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Chanceler

Dom Dadeus Grings Reitor

Joaquim Clotet Vice-Reitor

Evilázio Teixeira Conselho Editorial

Antônio Carlos Hohlfeldt Elaine Turk Faria Gilberto Keller de Andrade Helenita Rosa Franco Jaderson Costa da Costa Jane Rita Caetano da Silveira Jerônimo Carlos Santos Braga Jorge Campos da Costa Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente) José Antônio Poli de Figueiredo Jussara Maria Rosa Mendes Lauro Kopper Filho Maria Eunice Moreira Maria Lúcia Tiellet Nunes Marília Costa Morosini Ney Laert Vilar Calazans René Ernaini Gertz Ricardo Timm de Souza Ruth Maria Chittó Gauer EDIPUCRS

Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor Jorge Campos da Costa – Editor-chefe


© EDIPUCRS, 2009 CAPA

Vinícius Xavier

TRADUÇÃO DOS MANUSCRITOS NO IDIOMA ALEMÃO PARA O PORTUGUÊS Werner Schinke REVISÃO DA VERSÃO EM PORTUGUÊS Patrícia REVISÃO FINAL Renato

Aragão

de Oliveira

PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Vinícius Xavier

IMPRESSÃO E ACABAMENTO

SINDICATO MÉDICO DO RIO GRANDE DO SUL PRESIDENTE Paulo

de Argollo Mendes

FUNDO EDITORIAL SIMERS - SÉRIE TESTEMUNHOS MÉDICOS – 1

Renato de Oliveira – UFRGS Ezequiela Scapini

COORDENADOR DA COLEÇÃO SECRETÁRIA-EXECUTIVA

EDIPUCRS – Editora Universitária da PUCRS Av. Ipiranga, 6681 – Prédio 33 Caixa Postal 1429 – CEP 90619-900 Porto Alegre – RS – Brasil Fone/fax: (51) 3320 3711 e-mail: edipucrs@pucrs.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S336d Schinke, Karl Wilhelm Diário da África : o diário de um médico alemão na guerra dos hotentotes = Berichte aus Afrika : tagebuch eines deutschen arztes während des hererokrieges / Karl Wilhelm Schinke ; trad. Werner Schinke. – Porto Alegre : EDIPUCRS, 2009. 232, 188 p. – (Série Testemunhos Médicos ; 1) Textos em português e alemão em direções opostas. ISBN 978-85-7430-907-1 1. Schinke, Karl Wilhelm – Diário. 2. África – Descrições e Viagens. 3. Médicos Alemães – Biografias. 4. Médicos – Atuação Profissional. I. Shinke, Werner. II. Título: Berichte aus Afrika: tagebuch eines deutschen arztes während des hererokrieges. CDD 926.1 Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS.

Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Editora.


AGRADECIMENTOS A WOLFGANG August Mathias RIEDEL (in memoriam) Natural de Hamburgo – Alemanha

Amigo da família Schinke, em São Paulo desde 1934, com a avançada idade, de 81 anos, residindo no Retiro Humboldt, em Jacarepaguá-RJ, aceitou transcrever via máquina de escrever as páginas do Diário da África, do Dr. Karl W. Schinke, manuscritas em letra gótica e com muitas abreviações – um trabalho exaustivo que durou em torno de dois anos. A nosso poder chega uma carta, datada de 15 de julho de 1989, na qual comunica que está chegando ao final e que no mais tardar até fins de agosto pretende entregar a transcrição para Henning Schinke, irmão de Werner, que reside em Nova Friburgo-RJ. Assim, devemos prestar uma justa homenagem póstuma ao senhor Wolfgang Riedel, que na carta acima justifica a demora, reclamando em tom humorístico: “a sua avó deveria ter dito ao seu avô que escrevesse com letra melhor, pois muita coisa é indecifrável”. E, assim, o manuscrito e a transcrição voltaram ao acervo de Werner Schinke. Ao senhor Siegfried Godendorff, membro da “Associação dos ex-combatentes das tropas de além-mar, amigos dos antigos Protetorados Alemães”, residente na Alemanha, que se dispôs a corrigir – gratuitamente – todos os nomes de personagens e lugares, que estavam com grafia errada na transcrição, e pelo fornecimento do mapa com o trajeto percorrido pelo autor. Ao professor Renato de Oliveira, que vislumbrou o valor histórico deste diário, sugerindo sua publicação e empenhando-se para sua concretização. Ao Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, que está empenhado em divulgar a “História da Medicina no Rio Grande do Sul” e aceitou assumir a publicação do Diário. Da mesma forma, à Editora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em participar na impressão do Diário. Enfim, à senhora Renate Hilgemann e à minha esposa Gisela que com paciência e interesse participaram da tradução do Diário.

Werner Schinke

Médico aposentado, neto de Karl Schinke, residente em Estrela/RS, tradutor deste diário.


Prefácio

08

Breve biografia do autor Dr. Karl Wilhelm Schinke

15

O Diário

20

Epílogo

224

O desfecho da Guerra dos Hereros-Hotentotes

227

Fontes de consulta

229

Fotos

231

Mapa da época com o roteiro percorrido pelo Autor

239


O livro que os leitores têm em mãos é o resultado de uma saga pes-

soal e de uma história de amor familiar. Saga pessoal de seu autor, o médico Karl Wilhelm Schinke, formado em 1887 pela Universidade de Greifswald (Pomerânia), sob a autoridade do Kaiser Wilhelm I, a quem a aventura pareceu acompanhar desde que um Pastor de sua aldeia natal, julgando-o inteligente acima da média, o afastou do caminho já definido havia gerações: o trabalho agrícola. Daí à Universidade e, já médico, à cidade de São Leopoldo, primeiro núcleo de imigrantes alemães nos confins do Brasil meridional, onde chegou em 1895. Retornou a Berlim, depois de andejar em busca de terras pelas Américas do Sul e Central. Pensava buscar alguma outra profissão, na qual os dias não se contassem em léguas sobre a sela de um cavalo. Acabou alistando-se como oficial médico no exército imperial alemão, indo parar no Deutsch-Südwestafrika, o Sudoeste Africano Alemão, para finalmente, depois de nova passagem por Berlim, retornar ao Brasil para exercer a mesma profissão – que parece tê-lo escolhido, bem como a boa parte de seus descendentes – num núcleo colonial que passaria a denominar-se Novo Hamburgo, que então surgia próximo ao mesmo lugar onde já havia trabalhado (1913).História de amor familiar de seus descendentes, que, durante cem anos, guardaram as quase 300 páginas de miúda caligrafia gótica, nas quais Herr Schinke registrou à sua esposa os dois anos de aventura em meio a uma guerra colonial. Família cuja memória começa num certo Adam Schinke, nascido na primeira metade do século XVIII na  Silésia, então parte do Império Alemão e que, desde seu bisneto Karl, teceu através do labirinto da Medicina o seu fio de Ariadne, que já alcança a quarta geração consecutiva. Hoje, o amor à família, à medicina e à Arte – esta, quase um complemento natural – têm seu lugar próprio na cidade de Estrela, na residência do médico Werner Schinke, neto de Karl, e de sua esposa Gisela Schulz Schinke.


10 Não um lugar de culto a essas instituições e seus deuses. Apenas um lugar de viver. Um lugar onde a multidão de objetos, livros e documentos asseguram a presença da História na memória dos que ali vivem, impedindo que a vida diária caia nesta armadilha a que denominamos “presente”, ninharia de sensações comezinhas de cotidianos vazios, mas se estenda, como um exercício diário de reflexão, num arco de séculos. Ali fomos encontrar este diário, quando coordenávamos o projeto Memória Médica do RS, do Sindicato Médico do Estado do RS. Timidamente apresentado por seu guardião – afinal, não é tão fácil submeter ao eventual interesse público algo que, durante cem anos, fez parte de uma história familiar – bastou tê-lo em mãos para que a ideia de publicá-lo se impusesse. E, com ela, a ideia de um Fundo Editorial que tornasse possível trazer para a cultura presente da sociedade o legado histórico de uma profissão que, como poucas, situa-se no coração do problema ético: a busca do ser humano pela sua Autonomia. Médicos e médicas não são melhores nem piores do que os outros homens e mulheres. Sua profissão, no entanto, os obrigou (e ainda obriga, apesar das inúmeras mediações impostas pelo avanço da tecnologia médica) a viver como aquele vaqueano das paragens do Rio Grande do Sul de Simões Lopes Neto, o Blau Nunes: “no pêlo a pêlo com os homens”.  Assim, se os causos do Blau têm o dom de relatar a formação de uma sociedade a partir da instauração de sentido que acompanha a humanização de seus guascas, os causos médicos não são diferentes. Eles trazem igualmente à tona a matéria viva que compõe as relações sociais, nesse quase desprezo – tipicamente médico! – pelo formalismo das instituições sociais. Este sentido perpassa o diário do Dr. Karl Schinke, além da angústia pessoal do afastamento da família. O Sudoeste Africano, correspondendo à atual Namíbia, foi legado à Alemanha pela Conferência de Berlim, ocasião em que as principais nações europeias e os Estados Unidos da América, recém-saídos da Guerra da Secessão,


21

1º de fevereiro de 1905 até 4 de março de 1906 A PARTIDA

Rotterdam1, 1º de fevereiro de 1905.

Querida, tesouro do meu coração! Meus relatórios de viagem, quero começar logo aqui, já que o destino assim o designou. Porque, se assim não fosse, receberias o primeiro relato apenas de Madeira2. Guarde bem estas folhas, pois mais tarde elas podem ser uma boa lembrança para nós. A noite, entre o dia 29 e 30 de janeiro, – após a partida de Uelzen3 – transcorreu de maneira muito monótona. Havia longas paradas em estações solitárias, superaquecimento no compartimento do trem, etc. O gordo Schlüter, com quem eu e o primeiro-tenente Stach estávamos acomodados, não suportava a entrada de ar puro. Por isso, sempre aproveitei o tempo em que ele dormia, para abrir um pouco a janela. É claro que ele, como bom westfaliano, xingava bastante quando se dava conta, mas aí “a janela tinha se aberto por si mesma”. Perto das 7 horas, estivemos no cais Petersen4. Lá 1  Rotterdam: cidade portuária na Holanda. 2  Ilha da Madeira. 3  Uelzen: cidade ao sul de Hamburgo. 4  Cais no porto de Hamburgo.


22 fomos transportados para o navio, e distribuídos aos camarotes. Recebi o camarote nº 11, camarote do primeiro-oficial, junto com o médico assistente Wetzel. O camarote está situado diretamente atrás da parte frontal do navio, mais ou menos como o salão na Marwinkuna5, com toda certeza um dos melhores desse navio. A isso se soma mais uma circunstância, que torna o camarote bem agradável, que será mencionada mais tarde em detalhes. Como já sabes, o navio se chama “Belgrano”; foi transferido pela HSDG6 para a linha Wörmann7, com capitão Schweers. Como militares viajantes na primeira classe, se encontram as seguintes pessoas: Major Gräser do quartel-general, capitão Hälbig, primeiro-tenente, Stach, tenente, Salm, capitão-médico Dr. Braasch; primeiros-tenentes médicos: eu, Schlüter, Dorrien, Schwengber, Schultz, Hallwachs, Bofinger, Nägele; médicos assistentes: Wetzel, Horn, Haupt, Heitzmann, Meyer, Todt, Tremboldt, Wolf, Freyse, Lindner, Liess; tenentes farmacêuticos: Verrié, Veuth,Braeunig, Finke; conselheiro da intendência, Drewes, secretário Werner, tenente-bombeiro Engelhardt, inspetor de lazaretos Sellin, arrendatários Igney, Meissner, Schulz, Lagemann, Wolfgang, Liebert, Gramleit, conselheiro Duft, mestre de ferrovias Haase, Erich von Blauth. Toda tripulação foi reunida no cais. O major Versen fez a saudação de despedida, enquanto a banda da cidade de Hamburgo tocava músicas alegres, e, no final, a que nunca falta: “Tenho que ir, tenho que ir... E tu, meu amor, tens que ficar8. Sob o aceno de muitos lenços, gritos de despedida, abraços e beijos (um soldado logo havia encomendado duas noivas), o navio se põe lentamente em movimento.

5  Nome do navio, em que a família viajou para a América Central. 6  HSDG – Hamburg-Süd-Dampfschiffahrts-Gesellschaft= Cia. de navegação alemã. 7  Wörmann: companhia de navegação, que mantinha o monopólio das linhas marítimas das colônias alemãs, na África. 8  Canção popular alemã: Muss i denn, muss i denn zum Stäedtle hinaus, und Du mein Schatz bleibst hier...


23

A VIAGEM Até Cuxhaven9, o rio Elba estava coberto com blocos de gelo flutuante. Esses blocos em parte se empilhavam nas margens em altas camadas. Em geral, o mar se apresentava calmo, mas mesmo assim algumas pessoas já rendiam seu tributo ao furioso Neptuno. Como a última noite tinha sido muito cansativa, consegui dormir muito bem, durante toda a noite. A vida a bordo se desenrolava de forma muito agradável. O major, um senhor muito cortês, queria ser um camarada entre camaradas. Sendo eu um homem experiente em viagens marítimas10, tive que dar muitos conselhos. Horn acompanhava os movimentos do navio como manda a regra. Liess só comia sanduíches e picles. Heitzmann, aconselhado, fixava o olhar em algum lugar, para não ficar com enjoos, etc. Diante da janela do meu camarote se encontrava amarrada uma barcaça (de balaustrada a balaustrada), que deveria ser usada em Swakopmund11 para o desembarque de cavalos, entre outros. De modo que não tenho nenhuma visão sobre a parte frontal do convés, e a corrente de ar necessária para ventilar meu camarote, também não funciona. Na popa estavam amarradas duas carretas pesadas, do destacamento dos faróis. Além disso, lá estavam empilhadas caixas sobre caixas.

O TEMPORAL Terça-feira à tarde, o vento começou a soprar com mais força, e as ondas do mar rolavam alto. Por isso o comandante do navio se viu obrigado a navegar contra as ondas e o vento, para não adernar. Prevenido, eu havia calçado meus 9  Cuxhaven: cidade portuária na desembocadura do rio Elba – Alemanha. 10  Ver biografia resumida do autor. 11  Swakopmund: cidade na costa da África Alemã do Sudoeste, hoje Namíbia.


24 sapatos-tênis. Os outros passageiros, começando pelo major, até o passageiro do último camarote, sentaram no chão, pois as suas botas de couro não lhe ofereciam segurança. Dois médicos resvalaram de traseiro no convés sujo até a balaustrada e sobre toda extensão da largura do convés, não faltando, portanto, momentos de alegre distração. Agora vem o outro lado da medalha: o barco ia com metade de sua força contra o vento, e até se mantinha bem, embora não conseguisse ir adiante nenhum passo. Vento norte, e aí quebra a corrente do remo. O navio é atingido de lado pelas ondas, e o balançar toma seu início. Uma onda gigante se derrama sobre o navio, de modo que a gente tinha que estar preparado para uma catástrofe. O navio se inclina de tal jeito que a parede de bordo colheu água. O cozinheiro e a sua equipe que estavam no preparo do jantar não conseguiram mais segurar qualquer chaleira ou panela no fogão, e os ajudantes da cozinha devem ter realizado danças acrobáticas para se proteger contra água e molhos quentes, tentando saltar sobre utensílios rolando no chão. No salão, todos se seguram onde podem, até mesmo as cadeiras e os corrimões parafusados são arrancados de sua base. Tudo isso virou uma desgraça. Horn caiu no corredor, sentado em uma vidraça, cortando a calça. Liess bateu com a cabeça e teve um grande ferimento contuso. No geral, pessoas, tinteiros, louças, cadeiras etc. caíam um por cima do outro. Fui logo para fora e me segurei no corrimão, que estava parafusado na parte externa da parede do salão. Não demorou, caí e – sentado no chão – tive que me segurar e me apoiar com toda força, para não ser arrancado dali. Uma parte das caixas já tinha sido levada pelas águas e – como ouvi falarem – os farmacêuticos perderam todos os medicamentos. Tu sabes, foram também eles que tiveram o maior azar nas montarias. Vou dizer logo, eu não perdi nada! No convés intermediário, lá onde estavam os soldados, o aspecto era caótico. As armas, bem como todos os outros utensílios, teriam executado uma verdadeira dança das bruxas, mas poucas armas estragaram. Os maquinistas não conseguiram dominar o leme manual, pois a corrente quebrada o estava


25 trancando. Assim, a história ficou cada vez mais louca. Na barcaça pesada, que estava presa com fortes amarras de aço, estavam duas lanchas, caixas e cestos. As duas lanchas, em elegante voo, se foram para o mar e desapareceram, e os outros conteúdos seguiram o mesmo caminho. A própria barcaça, que a essa hora já estava cheia de água, começou a se desprender de suas amarras. Ela batia de um lado e de outro, quebrando dois ventiladores, possibilitando assim que a água, em torrentes, invadisse o depósito do navio. A parede do convés superior foi arrancada e uma escada se perdeu. As escadas de corda no lado cediam como se fossem de linha, inclinando assim o mastro para o lado. Finalmente, a balaustrada maciça também se soltou. Foi amassada em ambos os lados e arrancada. As amarras de aço agora também não podiam mais segurar o peso e, com um enorme estrondo, a barcaça despencou para o mar. Uma pinaça que se encontrava ao lado do mastro foi amassada, e a chaminé dobrada, que parecia pendurada como o capuz do Michel12. Também a caldeira foi amassada. Por sorte, o navio se distanciou da barcaça, pois havia o perigo iminente de que esta poderia se chocar com o Belgrano e furar o casco. Como uma das poucas testemunhas oculares, presenciei esse jogo horrível de A a Z, pois nem dez cavalos teriam me levado para dentro daquele salão, onde a situação era bem mais perigosa. Parecia que os marinheiros, no seu empenho de vedar as tubulações dos ventiladores, nem acreditavam mais na eficácia de seus serviços, ou em sobrevivência. Do pesadelo que tinha sido a barcaça perigosa, que o próprio capitão de antemão teria se negado a levar montada, na hora do carregamento, felizmente desse nos livramos. O leme, nesse meio tempo, tinha sido desvencilhado da corrente, e o Belgrano virou-se novamente contra o vento e as ondas, para iniciar redobrada luta contra ambos. O Belgrano foi o vencedor. Também no leme a vapor, haviam consertado a corrente e todos respiraram aliviados, quando o curso, em vez de ir para o norte, foi direcionado para o sul e o sudeste. Muitos certamente nem se deram conta dos perigos haviam passado, pois na ingenuida12  Michel: a caricatura do alemão ingênuo, pacato e abobado, que usa uma touca.


26 de e na ignorância, se divertiam como crianças, quando viam um homem rolar como uma bola pelo convés, quando ao mesmo tempo tinham que se segurar com todas as forças, para não seguir o mesmo caminho. O comandante mencionou mais tarde que esta foi a segunda vez que tinha visto um mar tão revolto e perigoso, e ele não é nenhum novato. Para completar a desgraça, toda a carga do navio havia se deslocado para bombordo, o que o fez inclinar-se perigosamente para o lado. Bem, essa noite horrível também terminou, e hoje de manhã entramos em Rotterdam13. Aqui o Belgrano será restaurado de suas feridas e vai recuperar seu antigo visual. Foi dito que o major havia expressado o desejo de que os oficiais se mantivessem reunidos, caso o extremo viesse a acontecer, o que por sorte não aconteceu. Faço votos de que nós – até aqui e logo de início – tenhamos recebido a parcela de tempo ruim que nos coube receber. Assim, espero que o resto da viagem, aliás um resto bem longo, transcorra de maneira mais tranquila. Deveremos ficar cinco dias aqui em Rotterdam, mas já surgem comentários de que não precisaria tanto tempo para fazer os consertos. Mande as cartas pela agência da Linha Wörmann-Rotterdam.

ROTTERDAM I 1.II.1905 – Hoje à noite, todos os oficiais são convidados do Clube Ale-

mão, porém, infelizmente, não posso participar por estar de plantão. A bordo, além de alguns civis, que vão como voluntários para a guerra, e fazendeiros, que se dirigem para o sudoeste, se encontra também um médico italiano, que tem um contrato por alguns anos com a firma Koppel e deverá cuidar dos operários italianos, os quais trabalham na estrada de ferro para Otavi14. Ele fala um pouco de alemão e diz ter estudado em Viena; só foi visto no primeiro dia, depois ficou enjoado, até entrar13  Cidade portuária da Holanda. 14  Otavi: cidade na Namíbia.


27 mos em Rotterdam. O médico de bordo15 é um senhor muito simpático e atencioso, que faz sua terceira viagem marítima e fala o dialeto inconfundível de Hamburgo. No que diz respeito à nossa alimentação no navio, ela é excelente. Vou tentar, em ocasião oportuna, te enviar um exemplar de cardápio. Falta a devida movimentação para uma boa digestão. O Schwengberg é um velho conversador, que fala continuamente as coisas mais banais e pergunta o óbvio a toda hora.

ROTTERDAM II 2.II.1905 – Ouvi falar que a festa no Clube Alemão transcorreu de

maneira um tanto monótona. Teria sido um tipo de conversa, que não vale a pena lembrar. Na cancha de bocha, a participação teria sido mais animada. Ao contrário, nas mesas do jantar os oficiais estavam bastante a sós, entre eles. Uma caixa contendo equipamentos e instrumentário para os trópicos pertencente ao colega Liess foi lançada ao mar. A companhia garantiu-lhe a reposição. Hoje pela manhã, fui junto ao Löwenbräu16. Os olhares indiscretos dos holandeses eram quase abusivos. Também se ouviram apelidos ofensivos aos alemães do tipo “alemão quadrado”. O holandês recebeu o troco, com o apelido de H.M.17 No Museu Boitmann, havia poucos quadros e esculturas para ver, e a melhor certamente era “Eva em desespero” de Rodin. No Löwenbräu comemos ostras holandesas (uma dúzia a um gulden = 1,70 M.), uma boa Pilsen e cerveja de Munique. Durante nossa permanência no restaurante, estávamos o tempo todo expostos aos olhares curiosos de uma multidão de pessoas, que rodeavam o local. Hoje de manhã, depositei no consulado alemão 800 marcos para a Deutsche Bank, Berlim. 15  Médico contratado pela companhia de navegação, responsável pela tripulação. 16  Restaurante/cervejaria em Rotterdam. 17  Abreviatura não decifrada.


28 Hoje à noite, os colegas irão ao teatro de variedades; resolvi ficar em casa. Em Hamburgo foram distribuídas doações de caridade. Cada um recebeu três cartões postais e um estojo com charutos. O mais valioso, em todo caso, é o estojo. Um dos jornais daqui trouxe hoje a notícia sobre nossa avaria e que atracamos no porto local e que a tripulação, ao sair para as ruas, tivera que suportar os olhares curiosos e indiscretos da população. Ao ser feita a inspeção no navio, constatou-se que as vigas das escotilhas haviam quebrado e que o capitão tomou a decisão certa ao rumar para Rotterdam. O primeiro-oficial confirmou hoje a extensão do perigo em que nos encontráramos. Dois suboficiais, ao verem a barcaça flutuando no mar, pensaram que se tratava da parte dianteira do navio que se quebrara e – sendo assim – pensaram até em se suicidar com um tiro. Os oficiais foram recebidos hoje, de maneira grandiosa, no teatro de variedades; ao entrarem foi tocada a música “Heil Dir im Siegerkranz”18 acompanhada pelos aplausos do público presente. Nos intervalos, cantaram canções alemãs e no final “Die Wacht am Rhein”19. Foram cumprimentados pelo diretor, que hoje, dia 3 de fevereiro, quer fazer uma visita ao major e oferecer um show extra – e grátis – à tripulação. As grossas roupas de algodão, bem como o casaco de lã, são agora muito bons de usar, da mesma maneira as meias de lã, que em outras épocas não me sentavam bem. De jornais, me mande logo o Echo20, a partir de fevereiro ou, melhor ainda, desde meados de janeiro, para o Transporte T. O primeiro oficial confirmou o parecer do capitão sobre a violência e a turbulência do mar e também que a nossa situação tinha realmente sido muito crítica. Se Bödiker21 ainda não te mandou o código de senhas para telegramas familiares, então escreva para o seguinte endereço: Hamburg Asiahaus, Alte Gröningerstrasse, 24/25, Correio 8, endereço telegráfico: Bödiker H. Esse código 18  Salve a vós, na coroa da vitória – Hino ao Rei da Prússia (1793). 19  A sentinela do rio Reno – canção tradicional alemã (1840). 20  Nome de jornal: O Eco. 21  Nome de empresa despachante.


29 também é dado, sem custos aos familiares de oficiais. A firma se oferece para formular os telegramas e – especialmente – decodificá-los. Quanto aos “charutos da caridade”, fiz o que está ao meu alcance, ao menos comecei a fumá-los. Não precisas temer, vou novamente fumar, mas – o que o amor oferece, com amor deve ser retribuído – cada dia um fósforo para um cigarro e meia tragada. Durante dia e noite, ouve-se o barulho dos marceneiros, martelando e serrando o barco. Quanto ao sono, a resposta é óbvia. A barulheira se concentra sobre o meu camarote, onde reparam os estragos que a barcaça causou no convés de passeio, quando romperam as amarras. Quando a gente acorda de manhã tem-se a impressão de que fizeram o teste do golpe de Goltz22. Se os jornais podem ser enviados com porte livre pelo correio militar, então me envia além do Eco o Reichsbote23. Hoje pela manhã, o Clube Alemão colocou à disposição dos oficiais um pequeno navio para conhecer o porto. Estive justamente sob os cuidados do barbeiro, por isso não pude fazer parte. Sob a iniciativa do major, deverá ser publicado um comentário humorístico no jornal Lokalanzeiger24 de Berlim, que terá como tema nossa avaria, dando, entre outros, como motivo do paradeiro em Rotterdam, a falta de cerveja no estoque. Quem sabe, tu fazes uma assinatura para oito dias desse jornal. Não se esqueça de me mandar em seguida vaselina livre de ácidos e água e a melhor graxa para couros. A primeira, tu encontras na Neue Wilhelmstrasse, Berlim – da firma Leitz só um trechinho em direção às Tílias, à esquerda. – Meffert25 poderá enviar logo as balas para o Drilling26 calibre 8. – Dez quilos deverão chegar, juntando a melhor pólvora correspondente etc. (Transporte T). Quem sabe, também os envios de pacotes para mim sejam franqueados. Peço 22  Teste de Goltz (fisiologia): o estímulo dos nervos sensitivos das vísceras do sapo mediante percussões no ventre provoca bradicardia. 23  O mensageiro do Reino, nome do jornal. 24  O informativo local. Nome do jornal. 25  Loja de armas. 26  Arma de caça de três canos.


30 que te informes a respeito, se eu não conseguir mais detalhes, melhor seria no Comando Superior da Tropa do Protetorado B.

ROTTERDAM III Uma reportagem, em jornal local, sobre a nossa chegada e comportamento aqui em Rotterdam nos divertiu muito e será interessante para vocês. Diz o seguinte: Aqui chegou o vapor Belgrano, que está ancorado no cais “Loodsen leste e oeste” no porto do Rheno. Esse navio sofreu avarias no convés. A bordo desse navio, que está a caminho para a África Sudoeste alemã, se encontram 150 oficiais, subalternos e tripulações da reserva alemã, que vão lutar contra os hereros. Os homens usavam longos casacos cinzas, passeavam em grupos pela cidade e foram admirados por muitos.

No café da manhã, o major leu uma carta de uma tal Mary, em que se queixava de não ter recebido permissão do primeiro-oficial para subir no navio. Ela pretendia vender cartões postais e, em relação a esse negócio, ninguém poderia fazer alguma objeção, – além disso, ela estaria morando bem perto daqui, do outro lado da delegacia de polícia. A reação foi um longo “Oh!” e uma grande lamúria sobre a desgraça de Mary, mas logo em seguida passou-se à ordem do dia.

ROTTERDAM IV 4.II.1905 – Ontem à noite, o tenente Salm, Hallwachs e eu, recebe-

mos ordem de ir ao teatro de variedades “Fafnir”. Sessenta homens receberam


31 entradas da direção. Quando aparecemos lá, cantaram o hino “Salve a vós, na coroa da Vitória!”27. Em seguida entoaram o hino nacional holandês. Tivemos uma recepção muito amável, e alguns artistas manifestaram em suas saudações a esperança de em breve rever-nos no regresso como vitoriosos em relação aos hereros. Os ingleses, ao contrário, não se saíram muito bem: o pequeno Davi, junto com sua irmã, cantou um dueto, cuja letra dizia que Deus não permitia que o sol desaparecesse no Império Mundial Britânico, porque ele próprio não confiava em nenhum inglês. A tripulação gostou tanto que pediram a mim e a Salm uma dispensa para o resto da noite, que não pôde ser concedida. Apesar disso, dois homens, da reserva do pelotão dos faróis, desapareceram. Mais tarde estivemos em companhia de Borchert, médico do navio, na cervejaria “Pschorrbräu”. As pessoas por aqui já viram muitos marinheiros, mas nunca tinham visto tropas coloniais, daí o alarde que provocamos. Entrementes, criou-se a bordo um ambiente típico de taberna, pois haviam convidado o Clube Alemão. Ainda chegamos a tempo para assistir a um congraçamento final nessa alegre noitada, em que principalmente se destacaram o Bofinger, até então um sujeito calmo, e o tenente bombeiro Engelhardt. Também a dança do major, uma réplica da que apresentou com a poltrona quebrada, no salão durante o temporal, teria sido apresentada nessas trovas rústicas. A tempestade do dia 1º de fevereiro foi realmente muito violenta. Na entrada do porto, ou melhor, na foz do rio Maas, um enorme vapor estava encalhado na areia, lançado naquela noite da tempestade encima da praia. Segundo o capitão, também o nosso convés traseiro tinha estado sempre debaixo d’água, o que até então nunca havia acontecido com o Belgrano. Provavelmente partiremos hoje à tarde. Espero não precisar enviar os próximos relatórios de um porto de emergência. Se, porém, eu continue a relatar, em detalhes, estes meus escritos, será necessário que me mandes em breve material para tanto. Para mim, escrever é uma ocupação muito boa, que me distrai. Enquanto outros senhores vão atrás de diversões, gastam o seu tempo com 27  Canto militar: “Heil Dir, im Siegerkranz...”.


32 passeios na cidade, ou jogando cartas etc., eu me acomodo e conto para minha pequena querida mulher do coração tudo o que possa interessar a ela. Porém, até agora, apesar de já ter enviado várias cartas e cartões postais, ainda não recebi nenhuma linha escrita de ti. Não tens tempo para mim? Ou algum motivo especial te impede de escrever? Ou seria como diz o ditado: “Longe dos olhos, longe do coração?”. Os outros oficiais são contemplados, melhor que eu, pelos seus queridos. Cada vez, quando são distribuídas as cartas recém-chegadas, alguém sempre tem que se retirar com o semblante decepcionado, pois lhe parece que seus familiares já o esqueceram. Há oito dias, lá em Münster28, a situação era bem outra. Lá eu esperava com saudade minha L.29 Oito dias depois a gente escreve para ela histórias de viagem e avarias de Rotterdam. Bem, faremos jejum até S.W.A.30. Esse também fazemos de outra maneira. Mas espere! Anexado mando o comprovante do depósito de 800 marcos, se por acaso tiveres que mostrá-lo ao Banco Alemão. Cardápios mandarei mais tarde, isto é, se eu voltar a escrever novamente, veja acima! Já que vocês estão abastecidos, então vamos lá! Bem, vamos ao final, cordiais saudações e um beijo amoroso do teu Carl. Saudações para a vó. Para as crianças, Kleins, Klukows etc. Como vai a vó? Não se esqueça de dar esses recados, não sei se terei outra oportunidade!

ÚLTIMA NOITE – A PARTIDA Emprestei minha lapiseira de ágata ao farmacêutico-chefe Bräuning. Esse senhor não tinha nada a fazer mais depressa do que perdê-la; a dele também já perdeu. Esse jovem homenzinho imaturo e um tanto indiscreto é – em todo caso – o menos simpático entre os farmacêuticos. 28  Cidade alemã na Westfália. 29  L. = Lenchen, abreviatura carinhosa da esposa Helene. 30  Abreviatura de África Sudoeste Alemã, hoje Namíbia.


33 Muita brincadeira foi feita no Lövenbräu: dois dos jovens médicos assistentes apareceram com duas garçonetes, abraçadas à esquerda, e foram casados pelo gordo Schlüter, que fez o papel de pastor oficiante. Uma das damas ainda apareceu antes da partida do navio para dar o adeus ao “esposo”. Sua conduta chamou bastante a atenção, a dos senhores esposos não menos. No cais havia uma grande multidão de pessoas, que nos acenaram e gritavam um entusiasmado “Hurra”. Para evitar um eventual tédio de nossa parte, um senhor Staib providenciou acertadamente uma caixa cheia de revistas ilustradas. Também para as almas dependentes da nicotina, foram tomadas providências através de um bondoso doador. Foram distribuídos 500 pacotes de fumo, e os cachimbos correspondentes. O cachimbo que eu recebi deverá servir menos a produzir fumaça: deverá ser uma lembrança de Rotterdam. Isso se chegar à África do Sul, sem ser usado, e – também – voltar de lá. 5.II.1905 – Domingo, cedo de manhã, 7 horas, passamos por DoverCalais31. Em Dungeness, o rebocador holandês foi dispensado. O prático tinha a firme convicção de que havia japoneses espionando os russos no Mar do Norte. Comparei o binóculo Zeiss-Treda com meu Goerz. O primeiro é bem mais nítido e mais prático no manuseio. Hoje à noite houve eleição para a comissão de entretenimento. Foram eleitos Schlüter, Bofinger e Tremboldt. Na ocasião foram consumidos 50 litros de cerveja, que haviam sido doados pelos alemães de Rotterdam. O ambiente estava muito animado, porquanto o Canal também se comportou de acordo. Foram agendadas as palestras. Fui destacado a falar no dia 9.II. sobre “Higiene nos trópicos”. O tenente Engelhardt, dos bombeiros, irá falar hoje à noite sobre “O Código de Bödiker e sua aplicação”. Para que os outros senhores, que ainda não tinham uma tarefa agendada, também tivessem uma ocupação, o major deixou circular uma lista, na qual deveriam constar o nome do palestrante e o respectivo tema da palestra. A história foi para o lado da gozação, aparecendo

31  Ponto de referência no Canal da Mancha.


Casa que se situava na rua Bento Gonçalves, em Novo Hamburgo, pertencente ao Autor, onde viveu até seu falecimento. Wohnhaus des Autors, in dem er bis zu seinem Tode (1941) gewohnt hat. Novo Hamburgo - Brasilien.

O autor com a esposa e os tres primeiros filhos, em 1892, na Alemanha. Der Autor mit Ehefrau und den ersten drei Söhnen, 1892 in Deutschland.

O Autor em 1934. Der Autor 1934.

A esposa, Helene, em 1929. Ehefrau Helene Schinke 1929.

O Autor, em 1929. Der Autor 1929. O Autor na DSWA (África Alemã do Sudoeste). Der Autor in Uniform in DSWA - 1905.


Cartões-postais adquiridos pelo Autor em sua passagem pela Ilha da Madeira. “Die vom Autor auf der Reise nach Afrika gekauften Ansichtskarten von Madeira (1905).”


Cartão-postal da Ilha da Madeira. Madeira: Der Schlitten auf der Abfahrt.

O Autor em uniforme de gala após seu retorno a Berlim. Der Autor in Berlin nach Verleihung des Ordens (1907).

Cartão-postal da Ilha da Madeira. Hängematte in Madeira.

Trem-cremalheira em Madeira. Bergbahn in Madeira. Família de hereros em trajes ocidentais frente a uma habitação típica.


Soldados alem達es em patrulha com remadores hereros.

Parque com chafariz na Pequena Windhuk, arredores da capital de DSWA.

Mulher da tribo herero.


Sede da administração colonial na DSWA.

Caravana de abastecimento das tropas coloniais alemĂŁs.

Desembarque de mantimentos na DSWA.


Placa da rua Dr. Karl Wilhelm Schinke, em Novo Hamburgo, RS. Strassenschild in Novo Hamburgo.

O Autor retornando de uma visita mĂŠdica em Novo Hamburgo, RS. Der Autor auf dem Heimritt nach einem Krankenbesuch Novo Hamburgo -Brasilien.

Fortaleza em Keetmanshoop. Festung in Keetmanshoop - DSWA.



Livro - Diario da Africa