Issuu on Google+


Chanceler Dom Dadeus Grings Reitor Joaquim Clotet Vice-Reitor Evilázio Teixeira Conselho Editorial Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy – Presidente José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer EDIPUCRS Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe


© EDIPUCRS, 2009 CAPA

Vinícius Xavier

FOTOGRAFIAS Leopoldo

Plentz

PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS Patrícia

Aragão

REVISÃO FINAL Autoras PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Vinícius Xavier

IMPRESSÃO E ACABAMENTO

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) A474h Alves, Gabrielle Werenicz Hospital Psiquiátrico São Pedro : 125 anos de história / Gabrielle Werenicz Alves, Juliane C. Primon Serres. – Porto Alegre : EDIPUCRS, 2009. 94 p. ISBN 978-85-7430-896-8 1. Hospital Psiquiátrico São Pedro – História. 2. Psiquiatria – Rio Grande do Sul. 3. Hospitais Psiquiátricos – Rio Grande do Sul – História. I. Serres, Juliane C. Primon. II. Título. CDD 362.21 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS.

EDIPUCRS – Editora Universitária da PUCRS Av. Ipiranga, 6681 – Prédio 33 – Caixa Postal 1429 – CEP 90619-900 Porto Alegre – RS – Brasil – Fone/fax: (51) 3320 3711 e-mail: edipucrs@pucrs.br – www.pucrs.br/edipucrs TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reporgráficos, fonográficos, videográficos. Vedada a memorização e/ou a recuperação total ou parcial, bem como a inclusão de qualquer parte desta obra em qualquer sistema de processamento de dados. Essas proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e à sua editoração. A violação dos direitos autorais é punível como crime (art. 184 e parágrafos, do Código Penal), com pena de prisão e multa, conjuntamente com busca e apreensão e indenizações diversas (arts. 101 a 110 da Lei 9.610, de 19.02.1998, Lei dos direitos Autorais)


AGRADECIMENTOS

Em 125 anos de história, muitas pessoas deixaram sua marca na Instituição, e seria impossível agradecer a todos: médicos, que dedicaram seu tempo e conhecimento para tentar amenizar o sofrimento humano representado pela loucura; religiosos, que se dedicaram a consolar e ajudar as pessoas que passaram pela Instituição; políticos, que, dentro de suas competências, lutaram pela manutenção do Hospital; administradores, funcionários, internados, que tentaram fazer o cotidiano menos dolorido. Os agradecimentos poderiam se estender às pessoas que lutaram para preservar a história deste importante hospital, dentro e fora da Academia, àqueles que usamos como referência e às pessoas e instituições que nos franquearam suas fontes. Uma história como a do Hospital Psiquiátrico São Pedro foi construída por muitos nomes; neste espaço, entretanto, agradeceremos mais diretamente a algumas pessoas envolvidas na produção deste livro. Agradecemos, em primeiro lugar, aos médicos Gilberto Slud Brofman, Rogério Alves da Paz e Luiz Carlos Illafont Coronel, atual diretor da Instituição, por compreender a importância desta publicação. Ainda aos médicos Walmor J. Piccinini e Ellis A. D’Arrigo Busnello, pela importante ajuda e esclarecimentos para a realização deste trabalho. A Edson Medeiros Cheuiche e Neuza Maria de Oliveira Barcelos, responsáveis pelo Memorial do Hospital Psiquiátrico São Pedro. A Dennis Magalhães, Elizabeth Andrighetto Ramos, Vladimir Ferreira de Ávila e Irmã Paulina pela colaboração ao trabalho. Ao Sindicato Médico, através de seu presidente, Paulo de Argollo Mendes, que lutam pelo presente e pela preservação do passado do Hospital Psiquiátrico São Pedro.


SUMÁRIO 9 Prólogo 13 Capítulo I – Em busca de um lugar para confinar os alienados

21 Capítulo II – Um novo monumento na Capital: a inauguração do Hospício São Pedro e seus primeiros anos de funcionamento

35 Capítulo III – Fim do Hospício, início do Hospital: décadas de transformações

49 Capítulo IV – Tempos de mudanças: as novas faces do velho Hospital

67 Epílogo – Hospital Psiquiátrico São Pedro: de Asilo de alienados a Centro de atenção integral à saúde mental

75 Diretores do Hospital São Pedro 77 Notas 81 Referências 86 Abreviaturas


H O S P I T A L P S I Q U I Á T R I C O S Ã O P E D R O : 125 A N O S D E H I S T Ó R I A

PRÓLOGO

Aos dois dias do mês de dezembro do ano de 1879, um grupo de autoridades provinciais e de ilustres cidadãos se reuniu em uma chácara, localizada na Estrada do Mato Grosso, na leal e valorosa cidade de Porto Alegre, capital da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Tal encontro foi palco do lançamento da pedra fundamental do primeiro hospício de alienados da dita Província. Na ocasião, um vão foi aberto na pedra fundamental, e nele foi colocada uma caixa de zinco, contendo uma caixa de madeira, dentro da qual foram depositadas moedas nacionais da época, bem como todos os jornais impressos da cidade naquele dia. Junto com esses materiais, foi igualmente depositada na caixa uma folha de papel, com os seguintes dizeres:

Felizmente para os Brasileiros era Sua Majestade o Senhor D. Pedro Segundo o Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil quando no dia dois de Dezembro de mil oitocentos setenta e nove Aniversário Natalício

9


GABRIELLE WERENICZ ALVES e JULIANE C. PRIMON SERRES

do Mesmo Augusto Senhor, nesta leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre, Capital de Província de S. Pedro do Rio Grande do Sul, o Ex.mo Sr. Doutor Carlos Thompson Flores, Presidente da mesma província lançou a pedra fundamental deste edifício, em execução ao disposto na Lei Provincial nº 994 de 13 de Maio de 1874 e no parágrafo do artigo 5º da Lei nº 1220 de 16 de Maio de 1879, para nele serem tratados os infelizes acometidos de alienação mental. Para perpetuar memória vai esta inscrição ser guardada na pedra fundamental deste edifício para que com ele vá até a mais remota posteridade.1 Será que a obra iria vingar, e a construção do hospício se concretizaria? Ou será que novamente a cerimônia realizada teria sido em vão, como havia ocorrido três anos antes, quando o proprietário do terreno escolhido desistiu de sua venda? Tal fato voltaria a se repetir? Não. Desta vez, seria diferente. Em 1884, no dia 29 de junho, uma nova cerimônia foi realizada no mesmo local, mas agora para a inauguração do tão sonhado hospício de alienados, que recebeu o nome de Hospício São Pedro – homenagem ao santo do dia e padroeiro da Província. Foi para tentar contar parte da longa história dessa instituição inaugurada em 1884 – atualmente chamada de Hospital Psiquiátrico São Pedro, que este ano completa 125 anos de existência – que o presente livro foi escrito. O livro procura tratar dos percalços, dos problemas e das dificuldades do Hospital, mas também de seus êxitos, das inovações que trouxe para o campo da psiquiatria gaúcha, assim como de sua importância para Porto Alegre e para o Rio Grande do Sul.

10


CAPÍTULO I

EM BUSCA DE UM LUGAR PARA CONFINAR OS ALIENADOS

Desvio da imaginação, reverso da razão, fim da inteligibili-

No Rio Grande do Sul, alguns documentos da primei-

dade, uso indevido da liberdade. Essas são algumas das defi-

ra metade do século XIX já apontam para a preocupação

nições através das quais, desde o final do século XVIII, tentou-

existente em relação aos doentes mentais: o que fazer

se explicar o que era a loucura. Na Europa da virada do século

com os “doidos”? Qual a instituição apropriada para abri-

XVIII para o XIX, além de explicações sobre a doença, já havia

gá-los?

espaços definidos, seja para exclusão, consolo, assistência ou tratamento das pessoas com algum tipo de doença mental, na época chamados de loucos, doidos ou alienados.

Um ofício enviado em 1834 ao presidente da Província pelo seu Conselho Geral questionava a conveniência de se construir um edifício para “guardar os doidos”, ou o re-

Nessa mesma época, no Brasil, ainda não existiam essas

colhimento destes à Santa Casa de Misericórdia. Naquele

instituições. Aqui, o doente mental tinha três possibilidades

momento, optou-se pela segunda solução, ou seja, o inter-

de vida: continuar inserido no meio familiar, que tomava

namento na Santa Casa, por ali haver comodidade, medica-

para si sua guarda e tutela; vagar pelas cidades ou campos,

ção e, claro, pelo elevado valor que a obra para o referido

em uma situação de abandono; por fim, ser preso em ca-

edifício poderia custar. O Governo da Província passaria a

deias comuns, quando a comunidade ou as autoridades se

contribuir financeiramente para as despesas com esses no-

viam incomodadas com sua presença ou com suas ações.

vos internos.2


GABRIELLE WERENICZ ALVES e JULIANE C. PRIMON SERRES

Vinte anos depois, uma circular imperial vinda da Corte, escrita pelo ministro dos Negócios do Império, Luiz Pedreira de Couto Terra – no dia 4 de setembro de 1854 – informava as ordens do Imperador D. Pedro II quanto às responsabilidades na administração da alienação mental. A circular barrava o envio de alienados para o

SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE PORTO ALEGRE: UM LUGAR PARA A LOUCURA?

Hospício de D. Pedro II, no Rio de Janeiro, inaugurado há apenas dois anos. Esse Hospício recebia doentes de todas as partes do país e estava com excesso de internos e com dificuldades financeiras para seu sustento. Além disso, o ministro frisava a responsabilidade das Santas Casas de Misericórdia nos cuidados com os alienados. Caberia, portanto, a essas instituições o internamento dos loucos nas diversas regiões do país.

A Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre – assim como as inúmeras Santas Casas espalhadas pelo Brasil – tinha, no século XIX, uma função muito mais assistencial do que terapêutica. O objetivo principal da instituição era dar atendimento aos pobres, na doença, no abandono e na morte. Nesse sentido, o hospital era lugar não de cura, mas de recolhimen-

Em 19 de outubro do mesmo ano, o presidente da Pro-

to e proteção aos miseráveis sem recursos; muito mais um

víncia do Rio Grande do Sul, João Luiz Vieira Cansansão

lugar de redenção e preparação para uma boa morte do que

de Sinimbú, ordenou aos provedores das Santas Casas

de esperança de vida. Além de abrigar as pessoas pobres do-

de Misericórdia de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande

entes, a Santa Casa abrigava também os abandonados e os

que a circular imperial fosse cumprida. A Santa Casa de

excluídos do convívio social: crianças, velhos, criminosos en-

Misericórdia de Porto Alegre, por exemplo, concretizou

fermos, indigentes, bem como doentes mentais.

tais ordens com a criação de um asilo de alienados dentro de suas dependências. Esse asilo de alienados, criado na gestão do provedor João Rodrigues Fagundes, entre 1859 e 18633 delimitou, dentro do hospital de caridade, um espaço específico para as pessoas com doenças mentais. A instituição que já abrigava alienados pelo menos desde 1834, nesse momento, criou oficialmente um setor específico para interná-los.

Nesse período inicial de internamento dos alienados na Santa Casa, parecem inexistir preocupações de ordem médica para tratar a loucura. Não existe nenhuma referência, nos documentos da época, a qualquer tratamento dado aos internos alienados visando curar ou amenizar a doença mental. Bastava separá-los do convívio social e escondêlos da sociedade.4 Alguns anos depois da criação do asilo de alienados da Santa Casa (entre 1866 e 1872) o provedor da Instituição na época, marechal de campo Luiz Manoel de Lima e Silva, já denunciava em seus relatórios um quadro caótico da si-

14


H O S P I T A L P S I Q U I Á T R I C O S Ã O P E D R O : 125 A N O S D E H I S T Ó R I A

tuação do asilo. As principais preocupações apresentadas pelo provedor eram com as despesas elevadas, somadas ao problema de espaço para acomodar os loucos, ou seja, preocupações de ordem econômica e física. Em seus relatórios, Lima e Silva informava que o asilo estava cheio e não havia mais lugar vago para receber os alienados; informava também que o número de alienados remetidos pelo chefe de Polícia era imenso, fazendo com que fosse pedido a este que não os enviassem mais ao hospital de caridade por falta de lugar. Além disso, as despesas com comida, utensílios e vestuário cresciam a cada dia, pois os loucos estragavam o vestuário e os utensílios, além de desperdiçarem comida. Por fim, outro problema com esses pacientes consistia no fato de se tornarem, na maior parte das vezes, pensionistas vitalícios, pois aqueles que os “atiravam” no asilo jamais procuravam por eles.5 Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, década de 1910. Foto: Museu Joaquim José Felizardo

Quanto ao espaço, a Santa Casa possuía nessa época apenas 38 compartimentos para internação de alienados, e a população que abrigava ficava em torno de 44 indivíduos. Por falta de espaço, a Instituição passou a recusar-se a receber mais internos, e os demais alienados passaram a ser enviados para a Cadeia Pública. Essa prática, que se tornou comum, gerava uma preocupação de ordem moral: por não haver um local para acolhimento dos loucos, eles acabavam presos na Cadeia Civil da Capital, junto a criminosos comuns. O provedor seguinte, José Antonio Coelho Junior, que assumiu o cargo em 1873, passou não apenas a denunciar os problemas com o internamento dos alienados na Casa de Caridade, mas a fazer uma campanha para a criação de um local para “guardar” os loucos, separado do Hospital da Misericórdia. Em seus relatórios, Coelho Junior utiliza três argumentos principais para justificar a

criação de uma instituição separada, para o acolhimento dos loucos.6 Em primeiro lugar, o provedor fala das péssimas condições em que viviam os internos do asilo, provindos de todos os pontos da Província, e a Santa Casa não podia minorar seus sofrimentos. Existia na Santa Casa falta de espaço ou inadequação do espaço para os alienados, bem como falta de condições de higiene e salubridade. Os pacientes mais agitados, considerados “furiosos”, eram colocados nos “pavimentos baixos” do edifício – ou seja, nos porões – onde havia pouca iluminação e muita umidade. Além disso, existia a falta de liberdade dos internos: na Santa Casa, os loucos eram privados de toda a

15


GABRIELLE WERENICZ ALVES e JULIANE C. PRIMON SERRES

liberdade, pois, caso ficassem soltos dentro do hospital,

Em 1876, um terreno foi escolhido, sua venda negociada

poderiam causar problemas para os demais pacientes e

e realizou-se uma solenidade a fim de lançar a pedra funda-

para os funcionários.

mental do edifício. Era 19 de março de 1876 e, em homena-

O segundo argumento do provedor em favor da cons-

gem ao santo desse dia, a instituição ora lançada recebeu

trução de um espaço próprio para a loucura era a confusão

o nome de Hospício de São José. Porém, apesar do lança-

existente entre alienados e criminosos, que acabavam ocu-

mento da pedra fundamental, o proprietário da chácara

pando os mesmos lugares de reclusão na Cadeia Pública. A

que iria abrigar o hospício, Sr. Israel Rodrigues Barcellos,

Cadeia não seria um local adequado para o internamento

por razões pessoais e não explicitadas, desistiu da venda

de loucos, por se destinar a abrigar criminosos, com pleno

da propriedade antes de ter sido lavrada a escritura.8

domínio da razão. Por último, o provedor frisava a respon-

A busca pelo terreno para o hospício continuou. Tal ta-

sabilidade da sociedade cristã e civilizada (muitas vezes a

refa parecia bastante complicada, pois não era fácil encon-

responsável pela alienação de seus membros), que não de-

trar na circunvizinhança da capital um terreno nas condi-

veria fechar os olhos para tais problemas.

ções exigidas para um estabelecimento desta ordem: não

Assim, a partir de 1873, o provedor José Antonio Coelho

muito distante nem muito próximo à cidade, água abun-

Junior passou a tentar convencer os membros da Mesa

dante, condições higiênicas, arborizado e com condições

Diretora da Santa Casa, o presidente da Província, as auto-

para ajardinamento. Dos terrenos que poderiam servir, ou

ridades políticas e diversos setores da sociedade, da neces-

seus donos não estavam dispostos a vendê-los, ou pediam

sidade da construção de um hospício separado, específico

um preço exorbitante.

para esse tipo de doente que sofre “da mais horrível enfermidade que pode acometer a espécie humana e a que infelizmente todos estamos sujeitos”.7 A campanha promovida pelo provedor Coelho Junior para a construção do hospício apresentou alguns resultados imediatos: destinação de verbas, constituição de grupos de apoio e busca de um local apropriado para ser erguido o prédio. Sobre as verbas, 12 loterias foram autorizadas pela Assembleia Provincial para serem vendidas e revertidas para a obra do hospício. Com o objetivo de recolher donativos à obra, foram nomeadas comissões por toda a Província, formadas por homens influentes e de prestígio. Por fim, iniciou-se a procura pelo terreno onde deveria ser construído o hospício.

16


CAPÍTULO III

FIM DO HOSPÍCIO, INÍCIO DO HOSPITAL: DÉCADAS DE TRANSFORMAÇÕES

De 1926 a 1950, foram inúmeras as obras físicas e as

mes, com uma pequena interrupção de quatro anos. No

reorganizações técnicas promovidas no Hospital, que

longo tempo em que esteve à frente da direção do São

transformaram toda sua estrutura. Além disso, novos

Pedro, ele implantou uma série de reformas que iriam

tratamentos passaram a ser utilizados com os pacien-

alterar indelevelmente a trajetória da Instituição e da

tes, tratamentos estes de avançada tecnologia, con-

própria psiquiatria no Rio Grande do Sul. O registro des-

siderados os mais modernos na época. Para Jacintho

se período foi deixado em sua obra “Psiquiatria no Rio

Godoy, diretor do Hospital durante boa parte desse

Grande do Sul”, em que narra muitos detalhes da his-

período, essa foi uma época em que o Hospício São

tória e do cotidiano do Hospital. Nas páginas do livro,

Pedro estava se transformando realmente em um Hos-

Jacintho Godoy descreve detalhes preciosos do funcio-

pital.21 As mudanças eram concretas e não apenas no

namento da Instituição, seu cotidiano, tratamentos, um

nome, conforme estabeleceu o Regulamento de 1925,

registro fundamental que ajuda a compor a história do

que modificou o nome do velho Hospício para Hospital

Hospital Psiquiátrico São Pedro.

São Pedro. O período compreendido entre os anos de 1926 e 1950 foi marcado pela longa direção de Jacintho Godoy Go-


GABRIELLE WERENICZ ALVES e JULIANE C. PRIMON SERRES

JACINTHO GODOY GOMES Formado pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre em 1911. Quando jovem, trabalhou como jornalista e redator de alguns jornais e foi secretário particular do presidente do Estado, Borges de Medeiros. Em 1913, foi nomeado Médico-Legista da Chefatura de Polícia e, um ano depois, passou a integrar o Corpo Clínico da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Em 1919, afastou-se de seus cargos para fazer especialização na Europa, na área de neuropsiquiatria. Na Universidade de Paris, teve orientação de Pierre Marie, Babinski, Dupré e Laignel Lavastine, importantes médicos da época. Trouxe da França os conceitos de clinoterapia e balneoterapia, além de novos métodos terapêuticos. Foi o primeiro diretor do Manicômio Judiciário (1924). No Hospital São Pedro, exerceu o cargo de diretor de 1926 a 1932, sendo demitido por razões políticas. Em 1932, fundou o Sanatório São José. Em 1936, retornou à diretoria do Hospital São Pedro, permanecendo no cargo de diretor da instituição até 1951. Foi também o primeiro presidente da antiga Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal, fundada dentro do Hospital São Pedro em 1938.

CONSTRUIR, REFORMAR, AUMENTAR: OBRAS INDISPENSÁVEIS PARA A MODERNIZAÇÃO DO HOSPITAL

Em 1924, Octavio Rocha, intendente de Porto Alegre, havia determinado que fosse levada até o Hospital São Pedro a canalização direta da Hidráulica Guaibense. A nova empresa passou a fornecer um abastecimento de água com mais eficiência. Além disso, graças à verba existente em caixa e ao material de saneamento destinado à execução

Durante um bom tempo, o São Pedro enfrentou muitos

do novo projeto de esgoto – comprado pelo diretor ante-

problemas relacionados com o abastecimento de água e

rior, Deoclécio Pereira – o Dr. Jacintho Godoy, ao assumir

luz. Inicialmente, o abastecimento de água era realizado

a direção do Hospital em 1926, pôde dar início à obra de

pela antiga Companhia Pôrto-Alegrense. A sua velha cana-

saneamento e reforma do São Pedro.

lização de chumbo, deteriorada pela ação do tempo, propiciava repetidas interrupções na distribuição de água. A falta de água também acarretava problemas com a iluminação do prédio, pois o Hospital possuía uma usina própria de luz, movida a vapor de água. Com a falta de água, a instituição não podia fazer funcionar sua usina.

36

A partir de 1926, realizaram-se obras para melhoramento do abastecimento de água, instalação de esgotos e serviços sanitários, reorganizaram-se os serviços de balneoterapia e clinoterapia, assim como adquiriu-se maquinaria para a lavanderia e a cozinha a vapor. Com as reformas, melhorou consideravelmente o estado sanitário do Hospital,


H O S P I T A L P S I Q U I Á T R I C O S Ã O P E D R O : 125 A N O S D E H I S T Ó R I A

desaparecendo os surtos epidêmicos de disenteria bacilar, observados nos anos anteriores. Muitas outras modificações foram realizadas nos mais diversos setores do São Pedro, consistindo em sua remodelação, ou na criação de novas seções e espaços: adaptações de sala para secretaria, farmácia, laboratório, clausura das religiosas, construção de uma capela, novos alojamentos de doentes, retirada de parte das janelas com grades... Todo um pavilhão transversal foi destinado a enfermarias de clínica médica e cirurgia, anexadas às salas cirúrgicas construídas na diretoria anterior. Os porões do edifício foram impermeabilizados e transformados em depósitos de material de consumo. O porão do primeiro pavilhão foi transformado em amplas salas arejadas e bem iluminadas, que passaram a servir de ateliê de costura das mulheres. Os pátios do Hospital foram fechados com muros de três metros de altura. Quanto ao problema da luz, primeiramente toda rede elétrica do edifício foi modificada, para, em seguida, o Hospital passar a receber corrente da Companhia de Energia Elétrica, suprimindo a usina própria. Em relação ao pão consumido no Hospital, este era até então comprado. Durante as reformas realizadas, foi construída uma padaria própria, com um duplo objetivo: diminuir o preço do produto e dar mais uma ocupação aos doentes, que passaram a fazer o seu próprio pão. Também na área da alimentação, uma inovação foi a instalação de uma câmara frigorífica para conservação dos gêneros alimentícios – com capacidade de armazenar carne, leite, ovos,

Foto externa do Hospital São Pedro - Primeiras décadas do século XX Foto: GODOY, Jacintho Saint Pastous; GODOY, Luiz Antonio Saint Pastous. Jacintho Godoy: biografia ilustrada (Acervo Digital). Porto Alegre, 2007.

manteiga, verduras –, bem como a fabricação de gelo. Tal instalação era destinada a medidas de higiene e conservação alimentar.

37


GABRIELLE WERENICZ ALVES e JULIANE C. PRIMON SERRES

obra dos doentes e com o material produzido no Hospital ou na Colônia Agrícola – como tijolos, telhas e outros artigos cerâmicos. Um exemplo foi a construção, ao lado da cozinha, de um pavilhão destinado a um amplo refeitório e alojamentos para doentes contribuintes de 2ª e 3ª classes. Pelo mesmo processo, foi iniciada a construção de um novo refeitório e alojamento para cerca de 400 doentes de 4ª classe, em um pavilhão monobloco de dois pavimentos, que recebeu o nome de Carlos Lisbôa, o primeiro diretor Cozinha a Vapor - Década de 1920 Foto: GODOY, Jacintho. Psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Edição do Autor, 1955.

do São Pedro. Ocupando uma apreciável área isolada das demais construções, o Pavilhão Carlos Lisbôa foi finalizado

Igualmente na administração Jacintho Godoy, foram

apenas em 1949, por falta de recursos. Em 1947, um pavi-

construídas casas para os funcionários. Essas casas eram

lhão pegou fogo e, no seu lugar, foi reconstruído um novo,

destinadas, de preferência, aos funcionários casados, me-

chamado de Pavilhão Jacintho Godoy, que passou a abri-

diante aluguel módico, localizadas na periferia das terras

gar o serviço de Profilaxia Mental.

da Instituição. Essa foi a tentativa de se estabelecer uma cinta de vigilância contra a invasão.

Também nessa época foi construída uma garagem para alojar os carros

Devido ao fato de as terras do São Pedro serem com-

pertencentes ao Hospital (que possuía

pletamente abertas, pessoas de fora do Hospital facilmen-

duas ambulâncias, dois caminhões, uma

te invadiam suas terras, tanto de noite como de dia, para

camioneta, um carro da Diretoria e um

roubar frutos das plantações, roupas dos coradouros, ou

carro fúnebre). Com tais realizações, foi

outros objetos que estivessem ao alcance. Ao todo, foram

possível organizar um serviço de trans-

construídas 11 residências, de alvenaria ou de madeira,

porte de material e pessoal, inclusive

com a ajuda da mão de obra de funcionários e doentes.

com plantões noturnos, sob a direção

Com a “Revolução de 1930”, as obras de remodelação do Hospital, iniciadas em 1927, foram suspensas. A administração do São Pedro não poderia mais contar com a renda patrimonial da Instituição, que passou para o Estado.

de um motorista-chefe. A reorganização desses serviços passou a permitir o controle da quilometragem do serviço e

Na década de 1920, uma ambulância foi comprada para transportar os pacientes Foto: GODOY, Jacintho. Psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Edição do Autor, 1955.

o dispêndio diário de combustível.

Daí em diante, as verbas destinadas ao Hospital contavam

Antes de deixar a diretoria do São Pedro no início de

apenas com verbas de custeio, não figurando nas mesmas

1951, Godoy iniciou uma obra provisória, capaz de alojar

dotações para construções novas ou reformas. Entretan-

cerca de 400 mulheres. A obra consistia em assoalhar e

to, algumas obras ainda foram realizadas, com a mão de

forrar as galerias abertas do primeiro pavilhão transversal,

38


H O S P I T A L P S I Q U I Á T R I C O S Ã O P E D R O : 125 A N O S D E H I S T Ó R I A

aumentando, de modo apreciável, a capacidade do pavilhão. Deixou também em andamento uma grande construção iniciada no ano anterior, destinada a dois grandes refeitórios para homens e mulheres, tendo, numa das extremidades, uma copa distribuidora, próxima à cozinha. Os dois andares superiores alojariam cerca de 600 doentes crônicas trabalhadoras.

Pátios internos, murados Foto: GODOY, Jacintho Saint Pastous; GODOY, Luiz Antonio Saint Pastous. Jacintho Godoy: biografia ilustrada (Acervo Digital). Porto Alegre, 2007. Antigos carros de transporte de doentes, puxados por tração animal Fotos: GODOY, Jacintho Saint Pastous; GODOY, Luiz Antonio Saint Pastous. Jacintho Godoy: biografia ilustrada (Acervo Digital). Porto Alegre, 2007.

ESTUDOS, SERVIÇOS E CONTROLE: ORDEM INTERNA E EXTERNA

Dentro do proposto no Regulamento de 1925, de promover e fomentar estudos sobre a psiquiatria, a partir de 1926, foi organizada no Hospital uma biblioteca especializada. Foram comprados livros e feita a assinatura de revistas médicas, nacionais e importadas. Quando transferida para uma sala própria, o Hospital possuía 764 volumes catalogados de obras de psiquiatria, neurologia e outras especialidades. O arquivo do hospital também foi reorganizado, de modo a facilitar a busca dos documentos.��������������� Até então ocupando duas ����������������������������������������������� pequenas salas, situadas nos porões do pavilhão da Administração, foi transferido para a ampla e arejada sala do andar superior, do mesmo pavilhão. Os documentos arquivados receberam rigorosa classificação, que permitia a busca fácil dos mesmos. Essa reor-

39


GABRIELLE WERENICZ ALVES e JULIANE C. PRIMON SERRES

ganização proporcionou ao Hospital elaborar quadros estatísticos de seus pacientes, além de criar a Seção de Estatística. Em 1948, foi criado no São Pedro um gabinete de identificação, com intercâmbio mantido de fichas dactiloscópicas, com o Gabinete da Polícia. Assim, o Hospital passou a ter fotografias, bem como retratos falados, de

ESPECIALIZAÇÃO E MODERNIDADE NO SÃO PEDRO

todos os seus internos. Isso assegurava a captura dos doentes, nos casos de fuga, e a identificação post-mortem.

Os serviços médicos auxiliares também sofreram importantes remodelações e inovações. Em 1937, foi adquirido um aparelho eletrocardiográfico e outro de eletroencefalografia. Anos depois, foi feita a aquisição de um aparelho de raios X, de 100 mil amperes, e inaugurado o Serviço de Radiologia. Foram igualmente instaladas as Seções de Oftalmologia e Otorrinolaringologia, e a Seção de Odontologia foi reorganizada. Todas essas seções foram dotadas de aparelhagem completa, tanto para exame como para cirurgia. Aos Serviços de Cirurgia, foram anexados o gabinete de Urologia e Proctologia. Criou-se também o Serviço de Psicologia. Além disso, foram organizadas as seções de Química, Sorologia, Encefalografia, Microscopia e Hematologia. Um importante serviço criado na época foi o Serviço de Tisiologia, com médicos especializados para cuidar dos portadores de tuberculose, doença que afetava um número considerável de pacientes. Era realizada uma triagem à entrada dos doentes no Hospital e recenseamento torácico periódico, a fim de isolar os doentes

Foto: Leopoldo Plentz

contagiantes. Os tuberculosos homens passaram a ser instalados na Colônia Agrícola, onde eram isolados do Hospital. Já para as mulheres, improvisou-se o isolamento em toda a parte superior do último pavilhão trans-

40


H O S P I T A L P S I Q U I Á T R I C O S Ã O P E D R O : 125 A N O S D E H I S T Ó R I A

versal. Ali, foi instalado um gabinete para aplicações de pneumotórax, dotado de um pequeno aparelho para radioscopia. Com toda essa estrutura, o Hospital São Pedro passou a ser também um centro de investigações científicas, atraindo grande número de estudiosos dos assuntos de Medicina Mental. O seu corpo clínico foi aumentado, e nu-

Médicos do São Pedro que se especializaram no exterior ou em outras cidades do Brasil (1925-1950) • • • • •

Januário Bittencourt: Europa (França, Alemanha e Bélgica) Dyonélio Machado e Ernesto La Porta: Rio de Janeiro Décio Soares de Souza: Europa e Estados Unidos Mário Martins e Cyro Martins: Argentina Luiz Pinto Ciulla e Almir Alves: Estados Unidos

merosos médicos e estudantes passaram a frequentar as clínicas daquele estabelecimento, como voluntários. Um elemento que contribuiu para essa atividade e estimulou as pesquisas científicas foi o laboratório organizado na época, dotado de aparelhagem necessária ao diagnóstico

COLÔNIA AGRÍCOLA: UMA SOLUÇÃO DE ORDEM MÉDICA E PRÁTICA

das afecções do sistema nervoso. Muitos dos médicos que trabalhavam no Hospital foram se especializar no exterior e trouxeram para o São Pedro as mais modernas técnicas e tratamentos da época.

A laborterapia seguia sendo utilizada no Hospital, entretanto a Colônia Agrícola servia também para promover o

O Hospital São Pedro possuía inúmeros serviços médi-

isolamento dos doentes que pudessem representar peri-

cos e de cirurgia. Diz o depoimento de Irmã Paulina, reli-

go de contágio por outras moléstias como a tuberculose.

giosa que ingressou como enfermeira do Hospital em 1951:

Devido à localização afastada da cidade, o que dificultava

Nós tínhamos tudo, tudo, tudo. Nós tínhamos Serviço Aberto (ambulatório), nós tínhamos otorrino, nós tínhamos oftalmo, tínhamos Gabinete Dentário e Gabinete de fazer prótese, nós tínhamos cirurgia, tínhamos uma sala de traumatologia, nós tínhamos sala de maternidade, nós tínhamos uma sala de cirurgia normal. Nós tínhamos tudo! Tudo, tudo, tudo era feito aqui! (...)Quando baixava doente com bócio ou com hérnia, eram encaminhados para fazer esses procedimentos. Quando os familiares vinham buscálos, ficavam felizes e diziam: ‘quanto que eu queria operar a minha mulher e não podia lá fora’. Ficavam contentes de levar são da cabeça e da barriga. (Depoimento de Irmã Paulina)

a assistência médica, feita apenas em visitas mensais, a Colônia Agrícola do Hospital foi transferida para a Chácara da Figueira, uma área de 83 hectares, adquirida da Prefeitura Municipal e localizada nas proximidades do Hospital São Pedro, no Caminho do Meio, atual Av. Protásio Alves, Bairro Petrópolis. Na Chácara da Figueira, os doentes eram alojados em pavilhões, na sua maioria de madeira. A chácara era utilizada, além do isolamento de tuberculosos do sexo masculino, para o alojamento de inválidos e menores. Os doentes trabalhadores, em número reduzido, se ocupavam da produção de verduras, como cebola, batata, batata-doce e mandioca, destinadas ao consumo da própria Colônia e do

41


1.

Carlos Lisbôa: 1884-1888

2. Olímpio Olinto de Oliveira: 1888-1889 3. Francisco de Paula Dias de Castro: 1889-1901

DIRETORES DO HOSPITAL SÃO PEDRO

4. Tristão de Oliveira Torres: 1901-1908 5. Dioclécio Sertorio Pereira da Silva: 1908 -1924 6. José Carlos Ferreira: 1924-1926 7. Jacintho Godoy Gomes: 1926-1932 8. Luiz Guedes: 1932-1937 9. Jacintho Godoy Gomes: 1937-1951 10. Augusto Pereira Brochado: 1951-1955 11. Leônidas Palmeiro Escobar: 1955 12. Celso Cezar Papaleo: 1955 -1957 13. Dyonélio Tubino Machado: 1957-1959 14. Raymundo Godinho: 1959-1960 15. Luiz Pinto Ciulla: 1961-1962 16. Fernando Luiz Vianna Guedes: 1963-1966 17. Avelino Costa: 1967-1971 18. Ely Attala Chefe: 1971-1972 19. Avelino Costa: 1973-1978 20. Hans Ingomar Schreen: 1978 -1983 21. Ellis D`Arrigo Busnello: 1984-1988 22. Fernando Boese: 1988-1990 23. Régis Antônio Campos Cruz: 1990 - 1991 24. Enio Arnt: 1991-1995 25. Salvador Ferraro Filho: 1995-1998 26. Roberto Gandolfi Lieberknecht: 1998 27. Régis Antônio Campos Cruz: 1999-2002 28. Roberto Gandolfi Lieberknecht: 2003-2006 29. Luiz Carlos Illafont Coronel: 2007



Livro - Hospital Psiquiátrico São Pedro