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VALENÇA EM QUESTÃO // debate / crítica / opinião

ano VII // edição 39 // abril de 2012 // blogdovq.blogspot.com

O Retorno A volta de Tiradentes // E a política, vai bem? // Parece ficção, mas é reportagem // Minicômio // Como melhorar a educação pública? // Dilemas da cultura popular em Valença


EDITORIAL

// Deu no Blog do VQ

Valença em Questão completa sete anos e volta às ruas

Cruz Vermelha e os documentos ‘desaparecidos’

Proposta do jornal é ampliar o debate e a crítica, reunindo análises sobre a situação da cidade

Esta é uma edição comemorativa, embora tenhamos pouco a festejar em nosso município. O motivo da “comemoração” é que estamos de volta às ruas de Valença depois de 30 meses ausentes. A data de retorno também não é por acaso. Hoje, dia 21 de abril, completam-se exatos sete anos da circulação da primeira edição do VQ. À época, um grupo de menos de 10 amigos iniciava a distribuição do que se tornou um movimento, muito mais do que uma publicação. Ao todo foram distribuídas gratuitamente em Valença 38 edições impressas. Mas este não foi um período de total ausência do VQ. Ainda em 2007 lançamos o Blog do VQ que tem hoje mais de 300 acessos diários. O blog se mostrou pra gente uma ferramenta importante de comunicação, mas desde sempre avaliamos que era preciso voltar com a publicação impressa para chegarmos a boa parte da população sem acesso à internet. Esse é um dos motivos de iniciarmos novamente essa caminhada. Estamos de volta porque consideramos que o desenvolvimento do município não passa por poucas pessoas que pensam a cidade, mas sim através de uma luta coletiva que aglutine setores representativos de nossa sociedade. Por isso achamos importante a volta do VQ, para que seja um veículo que agregue novos integrantes a este movimento de construir a Valença que queremos. O que esperamos é que novos atores possam se integrar ao nosso coletivo. Não por acaso vamos realizar um encontro público nos dias de lançamento do jornal, sempre no terceiro sábado do mês corrente, para discutir a publicação, receber críticas 2

abril de 2012

e sugestões para pensarmos, cada vez mais coletivamente, as futuras edições do jornal. Neste sábado, 21 de abril, teremos o primeiro encontro aberto para discutir o jornal, pensar as novas edições e falar sobre Valença, além da presença de jovens poetas valencianos. O objetivo desses encontros é que essa interação propicie novas ideias e parcerias. Agendem-se, sempre no terceiro sábado do mês, às 17h no Espaço Open Bar, no Benfica. E estaremos sempre lembrando em nosso blog e facebook esta data. Nesta nova edição temos contribuições do professor Sanger Nogueira, que faz uma análise da situação educacional brasileira, levantando uma série de propostas para a melhoria da educação nos âmbitos federal, estadual e municipal. Outra participação é da jornalista Marianna Araujo, com a resenha do livro ‘Os últimos soldados da Guerra Fria’, de Fernando Morais, que conta a história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos Estados Unidos. Já o advogado Chico Lima fala da turbulenta situação política no nosso município nos últimos tempos, lançando perspectivas para o futuro próximo. Para completar, o professor Alexandre Fonseca faz um apanhado histórico e problematiza a questão da cultura em nossa cidade, o poeta valenciano Carlos Brunno nos brinda com sua poesia sobre Tiradentes e publicamos uma tirinha dos Malvados, do desenhista André Dahmer. Vamos lutar para que esse nosso retorno seja duradouro. Sabemos que é um processo de construção contínua e, para isso, a interação com vocês leitores é fundamental.

Vicente Guedes informa à justiça que os documentos do convênio da prefeitura de Valença com a Cruz Vermelha de Barra do Piraí simplesmente sumiram. Em Barra do Piraí, onde os documentos também sumiram, secretário de Saúde vai pagar multa de R$ 5 mil. Os recursos do SUS direcionados ao convênio com a Prefeitura de Valença, que além da Cruz Vermelha - Filial Barra do Piraí incluiu a cooperativa Multiprof na contratação dos funcionários terceirizados, foram de R$ 1,66 milhão. Uma multa de R$ 5 mil não deve ser problema nenhum.

Ex-Delegado de Valença é preso por extorquir comerciantes O ex-delegado titular de Conceição de Macabu Roldenyr Cravo (que já esteve à frente das delegacias de Volta Redonda e Valença) três inspetores da Polícia Civil, um guarda municipal e um advogado da cidade foram presos por agentes do Grupo de Apoio Especializado do Combate do Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público. Eles são acusados de extorquir comerciantes da cidade do interior do estado. Roldenyr foi titular da unidade de julho de 2011 a janeiro de 2012. Quando assumiu, ele trouxe com ele sua equipe de confiança, os policiais Dennes Garcia Moreno Júnior, Marcos Vinícius Lopes e Claudio José de Faria, todos denunciados.

Novos semáforos em Valença A prefeitura informa, via assessoria e comunicação, que foi iniciada a instalação de mais cinco semáforos na cidade, localizados nos seguintes pontos: • • • • •

Rua Benjamin Guimarães x Av. Nilo Peçanha Rua Silva Jardim x Av. Nilo Peçanha Praça XV de Novembro x Rua Vito Pentagna Trevo da Rua do Barroso x Av. do Contorno Av. Geraldo de Lima Bastas x Silvina Borges Graciosa

Secretaria de educação persegue professor que pede melhores condições de trabalho Assista ao vídeo no blog.

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VALENÇA EM QUESTÃO ano VII // edição 39 // abril de 2012 www.blogdovq.blogspot.com Endereço: R. Francisco Di Biase 26 Torres Homem Valença-RJ CEP 27600-000 valencaemquestao@yahoo.com.br Tel.: 21-8187-7533 Jornalista Responsável: Vitor Castro (30.325 Mtb) Colaboraram nesta edição: AF Rodrigues, Alexandre Fonseca, André Dahmer, Bebeto, Carlos Brunno, Chico Lima, Luciana Miranda, Marianna Araujo, Patrícia Oliveira, Rafael Monteiro e Sanger Nogueira Projeto Gráfico e Diagramação: Mórula Oficina de Ideias www.morulaideias.com.br Tiragem: 1500 exemplares Impressão: Gráfica PC Duboc Ltda. O Valença em Questão circula no município de Valença, arredores e Rio de Janeiro, além de enviado via correio eletrônico e disponibilizado na internet.

Colabore com o VQ: Banco Itaú – Agência 0380 Conta Poupança 60713-5/500

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// Política

E a política, vai bem? De novo estamos em ano eleitoral. Tudo indica que a política “balaio de gato” retornará com força no cenário político local Por

Chico Lima

Passados sete anos do lançamento da primeira edição do Valença em Questão, cabe-nos perguntar quais foram as principais transformações políticas e econômicas ocorridas em nossa cidade. Quando o VQ nasceu, Valença era administrada pelo governo Fernando Graça, já no seu quarto mandato como Prefeito. Seus governos ficaram conhecidos principalmente por sua política assistencialista (Porta da Esperança) praticada com a farra do dinheiro público, sem qualquer controle social. Com o falecimento de Fernando Graça, assume a prefeitura seu vice, Fábio Vieira, governando por dois anos, tempo suficiente para cair no esquecimento dos valencianos. Impedido de concorrer à reeleição por ter sido flagrado comprando votos, foi condenando pela justiça eleitoral. Tendo começado um governo com grande expectativa popular, já que todos o viam como “uma alma boa”, foi uma decepção do ponto de vista político e administrativo. Terminado o governo Fábio, Vicente Guedes foi eleito com mais de vinte mil votos. Vindo de Rio das Flores, depois de dois mandatos, aventurou-se em Valença para garantir seu terceiro mandato consecutivo, através da articulação de empresários locais e do Movimento Por Amor à Valença, ligado à Igreja Católica. O desgaste dos políticos tradicionais e a falsa propaganda de Vicente Guedes feita pela mídia local, criando uma imagem de grande administrador e amigo pessoal do governador Sérgio Cabral e de seu vice Luis Fernando Pezão, foram o ponto de partida para sua vitória. Governo Vicente Guedes O primeiro desgaste de Vicente começou com a divulgação de seu nome na imprensa como sendo um laranja do empresário valenciano Julio Vito no Pará, envolvendo terras griladas e a expulsão de ribeirinhos de suas terras. Ao assumir a prefeitura, a imagem que foi construída na campanha virou pó. Vicente foi uma figura que as pessoas não conseguiram ver

na cidade. Não foi e nunca quis ser um cidadão valenciano. Não foram poucas as pessoas que se mostraram profundamente arrependidas por terem nele acreditado e votado. Verdade é que a eleição de Vicente, com a permissão da justiça eleitoral – que consentiu o registro de sua candidatura, ainda que para um terceiro mandato consecutivo – significou um dos maiores retrocessos para o desenvolvimento político e econômico de Valença. Retrocesso agravado por sua cassação e retorno ao governo, intercalado pela presença de Fernandinho Graça e Paulinho da Farmácia na chefia do Poder Executiv Durante esse processo, Valença ficou visivelmente abandonada. O discurso de “união por Valença”, característico desse período, buscou simplesmente atender a interesses pessoais e eleitoreiros dos nossos “espertos” políticos tradicionais, sedentos de poder e dele dependentes. As obras prometidas no inicio de seu mandato não saíram. Certamente algumas poucas vão surgir no calor do processo eleitoral, a um custo de deixar indignada uma boa parcela de nossa sociedade, principalmente aquela que não se beneficiou da construção de toda essa política. Interesses Como resultado de anos de má gestão, nossa cidade continua sendo administrada para atender aos interesses dos grandes empresários, em detrimento de uma política que seja voltada para atender a pequenos e médios produtores e empresários e trabalhadores do campo e da cidade. As denúncias que deixaram a nu as hipócritas relações público-privadas, que trouxeram à tona as espúrias relações da empresa Locanty nos supostos processos de licitação da UFRJ, não foram suficientes para que a Câmara de Vereadores e outros órgãos de fiscalização fizessem uma revisão no contrato dessa empresa com o Município. Como a Locanty chegou em Valença? Como ganhou a licitação? Os mesmos questionamentos devem ser direcionados para a CEDAE, cujo contrato de concessão não passou pela aprovação dos

vereadores, que, com raras exceções, foram omissos e cúmplices da armação de Sérgio Cabral, Pezão e Vicente Guedes. Essa armação contou com a valorosa cumplicidade dos “homens de ouro de Vicente Guedes” na Câmara, inclusive com a participação do PT. Os interesses dos partidos da base do governo Vicente e seus vereadores se sobrepuseram aos interesses do povo. A imoralidade do contrato com a CEDAE não se resume a um valor elevado na cobrança da água. Não podemos aceitar que o contrato não seja aprovado na Câmara. Isso envolve transparência, moralidade e discussão com a sociedade. Os defensores da CEDAE optaram por um desfecho judicial para o caso (judicialização da política). O que é tarefa dos vereadores é repassado para o judiciário, muitas vezes para poupá-los dos desgastes por aprovarem medidas antipopulares. Eleitos pelo povo, o que não ocorre com os juízes, infelizmente, os vereadores optam por não correr o risco de perder uma eleição. O juiz ao contrário, não corre riscos, pode dar a decisão que bem entender. Não sofrerá punição por isso, a não ser que sua decisão esteja vinculada a algum esquema, o que não mais nos assusta. Previsões Certo é que não devemos aceitar a terceirização ou privatização dos serviços públicos. Certo é que esses contratos geralmente vêm precedidos de grandes esquemas de interesses de políticos com suas questionáveis relações com empresas privadas, da qual a Locanty é um grande exemplo. De novo estamos em ano eleitoral. Tudo indica que a política “balaio de gato” retornará com força no cenário político local. Dentro de um cenário ainda nebuloso, Álvaro Cabral espera apoio do PMDB e do PT, sendo certo que já conta com apoio do PDT. PMDB e PT também nutrem simpatia por Fernandinho Graça. No fundo, as alianças dependerão muito das relações de composição para o futuro governo do Estado, tendo Lindbergh Farias um papel importante nas futuras alianças. Rômulo Milagres parece estar isolado no PSDB. Felipe Camêlo até agora é uma incógnita. Ninguém sabe que rumo irá tomar. No campo da esquerda, agora com a ausência do companheiro Afonso Maria Diniz, que via com simpatia uma aliança dessas forças em Valença, espera-se ser possível aglutinar PSOL, PCB e PSTU, numa aliança que seja capaz de defender bandeiras históricas dos trabalhadores. É hora de construir uma nova política, com novos valores e princípios.

Chico Lima é advogado abril de 2012

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// Cultura

Dilemas da cultura popular em Valença Nosso maior muro é o monopólio que meia dúzia de instituições tenta estabelecer sobre a cultura em Valença Por

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abril de 2012

Alexandre Fonseca

Recolhido que estou

em meu atual transe medidativo desbundado-niilista, no alto de um “Everest mental”, prometi a mim mesmo que tão cedo não me ocuparia com a produção de textos de intervenções políticas, posto que estas, quando em assuntos alheios à seara particular de cada um, segundo conceituou o mestre jedi Sanger Nogueira, são tarefas para intelectuais. E sou apenas um bebedor de whisky. Mas eis que a garotada do VQ – agora já não tão garotos assim –, voltando à escrita impressa, reclamou-me um artigo sobre cultura popular valenciana. Esforço-me para vencer a preguiça, um dos meus seis pecados capitais (só a gula me escapa), e, entre baforadas de cachimbo, tento buscar inspiração para a empreitada sob os auspícios dos velhos Shiva e Omulu. Os motes que tomo como ponto de partida são dois: a polêmica gerada pela distribuição da verba oficial para as escolas de samba de Valença, no carnaval deste ano, e um recente pronunciamento do porta-voz da comunidade quilombola de São José da Serra, Toninho Canecão, na Câmara Municipal, cobrando do poder público maior apoio à cultura popular em nossa cidade. Ambos os episódios levantam, dentre outras, três questões cruciais para compreender os caminhos que perpassam o tema deste artigo: 1) onde está a cultura popular em Valença?; 2) qual o grau de organização dos atores culturais junto à sociedade civil para intervirem no Estado/sociedade política (leia-se prefeitura e Câmara); 3) a quais interesses serve a cultura aqui produzida para justificar a demanda por verba pública, em um município sabidamente carente de investimentos em serviços sociais básicos (educação, saúde, habitação, etc.)? A primeira questão é, para um estudioso da cultura popular, a mais complexa. Para começo de conversa, teríamos que definir o que estamos chamando de “cultura popular” em Valença. Isto exigiria percorrer todo o emaranhado teórico que antropólogos, sociólogos, comunicólogos e outros “ólogos” têm produzido sobre o assunto. Há os tradicionalistas que insistem em estabelecer


af rodrigues

barreiras intransponíveis entre cultura erudita, popular e de massa. Há os dialogistas que lançam mão de ideias como circularidade e hibridismo cultural. Há os relativistas que afirmam que não há fronteiras entre popular, erudito e massificado. Só há apropriações feitas aleatoriamente por cada ator cultural. Podemos optar por uma ou outra abordagem, mas estejamos certos que nenhuma delas fornecerá uma resposta cabal sobre o que é “cultura popular” nestes rincões coroados. Ícones da memória Vamos a alguns casos. O forró e o pagode, que lotam os clubes populares sextas e sábados, seriam manifestações da cultura popular em Valença? Sim, diriam alguns, arrancando engulhos daqueles que vêem aqueles gêneros exemplos de pastiche (imitação vulgar) de outros “tradicionais” como baião e partido alto. E o que dizer do funk, que movimenta centenas de jovens sobretudo dos bairros periféricos do município, ou do rock’n’roll, que anima dezenas de adolescentes a tornarem-se guitarristas precoces, para orgulho dos “teachers” Marcus Prado, Pinheiro, Rafael, Fred e outros. Isto dá direito a “funkeiros” e rockers “classificarem” sua música como patrimônio da cultura popular valenciana? E onde foi parar aquele velho (e mofado), mas ainda usado, argumento de que rock, funk e outros “enlatados” são subprodutos da indústria cultural norte-americana que visam uniformizar os padrões estético-musicais dos povos pós-coloniais submetidos ao imperialismo? “Nada disso!!!”, hão de bradar os escudeiros da tradição. “A verdadeira cultura popular valenciana reside na memória que se tem de ícones como Rosinha de Valença e Clementina de Jesus”. Sim, são ícones, como os são os Beatles para Liverpool, Mozart para Salzburgo ou Roberto Carlos para Cachoeiro do Itapemirim. O problema dos ícones é que eles perigam se tornar tão grandes que acabam por esconder todo o resto. Alguém aí se lembra de outra banda de rock de Liverpool?!. Da mesma forma, podemos conjecturar que, neste exato momento em que o leitor

“Em Valença há uma multiplicidade de culturas incapazes ou não desejosas de se articularem”

perde seu tempo comigo, há poetas, músicos, artistas plásticos inventando arte em diferentes cantos de Valença quase sempre anonimamente. Quem são? Onde estão? Têm pouca visibilidade social, organicidade e capital simbólico-político e, por isto, nenhum poder para fazer aquilo que Toninho Canecão fez na Tribuna da Câmara. E mais. Ícones não são apenas pessoas, artistas de carne e osso, como Rosinha ou Clementina, mas também representações da cultura material ou imaterial. É o que se pode dizer, à guisa de exemplo, das fazendas do período cafeeiro, da Catedral de Nossa Senhora da Glória, da seresta de Conservatória, do já citado jongo do Quilombo São José, do outrora “melhor carnaval do sul do estado” ou, mais recentemente, do encontro anual de Folias de Reis. Graças à capacidade de negociação política que seus intelectuais orgânicos demonstraram ter, tornaram-se atrações culturais icônicas, convenientes a uma determinada exploração comercial, turística e eleitoreira a que se presta a cultura popular nos dias de hoje. Monopólio da cultura Mas - cuidado! - nem tudo convém. Alguém, além do Libório Costa de Souza, tem conhecimento de que Valença é, proporcionalmente, o município com maior concentração de terreiros de umbanda em todo o sudeste do Brasil? Por que ninguém, afora meus companheiros Gilson Gabriel e Ana Cláudia Rocha, propõe-se a estudar a cultura operária gestada nos anos áureos da indústria têxtil valenciana? Por que será? Vale a pena passar os olhos em “A conveniência da cultura”, de George Yúdice, para perceber como a cultura popular nada tem de inocente, mas serve, muitas vezes, aos propósitos de agentes sociais, institucionalizados ou não, que inventam tradições e impõem “identidades legitimadoras”, “no intuito de expandir e racionalizar sua dominação” em relação a outros agentes sociais (Castells). Ou seja, quero dizer que, assim como na política e na economia, há na cultura uma evidente desigual-

dade na distribuição de espaço e poder. Alguns “podem” mais que a grande maioria. Arrisco a dizer - e isto é só um palpite - que, neste campo, nosso maior muro é o monopólio que meia dúzia de instituições a muito tenta estabelecer sobre a cultura em Valença. Fechadas em si mesmas, manipuladas por uma aristocracia de “notáveis” valencianos, parte com verniz progressista, parte abertamente conservadora, mas inteiramente partícipe de um mesmo habitus social, que segrega a “plebe” dos espaços de maior visibilidade para a cultura popular e impede, ou dificulta, que outros espaços apareçam. Até porque, em geral, os próprios órgãos públicos municipais responsáveis pela gestão cultural também estão nas mãos destes “notáveis”. Max Weber diria que, em Valença, ainda não passamos pelo processo de autonomização das esferas culturais, ou seja, estamos longe da secularização das visões de mundo, da afirmação positiva do conhecimento científico, do surgimento de uma moral racional e universalista, desvinculada de preceitos religiosos, e da autossuficiência econômica da arte. Este me parece um problema de longa duração remetido ao processo de modernização seletiva (Jessé Souza), altamente excludente, que permeou a história de Valença em pelo menos dois momentos: o primeiro, no século XIX, quando, dada à proximidade com a corte, aqui se constituiu uma poderosa classe de proprietários rurais escravistas de mentalidade oligárquica. O outro, na segunda metade do século XX, quando em meio ao crescimento industrial e urbano, forjou-se uma nova identidade para o município mediante a hibridização (Canclini) das velhas - e falidas - oligarquias com a nova classe de industriais e comerciantes, muitos de origem imigrante (italiana ou árabe), que deu origem à atual aristocracia de “notáveis”. Os dois momentos foram marcados por alta seletividade e produziram uma massa de subcidadãos, também no que tange ao exercício dos seus “direitos culturais”. Derrubar este muro é tarefa precípua, mas que sinto ainda distante, dado à desmobilização em que os atores culturais não vinculados àquelas tais instituições monopolizadoras se encontram. Não há um projeto cultural contra-hegemônico - ou uma contracultura, se assim preferirem em Valença. Há, isto sim, uma multiplicidade de culturas, ou, no âmbito da juventude, de “culturas eXtremas” (Canevacci) - com “xis” maiúsculo mesmo - incapazes ou não desejosas de se articularem. Desafio lançado, volto a subir o Everest...

Alexandre é professor de História abril de 2012

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// Resenha

Parece ficção mas é reportagem É assustador que o caso destes cinco homens e do terrorismo que ajudaram a combater provoque tão profundo silêncio por aqui Fernando Morais

Companhia das Letras, 396 páginas, 2011.

“Fica claro como as redes de atuação dos dissidentes cubanos vão além das organizações de extrema direita e entranham-se pelas instituições norteamericanas” 6

abril de 2012

Por

Marianna Araujo

Poderia ser um livro

de ficção ou mesmo um filme de ação e espionagem hollywoodiano, mas a instigante trama que envolve espiões cubanos infiltrados nos Estados Unidos é o tema do mais recente livro do jornalista e escritor Fernando Morais. Os últimos soldados da Guerra Fria - A história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita nos EUA é um livro reportagem que narra as ações da Rede Vespa no país da América do Norte. A Rede era formada por doze homens e duas mulheres infiltrados com o objetivo de espionar alguns dos 47 grupos anticastristas sediados na Flórida. Morais tornou-se conhecido por seus livros de reportagens e biografias. Essa não é a primeira vez que escreve sobre Cuba. A Ilha, livro de 1976, é uma reportagem sobre o país de Fidel que se converteu em símbolo da esquerda brasileira na década de 1970. Traduzido e comercializado em diversos países, o livro foi responsável por apresentar ao Brasil a Cuba pós-revolução e romper com o isolamento que vigorava após o golpe de 64 que instaurou uma ditadura militar brasileira. Não seria exagero dizer que 35 anos depois Morais cumpre uma tarefa parecida. No Brasil, pouco ou nada se sabe sobre a história da Rede Vespa e as ações terroristas que levaram a ela. As notícias da mídia grande - em capital e audiência - dão conta apenas de “espiões cubanos nos Estados Unidos”, omitindo o fato de que este era um último recurso do governo castrista para resistir aos constantes ataques provenientes de grupos de oposição

na Flórida. Nesse sentido, “Os últimos soldados da Guerra Fria” é um livro fundamental, pois oferece ao leitor um compêndio de informação sobre a ilha ao qual é raro se ter acesso no Brasil. No livro, descobrimos por exemplo o papel central que os dissidentes cubanos exercem na política americana, seja como financiadores ou como eleitores. Fica claro como suas redes de atuação vão além das organizações de extrema direita e entranham-se pelas instituições norte-americanas. Descobrimos ainda que essas organizações praticavam terrorismo abertamente e amplamente divulgado contra a ilha que localiza-se a pouco mais de 130 quilômetros da Flórida, sem que o governo americano nada fizesse - em 5 anos foram mais de 120 ataques. Importante ressaltar que essas ações terroristas tinham como objetivo fragilizar a já débil economia cubana que tentava reerguer-se às custas do turismo após o colapso da União Soviética. Os dissidentes cubanos não tinham qualquer pudor em ameaçar a vida de seus compatriotas em nome da derrocada do regime castrista. É mérito de Morais ainda informar ao leitor sobre as diversas iniciativas do governo dos Estados Unidos para prejudicar Cuba, seja economicamente (via embargo), militarmente (penso em Guantânamo) ou com uma política única para os imigrantes - enquanto viajantes de todo o mundo são caçados como criminosos, os cubanos que conseguem chegar à costa americana não têm qualquer dificuldade para viver no país e conseguem facilmente ajuda financeira e visto permanente. Todo esse emaranhado de fatores que envolve as disputas entre Estados

Unidos e Cuba é apresentado ao leitor a partir da história da Rede Vespa. Descoberta pelo governo americano após cinco anos de atuação, ela chegou ao fim em 1998, quando 10 espiões foram presos. Desses, 5 confessaram serem agentes cubanos, colaboraram com as investigações e depois de libertados, não se sabe mais deles. Os outros 5 continuam presos, apesar da extensa batalha judicial e do apelo de diversas personalidades e advogados que envolveram-se com o caso. Em Cuba, os espiões presos são tratados como verdadeiros heróis, o que de fato são, se tomarmos em conta os ataques que impediram e as vidas que salvaram. Estive na ilha há quase um ano. Nas ruas, não é difícil encontrar homenagens a eles nos muros ou em outdoors. No Museu da Revolução, há uma área inteira dedicada aos agentes. Nas duas semanas que passei em Havana muito pouco descobri sobre a história. Apenas me disseram que eram presos cubanos nos Estados Unidos. No Brasil, descobri menos ainda. É assustador que o caso destes cinco homens e do terrorismo que ajudaram a combater provoque tão profundo silêncio por aqui. O livro de Morais supriu uma lacuna que levava comigo já há alguns meses. Deu-me muitas respostas. Aprofundou diversas impressões que já tinha sobre as relações entre Cuba e Estados Unidos. Como dá para ver, é uma obra rica, mas não só isso, também detentora de uma prosa fluida e uma história instigante. O leitor não deveria deixá-la passar. Marianna Araujo é baiana e botafoguense


// Educação

Como melhorar a educação pública? Nossa omissão prejudica gerações de crianças vítimas da precarização do ensino público Por

Sanger Nogueira

Começo o texto pedindo ao leitor que tente se lembrar de ter ouvido alguma vez as seguintes frases saídas da boca de um político: “Garanto a vocês que faltarão professores se eu for eleito”. Seria ridículo um político declamando: “A verba federal para a merenda escolar não será aplicada integralmente” ou ainda: “Não investirei na infraestrutura das escolas”. Num rápido exame de consciência percebemos que não temos nenhuma lembrança de algum político que seja contra a educação. Não adianta começarmos nenhum debate sem antes examinar que educação e saúde são unanimidades no Brasil. Não é possível ser eleito defendendo reduções no orçamento ou se posicionando contra a melhoria da educação e saúde (em um país com uma formação histórica diferente, vide os Estados Unidos, não é problema algum um partido se organizar sendo contra o aumento dos gastos na educação e saúde). Caso fôssemos ingênuos, poderíamos imaginar que a nossa classe política introjetou que a educação e a saúde são as bases para a construção de uma vida saudável. Deixaremos a questão da saúde de lado e vamos diagnosticar a situação da educação. Primeiro no âmbito nacional: a questão da melhoria da qualidade do ensino está na ordem do dia nas discussões atuais. Para Mozart Neves, coordenador nacional do programa “Todos pela educação”, se pegarmos todo o currículo do ensino médio, o aluno que termina o terceiro ano sabe apenas 11% do que deveria aprender. A universidade, continua Neves, parcei-

ra fundamental para o desenvolvimento da qualidade, tirou a questão da educação de sua agenda. Ela é responsável pela formação do professor sem conhecer a realidade do cotidiano escolar. A situação do Estado do Rio de Janeiro consegue ser pior do que o cenário nacional. O Rio ocupa a penúltima posição no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), criado pelo governo federal para medir o avanço da educação básica em todo o Brasil. A nomeação do economista Wilson Risolia para secretário de educação marca bem a posição: os conteúdos pedagógicos perderam o espaço para os conhecimentos técnicos de gestão de empresas. No estado do Rio, a “educação como prática da liberdade” de Paulo Freire perdeu espaço para Frederick Taylor e seus “Princípios da Administração Científica”. O Rio de Janeiro não percebeu, ainda, que uma escola não é uma empresa. Não estamos preparados para as consequências desta mudança de perspectiva na educação. Na esfera municipal temos o drama da infraestrutura precária e o excesso de contratos na secretaria municipal de educação. Em Valença, a função do contrato – ser usado em casos de excepcionalidade – foi corrompida pela dinâmica política da cidade. Eles são utilizados para manter a base de sustentação do poder executivo e a sua relação com o poder legislativo, não respeitando a realização de concursos públicos, como exige a nossa Constituição. Frente ao cenário de desafios, qual deveria ser a posição da sociedade em relação à educação?

Plano nacional • O estabelecimento do repasse de 10% do produto interno bruto para a educação. • O aumento da carga horária escolar. • A criação do programa de laboratórios (humanidades, ciências exatas e ciências da natureza) nas escolas. • A implementação do programa de iniciação científica júnior. • O estabelecimento de um concurso nacional de entrada no magistério. • Reforma curricular das disciplinas • O fortalecimento do piso salarial dos professores. • Portal da transparência com os recursos enviados para os Estados e municípios. Plano estadual • Eleição para diretor das escolas. • O estabelecimento do número máximo de alunos por turma. • A criação de uma política de reforma das escolas e construção de novas. • O estabelecimento de funcionários com conhecimentos pedagógicos na administração da Secretaria de Educação. • Portal da transparência com os recursos enviados para os municípios. Plano municipal

“Há responsabilidades para todos: pais de alunos, professores, membros de igrejas, partidos políticos” A resposta que estamos dando, infelizmente, não é nada satisfatória. Estamos nos ausentando do controle social da educação. Incapazes de nos organizarmos para demonstrar a importância da educação, delegamos ao Estado a função de fiscalizar sua própria ação. Não é difícil perceber a tendência do Estado em mascarar a real situação da educação: ar condicionado alugado, computador sem uso, excesso de contratos, falta de cursos de atualização. A nossa omissão está prejudicando gerações de crianças vítimas da precarização do ensino público. Há responsabilidades para todos: pais de alunos, professores, membros de igrejas, partidos políticos. Poderíamos nos organizar em torno de um eixo básico de reivindicações:

• O fim da politicagem na secretaria municipal de educação. Diminuição dos cargos de confiança e o aumento dos cargos originados de concurso público. • O fim da política de contratos e a realização (e convocação) dos concursados. • O estabelecimento de conselhos reunindo a comunidade escolar. • Eleição para diretor das escolas. • O estabelecimento do número máximo de alunos por turma. • A criação de uma política de reforma das escolas e construção de novas. • O estabelecimento de funcionários com conhecimentos pedagógicos na administração da secretaria de educação. • Portal da transparência com os recursos enviados para as escolas.

Sanger é professor de História abril de 2012

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// Navegando

// Poesia

Que a internet tem muito a oferecer não há dúvida. Mas é um mar tão extenso e com tantos caminhos que dá até para se perder. Por isso, o VQ agora contará com uma sessão fixa onde indicaremos sites e blogs com bons serviços que possam ajudar ao distinto leitor a informar-se, aprender ou mesmo divertir-se. Lá vai a primeira indicação:

A volta de Tiradentes Por

Carlos Brunno

Está tudo diferente Desde que fui embora... Acho que voltei tarde demais... A vida mudou: Não sei mais quem eu sou Muito menos o que é CPF E esse tal de rock’n roll. A “demo-cracia” atrasa a minha independência, A “burro-cracia” arrasa as minhas inconfidências!

www.umquetenha.org Diz o topo da página: pode es-

acesse o blog do vq www.blogdovq.blogspot.com

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abril de 2012

André Dahmer // www.malvados.com.br

colher, desde que seja um que tenha. E lá tem muita coisa. É um blog que disponibiliza discos de música brasileira na íntegra para baixar - há também alguns estrangeiros, mas não muitos. São centenas de discos de algumas centenas de artistas. Cantores como João Bosco, Noel Rosa ou Dorival Caymmi são figuras fáceis e com diversas obras disponíveis. Mas além da MPB já clássica, é possível encontrar discos de Ademilde Fonseca,

Ederaldo Gentil, Inezita Barroso e outros tantos, além de jovens como Farofa Carioca ou Gabriel Cavalcante. Tudo gratuito, fácil de baixar e de encontrar. Se você visitou o Um que Tenha, escreva contando se gostou e o que baixou por lá. E se tiver um bom blog para recomendar, escreva também. Esta é uma sessão aberta a sugestões (valencaemquestao@yahoo.com.br).

Minha inspiração virou imposto provisório, Meu nome virou marketing, Meu cavalo bebe gasolina, Minha tropa assiste à tevê E larga a revolução pelo último capítulo da novela das seis! Hoje me enforcam com novas cordas E os assassinos são meus próprios ideais. É tão estranho... Acabei de ressuscitar E já me sinto morto.

Valença em Questão 39  

Edição número 39 do Valença em Questão, de abril de 2012.