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Valença em Questão Ano I

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Valença, abril de 2005

Raio-X do Hospital Geral Técnicos realizaram diagnóstico do Hospital Geral José Fonseca e concluíram situação de risco. Aproximadamente 60% da Instituição não funciona de acordo com as normas hospitalares

Hospital Geral. Dívida com fornecedores dificulta atendimentos

Entrevista

Mobilizaçao de jovens

GEÓGRAFO E PROFESSOR da Universidade Federal Fluminense, autor de diversos artigos publicados e diretor executivo da OSCIP Observatório de Favelas do Rio de Janeiro, Jaílson de Souza e Silva, como ele mesmo diz “nome tipicamente brasileiro, nada mais brasileiro do que Souzas e Silvas da vida”, é o entrevistado do Valença em Questão. Na entrevista, Jaílson, inconformado com a naturalização da exclusão social, conta um pouco sobre sua trajetória e analisa o papel da juventude na construção da cidade. Esperamos que os jovens de Valença espelhem-se nesse professor que busca alternativas contra as desigualdades em nosso País. Página 7

GRUPO DE VALENCIANOS preocupados com a situação de Valença resolveram se unir e promover atividades na cidade. Buscando perspectivas para a população, principalmente para os jovens, eles pretendem criar redes de comunicação para levantar os principais problemas e apresentar soluções. Confira no artigo de Carlos Alberto Fernandes. Página 3

FAtOS FIQUE POR DENTRO da situação do País e do mundo através da seção FAtOS, com um resumo dos principais acontecimentos do mês veiculados na mídia nacional. Se você ainda não ficou sabendo, aproveite. Página 6

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HÁ MAIS DE 10 anos o Hospital Geral José Fonseca vem acumulando uma dívida que hoje ultrapassa os 3,5 milhões de reais. Técnicos da Associação Congregação de Santa Catarina, especializados em administração hospitalar, avaliaram e desenvolveram um relatório solicitado pela Irmandade da Santa Casa de Misericóridia, provedora do Hospital, para diagnosticar a situação estrutural e administrativa. Nos últimos meses da gestão do governo anterior, o município deixou de repassar a verba acordada em contrato entre a prefeitura e a Irmandade. E a administração atual ainda não firmou acordo, dificultando a solucão da crise. A dívida, que em dezembro de 1997 era de 748 mil reais, cresceu, chegando a 3,3 milhões em dezembro de 2004, um aumento de mais de 440%. Páginas 4 e 5


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editorial UM POTENCIAL TURÍSTICO de fazer inveja a qualquer cidade histórica. Uma fauna e flora de encher os olhos até mesmo de especialistas. Um povo hospitaleiro. Tudo isso em Valença. Na situação atual, parece até mentira que a cidade apresente todos esses potenciais. Isto porque ela está passando por um processo de decadência que vem afetando toda a sociedade. Há uma acomodação da população valenciana diante dos acontecimentos. As pessoas parecem desiludidas, ou até mesmo conformadas com a situação a ponto de não encontrar forças para tentar mudar esse processo. É preciso que a comunidade se mobilize e realize ações conjuntas para que haja mudança. Hoje na cidade diversos grupos tentam, sozinhos, alterar um pouco essa realidade. Esses movimentos buscam alternativas sociais, econômicas, políticas e culturais para Valença, objetivando resgatar nossa história e economia sustentável. Percebemos uma carência de divulgação real do que acontece. Sendo a informação uma grande fomentadora do senso crítico, há urgência em se criar na cidade possibilidades para que todos tenham condições concretas de acessá-la. Hoje esta importante ferramenta em nossa cidade ainda é muito restrita: apenas 11,7% da população do município tem acesso à internet. Além desse problema, e consequentemente de consciência política da população, um que vem afetando os princípios básicos da sociedade é a questão do Hospital Geral José Fonseca, que se encontra em degradação há mais de 10 anos. Há pouco tempo, a instituição recebeu uma reforma de sua infra-estrutura, mas há problemas maiores, como uma dívida de mais de 3,5 milhões de reais. Procuramos nesta edição esclarecer essa situação para a comunidade valenciana. Por essa lacuna aberta de falta de informação e de articulação entre os cidadãos, surge o Valença em Questão para ser uma voz com o único objetivo de alavancar o bem-estar da ci2

dade e de seus habitantes. Contamos com a participação de leitores e colaboradores para, juntos, apresentarmos soluções para os diversos desafios que Valença enfrenta. Portanto, sintam-se à vontade para enviar sugestões, críticas, opiniões, idéias, propostas e o que mais acharem conveniente. Temos como princípio que a voz mais importante é a da população, dos leitores realmente preocupados com a situação de nossa cidade. Com a participação de todos, esperamos atingir o principal objetivo desta publicação, lançar alternativas e concretizá-las. E a partir de agora a juventude valenciana(mas não somente ela) tem um meio de conhecer, exigir e buscar seus direitos. O Valença em Questão, publicação de caráter mensal, se propõe a colaborar com estas pessoas dispostas a mudar a atual realidade e ser um instrumento de propagação da sua voz. Porque não adianta ficar reclamando, sempre insatisfeito com a situação. Como escreveu Eduardo Galeano, “deixemos o pessimismo para tempos melhores”. * * * Lançamos aqui um desafio às pessoas: resgatar a nossa história, hoje pouco divulgada e valorizada. Quem tiver informações e/ou curiosidades sobre a nossa cidade ou estiver produzindo algum material referente à Valença, entre em contato conosco. Vitor Monteiro de Castro

Painel do Leitor Envie críticas, matérias, sugestões, comentários, eventos, reclamações, etc., para o correio eletrônico valencaemquestao@yahoo.com.br, ou por carta para Rua Francisco Di Biasi, 26, Torres Homem, Valença-RJ, CEP 27.600-000. Para Anunciar ou Colaborar Entrar em contato pelo correio eletrônico valencaemquestao@yahoo.com.br, com Assunto “Anúncio” ou “Colaborar”, ou ligar para o telefone (21) 9505-6656. Expediente Editor, Reportagens, Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica: Vitor Monteiro de Castro - Estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social da Uerj. Mat. 2003.1.2178-12. Tiragem: 500 exemplares Impressão: Gráfica PC Duboc Ltda. (24)2453-4222

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Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade. Raul Seixas

3 DE OUTUBRO DE 2004. Dia de eleições municipais. Nesta data - em que o voto e o real desejo de uma sociedade mais justa e consciente de seus direitos e deveres são nossas armas - um grupo de jovens valencianos resolveu repensar sobre o seu papel perante a atual situação sócio, político e econômica de nossa tão sufocada e desestimulada Valença. Seria muito fácil para estes apenas seguirem para mais uma semana de estudos e trabalhos, longe de sua cidade que há muito não apresenta condições de oferecer à sua juventude caminhos e formas de obter perspectivas reais de crescimento pessoal, cultural, profissional e social. Mas eles perceberam que era a hora de serem, juntamente com todos os outros, os agentes da mudança tão aclamada e mais que necessitada. Surgiu, então, a idéia de se criar um movimento onde fosse possível

promover uma maior interação entre os jovens e, conseqüentemente, despertar esta parcela da população que representa 48,94% (10-39 anos) e anda tão esquecida neste município. O grupo se propõe a fazer a articulação de todas as atitudes já existentes na cidade com este objetivo, para então, criar uma rede jovem e mobilizar estas pessoas a traçarem estratégias e ações que irão beneficiar a sociedade como um todo. Após diversas reuniões entre os integrantes, foram realizados dois encontros com a comunidade nos dias 05/03 e 09/04, onde foram apresentados, no primeiro, um vídeo sobre a manipulação da mídia (cedido pela ONG Centro de Criaç ã o d e I m a g e m Po p u l a r – www.cecip.com.br) e a presença do professor Alexandre Fonseca, que colocou questionamentos sobre a atual situação da cidade e o nosso importante papel nela. Logo após, foi aberto um debate para se discutir quais seriam as ferramentas utilizadas para mudar a realidade de Valença, e entre as alternativas, foi apresentada a questão do Hospital

Geral José Fonseca, sendo este o foco do último encontro. Na reunião foi apresentado o diagnóstico feito pela Associação Congregação Santa Catarina junto com a situação político-econômica-administrativa do hospital. Foram e estão sendo tomadas decisões para a divulgação destas – e de outras – informações para a sociedade e a mobilização diante desse problema, através de eventos, visitas aos colégios e cursos de ensino superior. Outro tema que está com uma vertente muito forte no grupo é a questão do turismo sustentável. Todos sabemos do potencial “adormecido” de nossa cidade, e a proposta do movimento vai de projetos de turismo sustentável, eco-turismo, parcerias com ONGs e iniciativa privada, à utilização da mão-de-obra qualificada que Valença oferece, como no curso de Capacitação Técnica em Turismo oferecido pela Escola Benjamin Guimarães.Com a força conjunta da comunidade valenciana o sonho pode se tornar realidade. Carlos Alberto Fernandes

Cultura de paz nas escolas SÁBADO DE MANHÃ. Para crianças e adolescentes, nada de ir à aula. A única preocupação talvez seja a diversão. Mas onde encontrá-la? A resposta pode parecer inusitada, mas é na própria Escola. Em parceria com o governo do Estado e a UNESCO Brasil, a Escola Estadual Coronel Benjamin Guimarães implantou o Programa Escolas de Paz. Foram criadas oficinas das mais variadas atividades, entre elas, i n fo r m á t i c a c o m a c e s s o à internet, artesanato, dança e capoeira. Isso até o dia 26 de março, quando a parceria foi interrompida, deixando de repassar os recursos. Oziléia, coordenadora do programa na escola, se orgulha do trabalho realizado. “Estávamos desde agosto com essas ativida-

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des, vinham mais de 400 crianças participar” lembra a coordenadora. Mesmo sem recursos e sem receber para trabalhar aos sábados, uma rede de voluntários, entre diretores, coordenadores e alunos se revezam na coordenação das atividades, agora restrita aos estudantes do Benjamin. “Estamos atendendo apenas os alunos da nossa escola, porque não temos como oferecer almoço para todos”, lamenta Oziléia. Mas mantém a esperança de que os recursos vão voltar. “Acredito na volta do repasse, porque o trabalho é muito importante e já se criou o hábito nas crianças de virem aos sábados para continuar aprendendo. E o Benjamin foi considerado escola modelo pelo Projeto Escolas de Paz da Unesco”, conclui, confiante.

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m 2004 a escola se inscreveu no projeto buscando contribuir para uma cultura de paz na cidade e estimular os alunos a freqüentarem as aulas, revertendo o quadro de repetência e de evasão escolar. Além disso, o principal desafio é transformar em atitudes cotidianas o respeito aos direitos humanos e à pluralidade cultural, tornando a sociedade mais digna e harmônica, buscando justiça, liberdade, solidariedade e prosperidade. O programa fazia parte de um acordo de cooperação entre o governo do estado e a UNESCO Brasil, para viabilizar a abertura das escolas estaduais nos finais de semana, oferecendo oportunidades de acesso à cultura, arte, esporte e lazer aos jovens e a toda comunidade. São oferecidas oficinas de informática, biscuit, desenho, modelagem com sabonete, culinária, artesanato, sucesso escolar, dança, vídeos educativos, capoeira e esportes.

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Jovens por Valença


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Na contramão da saúde

Prefeitura e Irmandade da Santa Casa não se entendem e quem sai perdendo é a população de Valença. Hospital Geral tem dívida de mais de 3 milhões.

U M DOS PRINCIPAIS problemas hoje no Brasil, e em especial no Estado do Rio de Janeiro, é a saúde pública. E, infelizmente, Valença não é exceção. O Hospital Geral José Fonseca passa por uma crise, que vem se agravando ao longo de mais de uma década. Há 12 anos a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, provedora do Hospital Geral José Fonseca, vem passando por dificuldades para mantê-lo dentro dos padrões hospitalares e de atendimento. Sua despesa mensal é de aproximadamente 350 mil reais, e somente com os planos de saúde e convênios particulares a Instituição não consegue sobreviver às próprias custas. Uma solução encontrada há alguns anos foi uma parceria entre a Irmandade e a prefeitura municipal de Valença, que faria um repasse mensal ao hospital para ajudar no custeio. A gestão

do governo Fernando Graça (1997- prefeitura se prontificou a repas2000), recebeu o hospital, em sar R$70 mil mensais. Esse repas1997, com uma dívida de pouco se durou um ano e seis meses. Demais de R$748 mil. E no final do pois disso o valor caiu para R$30 mandato a prefeitura entregou o mil. E a partir de julho de 2004 a hospital com um saldo devedor verba deixou de ser repassada. Em ainda maior: em dezembro de 31 de dezembro de 2004, a pre2000 a dívida era de R$1,3 milhão. feitura entregou à Irmandade uma Cresceu cerca de 174% nos qua- dívida de R$ 3.327.469,01, um aumento de mais de R$2 milhões nos tro anos da gestão. COM UMA DÍVIDA nesse valor, a nova quatro anos de mandato, ou seja, gestão do município (2000-2004), 256% da dívida de 2000. representada pelo prefeito Luiz E a dívida não é o único probleAntônio Corrêa, demorou 8 meses ma do Hospital Geral. Em outubro para entrar num acordo com a Ir- de 2004, técnicos da entidade Asmandade da Santa Casa e iniciar a sociação Congregação de Santa ajuda de custo. Mas com uma con- Catarina, especialistas em adminisdição: a gestão teria que ser feita tração hospitalar, desenvolveram exclusivamente pela prefeitura (veja trechos do contrato abaixo) se comprometendo a sanar toda a dívida. Na ocasião do contrato, realizado em setemPrefeitura se compromoteu a repassar verbas e não cumpriu bro de 2001, a

Trechos do contrato entre a Prefeitura Municipal de Valença (gestão 2000-2004) e a Irmandade da Santa Casa de Misericóridia

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Evolução da dívida

Em quatro meses de governo, a gestão atual não entrou em acordo com a Irmandade em relação ao repasse de verbas

Número de leitos cai no Estado Enquanto a população fluminense cresceu 12% em 10 anos, aumentando de 13,3 milhões em 1994 para 14,9 milhões em 2003, o número de leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado do Rio de Janeiro encolheu 26%, passando de 59.136 para 43.707. Os números estão no Anuário Estatístico do Estado do Rio de Janeiro 2004, elaborado pelo Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro (Fundação Cide). A região do Médio Paraíba, onde Valença está inserida, possui 2,83 leitos por mil habitantes, um número menor do que a média do Estado (2,92). Só para comparar, a região Noroeste Fluminense apresenta o índice de 7,45 leitos por mil habitantes, o melhor do estado. Do total de leitos nos hospitais do Rio de Janeiro (43.707), 20% estão em hospitais filantrópicos (8.740 leitos), caso do Hospital Geral José Fonseca, que apresenta 81 leitos ativos com apenas 36% (ou 29 leitos) utilizados.

57.416 60.047

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Fonte: Anuário Estatístico do Estado do Rio de Janeiro 2004, elaborado pela Fundação Cide

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um relatório que diagnosticava a situação da instituição. Os resultados, entregues em uma reunião no dia 14 de outubro de 2004, não foram os melhores. SEGUNDO O RELATÓRIO, mesmo com a recente reforma infra-estrutural realizada, apesar de apresentar melhorias, “nota-se que alguns andares (2º, 3º, 4º) apresentam problemas de infiltrações, entupimentos, pisos danificados, instalações elétricas e hidráulicas”. O relatório afirma que as instalações elétricas estão “totalmente fora dos padrões exigidos”. Também acusa que os órgãos SESMET (Serviço de Segurança, Engenharia e Medicina do Trabalho) e CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) não funcionam ou não existem na instituição. E não são os únicos problemas. Na parte que descreve sobre os preços praticados na compra de medicamentos, materiais hospitalares e outros itens, a grande maioria apresenta valor superior ao praticado no mercado. O produto vendido com a maior diferença de preço foi o cloro alvejante, que o hospital pagou R$260,00, e o preço de mercado na época da compra era de R$84,26, pagando R$175,74 a mais pela compra do produto. A contabilidade, serviço terceirizado, apresenta divergências nos lançamentos financeiros e contábeis do plano de saúde, dificultando a identificação dos depósitos registrados e os valores de descontos dos funcionários conveniados aos planos. No final do relatório, de acordo com os critérios para fixação do padrão hospitalar, o hospital se enquadra em apenas 37,23% das normas exigidas. A GESTÃO QUE tinha como provedor Walter Menezes conseguiu, durante os primeiros meses de 2005, negociar a dívida de Fundo de Garantia (FGTS) de R$850 mil em 15 anos, e iniciou os pagamentos do INSS de 2005, em janeiro, faltando o pagamento dos períodos anteriores. No último dia 13 de abril, foi realizada uma Assembléia na Irmandade da Santa Casa de Misericórdia para eleger uma nova gestão. Na ocasião saiu Walter Menezes, provedor por cinco anos e meio, sendo um ano e meio como vice-provedor, e assumiu Fernando Miguel como provedor e Ricardo Graciosa na vice-provedoria.


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Chacina no Rio A maior chacina da história do estado do Rio aconteceu na quinta-feira 31 de março, nas cidades de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense. A matança foi feita ao longo de, aproximadamente, uma hora, segundo testemunhas e sobreviventes do massacre. Os criminosos estavam de carro, formando um circuito de sangue em 11 lugares diferentes: dois homens foram mortos na Via Dutra; uns morreram enquanto cruzavam ruas; outros nove sucumbiram em um bar; alguns em um lava-jato. Homens e mulheres, crianças e adolescentes foram fuzilados. Exceto dois dos mortos, nenhum outro possuía ficha policial. No total, 29 pessoas morreram. Policiais Militares foram acusados pela chacina, e os mesmos são suspeitos de mais 15 assassinatos na região. Senadores gastam 220 milhões Em levantamento realizado pelo jornal O Globo, foi mostrado que o gasto mensal de um gabinete de senador pode chagar a R$ 250 mil. Esse valor inclui, além dos vencimentos dos senadores, os salários de funcionários do quadro efetivo e os nomeados para cargos de confiança, a verba indenizatória, o auxílio-moradia e uma série de outros benefícios – cotas postal, telefônica e para publicações, gasto com carro oficial, combustível, passagens aéreas, assinatura de jornais e revistas e atendimento médico e odontológico aos senadores e parentes. Os 81 gabinetes custam aos cofres públicos cerca de R$ 17 milhões por mês e pelo menos R$ 220 milhões por ano, levando em conta o 13º salário.

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Crise nos hospitais do Rio No dia 11 de março o governo federal decretou intervenção em seis hospitais da cidade do Rio de Janeiro, decretando estado de calamidade pública no setor hospitalar do SUS (Sistema Único de Saúde). Um mês se passou e a situação não é das melhores. O diretor do Departamento de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, Arthur Chioro, disse que houve um avanço nesse período, “no sentido de reabrir as unidades, reabastecê-las, comprar equipamentos, contratar pessoal, mas ainda estamos longe de dizer que a situação está normalizada, sob controle, e que é possível vislumbrar um fim para a requisição das seis unidades hospitalares que hoje estão sob responsabilidade do Ministério da Saúde”. A crise da saúde no Rio se agravou no final de fevereiro, quando a prefeitura suspendeu o atendimento de emergência nos hospitais Cardoso Fontes e Andaraí, sob alegação de que os recursos repassados pelo Ministério da Saúde eram insuficientes para a manutenção das unidades. A intervenção atinge os hospitais da Lagoa, Andaraí, Jacarepaguá, Ipanema, Souza Aguiar e Miguel Couto. Dois hospitais de campanha – da Marinha e da Aeronáutica – foram montados na cidade para desafogar o atendimento nos hospitais. Presidente do BC sob suspeita Na terça 5 de abril, o procurador-geral da República Cláudio Fontelles pediu ao supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de inquérito para investigar a suposta

Valenciano lança livro sobre o PT P AULO ROBERTO FIGUEIRA Leal lançou, na quartafeira 13, um livro originado de sua tese de doutorado pelo IUPERJ, “O PT e o dilema da representação política”, pela editora Fundação Getúlio Vargas, na livraria DaConde, no Rio de Janeiro. Durante a cerimônia, o autor discorreu sobre o livro e abriu um diálogo com os presentes. Foram debatidos questões ligadas ao Partido dos Trabalhadores e a quem representam os deputados federais. Segundo o autor, a pesquisa relacionou a votação

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prática de crime contra o sistema financeiro, eventual lavagem de dinheiro e delito eleitoral, todos cometidos por Henrique Meirelles antes de ascender à presidência do Banco Central. No despacho ao STF, Fontelles pede a quebra do sigilo fiscal de Henrique Meirelles a partir de 1996 e a cópia de processos existentes no BC e na Receita Federal contra ele e suas empresas. Nos documentos e relatórios em poder de Fontelles há uma coleção de papéis que sugerem a participação de Meirelles na confecção de uma emaranhada rede de empresas e sócios, no Brasil e no exterior, para ocultar parte da fortuna declarada por ele ao Fisco de, aproximadamente, R$ 100 milhões. Argentina vence Shell e Esso O presidente da Argentina Nestór Kirchner fez um pedido de boicote, em 11 de março, à população de seu país contra o aumento dos combustíveis pelas transnacionais. Os donos dos postos apavoraram-se com uma queda de 60% na receita, mas a Shell fez pouco caso. Ela informou à imprensa que as vendas haviam caído apenas 20% e que simplesmente aguardaria que os clientes se acostumassem e voltassem a abastecer com sua gasolina. A Esso logo a seguiu. Mas na quarta 6 de abril, a anglo-holandesa jogou a toalha diante da firmeza dos consumidores argentinos. Apesar do preço do petróleo continuar a subir no mercado internacional, a Shell deu meia volta e baixou os preços em 3,3%. Na época, sua irmã estadunidense Esso já havia recuado. Vitória dos argentinos.

dos deputados com as suas regiões de origem. E constatou que quando são eleitos por determinada localidaPaulo Roberto de, voltam suas ações para na sua noite de o local, enquanto aqueles autógrafos que se elegem com votos dispersos buscam ações mais ideológicas e pessoais. Além disso, foi conversado sobre o atual governo e as expectativas para o futuro.

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entrevistaentrevistaentrevista FILHO DE MIGRANTES nordestinos, Jaílson de Souza e Silva sempre morou na periferia carioca. Hoje é professor na Universidade Federal Fluminense (UFF) e diretor executivo da OSCIP (Organizacão da Sociedade Civil de Interesse Público) Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. Mas a sua história inicia-se um pouco antes. Aos 13 anos envolveu-se com a Igreja, uma das poucas opções de grupos durante a ditadura militar no Brasil. Em 1980 foi o primeiro da família a ingressar na universidade. O curso de geografia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) o fez descobrir um pensamento político “que consolida todo meu sentimento de indignação com o capitalismo”. E também pedir demissão do emprego de entregador, já que o curso era em horário integral, causando conflito em casa. “Fez 18 anos, tem que trabalhar, era o que pensavam meus pais”, lembra. Na faculdade participou da Organização Revolucionária do movimento estudantil e filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) na sua fundação. HISTÓRIA DE VIDA: “Por que uns e não outros”, esse é o nome da minha tese de doutorado. Nela procuro tentar entender a minha trajetória, porque consegui entrar na universidade e permanecer, enquanto tantos não conseguem. Defendo que é o sujeito que faz a sua própria história. As pessoas, a partir de vínculos sociais, vão incorporando um conjunto de práticas que interferem o nosso jeito (de falar, vestir, etc.), e ao mesmo tempo eliminamos a interioridade. A objetividade das estruturas e a subjetividade do ser vão se entrelaçando e constituindo um ente social. O que ocorre é que esse ser social se conforma com esse entrelaçamento das estruturas. Mas quem confere sentido à vida somos nós. Não consigo entender como é possível viver num mundo tão desigual, marcado pela naturalização da pobreza, da exploração e da miséria e ficar conformado com isso. Creditei a mim a possibilidade de criar redes de articulação que rompam com dois princípios que norteiam a vida hoje em dia, em particular da juventude. É o que chamo de presentificação e particularização da existência. Segundo Espinosa, prazer é o que dá retorno imediato. E alegria o que traz retorno a longo prazo. Costumo dar o exemplo do vestibular. Para você passar, você precisa abrir mão de prazeres imediatos: sair, ir a uma festa, namorar. Isso em busca de um objetivo menos imediato. O nosso desafio na vida é conciliar o prazer e a alegria. CIDADANIA E SOLIDARIEDADE: Se o cara está numa vida presentificada, ele não consegue construir um projeto para o futuro, seja pessoal ou coletivo. A particularização da existência é uma característica muito presente, desde um condomínio na Barra da Tijuca, até a Favela. Onde o cara vive a partir de regras particulares, impedindo cada vez mais a capacidade de ver o outro. Valença por exemplo: a pessoa não se sente cidadão da cidade, mas efetivamente do bairro, do lugar. Então, o cara bota uma quadra ali, dá um jogo de camisa, dá um tijolo para casa dele. Ele se sente de Valença por um lado, mas não se sente da polis de Valença por outro (ou seja, ator político), e acaba reduzindo a vida dele às coisas mais particulares. E termina não só vendendo o voto dele, mas não se considera cidadão brasileiro, não se sente responsável pelos problemas. O massacre que está acontecendo no Iraque, a chacina na Baixada Fluminense, ele não se sente solidário a isso, no sentido de tentar se envolver e pensar em outra globalização, em outra realidade possível. INSERÇÃO NO MUNDO: A particularização e presentificação da existência cria mais possibilidades de conflito com o outro. Quando se tem a naturalização da desigualdade, da intolerância, da violência em relação ao outro, é preciso ampliar o tempo e espaços sociais para que as pessoas tenham uma dimensão do coletivo. É preciso afirmar a sua identidade, ele precisa se reconhecer como o seu lugar e ao mesmo tempo ter noção da sua inserção no mundo. Caso contrário, ele fica desenraizado, e a consciência de sua

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origem popular é referência para conseguir se projetar no mundo. O cara que tem acesso à universidade, à arte, a línguas estrangeiras ou informática, acaba tendo uma visão mais aberta, tem suas possibilidades ampliadas. Esse processo de ampliação do tempo e espaços é que vai definir como vamos interfeJaílson: jovem é o cara mais rir na solução de políticas públicas. aberto às diferenças JUVENTUDE: Minha crença não se sustenta na razão. Se sustenta na necessidade profunda que a gente tem de dar sentido a nossas vidas. Hoje a juventude é profundamente desrespeitada, a sociedade vê o jovem a partir da sua incompletude, e por isso tem que definir limites. O juízo em relação à juventude é que ela não tem rumo. E vivemos numa sociedade onde o consumo é o eixo fundamental da vida. Um garoto que tem um carro, um apartamento, mesmo que ele seja um cara egoísta, racista, mesmo que seja incapaz de lidar com a diferença, seja desrespeitoso, ele vai ser tratado como alguém que venceu na vida. E outro, que pode não ter a mesma trajetória mas é um cara generoso, fraterno, justo, tenta viver do que acredita, e por isso ganha menos grana, esse vai ser considerado derrotado. A juventude é obrigada a viver numa situação cada vez mais marcada pela exclusão do mercado, é obrigada a gostar do projeto que é através do consumo que vai se definir as hierarquias sociais e ele tem que achar o lugar dele. DROGAS: Quando a juventude busca alternativas nas drogas, é porque ela não vê nenhum significado na vida. A sociedade não cria condições para que a juventude, crianças e adolescentes, dêem qualquer significado à vida, porque o mundo é marcado pela lógica do consumo. O que o capitalismo mais produz é carência. O cara tem um Audi A3, ele quer um A4. O consumo como centro da vida obriga os jovens a buscar outros caminhos. Numa sociedade drogada, tem-se que pensar quais são as drogas existentes. Porque teimam em pensar apenas nas drogas ilícitas ou nas lícitas. Mas as práticas que levam à ausência de significado da vida não são discutidas. Pais consumistas, egoístas, racistas, acham que o filho é o problema. Não é que o filho não tenha problema, mas eles não se sentem minimamente responsáveis por esse processo. Numa sociedade marcada pela repressão, marcada por duas famílias que dominam a cidade, marcada por uma lógica onde não há espaço para decisão, onde a juventude não tem poder algum, não se pode falar que os jovens não sabem o que querem da vida. PAPEL DO JOVEM: Aqui no Rio de Janeiro, na década de 90 fecharam o Circo voador e proibiu-se bailes funk. Sempre a solução é reprimir os jovens para que tenham limites. E não se percebe que você deve dar poder ao jovem para que ele possa definir os canais. Porque o jovem, com todo esse limite da presentificação ainda é o cara mais aberto para viver a vocação da cidade, que é o encontro das diferenças. O jovem vai ter um papel fundamental no sentido de construção da cidade como espaço de encontro. Mas para isso ele tem que ser ouvido. Tem que garantir espaços para ele. O jovem é sempre objeto do projeto social, e nunca o sujeito do projeto. Em vez dele estar à frente ao projeto, a sociedade inventa um projeto social para os jovens, em especial para o pobre. Vamos fazer uma quadra ali, um projeto de música, dança, para ocupar o tempo dos jovens e eles não fazerem bobagem. E não pensam em como eles podem utilizar suas habilidades para ajudar a melhorar a sua comunidade, com autonomia. Intervenções no meio ambiente, trabalho com idosos, trabalho com crianças, um trabalho educacional, um trabalho cultural, tudo isso os jovens podem fazer. O nosso desafio é reconhecer no jovem o ator fundamental e não como objeto da política pública.

abril de 2005

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valencaemquestao@yahoo.com.br

Jaílson de Souza


valencaemquestao@yahoo.com.br

TV aberta AO PONTO - INFORMAÇÃO DO JEITO QUE VOCÊ GOSTA - domingo, Canal Futura, 23h. Apresentado pelo psiquiatra Jairo Bouer, o programa informa e tira dúvidas sobre sexo, saúde, comportamento, drogas e cidadania, além de notícias, serviços, entrevistas e dicas sobre esses assuntos.

Publicação CAROS AMIGOS - revista mensal. R$ 7,00. Apresenta uma abordagem mais preocupada com as questões sociais com opinião de vários articulistas. Quem tem interesse em saber além do que é noticiado nos jornais, é uma ótima leitura.

Site www.periodicos.capes.gov.br Nesse portal encontram-se diversos trabalhos científicos do Brasil e de outros países, todos gratuitos. Ideal para qualquer tipo de pesquisa escolar ou universitária, com material para todas as áreas. Mesmo sendo um site que disponibiliza esse conteúdo, há o risco de ser desativado. Isto porque a procura sendo baixa, a manutenção acaba saindo custosa para o governo.

Filme TEMPO DE RECOMEÇAR (EUA) 2001 Arquiteto descobre que está com câncer e tem pouco tempo de vida. Ele decide aproveitar o tempo que lhe resta para se aproximar de seu filho problemático e rebelde e fazer as pazes com sua ex-mulher. Ao mesmo tempo, decide construir uma casa, na intenção de deixá-la como herança para seu filho. Uma história de solidariedade e perseverança que emociona.

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Cidadania de papel cidadãos têm mais ou A OBRA PROCURA retratar menos responsabilidaa situação das crianças de na produção de vie jovens do Brasil. Atraolência, de desemprevés dos indicadores do go, do êxodo rural que País, exibe o retrato de incha as cidades, do uma nação injusta, deanalfabetismo, da morsigual, com inaceitáveis talidade infantil. Sua taxas de educação, preocupação, no enmortalidade infantil, tanto, não se resume desnutrição e desema denunciar casos graprego, dificultando que O Cidadão de Papel, ves de desrespeito aos os jovens entrem no de Gilberto Dimenstein. Direitos Humanos. Vai mercado de trabalho. Ática bem além, mostrando Gilberto Dimenstein demonstra que a verdadeira demo- que, caso não sejam enfrentadas cracia, aquela que implica o total res- suas causas mais profundas, nossa peito aos direitos humanos, está ain- cidadania não passará de uma cidada longe no Brasil. Ela existe apenas dania de papel. Este livro pode ganhar uma força no papel. O cidadão brasileiro na realidade usufrui de uma cidadania apa- extraordinária nas mãos dos jovens que o utilizarem para estudo e reflerente. O autor procura desvendar quais xão. Com ele, poderão contribuir para as artimanhas que produzem esse mudar radicalmente o conceito de tipo de cidadania. Para ele, todos os cidadania que vigora em nosso País.

LG

Notas LG

Música, Degustação e Cultura Entre os dias 21 e 24 de abril será realizado o Café, Cachaça e Chorinho nas cidades do Vale do Café, com o objetivo de incentivar o turismo da região. Valença é o município com o maior número de eventos e atrações. Com degustação de cachaça, visitação às fazendas históricas do período cafeeiro e apresentação de grupos musicais, nossa cidade vai oferecer um verdadeiro passeio pela história do Brasil. Há também a exuberância da Mata Atlântica, com inúmeras opções de lazer e passeios ecológicos. São Jorge Homenagem a São Jorge, em Barão de Juparanã, de 21 a 24 de abril. Como é de costume, acontece neste ano a 50ª Festa de São Jorge, com a famosa procissão à cavalos no dia 24, além de barracas típicas, shows e missas. Destaque para o show de Sérgio Reis no dia 22.

Desafio Sebrae Jogo virtual que simula situações reais de mercado para testar a capacidade da equipe de universitários em gerenciar um negócio. Empresas concorrentes disputam a preferência do consumidor tentando garantir a própria sobrevivência. As inscrições são realizadas no site até o dia 20 de junho. Mais informações: www.desafio.sebrae.com.br ou pelo email cfoliveira@sebraerj.com.br Saúde Bucal No Brasil, mais de 25 milhões de pessoas não possuem nenhum dente na boca. O governo federal está investindo nesse setor cerca de 1,3 bilhão de reais até o final de 2006. Estimulados pela importância que a saúde bucal vem recebendo, a Odontoclínica de Valença está atendendo cada vez mais. O funcionamento é de 2ª a 6ª das 8 às 18h com serviços gratuitos.

ENEM - As inscrições para o Exame Nacional de Ensino Médio foram prorrogadas até o dia 6 de maio. Quem ainda não se inscreveu tem uma nova chance.

abril de 2005

Valença em Questão

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primeira edicao do Valenca em Questao, distribuída no dia 22 de abril de 2009

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