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COOLtura ANO 1 - Novembro/2012.

Revista laboratório desenvolvida por alunos de

N. 1 Letícia Volpi na dança Jornalimso PUCPR O olharEDIÇÃO da fotógrafa sensual edatranscendete do Flamenco. Uma dança que se sente antes de dançar, no compaço ela fotográfa o movimento, o duende PUCPR no flamenco.

No flash: O DUENDE DO FLAMENCO pg.19

Desbrave: o Caminho do Itupava pg. 08

Pacato Cidadão: No ritmo do altruismo pg.16


“Pintou estrelas no muro, e teve o céu ao alcance das mãos.” Helena Kolody


Editorial Esta primeira edição da revista Cooltura vem recheada de sabores, nostalgias e encantos que o estado do Paraná oferece. Com uma informação variada e diferenciada, esta edição vai apresentar um Paraná além dos olhos comuns, uma visão sob outras perspectivas. De receitas a viagens, você irá conferir um dos pratos típicos do nosso estado, o barreado, rodeado de tradições e histórias é apresentado ao público, que aprende a fazer sua própria receita, e aproximar o tradicionalismo ao contemporâneo do nosso dia a dia. Outro detalhe que esta publicação contém, são rotas de viagens turísticas, você conhece o estado da gralha azul¿ Hora de arrumar a bagagem, colocar esta edição como roteiro e aproveitar todas as novidades que o Paraná tem. Uma ótima leitura e seja bem vindo na mais profunda imersão cultural que os costumes de um povo oferece.

Coordenação - Gráfica Juliana Sousa Revista COOLtura Foto de capa 6º período - Jornalismo Noturno Leticia Volpi

EXPEDIENTE

Reitor Prof. Doutor Clemente Ivo Juliatto Decana - Escola de Comunicações e Artes Prof. Dr. Eliane Cristine Francisco Maffezzolli Direção do Curso de Jornalismo Julius Nunes Coordenação - Jornalista responsável Prof. Dr. Maria Teresa Freire - DRT 17795

Redação Carolina Chinen Machado Jasson Julio Volff Julio Cesar Glodzienski CAPA Letícia Martins Donadello Nesta edição a Rubia Oliva capa representa Lydiane Pereira um ícone cultural Virginia Fialho Crema


Era uma vez - 06 Desbravando - 08 Pacato cidadão - 16 No flash - 19 Arte - 24 Do lado de lá - 26 Diz aí - 28 Folclore - 30 Humm... - 32 No telão - 34 Prateleira - 37


Era uma vez

No ritmo da noite o poder é o convidado para esta dança... Por Julio Cesar Glodzienski

O fogão a lenha sempre acesso ao centro do ambiente, místico e escuro, carregado de significados e histórias. Umas das regras do estabelecimento de Pedro Lauro, vulgo Seu Pedro, o Bar Estação São Pedro, é de que as mulheres que frequentam o local não podem deixar de rodar pela “pista” junto dele um giro de bolero, som tradicional de uma vitrola de história. Com caixas de cerveja ornamentando o local, âncoras e redes nas paredes, de verde escuro, boas histórias de frequentadores permeiam as madrugadas ao som de garrafas roçando os copos, e eles à mesa. O barulho da bilhar e as risadas nas altas horas da madrugada anunciam o grau de sobriedade dos indivíduos. O gato ao balcão, escovado pela atendente de mero grau de parentesco ao proprietário, preto e gordo abre e fecha os olhos amarelados lentamente, de acordo com o ritmo com que a escova de sapatos

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corria seus pelos. Mais lenha no fogão, que esquenta ainda mais o ambiente, a noite é uma criança, ou melhor uma bailarina em que o viúvo Seu Pedro conduz as passadas aos embalos da vitrola. Aquece a polenta ao lado das rodadas do bolero, alimento dos cães, ciumento e certeiro nega a partilha com qualquer elemento do local, são os cães os únicos a serem beneficiados com a polenta, mais lenha no fogão, e a brasa estala a madeira verde provocando uma forte fumaça. Odor típico que os consumidores carregam para casa, a fumaça deixa o ambiente ainda mais escuro e o cheiro se mistura aos risos, e tacos de sinuca no chão. Mão no balcão, pede mais uma aos amigos, a balconista sequer larga a escova, o gato abre os olhos com o barulho do abridor na tampa da garrafa de cerveja, com as mãos molhadas do gelo chaqualha a atendente e molha o gato que sai lentamente em passos preguiçosos. De calça social e camisa, aberta deixando o peito à mostra, o bigode bem aparado, anda sentido a alguma mesa, os sapatos envernizados brilham em meio à noite escura. Mais lenha no fogão, este talvez esteja ali, pois aquele estabelecimento no Alto da Rua XV, fora uma pizzaria da família. Grande defensor da volta dos cassinos no Brasil, seu trabalho não se restringe ao seu

singelo bar. As manhãs curitibanas dão bom dia diferente, as ruas amanhecem tomadas por pedaços de madeiras ou plásticos com inscrições em vermelho que fazem um apelo, “Cassinos no Brasil”, só quem tem conhecimento da noite da capital sabe à que se refere. Pedro Lauro Domaradzki de Mallet-PR, defende com unhas e dentes o retorno dos cassinos no país. Original campanha usa o candidato a vereador em 2012, amparado por todos os frequentadores daquele pedaço de mundo cercado por histórias, e por seus capangas, entenda-se garçons, digo capangas pois têm cara de pirata. De cavanhaque, cabelos longos e amarrados, brinco na orelha e sempre de camisa regata, o garçom atende solicitamente a todos. Talvez os filmes americanos tenham influenciado minha opinião. Mas quem vê cara não vê coração, apesar de comerciante tradicional do bairro, o capitão dos rodados da noite possui bens aquém do seu bar. Lenha no fogo, esquenta a noite, lá fora está frio, os muitos engradados de cerveja, dividem espaço com muitas pessoas, e viram cadeiras. Música na vitrola, e o gato volta ao balcão, a polenta quase no ponto e a bilhar rodada de homens rindo e molhando as bordas das mesas de sinuca com o suor da cerveja. O homem simples com milhões no bolso é o protagonista da boemia e talvez o principal motivo do movimento. Quase amanhece e o estabelecimento aos poucos vai se esvaziando, sobram copos e garrafas sobre as mesas, o eco dos vários risos ainda permeiam o local, o fogão quase se apagando, os cães já se alimentaram e o gato pula de um lado para o outro, hora do descanso, no dia seguinte é dia de campanha e mais embalos do tradicional bolero da vitrola, aos estalos da lenha verde no fogo.

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DESBRAVANDO

A Pérola Paranaense Eleita em 2011 como a “Capital Brasileira da Cultura de 2011” Jasson Wolff

Da época do tropeirismo, a cidade guarda até os dias de hoje o Theatro São João e a Igreja Matriz de Santo Antônio

ta, o exército revolucionário comandado por Gumercindo Saraiva, que vinha do Rio Grande do Sul rumo ao Rio de Janeiro para derrubar o governo do Marechal Floriano Peixoto chegou ás portas da cidade lapeana. Curitiba, Paranaguá e Tijucas já estavam nas mãos dos revoltosos, e a Lapa era o último obstáculo para a vitória no Paraná. A resistência da cidade era composta por apenas 639 homens, muitos inclusive moradores da cidade, sem

Foto: Divulgação

Lugar em que se suspira histórias de tropeiros viajantes, causos de bandeirantes exploradores, construções intactas e cheias de aventuras e lendas são alguns dos atrativos da cidade premiada pelo renomado Bureau Internacional de Capitais Culturais como a “Capital Brasileira da Cultura de 2011”, símbolo histórico da Revolução Federalista, a cidade de Lapa, na Região Metropolitana de Curitiba, se destaca pela sua importância cultural e turística do estado do Paraná. A cidade originou-se de um simples povoado, era caminho para os tropeiros que viajavam para São Paulo Julio Ferreira, de 77 anos, atualmente mora em Curitiba, mas viveu a infância e a juventude na cidade histórica. “A cidade era muito tranquila e pacata. O centro histórico é realmente muito bonito, dá pra ver a história da cidade nas paredes das casas antigas”, afirma o aposentado. O nome faz referência as formações areníticas da Gruta do Monge, um dos cartões postais lapeanos, que tornou-se um ponto de romaria de peregrinos em função de ter sido o local de refúgio do monge João Maria D’Agostinis em 1847. Devido aos muitos milagres atribuídos ao monge, as pessoas vão à gruta buscando a cura para seus problemas.

O cerco

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Em 1894, durante a guerra Federalis-

As construções permanecem em bom estado de co


onservação

Foto: Divulgação

nenhum tipo de preparo militar, enfrentaram um exercito disciplinado e bem armado de 3 mil combatentes rio-grandenses, que logo cercaram a cidade.Mesmo com os constantes ataques dos maragatos, como eram chamados os revoltosos, a resistência lapeana suportou firme até a morte de seu comandante, General Gomes Carneiro no dia 9 de fevereiro de 1894. Com os mantimentos e as munições acabando, a resistência capitulou no dia 11, mas não O centro histórico é a maior riqueza da cidade demorou muito para que novas tropas republicanas, reunidas en- quanto está tombado pelo Patrimônio Histórico e o cerco se desenrolava, derrubaram as for- Artístico Nacional, como reconhecimento ças de Gumercindo, obrigando este a fugir da importância histórica e cultural para o para o sul. Esse fato é lembrado com muita estado do Paraná. As casas que retratam honra e admiração pelo povo da Lapa, tan- arquitetura típica dos séculos XVIII, XIX to que em 1944, ano do cinquentenário do e XX. A paisagem arquitetônica traz uma Cerco da Lapa, foi construído o Panteão dos nostalgia singular, remetendo o visitante Heróis, um símbolo de honra e lealdade para á época do tropeirismo, ao passar nas ruas os defensores de 1894. de pedra lavradas ainda no século XVII. Desde 1989 toda a arquitetura da Lapa, que Quem visita a Lapa não pode deixar de envolve as casas e a igreja de Santo Antônio, passar no Thetro São João, pelo Pantheon dos Heróis, a Casa Vermelha, que são símbolos culturais e históricos da cidade. Além dessas atrações, a gastronomia não deixa a desejar, com a autêntica comida tropeira. Todos os pontos turísticos da Lapa retratam muita história, cultura, força e amor, e os visitantes sentem isso quando visitam o Panteão dos Heróis, por exemplo. “É nostálgico conhecer um lugar onde aconteceu uma batalha tão importante e ao mesmo tempo uma riqueza enorme na arquitetura”, diz Roberto dos Santos, que veio do interior do Paraná para conhecer a cidade.

Brasão de Armas da Lapa

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Desbravando

Foto: Lidyane Pereira

A

QU B

TRO RRAS

Joia rara do Paraná

por Lidyane Pereira No dia 09 de novembro de 1961 com a Lei n° 4.338/61, o município de Quatro Barras, no Paraná, foi oficialmente criado. Há duas histórias que contam o significado do nome da cidade, a primeira e mais aceita pela população defende que o título se refere às quatro barras formadas pelos rios Canguiri, Timbu, Bracajuvava (atualmente rio Cercado) e Capitanduva. Já a segunda versão, e a menos aceita, acredita que o cruzamento da atual Avenida São Sebastião ligava Piraquara e Campina Grande do Sul com a Estrada da Graciosa. Este encontro dividia a cidade em quatro barras. ¹Situada a 21 km de Curitiba, possuindo uma área de 169,47 Km², 37 bairros e uma população de aproximadamente 18.125 habitantes - formada predominantemente por descendentes de italianos, 10

portugueses, poloneses e alemães - a comuna guarda em sua história uma importante ligação entre os primeiros caminhos do Paraná, ficando dividida por mais de cem anos entre Curitiba, Campina Grande do Sul e Piraquara. Próxima a um grande número de serras, Quatro Barras abrange uma grande porção da Serra do Mar, onde nascem vários rios. NaSerra da Graciosa nasce o Rio do Meio, Rio Corvo e Rio Taquari, que alimentam o Rio Capivari Mirim, este nasce no morro da Farinha Seca e recebe as águas do Ribeirão do Tigre e desagua no Rio Capivari, formando Quatro Barras é rica em extração de granito, uma de suas principais atividades econômicas, basicamente formada pela extração de quartzo, feldspato e mica.“Tudo isso é devido a formação geológica da cidade, com suas


porções de serras formadas por granito e migmatitos”, informa a moradora. Sandra informa que mesmo voltando para Curitiba todos os finais de semana para ver a família, ela ama onde mora e não pretende se mudar da Cidade tão cedo.

Vilmar Oslovis, 38, Historiador, natural de Quatro Barras, ajudou-nos a contar parte do que sabe sobre a história de sua terra natal. O morador conta que há indícios históricos de que Baltazar Carrasco dos Reis, um dos primeiros moradores de Curitiba, passou pela cidade de Quatro HISTÓRIA Barras em 1648, vindodo litoral pelo ca Antes da descoberta do Brasil por minho de Itupava. Ele pernoitou em um Pedro Alvares Cabral (Abril de 1500), a dos pontos de pouso da Borda do Campo, região de Quatro Barras era formada por comprovando a existência de moradores grande beleza e vegetação da Mata Atlân- na região.“Eram moradores simples, as catica. Vários índios Foto: Lidyane Pereira sas eram construídas com barro, taquara da origem Tupi ou pedras retiradas Guarani percorriam da própria região, os caminhos entre e o seu sustento vio litoral em busca nha da mineração, de caça e pesca. criação de gado e A partir do lavoura, especificaséculo XVIII começa damente da exploa surgir as primeiração da erva mate, ras notícias sobre instalada em fazenos desbravadores das ao longo dos europeus, bandeicaminhos do muniras e bandeirantes cípio, o que fez com – homens que parque surgissem os tiam do litoral para primeiros arraias ou o interior do Brasil povoados da cidaa caça de índios de”, afirma o histo(para transformáriador. los em escravo), Um grupo de pedras preciosas e Jesuítas, em meaa procura de terras dos de 1710 se insainda desconhecitalaram na borda das. do campo para caTrilha original da estrada da Graciosa Uma das bantequizar os índios e deiras, liderada por Raposo Tavares, che- trabalhar na exploração de erva mate. O gou ao litoral do Paraná por volta de 1640. desejo em encontrar ouro e pedras precioEm busca de ouro, esses bandeirantes utili- sas acabou se tornando em uma realidade zavam uma antiga trilha feita pelos índios, distante, sendo que, por esse motivo, os esta, tempos depois, chamada de Itupava. desbravadores começaram a criar gado e O Arraial da Borda do Campo foi fundado manter as pequenas plantações para que por esses bandeirantes, e hoje é um dos fosse possível sustentar, pelo ao menos, o distritos de Quatro Barras. alimento. 11


Igreja Estrada da Graciosa

Ponte do Arco

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Orat贸rio Anjo da Guarda

Foto: Lidyane Pereira


Foto: Lidyane Pereira

Os moradores passaram a se encontrar na Borda do Campo e praticar o escambo, sem contar que o arraial servia como ponto de parada para os tropeiros que faziam a troca de alimentos e demais produtos de outras regiões. Mas o caminho era perigoso, longo e a viagem levava dias. “Os próprios viajantes chegaram a colocar pedras para facilitar a passagem. Somente entre 1770 e 1772, quando o caminho teve que ser utilizado para o transporte de armas e caminhões que seriam utilizados na conquista de Guarapuava e Tibagi, o governo realizou obras de melhoria”, conta Vilmar. Com o aumento da exportação de erva mate e da madeira, fez-se necessá-

rio a criação de uma estrada que levasse os produtos até o litoral, para que estes fossem transportados em navio para chegar até a Europa. Com isso, entre 1854 e 1873 o antigo Caminho da Graciosa passou por diversas obras de alargamento e pavimentação, até se transformar na Estrada da Graciosa, a primeira estrada carroçável do Paraná. Após a manutenção da Estrada da Graciosa, surge a Companhia Florestal Paranaense, esta criada pelo afrodescendente Antônio Rebouças, a primeira serraria a vapor do Paraná. Nascia para ajudar a explorar os imensospés de erva mate. Ao longo do tempo surgiram outras serrarias e povoados, como o Rio do Meio, em 1880, e Maria José, em 1886, formada por imigrantes italianos. Devido a boa estrada que ligava o litoral ao Planalto, no ano de 1880 o Paraná recebe a visita do Imperador Dom Pedro II. Durante a viagem, Dom Pedro passa por Curitiba e fica hospedado por uma noite em uma grande estalagem no Rio do Meio, descansa em um pinheiro que lhe chamou a atenção e parte do Paraná fazendo elogios à estrada e ao município.

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Caminho de

Desbravando

ITUPAVA

por Lidyane Pereira

Cheiro de natureza, arvores gigantescas , ar úmido, animais de pequeno porte. Uma exuberante Mata Atlântica. O caminho mais antigo do Paraná é uma atração que deve ser aproveitada por todos os paranaenses. Afinal, entrar na trilha de Itupava é entrar na história do Paraná. A trilha de Itupava foi por muito tempo a única ligação entre o litoral e a cidade. O nome do caminho pode ser explicado devido aos riachos e corredeiras que cortam a caminhada, pois em Tupi Guarani Itupava significa pequena queda de água ou corredeira. A trilha continua com a sua 14

pavimentação original, formada por pedras colocadas pelos próprios desbravadores europeus no século XVIII. O caminho corta Quatro Barras em direção ao Sul, levando os exploradores a Morretes. Mas calma, a trilha pode ser dividida em duas fases. A primeira caminhada pode ser feita em aproximadamente cinco horas (ida e volta), são 7km de estrada com um nível médio de dificuldade. A trilha leva até a Casa do Ipiranga, na Serra do Mar. Nesse local de parada a beleza continua, os visitantes podem ver o trem passar de perto e podem tomar um delicioso banho para


diminuir o cansaço. Já a segunda caminhada é mais extensa, não sendo possível realizar a ida e a volta pela trilha no mesmo dia. É necessário a ajuda de um transporte para retomar ao ponto de partida. São 22km de caminhada, seguindo toda a extensão da trilha, saindo de Borda do Campo, em Quatro Barras, e terminando em Porto de Cima, em Morretes. Durante a caminhada

Garganta do Diabo

Véu da Noiva

tura. É aconselhável chegar cedo para iniciar a trilha, ir de tênis e passar um bom repelente. Vale lembrar que a trilha deve ser feita no período do dia e em um grupo de pessoas. Há organizações que se reúnem mensalmente para atravessar a trilha. Veja mais informações no site http://itupava. altamontanha.com/ Boa aventura! Mapa Caminho de Itupava

muitos rios são encontrados, a beleza é extensa. São pontos de paradas para se refrescar, reabastecer a garrafa de água e tirar fotos de recordação, como o Véu da Noiva e a Garganta do Diabo. Junte sua turma e realizem um dia de aven15


Pacato Cidadão

Quem dança,

os males espanta

Projeto social de balé traz uma nova oportunidade para crianças carentes Por Rubia Oliva e Virginia Crema Risadas, cochichos, olhares curiosos e atentos. Em meio a um alvoroço característico da idade, espontaneamente a conversa foi surgindo e frases como: “as aulas são doloridas”, “é difícil cuidar da alimentação” ou ainda “é um sacrifício que vale a pena”, deram início ao bate-papo com cerca de 15 crianças de 11 a 14 anos, integrantes do projeto Dançando para o Futuro. A iniciativa da escola de dança Studio D, que atende crianças carentes de diversas comunidades de Curitiba, teve início há cinco anos. Hoje com cerca de 45 crianças em seu quadro de alunos, o projeto tem muito o que comemorar. Exemplo disso são três meninas que irão se formar como bailarinas profissionais no ano que vem, sendo que uma delas já dá aulas na própria escola. Lilian, hoje com 18 anos, é uma das alunas da primeira turma do projeto. Antes de se envolver com a dança, ela não sabia ao certo o que era balé e muito menos imagina as perspectivas que o projeto poderia lhe trazer. Ministrando aulas há cerca de um ano, ela conta com entusiasmo a primeira viagem para uma competição, realizada no ano passado para o Rio de Janeiro. “Essa foi a primeira vez que eu viajei para fora do estado e também para uma competição de dança. E, sem dúvida, foi emocionante participar de um evento tão

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grandioso”. A seleção dos pequenos talentos é feita em colégios públicos dos bairros da cidade próximos a uma das unidades do Studio D, localizada no bairro Bom Retiro. Por meio de uma audição que não exige conhecimento prévio sobre dança, qualquer criança pode participar. “Nesse momento é avaliado o potencial de cada um e se o corpo tem uma predisposição para o balé”, explica Virginia

Tia Virginia rodeada pelos pequenos talentos descobertos


Já a delimitação do espaço geográfico para as audições está relacionada principalmente com a dificuldade de locomoção das crianças. “Nesses anos percebemos que não adianta oferecer apenas a bolsa, é necessário dar assistência ao transporte e estar atento também a outras dificuldades enfrentadas por elas”, conta Virginia. Assim, além do transporte, despesas como alimentação durante o período em que permanecem na escola e as roupas apropriadas ao exercício da dança também são custeadas pelo próprio Studio D ou por meio de parcerias.

de Paula Soares Pilatti, idealizadora do projeto e proprietária da escola de dança juntamente com sua mãe, a ex-bailarina Dora de Paula Soares. Uma das exigências durante o processo é a idade, já que o balé requer um intenso treinamento corporal e quanto mais cedo o trabalho começar melhor. Assim, o limite fixado é entre 10 e 14 anos, sendo o ideal de 10 a 11 anos.

s pelo Projeto Social Dançando para o Futuro

Para participar do projeto, em contrapartida, as crianças têm que apresentar um bom rendimento escolar e também mostrar evolução na dança. Porém, tia Virginia, como é carinhosamente chamada pelos alunos, já concluiu que o mais importante não é formação bailarinos profissionais, e sim, essa troca partilhada por todos. “Existe um envolvimento emocional e uma integração entre todos, desde professores, funcionários e alunos”, conta. Ela destaca ainda que as crianças do projeto treinam juntamente com as que pagam pelas aulas, não existindo uma segregação, o que contribui para esse aprendizado conjunto. E para as crianças os resultados também são visíveis. “O projeto ajuda também as pessoas de fora, pois a gente aprende a respeitar as diferenças e dar valor as coisas que tem”, conta Júlia, 13 anos, aluna regular da escola, mas que não desgruda das amigas do projeto. Além disso, Virginia conta que os alunos adquirem uma nova postura para a vida. “No início eles chegam tímidos, meio corcundas e de cabeça baixa. Com o passar do tempo a postura física de cabeça erguida e peito aberto se transmuta também para a vida deles”, finaliza Virginia. Exemplos de superação Um dos dois meninos do grupo, Maicon de Oliveira, hoje com 14 anos, está no projeto há três e carrega um talento nato.

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Antes de fazer a audição e entrar no projeto do Studio D, o garoto fazia aulas de balé contemporâneo no colégio. Mas se encantou mesmo pelo clássico ao ter a oportunidade de entrar na escola. Ele explica que existe sim um pouco de preconceito por ser um menino praticando balé, por isso só conta apenas para as pessoas mais íntimas. Maicon destaca que o balé o ajudou a ter mais res ponsabilidade e também mudou o jeito de enfrentar as coisas. “Com o balé eu comecei a ter responsabilidade e uma nova postura em casa”. Carregando o sonho de se tornar profissional, o menino diz com um sorriso estampado no rosto, “eu moro lá em Piraquara e minha nova vida eu devo a tia Virginia”. Os olhinhos brilhantes de Nicole Cruz dos Santos, 14 anos, escondem um passado nem tão feliz assim. A menina entrou para o grupo em 2008 e permaneceu cerca de um ano. Após isso teve que se afastar por motivos familiares, mas sempre manteve o desejo de voltar. Retornou no ano passado, após um insistente pedido e muito choro durante uma audição para novos integrantes. Hoje, Nicole treina de segunda a sexta, uma média de três horas diárias. E para quem acha a prática muito puxada, ela traz uma resposta na ponta da língua: “eu me esforço ao máximo porque não é todo mundo que tem uma segunda chance”. Além disso, Nicole afirma que o ensino é rígido, mais difícil até do que ela pensava, mas quando se tem um sonho é necessário fazer escolhas e saber aproveitar as oportunidades.

“O projeto ajuda também as pessoas de fora, pois a gente aprende a respeitar as diferenças e dar valor as coisas que tem” 18


FLAMENCO


O DUENDE “O duende é uma sensação flamenca, quando bailaor, bailaora, cantaor, cantaora e guitarrista são consumidos pela chama do mais puro flamenco, aquele que vem desde las entranhas e transborda para a plateia, que também o sente e em um coro catártico responde um olé!” - Letícia Volpi Este ensaio foi produzido pela fotógrafa Letíca Volpi, traduzindo o duende em imagens.


Arte

Visual

paranaense Letícia Donadello Quando pensamos em cultura paranaense, mais especificamente curitibana, logo lembramos do Festival de Teatro de Curitiba, tão conhecido pelo Brasil afora. Porém, sabemos que nossa cultura é feita de muitas outras artes além da cênica. Por todo o estado, manifestam-se diferentes artes que enriquecem nosso repertório cultural. Existem diversos grupos folclóricos, músicas de raiz, pratos típicos, pontos turísticos, escritores de renome, cantores, atores, entre outros. Mas, poucos são os que lembram das artes visuais. No mais, já ouviram falar em Poty Lazarotto, um desenhista, gravurista, ceramista e muralista curitibano. Do contrário, é como se desse um branco em nossas mentes, nenhum nome vem à cabeça. Mas, existem artistas com grande talento espalhados pelo Paraná. Muitos reconhecem a dificuldade, nos dias atuais, em atingir um público que vá além dos profissionais ligados à área. “Infelizmente acho que as pessoas não percebem que há um artista por trás de cada revista, placa, cartaz ou tantas outras manifestações visuais a que elas estão expostas”, conta o

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designer Oscar Reinstein. Para Lucio Barbeiro, também designer gráfico, o grande problema é que o brasileiro lê pouco e isso afeta a cultura - o grande cliente do design. “Os executivos têm que tornar a indústria cultural um mercado atrativo e um modelo de negócio. Com isso, haverá mais trabalhos para os designers e a remuneração será maior”, diz. Tentando mudar essa realidade e difundir as artes visuais pelo Brasil e pelo mundo, Oswaldo Miranda, o Miran, vem há trinta anos produzindo as revistas Gráfica – Arte Internacional que se tornou um dos principais meios de divulgação e consagração das artes visuais do Paraná. A publicação reúne diversos artistas, desde paranaenses, brasileiros até estrangeiros; fotógrafos, tipógrafos, cartunistas, desingers, ilustradores, artistas plásticos, e propaga todo esse conteúdo pelo mundo.


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Imagens 1, 2 e 3: capas da Revista Gráfica, de Oswaldo Miranda

“A revista Gráfica chega nas mãos de muito designers estrangeiros e a sua tarefa de divulgar continua sendo cumprida. O que mais está caindo no gosto deles é a ilustração brasileira, muitos já são representados no exterior e seus trabalhos são publicados e premiados por lá, como os de Daniel Bueno, Walter Vasconcelos e Samuel Casal”, conta Miran. Esses dois artistas tiveram seus trabalhos publicados em duas edições da Gráfica.

Para aqueles que têm a oportunidade de expor suas obras em suas páginas, é um honra participar. “Para qualquer designer, fotógrafo, artista plástico, fazer parte de uma edição da revista Gráfica é um privilégio enorme. A revista é extremamente conceituada e reconhecida. O convite para sair na Gráfica, por si só, é uma honra e um reconhecimento”, afirma Oscar.

Foto: divulgação

A revista foi criada na década de 1980 e, já na sua terceira edição, recebeu uma premiação: a Medalha de Bronze na Bienal de BRNO- Tchecoslováquia. Ao longo desse percurso, Gráfica já ganhou mais de quinze

prêmios internacionais e nacionais. Surgiu em uma época de difícil acesso a informação, principalmente vinda de fora. Portanto, tornou-se referência, pois trazia justamente esse contato entre o que é nosso e o que é de fora.

Edição 75/76 da revista Gráfica

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Por Carolina Chinen


Além da Praça do Japão Para você, o que é a Praça do Japão? Talvez você diga que é uma área verde com árvores, um lago, uma “casinha” e alguns bancos onde as pessoas sentam pra conversar. Mas, para os 35 mil descendentes de japoneses que vivem em Curitiba, a praça representa um importante pedaço de sua origem. O projeto da praça foi iniciado em 1958 e concluído em 1962. Ele homenageia a imigração japonesa em Curitiba e possui lago de carpas, um Portal Japonês, um Memorial da Imigração Japonesa, uma estátua do Buda e até cerejeiras (30) enviadas pelo próprio governo do Japão. O que, certamente, você curitibano, não sabia é que há cerimônias de chá, Tai Chi Chuan, feiras orgânica e de artesanato, aulas de origami, mangá, meditação e até soroban (instrumento matemático). A questão é: quanto de cultura é preservado em 14 mil² de terra? Para os descendentes japoneses, muito. Carolina Imanishi, estudante de Relações Públicas, diz que se sente reconfortada pelo modo como a cidade lida com a cultura de seu país natal. “Vim para cá e estranhei muito a cultura brasileira. A sorte foi que encontrei vários clubes e associações japonesas aqui e, agora, me sinto mais amparada.” Ainda reforça: “A Praça, para mim, supre a saudade e a ausência de meu país porque carrega um pedacinho da minha história”. Gustavo Fuji, estudante de engenharia, frequenta o Clube Nikkei (associação japonesa) e diz que sai direto de lá com seus amigos para a Praça do Japão meditar e fazer algumas aulas de origami. Conta que sua família inteira se encontra na cerimônia do chá aos sábados e fazem as compras da semana na Feira Orgânica das quintas-feiras. Para esses estudantes, a Praça é uma ótima iniciativa pois além de fazer com que os japoneses se sintam bem-vindos, embeleza a cidade. Só lamentam o fato de não serem todos os curitibanos que respeitem o espaço. “Viemos para um país totalmente diferente e nos adaptamos, respeitamos os brasileiros. Mas parece que alguns não percebem o quanto de riqueza essa praça carrega e o quanto ela representa para nós japoneses. Alguns não estão nem aí e os jovens, principalmente, acham que é apenas um lugar para fumar e beber com os amigos. Não é certo”, reflete Tiguça Chinen, aposentada. 27


Diz aí

Laércio Ruffa em cena Diretor do curso de Artes Cênicas e do grupo de teatro da PUCPR fala da sua relação com a arte

Charge:Bindi

Por Rubia Oliva

Ao buscar qualidade de vida, Laercio Ruffa mudou-se de São Paulo para Curitiba. Veio com o objetivo de fazer um ano sabático: meditar, repensar, procurar sua essência. Encantou-se pelo novo endereço e, após o período de um ano, decidiu não voltar para sua cidade natal. Mesmo não conhecendo ninguém em Curitiba, refez seu currículo e foi bater de porta em porta a procura de

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emprego. Nesse processo descobriu que a atuação era o caminho para sua verdadeira vocação: ser diretor. Também contou com a sorte. “É aquilo de estar no lugar certo, na hora certa”, diz. Ao contrário do que muitos afirmam sobre o povo curitibano, foi muito bem acolhido na capital paranaense. E assim, conseguiu se estabelecer, criar relacionamentos e construir sua carreira.


“Acredito que a nossa profissão é a arte da insistência”

Artes Cênicas da PUCPR, cuja primeira turma teve início em 2010. Apaixonado pela arte da representação, ele define o teatro como uma linguagem que significa possibilidades. “O teatro para mim é a arte da transcendência. É ter outra possibilidade de vida, outra possibilidade de enxergar o mundo. Enfim, outra possibilidade de dizer para o mundo o que você pensa”, explica. E esse universo de possibilidades só acontece porque o ator empresta seu corpo para a personagem. “O ator acaba sendo um canal nesse processo de criação. Mas, para que esse empréstimo do corpo ocorra, é necessário estudar bastante, ler e pesquisar. Somente a partir de muito estudo é possível criar esse espaço para a personagem poder viver. E tudo isso inclui um trabalho de pesquisa muito intenso, porque não é só o corpo, é a voz e o pensamento inteiro que vai refletir nessa construção”, afirma. Portanto, arte é, sobretudo, possibilidade. O professor destaca que na correria do dia-a-dia as pessoas não têm tempo de parar para dialogar com a arte justamente por terem um interesse mais imediato: o consumo. Em contrapartida, a arte não tem esse interesse. Ela tem o objetivo de aguçar a sensibilidade, de refinar o pensamento.

Vocação! Essa é a palavra chave no vocabulário de Ruffa. Com uma vasta história ligada ao teatro, ele conta que sua relação com a arte começou desde cedo, ainda no primário, quando declamava nas festas escolares: “me chamavam porque eu tinha facilidade de decorar e também era criativo. Eu fazia alguns roteiros, encenava e dirigia”. Outra grande influência ligada à sua infância foram as aulas de música, mais especificamente de acordeon clássico dos 8 aos 15 anos. Considerando dança e música intrinsecamente ligadas, o menino começou a se perceber como um artista intuitivo. Na adolescência criava coreografias e tinha plateia certa: sua família. Suas pequenas apresentações não eram exatamente uma dança, “eu até poderia falar hoje que seria dança contemporânea, mas o interesComo um entusiasta do teatro e das sante é que não havia textos. Eu contava para mais diversas formas de arte, Laercio destaca a minha platéia aquilo que eu queria dizer o quão difícil é viver da profissão de ator no por meio do meu corpo”, comenta. Brasil. “Vivemos em um país onde a profissão Assim, aos poucos, o teatro foi en- não é respeitada, não tem incentivo. Você trando na sua vida para se tornar sua grande tem que matar um leão todo dia. É diferente realização. Formado em Jornalismo, por in- em um país onde as pessoas têm hábito de ir fluência da família, mas com especialização ao teatro, a museus e óperas. É diferente do em Teatro pela USP, sua trajetória profissional que você estar num país onde a prioridade é incluiu a passagem por grupos de teatro ama- comer. Se a minha prioridade é comer, então, dor e depois a direção em cursos da Secreta- não vai dar para ir ao teatro. Nem penso nisria de Estado da Cultura, ministrados no inte- so! Não sobra nem tempo nem dinheiro para rior de São Paulo. Ao se mudar para Curitiba, pensar nisso. Então, a escolha que a gente trabalhou como ator e conjuntamente como faz por ser ator, mesmo morando nessa reassistente de direção. Essas atividades cul- alidade, é uma resposta à nossa própria vominaram em sua entrada no Tanahora, grupo cação. Por isso tem que batalhar, insistir e de teatro experimental da PUCPR, onde atua persistir. Acredito que a nossa profissão é a como diretor artístico há 24 anos. Laercio é arte da insistência! E se você responder à sua também diretor do curso de graduação em vocação você vai ocupar o teu lugar”.

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Uma conquista, diferentes culturas

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O folclore continua vivo na capital paranaense Segundo o pesquisador Marlos Simões, folclore é o “conjunto das tradições, lendas ou crenças populares de um país expressas em danças, provérbios, contos ou canções”. O que os curitibanos não sabem é que a capital paranaense é palco de 16 culturas diferentes, difundidas através dos imigrantes, descendentes e simpatizantes dos grupos folclóricos. Dentre os mais conhecidos, estão os grupos Wisla e Junak, da Polônia – reconhecidos, inclusive, pelo governo da Polônia – o Germânico Alte Heimat e o Original Einigkeit Tanzgruppe, da Alemanha, o Alma Lusa, de Portugal, o Barvinok da Ucrânia, o Giardino D’Amuri da Itália, o Centro Cultural Boliviano do Paraná e, por último, mas não menos importante, o Folclore Grego Neoléa do Paraná. A cultura também é resgatada pelos famosos CTGs - Centros de Tradição, sociedades civis sem fins lucrativos que buscam divulgar as tradições, o folclore e os costumes do país de origem. Na cidade, o CTG Gaúcho e o Nordestino são os mais conhecidos. A capital abriga também os espanhóis e japoneses, com o Centro Espanhol do Paraná e a Associação Cultural e Beneficente Nipo-Brasileira de Curitiba, o famoso Clube Nikkei. Este, localizado no Uberaba (curiosamente, o bairro com mais imigrantes japoneses), promove atividades tradicionais como esportes, golfe e artes marciais, mas também costumes do país, como o Ikebana Ikenobo e Ohara-Ryu (artes do arranjo floral), os bingos, ensaios de canto e danças típicas da região de Okinawa, conhecido como o antigo Reino de Ryukyu. Aulas em japonês no curso Bunkyo e danças típicas do Japão também são oferecidas. Carolina Tannouri, estudante de Relações Públicas e frequentadora do grupo há

um ano, conta que o Matsuri é a sua paixão. “A dança tradicional Odori e os mangás me encantam. O que mais gosto são as apresentações nos festivais de Matsuri. Uma vez até ganhei o concurso de Cosplay, fui vestida de Sakura.” O festival celebra a imigração japonesa e está indo para sua 23ª edição o último aconteceu no dia 30/06 no MON - Museu Oscar Niemeyer, no Centro Cívico. O concurso premia quem estiver melhor caracterizado como um personagem japonês. Luana Almeida, frequentadora do Centro Espanhol do Paraná há 6 meses, conta que não tem descendência espanhola, mas simpatiza com a cultura deles. A atividade que ela realiza no Centro é a aula de dança galega, a tradicional dança com os braços levantados, em que não há coreografia, os movimentos são passados a cada geração. “Gosto desse costume por sua origem: a mulher que dançava melhor em festas de casamento colocava o pão típico da região em sua cabeça. Mas o mais encantador é ver a dedicação dos folcloristas em manter os costumes de seus países”, diz Luana. Diz a lenda que se o pão cair, haverá má sorte no casamento. Mais uma surpresa para quem não acreditava na força do folclore em Curitiba: a capital sedia há 51 anos o Festival Folclórico e de Etnias do Paraná, em que aproximadamente grupos de 20 países diferentes tentam manter viva a cultura de suas origens através do canto e da dança. Como diz o ditado popular, “conhecendo o folclore de um país, podemos dizer que compreendemos seu povo e, ao mesmo tempo, parte de sua história”.

Carolina Chinen

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HUMM...

O NOSSO BARREADO Por Virginia Crema

A história e a receita dessa comida típica paranaense

Descer a Serra do Mar num Domingo de sol quente para provar o Barreado de Morretes, Antonina ou Paranaguá é um programa que se faz necessário ao menos uma vez na vida de um paranaense. O problema é que a primeira, nunca será a única degustação desse prato saboroso, preparado com carne, toucinho e temperos típicos do Paraná e servido com banana e farinha de mandioca. Segundo a historiadora Maria Henriqueta S. G. Gimenes, doutora em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), há um consenso de que o Barreado é preparado há praticamente 200 anos no litoral paranaense, especialmente em Antonina, Guaraqueçaba, Guaratuba, Morretes e Paranaguá. O prato típico, de influ-

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ência portuguesa, é “advindo do costume açoriano de “barrear” a tampa com grude de farinha e água, para cozinhar até desfiar nos vapores quentes, carnes temperadas com especiarias, servidas em dias de festas”, complementa. Comida típica dos cablocos do litoral, o prato subiu de estatus social com as festas de carnaval, ironicamente pelo preconceito e repulsa das famílias nobres ao Fandango. Segundo a Dra. Maria Henrique, certas famílias tradicionais não queriam que seus filhos se contaminassem com os festivos carnavalescos, para eles completamente imorais. Com o intuito de fugir dessas festividades, se recolhiam em seus sítios, cuidados pelos caboclos. “Sem muito que fazer por lá, saíam visitar as famí-


HUMM... lias caboclas e começaram a provar do “guisado” cozido em panela de barro, tampada e barreada. Gostaram muito; convencendo-se que, de fato, a comida assim preparada, tornava-se mais gostosa”, explica. De um lado o barreado se tornava conhecido pelas famílias tradicionais litorâneas, de outro, servia para energizar quem há muito já sabia que barreado requentado não perde o gosto e é a melhor comida para quem dança e festeja o carnaval inteiro. Conta-se que as mulheres caboclas preparavam o barreado para os três dias de festa, assim dançavam e se divertiam sem se preocupar com nada mais. Hoje fica fácil provar dessa delícia, nos restaurantes de Morretes. A procura pelo prato gira em torno de 95% do total de pedidos no dia, e proprietários e garçons defendem que o bom barreado só se tem lá, “fora daqui não tem barreado, só imitação e olhe lá”, assegura Leleco o garçom mais famoso do Restaurante Madalozzo, Morretes. Com 74 anos de idade, ele serve barreado há 39 anos e é o responsável pela alegria do restaurante. Ao servir o prato, ele vira a mistura do barreado com a farinha de mandioca na cabeça do cliente, “se não cair é porque está bom”, completa.

Foto: divulgação.

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s o 達 m r i Os mann u h c S

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Mais conhecidos como irmãos Schumann, Willy e Werner nasceram em União da Vitória, cidadezinha do sul do Paraná. Após três anos, em 1968, a família mudou-se para Curitiba. Atualmente, Werner mora na Inglaterra e Willy, que chegou a morar em Munique, na Alemanha, voltou a morar na capital paranaense. Werner estudou fotografia, roteirização e montagem na Fundação Cultural de Curitiba e Willy é formado em Jornalismo, diretor de cinema e produtor audiovisual. Os dois já desenvolveram vários projetos juntos, entre eles os filmes “De Bona - Caro Nome” (vencedor do Prêmio Fiat do Brasil), “Ervilha da Fantasia” (sobre o poeta Paulo Leminski), “Pioneiro do Cinema” (vencedor do Prêmio do Governo do Estado do Paraná e do Tatu de Ouro de Melhor Ficção na XXI Jornada Internacional de Cinema da Bahia), entre outros.

ava de cine st o g e u q u e eb Quando perc ma? mos a de 80. Éra d a c é d a d s do ssibilidaFoi em mea obrimos a po sc e d e s n e v , através muito jo bitola 8 mm a n s e lm fi r ca do de de faze ela Cinemate de p s o id v o m emateca de cursos pro ro, atual Cin ia V o id u G Museu Curitiba.

Foto: divulgação

Qual o prêmio recebido que mais te surpreendeu, que achava que não iriam ganhar? Foi no inicio da década de 90. prêmios que no Um dos s surpreendeu fo i o troféu “Tatu de Ouro” de Melhor Ficç ão Jo na XXI rn ad a A seguir vocês lerão a entrevista que Internacional de C in em a da pe lo Bahia filme “Pioneiro fizemos com o cineasta Willy, que conta um do Cinema”, qu ro teirizado, diri e foi pouco sobre sua história e sua vivência no gido e interpre tado por nós. mundo do cinema.

ditas trabalhos, acre ro ei im pr us se Em iam tão longe? vam que chegar e nos os a respeito. O qu am áv ns pe o nã s Nó uma ia de se contar ag m a a er a av fascin ética. construção imag história através da

Como é trabalh ar

com seu irmão? Werner e eu so mente trabalha mos juntos quando há um projeto fílmic o de interesse comum. Trabalhar com ele é ótimo porque é um ho mem centrado na quilo que faz. Temos uma relação de mui ta amizade e cumplicidade. O cineasta Willy Schumann

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Poderia faze r um comen tário sobre filme “Ervilh o a da Fantasi a”, vencedo do Curitiba A r rte10? O filme “Ervil ha da Fantasi a”, que é co produzido por mim e dirigid o pelo Werner, foi feito sem pretensão algu ma. Queríamos registrar o pensamento do poeta Paulo Leminski q ue tínhamos contato e no fascinava pela s sua obra.

e você erença qu o e o if d l a ip c rin brasileir Qual a p o cinema e r t n e a c identifi terior? cinema ex o do cinea brasileir m e in c o linguare no é a sua O que dife a c ri e m a o a luz u ou ma europe to cultural. Até mesm peia ósi euro gem e prop nte da luz re e if d m e b tropical é a. n a c ri e ame

ritibano rga o cinema cu Como você enxe país? da produção do o st re o e nt ra pe espaço. e vem ganhando É um cinema qu filmes to que se produz en om m do ir rt pa A crítinha o respeito da ga se e, ad id al de qu de enente acaba indo ca e consequentem lógido ca ssibilidade mer contro a uma po lu no gar oduzir um filme pr de po cê Vo . ca e tiver aneta, mas se el pl do o ot m re s mai paço. ia ele terá seu es alguma consistênc

Está com algum p to? rojeto e m anda menEstou fin alizando o longa sica & V met iolê quatro m ncia” que conta ragem “Múús a história Curitiba. icos matadores de de alugu Este film el em e ainda são de la não tem nçament previo.

Em que fase acre dita que o cinem a brasileiro se encont ra?

O cinema brasile iro é um cinema de muitas fases. Enquan to indústria de en tretenimento ainda nã o se estabeleceu e ainda vai levar m isso uito tempo. Apen as um filme ou outro acaba virando de staque internacional e consequentemen te terá uma carreira mai s longa.

Qual o seu sonho? de ário dar continuida Creio que é necess do iciamos ainda quan ao trabalho que in in uz od pr r é continua garotos. Meu sonho O . as ci das circunstân do, independente ra ante estimulante pa sonho é um import que almejamos. materializar aquilo

O cineasta Willy também trabalha em sua produtora “041 Cine & Vídeo” e possui uma coluna no site Paraná Online. Letícia Donadello

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PRATELEIRA

Realidade do Sertão Sem fim S e você já leu as obras de Ariano Suas-

suna ou Graciliano Ramos, com certeza já imaginou como o sertão árido descrito nas obras literárias. O livro fotográfico “Sertão Sem Fim”, do fotógrafo Araquém Alcântara, transforma essa imaginação em realiodade, proporcionando ao leitor imagens que ilustram bem as passagens literárias. No início, Araquém se destacou na fotografia de natureza, mas depois de 40 anos na área, decidiu tomar outro rumo, focando agora no olhar humano. Foram mais de dois anos de produção, viajando pelo Brasil em busca da foto perfeita, que se encaixasse com as imagens retratadas nas obras literárias. “De onde saem os grandes, talvez os maiores brasileiros, profetiza. Na caatinga, até as folhas tem espinho. Os homens tem uma resistência que é um bom exemplo para toda a humanidade”. O fotografo procurou retratar imagens que as pessoas nunca

viram, visitando locais desconhecidos pelas pessoas, revelando lugares que não estão no mapa. Afirma o produtor, que possui o livro de fotografia mais vendido no Brasil, “Terra Brasil”, com mais de 100 mil cópias vendidas. O livro é resultado de 12 viagens, passando por 8 estados brasileiros,entre o norte de Minas Gerais e o interior de Piauí. São 90 fotos em preto-e-branco fotografadas sem tecnologia digital. As 90 fotos do livro foram selecionadas entre 7 mil tiradas durante a expedição para formar o livro. A obra foca não só nas paisagens, mas principalmente dando ênfase nos poucos personagens que surgem no caminho de Alcântara. O objetivo é mostrar a pobreza, sofrimento e desamparo e a disputa de terras que acontecem na região. É uma dica de leitura para quem gosta da nostalgia que a fotografia proporciona, levando o leitor para uma viagem nas dunas áridas do interior do Brasil.

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COOLTURA