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Ano III, nยบ 24, julho de 2007

valencaemquestao@yahoo.com.br


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Ano III, nº 24, julho de 2007

Editorial

Onde encontrar o VQ Miriam Lajes, Roge Guts, Banca do Jardim de Cima, Revistaria Vamos Ler, Total Locadora,Hollywood Vídeo Locadora, www.valencavirtual.com.br, Fundação Dom André Arcoverde, SEPE-RJ

é um espetáculo: para os que se comportem bem, o sistema promete uma boa poltrona.” Eduardo Galeano Esta percepção das nossas incapacidades e a certeza do que queremos, mesmo que seja difícil, nos mostra, ironicamente, a nossa capacidade e o amadurecimento que o grupo vem adquirindo ao longo destes dois anos. Esse amadurecimento e reconhecimento de nossas limitações foi possível graças à pluralidade desse grupo (que está a todo momento agregando novos amigos), pessoas que não se conheciam tão bem há dois anos, mas que hoje são amigos, companheiros. Essa vivência de atores múltiplos, de diversas áreas do conhecimento, e de origens distintas, só nos fez crescer como seres humanos. Essa é até uma explicação que encontramos entre nós, de que o que ganhamos com este nosso esforço é que crescemos, estamos nos transformando e colaborando para uma transformação maior, e isso por sí só já é o nosso “pagamento”. “Somos o que fazemos, principalmente o que fazemos para mudar o que somos”. Eduardo Galeano Somos hoje um pequeno grupo, uma semente num imenso território, e procuramos lutar contra as injustiças que presenciamos, procuramos agregar novos atores que possam colaborar para a construção de uma nova sociedade, procuramos dar voz a quem não é escutado, a quem não tem espaço nos meios tradicionais de comunicação, procuramos/buscamos/lutamos por uma nova comunicação, que um novo tratamento deve ser dado à população não detentora dos meios de poder (que não se restringem à mídia). Esse coletivo de produção de conteúdo, de discussão de idéias, de uma construção realmente coletiva é o ideal da nossa (de todos) Rede Jovem. “Na América Latina, a liberdade de expressão consiste no direito ao resmungo em algum rádio ou em jornais de escassa circulação. Os livros não precisam ser proibidos pela polícia: os preços já os proíbem”. Eduardo Galeano Uma notícia que nos motiva ainda mais a continuar insistentemente nessa busca por uma outra sociedade foi o nascimento de Yasmin, no dia 13 de julho de 2007. Que fique aqui registrado nossa felicidade pelo nascimento da mais nova integrante da Rede Jovem Valenciana.

Expediente

Tô achando muito legal as últimas edições do jornal Valença em Questão, o que acho que é instável é a qualidade da impressão. As vezes fica muito boa, e às vezes mais ou menos. A última edição achei que ficou muito bom a capa, com o desenho do Portinari, mas ficou meio clara.. Roberto Catelli Noel caro! Pô, me amarro em Noel [Rosa], mas a dica que vocês deram é impossível de comprar :( Amanda Rodrigues Noel legal! Adorei a matéria sobre o Noel Rosa. Eu sabia de uma outra história sobre a composição “com que roupa”, em que ele, já doente, foi convidado para ir a um samba, mas a mãe ou a esposa tinham escondido sua roupa para ele não ir, e daí teria surgido o samba. Qual será a história verdadeira? Abraços, Mariana Silva Educação Só pelo título do artigo do professor Paulo Roberto Figueira já gostei da última edição. Investir no profissional da educação é algo que deveria ter sido feito há muito tempo, não só em Valença, mas no Brasil e no mundo. Gérson Rocha Criminalização da pobreza Muito boa a notícia sobre a criminalização dos movimentos sociais, diferente de todos os veículos de imprensa do nosso país, que só detonam o que os movimentos sociais promovem. Juliano Ribeiro

Para anunciar, colaborar ou participar: valencaemquestao@yahoo.com.br ou pelo telefone (21) 8187-7533

Projeto Gráfico: Thiago Xisto Editoração Eletrônica: Carolina Lara Jornalista Responsável e Editor: Vitor Monteiro de Castro Participaram desta edição: Bebeto, Breno Slade, Eduardo Granja Coutinho, Flávia Lopes, Gustavo Fort, José Eduardo, Kátia Berckowicz, Latuff, Letícia Serafim, Luiz Fernando Jr., Marianna Araújo, Rafael Monteiro, Samir Resende e Sanger Nogueira

Tiragem: 2.000 exemplares Impressão: Gráfica Rioflorense Os textos publicados podem ser reproduzidos se citado a fonte e autoria do material e integralmente. O Valença em Questão é uma publicação mensal sem fins lucrativos, distribuída gratuitamente no município de Valença, municípios vizinhos, Rio de Janeiro e através de correio eletrônico.

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Luiz Fernando Júnior

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” Eduardo Galeano Educação, cultura, liberdade, direitos iguais. Para reunir tudo isso em apenas uma edição do nosso VQ, lançamos mão de 12 páginas. Não que em 12 páginas seja possível tratar desses temas com profundidade, mas dá para mostrar um pouco do que estão pensando – e pensamos – sobre nossa cidade e as situações de nosso cotidiano, que bem ou mal interferem na nossa vida. E também para mostrar que não é só com educação, ou só com cultura que vamos resolver os problemas, é preciso ações conjuntas, agregadoras, que consigam de fato transformar a nossa sociedade. E essa transformação precisa ser sustentável e caminhar junto com a busca por igualdade. Este é o nosso sonho, e já na nossa primeira edição, em um texto da ainda incipiente Rede Jovem, destacávamos um trecho de uma música de Raul Seixas em que diz que “sonho que se sonha junto é realidade”. É nessa busca de construção coletiva que nos foratalecemos a cada dia, apesar das inúmeras dificuldades que aparecem (de tempo, de trabalho, de grana, de disposição, de problemas pessoais que surgem, etc.). Para muitos é uma loucura, um bando de sonhadores. Mas uma loucura que se mantém há mais de dois anos, que já germinou muitas ações positivas e influenciou algumas mentes dentro e fora de nossa cidade. Este ano o Festival de Inverno vai se resumir ao Festival Gastronômico (não que isso seja pouco, mas sonhamos – juntos – com muito mais), que será realizado em setembro, junto ao aniversário de Valença. Mas desde fevereiro deste ano sabíamos da nossa falta de pernas para realizar o que desejávamos e desde então já nos preparamos para organizar um Festival em 2008 que possa suprir essa nossa ausência em 2007. “A liberdade de eleição permite que você escolha o molho com o qual será devorado. A liberdade de mercado permite que você aceite os preços que lhe são impostos. A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida

Leitor em Questão Bom, mas nem tanto...


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ar os Acompanhamos dia-a-dia a busca por novas tecnologias para ameniz uma por é lutar problemas do aquecimento global. Porém, o que deveríamos condições nova relação de produção e consumo, onde toda a população tenha de participar

et m: Intern Montage

Produzir + Consumir < Preservar

Desenho: Latuff

Revolucionar a maneira como vivemos em sociedade e desenvolver novas relações com a natureza apresentam-se como novos e necessários paradigmas para a resolução dos problemas mundiais atuais e futuros. Porém, um debate desorganizado e vazio domina a grande mídia, que não vê sua importância em contribuir para uma nova consciência de ser humano. Não querem que enxerguemos uma “verdade inconveniente”: não é possível uma melhora das condições da Terra, seja com etanol ou energia solar, se continuarmos a viver como agora. Os altos e concentrados níveis de produção e consumo contemporâneos são destruidores compulsivos de ecossistemas e as maiores causas do abismo entre pobres e ricos. Segundo o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), só 20% da população mundial participa nos 86% dos gastos com o consumo individual. Estas 1,3 bilhões de pessoas: • consomem 45% da carne e do peixe, enquanto as mais pobres (também 20%) consomem menos de 5%. A média do consumo de proteínas na França é de 115 gramas por dia. Em Moçambique, é de 32 gramas. • consomem 58% da energia total, enquanto as mais pobres consomem menos de 4%; os países ricos geram 65 % da eletricidade mundial. • possuem 74% do total de linhas telefônicas, enquanto as mais pobres só têm 1,5%. Na Suécia, Suíça e nos Estados Unidos, existem mais de 600 linhas telefônicas por cada mil pessoas. No Afeganistão, Camboja e no Chade, só existe um telefone por cada mil habitantes. • consomem 84% do total de papel, enquanto as mais pobres consomem 1,1%. A média dos países industrializados é de 78,2 toneladas de papel por cada mil pessoas, enquanto a média registrada nos países mais pobres se situa em 0,4 toneladas por cada mil habitantes. • possuem 87% dos veículos existentes em todo o mundo, enquanto os mais pobres têm menos de 1%. Os países industrializados registram uma média de 405 automóveis por cada mil habitantes. Nos países da África Subsaariana, a média corresponde a 11 veículos por cada mil e, na Ásia Oriental e na Ásia Meridional, o valor é de cinco veículos por cada mil habitantes. Ao ver como se encontra o planeta atualmente, imagine se os outros 5,2 bilhões de habitantes tivessem o mesmo poder de consumo dos 1,3 bilhões mais ricos? Não haveria recursos naturais e de nada adiantaria o discurso dos biocombustíveis e “energias limpas”. Por isto, nada mais importante do que começarmos a construir as bases de uma nova sociedade, não mais pautada no tripé competição-egoísmo-consumo, mas sim nos pilares da preservação ambiental, da distribuição dos recursos e resultados, do consumo racional, da produção sustentável e do respeito pelo ser humano. Sim, um outro mundo é possível; logo, uma outra Valença também.

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Bebeto, estudante de Engenharia de Produção cafo83@yahoo.com.br


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Nossa contribuição à gestão da Cultura em V alença Valença o nta ao poder público sua contribuiçã suas limitações, e por isso, aprese de e sab na ncia Vale m Jove e Red A mais, propomos que a cultura seja : o Fórum Municipal de Cultura. E para a democratização da cultura o ão e tida como filosofia de govern adotada pelo espectro da educaç

Como pensar e gerir a cultura em Valença? Qual o peso dela para o nosso desenvolvimento? Como sair da atual cultura de eventos e iniciar um modelo pautado no princípio da cidadania cultural? Segundo Célio Turino, secretário de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura, “a cultura não pode ser confundida com eventos isolados, reduzida ao mero entretenimento, ou restringi-la às Belas Artes ou à cultura erudita e hermética”. Para ele, “cultura é um pouco disto tudo, mas são também as referências históricas, costumes, condutas, desejos e reflexões”. E nós concordamos com isto. Inclusive por realizarmos os Festivais de Inverno de Valença e outras atrações lúdicas, sabemos que o evento cultural, como concretização de um processo, tem um papel importante e muitas vezes são nesses acontecimentos que as pessoas tomam contato, pela primeira vez, com determinadas manifestações. Mas, antes de tudo, cultura é o cultivo da mente e a cola que une uma sociedade. Adotar a cultura como filosofia de governo gera renda, é social, amplia os horizontes, promove o desenvolvimento sustentável. A cultura integra ações, dá sentido às realizações e reformas dos governos. Concordamos com Célio Turino quando ele diz que “a cultura é o fio condutor que une o direito que o cidadão tem à saúde, ao transporte, à moradia, à escola, ao trabalho, à cidadania”. É com a cultura, e só com ela, que conduziremos nosso município à igualitária democra-

“O Fórum Municipal de Cultura é um espaço de articulação, intervenç ão, troca de experiências e debates” cia, recolocando os cidadãos no caminho da emancipação humana. Pensando num município - e naturalmente no poder público - pautado na cultura para a criação de uma identidade local, na conservação dos patrimônios materiais e imateriais, e na pluralidade das manifestações culturais, é que propomos a criação do Fórum Municipal de Cultura - e posteriormente do Conselho Municipal de Cultura - objetivando a democracia cultural e a democratização da cultura, a cidadania cultural e a legitimação da esfera pública da cultura. Antes é preciso articular atores culturais e vários segmentos - grupos culturais, ongs, gestores do governo, produtores culturais, artistas, pesquisadores e outros - a fim de garantir a continuidade do planejamento cultural em relação às mudanças de gestão. O Fórum Municipal de Cultura é, antes de mais nada, um espaço de articulação, intervenção, troca de experiências e debates, que busca construir alternativas para as políticas culturais do município, envolvendo a sociedade local e outras instâncias de governo (estadual e municipal). Seu fundamento é o direito à participação cultural dos cidadãos, entendida de forma ampla, respeitando a diversidade cultural. Participamos ativamente da luta pela criação do Conselho Municipal da Juventude. Não tivemos organicidade e mobilização necessária para leválo adiante, mas sua pequena organização gerou excelentes resultados na consciência crítica da juventude. Acreditamos que um Fórum Municipal de Cultura receberá o abraço e a participação comunitária necessários para fazê-lo uma ferramenta única e vanguardista de um novo processo de construção de Valença. Uma reconstrução com suas estacas na democracia participativa, na diversidade de opiniões e na gestão democrática das esferas públicas.

“Cultura é o cultivo da mente e a cola que une uma sociedade” Rede Jovem Valenciana redejovemvalenciana@yahoo.com.br valencaemquestao@yahoo.com.br


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Carta à população valenciana

E que venha o III F estival... Festival... Em maio de 2005, 15 pessoas se uniram para formar a Rede Jovem Valenciana. Como primeira atitude, realizamos o I Festival de Inverno de Valença, nos dias 22 e 23 de julho, no Adro da Catedral, com atrações diversi-

visto que o evento adquiria uma complexidade e exigia uma dedicação quase que exclusiva. E de 17 a 23 de julho de 2006 aconteceu, no Jardim de Cima, o II Festival de Inverno, com um grande diferencial:

ficadas e uma presença popular muito significativa. A partir daquele dia, 23 de julho de 2005, muita coisa começou a mudar dentro da Rede. Pessoas se desligaram, outras chegaram, e o projeto do II Festival de Inverno de Valença para 2006 se concretizava como um grande desafio,

a participação da comunidade, mesmo que timidamente, na construção e execução do projeto. O grande expoente dessa participação se deu com o I Festival Gastronômico de Valença, organizado e executado pela Kátia Berckowicz e José Eduardo Magalhães, que se juntaram à Rede Jovem após as reuniões realizadas na Casa Léa Pentagna.

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O resultado do II Festival de Inverno foi um segundo grande marco para nós. Primeiramente porque o evento foi um sucesso de público, de qualidade e diversidade de atrações, de parcerias e de abertura de portas. Depois, contudo, houve a constatação de que alguns do grupo não teriam condições de se dedicar à construção do III Festival de Inverno para 2007, visto os compromissos nas faculdades e no trabalho nos tomavam cada vez mais tempo. E continuam tomando. E é por isto que escrevemos esta carta à sociedade civil valenciana, aos parceiros, patrocinadores e estimuladores deste projeto coletivo. Este mês de julho foi vazio para nós, de certa forma até triste. Sentimos saudades do evento que não ocorreu. Todavia, gostaríamos de deixar bem claro que a não-realização do III Festival não possui motivos financeiros, mas apenas de escassez de recursos humanos próprios. Porém, toda semente bem cultivada um dia germina. E o II Festival Gastronômico de Valença está a todo vapor, organizado pela Kátia, Dudu, Faz+Daluja e Secretaria de Cultura e Turismo, ajudando a comemorar os 150 anos da história da cidade de Valença com muito gosto. De 28 a 30 de setembro, no Jardim de Cima, Valença poderá degustar sua história, de belezas e tristezas, e debater sobre o município que queremos para o futuro. Agradecemos o apoio e carinho de todos aqueles que também sentiram a falta do Festival de Inverno neste ano. Isto nos dá muita força e certeza de que o III Festival de Inverno de Valença em 2008 será um grande espaço democrático e um verdadeiro caldeirão cultural. Acreditamos e lutaremos por uma gestão cultural e educacional em Valença que promova a integração social e o desenvolvimento sustentável, através de uma democracia participativa e transformadora da cultura do clientelismo. Nos vemos no II Festival Gastronômico de Valença! E, com muita alegria, esperança e ansiedade, nos reencontraremos no Jardim de Cima, no III Festival de Inverno de Valença em 2008! Até lá e vamos juntos, pois só assim seremos fortes.

Bebeto, Breno, Flávia, Gustavo, Dudu, Kátia, Letícia, Luiz Fernando, Rafael, Samir, Sanger e Vitor - Rede Jovem Valenciana


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Libório Costa Por Bebeto e Rafael Monteiro

ria de Valença. É um universo muito rico. Precisase valorizar isso e fazer essas pessoas entenderem que além de terem valor cultural, hoje em dia isso pode-se transformar também num valor econômico, com incentivos da UNESCO, do Ministério da Cultura etc. Folias de Reis

bairro da cidade, um grito de identidade. Eles são funkeiros 365 dias no ano! Não é porque eles estão na Folia de Reis que deixarão de exercer a cultura híbrida do funk e Folia. Num intervalo entre Folias você vê palhaço fazer desafio usando o ritmo do Calango com o linguajar do rap. Valença é híbrida por natureza, essa mistura de Minas com Rio, dos índios com tropeiros e comerciantes, etc. Educação e Cultura Realizar o curso de formação de professores em cultura afro-brasileira, que dará subsídios à aplicação dos conteúdos da Lei 10.639 em Valença [a Lei 10.639 estabelece as diretrizes e bases para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” ], e estar ao mesmo tempo dentro da escola em contato com estes jovens, estão me abrindo um campo de pesquisa muito grande sobre a ligação entre educação e cultura. O importante não é só buscar a questão da África no Brasil, como a diáspora dos negros no mundo etc, mas também a história local destas pequenas Áfricas. A cultura é muito importante na potencialização do processo de inserção das crianças e jovens de periferia dentro do processo educacional e na formação da cidadania. A escola tem de estar preparada a reconhecer e valorizar a cultura que a criança já leva para lá. Se você entrar em qualquer escola de Valença você vai encontrar uma diversidade cultural absurda. Você vai encontrar palhaço de Folia de Reis, Ogã de Umbanda, filhos de artesãos, além dos capoeiristas, pagodeiros, etc. Essas crianças são herdeiras de toda essa mistura feita no século 19, ou seja, o passado de Valença está fungando no cangote delas. E esse período está aí nas avós dessas crianças. O primeiro trabalho para a educação se aproximar da cultura é conhecer a realidade destas crianças e jovens, fazer o inventário, diagnosticar, mapear e ouvir os diversos grupos de fazedores de cultura da região para elaborar uma plataforma cultural, um plano de governo. Se não for assim, vira política particular de cultura, ações e eventos de acordo com o gosto particular de quem está exercendo a função de Secretário de Cultura ou do grupo que está ali. Gestão cultural em Valença Numa região como Valença onde a questão da memória e do acervo histórico são totalmente vazios, onde nunca existiu uma política de formação de acervo, onde não existe um museu municipal, e onde os que se dizem museus não seriam crédito: A.F. Rodrigues/ Imagens povo

Libório Costa é valenciano e botafoguense há 47 anos. Foi estudante da rede estadual e de 1975 a 1978 foi membro do grêmio estudantil do Theodorico Fonseca, onde ajudou a promover festivais intercolegiais de música, com participações inclusive de Clementina de Jesus e Rosinha de Valença. Fez um ano de Comunicação Social na SUSI (atual UNISUAM), abandonando o curso para ir trabalhar na Caixa Econômica Federal, de 1984 a 2001. Em 1982 trabalhou na Gazeta da Cidade, do Maguinho. Atualmente está na construção de sua monografia para graduação em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e ministra cursos de formação em cultura afro-brasileira para professores da rede municipal de ensino. Monografia Eu já pensava em fazer algum curso que trabalhasse a questão cultural, mas sem ser teatro etc. Fui então fazer Comunicação pensando em trabalhar na pesquisa ou jornalismo cultural. Mas, fui trabalhar na Caixa Econômica e larguei a Comunicação. Em 1992, a UFF abriu o curso de Produção Cultural e não perdi tempo. Atualmente estou trabalhando no levantamento, inventário do patrimônio imaterial, segmentando para a questão das pequenas áfricas do sertão flumineiro, onde posso pegar o Caxambu, a Capoeira, as memórias da Clementina e Rosinha, os cultos afros e a história local da cultura afro-brasileira. Isso é a temática da minha monografia atualmente. Valença e suas riquezas As pessoas às vezes me perguntam se eu acho que tenho futuro aqui para trabalhar com a questão cultural. Eu falo que trabalho é o que não falta, o que falta é a cidade se convencer e reconhecer a gama de valores, os diamantes brutos que Valença tem escondidos debaixo do tapete colocado pelo poder público e as elites. Se convencer da riqueza do patrimônio imaterial como a Seresta e Serenata em Conservatória que são referência nacional com repercussões internacionais; do Jongo e Caxambu, sendo o Jongo do Quilombo São José da Serra uma referência como um dos mais próximos da raiz africana; da Folia de Reis; da Umbanda que já era cultuada aqui no final do século 19, como conta a própria Tia Maneca, que fez 100 anos ano passado; da Capoeira, que também já era praticada aqui desde o século 19, inclusive pelo pai da Clementina de Jesus; da memória da Clementina e Rosinha; das festas de São Jorge; e por aí vai. Valença tem uma diversidade cultural que se expressa independente do poder público, apesar dele ter hostilizado muitas vezes alguns grupos e mestres dessas manifestações utilizando-os como plataforma eleitoreira. Mas nossa cultura sobrevive pela fé, tradição, força, mística, ancestralidade, e memória dessas populações que estão na perife-

Sou apaixonado pela Folia de Reis e um monte de outras coisas. Mas, desde pequeno tenho paixão pela Folia de Reis. Minha mãe me levava pra Missa do Galo e via passar as Folias e achava aquilo muito mágico, com os cortejos, os palhaços fantasiados, um misto de admiração e medo, que muito adulto ainda tem, mas que já perdi há bastante tempo. É uma das grandes manifestações culturais que temos em Valença, apesar de muitas pessoas criticarem o crescimento da Folia de Reis, como tendo 40 palhaços, alegando que a tradição é ter 2 ou 3. Mas, desde minha época de criança, já existia Folia com 15, 20 palhaços. Isso é característico da cultura local, do seu dinamismo. Não podemos querer colocar camisa de força nas manifestações culturais achando que elas devem ser do jeito que nós achamos que elas deveriam sejam. As “contaminações” servem para potencializar. Esta questão da garotada da Folia de Reis em Valença é muito forte, dentro desse universo dos palhaços, onde há crianças desde os seis anos de idade até jovens na faixa dos 20. E a questão “pop” da Folia chama muito estes jovens, como é o caso da indumentária, dos revirões [ texturas nas roupas ], e eles sofrem ainda a influência de outras manifestações, como o funk e o rap. Eles não mudaram a tradição na Folia, só que os gritos de guerra incorporaram os gritos das galeras de

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classificados assim por uma análise técnica, notase a falta de uma política da gestão cultural. O poder público tem que apoiar as demandas que vêm da sociedade, mas tem que elencar as prioridades, se não vira balcão de negócios. Por outro lado, o poder público tem que ter políticas públicas de cultura! Existe, dentro da estrutura da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, um departamento de museologia e acervo (ou coisa assim) e não tem ninguém trabalhando nessa área! Então, existe um monte de ações a serem implementadas em várias frentes pra formar os acervos da memória valenciana e não existe nenhum trabalho sendo feito, a não ser atitudes isoladas como o pessoal do Diretório Acadêmico de Filosofia da FAA em apoiar o Sr. Sebastião do Museu Ferroviário. Valença está fazendo 200 anos de freguesia, 150 anos de cidade, 165 anos de município e não se vê no horizonte nenhuma preocupação em se trabalhar a memória e identidade! É complicado! Um povo que não preserva sua história, não vive o presente e não constrói o futuro. Se você não tem uma visão crítica do passado pra construir sua identidade no presente, você não irá construir futuro nenhum! Essa tão falada crise que Valença vive é função de falta de identidade, da falta de reconhecer e valorizar a cultura da população. Na política, predomina a visão coronelista, tratando o povo como gado, não como sujeito de transformação e de objeto da democracia substantiva. E, por outro lado, Valença com um território enorme, uma economia fraca, e uma das piores distribuições do PIB no Estado do Rio, está partida. Valença está partida entre dois coronéis. Não existe unidade na diversidade. O povo, ao mesmo tempo em que é vítima, se vitimiza, e acaba criando uma situação de alimentação da sua própria desgraça, pois ele não consegue enxergar que, enquanto se contentar em ser objeto da democracia formal, não irá construir sua cidadania, não conseguirá se mobilizar para transformar. O Paulo Roberto Figueira escreveu sobre a questão da mobilização e que Valença vive uma crise e isso é unânime. Não existe perspectiva no momento e isso é unânime. A gente chega à conclusão que a mobilização é a única saída pra Valença. Mas como mobilizar? Essa é a questão. Pontos de Cultura em Valença Há dois anos procurei a Sônia Mattos, então Secretária Municipal de Cultura e Turismo, com manual e dois editais apresentando a ela que Valença tinha condições de conseguir ser contemplada com um Ponto de Cultura [iniciativas desenvolvidas pela sociedade civil, que firmam convênio com o Ministério da Cultura, tornam-se Ponto de Cultura e o MinC fica responsável por articular e impulsionar as ações que já existem nas comunidades. Um aspecto comum a todos é a transversalidade da cultura e a gestão compartilhada entre poder público e a comunidade. Quando firmado o convênio com o MinC, o Ponto de Cultura recebe a quantia de R$ 185 mil para investir conforme projeto apresentado ]. Existia a possibilidade que, se uma cidade apresentasse proposta para um certo número de Pontos de Cultura, criaria-se um Pontão de Cultura, podendo se fazer um Ponto para a Folia de Reis, outro para a Memória da Clementina etc. Ela não me deu resposta. No ano passado procurei a atual Secretária, Daniele Dantas, para

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conversar sobre as diversas ações do MinC para os municípios e que é necessário contrapartidas e compromisso do governo municipal. E também não obtive resposta. Não há interesse. Turismo Aqueles que são responsáveis pela gestão municipal têm uma certa miopia de perceber o valor da cultura valenciana, porque ainda estão presos a achar que o turismo cultural em Valença vai ser feito em fazenda do café. É pra ser feito em fazenda do café também, mas não somente lá. O Luiz Francisco, guia de turismo, tem uma frase muito boa: “um turismo cultural que é feito de fazenda, sem cidade”. O que precisa ser feito é um turismo cultural da cidade com as fazendas. O máximo que acontece fora das fazendas é uma refeição em algum restaurante, mas não movimenta o comércio local, as pessoas que vivem aqui não lucram nada com isso. Quem continua ganhando são os barões. Conservatória criou uma indústria turístico-cultural através da iniciativa privada e da organização dos moradores. Hoje em dia recebe um fluxo de turismo enorme, está com Arranjo Produtivo Local, Festival de Cinema, turismo ufológico, e um excelente acervo histórico em seus museus, preservando, além da Seresta e Serenata, o samba de raiz, a música instrumental, o chorinho. Que Valença siga o exemplo de seu Distrito! Fórum Municipal de Cultura Estamos vivendo uma revolução silenciosa no Brasil que é provocada pelas políticas públicas do Ministério da Cultura: a rede Cultura Viva, inclusão digital, os Pontos de Cultura. Essas iniciativas - sejam de ONG´s, mídia comunitária, o Hip Hop, a Capoeira – possibilitam as pessoas a construírem suas cidadanias através de ações solidárias. Então, acho que Valença está precisando passar por isso. Vencer essa cultura da cidade partida, da fofoca da Rua dos Mineiros. Daí entra a questão dos Fóruns - a gestão democrática da cidade – que é um processo em que Valença está atrasada há anos! Com os fóruns, as pessoas se mobilizam para conquistarem sua cidadania, deixarem de ser objeto para serem sujeito de sua história, aprenderem a falar e serem ouvidas, e formularem políticas para a cidade. Qualquer governo que assuma o poder tem que entender que eles estão ali para implementarem políticas nas diversas áreas que estejam em ressonância com o que a população quer! Os fóruns são pra isso. Ainda mais numa cidade

como a nossa, onde existem alguns Conselhos Municipais, mas a maioria não está instalada, os fóruns servem para esta ligação entre poder público e sociedade. Exemplo seria um Fórum de Educação para aproximar escola e comunidade, ouvir se está se aproximando dos anseios da comunidade, se está atendendo as demandas daquele local. Numa cidade onde não há equipamentos culturais, as escolas são espaços para trabalhar oficinas artísticas, oficinas de memórias, os jovens entrevistando os mais velhos, recuperar as histórias que estão espalhadas e perdidas pelas periferias, principalmente após o fim da estrada de ferro, quando a população urbana cresceu absurdamente vinda do interior do município, de Santa Rita de Jacutinda, Rio Preto etc. Toda essa cultura rural ainda com traços fortes de afrodescendentes, uma arqueologia humana a ser feita em Valença incrível! O apagamento da história do índio em Valença intencionalmente, encontrar os remanescentes dos Coroados que existem por aí. Tem muito trabalho. Precisamos criar a cultura da unidade dentro dos seguimentos dos produtores culturais, das bandas de rock, dos mestres de Folia de Reis, do pessoal das escolas de samba, dos grupos de capoeira, artesãos, poetas, seresteiros, pessoal de teatro e por aí vai, e partir para o que une e deixar de lado o que diverge, para montarmos uma rede maior, que é o Fórum Municipal de Cultura e o Conselho Municipal de Cultura. As pessoas precisam saber o que elas realmente querem e precisam, fazerem seus autodiagnósticos, e daí partirem para a discussão nestes fóruns e cobrarem seus direitos culturais, que estão na Constituição, e formularem políticas públicas de cultura para Valença. Não é apoio nem favor, é direito. Chega de política de evento pra gente bater palma e o artista voltar pra sua cidade. Onde está o apoio para o surgimento de novos talentos locais? Será que se a Rosinha nascesse hoje ela teria espaços como teve na Rádio Clube de Valença fazendo programas de auditório? Se ela nascesse hoje ela seria a Rosinha de Valença que foi? Quantos talentos estão espalhados pela cidade e não têm oportunidade de se expressar, de evoluírem nos seus fazeres artísticos?! Valença pode ser um grande centro de indústria criativa, basta querer! O momento de crise é o momento de surgirem as idéias. O Fórum Municipal de Cultura é o espaço onde as diferentes idéias se unem para a construção de uma plataforma conjunta, que atenda a essa diversidade cultural. Não existe receita de bolo para Valença, o que precisamos é mobilizar para o encontro.


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A Ideologia da Imparcialidade considerações sobre o governo Chávez e a liberdade de expressão ao poder, o noticiário saiu do ar, dando lugar a programas reconhecidamente imparciais, Pretty Woman e Tom e Jerry. (Todo esse processo foi registrado no documentário irlandês A revolução não será televisionada, disponível no YouTube.) O governo poderia ter processado a emissora e encarcerado seus donos por conspiração e atentado contra a segurança do Estado, mas não o fez. Esperou que vencesse a concessão pública - a licença que a RCTV tinha para desinformar - e, com o aval do Supremo Tribunal de Justiça, não renovou esta licença. Brandindo a Constituição, Chávez criou, em seu lugar, a Televisora Venezolana Social (TVes), com um perfil educativo, comunitário e cultural.

anos “se caracterizou por seus valores éticos: a independência de critério, a eqüidade, a imparcialidade”, mostrou imagens do “protesto contra o fechamento da RCTV”, que na realidade eram de um protesto em Cancún, México, contra o assassinato de um jornalista nessa cidade. No Brasil, os defensores de uma abstrata “liberdade de expressão” estremecem ao ouvir falar em rádios e tevês comunitárias. E tratam, pela coerção policial, jurídica e burocrática, de barrar qualquer iniciativa que represente uma ameaça de democratização da comunicação. A morosidade dos sucessivos governos em analisar pedidos de concessão de rádios comunitárias, cujos processos duram até oito anos, contrasta com a agilidade da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em reprimir as emissoras populares sem outorga. Entre 1998 e 2002, mais de 10 mil pessoas foram indiciadas e 3.623 foram condenadas por radiodifusão clandestina no país. No ano passado, a Anatel fechou cerca de 800 emissoras. Há diversas denúncias de abusos nas ações da Polícia Federal em conjunto com a Anatel para fechar emissoras populares. Rádios comunitárias são interditadas e o seu material apreendido - muitas vezes sem nenhum mandado judicial -, seus representantes presos e processados. Como foi o caso da Rádio Bicuda (Vila da Penha, RJ), que tinha um trabalho importante de preservação do meio ambiente e organização dos diversos movimentos sociais da Leopoldina. A entidade foi fechada com violência por agentes da Polícia Federal em 2002. Foram levados todos os equipamentos e seus representantes presos. O seu pedido de concessão, feito em 1999, foi arquivado e a outorga foi dada a uma rádio comercial. Mas nesses casos, nunca lemos protestos nos grandes meios, nem ouvimos falar de manifestações de repúdio do senado norte-americano ou de seus papagaios. Historicamente, como observou Nelson Werneck Sodré, “o imperialismo controla a informação onde exerce o seu domínio”. Este controle raramente é posto em xeque por um projeto contra-hegemônico. Por isso, nós que lutamos pela soberania dos povos latino-americanos, contra o “monopólio da fala”, vemo-nos no dever de apoiar enfaticamente a não renovação da concessão da emissora golpista Radio Caracas Televisión. Não sabemos que rumo irá tomar a chamada revolução bolivariana, mas uma coisa podemos dizer, parafraseando o título do documentário irlandês: a próxima tentativa de golpe de Estado na Venezuela não será televisionada, pelo menos pela RCTV. Créditos: Latuff

Tem razão a grande mídia quando - em coro uníssono e comovente – afirma que a decisão do presidente Hugo Chávez de não renovar a concessão pública à Radio Caracas Televisión (RCTV) é um ataque à liberdade de expressão. Esquece-se apenas de dizer que se trata, no caso, da liberdade de expressão do grande capital. Afinal, quem falava pelas ondas da RCTV – e continua falando por meio das grandes corporações de mídia na Venezuela ou no Brasil – não é o povo, a quem supostamente deveriam servir as emissoras de comunicação, mas os bancos, as grandes empresas transnacionais, os latifúndios – o mercado. Durante 54 anos, a RCTV, a mais antiga emissora venezuelana, filial do grupo iBroadcasting, teve liberdade de expressão e a utilizou para organizar uma visão de mundo conveniente aos interesses dominantes, mantendo anestesiada a consciência popular mediante uma programação torpe e mistificadora. Tal liberdade lhe permitiu, por exemplo, protagonizar a tentativa de golpe de estado em abril de 2002. Lembremos este fato que os grandes meios de difusão gostariam de apagar da memória de todos. Desde 1998, quando foi eleito pela primeira vez, Chávez vinha desagradando aos setores dominantes com sua “revolução bolivariana” de cunho popular, antiimperialista e, digase de passagem, estritamente constitucional. Em nenhum momento os meios de difusão deixaram de lhe opor dura resistência. Associadas a Washington e à elite local, as redes de TV – Globovisión, Venevisión, Televen e RCTV – procuraram criar o clima necessário à deposição de Chávez. E aí a liberdade de expressão da grande mídia se mostrou em sua essência: mentiras, deturpações, refinada manipulação. Nada que nós brasileiros não conheçamos muito bem. Nos dias que precederam o golpe, de acordo com um conceito um tanto lato de liberdade, a RCTV trocou a programacão normal por discursos contra Chávez e de apoio ao líder golpista Pedro Carmona, presidente da maior organização patronal venezuelana. Quando a conspiração prendeu o presidente, dissolveu a Assembléia Nacional e empossou Carmona, as emissoras comemoraram o que passaram a chamar de “renúncia” de Chávez. A população foi para as ruas exigir a volta do líder bolivariano, mas sobre isso as redes de TV não se pronunciaram. E quando o repórter no Palácio Miraflores anunciou que o presidente retornava

Algo, sem dúvida, bastante diferente dos faustinhos e ratões oferecidos pela RCTV. Não se trata, como bem afirmam seus opositores, de uma TV “imparcial”. Sem dúvida, a TVes está em sintonia com o projeto bolivariano de resistência ao neoliberalismo e aos desmandos de Bush na América Latina, com a organização de uma nova hegemonia política por meio de um redirecionamento do sistema informativo. Não poderia jamais ser imparcial. Mesmo porque, ao contrário do que afirmam os meios de difusão (deixemos de chamá-los de meios de comunicação) não existe, nem pode existir, um discurso, uma programação ou uma visão de mundo socialmente neutra, imparcial. Toda fala é a fala de um sujeito histórico e, de alguma forma, corresponde a seus interesses e anseios. O mito da imparcialidade aparece, assim, como uma forma de apresentar como universais as idéias particulares e essencialmente parciais das elites dominantes; uma forma de silenciar as vozes dissonantes, contrahegemônicas. De repente, a Globo, a CNN, a Veja, a Condolezza Rice, o Senado norte-americano e os milionários donos da RCTV – quanta gente boa e imparcial! – se fazem arautos da liberdade de imprensa. E, em sua defesa, são capazes de tudo! A CNN em Espanhol, por exemplo, em cujo site pode-se ler que nos últimos dez

Eduardo Granja Coutinho, professor adjunto da Escola de Comunicação da UFRJ

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Alô, alô, preste atenção: municipalização nem sempre é a solução! No dia 12 de junho a comunidade escolar do Instituto de Educação Deputado Luiz Pinto recebeu uma notícia do Governo do Estado: o prédio anexo, onde funciona a educação infantil (Av. Nilo Peçanha), deveria ser desocupado até dia 18 de junho, para ser entregue à Rede Municipal de Ensino. Além deste aviso, os professores do Estado que não quisessem permanecer na Escola até o fim do ano (data da desocupação definitiva), deveriam comparecer à Coordenadoria Médio Paraíba I, em Barra do Piraí, no dia 13 de junho, para saber o que seria feito de seus cargos. Indignados com tamanho descaso - não só com os profissionais, mas com as crianças que se encontram em meio ao ano letivo -, professores, funcionários, pais e alunos do Instituto procuraram o SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação). O sindicato organizou uma comitiva de pais, alunos e professores para ir à Coordenadoria, em Barra do Piraí. No dia 14 de junho, com aproximadamente 30 pessoas, foram recebidos pelo coordena-

dor Carlos Roberto Gulô, que afirmou que “a municipalização do ensino fundamental é um processo inevitável e mais cedo ou mais tarde isso aconteceria”. O coordenador propôs uma reunião na semana seguinte, em Valença, com a Secretaria Municipal de Educação, para tentar resolver a situação. Congelamento Não satisfeito com a proposta apresentada por Gulô, o SEPE procurou a Secretaria Estadual de Educação, no Rio de Janeiro, a fim de que uma comissão fosse recebida pelo Secretário Estadual de Educação, professor Nélson Maculan. No dia 16/06, 25 pessoas partiram de Valença para o Rio e foram recebidos pelo Subsecretário de Planejamento da Educação, professor Godofredo Oliveira Neto, e pela Subsecretária de Gestão da Educação, professora Lúcia Venina Almeida. Ambos alegaram que o processo de municipalização é irreversível e que essa era a vontade do governador Sérgio Cabral. Depois de escutar os argumentos da comissão (quadro ao lado), Godofredo prometeu congelar o processo de municipalização do Instituto até março de 2008.

Opinião do SEPE

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acabam centralizando os recursos no FUNDEB, porque nem sempre há uma destinação correta dos 25% dos impostos que cada município deve gastar com Educação. Desta maneira, há por parte dos governos municipais uma verdadeira “corrida maluca” por mais alunos. E este parece ser o caso na municipalização dos 400 alunos da pré-escola do IEDLP. Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação Núcleo Valença/RJ – Gestão 2006/2009

Foto: Samir Resende

Não acreditamos que o processo de municipalização seja inevitável. A municipalização é uma política pública, e como tal, não é imutável nem irreversível. E mais: desafiamos nossos atuais gestores a nos mostrar qual parágrafo da Lei 9394/96 (LDB) afirma que a educação infantil é responsabilidade EXCLUSIVA dos municípios. A municipalização do ensino fundamental intensificou-se a partir da década de 90 e tem como objetivo aumentar a participação dos cidadãos na elaboração, implementação e avaliação do processo ensino-aprendizagem, onde descentralização e desconcentração são palavras chaves. Estes argumentos são muito bons e seriam nobres se, no decorrer do processo, essa política não apresentasse dificuldades em sua implementação. E uma das principais deficiências encontradas é a lógica do financiamento da educação pública. Pela lógica do FUNDEF (e agora no FUNDEB) aluno vale dinheiro. Ou seja: quanto mais alunos na rede, maior o repasse de verbas. Superficialmente, essa lógica parece sensata, notadamente no mundo capitalista. Mas, para nós que convivemos com as crianças em salas de aula, sabemos que as mesmas não devem ser entregues nas mãos de administradores que antes não exigiam o direito de cuidar de sua educação e que agora se viram atraídos pelas verbas federais. Ao municipalizar o ensino, os governos


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Democracia Social Duas grandes situações ligadas à violência aconteceram neste primeiro semestre na cidade do Rio de Janeiro. A cobertura feita pela grande mídia pátria – grande em capital e audiência –, nas duas situações, nos dá alguns indicativos para entender como a democratização dos meios de comunicação é mais do que necessária para se equacionar outras questões sociais no Brasil. Em fevereiro de 2007 um assalto, no bairro de Oswaldo Cruz, Zona Norte da cidade, acabou na morte do garoto João Hélio, de seis anos. Como de praxe, a cobertura do crime feita pelos principais veículos de imprensa do país valeu-se da superexposição da situação dramática das vítimas. Além disso, não se perdeu a chance de colocar em debate uma proposta que surge como solução fácil para o Estado: a redução da maioridade penal. Na disputa pela audiência, crimes hediondos – que se caracterizam por extrema violência e crueldade – têm destaque garantido na grande mídia. A cobertura, no entanto, tende a dar dimensões espetaculares ao drama, não se ocupando de contextualizar as pessoas envolvidas, bem como os muitos significados do acontecido para o conjunto da sociedade. Três meses depois do caso João Hélio, precisamente no dia dois de maio, a Polícia Militar do Rio de Janeiro ocupou a Vila Cruzeiro, comunidade que também fica na Zona Norte da cidade, no complexo de favelas da Penha. Essa operação policial, de acordo

com a PM, se deu por conta do assassinato de dois policiais no bairro de Oswaldo Cruz (lá onde morreu João Hélio), Marco Antônio Ribeiro Vieira e Marcos André Lopes da Silva. Segundo a Polícia, os assassinos estariam na Vila Cruzeiro. A operação, inicialmente, contava com 150 policiais, segundo os dados oficiais, que buscavam os culpados pelas mortes. No dia 13 de junho, além da PM, a Força Nacional de Segurança ocupou outras comunidades próximas à Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão, conjunto de favelas bem próximo ao Complexo da Penha. Esta operação teve seu ápice no dia 27 de junho, no que a Secretaria de Segurança do Estado chamou de “Megaoperação”. Nela, 1350 policiais adentraram ao Complexo do Alemão, fortemente armados e em um único dia, mataram 19 pessoas e feriram outras 13. Até o dia 16 de julho, os dados oficiais contabilizavam 48 mortos e mais de 80 feridos. Após a “Megaoperação”, o governador Sérgio Cabral afirmou que se trata de uma guerra travada contra o crime. Os 48 mortos, entre criminosos e inocentes, seriam, então, efeito colateral dessa guerra.

“A fala do governador, assumindo a tática do confronto e da execução como política de segurança, só corrobora o debate superficial sobre a questão”

Desenho: Latuff

Execução sumária Esta foi a deixa que a mídia nativa precisava. Expressões como “zona de guerra” e “fogo cruzado” já eram usuais. Mas a fala do governador, assumindo a tática do confronto e da execução como política de segurança, só corrobora o debate superficial sobre a questão. Tem espaço ínfimo nos meios de comunicação, por exemplo,

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o fato de que 13 pessoas mortas na “Megaoperação” foram baleadas pelas costas, revelando o fato de que aconteceram execuções sumárias. Os clamores da população residente no Complexo, que denunciam os excessos da polícia, como tortura e extorsão, também não ganham as páginas dos jornais. São dezenas de mortos e feridos, entre criminosos, policiais e, claro, moradores. Mesmo assim, a Secretaria de Segurança com o nítido apoio da mídia, afirma veementemente que este tipo de ação pode combater de forma eficaz o tráfico de drogas ou reduzir os índices de violência. Os veículos de maior circulação e audiência dão voz a um discurso que descontextualiza fatos e atores sociais. As verdadeiras causas do crescimento da criminalidade, enraizadas na desigualdade social e no consumismo, são então naturalizadas. O crime passa a ser fruto, apenas, do distúrbio de caráter daquele que o cometeu. E para combatê-lo, o uso de mais violência, nos é posto como única solução.

nistas, por outro, favorece o surgimento de discursos que criminalizam a pobreza. Acaba por delinear-se uma geografia do medo, onde determinados espaços são tidos pela população como verdadeiros campos de guerra ou redutos de criminosos. A mídia em geral tem papel fundamental neste contexto. A vida cotidiana daqueles que vivem em favelas raramente é tematizada, com exceção das páginas policiais. Os espaços populares são, então, associados ao crime, principalmente por conta da presença do tráfico. A ausência do poder público nestes locais é tida como natural e criase um sentimento de que a pobreza deve ser eliminada.

“Inseguro, o máximo que se pode almejar é uma sobrevivência conservadora, do jeito que está”

A quem interessa a guerra? Em alguns casos, na tentativa de uma análise mais profunda, a educação é apontada como causa e solução para a violência, mas sempre de mãos dada com o forte uso da repressão policial. No entanto, a questão vai além da educação, pois há muitos outros direitos da maioria da população que não são respeitados pelo conjunto da sociedade. Para o professor e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, Emir Sader, a violência torna-se uma maneira do cidadão buscar seus direitos, ainda que de forma indevida. Ele lembra que “países com maior nível de desenvolvimento social, onde os direitos são mais reconhecidos, têm menor grau de violência”.

A polarização da cidade passa a justificar as ações de coerção do Estado. De novo, as ações de caráter imediato, mas também violento, ganham espaço privilegiado no debate. Como conseqüência, perdem força discussões onde se proponham políticas públicas eficazes, que tratem o problema da violência não apenas como um caso de polícia. Discussões que direcionem o trabalho do Estado no sentido de repensar o papel da segurança pública, um novo modelo de sistema prisional e o planejamento da formação dos policiais, dentre outras questões. Democracia Social A idéia de democracia é comumente associada ao sufrágio universal. Uma sociedade democrática, no entanto, vai além do direito ao voto. Não há democracia quando não há universalização dos direitos dos cidadãos. O professor Emir Sader ressalta que “o processo de democratização social perpassa pela socialização dos bens e serviços, que devem ser coletivos”.

“Os meios de comunicação deveriam ser os principais espaços de debate na sociedade”

Emir ressalta ainda que multiplicar o sentimento de insegurança é fundamental para a manutenção da ordem social vigente. Pois ele inibe ações que possam resultar em mudanças mais significativas na sociedade. “Inseguro, o máximo que se pode almejar é uma sobrevivência conservadora, do jeito que está”. Cabe, então, perguntar a quem interessa disseminar o terror, o medo e a “guerra”. Criminalização da Pobreza Se por um lado o debate superficial sobre o aumento da violência e o combate a ela resulta em soluções imediatas e reducio-

Neste contexto, a democratização da mídia ganha suma importância. Emir lembra que “muitas vezes outras questões [relacionadas à democracia social] não chegam a ser debatidas por conta da própria mídia”. Os meios de comunicação deveriam ser os principais espaços de debate da sociedade. No entanto, o que se vê na prática é um setor monopolista - baseado na propriedade cruzada – e que sob a bandeira da liberdade de expressão, não se submete a nenhum tipo de regulação.

Tira: Internet

Assim, debater em torno da segurança pública é mais do que urgente, dado o cenário de caos em que nos encontramos. No entanto, a solução do problema, em longo prazo, está na reestruturação dos diversos setores da sociedade, no intuito de se construir uma democracia efetiva.

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Marianna Araújo, estudante de jornalismo da UFRJ mariannaaraujo@gmail.com


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Filme Deus e o Diabo na Terra do Sol - Glauber Rocha Marco do cinema novo brasileiro, dirigido por Glauber em 1964, conta a história do vaqueiro Manuel que se revolta contra a exploração de que é vítima por parte do coronel Morais e mata-o durante uma briga. Foge com a esposa da perseguição dos jagunços e acaba se integrando aos seguidores do beato Sebastião, que promete a prosperidade e o fim dos sofrimentos através do retorno a um catolicismo místico e ritual. Considerado por muitos críticos como o melhor filme do cinema brasileiro de todos os tempos.

Disco Orquestra Imperial Este primeiro CD da Orquestra Imperial, fenômeno nas noites cariocas, apresenta um repertório de marchinhas, clássicos de gafieira, bolerões, canções infantis da década de 80 e algum material inédito. É o velho numa roupagem criativa e irreverente.

Livro Auto da Compadecida - Ariano Suassuna A mais famosa peça publicada em livro deste fabuloso autor que completou 80 anos no mês de junho. É uma comédia de tipo sacramental que põe em relevo problemas e situações peculiares da cultura nordestina com elementos da cultura de cordel e tradição religiosa. Adapatada ao cinema com grande sucesso, Auto da Compadecida merece ser conhecida em seu formato original.

Vídeo Pan pan pan pan Assista ao vídeo “Pan-americano 2007 e o extermínio nas favelas” no Youtube. Para assistir, digite o seguinte .youtube.com/ endereço no Youtube, ou na pesquisa (Search) digite o nome do vídeo. http://www http://www.youtube.com/ watch?v=N3_5TyJlQ4w

Notas CASAL GAROTINHO INELEGÍVEL O TRE-RJ (Tribunal Regional Eleitoral) do Rio de Janeiro cassou no dia nove de julho o mandato do deputado Geraldo Pudim (PMDB-RJ) e determinou a inelegibilidade dos ex-governadores Rosinha Matheus e Anthony Garotinho, ambos do PMDB, por compra de votos. Com a decisão, o casal Garotinho não poderá se candidatar a nenhum cargo público pelo período de três anos. A decisão também inclui o ex-presidente do Departamento de Estradas de Rodagem, Henrique Alberto dos Santos Ribeiro. Pela decisão, os quatro deverão pagar multa à Justiça Eleitoral. Segundo o relator do processo, juiz Marcio Mendes Costa, a suposta compra de votos ocorreu em uma reunião política na fazenda do

médico José Carlos Araújo, em Sapucaia (RJ), em 12 de setembro de 2002, durante o período eleitoral. CAIXA 2 DE PICCIANI E ÁLVARO LINSDe acordo com relatório da Polícia Federal, ex-chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins e presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Leonardo Picciani, omitiram despesas de campanha. O documento foi enviado ao procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, anexado ao inquérito com o indiciamento, por crime eleitorial, dos exgovernadores Rosinha e Anthony Garotinho, do deputado federal Geraldo Pudim e do prórprio Lins, onde são acusados de beneficiar um grupo de excedentes de um concurso na Polícia Civil. Segundo o relatório há ainda indícios de suposto crime eleitoral também na prestação de contas do deputado federal Leonardo Picciani, presidente da Co-

missão de Constituição e Justiça da Câmara e filho do presidente da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Jorge Picciani. VAGAS DE EMPREGO A Agência Estadual de Trabalho e Renda está disponibilizando as vagas de assistente de logística, auxiliar de laticínio, representante comercial autônomo, vendedor em domicílio, operador de caldeira, recepcionista de hotel e vendedor pracista. Os interessados deverão cadastrar-se gratuitamente no local, que fica na Rua Nilo Peçanha, nº 971, centro e funciona de segunda à sexta-feira, das 8:30 horas às 16:30 horas. Para o cadastro é necessário apresentar carteira de trabalho, CPF, título de eleitor e cartão de PIS/ PASEP.

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