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PORTUGAL. HOJE.


Portugal. Hoje.


PORTUGAL. HOJE. Texto

A iniciativa que aqui se apresenta dá a conhecer distintos aspetos de Portugal que o olhar dos fotógrafos do outro lado do atlântico encheu de peculiar significado.

Dr. Luís Matoso

Mostra uma cultura, na sua vertente histórica e contemporânea, mas também a maneira particular de ser e de estar de um povo. A imensa riqueza de Portugal está em grande parte guardada no tesouro de sensações que amealhou nos encontros com outros povos. Aqui, o gosto natural por transformar desconhecidos em novos amigos é alimentado pela convicção de que o mundo evolui à medida que umas culturas encontram as outras e enriquecem o património mundial. Para isso, nada melhor que receber os que não são de cá, convidando-os a partilhar o nosso dia-a-dia. Portugal Hoje concretiza este propósito através do trabalho singular de cada um dos fotógrafos brasileiros que nos visitaram e retrataram o nosso quotidiano. É esse ponto de vista que se partilha nestas imagens e que confirma a relação emocional que existe entre o Brasil e Portugal.

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SURPRESA! Texto João Paulo Cotrim

Em minutos pode desfrutar de um país. Basta para tanto folhear este livro ou perder-se na exposição que o acompanha. Não chega, dirá, pois precisa dos outros quatro sentidos, de mais tempo, de viajar até aos sítios concretos. A esse desafio responderam, com arte e afeto, Marizilda Cruppe, Maurício Lima e Christian Cravo: levar-nos através da fotografia a alguns dos lugares que fazem de Portugal aquilo que ele é. Hoje. Aproveitando a oportunidade suscitada pela organização do Ano de Portugal no Brasil, uma associação de fotógrafos há muito empenhada na divulgação do fotojornalismo, com raízes nacionais mas aberta ao mundo, lançou, com o apoio do Turismo de Portugal, este projeto, ao mesmo tempo, simples e ambicioso. Convidou três dos mais renomados fotógrafos brasileiros da atualidade, com um trabalho dos mais expressivos e atentos ao humano, a percorrer o Norte, o Centro e o Sul do país. O alvo principal era o contemporâneo: com que traços se compõe agora uma identidade? Além da vanguarda das artes e da arquitetura, cada roteiro incluiu o essencial da paisagem, como o Vale do Douro e a planície alentejana, a Serra da Estrela ou a praia da Nazaré. Cada um dos viajantes convidados tinha imagens e experiências de Portugal diferentes, quase todas construídas a partir do passado ou de visitas breves, pelo que não foi difícil surpreenderem-se com a variedade e o dinamismo que foram encontrando. Os três voltarão, porque se deixaram encantar. Aquilo que viram, experimentaram e saborearam está patente nas belas imagens que capturaram. Também elas pedem, ao nosso olhar, visitas repetidas. E dá gosto reconhecermo-nos nos retratos que fizeram de nós. Os grupos de jovens no centro histórico da cidade berço de Guimarães, o velho sentado enquanto a criança brinca na neve, o golfista apanhado em swing em Albufeira… …todos e cada um habitam o importantíssimo Museu de Serralves, a espetacular discoteca Lux, um dos mais antenados palcos da capital, e a barragem do Alqueva, o maior lago artificial da Europa. …todos e cada um têm como casa o Solar de Mateus, em Vila Real, o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, ou o templo romano de Évora. Um país vivo não cristaliza no tempo, antes se reinventa a cada instante, aproveitando memórias e monumentos, ruínas e heranças, para sobre elas construir quotidianos ora exaltantes ora tranquilos. No caso de Portugal, estamos há muito preparados para partilhar com quem nos visita a calma e a vertigem.

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Gaia Porto Marco de Canavezes Peso da Régua Douro Foz Côa Vila Real Pedras Salgadas Viana do Castelo Guimarães Gerês Braga

N O R T E


MARIZILDA CRUPPE Texto João Paulo Cotrim

Para facilitar, poderíamos dizer que assim se começou a escrever o país, de cima para baixo. Passaram, portanto, muitos séculos de conquistadores e construtores e agricultores a mexer neste pedaço de terra, a arrancar-lhe vinho e pão, a marcá-lo com casas e igrejas e palácios e castelos e outras maneiras de dizer os ritmos de cada vida em muitas vidas. Se reunirmos isto numa viagem encontramos logo extraordinária composição de texturas: a maneira única da madeira de uma janela se encostar ao granito, ou como a parede de um hotel acabado de construir entra pelas encostas da Régua, ou em cada tom do papel nas prateleiras de uma das mais belas livrarias do mundo, ou ainda as matizes de verde do Parque de Serralves em plena cidade do Porto. Marizilda Cruppe comprova a tese de que se vê melhor com a máquina fotográfica a tiracolo. Nos retângulos que capturou, as formas irrompem, cruzam-se com dramatismo, cada qual com a sua pele. E as sombras marcam presença, tantas vezes subtil, dançando página após página com os reflexos. Esta manta de retalhos confirma isto mesmo e algo mais. Isto dos jogos que a mais moderna arquitetura, sobretudo a da Escola do Porto (Fernando Távora, Siza Vieira, Souto Moura, entre outros), faz com a paisagem, que no vale das vinhas se deixa domesticar, mas que no Gerês mantém a personalidade agreste e selvagem. Isto dos materiais, e também dos sabores, que misturam o mar bravio e a terra trabalhada, as cidades históricas e as florestas mágicas, o sagrado e o profano, o antigo e o novíssimo. Há nesta rota tanto de História como de raridades e inesperado. “Portugal sempre esteve muito próximo do Brasil por causa da colonização, e talvez por isso, o brasileiro acha que tem muita familiaridade com o português, mas fica pensando sempre na época do Descobrimento e não o vê como hoje, mais de 500 anos depois, tem muita contemporaneidade. Você encontra um muro que é medieval e, a poucos quilómetros, tem um edifício superatual de um dos grandes arquitetos do Norte. É familiar, mas ao mesmo tempo cheio de novidade.” Mas Marizilda apanhou, no seu olhar, algo que o tradicional pessimismo português tende a esquecer: a jovial tranquilidade de quem faz hoje estas terras. O casal que se beija “sobrevoando” Gaia e as crianças que brincam perto da Igreja em Macedo de Cavaleiros, os grupos de jovens no centro de Guimarães e os passeantes na Foz, no Porto, transbordam energia. Descobrem-se com facilidade a Norte lugares que oferecem a mais serena das tranquilidades, mas nas cidades acontece a cada instante uma vibração irrequieta que desperta curiosidades. Estes lugares são habitados por gente forte, de rostos marcados e gestos largos. “O Porto”, diz sem hesitar, “é cidade onde moraria tranquilamente. É relativamente pequena, mas tem tudo, tem uma cena cultural grande, é viva… Gostei!” Quando alguém que passa quer morar, acabamos por continuar sempre no seu coração.


TelefĂŠrico de Gaia Gaia

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Ponte D. LuĂ­s Porto

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Casa da MĂşsica Porto


Casa da MĂşsica Porto

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Parque de Serralves Porto

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Museu de Serralves Porto

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Livraria Lello Porto

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Foz do Douro Porto

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Igreja de Santa Maria Marco de Canavezes


Vinhas e rio Douro S. Jo達o da Pesqueira

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Quinta do Vallado Peso da RĂŠgua

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Museu do C么a Vila Nova de Foz C么a

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Casa de Mateus Vila Real

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Pedras Salgadas Spa & Nature Park Bornes de Aguiar


Biblioteca Municipal Viana do Castelo

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Praรงa de Santiago Guimarรฃes

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Centro Internacional das Artes Guimar達es

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Pousada de São Bento Gerês

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Mata de Albergaria GerĂŞs

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Santuรกrio do Bom Jesus Braga

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Estรกdio Municipal Braga

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Lisboa Cascais Sintra Ericeira Ă“bidos NazarĂŠ Batalha Coimbra Aveiro Belmonte Serra da Estrela

C E N T R O


MAURÍCIO LIMA Texto João Paulo Cotrim

Estabeleceu-se um consenso entre estes três ilustres visitantes: Portugal, apesar de pequeno, contém enorme variedade. Maurício Lima foi aquele que conseguiu ir, percorrendo uns quantos quilómetros, do mar à neve, em “roteiro descobridor e misterioso ao mesmo tempo, porque através desses diversos caminhos que percorri pude descobrir coisas e lugares interessantes, aspetos, detalhes muito particulares.” Se, por absurdo, tomássemos, na cidade das colinas, o mítico elétrico 28 e, depois de subirmos e descermos os seus múltiplos encantos, continuássemos lado a lado com o Atlântico para Norte, iriamos sentir o vento fresco que empurra os surfistas para a praias do Guincho ou da Ericeira e da Nazaré com as suas ondas gigantescas, mas também teríamos paragem nalguns dos mais turísticos pontos do país, como a Sintra romântica, a Óbidos medieval, a Coimbra dos estudantes, agora Património Mundial, a Aveiro construída sobre as águas antes de sairmos por instantes para brincar com a neve da Serra da Estrela, o ponto mais alto de Portugal continental. E regressarmos depois, cheios de saudades, a Lisboa, desta vez para prestar atenção ao seu lado noturno. Não há elétrico pachorrento que nos dê este prazer. Mas as fotografias podem substituir as janelas e tornar-se meio de transporte. Não foi outro o desejo do fotógrafo. “Queria que, quando as fotografias forem vistas, as pessoas tenham um desejo de estar naquele lugar e ver aquilo de perto.” Os instantâneos que se seguem estão cheios de momentos simbólicos, rasgando janelas sobre o que pode significar Portugal hoje. Na Serra há um velho sentado e uma criança que sobe brincando; em Aveiro um barco rabelo com as cores tradicionais navega entre um edifício antigo recuperado e uma construção de traço moderno; em Coimbra, as estudantes recém-formadas atiram as suas capas negras sobre o azul. A vida que pulsa em Portugal ziguezagueia assim e desde sempre entre a preservação do património e o arriscar fazer futuro, entre o negro do Fado e o colorido dos trajes, e, claro, entre terra e mar, entre espaço aberto e construção fechada. Maurício interpreta bem estas superfícies que se tornam fronteira: o pano de muralha rasga-se para deixar ver uma onda, o espanto dos espectadores face ao mundo submarino no Oceanário, os turistas pendurados nas janelas dos elétricos, mais turistas apontando detalhes no Palácio da Pena, os estudantes sentados em plena História. E depois capturou a noite, seja a agitada da grande sala que é o Lux, como a que “veste” o Mosteiro dos Jerónimos. Cada cenário é habitado por gente, de cá como do mundo inteiro. Pois se temos para oferecer o que mais ninguém tem, diz Maurício: “a conservação dos lugares, a preservação da cultura e da tradição, e… claro, a gastronomia. Foi muito interessante ver a diversidade de turistas por todos esses lugares.” Tão interessante sentir nestas páginas a diversidade.


Lux Frรกgil Lisboa

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Bica do Sapato Lisboa

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Exposição Joana Vasconcelos Palácio Nacional da Ajuda Lisboa 34


ElĂŠtrico 28 Lisboa

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Mosteiro dos Jer贸nimos Lisboa

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Oceanรกrio Lisboa

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Casa das Hist贸rias Paula Rego Cascais

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Guincho Cascais

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Palรกcio Nacional da Pena Sintra

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Praia de Ribeira d’Ilhas Ericeira

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Casario Medieval Ă“bidos

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Praia do Norte NazarĂŠ

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Hotel Miramar NazarĂŠ

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Mosteiro de Santa Maria da Vit贸ria Batalha

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Pรกtio da Universidade Coimbra

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Mosteiro de Santa Clara-a-Velha Coimbra

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Mosteiro de Santa Clara-a-Velha Coimbra

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Quinta das Lรกgrimas Coimbra

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Centro de Congressos e Hotel MeliĂĄ, Ă direita Aveiro 51


Centro Hist贸rico/Judiaria Belmonte

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Torre Serra da Estrela

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Crato Castelo De Vide Alter do Chão Campo Maior Elvas Vila Viçosa Évora Almendres Monsaraz Alqueva Amareleja Ria Formosa Silves Albufeira Sagres Costa Vicentina Sines

S U L


CHRISTIAN CRAVO Texto João Paulo Cotrim

Um dos grandes destinos turísticos do mundo, o Algarve, parece ter ocupado todo o sul do país. Por ali reside a ideia paradisíaca de bem-estar, com distintas facetas. A do luxo dos grandes hotéis, iates que dançam entre o Mediterrâneo e o Atlântico, restaurantes com estrelas Michelin e campos de golfe, discotecas de moda ou casinos. Mas também a das vilas de pescadores recortadas nas escarpas rochosas, fragmentos de ecossistemas de grande beleza ainda preservados, sem esquecer uma longa lista de petiscos. Contudo, nada mais errado que excluir do mapa o Alentejo, o das pedras e das nuvens. “Talvez a imagem que eu tivesse de Portugal fosse mais parecida com a que tenho do vilarejo espanhol, mas descobri que é muito diferente”, conta Christian Cravo. “É toda a geometria, a forma como as ruas são feitas, as cidadezinhas, o cemitério do lado de fora da cidade – sempre o cemitério está na rua que sai da cidade, nunca na rua que entra na cidade.” Christian Cravo descobriu-se encantado com as geometrias e fixou os grandes espaços, céu e horizonte, como se as nuvens do presente brotassem dos menhires perdidos na mais longínqua memória. “Gosto é de ver história: aquela coisa de uma cultura em cima da outra, de ver onde era o chão em que andavam nas ruas da cidade. A gente está caminhando hoje dois metros acima daquilo que era o chão deles no passado. Em dois mil anos, a gente subiu dois metros de entulho e vai construindo em cima… Isso é fascinante: estar vendo ali uma pegada de alguém que pertenceu a outra época, a outros líderes, e que agora está inserido também num contexto só que dois mil anos à frente.” E os exemplos sucedem-se, pois tropeçamos em história quando passamos por Sines, cidade natal de Vasco da Gama, ou por Castelo de Vide com o seu castelo, Vila Viçosa e o Paço Ducal, sem esquecer Évora, a do templo romano. “Aí vi a sauna romana. Imagina, saber que você está pisando em cima de história: ver o quanto eles eram avançados e o tempo transforma tudo em pó e reconstrói tudo. Isso para mim é o interessante num país, é a antiglobalização, a sua História”. Passo a passo podemos entrar pelo passado dentro, e pernoitar, usando para tanto pousadas como a do Crato, alojada no seu coração histórico. Ou gastar o dia admirando como algum património continua vivo e a desafiar a luz. “O que mais me impressionou foi a coudelaria de Alter do Chão. Fantástica essa tradição secular de criar, refinar um DNA, para chegar a uma perfeição genética de um animal: 250 anos estão ali. É incrível!” O encontro marcou indelevelmente o fotógrafo que está em transição para uma linguagem mais abstrata. “Sou uma pessoa de primeiras impressões, e a coudelaria me fascinou. Eu estou muito ligado à estética e nada mais bonito do que um cavalo, um puro-sangue, branco, lindo, correndo, com aquela luz na lateral. É o Portugal de que eu me vou lembrar.”


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Pousada Flor da Rosa Crato


Pousada Flor da Rosa Crato

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Anta da Aldeia da Mata Crato

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Centro Hist贸rico Castelo de Vide

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Coudelaria de Alter Alter do Ch達o

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Adega Mayor Campo Maior

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Centro de Arte Contempor창nea MACE-CAC Elvas 63


Paรงo Ducal Vila Viรงosa

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Templo Romano Évora

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Cromeleque dos Almendres Évora

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Centro Hist贸rico Monsaraz

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Rio Guadiana Alqueva

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Central Solar Fotovoltaica Amareleja

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Praia do Barril Ria Formosa

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Castelo Silves

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Pine Cliffs Golf Albufeira

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Fortaleza Sagres

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Praia da Arrifana Costa Vicentina

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Centro de Artes Sines

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Making

Of

MARIZILDA CRUPPE

www.vistadolhos.com

Texto João Paulo Cotrim Fotografias Luís Barra

A fotojornalista, com um trabalho vasto e atento ao humano, permite-se uma conclusão após uns dias intensos em viagem, a ver em viagem. De tão próximo, Portugal surge, aos brasileiros, como conhecido e íntimo, como nos diminutivos: queridinho e bonitinho. Se nisso há verdade e conforto, não revela completamente o que espera o viajante que se atreva a entrar na Europa por aqui.


“O Porto é cidade onde moraria tranquilamente. É relativamente pequena, mas tem tudo, tem uma cena cultural grande, é viva!” Marizilda Cruppe

“Quando cheguei na Foz do Douro, no Porto”, recorda por instantes Marizilda, “fiquei olhando para o Atlântico e falei «Esses portugueses eram doidos mesmo para partir assim…» Tem que se ser muito corajoso, mas acho que compensou todo o sacrifício da travessia.” Como desmentir o pressuposto? Quem chega, vindo do outro lado do Atlântico, encontra realmente a simpatia e entra com facilidade no jogo das identificações e semelhanças, para logo se perder nas estórias por detrás das pedras, basta levantar a primeira… Cruppe diz que não procura os seus temas, mas que estes acabam por a encontrar: “não tem como fugir das mulheres fortes do Norte.” Logo lhe saltam os exemplos de Ferreirinha, a D. Antónia nascida na Régua, em 1811, que construiu, a partir do Vinho do Porto e das encostas do Douro, um império financeiro, e depois a Maria da Fonte, a instigadora de uma revolta popular, também no século XIX. “Nunca tinha ouvido falar. As mulheres estão todas botando o peito de fora, mas Maria da Fonte, ao que parece, foi precursora. Nem importa se tem lastro histórico ou não, se algum historiador o provou ou não, mas só de haver esse folclore em torno de Maria da Fonte é suficiente.” A natureza, como a cidade, tocaram-na, mas apenas como grande pano de cenário onde as vidas humanas acontecem, no movimento sincopado de quem passa ou no modo tranquilo de quem está simplesmente. Por vezes, como no caso do Solar de Mateus, uma peça de património aparece viva para o confirmar. “De fotografar, gosto mais com gente”, afirma, “mas tudo é interessante, porque a paisagem é contemplativa e também tem muita história, no caso do vale do Douro, tem muitas histórias juntas, ela não se resume só na contemplação da beleza. Tudo tem um fundamento histórico, tudo se completa.”

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“De fotografar, gosto mais com gente, mas tudo é interessante, porque a paisagem é contemplativa e também tem muita história.” Marizilda Cruppe

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Impossível ignorar esta força tranquila do vale do Douro, sinal palpável da maneira como o homem aprendeu a mexer com a Natureza, mas esta entrou por ele dentro e estendeu socalcos, raízes e se fez rio. “O vale do Douro é belíssimo e é muito bonito ouvir a história da uva, do vinho e do quanto o homem luta com a diversidade da Natureza para conseguir triunfar. Na verdade nem é um triunfo, é uma parceria do homem com a natureza: montanhas muito rochosas em que as vinhas vão encontrando um jeito de se adaptar e o homem encontra um jeito de escoar a produção. Hoje é tudo facílimo: você tem estrada, comboio, o rio é navegável em alguns trechos, tem internet, tem um milhão de maneiras de solucionar problemas, mas na altura em que se começou a plantar… Lá me falaram: são nove meses de inverno e três de inferno, porque o inverno é realmente rigoroso e o verão é quente. Enfim, aquela região é muito, muito bonita.” Nem só de quintas desenhadas e património esculpido a esforço pelo passado se fizeram estes caminhos. Aconteceram – e não terão sido poucos os pretextos e as ocasiões – paragens para ouvir o silêncio e retemperar forças, como outras para mergulhar na vertigem da vida urbana de cidades como Guimarães ou

“No Douro tem muitas histórias juntas, não se resume na contemplação da beleza. Tudo tem um fundamento histórico, tudo se completa.” Marizilda Cruppe

Braga. Nesta última há que guardar para mais tarde recordar um dia num jogo de futebol, tendo como cenário o premiado e surpreendente estádio, assinado por Souto Moura. “Mal entrei no estádio”, conta Marizilda, “encontrei uma senhora de quase 80 anos, a Dona Amelinha, que viaja para todos os países, acompanhando todos os campeonatos do Braga. Aí, com aquele cabelo todo arrumadinho, parecia que ia para um casamento, diz: «Ai, menina, se Portugal se classificar para a copa é limpinho que eu vou para o Brasil!» Adorei aquela obra, superinteressante, encravada numa pedreira, mas em uso, vendo os torcedores e os jogadores lá.” Os jogadores e as velhas torcedoras de cabelo arranjado, claro. A luz parece sublinhar o conjunto, prolongando cada momento – no jogo de futebol como no meio do parque natural, no coração histórico da cidade ou apreciando arte em museu – num longuíssimo fim de tarde. Dá para ter confiança no olhar experimentado da fotógrafa: “o sol não se põe, se estende, tem aquelas sombras compridas e é muito luminoso. Além de que o resto do dia tem uma luminosidade danada. Realmente é bonita”.

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Making

Of

MAURÍCIO LIMA

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Texto João Paulo Cotrim Fotografias João Carvalho Pina

“Bem interessante!”, não se cansa o fotógrafo de dizer tentando levar-nos aos sítios que o foram entusiasmando. Parece fácil deixarmo-nos levar “pelas coisas boas que Lisboa e os outros lugares oferecem. Simplesmente esquecemo-nos do tempo, porque realmente aproveitamos e disfrutamos de situações muito agradáveis e prazerosas.” Uma viagem no tempo que nos faz esquecer o tempo.


“A hospitalidade das pessoas foi algo bem interessante, fui recebido maravilhosamente bem por diversos moradores, sobretudo as pessoas mais velhas.â€? MaurĂ­cio Lima


Tem que ser interessante, aponta Maurício apenas

dia, como pisam as pedras da História. “Os alunos da

como um exemplo, o modo como foi preservado o

Universidade de Coimbra, com aquele uniforme preto,

Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, ou a

com a capa e tudo. Bem interessante essa questão da

Quinta das Lágrimas, com “a história romântica do

preservação dos valores históricos do país. Acho isso

jardim, do Romeu e Julieta portugueses”, ou ainda

fundamental!” E não apenas no plano dos princípios

Belmonte que conserva, além dos muitos sinais de

gerais que regem a vida cultural de um país. “Há que

uma herança judia, o belo castelo onde esperou

perceber as nuances do lugar, como aquilo funciona

horas até passar alguém que pudesse entrar no

e como a vida funciona nesses lugares, porque,

momento. “Não consigo fotografar algo em que não

além dessa questão histórica, também é importante

veja pessoas. É justamente para tentar estabelecer

retratar as pessoas que moram ali. O meu trabalho

uma relação de proporção entre o ser humano e a

tem muito isso do contacto com as pessoas.”

beleza do lugar.” Não será difícil fazê-lo, aqui entre nós. “Sobretudo nas Revisitando o longo e premiado trabalho de Lima,

cidades pequenas, nas vilas e lugares, a hospitalidade

um dos mais reputados fotojornalistas da atualidade,

das pessoas foi algo bem interessante. Não havia

parece óbvio que as pessoas ocupam muito do seu

nenhum tipo de restrição a serem fotografadas,

olhar. E os habitantes surpreenderam-no também

fui recebido maravilhosamente bem por diversos

pelo modo como integram a tradição no seu dia a

moradores, sobretudo as pessoas mais velhas.”

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“A modernidade também passa por aí: as pessoas aí indo dançar, tomar copos e conversar às três horas da manhã.” Maurício Lima

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“A luz de Lisboa é mesmo maravilhosa, sobretudo no final da tarde. As fotos foram quase todas feitas nesse horário, para ter uma linha visual.” Maurício Lima

De súbito, colocando-se bem pelo

celebração

meio do património e da paisagem,

também esse que sofreu nos últimos

entrou o pastel de nata e o bacalhau.

anos grande injeção de sangue novo,

“Apesar de o bacalhau vir da noruega

através de nomes como Camané,

e de outros países, a questão é como

Carminho

se faz: as receitas! Um dia desses

aproximando-o de novas sonoridades.

alguém brincou comigo e disse que

Ainda que sempre com os mesmos

o português tem mil e uma receitas

temas do amor e do ciúme, da tragédia

para fazer bacalhau. Basicamente,

e da dor, ainda que com uma pitada

essa foi a minha refeição: eu comia

de sentido de humor. Assim se canta

bacalhau quase todos os dias, apesar

cidade ao pôr do sol. “A luz de Lisboa

de não beber – «bacalhau e vinho»,

é mesmo maravilhosa, sobretudo no

não é? –, mas bacalhau até com água

final da tarde. De tal modo que as

funciona.” No retrato de qualquer

fotos foram quase todas feitas nesse

país, mais ainda quando se trata de

horário, para ter uma uniformidade,

Portugal, há que incluir os comes

uma linha visual interessante entre as

e bebes, a sua gastronomia – “que

imagens.”

do

ou

tradicional,

António

mas

Zambujo,

é maravilhosa, fantástica e pode projetá-lo no Mundo”. Podemos aqui

Vejo, contudo, algumas bem mais

acrescentar argumentos a favor da

noturnas. A vida excitante da grande

diversidade, pois percorrer estas

urbe à beira Tejo surge em esplendor à

regiões quase se torna viajar entre

porta do Lux. “A modernidade também

países com sabores diferentes, do

passa por aí: as pessoas aí indo dançar,

pão de Sintra aos mariscos da costa

tomar copos e conversar às três horas

de prata ou do azeite da Beira Baixa

da manhã. Achei que a vida noturna

ao queijo da Serra.

começava um pouco mais cedo aqui… E aí eu pude ver, de novo, além de

A banda sonora nesta viagem deve

portugueses, turistas num ambiente

ser o fado, que o há na mais pura

de três andares. Bem interessante lá!”

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Making

Of

CHRISTIAN CRAVO

www.vistadolhos.com

Texto João Paulo Cotrim Fotografias António Carrapato

Não há como escapar: as associações marcaram o percurso de Christian Cravo, baiano de origem portuguesa e pela primeira vez em Portugal. “O que eu mais curti nessa viagem foram as associações – como o Brasil é parecido com Portugal, o quanto o brasileiro é parecido com o português… A marca não ficou só na arquitetura ou na comida, ficou na genética.”


Partindo do princípio que é através do seu interior que se conhece um país, Cravo percorreu em poucos dias muitos quilómetros e no interior desses quilómetros várias outras distâncias. Foi surpresa, claro. “É outra escala, mas a Europa tem uma microdiversidade muito maior do que os países continentais. Nos Estados Unidos da América, de uma cidadezinha para outra são 50, 100, 200 quilómetros… Aqui não, são 20 ou 10. A microgeografia é completamente diferente. Você está de um lado de um morro e é um tipo de vista; cruza a montanha e do outro lado é outra cultura, outra tradição, outro vinho, outras personalidades da terra, é um queijo de cabra que se faz ali e do lado de cá da montanha faz-se azeite… Muito interessante fazer esse contraponto.” E a estranheza prolonga-se quando nos apercebemos que daqui partiram os descobridores capazes de unificar países que são agora do tamanho de continentes. Continuamos, sem querer, no jogo das semelhanças e das diferenças. “E você fica pensando como é que esses caras foram para o Brasil naquela época e conseguiram unificar um país tão grande. E se fala a mesma língua no Brasil inteiro – isso é um feito único. (Só os Estados Unidos da América conseguiram expandir o leque do idioma inglês por um território tão grande quanto o Brasil). E isso saiu dum lugar tão pequenininho…”

“De um lado de um morro é um tipo de vista; cruza a montanha e do outro lado é outra cultura, outra tradição.” Christian Cravo

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“Isso é fascinante: estar vendo uma pegada de alguém que pertenceu a outra época e que agora está num contexto dois mil anos à frente.” Christian Cravo

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Atravessar o sul é também cruzar os vários tempos e tensões de que somos feitos. A planície pode ser interrompida com uma “multidão” de painéis solares, os rios cruzam-se com pontes que são o estado da arte da engenharia, as pousadas aproveitaram monumentos históricos para que a moderna arquitetura acrescentasse uma camada ou rasgasse prolongamentos de conforto, os grandes olivais são interrompidos por adegas também elas assinadas por Siza Vieira ou Souto Moura; no seu interior o azeite ou vinho, ainda que feitos com as técnicas mais sofisticadas, mantêm um perfume de um sabor que só a ancestral tradição oferece. Algo semelhante parece afirmar a combinação de golfista com um pescador à linha, tendo ambos por horizonte o mar. “É muito difícil desassociar uma visão incrustada. Sempre vi Portugal como Portugal colonial, o Portugal antigo da tradição, do trabalho manual, do azeite e do vinho.”

Só à mesa se deveria continuar tal conversa, no fundo continuando a tratar do Portugal dos sabores. “Na nossa culinária da Bahia quanta coisa não veio

“É uma sociedade que está voltada para a comida, que gira muito em torno da alimentação.”

daqui! É lógico que no Brasil teve uma «guinada» diferente, tomou um rumo de misturar com comida indígena e esclavagista, comida de escravo, da senzala como a gente chama. A comida de Portugal é mais «da casa grande». É como se você tivesse pegado em carne de segunda ou terceira e misturado o feijão, vísceras… A comida brasileira é única, mas aqui tem uma comida muito boa; se come bem aqui. Aliás, é uma sociedade que está voltada para a comida, talvez não tanto como os espanhóis, mas gira muito em torno da alimentação.” A luz, a inevitável luz que cada fotógrafo persegue, essa é distinta. “Não é a mesma não, aqui é mais luminoso. O sol lá é muito mais forte e é mais

Christian Cravo

húmido, então é mais quente – aquela humidade terrível… Mas aqui tem uma luminosidade que chega a incomodar, muito lindo mesmo.”

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VISTA D’OLHOS Portugal. Hoje. Projecto Apoio Âmbito Fotógrafos

Estação Imagem, Associação Cultural Turismo de Portugal Ano de Portugal no Brasil Marizilda Cruppe Maurício Lima Christian Cravo

Making Of Fotográfico

Luís Barra João Carvalho Pina António Carrapato

Curadoria Coordenação

Luís Vasconcelos Bruno Portela

Textos

João Paulo Cotrim

Design

MusaWorkLab

Produção Tratamento de imagem Site Agradecimentos

Susana Cruz José Francisco Nelson Aires Hotel Quinta das Lágrimas Hotel da Estrela Hotel Jerónimos 8 Museu do Côa Parque Natural da Ria Formosa Pedras Salgadas Spa & Nature Park Pousada de São Bento Quinta do Vallado

Impressão e acabamento Tiragem Publicação

Norprint 1.000 Exemplares Textos © dos autores Imagens © dos autores Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida em qualquer meio, electrónico ou mecânico, conhecido agora ou futuramente inventado, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro sistema de armazenamento e recuperação de informação, sem prévia permissão escrita pela editora. Junho 2013 ISBN: 111-222-3333-4-5 Depósito legal: 361728/13


Portugal. Hoje.


CÓDIGO DE BARRAS

Vista d'Olhos | Portugal. Hoje.  
Vista d'Olhos | Portugal. Hoje.  
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