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Foto: Vitor david

Foto: fernanda gonรงalves


2 Um amor incondicional, maior que os gritos nas arquibancadas, um amor que faz o bem. Entenda, por meio das entrevistas a seguir, como as torcidas organizadas se preocupam com a sociedade, conheça seus trabalhos sociais e veja que a razão de sua existencia vai muito além do futebol. Por Vitor Vilas Boas

As Torcidas Organizadas são formadas por indivíduos que em geral são apaixonados pelo seu clube. Geralmente é uma herança cultural passada de pai para filho, que o ensina a ser amante do futebol e passa o legado com toda a paixão pelo clube, para que sempre haja torcedores fiéis. Logo, se faz uma memória afetiva dos tempos de criança e assistia aos jogos, seja na sala de casa ou nos estádios, acompanhados do pai. No estado de São Paulo a primeira Torcida Organizada foi a Grêmio São-Paulino, na década de 1940, no bairro da Mooca, em São Paulo. Os torcedores do São Paulo Futebol Clube se reuniam para assistir aos jogos usando a camisa do time. Muitos a chamam de manto sagrado e, mesmo que não se vá ao estádio, assistindo pela TV ou em alguma sede de clube, é ritual que assistam com a vestimenta do clube. Com o passar do tempo, essa torcida passou a chamar-se Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP).

Torcida Gaviões da Fiél em jogo do Corinthians. Foto: Gabriel Amaral

Até então, esses torcedores eram vistos como grupos ou agremiações que se reuniam para assistir aos jogos, sem nenhuma influência ou decisão que envolvesse a diretoria do clube. Porém, no final da década de 1960 com a fundação da Torcida Organizada Gaviões da Fiel, o jogo começou a mudar e os torcedores, por meio dessa união, tiveram forças suficiente para cobrar dos dirigentes um melhor desempenho do Sport Clube Corinthians Paulista nas competições, pressionando a diretoria do clube por melhores resultados e conquista de títulos. Mas, no começo, não foi tudo maravilhoso! O Corinthians tem o costume de vencer jogos na raça, com seus fiéis torcedores sofrendo na arquibancada. Também foi assim na fundação de uma das maiores torcidas organizadas do Brasil. Em 1969, duas coisas estavam acontecendo: se o mundo comemorava a chegada do homem à lua, no Brasil, a censura e a ditadura


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prevaleciam em seu ápice. Nesse cenário caótico é que foi, a trancos e barrancos, a fundação dos Gaviões da Fiel, que desde o começo já foram “loucos”. Tais torcedores ficaram com essa fama de “loucos” devido à dificuldade em fundar uma torcida, se tratando de um momento de repressão e falta de liberdade de expressão. À época, o Deputado Estadual, Wadih Helu, então presidente do clube, tentou de todas as formas barrar a fundação da Gaviões da Fiel, mas prevaleceu a vontade popular da torcida corintiana.

Roberto Daga, um dos fundadores, narra o início da agremiação “a gente começou por volta de 1966 e 1967. Havia um ditador lá, que estava praticamente há dez Roberto Daga, um dos fundadores da Gaviões da Fiél. Divulgação: Roberto Daga anos dentro do clube, Wadih Helu. Ele era da ARENA, partido dos militares, e estava usando o clube para fins políticos, era o comitê eleitoral dele. Era deputado estadual, o time sem ganhar títulos e ele só aproveitava do clube. Nós precisávamos nos organizar e tirar esse cara de lá, precisávamos fazer a revolução corintiana. O problema era que também interessava para os militares que ele fosse o presidente do time do povo, porque era do partido deles. Porém, o Joca usou de sua articulação para que os militares entendessem que para eles não era interessante ter um cara prejudicando o povo. E os militares Membros da gaviões da fiél em seu início. Foto: arquivo de roberto daga entenderam que aquele movimento era para tirar o cara que só usava o clube e não fazia nada. A oposição se fortaleceu e começou a estar junto com a gente, até que houve eleições e conseguimos derrubar o presidente e eleger um outro grupo. E, após esse acontecimento, é que surgiu o nome Gaviões da Fiel”.

“Em vários lugares do país, nós damos comida para pobres na rua, principalmente em datas especiais, mas isso a imprensa não divulga” Roberto Daga, sócio-fundador da gaviões da fiél


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O nome escolhido não foi aleatório. A ave, gavião, é a ave de rapina soberana, sem predadores, voa mais alto que as outras, enxerga além e não erra a presa quando vai a caça. Fiel porque a torcida já era conhecida desde o início, principalmente na fase do jejum de vinte e três anos sem ganhar nenhum título e nunca abandonar o time em suas piores fases. E assim originou o nome de uma das maiores torcidas organizadas do país, Gaviões da Fiel. Com o grande crescimento da torcida, foi necessário achar um espaço maior que comportasse aqueles “bandos de louco”. Foi então que em 1977, no bairro Bom Retiro, em São Paulo, foi fundada a primeira sede dos Gaviões da Fiel.

membros da subsede do vale do paraíba posam na sede da gaviões da fiel, em são paulo. foto: diego lopes

Foi assim que começou a surgir essa agremiação, que vai muito além de apoiar o time ou cobrar e fiscalizar a diretoria. Os Gaviões da Fiel fazem trabalhos socais por todo o país, tanto em sua sede, em São Paulo, quanto nas demais subsedes, como em São José dos Campos. Isso surge como algo natural, como diz o Roberto Daga. “Como a gente era do povo, onde fundamos os Gaviões da Fiel já tinha a favela do Gato, no Bom Retiro, bairro Diego Dias (Segundo da direita para a esquerda) em ação realizada de São Paulo e vinha muita gente pobre pedir pela subsede do vale do paraíba da gaviões da fiél. Divulgação: as coisas. Sempre fomos do povo pobre também gaviões da fiél vale do paraíba e sempre fizemos ações. Em 1979 houve uma catástrofe que destruiu Santa Catarina, Fausto Silva e Osmar Santos encabeçaram uma campanha para arrecadar doações e o maior ponto para recebe-las era na sede dos Gaviões da Fiel. Em vários lugares do país, nós damos comida para pobres na rua, principalmente em datas especiais, mas isso a imprensa não divulga”. Assim também relata Diego Dias, responsável pelas ações sociais na subsede em São José dos Campos “historicamente, a

Gaviões da fiél em destaque durante jogo do corinthians. Foto: thiago alves


“O trabalho social, ninguém é obrigado a fazer, porém, a necessidade e a vontade de ajudar ao próximo é nítida, é na raiz da pessoa”

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torcida do Corinthians vem Mas o que prevalece ainda é a de uma origem mais humilde, força de vontade de ajudar os mais necessitada, de um povo mais necessitados no âmbito somais necessitado, historicacial dos Gaviões da Fiel, segunmente já é bem assim. o trabado Diego “a subsede das Gaviões lho social, ninguém é obrigado Vale e Litoral é aqui e não tem um a fazer, porém, a necessidade e direcionamento, tudo que aparece a vontade de ajudar ao próxie a gente vê uma necessidade, ajuDiego Dias, membro da gaviões da fiél mo é nítida, é na raiz da pesda, não importa cor, raça, gênero soa. Muitas pessoas até se ase time. Ajudamos as pessoas!”. sociam pra trabalhar voluntariamente. A gente sempre Dentre todas as ações realizadas, teve uma em deixa bem claro que somos uma torcida que temos ações especial que comoveu bastante o Diego, que foi ao ajudar sociais sem fins lucrativos”. um pai que faz parte da torcida organizada a comprar Pouquíssimo se fala deste trabalho social em um triciclo para que sua filha, que tem uma deficiênque eles fazem nos veículos de comunicação, como diz cia locomotora, pudesse participar de uma competição: o Roberto “O que interessa são as brigas e isso me revol- “fizemos uma rifa e fomos correndo atrás. O valor do trita. Se dá esses exemplos de solidariedade, a violência di- ciclo era cerca de R$ 2.000,00. Conseguimos o dinheiro, minui”. E confirmado pelo Diego “a gente vive num país cheguei com o dinheiro. A fábrica pedia dois meses para de pessoas que gostam de se aproveitar da situação. Esse produzir. Não ia dar tempo. Então, o pai comprou as perótulo de briga, de violência e se dá muito por pessoas da ças e ele mesmo construiu dois triciclos com o valor que década de noventa, como o Deputado Fernando Capez, a gente doou. Um triciclo a gente deu para a filha dele, que combatia a torcida organizada. Na minha visão, ele todo adesivado da Gaviões da Fiel. O outro, doamos para se apropriou dessa violência pra poder se beneficiar na o projeto no dia da competição. Essa foi a mais marcanpolítica. E político quer mais mídia. Para mim, a mídia é te porque ajudamos uma criança, ajudamos um projeto total responsável por tudo isso. Então, isso daí é explícito muito legal, que é o Heróis sobre Rodas, e ajudamos uma porque ela não mostra os trabalhos que são feitos na área pessoa que foi um dos fundadores da subsede. A intenção social, preferindo mostrar um ato de violência”. de tudo isso é mostrar para as pessoas que dá para fazer um mundo melhor.” Diego reconhece que na torcida organizada não tem somente os que querem fazer o bem “não es- Mesmo com as ações sociais e o apoio tou falando que a torcida organizada é santa, longe disso. Tem criminoso, tem dependentes químicos, porém tem criminoso na igreja, dependentes químicos na família, infelizmente, só que é mais associado a torcida orgaentrega do triciclo realizada pela subsede da gaviões da fiél em são josé dos campos mencionada nizada. por diego dias. foto: divulgação


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“Torcida única é uma das coisas ridículas que são impostas principalmente pelo Estado e pelo Ministério Público”

que as organizadas dão para polícia. Então, é um Estado seus times, devido à violência fraco e ineficiente”. nos estádios, as torcidas ficaA solução encontrada ram mal vistas por grande parte no estado de São Paulo foi esda sociedade, ganhando repertabelecer uma lei das torcidas cussão nacional e saltando da únicas, o que gera muita poDiego Dias página dos esportes para as pálêmica até hoje. Implemenginas policiais. Obviamente os programas sensacionatada em 2016, a lei consiste em que apenas a torcida da listas dramatizavam ainda mais a situação caótica para equipe mandante possa comparecer em jogos clássicos, ganharem audiência. Acreditava-se até mesmo que as como Corinthians x Palmeiras. Caso o jogo aconteça na torcidas organizadas tinham um envolvimento com o Arena Corinthians, mais conhecido como “Itaquerão”, a crime organizado. venda de ingressos é liberada apenas para torcedores do Atos de violência, como depredação dos es- Corinthians, assim como, caso o jogo fosse no Allianz tádios, incluindo quebra de cadeiras e pichações nas Parque (estádio do Palmeiras), só teria acesso aos independências do clube, ajudaram para que as torcidas gressos os torcedores do Palmeiras e assim em cada organizadas fossem vistas como algo prejudicial para clássico dos torneios, dentro do estado de São Paulo. o esporte. Sobre isso, Roberto Daga diz “É a falta de Segundo dados publicados pelo Ministério Púpunição. Eu já falei isso em programas e debates. A maioblico em 2018, houve uma grande redução de violência. ria vai lá pra torcer e fazer festa e esses grupos que gostam De acordo com o levantamento, o número de confronda violência tem que ter punições severas e a mídia acaba tos entre torcidas diminuiu em aproximadamente 43% espalhando este ódio”. após a implementação das torcidas únicas em jogos Na visão e opinião do Diego, isso acontece por clássicos. falta de planejamento e incompetência de um Estado Sobre as torcidas únicas no estádio Roberto tem “falido e ineficiente”, “a violência dentro dos estádios já a seguinte opinião “isso estraga o espetáculo. A segurannão existe há muitos anos, você não vê falar mais disça pública não consegue administrar isso e dar segurança so, principalmente aqui no estado de São Paulo. Para mim é um Estado incompetente. Porque é o seguinte, violência existe em qualquer lugar. Hoje, se houver protesto de motoristas de aplicativo, terá briga. Se houver um protesto de professores, vai ter briga. Se houver protesto de policiais, vai ter briga de polícia contra


no dia dos jogos”.

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Diego faz o seguinte comentário “ninguém vai brigar pela gente. Hoje, quando você vai para um jogo, passa por uma revista. Isso é a coisa mais vexatória que existe, porque a mesma revista que você vê na beira de um estádio, é igual se os presos fizerem um motim em um ‘Carandiru da vida’, é o mesmo tratamento, gente pelo amor de Deus! Tem trabalhador nisso, é igual você ser bandido, não é assim que funciona as coisas. Só que eu vou reclamar membros da mancha verde vale do paraíba em jogo do palmeiras em mendoza, na para quem? Não tem para quem argentina. foto: eduardo lopes - arquivo pessoal reclamar. Então a torcida organizada nizadas, há uma outra vertente, um outro ângulo, em passa por esse processo. É por isso que que se é muito pouco divulgado, que são os trabalhos eu sou totalmente contra [a torcida única], pois, para sociais que cada torcida organizada faz perante sua comim, não passa de um Estado falido, ineficaz, que ao inmunidade local. vés de assumir a culpa ou tentar resolver os problemas, fazem a torcida única por preguiça”. Com a torcida organizada do Palmeiras, seu Por fim, Diego faz uma análise de como ele enxerga a maneira do Estado lidar com as torcidas organizadas e a medida tomada das torcidas únicas: “então essa é minha visão, Estado ineficiente, incompetente, não diminui a violência. Não tem briga em estádio, tem briga na madrugada, pontos isolados, de manhã, ou seja, Estado incompetente. Porque ele (o Estado) não investiga isso? Ou na hora que aconteceu vai lá e prende. É simples, pune. Eu acho que isso de torcida única é uma das coisas ridículas que são impostas principalmente pelo Estado e pelo Ministério Público que acabam fazendo, isso daí com o torcedor”.

início foi um pouco diferente. Hoje a mais conhecida é a Mancha Alviverde, que foi a junção de três menores torcidas organizas que se uniram e formaram uma única torcida. Essa união se deu para fortalecer as torcidas organizadas que levavam desvantagem nos estádios, pois as outras torcidas como tinham um maior número de integrantes. Carlos Pimenta, em seu livro

Se por um lado a mídia só mostra a parte à esquerda, personagem mancha negra, da disney (imagem da internet). à direita, símbolo oficial negativa das torcidas orga- da mancha verde (imagem: divulgação)


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“Torcidas Organizadas de Futebol: violência auto-afirmação”, afirma que a torcida do Palmeiras sempre levava desvantagens nos confrontos com as outras torcidas por conta da violência, pois as autoridades não puniam os culpados. Então, foi fundada a Mancha Verde, no ano de 1983, tendo como símbolo o personagem da Disney ‘Mancha Negra’, que foi desenhado com as cores do time verde e branco. Em 1995, uma briga com a torcida organizada do São Paulo Futebol Clube, a Independente, deixou um total de 101 feridos e uma morte. Foi este trágico episódio que levou o Ministério Público a pedir a extinção das duas torcidas organizadas.

Eduardo Lopes, membro da subsede da Mancha Alviverde em Taubaté. Foto: Vitor Vilas Boas

Em 1997, os mesmos idealizadores da Mancha Verde pediram o registro para uma nova torcida organizada, com um outro nome, que se mantém até os dias atuais como Mancha Alviverde! Desde então, tanto a sede localizada em São Paulo, quanto as subsedes fazem trabalhos sociais. Em Taubaté, o responsável pela parte social da

subsede é o Eduardo Lopes, que conta sua ligação com o Palmeiras, um dos principais fatores para se vincular com a organizada “meu pai que me incentivou a fazer parte da torcida. Foi a paixão de ir para o jogo. A Mancha Verde vai fazer 24 anos de existência. Nesse local que a subsede está, faz oito anos”. A Mancha Alviverde realiza diversas ações durante o ano e tem aquelas já planejadas como: páscoa, dia das crianças, natal, campanha do agasalho e visitas em asilos.

torcida mancha verde em destaque durante jogo do palmeiras. Foto: carlos solano


Em São José dos Campos, a Casa Palmeiras (um ponto de encontro para palmeirenses fundado por torcedores da Mancha Alviverde) realiza suas ações sociais também. O diretor e responsável é o Rafael, que conta um pouco de como foi sua entrada para a Casa Verde: “eu entrei na Mancha no ano 2000. Entrei mesmo por causa da festa da arquibancada. Eu lembro que em 1995, fui para a porta do estádio com o meu pai e vi aquelas bandeiras que me encantaram. Eu não tive a oportunidade de conhecer o estádio, mas, em meados de 1999 e 2000, conheci o estádio e comecei a ir para os jogos”.

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Dentre todos os trabalhos sociais realizados, Rafael Duarte, conta o que mais o comove são os ligados às crianças, como o que estavam planejando realizar para o dia das crianças deste ano “esse ano a gente vai alugar os brinquedos, fazer bolo, pipoca, algodão-doce e a criançada vem pra cá. Vamos deixas elas curtirem o dia, ficar aqui umas quatro horas na sede, brincando”. Em Taubaté, as ações que mais mexem com as emoções do Eduardo Lopes são quando distribuem comida aos moradores de rua e visitam asilos “Teve uma vez que fui entregar um pão e um suco para um homem, perguntei como ele estava e ele me disse que estava indo. Falei que o senhor estava melhor que eu. Aí ele pegou o pão, partiu ao meio e me fez beber um gole do suco, dizendo que Jesus mandou partilhar tudo que a gente tem. Parei pra pensar que eu tenho uma vida melhor que a dele e só tenho que agradecer pelo que tenho”.

Visita da Mancha alviverde a um asilo em taubaté. foto: divulgação

Rafael, conta sua experiência quando faz o mesmo tipo de ação com os moradores de rua de São José dos Campos “tem cara ali que é ex-médico, ex-engenheiro, que tinha um bom trabalho e está ali na rua. Você vai conversar com os caras e eles são inteligentes. Trocam muito mais ideia que a gente, e é depressão, bebida, droga, briga familiar”. Ele também fala sobre como é feita a arrecadação de dinheiro para que essas ações socais possam ser realizadas “Nós pedimos em forma de dinheiro. Por exemplo, quando vamos comprar os ovos de páscoa, a gente pede no grupo, ‘rapaziada qualquer valor que tiver...’. Então, querendo ou

Rafael (primeiro agachado, da esquerda para a direita) e outros membros na casa palmeiras, em são josé dos campos. foto: vitor vilas boas

“Eles criam essa lei, fingem que acabou os problemas do estádio e se elegem deputados, a governadores” rafael duarte, sobre a implementação da torcida única


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não, é difícil pegar o dinheiro de uma pessoa. Eles podem achar que vamos pegar o dinheiro, comprar meia dúzia de ovos e o resto (gastar com outra coisa), aí a gente está fazendo todo ano certinho e eles estão vendo o resultado. Apresentamos a notinha, tudo bonitinho, o que acaba ajudando mais. Por que que a gente pega em dinheiro e não em ovo? É igual brinquedo, eu vou dar uma bola e um carrinho para o outro, e o outro não queria a bola e queria o carrinho. Aí a gente dá bola para o menino e boneca para a menina, então não tem como a criança achar que o presente do outro é melhor que o dele, e com sentimento de criança a gente não brinca. Se o presente for diferente, a criança fica sentida. Então, a gente dá um brinquedo igual para todos, para não ter esse”.

ação voluntária com craianças realizada pela subsede da mancha verde em são josé dos campos. foto: vitor vilas boas

No dia em que foi realizada a festa em comemoração do dia das crianças, as mães Rosimeire e Andressa, que vivem na comunidade Santa Cruz, em São José dos Campos, afirmaram “é muito importante e tem várias coisas para as crianças! Ficamos muito agradecidas por eles fazerem esta festa para nossas crianças”. doação de agasalhos a moradores em taubaté, em campanha da mancha verde. Em Taubaté, Eduardo conta que foto: divulgação é feito uma vaquinha junto com os inte Eduardo fala como ele vê as torcidas organizadas grantes da Mancha Verde para que possam realizar os trabalhos sociais, e ainda faz uma ressal- perante a violência nos estádios “eu não enxergo (como va de como se sente ao fazer as ações solidárias “eu gosto violentas), mas a sociedade é violenta. Você vê pai matanpara caramba de torcida, está no sangue e está podendo do filho, homem batendo em mulher, batendo em idoso. ajudar outra pessoa é gratificante, não tem preço. Você vê Tem a briga da torcida, é lógico, mas a imprensa ‘cai mao sorriso no rosto de uma criança ou de um idoso quando tando’ em cima daquilo e é o que da notícia. Eu acho que a vou no asilo. Teve uma vez que um idoso falou que era o imprensa aproveita bastante (das brigas de torcidas) porque nenhum canal (veículo de imprensa) vem ver o que dia mais feliz da vida dele”.


11 a gente faz de ação social. Se eu saio com camisa da Mancha Verde e alguém me fecha no trânsito e eu venha a brigar, já vira notícia: ‘torcedor da Mancha Verde briga no trânsito’. Tem muita gente que quer acabar com as torcidas organizadas e muita gente aproveita para vender notícias”. Sobre as torcidas únicas no estádio, Rafael, tem a seguinte opinião “eu sou contra. O futebol está perdendo sua essência com esse negócio de não poder entrar com bandeira, não poder levar rojão, não poder fazer a festa da arquibancada. Eles criam essa lei, fingem que acabou os problemas do estádio e se elegem deputados, a governadores...”.

mancha verde entrega refrigerantes para moradores de rua em taubaté. foto: divulgação

Eduardo também diz ser contra a lei de torcidas únicas “perdeu a graça de estar cantando e provocando a torcida adversária. Não tem mais isso e não diminui a violência, disfarçou para eles, porque a briga acontece em outro lugar. Hoje está ficando mais difícil de torcer e dificilmente vai mudar”. E termina falando sobre seu amor e paixão pelo time, porém afirmando que o futebol está muito elitizado “eu defendo o amor pelo meu time e de poder acompanhá-lo. É que eu gosto de fazer, minha vida é essa. Eu já fiquei 22h dentro do ônibus sem poder

“eu gosto para caramba de torcida, está no sangue e estAR podendo ajudar outra pessoa é gratificante, não tem preço” eduardo lopes, membro da mancha verde

descer porque a polícia não deixava. Eu fiz isso para poder acompanhar o meu time. O que eu defino no time é a paixão e não tem nada que eu mudaria”. As torcidas organizadas começaram com a união dos torcedores do clube para apoiá-lo e ter mais notoriedade perante os dirigentes. Com o passar do tempo, o número de associados foi crescendo, tendo em seu corpo de associados diferentes perfis de torcedores. Dessa firma, se tornou impossível controlar o impulso de todos, fugindo do controle dos líderes da agremiação. Mas, com o tempo, aprenderam com seus erros e se readaptaram, focando e canalizando toda sua energia para fazer o bem por meio de suas ações sociais perante sua comunidade local. É certo que a violência nos estádios, em dias de jogos, ainda reflete nas torcidas organizadas. Porém, basta a sociedade saber que elas realizam trabalhos voluntários e possuem um proposito maior do que o futebol para que essa visão comece a ser modificada. Por isso, precisamos divulgar essas benfeitorias, mostrar que o amor pelo próximo vai muito além de uma rixa provocada por um fardamento esportivo.

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Torcidas Organizadas de Futebol: as duas faces de uma paixão  

Trabalho de graduação em jornalismo 2019.

Torcidas Organizadas de Futebol: as duas faces de uma paixão  

Trabalho de graduação em jornalismo 2019.