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Reflexões sobre a metrópole (2016): (Uma) Arquitetura para além do lote na Rua Augusta Vinicius Algarte Quirino Orientadora: Profa. Dra. Lizete Maria Rubano

Trabalho Final de Graduação (TFG) Universidade Presbiteriana Mackenzie Faculdade de Arquitetura e Urbanismo São Paulo, 2016


Sumário

Prefácio 07

Parte 1: Reflexões sobre a metrópole (2016)

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Parte 2: (Uma) Arquitetura para além do lote na Rua Augusta

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Prefácio

O presente trabalho está organizado em duas partes. A primeira, “Reflexões sobre a metrópole (2016)”, consiste no resultado de pesquisa de Iniciação Científica realizada pelo autor, entre os meses de agosto de 2015 e julho de 2016, com o apoio do CNPq e a orientação da Prof. Dra. Lizete Maria Rubano, sob o título: “MORTE E VIDA DE GRANDES CIDADES: como atualizar os conceitos de Jacobs para a São Paulo de 2016?”. Trata-se de retomada do debate histórico, no âmbito do urbanismo, acerca do tema da cidade real (mais humana), com ênfase em ideias críticas ao urbanismo moderno (racional, funcionalista, voltado para o automóvel), tendo como ponto de partida o livro de Jane Jacobs: “Morte e Vida de Grandes Cidades”, publicado originalmente em inglês, em 1961. Além da discussão teórica, são apresentados dois estudos de caso - um sobre trecho da Av. Prof. Alfonso Bovero, e outro sobre trecho da Rua Augusta - realizados a partir de levantamentos e registros imagéticos que compõem uma experimentação metodológica de leitura e apreensão do espaço urbano. Aqui faz-se necessária uma observação: embora o foco desta monografia seja o estudo sobre o trecho da Rua Augusta, optou-se por manter na íntegra ambos os estudos de caso (inclusive aquele da Av. Prof. Alfonso Bovero) pois acredita-se que no desenrolar de ambos estão presentes raciocínios e conceitos que foram de fundamental importância para o trabalho que se apresentará na segunda parte deste volume. A segunda parte consiste na apresentação de exercício realizado entre os meses de fevereiro e novembro de 2016, na disciplina de projeto, como 7


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parte integrante do Trabalho Final de Graduação (TFG), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie (FAU-Mackenzie). Por abordarem, ambos, o tema da cidade contemporânea e suas nuances e, por terem sido realizados, em boa parte, concomitantemente, a pesquisa apresentada na primeira parte serviu de referência para o desenvolvimento do projeto apresentado na segunda, e vice-versa, como se poderá notar no decorrer da leitura, assim se espera.

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“[...] O mundo ganha sentido por ser esse objeto comum, alcançado por meio das relações de reciprocidade que, ao mesmo tempo, produzem a alteridade e a comunicação. É desse modo, ensina G. Berger (1964, p. 15), que o mundo constitui ‘o meio de nos unir, sem nos confundir’. (SANTOS, 2006, 2012, p. 317)

“[...] Se haverá um novo urbanismo [este] não vai se basear nas fantasias gêmeas da ordem e da onipotência, mas será o protagonismo da incerteza. Não deverá se preocupar com a criação de objetos mais ou menos permanentes, mas com irrigar potencial em territórios.” (KOOLHAAS & MAU, 1997, pp. 969-971 - tradução livre)


Parte 1 Reflexões sobre a metrópole (2016)


Morte e vida de grandes cidades: como atualizar os conceitos de Jacobs para a São Paulo de 2016? Vinicius Algarte Quirino (IC) e Lizete Maria Rubano (orientadora) Apoio: PIBIC CNPq

Resumo: O presente artigo (apresentado como resultado da pesquisa de Iniciação Científica e que vai compor esta monografia) propõe a atualização das discussões em torno de espaços públicos em grandes cidades, levantadas por Jane Jacobs no livro “Morte e Vida de Grandes Cidades” (1961), a partir de leituras complementares selecionadas e de levantamento de campo – trabalho empírico – estruturado por observação e registro de trechos de território urbano, na conjuntura da cidade de São Paulo, entre os anos 2015 e 2016. Partindo da contextualização histórica da obra de Jacobs foi possível identificar vertentes/tendências de pensamentos – e suas contradições – sobre as qualidades sócio-econômicas-espaciais desejáveis em aglomerações humanas/urbanas em constante crescimento. Como exercício de aproximação do território, foram concebidos dois estudos de caso – aqui apresentados – sobre regiões específicas da cidade de São Paulo, representadas por pequenos trechos de ruas (no distrito Perdizes/“Sumaré”: Avenida Professor Alfonso Bovero; e no distrito Consolação/“Baixo Augusta”: Rua Augusta), selecionadas criteriosamente de acordo com referências 15


teóricas e o auxílio de dados demográficos e territoriais fornecidos por órgãos públicos. A combinação entre leituras, visitas aos locais, registros e levantamentos realizados sobre o território, possibilitou a formulação de discussão, ampla e plural, sobre as características e qualidades dos espaços públicos observados (e de arquiteturas, sob a ótica urbana, coletiva), assim como a realização de reflexões, constatações e considerações sobre os trechos urbanos estudados, apresentadas na parte final deste trabalho.

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Introdução

Tudo indica que nas próximas décadas habitaremos cidades cada vez mais populosas, com problemas tão complexos quanto os que enfrentamos hoje, ou ainda mais complexos. Resta-nos, portanto, buscar entender as causas de tais problemas urbanos, para descobrir como podemos evitá-los, ou minimizá-los, com o intuito de vivermos melhor em cidades mais humanas, agradáveis, seguras e saudáveis. É nesse âmbito que se evidencia a relevância de investigações sobre territórios urbanos como São Paulo, suas complexidades, suas urbanidades, as disputas que ali tomam lugar, seus problemas e soluções. O tema da cidade real foi, retomando o debate histórico, recuperado pelas publicações da última fase dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna entre 1951 e 1959, evidenciando pontos de discordância entre os membros fundadores (mais antigos, como Le Corbusier), as gerações “do meio” – Sert, Rogers, Grupo MARS – e a “jovem” (Team 10), abrindo caminho à superação da rigidez do modelo funcionalista e à retomada da problemática da cidade tradicional. (RODRIGUEZ SOSA; SEGRE, 2009, p.5) As gerações mais jovens, pouco a pouco, levantavam questionamentos que, principalmente após o CIAM 8 (The Heart of The City, O Coração da Cidade), levariam à crise da ideia de Cidade Funcional. RODRIGUEZ SOSA e SEGRE os agrupam em quatro temas, a serem considerados como “discussões transgressoras de ruptura”. “Esses quatro temas ou “discussões transgressoras” que caracterizam o contexto de ruptura dos CIAM são a semente que fez surgir novas 19


direções pós-CIAM tanto de mãos de membros como não-membros dos CIAM”. (RODRIGUEZ SOSA; SEGRE, 2009, p.13)

A primeira trata de “concepção por escalas versus concepção por funções”. Para os grupos Team 10 e MARS o “habitat” era bem mais do que apenas a zona onde se mora ou mesmo a casa, mas abarcava também o âmbito de comunidade. Apontavam para a importância de o espaço urbano ser encarado como gerador de relações humanas. A segunda discussão girava em torno do “centro comunitário versus centro cívico”. A ideia de núcleo como um grande “centro cívico” não interessava às gerações mais novas preocupadas com as questões do viver coletivo e dos espaços públicos onde se davam as relações humanas. Afinal, onde se encontra o “coração da cidade”? A terceira, “rua versus quadra”, se refere à rua - seguida do bairro - como organizadora dos espaços da cidade de acordo com uma escala menor, mais próxima do conceito de comunidade – que dessa maneira aproxima a arquitetura do desenho urbano, este mais amplo –, em oposição à quadra ou super-quadra e os conjuntos habitacionais que o fazem numa escala maior, impessoal. A quarta e última “discussão transgressora” tratava justamente dos “valores culturais versus valores funcionais”, sobre a relação do homem com o espaço, o sentido de apropriação e identificação entre o ser e o meio. “O CIAM 10 (Dubrovnik, 1956), foi organizado pelos arquitetos do Team 10 que propuseram a discussão da questão do Habitat em novos termos, questionando o rigor das categorias funcionais impostas pelos líderes do CIAM para a discussão da cidade e trazendo para o debate a questão da identidade, dos valores culturais e da associação humana como princípio básico do urbanismo”. (RODRIGUEZ SOSA; SEGRE, 2009, p.13)

Ainda de acordo com RODRIGUEZ SOSA e SEGRE, sobre as quatro “discussões transgressoras” dos CIAM: 20


“O fator comum que integra estas discussões é o foco no elemento humano, na associação humana, que resulta do interesse em retomar a cidade existente como foco de atenção”. (RODRIGUEZ SOSA; SEGRE, 2009, p.13)

Os pensamentos e constatações de Jane JACOBS (em Morte e Vida de Grandes Cidades) - escritos entre 1958 e 1961 - se alinham àqueles da “geração jovem” dos CIAM em muitos pontos. Já na introdução, JACOBS deixa claro o desacordo com o modelo de planejamento urbano chamado “moderno” baseado no funcionalismo: “Este livro (...) é uma ofensiva contra os princípios e os objetivos que moldaram o planejamento urbano e a reurbanização modernos e ortodoxos. Ao apresentar princípios diferentes, escreverei principalmente sobre coisas comuns e cotidianas, como, por exemplo, que tipos de ruas são seguros e quais não são; porque certos parques são maravilhosos e outros são armadilhas que levam ao vício e à morte; (...) escreverei sobre o funcionamento das cidades na prática, porque essa é a única maneira de saber que princípios de planejamento e que iniciativas de reurbanização conseguem promover a vitalidade socioeconômica nas cidades e quais práticas e princípios a inviabilizam.” (JACOBS, 2001, p.1)

Essa vertente do debate levou à valoração de um caminho quase “natural” para entender as potencialidades e necessidades de uma cidade: o de observá-la e à vida que ali acontece. Françoise CHOAY, em “O Urbanismo”, de 1965, (CHOAY, 2002, p.293) identifica e nomeia três vertentes na obra de JACOBS, sendo: I – Apologia da Rua, II – Parques e Squares e III – Funções Urbanas. CHOAY subdivide “Apologia da Rua” em pequenos textos que explicam basicamente a importância da rua como item organizador da vida pública – próximo ao que defendiam o Team 10, na “discussão transgressora” dos CIAM “rua 21


versus quadra” supracitada – bem como espaço mantenedor da segurança em uma cidade. No trecho nomeado “O contato na rua e a consciência coletiva” os fatos e encontros cotidianos que gerariam um sentimento de comunidade, coletivismo e pertencimento (assunto também caro às novas gerações dos CIAM) são resumidos por CHOAY com base nos escritos de JACOBS: “A maior parte desses atos e ditos são manifestamente triviais, mas a soma deles não o é. Ao nível do bairro, o conjunto dos contatos fortuitos e públicos, geralmente espontâneos*, é que cria nos habitantes o sentimento da personalidade coletiva e acaba por instaurar esse clima de respeito e de confiança cuja ausência é catastrófica para uma rua, mas cuja procura não poderia ser institucionalizada*”. (CHOAY, 2002, p.295)

Outra opinião partilhada por JACOBS e a “geração jovem” dos CIAM é a oposição à ideia de setorização das cidades de acordo com suas funções. As funções principais – porém não únicas – de uma cidade (habitar, trabalhar, o lazer e o transporte) devem coexistir e se permear ao máximo para gerar condições sustentáveis para a vida urbana coletiva. Para JACOBS a diversidade – em todos os âmbitos – concentrada é a chave para uma cidade agradável, salubre, sustentável e viável social e economicamente. Para criarmos e mantermos a diversidade em nossas cidades JACOBS aponta, já em 1961, quatro condições indispensáveis que deveriam acontecer concomitantemente: “1. O distrito, e sem dúvida o maior número possível de segmentos que o compõem deve atender a mais de uma função principal; de preferência, a mais de duas. Estas devem garantir a presença de pessoas que saiam de casa em horários diferentes e estejam nos lugares por motivos diferentes, mas sejam capazes de utilizar boa parte da infra-estrutura. 2. A maioria das quadras deve ser curta; ou seja, as ruas e as oportuni22


dades de virar esquinas devem ser frequentes. 3. O distrito deve ter uma combinação de edifícios com idades e estados de conservação variados, e incluir boa porcentagem de prédios antigos, de modo a gerar rendimento econômico variado. Essa mistura deve ser bem compacta. 4. Deve haver densidade suficientemente alta de pessoas, sejam quais forem seus propósitos. Isso inclui alta concentração de pessoas cujo propósito é morar lá”. (JACOBS, 2001, p.165)

Ao propor a atualização dos conceitos de JACOBS na cidade de São Paulo, em 2015, a discussão adquire nova e mais ampla complexidade. Os processos de produção são outros, o tempo e sua percepção são diferentes daqueles na década de 1960, bem como a percepção e uso dos espaços nessa metrópole. O espaço público, por se tratar de espaço para todos, está sujeito às diferentes interpretações possíveis e, por consequência disso, sua concepção se altera de acordo com quem o produz e o utiliza, suas próprias noções de tempo e de espaço e suas intenções. “Sob a superfície de ideias do senso comum e aparentemente ‘naturais’ acerca do tempo e do espaço, ocultam-se territórios de ambiguidade, de contradição e de luta. Os conflitos surgem não apenas de apreciações subjetivas admitidamente diversas, mas porque diferentes qualidades materiais objetivas do tempo e do espaço são consideradas relevantes para a vida social em diferentes situações. Importantes batalhas também ocorrem nos domínios da teoria, bem como da prática, científica, social e estética. O modo como representamos o espaço e o tempo na teoria importa, visto afetar a maneira como nós e os outros interpretamos e depois agimos com relação ao mundo”. (HARVEY, 2008, p.190)

A partir daí, o desenho do espaço ou espacialidade que se pode criar em algumas circunstâncias adquire real e ampla importância para os âmbitos 23


sociais, políticos, econômicos e culturais como elucida HARVEY quando se reporta ao: “(...) modo como diferentes formas de espacialização inibem ou facilitam processos de mudança social”. (HARVEY, 2008, p.192)

Apoiado no conceito de juízo estético de KANT, HARVEY complementa: “Os juízos estéticos (bem como as práticas artísticas “redentoras”) foram introduzidos como poderosos critérios de ação política e, portanto, social e econômica. Se o julgamento estético dá prioridade ao espaço, as práticas e conceitos espaciais podem, em certas circunstâncias, assumir papel central na ação social”. (HARVEY, 2008, p.192)

Em suma, HARVEY argumenta que o controle do espaço (nesse ponto, arquitetos e urbanistas têm um papel particularmente relevante, ao menos no âmbito de propostas), do tempo e do dinheiro e de todos esses elementos juntos ou de qualquer um deles resulta em poder social. Desse modo: “As práticas temporais e espaciais nunca serão neutras nos assuntos sociais; elas sempre exprimem algum tipo de conteúdo de classe ou outro conteúdo social, sendo muitas vezes o foco de uma intensa luta social”. (HARVEY, 2008, p.218)

Retomando as preocupações acerca da experiência urbana contemporânea em São Paulo é correto afirmar que boa parte da produção arquitetônica e de construção revela o descaso para com o espaço urbano público e, portanto, para com a realização ou manutenção da cidade. Embora o discurso de HARVEY esteja associado primordialmente à luta de classes – à ideia de disputa pelo espaço e de seu controle –, enquanto os pensamentos de JACOBS permeiam questões empíricas da experiência urbana, ambos evidenciam o fato de que nenhuma espacialidade construída fisicamente (arquitetura e construções) pode ou deve ser encarada ou “lida” com ingenuidade. 24


A partir das formulações acima apresentadas, o questionamento central da pesquisa - ou problema de pesquisa – traduz-se em dois pontos. O primeiro trata de identificar quais conceitos da obra de JACOBS podem ser percebidos no cotidiano (de trechos) da cidade de São Paulo em 2015. O segundo busca compreender – a partir da observação das dinâmicas de uso do espaço – como esses conceitos influenciam a (ou dão suporte à) fruição da vida pública urbana. “Por enquanto, o lugar –não importa sua dimensão– é a sede dessa resistência da sociedade civil, mas nada impede que aprendamos as formas de estender essa resistência às escalas mais altas. Para isso, é indispensável insistir na necessidade de conhecimento sistemático da realidade, mediante o tratamento analítico desse seu aspecto fundamental que é o território (o território usado, o uso do território)”. (SANTOS, 1998, p.19)

Os objetivos gerais da pesquisa consistem em identificar e tornar visíveis, a partir de observação e vivência espacial, soluções de desenho arquitetônico e urbanístico que carregam em si o potencial de dar suporte à fruição da vida pública nas cidades, com a consciência de que tais práticas isoladas são incapazes de transformar cidades, mas podem colaborar no processo de torná-las melhores para a vida humana e o meio ambiente e, além disso, sempre carregam um discurso ou vontade social por parte daqueles que as promovem. Pretende-se, como objetivo específico, documentar e analisar trechos da cidade de São Paulo a partir de conceitos abordados na obra de Jane JACOBS ("Morte e Vida de Grandes Cidades") atualizados para o tempo e espaço de São Paulo, 2015, sempre tendo em vista aspectos da forma urbana e das arquiteturas construídas.

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Referencial teórico

Para a contextualização histórica, o artigo de RODRIGUEZ SOSA e SEGRE foi de suma importância, principalmente, pela síntese oferecida sobre os questionamentos empreendidos pelos grupos mais jovens participantes dos CIAM´s, bastante alinhados ao discurso de J. JACOBS, resumidos sob a expressão “discussões transgressoras de ruptura”. (RODRIGUEZ SOSA; SEGRE, 2009, p.13). A obra de HARVEY colaborou ao evidenciar que, sob o aspecto social, não há neutralidade nas “práticas espaciais”, isto é, há sempre um ator e uma intenção por trás de cada ação, por mínima que seja. (HARVEY, 2008, p.218) Simultaneamente, CACCIARI (2010) e o conjunto de autores da obra Mutations (2000) (entre os quais, KOOLHAAS) enriqueceram o debate, multiplicando os pontos de vista a partir de interpretações complexas sobre as cidades-metrópoles contemporâneas. Exemplos narrados por CHOAY (2002), reflexões propostas por GUATELLI (2012), além de pensamentos e conceitos explicitados por SANTOS (1978, 1998, 2006, 2012), como “a força do lugar”, “verticalidades”, “horizontalidades” e “rugosidades”, reafirmaram a importância e a potência da aproximação física/cotidiana na leitura e na compreensão do espaço/ território - implícita na obra de JACOBS (2001).

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Metodologia

Após aprofundamento do conhecimento sobre o tema, obtido a partir da leitura de bibliografia selecionada, foram realizados dois estudos de caso em regiões específicas da cidade de São Paulo, com foco nas relações entre arquitetura e espaço público e na maneira como as pessoas os utilizam. A primeira região estudada se situa no bairro Perdizes/Sumaré e consiste no trecho da Av. Prof. Alfonso Bovero entre as ruas Apinajés e Plínio de Morais. O segundo recorte abrange parte da Rua Augusta, trecho (entre as ruas Costa e Dona Antônia de Queirós) em transformação rápida e agressiva pelo processo de verticalização impresso por construtoras. O critério para a escolha dos locais foi, primeiramente, a identificação do “calor cívico” (CULLEN, 2010, p.137) existente nas áreas, ou seja, do intenso uso de caráter público. Buscou-se também identificar dinâmicas urbanas de interesse, como o processo de transformação vigente na Rua Augusta, citado anteriormente. Além disso, na definição do primeiro recorte (Av. Prof. Alfonso Bovero) considerou-se a escala de bairro – um conjunto de características que fazem daquele espaço uma centralidade para uma parcela de pessoas – ou o “habitat” que abrange o “âmbito de comunidade” defendido nos CIAM pelos grupos Team 10 e MARS. Outros critérios utilizados foram: uso predominante do solo: misto (residencial, comércio e serviços) com gabaritos e tipologias variados em ambos os recortes (Fonte: Emplasa); localização: ambos estão próximos ao centro original, dentro de um raio de 5 km a partir da Praça da Sé; densidade: número semelhante em ambos os distritos (Fonte: IBGE - Censo 2010) e; consolidação dos distritos: ambos consolidados quanto ao parcelamento do solo (ou à malha viária) e quanto à ocupação do solo (embora a Rua Augusta passe por transformação acelerada). 29


Como meio de aproximação dos territórios selecionados, foram criados dois levantamentos de uso e ocupação do solo a partir de bases cartográficas do Mapa Digital da Cidade (MDC), obtidas em site da Prefeitura do Munícipio de São Paulo. Essas peças gráficas foram construídas tanto a partir de visitas aos locais acima descritos, quanto com o auxílio de ferramentas de visualização do território (por meio de fotografias e modelos tridimensionais computadorizados) disponíveis na internet como Google Maps e Google Street View. A combinação das informações obtidas por meio dos levantamentos de uso e ocupação do solo, das impressões e constatações obtidas durante visitas (diurnas e noturnas) aos locais de estudo e, do embasamento teórico proporcionado pela leitura de bibliografia sobre o tema, permitiu, por fim, a redação do presente artigo.

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Abaixo: esquinas entre Av. Prof. Alfonso Bovero e Rua Apinajés: edifícios de uso misto; Mais abaixo: esquinas entre Av. Prof. Alfonso Bovero e Rua Plínio de Moraes: espaços agradáveis e diversidade urbana: açougue, lojas, apartamentos, pilates, mecânica...

(Imagens: Google Street View)


Resultados e discussão

Avenida Professor Alfonso Bovero Após a realização de levantamento de uso e ocupação do solo (imagem ao final deste estudo de caso) no primeiro trecho estudado, na Av. Prof. Alfonso Bovero, foi possível identificar a situação urbana em relação às quatro condições para o florescimento da diversidade urbana apontadas por JACOBS como indispensáveis a um distrito (supracitadas na Introdução) para que seja seguro e dinâmico, social e economicamente. A primeira indica que o distrito deve atender a mais de uma função principal, de preferência a mais de duas. Nesse caso, o levantamento revela que essa condição está presente no trecho estudado. Ali há boa combinação de funções: habitação, escolas, escritórios, comércios e serviços em geral, com destaque para o uso misto que abriga concomitantemente as funções de habitação e de comércio ou serviço. Há açougues, bancas de jornal, um grande mercado e outro menor, bares, restaurantes, lojas de materiais de construção, de utilidades para o lar, de moda adulta e infantil, agência de viagens, floricultura, escolas para crianças e para adolescentes, estúdios de yoga e pilates, oficina mecânica, uma loja de queijos, uma pequena praça, duas farmácias, uma pastelaria, uma lotérica, algumas casas e muitos apartamentos. Um edifício destoa do conjunto - na esquina sudeste do cruzamento entre a avenida citada e a Rua Apinajés - pelo tamanho do lote, mas também por sua implantação que garante o térreo comercial, o alargamento da calçada e uma generosa marquise que protege o acesso a um supermercado, a uma farmácia, a diversas lojas e bares e também aos apartamentos nos andares acima. A proteção da marquise – “o mínimo como estratégia geradora de dinâmicas territoriais” (GUATELLI, 2012, p.115) – combinada às cadeiras e mesas dos bares e, ainda, aos acessos 33


de lojas, lotérica, farmácia, mercado e apartamentos, além de uma banca de jornal, garante um ponto de permanência e de encontros entre moradores, passantes e pessoas que trabalham nas proximidades. Lugares assim, de pausa, de permanência, se tornam, a cada dia, mais raros numa metrópole como São Paulo.

Marquise de edifício de uso misto na Av. Prof. Alfonso Bovero: espaço de permanência e de encontros

(Fontes: imagem acima: Google Street View; Imagem à esquerda e imagens na próxima página: fotos do autor)

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CACCIARI leva adiante os questionamentos do Team 10 e do grupo MARS – na primeira “discussão transgressora de ruptura” como chamou RODRIGUEZ SOSA e SEGRE (2009, p.13), supracitada na Introdução deste trabalho – para quem o habitat era bem mais do que apenas o lar, a casa: “[...] Será possível habitar onde não existem lugares? [...] o lugar do habitar não é mero alojamento. Só uma cidade pode ser habitada; mas não é possível habitar a cidade se ela não se dispuser a ser habitada, ou seja, se não ‘der’ lugares. O lugar é o sítio onde paramos: é pausa – é análogo ao silêncio de uma partitura. Não há música sem silêncio. O território pós-metropolitano ignora o silêncio numa partitura; não nos permite parar, ‘recolher-nos’ no habitar.” (CACCIARI, 2010, p. 35)

A segunda condição é: quadras curtas, isto é, opções de virar a esquina. Seja por motivo de segurança – para fugir de uma situação suspeita – ou apenas para mudar de caminho, conhecer outra rua, onde pode haver uma livraria ou um bar, por exemplo, surpresas de um novo caminho. O trecho em questão oferece duas testadas de quadra, uma a leste e outra a oeste. A testada a leste mede 185 metros entre as esquinas da Rua Plinio de Morais e da Rua Apinajés. O levantamento aponta que a topografia acidentada e irregular da área provavelmente teve papel importante na delimitação do perímetro dessa quadra. Trata-se de uma quadra relativamente grande se comparada, por exemplo, aos 113 metros do quadrado modular do plano Cerdà em Barcelona, tidos como uma distância confortável e se-

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gura para o pedestre. JACOBS critica, por exemplo, quadras de um bairro em Filadélfia, que possuem comprimento padrão de 210 metros – número próximo dos 185 metros da citada testada – e sugere que esse é um dos motivos da decadência e abandono do bairro (JACOBS, 2001, p.204). A grande distância para o caminhar, nesse caso, é atenuada pelo grande número de pessoas na calçada, entrando e saindo dos edifícios, da escola e de lojas e, sem dúvida, pela dinâmica das mesinhas dos bares sob a citada marquise. Já a testada da quadra a oeste mede aproximadamente 125 metros e é possível percorrê-la, rapidamente, sem que se note, distraindo-se entre uma pequenina praça, recuos maiores e menores e muitas opções de acesso: uma farmácia, lojas, bares, floricultura e outras mais, além dos edifícios de apartamentos. É, sem dúvida, uma caminhada agradável, dinâmica, e nada monótona, que permite o contato frequente entre as pessoas que ali habitam. [...] geralmente se considera que as calçadas estão destinadas unicamente à circulação dos pedestres sem que se reconheça nem que se respeite nelas os órgãos vitais e insubstituíveis da segurança urbana, da vida pública e da educação das crianças.” (CHOAY, 1965, p. 298)

A terceira condição se refere à idade e estado de conservação dos edifícios. De acordo com JACOBS isso garante a vivência de pessoas com diferentes níveis de renda no mesmo distrito. Trata-se de um trecho aparentemente consolidado, sem edifícios recém-inaugurados. Boa parte das construções provavelmente foi feita há algumas décadas, não mais do que 50 anos, com exceção de alguns sobrados geminados usados para comércio a sudeste e um edifício habitacional de 3 pavimentos na esquina com a Rua Bruxelas que aparentam ser mais antigos. Quanto ao estado de conservação, a maioria está bem conservada ou em ótimo estado, exceto um imóvel térreo na esquina norte com a Rua Bruxelas que aparenta estar vazio e/ou abandonado. O que se vê são muitos imóveis recentemente 36


Calçadas no trecho da Av. Prof. Alfonso Bovero: movimentação constante de pessoas durante o dia e a noite. (Fotos do autor)


reformados, como as unidades do Colégio Global, que parece crescer constantemente comprando imóveis ao seu redor, ou, pontos de comércio alugados, restaurantes e lojas pequenas. A relativa homogeneidade no estado de conservação e na idade das edificações talvez indique também uma relativa homogeneidade no padrão de renda das pessoas que habitam aquela região.

Edifícios antigos: “rugosidades” para Milton Santos e “geradores de diversidade urbana” para Jane Jacobs. Acima: sobrados geminados usados para comércio e serviços; abaixo: edifício residencial de três andares. (Imagens: Google Street View)

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Acima: imóvel em estado de conservação ruim (exceção no trecho). Abaixo: unidades do Colégio Global na Av. Prof. Alfonso Bovero: expansão a partir de reformas em edifícios na vizinhança. (Imagens: Google Street View)

Por fim, a quarta condição diz respeito à densidade “suficientemente alta” de pessoas que usam a região, independente de seus motivos, que deve incluir alta concentração de pessoas que moram ali. Isso garante pessoas indo e vindo ao longo do dia e da noite, o que torna o espaço seguro sob a vigilância natural dos usuários. Garante também o uso eficiente da infraestrutura disponível na região. Dados do IBGE (Censo 2010) indicam


que o distrito de Perdizes (onde está inserido o trecho em questão) possui 19.563 hab./km², isto equivale a 195 hab./Ha, ou seja, 195 moradores em uma quadra, considerando-se uma quadra de 100x100metros (1Ha). Esse número não inclui usuários/passantes. Pôde-se constatar a constante movimentação de pessoas tanto em visitas diurnas e noturnas, quanto via internet no citado levantamento realizado com auxílio das ferramentas Google Maps e Google Street View que mostra fotografias das ruas – e de quem ali estiver – em diversos ângulos, feitas durante o dia. O levantamento indica a densidade considerável de moradores no trecho se observados os usos habitacional e misto (habitação e comércio/serviço) e os gabaritos que na maioria dos casos possuem mais de 3 andares, incluindo dois edifícios largos e altos, um com 13, outro com 12 andares.

Grandes edifícios habitacionais com térreo comercial (uso misto): colaboram com a densidade de pessoas morando e usando a região ao longo das 24 horas do dia

(Imagens: Google Street View)


Outro fator importante para a fruição da vida pública em calçadas e ruas é a largura das vias. CHOAY discorre sobre isso: “Ruas de trinta ou trinta e cinco pés de largura [entre 9,14 e 10,67 metros] seriam suficientes para acolher ao mesmo tempo as atividades das crianças, as árvores necessárias, a circulação dos pedestres e a vida pública dos adultos. Poucas ruas têm semelhante largura. Esta é invariavelmente sacrificada à circulação dos veículos; [...]” (CHOAY, 2002, p.298)

O livro de CHOAY foi publicado pela primeira vez em 1965 (original, em francês) e não fica claro o tipo de rua ao qual ela se referia. Hoje, dez metros de largura parece pouco para que uma rua abrigue todas as infraestruturas que uma metrópole exige, como postes e fios de energia elétrica e de telecomunicações, tubulações de água, de gás e de esgoto, mobiliários urbanos úteis como telefones públicos, bancos, lixeiras e pontos de ônibus, além, é claro, das circulações de pedestres, crianças e adultos, ciclistas, motociclistas, automóveis, ônibus e etc. A Avenida Prof. Alfonso Bovero apresenta no trecho estudado aproximadamente 19 metros de largura entre as duas testadas, com variações devido a recuos. Essa largura abriga calçadas de ambos os lados com pouco mais de 3 metros de largura cada – onde estão árvores, pontos de ônibus, postes de iluminação pública, bancas de jornais, etc. – faixas de estacionamento de ambos os lados e duas vias de circulação de automóveis, uma para cada sentido. De fato, em horários de pico o trânsito fica parado, ônibus e automóveis aturam a lentidão. Tal trecho é uma espécie de núcleo, ou “gargalo”, que acaba por concentrar o fluxo de automóveis, na falta de caminhos alternativos, talvez, devido às ruas sinuosas – que, em parte, acompanham a topografia da área – e com poucos cruzamentos, de uma parcela do distrito de Perdizes, que se configura como obstáculo ao atravessamento da região. Pode-se dizer que, ao contrário dos veículos em horário de pico, ali, o pedestre pode passar confortavelmente – exceto


no local onde tem que desviar do “novo” ponto de ônibus e suas placas de propaganda que obstruem a passagem dos transeuntes nessa e em outras tantas calçadas da capital paulista.

“Novo” ponto de ônibus com placa de propaganda atrapalhando o fluxo dos pedestres na calçada e também alguns acessos de comércios. (fotos do autor)

Na próxima página: levantamento de uso e ocupação do solo no eixo da Av. Prof. Alfonso Bovero - entre as ruas Apinajés e Plínio de Morais, Perdizes, São Paulo, SP. (Fonte: levantamento realizado pelo autor sobre base do Mapa Digital da Cidade MDC - obtida em site da Prefeitura do Munícipio de São Paulo)


Rua Augusta: território bastante dividido, mas em transformação: diversidade urbana de usos e de tipologias de construção (lanchonetes, cabelereiros, faculdades...) ainda resistem à investida de empreendimentos monofuncionais. (Imagens: Google Street View)


Rua Augusta O segundo trecho urbano estudado está situado no eixo da Rua Augusta entre as ruas Costa e Dona Antônia de Queirós. Como no caso apresentado anteriormente, após levantamento de uso e ocupação (imagem ao final deste estudo de caso), foi possível observar características do território com base nas condições geradoras de diversidade de JACOBS, supracitadas. De acordo com a primeira condição para que haja diversidade urbana, o número de funções (ou de usos) observadas no levantamento é variado, apresentando boa combinação. Predominam os usos: habitacional, comércio/serviço e misto. Há também três edifícios de escritórios com metragens variadas, dois hotéis e uma faculdade. Além disso, partindo da Rua Dona Antônia de Queirós, pelas calçadas da Rua Augusta, no térreo, pode-se encontrar estabelecimentos diversos, como: lanchonetes e restaurantes, uma loja de doces, uma farmácia, dois chaveiros, uma papelaria, lojas de roupas e acessórios femininos e masculinos, uma lavanderia, uma casa lotérica, um café, estacionamentos para automóveis, ao menos quatro casas noturnas para públicos variados, a sede de um bloco de carnaval de rua, bares, uma escola para DJ´s, agências bancárias, uma galeria que é também salão de beleza, um estúdio de tatuagem, quatro salões de cabelereiros, um supermercado, um teatro e duas academias de artes-marciais. Uma fachada desproporcional e grosseira destoa na fluidez da calçada: grades, um “quase-jardim” limitado no que restou de um lote e, um enorme muro de três andares: trata-se dos fundos da garagem de um grande núcleo habitacional, um “condomínio-clube”. Ao “cultivar a instituição do 45


território”, como uma gangue em “seu” bairro, “áreas reurbanizadas ou condomínios se utilizam dessa maneira de lidar com a insegurança [urbana]: demarcam seu território e o cercam com muros, câmeras de segurança e guardas.” (JACOBS, 2001, p. 49). Em São Paulo, no ano de 2015, o modelo norte-americano das décadas de 1950 e 1960 é copiado com frequência.

Rua Augusta: território bastante dividido, mas em transformação: diversidade urbana de usos e de tipologias de construção ainda resistem à investida de empreendimentos monofuncionais. (Fonte: Google Street View)

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A segunda condição se refere a quadras curtas. O trecho apresenta duas testadas de quadras e ambas muito extensas para serem percorridas a pé. A testada norte mede aproximadamente 310 metros de comprimento, enquanto a testada sul mede amplos 380 metros de comprimento. Percorrer esse caminho pode ser tarefa monótona e insegura. Monótona porque, apesar da variedade de estabelecimentos, há ausência de esquinas, que representam uma breve pausa no caminhar e mudanças no direcionamento do olhar do pedestre, ao apreciar a perspectiva de uma rua perpendicular que se apresenta, por exemplo, mas, principalmente, para atravessar tal rua. Insegura, pois, em horários em que há menos pessoas na rua - como na madrugada - não há alternativas de caminho, não há como dobrar a esquina, pois, novamente, não há esquinas. A terceira condição para diversidade é a combinação de edifícios com idades e estados de conservação variados. A maioria dos edifícios possui provavelmente menos de 50 anos; há dois edifícios novos, vizinhos, ambos na testada a norte da Rua Augusta, construídos há cinco ou seis anos (talvez menos) – um habitacional, bloco integrante do “condomínio clube” supracitado, e outro de salas para escritórios; e há uma exceção, talvez a única: um edifício que aparenta ter mais do que cinquenta anos (na esquina sudoeste do cruzamento entre as ruas Augusta e Dona Antônia de Queirós). Um sobrevivente de tempos passados. Exemplar importante em se tratando de memória coletiva da paisagem urbana, as rugas reveladoras do espaço, as “rugosidades”, de Milton Santos: “O espaço portanto é um testemunho; ele testemunha um momento de um modo de produção pela memória do espaço construído, das coisas fixadas na paisagem criada. Assim o espaço é uma forma, uma forma durável, que não se desfaz paralelamente à mudança de processos; ao contrário, alguns processos se adaptam às formas preexistentes enquanto que outros criam novas formas para se inserir dentro delas.” (SANTOS, 1978, p. 138) 47


Esse prédio é o único que apresenta um estado de conservação entre regular e ruim; há dois edifícios com estado de conservação regular, os demais não apresentam problemas de conservação. Novamente, a relativa homogeneidade entre idades e estados de conservação dos imóveis indica, provavelmente, renda semelhante entre os habitantes da área.

A quarta e última condição se refere à alta densidade de usuários e moradores na área. Tal condição parece garantida por hora. O Censo (IBGE) de 2010 indica 17mil hab./km² (ou 170 hab./Ha) para o distrito da Consolação, onde está situado o trecho. Isso equivale a 170 habitantes por quadra, considerando uma quadra de 100x100metros. O número se refere apenas aos moradores da área, não inclui usuários/passantes. A proximidade do centro da cidade e também da Av. Paulista (centros financeiros e empresariais da 48

Ao centro da imagem: edifício antigo – provavelmente o único com mais de 50 anos no trecho (“Rugosidades”, de Milton Santos, heranças, préexistências) (Imagem: Google Street View)


metrópole – um dos prováveis motivos para haver tantos hotéis na região) garante o fluxo constante de pessoas e veículos pela Rua Augusta que, além disso, se configura como eixo de transporte público importante da metrópole. Ademais, o levantamento indica que aproximadamente metade das construções é voltada ao uso habitacional e/ou misto e a maioria das construções possui 3 andares ou mais, incluindo edifícios habitacionais que possuem entre 3 e 20 pavimentos. Dois fatos se destacam ao se observar o levantamento realizado na Rua Augusta. O primeiro diz respeito ao parcelamento do solo. A Rua Augusta, no lado do centro, conhecido como “Baixo Augusta”, passa, há alguns anos, por transformação acelerada, impulsionada por capital privado voltado ao mercado imobiliário e, também, pelo novo Plano Diretor Estratégico da cidade e a nova Lei de Zoneamento, que incentivam o adensamento habitacional de regiões lindeiras a importantes eixos de deslocamento de transporte de grande capacidade, caso da área de estudo que, além da Rua Augusta, também está próxima ao corredor de ônibus da Avenida Consolação. A construção de novos empreendimentos voltados ao mercado imobiliário passa pela unificação de lotes, isto é, pela junção de lotes menores para que se forme um grande lote que permita a construção de maior número de metros quadrados (vantagem para os investidores privados). Desse modo, percebe-se, pelo levantamento (imagem ao final deste estudo de caso), que, com apenas uma exceção, todos os novos edifícios de destinam a apenas um tipo de uso (uma função) que varia apenas entre: habitação e escritórios. É preciso mais do que apartamentos e escritórios para se fazer uma cidade dinâmica social e economicamente, uma cidade interessante, pulsante, inspiradora, agradável. Entretanto, isso se repete em muitas regiões da cidade. 49


A Rua Augusta é conhecida por sua diversidade urbana. Boa parte desses novos edifícios nem se relaciona com a calçada. É o caso do novo edifício residencial, citado anteriormente, do tipo “condomínio-clube”, composto por duas torres de 20 andares cada uma, com acesso pela Rua Bela Cintra e fundos para a Rua Augusta, onde, praticamente, dá as costas para a calçada, ignora por completo a vida pública que ali fluía há poucos anos – o “ballet da boa calçada urbana” (JACOBS, 2001, p.52), “oferecendo” à cidade três andares de muro, três andares de garagem para automóveis, com o comprimento de aproximadamente 45 metros, onde, antes, haviam pelo menos 8 lotes onde poderiam haver acessos, restaurantes, cafés, bares, livrarias, oficinas mecânicas, correios, etc, além, é claro, de muitas pessoas entrando e saindo desses lugares, mantendo a rua segura. A segurança urbana depende de “olhos voltados para a rua” e de fluxo ininterrupto de pedestres, mantendo viva a curiosidade de quem está dentro dos edifícios e, ao mesmo tempo, a vigilância “natural” do espaço. (JACOBS, 2001, p. 35)

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Se construções como essa continuarem a ser erguidas na Rua Augusta, em breve não haverá mais diversidade ali, apenas muros e grades. Não haverá mais a vida pulsante dos passantes pelas casas noturnas, por exemplo, trazendo segurança e animação para as calçadas. O problema seria o tamanho dos lotes ou a simples subdivisão de espaços combinada ao tipo de uso destinado ao térreo que se conecta com a malha urbana? Por esse ponto de vista, o problema real talvez seja a qualidade dos projetos arquitetônicos executados e não o tamanho dos lotes. Infelizmente, o que se vê pela cidade, em boa parte dos casos, são novos edifícios que descartam por completo a vida além dos limites do próprio lote, além de seus muros e grades, a vida coletiva na metrópole. CACCIARI joga luz sobre a contradição do ser humano urbano, em tempos de “pós-metrópole”: “[...] assumimos sempre uma postura dupla e contraditória em relação a esta forma de vida associada: por um lado, concebemos a cidade como lugar para nos¬ encontrarmos e reconhecermos como comunidade, um

Na página anterior e à direita: grades e muro altíssimo de empreendimento construído recentemente na Rua Augusta (três andares de garagem): negação do espaço público e da escala humana. Na calçada: sensação de insegurança e monotonia. (Fotos do autor)

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lugar acolhedor, um ‘seio’, um lugar onde residir bem e viver em paz, uma casa [...]; por outro lado, cada vez mais consideramos a cidade como máquina, uma função, um instrumento que nos permite, com o mínimo impedimento, fazer os nossos negotia, os nossos negócios. De um lado, a cidade como lugar de otium, lugar de troca humana, seguramente efectivo, activo, inteligente, enfim, um lugar para morar; do outro, o lugar onde desenvolver os negotia, da maneira mais eficaz possível.” CACCIARI (2010, p.26)

Torna-se evidente a importância da reflexão sobre o parcelamento do solo urbano e, também, sobre o modo como os edifícios se implantam na cidade, como os edifícios se conectam com a calçada, com o espaço público, é preciso refletir sobre as qualidades urbanísticas dos andares térreos e suas funções, seus usos.

Abaixo e na próxima página: empreendimentos imobiliários recentes na Rua Augusta (Fotos do autor)

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O segundo aspecto notável no levantamento, mas principalmente durante visitas ao local, é a largura diminuta das calçadas. As calçadas da Rua Augusta são muito estreitas (pouco mais de dois metros, em média) para abrigar o fluxo constante de pedestres e todos os equipamentos já citados necessários ao funcionamento da metrópole. As calçadas de ambos os lados medem pouco mais do que dois metros, muito pouco para um eixo de deslocamento urbano da importância da Rua Augusta. Pedestres disputam espaço com árvores, postes diversos, placas de sinalização, semáforos, ciclistas-entregadores. Não é raro o pedestre ser obrigado a caminhar pelo leito carroçável, ao lado de “skatistas” e

Calçadas estreitas na Rua Augusta: aproximadamente 2,00m de largura (fotos do autor)


ciclistas (também usuários do espaço público, por isso, bem vindos, guardadas as proporções e a segurança de todos) e, de veículos motorizados (motocicletas, automóveis e ônibus, necessários à metrópole, porém, de modo equilibrado) que dominam o espaço e provocam grande poluição do ar e muitos ruídos. Além disso, praticamente não há locais de permanência, quase não há recuos, não há lugares para pausa, não há bancos ou outros mobiliários urbanos. Fica evidente que o trecho carece de espaços públicos de qualidade para o encontro e permanência de pessoas. No entanto, iniciativas privadas e públicas parecem não se importar com a situação.


Calçadas estreitas na Rua Augusta: aproximadamente 2,00m de largura (fotos do autor)

Na próxima página: levantamento de uso e ocupação do solo no eixo da Rua Augusta - entre as ruas Costa e Dona Antônia de Queirós, Consolação, São Paulo, SP.(Fonte: levantamento realizado pelo autor sobre base do Mapa Digital da Cidade - MDC - obtida em site da Prefeitura do Munícipio de São Paulo.


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Anexo

“Rugosidade” (SANTOS, 1978) no trecho da Rua Augusta. Descoberto após o término dessa pesquisa: o caso do Cine Regência, atual unidade da Faculdade das Américas. “No dia de seu 16° aniversário, em 1969, a emissora inaugurou o novo Teatro Record, na rua Augusta 973, onde ficava o antigo Cine Regência.” (Fonte: http://www.museudatv.

com.br/protelevisao/?p=2649 - acessado em 20/11/2016)

Cine Regência (Fonte: < http://memoria.bn.br/DocReader/ DocReader.aspx?bib=085995&pesq=cine%20 reg%C3%AAncia > acessado em 20/11/2016)

“Uma curiosidade da FAM é ter suas unidades atuais em pontos históricos da cidade. As duas unidades em funcionamento ficam na Rua Augusta, uma no antigo Hotel Ceasar Park e outra no antigo teatro Record – palco da Jovem Guarda.” (Fonte: http://

g1.globo.com/sao-paulo/especial-publicitario/fam/ noticia/2015/11/fam-se-destaca-entre-universidades-mais-inovadoras-do-brasil.html - acessado em 20/11/2016)

Abaixo: Faculdade das Américas (2016) instalada no antigo edifício do Cine Regência (1954) que abrigou também uma das unidades do Teatro Record (1969). ”Rugosidades” (SANTOS, 1978) no território - edifícios antigos “herdados” pela sociedade como “espaço construído”.

Rua Augusta, 973.(Fonte: Google Street View)


Considerações finais

Constatou-se que o trecho da Av. Prof. Alfonso Bovero apresenta condições de diversidade urbana e de qualidade espacial bastante favoráveis ao uso dos espaços públicos, aos encontros e à permanência de pessoas em calçadas apropriadas, sob o abrigo de uma marquise ou nos recuos frontais de edifícios e estabelecimentos variados, a apreciarem as dinâmicas da atividade humana. Notou-se, a partir de observações in locu, a existência de uma rede de contatos humanos, sociais, econômicos e públicos, justamente por serem realizados fora de espaços privados (de privacidade, de intimidade). “A noção de co-presença, de que a sociedade vem se servindo desde os seus fundadores, noção realçada por Goffman (1961) e retomada por Giddens (1987), ganha uma nova dimensão quando associada à noção e à realidade geográfica da vizinhança, essa ‘condição de vizinhança’ referida por Sartre em Questions de Méthode. O território compartido impõe a interdependência como práxis, e essa ‘base de operação’ da ‘comunidade’ no dizer de Parsons (1952, p. 91) constitui uma mediação inevitável para o exercício dos papéis específicos de cada qual, conforme realça B. Werlen (1993, p. 190). Nas cidades, esse fenômeno é ainda mais evidente, já que pessoas desconhecidas entre si trabalham conjuntamente para alcançar, malgrado elas, resultados coletivos. (SANTOS, 2006, pp. 319-320)

Esse ambiente potencialmente abriga dinâmicas de caráter local, algo próximo ao que defendiam o Team 10 e o grupo MARS no CIAM 8 (as ideias de concepções urbanas de acordo com escalas, da cidade como centro comunitário, da rua como organizador da vida coletiva e da preponderância de valores culturais), fortalecendo assim a noção de “comunidade”, de interdependência, bastante escassa hoje nas metrópoles. 59


Marquise de edifício de uso misto na Av. Prof. Alfonso Bovero: espaço de permanência e de encontros Calçada na Av. Prof. Alfonso Bovero: recuos possibilitam a permanência de pessoas e a fruição da vida pública: banca de flores no recuo frontal de um imóvel. Trecho da Av. Prof. Alfonso Bovero: recuos possibilitam a permanência de pessoas e a fruição da vida pública: loja bolos e loja de discos que a noite é também bar.

(Imagem no alto: foto do autor; demais imagens: Google Street View)


“Não existem dúvidas de que o território em que habitamos representa um desafio radical a todas as formas tradicionais de vida comunitária. O desenraizamento que produz é real.” (CACCIARI, 2010, p.35)

Se a fruição da vida pública é “abraçada” por espaços adequados nesse trecho da cidade, a situação no segundo trecho estudado, o da Rua Augusta, se apresenta de outro modo. Michel SERRES afirma que “[...] nossa relação com o mundo mudou. Antes, ela era local-local; agora é local-global [...]” (in SANTOS, 2006, p. 313). Nesse contexto, numa economia de mercados globais, de negócios “virtuais”, onde o consumo parece ser o modo de vida vigente, SZE TSUNG LEONG (membro do grupo Harvard Project on The City, encabeçado por Rem Koolhaas), no livro Mutations (ACTAR, Barcelona, 2000), descreve o “espaço” na primeira década do século XXI como o “Espaço de Controle” (Control Space), isto é, o espaço tido, meramente, como estatística e aponta para a obsolescência do espaço tridimensional. O “mercado” existe e funciona virtualmente apesar de necessitar de espaços para suas atividades. O “mercador” apenas considera o espaço tridimensional e suas qualidades físicas no momento presente, em seu dia-a-dia íntimo – em sua casa, em seu escritório ou em um hotel, por exemplo. Há, portanto, o distanciamento psicológico em relação ao meio físico afetado pela cadeia abrangida por seus negócios, pode-se dizer que há um distanciamento da noção de realidade, da noção dos espaços reais. Para os “mercadores”, os espaços são reduzidos a números, “dados”, “informação”. Se uma “nova cartografia” provém do mapeamento de informações de consumo como dados de compras feitas com cartões de crédito, por exemplo, e um “novo urbanismo” computa dados territoriais, demográficos e econômicos por meio de computadores e Sistemas de Informação Geográfica (SIG, ou GIS na sigla em inglês) (BOERI & MULTIPLICITY, KOOLHAAS & 61


HARVARD SCHOOL, KWINTER & FABRICIUS, ULRICH OBRIST, TAZI, 2000, p.178-181), não é de se estranhar que, para quem apenas lê tais dados, os lugares reais, isto é, o local, de fato, a paisagem urbana, o território usado, não passam de abstrações, ou de informações úteis para negócios. Esse parece ser o cenário da transformação vigente no território da Rua Augusta. A expressão do poder de intervenção e de modificação de espaços urbanos, por iniciativa de “mercadores” (do capital), sem que se tome conhecimento das dinâmicas locais do cotidiano, daqueles espaços e de seus habitantes/usuários/passantes. Tal força age “de cima” para “baixo”, do global para o local, como empresas multi-nacionais estrangeiras ao aportar num novo país, buscando, obviamente, o benefício próprio; as “verticalidades” de que fala Milton Santos (SANTOS, 2006, p.287). Talvez a proximidade de centralidades financeiras e culturais (o centro de São Paulo e a Av. Paulista), como já citado, e de sedes de grandes empresas (possivelmente muitas internacionais), além de maior oferta de infraestruturas instaladas na malha urbana, como a de transporte (linhas de metrô, por exemplo), que valorizam o preço da terra, torne a região da Rua Augusta mais suscetível às ações globais de investimento, principalmente, do capital estrangeiro, em comparação ao trecho da Av. Prof. Alfonso Bovero. Sobre o citado “distanciamento da realidade”, sobre a “virtualidade” do mundo global e a percepção do tempo, SANTOS, nos faz refletir: “Na verdade, a globalização faz também redescobrir a corporeidade. O mundo da fluidez, a vertigem da velocidade, a frequência dos deslocamentos e a banalidade do movimento e das alusões a lugares e a coisas distantes, revelam, por constante, no ser humano, o corpo como uma certeza materialmente sensível, diante de um universo difícil de apreender. Talvez, por isso mesmo, possamos repetir com Edgar Morin (1990, p. 44) que ‘hoje cada um de nós é como o ponto singular de um holograma que, em certa medida, contém o todo planetário que o contém’. 62


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Rua Augusta: dinâmicas “locais” coexistindo com dinâmicas “globais”. / 1. Açougueiro caminha na calçada; / 2. Nas esquinas: lanchonete “Burger King” em frente à loja de automóveis “Toyota”. As “horizontalidades” (Milton Santos) do local frente às “verticalidades” do global – a “coexistência possível” de lógicas e tempos distintos, a rede de dinâmicas locais convive com a rede de dinâmicas globais. A dificuldade de apreensão do mundo: o mundo é todo lugar, mas a soma de todos os lugares também é o mundo. O entregador de carnes do bairro convivendo com loja de hambúrgueres mundialmente conhecida e com a concessionária de carros de origem japonesa (“Toyota”). (Foto 1: do Autor; Foto 2: Google Street View)

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Exemplos de negação do espaço público, negação da calçada. / 3 e 4. Próximo dali constroem-se empreendimentos imobiliários privados (grandes edifícios), muitos destes, provavelmente financiados por capital global (externo) – estabelecendo uma relação de distância entre investidor e o espaço real que sofre a intervenção do investimento – distância também entre investidor e usuário do espaço real onde o capital é investido. (Foto 3: do Autor; Foto 4: Google Street View)

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Os lugares, desse ponto de vista, podem ser vistos como um in-

termédio entre o Mundo e o Indivíduo, lembra-nos Z. Mlinar (1990, p. 57), para quem a lógica do desenvolvimento dos sistemas sociais se manifesta pela unidade das tendências opostas à individualidade e à globalidade.” (SANTOS, 2006, p. 314) E, contrapondo-se a uma visão estritamente numérica/estatística sobre o território, ressaltando, por outro lado, a importância da “proximidade”, adverte: “[...] Não são apenas as relações econômicas que devem ser apreendidas numa análise da situação de vizinhança, mas a totalidade das relações. É assim que a proximidade, diz J.-L. Guigou (1995, p.56) ‘pode criar a solidariedade, laços culturais e desse modo a identidade’.” (in SANTOS, 2006, p. 318)

Nem tudo parece perdido para o trecho da Rua Augusta, onde se nota, ainda, significante diversidade e vivacidade urbana, apesar da falta de espaços públicos de qualidade e do descaso dos “construtores” da cidade. As dinâmicas sócio-econômicas locais e os usuários do espaço resistem bravamente às investidas do capital imobiliário. Na contramão das citadas “verticalidades”, SANTOS aponta o caminho de resistência pelas “horizontalidades”: “[...] Mas os lugares também se podem refortalecer horizontalmente, reconstruindo, a partir das ações localmente constituídas, uma base de vida que amplie a coesão da sociedade civil, a serviço do interesse coletivo.” (SANTOS, 2006, p. 288)

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Parte 2 (Uma) Arquitetura para alĂŠm do lote na Rua Augusta


“[...] Um fato parece claro: os problemas da cidade não podem mais ser enfrentados simplesmente com desenhos de objetos (edifícios, quarteirões). ‘Precisamos ser capazes de desenhar situações, mais que coisas’, escreve Guilherme Wisnik [...]” (Trecho de texto na “orelha” do livro Estado Crítico, de Guilherme Wisnik, 2009)

“O homem é universal fisiologicamente. Psicologicamente é regional.” (CASCUDO, 2004, Introdução, p. _ _)

“[...] O homem trabalha sobre herança.[...]” (SANTOS, 1978, p.139)


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A força do lugar / O território

A fim de realizar o exercício proposto pela disciplina de projeto do Trabalho Final de Graduação (TFG), decidiu-se por expandir e aprofundar os estudos na região da Rua Augusta (lado centro), por de se tratar de território urbano em acelerada transformação – como citado e constatado no âmbito da pesquisa apresentada anteriormente – envolvendo diversos atores e distintas escalas de produção e manutenção da cidade. Embora se trate da mesma região, o recorte abrangido pelo estudo de projeto foi ampliado, constituindo-se, então, pelo trecho da Rua Augusta entre as ruas Dona Antônia de Queirós e Matias Aires (trecho de aproximadamente 600m lineares). Seguindo a linha de aproximação/abordagem/leitura/apreensão do território utilizada na pesquisa supracitada, reforçada por autores como JACOBS (2001), SANTOS (1978, 1998, 2006, 2012), NESBITT (2010) e GUATELLI (2012), buscou-se realizar uma imersão no local/lugar – a partir de visitas, registros, observação e criação de cartografias e com o auxílio de ferramentas cartográficas digitais como o Google Maps, Google Street View e o Mapa Digital da Cidade – regida, sempre, pela tentativa de compreender e reproduzir o olhar e a percepção do pedestre/usuário do espaço. Parte-se, portanto, do pressuposto de que o lugar informa o arquiteto-urbanista. Fornece, praticamente, todo o conhecimento necessário à sua atuação num determinado sítio. Na introdução do livro “Uma nova agenda para a arquitetura: antologia teórica 1965-1995”, Kate NESBITT elenca o “lugar” como um dos “temas arquitetônicos pós-modernos”, inserido, por sua vez, num contexto mais amplo o qual nomeia de “crítica pós-moderna”. 71


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“[...] Com o progresso das tecnologias, a Humanidade instalou uma crise ambiental global. [...] a despeito dos avanços tecnológicos, uma das atribuições da arquitetura continua a ser a simbolização da posição do homem no interior do mundo natural. [...] As teorias do lugar, que se originam da fenomenologia e da geografia física, enfatizam a especificidade da experiência espacial e, em alguns casos, a ideia do genius loci, ou espírito específico do lugar. O lugar fornece um modo de resistir ao relativismo das teorias modernas da história pelo engajamento do corpo e sua capacidade de verificar as qualidades especiais de um sítio. [...] NORBERG-SCHULZ afirma que é responsabilidade do arquiteto descobrir o genius loci e fazer projeto de um modo tal (criar o lugar) que dê conta dessa presença singular [...]” (NESBITT, 2010, pp. 56-57)

Milton SANTOS também elucida a importância do lugar para a compreensão do espaço, do território, das dinâmicas ali vigentes, matérias-primas para o trabalho do arquiteto-urbanista: “A história concreta do nosso tempo repõe a questão do lugar numa posição central, conforme, aliás, assinalado por diversos geógrafos. A. Fischer (1994, p. 73), por exemplo, refere-se à ‘redescoberta da dimensão local’. Impõe-se, ao mesmo tempo, a necessidade de, revisitando o lugar no mundo atual, encontrar os seus novos significados. Uma possibilidade nos é dada pela consideração do cotidiano (A. Buttimer, 1976; A. García Ballesteros, 1992; A. Damiani, 1994). [...]” (SANTOS, 2006, 2012, p. 315) “[...] A localidade se opõe à globalidade, mas também se confunde com ela. O mundo, todavia, é nosso estranho. Entretanto se, pela sua essência, ele pode esconder-se, não pode fazê-lo pela sua existência, que se dá nos lugares. No lugar [...] se superpõem, dialeticamente, o eixo das sucessões, que transmite os tempos externos das escalas superiores, e o eixo dos tempos internos, que é o eixo das coexistências, onde tudo se funde, enlaçando, definitivamente, as noções e as realidades de espaço e de tempo.” (SANTOS, 2006, 2012, p. 321) 73


Imagem de satélite da região de estudo. No alto: Cemitério e Av. da Consolação; ao centro: Rua Augusta cortando a imagem de sudoeste à nordeste. (Fonte: Google Earth)

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Nos últimos anos, a região sofre transformação acelerada, promovida, principalmente, por capital privado (construtoras de médio e grande porte), por meio de empreendimentos imobiliários. Após a realização de levantamento de uso e ocupação do solo na região de estudo, além de visitas e registros, como citado, concluiu-se que se tratava de território: - rico em infraestruturas e rede de transportes públicos de grande capacidade (metrô na Av. Paulista e corredores de ônibus na Av. da Consolação); - que apresenta uso intenso e bastante diverso ao longo do dia e da noite; - próximo do centro da cidade (Sé) e a Avenida Paulista, dois centros financeiros/econômicos/culturais de grande importância na metrópole;

- com topografia acidentada (com grandes desníveis) – pouco confortável para pedestres em alguns pontos; - com quadras muito extensas (com até 380m entre esquinas) – pouco apropriado para pedestres: monotonia e sensação de insegurança (poucas opções de caminho); - com grande carência de espaços de permanência, de espaços livres e de áreas verdes (além de apresentar calçadas muito estreitas – por volta de

2,00m apesar do fluxo intenso de pedestres); - e bastante sub-dividido (muitos lotes, com tamanhos relativamente pequenos) – o que provavelmente colabora com a diversidade de usos e tipologias de construção da região. 75


Legenda:

Conexões possíveis a partir de desapropriações de lotes sub-utilizados

QUADRAS GRANDES: CONEXÕES PEATONAIS POTENCIAIS IDENTIFICADAS JaneJacobs, 1961: foco em pedestres > quadras pequenas geram diversidade urbana (mister para uma cidade viva, dinâmica e segura) (Imagem: intervenção do autor sobre mapa do Google Maps) PRODUCED BY AN AUTODESK EDUCATIONAL PRODUCT

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Legenda: lotes a desapropriar

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Situação / conexões peatonais possíveis em destaque (Rua Augusta ao centro) / esc. 1:5000

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A partir dessas conclusões foi possível, então, determinar uma estratégia de projetação. Buscou-se identificar lotes vazios (estacionamentos) e/ou sub-utilizados (como edifícios de até 3 pavimentos) nessa zona rica em infraestrutura, com o intuito de “diminuir” as quadras para os pedestres, criando atalhos (passagens urbanas dentro de lotes, conectando trechos de ruas antes apartados), oferecendo, portanto, mais conforto aos caminhantes. Ao fim desse processo, foram definidas cinco possibilidades de intervenção, das quais, uma foi escolhida para o exercício de projeto.

Na próxima página: levantamento de uso e ocupação do solo realizado na região de estudo: trecho da Rua Augusta - entre as ruas Matias Aires (a oeste) e Dona Antonia de Queirós (a leste) (Fonte: levantamento realizado pelo autor sobre base do Mapa Digital da Cidade de São Paulo.)

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SITUAÇÃO SELECIONADA ENTRE 5 POSSIBILIDADES

Legenda:

Conexões peatonais possíveis: lotes vazios ou subutilizados (até 3 pav.) em zona rica em infraestrutura

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Situação selecionada para intervenção projetual

Vista de topo, terreno em destaque, Cem. da Consolação ao norte. (Fonte: edição do autor sobre base do Google Maps)

Vista isométrica do terreno e entorno / Conexão peatonal entre as ruas Bela Cintra e Augusta, no eixo das ruas P. Taques e P. Gomide (Fonte: edição do autor sobre base do Google Maps)


O terreno foi escolhido devido ao grande desnível – uma oportunidade de criar circulações verticais confortáveis ao pedestre – e também porque com o “atalho” executado, seria possível compor uma conexão urbana ampliada (hipotética) ligando em uma longa caminhada as ruas e avenidas da Consolação, Pedro Taques, Bela Cintra, Augusta, Peixoto Gomide, Paulista e Estados Unidos. Abaixo: dados básicos sobre o terreno selecionado.

Dados básicos do terreno selecionado (quadro de áreas de projeto mais adiante) Área do Terreno: 3.650,00 m² Coeficiente de Aproveitamento (C.A.) de acordo com o novo Plano Diretor Estratégico e a Nova Lei de Zoneamento (2016) do Município de São Paulo: 4,00 Potencial Construtivo: 3650,00m² x 4,00 = 14.600,00m²

Conexão urbana ampliada da situação selecionada: Trajeto hipotético peatonal conectando as ruas: Rua da Consolação > Rua Pedro Taques > Rua Bela Cintra > Rua Augusta > Rua Peixoto Gomide > Avenida Paulista > Rua Estados Unidos) (Fonte: edição do autor sobre base do Google Maps)


Situação selecionada para intervenção projetual Vista de topo e perspectiva / terreno e entorno (Fonte: edição do autor sobre base do Google Maps)

Terreno em destaque - no alto das imagens: Rua Bela Cintra (ao norte) e na parte baixa das imagens: Rua Augusta (ao sul).

82


Perspectivas da área / testadas dos lotes selecionados para intervenção projetual

Vista do terreno a partir da Rua P. Gomide (esq. c/ a R. Augusta)

Vista do terreno a partir da R. Pedro Taques (esq. c/ a R. Bela Cintra)

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Estudo de insolação e dos ventos predominantes no terreno selecionado para o exercício de projeto Insolação no terreno / trajetória solar diária e anual / ventos predominantes (Fonte: modelo computadorizado criado pelo autor)

9:00

12:00

SOLSTICIO DE INVERNO (22 DE JUNHO)

EQUINOCIO DE PRIMAVERA (22 DE SETEMBRO)

SOLSTICIO DE VERÃO (22 DE DEZEMBRO)

84


Modelo computadorizado da situação (isometrica / perspectiva) (Fonte: autor)

15:00

85


Galeria comercial: tipologia comum na Rua Augusta (Galeria â&#x20AC;&#x153;Ouro Velhoâ&#x20AC;?) (foto do autor)

86


Soluções de Projeto

A proposta foi a de criar uma “rua” interna no lote, apenas para pedestres, com caráter de espaço público, uma espécie de galeria comercial - tipologia recorrente na Rua Augusta - conectando as ruas Bela Cintra (cota 114,50m) e Augusta (cota 101,00m) com o apoio de circulações verticais posicionadas para incentivar a fluidez dos caminhantes (escadas rolantes, escadas fixas, rampas e elevadores hidráulicos para cadeirantes); e, também, de pequenas praças para a fruição, o descanso e permanência dos usuários da região. Buscou-se criar acessos generosos e convidativos, dentro do possível – o da Rua Augusta mais amplo, pois a testada permitia, o da Rua Bela Cintra mais modesto, com menos frente, mas bastante desimpedido – sempre ladeados por espaços de comércio e serviço, além de jardins e bancos. Além das lojas e das pequenas praças, no térreo, dividido em quatro cotas principais (platôs), foram criados halls de acesso para dois edifícios – um habitacional (mais próximo à Rua Bela Cintra e outro com espaços de trabalho mais próximo à Rua Augusta) – e um banheiro (masculino e feminino com acessibilidade universal) para uso público. Os halls se situam no miolo de quadra e juntos às praças para estimular circulação permanente de pessoas, tornando as áreas mais seguras, vigiadas pelos próprios passantes. O hall do edifício habitacional apresenta fechamento em vidro, transparente, justamente para propor interação entre os moradores que entram e saem do edifício e os usuários da praça ao lado. Os edifícios se compõem em duas lâminas seguindo a orientação sul-norte, apanhando assim, pela manhã, o sol nascente (a leste). 87


PLANTA TERREO AUGUSTA (COTA 101,00 m) COMERCIOS, JARDIM E ACESSO A CIRCULAÇÕES VERTICAIS “PÚBLICAS” (ESCADAS ROLANTES E FIXAS E ELEVADORES)


No edifício habitacional foram propostas tipologias variadas seguindo o exemplo do Edifício Copan. São quitinetes, apartamentos de 2 e de 3 dormitórios – esses apartamentos maiores seguem a modulação de 8x8m em referencia à planta do conjunto CECAP Zezinho Magalhães de Guarulhos, de Fabio Penteado, Paulo Mendes da Rocha e Vilanova Artigas. Optou-se por estrutura mista – o térreo e as caixas de circulação vertical em concreto armado e a estrutura superior em aço, com peças soldadas e aparafusadas. A estrutura proposta faz refência às casas “Julian Rose” (1949/1950), de Harry Seidler e “Mendes André” (1966), de Artigas, além do SEBRAE de Brasília (2010), de Puntoni, Margotto, Sodré e Davies. As lajes de cobertura do térreo são impermeabilizadas - preenchidas com argila expandida - e possuem aberturas zenitais, proporcionando conforto aos usuários por meio de iluminação e ventilação naturais.

Edifícios Polivalente / Estruturas Polivalentes / “Rugosidades” (Milton Santos) / Sustentabilidade Embora Koolhaas e Mau defendam um novo urbanismo que “não deverá se preocupar com a criação de objetos mais ou menos permanentes, mas com irrigar potencial em territórios” (KOOLHAAS E MAU, 1997), Santos nos mostra que independentemente de nossas intenções, trabalhamos a partir de objetos/edifícios/situações/espaços herdados e, portanto, deixaremos, nós, também, uma herança (SANTOS, 1978, 2006, 2012). Desse modo, parece claro que devemos nos preocupar com irrigar potencial em territórios, mas a questão da permanência daquilo que 89


PLANTA MEZANINO (COTA 106,04 m) ACESSO AO EDIFICIO 01 (BLOCO AUGUSTA: ESPAÇOS DE TRABALHO “CO-WORKING”) / SANITARIOS / COMERCIOS / CIRCULAÇÕES VERTICAIS “PÚBLICAS” (ESCADAS ROLANTES E FIXAS E ELEVADORES) / ACESSO À PRAÇA PRINCIPAL


criamos obviamente se faz presente. Portanto devemos sim nos preocupar com a questão de criarmos objetos/edifícios mais ou menos permanentes e em como esses objetos/edifícios afetaram as gerações futuras, negativa ou positivamente. “[...] As formas asseguram a continuidade do tempo, mas o fazem através da sucessão dos eventos, que mudam o seu sentido. O objeto tem autonomia de existência, devida à sua existência corpórea, mas não tem autonomia de significação, já o vimos. ‘A mudança vem das diferentes relações que mantém com os diversos eventos’, diz Whitehead (1919, p. 63). É desse modo que o espaço testemunha a realização da história, sendo, a um só tempo, passado, presente e futuro. Ou, como escreve E. Relph (1976, p. 125): ‘os lugares são, eles próprios, expressão atual de experiências e eventos passados e de esperanças no futuro’. [...] A idéia de tempo é inseparável da ideia dos objetos e de seu valor. Mas existem complicações porque não se conhece a priori a duração – moral e física – das coisas, dos instrumentos de trabalho. A duração física não pode ser completamente conhecida com anterioridade, porque o comportamento dos objetos em tal ou qual meio é apenas imaginado em função da resistência dos materiais, mas só depois que um objeto é instalado e utilizado é que sabemos quanto tempo dura aquela estrutura inicial. [...]” (SANTOS, 2006,2012, pp.156-158)

A partir dessa reflexão, uma das apostas do projeto aqui apresentado é tentar criar estruturas flexíveis tanto por suas características espaciais quanto por sua materialidade, isto é, pelos componentes que constituem o edifício e os materiais (matérias-primas) neles empregados. “Para o território pós-metropolitano precisamos daquela [...] capacidade de construir lugares [...] correspondentes às exigências e aos problemas do próprio tempo. Assim sendo, políticos e arquitectos deveriam [...] pensar em edifícios realmente polivalentes. Mas ao invés, ainda existe o hospital, a escola, a universidade, o museo, o teatro, a câmara municipal: continua-se a projectar e a intervir – tanto arquitectonicamente, como política e urbanisticamente – por compartimentos estanques, criando corpos rígidos. Já só o facto de dizer que o edifício deve ser


PLANTA TERREO BELA CINTRA / (COTA 114,50 m) COMÉRCIOS / ACESSO À PRAÇA PRINCIPAL / ACESSO AO BLOCO 02 (RESIDENCIAL) / ACESSO ÀS RAMPAS E DEMAIS CIRCULAÇÕES VERTICAIS “PÚBLICAS” (ESCADAS ROLANTES, ESCADAS FIXAS E ELEVADORES)


multifuncional, que deve servir para diferentes usos, que deve ser usado por pessoas e funções diversificadas (jovens, velhos, quem tem determinado ofício, quem tem outro), deveria tornar esse lugar mais coerente com a forma de vida actual. [...]” (CACCIARI, 2010, p.65)

Trata-se de uma tentativa de lidar com a passagem do tempo (no âmbito social-cultural-econômico das construções) e com a variação dos significados e usos atribuídos a edifícios ao longo dos anos (de décadas). “A estrutura do edifício é compatível com outros usos? Muitas vezes, os elementos fixos de um edifício dificultam sua transformação para o recebimento de outros usos. Os elementos estruturais, assim como sua distribuição no espaço, devem ser concebidos para permitir a maior flexibilidade possível de ocupação. O pé-direito dos ambientes também é determinante, assim como a inclinação das coberturas. A reorganização dos espaços, no sentido vertical ou horizontal será mais ou menos facilitada de acordo com o partido estrutural (telhado com madeiramento, paredes estruturais, pilares), a localização dos pilares no edifício (na fachada, na perfiferia, no núcleo central), a distribuição (modular ou não) e os materiais utilizados (concreto armado, tijolos ou blocos de concreto, madeira, metal). [...]” (JOURDA, 2013, p.__ Parte 4: Anteprojeto, questão 43)

Portanto, a estrutura dos edifícios foi pensada para ser flexível, facilmente adaptada, para outros possíveis usos no futuro. Para tanto foram propostos grandes vãos entre pilares e pés direitos generosos que permitem a livre adaptação das plantas bem como o uso flexível do espaço de piso a teto. Além disso, a opção por elementos metálicos tem o intuito de que caso se decida no futuro que o edifício se não é mais útil para a sociedade, parte de seus elementos possa ser reutilizada, - talvez até em outro sítio – ou, no mínimo, reciclada, para que se transforme em matéria-prima útil. A seguir, descrição da estrutura em detalhes: Estrutura: térreo em concreto armado; edifícios: estrutura mista: colunas de concreto armado no térreo encontram, acima, estrutura de aço com 93


PAVIMENTOS TIPO

DE CIMA PARA BAIXO: BLOCO RESIDENCIAL / EM SEGUIDA: BLOCO DESTINADO À ESPAÇOS DE TRABALHO (“CO-WORKING”)


pilares, vigas e “tirantes” compostos por perfis de alma cheia - ligações soldadas e aparafusadas; lajes “steeldeck” ou alveolares; vãos principais de 16,0mx12,0m (bloco augusta); e 16,0mx9,0m com corredor à oeste em balanço de 2,00m no sentido do menor vão (bloco Bela Cintra) - ver planta dos pavimentos tipo e ampliações dos apartamentos.

QUADRO DE ÁREAS (m²)

ITEM

LEI

PROJETO

COMÉRCIO E SERVIÇO.........................................

-

(5%) 715,00

ESPAÇOS DE TRABALHO......................................

-

(50%) 6900,00

HABITAÇÃO.............................................................

-

(30%) 4150,00

QUITINETE

32 m² (60 UNID.)

-

-

APTOS. DE 2 DORM. 64 m² (10 UNID.)

-

-

APTOS. DE 3 DORM. 64 m² (20 UNID.)

-

-

TOTAL DE UNIDADES

(90 UNID.)

-

-

PRAÇAS E JARDINS...............................................

-

(12%) 1650,00

ÁREA PERMEÁVEL (15%).......................................

548,00

(17%) 631,00

CIRCULAÇÕES (VERT. / HORIZ.)...........................

-

(15%) 2040,00

VAGAS AUTOMÓVEIS.............................................

0

0

TOTAL ÁREA PROJETADA.................................... 14600,00

13805,00


AMPLIAÇÃO APTOS. DE 2 E 3 DORMS.


AMPLIAÇÃO QUITINETE

DETALHES / ESTRUTURA E FECHAMENTO À esquerda: detalhe 1 - corte de trecho da fachada sudeste (rua augusta)

TIRANTE DE AÇO PERFIL “I” (30X30CM)

Acima: detalhe 1 - trecho da fachada sudeste (Rua Augusta) FACHADA COM CAIXILHO EM AÇO PERFIS 8X8cm, MOTANTES A CADA 86,00cm; VIDRO TEMPERADO DE 10mm

LAJE MISTA (CONCRETO E AÇO) “STEELDECK”

Detalhe 1 - trecho de planta tipo

VIGA DE AÇO PERFIL “I” (30X80CM)

LAJE STEELDECK CORTADA LONGITUDINALMENTE TIRANTE DE AÇO PERFIL “I” (30X30CM)

GUARDA-CORPO EM AÇO PERFIL 5X5cm

PILAR DE AÇO PERFIL “H” (30X30CM)

CHAPA DE LIGAÇÃO DE AÇO APARAFUSADA (e=15mm)

COLUNA DE CONCRETO DIAM.=70cm

VIGA DE AÇO PERFIL “I” 30X80cm

Detalhe 2: união pilar-viga-laje


PLANTA TIPO (à esq.). No topo da imagem: bloco residencial e na parte baixa: bloco com espaços de trabalho.

CORTE LONGITUDINAL À ESQUERDA: RUA AUGUSTA (COTA 101,00 m) / AO CENTRO: PRAÇA (COTA 111,08 m) / À DIREITA: RUA BELA CINTRA (COTA 114,50m) ESTRUTURA: TERREO EM CONCRETO ARMADO; EDIFÍCIOS: ESTRUTURA MISTA: COLUNAS DE CONCRETO ARMADO NO TERREO ENCONTRAM, ACIMA, ESTRUTURA DE AÇO COM PILARES, VIGAS E “TIRANTES” COMPOSTOS POR PERFIS DE ALMA CHEIA - LIGAÇÕES SOLDADAS E APARAFUSADAS; LAJES “STEELDECK” OU ALVEOLARES; VÃOS PRINCIPAIS DE 16,0mX12,0m (BLOCO AUGUSTA); E 16,0mX9,0m COM CORREDOR À OESTE EM BALANÇO DE 2,00m NO SENTIDO DO MENOR VÃO (BLOCO BELA CINTRA) - VER PLANTA TIPO E AMPLIAÇÕES

DETALHE 01

LOGO À DIREITA: VISTA GERAL DOS TERREOS (ATRAVESSAMENTO PEATONAL ENTRE AS RUAS BELA CINTRA E RUA AUGUSTA) - MODELO ELETRONICO

TA

R. PEIXOTO GOMIDE

US

UG

AA

RU

MAIS À DIREITA: VISTA DE TOPO DO CONJUNTO INSERIDO NO ENTORNO SOLSTICIO DE VERAO ÀS 10:00 HORAS - MODELO ELETRONICO


LEGENDA DE USOS HABITAÇÃO COMÉRCIO E SERVIÇO ESPAÇOS DE TRABALHO

DETALHE 02

RU

RUA BELA CINTRA

AB

AC

INT

RA

COS

TA

TAQUES

RUA

R. PEDRO

EL

RUA AUGUSTA


ISOMETRICAS DO CONJUNTO INSERIDO NO ENTORNO ABAIXO: FACES SUL (RUA AUGUSTA) E LESTE RUA AUGUSTA

REFERÊNCIAS PARA O PROJETO: SISTEMA ESTRUTURAL / EDIFICIOS DE APARTAMENTOS / LAJE DE COBERTURA / VIDRO CURVO

Casa Julian Rose (1949/1950) Arq. Harry Seidler, Sydney, Australia (Revista AU 242, 2014)

Casa Mendes André (1966) Arq. Vilanova Artigas, Elevação

Edificio COPAN Arquiteto Oscar Niemeyer (Planta tipo)

CECAP Guarulhos (Planta Apartamento) Autores: Fabio Penteado, V. Artigas e Paulo M.da Rocha


ABAIXO: FACES LESTE E NORTE (RUA BELA CINTRA) RUA PEIXOTO GOMIDE

RUA BELA CINTRA RUA PEDRO TAQUES

RUA AUGUSTA

RUA BELA CINTRA R. PEDRO TAQUES

ABAIXO: FACES NORTE (RUA BELA CINTRA) E OESTE (NO TERREO: PRAÇA PRINCIPAL) RUA AUGUSTA

RUA PEDRO TAQUES RUA BELA CINTRA

RUA PEIXOTO GOMIDE

Casa Mendes André (1966) Arq. Vilanova Artigas, Fachada (Foto: Nelson Kon)

Sebrae Brasília (2010) Autores.: A. Puntoni, L. Margotto, J. Sodré, J. Davies (Archdaily; Fotos: Nelson Kon)

Laje plana preenchida com argila expandida (Casa em São Paulo. Foto do autor)

Bar no Jardim 9 de abril Portugal (2010) (Vidro curvo) Arquitetos: “aspa”


Abaixo: perspectiva urbana: mirando o acesso da rua augusta, a partir do eixo da rua peixoto gomide

Abaixo: perspectiva: mirando as ruas augusta e peixoto gomide, a partir da praรงa principal


Abaixo: perspectiva aproximada do acesso da r. Augusta (lojas, praรงa, escadas rolantes)


Perspectiva urbana: vista do acesso da rua bela cintra, a partir do eixo da r. Pedro taques.

Acima: vista da praça principal e do acesso ao edificio residencial

Perspectiva da praça principal (miolo de quadra) na imagem, à esquerda: acesso do conjunto residencial (hall com vidro curvo promove interação com a praça) e ao fundo: escadas rolantes e elevadores hidráulicos para cadeirantes.


Abaixo: perspectiva aproximada do acesso da rua bela cintra


Referências

BOERI & MULTIPLICITY; KOOLHAAS & HARVARD SCHOOL; KWINTER & FABRICIUS; ULRICH OBRIST; TAZI. Mutations. Barcelona: ACTAR, 2000. CACCIARI, Massimo. A cidade. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, SL, 2010. CASCUDO, Luís Câmara. Civilização e cultura: pesquisas e notas de etnografia geral. São Paulo: Global, 2004. CHOAY, Françoise. O Urbanismo: utopias e realidades, uma antologia. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2002. CULLEN, Gordon. Paisagem urbana. Lisboa: edições 70, 1971. GUATELLI, Igor. Arquitetura dos entre-lugares: sobre a importância do trabalho conceitual. São Paulo: Senac, 2012. HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 2008. JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2001. JOURDA, Françoise Hélène. Pequeno Manual do Projeto Sustentável. São Paulo: Gustavo Gili, 2013. KOOLHAAS, Rem; MAU, Bruce. Small, medium, large, extra-large: Office for Metropolitan Architecture, Rem Koolhaas, and Bruce Mau. Koln: Taschen, 1997 NESBITT, Kate; PEREIRA, Vera. Uma nova agenda para a arquitetura: antologia teórica 1965-1995. 2. ed. São Paulo: Cosac & Naify, 2010. RODRIGUEZ SOSA, M; SEGRE, R. Do coração da cidade a Otterloo (1951-59): discussões e transgressoras de ruptura. As sementes das novas direções Pós-CIAM. In: Docomomo Brasil, 2009, Rio de Janeiro. 106


Anais do 8º seminário Docomomo_Brasil, 2009. (Disponível em: <http:// www.docomomo.org.br/seminario%208%20pdfs/096.pdf> acessado em 07/05/2015) SANTOS, Milton. Por uma geografia nova, da critica da geografia a uma geografia critica. São Paulo: Hucitec, 1978. SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia A. de; SILVEIRA, Maria Laura (Org.). Território globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1998. SANTOS, Milton. A Natureza do espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. São Paulo: EDUSP, 2006. WISNIK, Guilherme. Estado crítico: à deriva nas cidades. São Paulo: Publifolha, 2009.

Contatos: vinqui@gmail.com / lmrubano@gmail.com

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reflexoes sobre a metropole <2016> <uma> arquitetura para alem do lote na rua augusta  

Architecture and city planning degree monograph and project at FAU-Mackenzie - Sao Paulo - Brazil - 2016. / Monografia e projeto de graduaca...

reflexoes sobre a metropole <2016> <uma> arquitetura para alem do lote na rua augusta  

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