Edição 30

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Não-Monogamia - Reconstruir o conceito de família para libertar a sociedade das opressões

VÍRUS Porque neutro nem sabonete, nem a Suíça

R$5 edição nº 30 fevereiro 2014

PLANETÁRIO

#SomosTodosGuarani-Kaiowá

RESISTÊNCIA INDÍGENA Até quando a sociedade brasileira verá o extermínio dos povos indígenas sem fazer nada?

ISSN 2236-7969

R$ 5,00

MEDIA FAZENDO

nº30

Com conteúdo do


Gestão Mobilização Docente e Trabalho de Base

www.aduff.org.br

Em defesa do projeto dos movimentos sociais para o petróleo, com monopólio estatal, Petrobrás 100% pública e investimento em energias limpas.

organização:

Vamos barrar os leilões do petróleo! Notícias da campanha:

www.sindipetro.org.br

www.apn.org.br | www.tvpetroleira.tv


traรงo livre Por Tiago Silva | Veja mais em: www.facebook.com/quadrinhosimpossiveis

Por Carlos D Medeiros | Veja mais em: www.facebook.com/Fucalivro

Por Ricardo Tokumoto | Veja mais em: www.ryotiras.com


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contato@virusplanetario.net Queremos sua participação!

Afinal, o que é a Vírus Planetário? Muitos não entendem o que é a Vírus Planetário, principalmente o nome. Então, fazemos essa explicação maçante, mas necessária para os virgens de Vírus Planetário: Jornalismo pela diferença, não pela desigualdade. Esse é nosso lema. Em nosso primeiro editorial, anunciamos nosso estilo; usar primeira pessoa do singular, assumir nossa parcialidade, afinal “Neutro nem sabonete, nem a Suíça.” Somos, sim, parciais, com orgulho de darmos visibilidade a pessoas excluídas, de batalharmos contra as mais diversas formas de opressão. Rimos de nossa própria desgraça e sempre que possível gozamos com a cara de alguns algozes do povo. O bom humor é necessário para enfrentarmos com alegria as mais árduas batalhas do cotidiano.

O homem é o vírus do homem e do planeta. Daí, vem o nome da revista, que faz a provocação de que mesmo a humanidade destruindo a Terra e sua própria espécie, acreditamos que com mobilização social, uma sociedade em que haja felicidade para todos e todas é possível.

Recentemente, unificamos os esforços com o jornal alternativo Fazendo Media (www.fazendomedia.com) e nos tornamos um único coletivo e uma única publicação impressa. Seguimos, assim, mais fortes na luta pela democratização da comunicação para a construção de um jornalismo pela diferença, contra a desigualdade.

EXPEDIENTE: Rio de Janeiro: Alexandre Kubrusly, Ana Chagas, André Camilo, Artur Romeu, Bruna Barlach, Bruno Costa, Caio Amorim, Camille Perrisé, Catherine Lira, Chico Motta, Débora Nunes, Eduardo Sá, Joyce Abbade, Julia Campos, Julia Maria Ferreira, Livia Valle, Marcelo Araújo, Mariana Gomes, Mariana Moraes, Matheus Lara, Miguel Tiriba, Raquel Junia e Seiji Nomura | São Paulo: Ana Carolina Gomes, Duna Rodríguez, Gustavo Morais, Hamilton Octávio de Souza, Jamille Nunes, Jéssica Ipólito e Luka Franca | Brasília: Alina Freitas, Edemilson Paraná, Luana Luizy, Mariane Sanches e Thiago Vilela | Minas Gerais: Ana Malaco, Laura Ralola e Paulo Dias | Ceará: Iorran Aquino, Joana Vidal, Livino Neto, Lucas Moreira e Rodrigo Santaella | Piauí: Nadja Carvalho, André Café, Sarah Fontenelle, Mariana Duarte e Diego Barbosa | Bahia: Mariana Ferreira | Paraíba: Mariana Sales | Mato Grosso do Sul: Marina Duarte, Tainá Jara, Jones Mário, Fernanda Palheta, Eva Cruz e Juliane Garcez Diagramação: Caio Amorim | Foto capa: Crianças indígenas na área de retomada da Aldeia Água Bonita na periferia de Campo Grande (MS) | Foto por: Lucas Moreira Victor

Conselho Editorial: Adriana Facina, Amanda Gurgel, Ana Enne, André Guimarães, Claudia Santiago, Dênis de Moraes, Eduardo Sá, Gizele Martins, Gustavo Barreto, Henrique Carneiro, João Roberto Pinto, João Tancredo, Larissa Dahmer, Leon Diniz, MC Leonardo, Marcelo Yuka, Marcos Alvito, Mauro Iasi, Michael Löwy, Miguel Baldez, Orlando Zaccone, Oswaldo Munteal, Paulo Passarinho, Repper Fiell, Sandra Quintela, Tarcisio Carvalho, Virginia Fontes, Vito Gianotti e Diretoria de Imprensa do Sindicato Estadual dos Profissionais de Edução do Rio de Janeiro (SEPE-RJ)

Siga-nos: twitter.com/virusplanetario Curta nossa página! facebook.com/virusplanetario Anuncie na Vírus: contato@virusplanetario.net #Impressão:

www.virusplanetario.com.br COMUNICAÇÃO E EDITORA A Revista Vírus Planetário - ISSN 2236-7969 é uma publicação da Malungo Comunicação e Editora com sede no Rio de Janeiro. Telefone: 3164-3716


Editorial Construir um veículo contra-hegemônico como a revista Vírus Planetário não é fácil. É preciso um grande investimento de vontade e de trabalho militante de profissionais que sabem que não é possível transformar a sociedade sem travar uma disputa séria no campo da comunicação. E é por isso que hoje contamos com uma equipe de 82 pessoas, presentes em 11 estados construindo este projeto. No entanto, não adianta todo este trabalho se não pudermos contar com a ajuda de todos que acreditam nesse projeto: nossos leitores, apoiadores, parceiros de luta, sindicatos e outras entidades que estejam convencidas da importância da Vírus Planetário. Isso porque para existir na nossa sociedade capitalista, infelizmente, precisamos de dinheiro. Dinheiro para manter a revista funcionando e para conseguir atingir nossas metas de crescimento. Para que a Vírus chegue mais longe e consiga cada vez mais cumprir seu objetivo de mostrar que outra forma de fazer jornalismo é possível para todos os cantos do país. Por isso, nesta edição de fevereiro chamamos a todxs para virem construir conosco a ponte para vencer este desafio através da campanha de apoio a revista, disponível neste endereço eletrônico: www.apoie.virusplanetario.net Cientes do nosso desafio e completando neste mês 30 edições da revista, trazemos à tona debates fundamentais para engrenar o ano de 2014, um ano que promete ser de muita luta nas ruas e de grandes discussões sobre os rumos da sociedade. Acompanhamos a caravana pela demarcação das terras indígenas e trouxemos desde lá a importância de nos somarmos a luta dos povos originários, que historicamente têm sofrido com as mazelas da colonização e do capitalismo. Ainda sobre a perseguição e opressão, a situação dos presídios é tema de reportagem e bandeira de luta do movimento de Direitos Humanos. Em tempo de justiçamentos e posicionamentos punitivistas, a nossa luta é pela libertação da humanidade. Libertação da humanidade que passa por rever a quem serve nosso modelo de relacionamento e como o capitalismo está intrincado em nossas vidas e em nossas relações transformando a forma com que nos relacionamos em relações de posse e utilizando o amor, a carência e toda a cultura por trás destes temas para nos deixar dia a dia mais infelizes, automatizados e alienados. Que a sua jornada pela nossa trigésima edição seja boa e, não se esqueça: a Vírus Planetário não existe sem você.

Sumário 6

Hamilton Octávio de Souza_ Criminalizar o povo é camuflar a realidade

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Sociedade_A quem serve a monogamia?

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Presídios_O círculo vicioso da violência

18 Sórdidos Detalhes 19 Bula Cultural_indicações e contraindicações

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Bula Cultural_O punk não morreu?

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SomosTodosGuarani-Kaiowá_O povo indígena resiste

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Entrevista Inclusiva_Lídia Rodrigues

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Fazendo Media_Babões da mídia querem o sangue do povo

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O Sensacional Reporter Sensacionalista


HAMILTON

OCTÁVIO DE SOUZA Hamilton é jornalista e professor na Pontifícia Univerdade Católica de São Paulo (PUC-SP) e membro da equipe da Revista Vírus Planetário

Criminalizar o povo É camuflar a realidade Grupos dominantes – empresários, banqueiros, oligarquias, mídia e novos partidos da ordem – apostam na repressão para conter a insatisfação popular e a rebeldia de diferentes segmentos sociais.

A incipiente democracia brasileira está em crise. Pode ser por esgotamento da atual representação política, o modelo econômico-social que não contempla a todos ou pela existência de governos alienados, hipócritas ou simplesmente distanciados da realidade do povo. O fato é que o neoliberalismo, mesmo na sua versão desenvolvimentista, não dá mais conta de atender as demandas mais urgentes da maioria da sociedade. O descontentamento se alastra na mesma proporção em que o descaso com os bens e serviços públicos é denunciado nas ruas. O sinal da crise é evidente: cada vez mais o Estado precisa usar a força para garantir o funcionamento de coisas banais, como o transporte coletivo, o passeio no shopping e o treino de um time de futebol. De um lado, os poderosos e as autoridades de plantão, com as suas respectivas bases de sustentação pendendo para a direita, certamente a grande mídia, preferem apontar a existência de “vândalos” em tudo que se move na sociedade, tratam de criminalizá-los rapidamente para ganhar a opinião pública, em vez de enfrentar os problemas e buscar as soluções. Nessa toada, todos os dias o país perde em liberdade de ex6

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pressão e democracia e ganha em autoritarismo. Em nome da “paz social”, o Estado, para proteger os interesses de uma minoria privilegiada, usa cada vez mais a força para sufocar os que não suportam tamanha humilhação e crescente discriminação.

Esses governos estão cada vez mais na dependência da força, viciados na opção pela truculência. Não tem mais a palavra para oferecer”

Os governos, nos vários níveis, não mais se sustentam pela política. Precisam das tropas de choque da PM e das guardas nacional e municipal para impedir a ação dos que reclamam, reivindicam, protestam ou simplesmente querem circular livremente nos espaços reservados aos que podem consumir. Esses governos revelam a face do pânico diante da manifestação do povo. Temem ser des-

tronados, mesmo quando o alvo é apenas uma pequena e simples exigência por maior eficiência num serviço público fundamental. Esses governos estão cada vez mais na dependência da força, viciados na opção pela truculência, não conseguem mais convencer por meio de diálogo racional, civilizado e confiável. Não têm mais a palavra para oferecer. O uso de aparato policial e judicial – para reprimir e indiciar – tem sido sistematicamente usado para conter protestos das mais variadas motivações, desde o leilão do pré-sal, no Rio de Janeiro, até os treinos dos times do futebol, em São Paulo. As tropas de choque pagas com dinheiro público são chamadas para tudo: garantir a segurança de eventos privados, de centros comerciais privados, de autoridades e personalidades, de delegações esportivas nacionais e estrangeiras, dos transportes coletivos, dos bancos, das escolas, dos banhistas nas praias, torcedores nos estádios, plateias nos shows, parentes nas portas dos presídios, etc. E nunca se viu tanto “vandalismo” no Brasil como o que tem pipocado nos últimos nove meses, com todo tipo de protagonismo. É de se perguntar o que aconteceu como aquele povo ordeiro, hospi-


Montagem da página “Movimento Pró-corrupção” www.facebook.com/ProCorrupcao ironiza a única solução apresentada pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin

taleiro, pacífico, cordial e amante do carnaval e do futebol, cantado em prosa e verso na música e na literatura? Não dá para chamar todo o povo de “vândalo”, como tem feito sistematicamente os veículos de comunicação. Mas é isso que tem acontecido: “vândalos” são os jovens que fazem rolezinhos nos shoppings; “vândalos” são os amigos e familiares do trabalhador assassinado pela PM na periferia; “vândalos” são os tor-

cedores dos vários times que brigam nas arquibancadas e que cobram o mínimo de dignidade aos bem remunerados jogadores de futebol; “vândalos” são os usuários de ônibus, de metrô e de trens de subúrbios que fazem quebra-quebra toda vez que o péssimo serviço dos transportes fica pior ainda; enfim, “vândalos” são todos aqueles que questionam a realização de uma Copa do Mundo de Futebol regada com dinheiro público quando as prioridades da Nação são outras completamente diferentes.

Cada dia mais ridículo O discurso hipócrita dos grupos dominantes – diante das mais variadas manifestações do descontentamento popular – beira sempre ao ridículo, tal qual o do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ao afirmar que o quebra-quebra no metrô

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Hamilton Octávio de Souza fonte: www.facebook.com/foralckmin

A criminalização tem sido uma estratégia ideológica dos grupos dominantes”

paulistano, dia 4 de fevereiro, foi algo “orquestrado” – depois que milhares de passageiros ficaram presos nos túneis, por mais de hora, no escuro, sem ar-condicionado, com temperatura superior a 40º C, e sem qualquer informação sobre os defeitos do sistema. Mais ainda: milhares de passageiros foram “tocados” para fora das estações sem receber o dinheiro de volta pelo serviço não prestado, e ficaram sem alternativa de transporte para ir e vir do trabalho para casa. Numa situação terrível como essa, degradante em qualquer lugar do mundo, o foco das declarações oficiais e da mídia não ficou na péssima qualidade do serviço público, mas no “vandalismo” do povo. Situações como essa estão se repetindo pelo Brasil afora, nas ruas, nos bairros, nas periferias, nas favelas, nos morros, nas prisões, aglutinando cada vez mais pessoas que até então estavam engolindo em silêncio o enorme desrespeito que tomou conta de tudo aquilo que se tem contato na vida em sociedade: os apagões nos transportes e na energia elétrica diante de preços extorsivos; as filas nos hospitais diante dos milhões pagos de juros; a queda da qualidade do ensino público diante da sórdida exploração privada da educação. O gozado disso tudo é que a mesma mídia que torce pela guerra civil na Síria e para a derrubada do governo da Ucrânia pelo povo (lá são manifestantes e não “vândalos”), aqui vive a apontar as mais básicas reivindicações populares como sendo uma grave ameaça à ordem social. A criminalização tem sido uma estratégia ideológica dos grupos dominantes na medida em que sinalizam para o conjunto da so-

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fonte: página “Ocupa Alckmin” no facebook

ciedade (especialmente para os setores conservadores da classe média) que o manifestante é uma coisa, exerce um direito democrático, mas o “vandalo” é outra coisa; é o manifestante que não acata a ordem ditada pelo aparato repressivo. Da mesma forma, o passageiro do metrô, do ônibus e do trem de subúrbio é uma coisa – o cidadão silencioso, submisso, obediente – e, outra coisa é o “vândalo”, aquele que quebra o trem quando o trem quebra e deixa todo mundo pelo caminho. O torcedor é o cara que vai ao campo de futebol para aplaudir, não importa o fracasso do seu time, o alto preço dos ingressos, o péssimo espetáculo, enquanto o “vândalo”, que é diferente do “torcedor comum”, é aquele que cobra desempenho, protesta, gosta de futebol, mas não cai no engodo de uma Copa do Mundo “ufanizada” pela Rede Globo. O consumidor é uma coisa – o jovem que vai ao shopping para comprar ou só olhar as vitrines –, que é muito diferente do “vândalo” que vai ao shopping fazer um rolezinho com a meninada do bairro. Essa criminalização vai ao infinito, está sendo aplicada como rótulo generalizado para diferentes segmentos sociais, e só tem como objetivo esmagar todo tipo de comportamento que incomoda a ordem ditada pela “paz social” de um sistema que


favorece a minoria, promove brutal concentração da renda e da riqueza, protege privilégios. Ter posição contrária à Copa do Mundo é enfrentar, atualmente, todo o aparato de sustentação de um evento privado – da FIFA – sob o patrocínio do Estado, das corporações e da grande mídia. O que se espera, do brasileiro, na visão dos grupos dominantes, é que ele se comporte igual a gado, que aceite ser tocado e que caminhe de cabeça baixa para o matadouro sem a menor resistência. Só está faltando mesmo relançar aquele adesivo que fez sucesso por ocasião da Copa de 1970, no governo Médici, no qual ao lado de uma bandeira do Brasil estava a seguinte inscrição: “AME-O OU DEIXE-O”. Será que não passa pela cabeça dos poderosos que todo mundo

Os grupos dominantes esperam que o brasileiro se comporte igual a gado,”

que é cidadão, trabalhador, manifestante, passageiro, torcedor, consumidor, pode também ser um “vândalo” em potencial? Não passa pela cabeça das autoridades que a realidade brasileira cria e alimenta “vândalos” todos os dias? E que ser “vândalo”, nesse momento, pode ser apenas uma reação direta aos descalabros que temos de enfrentar todos os dias? E que ser “vândalo” é também uma perspectiva de mudança diante do cinis-

mo que tomou conta do cenário político? O que aconteceria, por exemplo, se todos os “vândalos” (assim nomeados pelos grupos dominantes de direita) se tornassem revolucionários? Está claro que a criminalização generalizada das pessoas que participam das manifestações populares é uma maneira safada de desviar a atenção das questões principais, é querer camuflar e esconder os verdadeiros problemas da realidade.

Foto original: Passarinho (Prefeitura de Olinda) Inspirado na página “Mas aí já é vandalismo” - https://www.facebook.com/MasJaEVandalismo

Preparem a cadeia que o Carnaval 2014 vem aí!

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sociedade

Ilustração: Pedro Lucena

A quem serve

a monogamia? Como braço forte do patriarcado, a monogamia aprisiona a vida e a sexualidade das mulheres sob a máscara da carência e promessas vindas do mito do amor romântico

Por Bruna Barlach, Jamille Nunes e Jéssica Ipólito “E quando vocês vão casar?” Qualquer casal que tenha um relacionamento estável e longo, já ouviu essa pergunta de amigos e familiares, que soa quase como uma cobrança. Antes de ser uma prova de amor, o casamento é tido como uma forma natural de legitimação do relacionamento, dando a ele o status de “sério”. O casamento é um dos pilares de sustentação da nossa organização social . Ele 10

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se sustenta no bojo de diferentes regimes políticos, religiões diversas e transcende modos de produção. No entanto, pouco questionamos a sua origem e status, porque temos a ideia de que o casamento é algo inerente à humanidade e que existe desde o início dos tempos. É preciso assinar um contrato (documento) que atesta essa instituição, o casamento, e o relaciona a uma fidelidade obrigatória e à monogamia que historicamente, na prática, só é imposta às mulheres, já que nossa estrutura social permite que os homens “pulem a cerca” o que é visto como algo natural e até mesmo incentivado. De acordo com o professor, Rafael G. N. Machado, militante e adepto do poliamor (uma das correntes de pensamento não-monogâmico), a monogamia é uma instituição que está a serviço da propriedade privada e da herança na nossa civilização, e ela está a serviço do patriarcado principalmente. Até porque ela nunca foi pros dois lados, ainda que fosse para ambos, ela tem em si uma lógica competitiva. Por esse motivo a monogamia está diretamente relacionada com outro pilar da sociedade em que vivemos: o machismo, que oprime as mulheres e as coloca numa condição de subalternidade. Nessa realidade, as mulheres dependem do casamento para ser feliz, do marido para ser completa e até mesmo para sobreviver, colocando homens e mulheres em diferentes patamares, dividindo-os em cidadãos de direitos plenos – os homens – e cidadãos de segunda classe, que dependem do outro para legitimar sua existência – as mulheres.

A monogamia é uma estrutura baseada na carência e que tem como objetivo a organização da herança”

acordo com Friedrich Engels, em seu livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, a constituição da família monogâmica foi necessária para acumulação privada de bens ao longo do processo de construção histórica do capitalismo. Por intermédio da união monogâmica, a organização familiar foi determinada para garantir e dar continuidade da propriedade privada sempre na mesma linhagem. O surgimento do casamento monogâmico não foi fruto do amor ou de um sentimento natural, mas ao contrário, foi fruto de uma construção social que surgiu da necessidade de assegurar a certeza da paternidade e, assim, o destino da herança. Infelizmente nada nessa história tem relação com o amor… Conforme cita Maria Fernanda Salaberry – assessora de imprensa-, uma das fundadoras em Porto Alegre da Rede Relações Livres (RLi) – coletivo não-monogâmico, “a monogamia é uma estrutura baseada na carência, de extrema opressão da sexualidade e que tem como objetivo principal a organização da herança patriarcal. Nada tem em comum a monogamia com o Amor e o Prazer.”

A invenção do amor romântico Casamento e família O casamento é uma instituição histórica e cultural que, desde seus primórdios exerce funções de garantia de direitos de propriedade e o controle sexual da mulher. De

A partir de Shakespeare e sua peça “Romeu e Julieta”, cujo romance burguês apresenta a introdução do amor romântico ao casamento, o afeto passa a ser inserido como fator. A monogamia passa a ser,

também, uma estrutura baseada na carência. Aprendemos a partir daí que precisamos encontrar nossa cara-metade e que uma vez encontrada nossa “alma gêmea”, nada mais interessa. Intensifica-se também a opressão da sexualidade feminina, acentuada principalmente pela Revolução Industrial (e a instauração do modo de produção capitalista), com o objetivo de diminuir a natalidade abundante dos períodos históricos anteriores. Uma vez ensinadas a terem apenas um parceiro sexual, as mulheres devem se dedicar a eles e cuidarem de suas crianças. Ao homem, cabe a tarefa de sustentar a casa. Há estudos que apontam que desde as primeiras civilizações, a moral masculina estava ligada ao comportamento da esposa, apontando e condenando o adultério feminino sem pesar. Segundo Simone de Beauvoir, a condenação e exclusão das mulheres nas atividades de guerras, foi a mais pesada, já que as expedições guerreiras continham um cunho social arraigado, ao passo que, a maternidade não. Enquanto aos homens estava reservada a convivência coletiva, a guerra e a política, as mulheres ficaram resignadas ao espaço privado, sendo impedidas de desenvolver quaisquer atividades coletivas. Enquanto os homens, dotados de todo espaço público e privado, tinham garantido trabalho, produção, vivência boêmia; a nós mu-

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sociedade

lheres, foi reservado – tão reservado que a escapatória ainda é difícil – o ambiente doméstico, a família, os cuidados, o zelo e a submissão compulsória. Assim temos estabelecidas as desigualdades entre homens e mulheres quando são concedidos valores desiguais para as ações sociais diferentes.

Ciúme é natural? Uma das perguntas que pessoas nãomonogâmicas estão acostumadas a ouvir é em relação ao ciúme. Assim como o casamento, o ciúme é entendido como algo natural, e até estimulado por ser demonstração de “prova de amor”.

A porto-alegrense também elucida sobre o surgimento do ciúme; que apenas com o amor na monogamia, tornou-se frágil a estabilidade da relação, uma vez que acabado o amor, teoricamente, o relacionamento deveria acabar. Como poderia a humanidade apoiar toda a sua estrutura de reprodução em algo tão solúvel? A partir deste questionamento, nos damos conta de que houve a necessidade de gerenciar ferramentas que garantissem a permanência das relações monogâmicas. Nesse sentido, o casamento indissolúvel religioso, o incentivo a carência e ao abandono das relações de amizade anteriores ao casamento e, obviamente, o ciúme foram e são essenciais para que a monogamia se mantenha como padrão de relação. O ciúme nada mais é do que o transplante do sentimento infantil de perda, que é incentivando pela cultura do amor romântico. O medo da perda do outro sujeito, que parece ser fundamental para sua existência. Quando racionalmente você se dá conta de que sua vida não depende do outro sujeito para existir e de que o fato de seu parceiro se envolver com outras pessoas não faz com que ele obrigatoriamente vá embora e te despreze, o ciúme deixa de servir para a sua realidade.

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Ilustração: Pedro Lucena

“Reestruturar as relações e a vida baseado na multiplicidade afetivo/sexual, que diminui drasticamente o impacto da carência, é vital para termos uma vida mais feliz.”, nos ressalta a integrante da Rede Rli de Porto Alegre, Maria Fernanda.


Ninguém é de ninguém Talvez o conceito mais difícil de desconstruir quando questionamos a monogamia em nossa sociedade é a posse. Vivemos dentro de uma realidade cultural, social e política que nos diz que a única forma de nos relacionarmos com algo é ter posse sobre aquilo. Dessa forma possuímos pessoas, objetos, alimentos, animais, roupas, imóveis e tudo o que estiver ao nosso alcance. Todos nossos sonhos e anseios se relacionam com a posse. Mas, será que é preciso ser assim? “O sentimento de posse que sentimos em relação às pessoas está diretamente relacionado com a competição, com a necessidade de possuir o que há de melhor para ser melhor que os outros. E não importa se estamos falando de coisas ou de pessoas. Uma sociedade que se baseia na monogamia é um regime naturalmente competitivo” – de acordo com o carioca Rafael, adepto do Poliamor.. “Se você só pode ter um, você tem que ter o melhor. Logo, as pessoas tem que competir entre si pra ter um parceiro que seja o parceiro almejado por mais uma pessoa ao mesmo tempo. E, naturalmente, se você encontra alguém que por algum motivo se sobrepõe aquele primeiro você tem que superar ele e fica sempre a paranoia de ficar superando os outros.” - complementa o militante.

A luta contra a monogamia é uma luta pela liberdade, por uma sociedade coletiva”

Essa necessidade de posse, juntamente com a competição permanente, nos coloca numa situação de conflito eterno com o mundo. Esse conflito é eminentemente nocivo, já que ajuda a nos dividir e enfraquecer o potencial da coletividade e das construções coletivas. Se eu vejo no outro meu inimigo natural e estou na busca para possuir mais e melhor que ele, como vamos juntos lutar pela transformação social? Como vamos combater a realidade social que nos oprime, que nos explora e nos subjuga quando vemos a todos como inimigos.

E na base da revolução, os relacionamentos humanos É por isso que afirmamos: não há transformação social sem uma transformação na base dos relacionamentos humanos. Não podemos buscar construir outra sociedade, uma sociedade diferente, uma sociedade que supere o capitalismo se não destruirmos seus elementos fundamentais e a monogamia, a família como instituição da burguesia, a posse como base para os rela-

Ilustração: Tiago Silva - www.facebook.com/quadrinhosimpossiveis

cionamentos e todas as opressões que atravessam essas questões precisam ser cotidianamente combatidas. A luta contra a monogamia não se trata de impor que todxs tenham relacionamentos múltiplos, e nem apenas de uma luta de indivíduos buscando o direito de ter diversos relacionamentos. A luta contra a monogamia é uma luta pela liberdade, por uma sociedade coletiva onde os relacionamentos não estejam subordinados à posse e onde todas as pessoas possam expressar sua afetividade, desejo, sexualidade e amor livremente. É lutar cotidianamente pelo fim do machismo, da transfobia, lesbofobia, homofobia, racismo, capacitismo, gordofobia e tantas outras opressões que não só nos dividem, mas nos subordinam a uma realidade onde a carência, a sobrevivência e os nossos sentimentos são escravos de um sistema que está contra nós. A luta contra a monogamia é, acima de tudo, uma luta revolucionária.


direitos humanos

O Círculo vicioso da

violência

A terrível realidade das prisões brasileiras é reflexo de uma sociedade punitivista

Por André Café e Nadja Carvalho Já há muito tempo soava o alerta de que a realidade nos presídios estava insustentável. Os últimos acontecimentos trouxeram à tona este grito que já não pode ser ignorado pela sociedade e, principalmente, pelo Estado. O caos prisional do país vitimiza a cada dia mais e mais pessoas, tolhidas da vida em uma sociedade realmente justa e em harmonia. O caso da penitenciária de Pedrinhas, em São Luís - Maranhão horroriza, mas faz parte de um cotidiano, da forma como punimos e encaminhamos pessoas para um labor destrutivo. Dados do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) de 2012 apontam que a população carcerária brasileira já é de 548 mil, sendo quase 200 mil presos provisórios. Mesmo com meio milhão de brasileiros nas penitenciárias brasileiras, ainda existe um deficit de vagas de 194.650. Em 2013, o Brasil gastou cerca de 4,2 bilhões de reais em segurança pública. Nos três primeiros anos de governo de Dilma, o gasto acumulado chega a impressionantes

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foto: www.conectas.org

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direitos humanos

humanos As graves violações de direitos (Maranhão) que ocorreram em Pedrinhas não são um acidente”

10,5 bilhões. Esse imenso investimento é a confissão de culpa de um Estado omisso, onde a única política pública que atinge a juventude preta e pobre das periferias brasileiras é o choque de ordem da chamada segurança pública. Em meio ao caos que se instalou na cidade de São Luís em janeiro, quando uma onda de violência se espalhou pela cidade, causando a morte de uma criança após o incêndio de um ônibus coletivo, a Governadora do Maranhão Roseana Sarney deu a infeliz declaração “O Maranhão está atraindo empresas e investimentos. Um dos problemas que está piorando a segurança é que o Estado está mais rico, o que aumenta o número de habitantes”. Infelizmente, a dura realidade nos mostra o contrário. Apesar do crescimento populacional, o Maranhão segue na lista dos estados mais pobres, tendo o pior PIB per capita do País. Não a toa, o Coletivo de Advogados em Direitos Humanos pediu o impeachment da governadora, pelas graves violações de direitos humanos ocorridas no complexo penitenciário de Pedrinhas. Em

O atual modelo prisional é orquestrado pelo capitalismo e suas mazelas

entrevista ao “Blog do Sakamoto”, a advogada Eloísa Machado, presidente do coletivo declarou: “As graves violações de direitos humanos que ocorreram em Pedrinhas não são um acidente, um acontecimento imprevisível. Os episódios de grave violência já haviam sido constatados, em 2011, pelo Conselho Nacional de Justiça, que avisou a governadora que as coisas precisavam mudar com urgência.” No estado vizinho, o Piauí, a realidade das penitenciárias não é muito distante. Jorge André Paulino, jovem advogado piauiense relembra momentos de caos dentro da Casa de Custódia, centro de detenção com capacidade para 324 presos, mas que abriga mais de 760. Durante a pesquisa para a monografia, durante o ano de 2010, Jorge André teve acesso ao cotidiano de atendimento judiciário do estabelecimento prisional. A quase totalidade dos encarcerados vinha das periferias de Teresina ou de cidades do interior e ao serem interpelados sobre emprego, inventavam ocupações como servente de pedreiro ou agricultor. Jorge relata o que viu e ouviu: “Eles almoçavam e jantavam comida com insetos dentro. As celas eram molhadas de madrugada, punindo os que dormiam no chão. Os varais de roupas eram arrancados das grades. Alguns apanhavam. Foi o relato que tive. Muitos encarcerados, embora abatidos, não denunciavam nada.” Em uma das visitas, viu um preso sendo lavado com mangueira d´água no pátio da prisão, com a cabeça jorrando sangue. A situação lá dentro era muito grave, mas velada. Hoje, com mais distanciamento, não culpabiliza apenas os agentes penitenciários, submetidos também a um regime de trabalho massacrante – embora não lhes tire a culpa pela tortura – seja pelo ato em si, ou pela conivência com a prática.

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À esquerda, “banheiro” sem condições de uso no meio de uma das celas da 4ª Delegacia Metropolitana de Aracaju(SE); presos são obrigados a fazer necessidades fisiológicas na frente dos demais companheiros de cela | Foto: Luiz Silveira/ Agência CNJ Logo abaixo, cela com capacidade para 36 presos abriga 281 detentos quase todos provisórios, em Vila Velha, na Grande Vitória (ES) | Foto: Wilson Dias/Abr

As notícias recentes sobre sistema carcerário, tanto no Piauí – rebeliões, suicídio de um ex-diretor do sistema prisional – como em outros estados - Pedrinhas no Maranhão – apontam que a situação só piorou. Resignado, reivindica a reflexão do sociólogo polonês Zygmunt Bauman: as prisões são criadas para ser um depósito de lixo humano, que o restante da sociedade, os ditos “cidadãos de bem” (como se a cidadania fosse medida apenas na distinção entre quem comete um crime ou não) não querem nem saber se funciona bem ou mal; querem apenas estar afastados dos indivíduos “perigosos”. Ainda sobre a questão, de modo geral, o jovem advogado assinala “o encarceramento, principalmente da população negra, pobre de periferia

representa a falência do Estado que, por não querer assumir que não vai oferecer condições dignas para todos, esconde nas prisões aqueles para os quais nunca proporcionou nem vai proporcionar boa saúde, educação, moradia, emprego. E, o que é pior, incute na mentalidade e no cotidiano de todas nós (também exploradas, por outras formas) a ideia de que é muito certo esse encarceramento, que é muito certo segregar a sociedade entre cidadãos de bem e criminosos” Para ele, não existem respostas ou soluções para essa situação; o que observa são pessoas com discurso pretensamente humanitário, mas que na verdade querem apenas fazer “bonito” diante da sociedade. E o que é pior, em órgãos que supostamente deveriam atuar em defesa dos Direitos Humanos. As que tentam fazer um trabalho realmente comprometido ou abandonam a questão ou não conseguem lidar com aquela dura realidade sem perder a sanidade física e psicológica. Presídio central de Porto Alegre, onde 4.650 encarcerados vivem, totalmente danificado. O local foi construído em 1959 e tem capacidade para abrigar apenas 2.000 presos Vírus Planetário - FEVEREIRO 2014

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A verdade varrida pra debaixo do tapete

s o d i d sór . . . s e h l a det

CAMPANHA: ADOTE UM(A) REAÇA MALA DA MÍDIA! Os chamados grupos de “Justiceiros” andam a fazer estragos por aí: torturas, execuções, humilhações, enfim, são muitas e violentas as formas de vingança contra os que batizaram de “bandidos”. O lema é tão simples quanto antigo: “bandido bom é bandido morto”. Mas cá pra nós, os mesmos que matam um ladrão de mercado com requintes de crueldade são os mesmos que se calam diante da impunidade de Thor Batista, por exemplo, que por dirigir acima da velocidade atropelou e matou um ciclista que passava pela rua. Sua pena ninguém ainda o viu cumprir; mas os “justiceiros” não se incomodam com isso, estão mais preocupados com os pobres e negros, afinal, quando se mata um destes, sendo ou não um criminoso, a foto fica com mais cara de “Justiça” e o público acredita mais facilmente que estará protegido, afinal, “preto lembra pobre que lembra bandido que lembra preto que lembra pobre...”. Andam a fazer o velho trabalho que a chamada Justiça comum já faz, e do mesmo modo perpetrar o racismo e o classismo. Como os justiceiros dão conta apenas da “camada pobre e preta” dos criminosos, existem por aí fortes indícios de que o jornal “Cidadão de Bem”, outrora criado pela famosa liga de “justiceiros” chamada Ku Klux Klan, voltará com tudo em sua nova versão, agora brasileira. A briga agora é para saber qual editora ficará com esta responsa: Grupo Abril, Globo, SBT, etc... Já pensaram até na capa da primeira edição: “A ONDA BRANCA VARRE O BRASIL: a hora e a vez de Bolsonaro para Direitos Humanos – que não defenderá bandidos!”. ������������������������������������ E como está de vento em popa, a campanha “adote um bandido” entre os reacinhas de plantão na internet, lançamos a nossa: “Adote um(a) reaça mala da mídia grande!”. Ilustração: Rafael Balbueno

montagem: www.facebook.com/ProCorrupcao

Rachel, a má Rachel SherAzedo e o SBT mostram mais uma vez que estão buscando a vanguarda do reacionarismo na televisão brasileira. A transmissora, já deu fama a nomes como Carlos Massa (Ratinho) e agora consolida uma voz tão reacionária que conseguiu superar a Veja nos comentários do caso do menino torturado e amarrado nu ao poste. A apresentadora, ídolo de reaças de plantão, defende publicamente a tortura e a violência contra aqueles a quem julga criminoso, pois, ora, o “cidadão de bem” precisa se defender. Sem isso, como ficará tranquilo para ir ao shopping, comer em bons restaurantes, entrar tranquilamente em seu carro, dentre outros afazeres inadiáveis? Para ela, as prisões arbitrárias e as execuções policiais não são suficientes para lhe dar tranquilidade. Há ainda muitos suspeitos nas ruas – negros e pobres –, ainda mais em tempos de manifestações e “vandalismos”. A não ser que o vandalismo criminoso seja de um Justin Bieber, pois afinal, trata-se apenas de um adolescente. Nessa hora a máxima “adote um bandido” podia bem servir para ela própria, SherAzedo, Leve um Justin Bieber pra casa! Mas a gente sabe que tudo isso acontece porque a Rachel é a irmã-gêmea má, todo mundo sabe que a Rutinha é boa e a Rachel é má, como foi revelado aqui www.facebook.com/RuthSheherazade

Montagem: www.facebook.com/RuthSheherazade

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Bula cultural

algumas recomendações médico-artísticas

Indicações #OcupaCarnaval O movimento #OcupaCarnaval é um dos ótimos frutos gerados a partir da catarse de mobilização que se iniciou com as jornadas de junho. Juntando alegria, bom humor e um forte engajamento político na reivindicação por direitos. Nas marcinhas de paródia do coletivo, sobram críticas a Cabral, Paes, a PM que tanto reprime os militantes e a Copa do Mundo. Além das paródias que pretendem invadir diversos blocos (especialmente os espontâneos, que não esperam autorização pra acontecer, como deve ser o carnaval), o grupo também prepara surpresas como grandes alegorias e um grande ato-cortejo no dia 27/2, às 17h na Praça XV, centro do Rio em comemoração à saída de Sérgio Cabral do governo.

Bloco Comuna que Pariu

O bloco fundado por comunistas (como o próprio nome já diz) em 2009 sempre tem letras engajadas e bem humoradas. E nesse ano, está com um samba mais do que especial. Confira o refrão: “Taco pedra, faço greve Levo bala de borracha Chuto bomba o ano inteiro Mas não tiro o pé da praça Remoção pra tirania Cada baqueta é um fuzil! A revolução foi a copa que pariu!”

Contraindicações Em Família (Manoel Carlos) Muita polêmica para um beijo entre dois homens em Amor à Vida, mas quando o assunto é violência contra a mulher, Manoel Carlos prova que é impossível naturalizar mais o tema e põe no ar um estupro coletivo em “Em Família”. Sem qualquer aviso, uma cena que é de fato agressiva invade as telas sem pedir licença e, para completar, o drama de Neidinha é o de engravidar, continuar com a gravidez e, depois, sofrer com o filho querendo encontrar o progenitor (porque estuprador não é pai, né?). A história de Neidinha vai na contramão do que gritam as ruas e deseduca quem assiste quando ignora o trauma gerado por uma gestação originada por violência e quando esquece que aborto em caso de estupro é legal. Na vida real contraindicamos: Machistas Não Passarão.

CARNAVAL2014_Confira em nosso site as indicações dos melhores blocos:

www.virusplanetario.net/agenda

POSOLOGIA ingerir em caso de marasmo ingerir em caso de repetição cultural ingerir em caso de alienação manter fora do alcance das crianças nocivo, ingerir apenas com acompanhamento médico extremamente nocivo, não ingerir nem com prescrição médica

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Bula cultural

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algumas recomendações médico-artísticas


O

Punrk eu ?

r o m o nã

Crítica social e estética questionadora unem o movimento punk, desde suas origens, aos black blocs Por Pedro Campos Na década de 1960, o capitalismo começava a sofrer uma crítica mais severa. A aparente prosperidade material do pós-guerra não era mais vivida plenamente, e a crise social dos anos 70 já se avizinhava. Os anos 60 assistiram ao despertar dos indivíduos para o seu papel de sujeitos, críticos a uniformização do consumo de massas. Nesse mesmo período, o rock tornava-se enfadonho. A incorporação de artistas de maior renome ao sistema consolidou um apartamento entre os músicos e seu público. Cada vez mais milionários, os músicos compartilhavam das benesses do capitalismo moderno. Suas canções refletiam essa distância das “pessoas comuns”. As canções eram extensas, com longuíssimos solos de instrumentos. O palco dos shows era pirotécnico, bem afeito a lógica da sociedade do espetáculo. O que importava era a exímia execução técnica dos temas, e restava ao público assistir aos “gênios instrumentistas”, tentando não bocejar. Apesar disso, ainda em fins dos anos 1960, artistas como Iggy Pop

e os Stooges, com sua performance explosiva e destrutiva e canções velozes e furiosas e MC5 - uma mistura de explosividade, drogas e politização - começaram a moldar novas possibilidades para o rock. Mas se as críticas dos anos 60 partiam em grande medida (não era exclusividade) de uma juventude intelectualizada - cujos diplomas universitários não representavam a ascensão social prometida, a partir dos 70 a juventude das periferias começava assumir certo protagonismo contestatório. A década de 1970 foi marcada por profunda crise econômica e uma ausência generalizada de perspectivas. Nesse caldo político e cultural surge o punk rock. Velvet Underground cantava sobre o submundo de Nova Iorque, Patti Smith era uma poetisa cujo projeto musical era extremamente politizado e urbano, New York Dolls se travestiam e chocavam com sua postura sexual, as canções voltavam ser curtas e de comunicação direta. Tocando em espaços menores, esses artistas vivenciavam realidades semelhantes de sua audiência e seus concertos eram marcados por um relacionamento direto com a plateia. Era o início do Punk Rock. Esteticamente chocante, os punks privilegiavam o escuro, o sujo, a violência: o produto mais puro da civilização capitalista moderna. A crítica à submissão do rock ao espetáculo, essas bandas resgataram a música dos primórdios do rock, três acordes, explosão, música e letras diretas, de comunicação fácil.

Crítica Estética Mergulhados em uma cultura urbana e de massas, assumiram uma série de identidades que podemos chamar de pop. A divulgação do movimento punk não só através da música, mas de fanzines, das peças de vestuário e de certa forma de viver.

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Bula cultural

algumas recomendações médico-artísticas

A partir da incorporação de elementos do anarquismo, muito afeito ao faça você mesmo, digase de passagem, a capacidade de articulação política do discurso punk foi se modificando. Mesmo assim, ainda temos uma incompletude na compreensão dessa forma de entender o mundo. A adesão ao anarquismo se dá, em geral, a partir da negação geral da sociedade. O grito de revolta Anarchy in the UK (Anarquia no Reino Unido), da banda inglesa Sex Pistols deixa isso claro.

Os punks privilegiavam o escuro, o sujo, a violência: o produto mais puro da civilização capitalista moderna”

Anarquia e anticristo na mesma crítica ao mundo. Há uma explosividade nos versos, um sentimento de revolta que explode em violência.

Crítica política Além disso, partilhavam o “Faça você mesmo”, uma inversão da lógica da excelência técnica dos artistas que faziam a arte pela arte. Qualquer um poderia tocar e fazer suas canções, não importava como maneja o instrumento.

Principalmente na Inglaterra, na segunda metade dos anos 1970, a crítica primordialmente estética avança em direção a um discurso político articulado.

Num primeiro momento, bandas como Ramones, Dead Boys, Johnny Thunders and HeartBreakers expressavam essa postura anti-ídolos e descontentamento com a realidade. Mas o discurso político era pouco articulado. Exprimiam a sensação coletiva de ausência de perspectiva social. A canção dos Ramones I wanna be sedated (Eu quero ser sedado) sintetiza isso. Ou seja, uma ausência de perspectiva completa, nada para fazer. Esse discurso, bastante juvenil, exprimia uma sensação coletiva da juventude urbana sem perspectiva. Os punks promoviam um choque, uma ruptura com a sociedade. Através do vestuário rasgado, se utilizando de correntes e alfinetes, transformavam suas roupas, dando um valor estético a objetos, em tese, utilizados para outros fins. Um pouco como Marcel Duchamp, que deu valor de arte a objetos do cotidiano como um extintor de incêndio, um penico, etc. Além disso, a atitude agressiva dos punks, por vezes autodestrutivas, incorporava um descontentamento a tudo o que existia. Dessa intervenção crítica estética, muitos também absorveram o discurso anarquista. Um anarquismo mediado pela cultura de massas. Afinal, os anarquistas em sua origem eram trabalhadores que militavam contra o capitalismo e desenvolviam crítica social e política a partir de uma tradição que data do século XIX. Manifestação no Rio de Janeiro | Foto: Luiz Baltar

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Ação de Black Blocs em agências bancárias no centro do Rio de Janeiro | Foto: Erick Dau / Oilo

A música punk rock era ouvida e tocada principalmente pela juventude operária londrina. Logo a critica ao capitalismo começou a ser central no discurso punk. Apesar de não serem anarquistas, o Clash – eram socialistas – sintetizam o que havia de mais avançado nesse sentido. Criticavam a monarquia inglesa, o capitalismo global e refletiam a realidade dos trabalhadores.

Os Black Block possuem semelhanças com os punks que criticaram o governo Thatcher”

Estética punk e Black Bloc A partir do cotidiano do mundo do trabalho para promoveram uma crítica social importante. Em Washington Bullets, leram o conjunto do capitalismo global e em poucos versos sintetizaram uma crítica ao sistema por todos os hemisférios: O Clash, como diversas bandas inglesas e o movimento punk de maneira geral, estiveram em confronto permanente com governo de Margareth Thatcher. Seja nas músicas, seja nas ruas os punks enfrentaram as reformas neoliberais da Dama de Ferro. Mesmo com discurso político mais articulado, a forma de ser punk, a intervenção estética dos mesmos não se apartou dos mesmos, pelo contrário, há uma confluência entre estética e política, dando uma forma de intervenção, um discurso punk rock.

A crise do capitalismo na década de 1970 e as alternativas neoliberais impressas pelo capitalismo global se assemelham muito com os dias atuais. Assim como os Black Blocks, fenômeno novo em terras brasileiras causam estranhamento parecido aos que os punks promoveram. Os Black Block possuem semelhanças com os punks que criticaram o governo Thatcher. As roupas pretas e as máscaras causam uma identidade interna que se contrapõe aos padrões de vestimentas normais, e até mesmo da esquerda organizada. Percebemos que essa identidade é em grande parte compartilhada por jovens da periferia, filhos da classe trabalhadora. Como com os punks, o elemento estético e explosivo são centrais em sua intervenção política. O ataque a

símbolos do capitalismo, com violência, aproximam os BB da forma punk de ser. Não a toa, percebemos diversos anarcopunks entre os BB. Assim como os punks, os BB possuem uma aproximação com os anarquistas mediada pela cultura pop, com interferência de quadrinhos e uma formação que lembra as torcidas organizadas – “deixa passar a revolta popular” – e a apropriação de cantos de torcidas. Estes também passam por um processo claro de ampliação do debate político. De certa forma, se o neoliberalismo foi a resposta a crise estrutural do capitalismo financeiro desde os anos de 1970, os BB e os punks são o grito de revolta a partir da sociedade de massas contra essa crise.

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direitos humanos

O POVO INDÍGENA

RESISTE

Até quando a sociedade brasileira verá o extermínio dos povos indígenas sem fazer nada? Por Lucas Moreira Victor e Ana Claudia Meira* A história do nosso país está marcada pelo ataque às comunidades indígenas desde sua colonização. São, portanto, 514 anos de genocídio das mais diversas etnias, de apropriações das suas terras originárias e imposição de uma nova cultura. Em um segundo momento há o estabelecimento de elementos modificadores da cultura indígena, o que atualmente ocorre com autorização e/ou omissão da justiça. O processo de colonização não findou. Diariamente, dezenas de etnias tem tido seus direitos retirados pelas políticas desenvolvimentistas do Estado brasileiro, que encontrou um aliado mortífero: o agronegócio, principal responsável por esse processo de extermínio, e que tem como ferramentas, uma segurança particular capaz de assassinar –

nos últimos 10 anos 283 lideranças Guarani-Kaiowá, somente no Mato Grosso do Sul; bem como um leilão – Leilão da Resistência, realizado dia 8/12/2013, em Campo Grande (MS), que visava arrecadar recursos para aumentar a “segurança” nas terras retomadas pelos indígenas. Outra arma utilizada pelos ruralistas vem sendo a bancada no Congresso Nacional, que tem como alvo certificar que emendas constitucionais sejam aprovadas, todas objetivando a completa eliminação dos direitos reservados aos povos originários. Em 1882 industrializou-se o processo produtivo da erva-mate em todo o território das comunidades Guarani-Kaiowá, sendo esse processo, o grande responsável pela desocupação de inúmeras famílias

indígenas. O que antes era uma vasta área desses povos tradicionais, atualmente não passa de plantação de soja e cana. Impera nessas terras crimes contra a vida, através de assassinatos brutais, de pulverização de agrotóxico sobre aldeias, envenenando as suas águas, tornando o que antes era um solo de plantio, em terras improdutivas, e até levando a morte de indígenas por envenenamento. Essa violência do agronegócio, enquanto base de sustentação do capitalismo brasileiro, extrapola não somente os direitos humanos, bem como os limites da dignidade humana. É importante evidenciar os inúmeros casos de assassinatos, incêndios, desaparecimentos de indígenas, estupro de mulheres, envenenamento de águas e terras. Esses casos, aliados

*Colaboraram os membros da Brigada de Solidariedade aos Povos Guarani Kaiowá - 13 de Janeiro

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Crianças indígenas em sua terra de retomada da Aldeia Água Bonita, periferia de Campo Grande, Mato Grosso do sul. Fotos: Brigada de Solidariedade aos Povos Guarani Kaiowá - 13 de Janeiro

ao total abandono do Estado no que se refere à saúde, educação e alimentação, em conjunto com a omissão do poder judiciário de nosso país frente às execuções de lideranças e homologação de terras, entre outros abusos, são casos que permanecem sem justiça. Os Guarani-Kaiowá estão vivenciando um momento decisivo em sua história, resistindo heroicamente contra o agronegócio – que expande sua fronteira agrícola através da devastação de florestas, envenenamento do solo, despejo de comunidades indígenas e ações violentas de seus paramilitares com a conivência do Governo e da Justiça – buscando retornarem aos seus territórios, garantindo o que lhes pertencem por direito. Atualmente existem várias terras retomadas pelos/as indígenas, por outro lado, vários fazendeiros/as entraram com pedidos de “reintegrações de posse”. Dessa forma os indígenas podem ser retirados com violência policial e/ou dos pistoleiros a qualquer momento de suas terras tradicionais. A prática utilizada pelos ruralistas é a de intensificar as

O que antes era uma vasta áre a desses povos tradicionais, atualmente não passa de plantação de soja e cana”

ameaças contra a vida dos indígenas, engrossando os contratos com a empresa Gaspem (Dourados, MS), que fornecia1 “segurança” às fazendas. No mesmo estado, desde 2005, há registros de casos de violência rural com envolvimento da Gaspem. Existem relatos de ameaças feita por funcionários da empresa à comunidade Guarani-Kaiowá Apyka’i (Curral do Arame). Em 2009, a mesma comunidade teve seus barracos criminosamente queimados, voltando a ser repetido o fato em 2013. A participação da Gaspem no episódio está sendo investigada, além do possível envolvimento da empresa nos ataques às comunidades Lagoa Rica, Laranjeira Ñanderu, Ñaderu Morangatu, Sombrerito, Pyelito Kuê e Guaiviry – todas próximas a áreas reivindicadas como tradicionalmente indígenas. Sendo os funcionários da empresa os principais acusados da morte dos indígenas Dorvalino Rocha e Nízio Gomes, em processos que tramitam na Justiça Federal de Ponta Porã. A Aldeia Apyka’i recebeu nova ordem de reintegração de posse, acompanhe mais notícias em: http://campanhaguarani.org/apykai

Indígenas mortos na comunidade Apyka’i por pulverização de agrotóxico sobre as aldeias e atropelamentos criminosos. Vírus Planetário - FEVEREIRO 2014

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direitos humanos

Violência contra os Guarani-Kaiowás

#SomosTodosGuaraniKaiowa Brigada de Solidariedade aos povos Guarani Kaiowá – 13 de Janeiro A Brigada de Solidariedade aos povos indígenas Guarani Kaiowá aconteceu nos dia 6 a 16 de janeiro percorrendo várias aldeias do Mato Grosso do Sul, conhecendo a realidade de diversas etnias como Guarani, Kaiowá, Guató, Kadiwéu e Terena. O objetivo é somar na luta em defesa das comunidades indígenas, mas pra isso era necessário esse primeiro momento de contato onde os militantes entenderiam melhor o que passam esses povos na luta por suas terras de origem, seus direitos básicos e suas vidas. As violações que acontecem principalmente contra os Guarani Kaiowá são ataques à vida desses povos, a essa importante cultura, aos direitos humanos. O clamor é que os movimentos sociais, as ONG’s e toda a população se juntem e abracem a causa indígena para que possamos avançar cada vez mais! Pela agilidade no processo de demarcação e homologação das terras indígenas, basta de massacre!

Manifestação por rapidez na regularização fundiária da aldeia Água Bonita, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

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O cacique Ládio Verón, da aldeia Taquara, Juti (MS), viu seu pai Marcos Verón ser brutalmente assassinado em 2003, a mando de fazendeiros, frente toda a aldeia. Atualmente, ameaças contra sua vida são feitas, por conta de sua atuação política em defesa dos direitos dos povos indígenas, ameaças que também acontecem com as demais lideranças da região. Segundo o relatório, “Violência contra os povos indígenas no Brasil”, do Conselho Indigenista Missionário, o número de assassinatos passou para 37 no ano de 2012, entram também para a estimativa violências diretas aos povos Guarani-Kaiowás: 11 tentativas de homicídios, 8 homicídios culposos, 6 ameaças pessoais de morte, 4 ameaças a comunidades inteiras


Liderança indígena Kaiowá mostrando registro de sua filha que foi levada pela FUNAI e nunca mais foi vista por ele

(86 vítimas), 1 abuso de poder, 4 situações de racismo e discriminação étnica cultural (12 vítimas), além de 2 casos de violências sexuais. A triste análise da conjuntura passa a ser ampliada no que diz respeito as omissões por parte do poder público, sendo 5 casos de desassistência na área de saúde (14.249 vítimas), 1 caso de desassistência na área de educação escolar indígena (500 vítimas), 13 casos de desassistências gerais (1.633 vítimas), sendo essa última violência caracterizada pelo descaso com indígenas mantidos em condições subumanas, como barracos de lonas às margens de rodovias que não possuem nenhum tratamento de resíduos ou esgoto, luz elétrica ou água tratada, sendo incluídas a lista a não entrega de cestas básicas, situações de trabalho escravo ou análogo à escravidão. Outro reflexo perceptível e alarmante do agronegócio, são os elevados números de suicídios no estado. A cada seis dias, um jovem GuaraniKaiowá tira a própria vida. Dentre os motivos estão o confinamento nas reservas e a falta de perspectivas de seus territórios sagrados serem demarcados. Entre os anos 2000 e 2012, houve 611 casos de suicídio no

O que resta é se pint ar para essa guerra contra as cercas do capital, em defesa de uma longa vida para os povos indígenas”

estado de Mato Grosso do Sul, das etnias Guarani-Kaiowá. Dos casos de suicídio entre indígenas ocorridos no Brasil, entre os anos 2003 e 2010, 83% destes aconteceram no Mato Grosso do Sul, apesar deste estado concentrar menos de 10% da população indígena do país. A resistência dos povos indígenas rompe as fronteiras e caminha na esperança da construção de um país que respeite todos e todas. Uma tomada de consciência coletiva é necessária, a fim de que o individualismo dos representantes deste sistema econômico cruel e assassino não extingua a cultura originária de nosso país. O sangue e o sonho dos antepassados indígenas permanecem nessa terra, resta a geração presente buscar, dentro de si, a verdade que existe

e que tentam esconder. Apesar dos galhos terem sido cortados, seus frutos roubados e até seu tronco queimado, as raízes estão vivas e ninguém pode arrancá-las. A pureza do sorriso de um povo massacrado, por um desenvolvimento assassino, pelo progresso que destrói a tudo e a todos, deve voltar a florir. O que resta é se pintar para essa guerra contra as cercas do capital, em defesa de uma longa vida para os povos indígenas, lutando por esse povo, por seus anciãos, seus netos e pelos guerreiros desse pedaço de chão! Afinal, cada cidadão brasileiro possui uma ligação com os povos indígenas, cada brasileiro é um pouco índio!

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Fotos: Jessika Pamella

ENTREVISTA INCLUSIVA:

LÍDIA RODRIGUES Por Joana Vidal “Camila” foi uma das músicas de maior sucesso do Biquíni Cavadão. Nos shows que fui, a galera cantava animadamente. Depois de conversar com a Lídia, descobri que “Camila” é uma música que fala sobre abuso sexual. Camufladamente, como o abuso acontece. Obscuro, tal qual está o mercado de turismo e exploração sexual que, em constante movimento, se relaciona intrinsecamente com o modelo de cidade posto. Agora, imagina na Copa. Lídia Rodrigues é ativista feminista e dos direitos da criança e do adolescente. Segundo ela mesma, “não é uma opção ser ativista desse campo. Tem coisa que a gente escolhe, tem coisa que escolhe a gente. Isso não é só uma coisa que eu faço pelo mundo, é uma coisa que o mundo faz por mim” 28

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Como você definiria exploração sexual? Pra mim, exploração sexual é quando alguém utiliza a sexualidade de outra pessoa e com ela faz comércio e realiza isso a partir de uma relação de poder desigual. Aí entra m as crianças e adolescentes, que têm uma relação de poder desigual com os adultos; entram as mulheres que, muitas vezes, “optam” por se prostituírem, mas ela opta a partir de uma relação muito desigual nessa sociedade e ela tem uma relação desigual tanto com o cliente como com o cafetão; e entram as travestis.

Existe um perfil da criança que é explorada sexualmente? Sim. A maioria dessas crianças e adolescentes tem identidade de gênero feminina – digamos que 70% são mulheres com vagina e temos mais uns 20% as 25% de travestis, com identidade de gênero feminina, e temos alguns, muito poucos, adolescentes michês, meninos com identidade de gênero masculina. Então a exploração sexual é uma violência machista, é uma exploração de gênero, de perpetuação de um modelo patriarcal nessa sociedade que diz que o feminino, seja a mulher ou quem com ela se compare, só serve para dar prazer aos machos. E existe um período da vida que essa exploração ini-


“ cia: entre os 12 e os 16 anos, na pista, a gata bomba, os clientes procuram mais, tem um fetiche maior dos homens nessa fase da vida, acho que vinculado à ideia de ser um dos primeiros, de que carne nova é melhor.

Existe um recorte de raça nas meninas e travestis exploradas sexualmente? Claro. Principalmente no turismo sexual. Existe um fetiche, aqui no Nordeste, da mulata brasileira. É o fetiche do mercado, do exótico. Tem um recorte racial muito forte. E também tem um recorte racial muito forte porque a maioria das pessoas pobres são negras. É o recorte de classe, classe e raça caminham juntas. Fora o fetiche, são os pretos a se lascarem na história.

E quem explora sexualmente essas crianças e adolescentes? Isso é tão complicado. Algumas têm cafetina, outras, cafetão, outras a família empurra. Mas algumas, não, a família não empurra. Tem uma vontade de ser gente e ser gente, nesse lugar que a gente vive, é consumir.

Saiu uma matéria da Repórter Brasil falando que o maior aliciador do trabalho infantil hoje é o consumo, porque as crianças querem trabalhar para consumir coisa. Por isso também que não dá para falar só de fins de exploração sexual. Tem um debate aí sobre o marco regulatório da publicidade infantil.

Conheci pouquíssimas mulheres que começaram a fazer programa com mais de 21 anos.

Isso é importante demais. Eles querem vender para as crianças burguesas, mas chega para todo mundo. Esse mundo é desigual, mas, ao mesmo tempo em que ele é desigual, ele iguala os desejos. A vida de todo mundo está dominada pelo consumo, inclusive a das crianças.

O turismo sexual é de crianças e adolescentes, mas também é de mulheres. Tem mulheres que começam sendo exploradas na infância e adolescência e o permanecem na vida adulta? Eu conheci pouquíssimas mulheres que começaram a fazer programa com mais de 21 anos. Em geral, a grande maioria, começa com 14, 12, 16. E conheci pouquíssimas que começaram com o turismo sexual. Conheci muitas que começaram nas comunidades, nas avenidas, e que foram migrando para o turismo sexual. Porque o turismo sexual é o seguinte: não é pra qualquer uma, é uma onda de elite, porque paga mais, tem a possibilidade de “conhecer o príncipe encantado e ir embora desse país”. Quem cobra no turismo sexual não cobra menos de 150 reais o programa. Tem lugar que o programa chega a 5 reais aí para você cobrar 150 reais num programa é uma coisa que você quer, as meninas querem isso. Para pensar o turismo sexual, você tem que pensar muitas coisas: uma é a vítima - tem que demarcar isso, independente de ser mulher ou criança é vítima. E tem também o cliente e ninguém discute o cliente.

E qual é a discussão sobre o cliente? Uma pessoa, quando ela vai para outra cidade, ela se sente mais livre, porque aquela moral repressora das pessoas que podem nos ver fazendo alguma coisa que nos envergonharia não existe naquele lugar. Outra coisa é a proposta da própria cidade, a proposta de turismo da cidade tem a ver com o que vai acontecer nela. Fortaleza é uma cidade pensada para o turismo sexual, não tem como dizer o contrário.

Por que Fortaleza é pensada para o turismo sexual? A estrutura de hotel aqui é toda vertical, o que é completamente desfavorável a quem viaja com crianças ou com idosos. Você tem uma grande parte dos quartos para solteiros, para pessoas que viajam sozinhas. E você tem o maior marketing da cidade com a diversão noturna, sobretudo o eixo Praia de Iracema. Você junta todos esses elementos e cria o mosaico perfeito para o turismo sexual acontecer. Alguns hotéis começaram a ser tensionados a não permitir mais a entrada de adolescentes; com isso, Fortaleza mais uma vez se superou e começou a se abrir no mercado imobiliário. Para um estrangeiro comprar um imóvel aqui, é muito mais simples que em algumas capitais. Aí o que os caras fizeram? Compraram imóveis e eles circulam o ano inteiro e lá fazem uma negociação mais próxima, sem precisar da internet ou de qual-

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ENTREVISTA INCLUSIVA_LÍDIA RODRIGUES

a para o Fortaleza é uma cidade pensad o dizer o turismo sexual, não tem com contrário.“

quer aparelho que seja facilmente descoberto e isso vai capilarizando, fazendo com que a onda aconteça.

Você pode explicar um pouco melhor como isso se relaciona com a proposta de diversão noturna da cidade? Eu tenho que reiterar, porque fui altamente preconceituosa. Não é só a proposta ser noturna, porque você tem propostas de diversão noturna que são legais e conseguem integrar pessoas de diversas idades. Fortaleza tem um forte de boates e bares que funciona de 10 horas da noite até a madrugada. Se você der uma volta nesses bares, eles não têm garçons, eles só têm garçonetes. E a fardinha delas é uma blusinha amarrada na cintura e uma sainha bem curtinha. Então essa é a proposta de diversão noturna. Como aquelas boates, que as pessoas entram e lá dentro ninguém sabe. Não que toda pessoa que saia a noite, que vá pra boate,

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esteja fazendo programa ou atrás de fazer um, mas isso é divulgado como o forte da cidade. Existe uma linguagem subliminar: antes, não precisava disso, a galera botava a bunda, o caranguejo e o caju e dizia “venha conhecer nossa cidade e provar de nossas delícias”. Hoje, a gente conseguiu, pelo menos, fazer um constrangimento em que as pessoas não façam mais isso, mas eles divulgam: “Fortaleza, venha curtir a cidade que tem diversão noturna de segunda a segunda”. Isso diz alguma coisa para quem está lá, quem está lá entende alguma coisa com isso.

E por que Fortaleza é uma cidade assim? Eu não sei muito bem, mas tenho algumas ideias. Uma coisa é a nossa cultura, a cultura nordes-


tina, aquela coisa do machismo escrachado, de naturalizar e de ficar parecendo, para as mulheres, que a única forma de ser feliz num relacionamento é a fuga dos homens cearenses. Se você perguntar para uma mulher que está no turismo sexual, ela prefere ficar com os estrangeiros, porque, mesmo que ele seja machista, ela diz que eles são melhores que os brasileiros. Outra coisa é que a nossa cidade é uma cidade de oligarquias econômicas e políticas que desenham muito o modelo do que vai ser a cidade. A gente tem um modelo de cidade que tem que ser favorável e amigável com as empresas, com os negócios. O turismo é legal, mas não é qualquer turismo que é legal: é aquele feito por uma grande rede hoteleira, por uma grande empresa que se sinta a vontade de vir para nossa cidade para nossa cidade crescer. Existe um acordo de comadres no qual o que importa é o lucro. A proposta de turismo do Ceará é alugar o estado e pouco importa o que as pessoas estão fazendo dentro, quem são.

A gente falou muito da capital. No interior, nos litorais, isso acontece também? Canoa Quebrada, há 10, 15 anos atrás, era uma vila de pescadores e hoje tem calçadão da Brodway, onde há boates, bares e pousadas, todos de estrangeiros. Jericoacoara tenta manter um estilo alternativo, mas todos os empreendimentos são de estrangeiros. Aí imagina uma menina em uma comunidade, em qualquer município do Brasil, numa casa que não tem nada, mas tem uma televisão e uma antena parabólica, então todo o modelo de consumo globalizado chega, só que a possibilidade de consumir não chega. Até que o estrangeiro chega e muda a lógica do lugar. É tão louco, porque chega um modelo que não dá para todo mundo, mas que todo mundo quer, e para sustentar esse modelo existem diferentes formas de agir nas diferentes camadas sociais. Nas camadas mais pobres, os meninos, até onde eu sei,

Existe um acordo de comadres no qual o que importa é o lucro. “

traficam e as meninas se prostituem. E isso não acontece só em Fortaleza nem só no Brasil, isso acontece no mundo inteiro. Outra forma muito doida, que aí é muito mais complexo, mas eu considero que pode entrar na lógica do turismo sexual, é o que está acontecendo nas obras de desenvolvimento. Aqui no Ceará a gente tem uma obra dessas e fica pertinho da capital: é o Complexo Siderúrgico e Portuário do Pecém. O município de São Gonçalo do Amarante recebeu 38 mil trabalhadores de fora que ficaram na cidade. A galera vem fazer uma obra, mas não quer formar as pessoas que estão aqui para desenvolvê-la. Os trabalhos que ficam para a população local são trabalhos que normalmente só existem no começo do projeto. Aí galera fica desempregada depois de um tempo e os técnicos que vieram ficam aqui ou, às vezes, também vão - e quando vão deixam o que a gente chama de “filhos das obras”, as meninas que engravidaram no processo, como possivelmente a gente vai poder falar, depois de alguns anos, dos “filhos da copa”.

Como está se dando o processo de combate à exploração sexual para a Copa? De todos os temas problemáticos que envolvem a Copa, esse é um dos pouquíssimos temas que a sociedade civil consegue sentar com o governo numa mesa de negociação e construir alguma coisa junto. Quando a gente ficou, dentro da sociedade civil que atua na proteção de direitos de crianças e adolescentes, sabendo da Copa do Mundo, a gente tentou

mobilizar um espaço que convergisse pelo menos as impressões ou intenções da sociedade civil. A gente não pensou só exploração sexual, mas que há uma vulnerabilidade maior para o trabalho infantil, para o ato infracional, para ação repressiva e extermínio da polícia. E começamos a construir isso em diálogo com o governo e fizemos um teste, que foi a Copa das Confederações.

Como foi esse teste? Esse teste nos mostrou que isso não é o necessário. Veja só: a gente está falando de uma violação de direito que é de estrutura. Nenhuma criança chega ao trabalho infantil por conta de um megaevento simplesmente. Nenhuma menina vai fazer um programa ou entra em uma rede de turismo ou de tráfico sexual por causa de um evento, ela tem uma história pessoal de negação de direitos que está dentro de uma estrutura muito grande de violação de direitos, uma estrutura que é machista, que divide a nossa sociedade em classes e dá a parte que cabe a cada classe social. Ele tem que ser enfrentado na história, com as ações cotidianas, porque para as mulheres, para as meninas, é naturalizado o corpo ser uma estratégia de sobrevivência. Então todas as ações acabaram sendo paliativas.

E o que resolveria esse problema? Totalmente, de maneira estrutural? Acho que o fim do machismo dava para ajudar, o fim do capitalismo contribuía um pouco e se acabasse o racismo melhorava muito mais! (risos)

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FAZENDO

MEDIA

Fevereiro de 2014 | Ano 11 | Número 113 | www.fazendomedia.com | contato@fazendomedia.com

a média que a mídia faz

Babões da mídia querem o sangue do povo A defesa de milícias privadas, linchadores de aluguel e grupos de extermínio revela o atraso civilizatório de quem aposta na “justiça” pelas próprias mãos. Por Hamilton Octávio de Souza

arte: Bruna Barlach

De tempos em tempos a posição mais extremada de alguém da mídia cria desconforto até mesmo aos setores conservadores e de direita – da mídia e da sociedade. É o que aconteceu na última semana, quando uma notória comentarista do SBT, a TV de Sílvio Santos, defendeu em rede nacional o apoio aos atos de violência praticados por uma gangue de motoqueiros, que atacou, espancou e prendeu em um poste, covardemente, no Rio de Janeiro, um adolescente de 15 anos. Não é de hoje que jornalistas e privilegiados cidadãos com amplo acesso aos meios de comunicação usam e abusam de discursos a favor da truculência de vigilantes, milicianos e esquadrões da morte. É sintoma persistente num país que não se livrou das heranças coloniais e escravocratas, em que a brutal desigualdade ainda separa o mundo em casa grande e senzala, ricos e pobres e acintosamente divide a sociedade entre os portadores e os desprovidos de direitos. A característica mais evidente deste tipo de postura – que tem porta-vozes na mídia, no Congresso

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Nacional, nas Forças Armadas e nos mais diferentes espaços públicos e privados – é que seus autores não apenas se colocam acima das regras mais elementares do pacto de vida em sociedade, mas deliberadamente confrontam as leis, a Constituição Federal e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU em 1948.

Já tivemos em horário nobre da televisão brasileira inúmeros apresentadores de programas regionais e/ou nacionais, que defendiam abertamente o massacre de cidadãos acusados ou suspeitos da prática dos mais simples delitos, como o roubo de alimentos ou de qualquer bem de uso pessoal. Tais jornalistas e comunicadores sem-


pre se valeram de bordões como “bandido bom é bandido morto” ou “lugar de bandido é na cadeia”, tudo para sensacionalizar os casos muitas vezes baseados apenas na versão da polícia. É inaceitável verificar que as grandes redes de TV – Globo, Record, SBT, Band – ainda abrigam programas nos quais o babão ou a babona de plantão, verdadeiros pitbulls da selvageria, continuam destilando ódio de classe ou étnico ou de gênero ou de sexo contra pessoas indefesas e fragilizadas, utilizando assim o poder da comunicação de massa para atiçar contra elas toda a ira do sistema, inclusive a dos indivíduos que são pagos para matar. Da mesma forma ainda temos no Congresso Nacional e nos vários níveis do Legislativo, parlamentares eleitos pelo voto popular que defendem as mais medievais formas de violência, seja contra os povos indígenas e os trabalhadores rurais sem terra ou seja contra as mulheres, os gays ou os jovens negros e pobres das periferias do Brasil, que são – em todas as estatísticas, as maiores vítimas fatais da intolerância econômica, social e cultural. Todo mundo deve se lembrar de uma frase de um deputado federal de São Paulo, quando defendeu um estuprador que havia assassinado a sua vítima. Ele disse:“quer estuprar, estupra, mas não mata”, como se tal interpretação pudesse amenizar a barbárie contida na ação criminosa. Todo mundo também deve se lembrar de que na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro já tivemos, até recentemente, diversos aliados das milícias formadas nos bairros da Baixada Fluminense.

Os concessionários das emissoras de rádio e TV adoram os programas que babam violência e defendem a barbárie”

Existem, em São Paulo, inúmeras denúncias sobre a atuação dos grupos de extermínio formados nos quartéis da Polícia Militar do Estado de São Paulo, integrados por PMs, e que são responsáveis por inúmeros assassinatos nos últimos anos. Seus crimes são acobertados pelas autoridades e fazem parte não apenas da política de intimidação das populações periféricas, mas também, muitas vezes, esses policiais estão envolvidos nas organizações do tráfico de drogas, roubo de cargas e desmanches de veículos furtados. Nada disso é novidade no Brasil: nos anos de 1960 e 1970 atuaram em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e outros estados, os famigerados “esquadrões da morte”, todos comandados por policiais. Durante anos esses esquadrões assassinaram centenas de pessoas sem passagem policial, suspeitos de crimes e presos (muitas vezes retirados de delegacias e cadeias) como se seus integrantes fossem “juízes” e “tribunais” da sociedade acima da lei e do respeito aos direitos dos cidadãos – entre os quais os de ter presumida a sua inocência, ter ampla defesa e, se condenado, por Justiça idônea, cumprir a pena sem a violação de sua integridade física. O que parece chocar muita gente, atualmente, é verificar que na imprensa e nos mais influentes meios de comunicação, ainda existem profissionais – jornalistas ou não – adeptos e propagandistas das práticas do “justiçamento” de pessoas por grupos que se consideram acima das leis e da sociedade. Infelizmente, os concessionários das emissoras de rádio e TV adoram os programas que babam violência e defendem a barbárie, porque aumentam a audiência pelo sensacionalismo, mas eles lavam as mãos quando o conteúdo exige a sua responsabilidade. Se a ausência de segurança pública é um problema sério no Brasil, e se os cidadãos comuns estão cansados da inoperância do Estado, a saída evidentemente não é acirrar uma guerra sem fim no seio da sociedade, que só vai favorecer ainda mais os ricos e poderosos (que podem comprar e dispor de todos os esquemas para garantir a sua segurança), mas está em exigir dos políticos e das autoridades medidas que reduzam as desigualdades e melhorem as condições de vida para todos. Fora disso será apostar na barbárie generalizada.

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Por Carlos D Medeiros / Veja mais em: facebook.com/fucalivro

*Improvável, mas não impossível.

Estagiario da Secretaria do Cachorro do Carteiro Diz em Entrevista que Deputado Esquerdopata Financiou a onda de calor que atinge o sudeste Por mais que esses bolchevo-idiotas da esquerdalha se escondam atrás de suas bandeiras vermelhas todos já sabiam que eram eles que estavam por trás de todos os problemas da nossa sociedade. Não bastava o fato de estarem arquitetando o golpe comunista pra esse ano, descobrimos em entrevista exclusiva que todo esse calor que temos sentido é culpa dos demônios vermelhos. Pare agora mesmo de twittar sobre o calor para ler as palavras do estagiário da secretária do cachorro do carteiro que entrega as correspondências no Palácio Guanabara (sede do governo do Estado do Rio de Janeiro). Em entrevista exclusiva, nossa fonte que será identificada nessa reportagem como “o estagiário” diz que, antes do carnaval, Cabral pretende anunciar publicamente em todas as grandes emissoras a sua grande descoberta: que a onda de calor é um projeto dos comunistas para a dominação mundial. Cansados de ter que comer pelas beiradas e ficar procurando alguma for-

ma de atacar a integridade política de tão nobre governador, dirigentes da esquerda nacional se reuniram num local não-encontrado nem pela excelente tecnologia dos EUA, nem pelos grampos de Obama (alguém tem dúvida de que foi em Cuba?) no fim do ano de 2013 para arquitetar o seu plano maior. Com a ajuda dos governos da Venezuela, de Cuba e usando uma tecnologia revolucionária vinda diretamente de seus hermanos supercomunistas da China, a esquerdalha implantou em uma ilha do Atlântico um grande aquecedor. Diz a lenda que ao mesmo tempo que esse aquecedor garante que as temperaturas quebrem recordes históricos, ele assa as melhores coxinhas da história, quem comeu garante. “O estagiário” garante que o calor é a principal estratégia para acabar com os “homens de bem” e com os “humanos direitos”. Segundo eles, esses cidadãos de classe média, que são o exemplo para toda sociedade, têm sido obrigados a torturar pobres e negros e para evitar que lhe roubem os aparelhos de ar condicionados. O plano

Por Rodrigo de Constantinopla

Rodrigo de Constantinopla é imperador-privatista, já privatizou o ar, o mar e os rios, entre outros.

desses marginaizinhos é, com a venda dos condicionadores de ar, ajudar a financiar o golpe comunista de 2014, o que é irônico, porque a esquerda-caviar gosta tanto de defender pobre, mas fica pedindo dinheiro pra financiar golpe... Hipócritas! Mas, sem desviar do assunto, todo mundo sabe que se um cara é pobre e preto e está na rua perambulando com certeza é para roubar, matar e esquartejar-nos, nós, os homens de bem, então, nada melhor do que fazer justiça com as próprias mãos.

O Golpe Comunista é Nacional O golpe que começou devagarzinho, com Lula em 2003 realizando diversas ações de governo que são totalmente anticapitalistas como a reforma da previdência, o investimento de SÓ metade do PIB do Brasil para juros e amortizações da dívida pública, enquanto que o total para a educação e saúde públicas foi um ultrajante desperdício de 8%. Todo mundo sabe, aliás, que nada público vai funcionar nunca, então tudo tem que ser privatizado! Até porque,


*ATENÇÃO: Essa seção é fictícia. Não levem a mensagem a sério. Inspirado neste post - www.tinyurl.com/manchete123 e neste vídeo - www.tinyurl.com/danigolpe

Reparem na grande massa de ar quente que está estacionada no sudeste. É uma evidência concreta do avizinhamento da ameaça comunista.

os empresários não pensam no lucro (isso é apenas consequência de uma boa gestão) e sim no bem que estão fazendo à população dando empregos, pagando salário-mínimo pra quem não tinha nada, o que é uma lição emocionante de humanismo. Dilma continuou a escandalosa política ruma ao comunismo! Está claro! O leilão do pré-sal do maior campo de petróleo já descoberto, o campo de Libra, prova isso. E agora, fontes confirmam que durante a Copa, o comunismo que está no poder vai gerar lucros exorbitantes a todo o capital internacional, ou seja, o golpe comunista está mais maduro do que nunca. Ao que parece, o esquema não atinge somente o estado do Rio de Janeiro. Em outros estados da região Sul e Sudeste do país a coisa também anda bem quente. Há quem diga que os trabalhadores das empresas de ônibus de Porto Alegre e os manifestantes do #nãovaitercopa em São Paulo e em outras partes do país também estejam ligados a este esquema de aquecimento global, mas ao que tudo aponta o mandante do crime é um deputado estadual do Rio de Janeiro, conhecido por sua forte oposição ao governo Cabral e por gostar de comer coxinhas no lanche da tarde. “O estagiário” afirma que não há informações concretas sobre como o calor irá prejudicar o fim do mandato do governador do estado do Rio de Janeiro, mas que isso não importa. O que importa é que é a secretária do cachorro do carteiro do Palácio Guanabara declarou. E ponto final.


� o ã ç a p i c i sua part

! o d n u m o muda 14º Congresso Ordinário do Sepe será em março Tema do Congresso: As jornadas de junho, o sindicato e a luta pela educação pública, laica de qualidade - contra a criminalização dos movimentos sociais

Passeata em defesa da educação pública, no dia 15 de outubro, no Centro do Rio (Foto: Samuel Tosta)

De 26 a 29 de março, os profissionais da educação pública do Rio de Janeiro participarão do 14º Congresso Ordinário do Sepe, no Clube municipal, na Tijuca. Durante quatro dias, professores, funcionários administrativos e aposentados estarão se debruçando sobre o debate a respeito da educação pública, discutindo estratégias e buscando alternativas para traçar a mobilização e a resistência contra o desmonte da escola pública, gratuita e de qualidade e a luta pela dignidade do profissional de educação, contra as políticas educacionais meritocráticas que a maioria dos governantes tenta impor no Brasil e no Rio de Janeiro. Neste ano, o Congresso irá debater a educação pública, as grandes mobilizações populares realizadas em 2013 e a luta contra a criminalização dos movimentos sociais. O Congresso é o mais importante fórum de deliberação do Sepe, maior sindicato do estado. A expectativa é que este evento supere o congresso de 2011, com a participação de mais de mil delegados, filiados ao sindicato, eleitos pelas escolas e assembleias específicas de aposentados e profissionais “fora da rede”. A sua finalidade é a de organizar a categoria para as suas lutas, adequando a estrutura interna da entidade para a defesa dos direitos dos profissionais e da escola pública.

Por isso, convocamos a todos para o 14º Congresso do SEPE!

www.seperj.org.br