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VIVÊNCIA PUNK N° 2 – JUNHO/2014 100% ANTIPILANTRAS


Meses atrás, as Jornadas de Junho foram uma das inspirações para a realização do primeiro Vivência Punk. Qual seria nossa surpresa ao ver que a cria dessas jornadas, o Não Vai Ter (a porcaria da) Copa/Copa Pra Quem? seria uma das inspirações para o segundo número. E ficamos felizes com a participação de tantxs punks, seja levando faixas, fazendo parte da linha de frente que enfrenta os ataques brutais dos cães do estado, compartilhando informação ou em qualquer outra frente de atuação (não que punks tenham a obrigação de ajudar a salvar o mundo, que fique bem claro!). Se haverá ou não copa, já sabemos a resposta. Válido são os questionamentos acerca de gastos em estádios, remoções forçadas, corrupção, legado que não vai existir, promessas não cumpridas, frouxidão frente às exigências absurdas da fifa, demora na articulação dos movimentos sociais em levantar-se contra esse descalabro que são os grandes eventos, apatia da população, a insistente tentativa por parte da esquerdalha de cooptar as manifestações, entre outras coisas. E diferente do que aconteceu anos atrás, quando muitxs ingenuamente acreditavam que uma possível transformação social radical seria iniciada por punks, hoje entendem que essa possível transformação é feita pelo povo e que nós, punks, somos parte do povo. Mesmo com a forte ventania direitista que também sopra nessa parte do planeta, com toda a repressão e criminalização das lutas sociais, com a sempre iminente possibilidade de supressão de direitos, mesmo convivendo com o fantasma dos anos de chumbo querendo se fazer presente novamente, mesmo que o ódio seja o único sentimento que temos por isso que chamam de sociedade e tudo que a ela está relacionado, mais do que nunca se faz necessário que sejamos coerentes com nosso discurso, que sejamos realmente punks. Porque punk é rebelião, luta, ação direta, apoio mútuo e independência. Punk não é violência gratuita ou pacifismo furado, relações escrotas com pilantras, pagação de pau com bandas, visual, alienação ou apenas chapação. Porque se for só essas coisas, deixa de ser punk para ser rockeiro e nada mais. Além das manifestações, outras situações serviram de inspiração para esse segundo número. Viver o punk enquanto movimento contracultural e tudo que isso representa com certeza teve papel importante. O primeiro número do fanzine nos proporcionou vivenciar outras situações dentro do punk, conhecer outras bandas, outras quebradas, conhecer pessoas e aprender. E o mais importante, reconhecer e entender que apesar do criticismo (principalmente de pessoas que saíram do movimento e insistem em ficar dando palpite em algo que não mais faz parte de seu existir ao invés de seguirem cuidando de suas novas vidas), a patifaria faz um estrago imenso ao punk, mas ela é feita por uma minoria. Apesar da “parasitagem” de uma parcela das pessoas envolvidas com o punk, a maioria continua caminhando pelo que é certo, desejando e fazendo corres por uma cena bacana para todxs. É óbvio que falta muita coisa, desde humildade, passando por urgente e necessária “despanelização” até chegar à estruturação. Mas isso com o tempo é que será resolvido. Continuamos acreditando na possibilidade real de viver o punk de maneira saudável (físico e intelectualmente), coerente, solidário e independente, livre dos vícios sociais escrotos que teimam em contaminar o movimento. E como diz um camarada, “apenas punk. Sem sufixo e sem prefixo”. Agradecimentos: Maria José, Contra (sulfite as fuck), Tamires, China (do zine para a Marvel ou DC Comics?), Mollotov Attack, Ricardo (Estado Alterado) e aos amigos que deram uma força com divulgação ou palavras de apoio... Azeitona, Kanella, Primo, Alan Pereira (boa sorte na nova etapa da vida), Caíque Miguel, Téu e Fábio Sarjeta. Se alguém foi esquecidx, mil desculpas. Este fanzine é dedicado ao parça Zero. Contato: vivenciapunk@zipmail.com.br https://www.facebook.com/profile.php?id=100008244580089&fref=ts http://issuu.com/vivenciapunk/docs/capa_-_c__pia


A União Faz a Diferença Por Karl Straight Só existe uma solução para os conflitos e problemas deste mundo: buscar a união das pessoas. Isso deveria ser um dos principais esforços. Você e eu também podemos fazer isso na história da Humanidade, longe das ilusões e mentiras desta sociedade. Mas a realidade que vivemos diariamente nos mostra o contrário. Se deixarmos que a esperança e a capacidade de mudanças acabem, deixaremos que essa desunião destrua todo o ideal. A melhor ajuda na crise é aquela que vem de dentro de nós mesmos. Mesmo quando há dificuldades, não há motivo para desanimar. É verdade que nossa época não é diferente de tempos atrás. Infelizmente, vivemos uma época de individualismo, vivenciado com muito mais intensidade. Por isso quero motivá-los para seu próprio bem. A nossa união é que faz toda a diferença para um mundo melhor e não devemos negligenciar esta área da vida, deixando o comodismo de lado. Se sua velha tendência de ser o incomoda, isso já é um bom começo para mudar. Esse sentido por sua vez é um fator subjetivo interno, que parte de dentro de nós. Preparese como se fosse a última coisa que fosse fazer. Como um novo amanhecer, uma transformação, onde nenhuma herança é mais valiosa do que a união. Os problemas sociais, familiares, educacionais e todos os outros que nos preocupam seriam menos agressivos ou até inexistentes, pois a união faz a diferença. Se as pessoas mudarem suas atitudes conhecerão a paz e a tranquilidade, mesmo em momentos difíceis. A verdadeira bondade nasce do amor que espalhamos ao nosso redor, quando deixamos de agir por impulso. Para fazermos boas escolhas precisamos buscar o que realmente é melhor. Pare um pouco e pense positivamente antes de agir. Uma pessoa disposta a fazer mudanças faz a diferença. Pois procuramos a união de todos.

Vivendo um Caos Por Karl Straight Vivemos em um mundo de infelicidade. Vemos pessoas pensando apenas em si mesmas e outras passando por várias dificuldades. Epidemias, violência, guerras, tragédias diversas. Todas vivendo um caos, uma vida de tristeza e dor. Vamos entrar no espetacular mundo que produz todo esse pesadelo. Todos os dias nós enfrentamos a mesma rotina embrutecedora, cheia de obstáculos, sem liberdade e dignidade, com o ser humano sendo asfixiado no caos. Perde o sentido existencial, se destrói ou destrói a vida de outrxs. Por isso o sistema nunca vai funcionar. Vivendo um caos que conspira contra as pessoas, contra a natureza e ninguém vai escapar, seja rico ou pobre, adulto ou criança. A crise social é o que vivemos. Fechando o ciclo fatal, vivendo um caos sem fim.


MEMORIAL DA RESISTÊNCIA DE SÃO PAULO Por Treva Desde o início da onda de manifestações de junho passado, muito já foi discutido sobre uma possível ascensão da extrema direita brasileira. De intelectuais a manifestantes de primeira viagem, muita gente gastou tempo e neurônio divagando sobre essa escrotidão e o que ela representa na atualidade. A paranoia chegou a tal ponto que logo depois daquela grande manifestação do dia 20/06/2013 em Sampa, quando integrantes das quadrilhas intolerantes (aquelas que a decradi não combate e que o judiciário não pune) apareceram e espalharam o terror político e físico contra integrantes da esquerda oportunista e contra lutadorxs de movimentos sociais sob aplausos da coxinhada politicamente ignorante, os debates eram sobre quando seria o golpe e que a direita estava preparada para uma guerra civil. Eu, que sempre sou cético, depois de ver tanta gente paranoica, já estava pensando para onde ir e qual seria o roteiro da fuga caso houvesse um golpe. O que muita gente esqueceu-se de mencionar é que a direita nunca desapareceu. Muito pelo contrário, ela sempre esteve presente na classe política, na religião, na mídia e nas ruas. Ou alguém esqueceu os bolsonarotários e feliciânus da vida, do jornalixo praticado quase como regra pela imprensa, dos carecas/boneheads e das polícias? Acredito que a direita nunca tenha sido um fantasma do passado a nos assombrar, mas sim algo real, vivo, que desde a pseudo redemocratização do país, passou a ser mais discreta, a nos observar de esgueio. Mesmo sendo mais discreta, essa direita consegue emporcalhar tudo por onde passa com seu discurso de merda e empacar nossas vidas. É só lembrarmo-nos da política de cotas, reforma agrária, questão ambiental, debate sobre drogas, aborto, criminalização da homofobia, demarcação de terras indígenas e quilombolas, entre outras coisas. Os meses passaram, as manifestações continuaram e a direita passou a espernear cada vez com mais força e histerismo. A constituição foi rasgada diversas vezes com o aval dessa gente nojenta numa tentativa de justificar seus delírios conspiratórios e os ataques vieram de todos os lados: mídia com reportagens chulas, repressão e punição a manifestantes (principalmente se forem adeptos da tática black bloc), crimes forjados, criação de leis antimanifestação etc. Interessante notar pessoas que sempre falaram sobre revolução, que enalteciam o povo insurreto de diversas localidades mundo afora, do nada mudaram seu discurso, andando de mãos dadas com quem sempre diziam combater. A explicação é simples: manja fezes? Cocô? A pessoa pode defecar fezes dura ou mole, mas de qualquer jeito são fezes. Com a esquerda e direita é a mesma coisa. A nomenclatura muda, pode rolar uma alteração no cheiro, mas continuam sendo a mesmíssima coisa. E depois de meses esperneando, chegou o grande dia desse pessoal sem noção, o dia 22/03/2014, quando convocaram a nação para a versão 2014 da marcha da família (fascista) com deu$ pela liberdade (ou falta dela). A primeira marcha em Sampa aconteceu em 19 de março de 1964, protestando contra a tal ameaça comunista (entenda-se por saúde, educação e reforma agrária). Dias depois aconteceu o golpe militar, jogando o país num buraco escuro por vinte e um anos e do qual ainda não saímos por completo, vide a permanência de diversas práticas político-repressivas criadas e/ou usadas durante a ditadura. Cinquenta anos depois da primeira marcha, tentaram ressuscitar x defuntx, ainda acreditando numa ameaça vermelha. Como todo mundo sabe (menos xs fascistas), a tal marcha foi um fracasso retumbante em todo o Brasil, virando piada na internet. Para quem tinha pretensão de levar dezenas de milhares de pessoas às ruas, ver esse pequeno punhado de pessoas histéricas e intelectualmente limitadas na marcha é no mínimo decepcionante e, politicamente falando, vexatório. Claro, a constituição garante o direito de manifestação e de acreditar no que quiser,


até mesmo em “idiotologias” fracassadas. O problema é que a crença desse pessoal resulta na negação de direitos a outras pessoas, falta de liberdade, imposição de valores e por aí vai. É o pouco de democracia que temos e conhecemos ruindo em nossas caras graças a uma parcela doente dessa sociedade. Sim, porque de uns anos para cá o Brasil dá sinais diversos de estar doente, muito doente. Aqui em Sampa (acredito que foi igual em todos os lugares onde esse lixo rolou), essa pequena reunião de pessoas ignorantes reuniu um punhado de seres humanos transtornados, numa bizarrice sem fim. Seminaristas, militares, burguesia, carecas e boneheads, jovem usando quipá, até uma imagem de nossa senhora apareceu na micareta, tendo como trilha sonora hinos diversos, gritos contra seus iguais da esquerda fanática, rezas e confusão (vide vídeo https://www.youtube.com/watch?v=BU_XiasBkAw#t=879 ). Uma demonstração de capacidade em criar algo incrivelmente... aberrante. Vergonha alheia! Na contramão da ignorância, foi convocada uma manifestação antifascista que reuniu mais pessoas, não teve confusão e foi intelectualmente saudável. Participar dessa manifestação que começou na Praça da Sé e terminou em frente ao prédio do antigo deops/SP, me fez lembrar que existe um lugar que serviu como prisão e centro de tortura, e hoje abriga um memorial que muita gente não conhece (inclusive eu). Então, chegou o momento de mudar um pouco a dieta, deixar a música de lado por algumas horas e me alimentar com conhecimento. O Memorial da Resistência de São Paulo fica no prédio da antiga polícia política, o deops/SP, aparelho estatal criado nos anos 20 com a função de controlar, combater e reprimir opositores do governo em decorrência do crescimento do anarquismo, comunismo e de movimentos operários. Ironicamente, é um espaço mantido pelo governo de SP (conhecido por práticas antidemocráticas) através da Secretaria de Cultura. Sua função é a preservação da memória da resistência e repressão política no país, processo que envolve exposições, palestras, oficinas, peças de teatro, mostra de filmes, seminários, entre outros trabalhos. Alguns dias após a marcha e ainda embasbacado com a quantidade de besteiras defecadas por um pequeno número de bocas fascistas, somado a uma crescente criminalização dos movimentos e lutadorxs sociais, nada mais natural do que conhecer o memorial. A visitação é gratuita e rola de terça a domingo, entre 10h e 18h. Acostumado com uma cidade que prioriza prédios envidraçados em detrimento de prédios históricos, é uma surpresa o prédio dos anos 10 ser um museu e em ótimo estado de conservação. Quando comecei esse texto, a ideia era contar o que vi no memorial, mas como o rolê é muito bom, melhor deixar no gelo e quem quiser que vá lá conferir. O lugar não é gigantesco, mas é o suficiente para o que se propõe, com muita coisa para ler, vídeos e interatividade. Durante a copa será inaugurada uma exposição sobre o futebol na época da ditadura que vai ocupar outros espaços. Mas voltando ao que vi, o que impressiona é o fato de estar num lugar que possui uma história tão forte de luta, resistência e sofrimento. Em tempos de lei de segurança nacional e criminalização das lutas sociais, não é difícil imaginar uma estadia em lugares semelhantes. O presente repetindo os erros do passado... triste. Apesar de toda a seriedade que envolve o local, não é algo pesado, muito pelo contrário. Emociona, proporciona ânimo, desejo de mudança e consciência de que os riscos estão aí para serem enfrentados. Visita mais que obrigatória para punks (parem de correr apenas atrás de som!) e para todxs que de alguma maneira lutam por igualdade. E como ouvi no lugar, “resisti até onde foi possível...” Seguimos resistindo, até onde for possível. http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/


VÂNDALXS? SIM, SOMOS! Por Treva Vândalx, segundo o dicionário: s.m. Indivíduo dos vândalos, tribo germânica de bárbaros que invadiu o Império Romano no início do séc. V d.C. &151; Junto com outros bárbaros, os vândalos contribuíram para o declínio do império. Os vândalos provavelmente não eram mais destruidores que os outros bárbaros, mas a palavra vândalo passou a designar aquele que destrói ou arruína coisas valiosas. Vândalx, segundo o dicionário da revolta: pessoa que nutre ódio total ao estado e suas práticas terroristas e antidemocráticas. Apesar do que querem nos fazer acreditar, o Bra$il não é um país pacífico. A história do país está repleta de episódios violentos que se originaram na pilhagem promovida por Portugal, passando pelo extermínio de povos indígenas, escravidão, insurreições violentas e guerras civis. É claro que esses fatos não são divulgados, e quando o são, é de maneira superficial, quando não alterada, basta ver como são mostrados os bandeirantes, que nada mais eram do que assassinos e já há algum tempo aparecem como heróis, nomes de avenidas e rodovias. Um país com um passado repleto de violência nunca foi nem será motivado de orgulho para ninguém, mas conhecer a história real é um direito das pessoas. A manipulação da história tentou nos fazer acreditar numa farsa que é o mito do povo pacífico, sem preconceitos, amistoso, solidário, no país do futuro (sem passado e sem presente). Queriam que acreditássemos que as rebeliões ocorreriam apenas nos quintais dos outros, com suas frágeis democracias que não conseguiam entender e atender aos anseios populares. Esse processo de domesticação foi um trabalho muito bem articulado, envolvendo diversas frentes. A imprensa suja com suas matérias torpes, a escola ensinando a aceitar e obedecer, a polícia mantendo todxs na linha, o capital oferecendo uma infinidade de maneiras de alienação e o estado dando pequenas doses de direitos quando fosse de seu interesse. Era para acreditarmos que qualquer mudança viria apenas pelos conhecidos e permitidos meios legais e que outra forma de reivindicação seria uma ameaça ao estado de direito democrático (democrático para quem?). A fórmula estatal para manutenção dessa democracia de mão única era simples: obedecer, aceitar e nunca questionar; o estado é o centro de tudo, devendo ser obedecido cegamente, admirado, temido e nunca questionado, sempre atendendo em primeiro lugar aos interesses de terceiros e quase nunca aos interesses do povo. E ao menor sinal de agitação política vinda da população, a máquina de domesticação é colocada para funcionar com força total, deixando claro que essa agitação é errada e que a punição será exemplar. Não sou historiador/pesquisador, mas acredito que essa máquina tenha evoluído durante os anos, chegando a essa forma moderna que conhecemos durante o estado novo e depois transformada em arte durante a ditadura militar. Mas como diz aquele sábio ditado popular, “os dedos das mãos não são iguais” e as pessoas também não. O mesmo terrorismo de estado que vem sendo praticado há muito tempo e que serve para manter a maioria do povo “no seu lugar” é o que vem alimentando o desejo de mudanças radicais em muitas outras pessoas. Demorou, foi sofrido conviver com essa balela de nação ordeira e pacífica, de ver a subserviência sendo regra mesmo quando é eticamente impossível aceitá-la. O estado que estava acostumado a empurrar goela abaixo das pessoas leis, deveres e direitos que achassem convenientes ceder, foi pego dormindo e quando acordou as ruas já estavam tomadas por pessoas de saco cheio de toda essa podridão.


O gigante não acordou porque nunca esteve dormindo. Xs que se acham donxs do país é que estavam dormindo, mas nós não! Indígenas, quilombolas, trabalhadorxs sem teto, pequenxs agricultorxs sem terra, punks, juventude periférica, comunidade LGBT, feministas, lutadorxs pelos direitos humanos e não humanos, negrxs, anarquistas e tantos outros grupos que sempre estiveram de alguma maneira, envolvidos na luta social e sempre acordadxs. Os eventos iniciados em junho/2013 e que ainda perduram mostram que a história oficial e a história real são bem diferentes, felizmente. A onda insurrecionaria começou em Sampa contra o aumento de R$ 0,20 na tarifa do transporte e acabou se espalhando por todo o país. Dezenas de cidades foram sacudidas por manifestações, o que por si só é motivo mais que suficiente para que o estado parta para a repressão. Ao mesmo tempo em que aumentava a repressão, a pauta de reivindicações também se tornava mais abrangente, ainda que de maneira um tanto atrapalhada. Ver manifestações espontâneas acontecendo por todos os lugares, livres de dirigentes atreladxs a centrais sindicais pelegas ou partidos da esquerda carcomida e antirrevolucionária foi algo prazeroso. Ver pessoas doutrinadas pela política de dominação praticada há décadas pelo estado tentando questionar a própria existência e seus vícios sociais, questionando o estado foi importante; perceber que uma mudança é possível valeu cada minuto nas ruas. Ver a oligarquia tremer, foi surreal! Mas antes que a vontade de questionar se espalhasse pelo país como fogo em capim seco, a mão pesada do estado caiu sobre todxs nós, numa clara e desesperada tentativa de intimidação, tentando lembrar-nos que estamos aqui para obedecer sem questionar. Ledo engano! Estamos aqui para desobedecer, questionar, resistir e lutar. Desobedecemos, questionamos, resistimos e lutamos por nós, por quem já caiu, por quem ainda vai cair e por todxs que ainda virão! Com a brutal repressão, a máscara da democracia caiu e a verdadeira face do estado autoritário surgiu para todxs, sem distinção de etnia ou classe social, coisas normalmente usadas pelo estado para diferenciar o tratamento destinado à população. Mas essa repressão fez germinar uma semente plantada no solo fértil da insurreição anos atrás e que agora desabrochou com uma certa dose de fúria, para surpresa de muitxs. O final dos anos 90 e início de 00 serviu como porta de entrada de muita gente no ativismo, política e afins. Dias de Ação Global, manifestações contra a alca, g8 e fmi, manifestações antiglobalização e anticapitalismo. Talvez tenha sido nosso primeiro contato com a ideia de luta social globalizada. Nessas primeiras manifestações, um pequeno número de anarquistas e punks apareciam com os rostos cobertos, gerando alvoroço entre xs manifestantes, que xs olhavam como possíveis terroristas. Nada muito diferente do que aconteceu recentemente, com a coxinhada gritando “sem violência!” enquanto deduravam para a polícia xs manifestantes mais combativxs ou enquanto a mesma polícia despreparada descia a madeira em quem estivesse por perto. Só o fato de alguém pegar uma pedra era motivo para intermináveis discussões sobre o quão importante era que a manifestação fosse pacífica e ordeira. Só não avisavam a polícia que, como sempre, reprimia de maneira violenta. A não violência era tida como uma regra nas manifestações, a única tática aceita para confrontar o estado, ainda que esse tipo de tática não confrontasse nada, e mesmo assim, o estado com sua polícia sempre terminavam abusando da violência. Era muito difícil (e ainda é) conseguir explicar e convencer pessoas que manifestação não é desfile, que esse papo de manifestação pacífica e ordeira é um contra senso. Manifestação ocorre quando algo não está funcionando direito, por si só é questionamento, confronto. Manifestação não violenta é uma das possibilidades de ação e não a única. Sem contar que na maioria das vezes essas manifestações não violentas, no desejo de não romperem abruptamente com a ordem, acabam por servirem de instrumento na manutenção dessa ordem, sendo (in)conscientemente cooptadas pelo estado. É triste, mas manifestação estrita e unicamente pacífica dificilmente


traz resultados favoráveis ou empodera xs participantes, fazendo com que na maioria das vezes xs mesmxs continuem a ser apenas massa de manobra na jogatina política e alvos fáceis para a polícia. O único resultado que podemos esperar com manifestação pacífica e ordeira é que algum meliante do governo receba um grupo de manifestantes para um bate papo hipócrita, onde o representante da organização criminosa estatal escuta algumas reclamações, faz promessas e todo mundo finge ter chegado num consenso. Reivindicações atendidas, jamais! Afinal de contas, nenhum estado irá temer quem está implorando por direitos e a não violência acaba sendo um desserviço para a luta (independente de qual seja) e um ótimo reforço para o estado, que vê manifestantes reforçando a ideia de um estado detentor exclusivo do uso da violência, sempre usada contra a população e que segundo o manual da não violência, deve esquecer a autodefesa e contra-ataque para dar a outra face para apanhar. Sem contar que o estado ama manifestações pacíficas, porque é a chance que ele tem de dialogar com manifestantes, estabelecer regras em conjunto para o bom andamento da coisa e utilizar a máquina de propaganda para mostrar como ele é democrático, já que autoriza, dialoga e até ajuda com algo que está sendo realizado contra ele. Só para lembrar, alguém realmente acredita que as tarifas do transporte teriam sido reduzidas apenas com manifestações pacíficas? Claro que não! Os episódios de resistência, autodefesa e contraataque protagonizados por manifestantes também foram importantes. Interessante notar que as pessoas que repetem enlouquecidamente o mantra da não violência como única forma de ação são xs mesmxs de ontem e de hoje: manifestantes profissionais interessadxs em galgar degraus na escadaria da política progressista, pessoas da classe média e alta que conhecem e entendem de privações e violência estatal cotidiana tanto quanto eu entendo de física quântica e que no íntimo desejam manter seus privilégios, militantes políticos sempre temerosxs em perder o papel de vanguarda revolucionária e mais alguns sacos de lixo que se acham no direito de dizer onde e como lutar para pessoas com vivências completamente diferentes das delxs. Ao dizerem como lutar para pessoas com vivência e realidade completamente diferentes, podem até ganhar adeptxs, mas essa atitude paternalista e a postura de superioridade intelectual e intransigente frente a pessoas que usam e acreditam em diversas formas de luta, já demonstra o caráter (ou falta dele) dxs envolvidxs e uma postura hierarquizada. Pensando na máxima “o estado é que deve temer o povo e não o povo temer o estado”, a semente da ação direta foi replantada nessas manifestações, porque as sementes antigas, plantadas muito tempo antes e que já haviam germinado, foram destruídas como se fossem ervas daninhas, fazendo com que a ação direta entrasse em desuso e caísse no esquecimento. E em junho, ao germinar, uma nova leva de manifestantes teve contato com o ativismo combativo e participativo, não esse que a esquerdalha prega como verdade absoluta, de ficar caminhando e cantando para lá e para cá, dando pulinhos, acreditando que micareta meia boca é revolução. Essa nova leva de manifestante teve contato com a desobediência civil, cyber ativismo, black bloc, ação direta, escracho e um leque grande de opções de ações para confrontar o estado. As manifestações que começaram apenas questionadoras, logo foram reprimidas. No decorrer das semanas, o estado foi ficando mais intransigente e as manifestações subsequentes tornaram-se verdadeiras batalhas. Manifestantes, jornalistas (inclusive de veículos que sempre apoiam a repressão), advogadxs, enfermeirxs, pessoas que não estavam nas manifestações, ninguém escapou da barbárie promovida pela polícia, que brutalizou geral nas ruas. Lembram-se das imagens feitas de dentro de um apartamento na região central de São Paulo que foi alvejado por bombas de gás lacrimogênio? Pois é, sobrou até para quem estava em casa, com a corja policial usando e abusando da violência. Nas palavras de um colega, “era como se tivessem cheirado toda a cocaína do mundo e ido paras as ruas mordendo os lábios, com os olhos arregalados, procurando alguém para agredir, totalmente


descontroladxs, numa espécie de transe.” Imagino o governador ordenando a compra e distribuição de pó nos quartéis, como forma de motivar a tropa e os clones do capitão Nascimento berrando para os robôs perfilados “tropa, cada um receberá dois pinos de cocaína motivacional para ser usada antes de irmos para as ruas arrebentarmos esse povo estúpido que acha que pode reclamar. Se a operação for bem sucedida, se muita gente for presa e ferida cada um receberá mais três pinos como bônus. E se matarmos alguém... bom, o prêmio é surpresa.” Nesse momento, os olhos sem vida dos robôs chegam a marejar de tanta felicidade e um leve sorriso surge no canto da boca, junto com a saliva grossa e grudenta, parecida com a gosma da personagem Alien. O conhecimento sobre manifestações e tudo que envolve estar em uma, antes restrito a um pequeno grupo, de repente foi compartilhado. Na grande rede, pessoas leigas passaram a entender a necessidade de cobrir o rosto para não ser identificadas, o porquê do vinagre, equipamentos de segurança, filmagem de abusos cometidos pela corja policial e por aí vai. E é claro, conheceram autodefesa e a tática black bloc. É claro que teve gente usando a tática como forma de buscar emoções, a adrenalina do confronto, a correria. Mas foi uma minoria fácil de ser identificada e cobrada durante a manifestação. Quando digo cobrada, é uma troca de ideias, explicar que aquilo não é brincadeira e a adrenalina de uma pessoa pode significar a prisão de outrxs. Acredito que a maioria esmagadora leu e compreendeu a tática de autodefesa usada pelo black bloc. Esse pessoal entendeu que estar numa manifestação não é apanhar gratuitamente da polícia e aceitar isso como normal, ou pior, como acredita parte da esquerdalha, usar a agressão sofrida para criar heróis/heroínas, porque simplesmente não precisamos de disso, não precisamos de idolatria. Entenderam que o black bloc faz parte do povo e que sofre com as mesmas mazelas; entenderam que não estão na manifestação para agredir policiais (ainda que elxs mereçam apenas isso); entenderam que o ataque violento nunca deverá partir dxs manifestantes, mas que xs mesmxs sempre estarão prontos para se defenderem e defenderem quem estiver na manifestação, tentando retardar ao máximo a aproximação da meganhada nojenta. E com relação a danos ao patrimônio, muita choradeira por pouca coisa. Vidraça de agência bancária/rede de fast-food/concessionária de carros para a classe alta, viaturas policiais, carros da imprensa moribunda, ônibus, nada disso sente dor. Na boa, nem x policial sente dor. Afinal de contas, robô não é um ser senciente, é apenas lata sem cérebro programada para cumprir ordens. Estranho ver pessoas solidarizando-se a objetos inanimados, como se os mesmos tivessem sofrido dores horríveis ao serem destruídos. Quem sente dor é o povo que nada tem e quando cansa do descaso do poder público e decide reclamar, recebe como resposta a violência policial e toda sorte de barbárie. Nisso, uma nova leva de manifestantes surgiu. Deixando de lado a passividade, negando a velharia intelectual e boçal que acredita saber tudo e que nunca está nas ruas, buscando a horizontalidade nas relações, adquirindo informação por outros meios, se tornaram a pedra no sapato da classe política, imprensa e toda escória que ajuda a perpetuar a desigualdade no país. E é claro, surgiu um grande grupo de pessoas usando roupas pretas e cobrindo o rosto. Logo nas primeiras manifestações a mídia cobrou repressão, utilizando o discurso reaça de sempre. Mas quando essa insurgência se tornou ação direta combativa, ela enlouqueceu e deu início a uma campanha, focando ataques aos integrantes do black bloc. Dia e noite eram matérias criminalizando a tática, cobrando repressão e punição. O estado fez sua parte, reprimindo com mais violência, rasgando a constituição diversas vezes, forjando flagrantes que sempre foram tidos como verdadeiros pela mídia corporativa, mesmo que na sequência fosse comprovado sua inveracidade. Jornalistas, intelectuais, políticos e representantes da (in)segurança pública passavam horas defecando com a boca em diversos veículos de imprensa falando sobre xs vandâlxs, xs banderneirxs, xs terroristas. Tanto tempo gasto apenas comprovou o que já sabíamos: todxs têm o rabo preso e estão preocupadxs apenas com seus


interesses e não com xs nossos. E sim, somos um estorvo para essa cambada de desgraçadxs! Com a continuidade das manifestações, a quebra do monopólio do uso exclusivo da violência por parte do estado se fez necessário. A população entendeu que a segurança é algo importante numa manifestação e que essa segurança nunca virá com a presença da polícia, que saber se defender e contra-atacar faz parte e compreendeu que o estado não é intocável, que ele pode e deve ser questionado, combatido e destruído. Aquela vocação para rebanho foi deixada de lado, com manifestantes tomando para si a responsabilidade da manifestação, de suas lutas e de suas vidas, sem ninguém para intermediar, dizer como/quando e onde fazer. Afinal de contas, estar nas ruas participando de atos nunca foi para esmolar direitos, e sim reivindicá-los, cobrá-los. Direitos não são esmolados, são conquistados através de lutas. O chororô dxs enlameadxs pelo poder continuou. A esquerda putrefata e revoltada com a perda de protagonismo nas lutas sociais manteve sua campanha difamatória contra manifestantes combativxs e contra quem fosse simpático a elxs. Optaram por jogar no lixo um histórico de luta e combatividade de décadas em troca de governabilidade e de permanência estéril no poder, criminalizando e exigindo punição severa para xs adeptxs da tática do bloco negro e qualquer outrx manifestante que não aceite como verdade absoluta a tal manifestação pacífica, por cagarem montes para o discurso intelectualóide sem futuro de pessoas que em muitos casos, pouco ou nada conhecem sobre a realidade daqui de baixo, por serem independentes e não aceitarem serem doutrinadxs, não aceitarem líderes e nem hierarquia. E somando a esse coro, a mídia, eterna porta voz da elite, chorando pelo sofrimento e dor que o patrimônio privado e público sentiu. Mas ninguém chora pelas mazelas que continuam a ser promovidas pelo estado, mesmo sendo de conhecimento geral e queixas frequentes nas manifestações de junho para cá. Continuam a esbravejar contra a autodefesa e contra a ação direta, como se isso fosse violência. Violência é a farra com o dinheiro público para bancar megaeventos que não deixarão legados para a população (apesar do que disse a desequilibrada da presidente, estádio não é legado!), violência é a situação lastimável que se encontra a saúde/educação/transporte e habitação; violência é não poder entrar num determinado lugar por causa da classe social, cor da pele ou identificação cultural; violência é encontrar uma viatura cheia de vermes e temer pela própria vida sem nada dever; violência é ver a classe política legislando em causa própria; violência é a intolerância que cada vez mais se faz presente em nossas vidas e que não é combatida nem punida por quem teoricamente tem essa responsabilidade; violência são o pão e circo oferecido diariamente como se isso fosse o necessário para viver decentemente; violência é ser uma maioria que sobrevive enquanto uma minoria vive; violência é ter que implorar por direitos e mesmo assim só receber em troca repressão; violência é ser coagido a fazer parte do rebanho e ter que achar normal ser massa de manobra; violência é o que o estado tem nos oferecido por anos e que agora nos damos o direito de devolver; violência é atender aos pedidos de paz de pessoas que estão guerreando contra nós há tempos; violência é o genocídio que ocorre com o povo pobre; violência é a elite com suas manobras que perpetuam a desigualdade; violência é aceitar candidamente ao invés de lutar. Violência é a existência disso que chamam de estado. O que as pessoas têm feito é se defenderem com as armas que têm ao alcance e passar adiante suas reclamações e ideias através de ações, já que implorar não surte mais efeito e o diálogo não é mais desejado pelo estado. Destruir fachadas de corporações capitalistas, incendiar ônibus ou viaturas policiais (quem sabe num futuro próximo, incendiar xs próprixs policiais... churrasco de verme), saquear lojas de grandes redes, sabotagem, provocar danos etc, nada disso é capaz de se aproximar da violência e prejuízo que o estado tem nos oferecido cotidianamente durante nossa existência. O estado é violento e apenas com violência ele sabe agir e se lutar contra essa corja e seus interesses é ser vândalx, ficamos felizes em sê-lo! Somos vândalxs porque não trememos frente à repressão, não aceitamos seus desmandos,


sua incompetência, sua hipocrisia, não reconhecemos sua existência e utilidade. Somos vândalxs porque não tememos seu aparato midiático/repressivo/punitivo, porque não acatamos ordens e não reconhecemos a autoridade; somos vândalxs porque não existimos para pedir, existimos para lutar e reconquistar o que é nosso e nos foi roubado. Somos vândalxs porque somos livres. Nós sangramos, sentimos dor, temos medo, sofremos seguidas tentativas de privação de liberdade. Bem diferente dos objetos eventualmente danificados durante as manifestações e pelos quais a elite tanto sofre, chora e se une em torno de pedidos de punição para aquelxs que consideram os responsáveis. Mas entendemos essa atitude. Segundo uma fonte fidedigna, a parte alta da pirâmide treme frente uma manifestação e de uma possível contaminação geral da população. Sabem que se isso ocorrer, uma mudança radical na estrutura social pode ser vislumbrada logo à frente, o que não é de seu interesse. Desejam que tudo permaneça como está, cada grupo com seu papel muito bem definido, sem abalos ou mudanças na estrutura social. É por isso que fomos, somos e continuaremos a ser vândalxs, porque enquanto eles existirem, nós subexistiremos; enquanto eles viverem, nós sobreviveremos com migalhas. Somos vândalxs porque queremos tudo para todos e não para algumas pessoas.

Essa guerra não fomos nós que começamos, mas não temos a intenção de sair fora e abandonar a batalha. Manifestação é luta e luta não é desfile, não é balada, não é badalação. Luta é guerra e essa guerra, aqui no mundo real, é cotidiana. Pode ter copa, pode ter olimpíadas, pode ter qualquer lixo de megaevento, mas a guerra vai continuar. Que a chama da rebelião não se apague. Ódio total ao estado e a corja que o apoia.

ENTREVISTA – MOLLOTOV ATTACK VP – Quando surgiu a banda, influências e formação? Didi – A banda surgiu em setembro de 2005, com a formação Bollaxa (vocal/contrabaixo), Madruga (guitarra) e Didi (bateria). Na época nossas influências eram Ulster, DZK, Negative Control, Grinders, Ação Direta, Cólera, Calibre 12, Olho Seco, Garotos Podres e bandas internacionais como Black Flag, Misfits, Rasta Knast, Terveet Kädet, Rattus etc. Hoje em dia nossa formação atual é Bollaxa (vocal/contrabaixo), Wagner (guitarra) e Didi (bateria). Hoje escutamos de tudo um pouco, cada um tem sua influência. Escutamos muito Suicidal Tendencies, Slayer, Terror, Agrotóxico, Periferia S.A., Biohazard, Flicts, Cypress Hill, Nuclear Assault, D.O.A., The Casualties etc. VP – A banda possui alguns registros entre participação em coletâneas e lançamento próprio. Conte-nos sobre esses lançamentos. Didi – Nosso primeiro trabalho registrado foi a demo Consequências da Violência de 2008. Conta com sete músicas próprias, gravado no estúdio Sonic House em São Bernardo do Campo, gravado e mixado por Fernando Sonic House. Nossa primeira coletânea foi lançada pela Condenados Records em 2009 e chamava Destruição Total Vol. 1, conta com cinco bandas (Condenados, Grito de Rua, Falange Negra, Mollotov Attack e Los Fuertes). Participamos também de algumas coletâneas em blogs que a galera baixava por download da Garage Band Underground nos anos de 2010/2011. Já em 2012 lançamos nosso ep Resistência com a formação atual, que conta com sete músicas próprias e foi gravado no


estúdio Reverb em São Bernardo do Campo de forma totalmente independente, gravado e mixado por Jovani Silveira. Em 2013 saímos na coletânea Chaoz Day 2013 – Vivemos o Punk e é Isso que Somos!, lançada pela Casa Punk Records, cd duplo com vinte bandas. Em 2014 saiu o PUNK! Uma Liberdade de Escolha, lançado pela Condenados Records e T Rextudio, conta com doze bandas. E no momento estamos no aguardo do lançamento do tributo ao Nitrominds que já está saindo do forno. VP – Hoje em dia, com a facilidade do compartilhamento digital, muita gente acha que tudo deve ser de graça, que isso é postura anticapitalista e asneiras do tipo. Mesmo assim, a banda bancou o próprio cd. Vale a pena insistir no formato físico? Como convencer as pessoas que comprar material, colar (e pagar o ingresso) em gigs, enfim, fazer alguma grana girar no punk também é apoiar o movimento? Didi – Cara, essa é uma questão que a gente sempre bate na tecla. Minha opinião é: acho que sim, vale a pena, mas tem que gostar muito do que faz. Hoje em dia é tudo mais fácil com a internet, divulgação de show etc. Mas a gente sempre tenta resgatar aquele espírito anos 80/90 de divulgação, fazer acontecer, tá ligado? Entrar em contato com as bandas, organizar eventos pra galera etc. É isso que a gente faz há nove anos, estamos até hoje na cena, mas não dá pra sobreviver dela. É difícil convencer as pessoas, não fazemos muito isso, apenas fazemos acontecer divulgando bastante nosso trabalho, nossos flyers de shows, mas sempre pensando nessa parte, “será que a galera vai colar? Será que a galera vai pagar dez contos? Será que vão comprar nosso cd por cinco reais?” Já pagamos muitas vezes pra tocar e assim estamos resistindo. Com o lançamento do nosso ep tudo ficou mais viável pra gente, estamos fazendo grandes shows, abrindo pra bandas gringas, colhendo os frutos, mas lucrando apenas com nossos materiais (merchan), montamos sempre nossas banquinhas em nossos shows, vendendo nossos cds, camisetas, patches, coletâneas e essa grana sempre vira mais material pra própria banda e assim a gente tenta mudar a cabeça dessa galera nova, que quando vai ao nosso show, compra nosso cd e comparece em outros shows e é isso que faz a gente continuar até hoje. Mas hoje em dia tem poucos lugares que abrem as portas pras bandas independentes e a maioria dos picos que ainda estão abertos luta muito pra não fechar as portas. É difícil convencer a galera que é ela que faz acontecer? Não nós? Vamos comparecerrrr rapaziaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, vamos acordar!!!! Porque vocês apoiando o movimento a gente faz nossa parte. VP – E o clipe da música Atitude? Didi – Porra mano, essa foi um grande conquista e ela veio de uma forma que a banda nunca esperava. Foi ideia de um grande amigo, o Felippe Nicholas, que estudava produção audiovisual na Uniban-Anhanguera e de um trabalho de faculdade saiu nosso clipe, apresentou a ideia pro grupo e eles aprovaram a ideia, fizeram todo o roteiro, claro que com algumas ideias nossas, mas praticamente produzido por eles. Demos a ideia de usar o Estúdio Noise Terror como ambiente, eles gostaram e, enfim, em numa noite de quarta-feira gravamos o clipe em cinco horas. Foi uma experiência muito boa, nunca tínhamos feito um clipe e é muito diferente gravar e atuar hahaha. Mas foi muito legal, a galera gostou muito do trabalho, em três dias bombou o Youtube, chegando a mil visualizações, que pra gente, banda independente, é um número grande. E até hoje vejo que esse clipe abriu muitas portas para a banda, muita gente vê o clipe e vem parabenizando, hoje vem até nós fechar shows etc. Agradecemos até hoje o grupo pelo trabalho realizado. Clipe Atitude gravado por: Produção Geral - Felippe Nicholas

Câmeras – Ricardo Coutinho, Rodrigo Bajara

Iluminação – Ariele Alves, Ricardo Coutinho, Rodrigo Bajara


Roteiro – Ariele Alves, Amanda Maciel

Edição – Felippe Nicholas, Ricardo Coutinho

Assistente – Jackson Simão VP – Lendo as letras do cd Resistência, elas parecem seguir uma linha mais direta e simples, fugindo daquele lance erudito, tipo aula de sociologia. É isso mesmo ou viajei? Didi – Kkkkkkkkkkkk caralho, que viagem hahahaha. Bom, a pegada da banda sempre foi essa, letras fortes e atualizadas, letras de protesto sempre fizeram parte da banda, jogamos todo nosso ódio e indignação em nossas letras, percebe bem em Malditos Nazista, escrevemos também muitas vezes sobre acontecimentos reais como em Traidor, uma forma direta sem violência de afetar quem já te fudeu um dia, sendo simples quando gritamos “ataque, ataque o molotov” rsrs ou quando falamos da juventude que está prestes a encontrar muitas barreiras pela frente em Garoto Mollotov, ou quando mandamos um já basta pra tudo e todos. Porra, agora eu que viajei hahaha... mas isso tudo formou o Resistência. Gosto de todas as letras, sou suspeito pra falar, mas certeza que essas letras são bem melhores que uma aula de sociologia. VP – Ainda sobre as letras, imaginei a garotada lendo e ficando no veneno para colar em uma manifestação, já que algumas têm a ver com esse lance de ação direta, da resistência. Vocês acreditam que as letras tem um poder de conscientização, que podem fazer alguma diferença? Didi – Eu acho que sim mano, tipo de atacar o molotov na música Atitude ou em O Meu Grito!! Que fala bem sobre isso, “O MEU GRITO IRÁ ECOAR. POR TODOS OS OUVIDOS E TÍMPANOS A ESTOURAR, EM UMA SÓ VOZ IREMOS GRITAR MAIS E MAIS, ATÉ A GUERRA ACABAR”. Acho que a galera que curte leva sim esse lado nosso de gritar pros protestos, mas acho que isso já vem de anos atrás, hoje que a galera estourou e não aguenta mais tudo o que vem acontecendo em nosso país, saindo às ruas para protestar. Eu acho que foi uma coincidência mesmo as letras bater com o que vem ocorrendo hoje em dia, mas porra, se entrou na cabeça de alguém, quer dizer que estamos passando nossa mensagem da forma certa, continuamos na luta. É só se vestir de garoto mollotov e sair metendo fogo pelas ruas rsrsrsrsrs. VP – Sabemos das dificuldades que envolvem a música independente no geral, e em especial, o punk. O que pode ser feito para ajudar a estruturar e melhorar o funcionamento dessa cena independente e do punk? Didi – Temos que nos unir cara, não tem outro jeito. Bandas ajudando bandas, fazendo acontecer, realizando shows, coletivos se unir, fazer palestras e eventos chamando a galera pra comparecer etc. A cena anda muito apagada, mas a agente que vive da cena sabe que isso é algo normal, sempre tem seus altos e baixos na cena independente, tem aquele ano que bomba de show e outros não. Acho que isso é normal e com o tempo volta tudo como antes, mas o importante é que todos estão fazendo sua parte até hoje e essa chama nunca se apagará. VP – Com relação à gigs, elas estão rolando ou a coisa está devagar? Didi – Contando com poucos espaços, até que a cena vem acontecendo bem em 2014. Aqui no ABC são poucos os picos que abrem as portas, dá pra contar nos dedos, mas todo mês tem evento rolando por aqui. Hoje em dia temos muitos contatos de bandas, sempre rola convite para shows, sempre um ajudando o outro, você me chama pra tocar na sua cidade e eu te chamo pra tocar na minha, tá ligado? Em São Paulo as gigs rolam direto, praticamente todo final de semana tem shows e no interior vejo a cena mais forte, digo de público, a galera comparece em peso, fica pra ver todas as bandas, tá ligado? Não sei explicar essa diferença,


mas cada região tem sua cena né... mas até que estamos tendo grandes eventos em 2014. A cena está acontecendo, não tenho o que reclamar. VP – Skate e punk sempre estiveram associados por diversos motivos e a banda, muitas vezes, é associada a esse esporte. Vocês andam de skate? Didi – Porra mano, lógico! Somos de São Bernardo do Campo, pra mim a capital do skate. Todos os integrantes já andaram de skate. Wagner é mais old, andava pra caralho, hoje em dia já aposentou o carrinho. Bollaxa andou também, andei muito de skate com ele quando estudávamos juntos, mas também já aposentou o carrinho. Já eu andei alguns anos, sempre aquela coisa, andava e parava, voltei legal no final de 2008 andando direto, deixando as manobras na base, mas em 2009 tive uma torção feia no pé e tinha que tocar no final de semana, aquilo me deixou muito cabreiro, saca? Toquei com o pé fudido e parei novamente de andar, mas hoje em dia posso dizer que não aposentei o carrinho, mas não ando como antes, deixo ele sempre no carro e em uma melhor, dou um rolezinho suave, nada de mais. Mas o skate está sempre presente em nossas vidas. VP – Mollotov Attack faz parte de uma geração não tão nova de bandas que ajudam a manter vivo o movimento punk na região do ABC. Vocês indicam alguma banda nova para o pessoal conhecer? Didi – AxCxBx de São Bernardo do Campo, são parceiros de mili anos e formaram a banda seis meses atrás, já estão fazendo show, já estão com um set legal e já estamos convidando eles para tocar junto conosco, dando aquele incentivo. Tem também os parceiros do Vozes de Combate de Mauá, esses já são veios de guerra na estrada, são ex-integrantes do 88 Não!, The Drunk, Facción de Sangre, vale muito a pena conferir. Tem o pessoal do Desacato Civil, dividimos o palco em nosso último show, galera faz um puta hardcore, tem umas bandas de um coletivo que a gente faz parte, o coletivo Nada Pop, que vale a pena citar também, Luta Civil e Dissidentes, bandas novas que me lembro são essas mano. VP – O espaço é de vocês para deixarem o recado. E obrigado pela entrevista. Didi – Primeiro lugar, agradecer ao convite de vocês, nosso muito obrigado pelo espaço, puta atitude de vocês em fazer acontecer, ganhou nosso respeito. Queríamos agradecer também um cara que nos ajuda nessa nossa caminhada que é o grande Barata, que dispensa apresentação... esse aí é nosso padrinho, muito obrigado. Ao Leandro do Skate For Life que vem registrando nossos shows e que está nos dando muita ajuda na divulgação do nosso trabalho. Agradecer a cada um que cola em nossos shows, compra nosso material, a todas as bandas que dividimos o palco em todos esses anos e nossas famílias e amigos que nos dá força pra continuar sempre e dizer também que já estamos produzindo um novo trabalho que deve sair em 2015 se tudo der certo. Ano que vem o MxAx completa dez anos, seria um puta presente, músicas novas já estão prontas, gravamos uma pré no estúdio do Fábio (Sistema Sangria e Ódio Social), ficou muito foda e logo logo vem novidade por aí. Quem quiser conferir é só comparecer em um show nosso que algumas músicas novas já estão no set do show. Valeu rapaziadaaaaaa, unidos somos mais fortes!!!!! Nosso muito obrigado, família MxAx agradece.

https://www.facebook.com/bandamollotov.attack?fref=ts https://www.facebook.com/pages/MOLLOTOV-ATTACK/176033969133691?fref=ts http://www.youtube.com/watch?v=jV8-LuYgAPo


RESENHA Por Treva Estado Alterado – Estado Alterado A banda Estado Alterado foi formada em meados de 1995, na zona norte de Sampa e tem como formação atual Ricardo Fernandes (vocal), Edson Igari (guitarra/vocal), Guaraci de Oliveira (guitarra), Juliano Santos (baixo) e Danilo Bortolotti (bateria). Nesses nove anos a banda já participou das coletâneas Vamos nos Unir Para o Sistema Destruir (1995) e SP Punk Vol. 3 (1997), além das demo tapes Estado Alterado (1998) e Demo 2012, que é a que tenho em mãos. Parece que a banda passou um tempo de molho e recentemente voltou com força. Talvez por isso, você, garotinhx leite com pêra que recentemente se envolveu com o punk e já acha que sabe tudo, que quando cola no rolê só cumprimenta quem é de banda e fica fazendo beicinho quando não é paparicadx, não conheça a banda e quando ver o cd ou os caras, vai torcer o nariz, achando que é hardcore de boy. Pois está enganadx! Aqui o lance é hardcore rueiro, aquele onde honestidade e humildade são reais e não apenas palavras bonitas, onde a ideia para trocar é mais importante do que o visú estourado ou a roupa mais descolada. Musicalmente, é o hardcore anos 90, com toques de metal e algum groove, o que pode levar xs desavisadxs a pensar em algo do tipo machinho core, mas nada a ver. Aqui a velocidade tem lugar garantido, letras conscientes e sem postura de crew bunda mole ou macho core. É como está escrito na contracapa da demo, “montaremos resistência, se necessária armada, até que todas as correntes sejam quebradas”. Isso é hardcore! A qualidade da gravação ficou bacana, parte gráfica simples, mas com informações suficientes (até porque nos dias de hoje pouca gente está preocupada em ler essas infos). São seis sons com destaque para + Estádios + Corrupção = Saúde-Educação e Belo Monte (Anúncio de uma Guerra), que além de músicas fortes, possuem letras muito boas. Na Belo Monte ainda rolam duas vinhetas, uma no início com uma fala da guerrilheira reacionária que é presidenta dessa republiqueta e no fim uma do sindicalista sem dedo, dando uma ideia do desprezo que rola com a causa indígena. Pois é, se você tiver chance de ver a banda em alguma quebrada, não perca a oportunidade. E aproveita para comprar a demo, porque vale a pena e você está contribuindo para a manutenção da cena.

https://www.facebook.com/estadoalteradohc/about https://www.facebook.com/ExAxHxC https://www.youtube.com/channel/UCTRmoF76Th4ZUD2QwJ1kREA/playlists http://estadoalteradohc.bandcamp.com/


GIGS Por Treva Ideocrime, Discurso de Pobre, Ímola, Coke Bust – 10/01/2014 – Estúdio Preset – São Paulo/SP

E 2014 começa com notícia de várias bandas vindo tocar nessa terra zicada, algumas de maneira independente. Isso significa rolês com preço decente, material variado e diversão garantida. Bom, isso para quem deixar de viver o punk na frente do computador. A bagaceirice começou com o Coke Bust, que está fazendo um rolê até que grande pelo país. Só em Sampa foram quatro gigs e mesmo assim, um bom número de pessoas apareceu nessa para prestigiar. Essa turnê já começou muito falada graças a um bafafá gigante que rolou nos últimos meses na cena straight edge paulistana, envolvendo algumas estrelinhas em atos de elevada escrotidão ( se quiser saber o que rolou, é só ler aqui http://denunciamachismosxesp.blogspot.com.br/). Havia esperança que a ética e coerência com o discurso falassem mais alto e não houvesse a participação das estrelinhas na organização de alguma gig, tocando com suas bandas ou apenas colando no som. Infelizmente a falta de vergonha na cara e a passação de pano falaram mais alto e alguns dos machos alfas deram o ar da graça. Pois é, o lamaçal é bem maior do que se imagina e pelo jeito, todos serão perdoados e tudo será esquecido em nome da atitude rardicóri frouxa que é a marca característica dessa ceninha de merda. Vergonha! Ideocrime foi a primeira banda a tocar. Horas antes, a rapaziada disponibilizava seu mais recente material, intitulado Abismo, que é um arregaço! Como cheguei atrasado, só vi as duas últimas músicas. Apesar de o local ser minúsculo, pareceu-me que boa parte do pessoal estava lá dentro para prestigiar a banda. Na sequência teve Discurso de Pobre. A banda mistura grind com NYHC, algumas vocalizações de rap, abusando do peso e com uma estética vida loka. Nem é o tipo de som que faz minha cabeça, mas não deixa de ser interessante ver o hardcore atingir um público diferente, fugindo da mesmice branca, hétero, beatx, classe média e metidx a integrante de crew. A única coisa chata foi a presença de dois rosckeiros de praça querendo girar os bracinhos e dar voadoras num local pouco maior que um banheiro. Isso fez com que algumas pessoas deixassem o espaço para que os dois pudessem bailar à vontade. Encerrando a participação local, rolou Ímola. Vi de leve a apresentação da banda, que foi um pouco prejudicada pelo fato do pessoal ter ficado do lado de fora, descansando e esperando pelos gringos. Finalizando o rolê, Coke Bust. O local que é pequeno ficou minúsculo com tanta gente dentro. Então, imagina quando começaram a agitar. Vejo essas bandas gringas e elas sempre me parecem ligadas ao punk, seja pelo discurso/atitude e pelos patches/camisetas que seus integrantes usam e nenhum pouco ligadas ao rardicóri playba bunda mole daqui. O set foi intenso, com muita agitação, e novamente os dois rosckeiros quiseram aparecer tanto ou mais que a banda, aproveitando-se dos seus tamanhos avantajados e jogando-se em cima das pessoas, tentando fazer dancinhas de axé e coisas do tipo. Como disse entre dentes uma garota, nada que uma faca não resolva. O set acabou sendo curto devido a uma pane no equipamento e como o horário já estava adiantado, a festança foi dada por encerrada. Primeiro rolê do ano e o saldo foi positivo. Que continue assim.


Cadáver em Transe, Anti-Corpos, Alarm - 25/01/2014 – Serralheria – São Paulo/SP Num final de semana extremamente movimentado com diversos rolês, incluindo alguns de graça e ato contra a copa, foi gratificante ver um número bacana de pessoas prestigiando essa gig. Além dos diversos rolês, a data é aniversário de Sampa, um dia que as quadrilhas intolerantes gostam de ficar pelas ruas, o que significa possibilidade de confronto. Xs franceses do Alarm estavam fazendo uma turnê pelo sul/sudeste e centro-oeste, algo até raro, já que normalmente as bandas tocam em SP e RJ. E como companheirxs nessa gig, tiveram Cadáver em Transe e Anti-Corpos. Quando cheguei, Cadáver em Transe já estava terminando seu set. Então, nem sei o que rolou. Na sequência teve Anti-Corpos e apesar de estar de frente para o palco, estava em companhia de meus pensamentos, filosofando sobre os eternos porquês da vida e nem vi nada. Mas meus pensamentos foram chutados para longe com a fala de uma integrante do Coletivo Feminista Non Gratxs e de uma integrante da banda, sobre a atitude escrota de alguns bunda moles da cena sXe (http://denunciamachismosxesp.blogspot.com.br/). Na boa, as duas falas foram ríspidas (como deve ser nesses casos), colocando o dedo na ferida e cavoucando com força, inclusive gerando mal estar em algumas pessoas presentes que mantêm contato com os machinhos. Só pelas falas e o que causou, já valeu estar no lugar, mesmo que não tenha prestado atenção no set. Bom, depois das voadoras nxs hipócritas, era hora de ver Alarm. A mostrou-se muito simpática e feliz, mandando um punk rock lindo de se ouvir. Apesar do clima amistoso, dos sorrisos, a plateia não agitou como estamos acostumados a ver quando o assunto é punk, ficando mais de boa, dançando calmamente e aplaudindo entusiasticamente a banda a cada final de música. Estava tão legal que parece que tocaram cinco músicas, de tão rápido que passou o tempo. E quem ainda cultiva o interesse pela cultura punk e gosta de conhecer bandas novas e/ou diferentes e apostou nesse rolê, com certeza saiu no lucro. Rolê bacana com preço decente, bandas bacanas e clima legal. E ainda é janeiro. Torcer para que o ano tenha muitos rolês iguais a esse.

1984, Ataque à Jugular, Juventude Maldita, Sarjeta – 02/02/2014 – Ceifeiros MC – São Paulo/SP Domingão preguiçoso graças ao calor pique Saara que fazia na cidade, mas com som e de graça. Depois de muita enrolação à procura de coragem para encarar o sol, hora de seguir para o pico e como o som estava marcado para começar às 15h00minhs e já eram 16h00minhs e nem no busão eu estava, achei que veria uma ou duas bandas. Para minha sorte, rolou um atraso e vi todas as bandas, com exceção da Vingança ’83 que não tocou por problemas extracampo. Esse som era para comemorar o aniversário do Zóio (Ataque à Jugular) e o bang tinha clima de festa, todo mundo descontraído, papeando. Sem contar que o lugar é aberto e a galera ficava nas calçadas tomando um ar fresco, o que criou um clima de bate-papo com música ao vivo. E esse clima rolou por todo o tempo, o que fez com que todas as bandas tocassem tendo muita gente do lado de fora. Mas isso não atrapalhou em nada o rolê. A primeira banda a se apresentar foi 1984. Segundo o vocalista Bruno, estavam sem ensaiar a algum tempo e por isso não ficaram inventando, tocando músicas próprias e covers. Ataque à Jugular veio na sequência, mantendo a energia e o clima festivo. Destaque para o


baixista Natan, o punk mais elegante da cidade, que mesmo com o calor “saaresco”, se manteve elegante como sempre. Pausa para arrumar o equipamento, aproveitar para hidratar a carcaça e dá-lhe Juventude Maldita. Galera cantando junto e pulando, mas em minha opinião, o que mais chamou atenção foram as ideias mandadas pelo Demente entre as músicas. É claro que cada pessoa entende como bem quiser o que foi dito, mudando o sentido conforme seus interesses pessoais, mas se prestaram atenção no que ele disse e tiverem a humildade de refletir, pode ser que aconteçam mudanças positivas na cena, porque elas são necessárias e urgentes. Encerrando a festa, rolou Sarjeta. A banda deu azar, já que algumas pessoas já tinham ido embora e as que ficaram, permaneceram do lado de fora conversando ou se preparando para sair fora. Mesmo assim, banda não se abateu e mandou sua mistura de punk rock e ska para quem permaneceu no local. Domingão bacana, com boas conversas, boa música. Esperamos que o Zóio viva muito tempo para continuar nos presenteando com esse rolê.

Who’s My Saviour, Rot, Wojczéch – 12/02/2014 – Zapata 339 – São Paulo/SP Quarta-feira, três bandas de grind (sendo que duas eram da Alemanha) e a lembrança ruim de ver Agathocles ano passado em Ferraz de Vasconcelos tocando para ninguém, serviam de alerta para outra iminente tragédia. Afinal de contas, bangers e punks com frequência dão sinais de frouxidão sonora aqui em Sampa, ficando numas de escutar apenas Iron Maiden ou The Adicts, como se nada tivesse acontecido musicalmente depois dessas bandas em seus respectivos estilos. Pois é manolxs, e não é que dessa vez o pessoal decidiu praticar o que prega e colar no som. Deixaram o mundo virtual para apoiar essa tal cena de que tanta gente fala e o resultado foi que o Zapata estrumbou de gente, para a felicidade geral. Who’s My Saviour e Wojczéch estavam em turnê até que grande, sendo que só em Sampa seriam três gigs. Por isso foi extremamente agradável e surpreendente ver o lugar cheio num dia útil. Quando cheguei, o coração já disparou ao ver as banquinhas que vendiam materiais... só coisa linda! A banda Who’s My Saviour já estava tocando. Grind mais para o metal (em minha opinião), com mudanças no andamento e até alguma firula melódica. A plateia manteve-se tranquila, observando durante boa parte do set. Na sequência teve Rot, que não via desde 2007. A banda passou um tempo hibernando e voltou ano passado. E que volta! Continua sendo uma das bandas mais fodas quando o assunto é grindcore, e o lugar que estava tranquilo, virou um caos de tanta gente espremida, voando, se debatendo e transpirando. Rot continua sendo uma máquina de moer. Após o término da apresentação, foi um tal de gente anunciando ter perdido/achado celular, carteira e máquina fotográfica. Legal ver a honestidade das pessoas em devolver os objetos achados. Inclusive eu achei o pertence de um desafeto, que ao recebê-lo de volta de minhas mãos, fez cara de tamanha tristeza que provavelmente preferia ter ficado sem, a receber de volta justo de minha pessoa. Azar o dele! O cara é tão mala que ficou reclamando que o pessoal estava muito violento na roda durante o set do Rot. Só para constar, não teve treta ou coisa parecida. Encerrando a noite desgracenta, rolou o impronunciável Wojczéch, voltando a tocar no país depois de um porrada de anos. Depois do atropelo que foi o Rot, faltou energia para a maioria continuar agitando. Muita gente foi descansar na área externa, o que deu uma esvaziada na frente do palco. Já no final do set, o pessoal voltou a agitar. Bizarro foi ver o vocal que estava razoavelmente embriagado, jogando o pedestal no meio do pessoal. Sorte dele todxs estarem


muito educadxs nessa noite, porque o bundão merecia ter recebido o pedestal de volta bem no meio da testa, para deixar de ser besta. Poser! Enfim, uma noite foderosa para quem curte (anti)música realmente feia e torta.

Ideocrime, Fear of the Future, D.E.R., Skárnio, Final Trágico de um Início Decadente – 14/02/2014 – Triball Underground – Barueri/SP Depois de semanas com calor intenso e, de quebra, sem uma gota d’água a cair, justo numa sexta com rolê é que desabou o mundo na Grande SP. A chuva bem que tentou sozinha espantar o pessoal do rolê, mas ela teve ajuda. Na zona norte de Sampa tinha rolê com Who’s My Saviour e Wojczéch de graça e na área central tinha Steve Drewett. Isso fez com que o rolê ficasse dividido. Mesmo assim uma galerinha (que poderia ter sido maior) apareceu em Barueri. Depois de um atraso monstruoso, Ideocrime começou a noite de música feia. Rolaram alguns problemas com o som, mas que foram sanados. Apesar da violência das músicas, não teve jeito, o pessoal estava comportamento e se limitava a aplaudir ao término de cada som. A situação continuou a mesma com Fear of the Future. Eu até entendo que o local não é convidativo para agitar, já que tem o palco mais estranho que já vi (teto baixo, palco comprido, estreito e tem uma viga que acredito ser de sustentação bem no meio... ficou pornô a descrição do palco, mas é assim mesmo!). Isso faz com que, tirando o batera, todos fiquem na área onde ficaria o púlbico e aí, qualquer esbarrão já complica o bang. D.E.R. veio na sequência com muita brutalidade grind, mas nada de agitação por parte do pessoal. Nisso, aproveitei e fui ver a apresentação da parte de cima da local. A visão é bem legal e me fez viajar vendo o batera Barata. É muita rapidez, viradas e sei lá mais o que o rapaz faz, e sem fazer careta! Sem contar o boné do Coringão que usava. Pois é, mas como punk tem que se foder, tomar no cú, a puliça apareceu dizendo ter recebido uma reclamação e acabou o som. Nada de Skárnio nem Final Trágico. Porra, 2014 e ainda acontecem essas fitas. Até o som ambiente foi reduzido para uma altura que era para fazer todo mundo ninar. Na boa, se um local não pode funcionar durante toda a noite, que não funcione. E se pode, o lance é esfregar na fuça do gambé o alvará de funcionamento e já era! O que não vira é ficar uma cota dentro de trem e metrô, pagar ingresso e ficar sem ver todas as bandas por questões técnicas da casa. Pelo menos poderia ter rolado uma explicação para quem ainda estava presente, para evitar ficar rolando especulações. Enfim, 4h00 da manhã, com aquela frustração básica por não ter visto duas bandas por questões técnicas da casa, é hora de voltar pro cafofo. Valeu pelas três bandas que tocaram e pelas conversas com pessoas que não via há algum tempo.

Blööd and Bones, Rastros de Ódio, Maldita Ambição, Ódio Social, Sistema Sangria, Herdeiros do Ódio, Kill Bill, Dischaos – 15/03/2014 – Centro Cultural do Jabaquara – São Paulo/SP

Sabadão, tempo bom, som de graça com várias bandas e em local de fácil acesso. Mesmo tendo outros eventos na cidade, uma galera razoável apareceu para prestigiar o evento. Bom, prestigiar naquelas, já que a maioria preferiu ficar do lado de fora durante todo o evento, fazendo com que as bandas se apresentassem para uma pequena parcela dxs presentes. Triste essa nova realidade, mas se isso anda acontecendo até quando tem banda gringa e o


evento é pago, imagina quando é na faixa. Talvez esse pessoal acredite que colar e ficar embaçando do lado de fora seja apoiar a cena e eu é que esteja desatualizado dessas novas práticas. Sei lá, pessoalmente acho que se é para apoiar dessa maneira, melhor ficar em casa. Desse jeito, logo não vai fazer sentido organizar gig tampouco ter banda. E como sou chato, faço outra observação: no local, que é um centro cultural, tinha uma exposição sobre a África, no mesmo piso onde seria a gig. Pergunta se alguém teve interesse em ver a exposição? Adquirir conhecimento pra quê, né? Com um atraso básico, a ingrata tarefa de começar a barulheira ficou para Blööd and Bones, banda nova em existência e na idade dos integrantes. Tocaram para pouca gente, já que ficar de papeando do lado de fora é mais a cara (e pra que apoiar banda nova, né?). Rastros de Ódio veio na sequência e mandaram um set curto, já que ainda iriam para a zona leste de Sampa tocar num evento que teria a participação da Misa Histérica (Chile) entre outras bandas. Sair de BH e tocar para meia dúzia de pessoas sabendo que tem gente a beça na rua deve ser extremamente decepcionante. Maldita Ambição também mandou um set curto, empolgando xs poucxs interessadxs quando tocaram um cover do Extreme Noise Terror. Quando o Ódio Social começou a tocar, por incrível que pareça, muita gente decidiu entrar no pico, tendo uma galera em quantidade razoável prestigiando e agitando. Agora como um trio, com o guitarrista Leandro e o baixista Fábio dividindo os vocais, mas sem interferir em nada no som, detonaram um set energético e ainda mandaram de lambuja um cover do Olho Seco. E a porradaria continuou com Sistema Sangria e Herdeiros do Ódio, que inclusive contou com o seu antigo batera, Pudim, dando uma força na ausência do Kayame. Reta final do rolê, Kill Bill, uma mistura de grind/death/thrash e hc, tocou para poucas pessoas. Talvez pelo fato do som ser metal demais para a maioria que lá estava, além do horário, acabaram prejudicados. E encerrando teve Dischaos. A banda está com nova formação (vocal e baixista), mas continua foda! Também foram prejudicados pelo horário, que fez com muita gente fosse embora para não perder o transporte público. Evento legal, bandas bacanas, local decente e o pessoal apareceu. Só faltou prestigiarem as bandas.

Distürbia Cladis, Stench of Death, Altercado – 26/03/2014 – Zapata 339 – São Paulo/SP Quarta-feira com banda gringa tocando no Zapata já se tornou tradicional. E por ser durante a semana, algumas vezes acaba colando pouca gente, outras enche e assim caminha a humanidade. Nessa quarta em questão, o local não encheu. Uma possível explicação seria o fato de diversas bandas gringas terem tocado em Sampa no mês de março, fazendo com que punks tivessem que escolher o rolê que mais lhe agradassem. Mas quem colou nesse com certeza curtiu. Mas antes de falar sobre as bandas gostaria de comentar algo. Sabemos o quanto é treta organizar um evento, ainda mais de maneira independente, sem contar que pode acontecer algo que fuja ao controle, o que acaba por atrapalhar o bom andamento do rolê. Mas são de praxe os atrasos e parece que ninguém se importa com isso. Quando é num fim de semana, normal, mas numa quarta-feira é osso! Muito tem se comentado e debatido sobre apoiar a cena, colar em eventos e coisas do tipo. Todxs são responsáveis pelo funcionamento dessa cena, cada um tem sua responsa nisso que vivemos que é o punk e cabe a quem organiza um som fazer o possível para que o mesmo comece no horário, para que todas as bandas possam tocar tranquilamente e que o pessoal tenha a chance de ver todas as apresentações. Ninguém cola numa gig pensando em sair fora sem ver a última banda. Muitas vezes esses atrasos servem como fator desanimador para as pessoas colarem, dependendo de onde resida.


A noite começou com Distürbia Cladis. Fazia tempo que não via uma banda de metal e essa foi de cair o queixo. Sempre fico com um pé atrás quando dizem que tal banda é metalpunk. Acho um termo meio “moda” ou talvez eu seja chato pacas. Enfim, vou ter que rever minha visão sobre o termo. Distürbia Cladis tem tudo aquilo que de mais feio o metal proporcionou e que tanto gostamos: Motörhead, Venom, Hellhammer, Sodom e por aí vai, com uma dose monstruosa de punk sujão. O resultado é peso e rapidez na dose certa, alguma melodia, vocais até que limpos e letras em português. E ainda vendem um material muito bacana, camiseta e patch com estampa linda, fora o recém-lançado split com o igualmente foda Fear of the Future. Na sequência teve Stench of Death. Na real, na sequência teve um baita embaço e depois é que rolou o Stench. Sei lá qual foi, acho que o equipamento estava fazendo graça. Só sei que demorou muito pro Stench começar sua apresentação, o que deixava o pessoal de olho no relógio. Talvez pela demora e a preocupação de todxs com o horário, o clima estava morno, mesmo com toda a brutalidade da banda. Já eram umas 23h00 quando os chilenos do Altercado estavam prontos para tocar. E como zica não tem fim, apareceu um gambé com aquela cara de “tem propina aí?”, fazendo com que atrasasse mais um pouco e nisso algumas pessoas vazaram para não perderem o transporte público. Quem ficou viu uma apresentação energética, ainda que prejudicada pelo horário avançado e público reduzido e morno (foi uma constante em todas as apresentações). Tirando as zicas, mais um belo rolê conhecendo outras bandas, com boa conversa (valeu Cainã!), preço acessível e sem patifaria.

Subexistência, Dispaxo, Armagedom, Terveet Kädet – 23/04/2014 – Zapata 339 – São Paulo/SP

Finlândia... Finlândia... ahhh, como eu gosto de você! Pois é, mais uma banda nascida no mocó irmão do Brasa vem para a parte sul do hemisfério mostrar qual é da música feia e torta, e de quebra, ministrar gratuitamente algumas aulas de humildade (coisa que muita banda daqui parece ter esquecido, se é que algum dia já teve). E gente, que coisa linda! Já fazia muito tempo que a ideia de ver uma banda não me deixava ansioso. Conheci a banda nos anos 80, através de uma entrevista do Sarcófago. Imagina que assombro era uma banda de death/black, usando corpse paint e visual estourado, com um baterista moicano e dizendo que tocavam Terveet Kädet. Ninguém entendia nada, mas essa mistureba é uma coisa que só a tosquice e uma dose cavalar de falta de noção (levando em conta o contexto d época) conseguiam fazer. Isso numa época que headbangers e punks resolviam suas diferenças na rua, nada de rede social para ficar de mimimi. Dessa entrevista para a aquisição de algumas fitinhas piratas de qualidade duvidosa da banda mineira, que tinham a tal cover, até chegar ao primeiro registro da banda finlandesa, o álbum Black God, foram alguns anos. Deixando o sentimentalismo de lado e adiantando a minha biografia em alguns anos, chegamos aos dias de hoje. Logo que chego ao pico do som, a impressão foi de que ficaria vazio, pouca gente na calçada, primeira banda tocando e a notícia de que os gringos ainda estavam no aeroporto. Pronto, o pessimismo já deu o ar da graça e fiquei pensando nas coisas que não faço, tipo rezar antes de dormir, frequentar a igreja, respeitar as autoridades etc. Por isso seria punido com a banda atrasando sua saída do aeroporto e não tocando. Mas foi só um susto, no fim tudo deu certo.


Subexistência foi a primeira banda a tocar, infelizmente, para pouquíssimas pessoas. O som começou por volta das 19h00mim e muita gente não havia chegado. Mesmo assim a banda respeitou quem estava por lá e mostrou o porquê de estar na ativa por vinte cinco anos. Na sequência teve Dispaxo, mandando um grind/crust bruto para as poucas pessoas que continuavam presentes. Rolê durante a semana tem dessas, a galera chega atrasada por diversos motivos e quem toca primeiro acaba sendo prejudicado. É claro que se quem estava do lado de fora entrasse, teria uma galera um pouco maior para prestigiar as duas bandas. Mas em Sampa tornou-se comum ficar do lado de fora enquanto bandas tocam para ninguém, e mesmo assim todo mundo diz apoiar a cena. Melhor sorte para as duas bandas numa próxima oportunidade, porque elas merecem. O Armagedom tocou com a casa bem mais cheia e isso fez mudar a cara do evento. Vi a banda algumas vezes e sempre me pareceu faltar algo, mas com essa formação isso parece ter ficado no passado. Tudo aquilo que a Força Macabra sonha em fazer: peso, rapidez e um clima de punks da morte no ar. E por falar em rapidez, algumas pessoas podem estranhar os sons antigos sendo tocados bem mais rápidos, podendo até dizer que descaracterizou o som, mas acho que ficou bacana, dando um novo gás para os caras. E fechando a noite, Terveet Kädet. Nessa altura do campeonato, o lugar já estava cheio e manolxs, que foda! Os caras chegaram horas antes e já estavam detonando no palco, sem dó nem piedade. Foi um tal de cerveja voando nas pessoas, gente caindo e cantando num finlandês marciano... coisa de louco! Até um ícone do pilantrismo nacional apareceu para relembrar sua juventude punk, quando ainda era um rapaz provido de cérebro. A apresentação foi curta, mas tão intensa que ninguém teve do que reclamar. Além da aula de brutalidade no palco, rolou aula de humildade com os caras trocando ideia, tirando foto, dividindo breja com o pessoal antes e depois da apresentação. Bem diferente dessa cambada de pau no cú daqui com suas bandas rip off, que sempre vem com aquela conversa de cena, de movimento, mas na hora de viver a realidade do Movimento Punk de um país de terceiro mundo, começam com a choradeira na internet. Enfim, uma data que ficará na lembrança de quem estava presente nesse que foi o primeiro feriado no asilo punk de uma série de feriados que virão nos dias subsequentes. E semana que vem tem Mob 47. Aguenta coração!

Óbitto, Rot, Armagedom, Conquest for Death, Mob 47- 02/05/2014 – Clash Club – São Paulo/SP Suécia… Suécia… como eu gosto de você! Quem, em sã consciência, um dia imaginaria que Terveet Kädet e Mob 47 estariam excursionando por aqui, com datas acontecendo em cidades vizinhas e por vezes, na mesma noite e até dividindo o rolê? Com certeza, pouquíssimas pessoas, mas está rolando. Bom, dias depois de levar um baita atropelo do Terveet Kädet, era hora de encarar o Mob 47. Primeira vez da banda tocando na parte sul da América Latrina, preço justo, participação de bandas foderosas, tudo para lotar e ser um evento caótico. Sexta-feira, a cidade estava com cara de feriado prolongado, início do barulho programado para as 18h00min, ansiedade a mil e lá vou eu para o local. E dá-lhe surpresas! Mesmo sendo dia (semi) útil, a cidade estava razoavelmente vazia e calma, já que muita gente emendou. Mesmo assim, achei que fosse rolar um atraso, para não prejudicar quem trampou no dia. Só que após o barulho iria rolar outro evento no lugar e o horário de início foi respeitado, fazendo


muita gente (inclusive eu) perder o Óbitto e o Rot. Só lamentos! A segunda surpresa foi ver que o lugar não iria estrumbar, talvez pelo fato da banda ter várias datas em cidades próximas (sem contar que Terveet Kädet também circulava pelo estado). E encerrando as surpresas desagradáveis, foi ver a presença do Forrest Gump do pãnqui paulistano pagando de roadie e fazendo cara de bosta. Lixão! Focando na parte agradável do rolê (depois de muito lamentar não ter visto as duas primeiras bandas), Armagedom subiu ao palco e detonou um set que pareceu meio acelerado, talvez pelo fato do horário apertado. Apesar da energia que vinha do palco, o pessoal estava frio, limitando-se a acompanhar os sons com um leve sacudir de cabeça e a aplaudir ao fim de cada som. E para quem está acostumado a ver bandas punks tocando com um som não tão alto, o Armagedom mostrou que a escola motörheadiana de volume no talo cai muito bem no punk, porque o som estava alto. Na sequência teve o retorno do Conquest for Death, que tinha estado por aqui em 2011. Fugindo do óbvio, a banda também tocou no nordeste e norte, o que é muito bacana. Tiveram uma apresentação cancelada em Sampa dias antes, então os caras estavam no veneno e se o local estivesse cheio, teria sido um caos. Imagina palco baixo, sem grade, é sonho de consumo! De qualquer jeito detonaram suas músicas curtas e rápidas com muita movimentação no palco, pique hardcore aeróbico, com pulos e vocal pendurado no equipamento. E xs punks e afins presentes finalmente decidiram agitar, ainda que timidamente. Fechando o rolê, Mob 47. Nossa, sem palavras! Quando começaram os primeiros acordes de Stop the Slaughter, meus cabelos do sovaco ficaram arrepiados de emoção. Apresentação fodástica, galera cantando em “suequês” e agitando de boa, como deveria ser sempre, sem gente imbecil dando cotovelada na maldade e achando que isso é ser foda. Estava mais na cara que bigode que o ponto alto seria quando tocassem Animal Liberation e foi emocionante ver todo mundo cantando junto. Vale frisar que no mosh pit (ou pogo, no caso dxs puristas), mulheres e homens agitaram juntos, sem necessidade de ficar apenas olhando a banda e batendo palminhas. O mosh pit/pogo não oprime as pessoas, ele une! Digo isso porque tem gente vomitando regras, querendo reinventar o rolê segundo suas verdades absolutas e isso é um saco! Se for para apenas ver as bandas, melhor ficar em casa, escolher um bom dvd, deitar no sofá e curtir o rolê na televisão. Rolê cabuloso, bandas bacanas, chance de rever pessoas que há algum tempo estavam sumidas, fartura de material, clima de camaradagem. Nesses momentos que acredito que é possível um rolê forte, independente, politizado e unido. A esperança é a última que morre.

Virada Cultural: Agent Orange – 18/05/2014 – São Paulo/SP Podem falar o que quiserem, mas a Virada Cultural é a cara de Sampa, com o que a cidade tem mais bacana e escroto, sem falso moralismo ou maquiagem. Famílias, grupos de amigxs, pessoas de diferentes classes sociais compartilhando o mesmo espaço, pegação, exagero no consumo de drogas lícito-ilícitas, violência, sujeira, gente bodeada pelas ruas, gambés para tudo quanto é lado, cheiro insuportável de urina e por aí vai. O sociólogo de botequim diria que é uma representação do estado democrático, socialmente desigual e policialesco. E tem a parte cultural, que tenta agradar a todxs. Quem manja da Virada diz que esse ano a coisa toda foi fraca, e a julgar pelo que vi, foi mesmo. Uma rápida circulada pela região central para ver que não tinha tanta gente nas ruas (pelo menos na hora que eu estava) como em anos anteriores. Ano passado foi noticiado à exaustão casos de violência, corpo mole (com motivação política, segundo dizem) da polícia e talvez isso, somada a uma não tão interessante programação, tenha desmotivado o público.


O Agente Orange estava marcado para as 09h00min, mas pelo meu relógio começaram um pouco antes. Chegando ao Palco São João, para minha surpresa a banda já estava tocando e tinha pouca gente. Pois é, quem viu o clipe gravado pelo Suicidal Tendecies na Virada de 2012 iria ficar decepcionado com o público reduzido. Não sou bom em calcular a quantidade de pessoas usando apenas o “zóiometro”, mas deveria ter umas duas mil pessoas. Pouquíssimxs punks, alguns bangers, muitos skatistas da velha e nova geração, gente que nem sabia do que se tratava a banda e xs sempre presentes rockeirxs de praça. Na boa, a Virada Cultural deve ser o grande evento para xs adeptos do rockismo de praça, visto a grande quantidade de presentes em todas as edições e independente de qual estilo rockístico esteja no palco. Na real, não manjo nada da banda, com conhecimentos próximos do zero. A única coisa que lembro de cara é um cover chatérrimo do Johnny Rivers que sempre tocou nas rádios rock de SP. Mas como a vida de pobreza está foda, não custa nada acordar cedo para ver a banda tocando gratuitamente. Tratei de arrumar um lugar não muito longe do palco, com uma boa visão e distante da muvuca, visto que eu ainda estava dormindo. Entonces, a banda fez uma apresentação energética, ora mandando sons mais rápidos, ora sons com influência de surf music, agradando a galera presente que aplaudia entusiasmada. Sem conhecer o som da banda, passei o tempo todo boiando e só reconheci os covers do Joãozinho Rios (que continua chato), The Ventures e Dead Kennedys. Mesmo assim valeu o rolê, vi uma banda dos anos 80 sem a necessidade de ser assaltado com preço de ingresso padrão fifa. E quando já estava me retirando, vi uma banca de lixos (daquele tipo aberração especial e nacional, que tem muitx pankeka sem vergonha que ainda troca ideia) chegando, filmando tudo e todxs, obviamente caçando assunto. Pena que os garis já tinham passado por lá, senão poderiam ter levado esse povo ideologicamente confuso para as latas de lixo e dela para algum aterro.

POESIAS MARGINAIS Por Karl Straight Regras Regras impostas pela sociedade

Um calor agradável, uma sensação de liberdade

Devemos ser quem realmente somos Apenas deixe seu instinto se manifestar Devemos libertar a luz ou a escuridão que há dentro de nós Não viva pelos outros, viva por você Angústia e medo tomam contam de todos

Não temos o poder de mudar alguém

A mentira cairá em quem julga

E nisso sinto como se o mundo morresse todo dia

Apenas sinta e procure entender

Sinto-me como um pássaro que voa libre no céu azul


Por quê? Para Quem?

Nada Está Morto

Eu sempre sonho com algo que gera esperança.

Eu sempre sonho com algo que gera esperança.

Por que tantos miseráveis? Por que tantos pesares?

Nunca nada está morto.

Para quem as dores? E as feridas sem cura? Por que as guerras sem sentido? Por que este mundo de fome? Para quem seu olhar sem esperança? E para quem seu discurso vazio? Sua mentira consome à vista de todos

Viva com o momento presente, porque dele todo seu futuro. Não esqueça que somos o reflexo daquilo que pensamos. O que não parece vivo está na sombra, à espera. Lembre-se que uma vez proferida a palavra, nada mais a destrói.

Por que tantas pessoas oprimidas? Por que essa tirania dos governantes? Motivo Por que, se no fim todos estarão mortos. Nesse incompreensível mundo Os dias dos seres humanos estão contados. Por que? Para quem? Se no fim todos estarão mortos!

Temos dúvidas e não temos respostas. Buscamos paz nesse mundo sombrio Onde coisas acontecem sem explicação Onde muitos se dizem felizes

Qual é o Problema? Qual é o problema? Meu corpo não funciona, sangra, lateja, dói, envelhece, incha. Não consegue ver, ouvir, está apodrecendo. Qual é o problema? Mas é tudo o que você criou: pensamentos infectados que destroem a vida. Perda de mobilidade mental, qual é o problema? A dor que me consome neste mundo doente.

Mas o que é verdadeiramente a felicidade? Qual nosso papel nesse mundo? Sofrer? Perguntas e respostas ficam a vagar em nossas cabeças E esperamos... um motivo para viver.



Vivência Punk n° 2