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OPINIÃO EDITOR

Vitor Hugo Soares

| OPINIÃO | opiniao@grupoatarde.com.br

ARTIGOS

A obsessão da juventude VITOR PAMPLONA

O analista de Francis Ford Coppola, cineasta mais conhecido na minha geração como o pai de Sofia, parece estar se debatendo com um mesmo problema há oito anos. Ao menos, é o que induz texto publicado na Folha de S.Paulo, no qual se transcreve a apreensão de Coppola com a possibilidade de nunca mais conseguir fazer um grande filme, à altura daqueles que produziu nos anos 70, quando era jovem. Exceto para o jornalista que proclamou as lamúrias do diretor de Apocalipse Now como se fossem notícia de última hora, quando as reflexões coppolianas invadiram a blogosfera há cerca de um ano, a convivência entre os homens e as assombrações do processo criativo não tem nada de destemperada. A tendência de explicar a decadência de um artista reproduz a falta de argumentos para defendê-lo. Fala-se muito para não se explicar nada. E, embora haja razões de sobra para crer no exorcismo dos demônios como tratamento de saúde, a reinvenção da roda é objeto recorrente de esforços desde que a roda foi inventada. Sem querer recorrer a Paulo Francis – “a humildade é o último recurso do fracassado” – por respeito à biografia e aos vinhos do pai de Sofia, cabe ao biógrafo da arte contemporânea reservar um capítulo para o crônico tema da busca pela juventude perdida. É razoável supor que, ao longo dos anos, o valor das idéias varie a depender das circunstâncias. Mas as idéias não precisam ser necessariamente

novas para ser boas. Esta não é uma conclusão pós-moderna, retirada de tratados sobre a multiplicidade do olhar na estética da contemporaneidade. Muito antes de teóricos hippies se divertirem tentando fundir a cuca incauta de leitores inebriados, gente menos atormentada preferiu, ainda que sem saber, seguir o conselho de Faulkner em Palmeiras Selvagens e ter a coragem para sobreviver na luta. Ora, se a verdade do escritor veterano correspondesse aos resquícios das primeiras linhas, Machado de Assis seria lembrado como crítico teatral. Se o ímpeto da juventude fosse de fato decisivo para o dramaturgo consagrado, Nelson Rodrigues não teria silenciado o coro formado por seus jovens críticos com um simples “envelheçam”. Caso a idade estivesse de alguma forma vinculada à criatividade, Clint Eastwood, para citar um caso evidente dos nossos dias, não teria realizado os seus melhores filmes depois dos 70 anos. A conclusão é de uma obviedade de ruborizar os detratores das incontestáveis máximas do futebol: o jogo, não raro fique modorrento ou pareça fava contada, só termina quando acaba. Mas não só de neuroses pessoais se faz um inconsciente coletivo. A obsessão pela reinvenção da roda é muito mais que uma afinidade eletiva. É compreensível que seja objeto de distração enquanto durar o frescor do arrebatamento juvenil. À primeira dobra da espinha dorsal, porém, é recomendável empregar as energias em busca de um pneu melhor. Vale para o cineasta Coppola e muita gente mais.

VITOR PAMPLONA ❚ Repórter de A TARDE Online. E-mail: vpamplona@grupoatarde.com.br

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A obsessão da juventude  

Artigo publicado na editoria de Opinião do jornal A Tarde, sobre a ideia de grandes artistas não serem capazes de repetir na velhice seus gr...

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