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Patrimônio Histórico material e imaterial de Valença

Ano IV, nº 33, Valença, 2008


Ano IV, nº 33, Valença, 2008

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Editorial

Leitor em Questão<<<<

Chegamos a setembro, mês em que teremos duas edições do Valença em Questão e muita agitação por conta do cenário da disputa eleitoral. Infelizmente uma agitação que passa longe das discussões sobre os programas de governo e suas viabilidades, mas que ainda se alimenta do estelionato, voto de cabresto e manutenção de currais eleitorais. Alguma coisa já mudou, mas nada que represente algo significativo para acreditarmos que os próximos quatro anos serão de transformação e participação da sociedade nas decisões municipais. Esta é a primeira edição de setembro, que tem um caráter duplamente especial. Primeiro porque é uma edição especial sobre um tema de extrema relevância para nossa cidade, seu Patrimônio Histórico e Cultural, com diversas análises sobre o tema. E segundo, e mais importante, porque é uma edição diferente do VQ e mais próxima do que se almeja com este jornal, a participação da sociedade em sua construção. Nesses mais de três anos de publicação, este é o jornal que teve a mais importante participação da sociedade. Ana Reis e Marcelle Sales propuseram uma edição especial sobre o patrimônio material e imaterial valenciano. Essa participação da sociedade de se organizar e propor pautas que reflitam suas realidades, anseios e preocupações foi desde sempre objetivo do VQ. Além da análise das colaboradoras amigas, contamos com textos de Sanger Nogueira, professor de História, do professor da FAA Raimundo Mattos e do pesquisador da Universidade Federal Fluminense Hernán Veregas. Uma outra boa notícia é que esta edição não tem seu fim em si própria. Em parceria com a FAA, realizaremos ainda neste mês um seminário sobre o patrimônio valenciano, contando com a participação de valencianos e convidados de outras cidades para debatermos este assunto tão importante e que, para variar, sofre um total descaso por parte do poder público. Para finalizar setembro com grandes feitos, o VQ e o SEPE realizam um debate com os candidatos a prefeito de Valença, aproveitando esta data para apresentarmos nossas plataformas de juventude e educação para que os candidatos possam se comprometer com estas políticas públicas de grande importância para nossa população. Além do debate, lançaremos na última semana do mês outra edição especial sobre as eleições, com entrevistas com os candidatos ao cargo de prefeito. Como virou rotina em nosso editorial, não deixem de visitar o Blog do VQ, com atualizações diárias, pesquisa sobre as eleições municipais e muita discussão via comentários dos leitores. Uma excelente leitura a todos, e um muito obrigado a Ana Reis, Marcelle Sales e todos os patrocinadores que colaboraram para esta edição.

Agradecimento Valeu por dar-me um espaço no jornal, amigos do VQ (e ainda fiquei do lado do filmaço “Os sonhadores” do Bertolucci.). Fico devendo essa! Saudações poéticas, Carlos Brunno S. Barbosa Apoio Muito obrigado por enviar-me as edições do VQ. Gostei muito das idéias do jornal denunciando aqueles que insistem em se autofavorecer em detrimento de um progresso da nossa cidade. Gostei também do espaço que o jornal abre em relação aos vanguardistas de Valença em todos os campos (não se limitando a uma elite intelectual), mostrando às massas que elas que tocam as lutas. Bom, gostaria de receber sempre, se possível, edições do VQ. Faço História na UFF e Pedagogia na Unirio, e gostaria de compartilhar com os amigos, se possível, colaborações com artigos, entrevistas com professores das Universidades citadas e buscas por contribuições financeiras aqui no Rio e Niterói. Desde já agradeço a atenção. Felipe Duque Ajuda Caríssimos companheiros, peço, de coração, muitas desculpas por não ter contribuído até a presente data com o jornal. Um jornal que tem sido um marco no apoio às lutas sociais no município e que muito tem contribuído para que o leitor tenha uma visão crítica dos problemas vivenciados pela sociedade valenciana. Quero informar que, a partir de agora, contribuirei mensalmente com o jornal. Devo dizer, ainda, que estou com muita vontade de colocar no papel, novamente, o sentimento de indignação acumulado ao longo do caminho, tanto em relação à nossa “Justiça”, cada dia mais conservadora e injusta, quanto em relação às questões políticas e sociais que nos cercam. Saudações Revolucionárias, Chico Lima

Parabéns Quero parabenizar o VQ, pela matéria “mês vermelho”, que trata da criminalização da pobreza. Acredito que este seja o único veículo de comunicação em Valença que traz à tona essas atrocidades cometidas com o povo fluminense, embora tudo se justifique em função da histeria social projetada pela grande mídia e pela falta de governabilidade. Afinal, as comunidades carentes só conhecem do Estado brasileiro a política do fuzil e da violência generalizada. O povo brasileiro tem que se mobilizar!!! Até a vitória, sempre!!! Abraços!!! Luciana Miranda - MST/RJ Elogio Li a publicação e gostei. Acho que a diagramação ficou maneira e o conteúdo é ótimo, sem dúvida. Só tenho uma pergunta: vocês já foram ameaçados de morte por algum político de Valença? Achei muito corajoso montarem um veículo de comunicação que tem por objetivo (e isso ficou muito claro pra mim) mostrar ‘o outro lado’ sem os já conhecidos filtros políticos usados por muitos jornais. Por isso a pergunta: alguém já te ameaçou de alguma forma? Sabe, a idéia de uma mídia livre e independente é algo que me empolga muito. Mas sempre fico preocupada com a repercussão desse tipo de publicação. Mexer com os centros de poder, sejam eles municipais, estaduais ou federais é algo muito perigoso. Pra manter a ‘mamata’ segura, muita gente não ousa em destruir reputações alheias, manipular informações e publicá-las como verdadeiras e, no pior dos casos, mandar matar mesmo. Como lidar com esse tipo de pressão política orquestrada pelos donos de jornais em conchavo com políticos interessados em manter-se no poder? Achei ótima sua iniciativa. Tenho amigos em Valença e fico feliz que eles possam ter acesso a projetos tão bacanas como os que a sua ‘tchurma’ faz. Lívia

Onde encontrar o VQ Academia Espaço do Corpo, Acquademia, Bar São Francisco, Banca do Jardim de Cima, FAA, Hollywood Vídeo Locadora, Miriam Lajes, Revistaria Vamos Ler, SEPE, www.valencavirtual.com.br

Expediente

Endereço para correspondência: Rua Coronel João Rufino, 11, sala 702, edifício Panorama, Valença-RJ – CEP 27600-000. Contatos: valencaemquestao@yahoo.com.br, cafo83@yahoo.com.br (Bebeto), leleserafim@hotmail.com (Letícia) e castro_vm@hotmail.com (Vitor). Ou pelos telefones (24) 2453-4888 (Recados) e (21) 8187 7533 (Vitor). Luiz Fernando Júnior

Projeto Gráfico: Thiago Xisto Jornalista Responsável: Vitor Monteiro de Castro Conselho Editorial: Bebeto, Letícia Serafim e Vitor Monteiro de Castro Colaboraram nesta edição: Ana Reis, Hernán Venegas Marcelo, Marcelle Sales e Raimundo César Mattos. Tiragem: 2000 exemplares - Impressão: Gráfica Rioflorense O Valença em Questão circula no município de Valença, arredores e Rio de Janeiro, além de enviado via correio eletrônico.

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Valença, Patrimônio e Acervo Documental Falar de Valença é falar, em uma ligação lógica, de sua posição durante boa parte do século XIX, época em que a produção cafeeira norteava a economia do país e a cidade, bem como outras da região, se destacava no cenário econômico e político nacional. Obviamente que não podemos ficar presos a um “passado glorioso”, mas devemos tentar utilizar o que este passado nos legou em benefício das gerações modernas. Todos estamos cientes do papel desempenhado pelo Vale do Paraíba Fluminense na vida política, econômica e social do século XIX. Tal região, diga-se de passagem, ainda encontra-se negligenciada por vários historiadores, com algumas boas exceções, que não os do próprio Estado do Rio de Janeiro, mas que teve uma importância muito grande na manutenção político-econômica do II Reinado. O Rio de Janeiro, ainda, de acordo com a obra de Sérgio Buarque de Holanda, desempenharia um papel original no cenário político que surgiria após a independência, na formação dos homens públicos advindos dos municípios, em especial do interior da província, onde aqui destacamos, como o historiador, o nascente Município de Valença. Assim sendo, as possibilidades abertas para a pesquisa no campo regional são diversificadas, muitas das quais, infelizmente, desconhecidas pelos próprios historiadores locais, mas não por outros pesquisadores, como temos tido oportunidade de constatar. Boa parte de acervo documental pertencente a esta região encontra-se, não raras vezes, fora daqui, em locais como a Biblioteca Nacional e o Museu Paulista da USP, como também já tivemos oportunidade de verificar, ou mesmo o grande acervo existente no Museu de Justiça do Rio de Janeiro e os recentes documentos encontrados no

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Arquivo da Arquidiocese do Rio de Janeiro. O livro “A história na política, a política na história”, por exemplo, lançado em 2006, dedica um capítulo escrito pela pesquisadora Vera Lúcia Bittencourt, da USP, ao Marquês de Valença. Iniciando o seu texto, a autora apresenta a figura de Estevão Ribeiro de Rezende. A pesquisadora discorre longamente a respeito da atuação do Marquês de Valença na vida política, econômica e social do Brasil oitocentista, apresentando fatos desconhecidos pelo próprio público valenciano. Este é apenas um dos casos que poderíamos citar para exemplificar as possibilidades que estão sendo abertas para a pesquisa histórica nesta região. Obviamente que não se pretende que os historiadores locais fiquem restritos apenas a uma realidade específica, mas o que se pretende é que criemos consciência, o que felizmente está acontecendo, da necessidade de se aprofundar os estudos a respeito do Vale do Paraíba Fluminense, em especial no período oitocentista. Podemos destacar, entre alguns trabalhos que estão sendo realizados neste sentido, o do Centro de Documentação Histórica da FAA. O centro tem como meta buscar, identificar, catalogar e digitalizar o acervo documental da cidade e, mais para frente, da região. Para que serviria tal trabalho, perguntariam alguns. Para que haja pesquisa histórica é necessário que existam documentos disponíveis. Onde existem documentos disponíveis, os historiadores trabalham. Esta é a idéia básica. Quando essa documentação é apresentada via web, um número maior de pesquisadores toma conhecimento dos mesmos e procuram os locais onde eles se encontram. Ou seja, a atenção é voltada para a região e, se paralelo a esta identificação e disponibilização de documentos o patrimônio histórico ma-

terial da cidade também é identificado e restaurado, a presença de turistas também ocorrerá. É lógico que é necessário também que haja infra-estrutura para tanto, mas isto já é outro departamento, como se diz popularmente. Outro aspecto que precisa ser levantado e que é, a nosso ver, de suprema importância: a criação de uma consciência, por parte de cada um, de que o acervo de uma cidade, histórico, documental, arquitetônico, é propriedade de todos e não de uma pessoa, de uma família ou de uma instituição em particular. A História é de todos, não de um grupo. A documentação que o Centro de Documentação Histórica está identificando pertence à História de Valença, isto é, do povo valenciano, não de um ou dois personagens distintos de nosso passado que, é claro, se destacaram em sua área de atuação, mas não fizeram história para si. Somente criando esse tipo de consciência é que poderemos entender que, quando um determinado prédio é abandonado até desabar, quando um documento se perde, quando mesmo uma área de lazer fica deteriorada, é a nossa memória que diminui, é a nossa História que perde, é a nossa identidade que é destruída. Precisamos abandonar a lógica do imediatismo e do consumismo. Um prédio só é útil quando gera renda. Se é apenas por esse ângulo, também é necessário que se entenda que um prédio antigo, não velho, como diriam muitos, também pode gerar renda, desde que preservado, via turismo. Tanto se fala a respeito e tão pouco se faz. Não esperamos que aconteça uma conscientização da noite para o dia. Mas, se começarmos hoje, poderemos, amanhã, falar não apenas de um “passado glorioso”, mas também de um “futuro promissor”. Raimundo César de O. Mattos


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A lição do século Falar de Patrimônio em Valença é muito complicado, afinal temos um cenário riquíssimo tanto no aspecto material como imaterial. Porém, o descaso com tais segmentos é enorme. Hoje, se analisarmos todo o contexto, perceberemos que há muito trabalho a ser feito, ou melhor, seria necessário começar do zero. È claro, com algumas exceções. Um exemplo que constata o que estou dizendo é o do Museu Ferroviário, que foi criado no governo do então prefeito Luiz Antônio, através de um Projeto de Lei do vereador Marinho, que cedeu um espaço na Rodoviária Nova (Princesa da Serra) para o acervo do ex-ferroviário Sebastião Vitor, que por sua vez, foi incorporado à folha de pagamentos da Prefeitura de Valença. Até aí tudo bem. Só que essa história ganha outra proporção quando analisamos o espaço disponibilizado que é totalmente inadequado. Somamse a esta falta de infra-estrutura a inexistência de um estatuto próprio e o não cadastramento do mesmo nos órgãos competentes para fiscalização e captação de recursos (fato que só seria viável se o Museu estivesse dentro dos padrões exigidos, o que não é o caso). Enfim, constatamos mais uma vez uma atitude política sem viabilidade e continuidade. Para se ter uma idéia, não instalaram nenhum computador, não há armários para os arquivar os documentos, as peças não estão catalogadas, ou seja, apenas arrumaram um “depósito” para o acervo. Nessa situação não podemos deixar de enaltecer o empenho e ousadia de Sebastião Vitor, que se dedica à sua maneira para manter o acervo, embora o sentimento de “pertencimento” que tem em relação ao Museu dificulte qualquer iniciativa para adequação do referido espaço.

É necessário dizer que falo com muita autonomia sobre o assunto porque quando estive à frente do Diretório Acadêmico da FAFIVA –FAA, desenvolvemos um projeto que recebeu o nome de Núcleo de Apoio aos Museus e Espaços Culturais de Valença, uma iniciativa que surgiu depois que tivemos acesso à reportagem “Memória Desbotada” do jornal Valença em Questão que tratava das dificuldades do Museu Ferroviário. A nossa proposta se resumia em utilizar os alunos do curso de História da FAA para suprir as necessidades mais urgentes desses locais. Os estudantes atuariam na catalogação e manutenção dos acervos e também recebendo os visitantes. Em troca dos serviços prestados à comunidade, eram computadas as horas de estágio exigidas para complementação do curso. Foram selecionados 36 estagiários que iniciaram seus trabalhos em março de 2007 com entusiasmo, pois foram muito bem recebidos em todos os lugares que apresentaram a proposta. Porém, em novembro do mesmo ano, percebemos que sem o apoio dos órgãos públicos seria inviável dar continuidade, afinal chegamos ao ponto de não ter material de limpeza, entre outros problemas diários.

Não tenho dúvida que muitos que estiverem lendo esse texto devem estar se perguntando: no que isso interfere na minha vida? Onde tal discurssão quer chegar e pra quê? É isso que precisamos nos perguntar. Identificar o que é melhor pra Valença, chamar a atenção do que está bem aos nossos olhos, mas que as lentes escuras do dia-a-dia não nos permitem enxergar. Convido a todos para dar um passeio, mas seguindo as seguintes instruções de Clarice Lispector, em “Mudanças”: “(...) quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde passa (...) tire uma tarde inteira para passear livremente (...)”. Observe como Valença está poluída visualmente e quanto do nosso patrimônio material perdemos com o crescimento desordenado da cidade e com políticas que nada acrescentam a Valença. Devemos exercitar a principal lição desse século que passou: PRESERVAR. Marcelle de S. Sales, acadêmica do curso de História da FAA valencaemquestao@yahoo.com.br


Crédito-VMC

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Patrimônio cultural na contemporaneidade Hoje em dia, e já há algumas décadas, não existem dúvidas de que a noção de patrimônio cultural mostra um entendimento mais abrangente do que a “monumentofilia” que o caracterizou durante mais de um século. Imerso num complexo processo de redefinição, o patrimônio extrapolou suas dimensões móveis e imóveis para abranger outras manifestações da cultura imaterial a partir da segunda metade do século XX. Essa evolução semântica tornou o patrimônio cultural mais heterogêneo e fez aparecer outras expressões culturais até então ausentes dos discursos legitimadores do Estado-Nação. Assim, o patrimônio adquiriu a apelação de “cultural” e se associou a inúmeros adjetivos, entre eles: o arqueológico, o industrial, o etnográfico, o paisagístico, o gastronômico, o natural, uma vez que esses também se constituem em expressões culturais. Ou seja, a noção do patrimônio cultural, no que concerne às políticas coletivas de preservação, se ampliou a outros horizontes culturais, também, como resultado da repercussão que trouxe a revisão antropológica da noção de cultura nas últimas décadas. Outro fator que explica a re-significação da noção de patrimônio é a existência de uma crise de identidade

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nas sociedades contemporâneas, produto da globalização que questionou a idéia do nacional como um corpo fechado e homogêneo. A globalização, segundo Stuart Hall, “tem um efeito pluralizante sobre as identidades, produzindo uma variedade de possibilidades e novas posições de identificação tornando as identidades mais políticas, plurais e diversas; menos fixas, unificadas ou trans-históricas”1. A pluralidade e diversidade das identidades apontadas repercutiram no entendimento do patrimônio uma vez que esse não se associaria unicamente à homogeneidade cultural, mas a sua heterogeneidade. A globalização também diminui a importância dos acontecimentos fundadores e dos territórios que sustentam a ilusão de identidades aistóricas, o que fez questionar a relativa autonomia do Estado-Nação e sua legitimidade cultural2. Isto fez com que os modelos de identificação com o passado – ou, o que entendíamos como tal, sob a idéia de tradição perdessem o sentido de continuidade e os tempos pretéritos adquirissem uma natureza estranha, inóspita, distante, de um país estrangeiro. A idéia da perda de continuidade com o passado, unido aos efeitos da globalização nas identidades cultu-

rais e a um entendimento mais antropológico da noção de cultura forçaram às sociedades contemporâneas a exigir a recuperação ou a reinvenção do seu patrimônio. O patrimônio se tornou cultural e, em conseqüência, mais abrangente em seus domínios, o que o fez atingir outros horizontes fora da unicidade memorial que os projetos do Estado-Nação tinham definidos. Assim, abriu-se um infinito patrimonializável de práticas, de saberes, de fazeres, de objetos, de edificações, de obras de arquitetura, de sítios, de paisagens, de natureza, de gastronomia, de lendas, etc. Tal abrangência também foi estimulada pela expansão da economia turística, que vê no patrimônio um cenário ideal para suas práticas, o que se reforça nas motivações do turista moderno. Este procura, na sua condição de hommo viator (homem viajante), estruturas míticas que pertencem a um tempo e espaço por si imaginados. Hernán Venegas Marcelo 1 HALL, Stuart. Da diáspora. Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003. p. 87.

GARCÍA CANCLINI, Néstor. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. 4ª Edição, Rio de Janeiro: UFRJ, 2005. p. 117. 2


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Patrimônio: uma quest A valorização da memória e da história é característica comum às sociedades contemporâneas. Na contramarcha das práticas que marcaram um longo período histórico – os Tempos Modernos -, como o total repúdio ao passado, hoje corremos contra o tempo, retomando e reconstruindo o que nos resta de herança, origem ou tradição. À reboque, o discurso acadêmico revigora uma série de conceitos que procuram sustentar uma visão conscientemente crítica em relação a esse mesmo passado tido como estrangeiro à maioria de nós. Nessa seara, portanto, encontramos um ainda vexado conceito de patrimônio. Não obstante a esgarçadura conceitual que se faz em ambientes de pesquisa, órgãos de preservação e sociedade civil organizada, às vésperas de mais uma eleição, o patrimônio em debate é uma idéia a qual se propaga e se democratiza principalmente por meio do discurso político-partidário, com sua retórica repleta de vícios. Mesmo esvaziada, a noção de patrimônio e sua preservação figuram como itens obrigatórios no plano de governo dos candidatos à administração do país – decerto que muito menos como projeto, bem mais como adequação ou modismo. Essa triste constatação aponta como conseqüência o reconhecimento arbitrário e redutor da questão, que é posterior e remete à incipiente consciência patrimonial dos nossos dirigentes. Em contrapartida, a própria Constituição Federal, de 1988, estabelece que o poder público, com a cooperação da comunidade, deve promover e proteger o patrimônio como formas de exercício da cidadania. Por isso também a impossibilidade de se pensar o conceito de patrimônio desvinculado do valor político nele embutido. Na história recente de Valença, notamos um caso exemplar em que a atualidade das leis e a consciência política da comunidade fizeram-

Patrimônio e Cidadania Qualquer cidadão tem o direito de solicitar o tombamento dos bens que considere de valor histórico, artístico, arquitetônico, paisagístico ou afetivo para sua comunidade. No entanto, cabe aos órgãos técnicos especializados a apreciação dos pedidos e o desenvolvimento dos estudos necessários à fundamentação e à avaliação final dos mesmos. No que se refere à defesa e proteção, a Constituição Federal nos diz no artigo 5°, inciso LXXIII, que: “Qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural,...”. Além disso, a Lei n° 7.347 (24/07/1985), que disciplina a ação civil pública, dispõe no artigo 6°: “Qualquer pessoa poderá e o servidor público deverá provocar a iniciativa do Ministério Público, ministrando-lhe informações sobre fatos que constituem objeto da ação civil e indicandolhes os elementos de convicção”. A mesma  lei permite que instituições, governamentais ou não, e associações comunitárias proponham a ação civil pública, visando à punição dos responsáveis pelos atos lesivos ao patrimônio cultural e natural, cabendo inclusive a exigência de reparação dos danos causados.

se valer diante da omissão de uns e da truculência de outros. Assim, um grupo de ativistas acionou o Ministério Público e conseguiu, por exigência de um Termo de Ajuste, que o  antigo armazém  da Central do Brasil, demolido, e o telhado com os “lanternins”, fossem reformados.  Infelizmente, o mesmo tratamento não fora dispensado à Casa Antar Fontora, na avenida Nilo Peçanha: antigo reduto abolicionista e republicano, o terreno do imóvel vem sendo utilizado como estacionamento rotativo por um supermercado local, atividade que compromete a já combalida edificação do século XIX. Diálogo com a sociedade Casos assim registrados no tempo tornam evidente a descontinuidade das ações políticas pertinentes à proteção do patrimônio municipal e apontam o interesse econômico como justificativa sempre válida nos usos dos espaços e arenas sociais. Enquanto se multiplicam, relatos de abandono como esse ajudam a devastar não apenas conjuntos arquitetônicos, mas o modo de viver e os costumes dos grupos considerados tradicionais. Por exemplo, pouco ou nada se faz em resposta à descaracterização do Quilombo São José da Serra, ao registro e tombamento dos terreiros de umbanda, do caxambu, do jongo e da folia de reis, entre outros bens de valor imaterial. Espera-se que a realidade patrimonial pouco promissora aqui manifestada, se altere com a recente instalação do escritório regional do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em nossa cidade, diminuindo assim a distância entre um órgão de preservação e a população do Vale Paraíba. Com quarenta anos de existência e ações de intensa reverberação política na capital, o Inepac talvez reabilite o Serviço Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural que, desde a criação do Inventário dos Bens Culturais Imóveis de Valença, em 2004, não mostra a que veio. Respeito e práticas políticas Em tempos de transição política e renovação de votos junto à população, nada mais pertinente do que a abertura ao diálogo profícuo sobre um conceito de patrimônio efetivamente adequado à nossa realidade – principalmente porvalencaemquestao@yahoo.com.br


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tão sobretudo política que Valença, há pelo menos uma década, vislumbra como Eldorado socioeconômico o ramo do turismo sustentável. O projeto do turismo como via de desenvolvimento não deslancha certamente porque poucos consideram, em especial os “turismólogos” de plantão, que não se faz da noite para o dia uma cidade turística. É preciso projetos consistentes, discursos que não sejam apenas inflamados ou circunstanciais e, obviamente, postura política. Para que a cidade de fato passe a viver de turismo e de todo o seu patrimônio, é necessário compreender que tipo de conceito se quer para o Município; em seguida, investimento continuado em projetos de educação para a constituição e renovação desse mesmo acervo – em especial junto às novas gerações, agentes potencialmente multiplicadores – e, finalmente, investimento sério em consultoria a fim de assistir tanto o setor comerciário e de serviços, como a Prefeitura e a Câmara Municipal. Evidentemente, vários são os indícios de que nossos representantes políticos desconhecem a fundo a questão patrimonial. No lugar de um discurso transformador e projetos afinados à promoção do conjunto patrimonial do Município, nesse pleito, o que vemos hoje nas ruas de Valença é uma terrível poluição que parece indicar o futuro que terá nosso passado: banners estampando sorrisos nada convincentes têm soterrado visualmente as ruínas do antigo Solar dos Nogueiras (Casarão de Cultura) bem como ignorado a faixa de isolamento que afasta o transeunte da fachada da residência Fontora, prestes a cair. Seria importante que nossos políticos, enfim, compreendessem a valoração patrimonial para além do instrumento legal do tombamento. Valoração patrimonial, frisamos, exige respeito e visibilidade a todo e qualquer instante e se renova primordialmente através das práticas políticas de um dado grupo responsável pela utilização desses espaços. A conduta negligente da Câmara dos Vereadores desmoraliza a memória do Paço Municipal, que teve parte do seu prédio erguido através de subscrição popular e de subvenção do governo provincial. A Casa que deveria ser do Povo, porque é um bem patrimonial inestimável e porque ali se deve legislar em favor dele, neste último mandato, virara chacota certa na imprensa, inclusive no YouTube. valencaemquestao@yahoo.com.br

Valença e seu patrimônio Há um ano, quando pedimos formalmente o uso da Tribuna Livre a fim de defender a premência do concurso público na Câmara Municipal e a reestruturação do quadro técnico da instituição, não imaginávamos que os cargos comissionados - geralmente transformados em “moedas de troca” – fossem negociados por tão baixo valor (vide o caso Belga). A propósito, naquele tempo, nossa solicitação fora solenemente ignorada pela Mesa Diretora, certamente aborrecida com um tema de tão limitado apelo popular. Os concursos públicos assim como a preservação moral e física do patrimônio, são garantias constitucionais comumente burladas nessa cidade. Não se pode esperar de gente assim que respeite a memória e a história nossa, já que sequer tem a consciência do espaço que hoje ocupa perante uma sociedade ávida por mudanças e realizações. Valença, mesmo ao colecionar tramas que versam o descaso em relação ao seus bens culturais, é uma cidade de indiscutível peso patrimonial. Por aqui resiste heróico um patrimônio assentado na diversidade que está referida à ação dos diferentes grupos que formam nossa identidade. Terra de colonos e nativos, tropeiros e mascates, escravos e cristãos, fazendeiros e industriais, o Município de Valença é um caso típico da miscigenação brasileira e espaço de práticas que não pode nem deve entrar para a história como esforço isolado de um ou dois beneméritos, sem que se leve em conta o trabalho sinestésico e muitas vezes escravo dos seus contemporâneos. À “corvéia anônima” dos ancestrais menos ilustres, segundo um marxista pouco ortodoxo, dedicamos esse texto. Ao terminá-lo, reiteramos o compromisso em defender e cobrar uma ordem patrimonial que respeite não somente a nossa diversidade, mas também a um discurso coerente e viável. Em suma, esperamos por novos legisladores e governantes que possam compreender um conceito de patrimônio que remeta não apenas a um conjunto de bens culturais, mas, sobretudo, a uma série de direitos e obrigações políticas, unindo em um mesmo projeto os reais interesses da população e o poder público. Ana Reis

Patrimônio Cultural Os bens materiais e imateriais formam o patrimônio cultural brasileiro sendo, portanto, os modos específicos de criar e fazer (as descobertas e os processos genuínos na ciência, nas artes e na tecnologia); as construções referenciais e exemplares da tradição brasileira, incluindo bens imóveis (igrejas, casas, praças, conjuntos urbanos) e bens móveis (obras de arte ou artesanato); as criações imateriais como a literatura e a música; as expressões e os modos de viver, como a linguagem e os costumes; os locais dotados de expressivo valor para a história, a arqueologia, a paleontologia e a ciência em geral, assim como as paisagens e as áreas de proteção ecológica da fauna e da flora.


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Patrimônio Histórico: isso é importante? Parece ser consenso em Valença a afirmação de nossa vocação turística devido a nossa história. Na maioria dos casos, o principal argumento dos defensores é a obrigação nossa para com o passado de nossa cidade. Como valencianos, temos o dever moral, segundo os defensores, de manter o passado visível para as futuras gerações. Contudo, ainda não houve o debate sobre a importância da preservação do patrimônio histórico. Junto com a idéia de valorização de nossa História, numa conversa de rua não é raro surgir a seguinte expressão: “Pra que ficar deixando esses prédios mal cuidados em nossa cidade? Devemos demoli-los para que surjam novos locais para a instalação de lojas trazendo mais empregos e rendas para nossa cidade”. Essa parece ser a opinião corrente de nossa cidade. Como é possível existir em Valença esses dois discursos contraditórios a respeito dos meios de conservar o nosso patrimônio? Vamos sugerir um diálogo entre essas duas perspectivas na defesa de uma compreensão mais ampla sobre os requisitos para tratarmos dos bens materiais e imateriais. Ter a obrigação de preservar o passado a partir da conservação, base do primeiro discurso, parte da idéia de que o “passado” está integrado junto ao patrimônio. Historiadores, contudo, questionam tal visão a partir da idéia de que o passado não existe em si mesmo, ele não é um objeto que pode ser encontrado apenas entrando num prédio antigo. O prédio é sim um vestígio desse passado que tem que ser problematizado de acordo com o caminho que a cidade escolhe para o seu desenvolvimento. Preservar é então mais difícil do que meramente não deixar demolir o patrimônio,

é necessário dialogar sobre o que vamos preservar de todos os vestígios de passado que Valença possui. O segundo discurso parte da preocupação utilitarista em se perguntar por que devemos trocar o desenvolvimento de nossa cidade pela manutenção de prédios velhos. A base do segundo discurso é a preocupação de todos: a necessidade de gerar emprego e renda em nossa cidade. Se o patrimônio não possibilita isso ou até atrapalha o desenvolvimento, não há dúvida da escolha a ser feita. Uma compreensão mais ampla sobre patrimônio histórico necessita do “material humano” necessário para problematizar os vestígios do passado. Historiadores são de fundamental importância nesse processo. Sua função é trabalhar com esses vestígios tornando-os acessíveis ao grande público. Nesse sentido é de fundamental importância a existência da Faculdade de História que, mesmo destinado a formar graduados-professores, pode estimular seus alunos a discutirem a questão do patrimônio de nossa cidade. Devemos perceber que a oposição entre conservação do patrimônio e desenvolvimento econômico só é possível se escolhermos a opção que iniciamos nossa discussão. A articulação entre esses lugares de memória , a faculdade de História de Valença e o Poder Público Municipal possibilita o desaparecimento do segundo discurso, aquele da destruição dos prédios velhos. O patrimônio de nossa cidade deve ser visto como uma fonte extra de recursos para nossa cidade, uma saída ao decadente industrialismo que não volta mais. Sanger Nogueira, professor de História

Livro <<<< Ao Sul de Lugar Nenhum - Histórias da Vida Subterrânea - Charles Bukowski Vinte e sete contos que condizem com o subtítulo Histórias da Vida Subterrânea. Predominam os personagens mais caros ao escritor, os chamados marginalizados, ou ameaças sociais: matadores, prostitutas, bêbados, desocupados.

Disco <<<< Seu Jorge América Brasil - O disco O internacional Seu Jorge lança seu terceiro CD solo América Brasil com o olhar voltado à classe trabalhadora. O recente álbum contém onze faixas inéditas carregado de humor inteligente e recheado de muito samba rock.

Filme <<<< Hércules 56 – Silvio Da-Rin Neste documentário, os homens que planejaram e realizaram o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 7 de setembro de 1969, durante a ditadura militar no Brasil, rememoram o período, as motivações do ato político, o modo como se definiu a lista dos presos a serem liberados, o texto do manifesto e as conseqüências políticas da ação.

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