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Filhas da Caridade, Servas dos Pobres

PLANO DE FORMAÇÃO

FORMAÇÃO FORMAÇ -


Instituto das Filhas da Caridade Servas dos Pobres

Plano de Formação


APRESENTAÇÃO O XV Capítulo Geral nos convidou com clareza a renovar radicalmente a qualidade de nossa vida Religiosa e da nossa presença apostólica no mundo de hoje. As nossas reflexões sobre o tema do Capítulo “Por causa de Cristo com Madalena – vida de Consagração: OsVotos Hoje”, são um desafio para nós e nos indicam um caminho de contínua conversão e transformação. Os membros do Capítulo sentiram a necessidade de rever o Plano de Formação “tendo presente as características das novas gerações, a orientação do Capítulo Geral, os documentos mais recentes e a internacionalidade do Instituto”. (Del. Cap. n.11) . O Conselho Geral envolveu todas as Irmãs no processo de revisão do Plano de Formação, a fim torná-lo mais apropriado e prático. As diversas comissões assumiram este mandato com grande senso de responsabilidade e sugeriram incluir processos formativos para todas as Irmãs, nas diversas fases da formação. A última comissão internacional que se reuniu em Roma, recolheu as propostas das diversas comissões, a fim de tornar o texto estimulante e significativo para todos os que consideram o caminho de formação pessoa luma prioridade.Com a sábia orientação do Pe. Amedeo Cencini, fdcc, foi reservado um espaço relevante também para a formação permanente. A nossa gratidão ao Pe. Amedeo e a todos os membros da comissão, sobretudo àqueles que trabalharam até o fim com grande dedicação e esmero. 7


Em setembro de 2012, durante o encontro internacional das Formadoras, tivemos a oportunidade de rever o texto, e ainda em novembro do mesmo ano, durante a Consulta Geral Alargada. Apreciamos as observações críticas e as propostas concretas das Formadoras e dos Conselhos Provinciais. Estou contente de apresentar este Plano de Formação a cada Irmã da nossa Família Religiosa e de recomendar a sua leitura como ajuda em nosso caminho formativo. ‘A renovação adequada dos institutos religiosos depende principalmente da formação dos seus membros’ (Diretrizes sobre a Formação nos Institutos Religiosos). É através de um processo formativo focalizado que se torna cada vez mais discípulos de Cristo, e uma Canossiana se torna verdadeira Filha da Caridade. A formação torna-se contínuo processo de conversão e de transformação, que leva à renovação do Instituto e à sua revitalização carismática. Esta edição do nosso Plano de Formação apresenta-nos novas intuições e sugere processos aptos a favorecer uma formação permanente para todas, independente da idade e da fase de formação em que se encontra. Um crescimento harmonioso e integral terá lugar mediante uma progressiva assimilação dos valores evangélicos e carismáticos, no espírito de oração, no aprofundamento da Palavra de Deus e na participação fervorosa dos Sacramentos. Vivemos em tempos de mudanças culturais rápidas e radicais, que pedem uma disponibilidade sempre nova para compreender o mundo de hoje. Isso exige também uma nova modalidade na leitura, discernimento e interpretação 8


dos sinais dos tempos. Permaneçamos abertas ao Espírito Santo, em resposta ao convite de S. Madalena “Inspice et Fac”. Gradualmente assumiremos a forma do Filho e do Servo, ‘teremos os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus’. Se fizermos uso de todas as oportunidades abertas para nós em nosso caminho de formação permanente integrada, poderemos assegurar, a nós mesmas, um processo de crescimento e um profundo despertar espiritual e carismático. Este Plano de Formação será de grande ajuda neste caminho. Espero e rezo para que este ‘Plano de Formação’ conserve em cada uma de nós a inspiração que sustenta a visão carismática de Madalena em nossa vida, fortaleça-nos na motivação apostólica e no empenho de fazer Jesus conhecido e amado, e de ser testemunhas alegres e proféticas em nosso mundo de hoje. Roma, 25 de março de 2013

M. Margaret Peter Superiora Geral

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PREMISSA O NOSSO INSTITUTO E A FORMAÇÃO O momento histórico em que o Instituto se encontra e no qual está empenhado a se renovar, assumindo constantemente uma ‘mentalidade de mudança’, impõe também um repensar geral da Formação, entendida não mais como o empenho característico apenas do período inicial da vida religiosa dos seus membros, ao qual se deve dar particular importância, mas como um processo que se estende ao longo de toda a sua existência e que diz respeito a todas as Irmãs. O Instituto considera a Formação “o processo-chave para sustentar e promover a identidade carismática na sua evolução histórica, num contexto de rápida mudança sociocultural”1 e, por isso mesmo, pede às pessoas que são chamadas a ele, que cultivem uma disponibilidade contínua de se deixar formar pela vida, e por toda a vida, a uma “progressiva assimilação dos sentimentos de Cristo”2, segundo o carisma próprio que Madalena de Canossa, nossa Santa Fundadora, transmitiu a nós, suas Filhas. O grande dom do chamado a este santo Instituto de Caridade3 precisa ser acolhido, preservado e desenvolvido, dia após dia, na vida cotidiana de cada Filha da Caridade, Serva dos Pobres, qualquer que seja a sua idade e a sua situação existencial. É o dom do Amor maior, contemplado em Jesus Crucificado na Cruz, acolhido plenamente pela Santíssima XV Capítulo Geral, Deliberações Capitulares, 2008, 17. João Paulo II, Vida Consagrada, 1996, n.65. 3 Cf. Maddalena di Canossa, Regole e Scritti Spirituali, I, Roma 1984, 23. 1 2

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Virgem das Dores, que se tornou Mãe da Caridade ao pé da Cruz, habilitando cada Irmã ao amor. É sempre o mesmo dom que dilata o coração da Filha da Caridade Canossiana a ir “a qualquer lugar...para a Glória de Deus e para o bem das almas”4, em obediência à ordem de Jesus: “Euntes in universum mundum” (Mt 28,19), para fazer Jesus conhecido e amado, já que Ele “não é amado, porque não é conhecido”5. O Instituto, através do Conselho Geral, é o garante e o guardião deste dom. Ele zela com responsabilidade para que todas as Irmãs se empenhem a levá-lo ao pleno amadurecimento, mediante um sério caminho de conformação a Cristo Crucificado e de discipulado, a exemplo de Nossa Senhora das Dores, “única e una Mãe”6, um caminho vivido na liberdade e na responsabilidade. De fato, nenhuma Irmã pode ser substituída em tal empenho de conformação. A Superiora Geral é atenta também em manter dentro do Instituto, a comunhão e a fidelidade ao Evangelho e ao Carisma, também mediante o Plano de Formação, fundamentado teológica e pedagogicamente nas suas indicações gerais, respeitando, ao mesmo tempo, a necessidade da inculturação da formação nos diversos Países, segundo o rosto internacional do nosso Instituto. O impacto da globalização, o progresso da tecnologia e das ciências, as recentes mudanças de clima e as radicais conseqüências socioculturais de transformação influem forteMaddalena di Canossa Epistolario II/2, Roma 1984, 1174. Maddalena di Canossa, Regole e Scritti Spirituali, I, Roma 1984,180. 6 Idem, 25. 4 5

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mente na mentalidade e no estilo de vida de todos e não só dos jovens. É necessário, portanto, uma adequada proposta de formação que garanta o cuidado de uma clara identidade carismática a cada Filha da Caridade.

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O PLANO DE FORMAÇÃO DAS FILHAS DA CARIDADE SERVAS DOS POBRES Significado O Plano de Formação é um instrumento que se propõe traduzir o conteúdo da Regra de Vida, em termos pedagógicos no que se refere ao âmbito formativo. De fato, ele retira as linhas gerais, educativas e pedagógicas do carisma canossiano. Devido ao rosto internacional e intercultural do Plano de Formação do Instituto, os Projetos de Formação das várias Províncias, buscam inculturar-se segundo as exigências e as características próprias da cultura local, sempre na fidelidade dinâmica ao dom recebido do Espírito. O atual Plano de Formação, vale-se das contribuições que vieram das Irmãs do Instituto e daquelas oferecidas pelos últimos Documentos do Magistério sobre a vida consagrada e do Instituto.

Critérios A partir da idéia de que a Formação é Permanente, o Plano oferece uma visão global do caminho formativo da Filha da Caridade, Serva dos Pobres, refletindo a unicidade e a especificidade dinâmica. Ele apropria-se dos critérios do gradualismo e da concretude do processo formativo. Não é um texto definitivo, escrito uma vez para sempre, mas é um texto aberto à possibilidade de ser atualizado quando a renovação se faz necessária, quer em linguagem, quer em seus processos. 13


Todavia, permanece um texto referencial para todo o Instituto.

Destinatários O Plano se dirige a cada Irmã do Instituto, qualquer que seja a sua fase de vida, convidando-a a renovar-se, ciente de que a formação é uma responsabilidade que não tem limites de idade e que todas estamos incessantemente em estado de formação. Permanece sempre atual e estimulante o empenho em viver com os mesmos sentimentos de Cristo, e de Cristo Crucificado, até sermos transfiguradas N’Ele, isto é, até à morte. Destinatárias do Plano de Formação são de modo especial, as responsáveis pela formação de cada etapa formativa e as jovens na fase inicial da formação. O fato de poder abeberar-se num mesmo Plano de Formação do Instituto facilita: • a referência comum aos traços essenciais do nosso carisma, válidos em todas as culturas, mas também a uma pedagogia essencial ligada estreitamente à teologia do carisma, • a continuidade formativa entre as várias etapas, • a possibilidade de um justo revezamento das Irmãs responsáveis da formação, • o confronto sistemático entre as várias culturas.

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PRIMEIRA PARTE OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DA FORMAÇÃO CANOSSIANA FINALIDADE A formação humana é um processo complexo e articulado, sempre aberto e dinâmico, que pressupõe uma clara referência a um quadro antropológico. Neste sentido, também a educação da fé e a formação em um Instituto com determinado carisma, implicam orientação explícita no que diz respeito à concepção de pessoa e de vocação. Além disso, neste Plano de Formação o Instituto leva em consideração também as novas indicações das ciências humanas que dizem respeito à visão da pessoa. Numa visão antropológica cristã, pode-se dizer que cada pessoa é um ‘mistério’; a vida é aberta a Deus, é feita para descobrir e dialogar com Deus; mas se pode afirmar também que o mistério está na vida. O lugar da descoberta de Deus e do diálogo com Ele é a própria história pessoal. Formar significa, então, entender a vida como mistério, numa dupla expressão: ter o olhar voltado para o Senhor, permanecendo ligados à realidade contingente, buscar além e encontrar dentro; sair de si e reentrar em si mesmos7. Cfr F. Imoda, Sviluppo umano. Psicologia e mistero, Casale Monferrato, 1995,17-176.

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Neste horizonte coloca-se também a vocação à vida consagrada, entendida como um dinamismo de chamado, da parte de Deus Criador, e de resposta, da parte da criatura: “De fato, cada ser humano é chamado por Deus, que lhe deu a vida, para transcender-se na liberdade do amor”8. Tal visão da pessoa valoriza, em particular, a dimensão relacional e sustém a modalidade integral da formação. Nesta mesma linha de pensamento, colocou-se, há mais de duzentos anos, também a nossa Fundadora, S. Madalena de Canossa, definindo a vocação ao seu Instituto de Caridade,“um grande dom de Deus”9, oferecido “gratuitamente pela liberalidade do Senhor”10. Portanto, a vocação à vida consagrada canossiana, segundo o pensamento da Fundadora, é uma escolha de vida dinâmica, já que exige uma relação cada vez mais profunda e pessoal com “Deus, fonte e essência de santidade”11 que, ao longo da vida pode convidar também a Filha da Caridade a fazer sua, a paixão missionária de S. Madalena, de ir “aonde a necessidade é maior”12. Precisamente, por esta razão “o empenho formativo nunca termina: [...] a formação deverá, portanto, alcançar em profundidade a própria pessoa, de tal modo que cada uma de suas atitudes ou gestos, tanto nos momentos importantes como nas situações ordinárias da vida, possa revelar a sua pertença total e feliz a Deus”13. A. Cencini, Vita Consacrata, Itinerario formativo lungo la via di Emmaus, Cinisello Balsamo 1994,44. 9 Maddalena, Regole e Scritti, I, 23. 10 Idem, 89. 11 Idem, 24. 12 Maddalena, Epistolario, III/1, 719. 13 João Paulo II, Vida Consagrada, n. 65. 8

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O objetivo para o qual a Filha da Caridade tende, é “um itinerário de progressiva assimilação dos sentimentos de Cristo para com o Pai”14, a fim de que, cada uma assuma e se identifique cada vez mais com o nome que leva: Filha da Caridade – Serva dos Pobres, nome que exprime uma pertença, significa uma missão e exige um empenho. O nome indica que cada Irmã pertence ao Senhor, que ela é sua Filha, totalmente e para sempre, Filha de Deus que é Caridade; significa a sua missão, “sendo a nossa vocação assistir os pobres quanto mais pudermos”15 e, como Servas dos Pobres, “devemos a eles os nossos cuidados, fadigas, atenções e os nossos pensamentos”16. O nome exige um empenho: despojar-se de tudo, buscar Deus só, relativizar tudo para que só a Sua Caridade habite no coração de cada uma de nós. A Formação, portanto, tem por objetivo realizar a identidade de Filha da Caridade – Serva dos Pobres, unindo harmonicamente a tarefa de “transmitir inteiro e perfeito”17 o espírito e o carisma do Instituto e a ter em conta a especificidade das novas gerações, para a Glória de Deus e para o bem dos irmãos e irmãs, especialmente os mais pobres.

FONTES O Amor de Jesus Crucificado, fonte do carisma de S. Madalena, é a linfa que dá eficácia e significado a todo projeto formativo. Idem. Maddalena, Epistolario III/1 473. 16 Maddalena, Regole e Scritti, I, 23. 17 Idem,165. 14 15

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A Filha da Caridade, Serva dos Pobres, haure a sabedoria deste amor: da Palavra de Deus, do Magistério da Igreja, do carisma do Instituto, da vida: história e cultura.

A Palavra de Deus A Palavra de Deus nos acompanha a cada dia através da liturgia, da leitura espiritual, da meditação: ela alimenta a nossa capacidade de discernir, educa-nos ao diálogo espiritual e nos habilita a comunicar o Evangelho aos outros, fundamenta de modo seguro o nosso ardor apostólico, ajudando-nos a todas a integrar fé e vida.18 De fato, a Palavra “é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes: ela penetra até o ponto onde a alma e o espírito se encontram, e até onde as juntas e medulas se tocam, ela sonda os sentimentos e pensamentos mais íntimos” (Hb 4,12): convida-nos à escuta constante do coração de Deus para descobrir a sua presença benéfica, sempre e em toda a parte, e nos a deixar educar pela sua Caridade, segundo o dom recebido. Diante das situações que nos interpelam, ela ‘promove na comunidade uma mentalidade sempre mais evangélica e a capacidade de discernir a vontade de Deus no hoje nos sinais dos tempos”19, suscita novas perguntas, sugere novas reflexões e leva a novas respostas. 18 19

Cfr. XIV Capítulo Geral, Deliberações Capitulares, 2002, 11. XIII Capítulo Geral, Deliberações Capitulares 1996, 38. 18


Precisamente da escuta da Palavra de Deus e, de modo especial, na Celebração Eucarística, lugar carismático e ambiente espiritual de S. Madalena, nasce a chamada a viver a comunhão e a missão e, numa constante relação com a Palavra de Deus na oração, a fé se torna adulta e capaz de iluminar os outros. A Palavra de Deus nos convida, constantemente e com criatividade, a praticar a não violência e a nos tornarmos fazedoras de paz. Como discípulas do Evangelho, deixamo-nos educar a viver e a promover a justiça em todas as ocasiões, colocando-nos em atitude crítica e de análise em relação a qualquer opressão e violação dos direitos humanos e das novas formas de pobreza na sociedade de hoje. Olhemos S. Josefina Bakhita, mulher evangélica, como modelo de perdão e reconciliação20. “Somos chamadas a contemplar a presença de Deus na criação, nas pessoas e nos acontecimentos e a discernir a ação divina no mundo, no cosmos que nos circunda, olhando com os olhos do Pai e julgando com o coração de Cristo para poder agir segundo os valores inspirados pelo Espírito”21.

O Magistério da Igreja O nosso carisma é um dom particular de Deus confiado ao Instituto para a vida da Igreja e amadurecido no seu âmbito. Somente no seio da Igreja Universal e local, ele pode encontrar orientação, nutrimento, suporte e o cuidado necessário para poder crescer na fidelidade dinâmica ao Evangelho e à Cfr. Instituto Filhas da Caridade Canossianas, Justiça, paz e integridade da Criação. Linhas Mestras Canossianas, 2004, 67. 21 Idem, 63. 20

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sua especificidade. Cada uma de nós, como membro vivo de uma Igreja encarnada, aprende, a cada dia, a conhecer as suas expectativas mais profundas e a responder a elas, oferecendo o próprio dom, segundo o exemplo de S. Madalena, nossa Fundadora e Mãe22. O Magistério do Papa e dos Bispos é, para nós, guia seguro na orientação de nossa formação; do mesmo modo, os documentos promulgados pela Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica e as Conferências Nacionais e Internacionais dos religiosos, são para nós expressão do cuidado ordinário e solícito da Igreja para com a vida consagrada.

O Carisma do Instituto O carisma das Filhas da Caridade, Servas dos Pobres, é o dom que o Espírito, através de S. Madalena de Canossa, entregou à Igreja. Ele encontra a sua fonte inspiradora em Jesus Crucificado que, na cruz, revela o rosto de Deus Pai e a medida do amor “sine modo”. É Ele, o grande Exemplar, que motiva o dom de si de cada Filha da Caridade, no exercício do duplo mandamento do amor para com Deus e para com o próximo, numa vida de consagração, de comunhão e de humilde serviço, no espírito amabilíssimo, generosíssimo e pacientíssimo. Fazer Jesus conhecido e amado é o anelo que sustém a sua dedicação nos diversos ministérios. O Instituto Canossiano salvaguarda e favorece a vitalidade do carisma fundacional em cada uma de nós. Cfr. IX Assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, A Vida consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo. Instrumentum Laboris, 1994, n.14 22

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O carisma da Caridade para ser vivido, pediu para as Irmãs que nos precederam, e continua a nos pedir hoje, uma série de atitudes e condições, que o exprimam e cuidem de seu crescimento e de sua expansão, a ponto de “ir a qualquer lugar por mais remoto que seja”23. Os lugares, onde o carisma é defendido e cultivado, são essencialmente dois: a comunidade cristã e a comunidade fraterna canossiana. A comunidade canossiana vive no âmbito da Igreja, numa relação de fecundidade e de reciprocidade. Cuidar do carisma significa ficar atentas às condições que realizam este intercâmbio vital24. Além disso, através do estudo das fontes carismáticas, da tradição e através de diretrizes claras, o carisma alimenta a Formação Inicial e Permanente, de cada Filha da Caridade, favorecendo nela a consciência e o desenvolvimento do dom recebido e a sua encarnação na vida cotidiana. A Regra de Vida, cuja primeira fonte se encontra na Regra Difusa, é o instrumento privilegiado da nossa formação carismática. Fiel às origens, fruto de um discernimento colegiado de Instituto e aprovada pela Igreja, ela nos oferece modalidades específicas para viver o Evangelho de modo compreensível às pessoas de hoje, a fim de que o carisma se torne dom para todos e sinal de esperança.

A vida: história e cultura Deus, Pai da humanidade, que nos foi revelado por Jesus, é Maddalena, Epistolario II,1, 266. Cfr. Instituto Filhas da Caridade Canossianas, O Carisma Canossiano. Uma abordagem formativa, 2002, 36 23 24

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também o Senhor da história. Através de cada acontecimento, Ele nos conduz por veredas da redenção, para nos unir a Ele para sempre. A nossa história pessoal está profundamente inscrita em nosso ser humano: reconhecê-la, interpretá-la e fazer “memória” dela, torna-se determinante em cada etapa da formação, como o foi para o povo de Israel. Isso supõe, não só recordar os eventos vividos, mas também e, sobretudo, perscrutar seu sentido de modo sapiencial e perceber a passagem de Deus em seu interior. Desse modo, nossa história pessoal e também sociocultural torna-se, para nós, mestra de vida, criando em nós um senso de responsabilidade em relação às atitudes que assumimos hoje, frente ao nosso passado, ao presente e ao futuro. Também S. Madalena, movida pelo Espírito Santo, narrou nas Memórias, a história da sua vida e da sua chamada. Indo, para além dos eventos históricos e cotidianos, ela soube reconhecer o próprio caminho vocacional, até descobrir a revelação do Amor de Cristo Crucificado, Servo e Senhor, fonte e modelo do nosso carisma. Através da corajosa e humilde fidelidade das nossas primeiras Irmãs, que deram continuidade ao ardor missionário de S. Madalena, o nosso carisma encontra seu lugar nessa história, e nos pede de torná-lo vivo e atual. Hoje, somos chamadas a viver o carisma, abertas à internacionalidade, à interculturação e à missionariedade, buscando na cultura dos povos o selo do Eterno escondido sob incrustações, às vezes difíceis de decifrar. Reconhecemos que cada povo, no seu patrimônio cultural, tem um dom a oferecer à humanidade, e ao mesmo tempo, advertimos o perigo do relativismo e a necessidade profunda de reden22


ção, à qual se pode chegar através do dom dos outros25.

PROTAGONISTAS DA FORMAÇÃO Deus Só, através da ação do Espírito Santo é o agente principal da nossa formação. Este motivo recorrente em S. Madalena recorda não só o início do Instituto e a história pessoal da Fundadora, mas também o caminho espiritual ao qual cada uma de nós é chamada. Na Regra Difusa, tratando do voto de pobreza, S. Madalena escreve: “[...] neste Instituto aquelas que, com maior perfeição a praticarem, estabelecendo-se em Deus só, não pretendendo, não amando senão Ele, não querendo e não buscando em si mesmas, nas ocupações internas e nos ministérios de caridade senão a Deus só, não pretendendo senão a sua glória, serão as Irmãs mais felizes”26. S. Madalena convida, portanto, cada uma de suas Filhas a se deixar formar, antes de tudo, por aquele Deus que quer ser ‘o único’, como ela mesma escreve nas Memórias: “Recordando-me [...] como me conviesse permanecer desapegada de tudo e apoiada nele só, mas só, só, tanto a respeito do afeto e do desejo de agradar, quanto o de operar”27. Cristo Crucificado é, para cada Irmã, centro da identidade e fonte da espiritualidade. Ele é o lugar teológico do carisma: é aqui que S. Madalena se deixou medir constantemente Cfr. Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Orientações sobre a formação nos Institutos Religiosos, 1990, n. 90-91. 26 Maddalena, Regole e Scritti, I,55. 27 Madalena de Canossa, Memórias. Uma contemplativa na ação (aos cuidados de E. Pollonara), Milão 1988, p.138 25

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pela Caridade, que ela compreendeu e interpretou à luz da Cruz de Jesus. Impressionada principalmente pelo “Inspice et fac secundum Exemplar”28, aprendeu a contemplar profundamente o mistério do Homem da Cruz e dele hauriu uma energia incansável para trabalhar. Do mesmo modo, nós somos convidadas a contemplar o Crucificado como o caminho que leva ao cumprimento do duplo mandamento do amor. A contemplação das suas virtudes –obediência, humildade e pobreza – desperta em cada uma o amor para com Deus e para com o próximo, em particular para com os mais pobres. Em consequência, somos provocadas a assumir este mesmo amor, como centro da nossa vida e a ele adequar as escolhas, os ideais, o sentido e o significado da nossa existência. A Virgem das Dores, “chamada Mãe da Caridade ao pé da Cruz”29, é reconhecida por S. Madalena como o modelo, no qual o amor do Senhor Crucificado encontrou plena acolhida. Para nós, tornar-se Filha da Caridade significa, então, ser testemunha transparente de um amor que não impõe nenhuma condição, assim como o foi para Maria. A Virgem das Dores é, para nós, também exemplo de fé e de contemplação, pois que, ao pé da Cruz, soube captar o amor generosíssimo do Pai e “às palavras do seu Divino Filho agonizante, acolheu-nos a todos, ainda que pecadores, em seu coração”30, tornando-se assim ‘discípula’ na sequela do Cristo Crucificado, ‘mãe’ da humanidade e ‘colaboradora’ da obra da redenção do Filho, na dolorosa luta contra o mal.

Idem, p. 33, 32. Maddalena, Regole e Scritti, I, 25. 30 Idem. 28 29

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Cada Irmã é diretamente responsável por sua fidelidade ao carisma recebido e por sua formação. Ninguém pode substituí-la em tal exercício de liberdade. Chamadas continuamente a assumir a responsabilidade pessoal do nosso caminho de integração, cuidamos, sem cessar, da nossa interioridade para compreender e responder às exigências da vocação Canossiana31. Neste processo é necessário que cada Filha da Caridade, como cada jovem, tenha sempre o coração aberto ao Espírito do Senhor e às suas mediações, que a acompanham no específico momento de formação que está vivendo32.

MEDIAÇÕES DE FORMAÇÃO O Instituto inteiro, como comunidade de fé, depositária de um dom particular de Deus para o bem de toda a Igreja, é responsável pelo crescimento harmônico e integral de cada Irmã que o compõe, como também pelas pessoas que desejam fazer parte dele. Cada pessoa cuida da fidelidade dinâmica à chamada Canossiana, respondendo generosamente às solicitações e às exigências da vida de consagração: comunitária e apostólica, em cada etapa da Formação Inicial e Permanente. As relações de confiança e de colaboração que o Instituto sabe promover, os critérios das suas escolhas, a intensidade de vida no Espírito que compartilha, cooperam para a formação dos seus membros. Aceitamos com fé as mediações específicas de cada etapa do caminho formativo. 31 32

Cfr. XIV Capítulo, Deliberações, 6. Cfr. Congregação, orientações, 29. 25


A responsabilidade formativa no Instituto explicita-se em diversos níveis. A Superiora Geral e as Superioras Provinciais são as primeiras responsáveis pela Formação. A Superiora Geral tem a responsabilidade de definir as linhas formativas a nível geral, indicadas pelas Deliberações Capitulares, para o caminho anual do Instituto. Tem ainda, o dever de conservar o Instituto unido em torno do único carisma, atenta às mudanças necessárias, entendidas como esforço comum para permitir caminhar na unidade, ou também através de percursos diversos e alcançando resultados específicos, de acordo com os contextos culturais33. Nas visitas às comunidades e às Províncias, verifica o desenrolar-se e a atuação das linhas formativas indicadas pelas Deliberações Capitulares e pelo Plano de Formação. A Superiora Provincial tem o dever de identificar, escolher e preparar com cuidado as formadoras que acompanham as pessoas na Formação Inicial, sustentando-as na vida evangélica e carismática. A mesma Superiora Provincial nomeia e confia a coordenação das atividades formativas a uma Irmã, coordenadora de uma Equipe Formativa Provincial. A Equipe Formativa Provincial é constituída pelas formadoras responsáveis por cada etapa. Os membros da Equipe, coordenada pela Irmã nomeada pela Superiora Provincial, são envolvidos, de modo particular, no projeto formativo, colocando a seu serviço os próprios talentos e competências. 33

Cfr. XV Capítulo, Deliberações, 22. 26


Requer-se também sua contribuição nos processos de discernimento e de avaliação. Para viver eficazmente o próprio dever, as Irmãs da Equipe Formativa, encontram-se sistematicamente, a fim de refletir sobre problemas da Formação, aprofundar o próprio mandato, projetar e avaliar, à luz do carisma, intervenções formativas inculturadas, assegurando assim a continuidade formativa. A Comunidade Canossiana é o ambiente privilegiado para a formação integral, em cada estação da vida – “lugar de cura e de crescimento na caridade”34 - de quem é chamada a viver de acordo com o carisma específico do Instituto. Ela é constituída por Irmãs que sabem que estão juntas, não por afinidades ou por opção, mas porque o Senhor as uniu com uma comum consagração e missão na Igreja. Todas as Irmãs são chamadas a aprofundar, cada vez mais e de novo, as motivações de sua escolha, os empenhos assumidos onde fé, carisma, vida espiritual - comunitária e apostólica, integram-se harmonicamente. Só este caminho garante a construção de uma comunidade como lugar de fé, de fraternidade e de abertura à missão, caracterizada por relações livres e libertadoras. – As Comunidades formativas Canossianas, recebem do Instituto o mandato de acompanhar jovens ou Irmãs, durante um período particular de seu caminho de formação. As comunidades, com esse mandato especial, tornam-se verdadeiramente formativas na medida em que nelas se respira o carisma e um clima rico de espiritualidade sólida e profunda, de fraternidade autenticamente evangélica e de animada paixão apostólica e missionária. 34

XIV Capítulo Geral, Deliberações, 10. 27


As Irmãs que as compõem, abertas às novas gerações, culturalmente diversas, na complementariedade respeitosa das competências e das funções, – são corresponsáveis pelo crescimento da pessoa em formação e contribuem para isso, principalmente, pelo esforço diário de ser verdadeiras testemunhas do Evangelho e do carisma. Dentro de cada comunidade formativa, é possível prever uma pequena Equipe de Irmãs, em estreita colaboração com a responsável da etapa. A presença de Irmãs com experiências missionárias corrobora na formação à universalidade, à interculturalidade, à internacionalidade e, com o seu testemunho, estimula o florescer de possíveis germes de vocação à missão “ad gentes”. – O estilo de vida das Comunidades formativas une sobriedade e acolhida, oração e ministerialidade adequada às exigências do lugar, favorece em todas a interioridade, mas também o acolhimento do diferente, o espírito de família, o confronto sereno com o externo, visando sempre uma sintonia coerente entre carisma e experiência cotidiana. É caracterizado por um clima de alegria, fundado na certeza da fidelidade do Senhor e na intensa vida fraterna, baseada na verdade e na caridade evangélica. Chamadas, em particular, pelo nosso carisma específico a expressar em nossa comunidade, no modo mais perfeito possível, o dom da comunhão, reconhecemos que a verdadeira união dos corações se realiza por meio “do amor recíproco de todos os membros da comunidade, um amor alimentado pela Palavra e pela Eucaristia, purificado no Sacramento da Reconciliação e sustentado 28


pela invocação da unidade”35. Qualifica-se como um estilo de comunicação e de diálogo, de partilha e de participação, de corresponsabilidade e de discernimento. As Irmãs Formadoras, em comunhão com a Superiora Provincial, assumem a responsabilidade de acompanhar as jovens ou as Irmãs em formação, no seu crescimento integral, segundo o momento específico de seu caminho. As formadoras, preparadas adequadamente, têm o delicado dever de fazer-se companheiras de viagem das jovens e das Irmãs a elas confiadas, através de uma relação interpessoal profunda e significativa, discreta e gradual. Ajudam-nas com a competência adquirida, a integrar a fé na cotidianidade, a reler e a dar significado aos fatos ordinários e extraordinários da vida de cada dia, a discernir a Vontade de Deus a respeito delas e a vivê-la com coerência e responsabilidade. Elas também são Irmãs a caminho de uma sólida identidade humana, cristã e carismática, com um vivo sentido de pertença ao Instituto, um amor autêntico ao carisma canossiano e uma entusiástica paixão apostólica e missionária. As Formadoras são responsáveis pelos processos formativos personalizados, pela atuação criativa dos projetos programados com a Equipe Formativa e aprovados pela Superiora Provincial, garantindo continuidade e intervenções eficazes para os diversos níveis formativos. Faz também parte de seu mandato assegurar que as Irmãs recebam todas as ajudas humanas, culturais e espirituais de que necessitam. Empenham-se, sobretudo, a imitar aquele Amor maior que 35

João Paulo II, Vida Consagrada, n. 42. 29


cada Irmã é chamada a encarnar na vida do dia a dia. Na realização dos programas formativos, recomenda-se a colaboração com os leigos.

NÚCLEOS DE FUNDO A Formação Canossiana, Inicial e Permanente, enraíza-se em alguns núcleos que constituem a essência da nossa identidade carismática e que devem estar presentes em todo processo formativo, por toda a vida, respeitando-se, porém, a tipologia das várias etapas. Eles definem os lineamentos que caracterizam a fisionomia daquele rosto que o Pai criou e continua a criar em cada Filha da Caridade, o mistério da sua identidade “escondida com Cristo em Deus” (Col 3,3)36. São eles: • • • •

Experiência mística Caminho ascético Missão Senso de identidade e de pertença.

Experiência mística O encontro da Fundadora com o divino, numa experiência mística, levou-a a ler sua própria identidade e missão. É também o ponto de partida e de referência constante de cada caminho formativo, em todo o curso da vida. De fato, toda Filha da Caridade é chamada a reviver a experiência mística que está na origem do nosso Instituto, assumindoCfr. A. Cencin, Os sentimentos do filho. O caminho formativo na vida consagrada, Paulinas, 2002, p.201-202 36

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-a, graças ao dom do Espírito, segundo a peculiaridade do seu próprio eu e deixando que ela revele os traços de sua própria identidade. A vitalidade de nossa Família Religiosa depende da presença de Irmãs que, ainda hoje, continuam a viver essa experiência através de suas vidas. No início do caminho espiritual de S. Madalena, existem algumas “intuições carismáticas”, que evidenciam como Deus se tenha revelado à jovem marquesa e como tenha pronunciado o seu nome. Assim, S. Madalena iniciou, gradualmente, a descobrir “o seu eu nesse relacionamento com Deus, deixando que o mistério contemplado se tornasse fonte de sua identidade”37. A experiência mística revela a cada Filha da Caridade o rosto de ‘Deus só’, na contemplação do Filho, para que, atraída e transformada pelo Amor Crucificado, assuma e traduza na própria vida o “Inspice et fac secundum Exemplar” (Êx 25,40), que atraiu S. Madalena ao seguimento de Cristo. Deus forma cada Irmã nesta experiência mística, através da “oração mental do coração”38, uma oração que envolve inteligência, afetos e desejos de cada uma e compromete toda a sua vida. Para crescer neste aspecto, S. Madalena recorda que é indispensável que nos eduquemos ao silêncio, não só de palavras, mas também de todo vínculo, afeto e projeto que nos afaste de Deus: “[...] em primeiro lugar, para conservar no coração o santo amor a Deus, é quase indispensável o espírito de oração que, sem recolhimento, certamente não Idem, 207. Madalena de Canossa, Regras do Instituto das Filhas da Caridade. Texto extenso. Manuscrito milanês, Milão 1978, 15. (Ed. Port.) 37 38

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se sustenta, e um e outro têm necessidade de ser alimentado pelo silêncio. [...], pois o verdadeiro espírito de uma Filha da Caridade deveria ser, em casa, o de um anacoreta e fora, o de um apóstolo”39. É através da contemplação da Eucaristia, que S. Madalena é reconduzida, frequentemente ao mistério da Cruz. Ela reconhece, no dom do pão e do vinho, a oferta sacramental da própria vida de Jesus, e confessa ter sido objeto, em primeira pessoa, da “grande Caridade com a qual o Senhor [a] conduziu com frequência à Santa Comunhão”40. De fato, a Eucaristia constitui o ‘lugar’ privilegiado das suas experiências místicas e a realidade unificante de toda a sua vida, que pode ser sintetizada no binômio ‘Eucaristia-Cruz’. Para cada uma de nós também, a Eucaristia se torna ‘fonte e ápice’ da nossa espiritualidade, centro da vida litúrgica de cada comunidade, coração do amor oblativo com o qual cada Filha da Caridade vive o dom de si a Deus e aos outros.

Caminho ascético No momento ascético a revelação carismática se concretiza através do que se viveu. É a consequência inevitável da experiência mística. A intensa contemplação do mistério de Deus, determina em S. Madalena “a exigência de conformar-se a Ele, deixando-se plasmar ativamente por Ele nos gestos e nas palavras, nos pensamentos e nos desejos”41. O grande ideal místico do Amor Crucificado atrai cada uma de nós e determina a nossa vocação. Maddalena, Regole e Scritti, I, 107-108. T. Piccari, Dio solo e Gesù Crocifisso. Maddalena di Canossa, Milano 1965, 358 41 Cencini, Os sentimentos, 208-209. 39 40

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As virtudes, “das quais este grande Exemplar nos quer dar um particular exemplo na Cruz”42, são lidas por S. Madalena como expressões de Caridade, por isso, cada uma de nós, conformando-se ao Espírito de Cristo Crucificado nos sentimentos, nas motivações e nas atitudes, é chamada a expressar na vida cotidiana três virtudes particulares: a obediência, para nos deixar envolver cada vez mais totalmente – coração, mente e vontade – pela oferta que o próprio Jesus fez de si na Cruz; a humildade, para reconhecer a própria condição de criatura e tornar-se capaz de partilha e de solidariedade; a pobreza, para transformar a lógica da possessão em lógica do dom e aprender a viver junto como Irmãs. S. Madalena indicou às suas Filhas o caminho da consagração, como meio privilegiado “para eliminar todos os obstáculos, que possam impedir as Irmãs, chamadas a esta santa vocação, de unir-se perfeitamente a Deus”43. Do ponto de vista carismático, os votos preservam o caminho de assimilação a Cristo (obediente, humilde, pobre), guiado pelo Espírito. “Vividos por causa de Cristo, são um processo de transformação pascal, ocasiões privilegiadas para crescer na liberdade e na alegria através da conversão nas três exigências essenciais da pessoa: o desejo de poder, a necessidade de posse, a afetividade”44. São um modo de ser humanos como Jesus, Filho e Servo, de estar à disposição, na Igreja e no mundo, para promover os valores do Reino, para fazer espaço àqueles que estão longe dele, tornando-se um sinal profético e radical. Maddalena, Regole e Scritti, I, 25. Idem, 52. 44 XV Capítulo Geral, Deliberações, 10-11. 42 43

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O caminho na obediência coloca a nossa vida nas mãos de Deus, para que Ele “a realize segundo o seu desígnio e faça dela uma obra prima”45. S. Madalena indica para cada uma de nós a imitação de Jesus Cristo, que se fez “obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,8), e nos convida a gerir nossa liberdade em coerência com a fé no Evangelho, escolhido como norma de vida e em atitude de responsabilidade, para realizar o desígnio de Deus, com “a oferta da nossa própria vontade”46, através da Regra de Vida e da ajuda das mediações. O voto de pobreza nos liberta de nós mesmas, da escravidão das coisas e das necessidades artificiais, e nos faz redescobrir Cristo que “na Cruz foi despojado de tudo, exceto do seu amor”47. De fato, para viver como pobres, S. Madalena nos exorta a fixar,por alguns momentos o olhar nele para ver que na Cruz lhe faltaram, não diremos as coisas supérfluas, mas até todas as absolutamente necessárias”48. Somos assim, chamadas a compartilhar o que temos, a desapegar a nossa vida da busca das riquezas, para identificar-nos com Cristo Crucificado, que se fez Servo, escolhendo “uma posição de marginalidade significativa na história”49. A castidade dilata o nosso coração na medida do coração de Cristo, e nos torna capazes de amar como Ele nos amou50. Ela comporta um caminho de amadurecimento no amor que Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Partir de Cristo, 2002, n. 22. 46 Maddalena, Regole e Scritti, I, 57. 47 Idem, 34. 48 Idem, 54. 49 XV Capítulo Geral, Deliberações, 10. 50 Cfr. Congregação, Partir, n. 22. 45

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nos torna livres no coração, capazes de comportamentos coerentes com a escolha da virgindade e de novas relações com a própria família. Como Cristo Crucificado, as Filhas da Caridade são chamadas a “um desapego total, interior e exterior, de tudo o que não é Deus”51.

Missão Do caminho de solidão e de intimidade exclusiva com Deus só, culminando na contemplação de Cristo Crucificado, brota em S. Madalena uma forte paixão apostólica e missionária, que a própria Fundadora assim escreve: “[...], desejaria poder reduzir-me a pó, se desse modo pudesse dividir-me por todo o mundo, a fim de que Deus fosse conhecido e amado”52. Todo o seu caminho espiritual a leva a “percorrer os caminhos do amor”53 e a ter um coração grande, “à imitação daquele grande Coração, que no Calvário ofereceu a vida do próprio Filho pelas almas”54. João Paulo II, indicou a cada uma de nós a medida do dom no ministério apostólico: “considerando a vida de Madalena de Canossa, dir-se-ia que a Caridade, como uma febre, a tenha devorado: a Caridade para com Deus, levada até os altos cumes da experiência mística; a Caridade para com o próximo, levada até às extremas consequências do dom de si aos outros”55. É este mesmo ideal que também, hoje, nos impulsiona a empreendermos o caminho, para ser cada vez Maddalena, Regole e Scritti, 53. Madalena, Memórias, 104. 53 Idem, 205. 54 Maddalena, Epistolario II/2, 1155. 55 João Paulo II, homilia, Canonização Solene de Madalena de Canossa, 02.10.1988. 51 52

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mais, ‘Filha da Caridade – Serva dos Pobres’. Expressões do carisma são os cinco ‘ramos’ ou ministérios de Caridade: educação, como prevenção do mal, resgate das pobrezas e promoção da pessoa; evangelização, como revelação e meta da dignidade de cada um; pastoral da saúde, como testemunho e anúncio que Deus não abandona na fragilidade; a formação dos Leigos ao apostolado e os exercícios espirituais, “complemento” dos ministérios de caridade, ocasião de particular encontro com Deus, oferecidos a diversas categorias de pessoas. A ministerialidade da Caridade, como foi intuída por S. Madalena, compreende a abertura missionária pelo mundo inteiro, para todos os lugares, onde o Senhor não é amado e onde o homem não é objeto de amor56.

Sentido de identidade e de pertença O carisma, na sua verdade e função, é proposto, em primeiro lugar à jovem, e depois, à consagrada: o carisma é a própria identidade, o nome que revela quem cada uma de nós é, e quem somos chamadas a ser aos olhos de Deus. É a condição para que cada uma seja ela mesma e seja feliz, além das qualidades e competências pessoais57. O senso de identidade é a consciência de ter adquirido um nome novo, que nos transforma nas profundezas do nosso ser. O sentido de pertença nasce e cresce do sentir-se parte de uma Família da qual se compartilha o carisma, a espiritualidade, a vida fraterna e a missão. Existe uma responsabilidade individual, da parte de cada Irmã, 56 57

Cf. Instituto, O Carisma, 31-32. Cfr. Cencini, Os sentimentos, 202. 214-217. 36


no passar do sentido de identidade ao sentido de pertença (do eu ao nós), através de um empenho constante e fiel à experiência mística, ao caminho ascético, à missão apostólica. Do mesmo modo a instituição e a comunidade são chamadas a favorecer a passagem do sentido de identidade de cada Irmã ao sentido de pertença. A Comunidade Canossiana, como lugar de realização de si, promove a comunhão dos ideais e a sua atuação; ao mesmo tempo, nos faz crescer no sentido de pertença que nos confirma nos valores, desenvolve os nossos dotes pessoais e nos dá a alegria de nos sentirmos realizadas. O sentido de pertença é alimentado pelo contínuo experimentar comunitariamente os elementos constitutivos do nosso carisma que, ao mesmo tempo, sustentam o sentido de identidade de cada Filha da Caridade. A esta, todas nós, em modo constante e cotidiano, somos geradas e regeneradas pelo perdão recíproco e pela reconciliação, reconhecendo-nos continuamente visitadas pela misericórdia de Deus, no amor do Senhor Crucificado. Assim, o ser Irmãs dentro da comunidade, é a primeira atuação do duplo Mandamento do Amor, contemplado no Senhor Crucificado58.

CRITÉRIOS-GUIA PARA A FORMAÇÃO CANOSSIANA A formação é o encontro entre a ação formativa do Pai e a disponibilidade progressiva de cada uma de nós a nos deixar moldar pelo amor de Deus. De fato, “cada Irmã é continuamente chamada a assumir a responsabilidade pessoal do próprio caminho de integração, ciente de que, a plena realização da vida está em perdê-la, 58

Cfr. Instituto, O Carisma Canossiano, 30. 37


no espírito do Evangelho e do carisma. Cada uma de nós, portanto, é convidada a cuidar da própria vocação e crescimento pessoal”59 Este processo, dinâmico e gradual, acontece no decorrer de toda a vida, até o momento da morte, e é a ação de Deus em cada uma de nós, que garante continuidade e unidade à nossa formação. Isto requer uma séria e constante projetação, segundo as etapas e expirações que compreendem todo o arco da vida, a partir da consciência da necessidade de uma Formação Permanente, desde o primeiro contato com a vida consagrada e com o ideal de vida canossiano. Todos os aspectos e as dimensões da nossa vida são envolvidos na experiência formativa, também com modalidades e finalidades diferentes, segundo as várias etapas da vida. Precisamente, por isso, é bom considerar alguns critérios-guia válidos para cada fase, para ter presente em cada intervenção formativa. A formação deve considerar, antes de tudo, a gradualidade, de modo que a experiência proposta seja um caminho apropriado à pessoa e à etapa que está vivendo, e cada uma possa ser provocada na vida e nas escolhas, mas sem se desencorajar por objetivos muito distantes das próprias possibilidades. É necessário que a formação siga também o princípio da integralidade: as propostas e o caminho de crescimento devem corresponder a todos os aspectos da pessoa: de fato, somos interpeladas a crescer e unir todas as nossas ener59

XIV Capítulo, Deliberações, p.10. 38


gias e faculdades – coração, mente e vontade – em torno de um único núcleo vital que nos fortifica, nos sustenta e nos provoca: Jesus Crucificado. Cada uma é envolvida em um caminho de formação contínuo e totalizante, no sentido de que todas as dimensões da nossa pessoa devem ser orientadas e estimuladas por valores da vocação Canossiana, de modo harmônico e dinâmico. É, portanto, fundamental que, em cada etapa do caminho formativo, se leve em consideração o crescimento, através de diversos pontos de vista, pensados numa relação de interação e de influência recíproca: o humano e afetivo, espiritual, carismático, comunitário e apostólico. A formação humana indica em que profundidade do nosso mundo interior humano deve chegar o processo de conformação a Cristo Crucificado. Ela envolve o precioso potencial de energia que cada uma possui e que é recuperado na sua complexidade. Permite-nos de estar a caminho da maturidade humana, objetivo que exige de nós a unificação de todas as energias afetivas, em torno da experiência do amor de Deus. A formação espiritual alicerça-se no dinamismo da fé e parte do pressuposto que somos capazes de nos transcender até nos abrir a Deus, sentirmo-nos amadas por Ele e, por nossa vez, amá-lo. O processo de crescimento torna-se para nós um processo de transformação radical e concreta, que não se contenta de modelar os comportamentos, mas chega ao coração, até que consigamos assumir os mesmos sentimentos de Cristo e os mesmos desejos de Deus. A formação carismática põe em realce o dom feito a S. Ma39


dalena e transmitido a nós, um dom absolutamente original, evidenciando como a nossa humanidade e a nossa fé alcançam a sua plenitude e a sua máxima expressão no encontro com o carisma. A formação comunitária nos recorda que o carisma é vivido junto e compartilhado no âmbito da fraternidade. A formação desenvolve a sua vitalidade cotidiana na comunidade e ajuda a sustentar as dificuldades do serviço apostólico na medida em que, para cada uma, o amor do Senhor é fonte e regra de vida60. Por isso, é indispensável que a comunidade seja formativa, e nos ajude a colocar no centro de nossa vida o amor generosíssimo de Cristo Servo. A formação apostólica acontece antes de tudo, no âmbito da comunidade: “é na comunidade que salvaguardamos e reforçamos a nossa identidade e nela ativamos processos de discernimento para a missão”61. É neste âmbito que pode acontecer o discernimento para a vocação “ad gentes”, ulterior chamada a expandir o dom da caridade, até os confins da terra. Somos também chamadas a amadurecer um estilo interministerial, através do Projeto Apostólico Comunitário, e a crescer na capacidade de escuta e de leitura crítica da realidade, para fazer cada vez mais escolhas carismáticas e inculturadas a favor dos pobres. Isto requer uma preparação profissional específica. É importante ainda que cada uma considere a formação 60 61

Cfr. Instituto, O Carisma Canossiano, 30. XIV Capítulo Geral, Deliberações, 15. 40


como um caminho gradual e guiado, não só pela graça do Espírito, mas também pelo confronto equilibrado e responsável com as suas mediações humanas, em particular com as Irmãs encarregadas da formação e/ou responsáveis das comunidades. Cada etapa pode apresentar uma provação: de fato, é a situação de cada uma de nós que, concebida como mistério, não se autopossui plenamente. A formação é tempo de provação. De fato é possível e se realiza através das dificuldades, como instrumento precioso de crescimento. A provação pode ajudar a crescer na própria identidade, no sentido de pertença ao próprio Instituto e na conformação a Cristo Crucificado, o qual também partilhou com a humanidade a experiência da tentação e da Cruz. A formação deve treinar cada Irmã à provação e ensiná-la a aprender com ela.

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SEGUNDA PARTE AS ETAPAS DO CAMINHO DA FORMAÇÃO CANOSSIANA:

Dos primeiros passos à entrega final de si No início deste documento, apenas se mencionou, como o empenho de renovação que o Instituto está perseguindo comporte, necessariamente, também uma reconsideração global da Formação, não só para fazer frente aos desafios do complexo período histórico que estamos vivendo, mas porque estamos convictas de que “a renovação dos Institutos religiosos depende principalmente da formação dos seus membros”62. Portanto, repensar a Formação é ‘questão’ prioritária, em função da vida e da continuidade do nosso Instituto. Trata-se, sobretudo, de ir além da concepção já superada da Formação, identificada tão somente com a Formação inicial. Tempos atrás, dava-se a ela a tarefa de preparar a Irmã de modo completo para a escolha definitiva e de ajudá-la a alcançar aquela maturidade e aqueles requisitos necessários para responder, ao longo da vida, às exigências da consagração e da vida comunitária e apostólica, como se o período do crescimento coincidisse só com este estágio inicial, enquanto o restante da vida fosse tempo de manutenção e de conservação daquilo que, inicialmente, fora aprendido. O tempo do crescimento não se reduz ao período inicial, porque a vida consagrada, exatamente, porque é ‘vida’, é caminho, evolução e progresso contínuo. O crescimento abraça todo o arco da vida, porque é só no suceder-se do tempo e Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Potissimum Institutioni, 1990, n.1 62

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das etapas evolutivas, que a Filha da Caridade pode procurar alcançar o ideal ao qual tende, isto é, a conformação a Cristo Crucificado. A Formação é, por si mesma, permanente e “só, a partir desta acepção naturalmente ampla, será possível subdividir os tempos da formação, em períodos correspondentes às fases existenciais, cada um com as suas características de vários tipos e a sua incisividade, mais ou menos evidenciada”63. Paradoxalmente, podemos dizer que a Formação Permanente, não é o que vem “depois” da Formação inicial, mas é o que a precede e a torna possível como ideia-mestra; é o que a gera, a guarda e lhe dá identidade64. A atuação de um projeto de Formação Permanente, aceito com responsabilidade por cada Filha da Caridade, permite às nossas realidades comunitárias de virem a ser e de serem conhecidas como lugares vitais, animadas pelo amor generosíssimo a Deus e ao próximo, e pelas quais irradia o fascínio da beleza de uma vida totalmente consagrada a Deus. A realização desse projeto faz com que as novas gerações possam encontrar o contexto vital, no qual o conhecimento do carisma é confirmado pela experiência vivida, e a identidade carismática, à qual tendem, é testemunhada pelo exemplo e pela proximidade de pessoas de diversas idades, em caminho à plena identificação com o ‘nome novo’. Assim, todas as Filhas da Caridade se tornam responsáveis pela guarda do carisma recebido, enriquecido também pela sua encarnação pessoal, para transmiti-lo ‘íntegro e perfeito’ às Irmãs mais jovens. A. Cencini, Formazione Permanente. Ci crediamo davvero? Bologna, 2011,31 Cf. A. Cencini, O respiro da vida. A graça da formação permanente, Paulinas, 2004, 25. 63

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O futuro do nosso Instituto, depende da renovada vivacidade dos nossos contextos comunitários, atuados por uma autêntica Formação Permanente, indicada a cada Irmã como empenho de vida, na fidelidade cotidiana ao dom da “vocação a este Santo Instituto de Caridade”65. Tendo presente o princípio de que a Formação Permanente é a condição para o crescimento e o desenvolvimento da formação em cada etapa da vida, tratemos agora, de cada articulação e fase formativa, a partir da Pastoral Juvenil-Vocacional e da Formação Inicial.

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Maddalena, Regole e Scritti, I, 23. 44


PASTORAL JUVENIL E VOCACIONAL “Se conhecesses o dom de Deus...!” (Jo 4,10) Significado e finalidade A solicitude de muitas comunidades cristãs pela pastoral juvenil é amplamente sustentada pela Igreja inteira que, exercendo o seu mandato de evangelização, dirige-se de modo especial aos jovens que, por sua situação existencial, psicológica, social e espiritual, são os destinatários naturais da esperança cristã. De fato, os jovens têm “direito de ser evangelizados, porque têm maior necessidade do Evangelho para responder às questões de sentido que cercam seu crescimento, para ter um horizonte ideal, não ilusório nem restrito, para ter a vida em abundância no conhecimento do amor do Pai, revelado na humanidade filial de Jesus e testemunhado na interioridade do Espírito”66 Além disso, a criticidade do educar em uma sociedade complexa obriga, ainda mais os adultos a assumir esta responsabilidade, já que na atual situação cultural prevalecem a insatisfação e o vazio existencial, a fragilidade das pessoas, a precariedade das relações... Muitos jovens, sobretudo nos continentes de antiga tradição cristã, manifestam um grande mal-estar diante de uma vida ausente de valores e de ideais, e tudo se torna provisório e Istituto Figlie della Carità Canossiane, Progetto di Pastorale Giovanile, 1998, Premessa. 66

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parece instável. Isto causa sofrimento interior, solidão, fechamento narcisista, medo do futuro, e pode levar a um exercício desenfreado da liberdade. Ao mesmo tempo encontra-se nos jovens uma grande sede de significado, de verdade e de amor. Para nós, Canossianas, a Pastoral Juvenil é um campo apostólico vinculante, cuja obrigatoriedade é inerente à própria natureza do carisma, que nos chama a prevenir o mal antes que aconteça, “dependendo, normalmente, da educação a conduta de toda a vida”67. O carisma canossiano nos chama a estarmos atentas aos jovens para promover o seu crescimento. O Amor do Cristo Crucificado é o ponto de partida com o qual queremos convidá-los a ser discípulos no seguimento, para que n’Ele descubram gradativamente, que cada fragmento de vida tem um significado redentor e para que encontrem aquele “espaço” onde ficar para construir a própria história68. A Pastoral Juvenil Canossiana, abraça e atravessa todos os Ramos de Caridade e nos chama, quais educadoras da fé, a estarmos atentas aos adolescentes e jovens para cuidar de seu crescimento. Além disso, como consagradas, somos chamadas também a nos tornar animadoras vocacionais: “de fato, quem é chamado, não pode deixar de chamar”69. A finalidade principal da Pastoral Juvenil Canossiana é conduzir adolescentes e jovens em um caminho de crescimento humano e em uma experiência de fé e de encontro com o Senhor Jesus, ajudando-os a reler a própria vida, em chave vocacional e missionária. Madalena, Regra Difusa, 85 (Ed. Port). Cfr. Istituto Canossiano, Linee di Pastorale Giovanile Canossiana, Bologna, 2000, 11-12. 69 Congregazione, Potissimum, n. 17. 67 68

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Somos, portanto, convidadas a encorajar os jovens para o discernimento em torno do seu projeto de vida, provocando neles a pergunta vocacional, através da nossa humanidade plenamente realizada. Consequentemente, “todas as comunidades canossianas são, por si mesmas, comunidades vocacionais, quando sua vocação é vivida com consciência profunda e entusiasmo dos membros da comunidade e quando a comunidade se reúne para responder ao chamado do discipulado ministerial”70. Depois de ter identificado nos jovens os sinais de uma particular vocação, favorecemos neles a disponibilidade para um caminho de acompanhamento e de discernimento. Trata-se de realizar uma pastoral juvenil, que não pode deixar de ser também pastoral vocacional, através da qual os jovens possam interiorizar a proposta vocacional como guia ao mistério da própria vida e da identidade, da própria fé e da vocação.

Responsáveis A comunidade canossiana é composta de Irmãs que, movidas pelo Espírito e unidas pelo mesmo carisma, vivem juntas para anunciar e testemunhar o amor sempre disponível de Deus para cada pessoa, assim como foi evidente em Jesus Cristo, no momento culminante de seu doar a vida por nós na cruz. A comunidade testemunha eficazmente o carisma, na medida em que revive os seus três elementos constitutivos: a experiência mística, o caminho ascético e a missão apostólica. As modalidades concretas através da qual a comunidade Instituto das Filhas da Caridade Canossianas, Linhas Mestras da Animação Vocacional Canossiana, Bologna, 2002, 43. 70

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Canossiana exprime o seu serviço no âmbito da igreja local são: a educação, a evangelização, a pastoral da saúde, a formação dos leigos e os exercícios espirituais, a fim de que a Caridade se estenda quanto mais possível. Cada comunidade é chamada e solicitada a “adotar um estilo de vida simples, alegre e fraterno, que se reflita também nos ambientes abertos e acolhedores”71, de sorte que seja e se torne cada vez mais testemunhos credíveis de fraternidade evangélica. É sempre na comunidade que “salvaguardamos e reforçamos a nossa identidade72” de Filhas da Caridade – Servas dos Pobres, aprendendo a nos servir humildemente e a ajudar-nos reciprocamente, não nos desencorajando por causa das nossas fragilidades e as dos outros, mas vivendo-as como possibilidades de conversão, de reconciliação e de salvação. Todas as comunidades canossianas são também interpeladas a “explorar novos modos de responder às necessidades emergentes”73, com uma particular atenção aos jovens, para que cresçam na “fantasia da caridade”74 e se envolvam em projetos a favor dos mais pobres. Cada Irmã, enquanto Canossiana, é chamada em primeira pessoa a manifestar a alegria da sua escolha vocacional e o sentido de pertença à Família Religiosa, considerando um dos seus principais compromissos, a oração pelos jovens e pelas vocações. O testemunho coerente e radical da nossa consagração, XIV Capítulo Geral, Deliberações, 12. Idem, 15. 73 Idem, 16. 74 João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, 2001, n. 50. 71 72

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torna atraente e credível o ideal canossiano a quem quer que se aproxime de nós, quer na vida fraterna, quer nos vários âmbitos apostólicos ou em qualquer serviço que realizamos. As Irmãs envolvidas diretamente na pastoral juvenil, são chamadas a estar lá no meio dos jovens, tornando-se criativas para encontrar caminhos de encontro. “Estar lá”, como pessoas adultas significa para cada uma de nós, ter um profundo sentido da vida, vivê-la com alegria e ser capaz de narrar a própria experiência de fé, dando razão da esperança que trazemos no coração. Para nós, Canossianas, “estar lá” entre os jovens, quer dizer permanecer em estado de diálogo, capaz de escuta confiante e de acolhida profunda dos jovens, assim como eles são, atentas às diversidades de que cada um é portador, e deixando-nos questionar por suas riquezas75. Para S. Madalena, é indispensável ainda, que as Irmãs estejam entre os jovens com uma presença educativa, que cautelosa e atentamente, procura prevenir o erradicar-se do mal. A Fundadora preocupa-se, não apenas que as Irmãs “não se esqueçam de manter os olhos abertos sobre as meninas76, mas sobretudo que nunca as abandonem a si mesmas”77. Os leigos, com os quais colaboramos nos ministérios, são também agentes de pastoral juvenil; com eles nos formamos na mesma paixão educativa, partilhamos o estilo de trabalho e a metodologia da pastoral juvenil, envolvemo-los nos grupos de trabalho de programação e de realização das várias propostas. Cfr. Istituto, Linee, 41-42. Maddalena, Regole e Scritti, I, 195. 77 Cfr. Idem, 192. 75 76

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Destinatários Todos os jovens, próximos ou distantes, de diferentes religiões, que encontramos nos nossos ministérios de Caridade, são destinatários de pastoral juvenil. Eles, embora nem sempre conscientes, estão em busca de um projeto sobre o seu futuro, mais exatamente estão em busca do projeto de Deus sobre a sua vida, e nós somos chamadas a acompanhá-los nesta busca que é verdadeiramente uma busca vocacional: “Podemos, portanto, ver que a pessoa que se abre a uma sensibilidade para a busca da própria vocação e que tem diante de si um possível plano, é o destinatário da animação vocacional”78. Somos ainda solicitadas a alcançar e a “privilegiar, como os mais queridos, aqueles marcados por dificuldades a vários níveis: pessoal, familiar e social, mesmo que o aproximarmos deles, nos constitua um desafio, pede-nos mais autenticidade, mais disponibilidade e verdadeira gratuidade”79

Âmbitos Em comunhão com a Igreja local, realizamos as nossas propostas no interno dos ministérios de Caridade e das experiências de voluntariado em cada Província ou no exterior (VO.I.CA), através das várias modalidades: encontros, congressos, acampamentos, convivências, experiências de oração, exercícios espirituais, peregrinações, JMJ, etc. São também válidos momentos formativos, os intercâmbios com as jovens em formação.

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Istituto, Linee, 31. Linee Portanti di Pastorale Giovanile Canossiane, 20 50


Avaliação Para as jovens que iniciaram uma caminhada de crescimento humano e de experiência de fé, e que se sentem atraídas pelo carisma canossiano, podemos oferecer um tempo de experiência de oração, de fraternidade e de serviço em uma das comunidades da Província ou, intuindo os sinais de uma vocação “ad gentes”, também no exterior, para que possam, ulteriormente, confrontar-se com o projeto de Deus sobre elas. A Irmã Canossiana que acompanha a jovem procurará ajudá-la a esclarecer em si, as motivações vocacionais, sobretudo as referentes à percepção da própria opção, como capacidade de doação e de responsabilidade em relação a si e aos outros.

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FORMAÇÃO INICIAL DISCERNIMENTO VOCACIONAL E ACOMPANHAMENTO “Vinde e vede!” (Jo 1,39) Significado e finalidade O discernimento vocacional é o processo que ajuda os jovens a compreender como o Senhor Jesus os chama e os convida a segui-lo, a partir da própria história passada até chegar àquela presente, porque é nela que Deus indicou e está fazendo nascer e crescer um projeto vocacional. O acompanhamento vocacional é, ao invés, a ajuda temporária que uma Irmã maior na fé e no discipulado, oferece aos jovens partilhando com eles um pedaço de caminho, para que possam conhecer melhor a si mesmos e o dom de Deus e decidir responder em liberdade e responsabilidade. Também a nossa Fundadora, reconhecendo desde o início que “a vocação é dada gratuitamente pela liberalidade do Senhor”80, havia dado grande e fundamental importância ao caminho de discernimento vocacional antes da entrada no Instituto. De fato, ela diz repetidamente: “Convirá que a Superiora proceda com muita cautela e muita oração antes de receber uma candidata”81, e “... as Irmãs que perceberem esta possibilidade, rezem muito e de coração ao Senhor...”82. Regole e Scritti, I,89. Idem, 49. 82 Idem, 69-70. 80 81

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A nossa presença adquire valor formativo em ajudar os jovens a descobrir, através de um caminho de acompanhamento, a presença do mistério de Deus em sua história pessoal como um lugar natural e onde eles podem, concretamente, reconhecer a Deus que chama. Todas as Irmãs Canossianas são chamadas a propor aos jovens caminhos de acompanhamento e discernimento vocacional: a proposta é feita a todos, também onde poderia parecer não oportuno e não ter a possibilidade de uma continuidade. Toda Filha da Caridade é chamada a guiar os jovens na descoberta do dom de Deus na história pessoal, através do conhecimento de si mesmos, do próprio mundo emotivo, cognitivo e afetivo. Além disso, quem acompanha tem a tarefa de verificar nas jovens a existência das disposições mínimas para a vida de uma Filha da Caridade, Serva dos Pobres, de uma possibilidade de crescimento, a nível humano e espiritual, e de uma eventual vocação “ad gentes”, solicitando nas mesmas, as condições iniciais para que possam amadurecer numa capacidade de escolha83. No caso em que não se entrevissem os sinais da chamada à vida consagrada canossiana, a Irmã continua a buscar com a jovem o projeto de Deus sobre ela, tendo presente o pensamento de S. Madalena que, “quando a vocação não é clara e segura não faremos senão enganar a moça e [...] prejudicar o Instituto”84. Esta fase, portanto, é um tempo de transição gradual para 83 84

Cfr. Cecini, Vita consacrata, 60. Maddalena, Epistolario, III/1. 301-302. 53


o início da vida religiosa, cuja duração é relativa ao crescimento da jovem.

Conteúdo A Irmã canossiana que acompanha, inicia a jovem, a uma leitura cristã da sua história, de sorte que, o que lhe aconteceu ou aquilo que faz, possa ser por ela percebido como um lugar de encontro com Deus e de discernimento da sua vontade. O aprofundamento do próprio caminho de fé, através da catequese e uma significativa vida sacramental e de oração, torna-se também critério de discernimento. É importante também que a Irmã desperte na jovem algumas escolhas em descontinuidade com a vida precedente, e lhes proponha experiências iniciais de contato com o carisma canossiano, em uma de nossas comunidades, escolhida segundo a situação inicial de cada uma. Nela, a jovem experimenta a espiritualidade canossiana e o estilo de vida das Filhas da Caridade e assim, possa confrontar-se com a própria disponibilidade para discernir sobre tal opção.

Modalidade Instrumento formativo privilegiado deste particular tempo de discernimento é sem dúvida o acompanhamento sistemático da Irmã Canossiana, que está ao lado da jovem na sua busca. Ajuda-a a discernir o mistério de sua identidade através da história pessoal, e a reconhecer que a encarnação do mistério nela nem sempre aconteceu de modo linear, mas encontrou também obstáculos e fadigas85. Cfr. A. Cecini, Redescobrindo o mistério. Guia formativo para as decisões vocacionais. Milão, 1997; A história pessoal, casa do mistério. Indicações para o discernimento Vocacional, Milão, 1997. 85

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Outras modalidades formativas, não alternativas, mas complementares ao acompanhamento sistemático, podem ser o contato com uma comunidade Canossiana local, experiências de vários dias junto a uma comunidade apostólica canossiana, onde a jovem possa experimentar a nossa vida de oração, de fraternidade e de dedicação aos outros, tempos de aprofundamento, partilha e confronto com outras jovens que também estão em busca.

Avaliação Durante esta primeira fase, e no seu término, a Irmã que acompanha a jovem terá a atenção e o cuidado de avaliar sua motivação e retidão vocacional86, verificando concretamente a sua disponibilidade a abrir-se à novidade da vida consagrada87, a crescer na vida espiritual e a iniciar com alegria88 o caminho de formação. Ainda nesta primeira fase, a Irmã tenha o cuidado de individuar, algum sinal da paixão apostólica e missionária Canossiana, numa atenção inicial a quem está necessitando. Certifique-se também se a jovem goza de boa e equilibrada saúde psicofísica89, e que tenha um diploma de ensino médio e que não tenha mais que 35 anos de idade. Exceções podem ser consideradas em diálogo com a Superiora Provincial. Se o resultado for positivo, a candidata faz o seu pedido por escrito à Superiora Provincial para poder iniciar o pré-noviciado. Cfr. Maddalena, Regole e Scritti, 1, 69. Cfr. Maddalena, Epistolario, III/1, 17. 88 Cfr. Maddalena, Epistolario, III/2, 1347. 89 Cfr. Maddalena, Epistolario, II/ 2, 952, nota 16. 86 87

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PRÉ-NOVICIADO “Fala, Senhor, que tua serva escuta” (1Sam 3,9) Significado e finalidade O pré-noviciado é um tempo de crescimento pessoal e de discernimento para a jovem que deseja confrontar o próprio dom com o carisma canossiano e conhecê-lo na modalidade da vida religiosa. Caracteriza-se por uma atenção especial ao crescimento do próprio ser mulher e cristã. As jovens de hoje, “futuras esperanças do bem do Instituto”90, têm necessidade de ser estimuladas aos altos ideais do seguimento radical de Cristo e às exigências profundas da santidade, em vista de uma vocação que as supera e, talvez, vá além do projeto inicial que as impulsionou a entrar no Instituto. Por isso, o objetivo geral deste período é o amadurecimento nas jovens da capacidade de escolher livremente e, como crente, de entrar na vida consagrada Canossiana. Além desta finalidade, a Irmã encarregada também considera: • a maturidade de fé numa relação pessoal com Cristo Crucificado, que prenuncia uma maturidade vocacional, numa ótica de discernimento à vida consagrada Canossiana apostólica e à vocação “ad gentes”, 90

Maddalena, Regole e Scritti, I, 125. 56


• a consciência de que a vocação não é a busca de um projeto pessoal de formação, mas o de se colocar exclusivamente ao seguimento de Cristo Crucificado, para amar a Ele só e viver nele a filiação do Pai, • a escuta atenta da Palavra, em cuja luz alimentar a própria vida interior e verificar as motivações profundas que movem a vida da jovem, • a integração de uma “mentalidade de mudança” a respeito da condição de vida precedente, em sintonia com a dinâmica do seguimento no interno da Família Canossiana, • a formação gradual à comunicação, ao diálogo, à partilha e ao confronto em vista da vida fraterna e ministerial. O pré-noviciado é também um “tempo de provação”91, em que a jovem, enquanto consolida a sua relação pessoal com o Senhor, é gradualmente introduzida na vida fraterna em comunidade, na riqueza da oração vivida em dimensão apostólica, na solidariedade nos ministérios e nos diversos serviços de família.

Pessoas em formação O itinerário formativo do pré-noviciado é oferecido à jovem do nosso tempo que, fascinada pelo Senhor Jesus Crucificado, deseja segui-lo e viver para o seu Reino em nossa Família Religiosa. Atraída pelo nosso estilo de vida e sensível à necessidade do próximo, ela participa ativamente da vida eclesial, escolhendo experimentá-la em uma comunidade apostólica e através dos nossos ministérios de caridade. 91

Idem, 137 57


Com a Formadora, a pré-noviça discerne a vocação ao carisma canossiano, visto mais como um dom recebido do que como uma oferta de si, e a possibilidade que este dom único, pessoal e gratuito, leve à plenitude sua humanidade. Neste contexto pode acontecer um discernimento inicial da vocação “ad gentes”. O processo de discernimento pode verificar-se também na luta entre a atração pelo ideal e a fadiga de uma resposta livre, diante do desapego e da necessidade de mudança.

Conteúdos O conteúdo da formação do pré-noviciado refere-se principalmente a cinco áreas:

• a dimensão humana - um conhecimento gradual de si, dos dons e das fragilidades, da própria sexualidade e feminilidade; a aceitação e a integração da história pessoal, que leva à integração da afetividade, da vida e do próprio passado, marcando o início de uma relação nova com Deus, consigo, com os outros e com a criação, - a capacidade de tomar decisões autônomas e significativas para a própria vida, - o estupor e o entusiasmo, típicos da juventude, que manifestam a paixão pelos ideais do Bem, da Beleza e da Verdade, - a coragem e a constância em viver com coerência as consequências das próprias escolhas, aguentando a fadiga da renúncia, mostrando disponibilidade de crescer e de saber fazer as primeiras rupturas e os primeiros desapegos sig58


nificativos com o estilo de vida precedente, - um caminho de maturidade humana que se refere, não só ao aspecto intelectual, mas também e, sobretudo aos afetos, às emoções e à vontade, - a maturidade afetiva como capacidade de solidão e de relações sociais serenas com ambos os sexos, - a capacidade de reconhecer e chamar por nome as próprias fraquezas e fragilidades e de empenhar-se a superá-las, - um caminho de doação alegre e de humilde e serena atitude em aceitar as diferenças culturais existentes no grupo.

• a dimensão social - a gratidão e o afeto para com a própria família de origem e por todos os que ajudaram a jovem a crescer, - uma atitude de gratidão em relação à comunidade que compartilha o seu caminho, - um acolhimento indistinto dos irmãos e irmãs que Deus põe em seu caminho, amadurecendo uma aceitação gradual dos limites dos outros, - a capacidade de relacionar-se e de colaborar, de forma igual, com todos: leigos e Irmãs, - a sensibilidade para com os que estão em necessidade e a atitude de cuidar deles.

• a dimensão espiritual - a atitude para descobrir-se como dom, que gera um sentido de gratidão, no âmbito humano e vocacional, e estimula a tornar-se dom para os outros, - o reconhecimento progressivo da paternidade do Deus de 59


Jesus Cristo que, através da ação do Espírito, age na história cotidiana, - a relação pessoal e autêntica com o Senhor Jesus, numa vida gradual de oração, na vida sacramental e litúrgica, vivida pessoalmente e em comunidade, - a catequese sistemática para o conhecimento dos fundamentos da fé, - um primeiro contato com a Palavra de Deus,92 - a orientação de Maria, Mãe de Deus e modelo de fidelidade ao projeto do Pai, - a descoberta do significado e do valor da vida interior, no silêncio e na escuta, “segundo as várias necessidades e situações”93 - uma espiritualidade redentora, em função dos outros e da salvação deles.

• a dimensão carismática - o conhecimento da Fundadora, mulher criativa na Caridade e modelo de santidade ainda hoje, de S. Josefina Bakhita, Irmã Universal e mulher reconciliada, e de outras figuras significativas da Família Canossiana, - o confronto entre: os ideais da jovem e os valores propostos pelo carisma canossiano, o caminho de fé da jovem e a espiritualidade Canossiana: o amor a Cristo Crucificado e à sua Mãe, Nossa Senhora das Dores, o modo como a jovem entende os ministérios e o projeto apostólico canossiano. 92 93

Cfr.Maddalena, Regole e Scritti, I, 134-135. Idem, 27 60


• a dimensão apostólica - as experiências de serviço e de imersão nos nossos ministérios de Caridade, para descobrir o seu estilo humilde e alegre e para ser introduzida no processo formativo de discernimento: ver, conhecer e agir, - a missão, também além dos próprios confins, entendida não só como serviço, mas como anseio de quem se sente salvo e, querendo compartilhar o dom com os outros, partilha também a própria espiritualidade em “fazer Jesus conhecido e amado”.

Âmbitos O crescimento consciente da própria resposta vocacional e a liberdade interior da pré-noviça encontra um espaço favorável, sobretudo nos seguintes âmbitos: a. A Comunidade Formativa: aberta à cultura das jovens, as acolhe e oferece-lhes a possibilidade de experimentar o dom precioso da fraternidade, com suas luzes e as suas sombras, num clima respeitoso, sereno e alegre, para que elas possam manifestar-se como são. A comunidade compartilha também a oração comunitária e favorece tempos de oração pessoal. Na comunidade, a jovem confronta-se com a realização da única missão canossiana, através do conhecimento dos vários serviços apostólicos, possivelmente em uma modalidade interministerial e, eventualmente, também missionária. Uma Irmã, da comunidade, preparada adequadamente 61


e empenhada em um caminho de integração pessoal, é responsável de acompanhar e seguir pessoalmente a pré-noviça no caminho de crescimento humano, espiritual, vocacional e carismático: “procurando [...] ganhar a confiança da jovem [...] procure descobrir sua índole, temperamento, inclinações”94. A Irmã se faz guardiã do itinerário formativo previsto. Orienta-a à compreensão da vida fraterna e a ajuda a ler a vida cotidiana e cada acontecimento no espírito de fé, através de colóquios pessoais regulares e encontros formativos específicos e sistemáticos b. A participação a algum curso bíblico-teológico, permite à pré-noviça de alimentar as suas motivações e de ampliar os horizontes dos conhecimentos e da competência ministerial.

Modalidade - um caminho formativo pessoal e guiado pela Irmã responsável, - a direção espiritual, - um trabalho de aprofundamento para amadurecer no conhecimento de si e dos outros, - um acompanhamento psicoterapêutico, quando houver necessidade, - a releitura gradual da vida à luz da Palavra de Deus e dos textos carismáticos, - uma experiência proporcionada às possibilidades reais da jovem, dando-lhe a oportunidade de envolver-se e comprometer-se com gestos concretos naquilo que está vivendo 94

Idem,132. 62


e que lhe é proposto, mas com uma escolha livre, proporcionável às suas forças, dentro do que se viveu na vida fraterna, na vida de oração e no serviço apostólico95. - uma permanência significativa na casa de Noviciado, antes de seu início.

Avaliação Em nosso Instituto, o pré-noviciado dura, normalmente, um ano96, e pode ser prolongado por dois anos, e não mais. Ao seu término, a jovem expressará o desejo livre e consciente de seguir Jesus em nossa Família religiosa. Depois de ter ouvido sua autoavaliação e o parecer da comunidade, a Irmã responsável apresenta à Superiora Provincial um relatório escrito, no qual manifesta o seu parecer e o da comunidade a respeito da idoneidade da jovem a continuar o caminho formativo. Neste relatório, a Formadora explicita se a candidata é considerada apta a viver gradualmente o empenho da consagração, e se recebeu uma preparação adequada para a etapa sucessiva. Oferece à Superiora Provincial os elementos para ela se pronunciar sobre a oportunidade e o momento da admissão ao Noviciado. Além dos elementos exigidos pelo Direito Canônico97, a Formadora estará atenta em avaliar a capacidade da pré-noviça de fazer, de maneira livre e responsável, uma escolha vocacional motivada, reta98, e alegre, decidida a viver para o SeCfr. Cencini, Vida consagrada, 117-121. Cfr. Congregazione, Potissimum, n. 43. 97 Cfr. Código de Direito Canônico, Ed. Loyola, 2004, cân. 641-645. 98 Cfr. Maddalena, Regole e Scritti, I, 51. 95 96

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nhor Jesus Crucificado e de colaborar à sua missão salvífica99. No discernimento considere-se na jovem, também o grau de maturidade na vida de fé, a nível sacramental, doutrinal e moral, de sorte que no noviciado não se deva retroceder a um simples catecumenato; um nível intelectual suficiente para compreender os valores e as exigências da vida consagrada canossiana100. A Irmã encarregada verifique se na jovem existe “um caráter amante da harmonia e da paz”101, sinal de uma aceitável maturidade humana, de uma identidade estável e da disponibilidade de viver em comunidade relações serenas, também com as Irmãs que exercem um serviço de autoridade102 . A disponibilidade de conhecer-se, nos próprios talentos como nos próprios limites, na sinceridade e na verdade de si mesma, e o são realismo em enfrentar lutas e dificuldades, são sinais do desejo de crescer e de formar-se para se tornar uma autêntica Filha da Caridade Canossiana. Certifique-se também se há uma explícita inclinação aos ministérios de caridade típicos do nosso Instituto103. No caso em que estes elementos não estejam presentes, S. Madalena recomenda: “... se apesar de todo cuidado e atenção usada, a escolha fosse errada, [a jovem] seja, sem temor algum, dispensada e o Instituto seja conservado em seu próprio espírito e na sua integridade”104. Cfr. Idem,71;Epistolario, I, 502; III/2, 979; III/3. 1696. Cfr. Maddalena, Epistolario, II/2, 1179. 101 Idem, III/2, 1766 102 Cfr. Maddalena, Regole e Scritti, I, 51. 103 Cfr, idem, 50-51 104 Cfr. Maddalena, Regole e Scritti, I, 26 99

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Se o Noviciado é feito num país diferente daquele de pertença, um bom conhecimento da língua em uso facilita sua inserção. É auspicioso, onde for possível, a aprendizagem da língua italiana para a aproximação às fontes carismáticas.

Passagem ao noviciado Ao término da etapa, a jovem apresenta pedido por escrito à Superiora Provincial, de poder iniciar o noviciado. Compete a ela, levando em conta o parecer da Formadora e da Comunidade em que viveu considerá-la idônea a continuar o caminho. Antes do início da etapa sucessiva, será oferecida a jovem a possibilidade de transcorrer um período de inserção na comunidade do noviciado, para familiarizar-se com o novo ambiente, um período na própria família e um tempo de reflexão e oração.

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NOVICIADO “Vou seduzi-la, conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração” (Os 2, 16)

Significado e finalidade O noviciado é, por excelência, o tempo forte de iniciação integral à forma de vida proposta pelo carisma canossiano, e de experiência do seguimento radical de Cristo Crucificado, que a jovem se dispõe a por no centro de sua existência, com a proteção de Maria, discípula fiel do Filho e Mãe da Caridade ao pé da Cruz. A jovem é guiada à assimilação progressiva dos sentimentos de Cristo Crucificado pelo Pai e pela humanidade inteira e à integração da própria identidade dentro do carisma, vivido e conservado no Instituto. Objetivo último desta etapa da Formação Inicial, é introduzir gradualmente a jovem à “docibilitas”, entendida como a capacidade de compreender através da vida, com o coração generosíssimo de Jesus, vivendo cada situação existencial e relacional como lugar de formação. Este estado interior de constante liberdade de aprender na vida e com a vida, é o ponto de chegada da Formação Inicial, e permite a continuação do caminho, visto como um longo processo de Formação. O Noviciado dura, normalmente, dois anos. 66


Pessoas em formação Em nosso Instituto é admitida ao noviciado a jovem que, tendo completado o pré-noviciado, expressa por escrito o desejo de continuar o caminho de discernimento a respeito de sua própria vocação religiosa, abrindo-se à disponibilidade de se tornar uma autêntica Filha da Caridade.

Objetivos A jovem, que é acolhida na comunidade de noviciado: • aprofunda o sentido da sua consagração batismal e continua o confronto com a vida consagrada Canossiana para chegar a uma escolha mais livre e consciente, • toma consciência do dom da vocação no Instituto das Filhas da Caridade Canossianas, aberto às necessidades do mundo inteiro, • enfrenta a dificuldade de realizar a sua identidade de mulher e de cristã, em todos os aspectos da sua individualidade, nos comportamentos e nas intenções, e prepara-se para se tornar ‘irmã e mãe’ de todos, sobretudo dos mais necessitados, • experimenta, efetiva e afetivamente, o carisma canossiano como o seu ‘nome novo’, aprendendo gradualmente a integrar as razões do coração, da mente e da vontade com o projeto carismático e os seus valores, • põe-se a caminho a uma progressiva assimilação dos sentimentos de Cristo Crucificado para com o Pai, • experimenta o estilo de vida próprio do Instituto e se torna disponível a avaliar as suas próprias motivações e intenções, as suas reais capacidades e a idoneidade para viver as exigências da consagração, na vida de fraternidade e para a missão. 67


Conteúdos • a dimensão humana À jovem propõem-se: - assumir os valores evangélicos que levam a escolhas que exigem renúncias, como consequência da vocação abraçada por amor, - um percurso de liberdade que a conduz a se tornar o que realmente ela é chamada a ser, transformando a própria humanidade na profundidade em que deve acontecer a adesão a Cristo, - o aprofundamento do conhecimento e da aceitação de si, distinguindo as energias positivas das que requerem redenção, aprendendo a integrá-las serenamente, aceitando também as dificuldades que isso comporta, - a valorização da própria feminilidade, sexualidade e afetividade, abrindo-se cada vez mais, à gestão das próprias emoções, paixões, sentimentos e afetos, empenhando-se a crescer como mulher humanamente madura105, - o crescimento na capacidade de relacionar-se, de maneira adulta, com o diferente e na liberdade de ser ela mesma dentro de um grupo, - a capacidade de ser verdadeira consigo, aprendendo o desapego das preferências, permitindo-se ser provocada com serenidade e amadurecendo a responsabilidade dos empenhos assumido, - a identificação exata de suas principais áreas de imaturidade e a explicitação de um respectivo caminho de superação. 105

Cfr. Maddalena, Epistolario, III/1, 503. 68


• a dimensão espiritual À jovem propõem-se: - o aprofundamento da sua fé em Cristo Crucificado e da relação pessoal com Ele106 , com uma intensa oração que se manifesta na vida de cada dia, - a familiaridade com a Palavra de Deus que alimenta a disposição a uma “mentalidade de fé” e o desejo de assumir os critérios evangélicos, - a interiorização do espírito de oração, na docilidade à ação do Espírito Santo, - a aceitação da solidão para “estabelecer-se em Deus só”107, - a abertura ao dom do silêncio, como meio para escutar a Palavra de Deus e viver a intimidade com Ele só, - o conhecimento aprofundado dos votos no contexto de hoje, em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária, ministerial, profética e escatológica.

• a dimensão carismática À jovem propõem-se: - a descoberta, cada vez mais aprofundada, da identidade canossiana que se especifica no ‘nome novo’ que é chamada a assumir: Filha da Caridade, Serva dos Pobres, nome que se traduz na adesão vital ao duplo mandamento do amor108, - a aproximação às fontes carismáticas, onde haurir a expeCfr. Congregação, Partir de Cristo, n.20. Maddalena, Regole e Scritti, I,55. 108 Cfr. XIV Capítulo Geral, Deliberações, 6. 106 107

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riência de S. Madalena, manifestando o desejo de fazê-las suas, - o encontro com o Senhor Jesus para “plantar bem o Crucificado no coração”109, - o convite a modelar gradualmente o próprio modo de viver e de amar, ao do Senhor, procurando assumir os seus mesmos sentimentos e interiorizando as virtudes nele contempladas: a obediência, a humildade e a pobreza, - assumir as virtudes do Servo e a interiorização do espírito de serviço, - a solicitude em aprender a amar Maria, Mãe e Fundadora do Instituto e, como ela, ser discípula ao pé da cruz de Jesus, - o conhecimento claro dos Conselhos Evangélicos e assumi-los gradualmente, descobrindo neles uma grande possibilidade de realização da própria humanidade, em particular: - a possibilidade de confrontar sua chamada de viver a pobreza evangélica conforme o modelo do “nosso grande Exemplar Jesus Crucificado, [...] que na cruz foi despojado de tudo, exceto que de seu amor”110, aprendendo a viver a pobreza como liberdade, não só em relação às coisas, mas também consigo mesma, com os próprios limites e com as fragilidades dos outros, apreciando um estilo de vida sóbrio e simples, grato e gratuito, o amor pelos pobres e o cuidado pela criação, experimentando a fadiga de servir-se de meios pobres na vida do dia a dia, nas atividades e no apostolado, amadurecendo uma serena atitude de dependência e de interdependência, pedindo com simplicidade aquilo 109 110

Maddalena, Regole e Scritti, I, 134. Idem, 34. 70


de que necessita, coisas ou dinheiro, administrando-os com responsabilidade e apresentando uma prestação de contas, fiel e transparente, tornando-se atenta guardiã do tempo que tem à sua disposição, para não viver na dispersão e,generosamente fazer dele um dom a quem pede sua disponibilidade. - a oportunidade de verificar o próprio chamado a viver a obediência religiosa conforme o modelo do Cristo, Crucificado e Servo, que na Cruz ofereceu “a parte mais nobre, de seu sacrifício, que é a própria vontade”111, caminhando para um equilibrado senso de autonomia, tomando consciência de possíveis falsas expectativas em relação à autoridade, mostrando respeito pelos outros no exercício do diálogo e da colaboração, tanto com os superiores como na comunidade, colocando em luz as motivações de qualquer pedido, de modo que a obediência seja sempre responsável, mesmo quando é exigente e compreensível só a partir da fé. - a ocasião de confrontar o próprio chamado a viver a castidade consagrada para que tudo o que se é e se tem “seja totalmente e unicamente dedicado ao Senhor”112 aceitando serenamente a própria realidade humana, administrando as relações interpessoais de modo equilibrado e maduro, na comunidade e no apostolado, nas amizades e com todos, 111 112

Idem, 30. Idem, 53. 71


experimentando, realmente, o desapego afetivo e efetivo que a vida consagrada comporta e, em consequência, vivendo o espírito generosíssimo de Cristo na Cruz, fazendo experiência da renúncia pascal, também através da ajuda de uma ascese cristã que libera o coração e fortalece a vontade, Instaurando um ‘novo’ estilo relacional com a família de origem, que a jovem continuará a amar com respeito e reconhecimento.

• a dimensão comunitária A noviça é acompanhada em um caminho de: - aceitação da outra “diferente” de si, abrindo-se a um estilo de acolhimento e de serviço sem distinções, de fraternidade simples e alegre, de partilha do que é e do que tem, de “cuidado” recíproca113, de discernimento, de diálogo, de corresponsabilidade e de estima de uma pela outra. - crescimento no sentido de pertença, na estima e na gratidão pela própria comunidade e pelo Instituto, também através da participação ativa no traçar do Projeto Comunitário, - aprofundamento e interiorização dos elementos fundamentais da comunhão, promovendo a transparência nas relações, a liberdade, a amizade aberta e responsável, e amadurecendo na capacidade de dar-se mutuamente o perdão e de viver a correção fraterna, entendidas como abertura sempre maior a dar e receber o perdão e a compreensão114, - aprendizado da modalidade da partilha da Palavra de Deus e da espiritualidade canossiana. 113 114

Congregação, Partir de Cristo, n. 28. Cfr. Maddalena, Regole e Scritti,I, 93. 72


• a dimensão apostólico-missionária Propõem-se à noviça: - o amor filial à Igreja e a abertura ao mundo, atuando o mandato carismático de ‘fazer Jesus conhecido e amado”, em fidelidade a Deus e àqueles que encontra, - o conhecimento dos ministérios de Caridade, próprios do Instituto, a atuação de alguma experiência significativa no ministério, que pensa estar mais de acordo e, eventualmente, também missionária, - assumir o estilo do serviço canossiano: a humildade, a simplicidade, a amabilidade, a gratuidade e a colaboração, - o amor à universalidade da Igreja e à missão “ad gentes”, amadurecendo dentro de si uma mentalidade aberta à inculturação, - o aspecto da diversidade religiosa e cultural dos povos que abre ao diálogo, - uma obediência criativa e alegre capaz de propor os valores evangélicos a serem vividos na missão, - um tempo apostólico, durante o 2º ano, em uma comunidade diferente daquela do noviciado, no qual a experiência seja proporcionada, preparada, acompanhada, e depois partilhada e avaliada com a Formadora.

Âmbitos Os âmbitos específicos, em que o processo formativo da noviça acontece, são: • A Comunidade formativa do noviciado, onde cada Irmã contribui, respeitando sempre as diversas compe73


tências e funções, para o crescimento da jovem, favorecendo nela a liberdade interior e capacidade de amar. As Irmãs da comunidade são chamadas a viver a sua relação com a noviça de modo sempre construtivo. Partilham com a Formadora as linhas formativas, vivem a sua corresponsabilidade formativa, dando a própria contribuição, especialmente com o testemunho de uma vida coerente com os valores evangélicos e carismáticos. A presença de Irmãs com vocação “ad gentes” pode favorecer a abertura da noviça a tal chamado. A comunidade prevê um tempo para dialogar, para iniciar o confronto com a Palavra de Deus e com o carisma, para discernir, contar-se, e juntas colocar-se em relação e também com os outros,humildemente, sem dar nada por descontado, para partilhar o grande amor pelo reino e a paixão de ser discípulas missionárias de Cristo115. Seja como for, atente-se para que, compativelmente com as condições locais, seja respeitada uma oportuna condição de silêncio e de solidão, como valores funcionais a uma continuada e forte experiência de comunhão com Deus Só e de contemplação do Cristo Crucificado. A Formadora faz parte desta comunidade e, qual primeira responsável da formação da noviça, acompanha-a em seu caminho, com uma relação interpessoal pautada pela verdade e fraternidade evangélica, procurando criar sempre um clima de confiança, para que ela possa exprimir-se com liberdade116. Cfr. V Conferência geral do Episcopado Latino Americano- Aparecida: documento conclusivo, 2007. 116 Cfr. Maddalena, Regole e Scritti, I, 131. 115

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Ajuda-a a reconhecer a voz de Deus que lhe fala, a verificar as suas intenções e a responder em liberdade e responsabilidade. É atenta, principalmente, em descobrir uma possível chamada “ad gentes”. Encontra pessoalmente a noviça de modo sistemático, realizando um processo de discernimento e um caminho de acompanhamento. Preparada, adequadamente, tem a delicada tarefa de discernir e verificar a vocação da noviça, de transmitir o genuíno espírito do Instituto e de ajudá-la a superar as eventuais dificuldades que encontra no caminho. Este serviço particular requer específicos dons humanos e espirituais, para não se tornar obstáculo à ação do Espírito. Além disso, é importante que a Formadora tenha um conhecimento profundo e uma adequada experiência da vida religiosa e da missão do Instituto, ame a Igreja e seja aberta aos seus problemas. Vale-se da ajuda de pessoas, dentro e fora do Instituto, para o aprofundamento dos conteúdos específicos do Instituto. Mantém uma relação aberta e confronta-se com a Comunidade formativa, com a Superiora local e Provincial. Uma vez por ano, ouvido o parecer da comunidade, apresenta uma relação escrita à Superiora Provincial a respeito do caminho de cada noviça. • A comunidade apostólica acolhe a noviça, durante alguns meses do segundo ano do noviciado, para fazer o seu estágio ministerial. A jovem é confiada e acompanha75


da pela Superiora da comunidade, que se mantém em contato com a Formadora, a qual continua responsável pela formação da noviça. O objetivo da experiência apostólica é colocar a noviça em condição de viver o carisma em uma situação diferente do noviciado, ou seja, com maior iniciativa da sua parte. No novo ambiente, a noviça respira a alegria e a fadiga de associar-se à missão de Jesus, e aprende como o carisma canossiano, através dos ministérios de Caridade, toma forma concreta e oferece à ação pastoral da Igreja uma contribuição específica. Neste ambiente, de modo particular através do testemunho de Irmãs generosamente dedicadas aos outros, e passando através da fadiga da integração entre vida espiritual, fraterna e apostólica, a noviça é iniciada à unidade de vida. Durante o período apostólico e, em especial no seu término, a jovem repercorre e avalia, com a Formadora, a experiência vivida. • Os cursos formativos intercongregacionais, abrem a jovem à vida da Igreja, a um apreço recíproco dos vários carismas e ao aprofundamento de temáticas próprias da vida religiosa, com a possibilidade de confronto com outras jovens que compartilham o mesmo caminho. • Momentos de formação com as Junioristas. O compartilhamento da experiência e das expectativas com quem está percorrendo o mesmo caminho, mesmo que em momentos diferentes, garante a continuidade do processo formativo e estimula o desejo de crescer. 76


• Outras experiências significativas e específicas são a imersão nos lugares mais pobres, para uma reflexão eclesial e carismática sobre a missão.

Modalidade A formação sistemática, à luz da Palavra de Deus, da Regra de Vida e da Regra Difusa, dos textos carismáticos e do Magistério da Igreja, unida a experiências significativas de oração, são meios privilegiados para o crescimento da noviça. Ao lado da Formadora, em diálogo e em colaboração com ela, é bom que atuem também o Acompanhante Espiritual, onde é possível, e também profissionais, quando uma intervenção se faz necessária. A Formadora guia a noviça na elaboração do projeto pessoal, proposto como instrumento de unificação da vida, de mudança e para assumir a responsabilidade pelo próprio caminho, realizando assim, um primeiro passo para a formação permanente, entendida como ‘docibilitas’, isto é, como capacidade de aprender a viver cada situação existencial como oportunidade de formação. A releitura, em chave de fé do cotidiano e do que se viveu dentro da comunidade, torna- se ocasião para uma purificação das motivações vocacionais e dos ideais da jovem. Neste contexto, a Formadora ajuda a noviça a reconhecer e a chamar por nome, também eventuais crises que se manifestam no decorrer do caminho, a aceitá-las como componente normal da vida e uma preciosa ocasião de crescimento: um tempo favorável no qual reconhecer a voz de Deus e decifrar a sua linguagem. 77


A noviça é também guiada, gradualmente, durante os dois anos, a um conhecimento e a uma abertura para a vida ministerial e missionária do Instituto. Podem-se prever momentos celebrativos, na passagem de uma etapa à outra (ex. do 1º ao 2º ano), ou dentro da mesma etapa (ex. entrega da Regra de Vida e da Regra Difusa). Também os tempos de encontro com as Irmãs Junioristas e com as jovens das etapas precedentes, a participação em experiências intercongregacionais, favorecem o crescimento do sentido de pertença à própria Família Religiosa e são uma ocasião de considerável enriquecimento.

Avaliação Ao concluir o segundo ano de noviciado, a Formadora dará as oportunas informações à Superiora Provincial e, ouvido o parecer da comunidade, redigirá um relatório escrito sobre a noviça, candidata à Profissão Religiosa. Além dos princípios previstos pelo Direito Comum117, tenham-se presentes os seguintes critérios: - o empenho constante no seguimento de Cristo Crucificado, expresso mediante a capacidade de viver um amor humilde, indistinto, universal, aberto ao perdão e ao serviço, em comunidade e nos ministérios, - a disponibilidade em partilhar os valores espirituais e materiais, - o desejo de fazer sua a Vontade de Deus “com o Espírito de Jesus Cristo, [...], espírito amabilíssimo, generosíssimo e pacientíssimo”118, 117 118

Cfr. CDC, cân. 652-656 Maddalena, Regole e Scritti, I, 24. 78


- a capacidade de viver na solidão e de experimentar o ‘Deus Só’, - a presença na jovem de uma dinâmica e suficiente interiorização e reelaboração pessoal dos valores da vida consagrada Canossiana e do carisma, não só do ponto de vista intelectual, mas, sobretudo, relativamente à integração destes elementos com as energias do coração e da vontade, - a incidência da fé no cotidiano, através de uma compreensão sapiencial dos acontecimentos e o cuidado do espírito de oração, - a descoberta de reencontrar dentro de si elementos do carisma canossiano, que dão forma ao próprio ser e à própria identidade, - a identificação das próprias imaturidades e de um relativo caminho de superação, com a aceitação e uma suficiente capacidade de gestão dos próprios limites, em relação ao empenho de viver a consagração, - a possibilidade de viver em comunidade relações serenas e equilibradas, a disponibilidade de colaborar e cuidar dos outros, - a predisposição específica aos nossos ministérios canossianos, com uma atitude concreta e comprovada pelos mais pobres, - a ‘docibilitas’, isto é, a disponibilidade de aprender da vida e através da vida.

Primeira Profissão A jovem, no final do percurso do noviciado e avaliado o seu desempenho, apresenta pedido por escrito, à Superiora Provincial para ser admitida à Primeira Profissão. 79


Se a resposta for positiva, concede-se a noviça um tempo particularmente forte de interiorização e de oração, antes de emitir a Profissão Temporária, que a tornará membro do nosso Instituto.

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JUNIORATO “Darei.. uma pedrinha branca na qual está escrito um nome novo” (Ap 2,17) Significado e finalidade A primeira profissão inaugura para a Filha da Caridade uma nova fase da sua formação, a do Juniorato. A Irmã inicia um caminho em continuidade com o precedente, mas que exige dela mais ainda e, em particular, de aprofundar e verificar a sua decisão de consagrar-se a Deus para sempre. Na comunidade apostólica em que é inserida, ela é chamada a interiorizar e integrar os valores apreendidos durante o noviciado e a verificar, responsavelmente, a sua atitude em viver plenamente a vida e a missão do Instituto. Identificados sinais de vocação “ad gentes”, continua o discernimento, e abre-se cada vez mais ao generoso dom de si, numa atitude de disponibilidade obediencial. O Juniorato é o tempo em que a Irmã compreende, por experiência, que o amor do Crucificado é muito maior do que o seu débil e limitado coração: e, enquanto estabelece com Jesus um relacionamento sempre mais pessoal e profundo, deixa que o dom do Seu Espírito vivifique cada área da sua existência. O Juniorato é um tempo precioso e específico para uma experiência personalizada mais profunda do carisma canossiano, que deve ser compreendido e vivido pela Juniorista como a sua identidade, e o meio singular com que Deus realiza a sua humanidade. O processo de personali81


zação supõe a convergência de todas as próprias energias para a unidade interior, para chegar a ter em si os mesmos sentimentos de Cristo Crucificado. É na concretude da vida cotidiana, que a Irmã experimenta pessoalmente como o ideal de vida canossiano, torna-se cada vez mais a sua razão de viver, o novo modo de ser e de relacionar-se com Deus e com os irmãos. O Juniorato, que em nosso Instituto é no mínimo de 5 anos, e no máximo de 9, é também tempo em que a Irmã completa a sua preparação cultural e ministerial, enquanto é gradualmente envolvida na vida e na missão da comunidade. Portanto, é bom que durante o 1º ano de Juniorato, ela não se ocupe com estudos sistemáticos. Confiada ao cuidado particular da Superiora local, a Juniorista experimenta no novo contexto formativo, um estilo de vida deixado mais à sua própria iniciativa. Além disso, deve conciliar pessoal e responsavelmente, exigências diversas ligadas aos seus empenhos pessoais, às exigências comunitárias e aos serviços apostólicos. Pode experimentar, assim, um senso de perda e de desorientação, no esforço de criar harmonia entre as diversas dimensões da vida Canossiana. Portanto, é bom que a Irmã seja logo acompanhada pela Formadora (a Superiora local) na difícil tarefa, que será depois a de toda a existência: tender à unidade de vida. Dela é exigido, dia após dia, construir e reconstruir a sua síntese pessoal, ao redor do núcleo vital da sua vocação e do carisma canossiano, o Amor maior contemplado no grande Exemplar.

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Pessoas em formação São Junioristas todas as Irmãs que fizeram a Profissão Temporária e que desejam doar-se para sempre a Deus como Filhas da Caridade, Servas dos Pobres.

A pedagogia do Amor Maior Para realizar a finalidade específica desta etapa formativa – a unidade de vida – a Juniorista é ajudada a traduzir na prática, cotidianamente, o ‘Inspice et fac’ que caracterizou a experiência de S. Madalena, e que ela vai percebendo também como sua chamada pessoal. Como S. Madalena, a Juniorista aprende a ter os olhos fixos no Crucificado, para compreender e penetrar cada vez mais, o “singularíssimo” amor com que Jesus amou o Pai, obedecendo-o até ao dom da vida, e com o qual amou os irmãos, cada um de nós, “miseráveis, pobres, pecadores”119. “Voltando (...) sempre ao Divino Exemplar das Filhas da Caridade”120, como ao seu centro gravitacional, aprende a deixar-se encher de seu amor e experimenta que o amor que contempla torna-se nela força vital que sustém e motiva cada uma de suas atitudes e ação. Sempre, em cada etapa da vida, a formação Canossiana é caminho constante para a conformação a Cristo Crucificado, para amar a todos com os Seus mesmos sentimentos, na busca continua de Deus Só e da Sua Glória. Tal modalidade é também a pedagogia típica da etapa do Juniorato. Quando a Irmã, através da fidelidade à oração e ao empe119 120

Maddalena, Regole e Scritti, I, 43. Idem, 94 83


nho ascético, descobre que o amor é a força que conecta todas as próprias energias e ao redor do qual pode unificar todas as próprias ações, então pode empreender o caminho rumo à liberdade, liberdade de amar na gratuidade, na paciência e na generosidade, no acolhimento amável das Irmãs, na dedicação de si no ministério, no “estar” com Maria ao lado de quem sofre, no desenvolvimento humilde de qualquer serviço, na abertura de coração além de seus estreitos horizontes. Tal liberdade interior, renovada diariamente, a conduz a sentir-se responsável por sua formação, a cultivar cada vez mais a “docibilitas”, isto é, a disponibilidade de aprender, em cada ocasião e situação, como amar com o coração de Jesus. Na medida em que o amor pelo grande Exemplar se vai radicando em seu coração, ela sabe enfrentar com serenidade e coragem, as inevitáveis dificuldades que encontra na vivência concreta do dia a dia e apaixona-se pelos interesses do Reino.

Áreas e conteúdos formativos Nos anos que precedem a decisão de a Juniorista doar-se para sempre a Deus, no Instituto das Filhas da Caridade Servas dos Pobres, ela é chamada a crescer na totalidade da sua pessoa, através de conteúdos e meios que se referem à área carismática, afetiva, intelectual e apostólica.

O “Deus Só” em Cristo Crucificado A formação da Filha da Caridade, no tempo do Juniorato, propõe-se a fazer a Irmã crescer na compreensão e na as84


similação da identidade carismática na sua totalidade, aprofundando a sua experiência mística, o caminho ascético e a missão apostólica, reforçando assim o sentido de pertença ao Instituto.

• Experiência mística No coração da experiência mística de S. Madalena e, portanto, também de cada Filha da Caridade, está a busca de Deus Só, contemplado em Jesus Crucificado. A Juniorista é encorajada a fazer da contemplação do Crucificado, o lugar teológico, por excelência, da sua vida, no qual aprende a conhecer as profundidades do amor de Deus e a penetrar as suas insondáveis riquezas. Um amor que é dom de si, no abandono e na entrega total, feito disponível a todos “quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,6), que se despoja de tudo para habilitar ao amor os que encontra. A Irmã é encorajada a deixar-se inflamar cada vez mais por este amor, a considerar como meta ambicionada o “saber” Jesus Crucificado (Cf. 1 Cor 2,2) e a fazer da Cruz a sua honra (Cf. Gl 6,14). Educa-se à oração interiorizando o “Grande Amor”, rezando “como” o Crucificado e com os seus mesmos sentimentos. É através do “espírito de oração” que aprende, ainda que na fadiga, a buscar em todas as coisas a Deus Só e Jesus Crucificado, até a celebrar a mesma experiência de Deus na vida, exatamente como S. Madalena. A estrada mestra, a Via, para “conhecer de qualquer forma o Senhor”121, é a Palavra de Deus que ela escuta a cada dia na Celebração Eucarística e que acolhe e aprofunda na meditação. Aprende a amá-la e a saboreá-la meditando-a em 121

Idem, 27. 85


seu coração, como Maria. A Palavra, conservada e guardada, torna-se, na fidelidade de cada dia, luz em seu caminho, critério de discernimento do próprio agir e convite constante à conversão. Como S. Madalena, aprende a crescer no amor a Jesus Eucaristia, memorial da morte do Senhor. Alimentando-se diariamente dele, aprende que a Eucaristia a identifica, na vida, com o corpo partido do Senhor Jesus. Para a Filha da Caridade, o amor por Jesus Crucificado é inseparável do amor por Nossa Senhora das Dores, “constituída Mãe da Caridade ao pé da Cruz”122. A Irmã cultiva por Maria um “humilde e devoto afeto”, que se traduz, concretamente, na imitação para se tornar, como a Mãe, verdadeira discípula de Jesus, capaz de descobri-lo e de acolhê-lo nos “crucificados” de hoje e em todos que encontra ao longo de seu caminho. Maria, ao pé da Cruz, gera em nós o amor para viver bem a nossa vocação.

• Caminho ascético O caminho ascético da Juniorista consiste na decisão livre de conformar-se em tudo a Jesus Crucificado, para se tornar, progressivamente, discípula da Cruz. Assumir as virtudes carismáticas, em particular a humildade, torna-se necessário para fazer seu o estilo de serviço típico de Jesus Servo, que lava os pés de seus apóstolos, sem se sentir humilhado, certo do amor que, como Filho, sempre recebeu do Pai. Madalena de Canossa, Regras do Instituto das Filhas da Caridade. Texto difuso. Manuscrito de Milão, 1978, 8, Ed. Port., 10 122

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Neste processo formativo, a Irmã apropria-se da sua nova identidade; na fidelidade e na coerência com o nome que leva Filha da Caridade - Serva dos Pobres, escolhe ser humilde, pobre, obediente, experimentando ao mesmo tempo, a beleza e o empenho alegre de servir. A Juniorista, que acolheu em si a Palavra de Jesus: “Quem quiser me seguir, tome a sua cruz de cada dia e me siga” (Mt 16,24), aprende, pouco a pouco, a apreciar também a renúncia, considerada não como fim em si mesma, mas meio para assemelhar-se a Jesus e para tornar o seu coração cada vez mais livre para amar. Ela aproveita, tanto na vida comunitária como na apostólica, de toda provocação e apelo para antepor o amor de Cristo Crucificado a qualquer satisfação pessoal. Os Votos também fazem parte deste caminho de liberdade. Pobreza: a Irmã é chamada a exercitar-se de maneira gradual, mas fielmente ao desapego para tornar-se livre nos confrontos das coisas e disponível ao dom de si, na comunidade e no apostolado. Em Jesus Crucificado descobre a sua riqueza, Aquele que não lhe deixa faltar nada e do qual continua a receber. Os pobres, que labutam para viver, são para a Irmã um forte apelo à solidariedade, na concretude do cotidiano e no serviço apostólico. Em comunidade, ela aprende a partilhar o que é e o que recebe em dom, e a renunciar ao supérfluo e contentar-se com o que encontra à disposição. Educa-se, também, à corresponsabilidade no uso dos bens comunitários, a escolher a sobriedade e a essencialidade como critérios para a sua 87


vida pessoal, a usar o dinheiro com transparência e prestação de conta, e a abrir-se às necessidades dos mais pobres. A obediência: “Jesus, embora sendo Filho, aprendeu a obediência do que sofreu” (Hb 5,8) e a Irmã também aprende a fazer “oferta da própria vontade”123, procurando, a cada solicitação, fazer o que agrada ao Pai a exemplo de Jesus. O exercício da obediência, vivido no amor, permite à Irmã crescer na liberdade, pondo-se a si mesma à disposição, responsável e consciente, habituando-se a aderir voluntariamente aos apelos da obediência “por causa de Cristo”, e Dele só. Para tender a esta pureza de intenção, ela é chamada a exercitar uma atitude de constante disponibilidade para com todas as mediações de Deus na vida cotidiana: em particular a comunidade em que vive a própria Superiora, as Irmãs e os leigos com os quais colabora no apostolado: “Livre é a pessoa que vive constantemente atenta a perceber, em qualquer situação da vida e, sobretudo, em qualquer pessoa que vive ao seu lado, uma mediação da vontade de Deus, apesar de misteriosa. Por isso “Cristo nos libertou, para que ficássemos livres” (Gl 5,1). “Libertou-nos para que possamos encontrar a Deus ao longo das inumeráveis vias da existência de cada dia”124. É um treinamento que pode encontrar dificuldades, principalmente quando os desejos pessoais não encontram correspondência nas mediações. Exercitando-se cada dia a buscar e realizar a Vontade de Deus, a Juniorista põe em jogo todas as suas faculdades: Maddalena, Regole e Scritti, I, 57. Congregazione per gli Istituti di Vita Consacrata e le Soc. Di Vita Apostolica. Il servizio dell’autorità e l’obbedienza, 2008, n. 20/g. 123 124

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mente, coração e vontade e permanece disponível ao confronto e à dependência. Ela é ajudada a exercitar-se no discernimento, quer esclarecendo a si mesma, na oração e no confronto com a Superiora local, eventuais reações e resistências, quer participando dos momentos comunitários nos quais é convidada a oferecer a própria contribuição, especialmente na elaboração do Projeto Comunitário e em relação às escolhas referentes à comunidade e ao apostolado. Castidade: A castidade é amor e a vida consagrada manifesta através dela, o amor apaixonado por Deus e pelos irmãos, a ponto de renunciar às legítimas exigências da natureza e do coração, de amar de modo exclusivo uma criatura, de criar uma família própria e de ter filhos. As Filhas da Caridade são chamadas a cultivar o amor único a Deus, Sumo Bem, para testemunhar que somente o Criador pode preencher o coração da criatura, de modo a “empregar todo o tempo, todos os cuidados, todos os pensamentos para a Divina Glória e atuar de modo que, tudo o que são e que têm seja totalmente e unicamente dedicado ao Senhor ”125. Totalidade e unicidade: a meta indicada por S. Madalena pede a cada Filha da Caridade, em cada etapa da vida, de nada antepor ao amor de Cristo Crucificado, para doar-se gratuitamente e com coração indiviso aos irmãos, especialmente aos mais pobres. São apresentadas à Juniorista as exigências da castidade consagrada. Ela é acompanhada no seu caminho de abertura e dedicação às Irmãs da comunidade e a todos que encontra no apostolado e é convidada a vigiar sobre os seus sentimentos e suas relações para que sejam vividas de 125

Maddalena, Regole e Scritti, I, 53. 89


modo livre e sereno. A vida fraterna em comunidade, particularmente, permanece o banco de prova de sua conversão diária: do amor possessivo ao amor altruísta e oblativo. É na comunidade que a Juniorista é chamada a crescer no sentido de pertença à Família Canossiana, considerando as Irmãs como aquelas com as quais o Senhor a convida a caminhar, vivendo o mesmo carisma. Ela procura valorizar-lhes os dons, aceitar seus limites, considerar a diversidade de idade, de formação, de caráter e de experiência como uma oportunidade para crescer em humanidade e para exercitar com o coração de Cristo a acolhida, a paciência, a benevolência e a amabilidade, também na presença de dificuldades e tensões. Treinada ao amor fraterno em comunidade, a Irmã é iniciada a viver no apostolado com o mesmo espírito de Jesus, “amabilíssimo, generosíssimo e pacientíssimo”126. Área afetiva – O exercício dos votos de pobreza, obediência e castidade chama em causa a vida afetiva da Irmã, como de cada Filha da Caridade e invoca a liberdade de deixar-se amar por Deus só, para amar os outros com o coração de Deus. A Juniorista que, já no tempo do Noviciado procurou “plantar o Crucificado no coração”127, continua no período do Juniorato a conhecê-lo melhor, contemplando-o na sua inexaurível força de amor. Fascinada e cada vez mais admirada de ser objeto de um amor sem medida, deixa-se guiar por uma dupla certeza: “a de ser infinitamente amada e de poder amar sem limites”128.Tal convicção, que brota da contemplação do Crucificado, gera em seu coração a alegria de pertencer a Deus e de ser amada por Ele. Com a alegria cresce Idem, 24. Idem, 133. 128 Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. A vida fraterna em Comunidade, 1994, n. 22. 126 127

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a gratidão por tão singular amor e a vontade de retribuir o bem recebido com a doação generosa de si. Juntamente com este sentimento de gratidão, amadurecem também na Irmã uma liberdade e autonomia afetiva, que a levam à capacidade de reler e reconciliar-se com a própria história passada e de gozar do afeto recebido de tantas pessoas, reconhecendo nelas um sinal do amar generosíssimo do Senhor. O caminho para a maturidade afetiva, com certeza, não é sem dificuldades e obstáculos, internos e externos. Implica a necessidade de fazer um caminho de verdade, de reconhecer eventuais fraquezas em âmbito afetivo e sexual para aprender a tê-las sob controle, de viver a sobriedade das atitudes e das relações e administrar a solidão afetiva. A Irmã vê-se, frequentemente, a lutar com a tendência do próprio egoísmo que procura reter para si, mais do que doar aos outros. Sustentada e acompanhada por quem cuida de sua formação, aprende a tender à liberdade através de escolhas pessoais de desapego e de renúncia, de purificação dos afetos e de conversão. Deixando-se educar pelo Pai, que vê no segredo, e procurando encontrá-lo no silêncio e na solidão, abre-se gradualmente a aceitar, “por causa de Cristo”, as exigências crucificadoras do amor. É sempre Jesus Crucificado que suscita nela a vontade de perseverar no amor, com a humildade de quem sabe que “carrega um tesouro tão belo em um vaso tão frágil”129. A intimidade com Deus, cultivada aos pés de Jesus na Cruz e da Eucaristia, a retidão de coração, a simplicidade de deixar-se conhecer na própria fraqueza afetiva para poder 129

Maddalena, Regole e Scritti, I, 53. 91


superá-la, são meios eficazes para que a Irmã, de modo gradual, possa abrir-se à disponibilidade de amar com o mesmo coração de Jesus. Área intelectual – É pedido com insistência à Filha da Caridade – chamada no hoje a fazer Jesus conhecido e amado pelos irmãos – a estar preparada adequadamente, para dar razão da esperança que há nela e responder, da melhor forma possível, aos desafios da cultura contemporânea. Não se trata só de estudo, mas de uma formação mais global, que diz respeito ao caminho da fé e que encontra expressão no empenho e na reflexão intelectual. Fim principal deste aspecto da formação é, pois, a harmonia entre fé vivida e fé compreendida. A Irmã, como adulta que crê, é chamada a aprender que os dois momentos se alimentam reciprocamente, sendo que a fé vivida exige e permite ser compreendida, enquanto a fé compreendida deve ser expressa na vida diária. Este processo de elaboração da fé é um verdadeiro ato espiritual a favor não só do seu crescimento pessoal, mas de toda a comunidade cristã. A Irmã sabe que a sua primeira missão é a de revelar, com a vida, a Caridade de Deus contemplada no Crucificado e de anunciá-la com convicção no âmbito de cada ministério. Por isso tem necessidade também de aprofundar os conhecimentos teológicos, bíblicos e carismáticos e conhecer as mudanças socioculturais em ato. Também nesta área da formação, a Juniorista é estimulada a fazer síntese em torno do núcleo do carisma canossiano: a identificação do querer e do sentir com Cristo Crucificado, amadurecendo desse modo a sabedoria da Cruz.

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Normalmente durante o período do Juniorato, é oferecido à Irmã a possibilidade de completar a sua preparação cultural, teológica, bíblica, pedagógica, e também qualificar-se, de acordo com a profissão, com cursos de estudos apropriados ao exercício do ministério, para o qual demonstra maior inclinação. O estudo carismático a leva a aprofundar e a interiorizar cada vez mais a espiritualidade Canossiana com os seus Modelos: Jesus Crucificado e Nossa Senhora das Dores, e de valorizar sua riqueza peculiar. O conhecimento da história do Instituto oferece-lhe também a possibilidade de crescer no sentido de pertença à Família Religiosa e de apreciar sua paixão apostólica que desde sempre a tem caracterizado. A ‘docibilitas’ é uma atitude que a Juniorista é chamada a cultivar também na área intelectual, para manter a mente e o coração sempre disponíveis a crescer na compreensão da fé, a conhecer em profundidade a cultura contemporânea e a permanecer flexível para a assimilação das novas técnicas de comunicação. Acima de todo percurso de estudo, a Irmã é chamada a reconhecer que o seu “saber” mais importante é Cristo, e Cristo Crucificado, “no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2,3).

• Missão apostólica O nosso Instituto é, por sua natureza, apostólico e o nome de Filhas da Caridade, Servas dos Pobres, diz a dupla direção para a qual se move o Carisma do Amor Maior que S. 93


Madalena contempla em Jesus Crucificado. O apostolado é parte constitutiva do nosso carisma e a ele cada Filha da Caridade é formada logo nos seus primeiros contatos com nossa Família religiosa. Se no noviciado, a noviça é iniciada a compreender o espírito apostólico, a conhecer os ministérios de caridade próprios do Instituto, a compreender a paixão e o estilo com que S. Madalena nos pede de vivê-los, já no Juniorato a Irmã aprende a viver o apostolado como lugar da sua formação pessoal, de modo a evitar, agora e no futuro, perigosas dicotomias entre a vida de intimidade com Deus e a vida doada aos irmãos. Por isso, durante o período do Juniorato, ela é acompanhada a exercitar-se gradualmente num e noutro ministério, a fazer deles experiência direta, mas, sobretudo formar-se como apóstola. É ajudada a crescer na consciência de que, no dom de si aos irmãos necessitados, experimenta o amor de Cristo Crucificado que a torna capaz de amar com os mesmos sentimentos dele. Reconhecendo-se como Filha e Serva, a Juniorista, ao aproximar-se dos destinatários do apostolado, aprende a cultivar um amor humilde e serviçal, doce e paciente, imitando Jesus que “declarou que viera não para ser servido, mas para servir130”. A Irmã é exercitada nos mais diversos serviços e educada a recordar “que na Casa de Deus todo ministério e todo emprego é sempre grande”131. Olhando Jesus Crucificado, com os olhos de S. Madalena, e servindo-O com amor nos ministérios, alimenta a paixão apostólica; adverte que, enquanto 130 131

Maddalena, Regole e Scritti, I, 205. Idem, 205-206. 94


se doa na gratuidade e na generosidade, é enriquecida pelo seu próprio dom e, enquanto evangeliza os outros, é evangelizada, especialmente pelos pobres e dos que menos têm. O apostolado torna-se verdadeiramente formativo, quando leva a Irmã a não buscar que a Deus só e a sua Glória, purificando o seu coração do desejo de gratificações, de reconhecimentos pessoais, de vanglória de si mesma e dos próprios dons. Ela encontra uma válida ajuda para o seu crescimento no espírito apostólico, mediante a revisão com a Superiora da comunidade. Com ela relê o que realizou, evidencia as suas dificuldades e é estimulada a cultivar o espírito do Instituto na busca da Glória de Deus, num estilo de humildade, de paciência, de doçura, de amabilidade, de zelo e de generosidade, pondo em prática as virtudes do Servo. É encorajada também a fazer do apostolado o conteúdo da sua oração de intercessão e do humilde pedido de ajuda para poder, com coração puro, doar Deus aos irmãos. Para ela é formativo também o confronto com as Irmãs da comunidade apostólica, com as quais compartilha a missão. Com elas aprende como transmitir o carisma no exercício da atividade ministerial, deixando-se instruir e iluminar pela experiência e paixão apostólica das mesmas.

• Senso de identidade e de pertença O caminho formativo do Juniorato tende a reforçar o sentido de identidade na Irmã a qual vai reencontrando a si mesma, o seu eu e o seu nome no carisma do Amor maior e nos elementos que o definem. Com o aumentar do sentido de identidade, reforça-se nela também o sentido de pertença, que é como o outro lado co95


munitário. A Irmã é chamada a descobrir, cada vez, mais que o projeto do Instituto foi vivido pela Fundadora, S. Madalena, e por uma comunidade de Irmãs que, através da sua fidelidade, lhe permitem, agora, reconhecer no carisma das Filhas da Caridade a sua identidade. Este reconhecimento lhe reforça a decisão de pertencer ao Instituto das Filhas da Caridade, que percebe cada vez mais como a sua Família. Sente de ser parte viva dela e olha a história bicentenária do Instituto como à própria pré-história ou às raízes longínquas das quais germinou a sua vida. A decisão de ser parte dela traduz-se, concretamente, na vontade de viver junto com as Irmãs que compõem a sua comunidade, porque descobre que, para além das diferenças e mais forte dos limites pessoais, existe um projeto comum pensado por Deus e confiado a cada Irmã, projeto que se torna cada vez mais claro pelo fato de se viver junto. Quanto mais forte é o sentido de pertença, tanto mais se reforça a sentido de identidade. Do sentido de identidade a jovem passa, de fato, ao de pertença, colocando em prática os três elementos constitutivos do carisma, ou seja, exercitando-se concretamente e fazendo escolhas consequentes na experiência mística, no caminho ascético e na missão apostólica. O crescimento recíproco destes elementos é critério de avaliação do caminho formativo do Juniorato. Âmbitos formativos • A comunidade apostólica - formativa: A Juniorista, que emitiu os primeiros votos, é inserida em uma comunidade apostólica formativa, onde lhe são asseguradas as condi96


ções para que possa continuar a sua formação espiritual e carismática, comunitária, apostólica e missionária. A passagem da comunidade formativa do noviciado, a uma comunidade apostólica formativa é muito delicada. Nesta comunidade ela é chamada a assumir a responsabilidade de seu crescimento, ajudada e sustentada não só pela Superiora, mas também pelas Irmãs da comunidade, para as quais põe à disposição os seus dons, colaborando com elas, para a construção da comunhão fraterna. Na comunidade, experimenta as alegrias e as dificuldades de viver juntas, de tecer relações maduras e evangélicas, de procurar crescer na própria identidade de Filhas da Caridade, alimentando os mesmos sentimentos de Jesus, especialmente a caridade, a mansidão, a humildade e a paciência para com as Irmãs. É responsabilidade da Superiora Provincial escolher o ambiente em que, embora com os inevitáveis limites de cada contexto humano, o carisma de S. Madalena seja verdadeiramente vivido e no qual a Irmã possa ser confirmada no dom da vocação à qual o Senhor a chama. É sinal de maturidade o fato que a Juniorista saiba apreciar o dom de viver em comunidade sem pretender sua perfeição, aceitando viver com pessoas que não escolheu e pelas quais também não foi escolhida. A Superiora Provincial, ao escolher a comunidade, ficará atenta para que nela se favoreçam caminhos de crescimento comunitário, para permitir que a Irmã faça uma verdadeira experiência de formação, também através do uso de alguns instrumentos que levam a comunidade a 97


ser cada vez mais fraterna e sujeito da própria formação: a lectio, o discernimento, o Projeto Comunitário partilhado, a correção fraterna. Terá atenção também pela dimensão apostólica da comunidade, de sorte que a Irmã possa fazer, de modo positivo, sua própria experiência nos ministérios próprios do Instituto, verificar as próprias inclinações e a própria capacidade de colaboração. Ao lado de Irmãs com mais experiências, animadas pela paixão apostólica, a Irmã pode crescer na dedicação de si aos diversos destinatários, privilegiando, no espírito de S. Madalena, os mais necessitados e os pobres, e aprendendo a reconhecer neles o rosto de Cristo Crucificado. Em contato com os numerosos leigos que colaboram nos vários ministérios, tem a possibilidade de confrontar-se com vocações diferentes e de crescer na capacidade de diálogo e de relações. Durante o tempo do Juniorato, a Superiora Provincial terá o cuidado de oferecer à Irmã uma experiência de no mínimo em duas comunidades, nas quais ela possa enriquecer a sua experiência e a sua capacidade de integrar-se em grupos comunitários diversificados. O acompanhamento formativo da Irmã, nesse particular período da sua vida religiosa, é confiado à Superiora da comunidade formativo-apostólica. É ela que, de modo especial, cuida da Juniorista, seguindo-a com solicitude nos diversos momentos comunitários: oração, encontros formativos, serviços fraternos e com atenção também no seu empenho apostólico. Ela a encoraja a acolher as diferenças de idade, de cultura, de nacionalidade e de temperamento, fazendo-lhe notar que o verdadeiro amor 98


passa através da cruz, do perdão e da reconciliação, e ajudando-a a reconhecer os muitos aspectos positivos das Irmãs, sem inveja e ninharias. Ela anima a comunidade para que testemunhe a caridade de Jesus Crucificado e o zelo pela salvação de cada pessoa. A Superiora, encontrando periodicamente a Juniorista, ajuda-a a reler sua vida diária dentro da comunidade e no apostolado, à luz do Amor Crucificado, sustém a sua fidelidade na opção vocacional e nos empenhos assumidos com a profissão dos votos. É, pois, particularmente atenta a encorajar a Irmã a tender à unidade de vida, recordando-lhe quanto S. Madalena desejava as suas Filhas ‘anacoretas e apóstolas’, contemplativas na ação. A Superiora, atuando processos de discernimento em continuidade com a etapa formativa precedente, verifica a sua autenticidade vocacional. No primeiro ano de Juniorato, ela permanece em diálogo com a Mestra das Noviças, para assegurar a continuidade formativa. Cada ano, perto da renovação dos Votos, tendo em conta também o parecer da comunidade, faz um relatório por escrito sobre a caminhada formativa da Juniorista e, juntamente com o pedido por escrito da Irmã, envia-o à Superiora Provincial. Baseando-se no conteúdo do relatório, o pedido poder ser aceito ou não. A Formadora a nível provincial é a Irmã à qual a Superiora Provincial confia a responsabilidade de programar, coordenar e avaliar o programa formativo das Irmãs Junioristas, em colaboração com a Equipe Provincial. Ela se ocupa, em particular, das etapas formativas periódicas 99


que poderiam prever também uma experiência missionária, fora da própria Província de pertença. Durante o seu desenrolar, favorece o aprofundamento do carisma, o diálogo pessoal e de grupo, encoraja a comunicação espiritual e a partilha de vida em vista da caminhada das Junioristas para uma integração. Mantém a Superiora Provincial atualizada a respeito do caminho das mesmas e dialoga também com as respectivas Superioras.

Modalidades As modalidades mais eficazes de formação, próprias do Juniorato, são: • o acompanhamento pessoal assegurado pela Superiora da comunidade, • a fidelidade à vida de oração e ao acompanhamento espiritual regular, • uma vida comunitária onde a Juniorista experimenta, no dia a dia, o confronto com a Palavra, a comunhão e o diálogo fraterno, a reconciliação, a alegria e a dificuldade da convivência, a paixão pelo Reino, • o projeto pessoal, que ajuda na reelaboração e na revisão do que viveu pessoalmente, em comunidade e no ministério, • a participação ao diálogo inter-religioso, aos encontros formativos de Instituto e intercongregacionais.

Tempos específicos Anualmente são oferecidas à Juniorista experiências formativas de grupo, entre as quais um período prolongado, de 100


aproximadamente um mês, incluindo os Exercícios Espirituais e, onde for possível, também um período mais longo. Estas oportunidades alimentam o sentido de pertença à Família maior e, caso fosse a nível interprovincial e/o intercongregacional, tornar-se-iam também um intercâmbio cultural muito enriquecedor e um impulso evangélico e carismático de qualidade. Depois de, aproximadamente, três anos da Primeira Profissão, é oferecida à Juniorista a oportunidade de uma experiência de grupo mais longa, cujo programa é organizado pelas Conferências Regionais. Ao expirar a quinta renovação dos votos temporários, a Irmã pode apresentar o pedido de admissão à Profissão Perpétua e, eventualmente, especificando a sua disponibilidade ‘ad gentes’. Cabe à Superiora Provincial e ao seu Conselho, em diálogo com a Superiora local e a Formadora Provincial das Junioristas, avaliar o pedido de admissão à Profissão Perpétua e decidir se, aceitá-lo ou prolongar o Juniorato, em vista de um crescimento maior da Irmã, ou então, demiti-la, depois de um sério discernimento feito com ela mesma.

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PROFISSÃO PERPÉTUA “Desposar-te-ei para sempre” (Os 2,21) Significado e finalidade O itinerário formativo do Juniorato canossiano, tem como finalidade última preparar a Juniorista a escolher como único Bem para sempre, a Deus só em Jesus Crucificado, dentro do nosso Instituto. A Profissão Perpétua é o momento culminante do processo de discernimento, iniciado com o acompanhamento e a orientação vocacional e continuado nos anos do pré-noviciado, do noviciado e do Juniorato. Essa é a opção fundamental e definitiva da vida e da liberdade da Filha da Caridade, um gesto total e totalizante que abraça a sua vida, o seu ser e o seu agir. Com ela a Irmã coloca para sempre a sua existência a serviço de Deus e da Igreja no Instituto, fazendo profissão pública de castidade, pobreza e obediência, no espírito de Cristo Crucificado. A Profissão Perpétua leva a consagração batismal à plenitude: Deus estreita a si a Irmã e reforça a aliança de amor já existente e que agora é selada com o novo nome de Filha da Caridade – Serva dos Pobres. A Irmã que faz a Profissão Perpétua é aceita e inserida definitivamente em nosso Instituto, ao qual se entrega com todo o coração – como diz a fórmula da Profissão – “para na humildade tender à perfeição da Caridade”, para a Glória de Deus e o bem dos irmãos, principalmente, dos mais pobres. 102


Critérios de admissão Para se admitir à Profissão Perpétua, além dos requisitos previstos pelo Direito Comum132, é necessário que se reconheçam na Irmã particulares atitudes, amadurecidas nas etapas precedentes. Isto significa a progressiva identificação do próprio eu com o carisma das Filhas da Caridade – Servas dos Pobres, e do seu projeto de vida com o projeto carismático nas suas características componentes. Não basta a decisão de viver o dom da vocação, a Irmã deve também demonstrar o amor por ela e reconhecer nela a verdade do próprio eu. Em particular, é necessário discernir uma peculiar atitude para viver: A experiência mística da Filha da Caridade Canossiana, cultivada na constante e amorosa contemplação de Jesus Crucificado, o Exemplar para penetrar com o coração e traduzir na vida cotidiana. O caminho ascético de quem é chamada a ter os mesmos sentimentos do Filho, para levar “uma vida submissa, humilde e escondida, e dedicada inteiramente a buscar a Glória Divina e a salvação das almas. Trata-se também de animar todas as ações e trabalhos com o Espírito de Jesus Cristo, Espírito de caridade, de doçura, de mansidão, de humildade, espírito de zelo, de fortaleza, espírito amabilíssimo, generosíssimo e pacientíssimo”133, para viver como verdadeira Filha da Caridade – Serva dos Pobres. 132 133

Cfr. CDC, Cân. 657-658. Maddalena di Canossa, Regole e Scritti, I, 23. 103


A paixão e o espírito apostólico do nosso Instituto, na vontade de atuar o anseio da Fundadora, ´sobretudo fazei Jesus Cristo conhecido’, na disponibilidade de ir aonde maior é a necessidade de educação, de instrução religiosa e de pastoral da saúde, ‘imitando na prática’ e, segundo os exemplos e o espírito do Crucificado, testemunhando um amor preferencial pelos pobres. Maturidade e liberdade afetiva para amar com coração grande as próprias Irmãs e os destinatários dos ministérios, para cultivar a compaixão por quem sofre, para servir com humildade e generosidade, para descobrir o rosto de Jesus em cada pessoa. Atitude para viver em comunidade, na aceitação cordial e sem distinção de cada Irmã, na aceitação das mútuas diversidades, na disponibilidade à comunicação e à partilha dos bens espirituais e materiais, na abertura ao perdão e à reconciliação para crescer juntas na mesma fidelidade ao dom recebido. Adequado conhecimento de si e suficiente liberdade interior de coração, mente, vontade unida à capacidade de controlar os próprios aspectos menos amadurecidos e abertura à ‘docibilitas’, quer dizer, uma contínua conversão, para que a formação da Irmã seja permanente. Maturidade espiritual e intelectual da mulher cristã, que vive e aprofunda a sua fé, da humilde discípula do Crucificado, que continua a descobrir e enamorar-se da sabedoria da cruz, da educadora da fé que compar104


tilha a sua fé e a sua sabedoria e deixa-se evangelizar pela fé e sabedoria dos outros, da apóstola que faz experiência de Deus enquanto se doa no apostolado.

Preparação imediata à Profissão Perpétua Ciente da seriedade e responsabilidade que a Profissão Perpétua comporta, o Instituto considera indispensável, garantir à Irmã admitida um tempo adequado e prolongado de preparação, em um ambiente que assegure um clima de silêncio, de oração e de recolhimento. A Irmã deveria poder viver uma experiência particularmente significativa que, através da assimilação e da compreensão dos valores da vida religiosa Canossiana, lhe permita chegar a uma síntese de natureza experiencial. Na oração e no silêncio deveria estar apta a reler e avaliar a sua vida, colhendo nela a história original que Deus aí escreveu uma história de amor e de predileção que agora culmina, espontaneamente, na decisão de pertencer a Ele, inteiramente e para sempre. A Profissão Perpétua é o término natural daquele processo de atração e de sedução divina que a Irmã experimentou nos seus anos de preparação; a descoberta do amor fiel e incomensurável de Deus a leva, consequentemente, à entrega total de si por Seu amor. A Irmã responde ao amor de Deus com o seu gesto de amor, na certeza de que o Deus que a chamou ao nosso Instituto de Caridade, “realizará a obra da sua misericórdia”, na medida da sua confiança e do seu abandono, e que nada poderá separá-la do amor de Jesus Crucificado que se deu a si mesmo por amor. 105


O tempo forte da preparação aos Votos Perpétuos dura normalmente, pelo menos, dois meses e a Superiora Provincial confia o caminho de preparação a uma Irmã, ajudada por uma equipe formativa. No programa concordado, são previstos suportes também de especialistas no âmbito espiritual e carismático. Antes da Profissão Perpétua é oferecido à Irmã um curso específico de Exercícios Espirituais. Para ser admitida à Profissão Perpétua, a Irmã envia à Superiora Provincial o pedido para ser acolhida definitivamente no nosso Instituto, expressando as motivações que a movem e a maturidade espiritual e carismática que julga ter alcançado. Compete à Superiora Provincial, com o consentimento do seu Conselho, e com a ratificação da Superiora Geral, admiti-la à Profissão Perpétua.

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FORMAÇÃO PERMANENTE “Senhor, vós sois a minha parte de herança e meu cálice; vós tendes nas mãos o meu destino” (Sl 16,5)

Significado e finalidade S. Madalena de Canossa, nossa Fundadora e Mãe, delineia muito bem no Prefácio à Regra Difusa, o objetivo ao qual cada uma de nós é chamada em seu caminho de consagração. É um objetivo “alto”, um “trata-se de algo mais”134, que pareceria inatingível sem o dom da vocação e a certeza da graça divina. Não é apenas viver o mandamento do Amor a Deus e ao próximo, mas vivê-lo à maneira do Divino Exemplar, exercitando-se nas virtudes dele, com os seus mesmos sentimentos. A Formação Permanente é para nós uma exigência intrínseca à mesma chamada a nos tornarmos uma nova criatura. É ação do Pai que forma em cada uma de nós o coração do Filho e nos guia à conformação, jamais plenamente realizada, a Cristo Crucificado. A Formação Permanente, guiada por Deus só, nosso Pai e Mestre é, pois, dom seguro e constante. É um processo contínuo e cotidiano que se desenrola através de toda a nossa vida e envolve a pessoa inteira: coração mente e força. A Formação Permanente requer a ‘docibilitas’, isto é, a possibilidade de cada uma de nós, considerar como 134

Cfr. Maddalena, Regole e Scritti, I, 23. 107


tempo e oportunidade de formação tudo o que se vive, cada idade e estação da vida, cada atividade e relacionamento, a oração como a missão, a saúde como a doença, cada ambiente e situação, também aquelas difíceis e aparentemente adversas. Para cada Filha da Caridade, tudo pode ser formativo, na medida em que cada uma, protagonista da própria formação, exercita a liberdade de deixar-se instruir pela vida e por toda a vida, à luz do Mistério Pascal. A Formação Permanente é a condição indispensável, não só para que o carisma se mantenha vivo, mas para que se enriqueça com novas nuanças ligadas às características peculiares de cada Irmã. Se for vivida com fidelidade, conduz os membros do Instituto a ser sinal significativo para os jovens e para os destinatários dos nossos ministérios, revelando a beleza de uma vida consagrada, doada ao Amor maior.

Pessoas em formação Todos os membros do nosso Instituto, sem exceção, são os sujeitos de sua própria Formação Permanente. Cada uma de nós, que no período da Formação inicial começou o caminho da ‘docibilitas’, tem o dever de continuar o processo de autoformação no tempo sucessivo à Profissão Perpétua, valendo-se de todas as ocasiões ordinárias e extraordinárias. Ninguém nos pode substituir no empenho de viver os mesmos sentimentos de Jesus e de tender à plenitude do Amor, contemplado no Crucificado. Todos os dias, portanto, somos interpeladas a renovar a nossa resposta livre ao chamado, como discípulas de Cristo enviadas a ser apóstolas entre os irmãos mais necessitados de educação, de evangelização e de assistência.

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A Irmã que, com a Profissão Perpétua, manifestou o desejo de responder ao chamado ‘ad gentes’, é solicitada a preparar-se adequadamente ao novo mandato missionário, em fidelidade às Deliberações do XV Capítulo Geral135, que consideram “o discernimento, o processo de decisão e a formação, inclusive aquela dada nos países de missão”. Cada Irmã, que vive com coração de peregrina, sabe que a meta da formação – a conformação ao grande Exemplar, poderá ser alcançada somente no fim da existência, pela fidelidade da Graça.

Objetivos A Formação Permanente é destinada a consolidar o processo de crescimento da Filha da Caridade para a plenitude do amor, tende a torná-la cada vez mais desejosa de aprender com a experiência e a sentir-se responsável pela fidelidade ao Evangelho, pela vivacidade do carisma, pela vocação pessoal, pela comunidade e pela missão, pronta a enfrentar sempre novos desafios decorrentes da rápida mudança sociocultural. A atenção prioritária da Formação Permanente é a de potenciar em cada uma de nós a ‘docibilitas’, quer dizer, a contínua disponibilidade de ‘aprender a aprender’, deixando-nos educar e formar pela vida com sua imprevisibilidade, enquanto caminhamos para a conformação a Cristo Crucificado. Na Canossiana a ‘docibilitas’ torna-se sabedoria da Cruz. Depois da Profissão Perpétua somos chamadas, com maior consciência, a prosseguir no processo de integração da nossa história para reconhecer nela a ação formadora de Deus, sempre presente e atuante, mesmo se nem sempre tão evi135

Cfr. XV Capítulo Geral, Deliberações, n.3, 22. 109


dente. O conhecimento de nós mesmas nunca é plenamente alcançado e nem é alcançável uma vez para sempre, já que cada pessoa é ‘mistério’. Esse conhecimento deve ser buscado, dia após dia, na mudança das situações e na revelação de sempre novos aspectos da própria singularidade, assim como se manifestam nas várias estações da vida. Trata-se de construir e de reconstruir a própria vida e o próprio eu ao redor do centro vital e significativo que, para a Filha da Caridade, é a Cruz de Cristo. Nesse sentido, cada acontecimento diário ou extraordinário, é para nós possibilidade de purificação e de crescimento, de modo a fazer de toda a nossa vida um processo de conversão contínua e de aprofundamento da nossa identidade carismática. A Formação Permanente é antes de tudo, graça que vem do alto a cada dia, dom seguro, infalível e providencial136.

Lugares de formação Há principalmente, dois lugares carismáticos em que acontece a Formação Permanente da Filha da Caridade: a comunidade apostólica e a missão. De acordo com o carisma que nos foi transmitido pela nossa Fundadora, S. Madalena de Canossa, nascemos como comunidades apostólicas, nas quais a santificação dos membros se dá no exercício da Caridade para com Deus e para com o próximo, haurida no Coração de Jesus e vivida com as suas mesmas características. Uma Caridade que, cultivada constantemente dentro da comunidade, torna-se dinamismo eficaz no desenvolvimento dos ministérios de Caridade. Nesses dois lugares, cada uma de nós, encontra todo dia, ocasião para crescer no Amor maior. 136

Cfr. Cencini, Formação, 33. 110


• A comunidade apostólica – A comunidade é o lugar privilegiado da Formação em todas as etapas da nossa vida. Nela encontramos os meios oportunos para viver autenticamente o caminho de crescimento “na imitação singular de Jesus Cristo Crucificado que não respira que Caridade”137. É Deus, que para realizar o seu projeto de amor, reúne pessoas diferentes em idade, formação, caráter, cultura, experiência e as chama a viver o mesmo carisma da Caridade. As diversidades pessoais, ao invés de ser um obstáculo ao crescimento são, providencialmente, provocação e estímulo à superação dos próprios limites e à disponibilidade a deixar-se educar e formar pela riqueza e também pela pobreza dos outros membros. Para crescer na comunidade, com as Irmãs e graças às Irmãs, somos chamadas a sentir-nos corresponsáveis umas pelas outras. De fato, se cada uma é responsável pela própria formação pessoal, todas somos interpeladas a compartilhar o caminho de amadurecimento de quem caminha ao nosso lado, a sustentar-nos no empenho comum de conformação a Cristo Crucificado, tornando-nos mediação da intervenção formadora de Deus. Do mesmo modo, somos todas corresponsáveis pela construção da comunidade, pela vivacidade de sua vida espiritual, pela fidelidade ao Evangelho e ao carisma, pela fraternidade que vive, pelo estilo amável e acolhedor que manifesta, pelo clima de simplicidade e de alegria que nela se respira. Todas, igualmente, somos convidadas a ser construtoras de comunhão e, sem sonhar com a comunidade perfeita, recordamos o que afirma S. Madalena: 137

Maddalena, Regole e Scritti, I, 93 111


que “qualquer união, a mais bonita, a mais santa, a mais perfeita, sendo composta de pessoas humanas, isto é, de homens e mulheres mutáveis, há necessariamente de se encontrar nela defeitos, fraquezas, ignorâncias...138”. De fato, não existe realidade comunitária, sem fadigas, tensões, dificuldades. A cruz evoca o grande Modelo que nos salvou precisamente por meio dela. Na comunidade, quem é chamada a exercer o serviço de autoridade tem a especial responsabilidade de suscitar e cultivar a corresponsabilidade das suas Irmãs. É dever específico da Superiora, que também é chamada a cuidar da própria formação pessoal, promover e ativar todos os instrumentos e momentos comunitários aptos a favorecer a partilha dos valores evangélicos e carismáticos. Para isso ela procura promover a mentalidade de fé e de esperança e a prática de uma obediência compartilhada e responsável. A Superiora da comunidade fomenta também processos de diálogo nas várias áreas, para alcançar a “sabedoria da Cruz” partilhada; deixa espaço às inspirações dos outros e ao diverso e, vivendo a subsidiariedade, não substitui as Irmãs nas decisões a que são chamadas a assumir pessoalmente139. • A missão – Todas as comunidades das Filhas da Caridade, apostólicas por natureza, têm em comum a missão por excelência: a atuação da Caridade contemplada no Cristo Crucificado. Na maior parte delas, são exercidos os ministérios do Divino Salvador, próprios do Instituto, 138 139

Idem, 94-95 Cfr. XV Capítulo Geral, Deliberações, 12-13. 112


individuados por S. Madalena como resposta sempre atual às necessidades do homem de todos os tempos, ao longo de sua existência. Os ministérios são lugares de verdadeira Formação Permanente, nos quais nos dedicamos a “imitar o Divino Salvador no exercício do segundo mandamento da Caridade”140. Nos ministérios Deus se nos revela de maneira singular, de modo que possamos viver uma sua particular e inédita experiência, a exemplo de S. Madalena que, no serviço aos seus pobres, encontrava o mesmo Jesus contemplado na oração. A dedicação ministerial oferece-nos a oportunidade de viver as virtudes de Jesus na Cruz: o zelo, a paciência, a mansidão, a humildade, a gratuidade, e ainda crescer no espírito de fé, contemplando nos destinatários o rosto do próprio Cristo Crucificado. Cada uma de nós cultiva a sua vocação de Caridade, privilegiando os pobres, os desfavorecidos, aqueles que hoje apresentam o rosto dos imigrados, dos jovens pobres de sentido e de valores, de todos o que sofrem por falta de trabalho, de casa e de uma vida digna. Deixamo-nos provocar por nossos destinatários a “viver quais peregrinas, desapegadas de todas as coisas”141, e nos tornamos potencialmente disponíveis a nos dispersar “também por todo o mundo”142, para reformular nossa Maddalena, Regole e Scritti, I, 43. Maddalena, Epistolario, III/4, 2735. 142 Idem, III/I, 154. 140 141

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humanidade numa relação de reciprocidade e na reinterpretação do Evangelho. Ao mesmo tempo em que nos dedicamos ao ministério que nos é confiado, formamo-nos na interação junto com os destinatários e com os colaboradores; temos a oportunidade de dar e de receber e de ser testemunhas do Amor maior. Trabalhando com as Irmãs e com os leigos, somos estimuladas a crescer na capacidade de colaborar, de dialogar, de confrontar-nos, de tornar-nos mais criativas em identificar caminhos eficazes para fazer Jesus conhecido e amado143. Também a vida eclesial e os contatos sociais, exigidos pela nossa vocação apostólica, são de estímulo e confronto para nos tornarmos o que somos chamadas a ser.

Conteúdos e dimensões

O objetivo principal da vocação das Filhas da Caridade - Servas dos Pobres, consiste no cumprimento dos dois grandes mandamentos da caridade: amar a Deus e amar o próximo. Como Filhas, somos chamadas a amar a Deus “com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças” (Dt 6,5) e ter para com Ele “um reverente, terno e filial amor” e, como Servas, “devemos aos pobres os nossos cuidados, trabalhos, atenções e os nossos pensamentos”144. É a totalidade da nossa pessoa, de Filhas e de Servas, que é chamada em causa, e é principalmente na dupla direção do amor por Deus e pelo próximo, que a Formação Permanente se deve mover concretamente. 143 144

Cfr. Maddalena, regole e Scritti, I, 180 Idem, 23. 114


Cada uma de nós é interpelada a aprofundar, durante toda a vida, três atenções particulares: • A vida no Espírito – temos o dever prioritário de cuidar da nossa vida espiritual, de “ser bem fundamentada interiormente”145 e de cultivar uma sólida mentalidade de fé com a qual ler cada acontecimento da vida. Somos chamadas a ter os olhos fixos em Cristo Crucificado, com a fidelidade à meditação e à contemplação cotidiana, procurando interiorizá-lo a tal ponto que tudo se torne insignificante sem Ele e sem o seu amor. Nós o buscamos assiduamente na frequência da Palavra de Deus para fazer nossos os critérios, as atitudes e os sentimentos do Filho, e nos confrontamos com ela para compreender e abreviar a distância entre o que somos e o que, como Filhas da Caridade, somos chamadas a ser. Alimentamo-nos diariamente da Eucaristia para assimilar a lição do amor “sine modo”146, para traduzi-lo no dom de nós mesmas e nas relações interpessoais. Cada uma de nós valoriza o sacramento da reconciliação, a reconciliação fraterna e “não deixa o sol se por sobre a própria ira” (Ef 4,26). Permanecendo ao pé da Cruz, procuramos conhecer e amar cada vez mais Maria, reconhecendo-a como Mãe que gera em nós o Amor maior. É precisamente ela, a Mãe de Jesus na Cruz, que nos pode formar como discípulas do Crucificado. Defendemos responsavelmente os tempos prolongados de oração que a Regra de Vida nos oferece: o Retiro mensal, os Exercícios Espirituais anuais e buscamos es145 146

Idem, 204. Maddalena, Regole e Scritti, II, 182. 115


paços diários de silêncio para nos reencontrar a sós com Deus e crescer na sabedoria da Cruz. • A dimensão missionária, apostólica e ministerial – envolvidas na missão da Igreja e deixando-nos provocar pelo amor de Cristo Crucificado (Cf. 2 Cor 5,14), colocamos à disposição dos destinatários, nos diversos ministérios, os nossos dons e nos interrogamos sobre a coerência do nosso agir em fidelidade ao carisma recebido. Percebemos a necessidade de atualizar os conteúdos e métodos do nosso apostolado, quer do ponto de vista doutrinal quer do profissional. Deixamo-nos interpelar pelos vários desafios que a história nos propõe e nela procuramos descobrir seu inédito, para individuar novas modalidades de resposta. • A dimensão carismática – chamada por dom à especial conformação a Cristo Crucificado, a exemplo de Nossa Senhora das Dores, cada uma de nós procura alcançar tal finalidade carismática, também através do aprofundamento de seus aspectos místico, ascético e apostólico. Reavivamos continuamente em nós a experiência do “Deus Só” e da busca de sua Glória e, como S. Madalena, procuramos crescer no espírito do Instituto que é o “de ser desapegadas de tudo e de todos e dispostas, para o serviço divino, ir a qualquer lugar, também o mais remoto que seja”147. Aproximamo-nos responsavelmente do patrimônio carismático da nossa Família Religiosa, para colher sempre 147

Maddalena, Epistolario, II/1, 266. 116


melhor o seu espírito. Repercorremos com interesse a história bicentenária do Instituto, para nos deixar interpelar e surpreender pela paixão apostólica e missionária que a caracteriza; retornamos com alegria às fontes do carisma do “Amor maior”, para reconhecer nele a nossa identidade e crescer com gratidão no sentido de pertença à Família das Filhas da Caridade, Servas dos Pobres.

Formação ordinária A verdadeira Formação Permanente é a ordinária, que se realiza no cotidiano e consiste na disponibilidade da Filha da Caridade aproveitar-se de cada situação e momento para alcançar a meta da vocação Canossiana: a conformação a Cristo Crucificado. Ela acontece na própria realidade comunitária e ministerial, onde a Canossiana é chamada a viver. Em todo lugar e sempre, cada uma de nós encontra as ocasiões para a sua formação contínua que, antes de tudo, é de responsabilidade pessoal. Não há nada em nossa vida de cada dia, que não tenha um valor formativo: a casa onde moramos com a sua pobreza e riqueza, a tarefa que nos é confiada, mais ou menos agradável, o nosso relacionamento com as Irmãs com as quais vivemos em fraternidade, Irmãs que não se escolheram entre si, mas convocadas juntas pelo Senhor e por Ele chamadas a segui-lo na mesma Família religiosa; o confronto e o diálogo com quem é chamado a mediar a vontade de Deus na comunidade; os imprevistos cotidianos e o seus apelos à obediência; a fadiga nos trabalhos; a saúde ou o mal-estar passageiro, como aqueles mais sérios. Tudo o que a vida apresenta é para nós ocasião para viver a assimilação a Jesus Crucifica117


do, no exercício e na partilha dos seus sentimentos. O que nos forma verdadeiramente é a consciência de que, o que vivemos tem sempre uma relação com a meta à qual tende a Filha da Caridade e que depende de sua livre escolha, a valorização em prospectiva formativa. Chamadas a viver o Mistério Pascal de morte e ressurreição, podemos experimentar em todo lugar, a luta e a vitória sobre o nosso eu, a fadiga e a alegria de um sacrifício ou de uma renúncia aceita por amor. Também os fracassos, os nossos limites, o próprio pecado podem ser para nós lugar e oportunidade de renovação e de formação, se vividos na busca do Amor maior, contido no Coração de Cristo Crucificado. Cada uma é responsável por tal Formação Permanente ordinária.

Formação extraordinária A Formação Permanente extraordinária é a que nos é oferecida com a possibilidade de participar de cursos de atualidade ministerial e pastoral, de seminários bíblicos ou carismáticos, de dias de interesse cultural para a compreensão do mundo atual e das novas gerações, etc. São para nós ocasiões de enriquecimento pessoal, que podem constituir um momento de renovado entusiasmo para a missão de anúncio, de empenho educativo, de estar mais perto de quem sofre. Têm a finalidade de reavivar em nós o amor ao carisma e suscitar um renovado empenho em nosso caminho de conformação a Cristo Crucificado. A participação a tais momentos é um dom que não guardamos para nós mesmas, mas que compartilhamos responsavelmente com as Irmãs da nossa comunidade, e que retorna também a favor dos destinatários dos nossos ministérios. 118


Se as iniciativas extraordinárias de atualização e de renovação ministerial e carismática são uma preciosa ajuda à formação Permanente, não podemos esquecer jamais que elas pouco serviriam se não fossem sustentadas pelo empenho cotidiano a buscar o rosto de Deus só revelado em Jesus Crucificado. Responsáveis particulares pela Formação Permanente extraordinária são as Superioras a nível Geral e Provincial. A elas compete organizar e propor às Irmãs estes momentos singulares e indicar também válidas propostas fora do Instituto e da Província. Fica, porém confiada à responsabilidade de cada uma, individuar e submeter significativas experiências formativas, em sintonia com a própria opção de vida e o mandato apostólico.

Tempos fortes A Formação Permanente se dá no tempo, entendido não como um suceder-se de fatos ocasionais e de acontecimentos, mas como um tempo habitado por Deus, uma ocasião favorável de salvação. O tempo, de fato, é um alternar-se de fases de crescimento diversificado, cada uma das quais tem características próprias, e que devem ser levadas em consideração no âmbito da Formação Permanente. Cada período da vida requer, do ponto de vista formativo, empenho adulto e maduro, paciente e perseverante da parte da Filha da Caridade, atenções pedagógicas e propostas adequadas por parte do Instituto. Os tempos de provação – Cada fase da vida tem a sua par119


ticular beleza, e também as suas dificuldades e crises que, para cada uma de nós podem ser graças ou fraquezas. Tudo depende da atitude interior que assumimos diante da provação e da percepção que temos dela. Neste caso, é preciso aceitar a potencialidade positiva da provação, entendida como momento vital, ocasião de mudança e de transformação diante de uma contrariedade. A Filha da Caridade sabe aceitar a graça própria de sua estação, e viver alegremente reconciliada com o tempo que se esvai, acolhendo sem lamentações, as mudanças que ele comporta. Em cada estação da vida, porém, podem aparecer momentos de crise, de desorientação, de perda de sentido por causa de elementos externos (mudanças de emprego, obediências difíceis, transferências de uma comunidade à outra, dificuldade ou fracasso apostólico...) ou ainda de fatores mais propriamente pessoais (problemas de progressiva adaptação às mudanças de situações e idade da vida, de relacionamentos interpessoais, aridez espiritual, de crise de identidade, de caminho vocacional...doença, lutos familiares...). Quando a crise se torna mais aguda, temos necessidade de ser particularmente sustentadas, quer individual ou comunitariamente. Além da Superiora, ou de uma Irmã capaz de acompanhamento, deve-se valorizar o recurso a um competente Acompanhante Espiritual ou, onde for necessário, a um especialista. Tais pessoas podem nos ajudar a compreender as nossas dificuldades, a encontrar as motivações da nossa escolha vocacional e a redescobrir, à luz do Crucificado, o convite a nos deixar amar, também através da provação que, se de uma parte comporta sofrimento e despojamento, da outra pode nos tornar livres e abertas à busca do essencial. 120


A luta que a Irmã sustenta neste momento da vida, vivida como luta com Deus, que tem pensamentos que não coincidem com os nossos, e aceita na fé e na confiança Nele, Pai misericordioso, pode abrir novos horizontes e tornar-se meio de maior compreensão com os outros e de fecundidade apostólica. Nestas situações, a comunidade Canossiana é chamada a se fazer colo acolhedor, de sorte que a Irmã, no tempo da crise, se sinta amparada e cercada de sincera compreensão e de calor humano. Também esta mediação é desejável numa práxis de Formação Permanente cotidiana. Torna-se então indispensável que em nossas comunidades se alimente uma cultura da atenção e da discrição amável, inteligente e vigilante, perspicaz e prudente, que acompanhe a crise sem culpar, e assuma esse tempo como possibilidade de crescimento dentro da comunidade. Esta modalidade, não pode, porém, ser pensada como um ato isolado e excepcional, mas deve entrar no tipo de atenção e de serviço que a nossa Família Religiosa põe à disposição de cada Filha da Caridade e que faz parte da Formação Permanente. Nesta cultura, a vida é um caminho de formação constante, onde a preocupação principal é a de manter alta a tensão vocacional e a referência aos valores. O instrumento privilegiado para enfrentar a crise é, portanto, o relacionamento interpessoal, que implica dedicação de tempo e de energias, segredo, atenção totalmente concentrada sobre a outra, possibilidade para a Irmã de se abrir, de contar-se, de expressar tudo de si, sem pressa. Cada Filha da Caridade é responsável pelo cuidado da Irmã em dificul121


dade, é chamada a demonstrar atenção e empatia, sobretudo com o diálogo. A provação é um desafio para aceitar como Graça de conversão e de crescimento. Consideremos as principais fases que caracterizam o caminho de cada Irmã. • Os primeiros cinco anos da Profissão Perpétua: este tempo marca a passagem de uma formação guiada a uma experiência de maior responsabilidade pessoal, seja na vida espiritual como na comunitária e apostólica. A Irmã deve aprender a reorganizar o seu tempo e harmonizar os vários empenhos de oração, de vida comunitária e apostólica. Empenha-se a discernir, atuar e verificar também através das dificuldades, as exigências da consagração e da missão e a tomar cada vez mais consciência do próprio modo de ser fiel ao Senhor e do seu contínuo tornar-se Filha da Caridade – Serva dos Pobres, no seio da comunidade e nos ministérios. Uma ou duas vezes por ano, durante cinco anos, os encontros formativos de oração, reflexão e diálogo com especialistas, onde é possível – e com Irmãs ricas de experiência, são finalizados a ajudar a jovem professa a adquirir uma ulterior capacidade de síntese, muito importante para o seu crescimento. No final dos primeiros cinco anos, a Irmã revê e avalia o caminho, durante um prolongado período de reflexão e com a ajuda de uma guia experiente dentro de uma forte experiência de grupo. A Superiora Provincial é a promotora dessa experiência. 122


Nos anos seguintes continua a experiência de propostas com ritmos e conteúdos apresentados pelas próprias Irmãs e aprovados pela Superiora Provincial. • Os primeiros dez anos da Profissão Perpétua: a nossa consagração, com o passar do tempo, tem sempre necessidade de ser reconsiderada e avaliada. De fato, “a compreensão e a vivência dos Votos variam nas diversas fases da vida: a vida apresenta novos questionamentos, as condições históricas e existenciais, apresentam novos desafios. A maneira de entender e viver a vida consagrada deve integrar os desafios e responder aos questionamentos de modo integral, criando uma nova história que não cristaliza os Votos no formalismo, mas continua a renovar a própria adesão a Cristo”148 . Nesse período da vida, há necessidade de “algo de mais sólido que livre de mover-se no vazio ou de um insignificante vaguear”149. O principal dever evolutivo é, então, a capacidade generativa150, isto é, a atitude para cada Filha da Caridade de ocupar-se dos outros, a atenção e a capacidade de utilizar as próprias habilidades produtivas para o bem-estar dos outros, em uma ótica ministerial de serviço, de solicitude e de eficácia. Para superar a tendência de usar os próprios dons de modo egocêntrico ou como protagonista, a vencer a tentação do hábito e da autonomia, a diminuição do ardor e da alegria, cada uma de nós é chamada a remotivar-se XV Capítulo Geral, Deliberações, 11. A. Manenti, Vivere gli ideali/2, Bologna 2003, 117. 150 Cfr. E.H. Erikson, Infanzia e società, Roma, 1982, 249-250. 148 149

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e a repercorrer a própria vida à luz do Evangelho e do carisma, a entender o sentido da maternidade espiritual, aberta ao mundo, e a ressignificar o valor da fraternidade e da missão. Para isso, compete à Superiora Provincial oferecer um tempo específico de aprofundamento e de confronto que pode levar a Irmã a recuperar a opção originária e revigorar a paixão pelo Reino, tornando sua vida mais autêntica. A este propósito consideram-se válidos o mês inaciano, um breve tempo sabático, um período carismático de renovação junto a um centro do Instituto. • Os vinte e cinco anos da entrada: o caminho feito pode permitir à Irmã de perceber, a nível profundo, seja a unidade de vida, seja a alegria sincera de pertencer ao Instituto. É bom que cada uma de nós tenha a possibilidade de celebrar a fidelidade de Deus na própria vida junto com a comunidade e, possivelmente, também com a Província a que pertence. Esta fase comporta, normalmente, uma nova consideração dos valores precedentes e coincide com a curva descendente do curso da vida. Durante esse período surgem mudanças físicas e biológicas e experimenta-se um novo senso do tempo. É também o momento do balanço sobre a própria vida espiritual, afetiva, relacional, ministerial e social. É desejável que a Irmã tome consciência de ter alcançado um são equilíbrio entre esses diversos aspectos da existência e do dom de si, que a ajude a aprofundar, cada vez mais, a própria fecundidade e maternidade espiritual, 124


para a realização do seu ser mulher consagrada, a favor dos irmãos e das irmãs aos quais é enviada. De fato, nesse período aumentam a maturidade humana e uma sabedoria de vida, que se tornam aspectos preciosos nos relacionamentos comunitários e apostólicos. Porém, é também possível que, nesta etapa, a Irmã viva mais fortemente algumas dificuldades, como a solidão, a falta de tensão espiritual, a desconfiança em relação ao “novo”, o individualismo, a depreciação da comunidade, etc.. O período da meia idade pode ser então, um tempo favorável para viver bem o cotidiano: chega-se assim à ‘pobreza como dom’: as desilusões e fracassos tornam-se trampolim de lance para uma nova etapa de vida. O núcleo central para uma boa qualidade de vida nesta fase depende de uma correta e vivificante relação com o cotidiano. Viver o hoje significa fazer unidade de vida em torno do próprio passado, agradecidas e contentes do presente, em fidelidade a um futuro a ser olhado com esperança151. Esta situação de vida não é ânsia, nem necessidade de sucesso ou garantia de uma imagem ou de poder, mas configura-se como experiência de paz. A Irmã que vive bem o cotidiano vive na paz. Outro dever evolutivo desta etapa é o preparar-se a uma espiritualidade da ancianidade: é exatamente na idade do meio que se conhece por experiência a própria precariedade. Se não se inicia neste período a se familiariCfr. P. Magna – A. Pazzagli, La crisi dell’età di mezzo: il periodo di menopausa nella donna, in Tre dimensioni, 4 (2007), 162-173. 151

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zar com o avançar da idade, pode ser muito mais difícil transformar as derrotas em oportunidades, em termos de crescimento espiritual e de formação. Nesta delicada e rica fase da vida, temos também a responsabilidade de revigorar o cuidado pelo nosso crescimento pessoal, tanto a nível humano como de fé, através de uma redescoberta do amor esponsal por Cristo e do dom de nós mesmas para a missão. Torna-se importante recolocar em foco as motivações profundas do próprio ser e do próprio operar, através de momentos fortes de oração e de reflexão, e a redescoberta do valor da fraternidade. Para remotivar o próprio dom e a dedicação aos irmãos, o Instituto considera importante oferecer tempos sabáticos prolongados (trimestrais, semestrais ou anuais). Tais períodos são propostos pela Superiora Provincial em diálogo com a Irmã e em colaboração com uma Equipe formativa, que elabora os tempos e os conteúdos. • A idade adulta tardia: Este período da vida coincide frequentemente com a celebração do 50º aniversário da entrada na vida religiosa. É ocasião para celebrar a fidelidade de Deus e decidir fazer da própria vida uma perene liturgia de louvor. A Irmã, ainda rica de energia e de experiência, é solicitada a deixar a outros a atividade que desenvolveu durante anos com paixão. A obediência pode lhe confiar novos empenhos, igualmente preciosos, porém, normalmente mais internos da comunidade e com um ritmo menos apertado. Nesse tempo delicado, a Irmã é sustentada com algumas experiências formativas, como por exemplo, a participação a congressos, seminários ou cursos, 126


para que acolha o significado mais profundo do Mistério Pascal em sua vida e descubra em si uma maternidade no Espírito mais fecunda para o reino. É importante que nesta delicada passagem, ao interno de uma evolução normal de Formação Permanente, a Irmã reelabore a própria imagem de si, que lhe permita relacionar-se corretamente consigo mesma, com os outros e com o ambiente que a cerca. Outro dever evolutivo deste período da vida, é o de reorganizar criativamente o próprio tempo, os espaços, os empenhos e os interesses. Trata-se de ousar pequenos e novos projetos e dar-se metas a alcançar, descobrir as possibilidades e os valores que a nova etapa da vida oferece. É também um recurso para a comunidade, que a Irmã que assuma o uso do método autobiográfico e, mais genericamente, do método narrativo, que faz da pessoa adulta na fé, a protagonista da própria história do amor, tecida com o Deus encontrado em Cristo Crucificado. O método da “narração”, dentro da comunidade, torna-se um momento privilegiado de gratidão e de comunhão, de partilha dos próprios afetos, dos projetos realizados, dos sonhos e de estímulo para as Irmãs que escutam, para enfrentar uma reflexão pessoal, avaliando aspectos novos, talvez nunca considerados. • A ancianidade é um tempo especial da vida e é ocasião singular de formação, que exige uma preparação toda particular. A idade avançada não é uma doença, mas traz consigo a diminuição das forças e, às vezes, também a debilidade no empenho de convivência e de dom. 127


A ancianidade comporta fragilidade, porque mais vulnerável à doença e à enfermidade e porque é marcada pela inevitável solidão que a acompanha. São diversos os tipos de fragilidade: física, psíquica, relacional, emotiva, social e espiritual. A fragilidade, porém, pode se tornar também recurso para cada Filha da Caridade, no momento em que a pessoa, independentemente da idade e das patologias que a limitam, é valorizada por aquilo que é, extrai da própria bagagem experiencial, doa sabedoria, valoriza o tempo presente sem estar sempre voltada para o passado para lamentá-lo, olha para frente gozando de tudo o que a cerca, espalha alegria de viver e aceita, embora com fadiga, os inevitáveis achaques devido ao consumar-se do próprio corpo. A Irmã anciã se torna recurso para a nossa Família Religiosa no momento em que participa e sustém com a oração as Irmãs ocupadas diretamente nos ministérios, alimenta o seu interesse pelo Reino no mundo, cuida da própria vida espiritual, saboreia a consolante experiência de uma nova intimidade com o Deus só, dedica-se, podendo, à leitura, põe-se à disposição com coração alegre ajudando nos pequenos e preciosos serviços comunitários, faz companhia a alguma pessoa idosa ou às Irmãs doentes, cultiva alguns hobbies, participa das iniciativas paroquiais. Cada uma de nós se prepara a tornar-se anciã, como testemunha credível da fidelidade de Deus. Aceitamos a nos deixar amar, de depender e fazer-nos ajudar, sabendo que o valor da nossa vida de consagração, não está ligado à eficiência produtiva, mas ao nosso ser consagradas canossianas. 128


A comunidade, convidada a considerar as Irmãs anciãs como “montanhas de pérolas”152, aproveita no dia a dia de sua sabedoria, envolvendo-as – onde é possível – na realidade e na dinâmica comunitária. Esforça-se para fazê-las sentir a preciosidade de suas vidas, apreciando seu testemunho de fé, de esperança serena, de humanidade rica e aberta a todos. Quando a vida se torna mais dolorosa, por causa da doença ou de inatividade forçada, a Filha da Caridade deve, então ser ajudada a aceitar esta situação como altamente formativa, e a considerá-la como “ocasião única de deixar-se penetrar pelo Mistério Pascal”153. É esta fase final da vida o verdadeiro ‘noviciado’, mais realístico, mais verdadeiro, tão verdadeiro que a identificação com o Crucificado se manifesta também no corpo. Toda a vida precedente é como uma preparação a entrar neste ‘noviciado’ com plena “docibilitas”! Como o velho Simeão, chegado ao fim de sua vida, também a Filha da Caridade abandona-se totalmente nas mãos do Pai, unindo-se à obediência sacrifical de Cristo na Cruz. O momento da morte, que é a verdadeira entrega de si na obediência perfeita ao Pai154, completa todo o caminho formativo, aproximando a Irmã à conformação total a Cristo Crucificado, “único, sumo e infinito Bem”155.

Maddalena, Regole e Scritti, I, 98. Congregazione, Potissimum, n. 70e. 154 Maddalena, Regole e Scritti, I, 30. 155 Idem, 172. 152 153

129


Também para a comunidade, o momento da passagem da Irmã ao Pai é um momento formativo de reinterpretação do valor e da precariedade da vida, é uma ocasião que une as Irmãs na oração e na comunhão fraterna. A comunidade continua a recordar a Irmã com a oração, para “apressar o quanto possível, a santa visão do Senhor, considerando-a como pessoa com a qual participaremos um dia da felicidade eterna”156.

156

Idem, 100. 130


CONCLUSÃO Formação Inicial e Permanente, não é questão de quantidade ou de acúmulo de conteúdos, mas de qualidade e de síntese, de unificação, de consciência de si, de relacionalidade. O êxito da Formação é a capacidade de viver a “docibilitas”, em cada estação da vida, em cada situação existencial e nos vários acontecimentos, aprendendo a verdade sobre si, a liberdade interior, a disponibilidade ao diálogo-escuta, a sensibilidade às diferenças, a paixão pelo mundo, a sabedoria, a humildade, a mansidão, a gratuidade e a amabilidade. A Formação é, portanto, necessária por toda a vida, jamais se esgota e permanece o grande desafio de nossa vida consagrada! Para nós, Filhas da Caridade, a Formação é manter viva uma particular memória do Amor de Deus a cada homem e mulher na terra, um chamado sempre novo para assumir os mesmos sentimentos do Filho, para identificar-se com Ele, que na Cruz “foi despojado de tudo, exceto que do seu Amor”157, um convite constante para nos humanizar como Ele, doarmo-nos como Ele, a viver como Ele uma disponibilidade sem limites ao Amor do Pai para a salvação de cada pessoa, especialmente dos mais pobres de educação, de evangelização e de assistência. O dom do Espírito que S. Madalena e nós recebemos, é esta mesma Caridade de Deus que resplende de modo singular 157

Maddalena, Regole e Scritti, 34. 131


no Calvário. A Formação nos acompanha na busca de fidelidade ao dom e sustém o nosso contínuo vir a ser, o ininterrupto tomar a forma do Senhor Jesus, para que muitos o ‘vejam’, o conheçam, o amem e assumam a sua forma para comunicá-lo a outros. A Formação é o evento sagrado que nos interpela e nos envolve pessoalmente: é o segredo de cada uma e do Espírito que amadurece na profundidade do coração e transforma a nossa vida em um dom para todos. Ninguém pode nos substituir! É o fruto de uma sempre maior consciência D’Ele, O Amor, e de nós diante D’Ele, para que continuamente possamos nos tornar filhas do Pai, discípulas de Cristo, movidas pelo Espírito , e mães de toda a humanidade, com Nossa Senhora das Dores.

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ÍNDICE Apresentação Premissa: O nosso Instituto e a Formação O Plano de Formação das Filhas da CaridadeSevas dos Pobres - Significado - Critérios - Destinatários PRIMEIRA PARTE Os elementos constitutivos da Formação Canossiana - Finalidade - Fontes . A Palavra de Deus . O Magistério da Igreja . O carisma do Instituto . A vida: história e cultura - Protagonistas da Formação . Deus só . Cristo Crucificado . Nossa Senhora das Dores . Cada Irmã - Mediações de Formação . O Instituto inteiro . A Superiora Geral . A Superiora Provincial . A Equipe Formativa Provincial . A Comunidade Canossiana . As Irmãs Formadoras 133

7 10

13 13 14

15 17 18 19 20 21 23 23 24 25 25 26 26 26 27 29


- Núcleos de Fundo . Experiência mística . Caminho Ascético . Missão . Sentido de identidade e de pertença - Critérios-Guia para a Formação Canossiana . A formação humana . A formação espiritual . A formação carismática . A formação comunitária . A formação apostólica SEGUNDA PARTE As etapas do caminho da formação canossiana: dos primeiros passo à entrega de si

30 31 32 35 36 37 39 39 39 40 40

42

PASTORAL JUVENIL E VOCACIONAL - Significado e finalidade - Responsáveis . A comunidade Canossiana . Cada Irmã . As Irmãs encarregadas . Os Leigos - Destinatários - Âmbitos - Avaliação

47 48 49 49 50 50 51

FORMAÇÃO INICIAL: Discernimento e Acompanhamento Vocacional - Significado e finalidade - Conteúdo

52 54

134

45


- Modalidade - Avaliação PRÉ-NOVICIADO - Significado e finalidade - Pessoas em formação - Conteúdos . A dimensão humana . A dimensão social . A dimensão espiritual . A dimensão carismática . A dimensão apostólica - Âmbitos . A Comunidade formativa . A participação a algum curso bíblico teológico - Modalidade - Avaliação - Passagem ao Noviciado NOVICIADO - Significado e finalidade - Pessoas em formação - Objetivos - Conteúdos . A dimensão humana . A dimensão espiritual . A dimensão carismática . A dimensão comunitária . A dimensão apostólico-missionária - Âmbitos . A Comunidade formativa do noviciado 135

54 55

56 57 58 59 59 60 61 61 62 62 63 65

66 67 67 68 69 69 72 73 73


. A Comunidade apostólica . Os Cursos formativos intercongregacionais . Momentos formativos com as Junioristas . Outras experiências significativas e específicas - Modalidade - Avaliação - Primeira Profissão

75 76 76 77 77 78 79

JUNIORATO - Significado e finalidade - Pessoas em formação - A pedagogia do Amor Maior - Áreas e conteúdos formativos - O “Deus Só” em Cristo Crucificado . Experiência mística . Caminho ascético: votos . pobreza . obediência . castidade . Área afetiva . Área intelectual . Missão apostólica . Sentido de identidade e de pertença - Âmbito . A comunidade apostólica-formativa - Modalidade - Tempos específicos

96 100 100

PROFISSÃO PERPÉTUA - Significado e finalidade - Critérios de admissão - Preparação imediata à Profissão Perpétua

102 103 105

136

81 83 83 84 84 85 87

90 92 93 95


FORMAÇÃO PERMANENTE - Significado e finalidade 107 - Pessoas em formação 108 - Objetivos 109 - Lugares de formação 110 . A comunidade apostólica 111 . A missão 112 - Conteúdos e dimensões 114 . A vida no Espírito 115 . A dimensão missionária, apostólica e ministerial 116 . A dimensão carismática 116 . Formação ordinária 117 . Formação extraordinária 118 - Tempos fortes 119 . Os tempos de provação 119 . Os primeiros cinco anos da Profissão Perpétua 122 . Os primeiros dez anos da Profissão Perpétua 123 . Os vinte e cinco anos da entrada 124 . A idade adulta tardia: 50º Aniversário da entrada 126 . A ancianidade 127 Conclusão 131 Índice 133

137


Casa Generalizia delle Figlie della Carità Canossiane

FORMAÇÃO FORMAÇÃO

Plano de formação PO  
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