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Profissão: tutor Por Viviane Pascoal Impressões transdisciplinares de uma jornalista-tutora sobre o I Encontro Nacional de Tutores 21 de março de 2011 / Unicamp, Campinas/SP

Primeiros momentos

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ogo nos primeiros minutos do I Encontro Nacional dos Tutores da Educação a Distância, quando a mestre de cerimônia dava as boas vindas aos quase 200 participantes presenciais e os mais de 1.900 internautas que acompanhavam a transmissão ao vivo, ficou claro e transparente que tutoria não é um bico para as horas vagas, e sim, profissão. Profissão: tutor. Saudados pelo presidente da Associação Nacional dos Tutores da Educação a Distância, Sr. Luís Gomes, estavam reunidos profissionais que, como ele, buscavam discutir aspectos pedagógicos, metodológicos, legais, atitudinais e até morais do professor que utiliza a mediação tecnológica para interagir com seus alunos, estejam eles do outro lado da tela do computador, reunidos em um polo presencial, ou diante de qualquer outra mídia eletrônica. Marcaram presença na primeira mesa também, o professor Sérgio Amaral, da Unicamp, que apoiou e acolheu o encontro, o sr. Freddric Michael Litto, presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância, e ainda, o presidente da Associação Brasileira dos Estudantes da EAD, Ricardo Holtz, representando aqueles ingressaram no mundo do estudo e pesquisa através da educação a distância, e que também estão unidos na busca pelo reconhecimento e legitimidade da modalidade.

Um ponto de encontro

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o mar de experiências e perspectivas tão diversas, os olhares convergiam para um ponto: o tutor, independente da modalidade em que atue, da instituição, de suas competências específicas, é um professor, em seu sentido mais amplo. Sua missão há muito deixou de se limitar à mera transmissão de conhecimentos, chegando à esfera da co-produção de significações. De Piaget a Edgar Morin, ninguém contesta o fato de que o conhecimento é uma construção coletiva, colaborativa, que conduz a múltiplas formas de se compreender o homem e o mundo. Diante desta visão holística e humana, a professora Lígia Futterleid – Diretora do grupo e-Educa - foi a primeira a abordar mais diretamente a temática do encontro: Tutoria: o braço


forte das instituições, o porto seguro dos alunos. De forma criativa e leve, ela apontou para características que precisam ser observadas no exercício da tutoria, e que podem bem ser aplicadas à prática docente como um todo. Introduziu o conceito do Tutor “6M”, que parece colocar em termos práticos e incrivelmente simples toda a essência do que foi discutido no encontro. Exatamente por essa razão, peço licença “to save the best for last”, deixar o melhor para o final.

Universidades.com: iniciativas de sucesso

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eguimos então para a palestra do Sr. Stravos Panagiotis Xanthopoylos – Diretor da FGV online, que apresentou a estrutura e funcionamento da instituição, promovendo-a e elucidando seus diferenciais no mercado, como um bom suporte ao aluno e ao tutor que passa por um rigoroso processo de seleção e qualificação. O que ficou no ar foi talvez o que mais interessasse aos participantes: quais os critérios e qual a remuneração do tutor de uma instituição que aposta e investe fortemente na educação a distância. O Sr. Stravos deu então lugar a Carlos Eduardo Bielshowsky, que abordou o Consórcio CEDERJ e os investimentos realizados nos sistemas de tutoria no sentido de oportunizar uma educação superior de qualidade, no sistema semipresencial - dos jovens geograficamente afastados da região metropolitana do Rio de Janeiro. O consórcio se constitui da parceria entre a Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro seis grandes universidades públicas do Estado: a Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ; Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro– UENF; Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO; Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Universidade Federal Fluminense – UFF; Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ).

Tutoria: as competências e os cuidados nas múltiplas relações

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retorno da merecida pausa para o almoço trouxe de volta às mesas de discussões o aspecto pedagógico e atitudinal da tutoria. A mesa com o tema “Competências a serem desenvolvidas e aperfeiçoadas no processo de tutoria” contou com a participação das professoras Poliana Bruno Zuim, tutora do curso de pedagogia e educação musical da UAB – UFSCar e Tecla Bierrenbach, tutora do curso de Administração de Empresas da Ulbra, trazendo a experiência da tutoria nos pólos presenciais. Mediando a acalorada conversa, a coordenadora da Revista EAD Tutor, Débora Tomazelli.


As duas experiências – online e em polo presencial – possibilitam visões diferentes, e exigem atitudes diferentes, como elas esclareceram com bastante propriedade. Há que se romper com o paradigma de que o tutor presencial tem a função de “pressionar o botão para iniciar a teleaula”. Ele é a presença física que estabelece o elo entre o aluno e a instituição, conduz os debates sobre o conteúdo abordado, propõe atividades, acompanha o estudante no momento presencial, e isso faz toda a diferença na postura deste aluno nos seus estudos individuais. Já o tutor online não conta com a presença física, o olho-no-olho, o “tom de voz” é impresso unicamente em sua palavra escrita. O texto é o condutor das orientações, da emoções que entremeiam as relações que ali se estabelecem, e para isso é preciso que seja extremamente cuidadoso e criterioso. A palavra escrita pode funcionar como um aliada ou como uma arma letal que aniquila qualquer possibilidade de entendimento. Pode diminuir ou aumentar ainda mais a distância entre tutor-instituição-aluno. É preciso saber dosar o grau de formalidade, de leveza, de humor, e proximidade. Isso significa não dizer nem “Oi, querido, então, olha só, você ainda não fez a atividade...”, nem “Prezado cursista, o não cumprimento da avaliação no prazo estipulado acarretará na imediata reprovação no curso.” Nada mais desmotivante do que ser chamado de “prezado cursista”, diga-se de passagem. Quem abordou com extrema propriedade essas e outras questões, foi a professora Denise Martins de Abreu e Lima, coordenadora da UAB – UFSCar e presidente do Fórum de Coordenadores da UAB. Versando sobre o tema “O tutor a distância no processo de interação com o aluno: a importância do feedback.” Além de alertar para o aspecto linguístico, a professora abordou a questão do cuidado com a resposta dada ao aluno, desde um tiradúvidas até a correção de uma atividade. O feedback deve oferecer subsídios para melhoria da atividade em questão, sugestões, orientações claras e seguras, especialmente direcionada para cada aluno, evitando os famosos (e tão utilizados) “CTRL+C”, “CTRL+V”: o mesmo comentário para todos. O aluno percebe quando está diante de um comentário padrão, genérico, ou quando a resposta do professor diz respeito ao seu trabalho. Importante também observar o “timing”, a dúvida surge e precisa ser esclarecida em tempo hábil; da mesma forma, o comentário sobre o trabalho deve ser feito enquanto a temática ainda está na pauta de estudos.

O caso UNED – um olhar internacional

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história e funcionamento da Universidade Nacional de Educação a Distância (Madrid, Espanha), trazida pelo professor Santiago Castillo Arredondo, foi mais um presente do Encontro, trazendo o olhar que, apesar de imerso em uma realidade bem distinta, mostra que é possível se conseguir grandes resultados, oportunizar uma formação diferenciada, apostando todas as fichas na EAD e sobretudo no apoio oferecido ao aluno.


A valorização do tutor como profissional e do aluno enquanto construtor do seu conhecimento ficou evidente desde o primeiro momento. O “professor-tutor”, como são denominados na UNED, faz parte de uma equipe docente que dá suporte à sua atividade, participa do planejamento, das tomadas de decisões, de tudo o que tange a sua responsabilidade. A modalidade a distância não é vista, desta forma, apenas como um “algo a mais”, ou “um bom negócio”, mas com o devido reconhecimento e seriedade.

MotivAção docente

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alvez o tema mais abordado de todo o Encontro tenha sido o fator motivacional que envolve a tríade instituição-tutor-aluno. O tutor precisa estar motivado, para motivar os alunos, por uma razão simples: ninguém pode dar o que não tem. Se o tutor não encontra em si mesmo, em sua atividade, algo que o mova para a ação, ou seja, um motivo para a ação, tudo o que fizer na tentativa de incentivar o envolvimento desta ou daquela atividade será ilusório, externo, como um sorriso falso desenhado no rosto. Por outro lado o aluno que seguir apenas a estímulos externos, não conseguirá construir um conhecimento verdadeiramente significativo. A motivação intrínseca, interior, é o que de fato move o homem para extrair o melhor de suas ações. Algumas ferramentas disponíveis no universo digital/virtual, quando bem utilizadas, possuem grande potencial para despertar o interesse e motivar os alunos à participação, a exemplo do Chat – bate-papo síncrono que pode ser livre ou temático, mediado por um tutor – e do fórum, um rico espaço de troca de opiniões acerca de determinadas questões, como abordou o professor Luis Carlos Dallier Saldanha, do Centro Universitário UNISEB/ COC. Ao tratar das ferramentas, ilustrou sua utilização elencando as vantagens, os desafios, e as diversas nuances que envolvem os alunos e tutores nas atividades propostas. Na sequência, foi aberta a última mesa de discussões justamente sobre o tema “Fatores críticos que contribuem ou não para a motivação e o comprometimento do tutor na EAD”. A composição foi ricamente diversificada, contando com o Coordenador do Núcleo da EAD da Unesp, Klaus Schlunzen Jr, Nelson Gervoni – tutor formador em programas de atividades complementares do Instituto Souza Campos e ainda, esta tutora-jornalista que vos fala, Viviane Pascoal Dantas, especialista em docência do ensino superior, e tutora do SENAI. Na missõa de estabelecer um diálogo entre tantas experiências distintas, estava Jefferson Castro, tutor online e membro da equipe de tutoria da Anated. As discussões giraram em torno das relações que se estabelecem entre instituição, tutor, tutor-conteudísta e aluno. Foi consensual observar que há um distanciamento muito grande entre o tutor-conteudista, o professor da disciplina e o tutor, fator que sem dúvida interfere na atividade docente, refletindo diretamente na outra extremidade, o aluno. Esse distanciamento enfraquece as relações e consequentemente o vínculo institucional.


Outro aspecto levantado e discutido foi a questão do paralelismo entre Educação e Comunicação, no sentido de que a educação precisa comunicar, e a comunicação pode emprestar seus recursos para serem utilizados em prol da educação. É uma aliança promissora - jornalismo e educação – uma vez que seus olhares apontam para um horizonte comum: a missão de elevar consciências, provocar reflexões em mentes que estão constantemente em formação. No cenário da EAD hoje, já se tem a visão mais clara de que educação a distância é acima de tudo “educação”, e que o fator humano, que tange as emoções, os valores, que verdadeiramente aproxima o aluno da instituição, só é possível por meio do tutor. Este por sua vez, estabelece este vínculo por meio da linguagem. É o tutor que faz com que o aluno que mal se entende com os botões do computador possa avançar em seus estudos, participar das atividades, construir o seu conhecimento, com a certeza de que não está sozinho. Por assim dizer, o tutor é (ou deveria ser) o braço forte da instituição, e o porto seguro dos alunos. Para isso precisa ser valorizado, bem formado, ouvido, reconhecido como um profissional, e não como alguém que cumpre algumas horas de atividade para complementar o seu orçamento. Para se ter uma visão que sintetize a essência de tudo o que foi discutido no Encontro, e se edifique uma reflexão sobre a ação docente da tutoria, finalizo com o conceito da professora Lígia Futterleid, do tutor 6M.

Com vocês, o tutor 6M O primeiro, é o M de Mediador, onde o tutor assume uma postura de facilitador da aprendizagem, e não de “dono da verdade”, incentivando e valorizando as múltiplas trocas de informações e conhecimentos, desta forma produzindo “multílogos” e não mais “diálogos”. Sabiamenta, a professora colocou que o tutor é ao mesmo tempo Motivador e automotivador, eis o segundo M. Trata-se da função de “jogar o bote salva-vidas” quando seu radar pedagógico identifica que um aluno está prestes a se afogar nas próprias dificuldades. Em outras palavras, significa ser de fato o porto-seguro do aluno, mostrando que ele não está sozinho. Como acontece na educação presencial, o professor é um Modelo de conduta moral e atitudinal, e a EAD não foge à regra. Por esta característica, seria incoerente que esse tutor incentivasse a criatividade e inovação, as práticas que acompanham a marcha do progresso quando ele mesmo não se apropria das novas tecnologias para dar um “upgrade” no seu cotidiano enquanto docente. Assim, o tutor deve ser também Multimídia, sabendo utilizar a tecnologia a seu favor. Abrindo-se para essas novas formas de interação social, potencialmente capazes de produzir ricos “multílogos”, o tutor supera obstáculos e ao mesmo tempo ensina seus alunos a superá-los, tornando-se assim um Multiplicador. Por fim, o tutor mediador, motivador, modelo, multimídia e multiplicador passa a conhecer mais profundamente os processos que conduzem ao aprendizado, consegue


identificar e potencializar as habilidades individuais – suas e de seus alunos – podendo seguramente ser o Maestro, o que rege a sublime sinfonia da educação. Se houvesse um sétimo M para emoldurar os outros 6, talvez fosse Música, já que o tutor que consegue orquestrar uma diversidade tão grande e rica de sons, uma pluralidade de vozes, de visões de mundo, e fazer com que um aprendizado significativo e transformador seja construído, é capaz sim de fazer um trabalho que toque como música, a mente e o coração de seus alunos. É capaz de elevar consciências, despertar reflexões, emoções, encantar, educar... Acima de tudo, o tutor consciente, tenha ele 5, 6 ou 7 Ms, sabe de suas responsabilidades e desafios, e não teria outra resposta sobre sua atividade profissional, senão esta: Profissão: tutor.

Profissão: Tutor  

Impressões interdisciplinares sobre o I Encontro Nacional de Tutores da Educação a Distância, dia 21 de março de 2011 na Unicamp/ Campinas.