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vitor Mizael


Portifรณlio


Sem título - da série Diorama III Mostra do Programa de Exposições 2014 Centro Cultural São Paulo Site especific com carros abandonado recolhidos pela Prefeitura de São Paulo Novembro 2014- Fevereiro 2015


Sem título - da série Diorama Instalação realizada no 13º salão nacional de artes de Itajaí - SC Fuscas abandonados + cintas de alpinismo + escoras 550 (alt) - 650 (larg) - 400 (prof) cm 2013


Sem tĂ­tulo - da sĂŠrie Diorama Vitrina do MASP Site-specific com animais emprestados do Museu de Zoologia da Usp Setembro - Dezembro de 2014


Diorama Instalação realizada na exposição Ponto de Convergência (exposição dos ganhadores do 22º Salão Anapolino de Arte) Desenho sobre madeira+pássaros taxidermizados+grama natural 2016


Diorama Instalação realizada na galeria BlauProjects Desenho sobre madeira+pássaros taxidermizados+grama natural Agosto- Outubro de 2014


Sem título Instalação de parede Resina, madeira e tapetes 2017


Sem título Instalação de parede Resina, madeira e tapetes 2017


Sem título - da série Diorama Instalação realizada no Projeto Fidalga Pássaros taxidermizados + lâmpadas Novembro 2015 Fevereiro 2016


Sem título Objeto Pássaro taxidermizado + lâmpada 2016


Sem título Instalação realizada no 22º Salão Anapolino de Arte - Primeiro Prêmio Pássaros taxidermizados + prumos de centro Julho 2016 - Setembro 2016


sem título instalação realizada na galeria 6+1, em Madrid - Espanha pássaros taxidermizados, fios de aço e pêndulos Fevereiro - Março 2013


Sem tĂ­tulo Objeto Prumos de centro + palavras 2017


sem tĂ­tulo pĂĄssaro taxidermizado e gesso 20 x 20 x 30 cm 2012


Sem tĂ­tulo Fotografia Nanquim sobre papel 60 cm (h) x 90 cm (v) 2016


Sem título Intalação de parede realizada na exposição «A luz que vela o corpo é a mesma que revela a tela» Caixa Cultural RJ Tinta acrílica sobre caixas de madeira + cabos de aço + suporte para plantas 2016 / 2017


Sem tĂ­tulo Desenho Nanquim sobre papel 21 cm (h) x 90 cm (v) 2017

Sem tĂ­tulo Desenho Nanquim sobre papel 21 cm (h) x 180 cm (v) 2017


Sem tĂ­tulo Desenho Nanquim sobre papel 90 cm (h) x 60 cm (v) 2016


Sem título Instalação realizada na Exposição Ficções Caixa Cultural RJ 21 caixas de madeira com desenhos à grafite 2015


Sem título Instalação de parede - SP Arte 2015 caixas de madeira com desenhos à grafite 2015


Sem título Instalação de parede - Art Rio 2015 caixas de madeira com desenhos à grafite 2015


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela montada em caixa de madeira 200 cm (v) - 320 cm (h) 2014


Sem tĂ­tulo Desenho sobre caixa de madeira 250 x 320 cm 2014


sem título acrílico sobre madeirite 100 cm (v) - 100 cm (h) 2016

sem título acrílico sobre madeirite 50 cm (v) - 60 cm (h) - cada 2016


«Gabinete» Exposição realizada na Temporada de Projetos 2013 do Paço das Artes Abril - Junho de 2013


«Gabinete» Exposição realizada na Temporada de Projetos 2013 do Paço das Artes Abril - Junho de 2013


sem tĂ­tulo grafite sobre caixas de madeira medidas variĂĄveis 2013


sem tĂ­tulo grafite sobre caixas de madeira medidas variĂĄveis 2013


sem tĂ­tulo grafite sobre caixa de madeira 215 cm (h) x 90 cm (v) - 15 cm (prof.) 2013


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela 100 (v) x 200 (h) cm 2013


«sem título» Conjunto de trabalhos do acervo da BlauProjects - SP 2013


sem título desenho instalado Exposição «The summer is on» - BlauProjects desenho a grafite sobre caixas de madeira medidas variáveis 2013


sem tĂ­tulo graďŹ te sobre caixa de madeira 60 (v) x 60 (h) x 60 (prof.) cm 2013


sem tĂ­tulo graďŹ te sobre caixa de madeira 200 (v) x 30 (h) x 15 (prof.) cm 2013


sem título acrílico sobre tela 90 cm diâmetro 2013


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela 150 x 200 cm 2013


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela 150 (v) x 180 (h) cm 2013


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela 150 (v) x 200 (h) cm 2013


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela 150 (v) x 245 (h) cm 2013


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela 150 (h) x 245 (v) cm 2013


Exposição «Taxonomia», na ZipperGaleria - SP Curadoria de Mario Gioia Agosto - Setembro de 2013


Exposição «Taxonomia», na ZipperGaleria - SP Curadoria de Mario Gioia Agosto - Setembro de 2013


Exposição «Taxonomia», na ZipperGaleria - SP Curadoria de Mario Gioia Agosto - Setembro de 2013


Exposição «Taxonomia», na ZipperGaleria - SP Curadoria de Mario Gioia Agosto - Setembro de 2013


Exposição «Taxonomia», na ZipperGaleria - SP Curadoria de Mario Gioia Agosto - Setembro de 2013


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela 245 - 150 cm 2013


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela (tinta dourada e azul) 150 (v) x 200 (h) cm 2012


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela (tinta dourada e bronze sobre fundo verde) 245 - 150 cm 2013


Exposição «Taxonomía» Galeria 6+1, Madrid - Espanha Fevereiro - Março 2013


sem título instalação realizada na feira de arte JustMad13 Galeria 6+1, Madrid - Espanha Fevereiro 2013


sem título instalação + pintura realizadas na feira de arte JustMad13 Galeria 6+1, Madrid - Espanha Fevereiro 2013


sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela 250 - 174 cm 2011


etapas do processo de trabalho

sem tĂ­tulo acrĂ­lico sobre tela 155 - 180 cm 2011


sem título - série esotérica (tríptico) nanquim sobre papel 13,5 - 20,5 cm (cada) 2011


sem tĂ­tulo nanquim sobre papel 150 - 330 cm (cada) 2011


sem tĂ­tulo nanquim sobre papel 13 - 20 cm (cada) 2011


sem tĂ­tulo nanquim sobre papel 30 - 42 cm (cada) 2012 - 2013


Gabinte I Instalação realizada na “RedBull House of Art” medidas variáveis 2011


sem tĂ­tulo nanquim sobre papel 66 - 97 cm 2010


sem tĂ­tulo nanquim sobre papel 66 - 97 cm 2010


auto.retrato acrĂ­lico sobre tela 165 - 150 cm 2010


auto.retrato acrĂ­lico sobre tela 100 - 70 cm 2010


Conjunto de trabalhos apresentado na exposição «Eu fui o que tu és e tu serás o que eu sou», no Paço das Artes - SP (nanquim sobre papel em caixa de madeira) Outubro-Dezembro de 2012


Autorretrato nanquim sobre papel, montado em caixa de madeira e vidro 250 - 120 cm 2012


auto.retrato acrĂ­lico sobre tela 400 - 174 cm 2009


autorretrato nanquim sobre papel 29,7 - 42 cm (cada) 2005 - 2009


autorretrato nanquim sobre papel 29,7 - 42 cm 2005 - 2009


autorretrato nanquim sobre papel reciclado 10 - 07 cm (cada) 2010 - 2008


autorretrato acrĂ­lico sobre tela 160 - 190 cm 2007


autorretrato acrĂ­lico sobre tela 160 - 190 cm 2007


autorretrato acrĂ­lico sobre tela 150 - 70 cm 2007


autorretrato acrĂ­lico sobre algodĂŁo 120 - 140 cm 2007


autorretrato acrĂ­lico sobre tela 70 - 150 cm 2007


Auto.retrato I e II - dĂ­ptico nanquim sobre papel 70 - 100 cm (cada) 2010


Autorretrato gravura em metal - รกgua tinta e รกgua forte 50 - 20 cm (cada) 2004


Algumas imagens manipuladas utilizadas na instalação

Autorretrato Instalação realizada no SESC Pompéia - SP backlights + radiografias manipuladas digitalmente 20 m x 3 m x 4m 2006


Auto.retrato instalação 12º salão paulista de arte contemporânea guarda-roupas e vídeos 1200 (alt) - 180 (larg) - 100 (prof) cm 2008


Projetos


Monumento Inverso - Referenciando à estatuária heróica eqüestre, montado sobre andaimes emprestados da área de construção civil, a uma altura variável de acordo com o local da montagem, estará uma réplica de um cavalo em posição de trote. - Diferentemente da tradicional estatuária eqüestre, nesta montagem o cavalo estará posicionado com as patas para cima, e preso ao andaime com cintas de amarra de cargas. - A imagem do cavalo será tomada da estatuária monumental pública da cidade de São Paulo, como o Monumento à Independência, no Ipiranga, ou o Monumento à Duque de Caxias, na Praça Princesa Isabel. - A réplica do animal será realizada em fibra de vidro, tal qual a técnica utilizada em escolas de samba na construção de seus carros alegóricos, e deverá deixar evidente sua existência como réplica; deverá apresentar desgastes em sua cobertura e falhas próprias do processo.

Cintas de prender cargas

Réplica de cavalo em posição de trote, colocada de ponta-cabeça

Andaimes de construção


Monumento Inverso II - No centro de uma sala branca, uma escultura de um cavalo em posição de trote será atada, sustentada por fitas alaranjadas, comumente utilizadas no transporte de cargas; - Diferentemente da tradicional estatuária eqüestre, nesta montagem o cavalo estará posicionado com as patas para cima, com o traseiro apoiado no chão; - A peça será realizada em argila, porém o material não sofrerá queima e, assim, sofrerá um desgaste intenso durante o período em que estiver exposto, já que a argila sem a queima é extremamente frágil; - A estrutura interna da peça será realizada em fibra de vidro.

Fitas de sustentação e fixação de cargas

Imagem de um cavalo invertido, executada em argila sem queima


Gún: Peças de bronze que reproduzirão a imagem da planta Espada de São Jorge (sansevieria trifasciata). Diferentemente do vegetal, que possui as raízes pequenas, as peças em bronze trarão modificações evidentes nas raízes, que serão muito alongadas.

Espada de S. Jorge em bronze

Os objetos serão presos pela ponta na parede e/ou no chão, de modo que pareçam fincados na estrutura do espaço.

Fincada na parede

Fincada no chão


Mojubá «O Grito» Impressão em tamanho real (ou em escala reduzida, desde que respeite a proporção) da obra “Independência ou Morte” de Pedro Américo, que faz parte do acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo (Museu do Ipiranga). A pintura, que cria uma fábula acerca de um importante momento histórico de nosso país, apresenta uma série de personagens que buscam tipificar e exaltar os “heróis” da independência. Sobre tais personagens, serão coladas pequenas peças de chumbo que representam os Orixás da Umbanda e os Santos católicos sincretizados pela religião. Estas peças, compradas em lojas de artigos religiosos e comumente utilizadas em rituais mágicos, exercerão com seu peso uma certa força sobre a tela, de modo que as tramas sofrerão deformações, trazendo irregularidades aparentes para a superfície da «pintura» ao longo do tempo.

Impressão sobre tela da obra «Independência ou Morte», do artista acadêmico Pedro Américo.

Figuras de chumbo com imagens de Orixás e Santos Católicos sincretizados pela Umbanda.

Figuras de chumbo

Tela com a impressão


Sem título - da série Diorama Deslocamento da reserva técnica de instituições ligadas às ciências naturais. Serão levados para o espaço expositivo objetos típicos dos meios de conservação tradicional dos museus de ciências naturais (animais taxidermizados e embebidos em formol). Os objetos deslocados serão aqueles cujo estado de conservação é deficiente, especialmente aqueles acidentados e que não se prestam aos modelos de exibição tradicionais do Museu de Ciências Naturais. Estes objetos devem manter o mesmo estado de conservação que apresentam na reserva técnica, deste modo, será mantida a sujeira que os reveste, as camadas de poeira, etc. Para este projeto, inicialmente, propõe-se um diálogo com o Museu de Zoologia da Usp, que terá sua reserva técnica “deficiente” estudada e deslocada para o CCSP. O arranjo no espaço expositivo do CCSP trará uma ordem clara em sua organização e, deste modo, os objetos serão dispostos de modo simétrico, enfileirados, empilhados, etc, deixando claro que há uma ordem imposta à sua apresentação. À seguir são apresentadas três possíveis configurações dos objetos no espaço, contudo, esta disposição dos objetos poderá ser revista, de acordo com o local determinado pela curadoria para apresentação da proposta.


Sem título - da série Diorama A mais ou menos 1,60m do solo, uma grande tábua de madeira crua cortará horizontalmente a sala. Essa tábua ocupará toda a sala. Através de buracos feitos na tábua, pássaros taxidermizados serão atados, de modo que abaixo da tábua pode-se ver a cabeça do animal e, acima, seu corpo. É permitido ao público caminhar sob a montagem e, para isso, terão de agachar-se e caminhar encurvados ou de joelhos.

Pela metade da sala, uma grande tábua cortará horizontalmente a sala, na altura dos olhos. Pássaros taxidermizados serão atados à tábua, através de pequenos buracos.


Sem título - da série Diorama - Uma grande estrutura formada por lâmpadas tubulares led escapará de dentro do vão da vitrine, que terá seus vidros retirados. - Optou-se pelas lâmpadas tubulares led por conta de suas qualidades físicas: sua estrutura é feita de plástico e o led não esquenta, o que traz segurança para a montagem; a luz emanada pelas lâmpadas, de 6500K, é intensa e totalmente branca. - Nas intersecções entre as lâmpadas, pássaros taxidermizados serão atados. - Serão utilizados pássaros «ornamentais», aqueles que em vida serviram como ornamento decorativo.

Montagem realizada na exposição 6 graus de separação, em 2015, no Atelier Fidalga, em São Paulo


Sem título - da série Diorama - Serão dispostos na vitrine pássaros taxidermizados em posição de vôo. Este tipo de taxidermia é chamado de «taxidermia artística», em contraponto à «taxidermia científica», e procura reproduzir a posição do animal em seu habitat. - Dispostos como em revoada, terão partes de seus corpos torcidos e comprimidos contra o vidro da vitrine, como se fossem congelados no exato momento em que topam com o vidro, naquele milésimo de segundo entre o vôo habitual e o choque.

-


Sem título - da série Diorama - Uma grande quantidade de plantas tropicais será colocada na vitrine, como se estivessem abarrotadas, socadas, naquela área contingente. - No centro, um vão estará aberto. - Abraçando toda a estrutura, uma luz néon cortará a montagem horizontalmente e no centro, na área que não recebeu vegetação, assumirá a forma invertida da silhueta do Pão de Açúcar. - Serão utilizadas plantas vivas para que, ao longo da exposição murchem e, propositalmente, mofem a vitrine. Este mofo abraçará, aos poucos, o néon e o vão central, de modo que a luz e a «limpeza» da área central serão recobertas.


Sem título - da série Diorama Levar para o espaço expositivo a lataria de um antigo automóvel modelo «Brasília», comprado em ferro-velho da cidade, cujo estado de conservação deixe evidente a inaptidão ao seu uso original. Este carro terá a frente amassada e, até a altura do pára-brisas, será cromado, contrapondo assim o brilho e o “bom acabamento” da área cromada com o restante da lataria, que conservará os danos originais do objeto.

área cromada

pintura original


Sem título - da série Diorama

1 metro

1 metro

Vítor Mizael pintura preservada

parte cromada

pintura preservada

proposta 1

- dois carros antigos e com marcas evidentes de desgaste serão colocados frente a frente; - da ponta do carro até a altura do pára-brisas (cerca de 1 metro), ambos carros serão cromados, inclusive naquelas partes que não são de ferro, como pneus, frisos, limpadores de pára-brisas, etc. - o restante do carro manterá sua pintura original, com desgastes próprios do tempo.


Sem título - da série Diorama

- dois carros antigos, amarrados por «fitas de alpinismo» (para sustentar o peso); - pode ser apresentado em várias posições, como na horizontal (fig.1) ou na vertical (fig.2); - a pintura será raspada até a metade dos carros, deixando uma parte colorida e a outra com a lataria aparente. - o trabalho, do modo como foi descrito acima, pode ser incorporado ao acervo da prefeitura, bem como pode ser apresentando como obra pública, contudo, para isso, deve receber uma base de concreto e os automóveis soldados um ao outro.

1 cintas para união dos carros metade do carro raspado e metade colorido


Projeto: - Comprar vĂĄrias pinturas de paisagem em feiras de artesanato, lojas, super-mercados, etc, em quantidade suďŹ ciente para preencher uma parede; - Mergulhar parte da pintura em ĂĄgua, para que a tela e seu chassi entortem e sejam parcialmente cobertos por mofo; - Apresentar todas as pinturas, entortadas e mofadas, numa mesma parede.


Projeto: - Apontando para a tradição da pintura de paisagem, pretendo realizar uma série de «aquarelas», tomando como base os desenhos e pinturas dos artistas viajantes, das expedições artísticas e científicas enviadas às Américas entre os séculos VI e XIX; - Tais «aquarelas» serão realizadas sobre papel feltro, com água e material orgânico, e acondicionadas, ainda úmidas, em caixas de acrílico ou vidro hermeticamente fechadas ; - Realizados com material transparente (água e compostos orgânicos), inicialmente as imagens não poderão ser vistas, contudo, ao longo do tempo, o mofo, provocado pela umidade do papel, irá revelar a imagem; -Com isso, pretendo também subverter os métodos ideais de conservação e manutenção de obras de arte, para a constituição do meu trabalho; - As caixas podem ser apresentadas suspensas em paredes, ou diretamente no chão.


Projeto:

- Comprar várias pinturas de paisagem em feiras de artesanato, lojas, super-mercados, etc; - Dispor todas as pinturas no chão; - Sobre as pinturas será colocado um peso de concreto; - O peso cobrirá parte da imagem, e forçará a tela, esgarçando-a, causando rugas, etc.

pintura de paisagens compradas em lojas, feiras, etc.

pesos de concreto


Projeto: Construção de uma sala de 7 x 7 metros, totalmente revestida com carpete cinza (o mesmo material utilizado para revestimento de escritórios, especialmente entre as décadas de 70 e 80). Serão cobertos chão, paredes e teto. Ao longo da sala serão expostas esculturas de bustos, pertencentes ao acervo da Coleção de Arte da Cidade, como, por exemplo, a escultura em mármore branco «Liberdade», de 1921, da artista Nicolina Vaz de Assis Pinto Couto. Estes bustos estarão com o «rosto» encostado na parede, de costas para o público. Serão intercaladas duas vertentes claras percebidas no acervo de esculturas da Coleção de Arte da Cidade: esculturas de homenagem à figuras ilustres (e que hoje são desconhecidas) e alegorias, como a escultura «Liberdade», citada acima.

Liberdade, 1921 Mármore 72 x 64 x 43,5 cm Nicolina Vaz de Assis P. Couto Coleção de Arte da Cidade


Projeto: - Ação do Artista como curador: Formação de uma junta de curadores que irá selecionar, entre os objetos pertencentes à Coleção de Arte da Cidade, aqueles que julgam que devem ser retirados do acervo. Serão convidados profissionais que, de algum modo, estiveram envolvidos com a Coleção de Arte da Cidade, e cujo interesse toque em questões relativas à formação de arquivos. Caberá à junta de curadores elaborar ata escrita, explicitando os critérios adotados para eleição daquilo que, de acordo com sua visão, deve ser excluído. Serão sugeridos alguns pontos para análise, como, por exemplo, relevância história, artística e social. Pretende-se que o processo adotado pela junta se apóie numa dinâmica curatorial tradicional, tal qual a dinâmica adotada, normalmente, pelos salões de arte. Ao lado dos curadores, estará o artista proponente deste projeto, mediando as situações vivenciadas através de um processo dialógico, de levantamento de questões, de pensamentos conjuntos, tudo devidamente registrado, tomando como base processos curatoriais orgânicos e atuais. Ao final do processo, será proposta uma exposição dos objetos selecionados pelos curadores. Todo o processo, desde o primeiro contato com os curadores, até a exposição final, será documentado, e estes registros devem ser disponibilizados ao público; para tanto, sugere-se a criação de um blog, site, publicação impressa, ou mesmo de uma sala paralela à exposição dos objetos selecionados, onde toda documentação será apresentada.


Vítor Mizael (Vítor Mizael Rubinatti Dias)

São Caetano do Sul – SP - 17/02/1982 Rua Xavier de Almeida, 861 - Ipiranga CEP: 04211-001 - São Paulo - SP Telefone / fax: (11) 2917 1158 - Celular: (11) 98142 8560 e-mail: vitormizael@gmail.com Formação Acadêmica

Mestrado: Estética e História da Arte – Produção e Circulação da Arte USP - Universidade de São Paulo PGEHA - Programa Inter-unidades de Pós-graduação em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo 02 / 2005 – 02 / 2008

Especialização: Pós – graduação lato-sensu em “Estudos de Museus de Arte – Museologia” USP - Universidade de São Paulo MAC - Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo 01 / 2005 - 12 / 2005

Graduação: Bacharelado em Artes Plásticas UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - “Instituto de Artes” 02 / 2001 – 12 / 2004

Obras em acervo: Museu de Arte Contemporânea de Anápolis - GO Museu de Arte Contemporânea de Jataí – GO Museu de Arte Moderna de Resende – RJ Museu de Arte Contemporânea do Ceará - CE ·Pinacoteca Municipal de Santo André – SP ·Prefeitura Municipal de Mairiporã – SP ·SESC Amapá – AP ·Prefeitura Municipal de Praia Grande – SP ·Red Bull House of Art – SP ·Prefeitura Municipal de Suzano – SP ·Pinacoteca Municipal de São Bernardo do Campo – SP ·Espaço Ecco - Brasília - DF


Individuais:

Prêmios:

2014: ·

Diorama- BlauProjects, galeria - SP Sem título - da série Diorama - Vitrina do Masp - SP

2016:

Programa de exposições 2014 do Centro Cultural São Paulo - SP

·

22º Salão Anapolino de Arte - Anápolis - GO - Primeiro Prêmio

2013: ·

Gabinete - Temporada de Projetos 2013 - Paço das Artes - SP

·

Taxonomia - ZipperGaleria, projeto ZipUp - São Paulo.

·

Taxonomia - Galeria 6+1 - Madrid – Espanha

2006: ·

Espaço Cultural da Faculdade de Medicina da USP – Ribeirão Preto – SP

2013:

10º Salão de Arte Contemporânea de Marília – SP –- Prêmio Referência Especial do Júri. · 41º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto / Santo André SP – Prêmio Aquisição.

2005: ·

Auto-Retratos – Conjunto Cultural da Caixa – São Paulo – SP

2004: · ·

Ver Além: Reflexões - Conjunto Cultural da Caixa - Rio de Janeiro - RJ

2012: · 40º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto / Santo André SP - Prêmio Aquisição · 1º Salão de Artes Visuais de São Caetano do Sul – SP - Menção Honrosa · 19º Salão de Artes Plásticas de Mairiporã - SP - Prêmio Aquisição · 5º Salão de Artes Plásticas de São José do Rio Preto - SP Prêmio Medalha de Prata · 9º Salão de Artes do SESC Amapá - AP - Prêmio incentivo


2011:

2003:

· 18º Salão de Artes Plásticas de Praia Grande - SP - 1º Prêmio (curadoria de Fernando Oliva, Celso Fioravante e Saleti Barreto). · Residência artística “Red Bull house of art” - SP - (curadoria de Fernando Oliva e Luisa Duarte) · 43º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba – SP - prêmio “leitura de portfólio” (curadoria de Thais Rivitti, Josué Mattos e Renan Araújo).

· 12º Encontro de Artes Plásticas de Atibaia – SP - menção honrosa · 3º Salão de Arte do ABC - SP - prêmio aquisição

2010: · 8º Salão de Artes do SESC Amapá - AP - 1º prêmio aquisitivo (curadoria de Bitu Cassundé) · 27º Salão de Artes Plásticas - Anuário Embu das Artes - SP - 1º prêmio na categoria desenho (curadoria de Katia Canton, Oscar D'Ambrósio e Paulo Klein). · 6º Salão de Artes Plásticas de Suzano - SP - prêmio aquisitivo (curadoria de Oscar D'Ambrósio)

Coletivas: 2017: A Luz que vela o corpo é a mesma que revela a tela - Caixa Cultural - Rio de Janeiro - RJ (curadoria de Bruno Miguel) 2016: Ponto de Convergência - Galeria Antonio Sibassoly - Anápolis GO (curadoria de Paulo Henrique Silva) Coletiva: Novas Representações - Galeria Murilo Castro - Belo Horizonte - MG 2015:

2009: · 18º Encontro de Artes Plásticas de Atibaia – SP – menção honrosa.

2006: · Salão de arte Contemporânea de Mairiporã – SP - 1º prêmio aquisição.

Ficções - Conjunto Cultural da Caixa - RJ (curadoria de Daniela Name) Seis graus de separação - Projeto Fidalga - SP Lambes na Laje - RedBull Station - SP (curadoria Nancy Betts e Paula Borghi) 2014: Naturantes - Paço das artes e Biblioteca Brasiliana - SP


(curadoria de Hugo Fortes) 42 Salão de Arte Contemporânea de Santo André - SP Traços Contemporâneos - Picta Escritório de Arte - Joinville - SC (curadoria de Nancy Betts) Arte Pará 2014 - Belém - PA 2013: · 64º Salão de Abril - Fortaleza - CE (curadoria de Ricardo Resende, Eder Chiodetto e Diego Matos). · CoLaje 2013 - São Paulo - SP (curadoria de Nancy Betts e Paula Borghi) · 38° SARP - Salão de Arte de Ribeirão Preto NacionalContemporâneo - Ribeirão Preto - SP (curadoria de Albano Afonso, Liliane Benetti, Nilton Campos e Taisa Palhares). · 45º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba - SP (curadoria de Hugo Fortes, Sylvia Furegatti e Antonio Natal Gonçalves) · Feira JustMad'13 - stand da Galeria 6+1 - Madrid - Espanha · Sobre Corpos e Espelhos – Espaço Cultural Contemporâneo – DF (curadoria de Marco A. Vieira) · The Summer is on – BlauProjects Galeria – SP · Prêmio Moldura Minuto - BH · XIII Salão Nacional de Artes de Itajaí – SC (curadoria de Josué Mattos, Divino Sobral e Cauê Alves) · RedBull House of Art retrospectiva 2009-2011 – SP (curadoria de Luisa Duarte) · Crônicas do Devir – Museu de Arte Contemporânea do Ceará – Centro Dragao do Mar de Arte e Cultura – CE (curadoria de Bitú Cassundé, Cecília Bedê e Lara Vasconcelos) · Pagou Pescou – grupo aluga-se – Feira Parte - SP

2012: · Eu fui o que tu és e tu serás o que eu sou - Paço das Artes - SP (curadoria de Josué Mattos) · Feira Parte – stand do Centro de Criação Contemporânea - SP · 19º Salão de Artes Plásticas de Praia Grande - SP (curadoria de Renata Motta, Sergio Romagnolo e Priscila Arantes) · 11º Salão Nacional de Arte - Jataí – GO · Encontro de Artes Visuais de Tatuí - SP · Feira JustMad3 – stand da Galeria 6+1 - Madrid – Espanha · Feira Art Madrid '12 - stand da Galeria 6+1 - Madrid - Espanha · Coletiva de Artistas representados - Galeria 6+1 - Madrid – Espanha 2011: · Coletiva dos Artistas Residentes – RedBull House of Art – SP (curadoria de Fernando Oliva e Luisa Duarte) · XIII Salão Graciosa de Artes Plásticas - Curitiba - PR · 36º Salão de Arte Contemporânea de Ribeirão Preto - Rib. Preto - SP (curadoria de José Spaniol, Regina Teixeira de Barros e Sérgio Romagnolo). · Salão de Artes de Novo Hamburgo - Novo Hamburgo - RS · 39º Salão da Primavera do MAM Resende - Resende - RJ · 7º Salão de Artes Plásticas de Suzano - Suzano - SP · 25º Salão Limeirense de Arte Contemporânea - Limeira - SP (curadoria de Fernanda Lopes, Juliana Monachesi e Cláudio Cretti). · 4º Salão de Artes Plásticas de São José do Rio Preto – SP 2010: · ·

9º Salão de Arte Contemporânea de Jataí - GO 1º Prêmio Belvedere Paraty Arte Contemporânea - Paraty - RJ


· Corpus in obra - Galeria Invest.art - São Paulo - SP · 3º Salão de Artes Plásticas de São José do Rio Preto - S. José do Rio Preto - SP 2009: · 41º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba - SP (curadoria de Iole de Natale, Egas Francisco e Ivo Zanini) · Festival “Homocultura no Século XXI”- Livraria Cultura – SP 2008: · 11ª Bienal de Artes de Santos – Santos – SP (curadoria de Ricardo Resende, Cristina Freire e Marcos Moraes). · Proibido Discriminar – MAB (Museu de Arte Brasileira) – FAAP (parceria com a Escola Superior do Ministério Público) – Brasília – DF · Perto dos Olhos (curadoria de Katia Canton) – Círculo3 – SP · Entretiras - Espaço Círculo3 – São Paulo – SP (curadoria de Katia Canton) · 7º Salão Nacional de Arte Contemporânea de Jataí – Jataí – GO · 12º Salão Paulista de Arte Contemporânea – São Paulo – SP · Viva Tom Jobim – SESC Santana – São Paulo - SP · 3º Salão de artes plástica de Sta. Barbara d`Oeste – SP

2007: · Metáforas e Significações – Casa de D. Yayá – USP – SP · 38º Chapel Art Show – Chapel School – SP (curadoria de Katia Canton) · 39º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba – SP

2006: · · · · · · ·

Projeto Tripé – SESC Pompéia –São Paulo - SP Corpo Memória - Museu Universitário de Arte – Uberlândia –MG 12º Salão Unama de Pequenos Formatos – Belém – PA 11º Salão Paulista de Arte Contemporânea – SP 4º Território da Arte – Araraquara – SP - artista convidado Casa de Cultura da América Latina (Cal) da UNB – Brasília – DF Projeto Atos Visuais - FUNARTE – Brasília – DF

2003: · - SP

1º Vitrine da Arte - Pinacoteca Municipal de São Caetano do Sul

2002: · 34º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba – SP · 9º Salão de Arte Contemp..de São Bernardo do Campo – SP 2001: ·

33º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba - SP


textos


Um grande diorama Ao refletir e me preparar para escrever sobre o trabalho de Vítor Mizael, levei em conta a conversa do último encontro que tive com o artista em seu ateliê, em que falamos de tudo. Versamos sobre arte, vida, política, animais, museu, zoologia e da importância da arte para as ciências. Entramos em questões de espiritualidade, de religião, de casa, de relações afetivas, enfim, da vida comum. Tomamos café, olhamos pela janela e voltamos para o interior do seu ateliê em que se vislumbrava trabalhos em construção, outros prontos e, em meio a tudo isso, um cachorro preto empalhado sobre um armário, pássaros taxidermizados em uma caixa, tubos de tinta por um lado, lonas enroladas por outro, mais livros e um tanto de outras coisas acumuladas ali. Depois, pensando em tudo que vi e ouvi no seu ateliê incomum, diante da estranheza de todos estes elementos que compõem este universo de criação, voltei a um texto escrito em 1999, onde afirmava que Arte é vida. Escrevi à época que “arte e vida” tratava-se de um jogo simples de palavras ou na sua somatória aquilo que nos transforma. Palavras que poderiam resumir tudo o que teria a comentar à época sobre a obra visceral de uma artista inglesa que recontava sua vida ao procurar na arte sua comunicação interpessoal e, por meio da qual, conseguia libertar-se das amarras do seu interior. Na ocasião citei Hegel para justificar as minhas palavras sobre a relação de “arte e vida ou da vida com a arte”. O filósofo alemão diz que “... quando alguém é capaz de compor um poema sobre a paixão que o obceca, torna-se menos perigosa porque (...) Objetivar um sentimento é afastá-lo de nós e assumir com ele uma atitude mais serena. Transbordando em poesias e cânticos, a alma liberta-se do sentimento concentrado: o conteúdo, dor ou alegria que se fechava em si mesmo, fica aberto agora: ao ser representado, a sua concentração rompeu-se e a alma recobrou a liberdade.” A arte para muitos artistas é a libertação do eu. “É dito: pelo chão você não pode ficar Porque lugar de cabeça é na cabeça Lugar de corpo é no corpo Pelas paredes você também não pode Pelas camas também você não vai poder ficar Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar Porque lugar de cabeça é na cabeça Lugar de corpo é no corpo” Stela do Patrocínio

A arte é cambaleante. O artista delira. E é no delírio que muitos criam. Stela do Patrocínio nos ensina que cabeça não é cabeça e que corpo não é lugar de corpo. O mundo que entendemos normal não é normal. O delírio é um puro estado da invenção. Este modo de ver e pensar a arte é motivo de controvérsia. Uma parte da crítica de arte a vê desvinculada de conteúdo (sentimental), a “outra” é a arte que mistura a vida com a arte e a existência do próprio artista. Tem-se denominado esta arte de “arte autobiográfica”, “arte do sentimentalismo” ou de “arte social”. A arte como plataforma para a transformação social. Talvez. Talvez seja a arte do eu que recupera os ideais românticos de meados do Século XIX, que, em poucas palavras, era a busca da libertação das convenções acadêmicas vigentes. O artista buscava a livre expressão do eu e, consequentemente, a valorização da imaginação e dos sentimentos. A inspiração vinha da própria natureza. O interesse pelo artista que faz da sua vida cotidiana arte, para alguns, esta modalidade de arte é absolutamente genuína, é cada vez mais presente na arte contemporânea, que tornou-se qualquer coisa próxima do sublime. Temas como vida e morte, corpo e alma, silêncio, transcendência e memória, liberdade, igualdade e as estranhezas da vida, são os temas de interesse para uma reflexão sobre o que se vê na arte contemporânea e do que nos mostra Vítor Mizael. O artista pinta e cria pinturas-objetos ou pinturas esculturas no seu ateliê que também é sua casa. De certo modo, tudo se mistura ali. A vida com a arte o tempo todo. Ao sair da sala de visitas passa-se pela cozinha, sobe-se uma escada e chega-se no ateliê sem muita diferença do que se encontra de um ambiente para o outro. Parece que o que se vê faz parte de uma coisa só. Os temas que vemos parecem se deslocar desse ambiente do ateliê para dentro da tela. Suas pinturas lidam com vida e morte, com o mundo dos animais, a memória desse mundo, com as suas paisagens e o afeto que move tudo isso. Pois cada objeto, matéria e corpo são levados para sua casa com um interesse afetivo. Quando conta sobre a cachorra preta taxidermizada que o dono deixou encomendada no ateliê do empalhador, fala dessa história com carinho. O que lhe interessa é a memória que envolve aquele animal morto e abandonado. Esta cachorra na sala de exposição se junta a uma instalação que faz surgir das paredes da galeria, como em uma revoada fantasmagórica, pássaros empalhados que simulam um voo. São corpos de aves mortos em “deslocamento”. São papagaios coloridos e maritacas de verde vibrante que perduraram com a passagem do tempo e a ausência de vida naqueles corpos dissecados. Mas a técnica de preservar, não sei se poderia chamar a taxidermia de arte, a arte de perpetuar, como é conhecida, atende ao desejo de Mizael de congelar instantes do mundo. A taxidermia é a ciência biológica que trata da montagem ou reprodução


(empalhamento) de animais para exibição ou estudo em museus de história natural e de zoologia. Vítor Mizael transforma a sala de exposição em um grande diorama como aqueles vistos nos museus de história natural que recriam o meio ambiente dos animais expostos. A diferença daqueles dioramas e o de Mizael está na condição do público que não se coloca apenas diante da cena, mas pode adentrar-se e fazer parte daquela paisagem. Compõe com esta revoada de pássaros, as telas que não são simplesmente esticadas em chassi. Elas vão “emolduradas” por estruturas que transformam-se em mais do que uma moldura ou chassi. As pinturas tomam a forma de caixotes que saem da parede e vão para o meio do espaço. Aqui a alusão é a dos gabinetes de curiosidades vistos nos séculos 17 e 18, o princípio dos museus tal qual os conhecemos hoje. Estes gabinetes contavam a história do mundo de forma desorganizada e sem hierarquias. Os objetos eram dispostos aleatoriamente conformando-se, justamente, em um “museu” de curiosidades onde se guardava e exibia as bizarrices e estranhezas do mundo conforme a curiosidade do colecionador. As pinturas e as esculturas de Vítor Mizael geram a mesma estranheza como o vôo dos papagaios. São retratados bichos que sofreram mutilações como os pássaros com as asas cortadas e os cachorros sem pernas ou com pernas deformadas e alongadas. Porem, nem tudo que vemos nessas pinturas é a realidade. Tem invenção do artista. Os animais tem feições de dor e de sofrimento e, em algumas dessas figuras, as transformações e mutilações foram provocadas pelo artista. Anomalias que provocam ainda mais estranheza. O que se vê em sua obra é um pouco do que nos ensina Stela do Patrocínio, quando questiona com sua poesia da excessiva normalidade do mundo. Vítor Mizael, com uma maneira sensível de retratar estas estranhezas, também nos tira do lugar comum ao nos mostrar a condição daqueles animais em estado de abandono, de morte ou de transmutação. O artista busca o caráter idílico das coisas quando as transforma e nos mostra suas belas pinturas. Talvez aqui ele nos faça deparar com a anormalidade do mundo. Cria coisas fantásticas. Incorpora em seu discurso esta aproximação com o fantástico e nos obriga a pensar sobre a excessiva normalidade das coisas. Nos redime diante do sofrimento exposto nas feições dos animais, no brilho desesperador dos olhos vitrificados dos bichos empalhados ou pintados. Um cachorro nos fixa o olhar. Mira nos nossos olhos. Nos encara com um olhar de desespero como se pedisse para se libertar daquele corpo deformado. Os museus, segundo o artista dariam sobrevida à arte. Toda esta fauna “anormal” criada por Vítor Mizael poderia estar muito bem exposta em um museu de história natural. Um museu que mostrasse não só os bichos encontrados no mundo, mas que também mostrasse a capacidade humana de recriar as coisas, de inventar novas formas de ver este

mundo. Dessa forma os trabalhos teriam uma sobrevida nestes museus, de maneira a apresentar a insanidade das coisas da natureza, e, até mesmo, da natureza que está sempre em mutação e a que está em nossa imaginação. Um museu da imaginação. Um museu que mostrasse as coisas naturais e não naturais propostas por artistas como Vítor Mizael e que pudessem ser estudados não apenas por críticos e historiadores de arte, mas por cientistas, antropólogos, biólogos e zootecnólogos. O que o artista inventa? Que mundo é esse criado por Vítor Mizael? Dessa forma sairíamos do campo da arte para o campo da arte e da ciência alargados. Os temas de suas pinturas, esculturas e instalações é a metafísica, a ciência que busca o conhecimento da essência das coisas recorrendo à razão, à teologia e à revelação (diria também, à imaginação). Em outras palavras, trata-se da espiritualidade que é o pensamento que mobiliza as energias que rondam e tocam o ser humano, para que a vida não se esgote na materialidade. Vítor Mizael acredita na transcendência das coisas, acredita nas energias, acredita em uma vida que por tudo isso que nos mostra, não podese dizer, comum. Ricardo Resende Agosto 2014 * Texto de apresentação da exposição «Diorama», realizada na Galeria BlauProjects entre Agosto e Outubro de 2014

_Hegel, Georg Wilhelm Friedrich, 1770 – 1831. Curso de estética: o belo na arte/ Georg Wilhelm Friedrich Hegel: tradução Orlando Vitorino e Álvaro Ribeiro – São Paulo: Martins Fontes- Paidéia, 1966. _Patrocínio, Stela do. Org. Viviane Mosé. Editora Azougue: Rio de Janeiro, 2001. Pág.52


Será isso, apenas, a ordem natural das coisas? (1)

confortavelmente constatar “É apenas a imagem de um cachorro”. Ou então, ao ver uma das instalações com animais taxidermizados, mostrar uma repulsa instantânea: “Que

“E agora, camaradas, vou conta-vos o sonho que tive a noite passada. Não sei

maldade fazer isso com cachorros e pássaros!”. Imagino também os dois igualmente

como explicá-lo. Foi um sonho sobre como será o mundo quando o Homem

satisfeitos no momento em que uma dúvida se instala: “Mas por que um cachorro?”.

desaparecer. Mas lembrou-me algo que há muito eu esquecera. Há anos, quando eu

Transitando entre desenho, gravura, pintura e instalação, Vítor Mizael está interessado na

ainda era um leitãozinho, minha mãe e outras porcas costumavam cantar uma antiga

referencia ao ser humano que animais domésticos despertam. Mas não são animais

canção da qual só conheciam a melodia e as três primeiras palavras. Na minha infância

exóticos – daqueles encontrados nos mais distantes cantos do país, reforçando a

aprendi a melodia, depois a esqueci. À noite passada, entretanto, ela me voltou à

confortável expectativa de exotismo que ainda se tem de um artista latinoamericano.

memória. O mais interessante é que lembrei também dos versos – os quais, tenho

Também não são seres inventados. São, ao contrário, animais comuns. Comuns em

certeza, foram cantados pelos animais de antigamente, e depois esquecidos, durante

qualquer bairro, qualquer cidade e qualquer estado, em qualquer lugar do mundo.

várias gerações” (2).

Nas pinturas de grandes dimensões vemos cães, sozinhos ou em grupo. Eles

Publicado em 1945, A revolução dos bichos, de George Orwell, pode levar um

estão sempre em poses que nos remetem a movimentos comuns do dia a dia. Uns

leitor distraído a pensar que se trata de um livro infantil. Num belo dia, os animais da

parecem se coçar ao se esfregarem no chão. Outros parecem passear calmamente ou

fazenda do sr. Jones se dão conta da vida indigna a que são submetidos, explorados e

estar em posição de acasalamento. Não há cenário. Não sabemos onde esses animais

depois abatidos pelo Homem sem piedade. Liderados por um grupo de porcos, os

estão. Os cães, todos viralatas, não apresentam fisionomia definida. Muitos são animais

bichos então expulsam o fazendeiro de sua propriedade e pretendem fazer dela um

amputados, com patas faltando. Pintados em cores fortes, como azuis e amarelos, com

lugar onde todos sejam iguais. Mas essa é uma fábula feita sob medida para a União

reforçado contraste com os fundos das telas construídos com massas irregulares de tinta

Soviética dos anos 1940. E assim como aconteceu com aquela, e várias outras revoluções,

acrílica em tom terroso ou azul profundo, assumem o caráter muito mais de objetos ou

a dos bichos também estava fadada à tirania, com a ascensão de um novo grupo ao

coisas do que de seres vivos. O mesmo acontece com os desenhos, onde pássaros

poder. Logo começaram as disputas internas, as perseguições e a exploração do bicho

domésticos, encontrados nas grandes cidades, como calopsitas, codornas e periquitos,

pelo bicho. Os sete mandamentos que constituiriam a lei inalterável pela qual a Granja

convivem com uma superfície negra. Esses têm um caráter quase escultórico, porque

dos Bichos deveria reger sua vida a partir da revolução, foram sendo aos poucos

parecem resultado da subtração de massa negra da folha de papel.

adaptados, alterados e excluídos, até sobrar apenas “Todos os animais são iguais, mas

O uso desses animais domésticos interessa justamente por seu contato com o

alguns animais são mais iguais do que os outros” (que em sua versão original dos

Homem e, mais ainda, pelas consequências dessa proximidade. A legislação brasileira diz,

mandamentos dizia: “Todos os animais são iguais”).

por exemplo, que corpos de animais silvestres não podem passar por processos de

Ver o trabalho de Vítor Mizael sempre me remete ao livro de George Orwell.

taxidermização e conservação – utilizados pelo artista em alguns projetos de instalação –

Assim como ele, imagino Vítor contendo o riso ao imaginar um espectador mais

sem a autorização expressa do IBAMA

apressado que se contenta em olhar para uma das pinturas ou desenhos e

domésticos. Para esses, não há obrigatoriedade, nem tampouco necessidade da

(3)

. A mesma regra não vale para os animais


apresentação de qualquer tipo de autorização para a realização dos referidos procedimentos. Ou seja, qualquer pessoa pode dispor do corpo de um animal doméstico sem qualquer tipo de restrição legal, bastando apenas apresentar um laudo veterinário, atestando a morte natural dos bichos. Taxonomia – nome da exposição que Vítor Mizael apresenta em Madri na Galeria 6mas1 - é o ramo da Biologia e da Botânica responsável por descrever, identificar e classificar os seres vivos, animais ou vegetais. Também é a parte da gramática que trata de classificação das palavras. E parece ser justamente essa dinâmica de classificação – na verdade muito mais as dinâmicas de poder que elegem os termos adotados como parâmetro de classificação – que interessam o artista. Quais os limites existentes entre as necessidades de salvaguarda museológica e as políticas sob as quais tais necessidades estão subordinadas? Quais são os mecanismos envolvidos na eleição daquilo que é tomado como necessário ao registro de nossa memória? Existe o arquivo como mecanismo necessário de salvaguarda de nossa cultura, ou como exploração fetichista de um sistema cujo propósito é difuso e sem direcionamento claro? Aqui, o “arquivo” e a salvaguarda museológica colocados em cheque, bem como a ineficiência administrativa, política e pedagógica sob as quais as instituições museológicas de toda ordem estão subordinadas, são pontos centrais do pensamento desenvolvido. Logo no início de A revolução dos bichos, o velho porco Major, “chamavam-no assim, muito embora ele houvesse comparecido à exposição com o nome de Beleza de Willingdon”, reuniu todos os animais da fazenda para contar o sonho que teve na noite anterior. “Será isso, apenas, a ordem natural das coisas?”, pergunta logo no início do seu discurso, que acabou virando o estopim para a revolução dos bichos. Em suas obras, parece ser essa a pergunta que Vítor Mizael se faz e nos faz a todo momento. Será essa a ordem natural das coisas?

1 - Texto para a exposição “Taxonomia”, na Galeria 6+1, em Madrid, Espanha, prevista para fevereiro de 2013. 2 - ORWELL, George. A revolução dos bichos. Porto Alegre: Círculo do Livro, s/d. (p. 13)

Fernanda Lopes

3 - O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) é um órgão federal vinculado ao Ministério do Meio

Rio de Janeiro, agosto de 2012 Ambiente, responsável pela execução da Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA).


Gabinete * O gabinete de curiosidades – conjunto de objetos de caráter incomum - tem fascinado a humanidade há séculos. Uma das fontes do colecionismo foi o Grand Tour (Grande Viagem). Iniciadas na Inglaterra, na era pré-elisabetana ganhou maior interesse e visibilidade nos séculos XVIII e XIX. A finalidade do Grand Tour era o aprimoramento e a complementação da educação clássica da aristocracia esclarecida e da alta burguesia. A viagem visava uma visita a sites pitorescos e sublimes da Europa continental, mas como atividade paralela, ou mesmo como passatempo, eram adquiridas obras de arte e objetos raros, curiosos ou estranhos que posteriormente terminaram inaugurando coleções de museus. A exposição GABINETE, de Vitor Mizael apresenta-se como um gabinete de curiosidades. No espaço fechado da sala o acúmulo de imagens envolve o espectador paredes inteiras recobertas por imagens de pássaros e cachorros. São pinturas e desenhos feitos em caixas de madeira, de diferentes tamanhos e formatos, que se projetam no espaço. Se a primeira vista, os animais nos encantam devido ao refinamento da pintura, ao traço seguro do desenho, a forma seca e limpa, ao espaço vazio, a tons de ouro com brilhos sedutores, aos poucos essas qualidades vão dando lugar a um incômodo. Percebemos que os pássaros têm azas e bicos quebrados ou cortados e os cachorros perderam uma ou mais pernas. Impressiona o aspecto bizarro dos animais. O bizarro é um conceito paradoxal, pois ao mesmo tempo em que exerce atração e admiração pelo precioso, causa também um estranhamento devido ao seu caráter extravagante e excêntrico. Porém, esse mundo deficiente encontra uma solução em arranjos de solidariedade e compartilhamento. O que Vitor propõe é um processo de superação: ao invés de uma relação de impossibilidade, ele opta por uma proposta que transforma a natureza indefesa em pulsão. O artista mostra a construção de um instante único – que é o resgate do equilíbrio perdido. Outro viés da poética de Vítor Mizael é o interesse por arquivos e dinâmicas museológicas. O artista é pós-graduado em Museologia e trabalhou no Museu de Zoologia, da Universidade de São Paulo. Em alguns trabalhos utiliza animais taxidermizados buscando um diálogo entre arte e ciência e entre técnicas de conservação e exibição de objetos de diferentes áreas museológicas. Em suas pinturas e desenhos, tal diálogo é percebido na paleta cromática, ao aplicar cores neutras, semelhantes a aquelas que observou nas paredes de museus, sobre as quais as obras de arte são exibidas. Se habitualmente o espaço institucional do museu é destinado à salvaguarda de artefatos relevantes de nossa cultura, o artista aproveita este critério para também traçar uma relação entre o arquivo e as ciências sociais. Ao apresentar imagens de animais

desfavorecidos que habitualmente, vivem nas ruas abandonados, ele metaforiza a condição de exclusão social e cultural humana, e leva para o espaço institucional índices de uma existência que, a priori, não teria sua história assegurada pelo arquivo. A apropriação de arquivos é um meio de garantir, preservar, valorizar, renovar e ressignificar o repertório de um acervo por meio de um resgate estético. GABINETE propõe esse olhar ético-estético - entender o processo de deslocamento como uma reconfiguração subjetiva e fantasiosa onde a grande ousadia do artista é reinventar realidades esquecidas.

Nancy Betts Abril 2013

* Texto apresentado para a Temporada de Projetos 2013 do Paço das Artes, em São Paulo


Vitor Mizael, 1982, São Caetano, São Paulo. Vive e trabalha em São Paulo. Graduado em Artes Plásticas pela UNESP. Entre as principais exposições: Individual no "11º Salão Paulista de Arte Contemporânea" (São Paulo, 2006), "Tripé" (Sesc Pompéia, 2006), "1º Prêmio Belvedere Paraty Arte Contemporânea" (Paraty, 2010) e "11ª Bienal de Artes de Santos" (Santos, 2008).

O desenho como ferramenta e não como um fim. Vitor Mizael é um destes artistas cuja formação se deu em larga medida pelo contato intenso e permanente com a fatura, tendo por base o desafio do traço e a busca por um modo próprio de com ele ocupar o espaço. Prática cotidiana que fez dele um virtuose, condição que ele assume e carrega, mas que sabe ser também uma armadilha para o artista contemporâneo. “Toda imagem traz consigo uma história, assim como seu corpo e as tecnologias que a apresentam”, diz ele. “Nunca estará isolada da carga referencial que carrega e, subvertida por mão criadoras, sua historicidade se apropria de outras e se remonta para novos fins.” Parece claro que a sua experiência aqui na residência será, para muito além de um período de isolamento e suspensão, um momento de enfrentamento com este dilema de base. “Onde está a História?”, perguntaria Godard. Consciente desse desafio, a obra de Mizael já oferece sinais evidentes de transformação – especialmente a depuração e a síntese da palavra, que começa a perder força para dar lugar a uma narrativa mais livre e que assume sua própria figuração.

Luisa Duarte e Fernando Oliva março de 2011 *texto de apresentação do período de residência no programa “Red Bull House of Art”


Ponto de inflexão (1)

Esta quinta edição do projeto de residências RBHOA é também a última a acontecer no Edifício Sampaio Moreira. Conclui-se assim um ciclo de quatro edições realizadas nesse espaço do centro de São Paulo. Desde setembro do ano passado, quando teve início a segunda edição do programa, passaram por aqui 24 artistas. Cada grupo de seis residiu durante seis semanas, em um processo intenso de interlocução, entre eles, com a curadoria, os visitantes e convidados – seja aqueles que estiveram para realizar um studio visit ou uma palestra, seja os que vinham por um interesse em ver o que essa nova geração estava produzindo em um contexto específico como este. Uma das características desta quinta edição é ter representado, por algum motivo que ainda nos escapa, um ponto de inflexão na trajetória recente na produção dos seis artistas selecionados. Alguns deles, como Ana Mazzei, Bruno Palazzo e Vítor Mizael, apesar de já possuírem certa densidade de percurso, não estavam exibindo regularmente no circuito – ou por terem optado por um trajeto mais cadenciado e menos ansioso, ou simplesmente por falta de oportunidades interessantes. Assim, nos parece que a presente experiência, atelier e exposição, tornou-se um momento de colocar em prática inúmeras idéias que estavam represadas e que agora vêm à público. Fazendo assim com que a engrenagem do trabalho ganhe impulso e novos caminhos sejam abertos após a residência. No caso de Daniel Scandurra e Frederico Filippi, trata-se de um caminho de fato recente, porém não sem vigor e desejo de experimentação. Já para Alexandre B. a mudança parece passar por um contato mais direto com São Paulo, cidade em que é recém-chegado, vindo de Belo Horizonte – apesar de curta, sua experiência aqui tem sido intensa, pois esta é já sua segunda residência, após passagem pela Casa Tomada. Para todos eles, este momento está menos ligado à idéia de uma transformação propriamente dita do que à capacidade de conseguir agora evidenciar alguns problemas cujas soluções pareciam, até a pouco, mais distantes. Certamente esta condição de uma maior maturidade e coerência entre o que se deseja como trabalho de arte e o que se consegue revelar passa pela oportunidade de um período intenso e concentrado em torno das próprias questões. Além é claro de poder trabalhar de modo colaborativo e integrado com outros artistas, mais as demandas da curadoria e da produção. Neste sentido, é sintomático que uma queixa comum entre eles ao chegar aqui seja justamente a da falta, em nosso meio, de interlocutores constantes, desde outros

artistas até curadores e críticos. Esta situação de criação isolada e solitária, que desanima e frustra tantos entre nós, é sensivelmente alterada durante e após este período de convivência sistemática. Na presente exposição é apresentado um conjunto heterogêneo de trabalhos, tentativas de um acabamento de processos iniciados na residência, mas que nos dão a impressão de estarem de certa forma no meio do caminho, no melhor sentido da expressão. Ou seja, estamos diante de trabalhos que anunciam caminhos potentes para a trajetória de cada um dos seis artistas. As pinturas de Ana Mazzei revelam um diário afetivo das pessoas com as quais a artista se relacionou na residência. Se a sua produção é marcada pelo isolamento das figuras humanas, que transpiram certo tédio e melancolia, características de um tempo acelerado como o nosso, aqui elas surgem olhando menos para o nada, mais altivas. Alguma inflexão parece ter ocorrido. Em outro conjunto de trabalhos, Mazzei apresenta um maquinário que não serve para nada. Engrenagens que não saem do lugar. Inúteis. Um misto de brinquedo e armas, algo lúdico e algo mórbido se mesclam em cada uma dessas esculturas. Bruno Palazzo, na série Desenhos Explosivos, retoma certos procedimentos ligados à ideia de escrita automática, em que a “mão do artista” fica eclipsada pelos efeitos do acaso e, no limite, de algo espiritual e etéreo. Afinal, como nos relacionamos com a noção de virtuosismo criativo diante destas obras feitas em parte por Bruno, mas também em parte por frenéticos e imprevisíveis fogos de artifício lançados sobre papel algodão? O questionamento da mise-en-scene retorna no vídeo Sinapse, que se utiliza do recurso do travelling vertical em relação ao deslocamento, no caso não-visivel, dos habitantes do edifício. Vitor Mizael é um caso de artista que de fato incorporou a possibilidade de uma residência dentro de sua própria cidade, ao optar por um período de “licença” de seus outros compromissos profissionais, como a docência, para se dedicar exclusiva e integralmente a repensar todo seu percurso anterior. Este processo, muitas vezes árduo e doloroso, resultou em um lugar de maior precisão, nitidamente mais maduro e coeso. A conversa estabelecida entre seus objetos e pinturas, articulados na instalação do artista na Galeria Transitória, é prova deste momento que caminha para uma necessária e desejada depuração. Uma gaiola em meio a um monte de fina areia branca. Uma grade represada sobre quilos de areia escura. Estas duas obras de Alexandre B. parecem querer alçar vôo. A gaiola quer deixar de prender, a grade deixar de reter. Tudo transborda, ultrapassa os limites dados. Espécies de metáforas do exercício experimental que é próprio da arte. Outro trabalho seu se baseia na ocupação de uma ampla superfície de parede por funis industriais oxidados, servindo de vasos para o crescimento de plantas trepadeiras. A


tensão entre o grid estrutural criado, que de um lado remete às linhas projetuais de um desenho, e de outro ao comportamento da vegetação, estabelece uma potente analogia com o prédio da residência, com seus andares há muito abandonados, convivendo com exposições de arte, contexto também este simbólico dos embates entre natureza e cultura, construção e ruína, no Brasil de hoje. Daniel Scandurra mostra que pode ser extremamente produtivo seu interesse tanto pelo acaso quanto pelo “estado projetual” das coisas. O artista encontrou em um livro uma antiga proposta de Lina Bo Bardi para o Vale do Anhangabaú, de 1981, na qual a arquiteta brasileira de origem italiana pensa uma espécie de parque para uso dos paulistanos. Em seu Tobogã, “o vale verde do Anhangabaú pode voltar, devolvido aos homens, libertados dos perigosos inimigos: os carros. Os pedestres na terra, os transportes em cima”, escreve ela, em texto sintomaticamente reproduzido pelo artista ao lado de um video em que ele refaz no piso do Vale o traçado do projeto original, em sequências captadas desde as janelas do Sampaio Moreira. Mais uma vez, o acaso se manifesta e, como na arquitetura de Lina, “liberando aos pedestres, o vale volta a viver”. Na retomada de Daniel Scandurra, o caráter utópico dos projetos da arquiteta é inserido na contemporaneidade com renovado vigor tanto estético quanto social e político. Frederico Filippi costuma trabalhar de maneira sistemática, no limite do obsessivo. Seus interesses e sua presença pareciam estar tanto no interior do edifício quanto no entorno, lugares e momentos que parecem se confundir neste vetor em que se transformou o centro da cidade. A ambiência perseguida pelo artista, tanto em suas pinturas como nos vídeos, parece ser a da ficção cientifica – porem não aquela que se pretende prever o futuro de modo espetaculoso e banal, mas sim a que se volta para o passado e o presente, os “espaços interiores” de Chris Marker, JG Ballard e Daniele del Giudice. Em um de seus trabalhos em exibição, um vídeo, vemos alguns “profetas” pregando pelas ruas. Apenas assistimos a sua movimentação e gestos, mas não ouvimos suas palavras, como em uma mensagem enviada de outro tempo, e a qual não temos ainda acesso. Filipi enfatiza a dimensão teatral, física, destes “profetas”, e retira intencionalmente seu conteúdo, quase todo ele carregado de dogmas. O artista aponta sua câmera para essas pessoas que já fazem parte da paisagem do centro da cidade de tal modo que nem paramos de fato para ver ou ouvir. Deste modo, ele se dá este tempo de parada para o olhar e a escuta e rearticula, à sua maneira, um movimento em direção a essas aparições. Luisa Duarte e Fernando Oliva maio de 2011 1)

texto publicado na exposição final do período de residência do programa “Red Bull House of Art”


São impermanências projetando outras impermanências. As séries de Auto-

Vítor Mizael São Caetano, 17 de fevereiro de 1982

retratos, em busca de uma ordem, desdobram material, suporte, mídias em um mapeamento de alguém que vive entre a materialidade e a interrogação sobre o ser em si

Vitor Mizael nasceu em 1982, na cidade de São Caetano, São Paulo. Graduou-se

mesmo: essências, formas e tensões, recortes, torções, alongamentos, enfim, faces e

em Artes Plásticas, em 2004, pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista. Em

dimensões do corpo a nós velados, mas com indícios de uma humanidade lírica, às vezes,

2005, tornou-se especialista em Estudos de Museus de Arte pelo Museu de Arte

cética, outras, humorada. Esses aspectos não constroem uma linguagem artística

Contemporânea e, atualmente, cursa o mestrado em Estética e História da Arte, ambos

significativa se um vigor imagético não pairasse nas obras e não irrompesse em um

os programas pertencentes à Universidade de São Paulo.

sistema de correlações, próprio das artes plásticas.

Desde 2001, Vitor participa de exposições coletivas e individuais em várias

O desenho, subjacente a todo pensamento expressado nas diversas séries de

cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. No corrente ano, o artista fará várias mostras em

Vitor, traz fato raro na arte de hoje, surpresa logo desvelada, uma vez que o artista

São Paulo, João Pessoa, Brasília, no Museu Universitário de Arte de Uberlândia, no Espaço

estudou densamente a anatomia da figura humana e realizou inúmeras pesquisas sobre

Cultural da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, entre outras.

as tensões lineares percebidas nos corpos. Seus interesses mais genuínos, ainda, sempre

A partir de 9 de novembro de 2006, o artista apresentará seus trabalhos na exposição Projetos Atos Visuais 2006, na Funarte Brasília.

buscaram a aproximação das inquietações vividas por artistas como Bacon, Duchamp, Beuys, Schendel, Leonilson, entre outros. Esses diálogos todos fazem surgir, no trabalho

Transitando pelo desenho, pela gravura, pela arte digital, pela eletrografia e

do artista, o multifacetamento e a dilaceração das personalidades contemporâneas na

novas mídias, Vitor situa a característica de sua pesquisa: a procura pela pluralidade da

procura incessante por alguma evidência de integridade, de essencialidade que cada ser

linguagem artística executada em materiais e suportes diversificados. São várias técnicas

possui.

empregadas com fluidez na passagem de uma para a outra, sem detrimento da

Carmen S. G. Aranha e Evandro Carlos Nicolau

qualidade da obra. O domínio técnico a serviço da expressão, tece também um fazer com

São Paulo, agosto de 2006

rigor e estabelece unidade e identidade objetivamente bem construídas. Por outro lado, esses entrecruzamentos situam alguns fenômenos que, se não

Profa. Dra. Carmen Aranha é docente e curadora do MAC - USP; Evandro Nicolau é educador na mesma

podemos chamá-los de estéticos porque o conceito não cabe na arte pós-histórica (1),

instituição e mestre em Estética e História da Arte também pela USP.

nos oferecem uma interrogação essencial(2). A figura humana é dissecada, seccionada, reduzida a sua estrutura, a avessos, a roupas usadas, a visões de intimidade e a frases ou sussurros de pensamentos que flutuam entre as coisas de um mundo único. Diz o artista: “Toda imagem traz consigo uma história, assim como seu corpo e as tecnologias que a

(1) DANTO, Arthur C. Após o fim da arte. A arte contemporânea e os limites da história. São Paulo: Edusp, Odysseus Editora.

apresentam. Nunca estará isolada da carga referencial que carrega e, subvertida por mão

2006. P.94.

criadoras, sua historicidade se apropria de outras e se remonta para novos fins”.

(2) CHAUÍ, Marilena. Experiência do Pensamento. Ensaios sobre a obra de Merleau-Ponty. São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. 5.


So Hard

pela palavra escrita ou nos fluxos de consciência presentes nos vídeos. Na instalação três armários antigos com as portas entreabertas encontram-se

No refrão da canção “So hard” da dupla de música eletrônica Pet Shop Boys

empilhados, dentro deles televisores descascados de sua carenagem exibem imagens em

ouvimos a pergunta: "Tell me why don't we try /Not to break our hearts and make it so

preto & branco. Nas telas do topo e da base uma nuvem em loop atravessa o céu. No

hard for ourselves?"A pergunta da música me parece conveniente: porquê na tentativa de

televisor do meio o artista se masturba.

nos protegermos acabamos nos machucando tanto?

A primeira associação poderia ser com a expressão “sair do armário” , assumir-se

Assim como na sociedade civil que em nome da segurança se militariza, ergue

como homossexual em público. Mas o trabalho não é sobre isso e na verdade, é preciso

muros, arames farpados, guaritas tornando-se afinal prisioneira, nas dinâmicas do

dizer, ninguém sai de um armário, mas de inúmeros e infindáveis armários, e diariamente.

mundo gay, sustentadas sempre pelo hedonismo e um ideário onde impera a

O espaço na sociedade e a visibilidade do homossexual é uma negociação contínua.

permissividade sexual e a dissociação entre afeto e sexo, o que deveria resultar em

Prefiro me lembrar da expressão "Todos temos esqueletos nos armários".

liberdade resulta em certos casos em opressão.

Vitor Mizael no entanto, cria um espaço pleno de mistério, um lugar nem para

A cultura gay está repleta de hedonismo: nos espaços sociais facilitadores do

ocultar nem para mostrar mas para se entrever coisas e que remete ao lugar dos desejos

sexo como boates, saunas, cruising bars, cinemas; na estética, um jeito de se vestir onde

secretos e sua impossibilidade de serem consumados a termo. E o que se entrevê é o ciclo

privilegia-se a sensualidade; na construção de relacionamentos abertos tudo dá a

vicioso do looping imposto a uma atividade sem outra função que o gozo mas que aqui

entender que os prazeres devem ser vividos. Mas este estilo de vida centrado no

parece terrível como um castigo, enquanto acima e abaixo paira o imaterial da nuvem que

insaciável da pulsão sexual pode revelar-se em um trabalho de Sísifo: a angústia de

voa como os pensamentos narrados no áudio em um fluxo. A mente não para de desejar,

encontrar novos pares a cada noite e um sexo que dissociado de afeto torna-se vazio.

fabular ou ficcionar. Imagens presas na monumentalidade e verticalidade da peça, que

Enquanto isso se ergue uma indústria da moda, cosméticos, turismo, editorial

pode desabar. Tudo me remete ao temor que sempre ronda o campo minado das relações

contemplando o nicho gay e criando modelos de homossexualidade a serem

amorosas, onde ninguém quer se expor verdadeiramente preferindo criar e habitar seus

consumidos resultando em mais aflição. O deveria ser liberdade torna-se claustrofóbico.

pequenos impérios: cárceres de solidão e hedonismo.

Neste paradoxo transita o trabalho de Vitor Mizael, naquele limite tênue em que o objeto de amor pode se transformar em objeto de ódio e onde o sexo encontra com a morte. A associação pode parecer mórbida mas é fato que comparece até nas células sexuais que se destroem na construção do ovo. Sexo e morte estão juntos até a medula. Nos desenhos de Mizael vemos ecos dos estudos de anatomia. Uma anatomia inventada e por isso até mais realista. Sua anatomia não focaliza o corpo humano mas o desejo sexual. Seus trabalhos parecem reportar aos lugares escuros da mente de onde deseja escapulir através da verbalização de seus desejos mais altos seja na compulsão

Marcelo Amorim São Paulo, 2008 (Marcelo Amorim é Artista. Partipou do Programa de exposições 2008 do CCSP)


Vítor Mizael: Auto-retrato em raios-x

Vítor Mizael manifesta uma coerência visual que aponta para processo de esvaziamento dos próprios armários da consciência para mergulhar fundo na arte e no

A história do auto-retrato é uma das mais fascinantes da arte e tem como paradigmas desde o encantamento de Rembrandt pelo tema a uma imagem

renascer esteticamente renovado a partir da profunda radiografia e da delicada costura de sua história individual.

inesquecível do primitivista José Antônio da Silva. O desafio maior, porém, está em se mostrar pelo desaparecimento, ou seja, se revelar e questionar sem estar de modo figurativo na obra.

Oscar D'Ambrosio São Paulo, 2008

É isso que o artista plástico Vítor Mizael consegue. Nascido em São Caetano do

Oscar D'Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a

Sul, SP, em 17 de fevereiro de 1982, traz seus auto-retratos na forma de radiografias, com

Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

inserção de colagem, costuras e escritos, além de pinturas em tinta acrílica e desenhos com nanquim em papel reciclado

O assunto do artista é o próprio corpo, o que se evidencia nos raios-X, e as roupas, espécie de pele que o ser humano usa, desde os primórdios, para se proteger do frio, mas que passou a ser progressivamente uma nova pele, uma forma de se esconder e se mostrar para o mundo.

Cada osso revelado, cada roupa transformada em objeto expositivo e cada palavra com poder gráfico traçam um auto-retrato bem mais forte do que uma representação visual de si mesmo. Estão ali fraturas internas, máscaras cotidianas e pensamentos fragmentados num conjunto que diz quem é e o que pensa o artista.

Se a radiografia descobre a essência do que está dentro, a roupa isolada do corpo constitui um mapa de emoções enquanto os vocábulos soltos e os textos raramente totalmente legíveis indicam quebra-cabeças que exigem ampla sensibilidade para serem montados.


Vítor Mizael: liberdade e busca da forma

não são pura e simplesmente fruto de um ensimesmar-se, mas entram como uma séria reflexão morfo-semântica do próprio ser-humano: o particular que se universaliza.

Escrever (crítica = discernimento) algo sobre a obra de um jovem de 22 anos (ele

Tecendo variação de Gertrude Stein: auto-retratos de toda-a-humanidade. Vítor Mizael

nasceu em São Caetano do Sul, SP, em 1982, sob o signo de Aquário) que começa a se

fala para repertórios sofisticados - referências inevitáveis de alguém que possui repertório

insinuar no meio artístico e que já aparece com força total: eis o meu propósito. Vítor

específico, digno, elevado (e isto exigiu e exige empenho a que nem todos estão

Mizael. O artista passou por um aprendizado com vistas à realização de uma obra. Com

dispostos) - cria para o mundo, num planeta em que as intercomunicações são uma

ambição artística, diga-se, comprometida com a forma, uma forma que respondesse ao

realidade e uma inevitabilidade. Com materiais da tradição ou aqueles inusuais, seu

chamamento de uma psiqué de agora. Em verdade, Vítor Mizael já tem a atividade

trabalho pode muito bem estar disponível da REDE. Num tempo, que já não é bem de

artística - vê-se e é visto como produtor de linguagem - desde antes dos quinze,

excelências, Vítor Mizael desdiz o fado. Numa época em que alguns comemoram

dedicando-se a ver, estudar, aprender técnicas, fazer. Fazer arte, elaborar objetos-

tardiamente o fim das vanguardas e respiram aliviados e cultuam/cultivam uma tradição

mensagens - faturas, feituras, fazimentos - portadores de informação estética,

revivida, outros - Vítor Mizael entre estes - empenham-se na pesquisa: perseguem a

adentrando, portanto, o campo do Admirável. Vítor Mizael trabalha com o repertório de

invenção e mostram que a experimentação sempre andou de mãos dadas com a(s)

seu tempo, internacional, num mundo que se tornou aldeia global, como disse Marshall

arte(s). Desenho, pintura, objeto, uma forte dose de conceptualismo, a escrita como

McLuhan. Está em sintonia com procedimentos que se vêm consagrando nas últimas

forma (a conformação gráfica que deixa vazar sentidos): enfim, um feliz encontro de

décadas - uma época "pós-tudo" - como também se empenha na constante pesquisa de

códigos e materiais, eis o trabalho de Vítor Mizael. Vejo em seu trabalho os indícios de

materiais, os mais adequados para fazer configurar seu pensamento-arte. Os valores

uma obra importante, que está a se configurar. Seu trabalho livre-rigoroso anda de par

viáveis para si, ele os cultua sem vassalagem e pode-se ler, em seus trabalhos, seus pais

com um comportamento libertário e que respeita as diferenças. Não entra em disputas.

artísticos - um artista cria seus precursores, parafraseando Borges, o ficcionista-

Pesquisa e inquietação. Eis o produtor de linguagem. O fazedor. Vítor Mizael

comentador. Os valores que elegeu para inserir-se na tradição do fazer-arte são

adentra o milênio com toda a força necessária para colocar para o mundo uma obra digna

portadores de inquietação, a mesma observável no artista Vítor Mizael: de Duchamp a

de nota. Vítor Mizael apresenta o admirável de que seus trabalhos são o sustentáculo.

Bispo do Rosário, Bacon, Beuys, Mira Schendel e Leonilson. Vítor Mizael tem aquilo que

XAIPE!

todo artista deve ter: consciência de linguagem, que é o que o diferencia do mero artesão, que deverá ter a consciência do ofício. Este ir-além: eis a questão.

Omar Khouri. São Paulo . Agosto de 2004.

Ultrapassar a excelência técnica e domínio dos materiais. Arte e forma. Os fragmentos autobiográficos de Vítor Mizael (ele chama seus trabalhos de "auto-retratos")

Prof. Dr. Omar Khouri, artista, poeta e docente do Instituto de Artes da UNESP


Vítor Mizael: [ entre ]

como cultural (vestimentas e palavras). Revelar a parte da existência que se transfigura para além de qualquer

entre ossos e vestes – o corpo entre o Mundo e o corpo – o Ser entre o Ser e o Mundo – as palavras entre o corpo e o Mundo – as vestes entre os ossos e a carne – o Ser

imagem particular – se identificar, no se auto-retratar, como ser natural e ser cultural, e, nos dois casos, se dissolver na caracterização de estados da alma (tristeza, solidão, angústia) e na ausência de caracteres físicos singulares – evidencia o desejo de se encontrar no coletivo, de se reconhecer no outro. Para tratar do Ser, suas dores e angústias, o artista se apresenta como ser encarnado em forma de corpo, porém, apenas expondo os aspectos internos e outros

Os trabalhos de Vitor Mizael tratam do ser e do estar no Mundo. Para tanto, o artista trama um discurso em que funde verbo e densidade imagética. Em seus desenhos, colagens, gravuras e outros meios, utiliza um

externos a este, ou seja, ossos e vestimentas. Articular o palpável (materialidade do ser) com o intangível (a existência do ser pelo verbo), eis aí um dos desafios ao se elaborar cada trabalho.

repertório de imagens – peças de roupas e ossos – e de palavras escritas – solidão,

Como cada indivíduo se apresenta singularizado em um corpo, é quase

tristeza, angústia – que se tornam recorrentes. Entretanto, estes elementos não

indispensável tomar este como referência do ser. Contudo, não observamos, na obra do

aparentam ser o alvo central de sua atenção. Parecem eles se disporem a apontar o que

artista, o corpo - evidência da existência enquanto matéria - representado em suas carnes,

não se disse diretamente, o que ficou velado. Mais do que se deter nas figuras e

mas pelos ossos que o estruturam. Por outro lado, as roupas vazias, soltas no negro do

palavras, o artista suscita um entendimento para o que se configura entre elas. E, então,

plano, funcionam como índice da corporalidade, da existência física do ser. O corpo, neste

entre ossos, roupas e palavras, o ser.

caso, é evocado pela sua ausência.

Necessário faz-se, para se constituir como um ser, o amálgama dos

E, as palavras - códigos assim como gestos e vestimentas - revelam o ser

elementos naturais com os espirituais (ou da cultura). E, o reconhecimento de si por si e

ao Mundo e estabelecem a relação entre o espírito e todas as outras coisas. Sentimentos e

pelos outros se dá pela combinação singular de características corpóreas e

sensações são, também por estes canais, expressos. E a existência do ser, seu estar no

fisionômicas, traços de personalidade, valores e comportamentos.

Mundo, assim se pronuncia.

Tomando este pressuposto como referência, observamos que, em

Pelos caminhos que fogem do entredito, evitando o explícito, o imediato

muitos de seus trabalhos, Mizael apresenta-se em auto-retratos. O auto-retrato - idéia

reconhecível, Mizael busca, por meio da representação do individual que se encontra no

de se observar e representar-se - trabalha com a compreensão do reconhecimento do

universal, aquilo que não está nas coisas, mas o que liga as camadas da matéria à essência,

eu e do seu papel diante do Mundo e diante do outro. Todavia, neste processo, não

o que não se traduz por formas, o que fica entre.

identificamos, nas obras do artista, um ser individualizado por aspectos corpóreos

Paulo Trevisan

físicos, nem por palavras que os descrevam. O que temos é o reconhecimento de si

Professor e pesquisador de História da Arte, mestre em Artes Visuais pela Escola de Comunicação e

como criatura universal, representada tanto em sua constituição orgânica (os ossos)

Arte da Universidade de São Paulo


símbolo, nos territórios da afetividade.

As peles da palavra *

Como declarou a artista contemporânea Barbara Kruger, em uma entrevista à “Mas para cada epiderme seria preciso uma tatuagem diferente, seria preciso que ela evoluísse com o tempo:

revista Art in América (November, 1997, pg. 97),

cada rosto pede uma máscara tátil original. A pele historiada traz a mostra a própria história; ou visível:

“Fazer arte é materializar sua experiência e percepção sobre o mundo,

desgastes, cicatrizes de feridas, placas endurecidas pelo trabalho, rugas e sulcos de velhas esperanças,

transformando o fluxo de momentos em alguma coisa visual, textual ou musical. Arte cria

manchas, espinhas, eczemas, psoríases, desejos, aí se imprime a memória; por que procurá-la em outro lugar;

um tipo de comentário”.

ou invisível: traços invisíveis de carícias, lembranças da seda, da lã, veludos, pelúcias, grãos de rocha, cascas

O uso do texto aparece consistentemente na obra de Kruger, assim como na de

rugosas, superfícies ásperas, cristais de gelo, chamas, timidez do tato sutil, audácias do contato pugnaz. A um

Jenny Holzer, Joseph Kosuth, Bruce Nauman, entre tantos outros nomes fundamentais

desenho colorido ou abstrato, corresponderia uma tatuagem fiel e sincera, onde se exprimia o sensível. A pele

para o panorama contemporâneo internacional, comentando a vida, recriando seus

vira porta-bandeira, quando porta-impressões.”

sentidos e sensações, costurando e esgarçando laços entre identidades e alteridades. (Os cinco sentidos. RJ: Bertrand Brasil, 2001, pg 18)

Arte pode ser texto, mas o texto não é obra. Como nos ensina o pensador francês Roland Barthes em “O prazer do texto”, o texto recusa uma significação única; não é um

Três artistas contemporâneos, três poéticas distintas. O elo consistente ligando o

produto, mas sim uma produção. Ele tem estatuto de enunciação, mas não se converte

trabalho de Vítor Mizael, Geórgia Patrícia e Anabela Santos é o uso da palavra, a presença

num enunciado específico. O texto não abrange apenas a obra literária, mas todos os

do texto, que experimenta jogos de correspondência e desencontro com as diversas

produtos de práticas significantes – engloba a visualidade e suas texturas. Gera sentindo

formas de imagem e sentido.

produzido sensualmente (SP: Editora Perspectiva, 2002).

É como se na arte as palavras não obedecessem um determinado código

Arte é texto, é hieróglifo, forma que comenta a vida, clama sentido e

semântico e emprestassem letras como linhas de sentido fluido, desenhos que evocam

sensibilidade. É conhecimento, flexível mas imprescindível – um conhecimento que se

outros sentidos, estrategicamente revelados, tatuagens que aderem aos poros da pele.

abre ao observador como um estranho livro, em que a narrativa contida se assume de

Historicamente, uma das características mais contundentes atribuídas à arte contemporânea é a expansão dos suportes e a inclusão de uma gama infindável de possibilidades de meios expressivos na busca da produção de sentido.

acordo com seu próprio olhar, no decorrer da ação de recombinação das imagens, cores, linhas, letras. A arte é um caderno de registros híbridos na obra de Geórgia Patrícia. Em suas

Artista contemporâneos buscam sentido. Um sentido que pode ser

vitrines, ela parece ter arrancado páginas de muitos livros, uma variedade de diários,

materializado incorporando-se as preocupações formais que se sofisticaram no

escritos e desenhados, para oferecer-nos esse mundo em camadas contínuas. Trata-se de

desenvolvimento dos projetos modernistas do século XX, mas que finca seus valores na

um mundo denso e colorido, ora irônico, ora lírico, sempre generoso.

compreensão (e apreensão) da realidade, infiltrada na passagem do tempo e na

A artista nos oferece um variado e denso cardápio de significâncias, sem jamais

formatação da memória, na formação dos territórios que constituem e legitimam a vida,

torná-las significados. O caderno que nos recebe em páginas e páginas quase espiraladas

nos meandros da história, da política e da economia, nas vias do corpo enquanto carne e

e labirínticas é um testemunho translúcido, um descarregar de palavras, desenhos,


cartografias, colagens. Cada parte da obra de Geórgia transborda e nos conduz à próxima, e a outra, a outra... E os olhos se enchem com seus sentidos. O texto é pele na obra de Vítor Mizael. É um texto feito de intimidades, pungentes, de feridas expostas, gritos de dor e prazer. É um ruído que sai das entranhas dos ossos. A profundeza imensa desses sons-feitos-escrituras, é provavelmente a razão pela qual o artista elegeu imagens de exames de raio-x. Essas chapas, que o artista coleta há muito tempo – como quem busca penetrar em si e no outro e desvendar impressões e segredos – se tornam panos de fundo para anotações grafadas em letra cursiva. Nervosas como veias, as palavras brotam desses desenhos de ossos e órgãos. São frases de textos nascidos do submundo da carne. Por isso, são sujos, desaforados, ostensivos como secreções do próprio corpo, das peles, da espinha dorsal. Já Anabela Santos utiliza textos para universalizar os sentidos. Sua obra se constrói de uma delicadeza ímpar, costurando linhas, arquitetando expressões, buscando desvendar conjuntos, afetar coletividades. Suas obras são confeccionadas de conjuntos. Objetos e frases, fotografias e textos, atitudes e respostas. São provocações serenas, que se revelam na justaposição entre pequenos objetos, coisinhas, receptáculos que unem frases sobre a nossa existência. A força de seu trabalho está justamente numa quase miniaturização, que se presta a um sentido muito amplo: a possibilidade de afetar a tudo que diz respeito à condição humana. Como a nossa pele, historiada no texto do tempo.

Katia Canton São Paulo, agosto de 2006 PhD em Artes Interdisciplinares pela New York University, é curadora e docente do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC – USP).

*Texto publicado por conta da exposição “Tripé – Palavra”, acontecida no SESC Pompéia – SP, em agosto de 2006


SRD

É por entre a familiaridade a estranheza, a atração e a repulsa, o apuro e a precariedade que a poética do artista paulista Vítor Mizael se movimenta. Participante de variados salões e editais, estreia no circuito de galerias em São Paulo com a individual Taxonomia, dentro do projeto Zip'Up, na Zipper Galeria. Depois de Gabinete (2013), bem-sucedida exposição apresentada no Paço das Artes dentro da Temporada de Projetos da instituição e que serve como um tipo de síntese de sua obra, Mizael exibe agora um novo conjunto de pinturas, desenhos e objetos. Possui menos características de acervo e é menos permeável a uma suposta catalogação, dados bem evidentes em mostras e projetos anteriores. Movendo-se de modo intranquilo, ganindo, mexendo com rapidez suas asas ou em posições que incomodam o espectador, os animais domésticos e próximos representados pelo artista não param de inquietar quem os fita. Certa inexpressividade permeia Taxonomia. Embora o traço caprichado a retratar pássaros diversos nas peças tridimensionais, algo escultóricas, seja evidente num dos agrupamentos da exposição, a paleta predominantemente neutra das telas, a emular tons de paredes expositivas de museus como o Louvre e o Prado, e o suporte de tais desenhos _ compensados de madeira comuns no transporte de obras de arte mundo afora _ terminam por enfatizar um caráter serial e pouco subjetivo. Ao mesmo tempo, os membros ora ausentes ora prolongados de algumas das figuras não deixam de desdobrar elementos do que podemos considerar um expressionismo brasileiro _ lembremos dos peixes agigantados em escarlate de Goeldi, dos seres híbridos fantásticos de Grassmann e dos cavalos em queda de Jardim. Contudo, os animais à margem de Mizael povoam tanto arrebaldes como degradadas zonas centrais das metrópoles brasucas, corporificando uma subcategoria, uma trupe com tênue fio de existência e cuja invisibilidade torna-se estratégia de sobrevivência e também expediente muito conveniente aos mais favorecidos. No entanto, quando tais vivências saltam aos olhos, a estranheza é patente. “[...] Uma cidade é 'um assentamento humano em que estranhos têm chance de se encontrar'”1, destaca o teórico do nosso mundo 'líquido', Zygmunt Bauman. Se projetos destinados a instituições de autoria do artista paulista têm mais a ver com a crítica ao sistema de arte e a questões como o patrimônio e a salvaguarda, Taxonomia parece atestar uma abordagem mais móvel de Mizael. Isso faz com que uma pequena ave taxidermizada, de cabeça enterrada numa base de gesso, possa ladear no mesmo espaço um chassi circular a representar um cão em posição agressiva, de investida, cujo tom brilhante e particulares forma e volume nos remetam a um prêmio de caça, uma

legitimação da história dos vencedores contra os vencidos. Ou seja, a estatutos do poder hegemônico. Pois se a tantos é incômodo a manipulação simbólica de 'bichos fofos', numa cidade onde pet shops de envergaduras exageradas e concursos de beleza de animais de pedigree se multiplicam, é fundamental lembrar que vira-latas, por exemplo, encontram-se em um limbo jurídico. Animais silvestres são protegidos por legislação que órgãos como o Ibama têm de defender e fiscalizar. Já os SRD (sem raça definida) estão entregues à própria sorte. A menos que obstruam vias e logradouros, em caso de ferimentos, por exemplo, dependem de amparo alheio, muitas vezes não existente. Não à toa, a ArtNexus, quando Mizael expôs trabalhos em feira em Madri, em 2013, apontou a similaridade entre os imigrantes latinos, de cidadania de segunda classe, e os cachorros dispostos em instalação do artista paulista. Pois a obra de Mizael discute, sem meias-imagens, relações de sujeição e opressão. E ver isso de modo especular é pouco agradável.

Mario Gioia setembro de 2013 *texto de apresentação da exposição Taxonomia, na ZipperGaleria

Profile for Vitor Mizael

Portfólio (trab selecionados)web  

alguns trabalhos dos últimos anos...

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