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CADERNO DEZ!

QUEM É OBAMA Nome: Barack Hussein Obama Partido: Democrata Nascimento: 4 de agos to de 1961, no Havaí. Família: casado desd e 1992 com a advogada Michele Obama, com quem tem as filhas Ma lia, 10, e Sasha, 7. Formação: ciência po lítica pela Universidade Columbia, [1983] e dir eito, por Harvard [1991] Carreira: senador de Illinois [1997 a 2004] e senador federal [desd e 2005]

SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 16/9/2008

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O castelo

de

NA REAL ❚ Senador que

oxigenou política americana posa de líder de uma geração

Obama

VITOR PAMPLONA vpamplona@grupoatarde.com.brl

No avião em que cruza os céus da América durante sua campanha à Casa Branca, Barack Obama viaja cercado de jornalistas. Dividido entre garfadas em um pedaço de salmão grelhado e as perguntas da horda que pretende arrancar dele tudo que estiver por baixo de sua couraça política, o senador de primeiro mandato do Estado de Illinois interrompe a refeição para dar atenção total aos gravadores. Um repórter pergunta: “Qual seria a face do poder americano exibida pelo presidente Obama?” Após uma pausa, Barack Hussein Obama Jr., 47, primeiro negro indicado por um grande partido à presidência dos Estados Unidos, responde: “Se eu for a face da política americana e estivermos lidando com uma crise, você poderá dizer: ‘o presidente ainda tem uma avó morando em uma cabana às margens do lago Vitória, no Quênia, e uma irmã metade indonésia, que é casada com um chinês-canadense’. As pessoas irão julgar que o presidente deve ter uma idéia melhor do que está ocorrendo em nossas vidas e em nosso país. E estarão certas”. Publicada em novembro de 2007, a resposta é repetida desde que Obama decidiu lutar pela indicação do Partido Democrata. Seu objetivo: convencer eleitores e analistas de que a ruptura com a política conservadora proposta por ele é lastreada por sua própria trajetória de vida. É uma biografia única na história dos candidatos à presidência nos EUA, chamada por muitos de “pós-racial”. Filho de uma americana branca e um queniano negro muçulmano, Obama nasceu em Honolulu, no Havaí, e passou a

“Ele tem o potencial para reatar as relações dos Estados Unidos com o mundo” Thomas L. Friedman, colunista de política externa sobre Barack Obama ❚

infância em Jacarta, Indonésia. Fez direito na Universidade de Harvard, panteão da elite acadêmica, virou protestante e iniciou sua carreira política como líder comunitário em Chicago. São credenciais que seduziram a América liberal, sobretudo pós-11 de setembro. Muitos americanos, lembra o professor Gunther Rudzit, doutor em ciência política pela USP, acreditam que a política antiterrorismo de George W. Bush só prejudicou a imagem do país no mundo, disseminando ódio e inspirando mais inimigos. SEDUÇÃO – Mas nem só de história de vida e idéias tolerantes vive um candidato democrata ao cargo mais disputado do planeta. Para vencer Hillary Clinton nas primárias – o que parecia impossível um ano atrás, quando ela liderava as pesquisas com margem de 20% – e se tornar uma alternativa real de poder, Obama aliou sua retórica sedutora a uma cuidadosa seleção de colaboradores e conselheiros políticos. Seus discursos emotivos, cheios de alusões à “mudança” e a uma “nova era em Washington”,

somados a um lento trabalho de bastidores, pavimentaram sua ascensão meteórica dentro do partido. E transformaram Barack Obama numa estrela midiática. Nos EUA, ninguém duvida que ele é o preferido da imprensa. A questão é: por quê? “A política de Bush, depois da guerra do Iraque, criou grande desconfiança em relação aos EUA sobre temas com democracia, liberdade e direitos humanos”, diz Carlos Milani, professor do Laboratório de Análise Política Mundial da Ufba. “Obama tem um discurso de respeito a esses princípios”. “Ele tem o potencial para reatar as relações dos Estados Unidos com o mundo”, escreveu ainda em abril de 2007 o colunista do New York Times Thomas Friedman, autor de best-sellers sobre a globalização. ESTRELA – Há um agravante. Esta é a primeira eleição americana em que a informação ultrapassa a TV, os jornais e os comunicados oficiais dos partidos. Para viabilizar sua candidatura, Obama estava no lugar certo e no tempo certo: o da internet total, dos blogs e do You Tube [criado há distantes três anos]. Pela rede, sua campanha se aproximou do eleitorado jovem e recrutou um exército de doadores, que financiaram uma estrutura de comunicação capaz de tornar o nome Barack Obama audível aos ouvidos americanos. “Ele é um fenômeno da comunicação na política. Sua popularidade vem daí”, acredita o professor Rutzig. Com um discurso pregando a igualdade e a tolerância, Martin Luther King, outro negro idealista, entrou para a história. Anunciando a novidade na política em outra era de tensões – a Guerra Fria –, outro senador novato, John F. Kennedy, foi eleito presidente. A Casa Branca era, então, chamada de Camelot – nome da corte do Rei Artur. Apresentando-se como herdeiro destes legados, Obama espera erguer seu próprio castelo.


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A UNIÃO FEZ A FORÇA Alguns dos presidentes dos EUA comparados com Barack Obama Abraham Lincoln Tinha experiência de apenas dois anos no Congresso antes de ser eleito. Apesar disso, manteve a unidade dos EUA durante a Guerra Civil. É um dos “pais fundadores” do país.

Franklin D. Roosevelt Presidente preferido de Obama, enfrentou a Grande Depressão após a quebra da Bolsa de Nova York [1929] e acordou o New Deal, plano que recuperou a economia dos EUA.

Na Casa Branca, o canivete suíço Desde os ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos tiveram uma única política externa e uma única estratégia de segurança nacional , orientadas pela visão de mundo de George W. Bush e seus ideólogos da ala neo-conservadora republicana. Eles conceberam a doutrina da “guerra preventiva” contra países, pessoas ou grupos potencialmente ameaçadores. Na prática, a idéia é atirar antes e perguntar depois. Mas, se Obama for eleito, é improvável que seu governo afaste totalmente a via militar nas crises. Sua política externa, defendem experts em segurança do Partido

“A via militar é a mais custosa. Quero usar as outras” Barack Obama, candidato à Presidência dos EUA ❚

Democrata, deve ter as virtudes de um canivete suíço: precisa oferecer ferramentas diferentes para lidar com situações diferentes. “Espere diplomacia, sanções comerciais e, só em último caso, a força militar”, disse Anthony Lake, seu principal consultor de política externa, em entrevista ao jornal britânico Financial Times. MENOR CUSTO – Barack Obama é admirador confesso da política de segurança americana dos tempos da Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a União Soviética viviam como gato e rato, embora nunca em confronto direto. “Em política

McCain e a pit bull que veio do frio Nas últimas semanas, no caminho de Obama para a Casa Branca, apareceu uma “barracuda”. Apelidada com o nome do peixe por causa de seu franzir de lábios, Sarah Palin, governadora do Alasca escolhida para vice na chapa republicana, balançou o coreto da campanha democrata, que só via flores no caminho até Washington. Definida por ela mesma como uma “pit bull de batom”, Palin energizou a militância republicana com seu discurso bastante crítico a Obama na convenção do partido, há duas semanas. A princípio, o estafe democrata até gostou: durante a fala de Palin, mais de US$ 10 milhões em doações foram arrecadados para Obama. Mas, ao ver o resultado das pesquisas pós-convenção, a campanha democrata tremeu: alavancado pela “pit bull”, McCain havia assumido a liderança da corrida. Nos Estados Unidos, não ganha

# US$

10

milhões foram doados para Obama durante o discurso de Sarah Palin.

2%

é a vantagem de McCain pela média das pesquisas. O republicano tem 47,3%, contra 45,3% de Obama. Fonte ❚ Partido Democrata e Real Clear Politics

a eleição quem apenas tiver mais votos. É preciso ter mais delegados no chamado colégio eleitoral, que soma os votos por Estado. Cada um tem peso específico, definido conforme a população. “Obama largou na frente. Ele tem Estados de grande peso eleitoral onde sua vitória é dada como certa”, acredita Gunther Rudzit, doutor em ciência política pela USP. “Projeções apontam que, se conquistar um ou dois Estados indefinidos, como Ohio, Flórida ou Michigan, ele ganha a eleição”. O problema está aí. Com um discurso que ecoou fundo no interior dos EUA, onde o país tem raízes conservadoras, Sarah Palin despertou a direita contra Obama. O eleitorado conservador nunca deu grande apoio a McCain, que cultivou fama de independente no Congresso. “Mas, se ele votar em massa nos estados-chave”, diz Rudzit, “Obama fica ameaçado”.

externa, a via mais custosa é a militar, sobretudo quando dispomos de armas nucleares. Quero usar todas as outras menos custosas”, tem explicado durante sua campanha. Dos principais concorrentes à Casa Branca [ele, Hillary e McCain], foi o único a se opor o tempo todo à guerra no Iraque. Mas, com a proximidade da eleição e as críticas sobre sua capacidade de liderança, Obama deu uma guinada à direita. Desistiu da retirada imediata das tropas no Iraque e anunciou que pretende aumentar o contingente no Afeganistão. O ’canivete suíço‘ mostra sua face mais cortante.

John F. Kennedy Último senador eleito presidente, é famoso por seus discursos emotivos e pela grande popularidade obtida após a eleição. Além disso, foi um defensor dos direitos civis.

CAMPANHA NA REDE A presença da internet na eleição americana pode ser medida no You Tube, onde existem dezenas de vídeos oficiais e não-oficiais dos candidatos. Na parada de sucessos, Obama largou com o clipe Yes, We Can, estrelado por rostos conhecidos do cinema e TV. Procure também por I Have a Crush On Obama [Eu tenho uma queda por Obama], em que a personagem Obama Girl leva às últimas conseqüências sua paixão eleitoral pelo senador.


O castelo de Obama