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Música e Resistência_Inauguramos a série sobre música como expressão popular

Vírus Porque neutro nem sabonete, nem a Suíça

Planetário

Sob controle do Estad o

liberdades ameaçad as Estatuto do Nascituro amea

ça saúde e direitos d as mulheres

EDIÇÃO DIGITAL

nº24

Com conteúdo do

FAZENDO

MEDIA

R$2 edição nº 24 junho 2013


Contra a privatização dos Hospitais Universitários!

Gestão Mobilização Docente

e Trabalho de Base

NÃO À EBSERH! www.aduff.org.br

Em defesa do projeto dos movimentos sociais para o petróleo, com monopólio estatal, Petrobrás 100% pública e investimento em energias limpas.

Vamos barrar os leilões do petróleo! organização:

Participe do abaixo-assinado: www.tinyurl.com/nao11leilao Notícias da campanha:

www.sindipetro.org.br

www.apn.org.br | www.tvpetroleira.tv


traรงo livre

Por Adriano Kitani / Veja mais em: www.pirikart.com.br

Por Carlos D Medeiros / Veja mais em: facebook.com/fucalivro


o i e r l r a o r C Vi >Envie colaborações (textos, desenhos, fotos), críticas, dúvidas, sugestões, opiniões gerais e sobre nossas reportagens para

contato@virusplanetario.net Queremos sua participação!

Afinal, o que é a Vírus Planetário? Muitos não entendem o que é a Vírus Planetário, principalmente o nome. Então, fazemos essa explicação maçante, mas necessária para os virgens de Vírus Planetário: Jornalismo pela diferença, não pela desigualdade. Esse é nosso lema. Em nosso primeiro editorial, anunciamos nosso estilo; usar primeira pessoa do singular, assumir nossa parcialidade, afinal “Neutro nem sabonete, nem a Suíça.” Somos, sim, parciais, com orgulho de darmos visibilidade a pessoas excluídas, de batalharmos contra as mais diversas formas de opressão. Rimos de nossa própria desgraça e sempre que possível gozamos com a cara de alguns algozes do povo. O bom humor é necessário para enfrentarmos com alegria as mais árduas batalhas do cotidiano.

O homem é o vírus do homem e do planeta. Daí, vem o nome da revista, que faz a provocação de que mesmo a humanidade destruindo a Terra e sua própria espécie, acreditamos que com mobilização social, uma sociedade em que haja felicidade para todos e todas é possível.

Recentemente, unificamos os esforços com o jornal alternativo Fazendo Media (www.fazendomedia.com) e nos tornamos um único coletivo e uma única publicação impressa. Seguimos, assim, mais fortes na luta pela democratização da comunicação para a construção de um jornalismo pela diferença, contra a desigualdade.

Expediente: Rio de Janeiro: Aline Rochedo, Ana Chagas, Artur Romeu, Beatriz Noronha, Caio Amorim, Catherine Lira, Chico Motta, Eduardo Sá, Gabriel Bernardo, Ingrid Simpson, Julia Maria Ferreira, Livia Valle, Maria Luiza Baldez, Mariana Gomes, Miguel Tiriba, Noelia Pereira, Raquel Junia, Seiji Nomura e William Alexandre | Mato Grosso do Sul: Marina Duarte, Tainá Jara, Jones Mário, Fernanda Palheta, Eva Cruz e Juliane Garcez | Brasília: Alina Freitas, Edemilson Paraná, Luana Luizy, Mariane Sanches e Thiago Vilela | São Paulo: Ana Carolina Gomes, Bruna Barlach , Duna Rodríguez, Jéssica Ipólito, Luka Franca e Sueli Feliziani | Minas Gerais: Ana Malaco, Laura Ralola e Paulo Dias Diagramação e projeto gráfico: Caio Amorim Ilustrações: Adriano Kitani (SP), Andrício de Souza(SP), Aroeira(RJ), André Dahmer(RJ) e Elisa Riemer(PR) Revisão: Bruna Barlach e Jones Mário Capa: Foto de Marcelo Camargo/ABr

Conselho Editorial: Adriana Facina, Amanda Gurgel, Ana Enne, André Guimarães, Claudia Santiago, Dênis de Moraes, Eduardo Sá, Gizele Martins, Gustavo Barreto, Henrique Carneiro, João Roberto Pinto, João Tancredo, Larissa Dahmer, Leon Diniz, MC Leonardo, Marcelo Yuka, Marcos Alvito, Mauro Iasi, Michael Löwy, Miguel Baldez, Orlando Zaccone, Oswaldo Munteal, Paulo Passarinho, Repper Fiell, Sandra Quintela, Tarcisio Carvalho, Virginia Fontes, Vito Gianotti e Diretoria de Imprensa do Sindicato Estadual dos Profissionais de Edução do Rio de Janeiro (SEPE-RJ) Siga-nos: twitter.com/virusplanetario Curta nossa página! facebook.com/virusplanetario

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Comunicação e Editora A Revista Vírus Planetário - ISSN 2236-7969 é uma publicação da Malungo Comunicação e Editora com sede no Rio de Janeiro. Telefone: 3164-3716


Editorial A mulher deve ser livre para escolher o aborto A maioria dos abortos no país é feito por mulheres de 20 a 29 anos de idade, que trabalham, têm pelo menos um filho, usam métodos contraceptivos, são da religião católica e mantêm relacionamentos estáveis. Elas têm até oito anos de escolaridade e estão no mercado de trabalho com renda de até três salários mínimos. De acordo com uma das coordenadoras do estudo realizado em 2008 pela Universidade de Brasília (UnB), Débora Diniz, o perfil apontado não traz surpresas, pois reproduz as características gerais das brasileiras em idade reprodutiva. As estimativas do Ministério da Saúde apontam a ocorrência entre 729 mil e 1,25 milhão de abortos ao ano no Brasil. Em 2012, as Nações Unidas destacou o fato de 200 mil mulheres morrerem em cirurgias clandestinas ligadas ao aborto anualmente no Brasil e pressionou o governo a rever sua legislação. Uma das peritas responsável pelo relatório, Magaly Arocha, disse que “o comitê da ONU não pode defender o aborto. Mas as mulheres vão a abortar. Essa é a realidade. O que queremos é que o Estado garanta que elas possam velar por suas vidas.” Uma das maiores especialista sobre direito das mulheres da Europa, Patricia Schulz criticou na ocasião Estatuto do Nascituro: “Uma mulher não pode ser apenas o barco onde o feto cresce. Não se pode dar total prioridade ao bebê e deixar de lado a saúde da mulher”. O Projeto de Lei do “Estatuto do Nascituro” foi aprovado na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara no dia 5 de junho deste ano reacendendo a polêmica, mas ainda deve ser analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania antes de ser votado pelo Plenário. Esse Estatuto é de todas as formas um retrocesso ao debate sobre o aborto no país. Atualmente, a legislação brasileira define o aborto como legal em casos de risco de vida para mulher, gravidez resultante de estupro e/ou diagnóstico de anencefalia fetal. O Estatuto do Nascituro tem como objetivo criar mecanismos para impedir a ampliação de casos em que o aborto é legal e criar incentivos para que as mulheres não optem pela medida na situação de estupro. No Artigo 3º o Projeto de Lei afirma que “reconhecem-se desde a concepção a dignidade e natureza humanas do nascituro conferindo-se ao mesmo plena proteção jurídica” (o nascituro é o feto). A atual legislação brasileira como um todo, e no que se refere à defesa dos direitos humanos (especificamente das mulheres), fica mais conservadora caso o Estatuto de Nascituro seja aprovado. Ele trava os avanços para a ampliação do direito ao aborto (e também de qualquer pesquisa científica que envolva embriões ou células tronco) e empurra com mais força milhões de mulheres para a clandestinidade, sem oferecer melhorar em nenhum aspecto a saúde pública. Nós, mulheres, devemos ter liberdade para tomar a já difícil decisão de escolher o aborto sem sofrer a criminalização legal advinda de valores morais e religiosos de uma parcela da sociedade. Durante o fechamento desta edição, explodiram os protestos por todo o Brasil contra o aumento da passagem de ônibus e contra a repressão do Estado. Acompanhe em nosso site - www.virusplanetario.com.br e em nossas redes sociais a cobertura.

Sumário 7

Sórdidos Detalhes

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Sociedade_Chutando Cachorro Morto

10 Fazendo Media_Brasil de Fato realiza mudanças ao completar 10 anos

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Bula Cultural_Indicações e Contraindicações

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Bula Cultural_Música e Reistência #1 Blues e Jazz

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Movimentos Sociais_Pedras e Sonhos são nossas únicas armas

20 Varal Artístico 22 Internacional_Pela paz na Colômbia

25 CAPA_Política_Sob o controle do Estado

30 Comportamento_Todos os corpos 34 Entrevista Inclusiva_André Souza 38 Traço Livre


Revista

V írus

Planetário

é nicípio do dos Jornalistas do mu Este ano, o sindicato a renoum de a oportunidade Rio de Janeiro recebe para rio ssá ce ne a lut biente de vação, de trazer o am m, outra vez, sonhar. que os jornalistas possa os profissão muitas, nós e tod As lutas dos jornalistas sa desen int o, enfrentamos a sionais da comunicaçã fissão. regulamentação da pro diveros os lados acumulam Comunicadores por tod meinú as m co os, ad recarreg se sas funções e são sob am cis e mais jornalistas pre s ras demissões, mais sto po s seu ção para garantir e submeter à precariza ção nta me ula reg lutamos pela de trabalho, por isso os. eit dir de garantia onde tedá já na Universidade, O início do desafio se . A cada s com nossa formação mos diversos problema ricos, teó o uc po is técnicos e uz dia temos cursos ma red se or ad nic mu ntal do co nionde o papel fundame mu co O resultado disso são a reproduzir tarefas. rcado e lusivamente para o me cadores formados exc ação nic mu co a e qu ção social que esquecem da fun juramento expressa inclusive no deve exercer, função al. do jornalista profission jornalismo Acreditamos num e contra lut a, nç que faça a difere

Um

o o r m t ou s i l a n jor

é

possível!

s Jornalistas do Rio

Por um novo Sindicato do

cos e esa aos interesses públi a desigualdade, atend riamente dia os tam Lu e. ad ied teja à disposição da soc sociais tos en manos e movim para que os direitos hu s, a gro ne os a ntr opressões co sejam pautados e as nomi as ers div as as tod xuais e mulher, aos homosse aliqu la pe . Por isso, lutamos rias não se reproduzam comunicador. dade de formação do a, onde municação democrátic Acreditamos numa co nitámu co ios rád de m lugar, on todas as vozes tenha aço, esp e es tenham incentivo rias e veículos popular cucir m ssa s independentes po sta onde jornais e revista exi zes vo de de e diversida lar, onde a pluralidade de fato. transforcessidade de intensa Neste contexto de ne nasce sil, comunicação no Bra mação da realidade da ais, ion fiss pro s tário, onde joven rea Revista Vírus Plane esc e m ha son ais e intelectu estudantes, militantes muniCo da o açã tiz cra Demo vem os caminhos da da quaopressões na mídia, às ate mb Co do , ão caç nossos de tia ran ga mação e da lificação de nossa for direitos! ouvidos, vimentos sociais são Um espaço onde os mo se relar s lutas, a cultura popu sindicatos pautam sua de chegar. vela, onde o novo po formaé pra Lutar ”, tem em sua A Chapa 2 “Sindicato uma vel ssí po é e mostraram qu ção pessoas que nos s enno e qu es sor fes Pro nicar. outra forma de comu mação a e nos espaços de for e ad rsid ive un na sinam piram, ins s no e s populares qu inovar, comunicadore ntam fre en os ad rm -fo e recém colegas estudantes qu itas mu a colocados a nossa e com garra os desafios gerações de jornalistas. possível, am que outro olhar é Pessoas que nos mostr conheo nd mu o e s garantir qu e que juntos, possamo do Muas list rna Jo s d@ dicato ça este olhar. Para o Sin netário Pla eiro, a Revista Vírus nicípio do Rio de Jan ar! lut pra é , ato a 2, É Sindic apoia e constrói a chap


A verdade varrida pra debaixo do tapete

s o d i d r só . . . s e h l deta

Ilustrações: Adriano Kitani

Nem padre escapa

Vivendo nos Horizontes

quem são os selvagens? Lá dos céus, cavalgando em seus helicópteros, nossos queridos governantes estão em polvorosa com o crescimento das manifestações contra o aumento das tarifas que atingiu o bolso dos trabalhadores em cheio nos últimos meses. O que nos empolga é que essas manifestações tem unido nacionalmente o militantes de todas as idades e diferentes origens entorno de uma discussão em comum: o direito de ir e vir. Todas as cidades também estão unidas através da mídia grande que tem feito uma das coberturas mais absurdas de todo os tempos, tentando convencer de que estes manifestantes são um bando de baderneiros e vândalos sem propósito. Ah sim, porque realmente, ter o equivalente a três meses do seu salário por ano saindo do seu bolso pros cofres dos empresários do transporte não é motivo para se manifestar. Deveriam é estarem todos quietinhos em casa assistindo suas TVs e sorrindo. Até as próximas eleições quando os candidatos farão novos acordos com os empresários do setor de transporte para se elegerem e nós teremos que lidar com um novo aumento. E depois são os manifestantes que impedem o direito de ir e vir das pessoas... foto: www.facebook.com/povomeuacorda

E a luta tem conquistado vitórias! Depois da grande vitória do movimento em Porto Alegre da qual falamos na edição 23, os movimentos por toda parte cresceram. Até o fechamento dessa edição em Goiânia e em Campinas a luta dos manifestantes havia conseguido barrar o aumento. É isso, caros companheiros, só a luta muda a vida.

No dia 29 de Abril foi excomungado o padre Beto, presbítero de Bauru, como foi bastante veiculado na mídia. O grande crime do padre foi defender a união entre pessoas do mesmo sexo, frisando que, apesar de favorável, o padre nunca realizou uma cerimônia desse tipo. No dia 14 de maio, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) - que não tem nada a ver com religião - aprovou a união por maioria esmagadora (14 a 1). Vitória para o Estado laico que - apesar de malafaias, felicianos e PSC’s da vida afirmarem o contrário - não deve ser submetido a religião A ou B.

Ainda sobre o caso...

Quem dá uma fuçadinha na bíblia encontra uma fala do apóstolo Paulo em I Coríntios 14:34-35 dizendo que a mulheres se calem na igreja e, conforme a lei, submeta-se ao seu marido. A Igreja de hoje diz que Jesus (um bom sujeito, socialista e defensor dos Direitos Humanos) nunca discriminou as mulheres e que o texto, expressão de um homem da época, não reflete as palavras de Jesus. O interessante é que a homossexualidade é condenada no novo testamento pelo mesmo “homem da época”e ninguém usa o mesmo argumento.

Por falar nisso... Jesus só usou de intolerância e violência uma vez e foi contra quem resolveu transformar a fé em um comércio quando expulsou os “vendilhões do templo”. Creio que se certas figuras tivessem vivido há 2 mil anos, teriam levado uns bons pescotapas do queridão, Jesus Cristo. Saiba mais sobre os vendilhões: www.tinyurl.com/vendilhoes E sobre cristianismo e homossexualidade: www.tinyurl.com/cristao-gay

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sociedade *Nota: Coxinha - gíria paulistana para pequeno-burguês reacionário Por Adriano Kitani / Veja mais em: www.pirikart.com.br

o d n a t u h

C

Por Ana Carolina Gomes Há muitos boatos a respeito do que acontece dentro de um ambiente prisional. Sem dúvidas podemos afirmar que, ao mesmo tempo em que desperta os piores sentimentos de uma sociedade, o presídio é dotado de certa áurea de mistério que o torna absolutamente instigante. Conheci uma pessoa que dizia que se pudéssemos fazer da penitenciária um centro com visitas monitoradas, como um museu ou um zoológico (a comparação com o zoológico fica mais adequada, visto que nos dois as supostas feras estão enjauladas), muita gente pagaria para ver o que acontece lá dentro. Ver e julgar. 8

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Uma breve reflexão sobre a revolta seletiva da população

o r r o cach


Uma onda conservadora que anula a dignidade de muita gente parece ter chegado para ficar no Brasil. Muito tem se falado na televisão, jornais, revistas e redes sociais sobre a redução da maioridade penal como solução para todos nossos problemas, os supostos privilégios de que os detentos usufruem nesse aparente “clube de férias“ que é o sistema penitenciário brasileiro. “Direitos humanos para bandidos”, essas pessoas argumentam.

Não à toa nossas taxas de reincidência figuram entre as maiores do mundo. O modelo penal do Brasil falhou miseravelmente. E o desdobramento natural disso não seria a reivindicação por parte da população de medidas efetivas de reabilitação do sujeito preso, por meio de educação e trabalho, em vez do clamor por encarceramento de crianças e enrijecimento das penas? Seria, tendo a acreditar, se a mídia não cumprisse tão bem o seu papel de defensora dos interesses da classe dominante. O capitalismo é selvagem, mau, estruturalmente criminoso. E eu não estou falando aqui de crime “péde-chinelo”, estou falando de assaltos colossais aos cofres públicos e, grande parte disso, é totalmente legalizada e aceita socialmente. Parte considerável de nosso orçamento é destinada a pagamento de juros e amortizações da dívida pública, dinheiro para banqueiro mesmo, e isso não gera a revolta nacional que observamos contra traficantes miseráveis, ladrões de celular, batedores de carteira, meninos e meninas cuja barbárie foi a única escola, meninos e meninas que só aparecem na televisão quando devolvem à sociedade toda a agressão e o abandono com os quais tiveram que lidar desde o nascimento. Por que estes são os grandes inimigos? O que desperta sentimento tão vingativo na sociedade?

? o t r mo Muitos propõem, por exemplo, plebiscitos para mudar a lei que já existe (e é fruto de muita luta pela defesa de nossas crianças e adolescentes), o ECA. A concepção que visa submeter direitos a plebiscitos parte da ideia equivocada de que a vontade da maioria é a democracia e ponto. Não é não. Direitos de minorias marginalizadas devem ser garantidos sempre. Nós, que militamos na área de direitos humanos, estamos tristemente habituadas a ouvir discursos odiosos e inflamados, e felizmente, já carregamos conosco um arsenal de argumentos para rebater, uma a uma, tais ideias implantadas na cabeça do povo pelos mais diversos meios que existem.

Uma vez que o capitalismo se constituiu como um sistema predatório, a permanência do poder nas mãos de uma minoria só existe mediante a existência das massas, que vivem à margem de uma série de recursos essenciais para a dignidade humana. Foi preciso desenvolver mecanismos para que a revolta inerente a estes processos de exclusão fosse contida. A existência da marginalidade e do sistema penal é, neste sentido, condição essencial para a manutenção da sociedade tal como ela está, pois direciona o ódio e o medo da população para aquilo que se configura como a escória da sociedade – a população encarcerada –, ocultando a criminalidade dos mais poderosos.

Mas, antes de ir para o front, proponho a reflexão: por que essa revolta contra o lado que visivelmente já perdeu? À parte a condenação formal do Estado, a massa encarcerada tem sua morte social decretada aos quatro ventos todos os dias. Preso ou livre, culpado ou inocente, o sujeito jamais se livra das marcas do encarceramento em nossa sociedade.

Acreditamos que expor tais contradições estruturantes do sistema é uma arma poderosa contra a política do medo fomentada pela mídia grande. É preciso identificar os verdadeiros inimigos e conhecer os processos históricos e sociais que produzem essa massa de pequenos batedores de carteira maltrapilhos, mal alimentados, malcheirosos e drogados. Trabalhar coletivamente na construção da dignidade destes “miseráveis” que são reflexos da podridão de nossa sociedade, viabilizando-os como sujeitos de direitos e não apenas pelos seus crimes, é o primeiro passo do imenso processo de humanização pelo qual o Brasil parece ainda não ter passado, mesmo depois da abolição formal da escravidão.

O modelo penal do

Brasil falhou miseravelmente.”

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FAZENDO

*É isso mesmo, caro leitor, agora a Vìrus e o Fazendo Media são um veículo único!

MEDIA

Março de 2013 | Ano 10 | Número 104 | www.fazendomedia.com | contato@fazendomedia.com

Brasil de Fato realiza mudanças ao completar 10 anos

Por Eduardo Sá O semanário Brasil de Fato vai terminar 2013 de cara nova, após completar dez anos, no último mês de janeiro. Mudança no projeto gráfico para a edição nacional e edições regionais em formato tabloide (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília) são algumas das novidades, além do aumento da tiragem e a distribuição gratuita. Os cariocas

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a média que a mídia faz

Vírus Planetário / fazendo media - junho 2013

foram premiados com a primeira edição regional no último 1º de maio, dia do trabalhador, durante as manifestações que ocorreram nas ruas da cidade. Houve um balanço sobre a trajetória do jornal junto às forças sociais que lhes dão sustentação financeira e política, sobretudo os movimentos e sindicatos, e foi avaliado que apesar das vitórias e da resistência é

preciso avançar mais, explicou Nilton Viana, editor do veículo. Segundo ele, o objetivo é tentar chegar mais próximo à classe trabalhadora, com edições massivas de linguagem mais simples e enfoque mais direto. “Vivemos um momento extremamente delicado no país com avanço tecnológico nas comunicações, mas as elites continuam com o monopólio. Avaliamos que precisamos in-


comunicação que consiga definitivamente influenciar a opinião pública e, assim, elevar o nível de consciência da classe trabalhadora para que façamos as mudanças estruturais tão necessárias que o país precisa”, afirmou o jornalista.

As edições regionais do Brasil de Fato serão semanais, em formato tabloide, distribuídas gratuitamente nos centros de aglomeração de trabalhadores, como metrô, central de ônibus, trens, universidades e nas aglomerações da juventude trabalhadora das grandes cidades. A expectativa é que seja ampliada para outras capitais, contando também com o apoio, através de A edição regional anúncios, de prefeituras progressistas. Alguns jornalistas foram contratados, mas o projeto continua sustentado pelo apoio de do Brasil de Fato vai colaboradores e dos movimentos.

disputar hegemonia com os veículos tradicionais de comunicação cariocas”

terferir mais na conjuntura. É um governo contraditório, com políticas progressistas, que não rompeu com esse modelo. É um momento propício, com respaldo dos movimentos sindical e social. Com esses novos desafios, vamos tentar fazer com que o Brasil de Fato seja efetivamente um veículo de

De acordo com Vivian Virissimo, correspondente do jornal no Rio de Janeiro, a publicação será distribuída gratuitamente nas estações de barcas, metrô e trens da Supervia, além de escolas, universidades e espaços de ampla circulação. A edição regional do Brasil de Fato, segundo ela, vai disputar hegemonia com os veículos tradicionais de comunicação cariocas.

“Com 100 mil exemplares por semana, vamos disputar a atenção dos trabalhadores(as) que estão se deslocando de casa para o trabalho e receberão o jornal de graça. Nossa intenção será abordar o cotidiano sempre com uma visão popular dos fatos. Nos dias de distribuição, quinta e sexta-feira, será uma das maiores tiragens da cidade. Isso é um feito muito significativo para a comunicação popular, que antes ficava muito restrita. Ao dialogarmos com grandes parcelas da população, em curto e médio prazo, poderemos trazer avanços em diversas lutas dos trabalhadores e dos movimentos sociais”, afirma a jornalista.

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FAZENDO

MEDIA

Histórico do Brasil de Fato

Vamos fazer com que o Brasil de Fato seja um veículo de comunicação que eleve o nível de consciência da classe trabalhadora”

A edição mineira foi lançada no último dia 04, em Belo Horizonte, durante o Encontro Estadual de Formadores do Plebiscito Popular pela redução das tarifas de energia elétrica e do ICMS na conta de luz. Cerca de 700 pessoas receberam com entusiasmo a nova edição estadual, ressaltando a importância da iniciativa devido ao grande controle do governo estadual sobre a mídia comercial. Em seu editorial, é destacada a “ousadia” e “coragem” do novo projeto, “um grito de liberdade”, e que o povo mineiro sonhava há muito tempo com um veículo de comunicação comprometido com uma visão popular de Minas, do Brasil e do Mundo.

Distribuição da primeira edição regional do Brasil de Fato no Rio de Janeiro. Na foto, Vito Giannotti, coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação e colaborador do Brasil de fato. Foto: Marina Schneider

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O Brasil de Fato nasceu em 25 de janeiro de 2003, durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. As primeiras edições de 4 páginas foram encartes no jornal Sem Terra, do MST, com 2 milhões de exemplares distribuídos nos grandes centros para divulgar a luta dos trabalhadores em versões contadas por eles mesmos. Algumas edições especiais com temas específicos circularam nesse período. O semanário cresceu com apoio das forças sociais, como as pastorais sociais, a Via Campesina e os sindicatos. Por isso, é uma publicação essencialmente popular. Sua principal dificuldade continua sendo financeira. No início houve uma campanha que arrecadou R$ 400 mil para rodar as primeiras edições em todo o Brasil, com tiragem de 100 mil exemplares. Nessa trajetória foram realizadas campanhas de assinaturas e doações entre a militância, além de debates para dar visibilidade à iniciativa e suscitar o debate público, que resultou na autossustentação do projeto. Com a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder, o jornal adequou seu projeto gráfico, editorial e político, e conseguiu sanar todas as suas dívidas. Antes da atual reforma, circulava com tiragem de 50 mil exemplares (16 páginas coloridas tamanho standard). Reúne jornalistas, intelectuais, lideranças sociais do Brasil e do mundo. Entende, de acordo com o seu editor, que a democratização da mídia é fundamental na luta por uma sociedade mais justa e fraterna, daí sua contribuição no debate de ideias e na análise de fatos do ponto de vista da necessidade mudanças sociais em nosso país.


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Bula cultural algumas recomendações médico-artísticas

Indicações Doumentáro Onde a Coruja dorme

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Documentário em forma de roda de samba que conta o contexto social que gerou as grandes composições do sambista Bezerra da Silva. Contando a história pelo ponto de vista do morador do morro, das favelas do Rio de Janeiro, as músicas de Bezerra denunciam, desde 1969, temas ainda extremamente atuais como a Criminalização da Pobreza e do Consumo de Drogas, o Crime de Colarinho Branco, a Distribuição de Armas e a Dominação Religiosa exercida por charlatões. Nas canções de Bezerra, o pobre é o protagonista Assista - www.tinyurl.com/coruja-dorme

Contraindicações Dentista Mascarado Falar mal da globo é chover no molhado, mas, em algumas ocasiões, eles conseguem se superar, principalmente em seus programas de humor. Programa de estreia de Marcelo Adnet no canal é uma evolução do tradicional mau gosto que o canal tem para humor, demonstrando que o humorista cometeu um grande erro ao se vender para a emissora. Diferente de tudo que fez, interpreta na série um personagem caricato, sem graça e deprimente, que não consegue arrancar nenhum riso. Pra piorar, o programa é palco para as opressões, reforçando um machismo pavoroso e com recorrentes episódios de transfobia.

POSOLOGIA ingerir em caso de marasmo ingerir em caso de repetição cultural ingerir em caso de alienação manter fora do alcance das crianças nocivo, ingerir apenas com acompanhamento médico extremamente nocivo, não ingerir nem com prescrição médica

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Bula cultural

algumas recomendações médico-artísticas

e a c i s ú m

resistência

O espaço da música é o da liberdade

Por Aline Rochedo Eu não me canso de escutar e re-escutar alguns depoimentos de artistas negros dos anos 1940-50-60. Gosto de sentir e captar a paixão deles ao relatar as histórias das lutas subterrâneas dos primeiros protagonistas de música negra no continente Americano. Você pode não acreditar a princípio, mas o que estes artistas diziam está muito próximo ao que os protagonistas de gêneros populares dizem atualmente. Apesar de estarmos falando sobre uma arte de entretenimento, esta arte pode entreter e conscientizar simultaneamente. Como disse Nelson Mandela, “a mensagem da música alcança lugares que não estão, necessariamente, ligados à política, e esta mensagem pode ir mais longe do que nossos políticos são capazes de empurrá-la”. Assim, um estilo de música pode atuar sobre as pessoas e tornar-se uma experiência mais abrangente. Na maioria dos casos, a música é o canal de voz e a referência para os que estão no seu entorno. A linguagem musical não pode ser compreendida sem considerarmos o contexto histórico e social em que circundam e as peculiaridades dos músicos. Convido você a caminhar um pouco comigo e conhecer as histórias destes artistas que fizeram e fazem da música algo muito maior do que a indústria fonográfica pensa que rotula e vende. Esta série pretende isso. Vamos dialogar e traçar este caminho sonoro.

1# Blues e Jazz E como os gêneros musicais surgem? Os estilos musicais tendem a surgir e existir em um nível regional, marginal, escondido de um público maior, antes de explodir em um conhecimento de massa. Os processos de lutas aos quais estes estilos passam são muito semelhantes: são repudiados por não se enquadrarem no que seria estipulado como “música de qualidade” ou “erudita”; seus protagonistas são perseguidos, sofrem discriminação de todas as formas e muitos acabam não recebendo os créditos de suas composições; expressam e carregam em si as vivências, alegrias, angustias e questionamentos não apenas dos artistas, mas de todos que se sentirem representados ou atraídos por determinado estilo. Esta dinâmica foi verdadeira para as principais explosões dos gêneros mais conhecidos e oriundos de matriz africana: o blues, o jazz, o rock, o samba, a salsa, o reggae, o hip-hop e o funk. Não podemos deixar de dizer, no entanto, que a música negra passou a se fundir com componentes brancos, e a evolução destes gêneros é resultado desta fusão. Assim, para além dos estilos citados de matriz africana, a música do branco pobre, ou simplesmente do pobre, principalmente as que surgiram das zonas portuárias e rurais, terão espaço nesta trajetória.


Jazz na Praça São Salvador, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro | Foto: Aline Rochedo

Se o blues é um sentimento musical, o jazz é um idioma. A expressão “Blues” (The Blues) se popularizou com o término da Guerra Civil Americana, no final do século XIX, quando sua essência passou a ser vista como um meio de descrever o estado de espírito da população negra. Os negros cantavam este tipo de música em uma tentativa de se verem livres da tristeza, da opressão, do trabalho forçado. O blues teve como berço o Delta do Mississipi. O “delta” (que significa a foz de um rio) que os “bluesmen” se referem é o delta lamacento do rio Yazoo, que une suas águas às do rio Mississipi nas proximidades de Vicksburg, região de inundações onde camadas de lama vão se depositando a cada primavera. A região possuía terras apropriadas para o plantio de algodão, e por isso, ali vivia uma densa população afro-americana, que servia como mão-de-obra escrava das lavouras. Para aliviar o sofrimento e amenizar o trabalho nos campos, os escravos desenvolveram os cantos de trabalho (work songs) que refletiam lamentos em forma de gritos melancólicos ritmados pela enxada, martelos e machados. Como não podiam tocar nenhum instrumento, pois os brancos receavam que fosse usado como códigos incitando à rebelião, a voz se tornou o principal, praticamente o único instrumento musical dos negros.

O segredo do blues está nas suas sutilezas. Trata-se de um dos estilos mais difíceis de dominar.”

O jazz surgiu após a Primeira Guerra Mundial, já no século XX, também nos Estados Unidos. Como música altamente variada, desenvolveu formas específicas e repertório próprio. O blues é um de seus fundamentos poderosos. O jazz nasceu do ponto de interseção entre a matriz africana e tradições culturais europeias. No período, a emancipação dos escravos e a migração para o norte produziram um proletariado negro supostamente livre para escolher seu próprio divertimento. E o jazz se espalhou com estes migrantes através das estradas de ferro que estavam sendo construídas e cortavam todo o país. O som do trem de ferro chega até ser perceptível na melodia do jazz.

Vamos tocar algo que eles não podem roubar, porque não podem tocar A cidade que se tornou referência para o jazz é Nova Orleans. Cidade portuária, sempre muito badalada, dispunha de uma formação multiétnica: eram músicos negros que tiveram a influência da presença espanhola, francesa, alemã, dentre outras. Já o Mississipi, onde predomina o blues, a formação era mais primitiva, com instrumentos semelhantes ao que temos no nordeste brasileiro, como a zabumba, por exemplo, o bumbo, a utilização de flautas de madeira, dentre outros. A matriz tanto do jazz quanto do blues é a mesma, o que muda é uma questão de instrumentação e ritmo. O blues e o jazz (e o samba do Brasil), a princípio, tinham efeitos instrumentais de sons caseiros e usos de utensílios domésticos para marcar o compasso. Com o passar do tempo, os desafios para os músicos de jazz e blues era tocar com maestria: um trompete como se toca um saxofone, um trombone com esplendor e fluidez, fazer a bateria muito mais do que o instrumento que marca o ritmo. A conversa corrente entre os músicos negros era: “vamos tocar algo que eles não podem roubar, porque não podem tocar”. Esses artistas procuravam criar acordes cada vez mais difíceis e complexos a fim

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Bula cultural

algumas recomendações médico-artísticas

O professor Antônio de Jesus da Silva exibe sua vasta coleção de vinis | Foto: Aline Rochedo

nses criaram poesia Os negros estadunide canto, muitas vezes por meio do jazz: um ento de uma letra.” sem o acompanham

de que os brancos não conseguissem reproduzir suas músicas. Em alguns episódios curiosos, os brancos se vestiam e pintavam sua pele de preto com intuito de serem aceitos na comunidade dos músicos.

O blues é o núcleo do jazz. Quem não toca blues não chegará a tocar jazz. Nenhum bar que tocasse jazz ou blues por negros faria sentido se frequentado por quem não compreendesse a relação da música com a realidade da comunidade negra estadunidense. Como disse o músico Johnny St. Cyr “Nossos sentimentos fluem naturalmente enquanto tocamos. Nunca se repete a mesma coisa. Cada vez que você toca uma música, novas ideias surgem na sua cabeça e por um momento você é muito livre.” O professor Antônio de Jesus da Silva, pesquisador de gêneros musicais de origem africana, que acompanhou vários processos de consolidação da música negra no mundo, ressalta que “as pessoas se reconhecem através da música. Eu me reconheço. No jazz ocorre um fato muito importante que é o da autoestima do músico negro. Ele se arruma para tocar, ele tem uma postura que o diferencia dos demais. Você pode reconhecer um músico negro andando na rua”. Para o músico brasileiro de blues Charles Zarol, filho de estadunidenses e um dos poucos músicos que se dedicam ao gênero no Brasil, 16

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o blues era mais um desabafo do que uma autoafirmação. Existem várias gírias e termos que foram criados pelos letristas para substituir um palavrão ou algo que fosse considerado obsceno “o artista usava metáforas para falar sobre aquele patrão que o oprimia e roubava, sobre sua condição social, suas tristezas pessoais, e por isso, eu acredito que seja muito mais expressão do que autoafirmação”. Conclui, Charles.

Raízes Sonoras As características musicais que os grupos de escravos trouxeram para o continente americano com maior notoriedade é o padrão “canto e resposta”, presente nas lavouras de algodão nos Estados Unidos e nas lavouras de café no Brasil, que veremos no episódio sobre o samba. No cenário brasileiro, ser músico de blues é um pouco difícil. Já houve um momento muito bom na década de 1980-90, mas hoje o estilo tem passado por ostracismo. As casas que se dedicavam a este gênero fecharam ou já não funcionam mais. Há também no nordeste um grande movimento do blues, como também na região sul, mais especificamente nas cidades. Em São Paulo e no Rio alguns músicos estão trabalhando para levantar o cenário. A exemplo de bandas brasileiras, temos a Blues Etílicos que, com 15 anos é a banda de blues mais antiga e


“Os blues são as raízes e as outras músicas são os frutos. É bom manter as raízes vivas, porque isso significa melhores frutos para o futuro”.

“O que nós tocamos é a vida. Sempre levei minha música a sério.” Louis Armstrong

Willie Dixon, músico de blues

Para Charles Zanol, o segredo do blues está nas suas sutilezas. Tratase de um dos estilos mais difíceis de dominar. É a da emoção, mas com um preparo de anos de estudo para realmente transmitir a emoção em notas. “é questão de sutilezas, mas só tem sutilezas quem realmente domina o que faz.” A banda de Charles tocou muitas vezes em praça pública no Rio de Janeiro, mas hoje a prefeitura não apoia tais iniciativas e até os proíbe de executá-las: “Tocávamos na Praça São Salvador, no Largo do Machado e na Tijuca, mas agora não podemos mais”. Existem festivais de jazz e blues no Brasil, alguns são bem populares, outros não. Nos Estados Unidos, durante um bom tempo, a juventude negra estadunidense, repudiou o blues e o jazz por considerarem que eram estilos ultrapassados, e daí surgem outras vertentes musicais. Atualmente, há algo interessante ocorrendo, artistas negros do hip-hop estão retornando ao gênero e resignificando-o: ”fica um blues com elementos de hip-hop, que faz parte da cultura negra e vai ganhando este formato bem interessante”, nos conta Charles Zanol. A música pop, desde então, vem adotando técnicas e arranjos e instrumentais elaborados pelos músicos negros. Os sons africanos são ritmicamente mais emocionantes

e falaremos sobre isso nos próximos episódios desta série. A música consegue ultrapassar os limites que uma parcela da sociedade quer impor. A cultura musical é, por excelência, a cultura do deslocamento.

Jazz na Praça São Salvador, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro Foto: Aline Rochedo

Charles Zanol e Os Associados, que completou 3 anos de existência.

Poderemos contrapor percepções infundadas ao localizarmos a produção musical urbana ou mesmo rural (no caso do blues e algumas ramificações do rock) como representante de uma voz expressiva, referenciandoa com os gêneros consolidados na história da música que sofreram os mesmos preconceitos que os estilos contemporâneos sofrem.

>>

Agora, para que você realmente entenda o sentimento musicalizado no jazz e blues, sugiro que escute algumas destas canções. >>Ain’t Nobody Home (BB King) >>Round Midnigjt (Miles Davis) >>Blues Boys Tune (BB. King) >>Hello Dolly (Louis Armstrong) >>Spiritual (John Contrane) >>Bird of Paradise (Charlie Parker) >>Central Park Bues (Nina Simone)

Próximo capítulo: O Rock!

>>Let’s do it (Let’s fall in love) (Ella Fitzgerald)

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movimentos sociais

Se as pedras não

voam os sonhos são em vão*

Os protestos que estão acontecendo em todo o Brasil não são apenas contra o absurdo da tarifa de ônibus e a péssima qualidade do transporte coletivo, mas sim para propor outra sociedade! Por Chico Motta “Protesto é quando eu digo que algo me incomoda. Resistência é quando eu me asseguro que aquilo que me incomoda nunca mais acontecerá (...) Os estudantes não estão se revoltando, eles estão exercendo resistência. Pedras voaram, os vidros das janelas foram quebrados (...) a fronteira entre o protesto verbal e resistência física foi cruzada, pela primeira vez em grande escala: por muitos, e não apenas indivíduos isolados, por dias, e não apenas uma vez, em todo lugar , e não apenas na capital, de verdade, não apenas simbolicamente (...) Seria tudo apenas uma escalada terrorista apolítica, violenta, impotente e sem sentido? Que seja dito: aqueles aqui que, a partir de posições de poder político, condenam quem atira pedras e coloca fogo, mas não condenam a manipulação da imprensa fascista, nem as bombas caindo no Vietnã, nem o terror na Pérsia, e não falam da tortura na África do Sul, em vez disso espalham meias-verdades sobre os estudantes, a sua participação em nome da não-violência é hipócrita, eles têm um duplo padrão, eles querem precisamente o que os que

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foram às ruas - com e sem pedras em seus bolsos - não querem: a política como destino, massas ovelhas, uma oposição impotente que não perturba nada nem ninguém (...) e quando as coisas ficam sérias, o [a proclamação de um] estado de emergência.(...) Eles estão perdendo a justificação tanto moral quanto política para protestar contra o desejo de resistir dos estudantes” A citação acima poderia ser dos dias de hoje, mas é de Maio de 68, na Europa. À época, barricadas de lixo e tapumes eram erguidas pelas ruas, fogo ateado, vidros quebrados. Os estudantes de 68 nos ensinaram que ser realista é ultrapassar a barreira do possível, sem passividade, sem obediência, sem o conformismo insosso e inofensivo que reclama de tudo mas nada faz para mudar.

Luta, Brasil! No Brasil, maio de 68 foi diferente, vivíamos uma ditadura, os protestos não criticavam uma representatividade falsa. Com a instauração do AI 5, todo movimento foi impedido de se organizar, as pes-

soas impedidas de ir para as ruas, censura, prisões, torturas, execuções. A única alternativa era a luta armada. Talvez por isso, hoje, grande parte das pessoas, inclusive nos círculos da esquerda, condenem ingenuamente as ações que tem sido realizadas pelos estudantes Brasil à fora. O que fizeram só seria legítimo contra um estado ditatorial, a falsa democracia representativa lhes parece algo inatacável. Com um discurso de não-violência, pautados em exemplos que funcionaram em momentos muito específicos da história, e a custo de muita dor e mortes de pessoas inocentes, ignoram a importância e força dos processos que levaram às principais conquistas de direitos pelo mundo. Ignoram o direito dos estudantes de se revoltarem.

Cansados de apanhar calados Eles cansaram-se de apanhar calados, da repressão covarde de uma polícia criminosa que comanda milícias e assassina indígenas, de um judiciário conivente que desaloja famílias em nome do interesse de gente endinheirada, de uma mídia farsante que distorce a realidade


Brutalidade em 3 atos: Em ato contra o aumento da tarifa do dia 13/6 em São Paulo, PM mesmo com manifestantes com mãos para o alto, atiram balas de borracha a menos de 5 metros de distância. Fotos: www.feridosnoprotestosp.tumblr.com “Vovó militante”, como foi apelidada nas redes sociais, atira pedra contra polícia que desocupava a Praça Taksim, em Istambul, na Turquia, onde população protesta veementemente contra o governo. Leia mais em nosso site - tinyurl.com/turquiarevolta

por medo de uma possibilidade de emancipação popular, de um estado mafioso que atua em conluio com grandes empresários contra o interesse da população. Cansaram de serem violentados diariamente e não fazerem nada a respeito.

Se a passagem aumentar... A palavra de ordem é: Se a passagem aumentar, a cidade vai parar! Mas não fizeram disso só um discurso simbólico, sem efeitos na realidade, as cidades estão parando de verdade. Ultrapassaram a fronteira entre protesto verbal e resistência física. Se a polícia os reprime com balas de borracha eles revidam com pedras, se jogam bombas de gás, queimam o lixo e fecham as ruas, janelas e portas de vidro não são perdoados, a propriedade não pode estar à cima da vida humana. O desejo de resistência desses jovens é legítimo, e não será o jornal nacional, ou a revista veja que inverterão a realidade. Enquanto a polícia fere pessoas, sejam manifestantes ou não, os

Protesto também do dia 13/6 que parou o Rio de Janeiro ocupa escadarias da Assembleia Legislativa com mais de 5 mil pessoas. “Ei Cabral, vai tomar no cú!” - Cantavam em uníssono os manifestantes. Em São Paulo e no Rio, os protestos foram muito intensos e tiveram uma repressão criminosa das polícias locais, comparável com a repressão a passeatas contra a ditadura militar. | Foto: Julia Maria

Se a passagem aumentar,

a cidade vai parar! ”

manifestantes atacam a propriedade, enquanto as companhias de ônibus e o estado violentam o trabalhador diariamente, os manifestantes atacam a propriedade, enquanto a imprensa criminaliza e protesta contra aqueles que resistem, os manifestantes atacam a propriedade. Atacar a propriedade é a forma que tomaram para revidar toda a violência que sofrem diariamente. Sonham com um mundo novo, fazem do impossível necessário e urgente. Enfrentam com seus rostos mascarados muito mais que aumentos extorsivos de passagem, a criminalização da pobreza, o racismo, a homofobia, o machismo, o fascismo, a monormatividade, a violência policial, a concentração de renda, a máfia dos transportes, a máfia da política, a família burguesa heteronormativa, o egoísmo, a vaidade, as hierarquias e manicômios, prisões e todas as relações de poder e dominação. A liberdade agora é tomada como possibilidade plena de exercício das potências, em contraposição ao exercício de poder de poucos sobre uma massa submissa. Antes de condenarem a resistência desses quixotes, lembrem-se de que enquanto estão sentados em seus sofás, passivos em relação ao mundo, eles nos mostraram que ainda é possível sonhar, que ainda é possível agir.

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Varal artístico O Motor_História de um cotidiano Por Matheus Lara

Josival, rodoviário, dirige o Busu que leva de muito longe a muito além, passando pelo centro da cidade e por diversos outros pontos que, se seguisse o traçado mais inteligente, não estariam no meio do caminho. Mas a vida de Josival não passa por caminhos inteligentes. O motorista, que reside no bairro de Atrás-do-Volante, dorme em uma casa onde residem uma mulher e duas crianças. Com a Dona que mora na casa ele ainda interage e ouve umas reclamações durante o seu sagrado futebol. Parece que ela fala algo sobre ter que fazer tudo em casa após trabalhar para a madame o dia todo, e que Josival não mexe uma palha. Ela fala que levou 3 horas num ônibus lotado para chegar em casa, fala algo da vida, fala, fala. Josival não ouve muito, principalmente nos dias das famigeradas dobras obrigatórias. Ouvir picuinha depois de 15 horas pilotando o coletivo é dose! Nos outros dias ele faz umas caras e bocas, dá um aceno, diz que ta vendo o jogo ou a reportagem e vai levando até ela reclamar que o marido não fica em casa. Nessa hora é só falar uma bobagem que vai ter chamego. Com as crianças a historia é outra, ele nunca as vê. Na verdade vê sim, mas nunca em pé. É uma olhada na horizontal pela manhã (que a maioria chama de madrugada) e uma à noite. Ele as conhece mais pelas despesas do que pelos nomes “Escola, caderno, roupa. As duas tem o mesmo nome!” - pensa ele. Vez ou outra o Motorista fica sem grana e bate um desespero. Mas ele é malandro e não cai na mesma que um monte de trouxas. “Precisando de dinheiro?” - é o que diz no anúncio. “Tá maluco! Entrou nessa aí uma vez, tu nunca mais sai” - diz o motorista. Daí, quando fica apertado, a solução é parar de tomar a cerveja, desligar o chuveiro e fazer mais umas dobras.

Antigamente ainda dava pra tirar algum na folga, vendendo uma cerveja na praia ou alguma quinquilharia no centro, mas depois de umas duas “lições”, o Motorista prefere ficar na dele. Na primeira ele só perdeu uma grana quando levaram a mercadoria. Na segunda, além de grana e mercadoria, ainda levou umas porradas. Não tava valendo a pena. Josival preferia a época em que ainda tinha com quem conversar durante o dia, mas resolveram botar ele num carro sem trocador. O trabalho piorou! Agora tem que tomar mais cuidado pra manobrar o ônibus, dar troco e discutir com passageiro que só faz reclamar de tudo. “Porra, tô trabalhando, caralho! Passageiro acha que eu atraso de sacanagem. Se o ônibus lota, os de dentro reclamam que não cabe mais gente! Se eu não paro no ponto, os de fora ligam pra empresa e eu ainda levo esporro! Então que se foda! Vou mais é fazer o meu mesmo”. É isso todos os dias e quando chegar em casa ainda tem mais dona encrenca pra aturar e conta pra pagar. “E ainda vem um de vez em quando me chamar pra reunião de sindicato. Ah, tô fora!”.


“Um grito contra o estupro” | Por Elisa Riemer


internacional

Fotos: Rafael Daguerre

Pela paz na Colômbia Fórum pela paz na Colômbia reuniu cerca de mil pessoas de diversas entidades latino-americanas e europeias em Porto Alegre

Por Marina Praça Faz quase dois anos que estive na Colômbia. Depois de três meses na Venezuela, entrei no país pela fronteira do litoral-norte, numa travessia obscura e estranha, com muitos guardas e controle. Vi o mundo da revolução bolivariana ir se transformando na desigualdade social da região super turística do litoral colombiano, nas cidades de Santa Marta e Cartagena. Locais em que a divisão entre ricos e pobres era escancarada e o turismo ostensivo. De lá segui o caminho até a cidade-modelo de Medellín, que inspirou o Rio de Janeiro nas transformações mercantilizadoras que vem ocorrendo nas favelas: teleféricos e unidades de polícias pacificadoras. Em Bogotá, vi uma capital com ares europeus, mas controlada e vigiada como as velhas ditaduras latino-americanas.

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Vírus Planetário / fazendo media - junho 2013

Durante a viagem, tentei diversas vezes contatos com organizações e movimentos sociais para conhecer melhor a conjuntura política do país. Em praticamente todos os casos me respondiam que a situação era muita delicada, que diversos militantes já haviam sido ameaçados de morte e negavam o encontro porque não poderiam garantir minha segurança. Durante a década de 80, os primeiros diálogos de paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo abriram um caminho institucional para diversos movimentos de esquerda que começaram a disputar eleições pelo recém-criado partido político União Patriótica. Nos anos que se seguiram, entre três e cinco mil militantes do partido foram assassinados por

militares e paramilitares colombianos (dos quais dois candidatos presidenciais, oito congressistas, cerca de oitocentos prefeitos, vereadores e deputados, além de milhares de ativistas locais e militantes de base). O genocídio político deixou sua marca. O forte controle social e militarização do país vem sendo a resposta dos últimos governos colombianos para instaurar a ordem. O resultado é uma presença policial ostensiva, o debate político reprimido e os movimentos sociais criminalizados. No período em que estive na Colômbia, pude sentir um pouco do que é ser colombiano em resistência, ser colombiano indignado com a realidade violenta, injusta e desumana em que vivem. De muitas vozes ouvi da guerra cotidiana, das violações de


direitos humanos, da criminalização de qualquer tipo de protesto, organização e luta. O país é o terceiro mais desigual do mundo e os serviços básicos como saúde e da educação são privatizados.

O genocídio político deixou sua marca: forte controle social e militarização”

A Marcha Patriótica Saí da Colômbia triste, indignada e desacreditada com a situação do povo colombiano, nosso irmão. Sentia a necessidade de tornar essa realidade pública, que tinha o dever a partir daquele momento de ser parte da difusão e da ação política para transformação dessa realidade que é nossa também, enquanto nação latinoamericana. Saí de lá com esse compromisso na bagagem. Mais de um ano depois, de volta ao Rio de Janeiro, no fim de 2012, tive a feliz oportunidade de ir numa das primeiras atividades da “Marcha Patriótica da Colômbia – Capítulo Brasil” (Movimentos Social e Político que luta pela segunda e defini-

tiva independência da Colômbia). Lá conheci a proposta desse amplo movimento que agrega mais de 1500 organizações colombianas e sua luta pela paz a partir de um debate de justiça social e da pátria grande da América Latina. Desde então, enquanto militante do Levante Popular da JuventudeRJ, estive acompanhando a trajetória da Marcha no Rio de Janeiro, onde jovens colombianos que vivem e estudam na cidade trazem o debate da Colômbia e sua realidade social para as organizações e os movimentos brasileiros. No início de 2013, a proposta da construção de um fórum pela paz na Colômbia organizado no Brasil começou a se consolidar. Esse Fórum surge com a proposta de ser um fato político de solidariedade e participação latino-americana no contexto dos Diálogo de paz na Colômbia. No final de 2012 iniciou-se a 3ª mesa de Diálogo entre o governo colombiano e as FARC-EP em Havana, em Cuba. Essas mesas de diálogo estão em pauta desde a década de 80 no país, mas nenhuma

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internacional

Foto: Rafael Daguerre

delas conseguiu gerar um verdadeiro avanço democrático. O massacre dos militantes da União Patriótica marcou os anos que se seguiram a primeira mesa na década de 80. Em 2000, o diálogo aconteceu num momento conjuntural que deu espaço para o início do Plano Colômbia dos Estados Unidos, com a implementação ao longo dos anos de sete bases militares norte-americanas no país e um amplo aparato tecnológico militar. Mais uma vez não houve avanço entre o governo e as Farc. Nos últimos dois anos, a Marcha Patriótica se expandiu rapidamente para se tornar uma das principais forças políticas em movimento pela paz no país e uma das maiores articulações de movimentos sociais atualmente na América Latina. O movimento vem impulsionando os diálogos pela paz no contexto de justiça social, democracia e soberania popular.

Um fórum pela paz Chego dessa forma, ao final de maio de 2013 em Porto Alegre no Fórum pela Paz na Colômbia! Feliz por ver esse debate que tanto me indignou sendo realizado por mais de mil pessoas entre representantes do Brasil, da Argentina, da Colômbia, do Uruguai, do Paraguai, de Cuba, México, País Basco, Guatemala, Panamá, Venezuela e Chile. Composto por diversas organizações, movimentos sociais e parlamentares dos países citados a cima. Durante quatro dias, debatemos sobre a Paz na Colômbia a partir da ótica da justiça social nos campos da educação, terra e território, recursos naturais, direitos humanos, mulheres, militarização, dentre outras. Vivenciamos a unidade de nossos povos latinos através da música de Daniel Vigletti e Pedro Munhoz dois “cancioneiros” típicos de nossas culturas, que emocionaram a todos ao construir a trilha sonora dos traços, linguagens e costumes que ali estavam presentes. 24

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Aprofundamos a discussão sobre a soberania indígena, camponesa e afrodescendente em resistência ao avanço das fronteiras agrícolas, dos interesses das oligarquias narcotraficantes e das empreiteiras transnacionais petroleiras e mineradoras, além de, avançarmos no debate da militarização do continente, do cuidado que temos que ter em relação ao momento frágil que vive a República Bolivariana da Venezuela. Ouvi também Piedad Córdoba, senadora colombiana e porta-voz da Marcha Patriótica, falar das perseguições sofridas por ela e dos avanços de nossa caminhada apesar de todas tentativas de sabotagem do processo de luta por lá vivido. O Fórum apontou diretrizes e construímos documentos que darão força ao processo de paz no país. Todos saímos felizes pelo compromisso firmado de estar desde agora e até quando for necessário em fórum pela paz na Colômbia.


polĂ­tica

Sob controle do Estado Estatuto do nascituro representa o avanço do conservadorismo no país contra os direitos das mulheres

Arte: Elisa Riemer


política

Por Ana Chagas e Bruna Barlach Já pensou se de repente o seu corpo não pertencesse mais a você? Já pensou se, além de não ser mais seu, você ainda tivesse que prestar contas de seu corpo ao Estado? E se ao sofrer um trauma profundo como o estupro, de repente, lhe obrigassem a viver outro trauma e fosse sua obrigação conviver com esses traumas para o resto de sua vida? Pois seja bem-vinda à nova realidade que estará estabelecida a partir da aprovação do Estatuto do Nascituro. Essas perguntas soltas no ar podem assustar, mas é exatamente isso de que se trata toda a comoção surgida em torno da aprovação do Estatuto do Nascituro na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara Federal, ocorrida no dia 5 de junho. Para que se torne lei, falta que seja aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara. O Estatuto do Nascituro (PL 478/2007) é um projeto de lei que segundo seus autores tem o objetivo de assegurar os direitos do nascituro. Até hoje existe grande polêmica no meio jurídico em relação ao conceito de vida humana e de qual momento podemos considerar o embrião como vida. O Conselho Federal de Medicina defende que a vida humana se origina a partir da 12ª semana, tendo em vista que é neste período onde inicia-se a atividade cerebral. Mesmo assim, o projeto de lei tipifica o Nascituro como óvulo fecundado, mesmo aquele que tenha sido produzido in vitro, sendo transferido para o útero ou não. O que está por trás disso? De acordo com Laíze Gabriela Benevides, bacharel em direito e colaboradora do Instituto de Defensores dos Direitos Humanos, este projeto visa encerrar o debate sobre o aborto, estabelecendo um marco jurídico para a

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Foto: facebook.com/marchadasvadiasguarulhos


Ilustração: André Dahmer / www.malvados.com.br

definição de vida, que é o maior direito do ordenamento jurídico. Desta forma é ataque direito aos direitos da mulher e à luta dos movimentos sociais.

O Projeto de Lei Em sua primeira versão, apresentada em 2007 pelos deputados Luiz Bassuma (PT/BA) e Miguel Martini (PHS/MG), o estatuto não conseguiu aprovação, muito em função do excesso de absurdos colocados no projeto de lei. No entanto, quando pensávamos que esta discussão estava morta e enterrada, surge uma nova versão que entrou novamente em votação. Thaís Campolina, militante feminista e colaboradora do blog Ativismo de Sofá, comenta preocupada, que mesmo essa segunda versão é cheia de dispositivos controversos entre si que tentam diminuir a autonomia da mulher e colocam-na como uma mera incubadora. O projeto de lei do Estatuto do Nascituro determina como nascituro todo óvulo fecundado e concede a ele prioridade de preocupação e cuidados por conta do Estado. Significa então, que um óvulo fecundado, in vitro ou no útero, ser inanimado ainda sem vida, passa a ter seu direito à vida e à saúde. Antes mesmo de estar vivo. Proíbe-se assim, pesquisas de células tronco, ou qualquer tipo de pesquisa que envolva células embrionárias, descarte de óvulos

Com o estatuto, toda s as mulheres gestantes passam a ser tuteladas pelo Estado”

fecundados no processo de fertilização e gestação in vitro, aborto em casos de estupro, aborto em casos de riscos à vida da gestante, aborto de fetos anencéfalos e, pasmem, o aborto espontâneo. Thaís nos explica que “a versão original é um retrocesso enorme porque coloca o aborto como crime hediondo, veda todas as formas de aborto já legalizadas no Brasil e dificulta até mesmo o aborto nos casos de risco de vida da mãe. Além disso, coloca o aborto espontâneo como objeto de investigação e a mulher numa situação de completa inferioridade em relação ao embrião. A versão substitutiva, apesar de não ser tão absurda, ainda coloca o embrião numa posição jurídica até mesmo superior a da mulher e também continua vedando o aborto nos casos de fetos anencéfalos e colocando o estuprador como um “pai”, o que claramente é ofensivo à dignidade da mulher que foi vítima do estupro e engravidou.” O aborto espontâneo é muito comum, ocorre com cerca de ¼ dos caos de gravidez e muitos nos últimos meses de gestação. De acordo com o estatuto a ex-gestante poderá ser indiciada nesses casos para que seja averiguado se o aborto foi realmente espontâneo. Aquelas que causarem sem querer, por descuido ou desconhecimento, um aborto, poderão sofrer sanção penal. O Estatuto do nascituro ainda prevê punição não somente às mulheres que abortarem, sem querer ou por querer, mas também a todos que declararem apoio à descriminalização do aborto, apoiarem uma mulher que queira abortar ou tenha abortado, derem suporte ao aborto, etc. Sejam movimentos sociais, veículos de comunicação (como a Vírus) ou mesmo pessoas físicas que defendem a descriminalização do aborto.

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política

tomamos banho ou nos coçamos, já que nestas ações removemos células humanas também.

de o Conselho Federal Em março de 2013, a defesa do aborto até Medicina aprovou a ação” 12ª semana de gest

Para além da questão do aborto todas as mulheres ao estarem gestantes passam a ser tuteladas pelo Estado. Com a aprovação desta lei elas não terão autonomia para escolher como irão viver a sua gravidez, qual alimentação deverão ter ou como devem fazer o seu parto, já que qualquer gestante que não siga à risca as prescrições feitas pelo seu médico poderá responder processo. Um outro lado deste aspecto da lei é que os médicos serão desresponsabilizados por qualquer problema que ocorra durante a gravidez ou no parto, sendo a gestante a única responsável.

Descriminalização do Aborto Em março de 2013, o Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou a defesa do aborto até a 12ª semana de gestação. Esse parecer tem relação com o conceito mais aceito e difundido no meio científico de vida humana, que se iniciaria a partir do início da atividade cerebral. Hoje em dia é sabido que qualquer célula humana tem a potencialidade de gerar a vida através de procedimentos de clonagem. Defender que o óvulo fecundado é vida e que o aborto é assassinato é tão coerente como dizer que estamos cometendo um assassinato quando

Os movimentos sociais tem lutando ao longo de décadas visando a defesa dos direitos humanos, especificamente do direito da mulher de ter autonomia sobre o seu corpo. Mais do que isso, descriminalizar o aborto é também garantir o direito à saúde plena, já que milhões de mulheres em todo o mundo realizam abortos de forma clandestina, o que leva à morte, infertilidade e uma série de complicações. O que está em jogo neste debate não é ser contra ou a favor do aborto e sim ser contra o a favor de que essas mulheres que já abortam e sempre abortaram em todas as culturas e em toda a história da humanidade, possam ter condições dignas de realizar os seus abortos.

Estupro No caso de estupro, o Estatuto do Nascituro ainda prevê que, sendo reconhecido o estuprador, que seja direito do nascituro que conste em sua certidão de nascimento o nome de seu genitor, estuprador de sua mãe, e pagamento da pensão ao nascituro por parte do es-

Marcha das vadias em São Paulo em maio deste ano. | Foto: facebook.com/MarchaDasVadiasSP

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Vamos todxs dizer não ao estatuto do nascituro e sim ao direito verdadeiro e pleno do exercício da vida das mulheres. Não podemos deixar que o Estatuto do Nascituro seja aprovado! Participe do ato contra este projeto de lei em sua cidade, veja a lista completa em: www.machismochatodecadadia.tumblr.com

tuprador. Caso o agressor não seja identificado, a mãe do nascituro receberá uma “Bolsa Estupro” para que a mulher violentada e obrigada a carregar o fruto de seu estupro na barriga possa sustentar este filho, o que demonstra uma total falta de preocupação com a saúde física e mental da mulher, ao simplificar a complexidade e o sofrimento que é a violência do estupro em uma questão puramente financeira. Sabemos bem que nada serve de contra-partida a uma mulher que é violentada duas vezes, uma pelo estuprador e outra pelo Estado, por ser obrigada a seguir com uma gravidez. Imagine-se sendo estuprada. Imagine-se agora, com tamanha humilhação, ter que carregar um filho na barriga. Imagine se essa pessoa fosse uma menina que acabou de menstruar, e tivesse que ir à escola grávida de seu estuprador, se expor não só por ter sido estuprada, mas por ser uma menina tão nova e já grávida. Imagine agora as consequências para o futuro desta menina e da criança por vir. Nesses termos fica claro que o Estatuto do Nascituro, aprova a tortura psicológica por parte do Estado.

Vamos dizer não! Vivemos em uma sociedade onde a cultura do estupro é parte cotidiana de nossas vidas. Em função disso, toda e qualquer mulher e

Este projeto de lei representa uma avanço do conservadorismo na política.”

menina é uma potencial vítima de estupro. Se levarmos isso em conta poderemos o risco e a grandiosidade do estrago por vir se este Estatuto for aprovado. Essa aberração simboliza um retrocesso abissal a uma cultura que coisifica a mulher, que hora a vê como objeto de satisfação sexual masculina e hora a vê como uma incubadora andante. Em nenhum momento a mulher é vista como sujeito de direitos plenos e cada mínima conquista atingida sempre está a um passo de ser solapada por pessoas que acreditam que podem impor seu pensamento, sua religião e seus valores morais, colocando-os a cima dos direitos humanos. Pela internet vemos uma grande comoção de militantes feministas e militantes dos direitos humanos contra a aprovação do PL. Thaís, que está entre estas militantes, comenta que é preciso ter cuidado, já que “ambas as redações da PL são ofensivas aos direitos das mulheres e devem ser combatidas, porque ainda que a versão substitutiva seja “mais light” que a original, ainda contem restrições aos nossos direi-

tos e podem ser um obstáculo na busca pela legalização do aborto.” Dentro da disputa política que vivemos na sociedade contemporânea, este projeto de lei representa uma avanço do conservadorismo na política. De acordo com Laíze, “em todos os aspectos este estatuto representa um retrocesso em relação aos direitos humanos e se considerarmos o direito ao corpo como um direito humano fundamental (direito à dignidade, autodeterminação, integridade), podemos dizer que ele é anticonstitucional por apresentar um retrocesso nos direitos humanos, o que é vedado por tratados e convenções internacionais.” Nesta mesma perspectiva, Thaís comenta que “esse projeto de lei representa o poder crescente da bancada religiosa em nosso país e deixa claro como o Estado laico ainda é um sonho.” Thaís ainda nos atenta para o fato de que ambas as versões ainda podem ser votadas, o que é muito preocupante. Não só para as mulheres, mas para a sociedade como um todo, tendo em vista a grande quantidade de retrocessos que ele representa.

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comportamento

Ilustração: Sam

Todos os corpos Doses homeopáticas de aceitação pessoal

Por Jéssica Ipólito No meu quarto tem um espelho gigante, que pega quase a parede inteira. Ele fica de frente para minha cama. Nos dias que o mau humor me ataca, eu fico desejando internamente, que por um descuido das forças negativas-cósmicas do universo, ele se quebre sozinho. Olha só, quebrou! Que peninha… Mas nunca acontece. Ele continua lá. Todo dia quando acordo, vejo minha imagem refletida. Meu cabelo bagunçado, minhas olheiras, a cara amassada pelo travesseiro… Essa cara de quem queria continuar dormindo, mas tem que trabalhar. Quando me mudei para esse quarto, comentei com uma amiga que esse espelho me perturbava. E ela me respondeu: “Que delícia!

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Aproveita! Se olha de todos os ângulos, faz acontecer seus momentos íntimos refletidos. Isso é tão bonito” Não era bem isso que eu queria ter ouvido na hora... Fiquei esperando mais um endosso de reprovação pelo espelho, mas depois entendi. A verdade é que tenho conseguido olhar mais pra mim mesma diante dele e refletir sobre aquela imagem que aparecia. Eu não me sinto linda todos os dias, mas eu me sinto bem com meu corpo. Acho isso importante: me olhar e não sentir repulsa; não me sentir culpada pela minha forma; me olhar no espelho e me entender fisicamente, não evitar a minha imagem. Eu não fiz nada de errado, porque diabos tenho que ter raiva do meu corpo?

Nem sempre foi assim. Passei minha adolescência inteira evitando espelhos grandes, fotos que me pegassem de corpo inteiro, falar do meu peso, subir em balanças perto de pessoas (des)conhecidas nem pensar, ir comprar roupas com as minhas amigas, então… Não acontecia. Era bem complicado porque eu não tive ninguém para falar que “tudo bem, você é gorda e é linda assim, relaxa aí, não há nada de errado”. Quem me conhecia pela internet, só conhecia meu rosto, que era alterado pelo Photoshop. Não é à toa que fui muito boa nesse programinha. Eu conseguia tirar e colocar tudo que eu quisesse, e de quebra, ainda fazia uns retoques quando


minhas amigas pediam nas fotos. Era super legal, só que não. Por trás dessa alteração facial, eu escondia um descontentamento com a minha aparência. Escondia meu rosto com muita maquiagem e Photoshop, porque ao natural, eu não seria aceita. E eu queria essa aceitação, poxa vida. Mas, naquela época, pra me conhecer mesmo, tinha que ser só pessoalmente. E ainda era complicado… Eu me modificava tanto ao ponto das pessoas não me reconhecerem à primeira vista. E eu acreditava que ninguém reparava nesses detalhes.

Em doses homeopáticas No entanto, minha aceitação pessoal foi acontecendo aos poucos. Já contei que tenho 21 anos? Saí da bolha maciça, fui ejetada para o mundo real tem pouco tempo. Me descobri lésbica e ne-

Eu não fiz nada de errado, po rque diabos tenho que ter raiva do meu cor po?

gra (eu não me entendia como negra, mas como aquela “moreninha”, sabe?), me aceitei gorda por ter começado a admirar meu corpo... Tudo de uma vez só… Foi uma avalanche! Minha ex-companheira teve uma parcela de culpa muito grande nisso tudo. Porque ela conseguia me ver bonita enquanto gorda, mas eu não… Aí tive umas crises estranhas até entender o que se passava comigo: 1º Porque: eu não achava que ela ficaria muito tempo comigo porque sou gorda. Ela ainda não percebeu, mas logo ela vai perceber que sou gorda e ela vai terminar comigo! Conclusão: Ela passou dois anos do meu lado. Transando e me amando, ok. 2º Porque: eu achava que por ser gorda, absolutamente ninguém na face dessa bendita Terra iria querer ficar comigo (afetiva e sexualmente falando). E bom, não foi isso que aconteceu. Eu só precisei prestar atenção no que acontecia ao meu redor. Eu não percebia quando mulheres me paqueravam, porque né… Sou gorda, logo não atraio ninguém. Pura balela, acredite. Foi tudo uma questão de me atentar, e eu continuo fazendo isso… Mas é porque me acostumei tanto com essa de “ninguém me olha” que tenho que me policiar e prestar atenção.

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comportamento

Ilustração: André Dahmer / www.malvados.com.br

é, natural é Natural é o seu corpo como ele bem” procurar coisas que te fazem

Se você não olhar ao seu redor, realmente… Fica complicado de perceber as coisas. Porque uma vez que seu estado de espírito esteja equilibrado e de mãos dadas com o seu corpo, tudo transparece e quem tá do lado percebe uma energia boa. E hoje eu tenho a real noção do quanto é diferente me aproximar de mulher estando de bem comigo mesmo, e de como era antes, quando eu odiava meu corpo.

Um passo de cada vez Já tem mais ou menos uns 2 anos que não manipulo meu rosto nas fotos e não uso o exagero de maquiagem que usava antes. E tem também quase 2 anos que eu acredito quando as pessoas comentam: Que linda! Porque sou eu de verdade, crua. Nenhuma alteração. O que as pessoas enxergam sou eu mesma e ponto final. Isso faz dar um upgrade na autoestima. Isso faz uma diferença, porque quando eu comecei a me achar linda e a gostar de mim de verdade, isso fez surgir um efeito dominó atingindo todo mundo que me conhecia. Ainda tenho problemas com a minha mãe, que não gosta de mim assim “tão gorda”. Vive falando de dietas xis, de médicos milagrosos. Já falou comigo sobre a cirurgia bariátrica, até me levou numa especialista que fazia essa intervenção cirúrgica. Mas aí, quando a médica disse o valor, minha mãe desistiu e não tocou mais no assunto. Era um preço exorbitante pelo meu estômago, gente! Não quero vender pra ninguém… Nasceu inteiro comigo e vou morrer com ele assim. Ele tá no lugar que deveria estar. Além do mais tirar um pedaço do meu corpo a fim de vender uma possível solução para todos os meus problemas é um tanto quanto ridículo e desonesto. Porque é isso que te vendem quando você procura uma cirurgia para reduzir peso. São depositadas todas as esperanças de mudança da sua vinda INTEIRA na retirada de metade de um órgão importantíssimo para o seu corpo. E eu lamento muito, mas não é isso que acontece depois da cirurgia, não é um 32

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passe de mágicas e muita gente entra num processo depressivo pós-cirúrgico. Algo que ajudou muito: achar lojas que vendiam roupas legais, sem aquela de blusas de estampa-estranha e calças folgadas-horríveis, que eu nunca fui fã. Lojas com roupas bacanas, com roupas coloridas e modernas; não uma loja de roupas para velórios. Aí fui me sentindo melhor... Eu tinha roupas legais! Tinha a fonte delas, aliás. Não ter roupas legais me deixava presa em casa por muitas vezes. Mas, atualmente, facilita muito saber onde comprar as roupas e é muito bom poder indicar uma loja pra uma amiga aflita com as mesmas questões que eu já tive um dia. O mais interessante disso tudo é que todos os dias, eu tenho que lembrar a mim mesma porque não optei por alguma medida mais drástica para diminuir meu peso. Por todos os lados me vem mensagens de emagrecimento, uma enxurrada delas! Me parece algo automático que é reproduzido em todo canto por onde eu passo, insistentemente, como numa perseguição. Seja no ônibus que eu pego pra ir ao trabalho, onde a catraca é minúscula e eu tenho pavor de ficar entalada naquilo A cada ônibus diferente parece que a catraca diminui. Eu já sei a cor dos ônibus aqui em SP que tem as catracas ótimas, e procuro sempre


“ pegar os mesmos. E não, eu não me sinto escrava disso. Eu precisei achar medidas que me contemplassem, já que todo o resto não faria isso por mim. E também tirei aquela besteira de que é ruim ficar sentadinha na parte da frente do ônibus. Não cabe? Não dá mesmo? Então relaxa, senta na frente que é até mais confortável. No cursinho pré-vestibular onde eu estudei, a cadeira era horrível para umx gordx. Ficava metade da minha bunda pra fora e o apoio de caderno fica justo ao meu corpo. É um porre isso. Não se preocupam se o seu tamanho for diferente, quem tem que se esforçar e caber naquele espaço é você. Se vira! Já temos cadeiras para canhotos, para gordxs não! Você pode emagrecer, afinal, é tão fácil quanto um canhoto se tornar destro. No boteco da esquina, que tem aquelas cadeiras de plástico onde não me cabe confortavelmente, espreme minha bunda e me deixa insegura só contando os minutos até a queda fatídica. Os acentos em geral foram feitos para aquelas pessoas que não tem a bunda grande. Essas coisas, no dia a dia, me dão um baita desânimo. É como olhar ao redor e saber que nada foi feito para que você se sinta bem, e nisso, fica girando ao seu redor uma camada grossa de obrigatoriedade para se modificar e ficar como é o esperado.

Mas aí, eu lembro o porquê continuo gorda Eu gosto do meu corpo. Sou toda gostosa de apertar! Pra me abraçar você tem que usar seu corpo todo, e isso é tão bom (adoro abraços). E meus seios são ótimos pra en-

Todos os dias tenho que lembrar a mim mesma porque não optei por uma medid a drástica para dimin uir meu peso”

costar a cabeça. E eu não vou mudar por conta desses obstáculos pra ficar como a sociedade quer. Mas vem cá, e o que eu quero? Foda-se, eu não tenho querer? Eu compreendo muito bem as questões de saúde, mas aqui e agora, não se trata de saúde. Porque doença eu não tenho. Porque preciso realmente viver infeliz por conta do meu peso? Porque eu preciso viver buscando me enquadrar numa norma física/estética que é imposta e nem se quer se preocupa com a minha satisfação íntima? Todxs nós, gordxs ou não, precisamos nos preocupar com a saúde, fazer exames, nos cuidar. Mas acreditem dá pra cuidar da saúde sem precisar caber numa calça 36. Dá pra se sentir bem, ter a saúde ótima, mas não pesar 48kg. Dá perfeitamente para começar uma revolução e parar de odiar o seu corpo. Eu só quero que a balança não pese o quanto você deve ter de autoestima ou o quanto você pode se amar ou se sentir bem hoje. Eu quero, de verdade, mais mulheres lutando pela autonomia do seu corpo, de saber que pode comer o que quiser (sem depressão depois) que isso não vai fazer delas menos bonitas.

Vigilância constante Ainda precisamos permanecer em constante estado de alerta, de atenção para identificarmos qual a motivação de fazer uma dieta. É realmente porque meu corpo, internamente, precisa disso? Ou diminuir na comida para que meu corpo se encaixe no padrão de beleza imposto pela mídia?

E o que é natural? Os veículos midiáticos humilham nossos corpos todos os dias com essa misoginia televisionada e impressa. Infelizmente, me parece que todas nós nascemos com um alvo desenhado na testa porque somos mulheres. Mas acontece que a magreza excessiva não é o natural. Natural é o seu corpo como ele é, natural é procurar por coisas que te fazem bem e não que te fazem emagrecer obrigatoriamente. Natural é não querer seu corpo mutilado por procedimentos estéticos desnecessários, pelo uso de remédios inibidores de apetite. Isso promove uma gradativa destruição corporal em cada mulher. Ainda é preciso questionar, sempre. Todos os dias, diante do espelho ou longe dele. É lógico que é difícil passar por tudo isso, ninguém nunca me disse que seria fácil e eu não vou dizer isso a você, que se manteve firme até o final desse texto. Não é fácil não, mas não é impossível. Não temos muita coisa ao nosso favor, mas a sua vontade, o seu bem-estar, a sua satisfação, a sua autoestima precisam permanecer em primeiro lugar, no topo da lista de prioridades na sua vida. E se ainda houver vestígios de insegurança, lembre-se todos os dias dos seus porquês, que são só seus e muito íntimos. E não interessa a ninguém. Só você. Sua felicidade e prazer.

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Foto: Artur Romeu

O Favela Não se Cala prioriza muito o trabalho nas bases e essa construção junto às massas”

Entrevista INclusiva:

André de Souza A Favela não se cala André Luiz Abreu de Souza tem 38 anos, todos vividos na Favela da Babilônia, localizada no Leme, bairro nobre do Rio de Janeiro. Ele tem sido um dos protagonistas do Movimento Favela Não se Cala que realiza encontros em comunidades para debater temas como remoções de moradores e os abusos das Unidades de Polícia Pacificadora. André defende o fim das UPPs e a maior união entre as favelas do Rio de Janeiro para fazer frente ao modelo de desenvolvimento adotado pelo atual governo. Com um discurso afiado, ele aponta caminhos que valorizam o trabalho de base, a formação política a longo prazo e a relação mais estreita entre movimentos sociais, academia e as massas.

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Quando me apresentaram ao Marx e ao Lênin eu falei: caralho!”

Por Artur Romeu Você fez faculdade? Não. Nem terminei o ensino médio.

Você trabalha com o que? Varia. Já trabalhei como office boy, vigilante, guardião de piscina e outros bicos. Agora estou desempregado o que vem sendo bastante dificultoso. Mas se eu retornar ao trabalho, eu vou perder mobilidade pra fazer o trabalho que faço com os movimentos sociais. Nós perdemos diversos companheiros por causa do trabalho. Não é porque o cara é um companheiro ruim ou porque se vendeu. É porque realmente é dificultoso.

Como você se aproximou dos debates da esquerda e se envolveu com movimentos sociais? Eu fui pastor evangélico. É bom anotar isso aí. Todo mundo fica bastante surpreso quando eu conto. Eu tava acostumado a pregar pra 400 pessoas por dia, fui pastor da Igreja Universal. Então isso facilita a questão da oratória. E essa questão do discurso revolucionário, eu acho que eu nasci assim. Eu sempre contestei muito as coisas só que não sabia canalizar. Então quando me apresentaram o Marx e o Lênin, po, aí eu falei: “caralho!”

Quem te apresentou? Foi por acaso. Um amigo que me deu um livro do Lênin, aquele “Que fazer”. Eu falei “caralho, é isso! É isso que eu falo, é isso que eu almejo, é isso que eu anseio.” Eu só não sabia como canalizar. Eu me considero

marxista e passei a centralizar a luta por esse caminho.

Como é que você conciliava isso com a tua prática de pastor evangélico? Eu fiquei pouco tempo como pastor. Mesmo já não fazendo parte do sistema, continuo com um dos trabalhos que tinha numa penitenciária. Eu tento usar a Bíblia para falar da injustiça do Estado Burguês para as detentas. É bem confuso, mas tenho conseguido.

Como é isso? É uma pena que os pastores não ensinam ou praticam aquilo que Jesus ensinou, quando ele falava pra repartir, pra dividir, do desprendimento dos bens materiais. Che Guevara já dizia, “o que move um revolucionário é o amor”. No meu caso, o amor que se deu através do conhecimento de Marx e de Lênin. É estranho falar isso, mas ler esses caras me gerou esse sentimento. Foi essa a metamorfose que sofri. Hoje, quando eu vou nas favelas e tento fazer com que luta se unifique, quando eu tento mostrar pro favelado que o tapa que o cara leva lá na [Favela da] Providência eu tenho que sentir aqui, na favela da Zona Sul, é do amor que estou falando. Por isso o Favela Não se Cala prioriza muito o trabalho nas bases e essa construção junto às massas. Coisa que a esquerda no Brasil tem extrema dificuldade.

O que é o Movimento Favela Não

Se Cala? Há cerca de um ano, eu, o Alexandre Mendes (Defensor Público), junto com a Maria da Paz (da Pastoral das Favelas) e o Maurício Campos (da Rede Contra Violência) sentamos na Babilônia e idealizamos juntos esse movimento. Já fizemos reuniões com moradores no Chapéu Mangueira, no Santa Marta, no Pavão, na Rocinha, no Horto e na Providência. A próxima será na Indiana e depois em Manguinhos. Tentamos mostrar para o morador que, o que o Cantagalo vivencia, é o que a Babilônia vivencia, é o que o Jacaré vivencia, é o que Manguinhos vivencia. Daí a necessidade da unificação entre as favelas.

O que é discutido nas reuniões do Favela Não Se Cala? O que nós discutimos é esse projeto de modelo de cidade que está sendo apresentado, onde as favelas não têm mais condições de continuar existindo. Abordamos muito o tema da remoção branca. A UPP é um dos projetos do estado burguês com maior eficácia. A UPP entra e na cola entram as grandes empresas. A burguesia e a classe média se beneficiam com a militarização desses espaços e a falsa expulsão do tráfico. Os caras continuam vendendo drogas, você só tira o poderio bélico para argumentar um status de segurança, só. A burguesia começa a subir o morro e começa a mudar a cara da favela e a roupagem dos moradores que ali residem. Começa a regularizar, mas não com políticas sociais.

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eNTREVISTA iNcLUSIVA_André de Souza

no ônibus lotado. É difícil mobilizar. O morador tem uma visão imediatista. Ele quer que o problema se resolva. Nós tentamos fazer as duas coisas, um trabalho de base e formação política de médio longo prazo, mas também acompanhado de ações práticas. Precisamos ter um olhar mais visionário, quase futurista, sabendo que é um processo lento.

A revolução só vai se dar com a parte teórica e a prática”

Você regulariza a questão da luz, da água, de IPTU. No final, o Estado não precisa nem subir com o trator, ele expulsa moradores que vivem nessas regiões há décadas com a chegada de uma suposta legalidade. Não tem mais espaço no solo urbano pra construção e o projeto agora é desocupar as favelas, é a única saída que o capital tem.

A ideia é garantir uma legislação diferenciada pra permanência da população que já vive nas favelas? Justamente. Temos uma legislação que já oferece algumas garantias e que coloca a favela como espaço de interesse social. Mas o problema do Brasil não são leis. Quando conversei com a Maria Lúcia, Defensora Pública, ela disse que o problema do Brasil é que o Estado Burguês cria as leis mas quando é do interesse do capital, esse mesmo Estado burla essas mesmas leis que criou.

Como funciona esse trabalho de conscientização nas reuniões que vocês fazem nas favelas? Pra mim, a revolução só vai se dar com a parte teórica e a prática. Só que os movimentos hoje estão muito focados na praticidade. Tudo quer fazer manifestação, mesmo que não tenha um quórum. Você só vai ter gente numa manifestação se você fizer o trabalho de base, a parte teórica. Por exemplo, nós fechamos com o 13 de Maio (Núcleo de Educação Popular) pra implementar o curso “Como Funciona a Sociedade I e II” em várias favelas. Ao mesmo tempo, estamos abrindo uma ação coletiva com diversas comunidades contra a empresa Light, que está cobrando preços abusivos e desrespeitando os acordos de tarifas sociais, pra criar um ato político. Mas o que mais nos interessa é o trabalho de base, de formação política com as pessoas. E isso nós temos conseguido fazer.

Qual é a recepção dos moradores? Pensa um morador da favela que já tem poucas condições financeiras e trabalha 8, 10 horas por dia. Vem quase morrendo asfixiado no metro ou

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Queria que você desenvolvesse mais a crítica que você falava sobre a forma de atuar da esquerda? Ontem mesmo, fui na reunião do “Grito dos Excluídos” (manifestação anual dos movimentos sociais no dia 7 de setembro), mas não vi os excluídos participando da elaboração do evento. Parece que é um grito pelos excluídos e não dos excluídos. Acho que é isso que temos que mudar. O favelado quer falar, é só você propiciar um espaço e mudar um pouquinho a roupagem da linguagem. E tem também aquela coisa dos acadêmicos. Infelizmente são os senhores da razão. A ciência exata, o conhecimento acadêmico, científico parece ser o único conhecimento que presta. Qualquer outro tipo de conhecimento não é viável. Isso cria um distanciamento. Pra ter funcionalidade tem que chegar na favela e dizer: “estou aqui pra construir junto”. Não é pra dar a linha do movimento. São duas realidades diferentes. O cara não pode falar de favela com todas as suas verdades se nunca dormiu um dia na favela. O cara não pode falar de UPP se nunca sofreu uma agressão policial. Eu acho que se a esquerda volta a pensar em construir com o proletariado, com a classe trabalhadora, a gente trilha um caminho que pode ter êxito.

Qual é a diferença de construir junto, como você disse, e a forma que vem sendo feito por parte de movimentos sociais e ONGs nas favelas? O primeiro momento é a aproximação. Uma das grandes dificulda-


André em debate | Foto: facebook pessoal

des da esquerda é estar dentro das favelas. Se aproximar com essa consciência, de não querer dar a linha ao movimento. Chegar pra entender o contexto, pra entender a situação que aqueles moradores vivenciam e deixar claro a partir do esforço desse entendimento, que quer construir junto. É uma parceria. Estamos lado a lado, não é você na minha frente, nem eu na sua frente. É caminhar junto. Aí funciona, mas não tem sido assim e a esquerda tem uma extrema dificuldade de aceitar isso. Eu faço essa crítica, e às vezes as pessoas não gostam, mas é porque eu quero que o processo dê certo.

E em relação aos partidos? A esquerda que nós temos é essa aí, PSOL, PCB, essa é a esquerda partidária que nos restou. O PT já foi. O PT é o poder pelo poder. Faz qualquer tipo de aliança. Tem uns camaradas que falam assim: “André, vamos construir por dentro, vamos ocupar aquele espaço”. Eles esquecem de dizer que a estrutura do Estado é burguesa, e o Estado burguês traba-

lha pela manutenção do capitalismo. Você não vai destruir o capitalismo de dentro de um Estado burguês. E eu falo porque até hoje sou filiado ao PT, estou me desfiliando, mas estou no PT há 10 anos. Foi nos feita uma promessa que não foi cumprida. O PT deu continuidade às práticas neoliberais, os banqueiros nunca ganharam tanto. Em contrapartida, numa ação imediatista, criou algumas coisas como o Bolsa Família. O problema é que com o tempo essas políticas sociais criam um curral eleitoral e um controle social que não transforma e nem muda a sociedade. É isso que se tornou o PT, um partido que vem prestando um desserviço à esquerda. Cooptando movimentos, sindicatos e engessando a esquerda desse país com essa falsa abertura democrática. Eu não to aqui pra discutir mais direitos nem abertura, eu to aqui pra colocar o rompimento com o Estado burguês e que a gente venha construir junto das bases. Organizar a população pra destruir o capitalismo e construirmos uma sociedade justa.

Qual é a dificuldade que os partidos de esquerda atualmente tem para se aproximar da população? Primeiro construir com as bases, respeitando as bases. O partido não tem que dar a linha para movimento. O PSOL, que é filho do PT, está indo pelo mesmo caminho. Já está cooptando sindicato. Uma coisa é você construir junto. Outra coisa é cooptar o movimento e passar a dar a linha. Eu sou crítico a isso. Os partidos que hoje se dizem revolucionários têm o discurso da reforma. O Brasil não precisa de reforma, precisa de revolução. Infelizmente o discurso é muito subjetivo, por mais direitos, direitos humanos. Eu sei que a revolução é no longo prazo, mas as nossas ações e nosso posicionamento têm que ser revolucionários já. Não dá pra costurar a revolução por dentro desse Estado. Esse Estado não serve, é a própria expressão da manutenção do capitalismo. Enquanto houver capitalismo, vai haver desigualdade. É socialismo ou barbárie.

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traço livre

Por Andrício de Souza Veja mais em: www.andriciodesouza.com

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Por Aroeira | Créditos: Aroeira - jornal O Dia

Por Andrício de Souza Veja mais em: www.andriciodesouza.com

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Educação Estadual

anos

na luta!

Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro

Profissionais da educaç ão de São Gonçalo, que entraram em greve em maio realizam ato na pre feitura

Redes municipais em luta por reajuste e direitos Diversas redes municipais do estado do Rio de Janeiro estão em campanha salarial e a mobilização dos profissionais fez com que várias redes entrassem em greve para arrancar dos governos o atendimento às suas reivindicações. Veja um quadro das paralisações em diversos municípios do estado.

Vassouras

Educadores de Vassouras acampado s em frente à Câmara de Vereadores

A rede municipal de Vassouras entrou em greve no dia 6 de maio. Até o momento, a prefeitura não atendeu à pauta de reivindicações, além de tentar dividir a categoria, ao conceder reajuste apenas para o magistério. O índice de adesão, segundo o Sepe Vassouras, é de 90%. Desde o dia 03/06, os profissionais de educação se encontram acampados na frente da Câmara Municipal.

Itatiaia

A rede municipal de Itatiaia entrou em estado de greve no dia 6 de maio. A categoria exige a abertura de negociações com o prefeito Luiz Carlos Ferreira Bastos que, há quase dois anos não recebe o funcionalismo para negociar.

Valença

Os profissionais das escolas municipais de Valença entraram em greve no dia 29 de maio. A categoria reivindica reajuste salarial de 15%, aumento na gratificação para as diretoras das escolas e creches municipais, insalubridade para o pessoal das creches e o cumprimento do PCCS em vigor e do Estatuto do Funcionalismo municipal.

São Gonçalo

Em Assembleia da rede municipal de SG, realizada no dia 05/06, a categoria decidiu por dar continuidade a greve iniciada em 4 de maio. Na segunda-feira, dia 10/06 houve uma passeata, onde os profissionais da educação municipal, vestidos com camisas pretas, protestaram contra os baixos salários da educação e a falta de condições de trabalho nas escolas municipais.

Assembleia em Valença

Paulo de Frontin

No dia 28 de maio, os profissionais da educação municipal de Paulo de Frontin aprovaram por unanimidade a entrada em greve. A categoria, que já esteve paralisada em abril deste ano, reivindica o cumprimento da Lei Municipal nº 1.077/2012 que instituiu o PCCS, eleição para diretor de escola e concessão, por parte do poder executivo, do desconto sindical em folha dos sindicalizados ao Sepe.

Mesquita

A rede municipal de Mesquita realizou no dia 21 de maio uma paralisação de 24 horas. Neste dia, a categoria realizou assembleia e decidiu entrar em greve a partir do dia 11 de junho. Além do reajuste de 14%, a rede municipal exige incorporação do abono mensal e a abertura de discussão sobre questões como a terceirização da merenda na rede.

Belford Roxo

No último dia 06, os profissionais de educação da Rede Municipal de educação de Belford Roxo decidiram em assembleia por uma nova paralisação de 48 horas, a ser realizada nos dias 12 e 13 de junho – a rede está em estado de greve. Até o momento, o governo não apresentou o calendário de obras relativo à melhoria da infraestrutura das escolas. Os profissionais também reivindicam o valor de 10 % de gratificação incorporada (o governo ofereceu 6,49%) e o pagamento das duplas jornadas.

www.seperj.org.br


Edição 24 Vírus Planetário completa  

Edição 24 (junho 2013) da revista Vírus Planetário completa

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