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SEMANA CINERAMA

2016

05 A 09 DEZ


AO PÚBLICO E AOS PARTIC Não se trata meramente de um efeito psicológico aquilo que se dá no espaço e tempo suspensos de uma projeção de um filme. Algo se dá na esfera do real, o acontecimento por um instante: a possessão do personagem pelo corpo que o encarna. Há uma possessão. O cinema é também um ritual que processa o pensamento mitológico. O silêncio parece compor o mito, aderindo à imagem em passos lentos. E a configuração de uma plateia que não opina nem se manifesta, embora não seja nunca silenciosa, passa a ser entendida precisamente como um corpo na fruição dentro do coletivo (uma multidão é capaz de comungar pelo silêncio). O silêncio do cinema é também uma inquietude, trama complexa de determinados significantes. A partir do cinema - e em direção às outras mídias e medidas - a curadoria 2

traça algumas possíveis linhas para as exibições:

1 tornar as coisas evidentes 2 operar e substituir conflitos 3 estrategizar o acontecimento ficcional É necessário frisar aqui a temporalidade da re-existência nesse expediente: o tempo a altera ou por vezes a faz valer. Precisamos do eco polifônico. Ainda, objetos, atitudes e emoções que não eram re-existentes podem se tornar. É necessário uma repulsa ou uma distância que permita ver a re-existência das coisas. O fenômeno revelador do silêncio é aqui forjado em termos de uma deterioração. Transformação ruidosa para transitarmos entre as imagens e, sobretudo, escavar o excesso de significado já inscrito na superfície da experiência


CIPANTES, do presente. Não se trata de assumir uma relação saudosista com o tempo passado, mas de criar possibilidades de dialogar com a cavernosidade do agora, fenestra aberta ao retorno dos passados. No espaço que ocupamos da Escola de Comunicação da UFRJ procuramos trazer esses procedimentos, que foram aqui agrupados em torno de mesas ou zonas de conversa. Ambiciona-se situar esse lugar próximo a um princípio não de dever, mas de prazer, no que move as pessoas nos entornos do fazer cinematografico. Interessa-nos que o uso-aqui das imagens crie um laboratório de curadoria extendido à reordenação sensível, como das possibilidades para o diálogo e suas dissidências. Fazer do ruído e do trânsito a linha tênue do contorno entre as imagens, onde se manifestam como desejo do fazer experimental na seara do audiovisual transitório, as mesas

estendidas no quintal e os amontoados cineclubistas em instituições prestes a se perder de vista. Há pontos imaginários que divisam o real em relação à fantasia e desejamos assim a conversa. Daniel Santiso e Max William Morais

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curadoria e programação

Daniel Santiso, Lorran Dias e Max William Morais

diálogos curatoriais Guiomar Ramos

produção e exibição

Ana Lidia Guerrero, Daniel Santiso, Flora Reghelin, Isabela Aleixo, Leonardo Cajahyba e Lorran Dias

monitoria de disciplina universitária

Ana Lidia Guerrero, Daniel Santiso, Flora Reghelin, Isabela Aleixo e Lorran Dias

coordenação de projeto de extensão Guiomar Ramos

assistência técnica

Alexandre de Oliveira Nascimento, o Fifo!

projeto gráfico e editoração do catálogo Lucas Silva Vitor Garcia

coordenação do curso de comunicação social - audiovisual Teresa Bastos

coordenação executiva da CPM Inês Maciel

Escola de Comunicação Universidade Federal do Rio de Janeiro


SUMÁRIO Apresentação 07 Lugares de espera e lugares de trânsito

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Programação 12 Sinopses 16 Ateorizando a lombra

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SEMANA CINERAMA

2016


)

Apresentação

A Semana Cinerama é a mostra de cinema nacional contemporâneo da UFRJ, realizada pelos alunos membros do Cinerama Cineclube, quais realizam a curadoria, produção e monitoria da disciplina na Universidade. A mostra acontece na Central de Produção Multimídia (CPM) da Escola de Comunicação, no Campus da Praia Vermelha - Urca, e ao longo da Semana exibimos um panorama de filmes que tenham iniciado ou estejam em vias de começar sua carreira em um circuito audiovisual tal foi o caso de títulos como “Branco Sai, Preto Fica” (dir.: Adirley Queirós), “Ventos de Agosto” (dir.: Gabriel Mascaro), “A Seita” (dir.: André Antônio), Batguano (dir.: Tavinho Teixeira), entre outros. Do ano passado para cá, ampliamos a mostra para outros trabalhos audiovisuais a incluir proposições instalativas - «Não É Sobre Sapatos» (Gabriel Mascaro). Este ano estamos dedicados ao fazer fílmico em sentido ampliado, buscando outras formas

e premissas de re-existência. Sobre desejos de atualizar um debate político contracultural demarcado nos anos 70, que refletiu na produção cinematográfica/audiovisual até hoje. Observamos, assim, o contemporâneo a partir do cinema buscando mais do que formas da manutenção do sujeito na sociedade. Por meio da chamada <re-existir> nos colocamos a sugerir a reinvenção de outras narrativas possíveis para nós. Sentimos que mais necessário do que resistir às forças de opressão, se torna imprescindível Re-Existir dentro de um mundo que desliza em suas próprias estruturas, prontas a ruir nas mãos de homens brancos cisheterossexuais ou não, montados em viaturas da Polícia Militar ou sentados em bancadas evangélicas ostentando cargos institucionais. É preciso, acima de tudo, aproximar-se dos limiares e não falar sozinho. A curadoria

Cinerama cineclube é um projeto de extensão e disciplina eletiva da Escola de Comunicação da UFRJ. É coordenado por Guiomar Ramos e composto pelos bolsistas e voluntários Ana Lidia Guerreiro, Daniel Santiso, Flora Reghelin, Isabela Aleixo, Lorran Dias, Leonardo Cajahyba e Max William Morais 7


SEMANA CINERAMA 2016

Lugares de Espera e Lugares de Trânsito Diferente de anos passados, a Semana Cinerama 2016 desdobra-se nas discussões da imagem em movimento após estreitar diálogo com as propriedades do vídeo. Para tanto, a curadoria partiu de uma Chamada Aberta, na na qual recebeu filmes que várias vezes não encontrariam um lugar na discussão nos cineclubes do Rio de Janeiro. Interessante perceber que os filmes que mais conversavam dentro das propostas de re-existência da Chamada Aberta também conversavam dentro de uma linguagem entendida como experimental. E se não nos cabem mais estruturas enrijecidas de modo de produção e expressão, então também não devem caber as mesmas estruturas de exibição. Pensando nisto, buscamos como podíamos - quase não podendo -, formas de estabelecer outros su8

(RE portes para obras que mostravam-se versáteis quanto a sua distribuição.

Fora e dentro Pretende-se na mostra uma ocupação de trabalhos e corpos contemporâneos que questionem relações políticas atuais, quais privilegiam lugares estáveis e confortáveis em conteúdo e/ou forma na produção audiovisual. E pensando cada vez mais sobre o ato de ocupar, percebeu-se o Centro de Produção Multimídia da ECO UFRJ (CPM-UFRJ) uma possibilidade, com vídeoinstalações, de distanciar as noções de espaço e re-aproximar às de lugar. Deixando de ser apenas um espaço institucional com funcionalidades


EXISTIR E) concretas, para se tornar uma zona ocupada por memórias a criar convivências dentro de um período em específico. Sendo um cineclube, usualmente trabalhamos com sessões e nos é muito familiar o espaço do auditório e os processos de personalização do ambiente em um lugar suspenso no espaço-tempo, dentro de uma caixa preta, ondwwe o espectador é levado a uma experiência de total concentração ao som e à luz, criando uma relação contemplativa com a imagem-movimento exposta. Dessa forma, o Cinerama Cineclube, totalmente contrário às vontades  de doutrinação do espectador, incita a discussão sobre os estados do ser, através de percepções e experiências nas quais nos percebemos em

estado de Espera em certos lugares, quando em outros, estamos em Trânsito. Não era diferente quando traçamos um paralelo entre Sessão x Instalação, onde em uma sessão existe uma pré-disposição em esperar. Começa-se a assistir um filme, sabendo que ele irá terminar. Começamos esperando o seu fim. Esse é o objetivo: apenas se colocar em um modus operantes de repouso, com pouco gasto de energia física e com alta concentração à obra. O momento da sessão é perfeito para que possamos criar relações e assistir algo dar à luz e encerrar em si mesmo. Assistimos a um instante de vida, esperando a morte. Ou início de outra coisa, o retorno para nossas próprias histórias. Apenas em 2015 arriscamos instalar o trabalho “Não É Sobre Sapatos” de Gabriel 9


Mascaro junto às câmeras de vigilância do prédio. Pensando sobre a palavra Instalação, o que, para além de algo tecnológico, estava sendo acoplado, abrigado, anexado ao espaço que são os corredores e paredes da CPM? O caráter expositivo. Esse trabalho acabara por funcionar como uma oportunidade de perceber nitidamente as valorizações que o meio pode proporcionar à obra. Quantas sensações, impressões e devaneios nós podemos ter sobre o trabalho quando o vemos ao lado de tal dispositivo de controle? Vários dos trabalhos que recebemos se articulavam sob esta flexibilidades: eram trabalhos com início e fim, mas seu cerne mais substancial poderia ser apreendidos através de um poder da síntese do vídeo que cristalizava no tempo da imagem um sentido, que ao ser repetido, voltava à possibilidade de novas associações e interpre-

tações sobre. Eram trabalhos que não necessitavam dispositivos de concentração como as sessões, que poderiam ser assistidos ao passo que debatidos. Puxamos uma mostra para questionar e nos mantemos fiéis a isso. Longe de qualquer resposta fechada em si, a Semana Cinerama 2016 pode ser entendida como um grito de desespero, um ato de insatisfação com a atualidade, de descrença nas normas políticas e mais do que nunca de desconhecimento sobre o que fazer com as questões que esmurram nossa face no contemporâneo brasileiro. O tempo continua indecifrável e faminto. Hoje, mais do que nunca. Perante a fome imposta de cima pra baixo, Conseguimos nos lembrar do lugar de onde viemos? E das janelas que passamos? Lorran Dias

Onde as memórias improvisam o 10


o presente? 11


PROGRAMAÇÃO 05 / 10

06 / 10

Abertura

19-22h Sessão

15-17h E ncontro fílmico

sobre fazer

1: A assistência de direção

Bate-papo: Marianne Macedo Martins 19-22h Sessão Desmonte | Mariana Cavalcanti Corredor | Matheus Zenom Entretempos | Yuri Firmeza e Frederico Benevides Untitled: não identificado | Sidney Schroeder Waleska Molotov | Amandla Veludo Autoretrato em vermelho | Berenice Xavier Linguagem | Luiz Rosemberg Filho

18:30-22h Videoinstalação Periférico | Renata Sampaio Cosmogonia Supercarioca Superficcional animada, infinito | Guerreiro do Divino Amor

Mesa: Guiomar Ramos (professora, crítica e pesquisadora ECO/UFRJ), estudantes secundaristas da Ocupação C.E Antônio Houass, Luiz Rosemberg Filho e realizadores presentes.

Cinema in natura | Fernando Gerheim Cadernos, anotações, esboços e sombras | Inês de Araújo Confidente | Karen akerman Vozes do Rio | Beatriz Pimenta Ruim é ter que trabalhar | Lincoln Péricles Jardineiro Infiel | Walla Capelobo

18:30-22h Videoinstalação Mudo Convite | Thiago Gallego Escabroso | Bruno Barrenha

Mesa: realizadores presentes.


07 / 10

08 / 10

15-17h E ncontro sobre fazer fílmico 2: Direção de atuação

19-22h Sessão

Bate-papo: Pedro Freire 19-22h Sessão Não-habitável | Regina de Paula Vídeo-anotação Cacos | Mayra Martins Redin Occidente | Ana Vaz Arpoador | Ana Costa Ribeiro Como fazer (entre outras coisas) tempestade em copo d’agua | Millena Lízia

Sobrepele | Viviane Laprovita, Juliana Gretzinger Sensum at Practicum / No Practice | Uirá dos Reis Antes o Tempo Não Acabava | Fabio Baldo e Sergio Andrade

18:30-22h Videoinstalação Paralém | Elisa Magalhães c0r3ogr4f14 | Aline Besouro

Mesa: Aline Besouro, Elisa de Magalhães e Juliana Gretzinger.

18:30-22h Videoinstalação Picasso enquadrado | Analu Cunha Devagar | Renata Sampaio

Mesa: realizadores presentes.


PROGRAMAÇÃO 09 / 10 Encerramento 19-22h Sessão Nada levarei quando morrer, Aqueles que mim devem cobrarei no inferno | Miguel Rio Branco O Delírio é a Redenção dos Aflitos | Fellipe Fernandes Noite | Paula Gaitán

18:30-22h Videoinstalação Papai Está Descansando | Lyz Parayzo Espectro de uma aurora | Millena Lízia

Mesa: Juliano Gomes (Cinética) e Realizadores presentes

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O


SINOPS SEMANA CINERAMAA

2016


SES


dia um


Desmonte | Mariana Cavalcanti, 7’, RJ, 2016 A ruína carcomida da boa educação falida treme na base com os abalos da geração 2000. Lorena Pazzanese Assistente de direção: Monique Rocco Produção: Mari Cavalcanti Roteiro: Guilherme Tostes Direção de fotografia: Cainã Bomilcar, Marcelo Mudou Trilha sonora original: Fábio Carneiro Leão Design de som: Vinícius Couto Direção de arte: Vinícius Couto Figurino: Mariana Cavalcanti, Heloísa Duran, Vinícius Nascimento Montagem: Davi Neves, Cibele Costa Elenco: Diego Quindere


Periférico | Renata Sampaio, 8’, RJ, 2014 Video: Fabricio Sortica Performer: Renata Sampaio É importante pensarmos a arte política para além da situação politica do país ou do mundo – embora ela seja de vital importância em momentos como os de agora, nos quais o fascismo toma conta e a Constitição parece não existir; ou como nas ditaduras militares, nas quais as pessoas eram toruradas e mortas por discordarem de governos ilegítimos e arbitrários. Mas não podemos esquecer que a arte ainda é considerada, em grande parte, algo pertencente às elites. Os equipamentos culturais em sua maioria nas áreas nobres da cidade, o alto custo de determinados ingressos, o hábito de frequentar espaços artísticos como sendo algo não essencial e a falta de visão da arte como algo que engrandece o sujeito ainda reforça uma visão elitista de arte. Sendo


assim, acho importante considerarmos “politica” a arte que revê os seus modos de produção, seus agentes e seu acesso. Arte política como aquela praticada por e para as minorias, em espaços públicos, cotidianos, ou democratizando o acesso a lugares antes vistos como inalcançáveis, com temáticas que comuniquem e de fato possibilitem pequenas revoluções, a nível subjetivo; uma arte que afete. Neste contexto, posso dizer que minha arte é política: sou negra, nascida e criada no subúrbio carioca, filha de mãe migrante empregada doméstica e pai pedreiro, e tenho meu corpo e as questões de identidade, alteridade e territoriedade como foco do meu trabalho. Sou formada em artes cênicas na UNIRIO e lá percebi como o racismo ainda é estrutural na academia e nas artes. Comecei a trabalhar com performance por ver nessa modalidade artística a possibilidade de

falar de mim, do meu corpo, das minhas origens, do meu povo, do que me importava e não podia ser dito dentro da estrutura branca do teatro convencional. Percebi que minha arte podia empoderar a mim e aos meus pares. Gravar e disponibilizar os vídeos na internet serve para ampliar o acesso, desmistificar a noção de que arte precisa de lugar e hora certa para acontecer e posturas e comportamentos corretos para “contemplá-la”. Hoje a internet é uma grande ferramenta politica para a arte porque possibilita que ela aconteça - seja na sua produção ou recepção - no computador da sua casa ou até mesmo no celular na sua mão. Periférico é sobre a periferia geográfica da cidade e subjetiva de cada um de nós, acontece na Avenida Brasil, um não-lugar que separa o subúrbio e o centro da cidade do Rio de Janeiro, numa das passarelas de acesso ao Complexo da Maré. Foi feita

pelo celular de um amigo que visitava a cidade quando nos questionávamos o que de fato é periférico ou não na cidade. Essa performance é uma tentativa de corporificação do verbete “Periferia” no Dicionário Aurélio: 1. Superfície ou linha que delimita externamente um corpo. 2. Contorno duma figura curvilínea. 3. Numa cidade, a região mais afastada do centro urbano. No ano seguinte à produção deste vídeo, essa passarela que recebera o nome de “caracol” por seu formato peculiar foi descaracterizada ao ser demolida e construída de outra forma na criação de um dos acessos ao BRT Transbrasil. Renata Sampaio

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Waleska Molotov | Amandla Veludo, 18min , RJ, 2016

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Corredor | Matheus Zenom, 4’, Nova Iguaçu/RJ, 2015 Filme de montagem com imagens extraídas de reportagem da TV Globo sobre os bailes funk de “corredor” do Rio de Janeiro nos anos 90. Produção e Reportagem originais: Eduardo Faustini Imagens originais: Luiz Quilião Montagem original: Luiz Petry e Roberto Cavalcanti Narração original: Pedro Bial Música: “O Canto do Cisne Negro”, de Heitor Villa-Lobos


Auto retrato em vermelho | Berenice Xavier, 1’44, RJ, 2015 Palavra não dita, maldita, surgida ao espelho após ira contida. Videoperformance na qual realizo uma única ação em frente à câmera. Arte é a resposta orgânica aos bloqueios dos impulsos. É a trilha para a saúde. Imagens e edição da artista.


Untitled: não identificado | Vídeo, 9’, 2014 ...curta-metragem: transmissão radiofônica: work in progress: em movimento: instável: de origem desconhecida: movediço: mutante: anárquico: classificação livre: nenhuma das respostas anteriores: untitled: não identificado... Filme criado a partir da transmissão da invasão marciana no programa de rádio Guerra dos Mundos do Orson Welles de 1938 e das manifestações que tomaram conta do país em junho de 2013. Direção: Sidney Schroeder Edição: Rafael Fracacio Edição de Som: Fátima Araújo


Linguagem | Luiz Rosemberg Filho, 19â&#x20AC;&#x2122;, RJ, 2014 Elenco: Priscyla Bettin Montagem: Gustavo Herdt Fotografia: Renato Coelho, Renaud Leenahardt Argumento-colagem-roteiro: Luiz Rosemberg Filho Trabalho dedicado a Hernani Hefner, Cavi Borges, Patricia Niedermeier, Ana Abbot e seu labrador Wilson

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ESTÁ SOLTA A MARÉ ESCURADO SANGUE EM TODA PARTE. A CERIMÔNIA DA INOCÊNCIA SE AFOGOU. O MAL ESTAR FAZ PARTE DA DISCIPLINA DO NOSSO TEMPO, TALVEZ POR ISSO ESTA CONSTANTE NEGAÇÃO DO DESEJOE DO AFETO. E EXISTE SIM UMA INTENSIFICAÇÃO DOS HORRORES EM FORMA DO ESPETÁCULO. POR EXEMPLO O QUE FAZ A TV COM A SUBJETIVIDADE E A CRIATIVIDADE DE CADA UM? COM A POSTURA APOCALIPTICA DA DIMENSÃO DOS MUITOS HORRORES (...) IMPOSSÍVEL NA SUPERFICIALIDADE DOS MUITOS DISCURSOS QUE NADA DIZEM, OU COMO DIZIA PICASSO (...) MESMO O NOSSO MUNDO DAS IMAGENS (...) UM INFANTILISMO SURTADO. CONCILIAR O QUE COM O QUE? FUNCIONAR ASSIM COMO UM TRIBUNAL DE ARROGÂNCIAS ENTRANHADO EM CADA UM? ORA COMO ENTENDER UM SER ESTRANHO COMO O SENADOR CRIVELLA OU MESMO O DEPUTADO MARCO FELICIANO E TANTOS OUTROS (...) RECUAR QUANDO NECESSARIO MAS AVANÇAR SEMPRE RUMO AO PROIBIDO (...) VENERAÇÃO DO PRAZER (...) ORA SATISFAZER O DESEJO É TÃO FUNDAMENTAL QUANTO A REAL ERUDIÇÃO DOS ENCONTROS E DOS AFETOS. (...) EM QUE NOS INTERESSA A AUTO-REALIZAÇÃO DE SERES MEDÍOCRES DA POLÍTICA OU DA COMUNICAÇÃO? (...) Luiz Rosemberg Filho

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Entretempos | Yuri Firmeza e Fred Benevides, 7â&#x20AC;&#x2122;, CE, 2015

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“Cosmogonia Supercarioca Superficcionnal Animada” | Guerreiro do Divino Amor, 2016 SuperRio é o gêmeo superficcional do Rio de Janeiro, um ecossistema de superficções que interferem na construção da cidade e do imaginário coletivo. Painel de backlight animado dimensões: 2,20 X 1,30 X 0,20 metros peso: aproximadamente 15 kilos materiais da estrutura: madeira, compensado, Imagem impressa no filme duratrans Mecanismo de iluminação: estroboscopio, fitas de led, motores de micro-ondas, acetato pintado, acrílico pintado.

SuperRio é o gêmeo superficcional do Rio de janeiro; um ecossistema de superficções que interferem na construção da cidade e do imaginário coletivo. InfraRio é o substrato sobre o qual se constrói SuperRio. Ele vem a tona em forma de supererupções dos supervulcões. Tal substrato é composto pela superescravidão, que rege inconscientemente 30


as relações humanas e estrutura a sociedade supercarioca. As Supermídias têm papel primordial no ecossistema supercarioca, pois encenam, caracterizam e multiplicam as superficções. Atuam como inúmeras camadas nebulosas modificando a percepção da realidade. A camada inferior de névoa é composta pelos rumores – inclusive por meio das redes sociais –, e a camada superior destila a realidade, criando outra paralela. Supertempos são reservas inextinguíveis para os enredos superficcionais, apresentando sempre uma face diferente em função dos seguintes ventos: Superfuturos – entidade multicéfala; o futuro plana sobre a cidade e apresenta seus rostos, como a capital do petróleo, a guerra civil, o paraíso ecológico, a cidade olímpica ou o apocalipse; Superpassados – ima-

gem fruto do narcisismo da cidade, um dia capital do Império – glória que permanece suspensa no ar, reaparecendo sempre em nova perspectiva mitológica. A Rosa dos Ventos gira em quatro direções opostas em função dos seguintes ventos superficcionais acionados pelas supermídias: Supersexy é o principal produto de exportação. Talvez seja o vento superficcional mais famoso internacionalmente. Um mundo de beleza e sensualidade à flor da pele, propagado ao infinito

pelas supermídias (por meio, por exemplo, das supernovelas). Ele nasce no contexto geográfico edênico isolado das outras civilizações, e se multiplica pela história constantemente. Supermedo é a sombra que paira sobre a cidade e os habitantes. É um sentimento polimorfo que influencia o comportamento humano. Seu vulto é projetado pelas supermídias, tornando-se onipresente. Supernatureza é a incorporação da pureza intocada da Natureza e do Homem. Um

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mundo virgem de selva e instintos a ser desbravado.

SuperPorto, SuperOlimpíadas e etc.).

dor, superfavelado, supervulgar, e etc..

Supermundo é a imagem da cidade como metrópole mundial genérica; fantasia de progresso e modernidade sem limites, enfatizada por grandes eventos e projetos.

Os Superestrangeiros decorrem do encapsulamento geográfico e mental extremo da cidade.São a encarnação da imagem que os Homens das diferentes partes e classes têm os uns dos outros: Superrico, superpobre, supermoderno, superninguém, superbandido, superdecadente, superinexistente, superpreto, supersuperficial, superlúbrico, superidiota, supermoderno, superfeio, superconserva-

Os Superestrangeiros decorrem do encapsulamento geográfico e mental extremo da cidade. São a encarnação da imagem que os Homens das diferentes partes e classes têm os uns dos outros:Superrico, superpobre, supermoderno, superninguém, superbandido, superdecadente, superinexistente, superpreto, supersuperficial, superlúbrico, superidiota, supermoderno, superfeio, superconservador, superfavelado, supervulgar, e etc..

Provém da fundação da supernação com o lema ordem e progresso, estando hoje vinculada ao seu halter ego mundial. Ela se manifesta no espaço urbano sob forma de enclaves (SuperBarra,

SuperSuperior constitui uma civilização, e se considera uma raça distinta. De fato, é quase uma mutação da espécie humana. Tem sua própria geografia – uma ilha virtual – e defende seu território arduamente. Duas civilizações dicotômicas lutam pelo controle do espaço e da mente dos humanos: o Superimpério e 32


a Supergaláxia. Cada uma é dotada de meios de comunicação, estratégias de combate, valores morais e estética próprios. O Superimpério é uma máquina de batalha racional, comandada por superconsórcios, e a Supergaláxia é movida por impulsos descoordenados. O objetivo do Superimpério é criar zonas de conforto e se expandir, criando corredores de segurança onde ele possa se locomover num

mundo à própria imagem: liso, limpo, fluido, carregado pelo vento Supermundo. Ele se manifesta sob forma de enclaves herméticas no espaço urbano e possui colônias no mundo inteiro. Do outro lado do Espelho Divino se encontra SuperDeus, uma dimensão paralela que contém a tradução divinizada de todas as superficções do SuperRio. É a sociedade paralela superfundamentalista. Os discípulos do SuperDeus

se atiram numa supercruzada para empurrar o Espelho Divino para mais além possível e conquistar o universo supercarioca. Constitui um ecossistema complexo, repleto de guerras intestinas e com cosmogonia própria. Guerreiro do Divino Amor

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dia dois A tela são os olhos de uma forma teláquea de ser chamado consciência que fala suas últimas palavras eu estou morrendo eu estou agonizando eu sopro ao pé do seu ouvido boquiacéuberto o meu último suspiro I have fear what mistery what beauty . (o tempo é real quando o presente é uma premonição)

Cinema in natura | Fernando Gerheim, 15’, 2016

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Cadernos, anotações esboços e sombras | Inês de Araújo, 12’50, 2011-2016 A sessão Cadernos, anotações, esboços e sombras dá continuidade ao meu interesse pelo desenho como uma linha que nunca acaba de se relançar ao transformar gestos, imagens em novos intervalos. São trabalhos que prolongam a série Cadernos de desenho que desenvolvo desde 2011.

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Mudo convite | Thiago Gallego, 1’17 Três leituras para um poema de Ana Cristina Cesar. Texto: Ana Cristina Cesar Imagens e montagem: Thiago Gallego Aparições: Angélica Freitas, Juca, Lucas Matos, Ciceli Gravito


Vozes do rio | Beatriz Pimenta, 5’45, 2010 Ruídos captados a partir de diferentes origens não se alteram quando revertidos, vozes em diferentes velocidades mudam de aparência. Imagens e textos se imbricam em vibrações, texturas e rastros

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Escabroso | Bruno Barrenha, 6’12, 2016 BABABADALCHARAGHTAKAMMINARRONNKONNBRONNTONNERRONNTUONNTHUNNTROVARRHAUNAWNSKAWNTOOHOOHOORDENENTHURNUK. Realização: Bruno Barrenha [captação de imagens em câmera de interfone, edição de som] Noise: Bruno Barrenha, Nuno Aymar e Igor Holanda.

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Confidente | Karen Akerman, 12’, RJ, 2016 Se não germinei, se fiquei por florescer, é porque me envenenaram as raízes. Eu sei que é falso, um erro provocado, mas... este sou eu. Direção: Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes Produção executiva: Alessandra Castañeda Roteiro: Miguel Seabra Lopes e Karen Akerman Montagem: Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes Som: Bernardo Uzeda Produtora: Pela Madrugada Elenco: André Dahmer (voz)

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Ruim É Ter Que Trabalhar | Lincoln Péricles, 9’47, SP, 2014 Alguns dias antes da copa do mundo no Brasil, um operário reflete sobre seu trabalho. Diretor: Lincoln Péricles Roteiro: Adriano Araujo, Lincoln Péricles Produtor: Lincoln Péricles Diretor de Fotografia: Lincoln Péricles Trilha Sonora: Livio Tragtenberg Som Direto: Lincoln Péricles Edição: Lincoln Péricles Edição de Som: Lincoln Péricles Elenco: Adriano Araujo Agente Comercial: Lincoln Péricles 40


Jardineiro infiel | Walla Capellobo, 4’11, RJ, 2016 SyFy latino, walla se deixa envolver em êxtase, desejo e busca de higienização através de utensílios de jardinagem.

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dia trĂŞs


Não-habitável (SSCC) | Regina de Paula, 18’, 2006 Fotografia: André Sheik Edição: Regina de Paula e Bruno de Carvalho


Occidente | Ana Vaz, 15‘, 16mm/HD, color, 5.1 sound, 2014 Um filme poema de uma ecologia de signos que tratam de uma tradição colonial em repetição. Subalternos tornam-se mestres, anqtiguidades tornam-se aparelhos de jantar reprodutíveis, pássaros exóticos tornam-se câmbio luxuoso, exploração torna-se turismo de esportes radicais e monumentos viram geodata. Uma viagem esférica entre os sentidos leste-oeste, marcando ciclos de expansão numa busca para encontrar o lugar ao redor da mesa. 44


Arpoador | Ana Costa Ribeiro, 20’45, 2014 Antes de partir, minha mãe pediu que a levássemos ao Arpoador, área do Rio de Janeiro formada por uma grande pedra e pelo canto de uma praia. “Arpoador” significa “aquele que arpoa, que arremessa o arpão para pescar”. Dizem que o local foi batizado assim porque ali teria sido uma área privilegiada para a pesca de baleias. Com: Carlos Costa Ribeiro Música: Guilherme Vaz

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Devagar | Renata Sampaio, 1’19, RJ, 2015 Devagar é uma caminhada lenta, na qual cada passo é desfrutado; um tempo próprio, subjetivo, em oposição ao tempo acelerado dos outros caminhantes. Trata-se de uma apropriação da prática do “slow walk” de Marina Abramovic e da “meditação andando”, de Thich Nhat Nanh, na qual a caminhada enquanto prática de consciência de si e do espaço possibilita alcançar um nível avançado de percepção. Esse vídeo faz parte de uma obra maior intitulada Corpus. Vídeo: Gustavo Colombine

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Analu Cunha | Picasso enquadrado, 7â&#x20AC;&#x2122;, 2016 tentativa de enquadramento, durante 7 minutos, do peixe Rhinecanthus aculeais, conhecido como Triggerfish Humu-humu ou como triggerfish Picasso.

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Como fazer (entre outras coisas) tempestade em copo d’agua | Millena Lízia, 2’37, RJ, 2011 Como fazer (entre outras coisas) tempestade em copo d’água é um videoarte low-tech que beira a abstração e o nonsense. Tem como personagem o fôlego, quem dita a duração do vídeo e do ritmo embebido de perturbação, desconforto e esvaimento. Mas, como é sabido, depois da tempestade vem a calmaria: da luz (ofuscante e atraente) à sombra, do ruído ao silêncio.

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Vídeo-anotação Cacos | Mayra Martins Redin, 3’07, 2011 vídeos-anotação, disparados pela noção de Anotação de Barthes: “(...) não se voltar para a atenção, mas, no entanto, não investir demais no que está ao lado - No limite: uma existência um pouco vazia (voluntariamente vazia) de terraço de café (...)”.

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Sensum at Practicum / No Practice | Uirá dos Reis, 10’45, CE, 2010 Olhar as coisas submersas.


Antes o tempo não acabava | Fabio Baldo e Sergio Andrade, 85’, AM, 2016 Anderson é um jovem rapaz que possui raízes na etnia indígena saterê. Quando ele se muda para Manaus e vai morar na cidade grande, ele começa a se ver preso entre os embates culturais das tradições do mundo de onde veio e cresceu e os costumes urbanos e o complexo e conturbado cotidiando da metrópole.

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Direção: Sérgio Andrade e Fábio Baldo Elenco: Anderson Tikuna, Severiano Kedassere, Fidelis Baniwa, Kay Sara, Ana Sabrina, Rita Carelli, Begê Muniz, Emmanuel Aragão e Arnaldo Barreto Produção executiva: Ana Alice de Morais e Sérgio Andrade Roteiro: Sérgio Andrade Fotografia: Yure César Montagem: Fábio Baldo Mixagem: Ariel Henrique Captação de som: Nicolas Hallet Edição de som: Fábio Baldo Direção de arte: Oscar Ramos


Paralém | Elisa de Magalhães, 8’13’’, RJ, 2006 Paralém é uma videoperformance de Elisa de Magalhães que tem como tema a loucura e o conflito gerado nela entre a clausura e a auto-clausura. Uma pessoa em estado de loucura está livre dentro de seu mundo particular ou de seu próprio confinamento. Nesse trabalho, realizado em 2006, a artista anda nua por dois corredores do convento, hoje universidade, passando de um para o outro como

um fantasma ou um espectro. O Convento do Carmo foi onde ficou internada, em seus últimos dias, Dona Maria I, rainha de Portugal (desde 1777) e depois rainha do Brasil (1815-1816), mãe de Dom João VI, conhecida como a Louca e a Piedosa. A ficha técnica sou eu em todas as posições, performer e operadora de câmera. Foi filmado no Convento do Carmo, onde hoje é a Faculdade Cândido Mendes, no Centro, em 2006.

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c0r3ogr4f14_1 | Aline Besouro, 16â&#x20AC;&#x2122;31, RJ, 2014,


Sobrepele | Viviane Laprovita e Juliana Gretzinger, 3’07’’, RJ, 2016 O feminino e a dança dos elementos. da flor e do fogo, da semente que retorna à terra e carrega consigo tempestade.projeções em vídeo sobre corpo feminino. Conceito, produção e edição: Viviane Laprovita (EBA/ UFRJ), Juliana Gretzinger (EBA/UFRJ) e Melissa Santos (IART/UERJ) Atriz: Rafaela Garcez


O Delírio é a Redenção dos Aflitos | Fellipe Fernandes, 21’, PE, 2016 Raquel é a última moradora de um edifício condenado e ela precisa se mudar o mais rápido possível para salvar sua família Diretor: Fellipe Fernandes Elenco: Nash Laila

Roteiro: Fellipe Fernandes Edição: Quentin Delaroch Som Direto: Lucas Caminha Direção de Arte: Thales Junqueira Edição de som: Nicolau Domingues Direção de produção: Júlia Machado, Luiza Ramos Produção Executiva: Dora Amorim, Thaís Vidal Direção de Fotografia:

Gustavo Pessoa Trilha Sonora: Nicolau Domingues Empresa Produtora: Áspera Filmes, Ponte produções Produtor: Dora Amorim

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Nada levarei quando morrer, Aqueles que mim devem cobrarei no Inferno | Miguel Rio Branco, 20’, BA, 1985 O título é uma homenagem ao modo de falar dos negros que viviam no Pelourinho no fim da década de 1970, época retratada no filme, que foi filmado entre 1979 e 1981. O curta observa a rotina em zonas degradadas do famoso bairro de Salvador em corpos nus e em ruínas de construções do bairro. Diretor: Miguel Rio Branco

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Espectro de uma aurora | Millena LĂ­zia, 3â&#x20AC;&#x2122;18, RJ, 2011

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Noite | Paula Gaitán, 80’, RJ, 2014 ‘’Because the night belongs to lovers Because the night belongs to lust Because the night belongs to lovers Because the night belongs to us” Companhia Produtora: Aruak Filmes Produção Executiva: Paula Gaitán Produção: Bernardo de Oliveira Duda Pedreira Joelma de Oliveira Roteiro: Paula Gaitán Fotografia: Paula Gaitán Montagem: Paula Gaitán Edição de Som: Paula Gaitan, Fernando Seixlack Trilha Musical: Dedo , Baile Primitivo, Thomas Rohrer, Cadu Tenorio, Negro Leo, Cassius Augusto, Savio Queiroz, Ava Rocha, Carlos Issa, Arto Lindsay, Gilmar Monte, Arrigo Barnabé Com: Clara Choveaux, Nash Laila,Cassius Augusto, Ava Rocha,Negro Leo, Andre Novais , Maira Senise , Daniel Passi, Mell Brigida, Carolina Caju, Joana dos Santos

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Papai está descansando | Lyz Paraizo, 2’59, RJ, 2016

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Ateo r izando a lombra 24 Catadas as citações abaixo, começa o texto: 23 “Ao invés de reconhecer e corrigir suas falhas fundamentais, [as elites] estão dedicando suas energias para demonizar as vítimas de sua corrupção, a fim de deslegitimar as queixas e, assim, se livrar da responsabilidade de resolvê-las de forma significativa. Essa reação serve apenas para reforçar a percepção de

que essas instituições da elite são irremediavelmente egoístas, tóxicas e destrutivas e, portanto, não podem ser reformadas, devem ser destruídas. Isso, por sua vez, só assegura que haverá muitos outros Brexits, e Trumps, em nosso futuro comum.” (GG) 22 e 21 “Diante das obras inegociáveis de Nuno Ramos, a

última coisa que eu penso é: “estamos fodidos”. E a primeira é “vamos nessa”, “vamoquevamo”, e outras expressões que nascem de um pessimismo sublimado, como uma gíria fresca, nova. São obras que versam sobre a abundância, não sobre a falta, problematizam o futuro como algo indeterminado, independente de otimismo ou pessimismo. Se será bom ou ruim, habitável ou respirável, pouco importa: há que ser novo, radicalmente novo. Não seria o grande desafio para o pensamento brasileiro das próximas 63


décadas dar corpo a esse sentimento alienígena, não somente nas artes, mas também nas formas de vida, buscando problematizar constantemente a pergunta: como pensar o Brasil na abundância? (BO)”

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Quando ta GG, vêm daqui

Segundo, essa sempre foi uma ficção fraca.

https://www.youtube.com/watch?v=A-XmzzgVqPM

Mentira (Verdade) Vem daqui

Hmmmmm.

https://theintercept. com/2016/11/09/democratas-trump-e-a-perigosa-recusa-de-entender-as-licoes-do-brexit/

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“Se há caminho, este se constituirá a partir do delírio, da subjetividade, da leveza de uma posição singular, criativa e transindividual, de uma duração própria que pode se ramificar em outras atitudes e pensamentos. Não de uma ciência redentora, muito menos de uma ira santa apoiada na certeza das evidências. Ainda falamos de uma “gaia ciência”. (BO)”

Bixo, bixa, eu não sei como fazer um cinema de re existência, uma arte insurgente, não sei mesmo. Espremendo, talvez, tenha umas pistas. Este texto tenta pistas.

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18 Quando tá escrito BO, vem daqui 64

15x Por último: entender que a produção de arte, a reconhecida institucionalmente, advém de um bizarrice, que é ser produzida por um mesmo grupo e seus descendentes e correlatos, até que se entender isso como natural, primeiramente.

14 Sempre aconteceu outra coisa. 13 Sempre. Portanto, como sugestão: vamos à outra coisa. 12 A citação que ta lá em cima alerta isso. Sem perceber e atuar a partir da distorção da ficção da centralidade, não vai rolar nada. O discurso da centralidade só me parece ser uma opção quando seu objetivo é suicida (obrigado movimento punk, vocês entenderam as coisas. E entenderam sem “entender”, o que nesse caso é melhor ainda. Objetivo perene: pensar com outras partes do corpo – cabeça é chifre e boné)


11 A “outra coisa” no cinema sempre esteve e sempre está por aí: tem que botar ela pra trabalhar. Nomear acho que adianta pouco. Porque uma pista que o texto do Bernardo lá em cima dá (vai no link e lê): a coisa, a outra, não vai ser individual. Essa re existência, vai ser de outro jeito. 10 A sensação é que uma das forças disso é um vetor de impropriedade. Fazer o trabalho das artes, das experiências em geral, como um trabalho da impropriedade, do que não é próprio, apropriado, ou apropriador, apropriante: arte como trava língua, como lambida da língua presa. Jogar com uma afirmação de algo que escapa, escorre, esbanja e ostenta: ABUNDA. 9 Não é a falta, ou a carência que manda. (Na verdade,

pra isso, é preciso ter o que comer, e isso não pode ser esquecido, nunca - esse texto existe porque há o que comer por aqui - e um note). A sensação é de que a fome não ajuda que se pense em outra coisa. Provavelmente, há um delírio da fome, e ele é uma onda, o modo de vida dos que tem fome é de alguma maneira uma estética. Não precisa ter fome o tempo todo, pra intuir isso, mas há um modo de vida a ser explorado como forma e como estética. (Há uma escala da experiência que a fome, o delírio, alucinação e a idiotia sugere. Há outras.) Um sinal forte é a música popular, o funk, especialmente. É visível ali o urdimento de um modo, que passa por uma figura poética que acho que rende, que é a figura do “delirante”, do “errado”, poderíamos dizer (faltou palavra melhor). Daí penso no MC Bin Laden, no MC Brinquedo e toda uma poética construída em torno do que é, pelos olhos

da centralidade, o que há de mais idiota. O problema é que a “idiotice”, como qualquer material, pode ser ritmado, intervalado, relacionado e se transformar em um trabalho, em uma ação de impropriedade. Pega daqui, imita, saca, faz bateria com a boca, boca com bateria, moto cantada, o tuim do lança, cinema sem câmera, filme sem imagem, um mundo reconstruído que não precisa dos guardiões da cultura e da civilização, não precisa da elite cultural (nada contra as canções do Chico, tudo contra seu uso corrente: TUDO). 8 Come out to show them Come out to show them Come out to show them Come out to show them Come out to show them Come out to show them Come out to show them Come out to show them Come out to show them Come out to show them Come out to show them 65


Come out to show them Come out to show them Come out to show them Come out to show them https://www.youtube.com/watch?v=g0WVh1D0N50

7 A coisa passa por uma dobra, pegar o Chicote do sinhô e virar do avesso e rebater. 6 O escravismo como ética, como filosofia, se tornou um modo de vida, que dá a base da vida branca de um modo. O trabalho de percepção do escravismo é constante e exige atenção redobrada de todas. O bicho pega. E não larga. Acorrenta. Diz respeito a simplesmente quase tudo, à quem fala, como fala, quando fala, quem mascara, quem cumprimenta, que pode esperar pela utopia, que tem grana pra ser vegetariano, ou não, quem consegue pagar as contas 66

pra ser cineastra, crítico. O escravismo, no Brasil, está sempre no jogo, e é um fenômeno, ou melhor, uma instituição fundadora, de uma ética, poderosa, silenciosa e gritona. Onde ele mais se sente à vontade é deitado sobre as boas intenções, sob cheirinho de consciência limpa, malandramente. 5 Re existir é entender seu sistema e desfiá-lo com paciência. Esse “re” é o “outro”, a “outra”, a “amante”. Um cinema menos “fiel”, um cinema mais “amante”. Amante imanente. 4 Sim, é preciso ampliar o cardápio de modos de vida. Gueto é uma estratégia temporária e não um norte, nem um sul. Quando solidifica, já era. Sem porta aberta, não passa nada. FURA PAREDE.

3 No “Brasil diarréia” HO deu o papo: “o que importa: a criação de uma linguagem”: HO HO HO. (Isto é: outra coisa.) Não de “uma”, mas de “outras”, de todas. Invenção, isto é, trabalhar com o que tem, pra fazer o que não tem, sem ser propriamente “de” ninguém. (Te vira) 2 Dá pra ver: o impróprio: violentar o cinema, a cultura, para torná-los eles mesmos, porque só existem como ato. Cinema é outro nome pra movimento. Movimento é outro nome pra tráfico. Tráfico é outro nome para “maximização de lucro dos negócios da família” (empreendedorismo), de um comerciante no Rio no século XX – só que de gente, vende gente, vem da gente. Cinema tem tudo com isso. E não tem nada quase. Então é preciso, ou talvez seja


bom, ou nem, talvez seja viagem: subir um exército de gifs, de memes, de não cinema, pra fazê-los respirar, ou aspirar qualquer coisa que produza sensação de vida, de movimento, mesmo que da morte como potência. Se o mundo morreu, botaí a zumbizada pra dançar: vai e dá-lhes trabalho. https://www.youtube.com/watch?v=MKIgxV9tKhg

1 Antes de tudo, o final: Sugestões de lemas para um manifesto que nunca vem ou para a volta dos que não foram: “Incontinência selvagem” “Incorporação fabricante” “Ética da confusão” “Arminha ignorância swaga” “A trapologia do ato” “Santificação relativa da umidade” “Colagem sensual” “Mão no queixo” Pra começo de conversa. Juliano Gomes 67


AGRADECIMENTOS Agnoel da Luz Amandla Veludo Ana Costa Ribeiro Ana Vaz Analu Cunha Anita Leandro Beatriz Pimenta Bruno Barrenha Carla Villa Lobos Consuelo Lins Denilson Lopes Elisa Magalhães Fábio Baldo Fernando Gerheim Fernando Sallis Fellipe Fernandes Fifo Frederico Benevides Guerreiro do Divino Amor Inês de Araújo Juliana Gretzinger Juliano Gomes Karen Akerman Lucas Murari Lucas Sauer Lucas Silva Luiz Rosemberg Filho Lyz Parayzo Mayra Martins Redin Mariana Cavalcanti Marianne Macedo Martins Matheus Zenom

Melissa Santos Nathanael Sampaio Paula Gaitán Pedro Freire Regina de Paula Renata Sampaio Sergio Andrade Sidney Schroeder Teresa Bastos Thiago Gallego Todos os estudantes secundaristas Uirá dos reis Viviane Laprovita Vitor Garcia Walla Capelobo Yuri Firmeza Central de Produção Multimídia Escola de Comunicação Universidade Federal do Rio de Janeiro

Coordenação Guiomar Ramos

Editoração Lucas Silva Vitor Garcia

Produção Ana Lidia Guerreiro Daniel Santiso Flora Reghelin Isabela Aleixo Lorran Dias Max William Morais


Semana Cinerama Cineclube Rio de Janeiro, dezembro/2016

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Catálogo Cinerama 2016  

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