, contudo, evita cuidadosamente a religião, que ainda é, em larga escala, terra ignota. Algumas vezes há motivos éticos muito bons - na verdade inatacáveis - para isso. Todas as barreiras cuidadosamente erigidas e protegidas em torno da pesquisa médica danosa, com objetos de experiência humanos, se aplicam com igual força a qualquer pesquisa que imaginemos realizar sobre variações na formação religiosa. Não iremos fazer estudos placebos nos quais o grupo A decora um catecismo, enquanto o grupo B decora outro catecismo diferente, e o grupo C decora sílabas sem sentido. Não vamos realizar estudos de adoção cruzada, nos quais os bebês de pais islâmicos são trocados com bebês de pais católicos. Isso está claramente fora de cogitação e deve permanecer assim. Mas quais são os limites? A questão é importante, porque, quando tentamos planejar modos indiretos e não invasivos de obter a evidência que buscamos, vamos nos deparar com o tipo de troca que regularmente enfrentam os pesquisadores que estão atrás de curas médicas. Uma pesquisa sem


riscos sobre esses tópicos provavelmente é impossível. O que conta como consentimento informado, e quanto de risco será permitido, para os que consentem? Consentimento de quem? Dos pais ou dos filhos? Todas essas questões de política restam sem exame nas sombras projetadas pelo primeiro encanto - o que diz que a religião está fora de limites e pronto. Não devíamos fingir que esse descaso é benigno da nossa parte, pois sabemos muito bem que, sob os guarda-chuvas protetores da privacidade pessoal e da liberdade de religião, há práticas amplamente disseminadas nas quais os pais submetem seus próprios filhos a tratamentos que mandariam qualquer pesquisador, clínico ou não, para a cadeia. Quais são os direitos dos pais nessas circunstâncias, e "onde traçamos o limite"? Esta é uma questão política que pode ser resolvida não descobrindo "a resposta", mas elaborando uma resposta que seja aceitável pelo maior número possível de pessoas informadas. Não vai agradar todo mundo, não mais que nossas leis e práticas atuais com relação ao consumo de bebidas alcoólicas agradam todos. Tentou-se proibir o consumo de bebidas alcoólicas e, por consenso geral - longe de unânime -, a tentativa foi um fracasso. O entendimento atual é bastante estável; há pouca probabilidade de que voltemos à Lei Seca em algum futuro próximo. Mas ainda há leis que proíbem a venda de bebidas alcoólicas a menores de idade (a idade varia com o país). E inúmeras áreas nebulosas: o que devemos fazer se encontrarmos pais que dão álcool a seus filhos? No jogo de futebol os pais podem se dar mal. Mas, e na privacidade do lar? Existe uma diferença entre uma taça de champanhe no casamento da irmã mais velha e uma embalagem de seis latas de cerveja todas as noites, enquanto tenta fazer o dever de casa. Quando as autoridades têm, não apenas o direito, mas a obrigação de entrar e evitar o abuso? Essas são questões difíceis, e elas não ficam mais fáceis quando o tema é a religião, e não o álcool. No caso do álcool, nossa sabedoria política é muito bem informada por aquilo que aprendemos a respeito dos efeitos de sua ingestão em curto e longo prazos. No caso da religião, ainda estamos em vôo cego. Algumas pessoas troçam da própria idéia de que a formação religiosa possa ser danosa a uma criança - até que refletem a respeito de alguns dos regimes religiosos mais severos do mundo e reconhecem que, nos Estados Unidos, já proibimos práticas religiosas disseminadas em outras partes do mundo. Richard Dawkins vai mais longe. Ele propôs que criança alguma jamais deveria ser identificada como uma criança católica ou uma criança muçulmana (ou atéia), já que essa identificação em si mesma prejulga decisões que ainda devem ser pesadas da forma adequada. Ficaríamos horrorizados ao ouvir falar de uma criança leninista, ou uma criança neoconservadora, ou uma criança monetarista hayekiana. Então, não seria um tipo de agressão falar de uma criança católica ou de uma criança protestante? Especialmente na Irlanda do Norte e em Glasgow, onde esses rótulos, transmitidos ao longo de gerações, dividiram vizinhanças durante séculos e podem chegar a uma condenação à pena de morte? [2003b] Ou imagine se identificássemos as crianças desde que nasceram como jovens fumantes ou bebeâoras porque seus pais fumavam ou bebiam? Nesse aspecto (e em outros), Dawkins lembra meu avô, um médico que estava à frente de seu tempo nos anos 1950 e escrevia cartas


apaixonadas aos editores dos jornais de Boston, denunciando com veemência o fumo de segunda mão que estava pondo em perigo a saúde de crianças cujos pais fumavam dentro de casa - e nós todos ríamos dele, e continuávamos a fumar. Quanto de dano poderia esse pouquinho de fumaça fazer a qualquer pessoa? Ficamos sabendo depois. Todo mundo cita (ou cita errado) os jesuítas: "Dêem-me uma criança até os sete anos e eu lhes mostrarei o homem", mas ninguém - nem os jesuítas nem qualquer outra pessoa - conhece realmente a capacidade de recuperação das crianças. Existem muitas evidências de jovens que voltam as costas às suas tradições religiosas depois de anos de imersão, afas- tando-se com um dar de ombros e um sorriso, sem qualquer efeito maléfico visível. Por outro lado, algumas crianças são educadas em tal prisão ideológica que se tornam dispostas a se tornar seus próprios carcereiros, como disse Nicholas Humphrey (1999), proibindo a si próprias qualquer contato com as idéias liberadoras que poderiam muito bem mudar-lhes a cabeça. Em seu ensaio profundamente reflexivo "O que devemos dizer às crianças?", Humphrey é pioneiro em abordar as questões éticas envolvidas em decidir "quando e se ensinar um sistema de crença para crianças é moralmente defensável" (p. 68). Ele propõe um teste geral baseado no princípio do consentimento informado, mas aplicado - como deve ser - hipoteticamente: o que essas crianças escolheriam se recebessem, mais tarde, de algum modo, a informação de que precisariam para tomar a decisão informada? Contra a objeção de que não sabemos responder a essas questões hipotéticas, ele argumenta que existe, de fato, inúmeras evidências empíricas e princípios gerais dos quais se podem tirar conscientemente conclusões claras. As vezes consideramos que temos a permissão, e até a obrigação, de tomar essas decisões conscientes em nome de pessoas que não podem, por um motivo ou outro, tomar elas mesmas decisões informadas, e esse conjunto de problemas pode ser abordado usando o conhecimento que já resolvemos na oficina de consenso político sobre outros temas. A resolução desses dilemas (ainda) não é óbvia, para dizer o mínimo. Compare-a com a questão, intimamente relacionada, daquilo que nós, do lado de fora, deveríamos fazer a respeito dos sentineleses, jarawas e outros povos que ainda vivem uma existência da Idade da Pedra, em notável isolamento nas ilhas Andaman e Nicobar, no oceano Indico. Esses povos conseguiram manter afastados até os exploradores e comerciantes mais intrépidos durante séculos pela feroz defesa com arco-e-flecha dos territórios de suas ilhas. Muito pouco se sabe a respeito deles, e já há algum tempo o governo da índia, do qual as ilhas fazem uma parte distante, proibiu qualquer contato com eles. Agora que chamaram a atenção do mundo em conseqüência da grande tsunami de dezembro de 2004, é difícil imaginar que esse isolamento possa se manter. Mesmo que pudesse, deveria ser conservado? Quem tem o direito de decidir a questão? Certamente não os antropólogos, embora eles tenham trabalhado muito para proteger esses povos do contato - até com eles próprios - durante décadas. Quem são eles para "proteger" seres humanos? Os antropólogos não são donos deles como se fossem espécimes de laboratório cuidadosamente reunidos e defendidos de contaminação, e a idéia de que essas ilhas possam ser tratadas como um jardim zoológico humano, ou área de preservação, é ofensiva - mesmo quando contemplamos a alternativa ainda mais ofensiva de abrir as portas a missionários de todos os credos, que sem dúvida correriam ansiosos por salvar-lhes a alma. É tentador, mas ilusório, pensar que eles tenham resolvido o problema ético para nós, pela decisão adulta deles de mandar embora todos os de fora sem perguntar se são protetores,


exploradores, investigadores ou salvadores de almas. Esses povos querem claramente ser deixados em paz, de modo que os devemos deixar em paz! Há dois problemas com essa proposta conveniente: a decisão deles é tão manifestamente mal informada que, se deixarmos que ela prevaleça sobre todas as demais contribuições, será que não somos tão culpados quanto alguém que deixa uma pessoa beber um coquetel envenenado "por sua livre escolha" sem se dignar a avisá-lo? De qualquer modo, embora os adultos possam ter alcançado a idade do consentimento, será que seus filhos não estarão sendo vítimas da ignorância dos pais? Jamais deveríamos permitir que o filho de um vizinho se mantenha tão iludido. Então não deveríamos cruzar o oceano e intervir para resgatar essas crianças, não importando quão doloroso seja o choque? Você sente uma ligeira onda de adrenalina neste momento? Eu acho que a questão dos direitos dos pais contra os direitos dos filhos não tem rivais claros para disparar reações emocionais em lugar de reações racionais, e suspeito que esse é um aspecto no qual o fator genético desempenha um papel bem direto. Nos mamíferos e nas aves que precisam cuidar de seus filhotes, o instinto de proteger os filhotes de qualquer interferência externa é universal e extremamente potente; arriscamos a vida sem hesitação - sem pensar - para afastar ameaças, reais ou imaginárias. É como um reflexo. Neste caso, podemos "sentir no sangue" que os pais têm, sim, o direito de criar seus filhos do jeito que acharem melhor. Nunca cometa o erro de se colocar entre uma mãe ursa e seu filhote, e nada deve se interpor entre os pais e seus filhos. Esse é o núcleo dos "valores de família". Ao mesmo tempo, temos de admitir que os pais não são literalmente donos de seus filhos (como donos de escravos possuem escravos), mas são, ao contrário, seus administradores ou guardiães, e as pessoas de fora deveriam considerá-los responsáveis pela sua curatela, o que implica que as pessoas de fora têm o direito de interferir o que faz disparar outra vez aquele alarme de adrenalina. Quando achamos que aquilo que sentimos no nosso sangue é difícil de defender no tribunal da razão, ficamos defensivos, irritados e começamos a olhar em volta à procura de alguma coisa por trás da qual nos esconder. E o que dizer de um elo sagrado e (portanto) inquestionável? Ah, é isso que vale! Existe uma tensão óbvia (mas raramente discutida) entre os princípios supostamente sagrados invocados com relação a este ponto. Por um lado, declaram muitos, existe o sagrado e inviolável direito à vida: toda criança não nascida tem o direito à vida, e nenhum futuro genitor tem o direito de interromper uma gravidez (talvez exceto se a própria vida da mãe estiver em perigo). Por outro lado, grande parte dessas mesmas pessoas declara que, uma vez nascida, a criança perde seu direito de não ser doutrinada, sofrer lavagem cerebral ou ser molestada psicologicamente por aqueles genitores, que têm o direito de criar a criança do jeito que quiserem, fora a tortura física. Vamos espalhar o valor da liberdade pelo mundo - mas não para as crianças, aparentemente. Nenhuma criança tem direito à liberdade de doutrinação. Não deveríamos mudar isso? O quê?, e deixar gente de fora dizer como tenho de criar os meus filhos? (Agora você sente o surto de adrenalina?) Enquanto nos debatemos com as questões a respeito dos habitantes da ilha Adaman, podemos ver que estamos assentando as bases políticas para questões semelhantes a respeito da criação religiosa em geral. Não deveríamos presumir, ao mesmo tempo que nos preocupamos com os efeitos prováveis, que a sedução da cultura ocidental irá automaticamente afundar todos os frágeis tesouros de outras culturas. Vale notar que muitas mulheres muçulmanas, criadas sob condições que muitas mulheres não-muçul- manas considerariam intoleráveis, quando dadas as


oportunidades informadas para abandonar os véus e muitas de suas outras tradições, escolhem, em vez disso, mantê-las. Talvez as pessoas possam merecer confiança em toda parte, e, daí, talvez se deva permitir que façam suas próprias escolhas informadas. Escolhas informadas! Que espantosa idéia revolucionária! Talvez se possa confiar nas pessoas para fazer as escolhas, não necessariamente aquelas que nós recomendaríamos para elas, mas as escolhas que apresentam maior probabilidade de satisfazer as metas dessas pessoas. Mas o que ensinamos a elas até que sejam informadas o suficiente e maduras o bastante para decidir por elas mesmas? Ensinamos a elas a respeito de todas as religiões do mundo, de um jeito terra-a-terra, histórica e biologicamente informado, assim como lhes ensinamos geografia, história e aritmética. Tenhamos mais instrução sobre religião em nossas escolas, e não menos. Devíamos ensinar às nossas crianças credos, costumes, proibições, rituais, textos, música e, quando cobrirmos a história da religião, devíamos incluir não só o positivo - o papel das igrejas nos movimentos de direitos humanos nos anos 1960, o florescimento da ciência e da arte no início do islamismo, o papel dos Black Muslims em trazer esperança e amor-próprio às estraçalhadas vidas de muitos internos em nossas prisões, por exemplo -, mas também o negativo - Inquisição, anti-semitismo ao longo das eras, o papel da Igreja católica em espalhar a Aids na África, por sua oposição ao uso de camisinha. Nenhuma religião deveria ser favorecida, e nenhuma deixada de lado. E à medida que descobríssemos cada vez mais a respeito das bases biológicas e psicológicas das práticas e dos posicionamentos religiosos, essas descobertas deveriam ser acrescentadas ao currículo, da mesma forma como atualizamos nossa educação sobre ciência, saúde e eventos correntes. Isso deveria fazer parte do currículo obrigatório tanto para escolas públicas como para o ensino em casa. Aqui vai uma proposta, então: desde que os pais não ensinem a seus filhos nada que lhes feche a mente 1. Por medo ou ódio ou 2. Por desqualificá-los de investigação (por negar-lhes uma educação, por exemplo, ou mantê-los inteiramente isolados do mundo), poderão ensinar a seus filhos quaisquer doutrinas religiosas que queiram. É apenas uma idéia, e talvez haja outras melhores para examinar, mas ela deveria atrair os amantes da liberdade: a idéia de insistir em que devotos de todos os credos devam encarar o desafio de ter a certeza de que seu credo é meritório, atraente, plausível e cheio de significado o bastante para resistir às tentações de seus concorrentes. Se você tiver de ludibriar - ou vendar os olhos - de seus filhos para garantir que eles confirmem sua fé quando forem adultos, sua fé deveria se extinguir.

4. MEMES TÓXICOS Qualquer encontro criativo com o mal exige que não nos distanciemos dele simplesmente demonizando aqueles que cometem atos maldosos. Para escrever sobre o mal, um escritor deve tentar compreendê-lo, pelo avesso; compreender os perpetradores sem necessariamente


simpatizar com eles. Mas os norte-americanos parecem ter dificuldade em reconhecer que existe uma distinção entre compreender e simpatizar. Acreditamos, de algum modo, que uma tentativa de nos informar a respeito daquilo que leva ao mal é uma tentativa de atenuá-lo de alguma maneira. Eu acredito que exatamente o contrário é verdadeiro, e que quando se trata de lidar com o mal, a ignorância é o nosso pior inimigo. [Kathleen Norris, "Native evil"]'° Escrever este livro me ajudou a compreender que a religião é um tipo de tecnologia. Ê terrivelmente sedutora em sua capacidade de consolar e explicar, mas é também perigosa. [Jessica Stern, Terror in the name of God: why religious militants kill] Já ouviram falar nos yahuuz, um povo que acha que aquilo que chamamos de pedofilia pornográfica não passa de divertimento bom e limpo? Eles fumam maconha todos os dias, fazem da defecação uma cerimônia pública (com competições hilariantes para ver quem chega ao ritual de se limpar), e, sempre que um ancião chega aos oitenta anos, há um dia de festa especial, no qual a pessoa cerimonialmente se mata - e depois é comida por todos. Enojado? Então você sabe como muitos muçulmanos se sentem em relação à nossa cultura contemporânea, com o álcool, as vestimentas provocantes e atitudes informais da autoridade familiar. Parte do meu esforço neste livro é fazer com que você pense, e não apenas sinta. Nesse exemplo, você tem de ver que seu nojo, não importa quão forte, não passa de um datum, um fato a seu respeito, e um fato muito importante a seu respeito, mas não um sinal infalível de verdade moral - é exatamente como o nojo muçulmano em relação a algumas de nossas práticas culturais. Devíamos respeitar os muçulmanos, ter empatia por eles, considerar seriamente o nojo deles - mas então propor que se unam a nós em uma discussão a respeito das perspectivas sobre as quais diferimos. O preço que você deveria estar disposto a pagar por isso é sua própria disposição para examinar o modo de vida dos (imaginários) yahuuz calmamente, e perguntar se ela é assim claramente tão indefensável. Se eles partilham dessas tradições convictamente, sem coer- ção aparente, talvez devamos dizer "viva e deixe viver". E talvez não. Deve caber a nós o fardo de demonstrar para os yahuuz que o modo de vida deles inclui preceitos dos quais deveriam ter vergonha, e deveriam abolir. Talvez, se nos envolvêssemos conscienciosamente nesse exercício, descobríssemos que algumas de nossas aversões aos modos deles são paroquiais e injustificáveis. Eles nos ensinariam alguma coisa. E nós lhes ensinaríamos alguma coisa. E talvez o abismo de diferenças jamais seria transposto, mas não deveríamos supor essa perspectiva. Enquanto isso, o modo de nos prepararmos para essa utópica conversa global é estudar, tão compassiva e desapaixonadamente quanto possível, os modos deles e os nossos. Pense na corajosa observação de Raja Sheha- deh, ao escrever sobre o domínio da moderna Palestina: "A maior parte de sua energia é gasta oferecendo observadores para detectar a percepção pública de suas ações, porque sua sobrevivência depende de permanecer em bons termos com sua sociedade"." Quando pudermos compartilhar observações semelhantes sobre problemas na nossa própria sociedade estaremos num bom caminho para o entendimento mútuo. A sociedade palestina, se Shehadeh estiver certo, é perseguida por um caso virulento do meme "punir aqueles


que não punem", para o qual há modelos (começando com Boyd e Richerson, 1992) que predizem outras propriedades que deveríamos procurar. Pode ser que essa característica particular frustre projetos bem-intencionados que funcionariam em sociedades que não os têm. Em particular, não devemos presumir que as políticas que estão começando na nossa própria cultura não serão malignas em outras. Como Jessica Stem observa: Passei a ver o terrorismo como um tipo de vírus, que se espalha como resultado de fatores de risco em diversos níveis: globais, interestaduais, nacionais e pessoais. Mas identificar esses fatores com exatidão é difícil. As mesmas variáveis (políticas, religiosas, sociais ou todas acima) que parecem ter feito uma pessoa tornar-se terrorista pode fazer com que outra se torne um santo. [2003, p. 283] A medida que a tecnologia de comunicações torna cada vez mais difícil para os líderes abrigar seu povo das informações de fora, e à medida que as realidades econômicas do século xxi tornam cada vez mais claro que a educação é o investimento mais importante que qualquer pai pode fazer em um filho, as comportas se abrirão no mundo todo, com efeitos tumultuosos. Todos os refugos da cultura popular, todo o lixo e escuma que se acumulam nos cantos de uma sociedade livre irão inundar essas regiões relativamente intocadas, junto com os tesouros da educação moderna, direitos iguais para as mulheres, melhor assistência de saúde, direitos dos trabalhadores, ideais democráticos e abertura à cultura dos outros. Como a experiência na antiga União Soviética mostra muito claramente, as piores feições do capitalismo e da alta tecnologia estão entre os replicadores mais robustos nessa explosão de população dos memes, e haverá muito chão para xenofobia, luddismo e a tentadora "higiene" do fundamentalismo saudosista. Ao mesmo tempo, não devíamos ter pressa em nos desculpar pela cultura pop norte-americana. Ela tem lá seus excessos, mas em muitos casos não são os excessos que ofendem tanto quanto o igualitarismo e a tolerância. O ódio a essa exportação norte-americana muitas vezes é fruto de racismo - por causa da forte presença afro-americana na cultura pop norte-americana - e sexismo - por causa do status da mulher que celebramos e de nosso tratamento (relativamente) benigno à homossexualidade. (Ver, por exemplo, Stern, 2003, p. 99.) Como Jared Diamond mostra em Armas, germes e aço, foram germes europeus que levaram à beira da extinção populações do hemisfério ocidental no século xvi, uma vez que aqueles povos não tinham história na qual desenvolver a tolerância. Neste século serão nossos memes, tanto tônicos como tóxicos, a descarregar devastação sobre o mundo despreparado. Nossa capacidade para tolerar os excessos tóxicos da liberdade não pode ser presumida nos outros, ou simplesmente exportada como mais uma commodity. A capacidade de educação praticamente ilimitada dos seres humanos nos dá esperanças de sucesso, mas o planejamento e a implementação das inoculações culturais necessárias para afastar o desastre, ao mesmo tempo que respeita os direitos daqueles que precisam da inoculação, será uma tarefa urgente de grande complexidade, exigindo não apenas uma ciência social melhor, mas também sensibilidade, imaginação e coragem. A área da saúde pública expandida para incluir riqueza cultural será o maior desafio do próximo século.12 Jessica Stern, uma intrépida pioneira nesse empreendimento, nota que observações individuais como as dela são apenas o início: Um estudo rigoroso, sem desvios, das causas na raiz do terrorismo no plano dos


indivíduos exigirá a identificação de controles, jovens expostos ao mesmo ambiente, que sentiram a mesma humilhação, abuso dos direitos humanos e privações relativas, mas que escolheram meios não violentos para expressar seus ressentimentos, ou preferiram não expressá-los. Uma equipe de pesquisadores, incluindo psiquiatras, médicos e uma variedade de cientistas sociais, desenvolveria um questionário e uma lista de testes médicos a serem ministrados a uma amostra aleatória de agentes e suas famílias. [2003, p. xxx] No capítulo 10 argumentei que os pesquisadores não precisam ser crentes para ser conhecedores, e era melhor que eu tivesse razão, já que queremos que nossos pesquisadores compreendam o terrorismo islâmico de dentro, sem ter de se tornar muçulmanos - e certamente não terroristas - no processo.'3 Mas nós também não vamos entender o terrorismo islâmico a não ser que possamos ver como ele se assemelha ou difere de outros tipos de terrorismo, inclusive os terrorismos hindu e cristão, o ecoterrorismo e o terrorismo antiglobalizante, para arrebanhar os suspeitos usuais. E não vamos entender os terrorismos hindu e cristão sem entender a dinâmica das transições que levam da seita benigna ao culto ao tipo de fenômenos desastrosos que testemunhamos em Jonestown, na Guiana, em Waco, Texas, e no culto Aum Shinrikyo, no Japão. Uma das hipóteses mais tentadoras é que essas mutações particularmente tóxicas tendem a surgir quando líderes carismáticos calculam mal suas tentativas de ser engenheiros meméticos, desencadeando adaptações meméticas que eles descobrem, como o Aprendiz de Feiticeiro, não conseguir mais controlar. Eles então ficam um tanto desesperados e continuam a reinventar as mesmas rodas ruins, que os transportam por seus excessos. O antropólogo Harvey Whitehouse (1995) oferece uma explicação para a ruína que surpreendeu os líderes do Pomio Kivung, a nova religião em Papua-Nova Guiné, mencionada no início do capítulo 4, que sugere (para mim) que alguma coisa do tipo de uma seleção sexual desembestada assumiu o controle. Os líderes reagiram à pressão do povo - prove que você tem a intenção! - com versões cada vez mais infladas das alegações e promessas que os levaram ao poder, conduzindo inevitavelmente a um colapso. Lembra a acelerada explosão de criatividade que se vê em mentirosos patológicos quando eles sentem que o desmentido é iminente. Uma vez que você convenceu o povo a matar todos os porcos em antecipação ao grande Período das Companhias, você não tem mais para onde ir a não ser para baixo. Ou para fora: São eles - os infiéis - que são a causa de todo o nosso sofrimento! São tantas as complexidades, tantas variáveis - será que chegaremos a fazer predições sobre as quais possamos agir? Sim, na verdade podemos. Eis aqui apenas uma: em todos os lugares nos quais o terrorismo floresceu, aqueles que mais se sentiram atraídos por ele eram quase todos jovens que ficaram sabendo o bastante sobre o mundo para ver que seu futuro parecia sombrio e desanimador (como o futuro daqueles que eram presas de Marjoe Gortner). O que parece ser mais atraente em grupos religiosos militantes - seja lá qual for a combinação de motivos que um indivíduo possa citar para se unir a eles - é o modo como a vida fica simplificada. O bem e o mal são mostrados em relevo nítido. A vida é transformada por meio da ação. O martírio - o ato supremo de heroísmo e adoração - propicia a suprema fuga dos dilemas da vida, em especial para indivíduos que se sentem profundamente alienados, humilhados ou


desesperados. [Stern, 2003, pp. 5-6] Onde iremos encontrar uma superabundância de jovens como esses em um futuro muito próximo? Em muitos países, mas especialmente na China, onde as medidas draconianas de limitar a família a um filho diminuíram a explosão populacional tão dramaticamente (e transformaram a China em uma vigorosa força econômica de magnitude inquietante) e tiveram o efeito colateral de criar um desequilíbrio brutal entre crianças dos sexos masculino e feminino. Todo mundo queria ter um filho homem (um meme aposentado que evoluiu para vicejar em um ambiente econômico mais primitivo), de modo que as filhas foram abortadas (ou mortas ao nascerem) em números imensos, e agora não há possibilidade de haver esposas em número suficiente para todos. O que vão fazer todos esses jovens? Temos alguns anos para imaginar canais benignos para onde suas energias inundadas de hormônios possam se dirigir.

5. PACIÊNCIA E POLÍTICA O Congresso não fará qualquer lei a respeito do estabelecimento de religião, ou de proibição do livre exercício dela; ou limitará a liberdade de expressão ou da imprensa; ou o direito de as pessoas se reunirem pacificamente, e de peticionar o Governo por uma correção de injustiças. [Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América] As tradições só merecem ser respeitadas se forem respeitáveis - ou seja, exatamente desde que elas mesmas respeitem os direitos fundamentais dos homens e mulheres. [Amin Maalouf, In the name of identity: violence and the need to belong] Graças a Alá pela internet. Tendo a rede para tornar irrelevante a autocensura - por certo alguém mais dirá aquilo que você não diria -, ela se tornou um local onde os intelectuais que se arriscam finalmente desabafaram. [Irshad Manji, The trouble with Islam]'4 O preço da liberdade é a eterna vigilância. [Ou Thomas Jefferson (data desconhecida) ou Wendell Phillips (1852)] Existe isso, de crescer depressa demais. Nós todos temos de fazer a desajeitada transição da infância, passando pela adolescência, até a fase adulta, e algumas vezes alterações importantes acontecem cedo demais, com resultados lamentáveis. Mas não podemos manter nossa inocência infantil para sempre. É hora de crescermos todos. Precisamos nos ajudar uns aos outros, e sermos pacientes. É a reação exagerada que repetidamente nos tem feito perder terreno. Dê algum tempo para o crescimento, encoraje-o, e ele acontecerá. Devemos ter fé na nossa sociedade aberta, no conhecimento, na pressão contínua para fazer do mundo um lugar melhor para as pessoas viverem, e temos de reconhecer que as pessoas precisam de um sentido para encarar vida. A sede por uma missão, uma meta, um significado é insaciável, e se não fornecermos vias benignas,


ou pelo menos não malignas, teremos sempre de enfrentar religiões tóxicas. Em vez de tentar destruir as madrassahs que fecham a cabeça de milhares de meninos muçulmanos, deveríamos criar escolas alternativas - para meninos e para meninas muçulmanas'5 - que sirvam melhor a suas necessidades reais e prementes, e deixar essas escolas competirem abertamente com as madrassahs pela clientela. E como podemos esperar competir com a promessa de salvação e as glórias do martírio? Poderíamos mentir, e fazer promessas nossas, que jamais poderiam ser cumpridas nesta vida ou em qualquer outro lugar, ou poderíamos tentar alguma coisa mais honesta: poderíamos sugerir a eles que as alegações de qualquer religião deveriam, é claro, ser vistas com certa reserva. Poderíamos começar a mudar o clima de opinião que sustenta que a religião está acima de discussões, acima de críticas e acima de objeções. Propaganda enganosa é propaganda enganosa, e, se começarmos a responsabilizar as organizações religiosas por suas alegações - não as levando ao tribunal, mas apenas denunciando, muitas vezes em um tom de voz normal, que é claro que essas alegações são absurdas - talvez possamos fazer com que, lentamente, a cultura de creduli- dade se evapore. Já dominamos a tecnologia de criar dúvidas por meio da mídia de massa ("Tem certeza de que seu hálito é puro?", "Você está ingerindo ferro suficiente?", "O que a sua companhia de seguros tem feito por você ultimamente?"), e agora podemos pensar em aplicá-la, delicada mas firmemente, a temas que até aqui estavam fora dos limites. Deixem as religiões honestas progredirem porque seus membros estão recebendo aquilo que querem, pela seleção informada. Mas também podemos começar a fazer campanhas para ajustar os aspectos específicos dos panoramas nos quais se dá essa competição. Um poço sem fundo nesse panorama, que a meu ver merece ser pavimentado, é a tradição do "solo sagrado". Aqui está Yoel Lerner, israelense e exterrorista, citado por Stern: Existem 613 mandamentos na Torá. Cerca de 240 deles dizem respeito ao serviço no templo. Durante cerca de 2 mil anos, desde a destruição do Templo, o povo judeu, contrariamente a seus desejos, não pôde manter o serviço no templo. Não puderam obedecer a esses mandamentos. O Templo constituía uma espécie de linha telefônica com Deus [resume Lerner], Esse elo foi destruído. Nós queremos reconstruí-lo. [2003, p. 88] Balelas, digo eu. Eis um caso imaginário: suponhamos que a Liberty Island (antes Bedloe Island, na qual fica a Estátua da Liberdade) tenha sido antes um cemitério mohawk - digamos, da tribo matinecock, em Long Island, vizinha. E suponhamos que os mohawks apresentassem uma reivindicação de que se deveria restaurar sua pureza intocada (nada de cassinos de jogo, mas também nada de Estátua da Liberdade, só um grande cemitério sagrado). Bobagem. E que vergonha para qualquer mohawk que tivesse a chutzpah (!), a cara-de-pau de incomodar seus bravos guerreiros com a questão. Isso seria história antiga - muito menos antiga que a história do Templo - e se deveria deixar que retrocedesse graciosamente para o passado. Não deixamos que as religiões declarem que seus santos preceitos exijam que canhotos sejam escravizados, ou que as pessoas que moram na Noruega devam sempre ser mortas. Da mesma forma, não podemos deixar que as religiões declarem que "infiéis" que moram inocentemente em seu solo "sagrado" há gerações não tenham o direito de viver lá. Há também, é claro, hipocrisia dolosa na política de construir deliberadamente novos assentamentos para criar


exatamente esses moradores "inocentes" e excluir as reivindicações dos habitantes anteriores dessa terra. Isso é uma prática que já tem séculos: os espanhóis que conquistaram a maior parte do hemisfério ocidental muitas vezes tiveram o cuidado de construir suas igrejas cristãs nas fundações dos templos indígenas destruídos. Fora da vista, fora do coração. Nenhum dos lados dessas disputas está acima de críticas. Se pudéssemos ao menos desvalorizar tradições inteiras de solo sagrado, e suas ocupações, poderíamos abordar as injustiças residuais com mentes mais claras. Talvez você discorde de mim a esse respeito. Vamos discutir o tema calma e abertamente, sem apelos inconformados ao sagrado, que não têm lugar nessa discussão. Se é para continuar a honrar as reivindicações de solo sagrado, será porque, considerando-se tudo, esta vai ser a maneira justa, que permitiria a vida e um caminho melhor para a paz do que qualquer outro que possamos encontrar. Qualquer política que não consiga passar nesse teste não merece respeito. Essas discussões abertas são subscritas pela segurança de uma sociedade livre, e se for para não se tocar nelas, precisamos ficar vigilantes na proteção das instituições e dos princípios da democracia com referência à subversão. Lembra do marxismo? Costumava ser uma espécie de gracejo ácido implicar com os marxistas a respeito das contradições presentes em algumas de suas idéias preferidas. A revolução do proletariado era inevitável, acreditavam os bons marxistas, mas, se era assim, porque estavam eles tão ansiosos por nos arregimentar para sua causa? Se ia acontecer de qualquer modo, ia acontecer sem ou com a nossa ajuda. Mas é claro que a inevitabilidade na qual os marxistas acreditam dependem do crescimento do movimento e de todas as suas ações políticas. Havia marxistas que trabalhavam muito para fazer a revolução acontecer, e era reconfortante para eles acreditar que o sucesso estava garantido a longo prazo. Alguns deles, os únicos que eram realmente perigosos, acreditavam com tanta firmeza na legitimidade de sua causa que julgavam ser permitido mentir e enganar para promovê-la. Eles chegavam a ensinar isso a seus filhos desde a infância. Eram os "bebês de fraldas vermelhas", filhos de membros da linha dura do Partido Comunista da América, e algum deles ainda podem ser encontrados infectando a atmosfera da ação política em círculos de esquerda, para extrema frustração e aborrecimento de socialistas honestos e outras pessoas de esquerda. Hoje temos um fenômeno semelhante cozinhando na direita religiosa: a inevitabilidade dos Dias Finais, ou o Êxtase, a vinda do Armagedom que irá separar os eleitos dos condenados no Dia do Julgamento Final. Sábios e profetas que proclamam o iminente fim do mundo existem entre nós há muitos milênios, e tem sido outro tipo de humor negro ridiculari- zá-los no dia seguinte, quando eles descobrem que seus cálculos estavam um pouco errados. Mas, exatamente como acontece com os marxistas, há alguns entre eles que trabalham muito para "apressar o inevitável", não apenas antecipando o Dia Final com alegria no coração, mas agindo politicamente para provocar as condições que acham ser pré-requisitos para a ocasião. E essas pessoas não têm graça nenhuma. São perigosas, pelos mesmos motivos que os bebês de fralda vermelha são perigosos: eles põem a fidelidade ao seu credo acima de seu compromisso com a democracia, a paz, a justiça (terrena) - e a verdade. Se a coisa engrossar, alguns deles estão preparados para morrer, e até matar, para fazer o que for necessário para trazer o que consideram ser a justiça celeste àqueles que eles consideram pecadores. Serão eles uma periferia lunática? Certamente estão perigosamente desligados da realidade, mas é difícil dizer quantos eles são.'6 O número deles está aumentando? Pelo jeito, sim. Estão eles tentando ganhar posições de poder e


influência nos governos do mundo? Aparentemente. Todos nós devemos saber a respeito desse fenômeno? Devemos, com certeza. Centenas de páginas na web pretendem lidar com esse fenômeno, mas não estou em condições de endossar qualquer uma delas como exata, de modo que não vou enumerar nenhuma. Isso em si pode causar preocupação, e constitui um excelente motivo para realizar uma investigação objetiva sobre o Movimento do Final dos Tempos todo, e particularmente a presença de adeptos fanáticos em postos do governo e entre os militares. O que podemos fazer a esse respeito? Sugiro que os líderes políticos que estão em melhor posição para pedir uma revelação completa dessa tendência perturbadora são aqueles cujas credenciais dificilmente poderiam ser impugnadas pelos que têm medo dos ateus e dos brights: os onze senadores e os congressistas que são membros da "Família" (ou da "Fellowship Foundation"), uma organização secreta cristã com influência em Washington há décadas: senadores Charles Grassley (R., Iowa), Pete Domenici (R„ N.Mex.), John Ensign (R., Nev.), James Inhofe (R. Okla.), Bill Nelson (D., Fia.), Conrad Burns (R., Mont.), e deputados'Jim DeMint (R., S.C.), Frank Wolf (R., Va.), Joseph Pitts (R„ Pa.), Zach Wamp (R., Tenn.) e Bart Stupak (D., Mich.).' 7 Do mesmo modo que os líderes muçulmanos não fanáticos no mundo islâmico, com os quais o mundo está contando para limpar os excessos islâmicos tóxicos, esses cristãos não fanáticos têm a influência, o conhecimento e a responsabilidade de ajudar a nação a se proteger daqueles que trairiam nossa democracia na busca do cumprimento de suas agendas religiosas. Como nós certamente não queremos reviver o macarthismo no século xxi, deveríamos abordar essa tarefa com o máximo de responsabilidade e exposição pública, num espírito de bipartidarismo e à plena luz da atenção pública. Mas é claro que isso exigirá que quebremos o tabu tradicional contra investigar afiliações e convicções religiosas tão aberta e minuciosamente. Então, no final, minha recomendação política central é que, delicada e firmemente, instruamos os povos do mundo, de modo que eles possam fazer uma escolha informada a respeito de sua vida.'8 A ignorância não é nada vergonhosa; a imposição da ignorância é vergonhosa. A maior parte das pessoas não tem culpa pela própria ignorância, mas terão culpa se voluntariamente passarem essa ignorância adiante. Pode-se pensar que isso é tão óbvio que nem é preciso propor. Mas em muitos setores há uma resistência substancial a esse respeito. As pessoas temem ser mais ignorantes do que seus filhos - especialmente, parece, do que suas filhas. Vamos ter de convencê-las que há poucos prazeres mais respeitáveis e alegres do que serinstruído pelos próprios filhos. Será fascinante ver que instituições e projetos seus filhos imaginarão, construindo sobre as bases que gerações anteriores construíram e preservaram para eles, a fim de que nos levem todos para o futuro com segurança.


APÊNDICE A OS NOVOS REPLICADORES [Para o contexto, veja a p. 92. Reimpresso com permissão da The Encyclopeia of Evolution (Oxford: Oxford University Press, 2002).] Há muito está claro que, em princípio, o processo da seleção natural é neutro em substrato a evolução ocorrerá sempre e em qualquer lugar em que três condições sejam satisfeitas: 1. replicação 2. variação (mutação) 3. aptidão diferencial (competição) Nos termos do próprio Darwin, se existe "descendência [1] com modificação [2]" e "uma severa luta pela vida [3], os descendentes mais bem equipados prosperarão à custa da concorrência. Sabemos que um único substrato material, o dna (com seus sistemas de expressão e desenvolvimento de genes), garante as duas primeiras condições de vida na Terra; a terceira condição é assegurada pela finitude do planeta, além de, mais diretamente, pelos incontáveis desafios ambientais. Mas sabemos também que o dna venceu as variações anteriores, que deixaram seus traços em exemplares que permaneceram, como os vírus rna e os príons. Será que surgiram, neste planeta, quaisquer outros substratos evolutivos, completamente diferentes? Os melhores candidatos são as invenções, planejadas ou não, de uma espécie, o Homo sa-piens. O próprio Darwin propôs as palavras como exemplo: "A sobrevivência ou a preservação de determinadas palavras favoritas na luta pela existência é seleção natural" (A origem do homem e a seleção natural, 1871, p. 61). Bilhões de palavras são proferidas (ou inscritas) todos os dias, e quase todas elas constituem réplicas - em um sentido a ser discutido abaixo - de palavras mais antigas percebidas por aqueles que as proferiram. A replicação não é perfeita, e existem muitas oportunidades para variação ou mutação na pronúncia, inflexão ou significado (ou grafia, no caso de palavras escritas). Além do mais, as palavras são mais ou menos segregadas em linhagens de cadeias de replicação; por exemplo, podemos traçar os descendentes de uma palavra do latim para o francês e para o cajun. As palavras competem por tempo no ar e no espaço impresso em diversas mídias, sendo que certas palavras ficam obsoletas e caem fora do reservatório de palavras, enquanto outras palavras surgem e progridem. Descobrimos controvérsia sendo fixada em algumas regiões e controvérsia sendo fixada em outras, enquanto o significado original de "incorrer em petição de princípio" é suplantado em alguns lugares por uma variante. As mudanças históricas detectáveis nas línguas foram estudadas a partir de uma ou outra perspectiva darwiniana desde os dias do próprio Darwin, e sabe-se muita coisa a respeito de modelos de replicação, variação e competição nos processos que renderam as diversas linguagens de hoje. De fato, alguns dos métodos de investigação da biologia evolutiva moderna, da bioinformática,


por exemplo, são eles mesmos descendentes de pesquisas pré-darwinia- nas conduzidas por paleógrafos e outros estudantes antigos da lingüística histórica. Como Darwin observou: "A formação de línguas diferentes e de espécies diferentes, e as provas de que as duas se desenvolveram por um processo gradual, são curiosamente as mesmas" (1871, p. 59). As palavras, e as línguas povoadas por elas, não são, no entanto, as únicas variantes transmitidas, culturalmente propostas. Outros atos e práticas humanos que se espalham por imitação foram identificados como replicadores em potencial, do mesmo modo que os hábitos de animais não humanos. Os substratos físicos dessas mídias são realmente muito variados, incluindo sons e todo tipo de modelos visíveis, tangíveis, no comportamento dos organismos vetores. Além do mais, os comportamentos são muitas vezes produtos de artefatos (vias, abrigos, ferramentas, armas, sinais ou símbolos) que podem servir como exemplares mais bem adaptáveis aos objetivos da replicação que os comportamentos que os produzem, sendo relativamente estáveis ao longo do tempo; portanto, sob alguns aspectos, são mais fáceis de copiar, além de se poder movê-los e guardá-los independentemente - sob esse aspecto, como as sementes. Um artefato humano, o computador, com sua capacidade prolífica de copiar, há pouco tempo propiciou um substrato distintamente novo, no qual estão agora brotando experiências em evolução artificial, tanto deliberadas como casuais, aproveitando-se especialmente da emergência de redes gigantescas de computadores ligados, o que permite a dispersão rápida de propágulos feitos de nada mais do que bits de informação. Esses vírus de computador são simplesmente seqüências de dígitos binários que podem ter algum efeito em sua própria replicação. Do mesmo modo que os vírus macromoleculares, eles viajam sem bagagem, não passando de pacotes de informação, incluindo um sobretudo fenotípico, que tende a garantir o seu acesso à maquinaria de replicação sempre que a encontrar. E, finalmente, os pesquisadores no novo campo da Vida Artificial aspiram a gerar agentes virtuais (simulados, abstratos) e reais (robótica), auto-replicantes que possam se aproveitar de algoritmos evolutivos para explorar os panoramas adaptativos nos quais estão situados. Eles geram projetos melhorados que satisfazem às três condições da definição, ao mesmo tempo que diferem de formas de vida baseadas no carbono de modos impressionantes. Embora à primeira vista esses fenômenos possam parecer apenas modelos de entidades em evolução, progredindo em ambientes modelados, o limite entre uma demonstração abstrata e uma aplicação no mundo real é mais facilmente atravessado por esses fenômenos evolutivos do que por outros, precisamente por causa da neutralidade em substratos dos algoritmos evolutivos subjacentes. Os auto-replicadores artificiais podem fugir de seus ambientes originais nos computadores dos pesquisadores e ganhar “vida própria no rico novo meio da internet”.


Uma taxonomia simples dos novos replicadores Pode-se ver que todas essas categorias de novos replicadores dependem, como os vírus, da maquinaria de replicação que for construída e mantida direta ou indiretamente pelo processo genitor da evolução biológica. Onde todas as formas de vida do dna se extinguirem, todos os seus hábitos e meta-hábitos, seus artefatos e meta-artefatos logo morrerão com elas, por falta dos meios (tanto da maquinaria como da energia para fazer a maquinaria funcionar) para se reproduzir sozinhos. Isso pode não ser uma característica permanente no planeta. Por hora, nossas redes de computadores, fabricação de robôs e oficinas de consertos exigem supervisão e manutenção maciças de nossa parte. Mas o roboticista Hans Morave sugeriu (1988) que os artefatos eletrônicos (ou fotônicos) com base em silício poderiam se tornar inteiramente autosustentáveis e auto-replicati- vos, desligando-se da dependência de seus criadores com bases carbônicas. Essa eventualidade improvável e distante não é uma exigência para a evolução, no entanto, ou para a vida propriamente dita. Afinal de contas, nossa auto-replicação e autosustentação é inteiramente dependente dos bilhões de bactérias sem as quais nossos metabolismos falhariam, e se nossos descendentes manufaturadores tiverem, do mesmo modo, de escravizar exércitos de nossos descendentes biológicos para manter seus sistemas vivos e em operação, isso não diminuiria sua reivindicação de constituir um ramo novo na árvore da vida. Do mesmo modo que em muitas taxonomias na teoria evolutiva, há controvérsias e enigmas sobre como desenhar os ramos, e como lhes atribuir nomes. Alguns desses enigmas são substantivos, e alguns são meras discordâncias a respeito dos termos a serem usados. O zoólogo Richard Dawkins cunhou o termo "meme" em um capítulo de seu livro O gene egoísta, de 1976, e a palavra pegou. Ele abriu sua discussão sobre esses "novos replicadores" com uma discussão do canto dos passarinhos. Mas outros que adotaram o termo quiseram restringir os memes à


cultura humana. Será que as tradições animais em evolução, como gritos de alarme, métodos de construir ninhos e ferramentas de chimpanzés podem também ser chamadas de memes? Pesquisadores concentrados na transmissão cultural em animais, como John Tyler Bonner (1980), Eytan Avital e Eva Jablonka (2000) resistiram ao termo, e outros, que escrevem sobre a evolução cultural humana, como Luigi Luca Cavalli-Sforza e Marcus Feldman (1981), Robert Boyd e Peter Richerson (1985), também escolheram o uso de termos alternativos. Mas já que o termo "meme" garantiu uma posição segura na língua inglesa, aparecendo na edição mais recente do Oxford English Dictionary com a definição "um elemento de cultura que pode ser considerado transmitido por meios não genéticos", podemos convenientemente nos decidir por ele como o termo geral para qualquer replicador de base cultural - se eles existirem. Aqueles que têm escrúpulos em usar um termo cujas condições de identidade ainda estão sob discussão deveriam se lembrar de que controvérsias semelhantes continuam rondando a definição de sua contraparte, "gene", termo que poucos recomendariam ser inteiramente abandonado. Os memes incluem não apenas tradições animais, então, mas também replicadores com base em computadores, por dois motivos: não apenas os computadores, sua manutenção e operação dependem da cultura humana, mas os limites entre os vírus de computador e os memes humanos mais tradicionais já não são mais distintos. Vírus simples de computadores, na verdade, carregam a instrução copie-me, dirigida ao computador, em linguagem de máquina, e são inteiramente invisíveis para o usuário do computador. Do mesmo modo que as toxinas involuntariamente ingeridas por pessoas que pescam e comem peixes de água doce, um vírus de computador desses, embora seja um elemento do ambiente do usuário, discutivelmente não faz parte de seu ambiente cultural. No entanto, pelo menos tão disseminados e virulentos como esses vírus de computador "verdadeiros são os avisos fictícios de vírus de computadores dirigidos aos usuários de computadores, em linguagem natural. Estes, que dependem diretamente de um vetor humano com entendimento (mas ludibriado) para que se repliquem na internet, estão definitivamente dentro do entendimento intencionado dos memes, e os casos intermediários são os vírus de computadores que dependem dos usuários humanos para abrir anexos (desse modo acionando a instrução de cópia invisível) com promessas de algum conteúdo divertido ou excitante. Estes, também, dependem do entendimento humano; um anexo escrito em alemão não vai se espalhar prontamente em computadores de monoglotas que só falem português. (Esse modelo pode mudar se os usuários lançarem mão regularmente de serviços de tradução online.) Na corrida armamentista entre vírus e antivírus, deve-se esperar que haja explorações cada vez mais elaboradas dos interesses humanos. Desse modo, parece melhor incluir todos esses replicadores sob a rubrica dos memes, notando que alguns deles só fazem uso indireto dos vetores humanos, e, portanto, são apenas indiretamente elementos da cultura humana. Estamos começando a ver essa fronteira porosa sendo cruzada também na outra direção: costumava ser verdadeiro que a replicação diferencial de memes clássicos tais como canções, poemas e receitas dependiam de vencer a competição pela residência no cérebro humano, mas agora que uma multiplicidade de máquinas de busca na web se interpôs entre os autores e sua platéia (humana), competindo uns com os outros pela fama como fontes de alta qualidade de itens culturais, as diferenças de aptidões significativas entre os memes podem se acumular, independentemente de qualquer avaliação ou cognição humanas. Em breve poderá acontecer que uma frase habilmente torneada em um livro seja indexada por muitas máquinas de busca, e que então entre para a linguagem como um novo clichê, sem que qualquer ser humano tenha lido o


livro original.

PROBLEMAS DE CLASSIFICAÇÃO E INDIVIDUAÇÃO

Alguns problemas de classificação são reais, dependendo em parte de fatos históricos que não estão bem estabelecidos; outros fornecem problemas táticos para os teóricos: que divisões do fenômeno se mostrarão mais claras? Será que todos os vírus de computador são adequadamente descendentes das incursões iniciais na Vida Artificial, ou será que pelo menos alguns deles devem ser encarados como independentes daquele movimento intelectual? Nem todos os hackers de computadores são hackers de Vida Artificial, mas existe também a não respondida questão tática de como caracterizar aquilo que é copiado. Se um hacker adquire a idéia geral de um vírus de computador de uma outra pessoa e depois prossegue para fazer um novo tipo de vírus de computador inteiramente diferente, será que esse novo vírus é verdadeiramente um descendente com modificações do vírus que inspirou sua criação? E se o hacker adaptar elementos do projeto do vírus original no tipo novo? Quanto de pura cópia sem cuidados deverá haver, ou, alternativamente, quanta inspiração com entendimento poderá haver em um caso de replicação? (Mais a este respeito adiante.) Será que há uma cópia de memes através de espécies no mundo animal? Os ursos- polares constroem uma toca incluindo uma plataforma elevada de neve que permite a saída do ar frio da abertura da toca, em nível mais baixo. Será que essa astuta tendência na tecnologia ártica é puramente inata (agora), ou será que os filhotes de urso terão de copiar o exemplo de suas mães? A mesma platibanda de neve é encontrada no iglu de um inuíte. Será que os inuítes copiaram essa tradição do urso-polar, ou será que foi uma invenção independente? Será que acontece de uma espécie começar a responder aos chamados de alarme de outra espécie e daí desenvolver sua própria tradição de grito de alarme? Será que o meme do grito de alarme se espalha de espécie para espécie, ou será que devemos considerar os gritos de alarme intra-específicos, e suas variantes, linhagens inteiramente independentes? A exacerbação desses problemas são outros problemas de individua- ção de memes. Será que a palavra (em inglês) "windsurfing" deve ser vista como sendo diferente do meme "windsurfing" (neutro para a linguagem)? Será que são dois memes ou só um? Será que estilos, como punk ou grun- ge, contam como memes antes de terem nomes? Por que não? Juntar forças com um meme-nome sem dúvida é uma excelente vantagem de aptidão para quase qualquer meme. (Uma exceção poderia ser um meme que dependa de se espalhar de modo insidioso; a cunhagem de um meme de nome, como macho chauvinista, pode de fato atrapalhar o espalhamen- to do chauvinismo masculino ao sensibilizar alguma coisa do tipo resposta imunológica em vetores em potencial.) Provavelmente é verdade que, assim que quaisquer memes humanos se tornarem destacados o bastante no ambiente para serem percebidos, eles serão imediatamente batizados por um de seus discernidores, unindo estreitamente os dois memes


daí por diante: o nome e o nomeado, que em geral têm um destino compartilhado, mas nem sempre. (As características musicais identificáveis como blues incluem muitos casos robustos em que não são chamadas de hlues por aqueles que as tocam e as escutam.) Memes não percebidos podem também progredir. Por exemplo, mudanças na pronúncia ou no significado de uma palavra podem passar a ser fixar em uma grande comunidade antes que qualquer lingüista de ouvido acurado ou outro observador cultural consiga perceber. Existe um bom número de pessoas comediantes, além de antropólogos e outros cientistas sociais - que ganham a vida detectando e comentando tendências na evolução de modelos culturais que até então tinham sido, na melhor das hipóteses, fracamente avaliados. Até que esses e outros problemas de orientação teórica inicial sejam resolvidos, o ceticismo a respeito dos memes continuará a se disseminar. Muitos comentadores colocam-se profundamente contra quaisquer propostas para reformular questões nas ciências sociais e humanas em termos de evolução cultural, e essa oposição é muitas vezes expressada em termos de um desafio para provar que "os memes existem": Os genes existem [admitem esses críticos], mas o que são memes? De que são eles feitos? Genes são feitos de DNA. Serão os memes feitos de modelos de neurônios no cérebro de pessoas aculturadas? Qual é o substrato material dos memes? Existem alguns proponentes de memes que argumentam a favor de uma tentativa de identificar memes com estruturas cerebrais específicas - um projeto ainda inteiramente não mapeado, é claro. Mas com os conhecimentos correntes de como o cérebro poderia armazenar informações culturais, é pouco provável que qualquer estrutura cerebral comum, identificável independentemente, em cérebros diferentes, possa ser isolada como sendo o substrato material de um meme em particular. Ao mesmo tempo que alguns genes para fabricar olhos se mostram identificáveis, não importando se ocorrem no genoma de uma mosca, de um peixe ou de um elefante, não há boas razões para prever que os memes para o uso de óculos bifocais possam ser igualmente isoláveis nos modelos neurais do cérebro. Tende a zero a probabilidade de o cérebro de Benjamin Franklin, que inventou os óculos bifocais, e o cérebro daquele de nós que usamos esses óculos "formarem" a idéia de bifocais em um código cerebral comum. Além disso, esse caminho imaginário para a respeitabilidade científica é baseado em uma analogia equivocada. Em seu livro de 1966, Adaptation and natural selection, o teórico da evolução George Williams ofereceu uma importante definição de um gene como "qualquer informação hereditária para a qual existe um viés de seleção favorável ou desfavorável igual a diversas ou muitas vezes sua taxa de mudança endógena". Como ele continuou a enfatizar em seu livro de 1992, Natural selection: domains, leveis and challenges, "Um gene não é uma molécula de DNA; é a informação passível de ser transcrita, codificada pela molécula" (p. n). Genes, receitas genéticas, estão todos escritos no meio físico do DNA, usando uma única linguagem canônica, o alfabeto dos nucleotídeos, ade- nina, citosina, guanina e timina, tripletos dos quais se faz a codificação para aminoácidos. Suponhamos que todas as cepas do DNA da varíola no mundo sejam destruídas; se o genoma da varíola estiver preservado (traduzido dos nucleotídeos para as letras A, c, G e T, e guardados no disco rígido em computadores, por exemplo), a varíola não vai estar verdadeiramente extinta; poderá algum dia ter descendentes,


porque os genes ainda existem naqueles discos rígidos, como aquilo que William chama de "pacotes de informações" (1992, p. 13). Memes e receitas culturais dependem, do mesmo modo, de urn meio físico ou outro para que sua existência continue (eles não são mágicos), mas podem saltar de meio para meio, sendo traduzidos de linguagem para linguagem, de linguagem para diagrama, de diagrama para prática ensaiada, e daí por diante. Uma receita de bolo de chocolate, seja escrita em inglês, em tinta no papel, ou falada em italiano em videoteipe, ou armazenada em uma estrutura de dados diagramáticos no disco rígido de um computador, pode ser preservada, transmitida, traduzida e copiada. Como a prova do pudim está em comê-lo, a probabilidade de uma receita ter qualquer uma de suas cópias físicas replicadas vai depender (principalmente) do sucesso do bolo. Do sucesso do bolo em fazer o quê? Em conseguir que um outro hospedeiro faça outro bolo? Em geral, mas até mais importante do que isso, é conseguir que o hospedeiro faça outra cópia da receita e a passe adiante. No final, isso é tudo o que importa. O bolo pode não fortalecer a aptidão daqueles que o comem; pode até envenená-los; mas se primeiro conseguir, de algum modo, que eles passem a receita adiante, o meme florescerá. Essa talvez seja a futura inovação mais importante ao se remodelarem as investigações em termos de memes: eles têm suas próprias aptidões como replicadores, independentemente de qualquer contribuição que possam ou não dar para a aptidão genética de seus hospedeiros, os vetores humanos. Dawkins (1976) diz assim: "O que não consideramos antes é que o traço cultural pode ter evoluído do jeito que evoluiu simplesmente por ser vantajoso para ele mesmo" (p. 200 da ed. rev.). O antropólogo F. T. Clak (1975) diz: "O valor de sobrevivência de uma instrução cultural é o mesmo que o de sua função; é o seu valor para a sobrevivência/replicação de si mesma ou de sua réplica". Aqueles que questionam se "os memes existem" porque não conseguem ver que tipo de coisa material seria um meme, deveriam se perguntar se eles estão igualmente em dúvida a respeito de se as palavras existem. De que é feita a palavra "gato"? As palavras são produtos da atividade humana, reconhecíveis, reidentificáveis; elas aparecem em qualquer mídia e podem pular de substrato para substrato durante o processo de replicação. Sua posição como coisa real não é nem um pouco impugnada pelo fato de serem abstratas. Na taxonomia proposta, as palavras não são mais que uma espécie de meme; outras espécies de memes são o mesmo tipo de coisa que as palavras - você simplesmente não consegue pronunciá-las ou escrevê-las. Alguns deles você consegue dançar, outros, cantar, ou jogar, e outros você consegue elaborar a partir dos diversos materiais de construção fornecidos pelo mundo. A palavra "gato" não é feita de um pouco da tinta desta página, e uma receita de bolo chocolate não é feita de farinha e chocolate. Não existe um código único patenteado, paralelo ao código de quatro elementos do DNA, que possa ser usado para ancorar a identidade do meme, como a identidade do gene pode ser ancorada para a maior parte dos objetivos práticos. Essa é uma diferença importante, mas graduada. Se a tendência corrente de extinção de linguagens continuar no passo atual, em um futuro não tão distante cada pessoa na Terra falará a mesma língua, e será então difícil resistir à tentação (para a qual, ainda assim, deve haver resistência!) de identificar memes com seus (agora praticamente exclusivos) rótulos verbais. Desde que haja uma multiplicidade de línguas, para não falar da multiplicidade de mídias nas quais os itens culturais não lingüísticos possam


ser replicados, é melhor nos atermos rigorosamente ao entendimento abstrato, neutro, de códigos, de um meme como um "pacote de informações", lembrando-nos que, para que ocorra a replicação em alta-fidelidade, deverá sempre haver algum tipo de "código". Os códigos desempenham um papel fundamental em todos os sistemas de replica- ção em alta-fidelidade, já que proporcionam conjuntos finitos, práticos, de normas contra as quais a editoração ou a leitura de provas relativamente descuidadas podem ser feitas. Mas mesmo nos casos mais claros de códigos, existem muitas vezes inúmeros níveis de normas. Suponhamos que Tommy escreva as letras "SePERaDo" no quadro-negro, e Billy "copie-a" escrevendo "seperado". Será que ele está mesmo copiando? A normalização para todas as letras em minúscula mostra que Billy não está subser- vientemente copiando as marcas de giz de Tommy, mas, ao contrário, que é acionado para executar uma série de atos canônicos, normalizados: faça um "s", faça um "e" etc. E graças a essas normas de letras que Billy consegue "copiar" a palavra de Tommy. Mas ele copia, sim, o erro de grafia de Tommy, ao contrário de Molly, que "copia" Tommy escrevendo "separado", reagindo assim a uma norma mais alta, no nível da grafia de palavras. Sally então dá um passo ainda mais alto, "copiando" a expressão "separado mais igual - todas palavras em boa situação no dicionário - como "separado mas igual", reagindo a uma norma reconhecida no nível da expressão. Podemos ir mais alto? Podemos. Qualquer pessoa que, ao "copiar" a sentença na receita "Separar três ovos e bater as gemas até que formem cones altos, firmes", substituísse "gemas" por "claras", sabe o suficiente sobre cozinha para reconhecer o erro e corrigi-lo. Acima das normas de grafia e de sintaxe existe também uma multiplicidade de normas semânticas. As normas podem tanto atrapalhar como ajudar a replicação. O antropólogo Dan Sperber (2000) diferenciou a cópia daquilo que ele chama de "produção acionada", e observou que, na transmissão cultural, "a informação fornecida pelo estímulo é complementada com informações já presentes no sistema". Essa complementação tende a absorver mutações, em vez de passá-las adiante. A evolução depende da existência de mutações que possam sobreviver intactas aos processos de leitura de prova da replicação, mas não especifica o nível em que essa sobrevivência deverá ocorrer. Uma inovação brilhante na culinária pode de fato ser corrigida por um chef superconhecedor no processo de passar a receita adiante, mas outros "erros podem passar e se replicar indefinidamente. Enquanto isso, a correção de outras variedades de ruído em outros níveis, reagindo a normas de grafia ou outras, pode continuar, com o objetivo de manter o processo de cópia bastante fiel, de modo que exemplares múltiplos de cada inovação possam ser testados no ambiente. Como alega Williams: "Um dado processo de informações (códice) deve proliferar mais depressa do que se modifica, de modo a produzir uma genealogia que possa ser reconhecida por alguns efeitos diagnósticos" (1992, p. 13). Ou seja, que possa ser reconhecida pelo ambiente não focalizado, que varia independentemente, para que possa render veredictos probabilísticos da seleção natural que tenha alguma possibilidade de identificar adaptações de aptidão passíveis de serem projetadas. Exatamente de que tamanho pode ser um meme? Um único tom musical não é um meme, mas uma melodia memorável é. Será que uma sinfonia é um meme simples ou um sistema de memes? Também se pode fazer uma pergunta paralela a respeito de genes, é claro. Nenhum nucleotídeo único, ou códon, é um gene. Quantas notas ou letras ou códons são precisos? A resposta nos dois casos tolera limites difusos: um meme, ou um gene, deve ser grande o bastante para carregar informações que valham a pena ser copiadas. Não existe medida fixa quanto a isso, mas o


generoso sistema de causas legais sobre direitos de cópias e quebra de patentes indica que veredictos, em casos particulares, formam um equilíbrio relativamente confiável, que é estável o suficiente para a maior parte dos objetivos. Outras objeções aos memes parecem exibir uma relação inversa entre popularidade e solidez: quanto mais entusiasticamente forem defendidos, mais mal informados são. Têm sido pacientemente refutados e repetidos pelos proponentes, mas aqueles que ficam amedrontados pelo prospecto de uma explicação evolutiva de qualquer coisa na cultura humana não parecem notar. Um erro comum é os críticos imaginarem que os memes devem ser mais semelhantes aos genes que o necessário, para que as três condições se satisfaçam. Observa-se, por exemplo, que quando um indivíduo adquire pela primeira vez algum item cultural inesperado, este em geral não é um caso de imitar um único exemplo. (Se adoto a prática de usar meu boné de beisebol ao contrário, ou de acrescentar uma nova palavra ao meu vocabulário de trabalho, estou copiando o primeiro exemplo que encontrei ou o exemplo mais recente, ou estarei de algum modo fazendo uma média de todos eles?) Essa dúvida na escolha do genitor do novo descendente realmente complica o modelo da replicação cultural. Mas, em si mesma, não desqualifica o processo como um processo de replicação. Por exemplo, a cópia em ultra-alta-fidelidade de arquivos de computador depende em muitos casos de sistemas de correção de erros na leitura dos códigos que, de fato, deixam a "regra da maioria" determinar quais, entre diversos exemplares candidatos, devem entrar no cânon. Nesses casos, nenhum veículo de informação isolado pode ser identificado com a fonte, mas essse continua a ser indubitavelmente um exemplo de replicação. O trio de exigências de Darwin é neutro tanto para o substrato quanto para a implementação, em um grau que nem sempre é avaliado.

A EVOLUÇÃO CULTURAL É DARWINIANA?

Depois de destacar esses problemas não resolvidos de nomenclatura e indi- viduação, podemos nos voltar para a questão mais fundamental e importante: será que qualquer um desses candidatos a replicadores darwinianos realmente satisfaz às três exigências, de modo a permitir que a teoria evolutiva explique fenômenos não compreensíveis pelos métodos e teorias das ciências sociais tradicionais? Ou será que essa perspectiva darwiniana dá apenas uma unificação relativamente trivial? Seria ainda importante concluir que a evolução cultural obedece aos princípios de Darwin no sentido modesto de que nada do que acontece nele contradiz a teoria evolutiva, mesmo quando os fenômenos culturais são mais bem explicados em outros termos. No A origem das espécies, o próprio Darwin identifica três processos de seleção: seleção "metódica" pelos atos preditivos, deliberados, de agricultores e outras pessoas concentradas na seleção artificial; seleção "inconsciente", na qual os seres humanos se envolvem em atividades que, sem querer, contribuem para a sobrevivência diferencial; e a reprodução de espécies, na qual as intenções humanas não desempenharam papel algum. A essa lista podemos acrescentar um quarto fenômeno, a engenharia genética, na qual a intenção e a previsão dos projetistas


humanos desempenham um papel ainda mais proeminente. Todos esses quatro fenômenos são darwinianos no sentido modesto. Os engenheiros genéticos não produzem contra-exemplos para a teoria da evolução por seleção natural, não mais do que os criadores de plantas têm feito há eras; eles produzem novas frutas das frutas das frutas da evolução por seleção natural. A idéia de memes promete, do mesmo modo, unificar, sob um único prisma, fenômenos culturais tão diversos quanto deliberados, invenções previstas, científicas e culturais (engenharia memética), produções sem autores, como o folclore, e até fenômenos involuntariamente reprojetados, como a linguagem e os próprios costumes sociais. A medida que entramos na época de interferir deliberadamente e, supõe-se, de modo previdente em nossos próprios genomas e nos genomas de outras espécies, estamos diante da perspectiva de fortes interações entre evolução genética e memética, inclusive muitas que podem decolar, sem terem sido nem um pouco previstas. Cumpre a nós investigar essas possibilidades com o mesmo vigor e atenção ao detalhe que devotamos à investigação dos patógenos com base no carbono e ao rápido desaparecimento de barreiras naturais que estruturaram a biosfera até muito recentemente. Deveríamos também nos lembrar que, do mesmo modo como a genética de populações não substitui a ecologia - que investiga as complexas interações entre fenótipos e ambientes, que em última análise dá as diferenças em aptidão pressupostas pela genética -, ninguém poderia prever que uma nova ciência da memética pudesse derrubar ou substituir todos os modelos e explicações existentes a respeito dos fenômenos culturais desenvolvidos pelas ciências sociais. Poderia, no entanto, reformá-los de modos significativos e provocar novas investigações, da mesma forma que a genética inspirou uma inundação de investigações na ecologia. Os livros enumerados sob "Outras leituras" exploram essas perspectivas em algum detalhe, mas ainda num nível muito programático e especulativo. Neste momento, ainda há poucas obras que podem ser listadas como investigações empíricas pioneiras em ramos especializados da memética: Hull (1988), Pockling- ton e Best (1997), e Gray e Jordan (2000).


OUTRAS LEITURAS AUNGER, Robert. (2002) The Electric Meme: A New Theory ofHow We Think and Communicate. Nova York: Free Press. . (org.). (2000) Darwinizing Culture: The Status of Memetics as a Science. Oxford: Oxford University Press. AVITAL, Eytan e E. JABLONKA. (2000) Animal Traditions: Behavioural Inheritance in Evolution. Cambridge: Cambridge University Press. BLACKMORE, Susan. (1999) The Meme Machine. Oxford: Oxford University Press. BONNER, John Tyler. (1980) The Evolution of Culture in Animais. Princeton: Princeton University Press. BOYD, Robert e P. R ICHERSON. (1985) Culture and the Evolutionary Process. Chicago: University of Chicago Press. BRODIE, Richard. (1996) Virus of the Mind: The New Science of the Meme. Seattle: Integral Press. CAVALLI-SFORZA, Luigi Luca e M. FELDMAN. (1981) Cultural Transmission and Evolution: A Quan- titative Approach. Princeton: Princeton University Press. DAWKINS, Richard. (1976) The Selfish Gene. Oxford: Oxford University Press. Ed. rev. 1989. (Ed. bras.: O gene egoísta. São Paulo: Gradiva, 1999) DENNETT, Daniel. (1995) Darwins Dangerous Idea. Nova York: Simon & Schuster. . (2001) "The Evolution of Culture". Monist, vol. 84, n. 3, pp. 305-324. . (2005) "From Typo to Thinko: When Evolution Graduated to Semantic Norms". Em S. LEVINSON e P. JAISSON (orgs.). Culture and Evolution. Cambridge, Mass.: MIT Press. DURHAM, William. (1992) Coevolution: Genes, Culture and Human Diversity. Stanford, Calif.: Stanford University Press. HULL, David. (1988) Science as a Process. Chicago: University of Chicago Press. LALAND, Kevin e Gillian BROWN. (2002) Sense and Nonsense: Evolutionary Perspectives on Human Behaviour. Oxford: Oxford University Press. LYNCH, Aaron. (1996) Thought Contagiou: How Belief Spreads Through Society. Nova York: Basic Books.


POCKLINGTON, Richard. (no prelo) "Memes and Cultural Viruses". Em Encyclopedia ofthe Social and Behavioral Sciences. Peri贸dico Artificial Life Peri贸dico na web Journal of Memetics. Dispon铆vel em: http://www.cpm.mmu.ac.uk/jom-emit/. Outras refer锚ncias CLOAK, F. T. (1975) "Is a Cultural Ethology Possible?". Human Ecology, vol. 3, pp. 161-182. GRAY, Russell D. e F. M. J ORDAN. (2000) "Language Trees Support the Express Train Sequence of Austronesian Expansion". Nature, vol. 405 (29 de junho de 2000), pp. 1052-1055. ORAVEC,

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Richard e M. L. BEST. (1997) "Cultural Evolution and Units of Selection in Replicating Text". Journal of Theorettcal Biology, vol. 188, pp. 79-87.

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Dan. (2000) "An Objection to the Memetic Approach to Culture". Em Robert Aunger (org.). Darwinizing Culture. Oxford: Oxford University Press.

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Press. . (1992) Natural Selection: Domains, Leveis, and Challenges. Oxford: Oxford University Press.


APÊNDICE B MAIS ALGUMAS QUESTÕES A RESPEITO DE CIÊNCIA

[Para o contexto, ver a p. 49]

1. CONVITE PARA UMA INVESTIGAÇÃO EM UMA DEMOCRACIA com liberdade de religião, as pessoas têm o direito de declarar que a religião delas é a única verdadeira, e depois recusar todos os convites para defender sua declaração. Em uma democracia, deixamos também as pessoas serem opositoras conscientes, mas com isso não damos nem inferimos endosso algum a suas afirmações. Se você se recusar a apresentar suas crenças, então suas crenças, sejam elas quais forem, de fato não receberão nenhuma consideração na pesquisa em curso, que não tem qualquer utilidade para declarações unilaterais que não serão submetidas a rigoroso escrutínio e exame comparativo. Nós consideraremos definitivamente suas crenças (aparentes) como dados - existem pessoas, e você é uma delas, que fazem diversas admissões, mas não se sentem atraídos a submeter essas admissões à arena da investigação - porém não cometeremos o erro de contar sua declaração como uma opinião dada em contribuição à nossa pesquisa. Sustenta-se, algumas vezes, que tal recusa em submeter o credo ao sensor inquisitivo é um louvável ato de lealdade ao grupo religioso, uma nobre declaração de fé. Você poderá estar entre as muitas pessoas que orgulhosamente afirmam que sua religião é mais importante para elas do que a lealdade à família, aos amigos ou aos país - ou a qualquer outra coisa. "Nem pensar em alternativas!" poderia ser o seu lema, só que a própria articulação desse lema seria uma autoviolação. Como vimos no capítulo i, isso é algo que você talvez quisesse dizer ao afirmar que sua religião é sagrada para você. Quero pôr esse posicionamento em um contexto maior. Mesmo se você estiver convencido de que sua religião é um caminho exclusivo para a verdade, pode estar curioso por saber por que todas as outras religiões são tão populares mundo afora. E se acha que seria uma coisa boa trazer essas pessoas - que constituem a maioria das pessoas no mundo, a despeito de qual seja a sua religião - para ver a verdade do modo como você a vê. Então, você deveria ver a finalidade de se examinar intensamente, como uma pessoa de fora, essas religiões, para "perceber o que faz com que elas funcionem". Examinar como sua religião é vista por alguém de fora seria também um exercício valioso, uma vez que a compreensão de como as pessoas de fora reagem ao que


elas descobrem, quando estudam você, dificilmente não melhoraria a eficácia em levar sua mensagem para outros. Cada vez que lançamos um olhar para o mundo conturbado de hoje, vemos Estados falidos, violência étnica e injustiça grotesca surgindo de todo lado, e uma questão que temos de enfrentar é: quais os botes salva- vidas deveríamos manter flutuando. Algumas pessoas crêem que as nações democráticas do mundo são a melhor esperança para o globo, e que elas propiciam as plataformas mais seguras e confiáveis - embora dificilmente infalíveis -- do planeta para melhorar o bem-estar humano e evitar o caos e o genocídio nuclear. Se esses salva-vidas virarem, estaremos todos mergulhados em problemas. Outros acreditam que suas religiões transnacionais produzem salva-vidas melhores, e se tiverem de escolher entre o bem-estar de sua religião e o bem-estar da nação da qual são cidadãos, eles optariam sem hesitação em favor de suas religiões. Talvez você seja um deles. Já que - se você está lendo este livro - provavelmente vive em uma nação democrática dotada de um princípio de liberdade de religião, você está então em uma posição delicada: está desfrutando da segurança do bote salva-vidas da democracia ao mesmo tempo que nega a ela sua fidelidade suprema. Ao tirar proveito da liberdade concedida a você por uma nação que honra a liberdade de religião, você se exime - como é seu direito (é como "adotar a Quinta Emenda" ao ser chamado a testemunhar em um tribunal) - de ajudar seus concidadãos a explorarem um problema de segurança nacional e internacional da maior urgência. Você fica numa boa, pondo sua lealdade à religião acima de sua obrigação para com seus concidadãos. Para sua sorte, há cidadãos com espírito público em número suficiente para compensar essa perda, e manter a nação intacta enquanto você se compraz em seu posicionamento baseado na fé "em princípio". Quanto a isso, você não é diferente dos xiitas ou sunitas que dizem em seu íntimo: deixem o Iraque perecer, se for preciso, desde que minha tribo religiosa prospere. A diferença principal (e é enorme) é que o instável Estado do Iraque não é (atualmente) a idéia que alguém faça a respeito de um bote salvavidas digno do mar, enquanto a sociedade livre na qual você vive é, manifestamente, o que garante essa segurança e liberdade de que gozamos. Desse modo, você tem menos base para negar sua fidelidade à nação e às suas leis que os iraquianos. Para muitos de nós, o preço que pagamos - aceitando o domínio da lei secular - é um dos melhores negócios do planeta. Aqueles entre nós, portanto, que põem a primeira fidelidade crítica, experimental e condicionalmente - nos sistemas seculares de democracia reconhecem a sabedoria do princípio da liberdade de religião. E defenderemos esse princípio mesmo que ele interfira seriamente em nossos interesses particulares. Aqueles que têm outras fidelidades e que se recusam a adotar esse compromisso causam um problema - e não apenas um problema teórico. Na Turquia de hoje, um partido islâmico governa com uma maioria que possibilitaria ao país impor a lei islâmica à nação inteira, mas sabiamente se abstém e até chega a ponto de proibir algumas práticas de muçulmanos radicais como incoerentes com a liberdade religiosa para todos. O resultado é frágil e repleto de problemas, mas contrasta dramaticamente com a situação na Argélia, onde a violência e a insegurança continuam a arruinar a vida de todos, no rastro de uma guerra civil que foi detonada em 1990, quando ficou evidente que as eleições democráticas poriam no poder um partido islâmico que tinha a intenção de puxar o tapete da democracia e criar uma teocracia.


Cinqüenta anos atrás, o presidente Eisenhower nomeou Charles E. Wilson, então presidente da General Motors, como seu secretário de Defesa. Na sabatina diante do Comitê de Serviços Armados do Senado, pediram a Wilson que vendesse suas ações da General Motors, mas ele objetou. Ao lhe perguntarem se seu empreendimento continuado na General Motors não poderia contaminar indevidamente seu julgamento, ele replicou: "Durante anos achei que o que era bom para o país era bom para a General Motors, e vice-versa". Algumas pessoas na imprensa, insatisfeitas com essa resposta, enfatizaram apenas a segunda parte - "o que é bom para a General Motors é bom para o país" -, e, em resposta ao furor desencadeado, Wilson foi obrigado a vender suas ações para garantir a nomeação. Essa foi uma boa lição sobre a importância de ser claro a respeito das prioridades. Mesmo que fosse verdade que o que era bom para a General Motors era bom para o país, as pessoas queriam clareza com relação a onde a fidelidade de Wilson estaria na rara eventualidade de um conflito. Wilson favoreceria a quem, nessas circunstâncias? Foi isso o que perturbou tanto o povo, e com razão. As pessoas queriam que a tomada real de decisão pelo secretário de Defesa fosse diretamente em prol dos interesses nacionais. Se as decisões tomadas nessas circunstâncias benignas beneficiassem a General Motors (e supostamente a maior parte delas o faria, se a homilia defendida por Wilson fosse verdadeira), tudo bem, mas as pessoas tinham medo de que Wilson invertesse suas prioridades. Imagine o furor que teria provocado se ele dissesse que, durante anes, como bom metodista, acreditara que o que era bom para a Igreja Metodista era bom para o país. A lealdade aos princípios de uma sociedade livre e democrática, só enquanto ela apoiar os interesses de sua religião, é um início, mas podemos pedir mais. Se for o máximo que você consegue fazer, tudo bem, mas você deveria reconhecer que os demais estão certos em vê-lo como parte do problema. Este é um julgamento justo? Isso é controverso, e eu deli- beradamente me expressei em termos rudes para mostrar o contraste. E uma opinião que merece ser adotada tão seriamente quanto a insistência mais tradicional e obviamente desviada de que se deve profundo respeito a todas essas isenções de escrutínio. Um impasse semelhante muitas vezes surge durante as tentativas ecumênicas de resolver as diferentes perspectivas da ciência e da religião, e que põem os debatedores com mente científica num dilema: como devem responder? O ataque polido é reconhecer diferenças profundas de pontos de vista e cobrir as rachaduras com papel, usando algumas afirmativas brandas de respeito mútuo. Mas isso esconde e adia indefinidamente o exame de uma assimetria: nem por um momento prestaríamos atenção respeitosa a qualquer cientista que se refugiasse em "se você não entende a minha teoria, é porque você não tem fé nela!"; ou "só os membros oficiais do meu laboratório têm a capacidade de detectar esses efeitos", ou "a contradição que você julga ver nos meus argumentos é simplesmente um sinal das limitações da compreensão humana. Há coisas que estão além de todo entendimento". Qualquer uma dessas declarações seria uma abdicação intolerável da responsabilidade como investigador científico, uma confissão de falência intelectual. De acordo com o cardeal Avery Dulles (2004), a apologética é "a defesa racional da fé", e no passado supôs-se muitas vezes que ela provava rigorosamente que Deus existe, que Jesus era divino, nasceu de uma virgem, e daí por diante, mas caiu em descrédito. "A apologética caiu sob a suspeita de prometer mais do que podia entregar e de manipular as provas para sustentar a conclusão desejada. Nem sempre escapou do vício que Paul Tilli- ch rotulou de 'desonestidade sagrada" (p. 19). Ao reconhecer esse problema, muitos dos devotos se refugiaram em uma


admissão menos agressiva de seu credo, mas o cardeal Dulles lamenta esse desenvolvimento, e pede renovação e uma reforma da apologética. Essa retirada da controvérsia, embora pareça ser amável e cortês, é insidiosa. A religião fica marginalizada em um grau tamanho que não ousa mais elevar sua voz em público. [...] A relutância dos crentes em defender sua fé produziu cristãos confusos e negligentes, que se importam muito pouco com aquilo em que devem acreditar, [p. 20] O cardeal Dulles insiste em que a "apologética tem de mudar suas bases": Em uma religião revelada, como o cristianismo, a questão principal é como Deus vem a nós e nos abre um mundo de significado não acessível aos pode- res da investigação humana. A resposta, sugiro eu, é o testemunho. [...] O testemunho pessoal exige uma epistemologia bem diferente da científica, como ela é normalmente entendida. Os cientistas tratam os dados a serem investigados como um objeto passivo, a ser dominado e trazido para dentro do horizonte intelectual do investigador. As interpretações dadas por outros não são aceitas como regras, mas testadas por sondagem crítica. Mas quando agimos por meio do testemunho, a situação é muito diferente. O evento é um encontro interpessoal, no qual a testemunha desempenha um papel ativo, causando um impacto em nós. Sem nos obrigar de modo algum a acreditar, a testemunha pede um assentimento livre, que envolve respeito e confiança pessoais. Rejeitar a mensagem é retirar a confiança na testemunha. Aceitá- la é uma submissão confiante à autoridade da testemunha. Desde que acreditamos, renunciamos à nossa autonomia e voluntariamente dependemos do julgamento de outrem. [p. 22] Essa avaliação sincera articula a base racional descomprometida da jogada do "testemunho", que habilmente foge do escrutínio dos cientistas, tornando uma afronta questionar a testemunha, um pouco de falta de educação, e pior. Essa tática explora o desejo disseminado das pessoas de não ofenderem, um modo muito eficaz de desabilitar o aparato crítico da ciência. O cardeal Dulles observa com igual candura que o método científico realmente tem um inconveniente, do ponto de vista de sua perspectiva de proselitismo: "Como filósofos e historiadores, nós tratamos dos dados como algo impessoal a ser trazido para a esfera do nosso mundo do pensamento. Esse método é útil para confirmar determinadas doutrinas e refutar certos erros, mas raramente leva à conversão" (p. 21). Em outras palavras, use o método científico quando ele ajudar, e use outros métodos quando ele não ajudar. Existe um nome para essa prática entre os cientistas. E conhecida como cherry-picking (privilegiar determinados aspectos em detrimento de outros), e é um pecado científico.' Ninguém teve de inventar a prática do testemunho; ela simplesmente surge e funciona (funciona melhor que a concorrência, em algumas circunstâncias), de modo que se replica. O cardeal Dulles recomenda a prática, e explica por que ela funciona, mas não é responsável por ela, e a base do raciocínio para o testemunho não está de forma alguma restrita ao catolicismo. Eu me lembro vividamente de meu grande constrangimento, faz alguns anos, quando uma aluna minha da índia contou-me dos milagres que testemunhou seu guru executar durante sua viagem de férias para casa. Ela explicitou, indireta mas enfaticamente, que se eu contestasse o relato dela,


até mesmo em particular (fora da sala de aula), ela ficaria profundamente humilhada e desonrada. Eu não posso fazer uma coisa dessas com uma aluna! O que fazer? Quando ela, elevando o valor das apostas, contou-me sobre a fotografia que tinha no seu quarto, no dormitório, mostrando mel verdadeiro correndo dos olhos do guru, eu avidamente pedi para ver, eu mesmo, a fotografia e "provar" o mel. Embora ela prontamente concordasse em dar um jeito de eu examinar o maravilhoso objeto, nenhum outro convite para investigar foi jamais emitido. Muitas vezes fiquei imaginando se ela alguma vez refletiu sobre o que acontecera, e, se este foi o caso, a que conclusões chegou. E claro, contudo, que a boa educação mandou-me encerrar a questão. A polidez domina também os instintos céticos de muitos alvos de charlatões deliberados, que sabem que basta um pequeno toque de "sentimentos feridos para desviar a maior parte das perguntas, se é que não todas, que qualquer pessoa razoável gostaria de ver respondidas. Uma tática que funciona pode ser usada deliberada e maldosamente, mas também pode funcionar algumas vezes melhor - nas mãos de um entusiasta inocente que jamais sonharia em cometer qualquer fraude. O cardeal Dulles está interessado em adquirir conversões; os cientistas também. Eles fazem campanhas com vigor e engenho a favor de suas teorias preferidas. Mas eles são restringidos pelas regras da ciência de não se envolver em práticas que tendam a desabilitar as faculdades críticas de hospedeiros em potencial para os memes que eles querem espalhar. Ainda não foram desenvolvidas regras como essas para governar a prática da religião.

2. O QUE SE PAGA PELA CIÊNCIA? A religião que tenha medo da ciência desonra Deus e comete suicídio. [Ralph Waldo Emerson] E a ciência propriamente dita? O que acontece quando focalizamos a luz crua da teoria da evolução sobre ela mesma, por exemplo, e perguntamos que conspiração de condições e vantagens levou à sua existência? A ciência em geral é uma atividade humana muito cara. Que anseios obscuros estará ela satisfazendo? Será que ela não pode ter sua quota de ancestrais ignóbeis, ou ser levada por luxúrias constrangedoras? Os benefícios práticos que dirigiram a busca científica estão muitas vezes aí, com certeza, mas talvez outras tantas vezes a ciência tenha agido por um excesso de curiosidade discutivelmente patológico - o conhecimento a bem dele mesmo, a qualquer custo. A religião também. Vamos descobrir isso, com o estudo científico da própria ciência, uma investigação já em andamento. Por que fazemos ciência? Nosso cérebro certamente não evoluiu para a física quântica ou até para divisões longas. A resposta-padrão, que pode mascarar complexidades importantes, começa com o que se pode chamar de nosso impulso inato de curiosidade, que compartilhamos com quase todos os animais, e que focaliza nossa atenção sobre praticamente qualquer coisa nova ou complexa, especialmente se estiver em movimento, e mais ou menos nos obriga a examiná-la (cuidadosamente). A base racional descom- prometida disso é óbvia: como locomotores, diminuímos o risco de dano e fortalecemos nossas chances de encontrar aquilo de que


precisamos olhando para onde estamos indo. Se descobríssemos que as árvores também são curiosas, teríamos de repensar esse senso comum, mas o célebre exemplo da ascídia sugere que o princípio é seguro. A ascídia jovem perambula pelo mar procurando um bom lugar para se estabelecer. Como orientação para essa tarefa, ela precisa de um sistema nervoso rudimentar. Quando encontra uma pedra adequada, na qual possa se prender pelo resto da vida (como um animal séssil que se alimenta por meio de filtros), ela já não precisa de seu sistema nervoso, que então desmonta e assimila, um exemplo vivido em apoio à hipótese de que a curiosidade é cara, e quando ela não consegue se pagar, orientando a locomoção, é abandonada. Como a piada, isso é como a detenção do cargo para um docente - uma vez que você tem isso, está livre para comer seu próprio cérebro! A curiosidade deve ser temperada com cuidado, e por economia, como sempre, de modo que não é de surpreender que os animais tendam a exibir curiosidade apenas a respeito das preocupações ecológicas imediatamente prementes. Os herbívoros checam as plantas da vizinhança, enquanto os carnívoros as desconsideram amplamente. Os onívoros são investigadores mais ocupados que os herbívoros, embora os dois fiquem de olho em predadores, e daí por diante. Nossos parentes mais próximos, os grandes símios, mostram um interesse mais católico em quase todas as coisas, mas até os chimpanzés nascidos em cativeiro são incrivelmente pouco interessados em todo o discurso humano que ouvem em torno deles desde o dia em que nascem, embora possam ser ecologicamente relevantes em suas novas circunstâncias evolutivas. O intenso interesse de um recém-nascido humano pelos sons da fala pode, de fato, ser uma das diferenças genéticas mais importantes entre nós e os chimpanzés. Ninguém sabe a que grau de diferença o cérebro de um chimpanzé recém-nascido poderia se desenvolver se ele simplesmente tivesse o ímpeto de dedicar-se à torrente de input verbal ouvida por acaso e que seu sistema auditivo recebe, mas descarta regularmente, do mesmo modo que o nosso descarta o farfalhar de folhas ao vento. Não conhecemos nenhum órgão do corpo que preste mais homenagens que o cérebro à máxima "Use-o ou deixe-o". E concebível que uma mudança genética minúscula, aumentando o volume competitivo, de fato, para a categoria de sons da fala, pudesse desencadear grandes mudanças anatômicas no cérebro em desenvolvimento. É extremamente improvável que uma modificação genética tão pequena pudesse ser responsável por todas as diferenças entre o cérebro de chimpanzés e o cérebro humano. De todo modo, houve tempo para que toda uma série de ajustes genéticos tornasse nosso cérebro mais amigável para a linguagem do que o cérebro dos chimpanzés. Sejam lá quais forem as diferenças, eles marcam uma grande inovação na história da evolução, porque, uma vez que a linguagem evoluiu, nos tornamos não apenas curiosos, mas inquisitivos: nós realmente fizemos perguntas em voz alta, em linguagem articulada. As perguntas se tornaram itens onipresentes nos mundos per- ceptivos e provocaram reações, que provocaram novas perguntas, e daí por diante, crescendo em uma acumulação de cultura popular que podia ser transmitida oralmente e, por fim, escrita. Em um ponto, pelo menos, as explicações de Darwin e da Bíblia de como nós chegamos aqui concordam: no início havia a Palavra, o Verbo. Mas passou muito tempo antes que essa acumulação de cultura popular, tanto de sabedoria como de superstição, história, mito, fatos práticos e mentiras deslavadas, passasse a se parecer com a ciência. Ela não foi nem sistemática nem consciente a respeito de seus métodos. Ainda não tinha prestado muita atenção a ela mesma. Essa jogada reflexiva, que nos forneceu a ciência da


ciência, a história da história, a filosofia da filosofia, a lógica da lógica, e daí por diante, é um dos grandes golpes de capacitação da civilização humana, refinando o minério obtido por milênios de curiosidade informal no metal purificado da investigação. Você consegue "se erguer puxando as tiras de suas próprias botas"? Não sem desafiar a lei da gravidade, mas pode fazer uma coisa quase tão boa: pode usar seus métodos existentes, imperfeitos, mal compreendidos de investigação para aprimorar esses mesmos métodos, jogando boas idéias contra melhores idéias e usando seu sentido atual do que conta como boa idéia como seu guia temporário, revogável, para efetuar a melhoria. Sob esse aspecto, é como a estratégia usada quando mudamos para um país estrangeiro; escolhermos alguns informantes e confiarmos neles - até aprendermos. Se você tiver realmente má sorte com suas escolhas iniciais, poderá acabar quase irremediavelmente mal informado e prejudicado. Se seus informantes forem um tanto confiáveis, por outro lado, você poderá logo descobrir alguns dos limites da confiabilidade e começar a fazer ajustes direcionados. Nada garante, pela lógica, que isso vá funcionar, mas e daí? É muito provável que funcione mais que jogar uma moeda para o alto, e as chances melhoram com o tempo. Considere o curioso problema de traçar uma linha reta. Uma linha realmente reta. Como fazemos isso? Usamos uma régua, é claro. E de onde a tiramos? Durante séculos aprimoramos nossas técnicas para fazer as chamadas bordas retas cada vez mais retas, comparando-as umas com as outras em tentativas supervisadas e ajustes mútuos que foram elevando o limite de precisão. Agora temos grandes máquinas que apresentam a precisão de um milionésimo de polegada em seu comprimento, e não enfrentamos a dificuldade de usar nosso atual ponto de observação para avaliar a norma de uma borda realmente reta praticamente impossível de ser obtida, mas prontamente concebível. Descobrimos aquela norma, a eterna Forma Platônica do Reto, se você quiser, por meio de nossa atividade criativa.2 Quer datemos o início da ciência à primitiva geometria egípcia (literalmente a medida da Terra), quer sigamos a transformação do fascínio religioso pelos "corpos celestiais" e os ciclos do calendário na astronomia, a ciência começou a adotar sua preocupação autocrítica em relação a provas e argumentação rigorosa apenas há cerca de mil anos. A religião é muito mais velha, é claro, embora a religião organizada - com credos, hierarquias de funcionários eclesiásticos, sistemas codificados de proibições e exigências - seja aproximadamente contemporânea da ciência organizada e da escrita. É pouco provável que esta seja uma coincidência. É preciso muito armazenamento de registros para sobrepujar os limites da memória do cérebro humano tema examinado em mais detalhes nos capítulos 5 e 6. Os astrônomos e matemáticos colaboraram com os sacerdotes, no início, cada um ajudando o outro nas questões difíceis: quantos dias até que possamos ter nossos rituais do solstício de inverno? Quando estarão as estrelas na posição correta para a cerimônia de sacrifício mais eficaz e adequada? Desse modo, sem a apresentação da pergunta pela religião, a ciência poderia nunca ter encontrado o financiamento de que precisava para decolar. Mais recentemente, é claro, essa perspectiva dos especialistas desenvolveu-se em visões do mundo divergentes, um divórcio trazido a público e tornado irrevogável na aurora da ciência moderna, no século xvu. A evolução da guerra também desempenhou um papel significativo no desenvolvimento da ciência, à medida que as corridas armamentistas literais pagaram pelo P &D das novas armas, veículos, mapas, dispositivos de navegação, sistemas de organização humana e muito mais. Espadas antes de


arados, sem dúvida, e catálogos de butim antes de listas de aves e taxonomias de flores. A agricultura, a manufatura e o comércio - cada projeto da civilização humana gerou perguntas que precisaram de respostas, e ao longo do tempo as técnicas sistemáticas e confiáveis de respostas às perguntas desenvolveram-se por evolução cultural, e não genética. Desse modo, a ciência nasceu da religião e de outros projetos da civilização. E um fenômeno cultural muito recente, mas que transformou o planeta como nada o fizera durante os últimos 65 milhões de anos. O engenheiro visionário Paul MacCready fez um cálculo interessante: 10 mil anos atrás, os seres humanos (junto com seus animais domésticos) respondiam por menos de um décimo de 1% (por peso) de toda vida vertebrada na terra e no ar. Naquela época, éramos apenas mais uma espécie de mamífero, não particularmente populosa (ele estimou 80 milhões de pessoas no mundo inteiro). Hoje, essa porcentagem, incluindo gado e bichos de estimação, está na vizinhança de 98%! Como observa MacCready (2004): Durante bilhões de anos, em uma única esfera, o acaso pintou uma tênue cobertura de vida - complexa, improvável, maravilhosa e frágil. Subitamente nós, seres humanos (uma espécie recém-chegada não mais submetida aos exames e balanços inerentes na natureza), crescemos em população, tecnologia e inteligência até uma posição de poder terrível: nós agora empunhamos o pincel.3 Desse modo, a ciência e a tecnologia que ela criou têm sido explosivamente práticas, constituindo um amplificador dos poderes humanos em quase todas as dimensões imagináveis, tornando-nos mais fortes, rápidos, capazes de ver mais longe tanto no espaço como no tempo, mais saudáveis, seguros, entendidos a respeito de quase tudo, inclusive de nossas próprias origens - porém isso não significa que podemos responder a todas as perguntas ou servir a todas as necessidades. A ciência não tem o monopólio da verdade, e alguns de seus críticos argumentaram que ela nem chega a estar à altura de sua publicidade como fonte confiável de conhecimento objetivo. Vou tratar rapidamente dessa afirmação estranha por dois motivos: eu e outros já a estudamos extensivamente em outra oportunidade (Dennett, 1997; Gross e Levitt, 1998; Win- berg, 2003). Além disso, todo mundo sabe melhor - não importa o que as pessoas possam dizer nos estertores da batalha acadêmica. Elas revelam isso repetidamente em suas vidas diárias. Ainda não encontrei um crítico de ciência pós-moderno que tenha medo de andar de avião porque não confia nos cálculos dos milhares de engenheiros e físicos aeronáuticos que demonstraram e exploraram os princípios do vôo. Nem jamais ouvi falar de um devoto wahhabi que prefira consultar seu imã preferido a respeito das reservas de petróleo na Arábia Saudita, comprovadas pelos cálculos dos geólogos. Se você compra e instala uma nova bateria no seu telefone celular, você espera que ela funcione, e ficará muito surpreso e zangado se não funcionar. Você está pronto a apostar sua vida na extraordinária confiabilidade da tecnologia que o rodeia, e nem sequer pensa duas vezes. Todas as igrejas confiam na aritmética para se manter a par, com precisão, do dinheiro recebido na bandeja de coleta. Todos nós calmamente ingerimos fármacos, da aspirina ao Zocor, confiantes de que há ampla evidência científica apoiando a hipótese de que são seguros e eficazes. Mas e todas as controvérsias na ciência? Novas teorias são anunciadas com rumor em uma semana e desacreditadas na semana seguinte. Quando os detentores do Prêmio Nobel discordam


sobre uma afirmação científica, pelo menos um deles está simplesmente errado, apesar de ter sido ungido príncipe ou princesa da igreja da ciência. E os escândalos ocasionais de dados fraudulentos e supressão de resultados? Os cientistas não são infalíveis, nem, em geral, são mais virtuosos que os leigos, mas eles se submetem a uma disciplina notável que os mantém honestos, malgrado eles mesmos, impondo sistemas elaborados de auto-restrições e revisões num grau impressionante, despersonalizando suas contribuições individuais. Portanto, embora seja verdade que houve eminentes cientistas racistas, sexistas, viciados em drogas ou simplesmente malucos, as contribuições que dão quase sempre se sustentam ou desmoronam independentemente dessas falhas pessoais, graças a filtros, verificação e balanços que avaliam o trabalho não confiável. (Ocasionalmente, um cientista ou uma escola inteira de pesquisa científica cai em desonra ou descrédito político, e já que os cientistas sérios não querem citar esses párias em seus próprios trabalhos, isso bloqueia uma pesquisa perfeitamente válida durante uma geração ou mais. Na psicologia, por exemplo, as pesquisas em imagens eidéticas - "memória fotográfica foram atrasadas por um longo tempo porque alguma coisa do trabalho inicial foi realizada por nazistas.) Através de um microscópio, a lâmina cortante de um machado maravilhosamente afiado parece as montanhas Rochosas, toda dentada e irregular, mas é o aço por trás da lâmina que dá força ao machado. Do mesmo modo, a lâmina de corte da ciência, vista de perto, parece dentada e caótica, um monte de grandes egos envolvendo-se em confrontos, com os julgamentos distorcidos por ciúme, ambição e ganância. Por trás disso, no entanto, e de acordo com todos os contendores, está o maciço peso da rotina de resultados acumulados, os fatos que dão à ciência a sua força. Não é de surpreender que aqueles que querem ferir a reputação da ciência e retirar seu enorme prestígio e influência tendem a desconsiderar a perspectiva de grande angular e concentram-se nos embates entre escolas e suas agendas nem tão secretas assim. Mas, ironicamente, quando se propõem a criar uma causa para a denúncia (usando todos os finamente polidos instrumentos da lógica e da estatística), todas as suas provas boas das falhas e dos desvios da ciência vêm dos exercícios altamente vigorosos da própria ciência em se autopoliciar e autocorrigir. Os críticos não têm escolha: não há melhor fonte de verdade sobre qualquer tema do que ciência bem realizada, e eles sabem disso. E a distinção entre as ciências "duras" - física, química, matemática, biologia molecular, geologia e seus parentes entre as Naturwissenschaften - e as ciências "moles" (junto com a história e as outras disciplinas das ciências humanas), as Geisteswissenschaften} Acredita-se amplamente que as ciências sociais não são realmente ciências, mas, ao contrário, apenas propaganda política enfeitada de um modo ou de outro. Ou, na melhor das hipóteses, são um tipo de ciência (ciência hermenêutica ou inter-preta- tiva) que joga com regras diferentes, com metas e metodologias diferentes. Não se pode negar que batalhas ideológicas grassam dentro das ciências sociais exatamente sobre essas questões. Que chances haverá de que o trabalho que satisfaz os requisitos de um campo ou de outro seja digno da atenção respeitosa que damos aos resultados nas ciências duras? As disciplinas da antropologia, sobretudo, são divididas em duas, com os antropólogos físicos emparelhados com os biólogos e outros cientistas duros, em geral incapazes de esconder seu desdém pelos antropólogos culturais, que estão do lado dos teóricos literários e outros das ciências humanas, que em geral expressam um desdém igualmente fulminante por seus colegas "reducionistas" no outro campo. Isso tudo é deplorável. Alguns


poucos antropólogos temerários, como Atran (2002), Boyer (2001), Cronk et al. (2000), Dunbar (2004), Durham (1992), e - pulando para o final do alfabeto - Sperber (1996), tentam fechar o abismo entre biologia e cultura evolutivas, e eles têm de lidar com um enxame incessante de críticos ideologicamente orientados. Divisões semelhantes, embora menos extremas, podem ser encontradas em psicologia, economia, ciência política e sociologia. Com freudianos, marxistas, skinnerianos, gibsonianos, piagetianos, chomskianos, foucaultianos, estruturalistas, desconstrucionistas, computacionalistas e funcionalistas agitando suas campanhas, não se pode negar que a ideologia desempenha um grande papel sobre como essas investigações supostamente científicas são levadas a efeito. Será tudo ideologia? Enquanto os terremotos da controvérsia campeiam nos picos dentados, será que os resultados objetivos valiosos se acumulam nos vales, podendo ser usados por qualquer escola de pensamento? Sim, e isso é muito evidente. Pesquisadores de uma escola rotineiramente se valem dos resultados duramente obtidos por seus oponentes, já que, se a ciência tiver sido feita direito, todo mundo deve aceitar os resultados - mas não as interpretações dadas a eles. Grande parte do trabalho valioso feito nesses campos consiste em confirmar os dados bem coletados (e replicar as experiências), e depois mostrar que uma interpretação melhor dos resultados deriva de uma perspectiva teórica rival.

3. A IDEOLOGIA POSTA EM SEU LUGAR A ideologia é como a halitose - é aquilo que o outro cara tem. [Terry Eagleton, Ideologia] Esta é a resposta prática, mas quero examinar também um desafio mais profundo. (Um filósofo é alguém que diz: "Sabemos que é possível, na prática; estamos tentando descobrir se é possível em princípio!") Em 1998, o professor de direito na Universidade Yale J. M. Baldin, publicou Cultural software: A theory of ideology, um livro fascinante que encara essas controvérsias de uma perspectiva biologicamente informada. Em particular, ele tenta resolver o que chama de o paradoxo de Mannheim: "Se todo discurso é ideológico, como é possível haver alguma coisa diferente de um discurso ideológico sobre a ideologia?" (p. 125). Haverá - poderá haver - algum ponto de partida livre de ideologia, neutro, a partir do qual julgar essas questões objetivamente? Não apenas qualquer pensamento errôneo, mas de pensamento que seja patológico ou ruim para nós, de algum modo. Depois de revisar uma variedade de definições representativas (e é claro que altamente ideológicas!) da ideologia, Balkin propôs que a ideologia seja identificada com modos de pensar que ajudam a manter, condições sociais injustas. Para entender o que seja ideológico precisamos de uma idéia não apenas do que seja verdadeiro, mas também do que seja justo. Crenças falsas a respeito de outras pessoas, não importa quão erradas e pouco lisonjeiras, não são ideológicas até que possamos demonstrar que elas têm efeitos ideológicos no


mundo social, [p. 105] Isso traz à luz uma grande diferença entre metas e métodos nas ciências sociais e nas ciências duras: as ciências sociais não lidam apenas com pessoas (assim é a biologia molecular, ou o HIV, e a química da nutrição humana), mas estudam como as pessoas deveriam viver. Existem julgamentos morais implícitos no próprio estabelecimento dos objetivos de pesquisas nesses campos, e embora estes sejam como os julgamentos de valor implícitos nessas questões, a exemplo de "Como podemos interferir na replicação do HIV?" (por que desejaríamos fazer isso?) e "Como poderíamos melhorar a nutrição humana?" (que padrões usamos para medir uma boa nutrição?), os julgamentos de valor implícitos nas ciências sociais são menos obviamente julgamentos com os quais qualquer pessoa sã concordaria. Chamar o pensamento de alguém de ideológico é portanto condená-lo a partir de uma perspectiva moral que o alvo pode não aceitar. Grande parte da controvérsia, observa Balkin, é alimentada pelo medo bastante justificado daquilo que chamamos de universalismo imperialista: [...] a opinião de que existem padrões universais concretos para a justiça e os direitos humanos que se aplicam a todas as sociedades, não importando se préou pós-industrial, se secular ou religiosa, e de que é dever das pessoas de bons princípios mudar as normas e instituições positivas de todas as sociedades de modo que obedeçam a esSas normas universais de justiça e direitos humanos universais, (p. 150) Certamente muita gente nos Estados Unidos está alegremente confiante de que isso seja verdade, e afirma que é nosso dever espalhar o "jeito americano para todos os povos no mundo. Eles acham que qualquer cultura que julgue nossa mensagem repugnante está simplesmente mal informada a respeito de como as coisas são e como elas devem ser. A única alternativa que conseguem ver para isso é verdadeiramente chocante, um relativismo moral que sustenta que não importa o que uma cultura particular aprove - poligamia, escravatura, infanticídio, cliteridectomia, qualquer coisa --, está além da crítica racional. Já que esse relativismo é intolerável, aos olhos deles, o universalismo imperialista deve ser endossado. Ou você está certo e eles errados, ou "certo" e "errado" não têm significado! Enquanto isso, muitos muçulmanos - por exemplo - concordarão que o relativismo moral está abaixo do desprezo, ao mesmo tempo que insistem que eles têm o único insight verdadeiro do que deve ser feito no mundo. Muitos hindus pensam do mesmo modo, é claro. Quanto mais se aprende sobre as convicções apaixonadamente defendidas por pessoas do mundo todo, mais tentador se torna decidir que realmente é impossível haver um ponto de vista a partir do qual os julgamentos de valor verdadeiramente universais possam ser construídos e defendidos. Desse modo, não é de surpreender que os antropólogos culturais tendam a adotar alguma variedade de relativismo moral como uma de suas suposições qualifica- doras. O relativismo moral está também em crescimento em outras partes da academia, mas não em todas. É decididamente uma postura minoritária entre os éticos e outros filósofos, por exemplo, e não é de forma alguma uma pressuposição necessária para a abertura da mente científica. Não temos de supor que não existam verdades morais para estudar outras culturas com justiça e objetividade; só devemos deixar de lado, por ora, a suposição de que já sabemos o que


elas são. O universalismo impe- rialista (de qualquer variedade) não é um bom modo de começar. Mesmo que "nós" estejamos certos, insistindo nesse aspecto desde o início, isso acaba não sendo nem diplomático nem cientifico. A ciência não deve ter todas as respostas morais, nem se deveria dizer que ela as fornece. Podemos apelar para a ciência para esclarecer ou confirmar pressuposições fac- tuais de nossas discussões morais, mas isso não propicia ou estabelece os valores sobre os quais nossos julgamentos e argumentos éticos estão baseados. Nós, que depositamos nossa fé na ciência, não deveríamos ser mais relutantes em reconhecer isso que aqueles que depositam sua fé em alguma religião. Todo mundo deveria pensar em adotar o meiotermo estável que Balkin propõe: uma posição de mente aberta ("ambivalente") que permita que um diálogo racional envolva as questões entre as pessoas, sem importar quão radicalmente diferentes sejam seus ambientes culturais. Podemos nos envolver nessa conversa com alguma esperança razoável de que a solução não seja simplesmente questão de uma cultura sobrepujar a outra pela força bruta. Não podemos esperar, argumenta Balkin, convencer outros se não deixamos espaço e oportunidade para que eles nos convençam. O sucesso depende de os participantes compartilharem, e de saberem que compartilham, valores transcendentes de verdade e justiça. Isso significa apenas que as duas partes aceitam que esses valores são inevitavelmente pressupostos pelos projetos humanos dos quais todos nós participamos, simplesmente por estarmos vivos: os projetos de ficar vivo e de estar seguro. Nada mais paroquial precisa ser assumido, e até os "marcianos" deveriam estar aptos a concordar com isso. A idéia de um valor transcendente é mais como a noção de uma linha perfeitamente reta - não alcançável na prática, mas prontamente compreendida como um ideal que pode ser aproximado mesmo que não possa ser inteiramente articulado. À primeira vista, isso pode parecer uma evasiva dúbia - um ideal que todos nós de algum modo aceitamos, mesmo que ninguém possa dizer o que ele é! Mas, de fato, ideais desse tipo são aceitos e inescapáveis até mesmo nas investigações mais rigorosas e formais. Pense no ideal da própria racionalidade. Quando os lógicos discordam a respeito de que se deva preferir a lógica clássica à lógica intuicionista, por exemplo, eles devem ter em mente um padrão anterior de racionalidade, ao qual se apela para que uma lógica possa ser vista (por todos) como melhor que outra; e eles devem presumir que compartilham esse ideal, mas não precisam conseguir formular esse padrão explicitamente - é nisso que estão trabalhando. Exatamente no mesmo espírito, pessoas com idéias radicalmente diferentes a respeito de quais as políticas ou leis seriam melhores para a humanidade podem - na verdade, devem - pressupor algum ideal compartilhado, se houver algum sentido em discuti-lo. Balkin apresenta um diálogo imaginário que ilustra o apelo aos valores transcendentes na sua forma mais simples. Um exército de saqueadores massacra o povo, e podemos chamá-los de criminosos de guerra. Eles objetam, dizendo que a cultura deles permite que façam o que fizeram, mas podemos virar essas mesmas razões contra eles outra vez. [...] podemos dizer a eles: "Se os padrões de justiça e verdade são internos a cada cultura, vocês não podem ter objeções à nossa caracterização de vocês como criminosos de guerra. Do mesmo modo que nossos padrões podem não ter aplicação para vocês, os padrões de vocês não têm aplicação para nós. Estamos tão corretos em proclamar sua perversidade em nossa cultura como vocês em proclamar sua integridade na sua. Mas a sua própria afirmação de que nós os


entendemos mal afasta essa alegação. Ela pressupõe valores comuns de verdade e justiça, que somos de algum modo obrigados a reconhecer. E nessas bases estamos preparados para argumentar a favor da maldade de vocês. [p. 148] Esse apelo pode cair em ouvidos moucos, mas, se assim for, então existem realmente bases objetivas para um veredicto de irracionalidade: eles estão cometendo um erro que eles próprios não têm fundamentos para defender para si mesmos, e que nós não precisamos respeitar, em deferência. A evolução cultural nos deu as ferramentas de pensamento para criar nossas sociedades e todas as suas estruturas e perspectivas, e Balkin vê que essas ferramentas de pensamento - que ele chama de software cultural - são inevitavelmente libertadoras e restritivas, tanto dão poderes como os limitam. Quando nosso cérebro passa a ser habitado por memes que evoluíram sob pressões de seleção anteriores, nossos modos de pensar ficam restritos, tão certamente como nossos modos de falar e de ouvir ficam restritos quando aprendemos nossa língua materna. Mas a reflexivi- dade que evoluiu na cultura humana, o estratagema de pensar a respeito de pensar, e de representar nossas representações, torna todas as restrições temporárias e sujeitas à revisão. Assim que reconhecermos isso, estaremos prontos para adotar aquilo que Balkin chama de concepção ambivalente da ideologia, que evita o paradoxo de Mannheim: "Um sujeito constituído por software cultural está pensando a respeito do software cultural que o constitui. E importante reconhecer que essa recursividade em (e de) si mesmo não envolve qualquer contradição, anomalia ou dificuldade lógica (pp. 127-128). Balkin insiste: "Crítica ideológica não fica acima de outras formas de criação ou aquisição de conhecimento. Não é uma forma dominante de saber" (p. 134). Este livro tem a intenção de ser exatamente um exemplo desse esforço ecumênico, baseando-se no respeito pela verdade e pelas ferramentas para encontrar a verdade, de modo a oferecer um reservatório compartilhado de conhecimento a partir do qual possamos trabalhar juntos rumo a construir visões mutuamente compreendidas e aceitas do que é bom e do que é justo. A idéia não é arrasar as pessoas com a ciência, mas levá-las a ver que as coisas que elas já sabem, ou que poderiam saber, têm implicações sobre como elas gostariam de responder às questões em discussão.


APÊNDICE C

O MENSAGEIRO E A DAMA CHAMADA TUCK

[Para o contexto, ver a nota 11 do capítulo 5] DURANTE ANOS, Dan Sperber e seus colegas Scott Atran e Pascal Boyer expressaram seu ceticismo a respeito da utilidade da perspectiva do meme. Primeiro, deixe-me tentar dar uma expressão clara às suas principais obje- ções, antes de dizer por que não me convenceram, apesar do que aprendi com eles. Este é o meu próprio resumo do posicionamento deles: E evidente que os itens culturais (idéias, projetos, métodos, comportamentos etc.) têm explosões e extinções de população, e que há grandes semelhanças de família, não por coincidência, entre esses itens e os modelos que os inspiram ou dos quais eles são descendentes. Mas o fenômeno de transmissão, na maior parte dos casos, mas não exatamente em todos, não é o tipo de cópia de alta-fidelidade que o modelo do gene exige. O motivo de uma outra instância não é copiar, de modo algum: "O motivo pode ser simplesmente disparar a produção de um efeito semelhante" (Sperber, 2000, p. 169). Assim produzidas, as semelhanças entre instâncias não são como as semelhanças entre genes, e portanto exigem um tipo diferente de explicação darwiniana. A cultura evolui, mas não rigorosamente, por descendência com modificação. E verdade que existem alguns poucos memes que satisfazem as especificações de Darwin, como cartas-corren- tes, mas esses memes verdadeiros desempenham um papel relativamente insignificante na dinâmica da evolução cultural (Sperber, 2000, p. 163). Era vez disso, é melhor se concentrar nas restrições e desvios discerníveis nos mecanismos psicológicos que as pessoas compartilham (Atran, 2002, pp. 237-238; Boyer, 2001, pp. 35-40). Minha resposta principal a essa objeção encontra-se no Apêndice A, "Os novos replicadores". Aqui, ampliarei a resposta concentrando-me na expressão em itálico acima: "em vez de". Quero desafiar a convicção dos sperberianos de que eles precisam voltar as costas aos memes para estudar as restrições e os desvios da psicologia. Atran, por exemplo, queixa-se de que a abordagem memética é "cega para a mente" (2002, pp. 241 ss.), no sentido de que ela despreza o papel detalhado dos mecanismos psicológicos específicos ao moldar itens culturais que proliferam. Isso não é, de modo algum, um aspecto óbvio de discordância, já que Atran concorda que há proliferação diferencial de itens culturais. E tentador ver a discussão como um artefato de má comunicação; os (alguns) memeticistas prometem demais, enquanto os antimemeticistas acreditam neles. Como observo no final do Apêndice A, a memética não substitui ou suplanta a ecologia. (Será que a genética de populações é cega para o ambiente? É, em geral, e nada mal para ela, uma vez que seus modelos em geral não entram em detalhes de


como e por que existem pressões seletivas no ambiente; eles apenas mostram como os efeitos dessas forças seletivas, sejam elas quais forem, se manifestarão nas populações ao longo do tempo, à medida que migrações, nascimentos e mortes colhem sua parte. Para adquirir uma explicação biológica total, os memeticistas ainda precisam da psicologia - embora eles possam negar isso nos estertores do partidarismo.) Boyer expressa a objeção sperberiana em termos parecidos, mas, apesar de sua declarada oposição aos memes, ele muitas vezes não consegue resistir a respaldar seus argumentos em termos de replicação diferencial. Na verdade, sua teoria foi resumida por um comentador solidário como a tese de que "a religião pode em princípio ser entendida como a exploração metódica de sistemas psicológicos mundanos por cepas especialmente viru- lentas de conceitos culturais" (Bering, 2004, p. 126). "Virulenta" não é bem a palavra que Bering está buscando, já que suas conotações (de dicionário) são todas negativas; "prolífica" ou "apta" seria um resumo mais acurado da tese de Boyer, já que ele toma o cuidado de ser neutro diante de questões tais como saber se a religião é um bom ou mau acompanhamento da vida humana. Deixando isso de lado, parece que Bering incluiria Boyer entre os memeticistas, apesar de seus desmentidos. Então, por que não podemos simplesmente encorajar Boyer, Atran e Sperber a se concentrarem nas forças seletivas fornecidas pela psicologia, o que eles fazem tão bem, deixando o trabalho unificador (trivial?) para os memeticistas no final do corredor? Mas há mais a ser dito. Queremos conceber a evolução cultural em termos de memes e em termos das restrições da psicologia - e das demais restrições que surgem da interação inicial entre os memes e exatamente essas restrições! Pense em uma experiência que poderíamos fazer inspirados pela pesquisa sobre "casos assustadores" de Heath, Bell e Stenberg (2001). Você já ouviu falar do mensageiro que foi apanhado pelas câmeras de vigilância enfiando... as escovas de dentes dos hóspedes do hotel? E do motorista que ouviu um baque surdo e quando parou o carro, muitos quilômetros mais tarde, encontrou o corpo de um bebê fincado na grade do radiador? Ao notar que muitos dos casos mais populares envolvem histórias asquerosas, esses pesquisadores investigaram o papel do asco em enfatizar a probabilidade de transmissão de uma ampla variedade de casos assustadores. Eles forneceram "alelos" competitivos (relatos alternativos) de cada história e descobriram que, sem dúvida, as versões mais asquerosas se davam melhor. Bom, eles não mediram a transmissão de verdade, apenas as convicções de seus sujeitos a respeito de qual seria a probabilidade de repetirem as histórias. Pesquisa é cara. Mas as experiências cogitadas são baratas, de modo que vamos imaginar uma experiência que ilustraria belamente o argumento dos sperberianos - e por que eu não acho que ele seja um bom argumento contra a abordagem dos memes. Suponhamos que inventamos mil casos assustadores- novos, que ainda não estejam circulando na World Wide Web - e cuidadosamente os plantamos em 10 mil ouvintes diferentes, um para cada freguês, cada história se distribuindo para dez ouvintes. Nós tentamos dar a esses candidatos a memes "etiquetas radioativas", incluindo detalhes denunciadores em cada versão plantada, junto com as frases: "Já ouviu aquela do chofer de táxi brasileiro que [...]". E suponhamos que também gastamos montes de dinheiro traçando essas trajetórias, contratando um exército de detetives particulares para bisbilhotar nossos sujeitos iniciais, grampear os telefones deles, e daí por diante (outra vantagem das experiências cogitadas - você não tem de pedir


permissão ao comitê de revisão interna da sua universidade, ou à polícia!), de modo que conseguimos ter uma boa quantidade de dados sobre quais histórias se evaporam depois de um único relato e quais realmente são transmitidas e em que palavras. O resultado sonhado pelos sperberianos seria que chegaríamos a... nada! Quase todas as nossas etiquetas radioativas desapareceriam, e tudo o que restaria das mil histórias diferentes seriam sete (digamos) histórias que continuariam a ser reinventadas, repetidamente, porque elas seriam as únicas que excitariam as restrições psicológicas inatas. Ao examinarmos as linhagens, poderíamos ver que, digamos, uma centena de histórias inicialmente diferentes teriam todas acabado por convergir para uma única história, o "atrator" mais próximo no espaço do caso assustador. Algumas vezes uma história seria modificada aos poucos na direção do atrator favorecido, mas se o ouvinte já conhecesse o caso, uma nova história poderia terminar abruptamente em um beco sem saída: "Ei, interessante. Isso me lembra - você já ouviu aquela do cara que [...]?". Se esse fosse o resultado, nós veríamos que qualquer conteúdo que tenha prevalecido ao longo do tempo já estava implícito na psicologia dos ouvintes e dos relatores, e virtualmente nenhum foi replicado fielmente a partir das histórias originais. Eis aqui o modo de Atran expressar esse aspecto: Na evolução do gene existe apenas "seleção fraca" no sentido de que não há determinantes fortes de mudança direcional. Como resultado disso, o efeito cumulativo de pequenas mutações (na ordem de uma em um milhão) pode levar a uma mudança direcional estável. Em contraste, na evolução cultural existe uma "seleção muito forte", no sentido de que expectativas modulares podem restringir poderosamente a informação transmitida para determinados canais, mas não para outros. Por conseguinte, apesar dos freqüentes "erros", "ruídos" e "mutações" na informação transmitida socialmente, as mensagens tendem a ser dirigidas (jogadas para trás ou empurradas para a frente) pelas vias cognitivamente estáveis. Os módulos cognitivos, não os memes propriamente ditos, permitem a canalização cultural de crenças e práticas. [2002, p. 248] Seria quase como se cada um de nós tivesse um CD no cérebro com algumas dezenas (centenas?) de casos assustadores gravados; sempre que ouvíssemos uma boa aproximação a um deles, O CD seria acionado para ir para aquela faixa e tocá-la - "produção acionada , não imitação do que ouvimos. (Isso é sugerido pelo "exemplo teórico" de Sperber dos gravadores de som [2000, p. 169].) E claro que esse resultado extremamente nulo é pouco provável, e se algum conteúdo fosse replicado de hospedeiro para hospedeiro, aqueles que tivessem sido infectados por ele armariam uma nova restrição para o destino de qualquer caso que ouvissem em seguida. A canalização cultural pode ser atribuída tanto à exposição cultural anterior como aos módulos cognitivos subjacentes da pessoa. Talvez, se você não tivesse ouvido aquele caso do anão chinês, você replicasse aquele do garoto que tinha um ratinho de estimação e o passasse adiante mais ou menos intacto, e se o tivesse ouvido, talvez você tendesse a encaixá-la em alguma coisa que acabaria surgindo, como aquele caso da policial e do ratinho, e daí por diante. Para investigar a interação entre conteúdos e restrições transmitidos culturalmente, que são compartilhados independentemente da cultura, você realmente tem de traçar a replicação de memes - o melhor que puder. Ninguém disse que era um programa prático de pesquisa na maior parte dos casos.


Um exemplo notável disso ocorreu durante a preparação deste livro. Um dos revisores da penúltima prova notou um erro tipográfico no capítulo 2, e como o erro se repetia na bibliografia, ocorreu a ele que eu poderia não notá-lo: o livro era Rocks of Ages, de Gould, de 1999, ele me disse, mas eu tinha escrito Rock of Ages. A minha primeira reação foi de franca descrença. Achei que meu revisor estava cometendo o erro; a primeira palavra do livro de Gould não poderia ser "Rocks", poderia? Eu tinha lido o livro e observado que ele brincava com as palavras (o paleontólogo estuda a idade das rochas, enquanto...), mas tinha me passado completamente despercebido o fato de ele pôr a mutação no título, porque o título do hino havia ficado tão bem gravado na minha memória! Tive, eu mesmo, que verificar no livro e de fato o título é Rocks of Ages, mas então eu pulei para a web, para ver se havia errado sozinho. Em 23 de março de 2005, havia quase tantas citações no Google para "Gould 'Rock of Ages'" (3.860) quantas para "Gould 'Rocks of Ages"' (3.950), e embora muitas das entradas iniciais tenham se mostrado com o título correto do livro de Gould como o título do hino, entre as entradas com o título errado estavam resenhas do livro, e discussões sobre o livro, tanto positivas como negativas. Ao exame superficial, não parecia haver nenhum padrão óbvio para os erros, mas eis aqui um belo projeto elementar em memética computacional para quem quiser ir mais fundo. Não há dúvida de que existe uma história interessante a ser contada a respeito de quão freqüentemente esse erro se insinuou por mutação e sobre quem copiou esses erros. (Ver a discussão de Dawkins [1989, pp. 325-329] de uma transcrição de erro semelhante em um título, e uma introdução aos métodos da memética usando os recursos do Scien- tific Citation Index.) Além de possuir os mecanismos ou módulos evoluídos geneticamente, amados pelos psicólogos evolutivos, nosso cérebro está cheio de mecanismos transmitidos culturalmente, de todo tipo imaginável, e a presença ou a ausência deles estabelece imunidades e receptividades em hospedeiros tão poderosas como - ou até mais poderosas que - as restrições exibidas pela maquinaria subjacente. Em seu capítulo contra os memes, Atran me cita, neste tema, mas não entendeu o aspecto que eu estava tentando apresentar. Eu disse que a estrutura das mentes chinesas e coreanas é "dramaticamente diferente" da estrutura das mentes norte-americanas ou francesas (Dennett, 1995b, p. 365), e Atran supõe (2002, p. 258) que estou tentando mostrar um aspecto sutil a respeito de como pessoas com línguas nativas diferentes interpretarão desenhos, atribuirão causas ou atribuirão culpas em cenários diferentes. Ele cita experiências nas quais pessoas de grupos culturais diferentes reagem de modo bastante parecido em uma variedade de circunstâncias projetadas por psicólogos para trazer à tona essas diferenças. Mas eu estava pensando em algo muito mais simples e mais óbvio: pessoas com mentes chinesas não vão rir, ou lembrar das piadas contadas em inglês, nem repeti-las! (Faz alguns anos, o brilhante letrista e cantor Lyle Lovett publicou um álbum intitulado Joshua Juáges Ruth [Josué Juizes Ruth], Descobri que em geral os meus amigos não entenderam; perguntei a eles qual seria o título do próximo álbum de Lovett, e nenhum deles respondeu, "First and Second Samuel? [Primeiro Samuel e Segundo Samuel]" - que foi a primeira coisa que me veio à cabeça, graças a treinamentos em escola dominical meio século antes.) Assim como podemos estar bastante certos de que as piadas contadas em francês são difíceis de se espalhar em vizinhanças anglofônicas, podemos ter certeza de que as opiniões políticas e o conhecimento de arte (ou física quântica, ou práticas sexuais) de uma pessoa propiciariam fortes restrições ou desvios na receptividade ou avidez em transmitir diversos memes candidatos. Por exemplo, no meu modo de pensar, um dos


poemas humorísticos mais engraçados que já ouvi é o seguinte (que você só vai achar engraçado se já ouviu muitos poemas humorísticos): There was a young lady named Tuck Who had the most terrible luck: She went out in a punt, Andfell over thefront, And was bit on the leg by a duck. [Havia uma jovem chamada Tuck que teve uma má sorte terrível: ela saiu num bote e caiu da proa e foi mordida na perna por um pato.] Não pude resistir a transmiti-lo a vocês. Quem o continuará transmitindo? Vai depender muito de que outros memes infectam o seu cérebro, e o cérebro daqueles com quem você fala. No mundo complexo da transmissão cultural, os padrões que se devem diretamente a características fixas da psicologia humana talvez não avultem tanto. Então, parece-me que aqueles que seguem Sperber em sua oposição aos memes estão apresentando aspectos que podem ser mais bem apresentados na linguagem dos memes: uma das coisas que estão dizendo, por exemplo, é que a evolução convergente desempenha um papel tão dominante na evolução cultural que a transmissão do projeto por descendência realmente através de linhagens culturais é um fator muito menor para a explicação de semelhanças observadas do que a moldagem do projeto por forças seletivas. Isso muitas vezes é bastante plausível, e pode ser investigado. Mas deveríamos também estar alertas para a hipótese de que muitas das semelhanças entre, digamos, o islamismo e o cristianismo podem ser atribuídas à religião abraâmica ancestral comum, mais do que ao fato de que cada uma delas se ajustou a condições semelhantes encontradas em seus adeptos humanos.


APÊNDICE D

Kim Philby como um caso real de indeterminação de interpretação radical

[Para o contexto, ver a nota 14 do capítulo 8] O s FILÓSOFOS PASSARAM décadas sonhando com experiências hipotéticas para provar ou refutar o princípio da indeterminação da tradução radical de W. V. O. Quine (1960): a surpreendente afirmação de que, em princípio, pode haver duas maneiras diferentes para traduzir uma linguagem natural para outra linguagem natural, e nenhuma evidência a respeito de qual é a maneira correta de traduzir a linguagem. (Quine insistiu que, nesse caso, não haveria um modo correto; qualquer modo seria tão bom quanto o outro, e não haveria mais problemas.) À primeira vista, parece profundamente improvável que isso seja possível. Será que um bilíngüe bem informado, por exemplo, não poderia sempre dizer, a respeito de duas traduções competidoras de uma frase, em uma de suas línguas, qual é a tradução melhor? Como poderia não haver uma abundância de evidências em favor de uma das duas traduções? Se você acha que a solução é óbvia, você não leu, ou não entendeu, a volumosa literatura filosófica sobre esse curioso enigma. Um bom lugar para começar, depois de ler a obra-prima de Quine, Word and ohject (1960), seria o número especial de 1974 de Synthese, dedicado a uma conferência na Universidade de Connecticut sobre intencionalidade, linguagem e tradução, na qual Quine confrontou seus mais ilustres oponentes e deixou-os, e à questão, sem solução - como ela está até hoje (Quine, 1974a e b). No caso das supremas crenças de Philby, temos um torturante vislumbre de quão perto podemos chegar, no mundo real (em contraste com o mundo estranho das experiências cogitadas de muitos filósofos), a um caso de indeterminação de interpretação radical (ver o ensaio de David Lewis, "Radical interpretation", 1974, no número da Synthese). Podemos imaginar dois observadores incansáveis, seguindo cada movimento de Philby, registrando cada palavra que ele profira, lendo suas anotações mais secretas, escutando-o falar durante o sono e até (agora estamos de volta à terra da filosofia) registrando todas as suas ondas cerebrais; podemos ver que eles poderiam, usando as mesmas provas, apresentar veredictos opostos, firmemente sustentados: ele é um britânico leal, afinal; não, ele é um soviético leal. Não adiantaria simplesmente perguntar a Philby, é claro; os dois observadores sabem muito bem como ele responderia a tal questionamento, e suas teorias opostas dão razão a isso de dois modos igualmente bons. (Para uma argumentação relacionada, ver minha discussão sobre as crenças de "Ella" em "Real pattern", 1991b.) Sem dúvida, é muitíssimo pouco provável que, em


um caso desses, qualquer das duas interpretações jamais se esclareça, mas (Quine insistiu) não é impossível. Esse era o aspecto que ele queria discutir. Em qualquer situação do mundo real, provavelmente, duas interpretações tão radicalmente diferentes de toda uma história de vida se equilibrariam no fio da navalha do não veredicto durante apenas um curto espaço de tempo, e, por fim, uma das interpretações desabaria, deixando a outra vitoriosa. Mas não deveríamos cometer o erro de supor que esta seja uma certeza metafísica, garantida por algum fato interno especial que resolveu a questão. Podemos até chegar a ver, dessa perspectiva, que o próprio Philby poderia imaginar qual das visões seria a verdadeira.- e não conseguir dizer! Esse problema também seria enfrentado pelo bilíngüe imaginário a quem se perguntasse que manual de tradução está correto. Ele poderia ficar atônito ao descobrir que ele próprio não teria recursos para dizer qual o "certo"; de qualquer modo, insistiu Quine, não haveria mais problemas sobre qual deles fosse correto. As duas traduções seriam igualmente boas, e é tudo o que se poderia dizer. Se o tema ainda lhe escapa, poderá ajudar a consideração de um caso mais simples do mesmo fenômeno, minhas "Palavras Cruzadas Quinianas". Não é fácil inventar um problema de palavras cruzadas com duas soluções igualmente boas, mas aqui está um. Qual é a solução verdadeira? Nenhuma, porque eu, deliberadamente, decidi fazê-lo dessa maneira. Em princípio, é possível fazer um enigma de palavras cruzadas de dimensão mais elevada, um Philby, cujas estrutura e história toda e cujo conjunto atual de propensões satisfazem igualmente a duas interpretações intencionais diferentes. Na prática, é impossível, mas não deveríamos, por esse motivo, imaginar uma categoria de fatos interiores que resolveriam qualquer caso. Palavras Cruzadas Quinianas


Horizontais

Verticais

1. Coisa suja 1. VeĂ­culo independente de H2O 2. Uma grande necessidade humana 2. Em geral queremos isso 3. Tornar macio 3. Logo acima 4. Ator de cinema 4. Estado dos Estados Unidos (abr.)


NOTAS

1. QUEBRA DE QUAL ENCANTO?

Discuti o exemplo do Dicrocelium dendriticum em Dennett, 2003c; para outras informações sobre seu fascinante ciclo de vida, ver Ridley, 1995, e Sober e Wilson, 1998. Para um caso impressionante de um parasita de peixe, ver LoBue e Bell, 1993. Um parasita de camundongos, Toxoplasma gondii, será discutido em mais detalhe no capítulo 3. O epi- grama de Hugh Pyper é encontrado em Blackmore, 1999, além de em Pyper, 1998. Todas as referências podem ser encontradas na bibliografia no final do livro e em geral estão inseridas no texto, não em notas de rodapé. Notas como estas serão usadas para me expandir sobre certos aspectos do texto, de modo que sejam de interesse apenas de especialistas. 1.

Por que o potencial para se criar lealdade estava presente nos cães mas não nos gatos é, em si mesmo, um interessante capítulo da biologia, mas nos distanciaria muito do assunto. Para saber mais sobre os limites da domesticação, ver Diamond, 1997. 2.

Aqui estão duas das mais bem conhecidas definições de religião a serem comparadas com as minhas: 3.

[...] um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, ou seja, coisas separadas e proibidas - crenças e práticas que se unem em uma única comunidade moral chamada Igreja. [Emile Durkheim, As formas elementares da vida religiosa] (1) Um sistema de símbolos que agem para (2) estabelecer humores e motivações poderosas, penetrantes e duradouros nos homens por meio da (3) formulação de conceitos de uma ordem geral da existência e (4) de revestir esses conceitos em tal aura de veracidade que (5) os humores e motivações pareçam singularmente realísticos. [Clifford Geertz, A interpretação da cultura] Essas transformações em geral acontecem aos poucos. Não seria necessário haver um Mamífero Primevo, o primeiro mamífero cuja mãe não era um mamífero? Na verdade, não. Não deve haver um jeito, em princípio, de traçar o limite entre os terapsídeos, aqueles descendentes dos répteis cujos descendentes incluem todos os mamíferos, e os mamíferos (para uma discussão desse tema perenemente enigmático, ver Dennett, Freedom Evolves, 2003c, pp. 126-128). Uma religião antiga poderia se transformar, aos poucos, em uma religião anterior, à medida que seus participantes fossem gradualmente abandonando as doutrinas e práticas que marcam o artigo genuíno. Essa descrição não implica nenhum julgamento de valor; os mamíferos são antigos 4.


terapsídeos e as aves são antigos dinossauros, e tudo bem. E claro que as implicações legais para saber se um limite foi ou não ultrapassado deveriam ser estabelecidas, mas essa é uma questão política, como o status moral do polvo, e não uma questão teórica. Que a força esteja contigo! Será Luke Skywalker religioso? Pense em como iríamos reagir de modo diferente se essa forma cabalística da força fosse apresentada por Geor- ge Lucas como satânica. A recente popularidade das sagas cinematográficas com religiões fictícias - O senhor dos anéis e Matrix oferecem mais dois exemplos - é um fenômeno interessante em si mesmo. E difícil imaginar temas tão delicados sendo tolerados tempos atrás. Nossa crescente consciência a respeito de religião e religiões é uma coisa boa, eu acho, apesar de todos os seus excessos. Do mesmo modo que a ficção científica em geral, ela pode abrir nossos olhos para outras possibilidades, e pôr o mundo real em uma perspectiva melhor. 5.

Durante os anos 1950 e 1960, quando a psicanálise freudiana estava em alta, os críticos que tentassem apontar, para os seus devotos, os diversos pontos fracos e erros na teoria de Freud em geral eram postos em posição difícil por uma muralha psicanalítica irri- tantemente gentil, do tipo "Vamos ver se podemos descobrir por que você está tão hostil à psicanálise, e por que você sente essa necessidade emocional de 'refutar' os argumentos dela. Por que você não começa por nos contar de suas relações com a sua mãe ...". Isso é admitir como verdadeiro algo que precisa ser provado (ou raciocínio circular) mesmo quando a intenção é sincera, e muitas vezes era simplesmente desonesta. Reconheço que meu adiamento de considerar a questão de se Deus existe pode ser visto, por aqueles armados de argumentos, como uma evasão semelhante, sem princípios, da responsabilidade intelectual. Mas se eu começasse este livro com a questão deles, estruturada como ela é, tradicionalmente, seriam necessárias centenas de páginas sulcando terreno conhecido antes de poder ao menos chegar a uma nova contribuição. Tenham paciência comigo, poç favor. Não esquecerei minhas obrigações de tratar desse tema! 6.

2. ALGUMAS QUESTÕES A RESPEITO DA CIÊNCIA Para um aprofundamento do papel da ciência em evitar e a explosão de "evitabilidade" que a civilização humana alcançou, ver meu Freedom Evolves, 2003c. 1.

Seguindo prática recente, uso o termo “islamítica” para me referir àquelas seitas radicais ou fundamentalistas do pensamento islâmico que em geral condenam a democracia, os direitos das mulheres e a liberdade de investigação pela qual a ciência e a tecnologia 2.

Al A Danipl ( ' Dpnnp.tt podem progredir. Muitos, provavelmente a maior parte, dos pensadores e líderes islâmicos são profundamente contra a posição islamítica. 3. O único estudo que encontrei é de Anderson e Prentice, 1994.

3. POR QUE AS COISAS BOAS ACONTECEM


Em alguns poucos casos, eu me encontrei com grupos pequenos de correligionários, e a descoberta ocasional feita pelos meus informantes das diferenças entre eles era particularmente reveladora, talvez chegando até a provocar mudança de vida, em alguns casos. 1.

O pensamento atual é que os diversos gritos dos coiotes têm objetivos diferentes. O "uivoganido em grupo", de gelar o sangue, plausivelmente é mais "importante para anunciar a ocupação territorial e evitar o contato visual entre grupos de coiotes" (Lehner, 1978a, p. 144; ver também Lehner, 1978b). Se você consegue evitar uma batalha de verdade pelo território empenhando-se, de modo impressionante, com uma ameaça de guerra, isso pode ser uma forma econômica de preservar energia e saúde para mais um dia de caça. Nesta hipótese, o volume impressionante do alarme é um sinal de veracidade difícil de fraudar, um fenômeno comum na comunicação animal. (Ver Hauser, 1996, capítulo 6, para uma excelente discussão sobre as investigações teóricas e experimentais da evolução do assinalamento honesto.) Sugere também algumas experiências interessantes a serem conduzidas usando- se playbacks de alta qualidade de uivos de coiotes gravados para regular as densidades populacionais. Será que os coiotes vão entender? Quanto tempo vai demorar? 2.

Um levantamento inicial da volumosa literatura sobre criacionismo e Projeto Inteligente deveria incluir: Pennock, 1999, Tower of Babel: the evidence against the new creatio- nism\ Perakh, 2003, Uninteligent designs; Shanks, 2004, God, the Devil, and Darwin: a critique of intelligent design theory; Young and Edis, 2004, Why intelligent design fails: a scientific critique of the new creationism; e National Academy of Sciences, 1999, Science and creationism. O número de maio-agosto de 2004 de Reports ofthe National Centerfor Science Education resenhou diversos livros recentes sobre o assunto, inclusive mais de uma dúzia (de qualidade variada) escrita a partir de uma perspectiva cristã ou judaica. Para um excelente exame da biologia evolutiva contemporânea, recomendo enfaticamente a antologia dos trabalhos correntes editados por Moya e Font, 2004, Evolution: from molecules to ecosystems; a Encyclopedia of evolution, em dois volumes, Pagel (org.), 2002; e a sétima edição do livro texto Life: the science ofhiology, de Purves et al., 2004. Há ainda inúmeros endereços na web, nos quais se pode encontrar refutações qualificadas e justas do trabalho dos mais eminentes críticos da evolução, como William Dembski e Michael Behe. Um dos melhores é o Center for Science Education, em http://www.ncseweb.org. 3.

Há também muitas páginas na web dedicadas ao Projeto Inteligente, é claro, mas nenhum periódico seriamente revisado por pares. Por que seria isso? Se o Projeto Inteligente fosse uma idéia cujo tempo tivesse chegado, seria possível achar que jovens cientistas estariam se precipitando pelos laboratórios, colados em seus computadores, competindo para ganhar Prêmios Nobel que certamente estariam à espera de qualquer um que conseguisse derrubar qualquer proposição significativa da biologia contemporânea. Os fãs do Projeto Inteligente insistem em que o estabelecimento científico tem um viés contra o trabalho deles que torna impossível conseguir uma entrada para os periódicos principais, mas isso simplesmente não é plausível. O Discovery Institute e outros refúgios bem financiados para pesquisa sobre o Projeto Inteligente poderiam facilmente se dar ao luxo de produzir um periódico de boa qualidade, revisado por cientistas, se tivesse qualquer coisa para publicar nele, e eles poderiam encontrar cientistas de credibilidade para fazer as revisões. Literalmente, milhares de artigos científicos


que passaram pela revisão de pares são publicados todos os anos, elaborando e estendendo a teoria básica da evolução. A maior parte dos autores desses artigos nunca ficou famosa, apesar de serem escritos por especialistas comprovados. Por certo alguns deles alegremente abandonariam o barco e arriscariam o ridículo do estabelecimento oficial pela chance de se tornarem mundialmente famosos como "o cientista" que refutou Darwin. Mas os que apoiam o criacionismo nem sequer se dão o trabalho de oferecer a atração. Eles sabem o que fazem. Sabem que tudo o que têm a favor deles é a propaganda, de modo que é aí que eles gastam seus recursos. William Dembski, 2003, liberou uma lista de quatro (pode contar!) artigos científicos revisados por pares, assim ele disse, que apoiam temas do Projeto Inteligente. (Ele também cita seu próprio livro de 1998, que foi realmente publicado em uma série revisada por pares pela Cambridge University Press.) Mas os próprios comentários de Dembski sobre esses ensaios tornam claro que os argumentos deles são, na melhor das hipóteses, como ele apresenta, "não darwinianos" (são conduzidos sem qualquer premissa especificamente darwiniana), e, portanto, poderiam ser postos em uso como apoio de um argumento do Projeto Inteligente. Nenhum deles apresenta realmente algum argumento a favor do Projeto Inteligente. Esse modo-padrão de falar mascara uma complicação. Quando falamos aqui de "metade dos seus genes", nos referimos à metade daqueles genes seus que são idiossincráticos, e o distinguem, geneticamente, de outros de sua espécie. Na clonagem, quaisquer genes que o tenham tornado "especial" (para melhor ou para pior) são transmitidos integralmente para seus filhos. Na reprodução sexuada, apenas metade desses genes aparecem na sua progênie; seu parceiro provê o equilíbrio dos genes idiossincráticos. 4.

Será que o dinheiro surge de sistemas de troca puros por uma série de mudanças graduais e mal percebidas na prática (a teoria da commodity), ou exige sempre algum tipo de fiat de alguma autoridade oficial, ou acordo consciente ou contratado (a "chartal theory")? A origem do dinheiro tem sido debatida há séculos. Para uma discussão fascinante da história do debate, junto com alguns elegantes modelos econômicos dos processos possíveis, ver Awai, 2001. Ver também Burdett et ai-, 2001; e Seabright, 2004. 5.

Claro, é possível que, de fato, algum indivíduo histórico tenha feito tanto do trabalho de design inicial do dinheiro, ou linguagem, ou música, que ele ou ela mereça o título de autor, mas isso é extremamente improvável e inteiramente desnecessário. A evolução permite que inovações no design cultural se acumulem tão gradualmente que a autoria fica distribuída por milhões de inovadores anônimos ao longo de milhares de gerações, exatamente como as inovações de design que revisam os genes. 6.

A diferença no sistema de reprodução faz uma diferença enorme, é claro. Quando a Casa da Moeda muda o ano gravado na matriz da qual são gravadas todas as moedas que fabrica, isso é um tipo de mutação, mas essas mutações em geral não se acumulam. Se uma falha, ou uma mancha, na matriz não é consertada, ela poderá marcar todas as moedas durante muitos anos, e até ser copiada para a matriz sucessora (se uma das moedas feitas com ela é escolhida como o macho do qual a nova fêmea é feita), e isso é mais como uma mutação genética que passa a ser transmitida para a progênie. 7.

8.

Sobre o imaginado valor "intrínseco" do dinheiro, ver "Consciousness: how much is that in


real money?", em Dennett, 2005c. A respeito de como é ser um urubu-de-cabeça-vermelha (turkey vulture), ver Dennett, 1995a, reimpresso em Dennett, 1998a. 9.

Os biólogos talvez possam compreender melhor a resistência de muitos cientistas sociais à biologização de suas disciplinas refletindo sobre seu próprio desconforto com tentativas de [...]fisicar a biologia. Emst Mayr, o lendário biólogo evolucionista, publicou recentemente um livro (logo depois de seu centésimo aniversário) sobre a autonomia da biologia, mostrando por que ela não se "reduz" à física (Mayr, 2004). Eu concordo com a maior parte das alegações feitas por ele. Ele não está declarando que a física não oferece restrições ou princípios que os biólogos devam compreender e possam explorar. Há tipos diferentes de reducionismo; apenas alguns deles - que vou chamar de reducionismo ganancioso (Dennett, 1995b) - são equívocos. Quando alguém declara que uma opinião que está sendo atacada é reducionista, temos de examinar de perto para ver se isso é uma coisa ruim. 10.

Entre aqueles aos quais são dados os créditos desse aforismo estão o filósofo Ludwig Wittgenstein, o artista Paul Klee e o crítico Viktor Shklovsky. 11.

E claro que há muitos casos intermediários, nos quais os construtores de barcos têm uma idéia ou outra, boa ou má, burra ou brilhante, por detrás das mutações que eles introduzem, que portanto não foram todas causadas somente porque o machado escorregou. O que em uma época pareceu ser uma boa idéia pode se provar sem valor em razoavelmente pouco tempo. Isso acelera o processo do projeto, só que nas duas direções - más idéias maiores são experimentadas no processo de tentativa e erro do mesmo modo que as boas idéias. Richard Dawkins propôs chamar os designs-sem-designers de "designóides" (1996, p. 4). A cunhagem é útil para acentuar o erro que as pessoas muitas vezes fazem ao supor que qualquer coisa que pareça projetada deve ter sido produzida por uma mente consciente deliberada, mas não deveria ser adotada para marcar uma direção clara na natureza. Serão as pernas curtas dos dachshunds design ou designóide? Os criadores humanos se dispuseram a conseguir o efeito, e eles tinham razões para isso. Os organismos que são produto de engenharia genética são design ou designóides? Será que o dique do castor, que engenhosamente faz uso de oportunidades locais e sem precedentes para a construção de diques, é um design ou um designóide? A construção do dique de um castor exige consideravelmente mais talento cognitivo do que a armadilha cônica de areia da formiga-leão. O trabalho de explorar a grande unidade do Espaço de Design fica distribuído entre os lentos graus da seleção natural dos genes e as rápidas explorações por tentativa de acerto e erro de cérebros individuais (e de seus numerosos veículos de exploração manufaturados), de modo que continuarei usando o termo geral "design" para cobrir tudo. 12.

Um dos principais temas do livro A idéia perigosa de Darwin (Dennett, 1995b) é que aquilo que Darwin descobriu é fundamentalmente um algoritmo, uma receita de processamento de informações que pode ser executado em várias mídias diferentes, exatamente do mesmo modo que o algoritmo de uma divisão longa pode ser feito com lápis, papel, giz, ou riscando o chão com um pedaço de pau. 13.

Para mais informações sobre memes, ver também Dennett, 1995b, 2001b, 2001c, 2005c e o Apêndice C deste livro. 14.


15.

Para alguns dos detalhes, ver Dawkins, 2004a, pp. 31-32.

A seleção de grupo tem tido uma carreira controversa na teoria da evolução, e divergências técnicas fazem dela um território traiçoeiro para o não iniciado. Ver Wilson e Sober, 1994 (e todos os comentários publicados no mesmo periódico); Sober e Wilson, 1998; e Dennett, 2002a (e a resposta de Sober e Wilson no mesmo periódico). As opiniões de Wilson serão discutidas em mais detalhe em um capítulo posterior. 16.

4. AS RAÍZES DA RELIGIÃO Não há consenso entre os levantamentos sobre como contar religiões (em contraste com cultos e outras organizações, em geral, de curta duração), mas, por qualquer padrão, existem muitos milhares de religiões diferentes (independentes, não comungantes). Os almanaques identificaram mais de 30 mil igrejas cristãs diferentes. O trabalho mais ou menos de referência para todas as religiões é Barrett et al., World Christian Encyclopedia (2a ed., 2001). As religiões surgem com tal freqüência que até as páginas da web têm dificuldade em manter suas listas atualizadas. Alguns bons endereços são http://www.religiousto- lerance.org/worldrel.htm e http://www.watchman.org/cat95.htm - este último indexa mais de mil novos cultos e religiões. Existem também periódicos e outras organizações dedicadas ao estudo de novas religiões, facilmente encontrados na web. 1 1.

Dunbar, 2004, chama esses túmulos de evidência inequívoca de religião, mas eles são de fato altamente enigmáticos. Não há dúvida de que os corpos eram deliberadamente posicionados com objetos cobertos de ocra vermelha, mas o significado do quadro é altamente duvidoso. Ver, por exemplo, http://home/earthlink.net/-ekerilaz/dolni.htm. 2.

Um levantamento útil é Astran e Norenzayan, 2004, acompanhado de suas dezenas de comentários especializados e uma resposta dos autores. Outra leitura essencial inclui Sperber, 1975, 1996; Lawson e McCauley, 1990, 2002; Guthrie, 1993, Whitehouse, 1995; Barrett, 2000; Pyysièainen, 2001; Andresen, 2001, Shermer, 2003. 3.

Esse tema foi desenvolvido por muitos autores nos últimos anos. Minha própria contribuição a essa literatura inclui Dennett, 1991a, 1995b, 1996 e muitos artigos. 4.

A principal razão pela qual sou contra falar de animais - ou até de seres humanos adultos como "possuidores de uma teoria da mente" é que isso em geral faz surgir uma imagem intelectual demais de um cientistazinho derivador de teoremas, consultor de proposições, testador de hipóteses, enquanto eu vejo os que adotam a postura intencional - até profissionais exímios como as pessoas mais manipuladoras que você jamais encontrou - como artistas mais intuitivos que teóricos sofisticados. A arte está mais em evidência que a ideologia, e o desenvolvimento de modelos explícitos, conscientes de si mesmos, de arte popular é uma inovação ainda mais recente - surgindo inicialmente, de fato, nas maravilhosas novidades dos séculos XVIII e xix, e tornados mais sistemáticos (porém discutivel- mente mais poderosos) pelos psicólogos e sociólogos e assemelhados no século xx (Dennett, 1990, 1991c). Os "teoristas da teoria" replicarão que essa 5.


maravilhosa arte ou know-how tem de ser implementada de algum modo no cérebro daqueles que têm a aptidão, e que deveríamos tentar desenvolver um modelo computacional de neurociência para essa aptidão. Eu concordo inteiramente, mas chamar isso de teoria ainda incomoda a imaginação do teórico de maneiras que eu acho melhor evitar. Que outra coisa poderia ser, além de algum tipo de teoria? Boa pergunta, eu acho, que deveríamos tentar responder, não uma pergunta retórica que exclui a questão. 6.

Ver, por exemplo, Tomasello e Call, 1997; Hauser, 2000; e Povinelli, 2003.

Esse é um tema delicado e controverso na ciência cognitiva teórica nos dias de hoje: exatamente o que é prazer ou dor, o que é vício, ou hábito, ou força de vontade? Tenho um pouco a dizer a respeito do estado da arte atual em Dennett, 2003b, mas mais em andamento. 7.

5. RELIGIÃO, OS PRIMEIROS DIAS Será que sabemos que outras espécies não têm linguagem ou arte? Se assim for, como sabemos? Entre os diversos bons livros recentes sobre esses assuntos, recomendo Heuser, 1996, 2000. Os ninhos elaborados de pássaros talvez sejam a contrapartida mais próxima da arte humana, já que constituem artefatos não funcionais ou decorativos cujo objetivo manifesto (caso seja descomprometido) é encantar o sexo oposto, o que muitas vezes supõe-se ser a mola mestra original de nossos impulsos artísticos. 1.

Dunbar, 2004, defende a tese de que enquanto nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, conseguem administrar no máximo duas ordens de intencionalidade (crenças a respeito de crenças, digamos, ou crenças a respeito de desejos), os seres humanos normais conseguem avaliar e reagir às complexidades de intencionalidade de quarta ou quinta ordem. Argumenta que os mais exímios entre nós conseguem ir até mais adiante, dando conta de intencionalidade de sexta ordem, ao agirem entre seus co-específicos. "Líderes religiosos, como bons romancistas, são uma raça rara" (p. 86). Ver também Tomasello, 1999. 2.

Faber, 2004, observa que a vida humana começa com um bebê chorando por alimento, consolo, proteção (por causa de medo), por ajuda que é atendido por uma coisa grande, quente, maravilhosa. Milhares de vezes o bebê chora; milhares de vezes ele chora e é atendido. "Sofreríamos uma pressão bastante grande para descobrir, dentro do reino da natureza, outro exemplo de condicionamento fisiológico e emocional que se compare a esse, tanto em profundidade como em duração" (p. 18). Isso prepara a criança, argumenta Farber, para as histórias religiosas: 3.

Ele tem facilidade em fazer contato com o domínio do sobrenatural porque, por assim dizer, ele está lá o tempo todo. Tem vivido com, ou na companhia de, presenças poderosas, invisíveis, sustentadoras da vida desde que começou o processo de interioriza- ção mente-corpo, ou marca impressa da interação fisiológica, à medida que ela natural e persistentemente surgiu de sua interação afetiva com o provedor todo-poderoso, aquele grande que apareceu inúmeras vezes, dez mil vezes, para resgatá-lo da fome e da aflição e reagir às suas necessidades emocionais e


interpessoais, ao seu profundo impulso afetivo por vinculação. [...] A mente inconsciente da criança ressoa para as narrativas religiosas antes de suas faculdades racionais terem amadurecido, antes de ela ver e avaliar criticamente o que pede seu consentimento perceptual. [pp. 20 e 25] Uma lista de mais de oitenta métodos diferentes pode ser encontradas em http:// en.wikipedia.org/wiki/Divination. 4.

5.

A pena mágica do Dumbo é discutida em Dennett, 2003b.

Burkert, 1996, oferece um cenário evolutivo especulativo diferente, o de uma cascata de engarrafamentos que poderiam ter selecionado genes para a susceptibilidade à religião: "[...] embora a obsessão religiosa possa ser chamada de uma forma de paranóia, ela oferece a chance de sobrevivência em situações extremamente desesperadoras, quando outros, possivelmente indivíduos não religiosos, a romperiam e desistiriam. A humanidade, em seu longo passado, terá atravessado por muitas situações desesperadoras, com um decorrente aparecimento de homines religiosi" (p. 16). Eu não consigo imaginar como provar essa hipótese, mas é certamente uma possibilidade a ser considerada seriamente, se pudermos encontrar algum meio de fazê-lo. 6.

O meu uso da expressão religião popular está em desacordo com o uso feito por alguns antropólogos e etnomusicólogos (por exemplo, Yoder, 1974; Titon, 1988), que a usam para descrever o contraste entre a religião organizada "oficial" e aquilo em que as pessoas daquelas seitas realmente acreditam e que praticam em suas vidas diárias (ver Titon, 1988, pp. 144 ss., para uma discussão). Ver também o conceito relacionado de "incorreção teológica" (Slone, 2004). O que estou chamando de religião popular é muitas vezes designado por religião tribal ou primitiva. 7.

Poucos fãs de música folclórica hoje em dia são tão puristas a ponto de torcer o nariz para todas as canções folk compostas. Mas para os meus objetivos, o purismo determina: aquelas melodias e versos relativamente antigos sem autores são a música folclórica de que estou falando. Em todas as eras, essas canções são artisticamente arranjadas e rear- ranjadas, com novas letras e novos ritmos, e algumas vezes também com novas melodias, e junto, os artistas populares acrescentam canções de sua própria composição. Para falar só no passado recente, Huddie Ledbetter, Woody Guthrie e Pete Seeger compuseram centenas de "cantigas folclóricas" que foram acrescentadas ao cânone, mesmo que nesses casos saibamos quem é o autor. Tendemos a excluir do cânone as igualmente cantáveis baladas de Gilbert, Sullivan e dos Gershwin, mas o tempo poderá muito bem apagar essa distinção. O meu argumento é que, embora seja -possível em -princípio que, se tivermos um perfeito conhecimento histórico, poderemos sempre identificar um compositor e letrista, é também possível - e mais provável - que, em muitos casos, a autoria esteja tão distribuída ao longo dos séculos que ninguém merece o crédito nem pela melodia nem pela letra das cantigas folclóricas "clássicas" que agora aparecem no cânon. Será que Revensncroft apenas anotou "The three ravens" em 1611, ou será que ele a compôs? Ou será que ele a adaptou enquanto a anotava - ou ela se adaptou a si mesma? 8.

Uma parte disso é muito difícil de observar. Por que deveria a linguagem escrita ser serial (só uma palavra de cada vez)? Porque só temos uma boca com a qual falar, para dizer cruamente. Os ideogramas dos japoneses e chineses mostram que é possível, para as linguagens escritas, 9.


desamarrar suas camisas-de-força, se não abandoná-las inteiramente. Será que um sistema de símbolos que não pudesse ser "pronunciado", que fosse tridimensional (um tipo de escultura de palavras), ou que dependesse pesadamente do uso da cor, contaria como uma linguagem? A própria idéia de ler em silêncio - quanto mais ler movendo os lábios! - apareceu mais tarde no desenvolvimento da escrita (nos tempos medievais, afirmam os historiadores -ver, por exemplo, Saenger, 2000). A grafia arcaica é, também, um traço de pronúncias anteriores. Blackmore (1999, p. 197) argumenta que o "impulso memético" é possível e provável na explicação do nosso amor pelos rituais: que as pessoas reagiriam de modos variáveis a idiossincrasias em rituais transmitidos culturalmente, e isso criaria um ambiente seletivo novo, no qual o talento para - e o gosto por - essas idiossincrasias seria selecionado geneticamente do mesmo modo como o talento para línguas foi selecionado geneticamente, uma vez estabelecida a linguagem. O que começou como um pendor mais ou menos não diferenciado pelo ritual, em outras palavras, poderia evoluir geneticamente em um pendor por versões supernormais das idiossincrasias locais; um caso de co-evolução gene-cultura que foi liderado pela exploração cultural do espaço de possibilidades, uma possível extensão do Efeito Baldwin, no qual a inovação do comportamento alcançada por indivíduos durante seus períodos de vida (inovações descobertas ou aprendidas por eles) podem criar e focalizar pressões por seleção que eventualmente levem a tendências inatas para realizar essas inovações; é um modo nãolamarckiano pelo qual características adquiridas podem influenciar a evolução de características geneticamente determinadas (ver Dennett, 1995b, 2003a, 2oo3d). 10.

Alguns leitores poderão ficar incomodados com minha persistente menção aos memes neste capítulo, já que os antropólogos cujo trabalho estou discutindo tão favoravelmente, Boyer e Atran, e o mentor deles, Sperber, são unidos em sua rejeição à perspectiva dos memes, como tornam bem claro em seus livros e artigos. Já venho discutindo isso com eles há algum tempo, tanto em material impresso (Dennett, 2000, 2001a, 2001b, 2002b [reimpresso aqui como Apêndice A], quanto, especialmente, 2005b; e ver Sperber, 2000), em conferências. Acho que eles estão cometendo um erro, mas não passa de um tipo de discordância técnica que desviaria a atenção da maior parte dos leitores. Mesmo assim, cabe uma resposta à objeção deles, e ela é dada no Apêndice C. Ver também os outros ensaios em Aunger (org.), 2000, em que Sperber, 2000, aparece; e Laland e Brown, 2002, capítulo 6. 11.

Agradeço a Dan Sperber por levantar essa lebre, chamando a minha atenção para Mahadevan e Staal, 2003, de onde foi citada a passagem. 12.

Para uma introdução vivida, mas controversa, à área, agora um tanto ultrapassada, ver Ruhlen, 1994. Para um exame geral do estado atual da ciência, ver Christiansen e Kirby (orgs.), 2003. Outros estudos que estimulam o pensamento são Carstairs-McCarthy, 1999, e CavalliSforza, 2001. 13.

A natação é um caso intermediário interessante: ao contrário da corrida e da caminhada, os movimentos da natação têm uma história bastante memética. No final do século xix, um inglês, Arthur Trudgen, levou essa maneira de nadar dos índios norte-americanos, passando o braço por cima da cabeça (logo chamado de "trudgeon", ou "trudgen crawl", em homenagem a esse vetor do meme) para a Inglaterra, mas ele não copiou direito a batida de pé, usando a batida de "sapo" do nado de peito, em vez da batida alternada usada pelos indígenas norte-americanos. Esses 14.


erros de transmissão foram corrigidos por Richard Cavill em 1902, e hoje, o crawl frontal é o descendente dessa melhoria bastante recente. Mas versões do crawl provavelmente foram inventadas e reinventadas muitas vezes ao longo das eras, já que é tão claramente superior a todos os demais métodos de se propelir pela água em alta velocidade. Não é à toa que esse Bom Estratagema é chamado de nado livre nas competições. A única regra do nado livre é que você tem de tirar o rosto da água para respirar de vez em quando (e essa regra foi introduzida para evitar que nadadores experimentassem perigosas braçadas embaixo d água que poderiam afogálos caso desmaiassem). No nado livre, você pode melhorar o crawl à vontade, se conseguir. Note que hoje, graças à escrita e a outras mídias de armazenamento, isso não é um problema, de modo que uma religião não precisa mais desses rituais regulares em uníssono para manter o texto puro. Mas uma religião que torna os rituais opcionais estará em perigo de sucumbir por outros motivos. 15.

Atran, 2002, e Lawson e McCauley, 2002, fazem críticas detalhadas das hipóteses de Whitehouse (1995, 2000) e outros. 16.

A Segunda Regra de Orgel é: "A evolução é mais esperta que você!" (Dennett, 1995b, p. 74). Stark e Finke, 2000, argumentam que muitas "reformas" religiosas executadas deliberada e conscientemente nos últimos tempos desfazem o sábio trabalho de projeto implícito nas práticas religiosas tradicionais. E um erro de projeto sério, argumentam eles, fazer com que os rituais religiosos fiquem fáceis demais, baratos demais, indolores demais. 17.

6. A EVOLUÇÃO DA INTENDENCIA O etnomusicólogo Jeff Todd Titon me apresentou à música da pregação gospel em sua análise pioneira da arte de John Sherfey (Titon, 1988); você mesmo pode vê-la e ouvi-la no videodocumentário dele, Powerhouse for God (Documentary Eductional Resources, 101 Morse Street, Watertown, MA 02472). Dezenas dos sermões de C. L. Franklin em Detroit e Memphis foram gravados e irradiados pelo país inteiro por Chess Records, e estão disponíveis em diversos endereços da web. 1.

E também possível que alguns elementos estáveis nos leks sejam transmitidos por imitação, e não pelos genes - mais outro exemplo de tradição animal, e não de instinto (Avital e Jablonka, 2000). Estudos sobre cross-fostering, a adoção de filhotes por indivíduos adultos de outra espécie, nos quais ovos de pássaros de uma tradição lek tenham sido chocados e criados por pássaros de um lek diferente, poderiam lançar alguma luz sobre isso. 2.

Pinker, 1994; Deacon, 1997; e Jackendoff, 2002, são os trabalhos recentes mais acessíveis sobre este tópico. 3.

Sim, o pêndulo do bronzeado está voltando. Agora parece que a luz do sol faz tão bem para você (com moderação) quanto era exagerada a proteção recomendada por muitos dermatologistas. E difícil se manter atualizado com relação a todas essas informações, de modo que a gente simplesmente não questiona aquilo que "todo mundo sabe". 4.


Eu deveria enfatizar isso, para manter os multiculturalistas bem-intencionados, mas mal orientados, ao largo: as entidades teóricas nas quais essas pessoas tribais acreditam francamente - os deuses e outros espíritos - não existem. Elas estão enganadas, e você sabe disso tanto quanto eu. E possível que pessoas altamente inteligentes tenham uma teoria muito útil, mas errônea, e não devemos fingir o contrário para mostrar respeito por elas e seus hábitos. 5.

Em uma discussão importante, mas subavaliada, Sperber (1985, pp. 49 ss.) propõe que chamemos esses estados cognitivos indeterminados de representações semiproposicio- nais. Essas são "idéias meio entendidas" que usamos todos os dias, e que em geral acabam se transformando em representações proposicionais adequadas apenas sob a pressão da investigação sistemática. Esse processo hipotético de folie-à-deux da geração da teologia é parecida com o modelo gerar-e-testar da produção de sonhos e geração de alucinações descrita em Dennett, 1991a, capítulo 1. 6.

Eu aqui estou adotando a voz ativa da fala do "meme egoísta"; é a mesma taquigra- fia que usamos quando dizemos que o HIV "ataca" e "se esconde" e "ajusta a sua estratégia" em resposta aos nossos esforços para erradicá-lo. As idéias não têm mentes, não mais que os vírus e as bactérias, mas podem ser úteis e descritas antecipadamente como se fossem egoístas e inteligentes. 7.

Há muitos anos publiquei um artigo sobre a dor (Dennett, 1975, reimpresso em 1978) que incluía alguns fatos chocantes a respeito do uso de amnésticos por anestesistas para apagar memórias pós-cirúrgicas da dor experimentada por pacientes insuficientemente anestesiados durante a cirurgia. Diversos anestesistas que leram meu artigo na prova imploraram-me para não publicar esses detalhes em um periódico não médico, já que isso dificultaria o trabalho deles. Qualquer coisa que aumente a ansiedade dos pacientes antes da cirurgia torna a indução de anestesia segura mais difícil, e, portanto, mais perigosa para eles, de modo que é melhor manter a informação em seu lugar: restrita à comunidade médica. Esse é o caso mais forte que conheço de um fato sobre o qual é melhor as pessoas não saberem - mas não forte o suficiente para me dissuadir. Talvez você queira se perguntar se aprovaria a política de os médicos terem conhecimentos secretos que fossem sistematicamente ocultados de seus pacientes, a qualquer custo. 8.

9. A teoria de que toda religião é tal Priestertrug, engano ou manipulação por sacerdotes para seus próprios benefícios, tem uma história que remonta a Diderot e ao Iluminis- mo. "No entanto, apesar das suspeitas, tanto antigas como modernas, apesar da existência incontestável de esperteza e velhacaria entre os seres humanos, a hipótese do puro engano não explica nada," afirma Burkert (1996, p. 118). Mas isso é forte demais; pode não explicar tudo, mas explica muitas características da religião pelo mundo todo, das fraudes de cura espiritualista aos piores abusos do evangelismo.

7. A INVENÇÃO DO ESPÍRITO DE EQUIPE 1.

Uma tradição falaria aqui de cuidado "sem interesse pessoal", mas já que isso


inevitavelmente levanta objeções a respeito da suposta incoerência da verdadeira ausência de interesse pessoal, prefiro pensar nisso como a possibilidade de aplicar o domínio do interesse pessoal. Eis um bom motivo: supostamente, agentes "sem interesse pessoal" não são todos imunes aos problemas que atormentam os agentes dotados de interesses pessoais descritos pelos economistas. Digamos que sou um agente em uma situação de barganha, ou em um dilema de prisioneiro, ou enfrentando uma oferta coerciva ou uma tentativa de extorsão. O meu problema não se resolverá, ou diminuirá, ou até significativamente se ajustará, se o "interesse pessoal" que estou protegendo for outro que não o meu próprio - se não estou tratando de salvar a minha própria pele, digamos. Um extorsionista, ou um benfeitor, que saiba do que eu gosto estará na posição de enquadrar a situação para me atingir onde é importante para mim, seja lá o que for importante para mim. (O material nest^ nota e o parágrafo de texto ao qual ele está coordenado é tirado de Dennett, 2001b e 2003b.) Manji dá um exemplo revelador: o esmagamento deliberado do ijihad, a tradução islâmica de investigação que floresceu até o século x (e explicou as gloriosas realizações intelectuais e artísticas do início do islamismo). 2.

Sob o pretexto de proteger a nação muçulmana no mundo inteiro da desunião (conhecida como fitna e considerada um crime), estudiosos aprovados em Bagdá formaram um consenso para congelar o debate dentro do islã. Esses estudiosos se beneficiavam de patrocínios e não estavam dispostos a cantar uma ode à abertura quando seus patrões queriam letras mais duras [...] A única coisa que essa estratégia imperial conseguiu foi criar a mais persistente opressão de muçulmanos por muçulmanos: o encar- ceramento da interpretação. (2003, p. 59) 3.

O que foi espalhado, comenta Manji, foi a "imitação da imitação", um mecanismo de fortalecimento de fidelidade de cópias como aquele discutido no capítulo 5, mas, neste caso, deliberadamente projetado por intendentes, para retirar todas as mutações exploratórias antes que elas pudessem se espalhar. O livro de Wilson está transbordando de provas e análises importantes, mas uma das decepções dos teóricos da evolução é que a maquinaria da teoria de seleção de níveis múltiplos, tão laboriosamente desenvolvida e defendida por Sober e Wilson em Unto others, 1998, não foi posta em uso aqui. Nós nunca vemos quaisquer análises de dados empíricos que mostrem populações de grupos periodicamente se dissolvendo em seus constituintes e se formando outra vez em grupos com uma proporção mais alta de altruístas, por exemplo. Não vemos qualquer replicação diferencial de grupos - a não ser por alguns torturantes comentários informais mais para o final do livro, sobre o modo como as religiões estabelecidas dão origem a seitas. Uma nota reconhece essas complicações: "Se os grupos permanecem permanentemente isolados uns dos outros, a vantagem local da ausência de interesse pessoal irá seguir seu curso dentro de cada grupo e fazer com que o altruísmo se extinga. Deve haver um sentido no qual os grupos competem uns com os outros na formação de novos grupos, embora a competição não precise ser direta [...]" (p. 235). Mas esse é o único lugar em que essas complicações são tratadas no livro, fora alegações não discutidas, como esta: "Em geral, os mecanismos de controle sociais não alteram a conclusão básica de que as adaptações no nível do grupo exigem um processo correspondente de seleção de grupo" (p. 19). Essa proposta precisa de uma defesa mais cuidadosa, no entanto, e depende de modo crítico da definição de seleção de grupo empregada. 4.


Em sua lista de teorias, na p. 45, ele define a teoria dos memes como "1.3 Religião como um parasita 'cultural' que muitas vezes evolui às custas de indivíduos e grupos humanos". 5.

Muitos dos pontos que Wilson apresenta como sustentação de sua teoria de seleção de grupos podem ser imediatamente traduzidos para a fala de memes e usado para sustentar a teoria da seleção de memes. E Wilson reconhece que sua teoria de seleção de grupo depende da existência da evolução cultural: 6.

[...] é importante lembrar que comunidades morais maiores do que algumas poucas centenas de indivíduos são "não naturais" do ponto de vista da evolução genética porque, pelo que sabemos, elas nunca existiram antes do advento da agricultura. Isso significa que mecanismos evoluídos culturalmente são absolutamente necessários para que a sociedade humana permaneça unida acima do nível de grupos face a face. [p. 119] E como, comenta Wilson, as características excelentes de uma religião muitas vezes são copiadas por outra religião, não relacionada, ele já está comprometido a traçar a facilidade de troca de hospedeiros por inovações bastantes independentes de qualquer transmissão "vertical" das características para os grupos descendentes. Wilson apresenta diversos pontos interessantes que realmente não podem ser entendidos a não ser como uma reversão tática à "visão do olho-domeme", de modo que se pode ver minha "suave alternativa memética" como uma emenda amigável, embora eu espere que Wilson continue carregando a tocha da seleção de grupo. Afinal de contas, esse foi o meme a cuja difusão ele dedicou sua carreira. O fato de que a teoria pelo lado da oferta os ofenda não é em si mesmo um argumento contra ele, é claro. Tampouco o é a alegação (que muitos fazem) de que eles não acham que estão fazendo escolhas racionais de mercado a respeito de suas religiões. Eles podem estar se iludindo a respeito de seus reais processos de pensamento. Mas, como as demais condições invariáveis (o que pode não ser o caso), pelo fato de que as pessoas reajam com descrença e ultraje ao considerarem a teoria do lado da oferta é alguma prova de que a razoabilidade dessas teorias não é tão óbvia quanto Stark e seus colegas gostam de alegar. Ver Bruce, 1999, para uma crítica detalhada das teorias sobre escolhas racionais da religião. 7.

Uma discussão introdutória dessa literatura recente é feita em Dennett, 2003c, capítulo 7, "The evolution of moral agency". 8.

9.

Citado em Armostrong, 1979, p. 249.

Na minha terminologia, os deuses, como coisas conscientes, são sistemas intencionais de ordem mais elevada, agentes racionais com os quais se pode conversar, barganhar, argüir, a quem promessas podem ser feitas, e dos quais promessas podem ser solicitadas. E difícil imaginar o objetivo de se fazer uma promessa à Base de Todos os Seres. 10.

Os modelos de Bowles e Gintes tratam da evolução de memes dentro de comunidades, embora eles prefiram não usar o termo: "[...] adotamos a visão evolutiva de que a chave para a compreensão de comportamentos nos tipos de interações sociais que estamos estudando é replicação diferencial: aspectos duráveis de comportamento, inclusive normas, devem ser explicados pelo fato de que foram copiados, retidos, difundidos, e daí replicados, enquanto outros traços, não" (p. 347). Eles prosseguem chamando a atenção para,o fato de que esses 11.


efeitos não são o resultado de mecanismos de seleção de grupo (p. 349), mesmo que expliquem as adaptações semelhantes a organismos que as comunidades exibem.

8. CRENÇA NA CRENÇA 1. Como Richard Lewontin observou recentemente: "Para sobreviver, a ciência tem de expor a desonestidade, mas cada uma dessas exposições públicas produz cinismo a respeito da pureza e do desinteresse da instituição, e alimenta o anti-racionalismo ideológico. A revelação de que o paradoxal crânio fóssil do Homem de Piltdown era, na verdade, um embuste, foi um grande alívio para paleontólogos perplexos, mas motivo de grande exulta- ção nos tabernáculos do Texas" (2004, p. 39). Para uma discussão sobre Nietzsche e sua resposta filosófica à teoria da evolução por seleção natural de Darwin, ver meu A idéia perigosa de Darwin (1995b). 12.

Há diferenças significativas em cânceres de mama (Li e Daling, 2003), hipertensão, diabetes, tolerância ao álcool e muitas outras doenças bem estudadas. Para um levantamento, ver Health Sciences Policy (HSP ) Board, 2003. 13.

Thomas Kuhn, em A estrutura das revoluções científicas, 1962, é o padrinho de todas as discussões subseqüentes, e deve-se notar que o livro de Kuhn talvez seja o campeão de todos os tempos na categoria de Clássico Entusiasticamente Mal-Entendido. Ê um livro maravilhoso, apesar do mal uso que dele se tem feito. 14.

Newbert, D Aquili e Rause intitularam seu livro de 2001 de Why God wont go away: brain science and the hiology of belief, e dizem mostrar, por "ciência convencional cuidadosa" (p. 141), as "garantias mais profundas, endossadas pela neurobiologia, que tornam Deus real" (p. 164). Mas o Deus que eles afirmam revelar ao estudar a "neurologia da transcendência" é alguma coisa que chamam de Ser Unitário Absoluto, tão indefiní- vel que eu próprio não sei se acredito nele. (Acredito que alguma coisa exista - será isso o Ser Unitário Absoluto?) O autor reconhece: "Se o Ser Unitário Absoluto for real, então Deus, sob todas as formas personificadas pelas quais os seres humanos o conhecem, só pode ser uma metáfora" (p. 171). Em outras palavras, não há nada na neurociência de que um ateu tenha de discordar. 15.

No encantador romance de Lee Siegel, Love and other games of chance (2003), existe um personagem que escreveu um livro religioso, um best-seller que ele intitulou de He's not called God for nothing. Pense nisso. 16.

A mesma relutância envenena os debates a respeito do criacionismo e do Projeto Inteligente. Em um pólo há criacionistas "Terra Jovem", que negam que nosso planeta tenha mais de bilhões de anos de idade e defendem hipóteses hilariantes para explicar os fósseis e todas as demais provas. E há os defensores, um pouco mais razoáveis, do Projeto Inteligente, que reconhecem prontamente a idade do planeta, o registro fóssil e, realmente, a descendência de uma única célula ancestral de todas as plantas e animais, mas mesmo assim podem provar que há trabalho para um Projetista Inteligente fazer. Quando pressionados em particular, esses 17.


pensadores mais sofisticados algumas vezes reconhecem que a bobagem da Terra Jovem é uma mistura de fantasia e fraude, mas não dirão isso em público. E aí se queixam amargamente de que a comunidade científica não lhes dá atenção: "Somos sérios a este respeito!", insistem, "mas, por favor, não nos façam reconhecer a falsidade das versões mais bobas da nossa postura!". Não. Não se vocês quiserem jogar nos grandes times. Para um levantamento sobre o estado da arte por volta de 1980 (junto com algumas de minhas próprias propostas contenciosas), ver Dennett, 1982, reimpresso em 1987. Dei uma breve olhada, recentemente, na literatura que se acumulou sobre esse tema desde então, e conclui que o esforço de intervenção de um quarto de século não produziu qualquer coisa que mudasse substancialmente minhas opiniões de 1982, mas é claro que muitos filósofos discordariam veementemente disso. 18.

Cannon, 1957, é uma exploração básica do amplamente disseminado saber que alega que sortilégios malévolos realmente mataram gente. Ele conclui que de jeito algum é impossível induzir a morte de alguém amedrontando-o de modo fatal. "Em seu terror [a vítima] recusa alimentação e água, um fato que muitos observadores notaram e que, como veremos mais tarde, é altamente significativo para uma possível compreensão do vagaroso estabelecimento da fraqueza. A vítima 'definha'; suas forças desaparecem como água, para parafrasear palavras já citadas de um relato gráfico; e no curso de um ou dois dias ela sucumbe" (p. 186). 19.

Em Dennett, 1978, eu propus uma distinção entre crenças e "opiniões", que são (aproximadamente) sentenças que se apostaria serem verdadeiras (mesmo que não inteiramente compreendidas). Sperberr, 1975, fez uma divisão parecida entre crenças intuitivas e reflexivas, e expandiu e revisou essa análise em Sperber, 1996. 20.

Ver também Palmer e Steadman, 2004, sobre a tática adaptativa da interpretação literal de metáforas. 21.

A minha introdução a essa idéia um tanto deprimente veio em 1982, quando a editora de compras de uma grande editora me contou que sua companhia não iria concorrer pelos direitos de The minds 1, a antologia de filosofia e ficção científica que Doutlas Hofs- tadter e eu tínhamos organizado, porque estava "claro demais que se tornaria um livro cult". Eu entendi o que ela estava querendo dizer: nós de fato explicamos as coisas com o máximo de cuidado que pudemos. John Searle uma vez me contou a respeito de uma conversa que tivera com Michel Foucault: "Michel, você é tão claro quando conversa; por que seu trabalho escrito é tão obscuro?". Ao que Foucault replicou: "Isso é porque, para ser levado a sério pelos filósofos franceses, 20% daquilo que você escreve têm de ser bobagem impenetrável". Eu cunhei um termo para essa tática, em honra à sinceridade de Foucault: eumer- dificação (Dennett, 2001a). 22.

Professor Fé é o sucessor de Otto em Consciousness explained (1991a) e de Conrad em Freedom Evolves (2003c), a não ser identificado com nenhum interlocutor verdadeiro meu, mas expressando, da melhor maneira que posso, as objeções que muitas vezes ouvi. 23.

Os filósofos passaram décadas sonhando com supostas experiências projetadas para provar ou refutar o princípio de W. V. O. Quine da indeterminação da tradução radical (1960): a surpreendente alegação de que em princípio poderia haver dois modos diferentes de traduzir uma linguagem natural para outra linguagem natural, sem haver qualquer prova a respeito de qual 24.


seria a forma correta de traduzir a linguagem. (Quine insistiu que nesse caso não haveria um modo certo; cada jeito seria tão bom quanto o outro, e não haveria mais problemas.) O caso Philby pode nos ajudar a ver que essa alegação não é tão incrível como parece à primeira vista, e o Apêndice D apresenta uma breve discussão desse ponto (provavelmente, apenas para filósofos). Os filósofos reconhecerão isso como uma aplicação da teoria do significado de Quine (1960), e uma extensão de sua observação de que na grande "teia da crença", declarações teóricas longe da periferia da confirmação e refutação empíricas muito prontamente exibem a inescrutabilidade da referência. 25.

O teorema de Gõdel declara que, se você tentar axiomatizar a aritmética (do jeito que a geometria plana é axiomatizada por Euclides - lembra da geometria do ginásio?), seu sistema de axiomas será inconsistente (o que você certamente não quer, já que falsidades e verdades podem ser provadas a partir de axiomas inconsistentes) ou incompleto - haverá pelo menos uma verdade da aritmética, a sentença de Gõdel do sistema, que nunca poderá ser provada a partir dos seus axiomas. O teorema de Gõdel pode ser provado a priori, mas, para fazê-lo ter qualquer aplicação no mundo real (por exemplo, para descrever limitações em máquinas de Turing implementadas, verdadeiras), você tem de adicionar uma ou duas premissas empíricas, e é aí que surgem problemas de interpretação para confundir o futuro dualista, por exemplo. Ver "The abilities of men and machines", em Dennett, 1978; e o capítulo sobre Roger Penrose em Dennett, 1995b. 26.

E claro que posso estar errado. Há diversos críticos meritórios do meu livro (e muitos deturpadores desesperados). A resenha negativa do metafísico cristão Alvin Plantinga (1996), que está disponível (junto com outros ensaios sobre o mesmo tema) em sua página da web http://id.www.ucsb.edu/fscf/library/platinga/dennett.html, é boa para começar, já que, embora ele não consiga resistir a interpretar de modo errado alguns de meus argumentos, ele explica muito claramente o poder do desafio darwiniano ao seu cristianismo. Por exemplo, ele não tem ilusões a respeito das duas magisteria de Stephen Jay Gould discutidas no capítulo 2. Se o darwinismo estiver certo, muitas doutrinas cristãs cultivadas estarão em perigo, razão pela qual ele - como metafísico, e não filósofo da ciência - se encarrega de endossar alguns dos maus argumentos da comunidade do Projeto Inteligente. Plantinga, em muitos de seus livros e artigos, tem sido um defensor infatigável e engenhoso dos argumentos a priori da teologia, incluindo tentativas de refutar o contra-argumento favorito dos ateus, o Argumento do Mal, que recebeu recentemente uma outra boa audiência no rastro do tsunami no oceano Indico. Para equilibrar Planatinga, recomendo um livro mais velho, The miracle oftheism. arguments for and against the existence ofGod, de John Mackie (1982), como um tratamento tão paciente e solícito - mas também rigoroso e incansável - quanto já encontrei. 27.

Descartes levantou a questão de se Deus criou as verdades da matemática. Seu seguidor Nicolas de Malebranche (1638-1715) expressou firmemente a opinião de que elas não precisavam de início, sendo tão eternas quanto qualquer coisa poderia ser. 28.

9. POR UM GUIA DO CONSUMIDOR DE RELIGIÕES


1. Para um exemplo recente, ver Dupré, 2001. Eu teria preferido não dar atenção a ele, como recomendo, mas, pedido para resenhá-lo, resolvi usar a ocasião para uma reprimenda (Dennett, 2004). Sobre os lamentáveis excessos do pós-modernismo, ver também Dennett, 1997. 2. De acordo com Burkert, Diágoras apresentou a mesma reflexão milênios antes: "Olhem para todos esses presentes votivos", foi dito a Diágoras, o grande ateu, no santuário de Samotrácia, que abriga os grandes deuses que eram famosos por salvarem as pessoas dos perigos no mar. "Haveria muito mais votivos", retorquiu sem piscar o ateu, "se todos aqueles que de fato se afogaram no mar tivessem a chance de erigir monumentos." [1996, p. 141] Como foi discutido no capítulo 7, Stark e Finke, 2000, argumentam que os sacrifícios caros são na verdade uma atração importante da religião, mas apenas porque "você adquire aquilo que pagou", e parte daquilo que você obtém pode ser saúde e prosperidade. 3.

Tem havido uma quantidade enorme de pesquisas sobre esse tema. Alguns dos melhores exames são de Ellison e Levin, 1998; Chatters, 2000; Sloan e Bagiella, 2002; e Daaleman et al., 2004. 4.

Em 1996, o papa João Paulo 11 declarou que "os novos conhecimentos nos levam a reconhecer na teoria da evolução mais que uma hipótese", e embora muitos biólogos tenham se animado com esse reconhecimento da teoria científica fundamental que unifica toda a biologia, eles perceberam com consternação que o papa prosseguiu, insistindo que a transição do macaco para o ser humano envolveu uma "transição para o espiritual" que não podia ser explicada pela biologia: 5.

Conseqüentemente, teorias da evolução nas quais, de acordo com as filosofias que as inspiram, consideram o espírito como surgido das forças da matéria viva ou como um mero epifenômeno dessa matéria, são incompatíveis com a verdade a respeito do homem. Tampouco são elas capazes de fundamentar a dignidade da pessoa [...] As ciências da observação descrevem e medem as múltiplas manifestações da vida com precisão cada vez maior e as correlacionam com a linha do tempo. O momento da transição para o espiritual não pode ser objeto desse tipo de observação, que no entanto pode revelar, no nível experimental, uma série de sinais muito valiosos, indicando o que é específico do ser humano. [João Paulo n, 1996] Mais recentemente, Christoph Schõnborn, o cardeal arcebispo católico de Viena, publicou um ensaio na página de editoriais de opiniões (ap-ed) do The Neu> York Times (7 de julho de 2005), deplorando a interpretação errônea de sua carta de endosso da evolução e enfatizando que a posição oficial da Igreja católica é, na verdade, oposta à teoria neoda- rwiniana da evolução por seleção natural. O espetáculo de bispos e cardeais católicos instruindo os fiéis sobre as falsidades da biologia neodarwiniana poderia ser cômico se não fosse um lembrete tão claro da triste história dessa Igreja quanto à perseguição de cientistas cujas teorias eram doutrinariamente inconvenientes. De acordo com o arcebispo Schõnborn, os católicos podem usar "a luz da razão" para chegar à conclusão de que a "evolução no sentido neodarwiniano - um processo não orientado, não planejado de variação aleatória e seleção natural" - não é possível, conclusão firmemente refutada por milhares de observações, experiências e cálculos feitos por especialistas em biologia, quando eles usam suas próprias luzes da razão. Desse modo, apesar de algumas


concessões importantes ao longo dos anos - e um pedido de desculpas oficial a Galileu, séculos depois do fato -, a Igreja católica ainda está na posição canhestra e indefensável de tentar se apoiar na autoridade científica quando os católicos gostam de suas conclusões, ao mesmo tempo que a rejeitam categoricamente quando elas contradizem seus preceitos.

10. MORALIDADE E RELIGIÃO Algumas pessoas citaram o levantamento de McCleary, 2003, e Mccleary e Barro, 2003, como se demonstrasse um elo entre a crença no céu e inferno e uma ética forte, mas outras interpretações do trabalho deles não foram descartadas. A econometria é um campo no qual rearranjos permitidos dos dados muitas vezes dão "resultados" assombrosamente diferentes, de modo que ninguém deve se surpreender quando teóricos de seitas diferentes encontram leituras diferentes. 1.

Estudiosos muçulmanos discordam sobre a interpretação de passagens relevantes do Corão (e hadith 2.562 no Sunan al-Tirmidhi), mas as passagens das escrituras definitivamente existem, e não foram traduzidas de forma errada. 2.

Parlamentos anteriores foram reunidos em Chicago, em 1893, na Exposição de Colombo; em 1993, também em Chicago; e em 1999, na Cidade do Cabo. 3.

Essa foi a manchete, em italiano, de uma entrevista que dei a Giulio Giorelli, publicada no Corriere delia Serra, em Milão, em 1997. Desde então, eu a adotei como meu slogan, iniciando com ela o meu livro Freedom Evolves (2003c). 4.

5.

Para uma tentativa recente de explorá-lo, ver Johnson, 1996.

11. E AGORA, O QUE FAZEMOS? Em A idéia perigosa de Darwin, me uni a Ronald de Sousa em desacreditar a teologia filosófica como "um tênis intelectual sem rede" (1995b, p. 154), e mostrei por que uma apelação à fé está fora dos limites, bem literalmente, no jogo sério da pesquisa empírica. Essa passagem enfureceu Plantinga (1996) e outros, mas eu a sustento. Vamos jogar o tênis intelectual: este livro é o meu saque, e eu acolho bem rebates sérios - com a rede da razão sempre montada. 1.

Estou propondo isso com antecedência, com pouca esperança de impedir a reação costumeira: escárnio defensivo. Aprecie algumas das reações ao novo livro de Jared Diamond, Collapse (2005), tal como descrito no Boston Globe por Christopher Shea (2005): 2.

"Ele é uma dessas pessoas que - não quero parecer maldoso, porque ele é um escritor elegante não são levadas a sério pela maior parte dos historiadores", diz Anthony Grafton, um professor de história européia antiga em Princeton, que considera o trabalho de Diamond "superficial". Livros como Armas, germes e aço, diz ele, são menos importantes por seus argumentos que por


"mostrar aquilo de que os historiadores abriram mão" - história grandiosa, extensa, que une os pontos criados por milhares de monografias. Para mim, o professor Grafton não parece maldoso; ele parece complacente. Talvez ele e seus colegas historiadores estejam subestimando a força dos argumentos "superficiais" de Diamond. Não saberemos até que eles os considerem seriamente o suficiente para os descartarem apropriadamente. Como se diz, é um trabalho sujo, mas alguém tem de fazê- lo. Nós, evolucionistas, não temos todos de levar os criacionistas a sério, porque alguns dos nossos já fizeram isso bem, e nós verificamos e os aprovamos (ver a nota 3 do capítulo 3). Uma vez que os historiadores tenham refutado devidamente as teses de Diamond com o mesmo cuidado, eles podem continuar não prestando atenção aos seus argumentos, se não tiverem se convencido. Para uma outra resposta à resposta a Diamond, ver a resenha de Gregg Easterbrook (2005) e a minha resposta (Dennett, 2005c). Os pesquisadores que chegaram às manchetes foram Michael Persinger (1987), Vilayanur Ramachandran et al. (1997; para o relato popular de Ramachandran, ver Rama- chandran e Blakeslee, 1998), e Andrew Newberg e Eugene D Aquili (Newbert et al., 2001). As perspectivas e imperfeições conectadas ao trabalho dele são discutidas com justiça por Atran (2002, capítulo 7, "Waves of passion: the neuropsychology of religion"). Ver também Churchland, 2002, e Shermer, 2003, para boas resenhas sobre religião e o cérebro. O livro mais recente de Dean Hamer (2004) foi discutido no capítulo 5. Há outros trabalhando em tópicos como esse, e o que há de melhor em trabalho recente é discutido por Atran. 3.

O novo campo da neuroeconomia (por exemplo, Montague e Berns, 2002; Blimcher, 2003) está fazendo progresso tanto por causa dos avanços no pensamento econômico como por causa da nova tecnologia de neuroimagens. Para uma discussão, ver o capítulo 8 de Ross, 2005. 4.

Uma abertura inicial para essa pesquisa politicamente delicada, mas biologicamen- te segura, pode ser encontrada em Ewing et al., 1974; Gill et al., 1999; Wall et al., 2003. Ver Duster, 2005, para uma avaliação ponderada das armadilhas a serem evitadas ao se estudarem os fatores genéticos nas doenças humanas. 5.

Ver, por exemplo, o enciclopédico Measures of religiosity, de Hill e Hood, 1999, que revisa centenas de diferentes levantamentos e instrumentos. 6.

Essas questões podem parecer demasiadamente fantasiosas para serem levadas a sério, mas não são. A pesquisa tem mostrado efeitos impressionantes de diferenças aparentemente triviais. As novas do dia realmente têm importância em algumas condições (Iyen- gar, 1987). Em um estudo sobre felicidade pessoal (ou bem-estar subjetivo), se o pesquisador, por telefone, pergunta ao seu sujeito "Como está o tempo aí onde você está?", então, como o tempo está não tem importância; se o pesquisador por telefone não faz essa pergunta inócua, e o tempo está ensolarado, as pessoas dizem que estão significativamente mais felizes! Chamar a atenção para o tempo local diminui a probabilidade de que as respostas sejam veladamente influenciadas por ele nas perguntas sobre outros temas (Schwarz e Clore, 1983). Para outros exemplos, ver Kahnemann et al. (orgs.), 2000. 7.

Shermer projetou o estudo em colaboração com Frank Sulloway, um ex-estatístico do MIT, estudioso de Darwin e autor de Bom to be rebel: birth, order, family dynamics, and 8.


creativelives (1996). Depois de pré-testes e aprimoramentos extensivos de seu questionário, eles primeiro o enviaram para os 5 mil membros da Skeptic Society, e receberam mais de 1700 respostas, e depois enviaram o mesmo levantamento para uma amostra aleatória de 10 mil pessoas por todo o país, e receberam mais de mil respostas. As estatísticas acima são para a amostra aleatória, não os céticos. Ver Shermer, 2003, para alguns dos detalhes. Shermer e Sulloway, no prelo, é a apresentação formal dos resultados. A minha incursão no projeto de questionários vem explorando outras fontes possíveis de distorção, como, por exemplo, a mesma questão em dois diferentes contextos (desafiador e apoiador) recebe respostas diferentes. Há, definitivamente, diferenças significativas, mas elas não são o que nós esperávamos inicialmente; e são ambíguas entre diversas interpretações diferentes, de modo que estamos projetando estudos que dêem segui- mento, e ainda não submetemos nenhum de nossos resultados a um periódico com revisão dos pares. Aliás, tentamos responder à questão levantada no capítulo 8 e revisada acima; se faz diferença se a questão diz "Deus existe" ou "Eu acredito que Deus exista" (concorda fortemente, concorda um pouco etc.). Nossos resultados preliminares sugerem que essa pequena diferença na formulação não faz diferença quando, por exemplo, os itens do teste são "Jesus andou sobre as águas" versus "Eu acredito que Jesus andou sobre as águas". Mas outros estudos podem descobrir um contexto que dê resultado diferente. 9.

10.

Citado em Stern, 2003, p. xiii.

11.

Citado em Manji, 2003, p. 90.

12.

Este parágrafo e o anterior são tirados, com algumas alterações, de Dennett, 1999b.

Scott Atran começou estudando futuros líderes do Hamas na Palestina e em Gaza. Ver seu importante editorial, "Hamas may give peace a chance", The New York Times, 18 de dezembro de 2004. 13.

Nenhum editor de língua árabe ousaria publicar uma tradução do livro de Manji, mas uma tradução árabe está disponível, de graça, na web. Jovens muçulmanos por todo o mundo árabe podem baixá-lo em discretos arquivos PDF, para serem lidos, compartilhados e discutidos, o início do que Manji chama de Operação Ijtihad. Ijtihad significa "pensamento independente", e floresceu como tradição durante o mais importante período do islã, os quinhentos anos que se iniciaram em torno do ano 750 (Manji, 2003, p. 51). 14.

Irshad Manji relata ter visto um cartaz em uma nova escola para meninas no Afeganistão: "Instrua um menino e você instruirá apenas aquele menino, instrua uma menina e você instruirá sua família toda" (discurso na Universidade de Tufts, 30 de março de 2005). 15.

Uma pesquisa de opinião recente na Newsweek (24 de maio de 2004) alegou que 55% dos norte-americanos acreditam que os fiéis serão levados aos céus durante o Êxtase; e 17% acreditam que o mundo vai acabar durante seu período de vida. Se isso estiver perto da realidade, sugere que os que acreditam no Final dos Tempos na primeira década do século xxi superam em número os marxistas dos anos 1930 até os dos 1950 por uma grande margem. Mas que porcentagem desses adeptos está preparada para adotar quaisquer passos, abertos ou ocultos, para apressar o imaginado Armagedom, isso fica a cargo da imaginação de cada um. 16.


Sharlet, 2003, apresenta uma introdução fascinante e inquietadora a essa organização pouco conhecida, a qual inclui uma lista de parlamentares (inclusive alguns poucos que não estão mais no Congresso), e também descreve pontos altos da história de suas atividades pelo mundo todo, que inclui os National Prayer Breakfasts (cafés-da-manhã de oração nacional), mas também o apoio velado de líderes e movimentos políticos. Seu líder atual, Douglas Coe, é descrito pela revista Time (7 de fevereiro de 2005, p. 41), como "o Persuasor Furtivo". Sharlet comenta: 17.

No National Prayer Breakfast, George H. W. Bush elogiou Doug Coe por acjuilo que ele descreveu como "diplomacia silenciosa, eu não diria diplomacia secreta", como um "embaixador da fé". Coe visitou quase todas as capitais do mundo, muitas vezes com congressistas a seu lado, "fazendo amigos" e convidando-os para a sede não oficial da Família, uma mansão (vizinha de Ivanwald) que a Família comprou em 1978 com us$ 1,5 milhão doados por, entre outros, Tom Phillips, na época o CEO da fabricante de armas Raytheon, e Ken Olsen, o fundador e presidente da Digital Equip- ment Corporation, [p. 55] Acho que precisamos saber mais das atividades dessa diplomacia silenciosa, não governamental, já que ela pode estar buscando políticas que são antiéticas para aqueles da democracia da qual esses congressistas são representantes eleitos. Precisamos também nos manter informados, e isso está ficando cada vez mais difícil, por estranho que pareça. Achávamos que o sigilo talvez fosse o pior inimigo da democracia, e já que não havia repressão ou censura, podia-se confiar que as pessoas iriam tomar decisões informadas que preservassem nossa sociedade livre. Mas aprendemos, nos últimos anos, que as técnicas de informações errôneas e as más orientações se tornaram tão refinadas que, mesmo em uma sociedade aberta, um fluxo de desinformações inteligentemente dirigido pode sobrepujar a verdade, mesmo que a verdade esteja lá, sem ser censurada, bem disponível para qualquer pessoa que a possa encontrar. Por exemplo, eu não tenho medo de que este livro vá ser censurado ou proibido, mas prevejo, sim, que ele (e eu) será submetido a deturpações impiedosas quando aqueles que não conseguem enfrentar honestamente seu conteúdo procurarem envenenar a mente dos leitores em relação ao livro ou desviar a atenção dele. Em minha experiência recente, até mesmo alguns acadêmicos respeitáveis não conseguiram resistir à tentação de fazer isso (Dennett, 20030). Baseando-me nessa experiência, fiz uma lista das passagens neste livro que têm a maior probabilidade de ser retiradas do contexto e usadas deliberadamente para deturpar minha posição. Essa não é a primeira vez que faço isso. Em Consciousness explained, fiz uma nota de rodapé premonitória para uma passagem sobre os zumbis (não pergunte, você não vai querer saber), afirmando, "Seria um ato de desonestidade intelectual desesperada citar essa afirmação fora do contexto!" (1991a, p. 407n), e não deu outra. Diversos autores não puderam resistir à tentação de citá-la fora do contexto - mas pelo menos tiveram de citar a nota de rodapé também, não sendo assim tão desonestos e desesperados. Neste caso, são necessárias medidas mais fortes, já que estão em jogo apostas mais altas. Assim, a minha lista de deturpações deliberadas previstas está guardada e selada, pronta para ser publicada. Por exemplo, qual das minhas piadinhas, bastante inócuas no contexto, serão brandidas para demonstrar minha "intolerância" e o meu "desrespeito", meu "desvio" anticristão, anti-semita, antimuçulmano? (Como vocês, leitores cuidadosos, sabem muito bem, eu sou implicante com as oportunidades iguais e me recuso a andar na ponta dos pés por medo de ofender alguém - porque quero tirar a carta "Estou mortalmente ofendido" do jogo.) Será interessante ver quem vai cair na minha


armadilha. Eles n達o ser達o ass鱈duos leitores de notas, ser達o?


APÊNDICE B MAIS ALGUMAS QUESTÕES A RESPEITO DE CIÊNCIA William Dembski, autor de numerosos livros e artigos que atacam a teoria da evolução, muitas vezes se queixa em voz alta de que seu trabalho "científico" não é tratado com respeito pelos biólogos em atividade. Como co-editor do Unapologetic apologetics: meeting the challenges of theological studies (2001), ele pode encontrar motivos para isso em sua própria prática. Para uma crítica detalhada dos métodos de Dembski, ver a página da web de Thomas Schneider, http://www.lecb.ncifcrf.gov/~toms/paper/ev/. 1.

2.

Este parágrafo foi tirado de Dennett, 2003c, p. 303.

A maior parte desse enorme aumento na massa com relação à natureza "selvagem" deve-se ao nosso gado e aos bichos de estimação, que agora pesam mais que nós, no total, em uma proporção de mais de três para um. E difícil calcular a proporção de plantas domesticadas com relação às plantas silvestres, mas é claro que ela também mudou drasticamente. 3.


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AUTOR DANIEL C. DENNET, nascido em 1942, é professor universitário de filosofia e co-diretor do Center for Cognitive Studies at Tufts University, em Medford, nos Estados Unidos. É autor, entre outros livros, de A PERIGOSA IDÉIA DE DARWITI e TIPOS DE MENTES (Rocco). Mora em North Andover, Massachusetts.