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iPoint Campanhã (jun-out) Estação de Campanhã Largo da Estação 4300 Porto GPS: Lat 41.148793 Lon -8.585853 iPoint Serralves Rua de D. João de Castro, 210 4150-417 Porto GPS: Lat 41.159697 Lon -8.660039

PERCURSOS

PELA

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SÉ - CASA DA CÂMARA Terreiro da Sé 4050-573 Porto GPS: Lat 41.143047 Lon -8.611185 CENTRO Rua Clube dos Fenianos, 25 4000-172 Porto T +351 223 393 472 visitporto@cm-porto.pt GPS: Lat 41.150175 Lon -8.611200 POSTOS DE TURISMO

DEPARTAMENTO MUNICIPAL DE TURISMO DA CÂMARA MUNICIPAL DO PORTO

ARQUITETURA

PORTO

DO

PORTO DOS ALIADOS À TRINDADE

DOS ALIADOS À TRINDADE Neste primeiro percurso entre a Avenida dos Aliados e o Largo da Trindade, torna-se bastante evidente a amálgama de épocas, estilos e influências arquitetónicas que coabitam e moldam as diferentes imagens da cidade. Neste caso, falamos mais concretamente do Neoclassicismo e Neopalladianismo de influência britânica, do Beaux-Artianismo de influência francesa, e do Modernismo, movimento internacional. Estes períodos refletem maneiras diferentes de ver a arquitetura e fases importantes da evolução do ensino da arquitetura na cidade do Porto, sempre intimamente ligado ao Desenho e às Belas-Artes. Períodos/Estilos: Finais séc. XIX: Neoclássico tardio; Neopalladiano; Séc. XX: Beaux-Arts; Moderno; Contemporâneo

Arquitetos: Alberto Pessoa; Alexandre Burmester; Álvaro Siza Vieira; Amoroso Lopes; António Correia da Silva; Arménio Losa; ARS Arquitetos (Fortunato Cabral, Cunha Leão, Morais Soares); Artur Andrade; Baltasar de Castro; Barry Parker; C. de Almeida; Camilo Korrodi; Carlos Cruz Amarante; Carlos Ramos; Cassiano Branco; David Moreira da Silva; Eduardo Martins; Eduardo Souto de Moura; Ernesto Korrodi; Fernando Távora; Francisco Oliveira Ferreira; Hélder Salvado; João Abel Bessa; João Carreira ; João Queirós; José Carlos Loureiro; José Marques da Silva; José Teixeira Lopes; Júlio de Brito; Luís Pádua Ramos; Manoel Passos Júnior; Manuel Marques; Mário de Abreu; Nicolau Nazoni; Pedro Ramalho; Porfírio Pardal Monteiro; Rogério de Azevedo; Silva Sardinha; Ventura Terra; Viana de Lima

Modo de deslocação: a pé | Distância: 2km | Grau de dificuldade: baixo | Duração: 01h30 Conselhos práticos: Dada a topografia irregular da cidade, aconselhamos o uso de calçado confortável.

BEM-VINDO AO PORTO

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Edição Câmara Municipal do Porto/Departamento de Turismo Conteúdos Câmara Muncipal do Porto/Departamento de Turismo CITAD - Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design das Universidades Lusíada/arquiteto Rui Sousa Tradução Câmara Municipal do Porto/Departamento de Turismo Design Workstation Fotografias Câmara Municipal do Porto Culturgest Fernando Mendes Pedro Hotel Intercontinental Porto Digital Depósito Legal 358038/13 Impressão Tecniforma Print


NESTES PERCURSOS PELA ARQUITETURA DO PORTO VENHA DESCOBRIR CONNOSCO ALGUM DO PATRIMÓNIO ARQUITETÓNICO MAIS RELEVANTE, NUM TRANQUILO PASSEIO ONDE TERÁ TEMPO PARA SE DEIXAR SEDUZIR PELOS PORMENORES, CURIOSIDADES, AMBIENTES E VIVÊNCIAS.


Este percurso começa no Posto de Turismo do Centro que ocupa parte do edifício do Clube dos Fenianos foto 1, de 1920, projeto de Francisco Oliveira Ferreira (1884-1957). O Clube, fundado em 1904, é conhecido por outrora organizar o melhor corso carnavalesco da cidade mantendose até hoje como uma importante referência cultural. Saindo do Posto de Turismo atravesse a rua. Encontra-se, neste momento, na Praça General Humberto Delgado, assim chamada em homenagem ao opositor ao regime salazarista assassinado em 1965 pela polícia política. No sentido descendente, entre a Praça General Humberto Delgado e a Praça da Liberdade, estende-se a Avenida dos Aliados foto 2. A sua planificação foi encomendada ao arquiteto britânico Barry Parker (1867-1947) em 1915, com o objetivo de criar uma ampla avenida, dignificante e representativa do novo espírito nascido com a implantação da República

em 1910, e da primeira vereação republicana da cidade do Porto, eleita por sufrágio universal em 1914. O plano deveria também contemplar um novo edifício dos Paços do Concelho, fazendo o contraponto com a Igreja da Trindade, ao cimo, e com o Convento dos Loios existente na antiga Praça D. Pedro, depois Praça da Liberdade, ao fundo, vincando a separação de poder entre o Clero e o Estado. Foi pedido a Barry Parker que criasse nessa área um centro cívico e comercial, moderno e cosmopolita, que refletisse a dinâmica comercial e financeira que desde há muito se vinha a concentrar aí, atraída pelas novas acessibilidades, nomeadamente pela ponte Luís I, de Téophile Seyrig, inaugurada em 1886, que unia Porto e Gaia a duas cotas, pela abertura da rua Mousinho da Silveira em 1872, e pela Estação de S. Bento, de Marques da Silva, construída entre 1903 e 1916, estruturas de que falaremos mais adiante. Barry Parker inspirou-se no estilo neoclássico do plano de João de Almada e Melo (1703-1786), Governador da Justiça e Relação do Porto, desenvolvido na segunda metade do século

XVIII, período de grandes transformações graças aos fundos obtidos através do imposto sobre o comércio do vinho, permitindo que a Junta de Obras Públicas pudesse desenvolver novos conceitos urbanísticos. A influência da colónia inglesa, através do cônsul John Whitehead, despertou a apetência por espaços amplos, iluminados, funcionais e propícios ao lazer, introduzindo na cidade o neopalladianismo, estilo que viria a influenciar a arquitetura de muitas das construções civis e religiosas. Das ruas rasgadas durante o período almadino, merece destaque a Rua do Almada foto 3, paralela à Avenida dos Aliados, projetada por Francisco Xavier do Rego (1692-1786) e aberta entre 1761 e 1786. Vale a pena observar as suas fachadas, muitas cobertas de azulejos provenientes das várias fábricas de cerâmica que na altura existiam no Porto e arredores, e o pormenor das suas varandas em ferro forjado. Tradicionalmente uma rua de ferrageiros, ainda é possível, após dois séculos, encontrar aí uma significativa concentração de lojas de ferragens,


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umas modernizadas, outras conservando ainda muito do antigo mobiliário. Aí se encontra também uma fábrica artesanal de chocolates, a famosa Arcádia, fundada em 1933. Na última década tem vindo a instalar-se nesta rua um novo tipo de comércio e uma nova geração de “comerciantes”, que aposta em atividades diferentes, diversificando a oferta e rejuvenescendo o centro urbano. Regressando à Avenida dos Aliados, pode-se dizer que à sobriedade do plano de Barry Parker se sobrepôs o espírito Beaux-Arts que fervilhava nos arquitetos e artistas deste período, entre os quais se destaca José Marques da Silva (18691947), transformando a Avenida num pequeno mas monumental “Boulevard”. Formado em Arquitetura pela Escola Nacional de Belas Artes de Paris em 1896, Marques da Silva frequentou o atelier de Victor Laloux. No Porto foi diretor da Escola de Belas Artes entre 1913 e 1939 e autor de projetos emblemáticos na cidade, do mais clássico ao mais modernista como o atesta a Casa de Serralves, hoje parte

integrante da Fundação com o mesmo nome. A nova avenida recebeu a designação de Avenida das Nações Aliadas, num tributo à vitória aliada na 1ª Guerra Mundial. A sua uniformidade estética é fruto das regras ditadas pelo Prémio de Arquitetura Municipal “Cidade do Porto”, criado especificamente para a zona, que impunha, entre outras normas, o recurso a determinados materiais de construção nos quais deveria predominar o granito, uma tipologia funcional que privilegiasse os serviços com comércio à face da rua, com ângulos rotativos e pátios, que todos os edifícios em gaveto rematassem as duas fachadas com torreões cúpula ou zimbórios destacando-se da volumetria das restantes fachadas, e que todos os edifícios se harmonizassem como um todo com uma imagem que se queria “internacional”. No topo norte encontra-se o edifício dos Paços do Concelho foto 4, sede administrativa do Município do Porto. Da autoria do arquiteto municipal António Correia da Silva, começou a

ser construído em 1920 e apenas foi concluído em 1957, após diversas alterações ao projeto inicial introduzidas pelo arquiteto Carlos Ramos, que viria a ser o grande mentor da chamada Escola do Porto. O edifício é constituído por seis pisos, uma cave e dois pátios interiores. A torre central tem 70 metros de altura sendo o acesso feito através de uma escadaria com 180 degraus. No interior, ricamente decorado em mármore e granito, destacam-se alguns salões aonde são realizadas as cerimónias mais solenes, as Assembleias Municipais e as Reuniões de Executivo - Salão Nobre, Sala D. Maria, Sala das Sessões. No exterior poderá admirar as 12 cariátides dos escultores Sousa Caldas e Henrique Moreira. O edifício pode ser visitado no primeiro domingo do mês mediante Inscrição prévia no Gabinete do Munícipe (gabinete.municipe@cm-porto.pt). Em frente aos Paços do Concelho encontrase a estátua que presta homenagem ao poeta, escritor e político portuense Almeida Garrett (1800 – 1854), da autoria do escultor Barata Feyo, inaugurada em 1954 foto 5.


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Desça agora a Avenida pela plataforma central para poder ter uma perspetiva mais abrangente que lhe permitirá ver os edifícios de ambos os lados, podendo aproximar-se para ver em detalhe os que mais captarem o seu olhar. Do lado esquerdo dos Paços do Concelho, um edifício de linhas modernas marca uma rutura na unidade estética da avenida. Esse edifício, o Palácio dos Correios foto 6, datado de 1952, é um projeto de Carlos Ramos (1897-1969), que viria a exercer uma grande influência no ensino da Arquitetura na Escola de Belas Artes do Porto, enquanto professor e diretor da escola, cargo que ocupou de 1952 a 1967, tendo convidado para assistentes jovens arquitetos modernistas. Logo a seguir, na esquina da Rua Rodrigues Sampaio, destaca-se o modernista edifício de gaveto foto 7, datado de 1954, da autoria de Viana de Lima (1913-1991), outro grande nome da Arquitetura do Porto, o grande impulsionador da candidatura do Porto a Património Mundial da Unesco, classificação atribuída à cidade em 1996.

Também da sua autoria é o edifício da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, projeto de 1961, no Polo Universitário da Asprela, considerada uma das obras fundamentais para a compreensão da Arquitetura Moderna Portuguesa. Prosseguindo pelo corredor central da Avenida poderá ver, à esquerda, o Edifício da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe foto 8, de Júlio de Brito (1896-1965), de 1948, com o seu original torreão. Do lado direito, no nº 285-295, pode ver o Edifício Capitólio foto 9, de 1946, projeto de Eduardo Martins e Manoel Passos Júnior. Mais abaixo, na esquina com a Rua Ramalho Ortigão, sobressai o torreão do Edifício Garantia foto 10, de 1955, da autoria de Júlio de Brito. De novo do lado esquerdo, no nº 184, ergue-se a fachada da antiga Casa de Saúde da Avenida foto 11, de 1930, projeto de Francisco de Oliveira Ferreira, discípulo de Marques da Silva. Ainda do lado esquerdo, chamamos a atenção para o edifício com o nº 138-168. Este edifício

foi projetado em 1925 por José Marques da Silva, para albergar a sede do Jornal de Notícias foto 12. A Avenida dos Aliados afirmava-se assim não só como centro de negócios e comércio, mas também como o centro nevrálgico das notícias da região. Paredes meias com o Jornal de Notícias foi construído o monumental edifício do Banco Caixa Geral de Depósitos foto 13, da autoria de Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957), arquitetochefe daquela instituição, datado de 1930. Aqui não deixe de visitar a Galeria Culturgest, no rés-do-chão, onde, para além de pormenores interessantes do edifício, poderá usufruir de boas exposições. Olhando para o lado direito, observe com atenção o edifício do Banco do Funchal (BANIF), antiga sede do Jornal do Comércio do Porto, no nº 107109 foto 14, de 1932, e a fachada virada para a Rua Elísio de Melo e com entrada pela Rua do Almada, nº 128, da Garagem do Comércio do Porto foto 15, de 1930. Este exemplo flagrante


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de justaposição de linguagens estéticas distintas pelo mesmo autor, é de Rogério de Azevedo (1898-1984), aluno de Marques da Silva na Escola de Belas Artes do Porto, mais tarde professor na mesma escola de 1940 a 1968, que projetou o edifício voltado para a Avenida segundo as regras do Prémio de Arquitetura Municipal “Cidade do Porto”, e que no projeto da garagem voltada para a rua Elísio de Melo e Rua do Almada, deu largas ao seu talento de arquiteto Moderno. Vá até à esquina da Rua do Almada e observe o edifício da Garagem do Comércio do Porto, considerado o paradigma do Modernismo no Porto. Na época considerado um manifesto da modernidade tecnológica e formal aplicado a um novo programa – uma garagem -, aquilo que o tornou profundamente moderno foi a recusa da exuberância decorativa do ecletismo dominante, traduzida num edifício sem ornamentação, onde a expressividade é dada pelo betão armado. Modernas eram também as preocupações aqui expressas com as condições de segurança e higiene, ventilação, e luz em abundância, bem como o novo sentido de espaço e o uso

moderno dos materiais. Destinado a garagem e escritórios, estas funções podem ser lidas a partir do exterior. No nº 89, na esquina com a Avenida dos Aliados, surge o Café Guarany foto 16, inaugurado em 1933, também de Rogério de Azevedo, com decoração do escultor Henrique Moreira. Em 2003 o Guarany foi totalmente restaurado, podendo ver-se numa das paredes pinturas de Graça Morais. Os dois edifícios de esquina seguintes, merecedores de um olhar mais demorado, são ambos da autoria de José Marques da Silva: do lado esquerdo, no nº 2, o edifício construído para o Banco Joaquim Emílio Pinto Leite foto 17, de 1922, e, do lado direito da rua, no nº 1, o edifício construído para a antiga seguradora A Nacional foto 18, de 1919. Os dois edifícios estabelecem entre si uma agradável harmonia nos volumes e na forma. Aproxime-se do edifício do lado direito, nº 1, para poder apreciar em pormenor a perfeita ornamentação escultórica que realça os dotes

não só do arquiteto mas também do artista plástico que era Marques da Silva, filho de mestre canteiro. Entre os dois edifícios, na plataforma central, encontra-se a alegoria à “Juventude” foto 19, da autoria do escultor Henrique Moreira, datada de 1929 e que na altura foi fonte de animadas conversas na sociedade conservadora daquele tempo, passando a ser carinhosamente denominada por “A Menina da Avenida”. Mais acima, pode ver “Os meninos” escultura em bronze dourado do mesmo autor, de 1932. Atravesse agora para a Praça da Liberdade. Nesta Praça sobressai, ao centro, a estátua equestre de D. Pedro IV foto 20, da autoria do escultor Célestin Anatole Calmels, inaugurada em 1866. Na base o monumento ilustra dois momentos importantes na história da cidade: o desembarque no Mindelo das tropas de D. Pedro durante as lutas liberais (1832-1833), que opunham os “liberais” partidários de D. Pedro aos “Miguelistas” fiéis a D. Miguel, na luta pelo trono que opunha estes dois irmãos, e a entrega


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do coração de D. Pedro aos representantes da cidade como demonstração de gratidão pela sua lealdade. O pedestal representa D. Pedro a oferecer a carta constitucional à Cidade. O coração de D. Pedro encontra-se religiosamente conservado numa urna na Igreja da Lapa. O edifício do Banco de Portugal foto 21, impõe-se no lado direito da Praça. O anteprojeto de 1918, dos arquitetos Ventura Terra (1866-1919) e José Teixeira Lopes (1872-1919), foi, por morte destes dois arquitetos, concluído em 1922 pelo Engenheiro José Abecassis, tendo o banco sido inaugurado apenas em 1934. No frontão que encima a entrada poderá ver esculturas de Sousa Caldas representando o Fomento, ladeado pelo Comércio e a Indústria. Rematando a Avenida a sul está o Palácio das Cardosas foto 22. A história do edifício remonta ao século XV, quando o Bispo D. João de Azevedo decidiu fundar no Porto o Convento de Santo Elói para os Cónegos Seculares de S.

João Evangelista, mais conhecidos por frades Loios. Nos finais do séc. XVIII, o estado de degradação em que se encontrava o convento levou a que se iniciassem obras em 1798, que foram interrompidas pelas Lutas Liberais que ditaram a fuga da Ordem Religiosa, apoiante dos Miguelistas, abandonando o Convento com as obras a meio. Após a extinção desta ordem religiosa o edifício foi vendido em hasta pública, tendo sido adquirido por um rico proprietário da burguesia liberal portuense, de seu nome Alberto Cardoso, que viria a terminar a obra iniciada pelos religiosos. Após a morte deste passou a ser propriedade das suas filhas, conhecidas como as ”Cardosas”, sendo o edifício popularmente denominado de Palácio das Cardosas. O imponente edifício do “Palácio das Cardosas”, que ocupa quase todo o quarteirão, já foi alvo de várias ocupações e funcionalidades. Desde julho de 2011 é agora um Hotel da Cadeia Intercontinental. O projeto de arquitetura é do Arquiteto Hélder Salvado, e o design de interiores de Alex Kravetz.

À direita, na fachada do rés-do-chão encontrase a Farmácia Vitália foto 23, obra de 1932, dos arquitetos Amoroso Lopes (1913-1995) e Manuel Marques (1890-1956), com linhas geométricas modernistas onde se destaca uma cruz que parece estar suspensa e a partir da qual se compõe toda a fachada. Também no piso térreo e com acesso direto da rua, renasceu o Café Astória foto 24, no mesmo local em que tinha surgido nas primeiras décadas do século XX. Encerrado nos anos 70 do mesmo século, o café e todo o edifício foi então ocupado por um banco. Fazemos aqui um parêntesis para referir a importância que os “cafés” do Porto tiveram e têm para a história da cidade, tendo sido desde sempre pontos de reunião e tertúlia e, por consequência, alavanca de muitos dos movimentos mais progressistas, aos níveis artístico, político e filosófico. Na segunda metade do século XIX, em redor daquela que se chamou sucessivamente Praça Nova, Praça D. Pedro e


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depois Praça da Liberdade, eram numerosos os cafés: o Guichard, Lusitano (depois Suíço), Portuense, Camacho, Lisbonense, Central, caracterizavam-se pela sua elegância e por acolherem as mais ilustres figuras do Porto. Foram desaparecendo ao longo do tempo, sendo os seus espaços ocupados por serviços terciários, sobretudo bancários. Exemplo de um novo tipo de ocupação, fruto da globalização de novos hábitos de consumo, é o Café Imperial foto 25. Inaugurado em 1935, foi projetado por Ernesto Korrodi (1889-1944) e seu filho Camilo Korrodi (1905-1985), ao estilo Art Deco, com frescos do escultor Henrique Moreira e um vitral de Ricardo Leone. Em finais do mesmo século o café encerrou e reabriu já como McDonald’s, com projeto de adaptação do arquiteto Alexandre Burmester que tentou preservar ao máximo o seu interior. Mesmo ao lado encontra-se o edifício do antigo Banco Nacional Ultramarino foto 26, também de Ernesto Korrodi, de 1920.

Na Praça da Liberdade resiste ainda à voragem do tempo a Confeitaria Ateneia, projeto do arquiteto Júlio de Brito, onde ainda é possível tomar um café sem pressas enquanto se passa os olhos pelo jornal, ou pôr a conversa em dia, sendo ponto de encontro de sucessivas gerações. O enquadramento urbanístico e paisagístico da Avenida dos Aliados nem sempre foi como agora. O inicial arranjo, que recorria ao uso da tradicional “calçada à portuguesa”, em calcário e basalto, nos passeios laterais e no corredor central, e os jardins existentes no corredor central, foi alterado em 2005 por força da abertura da linha de Metro D, que iria fazer a tão esperada ligação a Gaia, atravessando o tabuleiro superior da ponte Luís I. O projeto de intervenção, entregue aos arquitetos Álvaro Siza Vieira (1933) e Eduardo Souto de Moura (1952), este último arquiteto-chefe dos projetistas do Metro do Porto, teve de dar resolução a algumas condicionantes técnicas, nomeadamente à localização das bocas de

acesso da estação dos Aliados, da autoria do próprio arquiteto Souto de Moura, que implicou o alargamento do passeio reduzindo a placa central fazendo desaparecer os canteiros ai existentes, sendo essa perda compensada pela consolidação da massa arbórea, por um espelho de água e novo mobiliário urbano. Dada a impossibilidade de se preservar integralmente a “calçada à portuguesa”, os arquitetos optaram por uma calçada em cubos de granito, colocados manualmente segundo um padrão geométrico em “cauda de pavão”, conferindo unificação e amplitude ao espaço público. As intervenções de reabilitação urbanística na emblemática Avenida dos Aliados irão prosseguir nos próximos anos já que a Avenida e área circundante foram classificadas pela Porto Vivo, SRU - Sociedade de Reabilitação da Baixa Portuense SA, como Área de Intervenção Prioritária, tendo sido dividida em vários quarteirões. A Porto Vivo, SRU tem como missão a promoção, reabilitação e reconversão urbanas da Baixa


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Portuense, a elaboração de estratégias de intervenção, e atuar como mediador entre proprietários, investidores e arrendatários, tomando a seu cargo, se necessário e dentro dos seus limites legais, a operação de reabilitação. O quarteirão do Palácio das Cardosas foi classificado por esta entidade como Zona de Intervenção Prioritária e está já em fase adiantada de intervenção. Pretende-se devolver a este quarteirão a importância de outros tempos, reordenando-o no seu interior e requalificando-o nos domínios da segurança e salubridade, dotando-o de infraestruturas de que não dispõe, recuperando imóveis para fins residenciais contrariando assim a tendência para o despovoamento do centro da cidade e atraindo comércio diversificado de qualidade. Poderá ver painéis explicativos da história desta zona na Praça das Cardosas foto 27, área privada de acesso público, situada nas traseiras do Hotel Intercontinental.

Agora que chegou ao fim da Avenida, vire-se de costas para o Palácio das Cardosas e usufrua da perspetiva. Mantendo-se na mesma posição, à esquerda verá a Rua dos Clérigos rematada pelo ex-libris da cidade – o conjunto da Igreja e Torre dos Clérigos foto 28, da autoria do arquiteto italiano Nicolau Nazoni (1691-1773), construída na primeira metade do século XVIII. À sua direita situa-se a Praça Almeida Garrett, importante interface dos transportes urbanos do Porto. Nesta Praça coexistem duas infraestruturas arquitetonicamente representativas de duas épocas e Escolas distintas: a Estação de Comboio de S. Bento foto 29 e a Estação de Metro de S. Bento foto 30. A primeira da autoria do arquiteto José Marques da Silva e a segunda da autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira, duas referências obrigatórias da Arquitetura do Porto, duas épocas distintas, duas obras que se complementam em funcionalidade, num encontro de arquitetos que se repete também em Serralves (Casa de

Serralves de Marques da Silva e Museu de Arte Contemporânea de Siza Vieira). O edifício da Estação de S. Bento, de José Marques da Silva, construído entre 1896 e 1916, deve o seu nome ao facto de ter sido edificado no preciso local onde existiu o Convento de S. Bento de Ave-Maria. Ainda em Paris, Marques da Silva começou a trabalhar no projeto para a construção desta estação. A sua proposta inicial era claramente mais arrojada. A fachada do edifício traduziria a mesma linguagem das plataformas, através do recurso ao ferro fundido e ao vidro. Ao ser recusada, a opção passou pelo desenho de um edifício mais clássico, com uma fachada dominada por dois torreões e interiormente revestida de painéis de azulejos revivalistas da autoria de Jorge Colaço. A sua monumentalidade simboliza bem a importância atribuída à acessibilidade e mobilidade como fatores de progresso fundamentais para uma nova e dinâmica centralidade da cidade.


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De um lado e doutro da Praça Almeida Garrett encontram-se os acessos subterrâneos à linha D do metro do Porto, que une Porto e Gaia pelo tabuleiro superior da ponte Luís I, o que levou a que, antes, tivesse de ser construída a ponte do Infante, inaugurada em 2003, de forma a dar escoamento ao tráfego rodoviário que por aí afluía à cidade. Esta linha é a que tem maior extensão de túnel subterrâneo, cerca de 7 km, atravessando todo o centro da cidade. A estação de Metro de S. Bento do arquiteto Álvaro Siza Vieira é uma estação escavada a partir da superfície, em cinco níveis: o Nível de Superfície, com acessos na Praça Almeida Garrett e na Avenida D. Afonso Henriques, este último obrigando ao alargamento dos passeios; o nível do Mezanino Alto que faz a ligação com a cota alta da cidade facilitando o acesso às zonas da Sé e da Batalha; o Nível do Mezanino Baixo, a partir do qual se faz a ligação entre os elevadores que comunicam com a superfície e com os cais 1 e 2; o Nível do Cais e o Nível do Sub-Cais. A configuração e amplitude do Mezanino Baixo

são por vezes aproveitadas para a realização de eventos culturais, desde exposições a concertos. O revestimento é feito com azulejo artesanal da fábrica Viúva Lamego, numa mescla de oito tonalidades de vidrado, aonde se podem ver aparecer aqui e ali, discretamente, fluidos desenhos do arquiteto Álvaro Siza. Se estendermos o olhar pela Avenida D. Afonso Henriques, a mesma que dá acesso ao tabuleiro superior da Ponte Luís I, veremos no cimo à direita, no Morro da Sé, a silhueta austera da Sé do Porto foto 31, em estilo românico, construída no século XII mas alvo de muitas intervenções e acrescentos que se estenderam até aos anos 40 do século XX. À sua frente, desafiando-a, ergue-se o edifíciotorre da Casa da Câmara foto 32. Originalmente construída no século XV para local de reunião camarária, era constituída por grossas paredes de granito rematadas com ameias, media 100 palmos de altura e era dividida em dois sobrados. No piso superior ficava a sala do

Senado, no segundo piso a sala de audiências e no piso térreo um armazém. Em finais do século XVIII o edifício estava em ruina eminente obrigando a Câmara a mudar-se para outros espaços arrendados até à compra de um edifício próprio. Em 1875 o edifício seria destruído por um incêndio, permanecendo em ruinas até 2000, ano em que seria transformado, segundo projeto de Fernando Távora (1923-2005), em “memorial recordatório de longos anos de vida e de história da cidade do Porto”. Concluída em 2001, a construção atual respeita a sobriedade da construção primitiva e os 100 palmos de altura, devidamente assinalados no exterior. Digna de referência é a parede em vidro, oposta à da entrada principal, através da qual se pode ter uma perspetiva panorâmica da cidade, e ainda o teto dourado do primeiro sobrado. Na “Casa da Câmara” funciona desde 2005, um Posto de Turismo Municipal. Fernando Távora, nome fundamental na Arquitetura portuense, foi um dos fundadores da ODAM – Organização dos Arquitetos Modernos,


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em 1947, e é um dos grandes mentores da chamada “Escola do Porto”, tendo sido mestre e professor de muitos e consagrados arquitetos, entre os quais Álvaro Siza. Ao deixar a Estação de S. Bento pode ver outro belo exemplo da arte azulejar portuguesa na fachada da Igreja dos Congregados. É a partir daqui que irá começar o percurso pela Rua Sá da Bandeira, uma das que melhor documenta a evolução da arquitetura Moderna da cidade. A toponímia presta homenagem a Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, nobre e político português do tempo da monarquia constitucional. A rua começou a ser aberta em 1836, engolindo vielas, hortas e quintais e expropriando algumas fábricas pelo caminho, tendo o seu prolongamento conhecido sucessivas fases até 1939, dando lugar a uma grande artéria da cidade, fundamental para o descongestionamento e distribuição do trânsito crescente. Dos inúmeros edifícios dignos de interesse que

se podem encontrar nesta rua, apenas iremos mencionar alguns dos mais representativos. À direita e à esquerda, logo no início da rua, encontram-se dois belos edifícios ainda marcadamente de influência beaux-arts foto 33. Adiante, do lado esquerdo, no nº15, existe uma barbearia que resiste à passagem do tempo. Projeto de Manuel Marques, de 1929, a antiga Barbearia Tinoco foto 34, mantém ainda muito do mobiliário original. Do mesmo lado, no nº 21, sobressai a fachada do edifício do Hotel Peninsular foto 35. Quase em frente, do lado direito, no nº 56, poderá reparar no pormenor invulgar das vieiras de Santiago a adornar o telhado de um edifício foto 36. Mais à frente, à direita, no nº 84, o Hotel Teatro inaugurado em 2010, projeto de Nini de Andrade e Silva e de Miguel Brito Nogueira, surge no mesmo local do antigo Teatro Baquet. Inaugurado em 1859, foi palco de variadíssimas peças e operetas, género em voga muito

apreciado pelo público da época, até que na noite de 20 de Março de 1888, no decorrer de uma ópera cómica que lotou por completo o teatro, deflagrou um violento incêndio que vitimou mais de cem pessoas e o destruiu por completo. Posteriormente, o seu espaço foi ocupado primeiro por uns grandes armazéns comerciais, os “Hermínios” e depois por uma dependência da Companhia União Fabril. Em frente ao antigo teatro, encontra-se o edifício do café A Brasileira foto 37, projetado por Francisco de Oliveira Ferreira em 1915. “A Brasileira” destaca-se pela sua fachada, em que sobressai um para-sol de ferro e vidro de 1916, e, em tempos, gaças ao seu interior requintado onde predominavam os cristais, mármores e mobiliário de couro gravado, era um dos cafés de eleição da cidade. A loja de café a “A Brasileira” abriu em 1903, sendo propriedade de Adriano Teles, emigrante retornado de Minas Gerais, no Brasil, onde se havia dedicado ao negócio do café. Desejando difundir a sua marca e fomentar o hábito de tomar


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café, desenvolveu uma interessante operação de marketing, oferecendo uma chávena de café a quem comprasse café em grão. Igualmente interessante era a publicidade com a célebre frase “O melhor café é o d’ A Brasileira”, composta em azulejos colocados em locais estratégicos de passagem e impressa em chávenas que muitas das nossas avós ainda possuirão e que são hoje cobiçadas por colecionadores. O sucesso das vendas levou à ampliação das instalações adquirindo os edifícios contíguos e abrindo o café “A Brasileira” que ficava assim separado da loja. Depois do Porto, Adriano Teles abriu “A Brasileira” de Lisboa, no Chiado, em 1905, e “A Brasileira” de Braga, em 1907. Aqui siga à esquerda pela Rua do Bonjardim. Para além do restaurante Regaleira, berço da afamada “francesinha”, veja no n.º 105 o Cardoso Cabeleireiros, foto 38, casa que produz e comercializa cabeleiras postiças desde 1906. Logo a seguir chegará à Praça D. João I, onde pontuam vários importantes edifícios da Arquitetura Moderna do Porto.

À esquerda, o Teatro Rivoli foto 39, com projeto de Júlio de Brito e frisos do escultor Henrique Moreira, datado de 1932 e posteriormente remodelado em 1997 por Pedro Ramalho (1937). Em frente, o Palácio Atlântico foto 40, de 1950, projeto da ARS Arquitetos (arquitetos Fortunato Cabral, Cunha Leão e Morais Soares) decorado com painéis artísticos em mosaicos policromados de Jorge Barradas, construído para ser a sede do antigo Banco Português do Atlântico de António Cupertino de Miranda. À direita, aquele que foi em 1945, o prédio mais alto de Portugal, de Rogério de Azevedo (18981984) e de Baltasar de Castro (1891-1967), o famoso Rialto foto 41. São notáveis as vigorosas esculturas que ladeiam a Praça, os “Corcéis”, da autoria do escultor João Fragoso, de 1954. Saindo da Praça D. João I em direção à Rua Sá da Bandeira, atravesse para a Rua Passos Manuel e suba-a pelo lado esquerdo para melhor poder apreciar os edifícios que se seguem.

No nº 44, encontra-se a sede do Clube Ateneu Comercial do Porto foto 42, fundado em 1869. Ocupando estas instalações desde 1885, possui uma biblioteca com um espólio superior a 40.000 títulos e 80.000 volumes, destacando-se a primeira edição fac-símile dos Lusíadas, de Luís de Camões, de 1572. Acima, na esquina com a Rua de Santa Catarina, estão os antigos Armazéns Nascimento foto 43, da autoria de Marques da Silva, de 1914. Posteriormente, o edifício seria convertido em Café, o famoso Palladium, frequentado por comerciantes abastados. As sucessivas ocupações de que o edifício tem vindo a ser alvo desde a sua construção, têm alterado substancialmente o seu interior. Em frente, na esquina da Rua Santa Catarina com a Rua Passos Manuel, ergue-se o edifício da antiga Casa Inglesa foto 44, projeto de Francisco de Oliveira Ferreira, de 1923.


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Faça agora uma pequena incursão à direita, em direção à Rua 31 de Janeiro. Na esquina da Rua de Santa Catarina com a Rua 31 de Janeiro poderá ver do seu lado direito a fachada da antiga Ourivesaria Reis & Filhos foto 45, agora uma loja de moda. Repare na fachada e no pormenor do teto pintado. Foi autor do projeto de arquitetura o arquiteto José Teixeira Lopes (1872-1919) com a colaboração de seu irmão, o escultor António Teixeira Lopes. Em frente, uma das mais antigas livrarias da cidade, a Latina foto 46, recentemente remodelada. Ao cimo da Rua 31 de Janeiro, à esquerda, erguese a Igreja de Santo Ildefonso foto 47, construída entre 1730 e 1737. No interior poderá admirar a obra de talha com risco de Nicolau Nazoni, também ele um arquiteto de grande importância na cidade. Os azulejos da fachada são da autoria de Jorge Colaço. Prolongando o olhar em frente veremos as fachadas de dois emblemáticos edifícios da cidade: o antigo Café e Cinema Águia D’Ouro

foto 48 e o Cinema Batalha foto 49. O primeiro data de 1839, tendo sido remodelado em 1931. Em 1989 o cinema fecharia portas e ficaria votado ao abandono, tendo sido alvo de intervenção recente que, preservando a fachada, deu origem ao hotel B&B. Mesmo ao lado, aguardando recuperação, encontra-se o Cinema Batalha, projeto de Artur Andrade, de 1946. O arquiteto (1913-2005) foi membro fundador da ODAM (Organização dos Arquitetos Modernos) e esta obra é um sinal importante de uma nova geração moderna. Nos anos 40 os cinemas eram vistos como símbolos de modernidade e prestígio, espaços de referência na cidade e por isso, a utilização de uma linguagem formal moderna, era vista quase como uma consequência natural. O edifício organiza-se em torno de uma sala, à volta da qual funcionam todos os restantes espaços, nomeadamente amplos “foyers”, iluminados pelos janelões da fachada. Na época dois artistas plásticos colaboraram com Artur Andrade – Júlio Pomar com frescos neorrealistas e A. Braga com um

baixo-relevo colocado na fachada. No caso de Pomar a censura dará ordem de destruição e no caso de A. Braga de alteração da representação (foi retirada uma foice e um martelo). Mais à frente, na Praça da Batalha, pode ver a fachada amarelo ocre do Teatro Nacional de São João foto 50. O Real Teatro de São João foi construído segundo projeto do arquiteto e cenógrafo italiano Vincenzo Mazzoneschi e inaugurado oficialmente no dia 13 de Maio de 1798. Destruído por um incêndio em 1908, coube a José Marques da Silva a sua reconstrução, feita já com recurso ao betão na estrutura, mas mantendo no estilo decorativo a inspiração francesa, tão característica da época. Inaugurado em 1920, o edifício foi-se degradando até ser adquirido pelo Estado em 1992, tendo sido atribuído em 1993, o processo de restauro, remodelação e reequipamento, ao arquiteto João Carreira. Em 2012 foi reclassificado como Monumento Nacional. O Teatro Nacional São João pode ser visitado todos os sábados, às 12:00, mediante reserva prévia até às 18:00 de sexta-feira para rp@tnsj.pt.


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Voltando atrás em direção à Rua Passos Manuel, no cruzamento, vire à direita. Aí, frente a frente, estão dois ícones do Modernismo no Porto: o Coliseu do Porto e a Garagem Passos Manuel. No nº 178, encontra-se a Garagem Passos Manuel foto 51, de Mário de Abreu, de 1930. Os pisos inferiores destinam-se a parqueamento automóvel; por cima, um piso de escritórios organizado em volta de pátios, e por último um piso para habitação. Integrava ainda espaços comerciais destinados a Stand de vendas, barbearia, cafetaria e engraxadoria. De realçar o recurso ao néon enquanto elemento decorativo inovador, neste caso configurando o mapa de Portugal, assente sobre superfície de vidro. Atualmente, no quarto piso, existe um espaço polivalente de cultura e lazer. Mesmo em frente, no nº 137, outro ícone do Modernismo, o Coliseu do Porto foto 52 projeto de Cassiano Branco (1897-1970), Júlio de Brito (1896-1965) e Mário de Abreu, datado de 1941. Obra do arquiteto Cassiano Branco, mas com

intervenção de outros arquitetos, principalmente de Mário Abreu, o Coliseu é considerado uma obra emblemática do modernismo português da primeira geração. Conhecido fundamentalmente como sala de espetáculos, o Coliseu foi usado também como sala de cinema e outros eventos culturais, a par de espaços para escritórios. O interior da sala e o alçado, onde sobressai uma torre de 42 metros, dão à obra uma forma expressionista que enfatiza o sentido espetacular da arquitetura, não fosse este, um edifício destinado ao espetáculo. A utilização de materiais ricos e luxuosos como mármores, estuque, cobre e ferro forjado denunciam influências Art Déco em Cassiano Branco e dão espetacularidade aos ambientes. Infelizmente, o projeto integral não seria levado até ao fim por afastamento do arquiteto devido a problemas com o empreiteiro. O Coliseu do Porto alberga ainda o espaço do Cinema Passos Manuel, agora com funções polivalentes.

Descendo a Rua Passos Manuel até ao cruzamento com a Rua Santa Catarina, encontraremos logo à direita, o famoso Café Majestic foto 53, projeto de João Queirós. Inaugurado em 1921 como Café Elite, viria a tomar o nome que ainda mantém em 1922. Era frequentado pela elite da cidade e local de reunião de comerciantes, artistas, homens de letras e senhoras da sociedade. Dos anos 60 aos anos 80 o café foi-se degradando, até ser decretado imóvel de interesse público e património cultural em 1983, ano em que foi adquirido pelo atual proprietário que procedeu ao seu rigoroso restauro devolvendo-lhe o encanto de outros tempos. Mesmo ao lado do café está a Casa Alvão, uma das mais antigas casas de fotografia da cidade a funcionar no mesmo local desde 1901.


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Prosseguindo pela Rua Santa Catarina, no nº 200, levante o olhar para reparar no pormenor dos azulejos fazendo publicidade ao antigo Grande Bazar do Porto foto 54. Em frente, no nº 197, encontra-se um dos mais antigos hotéis da Cidade, o Grande Hotel do Porto foto 55, da autoria de Silva Sardinha (18451906), datado de 1880, de inspiração Vitoriana, ornado por um pequeno e bonito para-sol em vidro e ferro. O hotel tem vindo a ser renovado desde 2008 pelo atelier Cremascoli, Okumura, Rodrigues, Arquitetos, com design de interiores de Fernando Marques de Oliveira. Virando à esquerda para a Rua Formosa repare nos azulejos que decoram a fachada da mercearia Pérola do Bolhão foto 56, fundada em 1917 e um dos estabelecimentos de comércio tradicional que encontrará nesta zona em torno do Mercado do Bolhão. Atravesse agora para o outro lado da rua e entre na Rua Alexandre Braga.

Aproveite para reparar, no cimo do prédio da esquina com a Rua Formosa, no bonito miradouro em ferro forjado foto 57. Acima, à direita, no nº 94, poderá ver mais um projeto da autoria de Marques da Silva, de 1928. Destaca-se o pormenor da assinatura do arquiteto foto 58 na fachada do prédio. Mais acima, à esquerda, encontrará a entrada para a Estação de Metro do Bolhão foto 59, projetada por Eduardo Souto de Moura, onde poderá ver o painel de azulejos de Júlio Resende (1917-2011) (sugerimos-lhe vivamente que visite o Lugar do Desenho dedicado à obra do Mestre, em Gondomar), inspirado na vivência do Mercado e das suas vendedoras. A seguir ao nº 93 está uma das entradas para o Mercado do Bolhão foto 60, que deve o seu nome ao facto de assentar numa nascente de água e de ter, em tempos, nas suas imediações, uma bica designada de “Fonte do Bolhão”. Projeto de Correia da Silva, edificado entre 1914 e

1917, ocupa todo o quarteirão, desenvolvendo-se em torno de um chafariz com quatro bicas, com dois pisos interligados por várias escadarias, em torno de um pátio central subdividido em dois espaços exteriores através de uma galeria coberta, dos anos quarenta. Exteriormente, o edifício aloja vários estabelecimentos voltados para as quatro ruas que o delimitam: Fernandes Tomás, a norte, Alexandre Braga, a este, Formosa, a sul, e Sá da Bandeira a oeste. Os torreões que rematam as esquinas denotam uma influência Beaux-Arts, e o frontão virado para a Rua Formosa é decorado com esculturas representando o Comércio e a Agricultura. Classificado como imóvel de interesse público em 2006, aguarda obras de recuperação.


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À saída poderá observar na Rua Sá da Bandeira, os detalhes interessantes de azulejos e ferro forjado em portas e varandas, alguns revelando influência Arte Nova, para além de poder tomar contacto com estabelecimentos de comércio tradicional. Suba a Rua Sá da Bandeira. Ao chegar ao cruzamento com a Rua Fernandes Tomás, verá do lado esquerdo o edifício denominado Palácio do Comércio foto 61, que ocupa todo o quarteirão, projeto de 1941, de David Moreira da Silva, genro de Marques da Silva. Edifício de grande imponência, nele sobressaem, entre muitos outros detalhes, os vidros curvos importados de propósito da Bélgica, assentes em caixilharia de bronze, e o torreão que remata a esquina da Rua Sá da Bandeira com a Rua Fernandes Tomás. Sobressai igualmente o conjunto escultórico que ornamenta a fachada voltada para a Rua Sá da Bandeira.

Continuando a subir a Rua Sá da Bandeira, do lado esquerdo, no n.º 633/673, encontrará o Edifício DKW foto 62, de Arménio Losa (19081988) e Cassiano Barbosa (1897-1970), de 1951, destinado a garagem, estabelecimentos comerciais, escritórios e habitação. A garagem ocupa toda a área do terreno em dois pavimentos sobrepostos e os estabelecimentos comerciais ocupam o pavimento ao nível das ruas. Os compartimentos/escritórios, podem agrupar-se e desagrupar-se criando espaços de diferentes dimensões consoante as necessidades, revelando uma forma moderna de conceção dos espaços adaptada a novos estilos de vida. Para além da interessante distribuição de volumes, a pala na entrada e a escada helicoidal no interior são também traços a observar. Vire agora à esquerda na Rua Guedes de Azevedo. Aqui é confrontado, à direita, com a singular imagem da pequena Capela de Fradelos, do século XIX, tendo como pano de fundo a grande estrutura helicoidal em betão armado aparente que constitui o Silo-Auto foto 63, um projeto de

1964, dos arquitetos Alberto Pessoa (1919-1985) e João Abel Bessa, destinado a resolver os problemas de estacionamento que se verificavam na época. Em frente, do lado esquerdo, ergue-se a torre do Hotel D. Henrique foto 64. Projetada pelos arquitetos C. de Almeida, José Carlos Loureiro (1925) e Luís Pádua Ramos (1931-2005) na década de 60 do século XX, primeiramente para escritórios, foi, já em fase de construção, adaptada a hotel. Completa o projeto uma galeria comercial com acessos diretos pelas Ruas do Bolhão e do Bonjardim, com jardins interiores. O Hotel dispõe de um restaurante panorâmico no 17º andar, diferenciado no exterior pela existência de um brise-soleil. Prosseguindo pela Rua Guedes de Azevedo vire à esquerda para a Rua do Bonjardim, antiga estrada de Guimarães.


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Na primeira rua à direita verá, também à direita, a Estação de Metro da Trindade foto 65, projetada pelo arquiteto Souto de Moura. Nesta estação, cruzam-se todas as linhas de metro, sendo o acesso à linha D, que une Porto e Gaia, feito pelo cais do subsolo. Atravesse a Rua da Trindade. Poderá aproveitar para visitar a Igreja da Trindade foto 66, de estilo neoclássico, construída durante o séc. XIX segundo projeto de Carlos Cruz Amarante. Em frente à igreja surge a parte traseira do edifício dos Paços do Concelho, mais sóbria e despojada. De volta ao ponto de partida, termina assim este percurso que, esperamos, lhe tenha despertado a vontade de calcorrear outras ruas, outras zonas, partindo à descoberta da história e das histórias que a cidade encerra, aguardando apenas um olhar seu para as revelar.

Notas:


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Percursos pela Arquitetura do Porto – Dos Aliados à Trindade  

Neste primeiro percurso entre a Avenida dos Aliados e o Largo da Trindade, torna-se bastante evidente a amálgama de épocas, estilos e influê...

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