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Ano V, nº 36, Valença, 2009

www.blogdovq.blogspot.com

Pelo direito de fazer crítica política O Processo

A má-fé do processo

Só a luta leva à vitória O Concidade e a máscara governista Quatro anos de VQ: pra cima deles!


Ano V, nº 36, Valença, 2009

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Editorial Quatro anos se passaram. De lá pra cá, o que percebemos é um amadurecimento permanente dos integrantes do Valença em Questão – que se configura muito mais como um movimento de idéias e ações do que uma simples publicação. Esse movimento aos poucos passa a incomodar, e é natural que surjam pressões por diversos meios, formais e informais, na tentativa de desmobilizar e enfraquecer o grupo. Aqui, pelo menos, esses instrumentos não têm funcionado. Quanto mais pressões, mais força adquirimos e ultrapassamos o cansaço do dia-a-dia para continuar lutando com nossas armas: a comunicação. As pressões vão desde ao ataque e fofocas na tentaiva de atacar familiares a ações judiciais. A primeira ação na justiça aconteceu ano passado, durante as eleições. Mas por essa já passamos, absolvidos. Agora, o vereador Felipe Farias do PT processa dois integrantes do Valença em Questão por críticas políticas em um texto publicado em nosso blog (reproduzido integralmente nesta edição). No processo, ele diz que por ser vereador o “ataque” no texto deixaria vulnerável a Administração Pública, e também que o texto causou a ele constrangimento e desconforto. Mas o pior de tudo é a má-fé do vereador, que diz ter nos procurado “para as necessárias alterações, mas não logrou êxito”. Ao contrário, ele foi procurado por nós, conforme demonstramos nesta edição, com a cópia do email enviado ao vereador oferecendo espaço no blog e a confirmação do recebimento do email por ele antes mesmo que tivéssemos conhecimento da possibilidade do processo. Deveria o nobre vereador, antes mesmo de sua posse, tomar conhecimento de que o exercício da oposição é princípio fundamental no regime democrático. É ingênuo imaginar que será sempre possível expressar descontentamentos e frustrações com linguagem e comportamento corteses, numa arena política conturbada por natureza. Acreditamos que isso nem ao menos seja desejável. O confronto de palavras e idéias constitui uma das dimensões da vida pública, particularmente do mundo da política. E é inegável que a sociedade vive hoje um aprendizado difícil depois de um longo período de

ditadura – que nós do VQ e nem o vereador, vivenciamos, felizmente. E por isso mesmo torna-se essencial um esforço para a busca de pontos de convergência entre aqueles que, apesar das diferenças, acreditam numa sociedade mais justa. Ao contrário da postura do vereador, o que precisamos hoje é da criação de novos espaços para a implementação de diálogos entre diversos atores cada vez mais diversificados. Não queremos que as próximas edições do VQ nos tomem tempo e espaço para as manifestações de apoio, mas que o VQ sirva como uma das ferramentas para o diálogo, especialmente na cidade de Valença. O vereador perdeu uma grande oportunidade de se utilizar desse instrumento. Ta m b é m n e s t a e d i ç ã o t e m o s a c o n t r i b u i ç ã o d a professora Juliana Guida Maia, que contou pra gente como se deu a organização dos profissionais da educação, da alternativa da greve e de seu término vitorioso para os trabalhadores, com as reivindicações atendidas pela prefeitura. A greve, uma das formas de reivindicação mais impopulares, parece ser ainda a forma de se pressionar os governos para a devida atenção à educação. Ainda mais importante do que as demandas atendidas (salários atrasados especialmente), é a mobilização da classe de profissionais da educação, que disseram que vão continuar lutando para a melhoria do ensino em nossa cidade. É uma luta que deve ser travada não contra o poder público, mas com apoio mútuo, já que a educação, não apenas em Valença, passa por situações críticas. A edição, apesar da repressão que vem sofrendo, é comemorativa. No dia 22 de abril de 2005 a primeira edição do VQ era distribuída na Rua dos Mineiros. À época, 500 exemplares sumiram em pouco tempo. Hoje, já mais estruturados, contamos com 3 mil exemplares, que são distribuídos gratuitamente pela cidade. Neste momento de comemoração, sempre vêm em nossa lembrança os amigos e parceiros dessa iniciativa durante esses quatro anos. É por esses apoios, cada vez maiores e mais qualificados, que temos muito que comemorar.

Onde encontrar o VQ Academia Espaço do Corpo, Acquademia, Bar São Francisco, Banca do Jardim de Cima, FAA, Hollywood Vídeo Locadora, Miriam Lajes, Revistaria Vamos Ler, Sepe-Valença, www.valencavirtual.com.br Endereço para correspondência: Rua Coronel João Rufino, 11, sala 702, edifício Panorama, Valença-RJ – CEP 27600-000. Contatos: valencaemquestao@yahoo.com.br, cafo83@yahoo.com.br (Bebeto) e vitormonteirodecastro@gmail.com (Vitor). Ou pelos telefones (24) 2453-4888 (Recados) e (21) 8187 7533 (Vitor).

Projeto Gráfico: Thiago Xisto Capa: Arte Jornalista Responsável: Vitor Monteiro de Castro (30.325 Mtb) Conselho Editorial: Bebeto e Vitor Monteiro de Castro Tiragem: 3000 exemplares - Impressão: Gráfica Rioflorense

Luiz Fernando Júnior

Expediente

O Valença em Questão circula no município de Valença, arredores e Rio de Janeiro, além de enviado via correio eletrônico e disponibilizado na internet. Além da publicação impressa o Valença em Questão possui também um blog de notícias e análises: www.blogdovq.blogspot.com,

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Pelo direito de fazer crítica política Quem ocupa um cargo eletivo deve saber, de antemão, que enfrentará críticas políticas. É absolutamente natural: numa democracia, há partidos (o nome deriva de “parte”, ou seja, da constatação de que aquela é apenas uma dentre muitas posições disponíveis). Em todos os países que permitem a livre organização partidária e respeitam o direito à opinião e à expressão, fica patente que as divergências (ideológicas, programáticas e de várias outras ordens) são, não apenas naturais, mas saudáveis. Aliás, é preciso ressaltar que os cidadãos (individualmente ou organizados institucionalmente) têm o direito de discordar daquilo que seus representantes fazem no espaço público e na condição de agentes públicos. E os cidadãos que efetivam suas críticas sobre essas questões - em debates transparentes e relativos a problemas que interessem à coletividade – não estão ofendendo ninguém. Ofensa é ofensa. Crítica política é crítica política. Ninguém deve imaginar que foi ofendido apenas porque recebeu crítica política. É nesse sentido que considero la-

mentável que um vereador processe Danilinho e Ana Reis (colaboradores do Valença em Questão) apenas porque foi criticado. Houve injúria? Houve calúnia? Houve difamação? Houve algum dano moral ou material? Em minha leitura do texto que motivou a ação, definitivamente isso não ocorreu: houve apenas e tão somente uma crítica política, sempre bem vinda numa democracia. Se eu concordar que alguém merece ser processado apenas porque discordou de um representante, estarei contrariando um princípio fundamental. O que sugere que este episódio fala para além de si mesmo. Será que, de agora em diante, todo mundo que discordar de um político e divulgar os motivos dessa discordância será levado às barras dos tribunais? Espero que não, porque, se isso acontecer, esse será o primeiro passo para deixarmos de ter uma imprensa fiscalizadora, uma democracia saudável e uma sociedade que respeite a pluralidade de posições. Paulo Roberto Figueira Leal, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora

Nós, militantes e simpatizantes d o Fó r u m d e M í d i a L i v r e S u l Fluminense, manifestamos a nossa solidariedade ao jornal Valença em Questão, que vem recebendo seguidos ataques e intimidações por parte daqueles que sempre controlaram a política local. Recorrer à Justiça contra os responsáveis pelo VQ e recusar-se ao debate democrático nada mais é que uma tentativa de intimidar e calar o contraditório, essencial à Democracia. Tal prática lembra os dias mais sombrios da nossa história, quando a imprensa era amordaçada e a oposição perseguida. Mas não conseguirão calar as vozes da imprensa alternativa e da mídia livre. Os companheiros e companheiras do VQ não estão sozinhos. O Fórum de Mídia Livre do Sul Fluminense soma-se às demais entidades que estão unidas no repúdio a essa atitude autoritária. Não passarão! Fórum de Mídia Livre do Sul Fluminense O Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro reitera o apoio ao Valença em Questão Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro

Pela necessidade de se expor outras visões de mundo que não a apresentada pelos grupos de poder tradicionais, expressamos repúdio a qualquer tentativa de calar o Valença em Questão, este relevante meio de expressão da comunidade de Valença. Eduardo Granja Coutinho, professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro do Laboratório de Estudos de Comunicação Comunitária (LECC/UFRJ) valencaemquestao@yahoo.com.br


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O Processo

" ... a razão humana só se envolve com a falsidade absoluta da autocontradição" (Hegel) Os recorrentes casos no Blog do Valença em Questão (esse é o segundo e virão mais) me faz lembrar de um clássico da literatura mundial: O Processo de Franz Kafka, editado e lançado em 1925. Tratase de um romance escrito pelo checo Franz Kafka, e conta a história de Josef K., personagem que acorda certa manhã e, sem motivos sabidos, é preso e sujeito a longo e incompreensível processo por um crime não revelado. 1925 era também o período da luta fracional do Stalinismo e o surgimento do germe do fascismo na Itália de Mussolini. Inicio este texto me dirigindo diretamente aos rábulas de plantão, que ficam sedentos de sangue para servir de capacho da burguesia arruinada de Valença. O processo desta vez contra meu filho Danilo e sua companheira Ana, trata-se de um artigo escrito no Blog, numa crítica ao Conselho da Cidade, que tenho total e plena concordância. Para que tem servido este conselho? Boa parcela de seus principais atores foram cooptados pela administração municipal. A outra parte que não foi tragada não faz mais do que reuniões retóricas de salão. Não mobilizam a população contra nada ou a fovor de nada. Seguem os mesmos rumos das associações de moradores que fundamos na década de oitenta e acabaram sendo cooptadas pelos chefes políticos de Valença, impedindo a livre participação e o direito de opinar e decidir. Por que o Conselho da Cidade não se envolve na luta dos Sem Teto da Varginha? Por que o Concidade não toma uma posição clara a favor da reforma agrária e do MST? Por que estes frequentadores de salão não se posicionam sobre a crise moral da classe política dirigente de Va-

lença que está estampada nas páginas dos grandes jornais e da TV? Não se falam de tantos laranjas, de tantos bois? A pergunta é a seguinte: numa situação dessas para quem o rábula trabalha? Rábulas e dinheiro andam em par, sempre juntos, e procurando como fazer para arrancar um dinheirinho dessa moçada rebelde? A falência do setor têxtil em Valença foi patrocinada pela classe política dirigente que representa as duas facções políticas hegemônicas na cidade. E os culpados, numa certa manhã, foram os operários das fábricas, o sindicato e a CUT! Assim como em o Processo de Kafka. Até hoje há operários destas fábricas sem receber o FGTS. Quantos anos fazem, quinze? E de novo se descobre através de mais um escândalo que o empresário comprou terra grilada no Pará, que houve vários laranjas etc. A desapropriação dos galpões (alguns em ruínas) destas fábricas que faliram já fizeram parte da pauta das reuniões do Conselho da Cidade? Os bens acumulados por esses homens e seus laranjas foram sequestrados? Houve redistribuição de riquezas, foram julgados e presos os amigos dos rábulas? No estado de direito da burguesia a justiça é cega somente para os de baixo, os desvalidos, o lumpem, os negros, os expulsos do campo, os sem moradia, os desempregados das Santas Rosas, Chueks e Ferreiras Guimarães. E agora também da CSN. Ela tapa o olho para aqueles que enricaram da noite para o dia, ajudados talvez por Deus. Eu concordo com Danilo e Ana, e acho que eles não se abaterão, pois não estão sós. Somos poucos, mas existimos e reagimos. A decadência da burguesia valenciana será inevitável. O problema

maior, a tarefa maior que nos cabe é a de desmascarar estes tipos que deveriam cumprir pelo menos com aquilo que lhes foi outorgado pelo processo eleitoral que sabemos como funciona. Por quê o Concidade, o Comanva e a Câmara de Vereadores não convocam, juntamente com a sociedade organizada que ainda sobrevive em nossa cidade como o Valença em Questão, um debate com participação ampla da população para discutir, por exemplo, a questão da água e do esgoto que escorre pelas ruas da cidade? Por que não fazer uma profunda investigação sobre a CEDAE, que está sucateada e privatizada, virando uma espécie de loteamento pelo controle da água, por políticos ligados aos mesmos que dirigem essa cidade? Um negócio extremamente lucrativo! Enquanto isso, as pessoas ficam doentes e morrem de enfermidades por não ter na cidade uma usina de tratamento de esgoto! Uma outra hipótese que surgiu é a seguinte: Danilo e Ana são processados por alguém que deseja notoriedade, fazendo uma espécie de sedução para a burguesia e mostrando os seus serviços? Seria uma banalidade pensar assim de minha parte? A prostituição acontece em diversas esferas do capital e a pior que existe e a mais degradante é a prostituição política. Serei eu o próximo da lista? Por favor me avisem, pois precisarei de advogado, e não de rábula! Danilo Garcia Serafim, professor da rede estadual de ensino, coordenador do Sindicato dos Profissionais da Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEPE-RJ) e membro da Secretaria Executiva Nacional da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas)

Será coincidência? Os grandes jornais estampam matérias afirmando que o MST é criminoso, afinal, uma das fazendas do banqueiro Daniel Dantas foi invadida. Como se não bastasse ser banqueiro, este senhor está envolvido em nove entre dez das grandes falcatruas nacionais. Ano passado foi preso duas vezes e, prontamente solto. Chico Alencar e João Alfredo, parlamentares do PSOL do Rio e do Ceará foram tema de um artigo do “saudoso”

prefeito César Maia. Qual a acusação? Nenhuma. Só mais um factóide do pai do líder do PFL. Prontamente os grandes jornais (e mais de 300 blogues) deram grande repercussão à “notícia”. Na semana anterior foi a vez de Luciana Genro. Afinal de contas, propor o impedimento da governadora do Rio Grande do Sul é muita petulância para um partido tão pequeno. E tome primeira página e jornal nacional.

Temos um intenso caminho pela frente, de reorganização dos movimentos sociais, de incentivo às lutas dos trabalhadores e de reconstrução de um referencial político partidário da luta socialista. Não estamos errados, mas que medo eles têm de nós. Toda a solidariedade aos companheiros Danilinho, Ana e Vitor e a todos os lutadores sociais . Rogério Alimandro, integrante da executiva estadual do PSOL valencaemquestao@yahoo.com.br


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A má-fé do processo Ao apresentarmos o Valença em Questão como um movimento, ou um instrumento de mídia livre, alternativa e independente que busca fazer contra informação à mídia burguesa, queremos dizer que nos posicionamos, radical e incondicionalmente, ao lado da classe trabalhadora e oprimida na luta de classes. Por opção ideológica não nos colocamos como conciliadores de classe e nem buscamos atingir a tão proclamada credibilidade com setores que nada representam e contribuem para setores e movimentos populares, pelo contrário, representam o que há de mais espoliador nas relações sociais. Reivindicamos, sim, o reconhecimento e credibilidade junto aos movimentos sociais, populares e com aqueles que têm comprometimento com as demandas desses movimentos. Por dispensarmos os créditos vindos do setor conservador, elitista e explorador, além de nossas prioridades sempre serem as voltadas para as demandas populares, estamos sofrendo duro processo de criminalização, assim como o que atinge os movimentos sociais por todo o país. A estratégia construída pelos setores conservadores aponta a inviabilização dos movimentos sociais e seus aliados pela via da criminalização, ou seja, usa-se da repressão e opressão judicial para atingir e dissolver os meios e instrumentos de intervenção. Vivemos nos últimos meses a ofensiva antimovimentos materializada na forma de processos contra os componentes do coletivo Valença em Questão. Primeiro quando, ao publicarmos a edição especial sobre as eleições municipais, fomos processados - através do editor do jornal, Vitor Monteiro - porque nossos colaboradores se posicionaram de forma não cooptada, se colocando contra as formas espúrias de financiamento, de política rasteira e compra de votos. Na verdade essa ação mostrou ser mais um ardil daqueles que se

acomodam às práticas do coronelismo que sempre foram, são e continuarão sendo as de imposição e perseguição política aos grupos ideologicamente independentes. Desde então o VQ se reafirmou para estes setores como contestador das formas e estruturas políticas dadas ao longo da história, e mais especificamente naquele momento. Seguindo essa lógica da tentativa de inviabilização dos instrumentos de intervenção e dissolução do movimento, o VQ volta a ser processado, agora pelo vereador Felipe Farias (PT), integrante do partido que um dia já esteve ao lado dos movimentos e hoje faz parte da estratégia capitalista de criminalização. Os processos – civil e criminal - são contra dois dos militantes do VQ, Ana Maria Reis e Danilo Vieira Serafim. Por romper com as limitações factuais da mídia burguesa, o VQ entra em seu terceiro processo não porque injuriou e, menos ainda, criticou de maneira infundada um “agente político”, mas por se recusar a reproduzir os discursos despolitizados e alienadores daqueles que impõem à população em geral que o papel da mídia é “limitar-se a demonstrar o que realmente é dito”, como alega o injuriado vereador nos dois processos que tramitam no judiciário desde o início do mês de março. Felipe Farias preferiu a via judicial sem ao menos se dispor ao debate travado no blogue, ignorando o espaço oferecido pelo VQ para que desenvolvesse seus posicionamentos já que desacorda dos autores do texto. Considerar que as críticas encontradas no artigo “O Concidade e a máscara governista” como “acusações descabidas/ infundadas”, causando ao inexperiente vereador não mais que “constrangimento e desconforto”, não foi surpresa para o grupo, dada sua fragilidade político-ideológica. Surpreendente foi encontrar nos autos do processo civil a alegação do mesmo que

afirma ter feito “contato para as necessárias alterações” do texto “sem lograr êxito” com sabe-se lá quem do grupo – com os autores, com os demais componentes ou com o blogue é que não foi. Ao contrário, o VQ procurou o vereador para que pudesse se manifestar. No dia 17 de fevereiro, portanto antes dos processos existirem, o VQ entrou em contato com o vereador, via email, oferecendo espaço para que pudesse se manifestar: “Caro Felipe, (...) Caso tenha interesse em publicar um texto seu rebatendo as críticas e/ou explicando o seu papel nesse imbróglio da concessão da água em nossa cidade, esteja à vontade. É só nos enviar o texto que o publicamos”. Para nós do Valença em Questão, essa falsa alegação além de caracterizar a inexperiência do vereador e advogado em causa própria, vem publicizar sua inclinação à autosabotagem política: alegar que procurou o grupo e não foi atendido, sem provas e sabendo que, ao contrário, nós temos como comprovar que o espaço fora a ele cedido, caracteriza se não idiotia, mas má-fé e mau caratismo. Não satisfeito em mentir, em fugir do debate, Felipe Farias parece querer permutar sua reputação pela aplicação ao VQ “de R$ 18.600 (dezoito mil e seiscentos reais) para efeitos de dano moral”! No que depender de nós, entretanto, o vereador continuará como afirma estar: psicologicamente abalado. Por fim, sem temer os cães de guarda dos poderes locais instituídos e sem cair na esparrela promovida pela perseguição moral travada por cabos eleitorais e bajuladores de plantão coniventes com práticas que só interessam aos ricos direitosos da política valenciana, mais uma vez reiteramos que estamos ideologicamente posicionados de forma crítica contra as posturas que desagravam e oprimem a população pobre e trabalhadora em favor dos interesses da minoria rica. Sem recuo ou retratação, com a cara à tapa, sem covardia, O VQ assina esse texto, como sempre fizemos em todas as nossas ações. Continuaremos na luta, mantendo nossa posição ideológica, sem pedir permissão para sermos livres. Valença em Questão

O email enviado, no dia 17 de fevereiro de 2009, às 22:14h (acima), e a confirmação de recebimento, no dia 18 de fevereiro de 2009 , às 5:07h (ao lado)

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O Concidade e a máscara governista Abaixo reproduzimos integralmente o texto “O Concidade e a máscara governista”, publicado no dia 11 de fevereiro de 2009 no Blog do VQ (www.blogdovq.blogspot.com) e assinado por Ana Reis e Danilinho Serafim. O teor do texto foi o alvo do processo impetrado contra os dois autores pelo vereador Felipe Farias Ontem, no Concidade, despencou a máscara governista daqueles que, muito pretensamente, se consideram representantes da população junto às ações e aos desmandos dos nossos administradores e legisladores. Após a plenária, a conclusão mais plausível retirada daquela sessão foi a de que não se deve esperar coerência e determinação de um instrumento “democrático” e “popular” que não se sustente numa forte base político-ideológica. Na reunião de ontem, esteve muito claro o quanto é frágil o papel de um conselho municipal quando o posicionamento político e o comprometimento ideológico encontram-se submetidos à fé cega na governabilidade meramente tecnicista. Mais, quando de maneira apática se aceita que exista uma classe incorruptível e incontestável nesse país composta por consultores em engenharia e gestão pública, os quais, através dos propalados projetos terceirizados e licitações amparadas por nosso ineficiente direito administrativo, que defende os interesses de grandes empresas e das máfias institucionais do capital internacional, mantém cargos, funções e empregos de acordo com o modelo de “progresso econômico” esquadrinhado pelo Ministério das Cidades, que, nada mais é que uma ferramenta de conformação social. O papo ontem no Concidade, como não poderia deixar de ser, foi a “contratação anunciada” da CEDAE para o gerenciamento da água e saneamento da cidade, uma empresa de capital misto dominada por gangsters da política fluminense. Ideologicamente imunizados, politicamente comprometidos com as elites e os setores eleitoreiros, os vereadores Felipe Farias (PT) e Lui“Zan”tônio (PSC) permaneceram durante a plenária reiterando o discurso de que as informações sobre a contratação da CEDAE são oficiosas, não passando de boato na Rua dos Mineiros e fuxico de corredor. A quem eles queriam enganar? Até em canal de TV e durante a capacitação por que passam os professores municipais, nessas duas últimas semanas, o Sr. Prefeito já anunciou a vinda pra cá da CEDAE, sem que ao menos as determinações do plano diretor participativo fossem respeitadas, entre as quais, a consulta popular no tocante à forma de gerenciamento da água. Em suma, se nem o Concidade altamente governista Vicente Guedes pretende ouvir, imaginem o que serão esses 4 ou 8 anos de governo quando os temas não somente da água e do saneamento, mas da habitação e soberania popular estiverem em pauta e em consonância com os ideais defendidos pelos movimentos sociais? Mas, como tudo em Valença, além de muito grave, a última reunião do Concidade foi também risível. Só pra começar bem a noite, foi distribuída uma carta-renúncia assinada pela

até então presidenta da entidade. Maria Lucia, que tanto perseguiu o ex-prefeito em ações que estavam em desacordo com o plano diretor, foi também das mais aguerridas militantes na campanha Valença de Cara Nova. Militou “enquanto” cidadã, gozando do pleno direito de se expressar publicamente e apoiar aquele que considerava a melhor opção política para a cidade – argumentos esses que sustentaram seu mea culpa durante a reunião do Concidade no 14 de outubro último. Naquela mesma noite, no entanto, “enquanto” presidenta, anunciou o convite que ela mesma fizera ao prefeitável, caso fosse eleito, de ser recepcionado no Rotary Clube pelo Concidade. Convite aceito, deu-se o beija mão de Vicente Guedes, duas semanas depois, selando com empáfia o perfil governista, elitista e aburguesado do conselho municipal. Função eleitoreira cumprida, Maria Lucia não teve honestidade de se pronunciar à frente do conselho e explicar os “motivos justos” que alega ter para se desligar da presidência. Resta agora saber, “enquanto” ex-presidenta, conselheira estrategicamente afastada do Concidade por 90 dias e possivelmente “enquanto” funcionária pública comissionada, como levará adiante Maria Lúcia o debate sobre a contratação ilícita e autoritária da CEDAE. Na onda do “enquanto”, Ana Vaz, “enquanto” presidenta interina do Concidade, perguntou ao vereador Felipe, que se intimidou a tomar posição “enquanto” legislador frente à obviedade da contratação da CEDAE, sua opinião sobre qual modelo de gestão da água e saneamento ele considerava ideal não “enquanto” homem público, mas “enquanto” cidadão. Como parece ser de seu costume, o vereador do PT não soube se posicionar, demonstrando que assimilou com vontade a postura recuada, reformista e cooptada do partido que representa. Mas, sejamos justos, esse tipo de pergunta não procede e, portanto, não merece resposta. Assim como não merecíamos ouvir a incoerência do vereador Zan que, “enquanto” cidadão, considera a gestão da água pelo Estado a ideal – o que é óbvio, já que privatizar os serviços públicos essenciais é transformá-los em negócio de interesses espúrios do capital -, mas, que, “enquanto” político, durante um debate na Câmara, caso um técnico o garantisse que o melhor ou ideal modo de gerenciar um bem tão essencial quanto a água fosse outro, através de licitação a empresas privadas ou de capital misto, ele, “enquanto” representante da população no legislativo, abriria mão de suas convicções. Ora, ou os nossos vereadores “enquanto” cidadãos são perfeitos idiotas ou “enquanto” homens públicos, manipuláveis ou altamente corruptíveis. É bom ficar atento a esse disparate, a essa falta de coerência que vem caracterizando as

assembléias do conselho municipal. Essa história de “enquanto” isso, “enquanto” aquilo, é argumento de quem não sustenta ações e discurso através de histórico político coerente e formação ideológica firme ou de quem tem formulação ideológica deslocada das necessidades dos setores populares, voltada exclusivamente para se manter “enquanto” classe dominante e para atender os interesses próprios dessa elite tecnocrata e burguesa valenciana representada pelos seus conselheiros assentados nas cadeiras do Concidade. Além de eleger déspotas, a postura do “enquanto” é aquela que mais atende à política do Estado que impõe modelos de governabilidade que atendam aos interesses da burocracia e do capital. O geoprocessamento referenciado é um pequeno exemplo de que o emergencial para o Estado de classe é a ação técnica e não as demandas da classe trabalhadora que tem a vida posta em risco diariamente principalmente nessa época de temporais. Nas entrelinhas dos projetos governistas, existem muitas outras fórmulas e estratégias de reter e prover recursos mediante controle e alienação social e criminalização dos setores populares. Mas para esse tipo de leitura, é preciso uma análise ulterior à técnica, isto é, ancorada na visão ideológica do tamanho do Estado e sua atuação. Ontem no Concidade, como não interpretar como ato falho da atual presidenta a proposta de votação apressada entre os gatos pingados que compunham a plenária, o modelo de gestão municipal da água e do saneamento, uma vez que existe um plano diretor que prevê consulta popular? O que houve, além de flagrante despreparo foi um rompante inconsciente contra o próprio discurso que os planos diretores empenham porque não são mais que a reprodução dos modelos criados pelos órgãos governamentais que alimentam a falsa democracia social e a alienação política de nossos representantes, seja nos conselhos, na Câmara Municipal ou no Administrativo. Na reunião que aconteceu no auditório da Santa Casa, apenas para ilustrar, quando o pau começou a pegar, quando um ambientalista começou a cobrar hombridade e tal do prefeito com relação à contratação da CEDAE, muito rapidamente um jovem, mudo e inexpressivo Secretário Municipal de Saúde atendeu o celular, levantou-se sem despedir e saiu assim, à francesa, sem dar qualquer opinião fosse “enquanto” governo, “enquanto” profissional da saúde ou “enquanto” cidadão. Falta de educação ou mais um caso de alienação política entre os atuais comissionados?... fica aqui a dúvida, até porque o assunto em questão, água e saneamento não têm nada a ver com os de sua responsabilidade, não é mesmo?

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Só a luta leva à vitória Após negociação entre o Sindicato dos Profisisonais da Educação (Sepe) e a Prefeitura de Valença, o prefeito Vicente Guedes atende às reivindicações e a classe decide pelo fim da greve. Mas afirmam que a luta pela melhoria da educação vai continuar Diante de uma assembléia efusiva a direção do Sindicato dos Profissionais da Educação (Sepe-Valença) pode anunciar as vitórias obtidas pelos profissionais da educação e ficou, então, votado o fim da greve que durou cerca de uma semana, já que foram atendidas as reivindicações imediatas da categoria: o pagamento do salário de dezembro de 2008 e a regularização dos vales-transportes que haviam sido cortados desde meados do ano passado. O movimento começou algumas semanas antes com uma assembléia lotada realizada depois que a Secretaria de Educação de Valença anunciou que seus professores e funcionários iriam trabalhar de 15 a 21 sábados durante o ano de 2009 para pagar dias letivos referentes ao mês de fevereiro. O que a secretaria não levou em conta, porém, é que todos os profissionais da educação do município iniciaram seu trabalho no dia 2 de fevereiro participando ativamente da 1ª Jornada Pedagógica da Educação realizada todos os dias no Clube dos Coroados. Neste evento, aclamado pelo então secretário de educação como um convite para que os educadores atualizassem sua pratica na escola, a assinatura do ponto era rigorosamente cobrada de todos os professores e funcionários presentes. Essa atitude arbitrária de impor sábados foi um motivo derradeiro de descontentamento de uma classe já desesperada e endividada pelo atraso dos salários e ainda tendo que gastar parte significativa do pouco dinheiro que ganha para chegar ao seu local de trabalho. A primeira paralisação foi votada já nessa assembléia e apesar do senhor prefeito Vicente Guedes ter se mostrado aberto ao diálogo com o Sepe e ter exposto seus motivos para o atraso dos salários, os educadores decidiram que a greve deveria continuar, uma vez que fazendo-se os cálculos dos recursos específicos para a educação ficava claro que a prefeitura poderia fazer o pagamento dos profissionais da sua rede. A primeira vitória veio com o imediato cancelamento dos excessivos e abusivos sábados letivos que tirariam dos profisvalencaemquestao@yahoo.com.br

sionais da educação (em sua maior parte mulheres) o direito a dedicar-se ao lar e à família nestes sábados para cumprir dias já trabalhados na jornada da educação. Os educadores, motivados pela primeira vitória e apoiados pelo sindicato continuaram a luta de forma consciente e pacifica, mantendo a greve e o diálogo com o prefeito que diante da força demonstrada pela categoria atendeu as principais necessidades da classe: o pagamento do salário atrasado, o vale transporte e o pagamento das gratificações das diretoras (que estavam suspensas desde o início da nova gestão da prefeitura). Foi, portanto, através da luta consciente daqueles professores e funcionários da educação que assumiram a greve e mantiveram o compromisso firmado nas assembléias realizadas que todos os educadores da rede obtiveram as primeiras vitórias do ano de 2009. Ano que continua ainda com questões importan-

tes a serem discutidas e cobradas, uma vez que a atual gestão da prefeitura assinou, quando estava ainda em campanha, um termo de compromisso junto ao SEPE para garantir qualidade de ensino para nossas crianças e condições dignas de trabalho e salário para os profissionais responsáveis pela formação intelectual dos filhos de Valença. O Sepe Valença pretende continuar a luta por essa qualidade tão importante para a sociedade, sempre mantendo o diálogo, mas cobrando das autoridades responsáveis que cumpram os seus compromissos com os profissionais da educação da nossa cidade. E contando com o apoio e a colaboração cada vez maior de todos os educadores, pais e alunos, que integrados podem colaborar para atingir o objetivo maior da área da educação: formar uma sociedade cada vez mais justa, consciente e com qualidade de vida para todos. Juliana Guida Maia, professora das redes municipal e estatual de ensino


Ano V, nº 36, Valença, 2009

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Quatro anos de VQ: pra cima deles! Em 22 de abril de 2009 o VQ completa quatro anos de existência, com 36 edições impressas. Alguns eventos deste período são marcantes para nós, como os festivais de inverno, as exibições de cinema nos bairros, as discussões de políticas públicas de juventudes, a aproximação com os movimentos populares como MST e SEPE e, mais recentemente, a consolidação de nosso blogue como ferramenta de maior interlocução com nossos leitores. Claro que há muitos outros, sem contar o próprio lançamento do VQ, mas que não caberiam neste pedaço de papel. Porém, nem tudo são flores. No final de 2008 recebemos nosso primeiro processo judicial, impetrado pela coligação “Valença de Cara Nova”, do então candidato e atual prefeito Vicente Guedes. Felizmente vencemos esta batalha. Agora em 2009 o vereador Felipe Farias, do PT, optou pela via judicial

para reclamar de nossa crítica feita no blogue sobre seu posicionamento adotado no Conselho da Cidade. O processo está em trâmite judicial. A única coisa que não está em trâmite é a honestidade de Felipe Farias para conosco, já que alega ter nos procurado para solicitar réplica . MENTIRA! Nós é que enviamos a ele um e-mail antes mesmo do processo acontecer oferecendo espaço no blogue e no impresso. Até hoje não recebemos nenhuma resposta. Nenhum membro foi procurado pelo petista para solicitar espaço. Isso sim é calúnia! Caso o processo judicial seja a opção encontrada por aqueles que não querem travar o bom combate no campo do diálogo e das idéias, pedimos paciência aos promotores, juízes e advogados, que, com certeza, têm assuntos mais importantes a resolver. Porém, como o VQ não sustenta o mito da imparcialidade, deixando bem

claro o nosso lado ao longo destes quatro anos, sabemos que isso resultará em mais intimidações, processos e difamação a nós e a nossos familiares. Contudo, não iremos nos abater e deixar de veicular o que acharmos correto, de interesse coletivo, e também o que entendermos ser errado, injusto e opressor. Reiteramos aqui o que escrevemos no editorial da edição de 3º aniversário: “Quando encontramos alguma dificuldade, são vocês, leitores, colaboradores, amigos, desafetos, que nos mantêm de pé, firmes e prontos para permanecer na luta. Para vocês um muito obrigado e continuem conosco”. Seja do nosso lado ou não. OBS.: um obrigado especial ao Jopag, Miriam Lajes, Sepe, Gráfica Rioflorense e todos os colaboradores que acreditam e financiam este impresso e nossos projetos. E, claro, um grande abraço aos irmãos e irmãs de luta cotidiana do VQ.

valencaemquestao@yahoo.com.br


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