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VÍRUS Porque neutro nem sabonete, nem a Suíça

R$3,00 edição nº 13 fevereiro/março 2012

PLANETÁRIO

sé dos campos de guernica a são jo

A Barbárie de Pinheirinho

ENTREVISTA INCLUSIVA com

Cesare Battisti O escritor e ativista além das lentes da mídia grande

Mato Grosso do Sul

A questão indígena Reservas indígenas sofrem com constantes ataques do latifúndio no estado

Viagem à Rússia Nosso repórter conta como vai o país 20 anos após o fim da URSS

Periferia ganha a cena cultural

EDIÇÃO DIGITAL

nº13

Expressões do Hip-Hop e Poesia ganham cada vez mais espaço através da mídia alternativa e internet


Em agosto do ano passado, o coletivo da revista vírus planetário abriu sua própria editora:

SIGNIFICADO DE MALUNGO: Companheiro, camarada. Nome que se davam mutuamente os escravizados vindos da África no mesmo navio. Pelo simbolismo da força que este nome carrega, trazendo ao mesmo tempo o espírito de luta e de companheirismo presentes em nossas raízes negras e africanas, é que escolhemos este nome para batizar nossa editora.

Comunicação e Editora Além de editar a Vírus, a Malungo também realiza atividades de comunicação (edição, reportagens, diagramação, construção de sites, artes gráficas, entre outros) para organizações, sindicatos e outros movimentos sociais.

Caso deseje contratar os serviços da Malungo, entre em contato pelo email: malungo@virusplanetario.net

traço livre Por Laíssa Gamaro - www.estudiocosmonauta.com.br

Por Pedro Machado

Que seja mais uma etapa na árdua, mas recompensadora, caminhada pela comunicação construtora de um mundo em que haja felicidade para todas e todos.


Editorial Enquanto o mundo explode Entramos em 2012! E não é que o mundo não acabou?! Quer dizer, temos sinais apocalípticos de destruição da humanidade, como Pinheirinho, mas este e tantos outros episódios não reduzirão nosso ânimo, em nome da crença que carregamos. Sim, um outro olhar é possível... Pelo viés da Arte, traçamos a mescla entre rap, poesia e uma ideia de outra periferia, a partir do atual cenário na capital paulistana, com os artistas Criolo, Emicida e Sérgio Vaz. A Entrevista Inclusiva é com Cesare Battisti. Acuado por todos os lados, o ex-guerrilheiro italiano encontrou respaldo no Fórum Social Temático deste ano. Além desta entrevista especial, esta edição também conta com matéria de estreia da nossa redação de Campo Grande (MS). Além deles, contamos com participantes do Rio, Brasília e São Paulo. Voltando ao Pinheirinho, foi reaberta a safra de remoções. E o fato coube ao governador de São Paulo Geraldo Alckmin e seu fiel prefeito de São José dos Campos Eduardo Cury. Ambos têm feito de tudo para tirar as lentes de cima dos crimes iniciados em 22 de janeiro, mas partilhamos o título do poema abixo. No final das contas, interessa que a utopia está entranhada nas almas de todos nós.

“A utopia está entranhada na minha alma” “Entre mortos e feridos, não se salvaram todos Reerguidos, ainda marcham fúnebres os tolos

Criaram o mundo como sua imagem e semelhança Rasgaram todos os véus, esmagaram a esperança Quando veem um pobre, dizem bate! Bate! Lambe minhas botas, pois é só isso que você sabe. E não me venha dizer que é cidadão Idiota, você já nasceu imerso dentro de uma prisão

Sumário 4

Passatempos Virais

6 Miguel Baldez_Barbárie 7 Internacional_Viagem à Rússia 10 Bula Cultural_Nova cena cultural da periferia

12 Bula Cultural 13 Sórdidos detalhes 14 Oswaldo Munteal_Universidade formando cidadãos: PROCURA-SE

15 Traço livre 16 Pinheirinho_Terra Arrasada 18 O Sensacional Repórter Sensacionalista 19 Meio ambiente_”Fora TKCSA” 22 Mônica Lima_Isso é desenvolvimento?_ Privatização do SUS

Isso é realidade, não ironia A depressão corrói todo o meu dia

24 Entrevista Esther Vivas

Mas encarando a barbárie, resolvi me rebelar Se rebelo, me revelo belo ao revelar

26 Rio de Janeiro_Metrô Caminhando pelo

Que os sonhos quem me cativam não são do cativeiro Se um dia fui cativo, hoje sou desordeiro

desrespeito

Só que eles continuam a comer o bolo inteiro E me chamam de ladrão, bicha, maconheiro Mas pode ter certeza, meu parceiro Não tenho mais tempo para o desespero Sou fé, minha luta nem sempre recebe palma A utopia está entranhada na minha alma Até a vitória, companheiro!” (Rodrigo Dias Teixeira)

28 Entrevista Inclusiva_Cesare Battisti 32 Conheça Mato Grosso do Sul 34 Colaborações EQUIPE:

Coordenação editorial: Artur Romeu, Caio Amorim, Júlia Bertolini, Mariana Gomes e Seiji Nomura Redação: (textos, >Envie colaborações s, ica crít s), foto os, desenh opiniões dúvidas, sugestões e para

rio.net

contato@virusplaneta

ção, A partir da próxima edi ão de seç a um os em rar inaugu s. ore leit cartas de pação! Queremos sua partici

Rio de Janeiro: Daniel Israel, Felipe Salek, Fernanda Freire, Maira Moreira, Maria Luiza Baldez e Rodrigo Teixeira | Campo Grande (MS): Marina Duarte, Rafael de Abreu e Tainá Jara | Brasília: Thiago Vilela

Diagramação: Caio Amorim e Mariana Gomes Ilustrações: Rio de Janeiro: Carlos D Medeiros - ARTE S.A.- www.umbigogroup.com(Guernica Capa), Carlos Latuff, Diego Novaes, Davi Baltar e Francis Carnaúba; Franca-SP: Pedro Machado; Vila Velha-ES: Laíssa Gamaro e Leonardo Almenara (estudiocosmonauta.com.br); Santa Maria - RS: Rafael Balbueno (revistaovies.com) Revisão: Bruna Baldez e Diego Gouvea Colunista: Oswaldo Munteal Colaborações: Miguel Baldez, Mônica Lima, Vitor Rodrigues, Ramón Chaves e Vanessa Marcondes Conselho Editorial: Adriana Facina, Ana Enne, André Guimarães, Carlos Latuff, Dênis de Moraes, Eduardo Sá, Gizele Martins, Gustavo Barreto, João Tancredo, Larissa Dahmer, MC Leonardo, Marcelo Yuka, Marcos Alvito, Michael Löwy, Miguel Baldez, Orlando Zaccone, Oswaldo Munteal, Paulo Passarinho, Tarcisio Carvalho, e Virginia Fontes

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A Revista Vírus Planetário - ISSN 2236-7969 é uma publicação da Malungo Comunicação e Editora com sede no Rio de Janeiro


PASSATEMPOS VIRAIS

PALAVRAS CRUZADAS

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Por Felipe Salek

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5 1 – Primeiro nome do atual Governador de São Paulo, que ordenou a execução do massacre de Pinheirinho. Dica: Ele não é engraçado como o Magela, não é e nem quer ser nordestino como o Azevedo e não está nem aí pra falar das flores como o Vandré. 2 – Nome da empresa que decretou falência em um processo fraudulento e ganhou, através da lógica exclusiva da justiça tucana, o direito de reintegração de posse do terreno do Pinheirinho.

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3 – Nome da cidade onde ocorreu o massacre de Pinheirinho.

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4 – Nome da operação da Polícia Federal que decretou a prisão do megaempresário dono da Selecta, que posteriormente foi inocentado. Como pedido de desculpas, recebeu do governo tucano a reintegração de posse do terreno do Pinheirinho. 5 – Secretária de Justiça do Estado de São Paulo. Um trabalho relativamente simples, pois onde não há justiça, qual a utilidade de uma secretária?

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6 – Tipo de direito completamente ignorado no caso Pinheirinho. Aliás, é sempre o primeiro a ser ignorado. Afinal, quem quer defender humanos? Vai defender alguma coisa que preste.

10 – Sobrenome de um dos colegas do megaempresário “dono” do terreno do Pinheirinho. Apesar de ter o mesmo nome, não é o ator da Globo. Mas protagonizou, junto com Celso Pitta e o tal megaempresário, uma das maiores falcatruas da história do Brasil republicano.

7 – Sobrenome da juíza que determinou a reintegração de posse do Pinheirinho e, segundo a mesma, se surpreendeu positivamente com a eficiência (sic) da Polícia Militar. Ela não acreditava no potencial da PMSP de oprimir e massacrar pobres desfavorecidos. Que ingênua, né?

12 – Ministro do Supremo Tribunal Federal que negou o pedido de suspensão da reintegração de posse da área do Pinheirinho. Dizem que a maior herança do Império Romano foi o direito. Assim o ministro fez valer seu nome.

14 – Prefeito da cidade onde se localiza o Pinheirinho. Com inveja da ação do Governo do Estado no caso, resolveu tirar uma casquinha e serviu comida estragada aos desabrigados. 15 e 16 – Livro de Amaury Ribeiro Jr. que denunciou todo o esquema de corrupção por trás das privatizações no Governo FHC. A maioria das pessoas citadas acima podem ser encontradas lá. 17 – Nosso presidente-sigla, desgovernou o Brasil no período da privataria do PSDB. Segundo alguns analistas, o governo do PT deve a ele a grande evolução que o país teve. Nesse caso, era melhor ter involuído. 18 – Rede de jornal e televisão que considerou desimportante falar sobre qualquer tema acima mencionado.

RESPOSTAS:

9 – Cineasta que se algemou em greve de fome em frente a uma emissora de televisão contra a omissão na abordagem do massacre de Pinheirinho. A emissora optou por se omitir quanto ao protesto.

13 – Filha do jamais presidente José Serra. Tinha uma empresa em sociedade com a irmã do indivíduo que está no número 10 deste passatempo. Aliás, elas compartilham o mesmo nome e as mesmas denúncias. Só mudam de sobrenome, talvez para despistar.

1- Geraldo / 2- Selecta / 3- São José dos Campos / 4 - Satiagraha / 5- Eloisa Arruda / 6 - Direitos Humanos / 7 - Loureiro / 8- Tropa de Choque / 9 - Pedro Rios Leão / 10- Dantas / 11- Naji Nahas / 12- Cezar Peluso / 13- Veronica Serra / 14- Eduardo Cury 15- Privataria / 16 - Tucana / 17-FHC / 18- Rede Globo

8 – Tropa da Polícia Militar utilizada na reintegração de posse do terreno do Pinheirinho. Trocadilho infame: Eles conseguiram CHOCAR o mundo com a brutalidade da operação.

11 – Até que enfim! Nome do megaempresário dono da falida empresa Selecta, do falido Governo do Estado de São Paulo e da falida Justiça do Estado de São Paulo. Seu primeiro nome parece com o de uma cobra. Qualquer semelhança é mera coincidência.


LABIRINTO Por Laíssa Gamaro


MIGUEL BALDEZ Miguel Baldez é professor do IBMEC, ex-procurador do estado, um dos fundadores do Núcleo de Terras e Habitação da Defensoria Pública do Rio de Janeiro e coordenador do Núcleo de Assessoria Jurídica Popular – NAJUP

Algumas questões sobre Pinheirinho e a barbárie contra a população pobre do Brasil

“Barbárie” As aspas são uma referência à presidenta Dilma Rousseff que, segundo dizem os jornais, usou esta mesma expressão para classificar a violência do Estado de São Paulo contra a comunidade do Pinheirinho em São José dos Campos. Barbárie sim, mas e agora? Como vai comportar-se o governo

A este povo nunca se reconheceu, concretamente, qualquer direito”

federal? Acomodar-se e reduzir o fato em si a mero caso isolado, ou admitir, enfim, que não se trata de uma simples exceção política, como poderia, até com argumentos conceituais, manter na história do Brasil o atual fingimento democrático que esconde esta sociedade de privilégios e miséria cuja origem se perde na gestação colonial de estrutura escravista para projetar-se tempo afora sob o signo fortemente colorido da pobreza de seu povo, de parca alimentação e sequestrada moradia. A este povo nunca se reconheceu, concretamente, qualquer direito, apenas formulações jurídicas, uma bem urdida igualdade na lei. Pois está na imposição e eficácia da lei abstrata o principal meio de controle da sociedade. É através das leis que se reduzem a conflitos individuais as grandes contradições sócioeconômicas, é assim, como exemplo definitivo, que a contradição entre

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trabalho e capital, pela regulação do direito do trabalho, fica reduzida ao conflito entre empregado e empregador, é assim também que a contradição entre o latifúndio ou o agronegócio e a posse da terra configura-se como conflito pessoal entre o latifundiário e o posseiro. Foi, portanto, com poder político que o poder econômico construiu em torno da terra no Brasil uma quase intransponível cerca jurídica, aliás, duas cercas jurídicas, uma cerca morta, tecida com normas constitucionais e leis, produzida por artesãos de variados poderes institucionais, outra viva, representada por juízes, promotores e, principalmente, por ferozes policiais bem amestrados que se revezam com a imprensa como cães de guarda da propriedade privada. A violenta investida armada contra Pinheirinho não chega a ser uma novidade no trato do povo sem terra e sem moradia. Se o espanto e a repercussão foram maiores isso se deveu à brutalidade da ação das autoridades do governo de São Paulo ao mostrarem, sem o menor pudor, a cara horrenda do fascismo.

mais frequentes nestes brasis: em Belo Horizonte, a heróica resistência de Dandara, no Rio de Janeiro, a permanente prática predatória do Prefeito e de seu fidelíssimo Secretário de Habitação, derrubando com frenético ritmo casas e mais casas da população pobre da cidade... E são todos religiosos e fiéis a seus respectivos credos... Como se dizia, aliás, de vários torturadores durante a ditadura militar. Como resistir? Só o povo pode travar esta luta, que, sendo estratégica, é libertária, e pressupõe ética e igualdade substantiva. Mas esta é uma luta que não se trava sozinho. Daí ser fundamental o apoio de todos à gente do Pinheirinho, apoio do povo e das instâncias democráticas do campo institucional. Enfim, em conclusão, um apelo à Exª. Srª. Presidenta da República. Diga, Exª., a esta gente do poder, que a sua prédica pela erradicação da pobreza, além do discurso, é um princípio constitucional (artigo 3º da Constituição Federal), e diga também, com forte ênfase, que erradicar a pobreza não significa acabar fisicamente com os pobres desta sofrida nação.

O repúdio ao massacre do Pinheirinho vem reforçar o repúdio a todas as situações idênticas cada hora Ilustração: Carlos Latuff


internacional

Viagem à Rússia

dentro de sonhos

Nosso repórter conta um pouco do que viu numa Moscou depois de 20 anos do fim da União Soviética Por Thiago Vilela Políticos corruptos, empresários poderosos controlando vários setores da sociedade, idosos nostálgicos de um passado tão distante quanto imaginário e uma juventude que não conhece sua própria história. Não, não estou falando do Brasil. É da Rússia mesmo. Estive em Moscou durante uma semana no gelado começo de novembro (2011). Tudo começa na casa de Ignat Solovey, moscovita, que me hospeda por dois dias. Dez anos vivendo sob o antigo regime socialista e vinte anos sob o novo sistema, o russo analisa criticamente o atual estado do seu país. Como fui até o outro lado do planeta só para aprender mais sobre o antigo regime, convido-o a tirar algumas dúvidas sobre o sistema soviético. Começo a conversa com uma provocação: “No Brasil, estudamos Hitler e Stálin como ditadores do mesmo patamar...” Sou prontamente interrompido.

Foto: Thiago Vilela

Sonhos escondidos Momentos antes, Ignat já havia me dito que via com bons olhos a queda da URSS e a abertura do regime. Mas, diante da minha colocação, ele foi enfático: “Não dá para comparar. Era um período histórico diferente, Stálin conduziu um grande progresso na nação, não dá para comparar com a perseguição aos judeus e tudo que aconteceu sob o regime nazista”. “Mas ambos foram ditadores, não?”, insisto, pensando no quanto esta aparente contradição sintetiza a Rússia de hoje. É também a partir dessa premissa que conseguimos entender como Stálin pode ser “bem visto” pelos russos. Stálin foi um ditador, e não se nega isso nas ruas, nem foi o que meu amigo fez. Mas a população o respeita. Basta lembrar, por exemplo, como Vargas é lembrado pela população brasileira, inclusive por grande parte da esquerda. Os excessos, chamados de “erros de Stálin”, são reconhecidos como tais, mas analisados sob uma perspectiva histórica do que estava acontecendo no mundo. Enquanto na Rússia prisioneiros políticos eram enviados para os Gulags (campos de trabalhos forçados), na Alemanha os judeus eram enviados a campos de trabalhos forçados ou ainda exterminados – simplesmente por sua cultura. Há, sim, o caso do Grande Expurgo e toda a perseguição política da era Stálin, não estou aqui para defendê-lo, mas sim explicar o ponto de vista russo. Cabe ressaltar, acima de tudo isso, que os excessos Vírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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internacional Praça Vermelha. À esquerda, Catedral de São Basílio. À direita, Mausoléu de Lênin e muro do Kremlin. Foto: Thiago Vilela

“Eles [os soviéticos] gostavam da expressão “u nas vció iêst” – nós temos tudo. Claro que era necessário ter paciência para fazer as compras. Lembra do plano cruzado no Brasil (1986)?. A diferença para a situação brasileira é que na URSS todos podiam consumir. Se havia fila é porque havia o produto, e é assim em qualquer lugar do mundo.” Por causa da “dificuldade” de se obter o necessário para casa, as pessoas compravam muito e tinham o mau hábito de estocar, o que por vezes ampliava o problema. Moscou é a capital, e por isso pessoas vinham do interior fazer compras e as lojas ficavam lotadas”, lembrou ele.

sam Os russos anali situação criticamente a ís.” atual do seu pa

são infinitamente menores do que divulga a mídia ocidental. Há muita literatura, mesmo conservadora, para quem se interessar sobre o assunto. Uma questão que sempre me afligiu era relativa à publicidade

Uma mentira contada mil vezes... soviética. Pelo que estudamos nos livros, confesso sinceramente que sempre imaginei uma sociedade em que cartazes com os dizeres “Seja Comunista!” ocupavam todos os espaços da vida pública. Nada mais longe da verdade. Sociedade totalitária é a nossa, onde vivemos mergulhados num inferno publicitário 24 horas por dia. Ou você consegue ficar 5 minutos sem ver um anúncio? Até nesta revista somos obrigados a colocar anunciantes, basta virar a página! (mentira, só temos duas propagandas nessa edição). Visitando os museus e lendo livros sobre o assunto (“lendo” entre aspas, né, porque era tudo em russo...), percebi facilmente que existia publicidade dos mais diversos produtos, assim como havia na sociedade ocidental, de cigarro a itens luxuosos. Sim, esse tipo de exposição fazia parte do cotidiano da população. Todos os itens, obviamente, fabricados na URSS e em cooperativas de trabalhadores. Destaque para a publicidade na era da NEP*, quando “desvios burgueses” eram não só defendidos como promovidos pelo governo.

Filas abomináveis Outra história muito difundida é sobre o racionamento de comida/produtos no período soviético, que levava a filas enormes e muita dificuldade em se conseguir itens básicos. Almir, brasileiro, estudante e estagiário em um campo de exploração de petróleo na Bielorússia entre 1974 e 1985, conversou comigo e contou um pouco do que viu na época:

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A única fila realmente quilométrica que eu presenciei foi para visitar o túmulo de Lênin.

História Hoje está surgindo na Rússia o mesmo processo que culminou na queda da União Soviética: uma crise de hegemonia. É essencial, portanto, que nos debrucemos sobre este assunto para entender os processos que estão se formando ou que poderão surgir. Foram vários os motivos que levaram àquele fatídico 25 de dezembro de 21 anos atrás, o que torna ainda mais difícil a tarefa de encontrar uma explicação, numa sociedade onde a saúde e a educação tornaramse exemplos mundiais. A indústria cresceu “como nunca antes na história daquele país” e a população abaixo da pobreza, ainda no ano de 1975, era de apenas 1,5%. Ou, mais provável, pode parecer muito difícil acreditar em todos esses números. Só a título de comparação, de acordo com o último Censo dos EUA (2010), o atual nível da população abaixo da linha da pobreza no país norte-americano é de 15,1%. Na atual Rússia, a taxa é de 13,1% (dados do Instituto Levada, um organismo russo independente). Muitos acusam as mudanças promovidas pela Perestroika e Glasnost devido à derrocada do regime. O fato é que o Partido Comunista ficou de tal modo dividido, que já não era possível convencer a sociedade de sua concepção de mundo – simplesmente porque já não existia uma. Existiam várias. Este questionamento era essencial para que o sistema continuasse evoluindo, mas o processo acabou sendo apropriado por algumas poucas pessoas, que se aproveitaram da situação para dar um golpe e derrubar o regime. Dessa maneira, um processo que pode-


Manifestação no dia 24/12 em Moscou contra fraude nas eleições | Fotos: Anna Kucherova (via Flickr)

ria trazer consequências positivas para toda a sociedade foi completamente esmagado durante uma década. Enquanto isso, os russos foram forçados a mergulhar de cabeça na ideologia neoliberal. Privatizações, estado mínimo, e tudo isso que já sabemos, foram postos em prática enquanto a população, atônita, assistia a tudo e se perguntava: “É esse, afinal, o tal capitalismo?”. Eis então que, em 2001, aparece no cenário político o Partido da Rússia Unida, liderado pelo atual primeiro-ministro e ex-presidente Vladimir Putin. Não foi por acaso que ele conseguiu tantas vitórias eleitorais. Seu canto é muito sedutor, com um discurso de união e uma política nacionalista e uma posição contrária à hegemonia ocidental no país. O fato de Putin ter sido da KGB e membro destacado do antigo regime, auxilia ainda mais na criação deste imaginário do “nós contra eles”, como se o Partido da Rússia Unida representasse todos os interesses da população frente a um inimigo externo imaginário.

Desde a fraude nas eleições parlamentares russas, milha res de pessoas têm se reunido pa ra exigir novas eleições, além de outras pautas.”

Nos últimos meses, entretanto, um novo cenário político está se moldando. Desde o episódio de fraude nas eleições parlamentares russas, em dezembro de 2011, milhares de pessoas têm se reunido por todo o país para exigir novas eleições, a libertação dos presos políticos, a elaboração de uma nova legislação eleitoral - dentre diversas outras pautas. Mariana Fagundes, estudante brasileira de intercâmbio em Novosibirisk, na Sibéria, já participou de três manifestações nos últimos dois meses: “A população jovem se opõe ao método de líderes no poder por longos períodos de tempo, como o Putin ou os líderes soviéticos. Mas, ao mesmo tempo que não gostam da palavra socialismo, a maioria usava a fitinha do partido comunista nas manifestações”. O Centro Nacional de Estudo da Opinão Pública da Rússia (VTsIOM) realizou, em 2007, uma pesquisa sobre o que a população achava da ideia de reedificar o socialismo na nova Rússia. A pesquisa apontou que 46% apoiam a ideia, enquanto 17% acham razoável e 37% não consideraram uma boa saída para o país. “Sempre há, também, muitos idosos (nas manifestações) e eu acho isso o máximo, mostra o quanto todos os russos são politizados e que eles têm consciência do que se passa com o país. É bem diferente de nós brasileiros, em que a maioria das pessoas em manifestações políticas são apenas jovens e o pessoal mais velho que participa é até criticado”, completa Mariana. *NEP - Nova Política Econômica, foi a política adotada por Lênin no pós-Guerra para recuperar a economia russa. As pequenas propriedades e o livre comércio foram incentivados. A frase “Dar um passo atrás para dar dois passos à frente”, dita pelo próprio Lênin, reflete exatamente o objetivo da NEP, um programa de transição para continuar avançando rumo ao socialismo. Vírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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algumas recomendações médico-artísticas

Criolo em seu show no Circo Voador (RJ) no dia 4/2. À direita, Dj Dan Dan| Foto: Rodrigo Teixeira

Bula cultural

Periferia ganha novamente cena cultural:

Modismo ou Revolução?

Por Rodrigo Teixeira e Caio Amorim Tornou-se comum no interior das revistas de crítica musical, em páginas e veículos de comunicação diversos a avaliação de que estaríamos em um novo momento do Rap no Brasil. Foi-se o domínio de uma “velha escola”, a qual teria como seus principais representantes o Racionais MC´s, Facção Central, Sabotage, GOG, Rappin Hood, dentre outros. Agora seria o momento de uma “nova escola”, com novas letras, nova sonoridade, e também, novos expoentes. Em abril de 2011, a Época estampou com grande destaque a matéria “O rap virou pop: esqueça a militância política. Os novos astros do gênero querem falar é de amor e amizade”. Em que medida Acho que esta definição é apenas a maioria um rótulo de mercado, ou realmente estamos em prodos homens cesso de transformação do que frequenta ritmo e poesia?

a Cooperifa tem um perfil menos machista. ”

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Grandes nomes da “nova escola” fizeram parte da matéria da Época, algo que poderia ser destacado como “controverso” no mundo do rap, já que grande parte dos rappers preferem boicotar a mídia grande. Mano Brown,

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Novamente sob o brilho dos holofotes, músicos como Criolo, Emicida e poetas como Sérgio Vaz se equilibram entre o mainstream e a mídia alternativa.

líder do Racionais MC´s e old school, estrelou a regravação da música “Umbabarauma” em comercial da Nike, com a qual assinou contrato e irá lançar um tênis com seu nome parte da coleção “WFC” (World Football Collective). Criolo, o principal expoente da “nova escola”, também teve o clipe de sua música “Subirusdoistiozin” patrocinado pela empresa escravista. Assim, se levarmos em consideração um vínculo direto, sem mediações, entre arte e postura política, provavelmente veremos diversas contradições tanto na “velha” quanto na “nova” escola do rap. Um dos destaques da atualidade é a emergência de novos espaços de socialização de cultura, como a “Rinha de MC´s” e a Cooperifa. Na rinha cada MC deve através de improvisações, conhecidas como freestyle, derrotar o seu oponente. Foi dali que surgiu o apelido de Emicida, acostumado a “matar” seus adversários no palco. A Cooperifa, a “cooperativa da periferia” que não é muito bem uma cooperativa, talvez seja um dos principais movimentos culturais populares surgidos nos últimos tempos. Um grupo de amigos fundou um novo sarau de poesias no “Bar do Zé Batidão” no Jardim Guarujá, em 2000. Lá também eram realizadas exposições de fotografia e performances teatrais. Todas as quartas, a partir das 21 horas, quando os trabalhadores já tinham chegado do seu batente, a poesia aquecia no frio da noite, a periferia.


na Facina analisa o Pesquisadora Adriaar periferia movimento de te da

Produziram-se um documentário, uma coletânea com 43 autores (“Rastilho de Pólvora”), um CD de poesia falada e mais de 50 livros lançados, além de eventos e mostras culturais. Para o poeta Sergio Vaz, um dos principais agitadores culturais que fortificaram a Cooperifa, acredita que uma das demonstrações mais fortes da tentativa de transformar a poesia em novos atos e práticas seja o “Ajoelhaço”. Lembrando o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, os homens presentes na Cooperifa se ajoelham diante das mulheres e pedem perdão pelo machismo imposto por eles e pela sociedade em geral: “Tenho certeza de que é uma das noites mais poéticas da periferia de São Paulo. Acho que a maioria dos homens que frequenta a Cooperifa, até pela história que a gente construiu, tem um perfil menos machista, e se ajoelham em respeito, porque sabem o quanto a mulher é humilhada no seu cotidiano. Praticar o que se fala é o lema da Cooperifa. Sabemos também que é muito pouco, mas estamos aprendendo praticando”, disse o poeta. Em entrevista no programa “Provocações” da TV Cultura, perguntado se era “da direita ‘moderna’ ou da esquerda ‘moderna’”, Emicida respondeu “eu sou o povo cara, o povo tá no meio, perdidinho.” Abujamra replicou, “Não, no meio... Quem está no meio cai para a direita; cuidado, a vida não é assim tão vitoriosa como você está”. Felizmente a postura do rapper ao ganhar o prêmio de “melhor artista do ano” no VMB em outubro de 2011, produzido pela emissora MTV, demonstra uma forte postura contra o monopólio

riana F e militante social, Ad sora de história da UF Mano do o cas o A antropóloga, profes ho “Ac i’s’: r alguns ‘pingos nos que Facina prefere coloca pode vestir mil Nikes, olo. O Mano Brown Cri do te ren xar de valer dei vai Brown dife não ia ifer per arte e cultura de tudo que ele fez pela é um pouco diferente, do Criolo, acho que já o cas ito No so. dis sa por cau a, e está chegando mu tem essa mesma estrad do, o que rca me e nd ele é um cara que não gra um muito voltada pra forte de uma maneira artísticas e políticas.” s sõe ces con os implica em rmador desses coletiv destaca o papel transfo de ocorre (on o idã A estudiosa também Bat Zé do Bar locais do Brasil: “O na de cultura em diversos . E hoje, você vai lá ar onde tinha tiroteio lug um era a) erif s, velhos, única nça a Coop cria s, ília fam trar você vai encon a a quarta-feira à noite e er arte, pensar a vid a pra falar poesia, faz nid reu ia.” nár nte cio me olu iva rev lus ito e exc al é mu a transformação do loc m despeito da dureza. Ess stra mo os

coletiv arte popular - sempre “Esses movimentos de diferentes.” - destaca nas ma hu es çõ rela r rui a possibilidade de const o ainda não chegou o investimento públic to en vim mo um Adriana. Além disso, m “Co reclama a antropóloga: te essas iniciativas, como público, por que a gen to e zero de dinheiro pac im mo co ws sho pra desse com tanto es lhõ blicas que paguem mi fúndios precisa de políticas pú ria Bethânia? Esses lati Ma da g blo um pra o que sar pen e Ivete Sangalo ou qu discutidos. A gente tem a ou se são esi po culturais precisam ser de g blo do en a Bethânia faz quer pro Brasil, se é um espalhadas por aí. fas eri op Co de centenas nosso site: * Confira a entrevista

dos meios de comunicação e difusão da cultura. Esperamos que continue assim, e como na sua crítica ao massacre do Pinheirinho, não esteja apenas no meio do povo, mas ao lado de suas lutas.

Show Criolo Com o Circo Voador lotado, Criolo fez um show marcante em sua última passagem no Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro. Tendo a abertura do Kurumim, a noite ficou completa com a entrada do mais novo “super star” abençoado por Chico Buarque e por prêmios na MTV. Se a poesia de suas letras mesclada à diversidade de estilos promovida pela excelente banda que o acompanha não bastavam, a veneração de Bob Marley através de uma camiseta,

a Facina em completa com Adrian com.br www.virusplanetario.

a divulgação do cartaz “Os mortos de Pinheirinho não me deixam comer”, entregue por ativistas que apoiaram a greve de fome do jornalista Pedro Rios em frente a Globo, deram um toque de rebeldia ao espetáculo. Entretanto, o altíssimo preço do show (40 reais antecipado, chegando a marca de 120 na hora na mão dos cambistas), o tratamento desrespeitoso da produção do artista com a imprensa alternativa, ficam como marcas negativas. Ver o público mais vinculado Rap e Funk isolado, sem sequer poder assistir o show de perto, enquanto muitos estavam lá como uma “noitada da lapa”, merece profunda reflexão. O Rap deve avançar mas sem perder suas raízes.

Reprodução de TV

Confira o belo discurso de icida ao ganhar o prêmio de artista do ano naEm MTV Somos a contra-indicação do carnaval / Quilombola do tambor digital / Fênix da cinza de quarta, total / O MST da rede social / Sabemos de onde vem as crianças, alarma / Assim como eles sabem de onde vem as armas / A grana do judeu, petróleo árabe e negócios / Mas o suor é sempre nosso, tio / Vai ter 157 lá Enquanto a UNICEF vier depois das HK / Sem blefe, sem teoria / CDF do que não presta: olha pra esse lugar / E os rappers “brinca” de cafetão / Histórias e espumantes, comemoram a própria extinção / Nós corre mais que Alan Prost / O prêmio não é depressão, que põe pra baixo / Tipo a sombra do ghost, a nova tropicália / Velha ditadura, nossa represália / Fuga da vida dura, ação necessária / Por nossa bandeira: Isso é a reforma agrária da música brasileira, porra! Vírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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Bula cultural

algumas recomendações médico-artísticas

Indicações Livro Poesia Favela Em outubro de 2010, aconteceu na UERJ, sob a coordenação de Adriana Facina, Vitor H. Pereira e Mirna Aragão, o festival Poesia Favela com o objetivo de valorizar a arte das favelas. A experiência foi tão rica e sensibilizadora que rendeu um livro reunindo os principais poemas dos participantes do festival e de referências na literatura das periferias. “Favela que escreve/ Favela que lê/Favela que canta/ Favela que fala/ Favela que traça/ Favela que inspira.” – Esse é o lema do livro que pretende mostrar a favela para além dos problemas, da pobreza, da violência. Provar que o povo pobre das favelas e periferias é tão ou mais humano, solidário e poético como em qualquer outro canto da cidade. Ressignificar o sentido da palavra um Favela que deve ser de orgulho de suas raízes e da luta de o povo sofrido e guerreio para transformar a sociedade, buscand sociais. as o fim das injustiç O livro conta com participações de poetas como Sérgio Vaz, Severino Honorato, Valéria Barbosa, Deley de Acari, além de músicos como Mc Leonardo, Mano Teko e Delírio Black. do Em breve será disponibilizado para download em pdf no blog evento-ocupação: http://poesiafavela.blogspot.com/

Carlos Marighella – quem samba fica, quem não samba vai embora Vai, Carlos, ser Marighella na vida! Esta frase tornou imortal o político e guerrilheiro que combateu duas ditaduras militares no Brasil. Em dezembro de 2011, foi lançado um filme sobre a obra que foram seus 58 anos de vida. Carlos Marighella – quem samba fica, quem não samba vai embora (2011, 90 min.), do documentarista Carlos Pronzato, presta homenagem ao centenário do ativista baiano e traz diversos relatos de quem acompanhou o militante até a última batalha. Sobretudo, Clara Charf, viúva de Marighella. Já no final do documentário, ela aparece em ato à memória do marido, no local onde foi assassinado, em 1969. Confira o blog do filme: www.marighella100anos.wordpress.com

Contraindicações Guia politicamente incorreto da América Latina / Leandro Narloch e Duda

Teixeira. Editora Leya.

Num panfleto conservador e mal escrito, o qual define como características de um ‘bom latino americano’ “Cultuar heróis perversos. [Pois] Quanto mais bobagens eles falarem e quanto mais sabotarem seu próprio pais, mais estátuas equestres e estampas em camisetas serão feitas em sua homenagem”, dois detentores de diplomas de jornalismo utilizam palavras com o objetivo de disseminar preconceitos e gerar lucros. Como disse o jornalista Fernando Morais em um debate, o livro deveria conter uma errata explicando que “ele se chama Guia Politicam ente Correto porque está remando a favor da mar é e absolutamente a favor do vento que sopra na imprensa, especialmente na Revista Veja”. Não é a toa: Leandro Narloch é ex-jornalista da Veja e Dud a Teixeira é editor assistente da Veja em São Paul o.

POSOLOGIA ingerir em caso de marasmo ingerir em caso de repetição cultural ingerir em caso de alienação

manter fora do alcance das crianças nocivo, ingerir apenas com acompanhamento médico extremamente nocivo, não ingerir nem com prescrição médica

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A Mentira varrida pra debaixo do tapete

s o d i d r ó s . . . s e h l a det

Ilustração: Carlos Latuff

Na USP, salve-se quem puder!

Quem é estudante da USP parece que ainda vai passar por maus bocados nas mãos dos PMs, que tomaram o campus da universidade. O último caso noticiado – e de causar espanto - foi a agressão física aplicada ao estudante Nicolas Menezes Barreto, que se negou a mostrar ao policial militar a carteirinha da USP, comprovando que ele é aluno da instituição. Claro que a história tem um detalhe a mais: o aluno era negro. O sargento André Luiz Ferreira foi afastado do cargo. Mas gente, quanta revolta! Foi por coincidência que o PM, gente de bem, foi justamente no único negro entre 20 estudantes, né mesmo?!

criminalizando a greve da segurança pública da bahia e rio de janeiro...

Criminalizar foi apelido para o que a mídia corporativa - especialmente a Globo - fez na greve dos policiais da Bahia e do Rio de Janeiro e dos bombeiros do Rio (no momento do fechamento desta edição, o Cabo Benevenuto Daciolo e dezenas de outras lideranças do movimento estão presos n o presídio de segurança máxima Bangu 1. Daciolo mantém há mais de sete dias uma greve fome em protesto). Circulou na internet um manual de “Como escrever sobre as greves”. As más línguas (na verdade, as boas!) dizem que foi a Rede Globo que organizou este guia e distribui entre as redações da mídia grande. Em nosso site, você pode conferí-lo na íntegra: www.verd.in/k9fb . Veja abaixo um trecho: “Nos atos públicos reduza em média em 80% a estimativa fornecida pelos órgãos oficiais. Portanto, se, por exemplo, uma assembléia na Cinelândia tiver 10 mil pessoas, divulgue 2 mil. A comprovação é simples: colha imagens (fotos ou vídeos) de um plano alto (Helicóptero ou prédio) no momento anterior ao inicio da assembléia ou no final quando estiver bastante esvaziado.

Se começou com o descaso, a violação moral dos direitos da população pobre de São Paulo agora se tornou física e, cada vez mais, abusiva. A repressão policial – que chegou a níveis absurdos – se espalhou pelo estado. A operação na Cracolândia, a princípio, para recuperar a saúde dos moradores de rua da região, mostrou-se uma lamentável desculpa quando os guardas do prefeito Kassab escolheram o porrete como intermediação para internar, inclusive, as crianças e os adolescentes envolvidos com as drogas. Parece que o prefeito entende a saúde pública com um viés um tanto quanto tortuoso, não? Outro tópico é o ataque à moradia. A antiga guerra entre os moradores e a especulação imobiliária toma forma no centro da cidade na Favela do Moinho. No fim do ano passado, a comunidade foi vítima de um incêndio que deixou centenas de famílias desabrigadas. A tática da bolsa-auxílio para os atingidos foi deixada de lado e o único sinal do governo na região são a PM e a Guarda Civil Metropolitana. Uma forma um tanto quanto elegante de convidar os moradores a se retirarem do centro da cidade.

estupro no Big brother:

A culpa nunca é da vítima! Ilustração: Carlos Latuff

Como se não bastasse, a direita também já mostrou a cara entre os próprios universitários. Os estudantes que defenderam o afastamento dos PMs do campus, após a prisão dos três alunos que estavam com maconha na USP, receberam um aviso de grupos extremistas: “Atenção, drogado: se o convênio USP-PM acabar, nós que iremos patrulhar a Cidade Universitária! Maconheiro: Aqui você não terá paz! Se te pegarmos consumindo drogas, enfiaremos tudo no seu rabo!”. E viva a PM na USP pra garantir a segurança dos estudantes de bem! Veja reprodução dos panfletos aqui: www.verd.in/yq0c

fascismo em são paulo

Deixando os assuntos naturalmente polêmicos do BBB à parte – como a submissão às ordens do “adorável” Boninho e provas que colocam a integridade dos participantes em risco-, a 12ª edição do programa colocou em pauta o tema do estupro. As opiniões formuladas a respeito beiram ao insano. Para alguns, a participante Monique teria culpa. Os comentários giram em torno do princípio de que Monique não deveria ter bebido tanto, se quisesse evitar uma situação constrangedora e invasiva. O fato é que nunca o comportamento de uma mulher diante de uma situação de estupro pode ser considerado convidativo e, portanto, dar ao agressor uma justificativa. Caso contrário, os homens teriam um direito tal sobre o corpo das mulheres que elas talvez nunca mais teriam liberdade - se é que um dia já tiveram!

Ilustração: Rafael Balbueno (www.revistaovies.com)


OSWALDO MUNTEAL Oswaldo Munteal é professor de história na UERJ, Facha e PUC-Rio. Pesquisador da FGV, coordenador do grupo de pesquisa Núcleo de Identidade Brasileira e História Contemporânea (NIBRAHC)

Universidade formando cidadãos: PROCURA-SE O desafio de construir a universidade para as classes populares

Charge: Laíssa Gamaro

Mas faz-se necessário mudar algo mais subjetivo, ou seja, a mentalidade de quem ensina, com o objetivo de chegar ao estudante. Os critérios de avaliação podem se basear no que é correto segundo as aulas, mas também naquilo que o estudante tem como a sua opinião. A distância não foi exclusiva do Estado diante das carências. O fosso foi também das relações altamente competitivas estimuladas pelos instrumentos de aperfeiçoamento e capacitação docentes.

“ Um dos maiores desafios do nosso país para o século XXI é o de encontrar uma forma de atuação para o ensino superior, que propicie um alcance para os problemas dos pobres. Pode parecer simplista para alguns simplórios. E é simples mesmo. Porque quem precisa, necessita para ontem. O acesso é um passo importante. Mas e a pesquisa? E a extensão? E o ensino para a graduação? Além do papel da pós-graduação, que é dramático hoje. Não estamos em busca de fórmulas, é obvio, mas sim de ação. A formação para as elites está relativamente assegurada, o problema agora é que essas elites produzam, e ofereçam retorno aos milhões de brasileiros que jamais freqüentarão os bancos das universidades públicas. Há uma sensibilização para o problema em alguns setores da nossa sociedade, mas precisamos acelerar o processo de uma reforma do ensino universitário que ficou nos anos sessenta. É notório que houve um afastamento do ensino superior diante das demandas sociais crescentes. Por outro lado a oferta de bolsas de estudos, e de programas de inclusão também sinalizam para uma política pública de acerto de contas.

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Não trocamos conhecimento por salário, mas sim nossa força de trabalho ”

Afinal temos colegas ou competidores? Professores ou batedores de metas? Alunos ou clientes? Pois é tantas perguntas e poucas respostas. Tanto do poder público quanto da iniciativa privada. O desafio é maior é o de saber o alcance que a sexta economia do mundo quer dar para a sociedade do conhecimento. Um país próspero, com um povo alienado e analfabeto. E a universidade pode ser uma cabeça para o ensino, de maneira geral. Um lugar que possibilite a ampliação do debate para os educadores do básico. Uma cabeça para todo o sistema. A denúncia não é nova. Paulo Freire. Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira já assinalaram para este vácuo.


traço livre

Não se pode ter a ambição de estar entre os grandes com a mentalidade da república velha. Pretendemos sim com estas palavras rápidas retomar um problema antigo, crônico e violento: o povo brasileiro não faz parte do projeto nacional. A educação superior já teve antes da ditadura militar de 1964, um lugar de formação de quadros para o Estado brasileiro. Hoje se transformou numa estufa para o mercado. As relações de mercado tem o seu lugar, evidentemente. Mas sem regulamentação se convertem em monopólios, e acabam se assemelhando ao poder público sem a legitimidade da maioria. Afinal o mercado não deve se opor aos monopólios? Aonde está o livre trânsito? Todos podem ser aquilo que desejam ser? A universidade não deve vender essa ilusão. No ensino superior temos o lugar reservado ao debate de idéias sem os cartéis e as corporações. E o professor em todo este processo? Bem, agora falamos de uma missão e um dever ser diante da vida. Ser professor extrapola o papel imediato da troca. Não trocamos conhecimento por salário, mas a nossa força de trabalho. Enfim os caminhos da universidade hoje dependem de uma ação conjunta entre os movimentos sociais e poder público, pensando de maneira articulada sobre o país esperamos com a universidade que temos para o século XXI. Os centros de qualidade são indiscutíveis, as qualidades individuais docentes também. A pergunta que fica é a seguinte: qual a relação da universidade com o projeto de país que queremos?

Por Rafael Balbueno - www.revistaovies.com

Por Leonardo Almenara - www.estudiocosmonauta.com.br Vírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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direitos humanos

Terra Arrasada Por Maria Luiza Baldez e Caio Amorim “Somos todos Pinheirinho”. Esta foi a frase usada para demonstrar apoio à comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos, que, no dia 22 de janeiro, foi vítima de um massacre desproporcionalmente violento. Desde 2004, cerca de 9 mil pessoas ocupavam uma área de mais de um milhão de metros quadrados até que, este ano, foram surpreendidas por uma decisão de reintegração de posse. A desocupação do terreno foi requerida pela empresa Selecta e atestada pela juíza Márcia Faria Mathey Loureiro, ignorando a ordem do Tribunal Regional Federal da 3ª região de deter o processo. O investidor libanês Naji Nahas, dono da massa falida da Selecta, deve milhões em impostos para os cofres públicos e se utiliza da área para especulação imobiliária, diminuindo a sua dívida – o que custou ao povo a sua moradia. Sob as ordens do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), a ação covarde e ilegal da Polícia Militar ocorreu por volta das 6 horas da manhã de um domingo e sem aviso prévio aos moradores. Aproximadamente dois mil oficiais, incluindo a Rota e a Tropa de Choque, enfrentaram os moradores do Pinheirinho. Os policiais

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Pinheirinho com todas as moradias destruídas | Foto: Coletivo Grupo Risco

O Massacre praticado pela PM de São Paulo, removendo com truculência mais de 9 mil pessoas de suas moradias, mostra que tipo de “democracia” está em vigor no Brasil contavam com helicópteros, balas de borracha, gás lacrimogêneo, armas de efeito moral e, até mesmo, letais – e todas foram usadas contra a população. A diferença de forças resultou em uma repressão cruel: nem mesmo as crianças escaparam de sofrer os abusos de violência. Os tratores que haviam sido acionados já destruíam as casas, enquanto os moradores tentavam afastá-los com pedras, em vão. A Guarda Municipal, que coordenou a operação, atirava na resistência e dava tiros ao alto para dispersar o povo. O despejo involuntário e desumano obrigou as famílias a deixarem suas casas e irem a abrigos. Após ação da Polícia, os moradores e apoiadores de Pinheirinho, denunciavam pelos sites da imprensa alternativa sete mortes. Essas pessoas, segundo testemunhas, simplesmente desapareceram. Não há registro de entrada em nenhum hospital local ou mesmo no Instituto Médico Legal (IML). A suspeita é de que os cadáveres foram ocultados. Quando divulgamos essas notícias pelas redes sociais, algumas pessoas nos questionaram sobre a confirmação das mortes. Respondemos que elas não foram confirmadas pelas “autoridades”. Mas nós, da imprensa alternativa, estamos ao lado dos movimentos sociais. Principalmente quando as informações só são consideradas verdadeiras se vierem de fontes institucionais. A população viu as pessoas baleadas e levadas por policiais. Elas estavam lá e testemunharam os crimes. Além disso, fotos e vídeos mostram policiais utilizando armas de fogo na ação.


Por mais cruel que pareça o despejo, este não foi o fim do massacre. Os moradores realocados para os abrigos continuaram a serem molestados pelos policiais com gás de pimenta e lacrimogêneo; a situação só mudou quando as famílias foram acolhidas no pátio da Igreja da cidade.

rios foram compartilhados por usuários do Facebook, levando a situação a conhecimento internacional. Brasileiros que estavam fora do país organizaram manifestações em apoio à comunidade na França, na Espanha e na Alemanha. Os atos de apoio ao Pinheirinho também tomaram as ruas de diversas cidades do Brasil, desde São José dos Campos, até São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

No dia 28 de janeiro, a Anistia Internacional lançou uma nota em defesa aos moradores de Pinheirinho. “O que está acontecendo no Pinheirinho, lamentavelmente, faz parte de um esquema recorrente de despejos forçados no Brasil, sem que recebam proteção adequada e moradias alternativas”, afirmou Atila Roque, diretor da Anistia Internacional Brasil. As autoridades “As autoridades brasileiras devem atender imediatamente brasileiras devem atender as necessidades de milhares de pessoas que agora estão sem teto (...) para encontrar uma solução de longo prazo imediatamente as necessidades que satisfaça suas necessidades, mais do que vagas temde milhares de pessoas que porárias em abrigos que desagregam famílias”, acrescentou. O caso foi denunciado pela Justiça Global, que em conjunto agora estão sem teto.” com outras organizações de direitos humanos, organizou um relatório de violações entregue à ONU e à OEA. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) leu no plenário do Senado denúncias levantadas pelo Ministério Público de São Paulo de abusos sexuais e estupro praticados por policiais durante Driblando a censura da mía invasão. Ainda existem cinco pessoas desaparecidas desde o desdia comercial, ativistas e pejo, sendo procuradas por seus familiares: Josefa Jerônimo, Gilmara defensores de direitos Costa, Beto (esposo), Lucas Costa e Mateus da Silva. Milhares de humanos utilizaram as pessoas despejadas permanecem sem moradia, até o fechamento redes sociais Twitter e desta edição. Facebook e blogs para *Veja a cobertura sobre Pinheirinho em nosso site: veicular as informações virusplanetario.net/tag/pinheirinho/ apuradas junto aos exmoradores de Pinheirinho, já que só se tem acesso à versão dos Na tarde de domingo, di governos e polícia pea 29 de jane sem fazer na iro de 2011, da, depois de las mídias tradicionais. Pedro não co ver, e docum ria matar a pr nseguia mai entar (assista es identa”) o m s ficar em ca Fotos e documentáaqui - www assacr pulsos sa

11 dias em G

reve de fome

e aos direito .verd.in/l8ij ao s humanos do curta “Eu qu s moradores erda Municip de Pinheirin al de São José Resolveu faze ho, exdos Campos. r a única co mídia hegem isa que acho u que poderia ônica, especi almente a G fazer. Indign criminosos – lobo – que tr ado com a co se algemou atou os mor bertura da a um canteiro tius com Pach adores de Pi em frente à eco Leão, no nheirinho co Rede Globo, Jardim Botâ de fome, que mo na esquina da nico, zona su durou onze di Rua Von Mar l do Rio de Ja as, sendo de da Globo. Pe neiro e inicio z deles acorre dro saiu depo u uma greve ntados em fr is de a guarda do relento. D ente à centra municipal re e 29 de jane l de jornalism tirar à força iro a 9 de feve internautas o as barracas qu reiro, ele perd e defensores e o protegiam eu 12kg, mas de direitos hu a pena o esfo ga m nhou respeito anos que ap rço que fez oiaram a atitu para não de de muitos repercussão ixar morrer de. Pedro av foi positiva. a discussão alia que vale de Pinheirin u ho, segundo Terminada a ele, a greve de fom nosa”. O mov e, Pedro ganh imento de gr a mais gás pa eve dos bom ra “lutar co lutas que trav beiros e serv a. No início da idores da segu ntra uma ditadura crimigreve no Rio, confira um rança públic trecho: “Por Pedro divulg a é uma dess que o govern ou uma carta mente os as o premia os em seu perfi rebell do facebook as sa ssinos de Sã des da Bahia? senhores vi , o José, e pu ram O Governo pr ne barbaraatica essas aç Ninguém qu que o crime ões porque er não compens muitos dos a, ninguém guerra, veic mais ser cão quer mais m ude guarda de orrer à toa. um bandido engr lada pela gran lado avatado. Essa de mídia, se ideia de rigosos rve para faze dos oprimid r a populaçã os para odia o escolher r e culpar en é mesmo riem quanto os ba da nossa cara ndidos pe. O mínimo qu depor armas e vocês tem , se recusar que fazer a morrer por polícia não po eles (governa de mais ser m ntes). A ilitar! pela PM de Sã

o Paulo e Gua

Pedro Rios luta para não deixar Naji Nahas e Geraldo Alckmin saírem impunes Ilustração: Francis Carnaúba

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Por Seiji Nomura

*Improvável, mas não impossível.

Sempre me disseram que quem escreve, o faz para alguém, que sempre imaginamos uma audiência, mas essa crônica não é endereçada a ninguém. Na hora em que esse remendo de letras estaria saindo das gráficas amanhã, as pessoas estarão ocupadas demais vendo seu último nascer do sol para folhear um pedaço de jornal. Quem diria que aqueles malditos maias estariam certos sobre o fim dos nossos tempos?

Às vezes me pergunto se o mundo já não teria acabado. Saio às ruas e vejo as pessoas levando a vida que lhes escorre entre os dedos com a mesma porca decadência que nos trouxe onde estamos. Parecemos toupeiras subumanas batendo o ponto com uma pasta enfiada debaixo do braço, nosso maior sonho a possível promoção. Gostaria de acreditar que há um grito de liberdade encravado em nossas gargantas... Uma estrela recebe seu fim com uma enorme explosão, vista a milhões de anos-luz, mas quando ligo a TV na hora final desta humanidade ocidental, o que vejo é o que Ai-que Batista falando de seu próximo investimento, com o qual se tor-

nará o último homem mais rico do mundo. Nesta noite derradeira, ele guardará suas notas com carinho, uma a uma em seu cofre blindado, sabendo que quando acordar tanto fazia ser o mais pobre dos mortais quanto o mais abastado. Talvez explore mentalmente a possibilidade de ir para a lua ou algum delírio esvoaçante, mas é inútil. Está longe do primeiro a ter essa ideia. Ao saberem que o fim estava próximo, centenas e centenas desses ricaços sanguessugas lotaram as vagas nos ônibus espaciais para a lua. Cada assento encravado no motor, chance quase nula de sobrevivência, não saia a menos de US$50 bilhões — cortesia de uma NASA privatizada. Mesmo os que puderam pagar, de nada adiantou; ao saberem que não haveria lugar para eles, os funcionários acabaram com o pesado esquema de segurança que isolava o local de lançamento e a massa revoltada, envolta em trapos e miséria, invadiu em alvoroço. Alguns pilharam os foguetes em busca de sucata, outros só queriam se vingar dos bilionários — estes que com a queda da última máscara humana do capitalismo, quando o trabalho não lhes servia mais de nada, iam deixar a ‘mão-de-obra’ apodrecer numa terra devastada. Dizem que um grupo ou outro conseguiu entrar em um dos transportes e partiu, para onde não se sabe; só nos resta esperar que não repitam o insólito destino desse mundo carcomido pela poluição e envenenado pelo lixo nuclear. Não tenhamos, porém, muita esperança: uma das espaçonaves levava apenas Eve Amargo e Silvio Sonsos. Uma das minhas alegrias de dentes amarelos será que o

fim dos tempos vai me poupar de ver os dois ‘repovoando’ algum planeta — e a humanidade corroída que surgirá daí. Nos meus últimos momentos, pensarei também, com um sorriso nos lábios, como se tornou irônico o lema brasileiro de “país do futuro”. Estive entre as fileiras daqueles que defendiam a necessidade de se instalar usinas nucleares para se ‘diversificar a energia necessária para o desenvolvimento do povo brasileiro’, bem como fui um dos que defendeu a remoção de povos indígenas para construirmos hidrelétricas... Imaginava eu que minha avó com fogão de lenha precisava de energia nuclear na mesma proporção que os fornos escaldantes que fundem o ferro da Vale do Rio Doce. É uma amargura ter ouvido os cantos desta sereia azeda chamada progresso, sentada em seu trono composto de ossos indígenas, de negros e de brancos. Hoje, sento em meu sofá e contemplo a chuva ácida corroendo as chaminés de uma fábrica siderúrgica abandonada, o sol fosco e apequenado parece uma irrisória mancha num horizonte de fumaça. Faço ao progresso um último brinde insano com meu whisky vagabundo — Viva!. Esquecendo da vida, disputamos juntos a corrida da competição econômica, sem saber que a sua linha de chegada era o abismo.


meio ambiente

Placa na entrada da TKCSA avisa: “Sua vida depende de você”. Uma ironia mórbida tendo em vista tamanhos danos à saúde da população local gerados pela megaempresa. | Foto: Rafael Duarte (Agência Petroleira de Notícias - www.apn.org.br)

“Fora TKCSA” Por Vitor Rodrigues e Ramón Chaves*

A luta de uma população e seus companheiros contra as atrocidades do mega capital.

Foi em uma manhã do mês de fevereiro passado. Em sua rotina centenária, o campus Manguinhos da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), no Rio de Janeiro, acordava aos poucos, num despertar cuidadoso que empurra delicadamente o silêncio para longe. Contudo, o amanhecer ensolarado daquele dia trazia consigo o inesperado, o incomum. Trazia, mais precisamente, um grupo de pessoas, trajando máscaras e cartazes, que caminhava e cantava pelo campus. Seus passos traduziam firmeza e suas palavras – de ordem – transbordavam inconformismo e determinação. Concentraram-se em frente à Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/FIOCRUZ). A aglomeração repentina aturdia a todos que passavam: mestres e mestrandos; doutores e doutorandos. Em sua maioria, o tal grupo era formado por estudantes e profissionais da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/FIOCRUZ), unidade técnico-científica da Fiocruz, que se dedica, principalmente, a atividades de ensino, pesquisa e cooperação social no campo da Educação Profissional em Saúde. Decididas a romper de vez com o silêncio, aquelas pessoas cantavam:

– “Fooo-ra TKCSA! Fooo-ra TKCSA!” Os estudantes, em que pese a pouca idade e a formação inconclusa, tinham clareza do que significava Thyssenkrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico e, sobretudo, tinham clareza do motivo de estarem ali, organizados, exigindo a paralisação imediata das atividades da TKCSA no Bairro de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro. Como potenciais trabalhadores técnicos da área da Saúde, os estudantes da EPSJV incorporaram a problemática da TKCSA à sua própria pauta de luta política. Toda aquela agitação fazia parte do processo de mobilização para o ato com a população de Santa Cruz em frente ao Instituto Estadual do Ambiente (INEA), que aconteceria em poucas horas no centro do Rio de Janeiro. O objetivo geral do ato era evidenciar para todo o Rio de Janeiro um problema gravíssimo que afeta uma região particular da cidade; era denunciar para o conjunto da sociedade os efeitos da construção e do funcio-

*Universitários, formados no ensino médio em 2011 na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio

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meio ambiente

namento da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA). Os moradores de Santa Cruz, território historicamente fragilizado da cidade, precisavam tornar públicos os danos socioambientais aos quais estão submetidos, denunciando a ocorrência de dois eventos críticos de poluição, decorrentes de uma falha no funcionamento de dois fornos da siderúrgica. Eles pretendiam dizer aos técnicos do INEA que o resultado desses eventos foi a poluição do território com material particulado contendo, dentre outros elementos químicos, Alumínio, Cádmio, Ferro, Manganês, Níquel, Chumbo e Zinco. Pretendiam dizer que esse material, além de causar contaminação em vias hídrica, atmosférica e edáfica, entrou em contato direto com moradores da região pelos mais diversos meios – na pele, por inalação, ingestão –, provocando riscos e agravos à saúde da população.

Depois de muita insistência e de uma tarde inteira dedicada a cantos e palavras de ordem – tais como “pula, sai do chão, quem é contra os alemão” ou “pescadores com atitude, em defesa do SUS e da saúde” –, o INEA cedeu e aceitou conversar com os moradores. Há tempos a população de Santa Cruz esperava ser ouvida pelo INEA. Há tempos exigia ter acesso a informações que a CSA se negava a conceder. Mas, naquele dia, em especial, as donas de casa, os pescadores, os aposentados que vivem há décadas em Santa Cruz queriam mesmo era reafirmar a necessidade e a importância de não se conceder a licença definitiva para o funcionamento da siderúrgica. Isso porque o funcionamento parcial da planta industrial da TKCSA já vem causando enormes impactos ao território e à população. Os estudantes sabiam de tudo isso, assim como os moradores, pesquisado-

A TKCSA compõe um projeto de desenvolvimento pautado na construção de grandes empreendimentos que colocam o território com data marcada para morrer. ”

res e movimentos sociais que, desde a época de elaboração desse projeto grandioso, têm se posicionado contra a TKCSA, afirmando sistematicamente sua enorme capacidade de produzir impactos ao ambiente, à saúde, à geração de renda e à cultura. Entretanto, a Companhia Siderúrgica do Atlântico, pertencente ao grupo alemão Thyssenkrupp Steel – maior produtor de aço da Alemanha e principal acionista – e em parceria com a empresa Vale – maior produtora de minério de ferro do mundo –, está inserida no conjunto de novos projetos pensados para o Brasil, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Esse é um dado particularmente importante para pensarmos as dificuldades em frear a construção do maior complexo siderúrgico privado da América Latina, com capacidade para produzir anualmente cinco milhões e meio de toneladas de chapas de aço para serem exportadas. A TKCSA compõe um projeto de desenvolvimento para o Brasil pautado na construção de grandes empreendimentos em parceria com empresas nacionais e transnacionais, que colocam o território com data marcada para morrer. Igualmente como a transposição do rio São Francisco, igualmente como a construção da usina de Belo Monte. Curiosamente, parte dos estudantes da EPSJV não se apropriou desse apanhado de informações sobre os impactos dos megaempreendimentos e, de um modo geral, sobre as consequências do modelo de desenvolvimento hegemônico no Brasil somente por meio das aulas e conferências formais disponibilizadas pela Escola sobre essas questões. Muitos deles aprofundaram seus conhecimentos sobre esses temas a partir da participação política ativa nos processos de resistência e luta frente a este desenvolvimento a ferro e fogo que predomina no Brasil e que tem na Companhia Siderúrgica do Atlântico talvez seus traços mais cinzas.

Protesto em frente ao INEA em fevereiro do ano passado| Reprodução Internet

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Morador de Santa Cruz exibe a poeira metálica lançada no ar pela TKCSA | Reprodução de TV

Evidentemente, isto não equivale a dizer que as inúmeras aulas sobre saúde ambiental, vigilância em saúde e similares não nos foram importantes neste processo. Com o conteúdo de sala de aula, aprendemos, por exemplo, que após ser recusada no Chile e em alguns estados brasileiros, a TKCSA instalou-se na região da bacia hidrográfica da Baía de Sepetiba, compreendida entre os municípios do Rio de Janeiro, Mangaratiba e Itaguaí, situados no estado do Rio de Janeiro. A área já possuía um histórico de impactos socioambientais anteriores à TKCSA, como o caso do passivo ambiental deixado pela falida Companhia Mercantil e Industrial Ingá, que deixou aproximadamente 3,5 milhões de toneladas de efluentes contendo Zinco, Cádmio e Níquel nas águas da baía. Aprendemos também que a legislação brasileira decreta que qualquer empreendimento ou atividade localizados em zonas costeiras e/ou áreas de proteção ambiental (APA) devem ser fiscalizados e licenciados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). A TKCSA se enquadra em ambos os casos, e, no entanto, teve a licença provisória concedida pela FEEMA (atual INEA). Além disso, os estudos ambientais necessários para o licenciamento foram considerados por diversos pesquisadores como inconclusivos, já que muitos detalhes importantes para avaliar os impactos socioambientais, a saúde da população e a saúde do território foram ignorados ou abordados de forma superficial. Porém, alguns elementos em especial nos foram apresentados exclusivamente no processo de luta. Foi na construção e participação de debates, seminários, atos e afins que entramos em contato direto com os moradores de Santa Cruz, seus rostos, sorrisos e angústias; entramos em contato direto com suas questões, seus relatos, seu cotidiano, enfim, sua Cruz cada vez menos Santa.

realidade. Evidentemente, trata-se de uma experiência muito particular, que esteve, e ainda está, no bojo dos conflitos entre Fiocruz, TKCSA e Santa Cruz. Um aspecto específico e importante dessa experiência consiste no fato de convivermos, numa certa proximidade, com as perseguições sofridas pelos nossos professores e companheiros de luta e de trabalho. Refiro-me aos processos judiciais de danos morais movidos pela TKCSA contra os professores-pesquisadores da Fiocruz Alexandre Pessoa e Hermano Castro e contra a professora-pesquisadora Mônica Lima da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Entramos em contato direto com os moradores de Santa Cruz, seus rostos, sorrisos e angústias”

Recentemente, a grande imprensa divulgou a retirada do processo pela TKCSA. A Thyssenkrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico desistiu de processar os pesquisadores por suas declarações técnicas e políticas na imprensa. Esse “recuo” – vale destacar – é fruto da mobilização técnica, jurídica e política de diversas instituições e do amplo apoio dos movimentos sociais críticos que defendem a vida e a liberdade intelectual.

O nosso envolvimento atuante nos possibilitou experimentar a dinâmica e as tensões da resistência e combatividade daquela população e de seus companheiros e amigos envolvidos. Alguns estudantes que se aproximaram dessa luta enquanto militantes acabaram por investigar essa questão em seus trabalhos monográficos de conclusão do curso técnico, em um esforço de tornar indissociável processo de pesquisa e luta política organizada.

Portanto, a retirada do processo deve ser entendida como uma conquista: a conquista de um fôlego a mais para a luta. Uma luta árdua, que coloca no mesmo lado moradores, estudantes, pescadores e pesquisadores contra o grande, ou melhor, o enorme, ou ainda, o mega capital. Nessa relação antagônica, um dos lados, dominante e opressor, conta com a contribuição da estrutura social e do aparato estatal. Enquanto o outro, dominado e oprimido, tem como recurso a disposição para o enfrentamento, a perspectiva de um futuro melhor, o suor que escorre de seus rostos, a vontade de viver.

Nesse sentido, nossa participação engloba desde atos públicos até a investigação rigorosa e sistemática dessa

Nessa luta entre contrários, nós já escolhemos o nosso lado! Vírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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MÔNICA LIMA Mônica Lima é bióloga da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), participa do Fórum de Saúde do Rio de Janeiro e chegou a ser processada (o processo já foi arquivado) pela TKCSA por protestar contra os crimes da empresa

Isso é

Desenvolvimento ? Direito à Saúde e ao SUS retrocedem em tempos de “crescimento” acelerado “Um outro mundo é possível, um mundo onde caibam muitos mundos, onde para todos haja sempre: pão para iluminar a mesa, saúde para espantar a morte, conhecimento para aliviar a ignorância, terra para colher futuro, teto para abrigar a esperança e trabalho para fazer dignas nossas mãos.” (Movimento Indígena Zapatista)

“ da

Mesmo possuindo uma ecomonia forte e um programa de crescimento (PAC-Programa de Aceleração de Crescimento) a todo vapor, o Brasil ainda possui um sistema de saúde atrasado e programas sociais fragilizados. O que O observamos é um caos nacional na saúde e entendemos que avançar neste reconhecimento ponto significa garantir crescimento sosaúde enquanto cial de fato. Os interesses econômicos não podem prevalecer sobre os sociais, determinação mas é o que ocorre quando o Sistema social é uma Único de Saúde (SUS) é privatizado ou sucateado, pois assim, o direito básico à importante saúde é violado. Esse crescimento não conquista.” se reflete em universalidade, equidade e justiça social e ambiental. A população brasileira, principalmente aquela excluída, que sofre por não conseguir um tratamento digno, prefere que se invista na construção de hospitais públicos ou siderúrgicas e hidrelétricas? Pois é, o governo vem escandalosamente executando os mega-empreendimetos, em detrimento da saúde, sem consulta popular e controle social, usando os recursos públicos, inclusive parte dos destinados à saúde

Ilustração: Diego Novaes

(utilizando-se da DRU - Desvinculação de Receitas da União - uma forma de flexibilização que foi prorrogada no governo Dilma). Enquanto o SUS é precarizado e negociado com “ONGs/empresas” que gerenciam a saúde com interesses nos lucros, estes projetos vão avançando descompromissados com a saúde. Na mesma lógica mercadológica destes grandes empreendimentos, o SUS, uma grande conquista da população brasileira, tem sido transformado em Organizações Sociais (OSs), Fundações Estatais de Direito Privado, Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs), Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), e Parcerias Público-Privadas (PPPs). Estas formas privatizantes e os impactos à saúde pública no caso TKCSA exemplifica este modelo de crescimento escolhido para o país. O crescimento que atenderia aos interesses da população seria aplicar o conceito amplo de saúde reconhecido oficialmente pelo Estado Brasileiro e que vigora na Lei Orgânica (8.080//90, artigo três) que regulamenta o SUS: “A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e ecomônica do País”. O reconhecimento da saúde enquanto determinação social é uma importante conquista. Atualmente a necessidade de maior participação da saúde pública na avaliação dos processos está evidenciada. Isso porque as transformações trazidas pelo PAC impactam a vida das pessoas e o próprio SUS. A 14ª Conferência Na-


Manifestação contra a Privatização do SUS no dia mundial da saúde, 7 de abril de 2011 | Foto: Caio Amorim

cional de Saúde optou pelo SUS 100% público, estatal e sob administração direta do Estado e pela defesa do aumento do financiamento para o SUS, exigindo a destinação de 10% da Receita Corrente Bruta para a saúde. Hoje, o investimento da União em saúde não chega a 4% do PIB. A Frente Nacional contra a Privatização da Saúde defendeu de forma intransigente o SUS público, repudiando a privatização. Foi este movimento que não permitiu que a Conferência fosse mais um cínico encontro de líderes para falar sobre compromissos vagos. Argumentos de governos e empresas não levam em conta os impactos sociais e a saúde. Todas as decisões são de caráter estritamente econômico. Por isso, o caso TKCSA, que estamos vivenciando no Rio de Janeiro com um caso emblemático de graves problemas de saúde pública e muitas lacunas nas políticas do SUS sob responsabilidade governamental. Os danos socioambientais mais imediatos que podem ser identificadas são o adoecimento da população local e dos trabalhadores

daquela empresa e a poluição ambiental. O projeto contra-hegemônico (da esquerda progressista) não pode ser fragmentado. Precisamos alcançar um orçamento que nos possibilite garantir os direitos do povo. Se as crises profundas trazidas pelo sistema capitalista sempre ensejam a busca por novas fronteiras de acumulação do capital, também é verdade que tais processos tendem a gerar fortes resistências. Não fosse a luta dos movimentos sociais, o voraz apetite por lucros já teria tornado impossível a vida na Terra. A resistência é, mais do que nunca, obrigatória e urgente. Muita luta se faz necessária, mas a esperança é mais do que justificada. Nosso grito deve ser: Planeta ou morte, venceremos! – para, assim, globalizarmos a luta e a esperança.

Não fosse a luta dos movimentos sociais, o voraz apetite por lucros já teria tornado impossível a vida na Terra.”

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fórum social temático

Reprodução Internet

ENTREVISTA

Esther Vivas

ima ‘Rio +20’, a próx as discussões da am enxim vim ro ol ap nv se Conforme Clima e Dese Unidas sobre o is e es cia çõ so Na s s to da en conferência ão dos movim aç ar ep pr a ta ja men o debate se lito Sustentável, au para evitar que de da cie rum so da s as mesas do Fó de outros setore eventos. Dentre s es tro sõ ou us s sc do di o l”, Ambienta mitado como Justiça Social e s e do ta la lis pu ta pi Cú Ca da e a Social “Cris tivo, como je ob te es r am po av rtilh 0 organizado principais compa paralelo à Rio +2 to en e ev qu de um é ão da vis Povos. A Cúpula sociais em torno de movimentos ução e lógica od pr de elo uma articulação ada pelo mod us ca é l ta en bi a crise am capitalismo. vas consumistas do sociais Esther Vi de movimentos ra do lissa de ui sq ça pe Fórum. Cabe A ativista e s mais ativas do da ra er do ui te Izq ba la de pe s foi uma da to Europeu dos 09 ao Parlamen s 20 to de en im es ov içõ m s ele ta nas rticipou do vas estudou e pa r e contra a Anticapitalista, Vi berania alimenta so da a o m co s ta lu indignad@s e de s mesas nas crise ambiental. rticipou de diversa pa s va Vi er th Es , ógicas não basDurante o Fórum ificações tecnol od m es pl rem sim e qu biental se não fo quais defendeu ma da crise am ra no ra. pa ltu o cu ar na ud e zação social tariam para m anças na organi sto ud cu r m ue de alq as qu ad a acompanh ca da produção tar contra a lógi s. Precisamos “É necessário lu todos contra todo de ão tiç pe uns e m co a o nos bens com a curto prazo e possível, basead do un mesa m na , tro ou sta ndeu a ativi construir um do planeta”, defe s saída ite a lim um os ou e e eit rd que resp pitalismo ve ca do a ilh ad m o. a ar Luxemburg “Ecossocialismo, Fundação Rosa organizada pela l”, ta pi ca do ra fo

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Por Seiji Nomura A Rio +20 pode nos dar alternativas à crise? As diversas negociações do clima, as reuniões organizadas pelas Nações Unidas demonstraram a incapacidade do sistema capitalista para dar respostas à crise ecológica a que nos conduziu. Da ‘Rio 92’ até agora, vinte anos depois, o balanço do trabalho das Nações Unidas e os acordos levados a cabo pelos governos em escala internacional mostram o fracasso do debate feito lá. Este deu margem a uma ofensiva do capitalismo através do conceito de economia verde para fazer negócio com as mudanças climáticas. É essencial que dentro dos movimentos sociais nós coloquemos na agenda política essa questão: a denúncia do capitalismo verde, a necessidade de uma alternativa ecologista e de vincular a luta a favor da justiça social à luta a favor da justiça climática.

E quanto à Cúpula dos Povos, qual é sua expectativa? Creio ser muito importante criar opções à discussão oficial para que sejamos capazes de unir as alternativas construídas pelos


movimentos sociais. Um ponto em comum entre elas é a demanda de que a política e a economia se ponham a serviço das necessidades coletivas, bem como os direitos do planeta Terra. A lógica produtivista desse sistema capitalista não leva em conta não só os direitos sociais, as necessidades das pessoas, mas também ignora os limites do planeta. Estes valores se contrapõem àqueles defendidos pelos movimentos sociais e implica uma cultura muito distinta para a humanidade daquela que nós fomentamos. Por isso, se torna necessário construir uma alternativa a esse sistema, não só anticapitalista, mas trazendo uma perspectiva ecossocialista e ecológica radical.

E como traçar o caminho até essa alternativa? Não temos um manual de instruções, mas temos experiências acumuladas. Para mudar o esquema de forças entre os de acima e os de abaixo, é fundamental a mobilização social e a luta nas ruas. Contestar os 1% que governam o mundo, tomando as palavras do Occupy. É também importante construirmos alternativas em nossa vida cotidiana, como a economia cooperativa, solidária, a agroecologia, mas entendendo que essas experiências são um meio para conseguir igualdade de direitos, justiça social e ecológica para todos – para criar outro modelo de sociedade.

Os indignados são um movimento de grande repercussão, mas aparentemente tiveram pouca influência nas urnas espanholas, pois o Partido Popular (um dos mais conservadores) ganhou com folga... É difícil avaliar, pois a indignação pode se manifestar de diversas formas. Teve gente que não foi votar, tiveram os que votaram em branco, quem vota em alternativas ao governo atual, os fiéis aos anticapitalistas e aqueles que preferem o voto útil. Temos que levar em conta que o Partido Popular conseguiu legitimar suas políticas de corte e privatização através do resultado eleitoral, chegando a uma maioria absoluta, mas se olhamos o quadro completo, a realidade é outra. O total de pessoas com direito a voto, a porcentagem do resultado é altíssima que

não foram a votar ou apostaram em alternativas, portanto o PP não ganhou, não é apoiado pela maioria da população.

Esses movimentos podem ter outros efeitos políticos, que não se traduzem no sistema eleitoral? Primeiro, deve-se levar em conta que há a legitimidade das urnas, mas também a das ruas e da mobilização social. As eleições estão longe de ser um terreno neutro, porque são determinados pelo peso dos grandes partidos políticos majoritários, pelos grandes gastos que fazem para manter suas campanhas, que são basicamente marketing eleitoral, financiadas pelos bancos e o sistema financeiro internacional. Também é determinada pela presença desses partidos nos meios de comunicação, que não deixam espaço para que alternativas políticas sejam vistas. Por outro lado, a mobilização das ruas às vezes não se reflete nas ruas; o movimento dos indignados influencia o imaginário coletivo. Seu impacto social é muito grande, pois ajuda a recuperar a confiança das pessoas que a ação coletiva pode ajudar a mudar as coisas e que juntos e juntas podemos. Isso que agora é tão evidente, não era tão claro. Pesavam muito a resignação e o ceticismo, bem como a fragmentação dos movimentos sociais. O resultado das urnas não significa que as políticas de corte do governo sairão impunes. Estão sendo organizadas mobilizações fortes, ocupando centros que seriam privatizados, ajudando pessoas que teriam de sair de suas casas por não conseguirem pagar a hipoteca...

É necessário lutar c a lógica da p ontra rodução a qualquer c usto e a competição de todos con tra todos ”

O chamado ‘socialismo real’ foi tão produtivista quanto o capitalismo. Como é possível outro modelo de socialismo? Uma alternativa de sociedade não deve levar em conta só a perspectiva anticapitalista, combater a lógica que interpõe interesses particulares a necessidades coletivas, mas também ser capaz de observar opressões específicas como a questão ecologista e a luta contra o produtivismo. Sou contra o acúmulo de produção, por isso defendo a perspectiva ecossocialista, vincular o marxismo originário com uma perspectiva radical e consequente. Não é digno ter um modelo não-capitalista, não-produtivista, mas sem acabar com a opressão de gênero e outras opressões específicas como a de orientação sexual, direitos dos imigrantes, racismo e dos povos originários. Vírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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rio de janeiro Ilustração: Carlos Latuff

Caminhando pelo

desrespeito

Por Daniel Israel e Fernanda Freire Expandir os limites da cidade: aí está uma das justificativas para o metrô do Rio de Janeiro não funcionar como deveria. Como ocorre repetidamente com moradores da cidade e dos 16 municípios que fazem parte da região metropolitana, este modelo de transporte público deveria ser mais abrangente, pois só assim poderia atender a maior quantidade possível de usuários que moram dentro e no entorno da capital do estado. Segundo consta do sítio da concessionária MetrôRio na Internet, o recorde de passageiros se deu em 30/10/2007, quando 632.117 pessoas se deslocaram nas Linhas 1 e 2. Na segunda cidade mais populosa do Brasil, esta cifra não é motivo de vergonha para os governantes e gestores do metrô carioca. Considerando que não passa de 10% da população

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A propaganda de governo tenta esconder, mas as aparências enganam: quando não há política séria para o metrô, aumento no preço da passagem é um entre tantos problemas para o usuário carioca, em se tratando da capacidade máxima, que utiliza o metrô como meio de locomoção, cabe questionar por que este modal de transporte sobre trilhos não serve às quatro regiões do município. Com eficiência, é claro. Para o professor aposentado Moacir, morador do Centro, “a oferta de transportes não acompanhou a procura da população”. Com 48 quilômetros de extensão e 35 estações construídas, o metrô do Rio de Janeiro está longe de ser um serviço público admirável para quem pesquisa políticas públicas para o se-

tor. Na opinião de Guilherme Marques, o Soninho, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur/UFRJ), existe um conflito de interesses entre o desejo das autoridades e a necessidade de ir e vir da população: – Vemos uma grande empolgação com as montadoras que estão vindo para o sul fluminense. São os governos financiando a indústria automobilística, que é a que mais polui. E não há investimento algum em transporte de massa.


Mas uma cidade não vive apenas de megaeventos! Na verdade, até existe investimento. O problema é que vem ou em ano eleitoral, como em 2012, ou, como já ficou enfadonho de tanto autoridades e meios de comunicação conservadores se referirem, por causa da Copa do Mundo, em 2014, e dos Jogos Olímpicos, em 2016. Mas, se alguém pensava que os investimentos seriam feitos com vistas a atender os moradores dos bairros da Zona Oeste que ficam mais afastados – a única região do município que ainda não foi atendida pelo metrô –, a dúvida se encerra por aqui. – Segundo o prefeito Eduardo Paes, o principal legado que ficaria para a população seria a melhoria no transporte público, mas, na prática, estão construindo três vias numa região que não é a mais populosa da cidade. Em oposição, o período que um trabalhador gasta no trajeto casa-trabalho/ trabalho-casa aumentou, somente nos últimos dois anos, em 39 minutos, de acordo com pesquisas. Diariamente, a pessoa gasta, em média, de duas a três horas fazendo esses itinerários – contesta Soninho. Além de explosões e seguidas quedas de luz no interior das estações, a analista de crédito Magali, residente em Belford Roxo, revela por que desistiu de andar de metrô: “Já passei mal, fiquei sufocada, por causa do aperto no vagão. Por isso, prefiro andar até a Central do Brasil e pegar o ônibus com ar condicionado (o popular frescão), que é mais caro, mas me deixa na porta de casa”. Também do Ippur, o urbanista e professor-titular da UFRJ Carlos Vainer publicou artigo no Jornal do Brasil (“Por uma perspectiva integrada”, 01/02/2009) em que apresenta uma estatística negligenciada pelas autoridades cariocas: 40% dos turistas vêm ao Rio todos os anos. Como solução para o atual caos no transporte público, ele defende a integração aeroportuária como meio de a cidade driblar os seguidos congestionamentos e reduzir o tempo nos deslocamentos. Diz Vainer: – O Sistema Maglev-Cobra, que pesquisadores da UFRJ vêm desenvolvendo, é um pequeno trem de levitação magnética que opera com energia solar e não gera qualquer poluição. Comparando com o metrô a céu aberto, oferece custos de operação e implantação muito favoráveis (1/3 do custo por quilômetro de linha).

Para melhorar, o metrô precisa funcionar 24 horas por dia e possuir mais composições.”

“Ao vencedor, as batatas!” E aos vencidos? Camelô na Feira do Largo da Carioca e morador de Mesquita, Ramon também acha ruim e caro o serviço oferecido pela MetrôRio. Também já não anda mais de trem, só de ônibus, “porque é deficiente como o metrô”. Como melhorias, tem duas sugestões: “Funcionar 24 horas por dia e possuir mais composições”. Pelos relatos de especialistas e da população, é previsível que qualquer iniciativa, ainda que proposta por reconhecidos estudiosos, não será implementada tão cedo no Rio de Janeiro. E se já não bastasse a violação ao direito básico de moradia, sobre o qual tratamos em nossa 11ª edição (“A explosão da cidadania”, pp. 29-31), o prefeito Eduardo Paes entregou a diversas empreiteiras canteiros de obras espalhados por toda a cidade.

Nós não temos uma política, mas investimento de recursos públicos nas áreas de maior especulação imobiliária.”

– As empreiteiras estão exigindo mais e mais recursos e benesses dos governos, por isso ainda foi licitado o trem-bala. Nós não temos uma política, mas investimento de recursos públicos nas áreas de maior especulação imobiliária, onde moram os ricos, sugerindo de forma contrária o desenvolvimento urbano: no lugar do adensamento, a expansão – argumenta Carlos Vainer. Soninho toca no mesmo ponto e dá sua opinião sobre a discriminação disfarçada de política de interesse público: – A ideia é fazer uma cidade-empresa, com uma visão de lucro. Para você atrair investimento, é preciso garantir um retorno às empresas. Pode-se fazer um levantamento e ver se o traçado dessas vias (os chamados corredores viários, denominados TransBrasil, TransCarioca, TransOeste e TransOlímpica) passa sobre algum condomínio de luxo. Com certeza não. É a oportunidade que a classe dominante tem para expulsar os pobres. Enquanto os governos querem levar as populações para longe da cidade, há vários prédios abandonados no Centro. E pensar que no final de 2007, quando a MetrôRio registrou o maior número de bilhetes vendidos desde 1998, ano em que o metrô foi privatizado, o estado do Rio de Janeiro renovou a concessão além das Olimpíadas. Muito além – até 2038. Vírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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O sistema penal e carcerário é uma das indústrias mais produtivas do mundo.”

Foto: Caio Amorim

ENTREVISTA INCLUSIVA: Por Caio Amorim, Mariana Gomes, Seiji Nomura e Rodrigo Teixeira

Cesare Battisti

No Fórum Social Temático de 2012, o escritor italiano Cesare Battisti lançou seu livro mais recente, “Ao pé do muro”, no qual se baseia em histórias de detentos do sistema carcerário. O evento teve presença enorme dos veículos da imprensa grande, mesmo comparável com mesas onde estiveram presentes ministros brasileiros. Não é difícil se supor, porém, que a razão principal não era o interesse pelo livro. Entre 2009 e 2010, o passado de Battisti foi alvo de uma disputa entre setores políticos divergentes brasileiros, bem como causa de um conflito diplomático entre Brasil e Itália. Ex-membro da Brigada Vermelha — um grupo armado que lutou contra governos italia-

nos de tendências autoritárias no fim da década de 60, assim como durante os anos 70 — Battisti foi acusado de assassinatos criminosos, que não seriam justificados por sua militância. O governo italiano pedia a extradição do escritor, que foi concedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas que foi negada pelo então presidente Lula, através do ministro da justiça à época, Tarso Genro. Cesare ficou preso em Brasília de 2007 (quando veio se refugiar no Brasil) até 8 de junho de 2011, quando o STF decidiu por sua libertação. Optando por não falar explicitamente sobre política, Battisti fala sobre sua literatura, seu passado e expressa o que sente sobre sua situação atual.


No lançamento de seu livro, você falou que sua escrita é sobre problemas sociais, mas por que a literatura e não a academia? Quero despertar a consciência do leitor para alguns problemas sociais de importância vital, mas ao mesmo tempo quero dar o prazer da leitura. Não estou fazendo um documento, é narrativa, é ficção. O recado nunca é direto, é sempre indireto, pois senão seria um documento. O escritor sugere, não informa. O leitor é que está dando tinta às palavras secas do papel. Isso também tem uma técnica. Se, por exemplo, quero dizer ao leitor que uma menina que está passando na rua é linda, eu não posso só chegar e dizer: ‘ela é linda’. Se fizer isso, o leitor pode pensar “quem é ele pra me dizer que ela é linda”, quem deve chegar a essa conclusão é ele mesmo. Eu só sugiro, tomo fotografias de algumas situações, as descrevo de certa maneira através da escrita. No meu tipo de romance, social, nas entrelinhas está o recado da situação de que quero denunciar, mas eu não falo “isso está bem” ou “isso não está”. A conscientização é feita através do prazer, do lúdico. Doutrinar a pessoa não muda nada, mas quando você provoca o inconsciente da pessoa, aí é onde você tem frutos. A arte mexe com isso.

Você disse no lançamento do seu livro que a literatura só é uma arte quando alguém é tocado por aquilo que lê. Como você quer tocar as pessoas com a sua literatura? É um tema que a maioria dos escritores contemporâneos tem trabalhado. Identidade, o que somos e por quê. É uma questão de superar essa dicotomia do bem e do mal, como Nietzsche nos ensinou em ‘Além do Bem e do Mal’. Esses padrões são uma invenção cristã que não têm nada a ver com o ser humano. O poder é que diz o que é bem e o que é mal. A injustiça não é um momento, não é pontual. Para mim não é o mais o importante se alguém foi morto na rua, pois nesse meio tempo morrem milhões de pessoas devagar. A injustiça é parte endêmica do sistema, todos os dias. São as circunstâncias que fazem a pessoa. Imagine uma mesma família que tem um filho que foi criado numa favela, e depois tem um golpe de sorte e vai morar em Ipanema, aí nasce ou-

tro menino. Você acha que os dois filhos vão ter a mesma vida? Eles foram criados em circunstâncias diferentes. Só porque um nasceu em um lugar e outro nasceu em outro, um é bom e outro é mal quando tomam ações diferentes? Minha preocupação nos livros é pegar uma personagem qualquer, como um contador, e a coloco em uma situação imprevisível. Vou seguindo essa personagem, ou melhor, essa personagem que vai me puxando. Ele é um contador de terno, gravatinha, mauricinho, pessoa sem cor, apagado na vida; de repente, essa pessoa entra no mundo diferente, de aventura. Como vai reagir, como se comporta essa pessoa que nunca teve coragem de levantar a voz com ninguém, só fica ali apagadinho no seu escritório? Fazendo isso, a injustiça do cotidiano bate na cara. Às vezes o cara, tem algo acontecendo na própria casa dele, como a mulher oprimida, está na frente dele e ele não sabe. Com a ficção ele baixa as defesas e pode até ver. Essa é a minha preocupação.

Durante a luta armada, você teve a experiência de ver pessoas que entraram em um contexto muito diferente do que conheciam. Você pode falar sobre isso e como isso influenciou em sua literatura? É evidente que tenho essa preocupação. Eu mesmo passei por isso. Nasci no campo, em uma família pobre, me engajei na luta revolucionária e por causa da repressão me vi em um meio diferente, cercado de intelectuais, de professores, de filósofos, de escritores, de pintores. Nunca teria chegado lá se a repressão não tivesse me obrigado a me. Devo algo a repressão por bem ou por mal, fui tirado do ‘meu’ contexto e fui jogado em outro por causa dela. Dou às graças à repressão para ter me colocado numa situação dessas. Nasci em outro século. Eu tenho irmão e irmã que ficaram no contexto onde eu estava e, o hoje, não somos nscientizaçã

A co és do é feita atrav dico.” prazer, do lú

iguais. Não pensamos igual, não agimos igual. Somos completamente diferentes. Na maneira de falar, de agir, de pensar, de ver o mundo. Não somos iguais. Ainda que todos eles sejam comunistas e etc., isso não quer dizer nada. Uma etiqueta e nada mais.

Em primeiro plano, o livro “Ser Bambu”, último lançado antes de “Ao pé do muro” Foto: Caio Amorim

Como era a relação com a sua família? Eu nasci no campo, numa fazenda pequeVírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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ENTREVISTA INCLUSIVA_Cesare Battisti

na que não chegava a dois hectares. Cultivávamos a terra, minha mãe vendia os produtos no mercadinho no povoado ao lado. Eu sou o último de seis filhos; meus irmãos e minhas irmãs têm diferença de idade muito grande. Meu irmão mais velho, que já faleceu, tinha diferença de 18 anos para mim. Eles começaram a trabalhar desde crianças para que eu pudesse estudar. O último filho era o que tinha que estudar, eu tinha que virar médico. Família religiosamente comunista, stalinista, na minha tinha quadro do Stalin junto com São Jorge. Ninguém frequentava a igreja, mas todo mundo acreditava [em deus]. Talvez meu pai menos.

é uma demagogia, é a maior mentira que se pode dizer. Quando um político consciente fala disso, está mentindo porque ninguém vai querer destruir a indústria mais lucrativa que existe. Imagina se acaba o crime no Brasil? Temos 500 mil presos. Você multiplica pelo menos por dez entre os que saíram ou que vão entrar, sem contar as famílias deles. Temos 5 milhões de pessoas.

Agora, se você considera desde a faxineira do advogado até a presidente Mas você não era stalinista... do Supremo Tribunal Federal, quantos Não, eu joguei esse quadro do Stalin fora, pela janela. milhões de pessoas estão vivendo às (risos). Isso de custas deste pobre desgraçado jeito nenhum. que foi roubar porque não tiStalin sujou a nha dinheiro pra comer? Quanpalavra “comutas pessoas não estão comendo nismo”, e eu e vivendo suas vidas à custa A ideia de Comunismo nunca posso dele? Centenas de milhões de que muitos de nós perdoar. Nem pessoas! Não tem indústria que à Stalin, nem empregue mais pessoal. São bitemos não tem nada a ver aos stalinistas lhões e bilhões entram na roda com o que escreveu Marx.” e nem aos PCísda economia assim. Quando tas, ou seja, tovocê entende isso, essa coisa dos os partidos de ‘a reintegração à sociedade’ comunistas (PC) perde sentido. Que reintegrado mundo inteiro, que sujaram esse valor enorme. O Comução? A cadeia é uma escola do crime, nismo deveria ser o cume de uma sociedade avançada; o cria criminosos. Ela é feita para fazer avanço da Democracia é o Comunismo. Eles fizeram o conde um simples fumador de maconha trário; ou seja, botaram o Comunismo para destruir a Deum assassino. A cadeia é toda estumocracia. Para impedir a Democracia. Então, não tem nada dada, não é por acaso. Lá, humilham a ver, nunca existiu algum país onde tivemos o Comunismo. você, destroem, fazem de tudo, aí Não pode possuir Comunismo com a miséria, o Comunismo quando você sair, vai querer matar. E se possui com a riqueza. Não é o Fusca para todo mundo, é o com isso você vai estar estimulando Mercedes para todo mundo. Isso é o Comunismo. A ideia de a indústria do crime. É um poço sem Comunismo que muitos de nós temos não tem nada a ver fundo. com o que escreveu Marx.

No seu livro mais recente, “Ao pé do muro” você conta a história de um preso e suas lembranças durante o breve período de banho de sol. Como você vê o sistema penal e carcerário? Devo deixar claro que não estou falando do Brasil, mas de uma maneira geral. Falar sobre ‘a luta contra o crime’

Você fez uma colocação sobre a Leitura Furiosa, como uma entidade que trabalha em prol dos Direitos Humanos, pelo viés da escrita, da leitura. Pelo que você disse no debate, você acha importante essa questão? Você se propõe a construir avanços nessa área?

Ao lado e na página à direita acima, Cesare dança com a senhora Maria de Lourdes Negreiro de Paula do movimento Crítica Radical do Ceará, que o recepcionou antes de sua palestra no Fórum Social Temático, em Porto Alegre com festa e marchinha em sua homenagem: “Cesare Battisti, porta-estandarte desta canção” Fotos: Caio Amorim


Se temos um médico, é porque tem doente. Se temos Direitos Humanos, é porque estão nos espetando, mas para mim eles não deveriam ser necessários, pois deveriam ser como o ar que se respira. Eu não separo Direitos Humanos de todo o resto, educação, cultura. Para mim, Educação é criar consciência, é criar potencial de resposta ao cidadão para se defender e reclamar os próprios direitos. Por que se investe tão pouco dinheiro na Educação e tanto dinheiro na Defesa, por exemplo? Em geral, o poder não tem interesse que o povo tenha consciência e saiba reclamar os próprios direitos. Então, é melhor reprimir, é melhor investir numa repressão. Não é absurdo que em qualquer país do mundo – falamos da França, dos EUA ou qualquer país do mundo – a verba para a Educação seja de 4% e a da Defesa, 15% ou 20%?

Pegando um pouco da questão de viver como escritor, o senhor acha importante a democratização da Comunicação, o acesso ao conhecimento, da produção de cultura? Por exemplo, Baudelaire nunca conseguiu viver de sua escrita, tinha vários problemas e no final da vida vendeu sua obra completa pelo que seriam R$ 200 na época. Como você lida com isso? Todos os grandes não conseguem viver da própria obra. Só depois de mortos. Eles incomodam muito porque eles estão questionando o sistema de uma maneira tão forte, porque a arte é forte, é uma arma incrível, que não tem guerra, não tem guerrilha, que possa se comparar a isso. Esse é o perigo que o poder e o sistema consideram mais forte. Se em vez de ser escritor, desse palestras políticas, escrevesse

ensaios e outras coisas, eu não representaria perigo nenhum para o Estado italiano, eles não me perseguiriam. Se eu fosse terrorista, como eles falam, pelo contrário, eu estaria alimentando esse sistema. O problema deles é que meus livros estão na biblioteca, no setor de literatura, não estão nos livros políticos nem documentos, o que permite outro tipo de leitura. Estão tirando meus livros das bibliotecas por

Hoje, a revolução passa pela Educação.”

causa disso. E ainda falam que a Itália é o berço da democracia, como disseram no Brasil. Para me sustentar, os livros me permitiram fazer outras coisas: dar uma palestra em uma universidade e me pagarem; me chamavam para fazer um curso em uma escola e pagarem; me convidavam a eventos... Acho que nesse assunto, um exemplo é a Fred Vargas. Do dinheiro que ganha, ela devolve quase tudo. Ela vai com uma calça jeans e uma camiseta, não tem carro, não tem nada e ela ganha milhões. A cultura deveria ser grátis e acessível a todo mundo. Isso é fundamental. É incrível num país onde o salário-mínimo é R$ 600, estão vendendo livro a R$ 50. O mesmo preço que na Europa, onde o salário-mínimo é dez vezes mais. Aonde vai esse dinheiro aí? O autor não pega nada desse disso.

Você acha que Educação e Cultura, hoje, são os caminhos fundamentais para a mudança?

Eu acredito que em países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, a revolução, hoje, não passaria pelas armas. Seria um suicídio, seria mandar os jovens a morrer. Hoje, a revolução passa pela Educação. É assim que se desperta a consciência no povo, que cada cidadão conheça os direitos e possa reivindicar os próprios direitos. Essa é a revolução. Não teve nem uma revolução armada que acabou em uma grande democracia, pois as armas pedem outras armas e isso não acaba nunca. Não tem nada pior para um revolucionário que chegar ao poder porque deixa de ser revolucionário, vai querer defender o poder. Eu não quero dizer que acabaram as guerrilhas, os movimentos revolucionários armados, porque têm regiões nesse mundo onde talvez isso ainda é uma necessidade, mas têm outros países onde isso não é viável, mais. Quem ainda fala disso num país como o Brasil, por exemplo, cuidado. Porque essa pessoa é uma provocadora, essa pessoa está mandando milhares de jovens para morrer. Na Itália, nos anos-de-chumbo, nós tomamos as armas e talvez não tivéssemos escolha. Pensando o passado com autocrítica, acho que foi um erro. A luta armada acabou se tornando um pretexto para que o poder destruísse o movimento cultural mais importante na Europa, talvez no mundo inteiro, depois da II Guerra Mundial. O que existia na Itália, nesse momento, era um movimento cultural enorme. Nós conseguimos colocar na rua, de um dia para o outro, 100 mil pessoas. Cem mil! Tudo isso foi destruído. Eles nos provocaram tanto, até nós pegarmos nas armas. Eu acho que foi uma armação, e nós caímos nela. Vírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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mato grosso do sul

Conheça

Mato Grosso do Sul...

...O estado com o maior número de morte de indígenas no Brasil

O estado esconde atrás de belos cenários como o Pantanal, diversas histórias de desrespeito aos direitos indígenas Por Marina Duarte, Rafael de Abreu e Tainá Jara

““A terra está sendo revirada! Chamávamos esse lugar de Mata Grande. Ele sempre foi nosso, e os brancos tomaram tudo. Derrubaram toda a mata e, por ironia, passaram a chamá-lo de Mato Grosso do Sul.”

Atanásio Teixeira, Grande Nhanderu (Líder religioso) – Aldeia Limão Verde – Amambaí/MS.

Mato Grosso do Sul ganhou visibilidade internacional com a denúncia do assassinato do Cacique Nísio Gomes, líder guarani-kaiowá. Ainda não existem conclusões sobre o que aconteceu na manhã do dia 18 de novembro de 2011, no acampamento Tekoha Guaiviry, na BR-386, entre Amambai e Ponta Porã (MS).

A estratégia de assassinar as lideranças tem como objetivo desarticular o movimento indígena.”

Os guarani-kaiowá acampavam entre as fazendas Chimarrão, Ouro Verde e Querência desde o dia 1º de novembro. Há dois dias do assassinato o cacique começou a receber ameaças. Relatos indicam que cerca que 40 homens armados invadiram o local com suas Hilux e S-10 procurando por Nísio e atirando. Três jovens teriam morrido durante a correria, além do cacique, que teria sido atingido com tiros de calibre 12. A questão indígena no estado é extremamente complexa. O governo brasileiro tem dificuldade em construir políticas pautadas no diálogo com estes povos, somada aos conflitos fundiários com grandes proprietários de terras. A mídia agrava estes conflitos na medida em que influência o inquérito policial por meio de acusações que buscam acobertar casos de barbárie cometidos contra os povos indígenas A mídia corporativa sul-matogrossense, baseada em relatos da Polícia Federal, passou a divulgar notícias que levantavam a possibilidade de Nísio estar vivo. O saque de seu auxílio benefício teria sido feito em Brasília (DF) no dia 14 de dezembro. A partir da divulgação desta informação o caso, até então tratado como “desapare-

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cimento”, teve as buscas suspensas e o filho do Cacique, que teria visto o ataque , foi indiciado por falso testemunho. À medida que avançava, a investigação se tornava mais confusa e contraditória. O relatório da PF se desencontrava com a opinião dos indígenas. Estes, reunidos em Conselho Aty Guasu (Assembléia de organização máxima dos Guaranikaiowá), concluíram que Nísio foi assassinado, conforme relato de testemunhas. Não só em Aral Moreira, onde foi relatado o massacre, mas em outros municípios do sul do estado de Mato Grosso do Sul, como Juti e Amambai, os indígenas vivem em constante violência e se encontram em situação de miséria. Independente do caso Nísio Gomes, a questão indígena no estado é alarmante. A estratégia de assassinar as lideranças tem como objetivo desarticular o movimento indígena. Marçal de Souza, principal líder guarani-nhandevá de sua época, foi ameaçado e agredido diversas vezes. Até que, em 1983, foi assassinado com cinco tiros, sendo um deles em sua boca, simbolizando


Ilustração: Davi Baltar Contato para trabalhos: davibaltar@gmail.com

a tentativa da elite agrária sul-matogrossense de calar seu discurso em prol dos direitos dos povos indígenas. Outro caso de repercussão foi o do também cacique, Marcos Verón, morto em 13 de janeiro de 2003. O cacique foi um dos 13 indígenas assassinados no estado, naquele ano. Desde a morte de Verón até 2010, foram 250 indígenas assassinados, 48 assassinatos a mais que no restante do país no mesmo período. Uma situação absurda já que, em porcentagem, Mato Grosso do Sul representa 55,5% dos assassinatos de indígenas no país. O estado possui a segunda maior população indígena do Brasil, com mais de 73 mil índios de nove etnias, que vivem em 613 mil hectares. Eles ocupando cerca de 1,7% da área do estado, que é de 35,7 milhões de hectares e tem o pior índice de violência contra os povos indígenas, segundo relatório divulgado pela Regional Mato Grosso do Sul do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Apesar dos dados que denunciam um verdadeiro massacre, o debate sobre a questão indígena ainda é escasso. É feito principalmente em cima da questão demarcatória, de forma técnica, deixando de lado os Direitos Humanos e toda a violência que os indígenas sofrem. Vírus Planetário - FEVEREIRO/MARÇO 2012

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colaborações *Este texto foi o selecionado dentre

as colaborações enviadas durante a promoção que realizamos no facebook. Fique ligado em nossa página na rede social para novas promoções!

Ter pra ser Reflexões diante de provocações dos SERES Zara Por Vanessa Marcondes

Acho que todos têm o direito de escolher gastar 200 reais numa lojinha que vai dizer que vocês são alguém especial nessa sociedade, DESDE que, as pessoas que trabalham nessas lojas TAMBÉM possam escolher se querem ou não trabalhar pra elas. A questão é que essas pessoas que trabalham de forma escrava, seja para a Zara, para a Nike, em florestas na Amazônia ou em qualquer outro lugar do mundo, elas não tem escolha. Na verdade, elas até têm: ou trabalham sendo escravizadas ou morrem! É importante a compaixão e solidariedade para com outro ser da nossa mesma espécie que não teve as condições, as chances e o direito de TER tudo o que vocês tiveram para SER o que são hoje. A questão também não é especificamente desta loja, o real problema está em todas as relações em que há um oprimido e um opressor!

Querem nos obrigar a ter um carro, a ter um celular com câmera, internet e GPS, ter computador, e-mail, roupas de marca, frequentar os bares e restaurantes certos, fazer escova progressiva, conhecer NY ou Paris para que possamos nos sentir e sermos aceitos na sociedade como alguém, independente do que essas coisas significam para o resto do mundo. Qualquer pessoa que questione esse padrão ou que tenha algum ideal está fora do que é aceito pela sociedade. Por isso, as pessoas que se incomodaram

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Ilustração: Pedro Machado

Recentemente, postei nas redes sociais a notícia de que o trabalho escravo é usado na produção das roupas da Zara, o que acabou causando revolta em algumas pessoas. Não surpreende, já que a sociedade nos impõe que TENHAMOS para que SEJAMOS alguém.

com a notícia da escravidão me mandaram morar no mato. Engraçado que as pessoas não se incomodaram com o crime e sim com quem estava reclamando dele! A escravidão é aceita, mas os ideais não!

profunda? O que nos é apresentado desta sociedade capitalista é o exame superficial insuficiente para a compreensão do problema. A realidade é muito mais complexa e precisa de um olhar mais apurado e cuidadoso.

A escravidão é aceita, mas os ideais não!”

Mudar para o meio do mato não é solução, porque as injustiças também chegam lá. Chico Mendes, irmã Dorothy, José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo foram mortos no “meio do mato”. Belo Monte está sendo imposto para os povos do “meio do mato”. Aqui mesmo em Paraty, povos que vivem no “meio do mato” foram expulsos pela especulação imobiliária.

Desde pequenos somos educados para não pensar, não criticar, não nos revoltar e aceitar tudo, quietos, como verdade absoluta. Mas peço para buscarem além do que os olhos podem ver. Sabe quando vamos ao médico e ele nos examina, mas não consegue o diagnóstico e pede uma radiografia, uma ultrassonografia, uma ressonância, etc. para conseguir enxergar de forma mais

Então, eu peço desculpas se estou incomodando, mas eu vou continuar reclamando, postando noticias, escrevendo, lutando. Aceitar a injustiça como normal não cabe dentro de mim, não cabe no ideal de mundo que tenho, não cabe no mundo que quero para o próximo. “O verdadeiro cidadão não é aquele que vive em sociedade, é aquele que a transforma!” (Augusto Boal).


federal No dia 6/2, o governo iores privatizaou três dos ma Os terminais de aeroportos do Brasil: , de Viracopos, Cumbica, em Guarulhos no Kubitschek, em em Campinas, e Jusceli iativa privada. Brasília, passam à inic

o se ir essile ... a mo ra ux Co o b ro v t po é

os empresários brasileiros e estrangeiros gastaram uma merreca em relação ao que vão lucrar, vão ter apoio do bndes pra administrar os aeroportos, e se tudo der errado, quem assume a bomba é o governo federal. Assim é mole né??

E aí?! Já privatizaram os aeroportos... Você ainda vai continuar parado?! Junte-se à campanha

Em defesa do projeto dos movimentos sociais para o petróleo, com monopólio estatal, Petrobrás 100% pública e investimento em energias limpas. Realização: Mais informações:

www.apn.org.br


A charge de Diego Novaes acima ilustra quais são as prioridades do governo federal em relação aos investimentos do Orçamento da União. Setor tão fundamental para o desenvolvimento de um país, a Educação Pública não pode ser negligenciada!

ão ç a c u d E á h o ã nto, n Sem investimaelidade. Por isso, exigimos: pública de qu

a a r a p B I P o d 10% já!

, a c i l b ú P o ã ç duca

E

Mais informações em nosso site:

Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro

www.adufrj.org.br

Edição 13 Vírus Planetário completa  

edição 13 (fevereiro/março 2012) da revista Vírus Planetário completa

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