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Vinicius Littig

Os Sete Céus O Chorar dos Anjos – Livro I

Editora Bookess 2012 Segunda Edição

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Dedico este livro aos seus leitores, aos meus amigos e, principalmente, minha vida. Obrigado por me darem forças e inspiração necessárias, mesmo em momentos de muita dor, para ir adiante.

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Prólogo – Iniciando o Fim

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ida. Uma curta e simples palavra, mas que envolve um complexo e interminável equilíbrio. O início e o fim desse inacabável ciclo têm um nome: Morte. Eu gostaria de olhar para tudo que já passei e poder dizer que sou normal. Que, assim como milhares de almas que vagam pelo planeta, no final sou apenas mais um ser qualquer que terminará seu ciclo e poderá receber a única paz verdadeira: a do descanso eterno. O meu nome é Qlon. Qlon Warrior Eros. Não sei o que sou, nem meu real objetivo aqui. A minha idade não interessa, não fará a menor diferença. Esse livro não é um livro de histórias. É apenas o desabafo mudo da vida de uma criatura perdida, cujos objetivos foram estripados, alegrias dilaceradas, sonhos destruídos e certezas mutiladas. Toda história tem um começo. A minha também. Um começo feliz, um começo para o qual gostaria de retornar. Mas antes do começo, vou voltar no labirinto do tempo apenas mais um pouco. Mais exatamente um ano antes. Deve ter sido ali que todas as dimensões se romperam. Ano 999 da Era Chaos – Reino de Seal –

Estou em casa!

Tinha aberto a porta. O vento batia em suas costas, e fazia seus cabelos, dourados e longos o suficiente para tocar seus ombros, esvoaçarem. Seus olhos, de um azul cristalino e quase incomparável, brilhavam radiantes dentro de olheiras profundas. Uma barba por fazer deixava claro o total desapego pela aparência. Em seu corpo reluzia uma armadura prateada, completa de ombreiras até as manoplas e grevas. Em sua mão esquerda seu elmo estava seguro, preso firmemente. A sua mão direita repousava em cima de sua espada, presa à cintura, local que queria que ela permanecesse por tempo indeterminado. Era alto, um metro e oitenta. Corpo forte, como o de todo soldado deve ser. E em suas costas aquilo que dava seu diferencial. Asas. Três pares delas, grandes e de penas meio turvas, algumas ainda manchadas com o líquido escarlate do campo de batalha. O seu nome era Ronan. Ronan Warrior. –

Querido! Ronan! Finalmente está de volta!

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Do alto das escadas que conduziam ao segundo andar desceu sua esposa, Tera Eros. Tinha um metro e sessenta. Seus olhos acinzentados brilhavam reluzentes de contentamento. Seus cabelos, negros e longos, quase tocando o chão no fim de uma trança, balançavam de um lado para o outro enquanto corria. Ao chegar perto de seu amado, deixou o corpo cair sobre seu peito. Usava um longo vestido de seda da cor branca, quase igual àqueles usados por noivas. Sapatilhas pequenas fitavam seus pés e pequenos ornamentos, como um colar de pérolas negras e uma tornozeleira dourada cravejada de diamantes na perna direita, davam-na um aspecto fino, elegante, superior. “Apresento meus pais. Meu pai se chama Ronan Warrior. A família de meu pai vem de uma longa linhagem de guerreiros celestiais que, muitas vezes, sacrificaram suas vidas pelo seu reino. Sim, talvez eu devesse começar falando do reino onde vivemos e por que precisa de tal proteção... Pois então, bem-vindos ao Reino de Seal. Também chamado de reino dos anjos, o reino de Seal é um continente errante, que vaga sublime acima das nu vens. É aqui que estão refugiadas as criaturas celestiais, cuja missão é proteger o planeta evitando a ascensão e domínio demoníacos. Tudo o que fazem é proteger o equilíbrio. Luz e trevas, o bem e o mal. Voltando a falar da minha família paterna, meu pai é, em suma, o prodígio. O guerreiro mais forte de toda uma linhagem voltada para a guerra. Aos 21 anos já havia tornado-se o general mais forte que o reino já tivera, eliminando milhares de demônios no campo de batalha com sua espada, passada de geração em geração. Sanctus. A lâmina dos deuses, espada sagrada. A minha mãe viera da família real. Eros, guardiões do reino e líderes de um povo. Prova disso eram seus olhos acinzentados, marca da família. Eles se conheceram em campo de batalha, em uma situação um tanto quanto inusitada. Minha mãe pertencia ao topo da sociedade e, graças a isso, não saia muito do castelo real. Inconformada com a inanidade dos burgueses diante do sofrimento causado pelo confronto, fugiu do castelo para batalhar em campo, infiltrando-se, clandestinamente, como um soldado. Na época tinha 16 anos. O meu pai, em contrapartida, estava nos seus 18. Nessa idade, os cadetes começam a ir para a guerra para adquirirem experiências, colocar em prática aquilo que passaram anos estudando. Por sorte, o destino fez minha mãe, disfarçada de cadete, ir pa rar ao lado de meu pai, no mesmo batalhão. Em um momento da luta, ela, que não sabia ao certo manusear uma arma, ainda mais uma polearma, viu-se cercada e desarmada, entregue à sua sorte. E então meu pai socorreu-a. Em uma fração de segundo, os demônios foram decapitados e seu sangue manchou todo o cenário. Não é exatamente a cena que marca o início de um relacionamento, mas... E, desse início de relação, surgiu seu romance. Desse ponto, a história se inicia aproximadamente sete anos após.” –

Querida... eu... eu...! - Ronan não encontrava palavras para expressar

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sua alegria. –

Não precisa dizer nada se não quiser. Apenas suba, retire seus equipamentos e tome um banho. Eu prepararei um excelente jantar enquanto se apronta. Até lá, descanse.

Deu um leve beijo em seus lábios, e, saltitando, dirigiu-se à cozinha, no fim do corredor. Ronan ficou ali, parado na porta, apenas alguns segundos, enquanto apreciava a cidade. Ah sim, sua tão estimada Aeria, capital de Seal. Cidade que ele vivera desde seu nascer, a qual ele foi ensinado a defender. Aquele era o pri meiro anoitecer de mais seis meses de paz. “Ah, a paz. Regalia que o planeta já não tem a muitos, muitos anos. Desde um incidente em um passado remoto, a desordem se originou. As raças, que antes viviam em perfeito equilíbrio e harmonia, esqueceram seus valores e funções e passaram a batalhar entre si pelo poder. Talvez os anjos, seres puros, fossem os únicos que não tivessem sido afetados por esse incidente que se perdeu dos livros de histórias e, talvez, do consciente coletivo.” Devaneios à parte, subiu as escadas e voltou ao seu quarto, cujo local não estivera a duas longas estações. Tudo parecia novo. Os móveis antigos, a janela atrás da cama, com suas longas cortinas azul-celeste, o tapete feito com penas de grifo... A nostalgia tomou sua cabeça. Tirou sua armadura com manchas escarlates e colocou-a em seu devido lugar: um manequim antigo, sem asas, que comprara em sua viagem a Colossus, a cidade neutra da humanidade. Apenas vestindo um manto, impregnado de suor e sujeira do tempo que se passou no campo de batalha, dirigiu-se ao banheiro. O quarto era uma suíte, não precisaria andar pelos corredores para tomar seu merecido banho. Encheu a banheira de água morna, retirou seu traje e mergulhou até a cabeça. Fechou os olhos, enquanto prendia sua respiração. Cenas repetiam-se em sua cabeça...

“Vejo corpos, vejo soldados. Por todo o campo espalhados. Seus corpos, mutilados. De seus olhos e feridas, sangue e lágrimas jorrados Correndo pelo chão em pequenos riachos. Visões que deixam a todos atormentados.”

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De súbito, sua cabeça emergiu da água. As rimas anotadas por ele em seu diário de batalha vieram à sua mente com força assustadora e sombria. Devia estar ficando louco. Principalmente por escrever poesia em relatórios de guerra. –

Querido, a refeição! - Gritou uma voz descendo as escadas.

Ronan colocou uma espécie de “pijama” usada pelos anjos. Uma manta longa e branca, feita de algodão comum. Como as asas que os anjos possuem atrapalham na vestimenta, necessitando criar-se orifícios que se ajustem as suas saídas, roupas leves e folgadas eram comumente usadas. Ou sempre havia a opção de encantá-las com magia, para que o tecido passasse pelas articulações e penas. Ou, ainda, ocultar as asas com magia. Em suma, o corpo angelical dava a vantagem do voo, mas, em contrapartida, criava certas dificuldades. Ronan teve uma agradável noite conversando com sua esposa durante o jantar, enquanto ela contava tudo que acontecera na cidade nos meses anteriores. Já no final da conversa, Ronan lembrou-se de algo: –

Querida, devemos preparar-nos. Amanhã já é a festa solene de nossa família. Céus... Como o tempo voa...

Preparar-nos como? Já sabemos o que vamos vestir, como vamos ir e o tempo que vamos ficar. Não acho que necessitemos de mais preparo, todos os anos são a mesma coisa.

Sim, mas esse é um ano muito especial, meu amor. A proximidade com a virada milenar faz com que os mortais tenham uma necessidade espiritual maior, e com isso sua crença e fé aumentam. É bem capaz de esse ano termos presença dos nossos companheiros do mundo celestial.

“Para prosseguir com a história, deixem-me explicar algo. O reino de Seal era sim povoado por anjos, mas não todos. No reino celestial, a casa verdadeira de todos os anjos, também chamado de Reino Eterno ou Paraíso, estão situados os anjos que cuidam da parte 'administrativa'. Para Seal foram ordenados apenas aqueles que podem batalhar, os soldados. Antes da desordem se originar no equilíbrio, não havia a necessidade de enviar nenhum anjo para o reino mortal, apenas em raras ocasiões. Mesmo porque, quando os anjos descem ao lar dos mortais, tornam-se mortais como eles. No reino celestial podem viver pela eternidade. Mas não mortais como um humano, que chega a viver em seu máximo cem anos! Anjos podem viver até mil anos, e o envelhecimento de seu corpo é bem diferente. Comparados a um humano, desenvolvem-se fisicamente do nascimento até os 21 anos. Depois disso, permanecem eternamente jovens e belos, até sua morte, quando seu rosto enruga e seus cabelos embranquecem. É uma antiga maldição, que não posso mencionar ainda...” –

Então, o que acha que devemos fazer agora, querido?

Não sei, talvez...

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Sem talvez. - Interrompeu-o sua esposa, com determinação. - Os anfitriões são seus pais, eles sabem o que fazer. E também, o máximo que ire mos conseguir é conversar com algum deles. Mas ouvi dizer que durante os anos foram ficando arrogantes por suas funções serem, hipoteticamente, maiores que as nossas.

Amor, sabe que não devemos falar assim deles, e nem levantar murmúrios. Além do mais, deve ser uma experiência única conhecê-los...

A minha família mantém-se conectada com eles desde que foram os escolhidos para reinar nesta terra. Meus pais mantêm certos assuntos com eles, e com isso ouvi os boatos. De qualquer modo, espero que quando cheguem nossos 900 anos possamos voltar para lá e ser poupados da morte absoluta.

Sim. Eu apenas sinto pena daqueles que foram mortos no campo de batalha... Onde será que suas almas estão?

“Para incentivar os anjos a batalharem, a promessa que receberam foi que suas vidas seriam poupadas, pois quando qualquer corpo mortal morre ele passa a fundir-se com a força do planeta, de uma certa forma. Ainda é demasiado cedo para explanar certos detalhes. Mas, depois disso, ninguém sabe seu destino além dos deuses. Então, nada mais justo do que recompensar bravos soldados que por anos lutaram com um descanso no Paraíso, sua terra intocada.” De qualquer modo, o dia seguinte seria conturbado. Foram deitar-se cedo, amando-se durante a noite. … Ao raiar do sol do dia seguinte, lamentos podiam ser ouvidos. Cânticos em latim e pessoas se amontoando nas lápides, tentando ver o sepultamento de mais um corpo que para a terra se foi. A casa dos Warrior era bem em frente ao cemitério de Aeria, o que fazia com que todos os dias da vida de Ronan fossem usados para uma profunda reflexão sobre a vida e a morte. Do parapeito da pequena varanda em frente ao seu quarto, debruçado estava, acompanhando o corpo descer à terra. Os coveiros atiravam sobre ele aquilo que logo o absorveria. Sua família regava sua lápide com lágrimas, desconsolada. Isso fazia com que pensasse em como seria o seu enterro. Cada corpo que via ser engolido pela terra tinha sua face. Nenhum dos familiares tinha rosto. O padre, um demônio. Tais so nhos ocupavam seus pensamentos enquanto dormia. Nem mesmo o calor de sua amada ou o vento fresco da manhã pareciam acordá-lo. Por muito tempo sentia-se mais morto do que vivo. As folhas secas começavam a cair das árvores, marcando o início do outono. A época sem guerra, pois o clima esfriaria e o sangue frio dos demônios congelar, ainda mais naquela altitude. Eram os seis meses mais pacatos que o reino entra-

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va, o início do outono ao fim do inverno. Quando voltasse a primavera, guerras sucessivas tirariam a paz dos habitantes de Seal até o fim do verão. Esse ciclo repetia-se ano após ano no decorrer do milênio. E se alguém queria sobreviver no reino, ou deveria ser uma mulher, que servia opcionalmente ao exército, ou deveria ser forte, para enfrentar a morte e ainda assim sobreviver. –

Querido, já de pé? - Perguntou Tera indo ao seu encontro.

E quem consegue dormir com esse barulho em frente de casa?

Se eu fosse você, não reclamaria. Quem comprou esse terreno foi você.

Sim. Mas também, esta cidade está toda ocupada. Não queria construir uma casa muito longe do centro e também não queria as regalias que tinha quando morava com meus pais, ou seus pais. Um dos motivos que me fez treinar tanto foi...

Independência. Eu já sei. Você já fez questão de comentar isso cerca de cem vezes, ainda não se cansou? - Disse Tera em tom de riso. Aproximou-se dele e deu um beijo em seu rosto. - Agora, vá se arrumar. Você ainda não cuidou totalmente de sua aparência. Cabelos ouriçados, barba por fazer, unhas por cortar... Sugiro que se arrume.

Tem razão querida.

E não se esqueça de perfumar-se bem. O cheiro de suor e sangue está tão impregnado em seu corpo que vai demorar semanas para sair.

Ronan cheirou seu punho. Precisava de um novo banho. … Enquanto Ronan fazia o favor de aprumar-se para a grande noite, Tera saiu às ruas para comprar um novo vestido na alfaiataria. Como era costumeiro para uma princesa, jamais usara o mesmo vestido de festa em ocasiões diferentes. Aqueles que já usava, doava. No caminho para lá, ouviu alguns murmúrios das donzelas que saiam cedo de casa para fofocar. –

Você ficou sabendo? Do baile dos Warrior?

Sim, fiquei. Parece que Yurius estará lá!

Yurius, o exilado?

Shhhh! Fique quieta! Parece que ele retornou do exílio para vingar-se de Ronan. Essa batalha eu gostaria de ver!

Mas eles não são irmãos?

São! Ele pegou o exílio por tentar assassiná-lo, mas parece que arrependeu-se. Mesmo assim, acho que seria inevitável um acerto de contas.

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Quando perceberam que o vulto de Tera as encarava, dispersaram. Bem, se o rumor era mesmo real... Não queria nem pensar nisso. Além do mais, como duas simples cidadãs saberiam disso? Pegou seu vestido encomendado havia meses e pagou-o com algumas moedas de ouro. Era preto, e contrastava com sua pele de uma forma sublime, espetacular. Voltou para casa e seu marido estava no jardim, cuidando dos roseirais. “Acho que seria bom descrever a casa em seu exterior. Era uma casa de dois andares, com um terceiro andar sendo o sótão acima do quarto de meus pais. Os muros eram grandes, de pedra, chegavam a dois metros de altura e eram co bertos por musgos e ramos de trepadeiras. Assim com as paredes da casa. Também feitas de pedras, mas pintadas de branco, eram cobertas por plantas 'deco rativas', pelo menos no andar de baixo, pelo fato da casa ter sido concluída dois anos antes na linha do tempo desta narrativa. O jardim era grande, e rodeava toda a casa. Nos fundos, uma pequena estufa e algumas árvores fazendo sombra em um lago coberto por flores de lótus completavam o cenário.” –

Querido, aconteceu algo?

Você se lembra de quando começamos a construir esse jardim, logo no outono que completei essa casa? - Disse, debruçado sobre um canteiro.

Sim, você disse que colocaria flores lindas, para apreciarmos todos os dias sentados na varanda.

É. E até hoje não tive o prazer de ver tais flores desabrocharem.

Uma flor se desmanchou diante de seus olhos, junto com um forte vento que carregou o chapéu que Tera estava usando para longe. Tera permaneceu em silêncio. Foi até onde seu chapéu se encontrava e o colocou novamente em sua cabeça. Voltou ao lugar em que seu marido permanecia abaixado e sentou-se nas pedras que revestiam a passagem conduzindo até a entrada. –

Tudo bem, meu amor. Mesmo que não as veja desabrochar, você cuida delas durante todo o inverno, protegendo-as. Aposto que quando elas desabrocham durante a primavera são muito gratas por todo o tempo e esforço que dedica a elas. - Disse Tera com um meigo sorriso em sua face.

Ronan entendeu o que ela quis dizer. –

Agora ande. Vamos entrar, quero que me ajude com o vestido. E também, tenho que contar algo importante.

O que seria assim tão importante? - Assustou-se o soldado.

Conto lá dentro. Não quero que os vizinhos ouçam. Nessa cidade parece que o próprio vento revela segredos...

Amor, nossos vizinhos estão mortos. - Lembrou-a.

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Ah... É mesmo. - Notou em uma mescla de constrangimento e risadas abafadas.

… Enquanto Ronan ajudava Tera a se trocar em seu quarto, ela explicou o que ouvira nos murmúrios que percorriam as ruas de Aeria. –

Então quer dizer que meu querido irmãozinho vai estar à minha espera para vingar-se? Esplêndido!

“Esplêndido” você diz? Acho isso extremamente perigoso! E além do mais, imagine a balbúrdia que seria uma batalha em meio a uma festa pacata! Ainda mais com representantes dos sete céus!

Sim, está certa. De qualquer modo, não deixarei de carregar minha espada caso ele queira atacar-me.

Você é louco? É por essa herança de família que tanto brigaram e por causa dela seu querido irmãozinho foi condenado ao exílio! Deveria lembrá-lo da história?

Não será necessário, ela ainda assombra alguns de meus sonhos. E como pôde ver, nem foi um grande exílio assim. Uma década apenas. Acho que os juízes de nosso reino foram bonzinhos demais.

Para alguém que tentou matar seu irmão enquanto dormia, concordo plenamente.

Vai ver ele está arrependido. Você deveria estar mais calma. Eu, que sou o alvo, sequer estou preocupado.

Só porque sua habilidade é grande e você é o mais forte soldado do reino, eu não estaria tão confiante. Tudo pode acontecer a partir do momento que você entrar pela porta daquele palácio.

Ela estava certa, e ele sabia. Yurius era seu irmão, mas, mesmo assim, parecia não ter a essência dos Warrior. Era o filho mais velho, o primogênito, mas, mesmo tendo aquela dádiva, o escolhido para receber a espada da família fora Ronan. Sanctus, a espada suprema, que fora forjada em um tempo remoto e cuja história era contada através de lendas. Por causa da escolha dos pais, Yurius rebelou-se e tentou matar Ronan em um ato impensado, atacando-o enquanto dormia. Ronan foi habilidoso ao perceber e defender-se do ataque como podia. Pegou a espada que não saia de seu leito e sacou-a rapidamente, arrancando um pedaço de uma das asas de seu irmão. Como pena por tamanha crueldade, Yurius foi sentenciado ao exílio - vagar entre os humanos como um mortal qualquer - por um tempo indeterminado, até que seu arrependimento fosse comprovado. De qualquer modo, Ronan não achava que ele iria vingar-se. Não quando uma

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“condicional” estava em jogo. Por via das dúvidas, usou sua solene roupa de comandante para ocasiões formais e prendeu a espada novamente em sua cintura. –

A festa começa ao pôr do sol. Ainda temos tempo, nem chegamos no Cume. O que faremos? - Disse Ronan.

“Para um nível de curiosidade, naquela época o tempo do dia era medido pelas sombras e pelo sol no céu. De acordo com a inclinação das sombras projetadas em um relógio solar, era possível saber em que período do dia estava. Na cultura angelical, existiam cinco períodos. O nascer do sol representava a 'Ascensão'. Qualquer um que não se levantasse nessa hora era considerado um preguiçoso. O segundo período é o chamado 'Despertar'. As grandes atividades do dia se iniciam nessa hora e duram até o 'Cume', a metade do dia. O 'Cume' durava um cerca de duas horas, que eram de 'descanso obrigatório'. Acabado o 'Cume' iniciava-se o 'Declive'. Hora de terminar as tarefas e preparar-se para o descanso que vinha após o pôr do sol no período chamado 'Sombra', que se es tendia do pôr ao nascer do próximo sol.” –

“O que faremos”? Que tal me contar tudo que ocorreu nos últimos seis meses? Afinal de contas, sou sua esposa.

Não acho que gostaria de saber sobre cadáveres e sangue. Isso é demais para uma princesa. - Debochou Ronan.

Não gosto dessas piadinhas, sabe bem. Só porque você teve que me proteger aquela vez... Isso não significa nada. Durante o tempo que esteve fora, estive treinando minhas perícias com o arco.

Concordo, seu cabelo sempre está bem penteado.

“Arco era, além do tão famoso componente do arco e flecha, uma espécie de pente que era uma metade de círculo com diversos 'dentes' e buracos, feito para desembaraçar os cabelos. Apenas curiosidade.” –

Engraçadinho.

Eles esperaram, conversando, por algumas horas. Ronan contou como fora no campo de batalha e como a situação estava difícil para ele nos últimos anos. A proximidade com a virada do milênio não fazia as pessoas depositarem suas crenças apenas no bem. Magia negra era feita com mais frequência, o que forta lecia muito os demônios. Por fim, contou que a próxima guerra seria a mais difícil de sua vida, e que não tinha certeza de seu retorno. Após acabar, ficaram olhando um ao outro, calados. O sol desapareceu do céu e os postes foram acesos nas ruas. Estava na hora de partirem. Deram as mãos e saíram caminhando pela sombria Aeria, iluminada pela luz da lua e de poucos postes. “Naquela noite fatídica a roda do destino começou a girar com força, descontrolavelmente. Dia 28 de Fevereiro de 999 da era Chaos.”

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Cap. 1 – Boas Vindas Calorosas

A

noite estava clara. Nenhuma nuvem no céu estrelado. As lojas fechavam suas portas e as ruas esvaziavam-se. Apenas algumas seletas pessoas andavam pelas ruas de Aeria, dirigindo-se ao castelo no norte da cidade. O da família Warrior. Aquela não era qualquer noite. Era a noite do início de outono, e um grande baile estava para se iniciar. Os convidados eram apenas aqueles que mantinham relação com a família. Mas, em uma sociedade onde praticamente todos se conhecem e vivem até mil anos, a seleção era um pouco mais rigorosa. Ronan e Tera andavam pelas ruas sibilantes da cidade enquanto viam várias outras pessoas se dirigirem ao mesmo local. Algumas em carruagens elegantes, ornamentadas com ouro, prata e pedras preciosas. Outras voando pelos céus, com medo de que seus trajes finos se sujassem. Não queriam manter contato com ninguém. Ronan e Tera andavam cabisbaixos a passos lentos, desejando não serem notados. Andavam do lado direito da rua, mesmo lado em que Ronan mantinha a bainha de sua espada e do lado que andava junto de Tera. Tudo para esconder a imaculada Sanctus, sua espada que era o símbolo da família. Mesmo dentro da bainha, ainda emitia sua luz azul-celeste. Entraram em um tortuoso beco por alguns segundos. Sentiam que estavam sendo seguidos. Ronan colocou a mão no cabo de sua espada e ocultou-se nas sombras, mas a única alma que passou pela rua após eles era um gato vira-latas. Após um suspiro aliviado, continuaram seu percurso até atingir o ponto alto da ladeira onde estava situado o castelo da família. E que castelo. Nos quatro cantos de sua muralha perfeitamente quadrada, quatro torres de vigília mantinham arqueiros experientes quando seu serviço era requisitado. Os muros de três metros encobriam a visão das árvores frutíferas espalhadas ao seu redor, bem cuidadas pelos jardineiros. O portão de entrada era grandioso, possuindo cinco metros de sua base ao topo e três de um lado ao outro do muro. Do lado dos portões, postes iluminavam a passagem que se estendia até uma pequena ponte, cruzando o lago artificial que circundava o castelo. Depois da ponte, uma enorme porta feita de madeira, com duas estátuas de ca valeiros viradas para ela. Acima da entrada, uma gárgula de pedra vigiava a passagem e encarava com maus olhos os visitantes.

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O castelo em si era dividido em quatro seções: As três torres, ao norte, leste e oeste da entrada, a grande cúpula central, os fundos e o altar subterrâneo. A porta de entrada levava à grande cúpula, local onde eram realizadas cerimônias solenes e, no caso, as festas. A torre do leste continha os quartos dos empregados, a torre oeste os relicários da família, salas e alguns armazéns. Na torre do norte se localizavam os quartos da família. Nos fundos, a estufa, campos de treinamento e casa de ferramentas. Mas a parte mais importante do castelo era o altar subterrâneo, onde eram realizadas reuniões familiares para a discussão de assuntos pertinentes à família e certos rituais solenes. Ao subir a ladeira, Ronan e Tera se surpreenderam com os recepcionistas: os pais de Ronan, senhor e senhora Ulisses e Yuna Warrior. –

Mãe, pai? O que estão... - Antes que pudesse proferir mais qualquer palavra, sua mãe, Yuna, abraçou-o pela cintura fortemente, fazendo escapar todo o ar de seus pulmões.

Filho! Mas que honra ter você aqui, em nosso lar, novamente! Ficamos muito preocupados este ano, ouvimos dizer que a guerra estava muito complicada para nosso lado.

Sim mãe. E poderei contar mais durante o jantar se você puder evitar de quebrar as minhas costelas.

Oh! Mil desculpas. - Disse Yuna, desvincilhando-se de seu amado filho. E você Tera, como tem passado? Não a vejo faz um ou dois meses.

Ah, estou bem. Feliz agora que seu filho retornou para casa. - respondeu, abraçando Ronan pelos ombros.

Filho, estávamos ansiosos por sua chegada. - Pronunciou-se Ulisses. Vamos, entrem. Viemos aqui fora apenas para esperar por vocês. Sua irmã mais velha, Ülle, já está aqui.

E quanto a Yurius? - Perguntou-o Ronan.

Yurius? Não recebi notícias dele. Ele não estava em exílio?

Rumores que correm a cidade dizem que ele foi readmitido à sociedade. Diziam que ele estaria aqui hoje.

Se ele realmente arrependeu-se, - Interrompeu-os Yuna. - nós o aceitaremos aqui de novo. Não é mesmo, Ulisses?

A expressão facial de Ulisses, que mantinha um curto e agradável sorriso na face, logo mudara novamente. Desde o incidente pelo controle da espada da família, onde se desentendera com seu filho Yurius, guardava um profundo desapontamento em seu coração. Não conseguia entender o desejo por poder que seu filho mais velho possuía. Não o criara assim.

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Os pais de Ronan eram, em aparência, tão jovens quanto ele. Mas apenas em aparência. O seu pai, Ulisses, tinha 159 anos. Sua mãe, Yuna, 442. Ambos joviais. De seus irmãos, era o caçula. Ülle tinha 101 anos e Yurius 103. Nasceu em uma época que seus pais até desistiram de ter mais filhos, apesar de saberem que era necessário criar herdeiros de sangue legítimo para preservar a linhagem dos Warrior. “Antes que eu prossiga, mais uma curiosidade: para manter uma certa linhagem pura, era conveniente que alguns irmãos se casassem. Isso preservava os 'genes' da família. Claro que não eram obrigados, tanto que Ronan casou-se com a filha de outra família. Mas, ainda assim, era uma tradição que era preservada por necessidade.” O pai de Ronan, Ulisses Warrior, era um respeitado cavaleiro da família Warrior. Assim como seu filho, em sua juventude conquistara vários títulos, mas não se equiparavam ao do seu prodígio. Tinha cabelos negros, curtos, com uma franja que encobria seus olhos. Possuía cerca de um metro e setenta, e um porte atlético ainda muito bom. Assim que teve seu terceiro filho, aposentou-se da carreira militar com um brilhante histórico de 496.662 demônios destruídos. A mãe de Ronan, Yuna, era mais velha que seu marido, mas isso não contava muito. Ela, como toda Warrior, escolhera servir ao exército, que para as fêmeas torna-se opcional, e com isso ganhara a aposentadoria logo após seu primeiro filho. Era uma dedicada amazona. Empunhava sua lança com orgulho e aposentou-se com 1.518.750 demônios destruídos. Passar de um milhão de mortes em seu contador é algo incomum, ainda mais para uma mulher. A média de mortes causadas pelos dois, por ano, era assustadora. Ulisses causava 3679 por ano. Já Yuna, 4480 por ano. Sempre que era conveniente, ela jogava isso contra Ulisses, mas apenas para irritá-lo. Afinal, em menos anos de serviço do que seu irmão, matara muito mais do que ele próprio conseguira. Mas, mesmo sendo irmãos, Yuna não se aparentava com seu marido. E sim com seu filho, o qual julgava ser seu clone masculino. Ambos tinham cabelos loiros, olhos azuis-cristalinos e uma pele branca. Apenas a altura que os diferenciava. Yuna tinha cerca de um metro e cinquenta. Pequena, mas no campo de batalha isso se tornava uma enorme vantagem contra seres monstruosos. –

Querida, Yurius errou. - Ponderou Ulisses. - Mesmo que ele tenha arrependido-se, devemos tratá-lo com rigidez. Se criamos ele durante uma vida inteira, queria ao menos um pouco de respeito da parte dele.

E aposto que vai ter. Mas devemos ser pacientes com ele. Viver entre os demais mortais já deve ter sido uma punição severa demais para suportar. Aguentar sua própria família tratando-o mal após isso.... Não creio que deva ser agradável.

Eu farei o máximo possível para ambientá-lo, mas só se ele esforçar-se para demonstrar sua mudança. - Finalizou seu esposo.

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Os pais de Ronan podiam ser gentis e carinhosos, mas, assim como os chefes de cada família, eram extremamente rígidos e imparciais. Afinal, uma família de cavaleiros de primeira classe deve manter controle sobre a linhagem. Continuaram a conversar enquanto atravessavam a ponte e prosseguiam seu caminho dirigindo-se para o salão de festas, que localizava-se na grande cúpula. No corredor principal que levava ao salão, um longo tapete vinho com bordados em dourado guiava-os até o local da cerimônia, enquanto quadros de antigos membros da família os olhavam das paredes. Antes mesmo de chegar ao local era possível distinguir alguns barulhos: vozes agitadas de pessoas conversando, os passos no piso de pedra do salão, o som de taças de vidro chocando-se levemente uma contra a outra em um brinde e as notas musicais emitidas da harpa e do piano que, discretamente, davam um fundo musical ao ambiente. Todos esses sons em uníssono ecoavam pelas salas e corredores do castelo, tirando a frieza habitual do dia a dia daquele enorme amontoado de pedras. Ao entrarem no salão, Ronan percebeu a mesma decoração. O enorme lustre preso ao teto, as mesas com suas toalhas brancas e bordados dourados, as tochas espalhadas para ajudar na iluminação, a mesa com o banquete, esperando cordialmente a presença do Rei e Rainha para ser tocada, e o pequeno palco perto da varanda com suas imensas portas feitas de vidro. Escolheram uma mesa próxima ao palco, como Ulisses gostava. Para ele, o som de toda aquela gente era terrível, e ele preferia ouvir uma boa melodia do que o arranhar de cordas vocais gerado pelos convidados. Ao sentar-se, Tera percebeu que Ronan não parava de olhar ao redor sequer um segundo. Estava certamente à procura de Yurius. Sua mão repousava sobre o cabo da Sanctus. Estava preparado para qualquer movimento. … A conversa na mesa deles não durou nem meia hora, e a música parou. Cochichos se espelhavam pelo salão e muito rápido a notícia chegou ao ouvido de todos: os reis estavam presentes. E os anfitriões da festa não estiveram no portão para recebê-los. Não que isso importasse. Afinal, eles já eram membros da família. E não demorou muito até que eles se dirigissem à mesa em que estes estavam sentados. Tera levantou-se de súbito para cumprimentar os pais: Irving e Opal Eros. Assim como Ulisses e Yuna, eram irmãos. Mas com uma história um pouco mais complicada. Cinco anos após Irving nascer, Opal nasceu. Na época o rei estava na guerra, e todo o reino foi deixado nas mãos de uma criança de cinco anos, pois, após o parto, a rainha adoecera. Enquanto o rei estava envolvido na guerra, travando lutas no campo de batalha, a rainha morreu. Sem saber disso, o rei continuou a campanha iniciada, mas, no fim, também veio a falecer nas mãos de um dos 66 grandes generais do inferno.

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Irving, como o remanescente mais velho da família real ainda vivo, começou a reinar muito jovem, e guiou o reino por épocas árduas, mas sempre com seu instinto de liderança e a ajuda de sábios conselheiros. Ao completar 17 anos, tomou como noiva sua irmã, Opal, e juntos eram rei e rainha desde então. O relacionamento dos dois era um pouco frio, no sentido que carecia de toques, mas cheio de amor. Talvez, por conta disso, haviam dado a luz a uma única filha. No momento do baile, Irving tinha 470 anos, e sua esposa, Opal, 465. Irving era parecidíssimo com sua irmã. Ambos ruivos de olhos prateados, mas com penteados diferentes. A rainha, assim como sua filha e todas as rainhas antes dela, nunca cortara seu cabelo, o que fazia com que ele arrastasse literalmente pelo chão. Tinha um metro e sessenta, pequena e magra, além de muito tímida. O rei era quase o oposto. Um cabelo curto, que mal chegava nas orelhas. Não muito mais alto, um metro e setenta, e um corpo robusto, como o de todo soldado que, assim como ele, batalhava constantemente nas guerras. Naquela noite, o rei vestia um elegantíssimo fraque azul-escuro com detalhes dourados e, a rainha, um longo vestido, também azul-escuro, feito de seda. –

Ora, ora, ora! Se não é meu melhor general, Ronan Warrior!

Majestade, é um prazer revê-lo. - Disse Ronan curvando-se em forma de reverência.

Sem muitas cordialidades aqui, Ronan! Eu sou seu sogro! - Disse o afetuoso Irving, abraçando-o. - E então, quando pretende dar-nos um neto?

Pai! - Intrometera-se Tera. - Isso não é um assunto para se tratar aqui. E além do mais, acho que estamos muito novos para tal.

Nunca se é muito novo quando tem amor, filha. Eu e sua mãe tentamos ter um filho desde que nos casamos, e olha quantos séculos depois você veio a surgir!

Querido! - Esbravejou Opal, dando-o um tapa no rosto. - Isso não é coisa que se diga!

Muito bem, vou parar por aqui antes que minha linda esposa fique mais vermelha que seus cabelos. Vamos sentar?

… E durante horas eles permaneceram ali, conversando e vendo as horas passarem. Até que, em um determinado momento da festa, uma música mais lenta começou a tocar. Era a dança dos casais. –

Tera, minha amada, concederia a seu esposo o prazer desta dança? Pediu Ronan, curvando-se por elegância.

Sim, nobre cavalheiro. - Respondeu Tera enquanto estendia sua mão di-

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reita e com a esquerda abafava risadas quase inaudíveis. Os dois dançaram no salão, junto com outros casais. Era uma valsa bem lenta, a mesma que se costuma tocar em festas de casamento. Os dois não desgruda vam o olhar. –

Você acha que é hora de tentar, Ronan?

Tentar o quê?

Ter um filho. - Disse Tera, escondendo um pouco o rosto.

Ronan sorriu levianamente e deu um suave beijo nos lábios de sua mulher. –

Eu adoraria ter um filho com você. - Sussurrou em seu ouvido. - E, como a genética de nossas famílias é razoavelmente estranha, aposto que irá herdar a característica física de seus pais.

Eles riam timidamente da piada, até que... –

COM LICENÇA, ESPERO NÃO ESTAR ATRAPALHANDO A FESTA.

Uma voz veio de cima das escadarias que conduziam à torre norte. Uma voz conhecida por Ronan, pois ela não saia de seus pensamentos desde aquela noite. Era ele: Yurius, seu irmão renegado. Ronan mandou Tera de volta para a mesa da família, enquanto todos olhavam espantados a Yurius, descer do alto da escadaria com uma espada montante sendo segurada em sua mão esquerda. Ronan, visualizando a cena, sacou a Sanctus tão rápido quanto um piscar de olhos. Ela brilhava intensamente, distinguindo-se mesmo com a iluminação do ambiente. Yurius era parecido com o pai, mas de uma forma muito mais sombria. O seu cabelo também era negro como a noite, assim como seus olhos. Assim como Ronan, tinha um cabelo médio-longo, e muito mal cuidado. Era alto, um metro e noventa de altura. Seu corpo era forte, muito bem treinado, e repleto de cicatrizes, todos no salão podiam ver. Ele usava uma capa negra nas costas. Uma calça longa revestia suas pernas até suas grevas. Suas manoplas agarravam-se à sua espada, que mantinha constantemente apontada para o peito de seu pequeno irmão. Não possuía uma proteção na cabeça ou no tronco, o que Ronan pensava ser seu ponto fraco. –

Yurius! O que quer aqui? - Indagou Ronan, prevendo a resposta.

Acabar aquilo que começamos a alguns anos atrás, irmãozinho. Você tem algo que me pertence por direito.

Yurius, saia já daqui! - Gritou a voz de seu pai, Ulisses, vinda de entre as mesas.

Pai, já que não quis dar o que era meu, vim reivindicar por mim mesmo. Foi isso que sempre nos ensinou, não é verdade? Ser honesto, justo, leal

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e batalhar por aquilo que é seu. Só não entendo por que não me deu ela quando completei minha maioridade! Sou muito mais velho do que Ronan! –

A espada que escolheu a Ronan como seu mestre, e não você! Quando sua maioridade chegou e derramei seu sangue sobre a espada, ela não brilhou! Você nunca foi o escolhido!

Você e essas lendas de família de novo! Desde quando pode uma espada selecionar seu mestre? Isso é pura loucura! Não me venha com essas histórias tolas, eu sou o primogênito! E sempre foi o primogênito nesta família que a recebeu, e agora é minha vez!

Mesmo que a pegue, você nunca poderá ativar o poder oculto dela, seu tolo! Para você ela não irá passar de um pedaço qualquer de aço, o qual nunca manuseará direito! Isso se conseguir içá-la!

Só saberei disso se puder pegá-la!

Dizendo isso, pegou impulso até cinco metros adiante, onde se encontrava seu irmão. A maioria dos convidados já havia fugido. Só restaram ali Tera, Opal, Yuna, Ulisses e Irving. Todos chocados olhando os acontecimentos. O impacto das lâminas se chocando foi ensurdecedor. A montante de Yurius fora travada pela lâmina da Sanctus, que Ronan parecia segurar sem fazer muita força. Yurius, pelo contrário, focava todos os seus músculos em sua arma. Ronan deu um impulso para trás e a espada de Yurius tocou o piso do salão, formando uma cratera que engolira metade das mesas e o palco. Trocavam olhares. Yurius não escondia sua fúria. Com cada vez mais força segurava sua arma, enquanto esperava por alguma ação de Ronan. Colocara a montante acima da cabeça, em sua posição de ataque. Parecia ter esperado a vida toda por aquele momento. Ronan, pelo contrário, permanecia calmo. Sua Sanctus estava fortemente segura, mas não ao ponto de esmagar seu cabo. Suas pernas estavam separadas e seu tronco levemente alongado para frente. Sua espada foi posta em uma horizontal perfeita, na altura de seus ombros, na frente de seu peito. Por um certo período, o barulho irritante do silêncio tomou conta do ambiente. E em uma fração de segundo, mais um tintilar de lâminas. Segundos após, mais um. E mais um, e mais um. Os dois corpos haviam desaparecido no ar. Apenas o vento que era constantemente cortado assoviava, e as lâminas soltavam faíscas. Vez ou outra, uma mesa era destruída. Partes do piso transformadas em poeira, paredes esburacavam-se. Tudo numa fração de segundo tão rápida que olhos destreinados não podiam ver. De repente, o barulho cessou. Os familiares olhavam espantados no andar de baixo, enquanto no alto do corrimão da escadaria estava Ronan, com uma incrí-

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vel pose heroica e nenhuma gota de suor em seu rosto. A espada ainda estava bem firme em sua mão. Na parte de baixo da escadaria estava Yurius, visivel mente cansado. Ofegava fortemente, mas não havia em seu corpo sequer uma ferida. –

Desiste, Yurius? - Perguntava Ronan de uma forma cordial.

Até parece que não me conhece, não é mesmo? - Respondeu Yurius, sorrindo, mas obviamente irritado.

Se você continuar usando essas técnicas inúteis, não conseguirá nem ao menos me cansar. Tem certeza que deseja prosseguir?

Yurius fez um movimento com sua enorme espada, e uma rajada de vento foi na direção de Ronan, que apenas virando o corpo de lado deixou passar. O golpe abriu um enorme rasgo na parede e quebrou todos os vitrais do andar superior e inferior. –

Aí está sua resposta.

Em mais uma tentativa, Yurius usou sua investida fulminante para atacar. Em um golpe em uma vertical perfeita, tentou acertar Ronan, que nem sequer usou sua espada para bloquear. Parou a montante de seu irmão apenas com sua mão nua. Com um chute deferido contra a barriga de Yurius, Ronan o atirou 20 metros para trás, fazendo com que caísse no primeiro andar e abrisse mais uma cratera no piso. –

Se esse é o máximo que se fortificou no exílio, deveria reconsiderar lutar contra mim. Mesmo que tenha treinado bastante, eu lutei contra tantos demônios que minha experiência em combates aumentou exponencialmente. Não será capaz sequer de me cansar.

Mas esse – Retrucou Yurius, levantando-se. – não é nem ao menos o início da luta. Vamos encontrar-nos novamente, Ronan. E quando essa hora chegar, eu mostrarei todo o ódio que tenho guardado por você.

Idem.

Como uma sombra, Yurius desapareceu no ar, sem deixar rastros, em apenas um milésimo de segundo. Ronan embainhou sua arma novamente e foi ao encontro de Tera. –

Está tudo bem?

Eu que deveria perguntar isso. - Disse Tera, abraçando-o.

Filho, acha mesmo que ele vai voltar? - Manifestou-se Ulisses.

Assim como eu e você sabemos, pai, Yurius nunca foi alguém que desistia do que quer. Duvido muito que essa é a última vez que eu vá vê-lo.

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Não se preocupe, Ronan. Nossos soldados o capturarão e o levarão ao exílio. Um exílio na Lua, para que nunca mais retorne!- Garantiu-o Irving.

Eu não tentaria. Só haverá mais mortos. Ele não é o mesmo Yurius de antes, pude sentir isso enquanto trocávamos golpes. A força dele aumentou consideravelmente.

Por um segundo, pararam de conversar sobre Yurius e voltaram a se focar na festa, que estava arruinada. –

Pai. - Chamou Ronan.

O que foi, filho?

Os empregados foram dispensados?

Todos caíram em gargalhadas e puseram-se a limpar o estrago feito pelo embate familiar. “Após limparem os estragos, posso dizer que meus pais voltaram para casa e fizeram amor a noite toda. E, naquela noite, eu fui gerado. Para constar, enquanto os anjos permaneciam no Paraíso a reprodução não envolvia contato sexual ou fecundação. Os deuses criavam os anjos de acordo com as necessidades impostas. Mas quando foram viver com os mortais, tudo neles se tornou mortal. Até a reprodução. De qualquer modo, naquela noite, pode-se dizer que eu fui concebido. E a gravidez angelical demora exato um ano, então demoraria até que eu viesse ao domínio mortal. E enquanto isso, mais coisas importantes estavam para acontecer...” Ano 999 da Era Chaos – Fim do Inverno –

Querido, já vai? - Tera gritava da varanda de sua casa.

Ainda era o período da Sombra. O sol não nascia no horizonte. A neve amontoada nas calçadas e na rua derretia gradativamente assim como a primavera trazia calor em sua chegada. Tera já estava grávida a aproximados seis meses. Seu ventre crescera e era exibido com orgulho pela família, que passara a vistá-los constantemente desde a descoberta da gravidez. Era o dia em que os soldados retornariam para a guerra. Ronan estava do lado de fora, com sua armadura novamente em seu corpo, mas as manchas de sangue já haviam sido retiradas e a armadura polida. Ainda estava escuro, mas mesmo sem muita luz ela estava tão brilhante que parecia um espelho. –

É a hora... Você sabe.

Ao menos me prometa algo. Prometa que irá retornar vivo!

Ronan sorriu. Todo ano ela fazia com que prometesse a mesma coisa. –

Eu juro. - Foi sua resposta. E partiu.

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Cap. 2 – Um Confronto Predestinado

T

oda primavera era a mesma. O aroma do desabrochar das flores era manchado com o pútrido cheiro de cadáveres em decomposição. Esse ano seria a mesma coisa, e Ronan estava certo disso. Assim como todo retorno do longo inverno, os generais se reuniriam para discutir as táticas de guerra e elaborar alguns planos para pegar “desprevenidos” os demônios. Mas esse ano era diferente. Seria um embate de apenas duas frentes. Anjos contra Demônios, face a face. Todos os soldados das duas forças de cada lado do campo. Não haveria ataques surpresa ou outras estratégias para várias frentes de combate em diferentes posições. –

Ronan, espere! - Gritava uma voz na base militar. - Você por acaso tem ideia da situação?

Sempre tive, Pyros. Como meu melhor amigo, deveria saber bem disso. Por mais que a situação esteja caótica, nós, os Almas Ardentes, podemos dar cabo da situação!

Mesmo que sejam uma tropa apenas de dragoneiros, fazer isso é como arriscar a vida de todos eles!

E prefere que coloquemos na frente soldados inexperientes para conter a primeira e devastadora onda? Nosso exército seria praticamente aniquilado!

Escute a razão Ronan! Os cavaleiros mais fortes são sempre os últimos a atacar!

Nesse caso, não!

“Como nota explicativa: Almas Ardentes era o nome da tropa do meu pai, a tro pa mais forte de todo o reino. E dragoneiros são cavaleiros que usam uma ou mais artes de combate de uma maneira extraordinária. São considerados os invencíveis. Só um dragoneiro derrota um dragoneiro, era o que sempre se ouvia.” Desta vez Ronan fora ousado. Na reunião, dissera que sua tropa, Almas Ardentes, permaneceria na linha de frente e seria usada para uma limpeza mais rápida e eficaz do campo de batalha, pois soldados comuns não conseguiriam tal

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tarefa. Nesse ano os demônios viriam com toda a sua força, e Ronan sabia disso. Mas, antes de tudo, queria provar sua força e proteger seu reino a todo o custo. Ronan podia ser muito cavalheiro, mas quando se tratava de opinião era inatingível. Usava uma lógica quase inabalável e sustentava toda a sua fé nela. Não queria ser derrotado nem em sua mente e, por mais que houvesse argumentos contra ele, sempre mantinha a sua opinião. –

Ronan, sua esposa está grávida. Leve em consideração...

Pyros, eu já levei tudo em consideração. Estou lutando por eles. E além do mais, há mais um motivo para eu ficar na linha de frente...

Não acha perigoso demais?

Com esta espada? Está brincando? Você mesmo já viu seu poder uma vez. Sabe o que posso fazer com ela.

Eu não vou mais me intrometer nesse assunto. A vida é sua, e você comanda nossos exércitos. Só espero que saiba o que está fazendo. Não só como General Supremo e dragoneiro, mas como pai e descendente dos Warrior.

Confia em mim?

Confiei por todos esses anos, e nunca perdemos sequer nenhuma batalha. Reconquistamos até mesmo algumas ilhas satélites.

Então se acalme. No final, dará tudo certo, você verá.

Ronan saiu da presença de Pyros e dirigiu-se ao seu gabinete. Pyros era, além de seu vice-general, seu melhor amigo e ex-companheiro de Base. Era alto e robusto. Tinha no rosto uma cicatriz feita por uma queimadura. Ela estava na metade esquerda de sua face, e o dava um aspecto atemorizante. Tinha músculos bem definidos e era um exímio espadachim como Ronan. Mas Ronan usava uma espada de duas-mãos, que a maioria das vezes usava até mesmo com uma mão. Já Pyros usava uma espada curta e um escudo, apesar de algumas vezes improvisar com outras armas. Assim como Ronan, 25 anos. No dia, usava uma armadura leve. Encobria apenas o tronco e a cintura. Botas comuns de couro fitavam os pés. Não gostava de elmos. Os soldados mais antigos, com mais de um século de vida, achavam a nova geração de soldados surpreendente. Isso deveria ser por causa do novo diretor que assumira havia alguns anos. A maioria dos novos soldados ganhava títulos altos muito rapidamente. Sem contar seu vigor em combate. Voltando o foco para Ronan... Seu gabinete era pequeno para General Supremo, mas ele mesmo escolhera assim. Na parede, atrás de sua escrivaninha e próximo à janela, lado esquerdo, uma pintura de quando era criança. Do outro lado, uma pintura de seu casamento. Além de sua escrivaninha, apenas um arquivador perto da porta, um

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tapete com o brasão da família e um lustre pequeno. Sua sala era gélida, toda feita com pedras. Duas colunas sustentavam o teto. Da janela era possível ver: sua sala ficava no topo de uma torre da base militar. Ele achava que assim poderia visualizar melhor os soldados e fiscalizá-los. Tal atitude cativava uma ponta de inveja de outros generais, todos muito mais velhos que ele, cinco ou seis sécu los. Quando abriu a porta, o ar gélido que se concentrava lá dentro veio de encontro até sua face. Pela janela fechada passavam alguns raios de sol, que indicavam o amanhecer. Na sua escrivaninha pequena, mas abarrotada de papéis, pegou uma caneta dourada. De uma gaveta tirou uma folha em branco e começou a escrever. Registros da Guerra – Primavera de 999 O apocalipse final está chegando. Legiões de demônios vêm ao nosso encontro. De tudo que poderíamos fazer, tomamos a decisão mais corajosa que podíamos: ficar e lutar. Não sabemos por quanto tempo iremos conseguir suportar a onda de ataques e muito menos proteger nosso reino, mas sabemos que lutaremos até nosso último suspiro neste mundo mortal. Caso nossas tropas percam a guerra, outros oficiais evacuarão as cidades e levarão todos para um local mais seguro. Mas a mensagem que nossa raça representa a todos os mortais deve permanecer viva. A esperança de que o bem possa prevalecer. Esperamos sobreviver e vencer a batalha e, assim que as folhas iniciarem sua queda e o frio vier, possamos retornar sãos e salvos para nossas moradias. Caso não consigamos, que nossos entes queridos nos honrem em nossos enterros. Acho que falo por toda uma nação ao escrever estas palavras. Força para nós. Após escrever tais dizeres, enrolou o papel como um pergaminho e o colocou dentro de um baú, onde havia alguns outros desses. –

Acho que chegou a hora de cumprir a minha profecia. No final das contas, aquela velha estava certa...

Retirou-se de sua sala e foi para o pátio principal, onde vários soldados o esperavam. Era sua tropa, Almas Ardentes. Aliás, não apenas eles. Como Ronan era o General Supremo, todas as tropas angelicais estavam ali para ouvir o seu discurso. Rostos o encaravam com muita concentração, esperando ouvir de sua boca as palavras que, nos últimos anos, encheram os corações dos soldados de esperança e conforto. Todos já equipados e preparados para a batalha, mantinham armas em riste enquanto escutavam atentamente: –

Soldados, este ano não tenho nada muito diferente para dizer além do que já disse nos outros anos. Apenas algo a mais para acrescentar: es-

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pero que tenham despedido-se de tudo aquilo que amam de uma maneira apropriada. Muitos podem não voltar e, aliás, muito provável que a maioria de vocês não volte. Talvez nenhum de vocês, ou até mesmo eu. Mas, por mais que esta situação seja adversa, lembrem-se de manter em seus corações aquilo que a nossa raça melhor representa em todos os corações mortais, mesmo o daqueles que sabem de nós apenas lendas e nunca nos viram realmente: esperança. A esperança de que, ainda que seja um sonho distante, a paz reine no coração de todos. Então, a partir do momento que entrarem no campo de batalha e virem aquelas hordas infernais, não sintam medo, pois mesmo que tirem nossas vidas, jamais tirarão ela, a esperança. –

Levantar armas! - Gritou Pyros, seu amigo, lacrimejando de emoção. Todos, inclusive os generais, obedeceram. - Honrem nosso maior general, Ronan Warrior!

Todos os soldados, sem nenhuma exceção, gritaram eufóricos: –

Virtus! Gloria! Spero! (Coragem! Glória! Esperança!)

Agora - Gritou Ronan. - sigam seus generais até o campo de batalha e mostrem como os anjos podem ser atemorizantes!

Todos abriram as asas. Penas esvoaçavam. O primeiro a voar foi Ronan, seguido por sua tropa. Logo após, os outros oito generais fizeram o mesmo, e conduziram seus batalhões pelos céus. Todos voavam sobre Aeria. Penas brancas caíam de suas asas. Sendo agora um par, dois pares ou três pares, não importa va mais. Todos eles haviam tornado-se iguais: anjos prontos para dar sua vida pelo seu povo. “Como uma breve nota explicativa, os anjos que haviam vindo para o planeta eram apenas de três tipos, aqueles que podiam guerrear: Anjos, com um par de asas, Arcanjos, com dois pares, e Serafins, com três pares. O número de pares no reino celestial servia para mostrar uma classe superior. Quanto mais pares, maior a classe e sua importância. Isso será explicado melhor adiante em meus relatos...” Os cidadãos da cidade davam adeus para seus mártires, acenando alegremente. Mas Tera permanecia da varanda de sua casa, olhando distante para seu amado ir embora. Grávida de seis meses e com seu ventre já grande, chorava algumas lágrimas e rezava para que seu marido voltasse intacto. … A viagem não fora tão longa. De Aeria até onde seria o campo de batalha, as grandes planícies de Pateo, foi menos de uma hora de voo. Assim que chega ram, todos os soldados se puseram a armar tendas. Os médicos já estavam lá dentro, todos com medicamentos e devidamente preparados para qualquer even-

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tual emergência. Mantimentos eram estocados em grandes caixas de madeira. Cada general chamou suas tropas após se arrumarem para passar as últimas instruções. –

Soldados, este ano estaremos na linha de frente. Correremos o maior de todos os riscos, enfrentando o primeiro impacto dos demônios. Não temos muito além de 800 soldados, mas mesmo assim, somos os mais fortes e experientes de todo o reino. É honroso saber que, mesmo em muitos anos de guerra, nunca perdemos sequer um integrante. Tudo pode vir a mudar hoje, mas ainda assim acredito em sua capacidade e por isso os mantenho nesta equipe de elite.

Interrompendo suas palavras, um informante chegou até seu ouvido e sussurrou algumas coisas. –

Bem, pelo visto, não temos muito tempo antes que eles cheguem. Por isso precisamos ser rápidos em nossas táticas. Primeiramente, qualquer tipo de conjurador deverá, assim como todos os outros, ficar escondido e conjurar suas magias silenciosamente. Os magos brancos e qualquer outro mago que use magias para auxiliar ou curar deverão permanecer entre os médicos. Caso sintam necessidade, não evitem em buscá-los.

Dizendo isso, tais magos de grandes robes brancos se dirigiram às tendas, e outros magos, estes encapuzados e de ar misterioso, se esconderam em algumas árvores da floresta próxima. –

Quanto a todos os combatentes, escutem com atenção: Todos aqueles que usam ataques de longo alcance, como arqueiros, deverão ficar na última linha de combate e, de preferência, com uma adaga ou arma branca leve para o caso de furarem nossa defesa. Os lanceiros ficarão na frente da primeira linha e logo atrás permanecerão os espadachins e bárbaros, pois estão mais fortemente protegidos e com armas de alcance maior. Qualquer um cujo alcance da arma se estenda a menos de cinquenta centímetros da sua mão deverá dar cobertura para a primeira linha, compondo a segunda linha. Alguma dúvida?

Ninguém se pronunciou. –

Ótimo. Os demônios estão vindo e estão a menos de dez minutos daqui. Sugiro que entrem em formação com as outras tropas e, por mais difícil que seja, sobrevivam. Lembrem-se: no meio do campo de batalha, na hora em que as táticas desmoronam e a formação inicial acaba, só haverão vocês e sua habilidade para suportar. Boa sorte a todos.

Acabando de se pronunciar, colocou o seu elmo. Ajeitou as manoplas e sacou a Sanctus. A sua lâmina azulada brilhava, ainda que um pouco apenas, com a luz do sol que batia sobre ela.

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… Não demorou muito para avistarem. Uma nuvem negra surgindo em um dia ensolarado não é muito comum. E cada vez crescia mais. Era como uma tempestade. No chão do continente flutuante, pouco mais que 100.000 soldados, ou seja, todas as tropas celestiais, esperavam mais de um milhão de demônios. E aquilo, pelo que parecia, era apenas o começo... –

Soldados! Preparem suas armas! - Gritava Ronan de dentro de seu elmo. - Agora é a hora! Atacar!

Enquanto demônios davam seu rasante para o ataque, anjos ascendiam em voo para buscar os corpos de seus inimigos ainda no ar. Ronan ia na frente de todos. Com sua espada em mãos, nada mais temia. Perdera todos seus sentimentos em uma frenesia tão forte que roubara até sua sanidade. Apenas uma palavra poderia descrever com perfeição seu estado: Loucura. E, em alguns segundos, o primeiro corpo desabara do céu. Ronan havia cortado sua cabeça. Não demorou muito para sangue se espalhar e cobrir um campo verde e límpido com uma tonicidade avermelhada. Feridas e arranhões iam, aos poucos, se acumulando nos corpos, mesmo que protegidos, dos soldados. Enquanto as tropas angelicais se concentravam em atacar somente o paredão demoníaco, Ronan ia cada vez mais fundo adentrando aquela massa negra, buscando altos comandantes e generais. Se a cabeça cai, o corpo todo perece. Enquanto penetrava a concentração de seres disformes chamados de demônios, vários desses o cercavam. Mas era por frações de segundos, até seus corpos serem suavemente fatiados por sua lâmina imortal. De longe, magos e arqueiros conjuravam magias e lançavam flechas, desmantelando aos poucos a grande muralha que se deslocava até eles com imenso fulgor. Todo um exército em harmonia e um grande general arriscando sua vida. “Para fins de conhecimento, demônios são seres disformes, criados por desejos impuros e tentações mortais. Mesmo um anjo poderia criar um se pecasse. Os grandes generais dos demônios são todos Anjos Caídos, que se voltaram contra o reino celestial e buscaram o poder dentro de seus corações fracos, extremamente voláteis.” Quanto mais dentro das trevas entrava, mais perigoso ficava, e não demorou muito até perceber que havia sido cercado por milhares deles, todos olhando com cobiça para seu corpo. –

Ora ora ora... Justamente quem eu estava esperando. Você sempre foi muito previsível, irmão. - Reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

Yurius!

E quem mais poderia ser?

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Eu imaginava que você era baixo, mas nunca imaginei que seria tão repugnante a ponto de se juntar a aqueles que você sempre esteve contra!

Eu tenho um desejo, e meu desejo é sua espada. Me ofereceram até um grande cargo apenas para acabar com você.

E acha mesmo que conseguirá?

Irmão...

Não se atreva a me chamar de irmão. Odiaria ter de considerar o meu sangue e o seu sangue iguais.

Então... Ronan. Eu disse que mostraria a minha verdadeira força hoje. No exílio, meu corpo pode não ter mudado tanto, mas no inferno...

Yurius abriu um sorriso sádico. Sangue escorria de seus olhos e sua boca. –

Foram longos anos esperando apenas por esse momento. Não quero que ninguém nos interrompa. Vamos até o chão. Lá teremos mais liberdade para nos enfrentar. Meus demônios não irão incomodar.

Ronan fez como ordenava o figurino. Apenas desceu até as planícies, sem tirar Yurius de vista. Quando pousaram, Yurius mostrou o que queria. –

Agora veja, querido irmão! Veja o verdadeiro poder que o meu ódio por você me trouxe!

O corpo dele crescia assustadoramente. Veias saltavam dos seus músculos. Seus cabelos cresciam, unhas alongavam e afiavam. Seus dentes se transformaram em uma “serra”, tão pontiagudos e afiados que mastigariam até aço. Acabada sua transformação, passara tranquilamente de três metros. Sua montante, que exibia com orgulho, adentrava pelo braço e fundia-se ao seu corpo. Artérias e veias do seu corpo se espalhavam por ela, e ela parecia ter ganhado vida pró pria. –

Agora é sua vez. Prometeu mostrar-me todo seu poder hoje.

Creio eu não ser necessário. Se isso é tudo que pode demonstrar... Sinto seu cheiro de fraqueza de longe.

COMO É?!

Em compensação, normalmente uso 5% das minhas forças controlando a Sanctus. Dessa vez, usarei 20%. O que me diz?

Você está se achando muito forte! Acabarei com você, verme!

Com seu “braço-espada”, atacou Ronan em uma diagonal qualquer, esquerda para direita. Ronan esquivou se abaixando. Um na vertical, baixo para cima. Ronan jogou o corpo para o lado. Horizontal. Ronan pulou. Cerca de dez ataques

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assim aconteceram em um segundo, mas em todos os ataques investidos por Yurius, Ronan se antecipava e esquivava. –

Seus ataques são previsíveis, lentos e extremamente ineficazes. Já vi muitos monstros serem mais fortes e ágeis do que isso.

AINDA ASSIM ME INSULTAS?!

Novamente Yurius atacou desesperadamente. Muito mais rápido e com muita mais força. No seu último ataque, horizontal da direita para a esquerda, Ronan subiu em cima de sua arma e correu sobre ela. Com sua espada em mãos, cor tou o braço inimigo na altura dos ombros, e de reflexo pulou para trás, parando na mesma distância que estivera dele momentos antes de a batalha começar. Yurius soltou um berro , mas logo desatou a rir. –

Sabe o que é mais gozado? É que eu não sinto mais dor.

Com o braço que restara, encaixou o outro de volta no lugar, e esse reintegrouse sozinho ao corpo. –

Onde havíamos parado?

Com você sendo envergonhado? - Zombou Ronan, mantendo a compostura.

Mais um ataque da parte de Yurius. Sempre com fúria, sempre sem raciocinar. Sua “lâmina-viva” não parava de golpear o ar e o chão. Nem mesmo se aproximava o suficiente de Ronan para, talvez, acertá-lo. Às vezes Ronan pulava cerca de nove metros para trás, apenas para iniciar uma perseguição vinda de Yurius. Circundaram uma enorme área, e nem assim seu irmão o acertara. Sequer de raspão. Já estava visivelmente cansado, não se aguentava nem mais de pé. Ronan, por sua vez, mantinha-se inabalável. Nem sequer estava ofegante. –

Além da sua honra, perdeu também o seu fôlego.

Não me provoque! Ainda tenho energia o suficiente para durar por uma eternidade!

Se depender de mim, não irá durar os próximos dez minutos.

Ronan tirou seu elmo. Ele limitava sua visão. Entrou na sua famosa posição de combate. A mesma que usara da vez anterior contra o mesmo oponente, no castelo de seus pais. –

Venha até mim. Estou pronto. - Chamou Ronan.

Aceitando facilmente sua provocação, Yurius correu até ele. Ronan correu ao seu encontro, em uma velocidade assustadoramente grande. E apenas três movimentos foram necessários para desativar de vez o ataque inimigo.

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O primeiro cortou seu “braço-arma”. Uma vertical de cima para baixo. Abaixando seu corpo e deslocando-se lateralmente, da esquerda para a direita, arranco as duas pernas de vez e, no movimento seguinte, pulou, e com sua lâmina usou um golpe vertical e ascendente, arrancando o outro braço. Quando voltou a pousar suavemente no solo, Ronan olhou para trás e viu o corpo de seu irmão no chão. Não estava morto, mas seria difícil se recompor agora. Voltando-se para ele, pôs-se a dizer poucas palavras: –

Por mais que eu deteste dizer isso, você ainda é meu irmão. Mesmo não merecendo minha misericórdia, fique mais forte. Tenho certeza que, algum dia, voltaremos a nos enfrentar. Nesse dia estará mais apto, eu creio. E sem depender da força de mais ninguém, porque era muito mais poderoso quando sua inveja não o havia consumido.

E após esse breve discurso, Ronan pegou seu elmo que havia largado de lado, colocou em sua cabeça e retornou para sua guerra. Sua insanidade que havia cessado por um breve espaço de tempo enquanto discutia com seu irmão voltara de súbito a mente. A escuridão em que havia mergulhado voltara aos seus olhos e tudo ao seu redor não passava de carne pronta para ser fatiada. Enquanto isso, no chão, Yurius ainda mantinha um sorriso sádico em sua boca. De seus olhos, sangue jorrava misturado com lágrimas. Mas não de arrependimento. Seus membros outrora espalhados pela arma de seu irmão retornavam lentamente de encontro ao seu corpo. E não parava de repetir para si mesmo, dentro de seus pensamentos: “Eu era apenas a distração para provar a sua capacidade. Se esses eram seus 20% de poder, estará morto antes do inverno vol tar.” … A noite caiu no campo de batalha. A planície fora regada o dia todo. Agora, o céu estava limpo. As estrelas brilhavam e a lua crescente sorria no céu, para os anjos vitoriosos. Mesmo com algumas perdas, os demônios sofreram bem mais. Muito mais do que metade de sua primeira onda de impacto havia sido facilmente derrotada e seus corpos agora queimavam em uma grande fogueira que servia para aquecer os alimentos. Os magos e médicos nas tendas tinham um árduo trabalho. Conter sangramentos é algo razoavelmente fácil quando seu nível de poder e conhecimento é elevado, mas reparar órgãos, conter hemorragias internas, regenerar membros perdidos... Isso não é algo facilmente arrumado. Ronan fitava as planícies procurando por aquilo que já sabia não estar mais ali. Como esperado, o corpo havia regenerado-se e ele havia fugido. Mas ele mal sa bia que, enquanto seus soldados festejavam a primeira vitória da campanha, sofrimento maior viria para eles no decorrer dos embates. A guerra estava apenas começando. No entanto, na sua cabeça, não importava quando terminaria. Enquanto sua frenesia o dominasse, bastava a ele viver no presente.

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Cap. 3 – Cinzas ao Vento

E

m uma semana a guerra havia alastrado-se de tal forma que todas as planícies que circundavam Aeria estavam cheias de cadáveres em decomposição. As outras cidades de Seal estavam totalmente lacradas por magia branca. Nada entrava ou saia. Aeria era o único ponto branco em um mar negro totalmente inóspito e hostil. Não demorara muito para ser iniciado um toque de recolher. No campo de batalha a situação era caótica. Ataques eram realizados em ondas muito grandes e em curtos espaços de tempo. Os anjos não tinham tempo para descansar ou se recuperar. Era uma batalha intensa, travada a cada respiração ofegante de um soldado exausto. Em sua tenda, Ronan estava sentado na maca. Era um amanhecer recheado de nuvens encobrindo o céu. Anotava em um pedaço de papel a situação atual do exército. Os mantimentos iriam acabar depressa se não chegasse o próximo carregamento. Eram necessários mais magos brancos para atender os feridos. Os rios que cortavam a cidade e uniam-se em um lago central foram envenenados pelos demônios, tornando sua água inconsumível. A única água que eles bebiam vinha de poços. “Para entenderem melhor a geografia, Aeria, como a grande capital, ficava rodeada de planícies e pequenas concentrações de árvores, não o suficiente para serem chamadas de florestas. Dois rios cortavam a capital e ambos se uniam no centro da cidade, formando um pequeno lago. Acima de tal lago estava construído o castelo real Eros.” Os anjos eram visivelmente mais fortes e mais preparados que os demônios. Em média, um anjo carregava cem demônios. E até o dado instante, poucas eram as baixas vindas do exército celestial. Ainda assim, se o ritmo continuasse daquele modo, não demoraria muito para as baixas aumentarem gradativamente. –

Sr. Warrior! - Um informante comparecera a sua tenda.

Qual a situação, soldado? Mais uma onda de ataques?

Não. Muito pior. Parece que um dos 66 generais está comandando a legião mais próxima.

Qual deles? - A expressão de Ronan se fechou.

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Abigor.

Prepare os soldados. Eles devem estar prontos para um ataque a qualquer instante. Abigor é o mais cruel e sádico dos 66 generais. Da última vez que ele veio pessoalmente a guerra, dois ou três séculos atrás, um dos doze castelos que circundam Aeria fora destruído.

“Aeria era uma cidade muito bem planejada, e prova disso eram os doze grandes castelos que a circundavam. Cada castelo pertencia a uma das treze grandes famílias de serafins, os anjos mais fortes e de maior importância nos exércitos ou na política. O 13º castelo era o castelo real. Serafins eram chamados de 'Braços Divinos', tamanha sua importância e responsabilidade. Cada castelo tinha vitalidade na defesa da cidade, sendo eles os responsáveis pelas magias brancas que a protegiam, como última linha de defesa. Se um dos castelos caís se, significava que um grande buraco se abriria na barreira mágica. Claro que, como toda magia, há um enorme consumo de esforço espiritual para mantê-la ativa. Por isso era mais fácil proteger apenas a cidade do que todo o continente. E toda magia pode ser quebrada com uma do elemento oposto, desde que a sua força seja maior. O castelo destruído séculos atrás era a prova disso, fora alvo de uma magia de Abigor.” –

E o senhor, general? O que pretende fazer?

O que qualquer general que se preze faz. Ficar à frente de seu batalhão e encarar o inimigo.

O senhor está pensando em...?

Sim, vou duelar com Abigor.

Ronan colocara seu elmo e a bainha de sua espada em sua cintura. Sua armadura estava totalmente rubra, mergulhada no líquido que inundava os grandes campos. Acumulara alguns arranhões na sua superfície, mas nada o acontecera fisicamente. Apesar das péssimas condições higiênicas que se encontrava, encoberto de poeira e sangue, isso não atrapalhava seu desempenho. Mal acabara de dar as ordens e o sino tocou. Mais uma onda de ataques vinha em sua dire ção. Correu para o lado de fora, onde tudo estava um caos. Uma enorme correria para os preparativos finais. Cinco minutos eram um tempo precioso, e todos os generais sabiam disso ao dar suas discretas e apressadas ordens. Assim como fora as outras vezes, Ronan assumira a linha de frente. Não precisara ordenar nada à sua tropa: eles já sabiam os movimentos de cor. –

Guerreiros, aconteça o que acontecer, não se desesperem!

A onda chegou. Fulminante e arrasadora. O som das garras chocando-se contra os escudos dava gasturas. Ronan sozinho fora atacado por três. Não era grande coisa, colocara a enorme lâmina da Sanctus na frente para protegê-lo.

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Usando as duas mãos, com um movimento decepou o demônio mais a esquerda. O da direita tentou afundar suas unhas na armadura, mas girando o seu corpo cortou ao meio o demônio do centro e, de quebra, encravou a espada na testa do tolo demônio que tentara o acertar. Com um impulso, pulou para dentro do bolo de inimigos. Enquanto passava, sua reluzente espada dilacerava qualquer um que adentrasse dez centímetros do sua “aura”. Algumas vezes decepava, outras, cortava ao meio. Nunca mutilar, nunca deixar vivo. Apenas matar. Para isso fora treinado. Enquanto o bravo Ronan aventurava-se para dentro da enorme massa negra, lá dos céus, parado em um cavalo negro de crina e cauda em chamas, alguém o observava. Tinha uma armadura completa, como a de Ronan, mas parecia muito maior e mais pesada. A viseira de seu elmo tinha uma fresta pequena, onde a linha de visão era mínima. Das costas de sua armadura, asas de penas negras saiam, tornando aquela a única parte visível de seu corpo. Tinha uma capa negra como a noite, rasgada e queimada com o tempo. –

Então, esse é o general Ronan, subordinado?

Sim, é ele. - Disse Yurius. - Pretende confrontá-lo?

A resposta é óbvia. Mas eu quero o ver lutando mais a sério. Vá e o faça mostrar como se comporta em um duelo mais importante.

Se eu for desta vez, ele pode matar-me!

Você preza pela sua própria vida?

Teme?

Não, meu amo.

Se tu mesmo não a prezas, imagine eu. Agora, para o nosso Lorde, você não passa de um cordeiro de sacrifício. Compreende?

… Sim, meu amo.

Para nós, anjos caídos, chegar ao posto que chegamos, além da nossa força tivemos de fazer coisas realmente ruins. Ter ódio do seu irmão e tentar matá-lo? Até mesmo um reles humano poderia fazer isso. Nos livramos de anjos caídos fracos como você muito antes que tenham renascido nas chamas do inferno. Se queres mesmo se tornar alguém importante para o Lorde, deverás tornar-se realmente detestável.

Eu entendo, meu amo.

Agora pegue esse bruto pedaço de metal que chama de arma e o dê alguma utilidade. Vá!

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Ao ouvir isso, Yurius voou em direção ao seu irmão. Com sua montante acima da cabeça, girou-a e preparou para um impacto destrutivo. Para sua infelicidade, Ronan já havia previsto seu movimento muito antes de ele realizá-lo. E movendo seu corpo para trás, deixou que ele passasse em disparada, golpeando o chão. Como das outras vezes, abrira uma cratera. Mas aquela era muito maior que a anterior. –

Pelo que vejo, ainda não aprendeu seu lugar, não é mesmo?

O meu lugar é acima do seu túmulo, com minha herança em mãos!

Tolo. Eu não gostaria de fazer isso tão cedo, mas irei eliminá-lo, aqui e agora. Não quero que atrapalhe ainda mais minhas batalhas, você nada mais é para mim do que um peso.

Cego pelo ódio, Yurius tentou encravar a espada no peitoral de Ronan, mas esse nem saiu de sua posição. Apenas parou o ataque de seu irmão, segurando a ponta de sua espada. Jogou-o para longe dos ataques, para um canto mais isolado, e o seguiu. –

Não entendeu ainda, não é mesmo? Pode ser muitos anos mais velho, mas sua força não se compara a minha.

Besteira!

Com um impulso recuou o corpo para trás. Transformou-se de novo no ser que Ronan enfrentara da última vez. –

Eu sou o mais velho! Eu sou o mais forte! E eu mereço essa espada!

Quer tanto assim ela? Pegue-a, se conseguir.

Ronan cravou a Sanctus no chão e afastou-se. –

Se acha que realmente pode empunhá-la, tire-a do chão e me ataque.

Era tudo o que Yurius queria ouvir. Mais rápido que as flechas que voavam ve lozmente acima de sua cabeça e matavam demônios aos milhares, agarrou o cabo da cobiçada espada. Deu um urro de dor e tirou a sua mão para trás como reflexo. Estava queimada. Ronan permanecia imóvel, contemplando a cena com um sorriso idiota no rosto. –

Se acha esperto, não é! Aposto que a encantou!

Eu? Não preciso disso. Ela já é originalmente encantada.

Besteiras!

Tente de novo.

Ronan recostou-se em uma árvore com o tronco quase totalmente despedaça-

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do enquanto assistia. Ignorando a dor, Yurius levou a mão ao cabo da Sanctus e com um enorme esforço tentou puxá-la da terra, mas não se movera sequer um milímetro. –

Você a afundou muito na terra! Desgraçado!

Ronan apenas se aproximou, retirou a espada em um simples movimento e a atirou ao chão. –

Apanhe-a.

Por mais que Yurius tentasse içá-la, apenas passava vergonha e gastava suas energias. Ronan sorria levemente, escondendo os dentes, enquanto olhava o brutamontes agachado gemer de dor. –

Está percebendo agora por que esta espada não é sua? Jamais conseguirá sequer empunhá-la. A espada escolhe seu mestre, e não o contrário. Percebe agora?

Yurius se jogou ao chão e desatou a chorar como uma criança que perde o brinquedo mais precioso. Ronan podia ser duro, gelado e ríspido quando era necessário, mas mesmo ele se comoveu com a cena. Mas o choro foi instantaneamente interrompido por uma lança que varou os céus e caiu na cabeça de Yurius. A lança atravessou sua boca e o queimou de dentro para fora, transformando seu corpo em cinzas num piscar de olhos. –

No inferno não há espaço para arrependimentos. - Dizia uma grossa voz, nunca antes ouvida por Ronan. - Inútil, nem mesmo conseguiu cumprir minhas ordens.

E descendo do céu veio o cavalo “em chamas” e seu cavaleiro. Pousaram próximos ao monte de cinzas e o cavaleiro apanhou de volta a sua lança. –

Estás com raiva de mim por ter matado seu irmão?

Apesar do susto, não. Se quer saber bem a verdade, alguma hora eu acabaria fazendo isso. Ele não desistiria apenas com aquilo.

Então acho que fiz mal em matar o soldado que eu mesmo aliciei.

Não foi você mesmo que disse que no inferno não há espaço para arrependimentos?

O grande cavaleiro calou-se. Desceu do seu cavalo e fez uma reverência, prontamente retribuída. –

Pelos seus bons modos, habilidade com a espada e comentários inteligentes, vejo que és Ronan Warrior. É uma honra conhecê-lo.

Pela boa mira, rudeza e tom irônico de voz, vejo que é um demônio po-

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deroso. Abigor, devo supor? –

Sim.

Não é prazer nenhum conhecer você. Jamais contemplei um ser com tamanha arrogância.

Nunca ouvistes histórias minhas?

Sim, já as ouvi.

Então deves saber por que sou arrogante. E não tens medo?

Jamais temeria alguém mais fraco do que eu.

Por dentro de seus elmos, trocavam acalorados olhares. De um lado, Ronan segurava fortemente sua espada. Do outro, Abigor estava relaxado, com sua lança em mãos e sem tomar nenhuma posição de ataque sequer. –

És insolente. Eu gosto disso. De qualquer maneira, não acho que aqui e agora seja o local apropriado para resolvermos nosso duelo.

E quando seria o momento certo?

Hoje, meia-noite, debaixo da luz da lua e neste mesmo local.

E até lá espera o que espera que eu faça, gênio? Tenho soldados esperando por meu retorno.

Retire suas tropas. Dê a eles um descanso, devem estar exaustas. Nenhum demônio atacará até lá, tens a minha palavra.

E desde quando posso confiar na palavra de um demônio?

Excelente observação.

Abigor urrou como um dragão furioso. Todos no campo ficaram praticamente paralisados. Travados em uma mesma posição, mal conseguiam respirar. Aos poucos, os demônios foram se retirando, deixando os anjos extremamente perplexos. –

A minha função aqui – começou Abigor – é comandar as legiões e destruir os grandes generais que aparecem diversas vezes durante a história. Sua fama chegou ao inferno, Senhor Ronan.

E?

Você é uma enorme pedra em nosso caminho glorioso. Por isso persuadi Yurius e por isso estou desafiando-o. Queremos você eliminado, não importa o meio.

Então Yurius...

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Sim. Ele não passava de um teste. E não foi difícil persuadir ele no exílio. O ódio que ele alimentava de você era tão grande que eu apenas disse o que ele queria ouvir.

E o que você disse?

“Siga minhas ordens e eu ajudarei a matar teu irmão.”

Se eu soubesse que era assim tão fácil o convencer, tinha feito ele desis tir disso tudo no baile. Muito bem, farei como quiser.

Ronan virou-se de costas e foi explicar a situação a seus perplexos soldados. Ao acabarem de ouvir, Ronan ordenou: –

Tragam-me uma urna.

Os soldados ficaram ainda mais perplexos de início, mas fizeram sua vontade. Ao pegar a urna, Ronan dirigiu-se aos restos mortais de seu irmão. Com a mão, pegou as cinzas que ainda não haviam sido levadas pelo vento e as atirou dentro do recipiente com todo seu rústico cuidado. Ao acabar, colocou a tampa do vasilhame, que era pequeno e cilíndrico, com vários desenhos florais enfeitando-o. Nem imaginava quem tinha levado tal urna para uma guerra... –

Mensageiro, aproxime-se.

Do meio de um monte de soldados, um pequeno anjo comum pedia licença, trombando no corpo de enormes combatentes. –

Sim, senhor?

Quero que envie esta urna para o castelo da família Warrior e diga ao patriarca da família que o seu filho mais velho está dentro dela. Pode fazer isso?

Claro, senhor. O castelo deles não é tão distante daqui.

Então vá, antes que anoiteça.

De súbito, o anjo planou e voou rumo ao sul. Naquele exato instante, as chu vas, ainda tímidas, começaram a derramar suas gotas e limpar os bravos guerreiros, sujos de sangue e suor, e lavar o campo de batalha. … O sino da porta fora batido. Uma serviçal foi atender ao chamado. Ao abrir a porta, se deparou com um anjo, totalmente molhado e com uma urna em mãos. Lá fora estava escuro. Raios iluminavam os céus e trovões quebravam o silêncio da noite. Isso tornava todo aquele cenário um pouco tenebroso, mas mantendo a costumeira calma a serviçal pronunciou-se: –

O que deseja?

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Uma entrega noturna especial para o patriarca da família Warrior.

Só um instante, eu irei chamá-lo...

Não precisa. - Uma voz atrás dela a persuadiu e quase a fez pular com o susto. - Eu já ouvi. Volte a descansar.

A empregada então desapareceu em meio aos infindáveis corredores do castelo. Assim que ela havia desaparecido, Ulisses perguntou ao mensageiro: –

Posso ajudá-lo?

Senhor, o General Supremo Ronan Warrior mandou-me entregar isso.

E ele disse o que era?

Ele disse que o filho mais velho dos Warrior estava aqui dentro, e que era para eu entregar diretamente ao senhor.

Segurando as lágrimas na frente de um completo estranho, Ulisses apenas disse: –

Já cumpriu sua missão, soldado. Volte agora ao seu posto.

Com sua licença... - E voou para bem longe dali.

Ulisses fechou a porta. O vento gelado que adentrara o local fora o suficiente para deixar ainda mais solitário aquele pequeno corredor que levava ao salão de festas. As tochas acesas nas paredes, cujo fogo crepitava timidamente, não eram suficientes para aquecer aquele lastimável momento. Ulisses caiu de joelhos no chão, enquanto poucas lágrimas corriam por sua face sensível. Abraçou o jarro contra seu corpo enquanto alguns soluços escapavam pela garganta. Parado ali, chorando, percebera que mesmo renegando seu filho, ainda assim tinha um amor incondicional por ele e arrependia-se. Talvez por não o ter criado da forma correta, não o ter apoiado nos momentos necessários, mas se arrependia. … Chovia muito aquela noite. Gotas enormes batiam na tenda, deixando-a encharcada. O vento forte também assolava o acampamento, quase carregando para longe as moradias temporárias dos soldados. Pelo menos havia um lado bom em marcar o duelo com Abigor naquele instante: os guerreiros seriam pou pados de doenças. Ronan saiu da tenda. Como todas as outras vezes, usava a armadura completa. A Sanctus estava em sua cintura e o elmo em sua cabeça. Caminhava a passos largos, como se estivesse atrasado. A lua, mesmo encoberta pelas densas nuvens de chuva, dava o ar de sua graça algumas vezes, aparecendo por pequenas frestas no céu. Isso ajudava a ilu minar as sombrias planícies que pareciam se estender ao infinito nas trevas da noite. O local não era tão longe, mas mesmo assim a lama que prendia as grevas

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ao chão fazia parecer que cada passo fosse dez. O vento forte o empurrava para trás, e as adversidades climáticas tornavam até mesmo a caminhada daquele bravo e forte soldado difícil. –

Demorou. Por acaso não sabe o que é pontualidade?

A voz vinha de uma clareira no campo. Mas o fogo vinha de um cavalo. Do lado dele esperava Abigor, com sua arma em mãos, pronto para combater. –

Você não tem medo do cavalo “apagar” no meio dessa chuva?

Abigor gargalhou. –

Um belo senso de humor. Pena que retirarei o sorriso do seu rosto. E não demorarei muito.

Por quê? Vai fazer piadas de humor negro?

Engraçadinho. Viestes para lutar ou para provocar-me?

Os dois. Primeiro provoco, depois luto. Sempre foi assim, ajuda a me relaxar antes de um combate.

Não deverias relaxar antes do combate quando seu oponente está pronto para decepá-lo. Deverias relaxar depois de ter vencido, caso consiga.

Eu já venci esta luta quando me convidou.

Como assim?

Ronan sacou sua espada da bainha. A Sanctus reluzia muito mais forte do que as outras vezes. –

Pouca coisa se sabe sobre esta espada. Realmente muito pouco. Mas o que se sabe dela é que reluz mais forte quando os poderes de seu usuário estão no auge. E o pico de meus poderes é justamente à noite.

À noite? Isto significa...

Sim, significa que meu elemento natural é Trevas, ao contrário da Luz que todos os outros anjos, ou quase todos, possuem. Mesmo com essa anomalia, fui poupado e pude treinar como qualquer outro. Talvez justamente por causa dela devo ter ficado tão forte e útil ao exército.

Abigor engolira em seco. Por certo, aquele elemento surpresa mudava todos os seus planos, que pareciam evaporar de sua mente cruel. Planos que, agora, tornavam-se pensamentos voláteis. –

Veio aqui para ficar olhando ou para duelar? Sabe, a noite pode ser longa, mas minha paciência não. - E Ronan colocou-se na postura de combate.

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Cap. 4 – Duelo da Meia Noite

R

uídos podiam ser ouvidos. O barulho do vento soprando forte contra o corpo de Ronan, as gotas de chuva que caiam na terra e a respiração dos dois combatentes. Ambos com as armas em mãos, encarando um ao outro, mesmo sem poderem se enxergar completamente. A escuridão da noite limitava muito a visão. Se não fosse pela claridade emitida pela crina do cavalo, a batalha seria às cegas. Por mais de cinco minutos eles apenas permaneceram parados, analisando o adversário. Mas quando o primeiro raio cruzou o céu, um impulso foi tomado dos dois lados. A espada de Ronan vinha em um golpe de cima para baixo. Abigor parou sua lança na horizontal e levantou os braços. Usando sua arma como escudo, conseguiu evitar que o golpe atingisse-o em cheio a cabeça. Apenas dois centímetros separavam a brilhante lâmina da Sanctus do enorme elmo de Abigor. Mais um raio varou o céu. A sombra projetada pelo encontro das suas armas ti nha a forma de uma cruz. Talvez aquilo devesse significar algo. Com sua enorme força, Abigor forçou a lança contra a lâmina de seu oponente, empurrando-o para trás. Aproveitando a brecha na defesa, tentou perfurar Ronan com a ponta de seu espeto, mas em um movimento suave Ronan girou o seu corpo e recuou, enquanto voltava para a posição inicial. Não demorou muito e Abigor tentou sua primeira investida, novamente com um comum golpe de perfuração, visando a barriga de Ronan. Este, por sua vez, mo veu o corpo para o lado, agarrou o cabo da lança e a puxou para si, trazendo Abi gor, que estava a favor do vento para perto. Usou a sua espada e cravou-a abai xo de seu pescoço, na gola da armadura (chamada gorjal). O sangue negro e espesso do general demoníaco sujou sua face já molhada pela água. O demônio fez força para recuar, mas Ronan mantinha-se firme segurando sua lança. E o vento que estava ao seu favor não o ajudava nem um pouco, apenas empurrava sua garganta cada vez mais próxima para o cabo da espada oponente. Em um último esforço, voou na direção de Ronan, surpreendendo-o com uma joelhada na face, que arrancou seu elmo e o fez largar o que estava bem preso em suas mãos: a lança inimiga. Ronan veio ao solo, mas em milésimos de segundo já estava de pé novamente. Voltou-se imediatamente para vislumbrar seu confrontante, que estava com a

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mão em seu pescoço. Por causa do golpe da Sanctus, aquela parte de sua armadura estava estilhaçada, e sua pele morena lambuzada com seu sangue escuro estava exposta. Abigor apertava seu pescoço tentando estancar a hemorragia, mas o golpe fora crítico, atingira uma artéria. Em um momento de desespero, ele pegou sua lança e tocou a ferida com sua ponta. Um urro de dor quebrou o silên cio da natureza e um cheiro de carne queimada tomou conta do ar. A ferida fora cicatrizada, ao menos. –

Eu imaginava que seria insano, mas não a tal ponto. - Provocou Ronan.

Adorei o seu senso de humor, pena que com o tempo torna-se tedioso.

Só se torna tedioso quando o alvo de piada é você, não é mesmo? Quer dizer que esse é todo o poder do grandioso general Abigor?

Abigor estava furioso. Sua face não podia ser vista para confirmar isso, mas a força com que esmagava o cabo da própria arma dizia por si só. –

Isso não foi nem o começo da demonstração das minhas habilidades!

Dizendo isso, iniciou uma conjuração proferindo palavras em latim. Ronan sabia que magias, naquele instante, não seriam boas notícias para ele. Mais do que depressa, pôs-se a atacar Abigor, mas este havia criado uma esfera de energia ao seu redor. O corpo de Ronan bateu na barreira e voltou. Enquanto isso, nem mesmo a chuva quebrava o campo de energia. A vegetação que estava dentro daquela proteção era consumida em chamas, bem aos poucos, enquanto Abigor acabava o encanto. –

Quod aeterna flamma consumeret it! Inferne! (Que as chamas eternas o consumam! Inferno!)

Labaredas de lava ascendiam do chão e o líquido quente ia como um jato ao encontro de Ronan. Ele evitava o máximo que podia se esquivando, mesmo sendo jatos velozes e alguns que saíam até mesmo debaixo dele. Os que iam de encontro direto a ele e não o davam maneira de esquivar, bloqueava usando sua espada como guarda-chuvas, girando-a pelo cabo em torno de seu próprio eixo. Isso dava tempo o bastante para Abigor usar sua estratégia: enquanto Ronan se ocupava com sua magia, ele sorrateiramente se movia pelo campo e tentava emboscá-lo. Mesmo movendo-se velozmente, ainda podia manter sua conjuração. E a estratégia funcionou no primeiro golpe. Quando uma labareda de lava veio até o rosto de Ronan e ele precisou usar sua espada para defender-se, Abigor aplicou um golpe com a lança nas costas do inimigo. O golpe varou sua armadura e atingiu-o na altura da clavícula, perfurando-o e fazendo parte dos seus músculos se queimarem, mesmo no breve contato. Ronan saltou para a frente e quase fora atingido por mais uma labareda que saía do chão ao seu encontro, mas a tempo suficiente foi para seu lado esquerdo. Bastou isso para receber outro golpe de Abigor, uma voadora nas costelas, que o fez cair no chão e arrastar-

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se por alguns metros. –

Então sua habilidade é usar uma conjuração enquanto ataca? Interessante.

Abigor mantinha concentrando sua conjuração falando bem baixo, por isso não podia mais responder as provocações de Ronan. –

Se essa é sua grande habilidade, saiba que não é o único que a possui.

Ronan pôs-se de pé e pegou um impulso para os céus, enquanto fugia dos jatos de magma que passavam a poucos centímetros de seu corpo. Quando che gou bem alto, ao ponto de mais nenhum jato poder chegar até ele, foi a vez de conjurar sua magia. –

Ostendit manus et obscuram noctem. Consumere omnis lux! Obscura! (A noite negra estende suas mãos. Consuma toda a luz! Obscuro!)

A luz se esvaiu de todo o cenário. Nem mesmo as chamas do cavalo de Abigor podiam mais ser vistas. A luz dos trovões não cruzavam mais os céus, apenas seu barulho podia ser ouvido. As gotas de chuva tocavam suas peles onde a armadura se quebrara. Abigor parou de conjurar. Não sabia mais em que posição estavam suas labaredas e nem se poderia atingir Ronan com elas. Estava tudo silencioso. Mas bastou milésimos de segundo para tudo se tornar o caos. Em movimentos tão suaves como uma brisa e tão rápidos quanto vultos, Ronan golpeava centenas de vezes a Abigor. O brilho azulado da Sanctus pareciam intermináveis flashes, que cortavam a escuridão total aos poucos. Assim que todos os golpes foram cessados e a luz ambiente retornou gradativamente, gerada pela crina do animal ali presente e os inúmeros lampejos distantes no céu, Abigor estava caído no chão. Sua armadura triturada junta com o seu corpo. Ronan, com elegância, golpeou o ar com sua arma, fazendo o espes so sangue adversário ser limpo da lâmina. A chuva ajudou ainda mais a purificar o metal. Abigor levantou-se sem muitos problemas. Retirou a carcaça de sua armadura e atirou-a ao chão. Seis enormes asas de penas negras surgiram. Quando retirou seu elmo, o inexplicável. Um belo rosto, como o de uma pintura, surgira. Cabelos negros, que tocavam seus ombros, e olhos avermelhados formavam sua face. Contornos angelicais, uma face bem delineada. O seu corpo era justamente o que se esperava dele. Forte, bruto e, agora, cortado. O seu “óleo” escorria pelo corpo e manchava sua veste interna à armadura. –

Cometestes um erro ao me livrar da armadura, cavaleiro.

É mesmo? Qual erro?

Aquela armadura pesava mais de uma tonelada e delimitava muito meus movimentos. Agora estou muito mais veloz.

E acha que mesmo com essa vantagem poderá vencer-me?

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Só testando para se descobrir.

Abigor desapareceu no ar, nenhum ruído. Pouco tempo depois, Ronan percebeu por que ele havia contado vantagem. Quando menos esperava, a ponta da lança fincou em sua perna. No mesmo instante que entrou, uma dor aguda percorreu o corpo do general celestial, mas não parara por ali: mais um, mais um e mais um. Todos golpeando infindavelmente o corpo de Ronan, furando a armadura e transformando-o em uma “peneira”. Todos os noventa golpes que o atingiram não duraram nem um segundo sequer. Ao acabar a sessão de golpes, Abigor permaneceu parado, imóvel na frente de Ronan, com sua lança ensanguentada em riste. Este por sua vez nem caíra ao chão. A dor lacerante que percorria seus nervos impedira qualquer um de seus movimentos, até mesmo o simples ato de cair. –

Agora já sabe por que conto vantagem sem a armadura.

Uma boa técnica, mas... Não pense que também é o único ao batalhar com uma armadura especial. Agora que a minha está completamente perfurada, não vejo motivos para continuar usando-a.

Dizendo isso, Ronan fez o mesmo que Abigor. Aos poucos, manoplas, greva, ombreiras, saiote... Tudo caia ao chão e, quando tocava o solo, fazia baques bem audíveis. Por fim, tirou a cota de malha e atirou-a ao solo. Assim como a armadura, fez um baque tremendo. –

Ao todo, eram 1574 quilos a mais. Acho que agora nossas velocidades voltaram a se equiparar, não é mesmo?

Isso não significa nada.

Talvez para você não, mas o principal motivo de eu usar aquela armadura é que ela não me protegia apenas dos meus inimigos, mas também de mim mesmo. Quando entro em combate sou tomado por uma estranha frenesia, e aquela armadura delimita minhas ações. Mas agora que estou sem ela...

Com frenesia ou não, ainda sou capaz de te derrotar.

Pode tentar.

Abigor pegou um impulso tão forte que o solo atrás dele parecia ter dobradose. Mirou a ponta de sua lança no abdômen de Ronan, visando acabar de vez com a luta. Quando se aproximou demais e parecia ter tocado o seu corpo, o objeto pontiagudo apenas cortou o vento. Ronan havia deslocado-se ligeiramente para o lado e no dado instante, enquanto Abigor estava na sua frente, parado no ar naquela fração de segundo, Ronan o fatiou como se fatia uma carne: movimentos rápidos, vorazes. Sem piedade, sem pestanejar. Os golpes atravessavam os músculos e os ossos, até mesmo suas asas não eram poupadas. Mas Abigor

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nem ao menos podia sentir, pois a duração de todos eles havia sido menor do que um milésimo de segundo. Acabada a cena, no instante em que o pé de apoio do tolo demônio tocou o solo, seu corpo se dilacerou, e pequenos cubos de carne, ossos e órgãos internos espalharam-se pela relva. Apenas a sua cabeça permanecera intacta. Ronan a apanhou pelos cabelos e a a elevou até a altura de seu rosto. Cinco centíme tros separavam as duas pontas de nariz. Aproximou então sua boca do ouvido do oponente e disse: –

Eu duvido muito que tenha morrido.

E acertou. - Respondeu a cabeça sem corpo. - A sua lâmina santa destruiu meu corpo, mas, enquanto minha cabeça estiver intacta, posso regenerar-me.

Posso dar um jeito nisso.

Pode, mas duvido que faria.

E por que não?

Pois, se me matares agora, sofrerás com as próximas ondas de ataque. Os demônios viriam com força total para tentar tomar Aeria. Duvido muito que gostarias disso. Somos generais, Senhor Warrior. Sabemos muito bem que só se podem matar generais em poucos momentos: antes da guerra se iniciar, pois daria medo aos soldados; ou perto de se conquistar a vitória, pois daria a confiança necessária aos combatentes e seria o símbolo da supremacia.

Concordo. Um exército em guerra sem um general é tomado pela fúria e pela sede de vingança.

Então o que pretende fazer comigo?

O óbvio. Será nosso prisioneiro. Isso traria desonra ao seu exército e eles ficariam mais descuidados. Somos generais, se lembra?

Eu adoraria ficar em uma cela selada magicamente, mas tenho outros planos, desculpe-me.

O cavalo de crista em chamas deu um coice na barriga de Ronan. Como reflexo, este largou a cabeça de Abigor, cujo animal de transporte o pegou na boca, pelos cabelos. –

Eu vim para este duelo – Começou Abigor – apenas para testar suas forças e saber que tipo de general era meu oponente. Além de saber que ele é, de longe, muito mais forte do que eu, também soube algo muito melhor. Não é com esta guerra que deve preocupar-se, general. É com o

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que acontecerá depois dela. E o cavalo desapareceu nas trevas da noite, carregando consigo a cabeça de um general demônio derrotado. Ronan ficou no chão após receber o coice. Todo ferido e ensanguentado, estava exausto. A Sanctus repousava ao seu lado, fiel e inseparável. Estava pensando naquilo que disse seu inimigo: deveria preocuparse com o que aconteceria depois da guerra... Mas até mesmo esse pensamento pareceu pesado demais para ele. Ergueu-se e foi andando até a sua tenda, carregando consigo sua arma. … A chuva forte castigava Aeria. Ainda assim não estava muito frio. A culpa era do vento gelado, que dava aquela sensação. Tera ficava na porta de vidro que levava até a varanda de seu quarto, apenas observando enquanto os raios cortavam as nuvens iluminando todo o continente. Mal sabia ela que, lá do cemitério, um vulto encapuzado a observava, perto de uma árvore. As sombras o escon diam em meio às centenas de covas. Do outro lado da rua, faltava apenas uma vela se apagar. Ele não queria testemunhas. Seria rápido, e sem deixar vestígio nenhum, faria o seu trabalho. Olhos vermelhos reluziam por baixo de seu manto. ... Após meia hora de longa espera, Tera havia ido dormir. Alguns minutos depois, a vela do outro lado da rua se apagou. Era a sua deixa. Ficou mais cinco minutos esperando que a testemunha silenciasse todas as suas atividades. Acabada a espera, como um gato pulou o muro. Seus passos eram completamente inaudíveis. Ele parecia flutuar. Não precisou nem ao menos arrombar a porta. Apenas a atravessou, como um fantasma. Já dentro da casa, suas vestes não molhavam o tapete. Não tocava em objetos, não perdia tempo investigando. Já sabia o que queria, e onde queria. Subiu as escadas e deparou-se com a porta do quarto do casal. Por alguns segundos, parou para ver a porta. Não se podiam prever seus pensamentos. Por cinco segundos ficou ali parado, até recobrar sua consciência original. Tinha uma missão, um propósito. Devaneios não eram aceitos. Atravessou também a porta que o separava do alvo. Lá estava ela. Deitada na cama, coberta apenas por um lençol branco. Aos poucos se aproximou, sorrateiramente. Mantinha o olhar fixo nela e ao seu redor. Na escuridão presente, ninguém podia vê-lo. Nem mesmo ele. Retirou uma adaga de arremesso das dobras internas de suas vestes. Mantendo o olhar centrado em seu alvo, esperou que um raio cruzasse o céu para iluminar o quarto. A luz atravessou a janela, e ele atirou a adaga. … O dia começava com um sol tímido no campo de batalha. Os soldados acordaram surpresos. Não com um ataque. Justamente o contrário. Nada de hordas inimigas. O barulho que mais se ouvia era o de pássaros piando pelos campos. Al-

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guns esboçaram um sorriso, outros mantinham a expressão surpresa. E após muita conversa no meio deles, voltaram a dormir após a troca de vigias. Em sua tenda, Ronan ardia em febre. Alguns magos concentravam-se em cuidar das feridas feitas pela lança de Abigor. Ele havia chegado no meio da noite, coberto em sangue e arrastando-se pelos campos. O vigia noturno o carregou para sua tenda e chamou os médicos com pressa. Apenas alguns puderam sair de seus postos visto a quantidade de enfermos. Mas um general é um general, seu tratamento seria especial de qualquer modo. Enquanto a grande dificuldade que se enfrentava no acampamento era curar seu maior líder, a da mente de Ro nan era dá-lo um sonho agradável. Dentro de sua cabeça, enfrentava vários pesadelos, um após o outro... … Ronan estava cercado por gente. Não entendia. Era um amontoado de pessoas. Estava com uma roupa formal, elegante. Um terno preto bem desenhado. Tentou tomar espaço entre todos para ver o que se sucedia. Quando conseguiu observar algo, viu que estavam no cemitério na frente de sua casa. Logo pensou que aquele era apenas mais uns dos sonhos que costumava ter, mas se enganou. Quando olhou para o caixão, o corpo de sua amada esposa estava lá, deitado. Mais pálida do que o normal, um corpo frio com um belo vestido azul-escuro. Foi inevitável. Uma lágrima escorreu do seu rosto no dado momento. Quase em desespero, olhou um vulto atrás da árvore. Estava encapuzado, mas podia ver claramente cabelos grisalhos e olhos rubros como sangue. Não havia asas. Em um piscar de olhos, todos haviam desaparecido. Era noite. Apenas ele e o ser estranho permaneciam ali. Do nada seu corpo também havia diminuído, e ele se tornara criança novamente. O vulto deu as costas e desapareceu. … De um estalo, Ronan levantou-se. Os sacerdotes, todos assustados e quase sem esperanças, recuaram de imediato. –

General, o senhor está bem? - Perguntou um deles.

Estou ótimo, mas agora prezo pela saúde de minha mulher. Mande um mensageiro para saber como ela está!

Às suas ordens...

Ronan sentou-se na cama, sentindo ainda muitas dores do confronto da noite anterior. Respirava de forma ofegante, e esperava que seu sonho fosse apenas um sonho ruim. Enquanto aguardava o retorno do mensageiro, tentou se levantar, mas sem muito sucesso. Sentiu tonturas e caiu desacordado novamente. …

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Não demorou muito para que o mensageiro retornasse. Ronan já estava acordado novamente, mas ainda assim se recuperando do incidente. –

Senhor, tenho ótimas notícias.

E quais seriam?

A sua mulher está ótima, sem nenhum ferimento ou sequer em uma condição ruim. Ela não entendeu o motivo da preocupação aparente. A única coisa bizarra que ela disse ter acontecido foi encontrar uma adaga pendurada na parede do quarto ao acordar, mas nem mesmo ela conseguiu encontrar explicações para isso.

Finalmente, uma ótima notícia, para variar. - Disse o general que, apesar de ferido, ainda arrumou forças para cuidar de suas tropas. - Mande um guarda para vigiar a minha casa. Aposto que acontecerá alguma coisa. Afinal, adagas não se penduram sozinhas em paredes, não é mesmo?

Imediatamente, senhor.

O mensageiro se retirou e Ronan ficou a pensar, deitado em seu leito. Os sacerdotes já haviam saído, e era a primeira vez em horas que os demônios não atacavam. Isso significava que Abigor não estava pronto. E era muito prazeroso ter um descanso depois de tanto tempo batalhando... … –

Ataque! Ataque! Levantem-se de suas camas agora!

Ronan acordou com o susto. Havia descansado decentemente mas seu corpo ainda estava visivelmente enfraquecido. A adrenalina que corria por ele era tamanha que ficou de pé. Pôs sua nova armadura, mas era improvisada e muito mais leve que a normal. O que significava que era menos resistente, e por isso não podia atacar como um louco qualquer se prezava por sua vida. Tomou a espada em mãos e correu para fora da tenda, onde as enormes planícies pareciam ter transformado-se em um enorme mar de fogo. Os demônios vinham marchando a ritmo lento, cujos passos ressoavam junto com o rufar de seus tambores. Ronan já havia visto aquilo antes: era um ataque de enormes dimensões. E se as enormes dimensões do ano anterior haviam tornado-se pequenas dimensões naquele ano, mal podia imaginar como seriam as dimensões grandes agora. Esse tipo de ataque era bom e ruim ao mesmo tempo: De um lado, limitava o combate ao solo, e caso fosse iniciado um ataque aéreo a neutralização seria fácil. Por outro, era péssimo, pois anjos lutavam melhor no ar. De qualquer modo, Ronan mantinha-se confiante em sua habilidade. Após ter vencido Abigor, sabia que exército nenhum na face do planeta o pararia. –

Ronan! Ronan! - Gritava uma voz em meio à multidão de armas.

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Era Pyros. Ele vinha carregando um enorme machado de combate em mãos, atípico de seu uso, usando apenas a parte do tronco de sua armadura. Visivel mente cansado e completamente sujo, mas ainda assim em condições de lutar. –

Ronan, as chamas estão altas demais. O que faremos?

Quais riscos proporcionam?

Podem vir a queimar a cidade.

Se chegarem lá, os cidadãos e as magias contidas nos castelos protegerão a cidade do fogo. O mais intrigante é como conseguiram colocar fogo numa plantação coberta pela chuva...

Dizem estar usando produtos de alquimia, senhor.

Alquimia? E como aqueles primatas puderam arrumar isso? Não acredito que algum general deles seja esperto o suficiente para isso, senão não teriam traído os céus...

Provavelmente em sua relação com os humanos. Além do mais, existem anjos caídos no inferno. Não seria estranho se seu conhecimento caísse em mãos erradas.

Pactos malditos... Até quando esses humanos... E os traidores... Esqueça. De qualquer modo, separe uma parte de magos para cuidar da contenção das chamas. Ainda devemos nos concentrar nos ataques. Há uma horda enorme aqui. Não creio que consigamos acabar em menos de três dias seguidos.

Concordo. Já providenciarei os magos. Enquanto isso, não morra. - Disse Pyros colocando a mão no ombro de seu melhor amigo.

Você também. - Ronan retribuiu o gesto.

Os inimigos se aproximavam rápido demais. E na frente das chamas, guiando eles, estava Abigor. Sem nem sequer usar uma armadura. –

Aquele louco está planejando... - Ronan franziu as sobrancelhas e colocou a mão sobre os olhos para tentar enxergar mais longe, sem que as chamas atrapalhassem sua visão.

Ronan avançou um pouco com seu exército para ver qual seria a reação oponente. Eles se puseram a andar mais rápido, assim como seu líder. –

Sim, é um ataque total!

Ronan gritou com todos os seus pulmões: –

Soldados, é agora! Lutem por seus amigos, sua família... E lutem para viver! ATAQUEM!

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Cap. 5 – A Verdadeira Face da Guerra

O

choque das armas, os gritos de dor, os passos pesados. Esses sons formavam em uníssono uma sinfonia que os mais antigos intitulavam de “cântico de batalha”. Era a verdadeira harmonia, mesmo dentro do caos, mesmo dentro da guerra. De um lado, os anjos: batalhavam para defender seu território, para defender aqueles que amavam e para defender o eterno equilíbrio entre o bem e o mal. Do outro os demônios, cuja única intenção era difundir o caos, conquistando antes os seus principais inimigos. Mas, além disso, era o duelo entre um ser puro contra o assassino de seu irmão. À medida que os soldados se desgastavam no campo de batalha, Ronan e Abigor trocavam golpes em um duelo que parecia não ter fim. Quando espada e lança se tocavam, uma cascata de faíscas saía das duas. Lá no chão, os soldados limitavam o seu alcance até onde a parede de fogo os impedia de ultrapassar. Mas os dois duelavam nos céus indo de um lado ao outro. Pouco importavam as chamas que atravessavam. Aquele baile de guerreiros era mais importante que a dor de seus bailarinos. Não demorara muito e Ronan retirou sua armadura. O ar quente o sufocava e aquecia aquele pedaço inútil de metal que o revestia. Abigor parecia bem à vontade. Talvez as chamas do inferno o tivessem tornado resistente ao calor. Em comparação ao último embate dos dois, Abigor estava mais forte, veloz, preciso e resistente do que antes. Claro que as feridas não completamente recuperadas de Ronan davam o diferencial em seu rendimento. A dor impedia que ele se concentrasse. Seus movimentos se reduziram, então mantinha uma postura mais defensiva, apenas esperando e bloqueando os golpes como podia. … Em Aeria era mais uma noite. E mais uma vez o ser encapuzado vigiava a casa de dentro do cemitério. O manto que o encobria estava gasto e sujo, mas ele não sentia nenhuma necessidade de higiene. Estava ali por uma missão, e iria cumpri-la, custasse o que custar. E não demoraria muito para iniciá-la. Sombras rodavam pelas paredes das casas. Por causa das luzes das velas ainda acesas nos postes isso era visível. Mas não tardaria para que elas fossem apagadas pelos veleiros, e logo se iniciaria o combate. O guarda seria o primeiro a morrer, mas sua vida não importava.

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… Um golpe de perfuração, esquerda para direita. Atingiu lateralmente o braço. Enquanto Ronan perdia o movimento do braço direito, Abigor investia cada vez mais forte nos ataques. Cada vez mais rápido e mais preciso, Ronan mal podia desgrudar os olhos por um segundo. Cada distração o rendia uma ferida, mesmo que fosse um pequeno corte ou arranhão. Sua principal distração era os seus soldados em campo. A invasão de demônios cercara todos os seus aliados, fazendo com que suas tropas parecessem uma pequena ilha em um mar poluído. Recebeu um chute no peitoral, o que o fez voar para trás e o fez despertar para o seu próprio embate. –

É seu fim! - Dizia Abigor se aproximando do adversário, com lança em mãos, preparado para dar uma estocada.

SE AFASTE, RONAN!

E o reforço chegou. Pyros, com seu enorme machado apareceu do nada e usou um golpe na horizontal, direita para esquerda. Abigor se viu obrigado a defender e, com isso, fora empurrado para longe. –

Pyros, o que acha que está fazendo? - Indagou Ronan.

Ajudando.

Mas eu posso vencer a batalha sozinho!

Nas atuais condições, não. Aliás, acho que nem nós dois juntos poderemos vencer se lutarmos lado a lado.

Mas no outro dia...

Eu acho que no outro dia ele te fez sentir superior para só agora demonstrar sua verdadeira força. Era só um teste.

Maldito!

Não adianta lastimar. Estamos agora numa verdadeira batalha de vida ou morte. Eu vou ganhar tempo para você reunir poder e usar seu golpe final, por isso seja rápido.

Ronan se espantou no mesmo instante. Não usava seu golpe final pois, da última vez, ele acabara com todas as suas energias e destruíra tudo em um raio de mil metros, sem contar que não podia prever o efeito que teria. Talvez nem mesmo funcionasse. Pyros estava se sacrificando e agora ele podia ver bem isso. –

Pyros, eu não vou...

De quanto tempo você precisa para terminar o encantamento?

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Pyros, eu não posso...

Ronan, de quanto tempo precisa?

Pyros olhou fundo nos olhos de seu amigo. Ronan via a determinação em sua expressão. Pyros não voltaria atrás. –

Três minutos. - Respondeu por fim Ronan.

Em três minutos eu o segurarei e o levarei para o alto, longe das tropas. Use seu golpe lá. E Ronan...

Diga.

Pyros fechou o punho e bateu de leve em seu ombro bom. –

Adeus, companheiro.

Com essas palavras, Pyros foi ao encontro de Abigor, que estava voando o caminho de volta após ser arremessado para bem longe pela força daquele bravo soldado. Ronan então começou a proferir o encantamento que usara apenas uma vez na vida e cujo efeito era imprevisível. Era sua única chance. … –

Acha mesmo que pode ganhar tempo para ele se recuperar? - Perguntava Abigor, enquanto sua lança era bloqueada pelo machado de Pyros.

Acha mesmo que preciso dar explicações a um demônio?

Insolente!

Abigor fez um pouco de força e jogou Pyros para trás, mas este não desistiu. Com o machado em mãos, tentou golpear Abigor, que esquivou-se e golpeou suas costelas, perfurando-o o pulmão. Este urrou de dor, mas ainda assim teve mestria suficiente para acertar Abigor na cabeça com as “costas” do machado. Este largou a lança e desnorteou-se por alguns segundos, tempo o suficiente para Pyros acertar um golpe em seu tronco, rasgando-o da altura do peito até a cintura. Sem se deixar abater pelo dano recebido, Abigor investiu de mãos nuas visando golpear Pyros. Sem velocidade suficiente, este tentou esquivar, mas o tempo não foi bastante. Recebeu um golpe na testa, quase nocauteando-o. Aproveitando-se da oportunidade, Abigor colocou a mão no cabo de sua lança novamente e relutou para afundá-la mais um pouco nas entranhas daquele que interrompera seu tão estimado entrave. Este se contorceu e gritou de dor, mas com o cotovelo conseguiu acertar a têmpora do rival, que se afastou e novamente largou a arma no mesmo local que havia deixado antes. Desta vez, Pyros retirou a lança do seu corpo com sua força, arrancando de sua garganta mais alguns gritos. Após retira da, levou um chute na barriga e largou a arma rival no ar. Abigor tomou-a e em

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uma fração de segundo a encravou na coxa de Pyros, atravessando-a completamente. Em um golpe de sorte, Pyros usou seu machado e cortou a perna direita de Abigor na altura de seus joelhos, arrancando um grito do impiedoso demônio. Desfrutando de seu momento de glória, esqueceu que deixou as costas expostas para aplicar o golpe, e assim que Abigor percebeu a brecha na defesa, retirou sua lança da coxa do inimigo, girou em seu próprio eixo para acumular força e a cravou no centro da coluna de Pyros. Sangue passou a sair por seus olhos. –

Achava mesmo que podia vencer-me sozinho? Tolo.

Eu não disse nada quanto a vencer. - Respondeu Pyros com um sorriso sem energias na face.

UMA ARMADILHA!

Gênio.

Com sua força, Abigor desencravou a lança e atirou o corpo de Pyros para o chão. Percebendo sua distração, Abigor voou o mais rápido que podia para seu antigo oponente, Ronan. Este estava terminando o encantamento: –

Veni et liberare mea vera forma. Ultimus lacrima! (Venha e liberte minha forma pura. Última lágrima!)

De longe, Abigor tentou atirar a lança em seu corpo, mas a menos de dois metros ela ricocheteou e foi parar longe. Um campo de força havia formado-se ao redor do corpo de Ronan. Uma esfera roxa, que parecia absorver a luz ao seu redor. Qualquer que fosse o encantamento, ele havia terminado. … O veleiro passou e apagou o último poste. A luz das casas não mais brilhava, já era tarde da noite. Mesmo sem poder ver as sombras, o ser encapuzado sentia sua presença, e sabia sua localização. A maneira que circundavam as ruas era peculiar. Tinham um alvo comum, e logo iniciariam o ataque. Bastava que a presença do veleiro estivesse longe. De dentro das vestes, o vulto de manto retirou uma espada de aproximados 80 centímetros de lâmina. Era uma lâmina escura, totalmente opaca. Permaneceu oculto em meio à copa da árvore, esperando o primeiro movimento adversário. Assim que a primeira sombra avançou, ele saltou e a cortou no meio e, fazendo uma acrobacia, parou no chão. Mantinha uma postura flexível, girando a espada em sua mão, preparado para qualquer surpresa. O guarda nada via ou ouvia, estava parado em seu posto perto do muro da casa dos Warrior. Uma das sombras, percebendo a ameaça, veio por trás. O misterioso ser encapuzado escarpou e deixou a lâmina apontando para o céu, e a própria sombra cometeu suicídio rasgando-se em sua espada. Mas os ataques estavam apenas de iniciando, e as sombras viriam a noite toda. Foram duas, faltavam 98.

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… A esfera de energia que protegia Ronan finalmente desapareceu. Um anjo de asas negras ocupou seu lugar. Tinha os mesmos ferimentos, e ainda estava ba nhado em sangue, mas a dor que sentia antes fora totalmente arrancada. Com um olhar desafiador, olhava para Abigor. Olhos azuis cristalinos, mas que ao invés de ternura instigavam medo. –

Se precisa de sua arma para lutar, irei concedê-la como último desejo.

Ronan levitou a arma de Abigor que caíra no chão e a fez flutuar até sua frente. Ele estendeu a mão e a pegou. Não havia truques, ele estava mesmo devolvendo a arma do inimigo. –

Por que fez isso?

Não vejo glória em derrotar um oponente desarmado.

Com a Sanctus em mão, cuja lâmina perdera totalmente o brilho, ele avançou como um raio na direção do rival e parou na sua frente, de forma que seus rostos ficassem a centímetros um do outro. Abigor sentia uma respiração gelada em seu rosto. Em um ato de reflexo, tentou golpear Ronan com sua lança. Este apenas segurou sua ponta com a mão. Seus músculos nem ao menos haviam retraídose, enquanto Abigor empenhava toda a energia do seu corpo naquele ataque. –

Seus esforços são inúteis.

Mais rápido do que os olhos comuns podiam ver, Ronan esticou sua perna para o ar e chutou Abigor em seu queixo, que recuou junto de sua arma. Cuspira alguns dentes junto de seu sangue preto. Quando voltou os olhos para fitar Ronan, este havia sumido. Procurou ele pelos céus até que uma voz fria como a neve de inverno sussurrou no seu ouvido: –

A sua existência termina aqui.

Abigor tentou girar em seu eixo com a lança vindo em um golpe horizontal, de uma forma que golpearia a barriga de Ronan, mas ele apenas acertou o vento. Olhava em todas as direções, tentando rastrear o inimigo. Ainda estava confiante em sua vitória, mesmo recebendo um golpe tão humilhante. Uma dor lacerante veio das costas. A Sanctus fora cravada em sua clavícula, no mesmo ponto que Ronan havia sido golpeado antes. –

Estamos quites.

Retirou a espada e afastou-se alguns metros, esperando a reação de Abigor que se contorcia tentando tapar com as mãos a nova ferida. Quando ele se virou, Ronan percebeu que seu golpe havia varado o corpo do rival. –

Talvez eu tenha exagerado um pouco na força... - Sorriu sadicamente.

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Uma tentativa de investida frustrada de Abigor. Vindo em um rasante, a lança em mãos, tentou cravá-la na barriga de seu oponente. Mesmo com a atual velocidade sobre-humana, não era o suficiente para que Ronan fosse atingido. Ele teve a impressão que atingiu, mas na verdade a esquiva de Ronan havia sido tão rápida que deixara até mesmo um vulto dele para trás. Um golpe com o cotovelo nas costas e uma joelhada na barriga foram o suficiente para neutralizar qualquer reação da parte de Abigor. –

Cometeu um erro uma vez e agora comete o mesmo? Isso é apenas uma prova de sua incapacidade como lutador.

Abigor rangia os dentes de raiva. Pela primeira vez em toda a sua existência sentia-se verdadeiramente fraco. Uma sequência veloz de golpes foi sua resposta, mas em movimentos fluídos Ronan escapava deles, um a um. A espada que estava em suas mãos estava clamando por sangue. No meio de suas esquivas, o general dos anjos moveu sua espada, travando a lança de Abigor na sua metade. –

Ainda não percebeu que agora isso é inútil? Deveria ter exterminado-me quando teve sua chance.

A minha chance ainda não acabou.

Acabou. Sua mãe nunca o ensinou que nunca deve brincar com a comida? Mesma coisa com seus oponentes. Agora é a minha chance.

Com um movimento voraz, Ronan arrancou os dedos de Abigor que se prendiam na lança. Ele a largou, soltando um urro. Mais um movimento: Ronan cravou sua Sanctus na barriga de Abigor. Enquanto o demônio contorcia-se de dor, o anjo olhou bem pro fundo de seus olhos e disse: –

Faça uma boa viagem de volta ao seu lar.

Foi a última visão do grande general do inferno, líder de uma legião de demô nios, antes que seu corpo fosse rasgado em dois, de baixo para cima. Para finalizar, o general Warrior estendeu sua mão e tocou a cabeça dividida de seu rival. Proferiu algumas palavras em latim e desintegrou o corpo do inimigo. Após aca bar com seu inimigo, olhou de volta para o chão. Seus soldados estavam em desvantagem. A grande onda de demônios fez com que recuassem e reagrupassem em um pequeno contingente. Precisava ajudá-los. A noite seria longa. … Amanheceu. Em Aeria, um grupo de curiosos se unia em frente a algumas crateras que se formavam nos pisos de pedra que revestiam a cidade. Da sacada de sua varanda, Tera observava o mesmo. Todos não entendiam o que havia acontecido. O guarda dormira em seu posto e nada vira ou ouvira. Nenhum rastro de sangue. Apenas algumas pequenas crateras espalhadas pelo chão, archotes queimados em um canto e algumas paredes com rachaduras. Nada além disso.

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A descendente ao trono real desceu as escadas. O que quer que houvesse acontecido naquela noite, nada ouvira. E também não deixaria de prosseguir com sua vida por isso. Foi até a cozinha, pegou uma maçã e, comendo-a, caminhou até a sala de jantar. Uma carta jazia intacta em cima da mesa. Tera apanhou-a. Olhou para os dois lados: não havia sinal de invasores. Quem quer que houvesse deixado a carta ali havia sumido. Estava endereçada para Ronan mas sem qualquer remetente. Teve a curiosidade de abrir a carta porém temeu sua mensagem. Algo de paranormal estava no ar. Deixou a carta no mesmo lugar que pegou e foi trocar suas vestes. … Ano 1000 da era Chaos – Final da Guerra (Início do Outono) O campo de batalha estava destruído. O fogo daquela noite consumira a relva. Haviam inúmeros buracos no chão, e cinzas de demônios queimados. As tendas estavam sendo desarmadas e carregadores levavam para a cidade alguns itens. Soldados feridos iam de maca, e seriam levados direto para o hospital de Aeria, onde receberiam um tratamento propício. Os mortos eram carregados por seus próprios companheiros, desfilando pelas ruas da capital de Seal para ganhar a honra do povo que eles protegeram até seu último suspiro. Obviamente, para evitar a dor da família do morto que, até dado instante, não sabia de seu fa lecimento, os corpos iam tapados por um lençol branco com sua arma repousando sobre o cadáver. A família reconheceria a arma do soldado e dar as devidas honras para ele, mas sem que seu corpo fosse exposto. Ronan estava entre os feridos. Após a última noite de batalhas, chegara a um estado de exaustão tão grande que caíra em um sono profundo. Enquanto estava sendo transferido para o hospital e sua esposa recebendo a notícia, ele sonhava com o que ouvira na noite em que Pyros morrera. ... Após ter derrotado Abigor e antes de começar o extermínio em massa de demônios, ele se dirigira até o corpo de Pyros, jogado pela relva e ensanguentado. O tomou em seus braços e checou sua pulsação. Estava fraca, a hemorragia era muito grande. Eram seus últimos segundos de vida. Pyros abriu os olhos e contemplou seu amigo, transformado pelo poder da Sanctus, que derramava algumas lágrimas sobre seu corpo. Abriu um sorriso e, com suas últimas energias, proferiu suas últimas palavras ao seu melhor amigo: –

Obrigado, Ronan, por ter permitido-me lutar ao seu lado.

E com o punho fechado, tocou o ombro de seu general antes de desfalecer por completo. A fúria do coração de Ronan havia ganhado seu ápice. …

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Onde está meu marido?!

Tera brigava com as enfermeiras pelo hospital, buscando o corpo de seu amado. Estava no leito 5058, dormindo exausto. Enquanto ela lá estava, o desfile acontecia pela cidade. Antes de ir para o evento, recebera um mensageiro pela manhã em sua porta explicando a situação. Ela já estava grávida de um ano e esperava ter o seu filho a qualquer instante. Ao chegar no quarto de Ronan, acompanhada por uma enfermeira, puxou uma cadeira de madeira e sentou-se ao seu lado, repousando delicadamente as mãos e a cabeça sobre seu peito, enquanto chorava silenciosamente. … A noite caíra. Tera não saia do lado de seu marido. Após saber que ele estava bem, havia acalmado-se, mas ainda assim ficava ali do lado dele. Ele estava bastante enfaixado. Pernas, peitoral, braços e até pescoço. Ele fora o verdadeiro herói da guerra, tomando toda a responsabilidade para si. Tera dormia sentada, acomodada na cadeira com uma almofada e um lençol que a enfermeira havia gentilmente colocado. Enquanto dormia tranquilamente, Ronan tinha o mais sinistro de todos os seus pesadelos até então. ... Andava por uma ponte feita de ossos e sangue fluía abaixo dela. O mesmo líquido do rio era o que estava chovendo em um temporal. Mesmo estando em meio a chuva ele não se molhava. Suas vestes brancas permaneciam imaculadas, limpas. Para onde ele estava indo? Nem mesmo isso podia dizer. Era a primeira vez que tinha um sonho parecido. De qualquer modo, prosseguiu andando pela estrada sem se questionar. Quando chegou ao final dela, um enorme muro feito de cadáveres e um portal construído com ossos o parou. Algo pesou dentro de seu bolso e ele encontrou uma chave. Abriu o cadeado e uma cena chocante apareceu quando abriu o portal. Um enorme castelo, também feito de ossos, o parou. Esqueletos de soldados permaneciam imóveis perante a entrada. Alguns deles empalados ainda em seus trajes de guerra. Corvos comiam alguns órgãos espalhados pelo chão. Quando ele se aproximou da porta, os guardas o saudaram e a abriram. Um enorme corredor conduzia até um trono, onde um bebê coberto de sangue chora va incessantemente. Atrás do trono uma mulher crucificada chorava sangue. Era a sua esposa. Ao ver a cena, se ajoelhou e chorou. Mas mesmo no desespero não desgrudava os olhos daquela cena horrorizante. Por fim, soldados fecharam uma cortina e ocultaram a sala do trono. Ronan começou a cair por um poço sem fim, sem conseguir respirar. Acordou. … Sua mulher estava debruçada sobre suas pernas, dormindo. Tudo não passara de um sonho. Olhou pela janela. O dia estava claro. Deveria ser o mesmo dia do

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festival que seus pais dariam no castelo. Assim que acordou, acordou sua mulher e a beijou apaixonadamente. –

É bom estar em casa.

Mas estamos no hospital, imbecil. - Disse chorando e rindo ao mesmo tempo.

Então me ajude a sair desta cama. Hoje a noite temos uma festa para ir.

Mas você não está...

Em condições? Acalme-se, eu apenas estava cansado. Feridas assim são nada para mim.

Onde está sua armadura?

Fora destruída em meio ao primeiro embate com Abigor.

Então é verdade?

O quê?

Que foi você que matou Abigor.

Sim, é verdade. Mas para isso, Pyros deu sua vida...

Ronan deixou uma lágrima escorrer pelo seu rosto, mas ela foi retirada pelas mãos ternas de sua amada esposa. Não apenas por seu amigo, o pesadelo ajudara também. –

Ele morreu como um soldado honrado. Iremos ao seu enterro.

Sim. Mas antes temos uma festa para ir. Meus pais nos esperam, e você sabe que se eles não me virem, irão fazer um estardalhaço.

Tera achou meio estranho no começo, mas o compreendeu. Queria festejar um pouco para esquecer aquilo que a guerra o infligira. E aquela não havia sido uma guerra qualquer, perdera o seu melhor amigo nela. –

Tudo bem, querido. Mas você deve prometer-me que não se esforçará nos próximos meses...

Eu prometo... - Disse com um sorriso sincero.

Tera chamou o médico. Ele relutou para dar alta ao seu paciente, ainda mais um tão ferido, mas após Ronan ameaçá-lo, ele cedeu. Relutava bastante pois seu paciente mal podia andar sem apoiar-se nos ombros de sua esposa, mas aquele era um dia importante e, com ou sem permissão, ele sairia dali. Dia em que Ronan comemoraria por sua vida, dádiva dada a ele apenas duas vezes: após nascer e após o sacrifício de seu melhor amigo. Adeus, Pyros.

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Cap. 6 – Nascimento e Partida

D

ores. O retorno para casa foi difícil. O corpo só se recuperara parcialmente, e Ronan teve que se apoiar no corpo de sua esposa para conseguir andar. Tera não reclamava, ela estava gostando de ter seu marido em casa por mais que estivesse ferido. Assim que abriram a porta, Ronan sentiu seu corpo amolecer. A ternura do lar voltara instantaneamente ao seu coração. Sua esposa o ajudou a deitar no sofá da sala e foi fazer um almoço especial. A comida de hospitais não era boa. En quanto estava deitado esperando, Ronan viu uma carta em cima da mesinha de centro. Esticou o braço e pegou-a. Tinha um envelope amarelado, e uma bela caligrafia indicava seu nome. Abriu-a. Uma essência sonífera invadiu suas narinas. Ainda consciente, tomou o papel dentro do envelope. Estava em branco. Logo adormeceu. … –

Bem-vindo, Ronan.

Quem é você? Aonde estou?

Ronan estava em seus sonhos. Um lugar completamente escuro, onde uma luz vinda do alto, de lugar nenhum. Iluminava uma cadeira à sua frente, onde estava sentado um ser encapuzado qualquer, de pernas e braços cruzados, cabeça abaixada, como se estivesse dormindo. Ele tentou se aproximar, mas era como se suas pernas houvessem grudado no chão. Não podia se mover um milímetro, estava petrificado. –

Você não precisa saber meu nome, apenas escute o que eu tenho a dizer, me faria tal favor?

Pois bem. Venho por meio desta carta informá-lo de perigos futuros. A sua família tornou-se alvo de um grande evento...

Evento? Um festival, uma feira? Um jogo mortal?

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Não chegou nem perto. Um evento temporal, que laça realidades, destinos, tempo e equilíbrio. Quem participa desse evento é escolhido de uma forma aleatória, ou seja, não foi nada que tenham feito de especial.

Podemos sair deste evento?

Para a sua infelicidade e a de todos à sua volta, não.

Mas em que ele consiste?

Você não tem poder para saber. Apenas quem dele irá participar.

E quem seria?

Seu filho.

Ronan sentiu sua espinha congelar. Sentimentos se misturavam dentro de seu corpo. Dor, raiva, agonia, tristeza. O ser a sua frente permanecia imóvel. –

E o que deseja vindo aqui falar isso comigo?

Sua compreensão. Coisas estranhas e horríveis acontecerão ao redor do seu filho e dos atos dele. E a educação que o der influenciará no destino do planeta.

O que você é, alguma espécie de Deus Sádico?

Já disse que isso não o interessa. E eu também não sou o culpado deste evento. Se deseja se queixar com alguém, queixe-se com o equilíbrio universal.

Equilíbrio universal?

Pelo visto, deverei sintetizar a história.

… “A história contada no sonho de meu pai jamais me foi mencionada. Tudo o que sei é que a 'conversa mental' que os dois tiveram durou horas, de acordo com o que minha mãe me relatou.” … Ronan acordou. Lá fora estava escurecendo. Tera estava sentada no outro sofá, lendo um livro qualquer, até que finalmente percebeu o despertar de seu marido: –

Um sonho ruim, não é mesmo?

Você não faz ideia.

Pode contar-me do que se tratava?

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Te contarei quando for a hora certa. - Respondeu Ronan ajeitando seu corpo no sofá, levantando-se.

Cobrarei. - Disse com um sorriso na face. - Ah, é mesmo. Tenho uma notícia dos seus pais.

O que foi?

A festa deste ano fora cancelada. Ainda não sei os motivos, mas mandei um mensageiro ir convidar seus pais e os meus para um jantar.

Ótima ideia. Então acho melhor eu ir banhar-me e tirar estas ataduras. O cheiro do hospital não saiu ainda do meu corpo.

Sua voz parece tensa. Tem certeza que está tudo bem, amor?

Não disse se estava ou não tudo bem.

E dizendo isso, subiu as escadas para se banhar. … Todos estavam ao redor da mesa. Tera preparara um delicioso jantar, e todos se deliciavam enquanto conversavam. Os pais de Ronan estavam cabisbaixos por causa dos recentes acontecimentos envolvendo seu outro filho, Yurius. –

E onde está Ülle? - Perguntou Ronan, quebrando um longo silêncio que havia formado-se após mencionar os últimos momentos de seu irmão.

Ela está com a atual família dela, e pediu desculpas por estar ausente. Mas disse que, com certeza, comparecerá ao batizado de seu filho assim que o mesmo nascer.

Falando nisso... - Tera se pronunciou.

O que foi, filha? - Perguntou Opal.

Acho que exatamente hoje que se completa um ano.

Como pode ter tanta certeza, querida? - Interveio Ronan. - Passamos todo o inverno juntos.

Eu apenas sinto.

Se isso for verdade - Tomou a palavra Ulisses. - então daqui a alguns mi nutos ela entrará em trabalho de parto.

O elegante relógio de pêndulo, feito de madeira e com adornos, ponteiro e o próprio pêndulo feito de ouro, que ficava na sala de jantar estava quase na divisória que separava o segundo do terceiro quarto do período de Sombra. Em outras palavras, quase meia-noite.

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Minutos ou horas. Não há como se saber quando que os pombinhos... Iniciou Yuna, mas logo fora interrompida pelo seu filho com uma pergunta sobre como estava a comida.

Os pais do casal riram na mesa com o constrangimento dos dois, mas não demorou muito para adquirem um olhar sério. Tera começara a gemer de dor. –

Pai, você e sua boca maldita! Vamos, temos que levar ela pro hospital.

Ronan, mesmo ferido, pegou sua esposa no colo. Irving e Opal voaram na frente para requisitar um leito no hospital, enquanto Yuna e Ulisses ajudavam seu filho a colocar a esposa na carruagem que os trouxera até ali. E mais rápido do que uma flecha, partiram. … Ronan andava de um lado para o outro no saguão de espera, contando os segundos. Estava nervoso. Os avós do seu futuro filho estavam sentados, e tentavam acalmá-lo da maneira que podiam. Se não fosse por Irving ter requisitado pessoalmente, não conseguiriam arrumar um leito para ela, visto que era época das baixas de guerra, e sendo assim muitos feridos lotavam o hospital. Ronan pedira desculpas para o soldado que fora retirado do seu leito para dar espaço a sua esposa, mas o mesmo respondera que era uma honra ceder sua vaga para a mulher do general ter seu filho. Os minutos passavam, e pareciam horas nos pensamentos de Ronan. Mas não estava nervoso pelo fato de ser o nascimento do seu filho. Lembrava-se do sonho, e ficava preocupado. Será que deveria fazer como fora instruído? Será que isso seria o certo? … O médico rompeu a perplexidade dos seus pensamentos. Antes que ele pudesse responder qualquer coisa, Ronan o agarrou pelo paletó. –

Como eles estão?! - Gritou.

Bem, o procedimento foi um sucesso.

Ronan largou o médico e correu para o quarto. Tera estava com seu filho envolto em alguns lençóis e o amamentava, cantando uma canção de ninar. O novo pai se aproximou a passos curtos e abaixou-se perto de sua amada. Tera olhou para ele de relance, com um largo sorriso no rosto. –

Venha, olhe para seu filho.

Ronan aproximou a mão e puxou a parte do lenço de seda que tapava seu rosto. Curtos cabelos ruivos foram revelados. O neném mamava de olhos abertos. Olhos prateados, a marca da família real. As pequenas e quase ocultas seis asinhas repousavam, brancas como a luz. Ronan se comoveu e abafou um choro.

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Filho!

Yuna aproximou-se de Ronan, e logo todos os avós estavam lotando o recinto. Todos olhavam para o filho do grande general e encantavam-se com sua ternura. Os avôs riam e abraçavam-se, comemorando. As avós foram para o lado de Tera, a auxiliar no que fosse preciso. Mas Ronan não tinha forças para tal, apenas estava feliz. E talvez fora o cansaço, ou as dores acumuladas que não apareciam no momento de adrenalina, ou até mesmo a emoção, que o fizera desmaiar. … Quando Ronan acordou estava em um leito do lado de sua mulher, novamente enfaixado. Tera dormia tranquilamente enquanto seu filho descansava entre os dois, em um pequeno berço. Ele chupava seu dedo enquanto erguia sua pequena mãozinha para o alto, tentando alcançar o teto. Ronan sentou-se na cama, e logo um médico entrou pela porta. O mesmo médico agarrado pela gola na noite anterior e que, aliás, fora o mesmo ameaçado na manhã do mesmo dia. –

Oh, doutor. Desculpe-me pelo comportamento do dia anterior e...

Não tem importância. Agora escute meu conselho e passe os próximos dias em repouso para que suas feridas não abram mais uma vez. Carregar a esposa nos braços é um ato comum de um macho em desespero, mas acabou esforçando-se demais. Descanse ao lado dela. Logo os dois poderão sair.

Muito obrigado. Acho que faz muito tempo que não durmo por vontade própria, vou aproveitar para tirar um cochilo agora.

O doutor saiu, Ronan acomodou-se e dormiu. … Algumas semanas depois –

E então, já sabem que nome darão a ele? - Perguntou o sacerdote aos pais.

Sim. - Respondeu Ronan. - Será Qlon Warrior Eros.

Era uma pequena cerimônia realizada na praça da cidade. Ou era para ser, pois logo muitos curiosos se amontoaram para ver o filho do herói. A família estava reunida, e todos vestidos em mantas brancas e segurando pequenas velas. Era noite. O bebê envolto em panos fora colocado nas mãos do sacerdote por Tera. O sacerdote era um dos mais idosos anjos do reino ainda vivo, 950 anos. Já tinha realizado muitos batizados, mas se dizia orgulhoso por esse. Ele, com uma roupa cerimonial, apanhou o recém-nomeado Qlon nos braços e molhou parte da sua cabeça na água da fonte.

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Isso é para provar sua origem. Natural de Aeria, Qlon Warrior Eros.

Ao contrário de muitos bebês, Qlon não chorou quando o sacerdote molhou sua cabeça na fonte. Aliás, ele raramente chorava, a não ser que estivesse com fome por muito tempo ou fosse atacado por cólicas. E assim ele foi batizado. “E essa é a história do meu nascimento, contada a mim pela minha mãe. Mas, após meu batizado, mais uma coisa muito importante aconteceu.” … Haviam passado-se três meses após o nascimento de Qlon. Era uma fria noite de inverno. Nevava lá fora. Era quase o fim do período de sombra. Alguns raios solares se inclinavam no horizonte. Ele havia aberto a porta. Assim como quando ia para a guerra, Ronan se despedia de sua amada casa. Mas não trajava sua típica armadura, que fora reconstruída por um excelente ferreiro que ele confiava. Usava um grande sobretudo que tocava suas canelas, botas de couro reforçadas e um cachecol de lã. Com um triste olhar, tocou o portão de aço que dava para a rua. Uma sensação gélida, mesmo com as luvas de couro cobrindo suas mãos. Olhou para a varanda de seu quarto. Tera sorria e acenava para ele, dizendo que 'tudo bem' com o olhar. Por dentro, sentia-se destruída, mas era o certo a ser feito. Ele sorriu de lado, tentando demonstrar confiança. Empurrou o portão de ferro, que rangeu e abriu. 'Eu voltarei', disse ele com os lábios, sem emitir nenhum ruído. 'E eu esperarei', retribuiu sua esposa. Ele andou pela rua por muitos metros, sumindo por fim no branco que cobria a cidade. Tera entrou e deitou em sua cama, chorando um pouco, mas ainda assim sorrindo. Olhava para a parede do lado da porta onde estava uma pintura. Era a família toda reunida no parque da cidade. Um brilhante lago com folhas secas das árvores ao redor caídas sobre sua superfície, um gramado de verde intenso, e a sua família sentada, aproveitando a folga. Nos próximos anos, sem a presença de Ronan, sabia que aqueles momentos iriam acabar. Mas devia criar seu filho da melhor maneira possível. Deitou na cama e voltou a adormecer, sonhando em acordar e perceber que aquilo tudo não passara de um sonho. Sobre a mesa da sala de jantar, repousava a Sanctus. Abaixo dela, uma carta. Em elegantes letras, estava endereçada a Qlon Warrior Eros. “Abrir quando entrar na Base”, dizia como observação. … Invernos chegaram e partiram, assim como outonos, verões e primaveras. Quase que sem perceber, cinco longos anos haviam passado-se desde que Qlon nascesse. “Naqueles cinco anos que bem me recordo a minha mãe me criou sozinha.

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Claro que com meus familiares do lado, mas o meu pai, após aquele dia de inverno... Nunca mais reapareceu. Naquele meio tempo aprendi o básico que é passado às crianças: ler, escrever, e algumas noções iniciais de lógica. E, claro, ouvi as histórias sobre meu pai. Foram cinco felizes anos. Na verdade, quatro anos e 327 dias. Pois quando foi meu quinto aniversário, meu suplício se iniciou. Minha mãe me chamou até a sala de estar e pediu que esperasse. Quando voltou, trazia em mãos a Sanctus e a carta que meu pai me deixara no dia que partira. Ela fora a guardiã da espada durante todo esse tempo, e só por isso podia er guê-la, como será explicado mais à frente... É aos cinco anos que se entra na base, e eu estava pronto para seguir a trilha de todo anjo em minha idade: o trei namento. Com um pouco de receio, abri a carta e a li. Jamais esquecerei dos seus dizeres... Querido filho, quem escreve esta carta é teu pai, Ronan Warrior. Sei que estes últimos cinco anos devem ter sido exaustivos para você e sua mãe. Peço perdão por não ter sido um pai presente, mas eu precisava fazer o que tive de fazer. Algum tempo após seu nascimento, me indiquei para uma missão, da qual não sei se poderei retornar vivo. Por isso, deixo a você essa espada, a espada sagrada da família e que a muitas eras é retratada em histórias pelos mortais. Use-a para se proteger e para proteger àqueles ao seu redor, é seu dever como um Warrior. Mas não sou ninguém para falá-lo de deveres, apenas você e mais ninguém é dono de seu próprio destino. Apenas espero que seja sábio em suas decisões. Por favor, continue cuidando de sua mãe como espero que esteja fazendo, meu bom garoto. Diga-a que a amo, com todas as forças de meu corpo, e que, por mais que minha ausência física possa vir a incomodar, eu sempre estarei presente em espírito. De seu pai que o ama muito, Ronan Warrior P.S.: A mais forte luz é aquela que brilha em um mar de escuridão. Fechei a carta e a entreguei para a minha mãe. Não me emocionei, como muitas pessoas adultas fariam. Quem choraria de saudades por um pai que nunca viu, além do mais um ser de apenas cinco anos? Sempre considerei normal a sua ausência, e minha mãe me criou com muitos mimos, o que foi o suficiente para eu não sentir falta de nada. Meus avós faziam o mesmo comigo quando me viam, e toda a minha família me tratava como a um príncipe. O que de certa for ma eu realmente era. Mas eu o admirava. De qualquer modo, peguei a Sanctus em mãos e a desembainhei. Era assim como na história: uma lâmina pura, que refletia a imensidão do infinito azul celeste. Magnífica. Fiz alguns movimentos com ela fingindo ser um cavaleiro, para chamar a atenção de minha mãe. Não percebi que ela chorara lendo a carta. A

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fim de deixá-la sozinha para refletir, subi ao meu quarto com a espada embainhada em mãos. Joguei-me na cama e desembainhei-a de novo, segurando-a acima de meu rosto. Eu podia ver meu reflexo em sua lâmina. E foi a partir dai que a parte aterrorizante da minha vida começou. Por alguns segundos, a lâmina refletira meu olhar e meu rosto, assim como a um espelho. Em um piscar de olhos, ficou opaca e refletira mais nada. Era como se eu houvesse desaparecido de meu reflexo. Eu me assustei e, por alguns momentos, busquei o motivo de meu sumiço no mundo dos espelhos. Nada achei. Coloquei a espada de volta em sua bainha e me esqueci disso, caindo no sono por algum tempo, enquanto a luz matinal que entrava pela janela, atravessava a cortina e banhava meu leito me aquecia.” Por um tempo Tera ficou com a carta em mãos, se debulhando em lágrimas sobre o papel. Mesmo longe ele sabia fazê-la feliz. Ela dobrou a carta e a guardou em uma gaveta. Foi para o quarto do filho e encontrou-o dormindo. Naqueles cinco anos Tera não cortara seu cabelo sequer um dia, e por isso ele tinha uma apa rência feminina com seus longos e sedosos cabelos vermelhos. Seu corpo também crescera um pouco. Um metro e vinte centímetros. Estava pequeno, mas ainda era uma criança. Deixou-o sozinho por um tempo enquanto fazia o almoço. O dia seguinte seria difícil. … “Um dia após completar cinco anos, todo anjo é obrigado a ir para a Base. A Base nada era senão um campo militar para ensinar o básico sobre o combate para qualquer cidadão angelical. Aqueles que aprendiam apenas o básico iam embora aos 15 anos. Os que queriam aprender até o final ficavam até os 21, ou antes dependendo de sua habilidade. Todas as crianças eram submetidas a isso obrigatoriamente. Afinal, saber se defender em épocas de guerra é mais que um dever, é uma obrigação para todos. Precisar proteger cidadãos inúteis é o dever de um exército fraco. Nem todos devem lutar, mas também não precisam ser pesos mortos. De qualquer modo, ao acordar naquela manhã de outono me senti extasiado. Por causa dos mimos concedidos a mim por minha família, jamais havia passado um dia sequer sem contato com meus parentes. Por isso aquilo seria uma nova experiência. Queria aproveitar o máximo dela.” –

Filho, ande logo! O portão se abrirá para você em breve, e não são permitidos atrasos. - Gritava Tera, descendo as escadas.

Se quiser posso ir voando sozinho, mãe. Sabe que sou muito bem voando e sou mais rápido que muitos adultos.

Não diga besteiras, é óbvio que irei acompanhar-te até lá.

Qlon saiu de seu quarto. Trajava o uniforme da Base: uma calça longa, botas,

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luvas e mochila de couro – presa a seu corpo por uma alça pendurada no ombro oposto – e uma camisa sem mangas de algodão branca, com o símbolo da Base nas costas: uma harpia em um brasão dourado com o nome da instituição. –

Me sinto desconfortável com essas vestes.

Pois se acostume, a partir de hoje só usara esses uniformes por um bom tempo. Ah sim, uma coisa que devo contar-te e que aposto que morrerá de nojo: esse uniforme só poderá ser lavado aos sábados. Aliás, mesmo dia em que tomará banho. Cruel, não?

Claro. Sabe que tenho mania de limpeza e organização. Ficarei neurótico naquele lugar.

É mesmo o oposto de seu pai! - Disse sua mãe, beijando a testa do filho.

Tera abriu a porta. Uma rajada de vento frio soprava e o dia estava nublado. Ela estendeu a mão ao seu filho, que retribui atando sua mão à dela. –

Pronto? - Perguntou sua mãe, sabendo que assim que saíssem de casa seria uma penosa jornada até a ilha-satélite do continente onde ficava o campo de treinamento.

Sim, estou entusiasmado! - Respondeu Qlon com excitação.

E então os dois saíram de casa. O jardim estava secando junto com a estação. Levantaram voo. Com o tempo Aeria parecia cada vez mais longe, e não demorou até que sumisse completamente de suas vistas, junto com os leves morros que encobriam sua existência. Voaram para sudeste por algumas horas, até que chegaram a uma ilhota pequena, que aparentava ser coberta de árvores, com montanhas em suas encostas. Pararam no ar e sua mãe chamou sua atenção: –

Só posso vir até aqui, já sabe.

Obrigado mãe. Até daqui a alguns anos.

Não vai nem se despedir? - Esboçava uma cara triste.

Mãe, já passamos a noite anterior fazendo isso o tempo todo. Não me emocione novamente.

Você fala muito bem para uma criança de cinco anos. Puxou a inteligência da mãe. - Disse sorrindo. - Agora vá, os primeiros raios de sol surgem no horizonte, é o fim da sombra. Sua hora chegou, filho.

Obrigado mãe! E quando nos virmos, estarei forte o suficiente para te proteger de verdade, assim como o papai fazia. Até breve.

Até, meu querido anjinho.

Qlon sorriu e, voando em direção ao solo, acenou para trás. Por fim, começara.

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Cap. 7 – Base

E

ntão pousou e olhou para o céu. Tera havia sumido junto com suas lágrimas. Finalmente ele estava sozinho. Ele e seu futuro, bem à frente, na trilha que o conduziria através da floresta para a Base. Começava em um portão de ferro, bem antigo e enferrujado. Após alguns metros o caminho desaparecia em meio a sombra feita pelas árvores que se agrupavam na densa floresta. Empurrou os portões. Eles rangeram - deviam estar sem óleo nas dobradiças - e arrastaram-se no chão seco. A passagem se abriu, e ele prosseguiu pela trilha. Assim que a sombra ficou mais densa e ele não pôde ver seu caminho pela mata, retirou de sua bolsa de couro um lampião e o acendeu com um fósforo. Mesmo com a escassa iluminação, mal podia se ver um palmo à sua frente. Andava pela trilha com cuidado para não esbarrar em pedras ou raízes de árvores. E não demorou muito até o seu primeiro desafio. Um emaranhado de galhos, como uma parede surgira a sua frente. Por sorte, a Sanctus estava em sua cintura, embainhada. “'Vejamos o que essa espada pode fazer', pensei comigo mesmo. Retirei-a da bainha e golpeei o monte de galhos. Eles se romperam e queimaram em uma chama azul que eu nunca antes havia visto. Consumidos pelo fogo, eles caíram ao chão e finalmente pude prosseguir meu caminho. Embainhei novamente a Sanctus e, com o meu lampião em mãos, prossegui adentrando a floresta.” O caminho se tornara cada vez mais sinuoso e inclinado, e Qlon percebera que ele estava subindo por uma caverna depois que esbarrou em uma das pare des. O emaranhado de galhos devia ser a entrada. Olhou para seu lado esquerdo e tocou a parede para ajudar a se guiar. Era úmida e cheia de lodo. Voltou seus olhos para o lado esquerdo. Com a ajuda do lampião viu que o chão terminava a menos de um metro de seus pés. Era um precipício. Deveria ser mais cauteloso ainda. Após uma curva o trecho se tornou estreito o suficiente para apenas um pé de cada vez. Pensou em voar, mas olhou para o teto da caverna. Muitas estalactites esperavam para cair com o leve barulho do mover de suas asas. Aquela ideia estava descartada. Com muito cuidado, arrastou um pé de cada vez. O chão também estava cheio de lodo, então qualquer escorregão poderia significar a sua vida. Na sua mochila ainda havia uma corda e um cantil, mas não tinha ideia de

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como poderiam ser úteis numa situação como aquela. Chutou sem querer uma pequena pedra pelo precipício, e isso foi o suficiente para que diversos morcegos voassem e o atrapalhassem. “Fechei os olhos, mantive meu corpo próximo a parede e esperei aquela onda de morcegos voar para longe. O caminho era estreito, qualquer movimento significaria a minha morte. Acabado aquele trecho, havia um único túnel. Adentrei por ele. Havia tochas acesas presas à parede. Isso podia significar que havia alguém ali dentro. Tomei a Sanctus em mãos novamente, indo com o máximo de cautela o possível. Nunca havia entrado em um combate antes, mas havia lido muito a respeito, e ouvido muito sobre meu pai. Se eu quisesse ser um grande guerreiro como ele, deveria passar pelos testes que me eram feitos.” Qlon prosseguiu pelo túnel. Era bem extenso, e não havia sequer uma única curva. Depois de vinte minutos, sentia uma horrível pressão. Era como se alguém estivesse o observando esse tempo todo. Engoliu em seco e começou a respirar mais forte. Seu coração palpitava bruscamente e suor descia pela testa, molhando seu rosto. … Uma hora caminhando. Com o tempo a pressão que sentia se tornou desespero, e seus passos ficaram cada vez mais rápidos. Já havia colocado o lampião (agora apagado) em sua bolsa pois não havia mais a necessidade de iluminar a sua passagem. O tempo passava e o túnel não chegara a um fim. Isso estava preocupando a ele, pois o desespero o consumia. Queria ver a luz do sol, queria se sentir seguro novamente. Correu até teve que parar bruscamente. Um enorme abismo pusera-se a sua frente. Voltou seus olhos para sua dianteira. Um vulto em um longo manto branco estava ali estava, do outro lado do abismo. Segurava um lampião e tinha três pares de asas. Um serafim. –

Bem-vindo, filho de Ronan Warrior e Tera Eros, descendente do trono real, Qlon Warrior Eros. - Dizia uma suave e fria voz feminina.

Quem é você?

Sou uma testadora. Estou aqui para verificar a sua capacidade para entrar na Base. Não se preocupe, não morrerá caso não esteja apto a entrar aqui.

O que devo fazer?

Primeiro, quero testar a sua força.

Ela levitou uma enorme pedra até diante dos olhos de Qlon. –

Golpeie-a.

Mas provavelmente quebrarei a minha mão.

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Isso poderá ser curado depois. Agora, golpeie-a.

Qlon juntou suas forças e deu um murro na pedra. O seu corpo não era forte o suficiente para quebrá-la por completo, apenas rachou um pouco da sua superfície. Sua mão doera e sangrara com cortes na base de seus dedos. –

Muito bom para uma criança. Agora testarei sua resistência.

Com a mesma pedra, atingiu-o na barriga. Qlon se manteve firme e cruzou os braços na frente de seu corpo. A pedra o atingiu e virou pó. –

Interessante. Agora a sua destreza. Pegue uma pedra e atire em minha direção.

Qlon apanhou uma pequena rocha do chão, grande o suficiente para caber na palma de sua mão. Atirou em direção ao vulto. Foi um bom arremesso, passou apenas a alguns centímetros da cabeça de seu alvo. –

Vejo que tem uma boa visão. Agora, sua velocidade.

Levitou cinco grandes pedras. Uma a uma, atirou-as na direção do indefeso Qlon, que se movimentou bem rápido e quatro das cinco pedras o erraram. A última, vendo que não teria tempo suficiente para se esquivar, cortou ao meio com sua espada. –

Belos reflexos. A última parte do teste se inicia aqui.

O vulto bateu palmas. Alguns pequenos seres verdes apareceram, cada um segurando uma adaga e rangendo os dentes amarelos na direção de Qlon. Tinhas poucos pelos em suas cabeças quase carecas e enrugadas. Trajavam apenas uma tanga que cobria apenas a parte inferior de seu corpo, deixando visível as asquerosas barrigas verdes e sem umbigo. –

Eles são...

Goblins.

Isso mesmo, pequeno Qlon. Então já deve saber também que são os monstros agressivos mais fracos que existem, são mais fracos até do que diversos animais.

O que devo fazer?

Sobreviva a um embate contra eles. Estão todos usando apenas adagas, para facilitar ainda mais.

Qlon colocou a bolsa em um local seguro enquanto iria batalhar. Empunhou a arma familiar com as duas mãos e colocou-se numa posição de ataque improvisada, mantendo a ponta da espada apontada para seus rivais. “E lá estava eu, uma criança inocente e quase indefesa contra três monstros

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que são um desafio até para muitos adultos mortais. Mas eu confiava em minhas habilidades e no que eu havia estudado. Postei-me firme no chão, sem intenção de mover-me. Os pequenos seres verdes me cercaram, e logo vieram ao meu encontro, atacando-me.” O primeiro Goblin veio afobado com uma adaga em mãos, tentando cravá-la no abdômen de Qlon. Qlon foi mais rápido e jogou o corpo para o lado, fazendo com que o saltitante duende tocasse o vácuo. Com um movimento veloz, cravou a ponta da espada nas costas do pequeno monstro, atravessando. O ser grunhiu e morreu quase que instantaneamente. A ponta da Sanctus tocou o solo, assim como o corpo do monstro morto, ensanguentado em uma gosma verde e espessa. Qlon voltou a encarar os dois oponentes restantes. O que estava mais a esquerda atacou. Arremessou a adaga na direção de Qlon, que não conseguiu se esquivar. A adaga atingiu-o de raspão a garganta, mas por sorte não pegou em nenhuma veia ou artéria. De qualquer maneira, foi o suficiente para abrir um pequeno rasgo e uma brecha em sua defesa. O terceiro Goblin veio correndo em sua direção, mirando a pequena adaga em sua mão para tentar desarmá-lo. Qlon, ainda estático com o golpe no pescoço, recebeu o golpe. Foi um pequeno corte, mas para seu corpo pequeno e frágil parecia que estava sendo retalhado. Apesar disso, não largou de sua espada, assim como o seu pai faria. Sentiu que, se quisesse vencer, precisaria atacar. O Goblin que acabara de acertá-lo já havia corrido para longe, mas o que arremessara a adaga permanecia no mesmo lugar. Correu em sua direção e atacou, deferindo um golpe na vertical, de cima para baixo. O golpe acertou em cheio e o Goblin foi cortado ao meio. O inimigo que restara tentou se aproveitar da situação. Com um pulo ágil, tentou cravar sua adaga nas costas de Qlon. O pequeno anjo conseguiu perceber sua movimentação, mas não deu tempo para evadir. O golpe atingiu sua escápula. Qlon soltou um grito de dor, mas não se deixou vencer. Debateu-se até que o Goblin caiu ao chão, e virou com sua espada, tentando cravá-la no peito do pequeno ser. O duende tentou escapar rolando para o lado, mas assim que a ponta da Sanctus tocou o chão, Qlon movimentou sua lâmina na direção do duende esverdeado, fazendo com que a espada arrancasse faíscas em contato com o solo. O Goblin fora cortado. Qlon moveu sua mão para suas costas e arrancou a adaga que o perfurara. Doeu bastante, mas logo ele não sentiu mais nada. Seus ferimentos haviam desaparecido. O vulto mantinha a mão esquerda estendida na direção de Qlon. Levantou-se, por fim, e o encapuzado ser bateu palmas. –

Parabéns. Você passou no teste. Agora, atravesse o abismo e me siga.

Qlon voou pelo abismo e logo alcançou o outro lado, deixando para trás os cor pos de seus inimigos. O vulto o chamou com a mão, mais para a frente. Não an daram muito e, após uma pequena curva para a esquerda, uma luz podia ser vis-

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ta conduzindo para fora daquele inferno. Qlon tinha vontade de correr para lá e banhar-se com a luz solar, mas algo o impediu. O vulto parou bem a sua frente e abriu os braços. –

Agora, para passar daqui, deverei fazer algumas perguntas. Será importante para a sua estadia neste lugar.

Não pode fazê-las quando sairmos deste lugar?

Eu não posso sair desta caverna, estou fadada a viver aqui para sempre, apenas para testar os novos alunos.

Então pode perguntar. O que quer saber sobre mim? - Perguntou Qlon, com uma voz suave.

Em primeiro lugar, o que pretende fazer vindo aqui? Está aqui apenas pela obrigatoriedade ou deseja realmente se tornar um bravo soldado?

Quero tornar-me um forte guerreiro e batalhar para livrar o mundo do caos que o assola.

E como pretende fazer isso?

Vou treinar muito, me dedicar bastante e enfrentar sem medo o que me impuserem.

E, por último, o que te inspira a fazer isso?

Meu pai foi um grande guerreiro, e pelo que sei o maior que este reino já teve. Minha mãe me contou histórias sobre sua grandiosidade, e disse que o que mais queria era proteger com suas mãos aquilo que mais amava.

Então por que querer salvar o mundo todo e não apenas proteger o que é mais caro para você?

Pois assim, mesmo depois que eu morra um dia, aquilo que amo continuará em paz.

É um garoto muito inteligente para a sua idade. Eu esperava uma criança pura e inocente, que gritasse de medo dentro da caverna, que se ferisse gravemente ao enfrentar meus testes e que eu precisasse discutir o quanto é importante tornar-se forte e saber se proteger nesta época turbulenta. Você foi muito além de minhas expectativas.

O vulto encapuzado abaixou os braços e disse: –

Qlon Warrior Eros, como o serafim guardião da passagem da Base, eu concedo a permissão para passar. Aproveite bem a sua estadia.

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Espere! - Chamou Qlon.

O que foi?

Posso ao menos saber seu nome?

Tenho a impressão que um dia descobrirá sozinho. Até este dia chegar, dê o seu máximo!

O vulto virou as costas, passou sua gélida mão sobre os cabelos sedosos de Qlon com um sorriso na face. Qlon sorriu para ele também, quase como que se os dois se despedissem. Aquela não seria a última vez que se encontrariam, sentia isso em seus ossos. O vulto andou a passos leves e rápidos, enquanto voltava ao seu posto para cumprir o dever para que fora designado. Agora sim, Qlon podia correr para a saída da caverna. E assim o fez. Uma luz forte tomou os seus olhos, cegando-o parcialmente. Mas assim que conseguiu recuperar plenamente a visão, olhou melhor para a sua moradia nos próximos anos. “Era uma visão esplêndida. De cara, deparei-me com um enorme castelo, construído quase que dentro de uma enorme montanha. Nos arredores, uma enorme cadeia de montanhas que arqueavam sobre aquele imenso vale formavam quase que uma cúpula, que impedia a passagem do sol por boa parte do dia e era uma defesa natural em caso de alguma invasão. Um imenso lago circundava o castelo, deixando a montanha onde ele fora construído completamente rodeada por água. Mesmo com a pouca luz do sol, algumas árvores se agrupavam em pontos dispersos. Era meio-dia e o sol estava no topo do céu. Ele banhava o castelo, fazendo-o parecer algo com um ar divino, transcendental. Vislumbrei aquilo por muitos minutos, até perceber que estava ali parado à toa. Limpei o sangue de Goblin da espada com uma flanela que carregava em minha bolsa e embainhei-a. Então, segui para a margem do lago.” Uma pequena gôndola o aguardava, mas não havia nenhum gondoleiro. O remo estava ali, dependurado sobre a condução. Dentro do pouco espaço do barco, uma pequena carta, com os dizeres: Use a gôndola para o lago atravessar. Circunde um pouco do castelo até achar uma caverna. Ali estará a entrada. Alguém o estará esperando. Quando acabar de ler este recado, devolva-o ao mesmo lugar em que estava. Qlon botou o pequeno pedaço de papel no mesmo local. Com suas pequenas mãos, pegou o remo. Com alguma dificuldade, iniciou a guiar sozinho a gôndola até o local onde fora indicado. … Após circundar boa parte da montanha, achou uma pequena entrada. Nada se via à frente. Acendeu o lampião e o colocou na proa do barco, para que pudesse guiar com a luz. Algumas rochas pontiagudas saíam da água, era preciso guiar

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com cautela. Ainda com dificuldades, Qlon visualizou uma escadaria, com um guerreiro esperando-o no primeiro degrau. O guerreiro era alto e robusto, deveria ter mais de dois metros. Uma armadura prateada envolvia seu corpo, mas apenas na altura do tronco. Tinha um curto cabelo castanho, arrepiado. Olhos azuis-escuros, e uma face pálida, com um nariz alongado e uma testa pequena. Na sua cintura repousava um sabre com um cabo envolto em faixas. Segurava uma tocha de haste dourada. Usava também uma longa calça e botas de couro. Tinha dois pares de asas, o que indicava que era um arcanjo. –

Você, pequena criança, deve ser Qlon Warrior Eros, estou certo? - Perguntou o guerreiro enquanto Qlon desembarcava da gôndola no pequeno cais, apanhando seu lampião e apagando-o.

Sim senhor. E quem é você?

Meu nome é Silverius. Silverius Darian. Estou aqui para guiá-lo ao diretor de admissão. Por favor, siga-me.

Silverius pulava dois degraus. Qlon tinha que correr para poder acompanhá-lo. Ao chegar no final da escadaria, Silverius abriu uma porta comum de madeira. Essa porta levou a uma estrada nas encostas da montanha. A estrada era sinuo sa, e uma espécie de “grade natural”, esculpida pela própria natureza, protegia quem ali passasse para não cair no lago. O teto era um pouco baixo, aproximados um metro e oitenta, então Silverius teve que se abaixar um pouco para poder passar. Ao final do estreito corredor, um enorme portal. Feito de madeira e detalhado a ouro, a porta era imensa, devia ter mais de cinco metros de altura. Pedras preciosas, tais como esmeraldas, rubis, ametistas, safiras e diamantes, enfeitavam os batentes e as dobradiças. Silverius pegou o batente e bateu pausadamente três vezes. Uma voz rouca disse: –

Oh, Lorde Silverius! Vejo que já retornou. Por favor, entre.

Os imensos portais se abriram. De imediato avistou-se um salão imenso, com diversas escadarias partindo para todos os lados. Para cima, lados, baixo... Um serviçal apareceu junto à porta. Era um anjo comum, armadura de aço, lança em riste e um elmo com viseira protegendo o rosto. Curvou-se para Silverius e sussurrou algo em seu ouvido. –

Qlon, por favor, suba a escadaria principal e siga por ela. Quando chegar ao seu final uma imensa sala com um grande olho feito de ouro poderá ser avistada. Bata nela três vezes e espere até perguntarem seu nome. Informe-o. A porta deverá se abrir e poderá falar com o diretor de admissão. Ele fará algumas perguntas básicas, nada a temer. Após isso, ele dará alguns itens fundamentais para sua estadia nesta instituição, além daqueles que já deve carregar em sua bolsa. Pegue-os e dirija-se à sala

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de refeições, que fica neste andar que estamos agora. –

O senhor não poderá acompanhar-me?

Parece que surgiu um assunto que exige minha presença. Peço desculpas pelo transtorno, mas daqui já pode seguir em frente, estará seguro.

Muito obrigado, senhor Darian.

O enorme guerreiro se retirou do grande salão de recepção, e o serviçal fechou novamente o portal. Ele continuou por algum tempo vislumbrando o local, tentando memorizar cada um dos grandiosos quadros que recheavam suas paredes. Os retratos eram de grandes guerreiros do passado, e seus títulos eram descritos abaixo de seus nomes. Entre eles, estava o de seu pai. Subiu uma das escadarias para que pudesse ver melhor seu rosto. A barba malfeita, o cabelo não penteado, a postura firme, o olhar penetrante. Sem dúvidas era como nos outros retratos. Por alguns segundos olhou para aquela pintura com o coração palpitante, e o forte desejo de se tornar alguém como ele. “Subi a escadaria principal, assim como me fora ordenado. Ela conduzia através de inúmeros salões, cada um recheado de portas e mais portas. Um tapete vermelho com detalhes dourados me indicava a direção correta, como um mapa já preparado. Ao final dos incontáveis degraus, me deparei com a porta do grande olho, assim como Silverius havia dito. Peguei em seu batente e bati três vezes. Um silêncio de aproximados dez segundos tomou conta do local. Quando pensei em bater novamente uma voz firme, soberana e heroica me chegou aos ouvidos.” –

Quem bate? - Uma voz respeitosa ergueu-se.

Sou Qlon Warrior Eros, e estou aqui para...

Para se tornar mais um dos nossos alunos, correto?

A porta se abriu como em um passe de mágica. –

Então, por favor, aproxime-se.

A voz parecia vir de uma estátua, mas Qlon não estava certo disso. Era uma estátua de pedra, de um serafim ajoelhado e com as mãos em posição de prece. –

Por favor, não se espante com isso. - Disse novamente a misteriosa voz. - Eu era antes um mestre desta instituição, mas meus 900 anos de serviços chegaram ao fim. Como não quis mais deixar de reger esta escola de guerra, ganhei o título de diretor e estou comandando agora do reino celestial. O meu nome é Freutz Gorgos, serei a partir de hoje o seu novo general.

Sim senhor.

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Esta é uma instituição milenar que no passar desta era criou heróis de guerra. Tive o prazer de conhecer seu pai, um grande lutador. Espero que o seu fruto renda a mim muito orgulho, e ao nosso reino infinitas glórias. A partir de hoje, será treinado todos os dias sem descanso para se tornar mais um de nossos soldados.

É uma honra poder servir ao meu reino, senhor.

Diga-me jovem rapaz... Essa espada que carrega em sua cintura... É a mesma de seu pai?

Sim, é. Foi a herança que ele me deixou antes de partir.

Interessante. Vejo que já promete muito antes mesmo de ser um aluno. Pois bem, Qlon Warrior Eros. Está admitido na Base. Aproveite sua estadia para tornar-se o mais forte que puder.

Muito obrigado. E antes de ir embora, o que deverei levar comigo que é fundamental para a minha estadia?

Apenas o pergaminho que está aos pés da estátua.

Qlon reparou em um pequeno rolo de pergaminho enrolado aos pés da estátua de pedra. Pegou e abriu. Era um mapa. –

Esse é o mapa da Base, desde a caverna de entrada até as montanhas que cercam esta ilha satélite. Não precisa decorá-lo agora, é apenas um lembrete inicial antes de conhecer essa sua nova casa. Qualquer outra coisa que precisar, principalmente livros e outros pergaminhos, poderá pegar no depósito, que é a sala abaixo desta. Seu quarto é o que fica no porão do castelo. É a cabana usada por descendentes reais.

Muito obrigado, senhor.

Qlon, antes que vá tenho algo a informar. É quase que um pedido.

Pois então diga, sou todo ouvidos.

A partir do momento em que entrou neste lugar, não está mais permitido a sair. Isto será explicado melhor quando Silverius citar as regras da instituição, mas nada custa reforçar. Não tente fugir. Seria um desprazer ter de capturá-lo e possivelmente julgá-lo como traidor. Estamos entendidos, pequenino?

Fique tranquilo, senhor Freutz. Não pretendo deixar este lugar antes de me tornar o mais poderoso de todos os soldados.

É uma criança ambiciosa. Isso é bom. Agora, passe no depósito para adquirir o resto de seus materiais essenciais e vá esperar o almoço. Deve estar cansado por ter de realizar os testes.

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Cap. 8 – Em Busca de seu Talento

S

ua estadia na base estava começando bem. Já havia “conhecido” o diretor, passado nos testes e ganho um quarto exclusivo. Faltava agora descobrir qual de todos os professores de lá seria seu mestre.

“Para explicar melhor, cada aluno na Base, dependendo de que carreira quer seguir, tem apenas um mestre. Um mestre pode ter vários alunos, mas geralmente cada mestre possui no máximo cinco alunos. O mestre é responsável por passar todos os seus conhecimentos para seus pupilos e ensinar a arte do combate, como um verdadeiro professor.” Qlon desceu as escadarias que, de acordo com o mapa, era da mais alta torre do castelo. Chegou ao oitavo andar e foi ao depósito, onde pediu ao serviçal alguns rolos de pergaminho, pena e tinteiro. Lá funcionava também a biblioteca da Base. Aliás, aquele era o andar superior da biblioteca, que ia desde o térreo até o oitavo andar. “A biblioteca se tornaria, mais adiante, o meu local favorito do castelo. Era co lossal. Inúmeros livros e pergaminhos a recheavam, contendo toda a história da humanidade e todos os conhecimentos adquiridos pelos anjos. Inúmeras estantes lotavam seus nove andares, que podiam ser atravessados por lá mesmo através de uma espécie de elevador rústico, onde se girava uma manivela e uma gaiola descia presa a uma corda. Todos os andares tinham um piso de madeira, que formava vários andaimes. De acordo com a organização do local, o nono andar servia apenas como depósito, e quanto maior fosse o andar mais restritos eram os livros.” Após pegar os materiais, desceu as escadarias novamente - processo um tanto quanto cansativo, pelo visto - e foi para aonde diziam ser seu quarto. Desceu as escadas por onde subiu com Silverius até onde deixou a gôndola. A que ele havia usado não estava mais lá, mas poderia pegar outra. De acordo com o mapa que adquiria, deveria pegar a gôndola e prosseguir pela obscura caverna até chegar a uma cavidade interna. Qlon novamente acendeu seu lampião e colocou-o na ponta da pequena embarcação para iluminar o caminho. Pegou o remo e seguiu rumo ao interior do castelo. Quanto mais adentrava pela caverna, mais escuro ficava. Prosseguiu assim por minutos, em meio a uma completa escuridão que a luz do lampião dissipava. Até que viu algo brilhante a sua frente.

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Um brilho azulado, intenso. “Quando me aproximei, pude notar um dos muitos belos cenários daquele continente. Era uma caverna naturalmente esculpida, onde de pequenas frestas nas pedras que constituíam a parede passava um pouco de luz solar e banhava a água, que era de um azul cristalino incomparável. Uma pequena elevação de rochas estava a minha frente. Uma elevação com um pequeno chalé construído em meio as pedras esbranquiçadas. Deveria ser ali minha nova estadia.” Era uma visão magnífica, que por alguns segundos prendeu sua atenção. A luz refletida na água iluminava caprichosamente o salão interno. As rochas eram brilhosas e um tanto claras. Peixes nadavam nas límpidas águas tranquilas, sempre se afastando da luz que entrava. Por causa da pureza da água, era possível ver o fundo. Era uma elevação desregular, como se as rochas submersas formassem uma pequena escada. Vários peixes nadavam por entre elas e vitórias-régias subiam para captar o pouco de luz que banhava o ambiente. “Estacionei a gôndola e a amarrei a uma rocha, caso contrário seria levada por uma pequena correnteza. A porta estava destrancada. Dentro daquele chalé vi poucas coisas realmente interessantes. Apenas uma cama bem-arrumada, um tapete felpudo no chão, uma cozinha com utensílios antigos, duas estantes lotadas de livros, alguns armários repletos de alimentos bem conservados e itens de limpeza, um pequeno baú e uma aconchegante lareira. Abri o baú e estava vazio. Guardei lá os pergaminhos, a pena e o tinteiro e deitei um pouco sobre a cama. Confortável. Desembainhei minha espada e a lustrei um pouco com uma das flanelas que dispunha na minha nova 'casa'. Lembrei então que deveria ir até o salão principal para a reunião de boas vindas. A cada semestre no castelo entravam alguns novos alunos. Nem todos passavam pelo teste, mas os que passavam (minoria) eram calorosamente recebidos em uma pequena recepção, que também servia para explicar as regras da instituição e para dar as primeiras instruções.” Por causa dos mimos de sua família, Qlon quase nunca entrara em contato com outros garotos de mesma idade. Ele não tinha amigos e passava o dia todo em casa, lendo livros de fantasia ou brincando sozinho, fingindo que era um espadachim. Fora isso, mal saia pelas ruas de sua cidade. Só quando sua mãe saia para fazer alguma compra ou visitar familiares e amigos. Isso o tornara em um garoto extremamente tímido. Qlon foi novamente com sua gôndola até o píer do castelo e o amarrou ali. Apagou o seu lampião e o colocou novamente na mochila. Era um item básico de sobrevivência, aprendera a sempre andar com ele. Subiu as escadarias e dirigiuse até o salão principal, que ficava ainda no primeiro andar. Ao abrir as grandes portas de madeira que o conduziam ao aposento, ele sentiu um frio subir por sua espinha. Todos os alunos e mestres sentados na grande mesa olharam para ele. Dos mais novos aos mais velhos e experientes.

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O salão era colossal. Uma enorme cúpula com um castiçal preso ao seu teto, e infindáveis janelas que nada mais eram do que buracos naturais esculpidos naquelas rochas perenes com o passar dos milênios. Quando o sol passava por elas no período do cume, eram formadas gravuras no chão que, milagrosamente criadas pela natureza, eram formas angelicais. Uma mesa enorme de madeira preenchia o local, e em sua extensão havia várias curvas que se adequavam ao formato do ambiente e algumas ramificações para aumentar a área e colocar as cadeiras ao redor. Cadeiras também de madeira, de vários tamanhos por causa da diferença de idade entre os alunos, e algumas almofadadas que eram as dos mestres e diretores. No mais, um refeitório, só que com apenas uma grande mesa ramificada. “Dizem as antigas lendas que, quando o continente de Seal fora criado para guardar a força celestial dos anjos, aquela ilha servia como um abrigo, e antes dos exércitos estarem prontos para a batalha era ali que se reuniam para treinar. Treinaram durante muitos séculos usando conhecimentos dos outros mortais para completar sua pesquisa. A montanha que se encontrava o castelo da Base era nada mais que um 'último refúgio' em caso de tomada total. Depois de um tempo, se tornou um castelo para abrigar a família real e, ainda mais tarde, se tornou o centro de treinamento conhecido apenas por Base. Mas ainda não é a hora de falar sobre isso...” Silverius estava sentado em uma posição de honra: na cadeira de vice-diretor. Além de ser um dos mestres mais antigos de lá, era também o vice-diretor da instituição. Só não assumira completamente pois Freutz ainda queria cuidar das coisas na Base. Ele sempre treinava os alunos que, um dia, tornar-se-iam dragoneiros. Ele só selecionava um aluno por estação para estar sobre sua tutela. Obvia mente, escolhia os alunos mais capazes para isso. –

Oh, senhor Qlon, vejo que pôde encontrar seu caminho até aqui. Está um pouco atrasado, mas sente-se. Ficaremos felizes em ter um membro da realeza e, mais ainda, um filho de um grande general ao nosso lado.

Qlon percebeu seu tom de voz um pouco irônico, como se estivesse irritado por seu atraso. Mas não prestou muita atenção a isso e tomou lugar na enorme mesa de refeições da base. Seu prato fora posto por serventes. Carne, alguns cereais e verduras, uma papa de milho e, para beber, um cálice com suco de amoras silvestres. Enquanto se servia, Silverius quis dizer algumas palavras. –

Antes de começar esta reunião, gostaria que a mesa parabenizasse a Qlon Warrior Eros, por ter mostrado ser capaz e passado no teste. Como pode perceber, aqui não há muitos alunos pois muitos não estão aptos para serem grandes soldados. Aqueles que não passam estão fadados a, futuramente, se tornarem vendedores, comerciantes, e outras profissões não voltadas para a guerra.

Todos da mesa se puseram de pé e o aplaudiram. Ele também ficou de pé,

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morrendo de vergonha e receio, e curvou-se em sinal de gratidão. Alguns aplaudiam entusiasmados por saber que ele era filho do herói Ronan Warrior, outros aplaudiam sem tanto vigor. –

Agora, falemos de assuntos mais sérios. Uma nova estação de aprendizado está começando para vocês. Todos aqui que têm cinco anos são novatos, por isso explicarei – para alguns, explicarei novamente – as regras e o que deverão fazer aqui.

Primeira Regra: Nenhum aluno deverá confrontar um outro aluno sem motivos ou por motivos pessoais. Só poderá confrontar se seus mestres permitirem como uma forma de aprendizado para ambas as partes. O aluno que desobedecer esta regra estará imediatamente fora da Base. Segunda Regra: Todos os alunos deverão obedecer as ordens APENAS de seus mestres. Caso desobedeçam, poderão ser expulsos. Caso obedeçam a ordem de outro mestre e o seu venha a saber, ele poderá puni-lo. Terceira Regra: É terminantemente proibido tentar fugir da Base. Aqueles que desobedecerem em plena consciência dessa regra serão mortos. –

Sabendo dessas três regras básicas, o resto torna-se apenas uma questão de lógica. Qualquer atividade que eu ou qualquer outro mestre considere suspeita poderá acarretar em sérios problemas para seu autor, por isso, cuidado. Todos estão em plena consciência do que acabei de dizer?

A mesa toda respondeu em coro: “Sim”. –

Ótimo. Agora, para os alunos novos, irei explicar mais uma coisa: como cada um conseguirá seu mestre e quem será. Primeiro será realizado um teste de aptidão para uma das três classes básicas.

“Apenas como nota, as três classes básicas de guerreiros são Artista (aquele que faz pesquisa ou se torna um músico e usa seus talentos em diversas áreas fora de combate), Combatente (os famosos guerreiros, que são os soldados que atacam diretamente, usando técnicas que lesionam o oponente pela força e precisão) e os Conjuradores (que usam a magia para se defender, atacar ou dar assistência a outros soldados). Existiam ainda as classes compostas, que aconteciam quando um aluno estava apto a mais de uma classe.” –

Após isso, dependendo da vocação de cada um, realizaremos um pequeno torneio para verificar seus atributos e podermos escolher nossos alunos de acordo com isso.

Qlon se sentia um tanto quanto pressionado, mas estava confiante em seu potencial. De todas as novas crianças que foram selecionadas, ele se sentia, estranhamente, o mais forte de todos. Talvez pelo que havia sido dito na caverna e pelos testes que passara, mesmo que todos ali houvessem passado pelo mesmo

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que ele. –

Os testes serão realizados ainda hoje, após o almoço. O torneio será no dia seguinte, sendo que aquele que chegar até as finais e vencer poderá escolher seu mestre. Por isso, acabem de comer e formem uma fila para dirigir-se ao salão de testes do andar superior. Os mestres irão guiá-los, não se preocupem.

Qlon acabou com seu prato tão rapidamente que quase comeu a comida sem a mastigar. Estava afoito, queria logo saber qual seria sua aptidão. Estava mais do que certo que seria Combatente. Assim que acabou, foi lavar seu rosto no ba nheiro e retornou para o salão principal para esperar pelos outros. ... Aos poucos, ele começou a perceber que as pessoas olhavam para ele e, assim que ele olhava de volta, elas desviavam o olhar. Mas nenhum olhar parecia ser simplesmente amigável. Pareciam estar receosos, até mesmo os mestres. Assim que todos acabaram, Qlon tomou seu lugar na fila. Vagarosamente, percebeu que nem todos os alunos portavam armas consigo. Alguns levavam grandes grimórios, outros levavam pequenas esferas mágicas, chamadas orbs, até mesmo instrumentos musicais, como flautas, violinos e alaúdes. “O caminho não fora muito longo. Apenas subimos a escadaria para o segundo andar. Era apenas um enorme aposento, sem sala alguma. Completamente fechado, iluminado por tochas presas à parede. Não havia porta alguma selando aquele lugar. E dentro do aposento, exatamente o que se supunha que teria: nada. Um enorme espaço inutilizado.” –

Por favor, quero todos os novos alunos perfilados em minha frente. - Pediu o vice-diretor.

Todos os alunos obedeceram, ficando lado a lado perto dele. Qlon estava no final da fila, como se aguardasse um bônus por isso. Um por um, Silverius colocou a mão na cabeça e fechou os olhos. Ao final, ele dava um veredicto sobre qual o potencial de cada um. –

Conjurador, conjurador, combatente, combatente-conjurador, artista-combatente, artista, combatente...

Até que finalmente foi a vez de Qlon. Por vários segundos ele permaneceu com a mão parada em sua cabeça. Muito mais tempo do que fora necessário com os alunos anteriores. Caras e bocas preenchiam sua face antes inexpressiva e de sobrancelhas baixas. Por fim, ele soltou um urro e recuou para trás. Sua mão estava sem a pele, tornando visível seus músculos. Com um olhar de ódio encarou Qlon, que mal sabia do que estava acontecendo. “O que veio depois aconteceu muito rápido. Ele tentou golpear-me de mãos

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limpas na boca do estômago, mas de reflexo eu usei as minhas mãos para me defender. Ele me atirou metros para trás e foram necessários mais quatro mestres para o conter.” –

Essa criança... ESSA CRIANÇA! - Rompia Silverius em fúria.

Sua cólera era tamanha que se debatia enquanto seus companheiros pediam sua calma e serenidade novamente. Qlon levantara apoiado por alguns alunos, cuspindo um pouco de sangue. O vice-diretor fora levado para um outro lugar enquanto alguns alunos acudiam a Qlon no mesmo local. –

Nossa, essa é a primeira vez que vejo alguém irritar Silverius.

A voz vinha de um aluno alto, provavelmente na adolescência, de cabelos curtos, arrepiados e negros, de olhos esverdeados e de dois pares de asas. Suas sobrancelhas eram espessas e um semblante esguio, com nariz e queixo finos. –

Quem é você? - Perguntou Qlon, receoso.

Ah, desculpe. Sou Heitor, um dos discípulos mais antigos dele, estou aqui a quase dez anos. E você é o príncipe, até onde sei. Estou certo?

Sim, está. O que aconteceu com ele? - Respirava fundo para repor o ar que perdera.

Não me pergunte, também nunca o vi assim. Agora recomendo que volte para seu quarto.

E quanto ao resultado do teste?

Pedirei para informarem pela noite. Não acho que vai querer que ele entre na sua frente agora, vai?

É... tem razão. Obrigado Heitor.

Qlon dispensou o cuidado de seus novos “amigos” e dirigiu-se até seu quarto no porão do castelo. Ao entrar no chalé, se jogou na cama. O que será que havia ocorrido? Milhares de perguntas passavam por sua cabeça enquanto olhava para o teto de madeira cheio de teias de aranha. E enquanto pensava, seus olhos cansados se cerravam. Não faria mal dormir um pouco. … Acordou com batidas na porta. –

Quem é?

Sou eu, Silverius, seu vice-diretor.

E o que quer aqui? Matar-me? - Perguntava Qlon com uma voz cheia de temor.

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Vim pedir desculpas pelo ocorrido de hoje. Não irá repetir-se.

Um pequeno folheto branco passou por debaixo da porta. –

Esse é o resultado de seu teste. Compareça amanhã para o início do torneio. Se bem que acho que já sei qual será o resultado.

Passos se distanciaram. Qlon se levantou da cama e pegou o folheto. “Eu era um dos poucos casos de classe tripla que houvera. Classes duplas eram comuns, às vezes mais até do que classes básicas. Mas o mais engraçado do folheto é que estava escrito das seis formas: –

Artista-Combatente-Conjurador;

Artista-Conjurador-Combatente;

Combatente-Artista-Conjurador;

Combatente-Conjurador-Artista;

Conjurador-Artista-Combatente;

Conjurador-Combatente-Artista;

A primeira classe indicava a classe primária, a que poderia ser mais desenvolvida, e as que viessem após ela eram tidas como secundárias, que não se desenvolveriam tanto. Classes primárias eram tidas como o talento principal. Se minha lógica não estava falhando, aquilo significava que eu tinha o talento para as três classes ao mesmo tempo, e em nenhuma ordem de grandeza específica. Mas eu ainda precisava saber o porquê.” Qlon tinha conseguido o que queria. Sabia que iria tornar-se um combatente, independente do que estava escrito naquele pequeno pedaço de papel. E algo a mais o afligia... como ele conseguiria saber o nascer do sol dentro daquela caverna? (Em uma escala de menor importância.) … Assim que a luz do sol se apagou da fresta que iluminava seu “aposento”, ele abriu a porta. Um ar gélido e uma leve neblina pairavam sobre o local, mas nada que o impedisse de se locomover. Com o papel no bolso de sua calça, retomou o caminho até a sala de refeições. Quando entrou todos os alunos o olharam. Alguns riam e apontavam para ele, outros o olhavam com um olhar temeroso, e ainda havia os que o olhavam com um pingo de admiração. Silverius não parecia ser o mestre mais adorado entre os alunos. Por mencionar ele em seus pensa mentos, voltou-se para a cadeira de vice-diretor. Estava vazia, a não ser pelas almofadas que a revestiam. Sentou em sua cadeira de madeira e, receoso, comeu sua comida sempre olhando para a cadeira vaga do anjo que o atacara mais cedo. Independente do modo, comeu. Precisaria de energias.

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Ei, como vai Qlon? Melhor agora? - Dizia a voz vinda do assento ao seu lado.

Heitor! Sim, claro. Obrigado por hoje mais cedo.

Não há de quê. Aliás, já descobriu o que vai ser?

Sim.

Qlon mostrou o bilhete a Heitor, que o leu por alguns segundos e olhou pasmo para a face de Qlon. –

Nunca imaginei que um só anjo pudesse ter tantos talentos. Meus parabéns. Já decidiu qual será a sua classe principal?

Após pensar um pouco, decidi que quero aprender o máximo que puder. Afinal, quero ser o melhor soldado que este reino já vira, melhor até mesmo que meu pai.

Hahaha, é uma criança sonhadora. Bem, sendo filho de quem é, não duvido que vai alcançar seu sonho. E quanto ao torneio? Preparado?

O máximo possível.

É... Para sua idade, creio que não será grande coisa, assim como sempre é. Muito difícil um aluno novato mostrar muito potencial no início. Mas, independente disso, acho que já sabemos quem será seu mestre.

Quem?

Ora essa, Silverius. Ele sempre escolhe os melhores alunos da Base para treinar. Ou os próprios alunos acabam por escolher a ele. Silverius é um excelente soldado e um exímio mestre, não estaria lecionando aqui em caso contrário. E, como você viu, ele tem um dom muito raro que...

Qlon permaneceu em silêncio por alguns instantes. Heitor percebeu que o que ele falara afetou de alguma forma seu novo amigo. –

Espero que o autocontrole dele retorne. - Disse Qlon, com um olhar cabisbaixo.

Tudo bem. Eu não sei o que houve lá hoje, mas acredite: ele é um anjo que consegue conter suas emoções e ser calculista. Aquilo não voltará a se repetir, ao menos por um longo período de tempo. Por enquanto, não pense que irá ter ele como mestre.

E quais são os outros mestres?

Ah, quer ver as opções? Pois bem... Além de Silverius temos mais onze mestres. São três mestres para cada classe inicial. Para começar...

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Não, não precisa apresentar-me. Estou com sono, acho que vou dormir no meu quarto.

Tudo bem. É bom descansar, amanhã será um dia puxado. Mas aviso logo que não usará essa espada no torneio.

Não?

Óbvio que não, a não ser que seu intuito seja de matar outros alunos. Os mestres o fornecerão equipamentos de madeira quando for entrar no torneio de combatentes.

Entendo.

Mas pode levá-la como adorno. Sei como é difícil alguém se separar de sua arma.

Heitor falou isso enquanto segurava uma Swallow em sua mão. “Swallows são armas como lanças, mas elas possuem nas duas extremidades enormes lâminas curvas, cada uma voltada para um lado. Também podem ser menores, tendo, por exemplo, duas espadas presas por um pequeno cabo em seu centro, grande o suficiente apenas para o encaixe das mãos, ainda com suas lâminas voltadas para lados distintos, que era o caso da arma de Heitor. É uma arma quase que exclusivamente de ataque, mas poucos são os que realmente conseguem usá-la de uma forma correta e eficaz.” –

Essa arma é herança de família?

Sim, é feita puramente de prata e encantada com uma magia que ainda não consegui descobrir qual é. Mas aprenderei a usá-la aos poucos, eu espero.

A minha é a única recordação que tenho de meu pai, além de algumas gravuras e cartas.

Eu sei. O grande Ronan Warrior, aquele que matou Abigor. Ele é um dos meus ídolos.

Bem, foi legal conhecê-lo, Heitor. Espero que possamos nos falar mais.

Se você for aluno de Silverius... De qualquer modo, nos veremos pelo castelo. Até amanhã, descanse bem porque quero ver do que é capaz o filho de nosso herói.

Qlon acenou com o rosto ruborizado e despediu-se. No caminho para seu chalé subterrâneo, pensou em como apenas um dia fora capaz de mudar completamente sua vida. Ao chegar, apoiou sua espada na parede e jogou-se sobre a macia cama de sua moradia sem sequer acender uma vela para iluminar o recinto. Adormeceu com facilidade.

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Cap. 9 – Torneio Seletivo

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ravar batalhas é algo que nenhum anjo gostaria. Ou quase nenhum. Qlon era uma exceção à regra. Na curta experiência que adquiriu lutando contra aqueles pequenos Goblins, ele sentira algo incomum durante suas esquivas e golpes. Era como se o ar que enchesse os seus pulmões queimasse em seu jovem peito. O coração batia tão forte e rápido que parecia querer explodir o seu tórax. Seus músculos todos se contraíam. Os olhos ficavam ligeiros, a pele parecia mais fina e sensível. Com aquele pensamento em sua mente, ele acordou de seu curto sono, interrompido pela luz matinal que passava pelo respiradouro nas rochas, banhava o lago dentro da caverna e era refletida por sua janela. Agora já sabia como diferenciar que era manhã, ao menos nos dias em que o sol estivesse no céu. Le vantou-se e vestiu suas vestes, um pouco sujas pelo decorrer dos eventos anteriores. Apanhou um copo e encheu-o de água no leito do rio. Bebeu o líquido da vida, que, gelado, escorria pela sua garganta e chegava ao seu estômago. Lavou seu rosto e estremeceu. Colocou a espada em sua cintura e, finalmente, partiu para seu destino: a mesma sala do dia anterior. … –

O torneio será dividido em três partes. - Explicava Silverius. - A primeira será o torneio de artistas, e aquele com a melhor performance se sobressairá. O segundo torneio será o dos combatentes, força e precisão são o que contam. E, por fim, será a vez de os conjuradores mostrarem seu potencial. Aquele que melhor controlar seu elemento de origem alcançará a glória. Todos entendidos? Então acho que já podemos iniciar.

O diretor dirigiu-se até onde Qlon estava sentado e chamou-o para uma conversa particular. Fora da visão de todos, Silverius disse: –

Qlon, gostaria que participasse de todos os três torneios, ainda mais com o talento de que possui.

Mas quero me tornar apenas um combatente.

Qlon, não jogue fora o presente dado a você pelos deuses. Você é o primeiro dos alunos desta instituição a receber uma classe tripla perfeita. O

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único anjo de todo o reino com tal poder viveu a mais de dez mil anos. “Esta é uma antiga lenda que existe entre os anjos, mas não me preocuparei em mencioná-la agora. As coisas fariam menos sentido ainda...” –

Mas eu quero seguir perfeitamente os passos de meu pai!

Seu pai é seu pai, e você é você. Se quer a dica de uma pessoa que viveu tempo o suficiente para ter treinado seu pai e vários outros alunos que se tornaram heróis, estaria aniquilando seu potencial se fizesse isso.

Mas... Eu sequer na minha vida toquei um instrumento ou fiz um breve teatro. Nem sei como conjurar magias!

Que eu soube, adorava ler livros sobre o conhecimento externo quando morava com sua mãe. E soube que faz bom uso dos conhecimentos básicos angelicais, até mesmo da gramática!

Mesmo assim... E também, nem ao menos sei qual o meu elemento interior, nunca o testei na vida.

Sem problemas, eu auxiliarei com isso. Por favor, esqueça nossa desavença passada e confie em mim. Eu sei que você pode ser muito mais do que um simples combatente.

Qlon olhou nos olhos de Silverius e pensou por alguns segundos. Ele parecia sincero. Estava com medo, mas, acima de querer mostrar-se um bom lutador, queria também testar seus limites lá dentro. –

Aceito. - Respondeu Qlon, meio relutante e sem muita confiança.

Ótimo. Agora, pense em algo que tenha lido em sua casa... Alguma história! E declame-a para seus amigos.

Declamar?

Sim... Puxa, às vezes esqueço que você é uma criança ainda. Já foi a teatros de rua, certo?

Claro, sempre tinha algum no centro de Aeria.

Ótimo. É como se fosse contar a história para seus amigos, mas dando emoção as palavras, como se estivesse interpretando um dos papéis feitos no teatro.

Acho que entendi.

Ótimo. Você será o último a se apresentar. Boa sorte.

Silverius voltou ao seu lugar como avaliador e Qlon voltou a sentar-se em círculo, ao redor das poucas crianças que sonhavam em ser artistas.

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“Os artistas não são uma classe muito desejada. Seu papel em uma batalha é praticamente nulo. Mesmo médicos podem ser substituídos por um punhado de magos brancos, e eles não faltam em Aeria. O elemento mais comum entre os anjos é a luz. O campo de atuação de um artista é, em geral, fora da guerra, alegrando as pessoas com suas belas melodias, danças ou interpretações, ou então no ramo de pesquisa, descobrindo novas tecnologias, criando novas armas... Utilizando o saber para auxiliar os outros.” As apresentações não demoraram muito a se iniciar. Logo as crianças estavam tocando flautas, dançando, interpretando papéis (trabalho realizado por trigêmeos), avaliando pesquisas... Não parecia que ia ser fácil. Por fim, foi a vez do filho do herói. As crianças olharam para ele, surpresas por ele estar em uma competição de artistas. Com toda aquela pressão, Qlon sentia-se restringido, preso. Olhou novamente para Silverius. Ele acenou a cabeça com sinceridade, como se desse a ordem para começar.

“Oh, grande cavaleiro Cuja armadura prateada Reflete a luz do sol Filha desta alvorada Brandiste bem tua arma Lutaste bravamente Como se a dor ou cansaço Escapassem de tua mente Porém, ainda não acabou O pior ainda está por vir Um grande inimigo surgirá Assim que a noite cair São os fantasmas Daqueles que matou E em campo de batalha A sua vida retirou Até quando lutarás? Até achar conforto? Ou até que esteja saciado Com o teu corpo morto?”

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Os alunos o olharam perplexos. Alguns choravam, outros o encaravam, perplexos. Crianças não sentiam-se confortáveis falando de morte, e Qlon percebera logo. Talvez o medo de serem mortos em guerra muito jovens retirasse o prazer e a glória em servir o seu povo e os propósitos divinos. –

Qlon, de quem são esses versos? - Perguntou Silverius.

De meu pai. - Respondeu timidamente, quase em um sussurro.

Qlon voltou a sentar-se, mas desta vez afastado dos demais. Sentia remorso. … A comissão de professores julgou os alunos que fizeram os testes para artista. Todos se entreolhavam discutindo algo. Qlon não ligava, permanecia sentado afastado de todo o resto. O processo de seleção durou mais de uma hora. Os re sultados não haviam sido anunciados. –

Muito bem. - Chamou à atenção Silverius. - Agora será o início do torneio para aqueles que querem tornar-se combatentes. Por favor, aos artistas que usaram este espaço, peço encarecidamente para que se retirem do centro. Precisaremos de um espaço amplo para as lutas.

Os alunos obedeceram de pronto e abriram um grande círculo no salão. Alguns professores admoestaram Silverius para fazer do lado de fora da base, mas este discordou. Para crianças, aquilo parecia ser um espaço maior do que o suficiente. Aos poucos, alguns serviçais do castelo trouxeram armas, todas de madeira revestidas com uma espécie de espuma. Isso abrandaria os golpes. Não apenas armas, mas também vinham proteções: escudos, elmos, grevas, cotoveleiras, couraças, ombreiras... Para a sorte dos mestres, haviam exatos 16 alunos naquele ano aptos para serem combatentes. Foi feita então uma grande chave de combates eliminatórios. … Realmente, não se podia esperar muito de luta de crianças. Mas os professores ainda assim olhavam e faziam suas anotações. Algumas não levavam muito tempo, pois no final os mais “crescidos” tinham uma certa vantagem sobre os mais franzinos. Apesar disso, alguns poucos menores saiam-se muito bem. Após um enorme tempo de espera que parecia nunca acabar, era finalmente a vez de Qlon. O outro aluno seria um garoto um pouco mais alto, não muita coisa. Uma diferença de 3 ou 4 centímetros se muito. Mas para uma criança, isso é quase o mesmo que se diferenciar um gigante de um anão. “Não me importava seu tamanho, sua aparência ou qualquer outra coisa. Seria irrelevante. Até hoje não lembro o seu rosto ou seu nome.” O garoto demorou a escolher sua arma em meio as que foram oferecidas, mas por final pegou dois machados simples de uma mão. Colocou um elmo, uma pro-

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teção simples para o peito, cotoveleiras e joelheiras. Enquanto ele acabava, Qlon já o aguardava na arena, tendo pegado apenas uma espada de duas mãos co mum. Como as armas eram de madeira, o peso entre uma espada de uma ou de duas mãos não faria tanta diferença. E como a Sanctus, para Qlon, era empu nhada como uma espada de duas mãos - podendo ser utilizada com apenas uma dependendo da força do usuário -, seria uma diferença de alguns centímetros na área da lâmina, que para ele fariam uma enorme diferença. O juiz colocou os dois no centro da arena. Como em duelos oficiais, eles se cumprimentaram, cada um colocando a mão direita sobre o ombro esquerdo de seu oponente e a esquerda sobre seu próprio peito. “Apenas como detalhe, em duelos de anjos contra anjos, amistosos ou não, o cumprimento é quase que fundamental para expressar a cordialidade e a gratidão de cada um por poder lutar com um valoroso oponente. Ou não tão valoroso, quem sabe...” Cada um afastou-se dez passos do outro, viraram-se e entraram em posições de combate. O oponente segurava um dos machados apontando ele diretamente para o peito de Qlon, e o outro atrás de suas costas. Ele não era apenas uma criança comum pelo que parecia. Deveria descender de uma família de guerreiros. Mas com apenas dois pares de asas, ficava apenas na classe dos arcanjos. Um silvo de apito. O garoto, de um pulo, alcançou para cima de Qlon. Aquela criança não era normal assim como o resto. Ele já havia aprendido como lutar e pegar impulso com suas asas. “Alguma coisa me dizia que as lutas haviam sido arquitetadas para que eu pegasse os maiores desafios. Nunca cheguei a me preocupar muito com isso, afinal, eu estava ali com apenas um objetivo: vencer.” A aproximação do inimigo fora imediata. Qlon abaixou seu corpo para uma postura mais fechada. O garoto atacou com o machado da mão esquerda. O golpe passou centímetros acima da cabeça de Qlon, que havia abaixado. Com uma precisão de mestre, Qlon usou o cabo da espada para acertar o garoto com um golpe ascendente, pegando impulso e terminando em um salto. O garoto golpeado estava jogando o corpo para trás, já quase caindo derrotado, quando em uma última tentativa girou o eixo em seu pé de apoio e tentou acertar Qlon com o ma chado da mão direita, mas o pequeno anjo ruivo fora mais rápido. No ar, girou em seu eixo vertical e, com a espada em mãos, deferiu um golpe abaixo do braço usado por seu oponente para atacar. O tamanho da lâmina fez total diferença. Nocauteado, o garoto caiu no chão. O seu rival caíra pro lado com o impacto da espada de madeira e cuspira um pouco de sangue e dentes quebrados, que logo os curandeiros do castelo fizeram questão de reparar. O vitorioso havia sido decidido. Os outros estudantes olharam cada vez mais perplexos e assustados para o que Qlon fizera naqueles simples movimentos. Silverius se levantou, um pouco perplexo com toda a mes-

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tria do novo estudante, e perguntou: –

Aonde aprendeu esses movimentos, meu jovem?

Meu pai deixou vários escritos sobre técnicas que ele desenvolveu ao longo de sua jornada de batalhas. Curtos, mas bem específicos, e com isso criou um novo estilo com a espada. Eu li eles. Memorizei cada um deles. Mas no final, não consigo usar eles apenas por querer usar, acaba saindo como um reflexo.

Entendo... - Silverius fez algumas anotações e calou-se.

“A segunda rodada teve início. A primeira coisa que todos os garotos fizeram foi ver quem me enfrentaria na segunda rodada. Um garoto abaixou a cabeça e respirou profundo. Pela expressão em seus olhos, seria ele. Ainda com minha espada de madeira em mãos. Permaneci sentado, imóvel, apenas olhando batalha por batalha e analisando meus oponentes. Quem ler este relato pode achar estranho e perguntar-se que espécie de criança faria isso. Uma criança descendente de uma família de guerreiros responderia essa pergunta? E também, em tempos de guerra, quem não sabe defender-se é considerado um inútil. Nem sempre vi meu pai como um ídolo maior. Ídolo que nunca nem havia conhecido. Mas sempre quis ser como ele...” … As lutas estenderam-se pela tarde toda. Por mais que fossem crianças, algumas lutas demoravam. Apenas as de Qlon acabavam com um ou dois golpes. Alguns garotos derrotados por ele saíam chorando, outros eram nocauteados. A força dele já diferia das outras muito antes de ele ser treinado propriamente. –

Essa é a luta final. Competidores, um passo à frente. - Pediu o Juiz. - Do lado direito da arena está Qlon Warrior Eros, portando uma espada de madeira de duas mãos. Do outro lado está Jolie Kristal, portando um arco de batalha, também de madeira.

“Arcos de batalha são uma arma pouco usada. Uma grande roda de metal, com seu interior oco. Geralmente usado por dançarinas, tem um enorme potencial. Suas arestas possuem uma lâmina bem afiada, podendo ser usados como bambolês em danças e atirados pelo seu usuário quando presos por uma corda ou corrente. Claro que, sendo de madeira, não seria assim tão letal.” –

Irmã! - Gritou uma voz conhecida que acabara de entrar no recinto.

Heitor? - Disseram Jolie e Qlon em uníssono.

O que você acha que está fazendo? Apenas os homens da família deveriam ser os guerreiros!

Me deixe em paz Heitor, cheguei aqui com meu próprio esforço e é isso

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que quero ser, uma combatente! –

Mas está usando uma arma de uma Odalisca! Onde está o sentido?

Gosto de usar essa arma. Agora me deixe em paz! A luta vai começar!

Nem pensar, você vai se ferir! Diretor, exijo que a retire daqui agora!

Mas que situação inusitada... Vamos deixar os lutadores decidirem, não é mesmo? - Ponderou Silverius. - Pelo que me parece, ela quer lutar... Qlon, o que você acha?

Eu não me incomodaria em lutar com ela...

Qlon, achei que fossemos amigos! Ela é minha irmã! - Rompeu Heitor em fúria.

Mas a escolha é dela, não é mesmo? - Disse Qlon. - Eu não disse que quero lutar com ela, apenas disse que não me incomodaria se isso acontecesse. Estou aqui para vencer, independente de quem eu confronte.

Você... Você! - Heitor quisera partir para cima de Qlon com sua Swallow de prata, mas fora impedido pelos outros professores.

Controle-se, Heitor. Isto não é uma creche! - Disse Silverius, se colocando de pé. - Como meu discípulo, você deveria aprender a controlar melhor suas emoções! Quer violar a regra mais importante da Base? Darei a você uma penitência, assim que esta luta acabar. Agora, ou se retira ou fica para assistir a luta.

Em silêncio, Heitor sentou-se para ver sua irmã. Um rosto tomado por ira o invadiu, mas aos poucos aquele rosto se contorceu em algo sem expressão e de sobrancelhas caídas. –

Cumprimentem-se e fiquem em posição.

Obedecendo aos costumes, os dois se cumprimentaram e colocaram-se em posição, dez passos afastados. –

Comecem!

Jolie começou avançando na direção de Qlon. Vinha com o arco, tendo seu cabo (que estava no centro do Arco) preso firme em suas mãos. O primeiro golpe foi na cabeça de Qlon. Ele apenas se abaixou. Em um movimento rápido, Jolie tentou levar o arco para baixo, como se quisesse fatiá-lo ao meio. Qlon pulou para frente, em direção ao corpo de Jolie: o seu ponto cego. Nem sequer usou a espada. Deu um soco em sua barriga, fazendo com que ela caísse no chão. –

O que você fez? Seu... - Heitor ficava cada vez mais irado ao assistir a luta.

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Eu apenas a nocauteei Heitor. Não usei minha espada pois poderia machucá-la. Ela ficará bem, acalme-se.

Qlon tinha um outro olhar, que não parecia ser o de uma criança. Ele encarava a Heitor com um olhar frio, sem emoções. Para Heitor, era como se fosse uma provocação, um desafio. Aliás, não deveria haver alguém em todo o universo que, ao encarar tal olhar, não ficasse com uma raiva imediata de seu dono. Um olhar tão gélido quanto a cor prateada de seus olhos. –

Muito bem, e o campeão do torneio é Qlon Warrior Eros. - Disse o juiz, erguendo seu braço direito.

Quem via, bradou-o. Com certeza era um talento nato para uma criança de tão pouca idade. Silverius mantinha um sorriso no rosto, um sorriso que ocultava algo. Pôs-se de pé enquanto aplaudia, assim como os demais. Todos os professores cumprimentavam o campeão, enquanto Heitor consolava sua irmã. … O jantar havia iniciado. Os murmúrios no salão eram apenas um: a incrível performance de Qlon no torneio. Todos comentavam sobre sua inigualável movimentação, golpes certeiros e bem-calculados... Mas o autor de tantas conversas não se encontrava no recinto. Ele havia retirado-se para sua cabana no fundo do castelo e estava deitado em sua cama. Olhava para a espada de seu pai enquanto pensava. “Ainda faltava a etapa do dia seguinte, que decidiria qual seria a minha colocação e com que mestre permaneceria. Poderia ter acabado logo no primeiro dia, mas... Nunca havia tentado sequer uma magia simples ou conjuração em todo o tempo que fui criado por minha mãe. É um dom natural dos anjos, mas que eu nunca havia me interessado tanto assim. Interessantemente, a magia seria, no futuro, um dom que eu adoraria explorar.” Alguém bateu à porta. –

Quem é? - Perguntou Qlon do lado de dentro.

Silverius. Há um anjo muito importante aqui querendo vê-lo. Abra a porta.

Qlon levantou-se da cama e abriu a porta. A imagem de um homem alto e barbudo invadiu o recinto. –

Me desculpe a pressa, filho do herói. - Disse uma voz que aparentava já ter ouvido antes. - O tempo que tenho aqui é muito curto.

A sua voz... Você é...

Freutz Gorgos. Eu desci dos céus para dar parabéns ao campeão em pessoa. Há um assunto muito importante que gostaríamos de tratar contigo... Claro, se não for muito incômodo. Deve estar cansado.

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Não me incomodaria, senhor. O que deseja saber de mim?

Freutz era alto, robusto e com um rosto bruto. Tinha curtos e sedosos cabelos castanhos cujas pontas tocavam suas orelhas, uma face larga e “quadrada”, uma boca fina e uma sobrancelha que pesava sobre seus olhos verdes. Uma barba bem aparada encobria boa parte de seu rosto. Usava uma armadura dourada, cheia de adornos, e uma longa capa branca que escondia suas asas junto às costas. Silverius mantinha-se na porta, com uma cara fechada, como se não estivesse gostando do que estava por vir, ou do que já sabia que iria acontecer. Manteve-se com as mãos nas costas, mordendo seu lábio inferior. –

Qlon, após seu nascimento, os seus pais contaram algo sobre você?

Não senhor, não muito. Porquê? Há algo de errado comigo?

Pelo contrário... Temos uma suspeita em mente, mas você só poderá confirmar amanhã. Espero que se saia bem no torneio de conjuradores. Já conjurou algo antes?

Não, nunca.

Você já sabe ler e escrever, como é de costume, e até lutar. Mas até hoje nunca se aproveitou de um dom natural? Isso é estranho. Bem, de qualquer modo, siga o conselho de um velho ancião, meu jovem: controle sua mente e materialize o que quiser fazer diante de seus olhos. É assim que um grande mago faz.

Obrigado senhor... Mas ainda não entendi por que vir aqui só para falar isso comigo.

Acabamos criando grandes expectativas em você, pequeno anjinho. - Dizia Freutz sorrindo entre aquela barba peluda. - Se acabar acontecendo o que estamos prevendo... É. Melhor não te importunar com isso agora. Silverius!

Sim, senhor? - Respondeu Silverius junto à porta.

Cuide bem desse pequeno talento. Pode ser nosso trunfo mais poderoso no futuro.

O que é um trunfo? - Perguntou Qlon.

Silverius riu. Com sua mão pesada e grossa, bagunçou os cabelos de Qlon em um ato de carinho. –

Qlon, com certeza, nos veremos novamente.

Freutz e Silverius foram embora trocando olhares. Antes de a porta ser fechada por completo, Silverius olhou para Qlon com olhos de poucos amigos. Qlon, confuso, fez o que estava ao seu alcance: deitou e dormiu.

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Cap. 10 – A Primeira Magia

I

rradiava o sol por detrás das montanhas, iluminando a sala de audiência. Poucos eram os que se reuniam ali aquela manhã, enquanto os alunos tomavam seu café matinal. Mestres e diretor, todos sentados ao redor de uma enorme mesa redonda. Os murmúrios não tomavam forma, todos conchavavam entre si, enquanto Freutz e Silverius permaneciam calados, esperando a discussão terminar. –

Já podemos contar com o silêncio de todos os participantes? - Perguntou Freutz em um tom de voz mais alto.

O silêncio se fez presente. –

Como devem ter visto pelo resultado de ontem, estamos com um enorme problema em mãos. - Continuou o diretor. - Aquela criança se destaca entre as demais. Está em um estágio mais avançado de ensino, mais avançado de técnica... Acho que todos vocês já sabem o que isso significa, não é mesmo?

Sabemos. Apenas nos recusamos a acreditar. - Tomou a palavra Silverius. - Nenhum de nós viveu naquela época, há dez mil anos atrás! O que sabemos é passado apenas por livros e lendas.

Qlon mantinha seu ouvido grudado na porta enquanto escutava atentamente cada palavra. Ao ver todos os representantes da instituição saindo do salão de jantar, percebeu que algo estranho estava acontecendo e decidiu checar com seus próprios olhos... No caso, ouvidos. –

Ora ora... Não acho que isso seja o que uma criança pode ouvir, não é mesmo?

Uma figura o assustou. Uma mulher de estatura mediana. Cabelos encaracolados e loiros e olhos verdes cristalinos. Usava um manto amarronzado, cor de terra. Conseguia reconhecer a sua voz, mas não o rosto. Um rosto divino e bem moldado. –

Você é...

O vulto que guarda a passagem nas montanhas. Lembra-se?

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Mas não podia ficar apenas na entrada da caverna?

Minha presença foi solicitada aqui hoje, e cá estou para cumprir o que me foi ordenado. Agora, vá, antes que eu abra a porta e percebam sua presença aqui.

Obrigado, senhora...

Ela o deu um sorriso puro, cristalino. –

Meu nome é Lua.

E sobrenome?

Ainda está muito cedo para saber. - Disse colocando a mão na porta da sala de reuniões, ainda com um sorriso em sua face. - Agora volte aos seus afazeres. Ainda tem um teste a ser realizado mais tarde, não é mesmo?

Sim... Obrigado, Lua.

Qlon saiu a passos largos pelo corredor, enquanto ouvia uma última frase ecoar pelas paredes de pedra do castelo: –

Ah, aqui está a descendente!

… Os alunos que iam ser examinados no teste de aptidão mágica eram poucos e formavam uma pequena fila de um total de nove alunos pelo corredor. No final da fila estava Qlon, um pouco preocupado. Deveria ter treinado magia antes de ir para o teste, mas nem sequer se importou com o assunto. Havia outras coisas a se pensar no momento. Os alunos entraram numa sala. Não era a mesma de ontem. Ela era toda escura, e eles mal podiam ver uns aos outros. Dentro da sala todos os professores esperavam, cada um com uma chama “flutuante” e branca, que pairava ao redor deles. –

Sejam muito bem-vindos. - Iniciou Silverius. - Hoje daremos início ao teste de aptidão mágica. Vejo que alguns alunos trouxeram seus catalisadores... Ótimo. Qlon, trouxe algum?

Qlon repousou a mão sobre sua espada. –

Ela poderá servir como um.

Ótimo. Sendo assim, que todos iniciem os seus testes. O que poderão fazer é bem simples e rápido e, ao término das apresentações, os professores irão se reunir para decidir quem serão seus alunos. O resultado será afixado no quadro de avisos do saguão de entrada ao pôr do sol. Compreendido?

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Sim. - Disseram todos em uníssono.

Ótimo. A lista de apresentações será...

… Qlon não se incomodou de ser o último. Estava acostumado com isso. Talvez quisessem deixar o melhor para o final sempre, ou, nesse caso, o que achavam que seria o mais fracassado. Positiva ou negativamente, o que importava era impressionar os mestres. “Assim como as apresentações do dia anterior, algumas eram rápidas e outras bem demoradas. A tarefa era apenas uma: conjurar seu elemento de origem da forma como achassem que conseguiriam. Dentre as crianças que ali estavam, uma me chamou a atenção: seu nome não era importante, mas sim o que sabia fazer. O seu elemento de origem era a Água, e apesar de ser um elemento comumente usado para suporte, ela conseguia coordenar os movimentos do seu corpo e do fluir de uma taça de água ao seu redor, como em uma dança. Apenas magos profissionais conseguiam aquilo com tanta exatidão.” –

Qlon Warrior Eros, apresente-se.

Qlon foi até o centro de um enorme pentagrama desenhado no chão. –

Neste piso sagrado - Proferiu Silverius. - que guarda todos os elementos da natureza: A Água de um Cálice, o Fogo de uma tocha, um punhado de Terra de um vasto campo, o Ar que a todos rodeia, a escuridão do recinto e a luz de nossas chamas brancas, pedimos a você, Qlon, que nos revele seu elemento.

Qlon não fazia ideia do que deveria fazer naquele instante, mas decidiu arriscar. Empunhou sua espada, com cada uma de suas mãos segurando uma ponta, e ajoelhou, com se estivesse passando um objeto ancestral a uma pessoa à sua frente. “Concentrei minha mente em meu objetivo. Enchi os pulmões e respirei com calma e, enquanto escolhia palavras em minha mente, minha boca se moveu quase que sozinha, proferindo: 'Que a minha alma revele seu potencial oculto. Olhos da Alma!'.” O que aconteceu a seguir foi um milagre. A água do cálice jorrou para cima com força e constância, como se fosse infinita, e parte dela se tornava cristais de gelo, fazendo nevar dentro da sala. A chama da tocha se tornou uma enorme labareda que iluminou todo o recinto. A terra recebeu descargas elétricas do ar da sala, que se agitava e formava pequenos redemoinhos espalhando pequenas pedras pelo local. Todos eles dançavam em um raio de três metros de distância de Qlon, que permanecia ajoelhado e de olhos cerrados. Quando abriu os olhos, os elementos pararam no ar. Ele se levantou com a es-

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pada em uma das mãos mãos e olhos vazios. Ergueu-a em direção ao teto. As chamas dos professores se apagaram e a escuridão foi consumida em um enorme clarão. Todos se uniram e tomaram forma ao redor de seu minúsculo corpo, cujas asas dançavam com o tornado que se formara da junção dos elementos. –

Altima Arkhanum!

Ao som da voz de Qlon, o teto se rompera e os elementos dançaram no céu da ilha satélite enquanto uma luz de um branco puro se espalhava por quilômetros de distância, cegando a aqueles que mantinham os olhos abertos para apreciar o espetáculo. “E eu apaguei.” … –

É ele diretor. Não podemos ter dúvidas quanto a isso.

É difícil até mesmo para nós acreditar, não é mesmo?

Silverius andava em círculos na sala da estátua de Freutz. Ele mantinha um olhar direcionado ao chão, mas nem prestava atenção nas imagens que passavam por seus olhos naquele instante. A imagem que presenciara aquela manhã era tudo o que precisava pensar. A dança dos elementos, o clarão nos céus de Aeria e, provavelmente, do mundo todo... –

E agora? Devemos mesmo manter aquele plano? - Silverius perguntou com a voz trêmula.

Ela é a única que pode dar cabo da situação.

Mas se eu pudesse treiná-lo...

Já falamos sobre isso, Silverius. Apesar da sua excelente formação como soldado e sua capacitação como mestre, não poderá suprir as necessidades dele. Ninguém pode.

Então por que ela?

Ela é o mais próximo que se pode alcançar de um mestre para ele, apesar do seu sangue não ser o ideal. Ela possui parte dos mesmos poderes. Só ela pode entender com o que estamos lidando.

Não gosto da ideia. Fomos nós que...

Eu sei o que fizemos, não precisa lembrar-me.

Freutz mantinha-se ajoelhado no mesmo lugar da estátua, que antes sumira. Com a cabeça apoiada em suas coxas descansava Qlon, dormindo em um sono bem profundo.

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E agora? O que será dele? - Silverius novamente questionava.

Ele usou muita força mágica hoje, Silverius.

Deveríamos matá-lo enquanto temos a oportunidade. Sabe muito bem o que pode acontecer caso ele perca o controle.

Ou devemos esperar que ele faça o que quisermos, que ele nos ajude nessa guerra.

Da última vez, um demônio ascendeu. E agora? O que nos garante que esse anjo não vá cair? - Silverius ficava cada vez mais impaciente. - Os “sete céus” já sabem do que aconteceu aqui?

Eu espero que não, vou verificar. Mas com aquela descarga de energia, não duvido nada que eles já tenham alguma noção. Eu tentarei interceder por esta criança. Acho que desta vez eles o pouparão. Enquanto isso, deixo ele aos seus cuidados, e ao cuidado de Lua. Posso confiar em você?

Claro... Claro que pode.

Amanhã ele iniciará o treinamento, não quero que ninguém interfira.

Cuidarei disso.

Freutz pegou Qlon em seu colo e o entregou a Silverius. Passou a mão sobre seus sedosos cabelos ruivos e sorriu. –

Tome conta da escola, Silverius. E lembre-se: esse será nosso segredo, e segredo dos mestres. Ninguém, absolutamente ninguém, além deles deve saber o que aconteceu ontem.

Já apaguei parte da memória das crianças que fizeram o teste mágico. Nem foi tão difícil, algumas ficaram traumatizadas.

Imagino. No final são apenas crianças, assim como ele.

Freutz se colocou na mesma posição que a estátua estava antes. Uma luz celestial pairou sobre sua cabeça e seu corpo se transformou em pedra novamente. A sala voltou a sua iluminação original, e logo Silverius se viu sozinho com ele no colo. Olhou para o pequeno ser de seis asas em suas mãos e engoliu em seco sua saliva. –

Amanhã será um longo dia... Descanse por hoje.

… “Naquela noite eu tive um sonho. Minha mãe estava perto de mim, e meu pai olhava para o meu corpo. Estiquei a mão para tentar alcançá-lo e dar um abraço, mas meus braços e minhas mãos eram pequenas. Provavelmente eram apenas

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memórias de quando eu ainda era um recém-nascido. A imagem se apagou aos poucos, enquanto o rosto de meu pai se transformava em um de um monstro. E, chorando, eu despertei em meu quarto. Lua, com suas delicadas e gélidas mãos de dedos finos, enxugava minhas lágrimas.” –

Lua...? O que você...?

Bom dia, pequeno... Pupilo. - Disse ela sorrindo, enquanto interrompia as palavras que saiam ligeiras da boca de Qlon.

No começo ele levou um choque. Levou um tempo até que seu silêncio fosse quebrado aos poucos: –

Pupilo...? Você quer dizer...?

Sim. A partir de hoje, eu, Lua, serei a sua mestra. E aprenda a completar as suas frases.

Qlon sorriu, estava feliz de não ser ensinado por Silverius mesmo que ele não tivesse escolhido seu mestre, direito por ter ganho o torneio. –

E... quando começamos?

Agora. Pegue sua espada e siga-me.

Sim, Lua.

Mestra Lua para você, garotinho.

Sim, mestra Lua.

Lua se encaminhou para fora da pequena choupana de Qlon. Subiu em um pequeno barco, acompanhada de seu estimado aluno, e ordenou: –

Reme, Qlon. Isso o ajudará a ganhar uma musculatura melhor.

Sim, mestra. Para onde?

Para o exterior do castelo.

O exterior? Mas eu achava que as aulas de novatos eram, em maioria, teóricas.

Escute, aluno: Eu não sou uma mestra dessa instituição. Até ontem eu ainda era a guardiã da passagem, como fui por muitos e muitos anos. Por isso, não vou seguir nenhum método deste lugar. Irei ensiná-lo o que sei teoricamente, o tempo todo, e em um lugar aberto de preferência. Você sabe como é passar dias e dias dentro de uma caverna escura, tendo por companhia apenas morcegos e goblinsirritantes?

Não imagino, mestra.

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Pois aguarde por minha pequena surpresa.

Surpresa?

Sim. E, por favor, use mestra no final de cada frase sua. Pergunta, afirmação, surpresa... Quero que lembre qual é o seu lugar aqui. Será assim nos exércitos também.

Sim, mestra.

A felicidade que estava sentindo no começo agora estava um tanto quanto questionável. Apesar da doçura de sua face, ela era rígida. Seu sorriso doce e agradável escondia uma sádica. Ao chegar do lado de fora, nos vastos campos que circundavam o lago, estava nublado. Nuvens de tempestade formavam-se no céu. –

Mestra, acho que seria mais prudente treinar do lado de dentro hoje.

E porquê?

Está prestes a chover, mestra.

Por acaso a água da chuva irá transformar-te em lama?

Responda. Sempre que eu perguntar qualquer coisa, por mais idiota que seja a pergunta, responda.

Não, mas também estou preocupado com as doenças, mestra.

Não se preocupe com isso. Duvido muito que será capaz de pegar alguma doença...

Qlon não entendeu, mas permaneceu em silêncio. O forte vento de tempestade fazia folhas secas esvoaçarem pelo céu. Alguns raios podiam ser avistados cruzando as nuvens. Em algum canto qualquer, o sol se escondia. –

Qlon, como acha que começaremos a treinar.

Não tenho ideia, mestra.

Um certo ditado muito antigo entre os anjos é: “Conhece a ti mesmo antes de conhecer aos teus inimigos.”

Então... Vou ter que conhecer a mim, mestra?

Tudo bem, vamos cortar isso de “mestra”. Estou cansando disso a todo momento. Só é bonitinho como imaginei às vezes. Pode variar um pouco usando senhora também. Apesar de eu ainda ser uma senhorita...

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Enfim. Sim, exatamente isso. Então, resumidamente, o que sabe sobre os anjos?

Pouco. Apenas que aqui estão presentes os Serafins, Anjos e Arcanjos. Não sei nada sobre o reino superior e quem está lá.

Pois bem, sente-se. Na grama mesmo.

Qlon obedeceu, como um aluno dedicado e entusiasmado no seu primeiro dia de aula. Atentamente, passou a ouvir tudo que era dito: –

Pois bem. Primeiro, vamos começar a explicar um conceito básico: As esferas de poder. No sistema angelical criado pelos deuses, há um total de três esferas...

“Cada uma dividida de acordo com sua função. A terceira esfera é chamada de 'Círculo da Mediação'. Aqueles que nela estão são responsáveis pelo contato com os mortais, para ajudá-los ou persuadi-los. Nela estão inclusos: •

Anjos, com a função do contato direto com o mortal, nas mais derivadas funções possíveis: Anjo da Guarda, Anjo da Retribuição, Anjo da Morte... São a classe mais baixa de anjos possuindo apenas um par de asas.

Arcanjos, com o papel de manter o mundo espiritual afastado do mundo mortal. Apesar de eles se considerarem anjos de segunda esfera (por causa da difícil e importante missão), estão na esfera de mediação pelo contato com os mortais. Únicos anjos desta esfera com o privilégio de dois pares de asas.

Princípios, designados para educar e inspirar certos grupos de mortais. Cada um é responsável por uma raça diferente, e foram eles que inspiraram sua criação. Cada um deles possui uma coroa como um símbolo de seu domínio sobre certo grupo. São subordinados das Autoridades.

O segundo círculo é também chamado de 'Círculo Governamental'. Nele estão aqueles que 'mantém o céu em ordem', designando anjos da primeira esfera para a sua função e cuidando dos 'sete andares do céu'. São eles: •

Autoridades, que são os detentores do conhecimento e da história. Dizem que também são os guerreiros mais leais aos deuses. São responsáveis pela distribuição de poder pela humanidade e, em momentos de extrema necessidade, guardam todo o poder em suas mãos para proteger os céus ou guardar seus interesses.

Virtudes são 'assessores' dos Tronos. Usados pela primeira esfera para manter a ordem nos céus, são responsáveis por caçar e destruir os Anjos Caídos ou qualquer outra ameaça para os 'sete planos celestiais'.

Dominações, aqueles sem formas físicas. São criados pessoais dos

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deuses, que supervisionam todos os outros anjos e suas demais funções. Responsáveis por julgar os anjos, eles que acabam por condená-los a uma penitência ou informar às Virtudes os que se tornaram caídos. E, por último, a primeira esfera. Chamada de 'Círculo Divino', são aqueles que auxiliam pessoalmente os Deuses e recebem ordens apenas deles. Os que formam essa esfera são: •

Tronos, conhecidos como 'Sábios'. São responsáveis pela transmissão das ordens divinas às esferas inferiores. Os mediadores entre os anjos, que são o 'cérebro do céu'.

Querubins, também chamados de 'Anjos das Muitas Faces'. São os guardiões de todos os itens divinos considerados importantes, dentre eles o Paraíso e a Yggdrasil, a famosa Árvore da Vida. Também guardam a entrada para o sétimo céu, o último nível celestial, onde os deu ses habitam.

Serafins, os únicos anjos a verem todos os Deuses. São a sua guarda pessoal, de poder absoluto e ilimitado. Antes de irem para o reino mortal, perderam parte de seus poderes, que estão guardados com as Autoridades enquanto é esperado seu retorno ao reino celestial.

É assim que está feita a 'Ordem Celestial'. Cada deus possui um certo número de cada um dos tipos de anjos. Mas, mesmo assim, cada anjo coopera com ou tro, sendo ele de outro Deus ou não.” –

Então, acho que é hora de se conhecer mais a fundo. Se prepare, vamos fazer uma viagem.

Para onde, senhora?

Para o único lugar onde você pode descobrir suas origens, suas raízes. Se prepare, pois vamos para o reino dos céus.

E podemos entrar lá?

Não sem uma autorização.

E temos uma?

Freutz irá arrumar. Assim que souber que é para motivos didáticos. De qualquer jeito... Nossa aula por hoje está encerrada.

Já? - Perguntou Qlon, sem obter resposta,

Amanhã iremos ao reino imortal, e espero que esteja preparado para o que vai ver lá. Só espero que amanhã faça sol... Caso contrário, entrar no reino dos céus será completamente impossível...

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Cap. 11 – Primeiro Andar Celestial: Lunae

N

unca passaria pela cabeça do pequeno Qlon que, logo no segundo dia de aula, teria uma “excursão”. Lua queria ensiná-lo de uma forma que ficasse gravada em sua mente com experiências, não apenas com teorias. Ao menos parecia ser isso. Uma jornada aos céus... Naquela noite demorou a dormir, imaginando as maravilhas que encontraria por lá. –

Qlon, acorde.

O dia ainda não raiara, era madrugada. Uma névoa encobria todo a caverna de Qlon, assim como os arredores da ilha. Uma atmosfera pesada e gelada. –

Mestra? O que deseja a essa hora?

Eu não consegui contatar Freutz, então... Vamos ter que viajar de outro modo.

E de que modo seria esse?

Invadindo.

O pequeno anjo ruivo ficara pasmo. Nada sabia do lado imoral daquela que o lecionava. E acima de tudo, do pouco que sabia sobre o Reino Celestial, seria impossível invadir. “Os portões de ouro dos sete céus eram a entrada mais segura existente, de acordo com todo o conhecimento existente no universo. Era guardada por dois querubins, empunhando cada um uma enorme espada de fogo, que mandavam as almas julgadas inapropriadas diretamente para o inferno. Um Trono era o responsável por olhar o passado de cada um nos olhos, assim que eles se prostras sem diante da colossal passagem dourada, e dar seu veredicto. Céu ou inferno.” –

E como pretende que façamos isso, Senhora?

Como se invade um local, Qlon? - Perguntou com ironia na voz.

Não sei... Rápido e sem ser notado?

Exato.

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Creio que não seja possível, mestra.

E por que não?

Já ouviu falar dos dois querubins guardiões da entrada dos céus, não é mesmo? Dizem que são tão fortes quanto qualquer serafim. Sem contar que é uma passagem única. Não há outro caminho.

Qlon, apesar de ter cinco anos, você sabe muitas coisas. Menos uma: a passagem de ouro dos céus dá acesso direto ao segundo andar. Lunae, o primeiro andar, está incluído em um andar entre o mortal e o espiritual. Não é fácil chegar até lá, mas é uma maneira de conseguirmos.

Como assim não é fácil?

Lunae (Lua) não é apenas um nome para um andar. É também a entrada para o andar...

Então quer dizer que estamos indo... Até a Lua?

Exatamente.

Mestra, sem querer preocupá-la... Mas como a senhora mesmo disse, eu ainda tenho cinco anos. Minhas perícias em voos não são muito... Desenvolvidas. Além do mais, e o problema da gravidade? E o do vácuo? O vácuo destrói os corpos vivos.

E alguém disse que iríamos voando? Crianças... Só se arrume que vamos para o lado de fora. Mostrarei como chegar lá. E não se preocupe tanto com o vácuo na lua. Os anjos criaram uma atmosfera mínima para sobreviverem por lá. Agora vamos! O dia será longo.

Qlon colocou algumas frutas em sua bolsa, a espada em sua cintura e, assim como no dia anterior, partiu de balsa com sua mestra até o exterior do castelo. Logo na saída da caverna, dava para ver o céu ainda mal-iluminado pela luz do luar. Poucas nuvens preenchiam o infinito negro noturno, deixando inúmeras estrelas à vista pela densa neblina. A grama da planície, juntamente com seus arbustos e poucas árvores, distribuídas disformemente pelo espaço, estavam cobertas pelo sereno. Quando os dois desembarcaram nas planícies, Qlon não conteve sua curiosidade e perguntou: –

Ótimo, mas e agora? Como alcançaremos a Lua?

Já ouviu falar do feitiço do teleporte?

Sim, já, mas ouvi dizer que era impossível até os andares celestiais.

É porque o teleporte não funciona entre dois planos. Apenas para o mesmo plano, e apenas para um lugar que possa visualizar. E como Lunae está agora no plano mortal e podemos vê-lo...

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Acho que entendo... - Disse Qlon, hesitante.

A verdadeira entrada está no segundo andar. Lunae é apenas uma base de anjos de mais baixo escalão para vigiar o planeta e também uma passagem para almas entrarem no reino celestial e viverem no Éden, pelo menos as mais comportadas delas. Já foi muito mais do que isso, mas, em épocas de guerra...

Então, o teleporte para lá é permitido?

Não permitido. Possível. Agora, considere isso uma lição: sabe como funciona o princípio do teleporte?

Não.

Então aprenda bem: tudo na natureza é composto de moléculas. Isso já deve saber, é educação básica. O teleporte consiste em reduzir um corpo à todas as suas moléculas originais e transportá-las até onde a visão alcançar.

Mas eu não sei como usar tal técnica. Aliás, sei basicamente nada além do conhecimento básico. E um pouco de artes com a espada...

Não se preocupe. Seu aprendizado aparenta ser bem... - Lua escolheu bem a palavra que sairia de sua boca. - … Rápido.

Aliás, mestra... Seu nome leva o mesmo nome desse andar. Tem algum motivo especial?

Sim, mas... Deixarei para contar quando lá estivermos. Por enquanto, tenho uma técnica mais importante para ensiná-lo. E você tem pouco tempo para aprender...

Por quê?

O sol já irá raiar. Se quisermos ir ainda hoje, devemos ir logo.

Filetes dourados de luz solar invadiam o horizonte, e aos poucos o céu retomava à sua cor azul claro. Lua se afastou alguns metros dele, de um modo que ele ainda pudesse vê-la. –

Primeiro, um rápido teste, Qlon. Você vai se teleportar até aqui.

E como eu devo fazer isso?

Primeiro, visualize seu alvo. No caso, qualquer lugar ao redor de mim. Não olhe diretamente para mim, senão vai acabar se fundindo com o meu corpo e, provavelmente, nós dois morreremos.

Qlon olhou para uma pedra que jazia ao seu lado, que chegava mais ou menos

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à cintura de Lua. –

E agora, mestra?

Agora imagine seu corpo sendo destruído em pequenos pedaços, e cada vez mais reduzido à poeira. Concentre sua energia em uma respiração longa, e quando expirar, retire todo o ar de seu pulmão de apenas uma só vez, e então imagine seu corpo ocupando o espaço que visualizou. Mas, como eu disse, não exatamente o mesmo lugar. Digamos que tenha olhado para a pedra ao meu lado. Imagine-se do lado dela, ou acima dela, mas nunca na mesma posição ou dentro dela.

Qlon fez como sua mestra o instruíra. Inspirou profundamente enquanto olhava para a pedra perto dela. Quando expirou o ar de súbito, sentiu seu corpo flutuar de leveza, aguçou a visão até o ponto que queria chegar e, no instante de um piscar de olhos, estava em cima da pedra, olhando para sua mestra. –

Assustado com sua primeira experiência?

Um pouco, mestra. Estou mais assustado por ter conseguido. - Disse Qlon, sentindo-se poderoso.

Deveria mesmo. Esse é um feitiço que, apesar da simplicidade de etapas, é avançada, e poucos são os anjos que podem dominá-la.

Qlon deu um sorriso de satisfação. –

Agora, o nosso destino.

O céu estava quase retomando sua cor matinal. A lua já ficava quase invisível ao olhar para o céu. –

Primeiro você, Qlon. Eu irei logo atrás. E, antes de ir, uma dica. A distância que acabou de percorrer foi extremamente curta, por isso quase não deu para perceber o teleporte. Agora a jornada será muito mais longa, por isso, não perca a concentração em hipótese nenhuma.

Entendido, mestra.

Qlon olhou para a lua. Tinha sido uma noite de lua cheia. Ela estava completamente redonda no céu, quilômetros acima de sua cabeça. Parecia tão próxima, mas ao mesmo tempo tão distante... Respirou fundo, olhou para seu objetivo e partiu. Lua foi logo atrás dele, copiando sua técnica. … Enquanto se teleportava, Qlon entendeu por que sua mestra o pediu para não perder a concentração. Envolto em um filete de luz, voava numa velocidade supersônica, atravessando a atmosfera. Sentia um inexplicável calor tomar conta de seu corpo, quase como se estivesse explodindo. Não precisava respirar, não

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precisava piscar. Ele havia transformado-se na luz que agora ascendia aos céus. A lua. Único satélite do planeta. De longe, uma imensa bola prateada e cheia de pequenos orifícios. De perto, um deserto de areias brancas, cheia de crateras e enormes montanhas. Finalmente aterrissara. Sentia seu corpo mais leve, quase que flutuando. Antes que pudesse sair pulando pela área para fazer uma checagem, uma mão gélida pousou sobre seu ombro. –

Mestra!

Cuidado. A gravidade daqui é menor que a de nosso planeta, ande com cautela. E quanto ao ar...

Lua atirou ao solo uma pequena bola de fogo. –

O oxigênio daqui está dentro das rochas. Para extraí-lo, é necessário um pouco de calor. Mas não se preocupe. Os anjos que aqui residem já fazem isso.

E para onde vamos? - Disse Qlon olhando para o infinito deserto prateado que estava ao seu redor.

Para o lado oculto da lua.

Como assim “o lado oculto da lua”?

A lua tem uma face que aparece para nós constantemente em nosso planeta. Em todos os pontos do planeta, apenas este lado é completamente visível, e nos dias de lua cheia sua “face principal” pode ser vista constantemente. Contudo, há um lado “atrás” da lua que não podemos ver diretamente. Este é chamado de lado oculto da lua. E poucos sabem o que há realmente lá...

Acho que entendi... Mas o que há lá, mestra?

Você verá quando chegarmos.

Lua foi se teleportando aos poucos, de espaço em espaço, seguida por seu jovem pupilo. Viajariam até um lugar de onde, olhando para o vasto céu, não fosse mais possível visualizar seu planeta de origem. … Aos poucos, luzes surgiam de um lugar completamente obscuro. Luzes fracas, muito fracas. Pequenos pontos avermelhados na vastidão do infinito negro do universo. –

Bem-vindo, Qlon, à colônia lunar de Primitus.

Colônia?

É assim que chamam cidades pequenas que não pertencem ao reino

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principal. Na realidade, com a guerra acontecendo no planeta, esta cidade está praticamente deserta. Se não fosse pelos Anjos cujo exílio entre os mortais era pena insuficiente para seus pecados... Esta colônia nem estaria mais aqui para contar a história. Portões de aço mantinham-se abertos, indefinidamente, à sua frente. Parecia que estavam assim há muito tempo. No topo do portão uma placa suja com a poeira lunar indicava o nome da cidade. As construções estavam lá, intactas, como se nada houvesse acontecido a elas. Mas por dentro, poucas eram as luzes que se viam. Anjos curiosos colocavam suas cabeças para fora para tentar esclarecer o que se passava. Ao ver os visitantes, fechavam as janelas e continuavam com quaisquer fossem suas tarefas. –

Por que os cidadãos daqui são tão...

Tímidos? Raivosos? Bem... Nós temos seis asas. Somos a maior classe angelical, somos os privilegiados divinos. Cumprimos todas as regras com facilidade, algo que as classes mais baixas e pobres parecem ter dificuldade em realizar.

Mas isso é um sentimento horrível! - Surpreendeu-se Qlon. - Eles estão errados por pecar, claro, mas... Se eles não se arrependerem, apenas irão apodrecer aqui.

Concordo. - Disse Lua, surpresa com a sagacidade de seu aluno. - Mas quem somos nós para julgá-los? A liberdade é uma regalia que apenas quem tem responsabilidade pode usufruir.

Qlon permaneceu em silêncio, acompanhando sua mestra em um andar silencioso pela cidade, enquanto contemplava as ruas com pedras ornamentais, que pareciam ter sido esculpidas, de tão belas. Após um certo tempo de desconforto entre os dois, Qlon perguntou: –

Mestra, se lembra que ia contar-me o motivo do seu nome ser Lua?

Lua virou para ele com um olhar melancólico. Sentaram-se no meio-fio da calçada de uma das que seriam as maiores avenidas do lugar. –

Qlon... Eu não tenho muitas lembranças de minha infância. Desde que me entendo por gente, fui criada por Freutz, que me acolheu como a uma filha. Quando eu já tinha idade o suficiente para saber, ele me contou que, há muito tempo atrás, me encontrou abandonada por aqui, perambulando por essas ruas.

Uma serafim perambulando sozinha pelas ruas de uma cidade deserta? Parece estranho.

Afinal, é. Nunca soube quem eram meus verdadeiros pais, e esta cidade é a única pista que possuo sobre meu passado. Aliás, já que queria sa-

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ber, meu sobrenome é Gorgos, mas não me chame por ele. –

Então... Suponho que esta não seja apenas uma viagem didática, ou estou enganado?

Sim, Qlon. O que vamos fazer aqui vai muito além de um aprendizado. Chega a ser uma missão.

E que tipo de missão seria?

Você é um anjo muito esperto para sua idade, percebeu muito rápido. Bem... Não vamos pesquisar apenas sobre seu passado, mas também sobre o meu.

E isso é algo ilegal?

Não deveria, mas os arquivos sobre cada anjo são guardados com as Dominações. O que vamos fazer é... Digamos... Dar uma olhadinha nos arquivos restritos que nos fazem menção. Os meus e os seus, caso tenha algum.

O que foi, Qlon? - Lua pareceu confusa. - Não quer saber o que já dizem sobre sua curta existência entre os imortais?

Não posso dizer que não estou curioso, seria uma mentira. Apesar de ser algo ilegal... você é minha mestra, por isso devo receber ordens, certo?

Lua sorriu. Um sorriso puro e completamente sincero, deixando à mostra seus dentes esbranquiçados. –

Sim. - Respondeu.

Então, supondo que isso tenha sido uma ordem, não tenho como recusar. Então... O que estamos esperando?

Lua levantou-se, e em seguida seu jovem aluno. Por alguns segundos, andaram sem mencionar uma palavra. –

Qlon... Você tem uma personalidade forte.

… Por horas andaram quase que sem destino, olhando para todos os cantos, pro curando por algo. –

Lua... Você conhece esse lugar?

Um pouco, sim.

Como assim “um pouco”? Quer dizer que estamos em uma missão por

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um território que não fazemos ideia de como seja? –

Sim. E você acha que a maioria das infiltrações são como?

Acidentais que não são. - Citou com convicção. - E, geralmente, há um mapa, não? Muitas histórias antigas escritas pelos humanos mostram casos similares.

Estamos montando um agora com nossas cabeças. Além do mais, precisamos de um ponto de partida para iniciar a investigação.

E no que isso inclui andar sem rumo?

Estou procurando o exato local onde Freutz disse que me encontrou.

E onde seria isso?

Perto de uma fonte, ele disse. No centro de tal fonte estava um anjo ajoelhado, olhando com a cabeça para os céus.

E você sabe onde ela está?

Também não, mas suponho que esteja no centro da cidade.

E ao menos isso sabe onde está?

Qlon, depois de testar crianças ano por ano, uma coisa que não suporto mais é sua incômoda insistência. Poderia, por favor, ficar quieto e me ajudar a encontrar?

Sim, senhora. - Disse, meio sem graça.

Qlon se separou um pouco de sua mestra e foi olhar em ruas adjacentes. “Percorri ruas, ruelas, becos... E nada encontrei. Estava perdido, andando para todos os cantos. Até pensei em voar, mas minha mestra me aconselhou a não fazer isso por causa da gravidade reduzida. Mas, apesar de estar quase entrando em desespero, fui capaz de achar uma casa com a luz de uma vela em seu interior. Bati na porta e aguardei pacientemente ser atendido.” –

Quem bate? - Perguntou uma voz feminina.

Meu nome é Qlon Warrior Eros, e gostaria de algumas informações.

Warrior Eros? E o que quer, meu senhor?

Gostaria de saber onde fica a fonte com uma estátua de um anjo ajoelhado, olhando para os céus.

Fica no centro da cidade, meu senhor.

E como faço para lá chegar?

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Siga por qualquer avenida principal até o seu fim, meu senhor.

Bom, muito obrigado, senhora. - Agradeceu a resposta óbvia.

Qlon prosseguiu pelas ruelas por algum tempo, até que uma mão pousou em seu ombro. –

Qlon, o que está fazendo andando por aí?

Achei que seria melhor nos separarmos para procurar.

Bem, não é uma ideia estranha. E descobriu algo?

Sim, está no centro da cidade, e para chegar lá precisamos pegar qualquer rua principal.

E como sabe?

Pedi informação a um dos moradores.

Pode não ser uma informação segura...

E por que não?

Bem... Como eu disse, os moradores daqui tem uma certa raiva de nós. Raiva e inveja. Acredita mesmo que eles podem estar falando a verdade conosco? Poderiam estar mentindo e nos levando para uma armadilha.

E não é muita prepotência nossa acreditar que eles sempre nos invejam e sentem raiva de quem somos? Poderiam estar sendo sinceros. Apesar de tudo, ainda são anjos, não é mesmo? E como você mesma disse, quem somos nós para julgar suas atitudes?

Um enorme silêncio se abateu sobre eles enquanto caminhavam pela avenida principal direto para o que supostamente seria a fonte. –

Mestra, deixei-a desconfortável?

Um pouco. Qlon... Você sabe o que é “prepotência”?

Não exatamente, mas já ouvi muitos adultos falarem isso em situações parecidas. Só usei quando achei que fosse conveniente.

Seu coração é muito puro. - Disse Lua, acariciando os sedosos e longos fios de seu pupilo. - É bom saber que, apesar de tempos difíceis como esse, ainda há alguém que possa confiar no próximo. Sinto-me feliz por estar...

Ela não conseguiu terminar a frase. Haviam avistado a fonte. Um estranho olhar tomou a expressão de Lua, que fitava o infinito. Qlon olhou para ela sem entender a situação, mas logo descobriria o motivo para tal comportamento...

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Cap. 12 – Uma Caridosa Estranha

O

sol não se projetava na parte de trás da lua, ao menos não na fase de lua cheia lá no seu planeta natal. Tudo parecia envolto em trevas eternas, apesar das poucas luzes que iluminavam as vias da colônia de Primitus. Por causa das escassas fontes de iluminação, talvez o cenário da fonte ficasse ainda mais... Atemorizante. Ossadas se espalhavam pelo círculo central da praça, e não aparentavam ser de animais. Armas, resquícios de uma intensa batalha, permaneciam ali, jogados pelo chão de pedra, ainda manchados de sangue. Penas permaneciam imóveis no piso, rubras pelo líquido vermelho e seco que impregnava o local. Ao menos a fonte era um espetáculo à parte. A estátua, feita de ouro, jorrava água pura e cristalina de seus olhos e sua boca, que estava parcialmente aberta. Lua permanecia imóvel, afastando Qlon com um de seus braços. –

Este lugar não é comum... Fique para trás. - Admoestou.

Mestra...

Silêncio! Não está ouvindo? - A voz de Lua ganhava um ar insano.

Ouvindo? Não, nada. O que você está ouvindo?

Um louvor...

Lua andava em volta da fonte. Seu vestido balançava com seus passos suaves. Ela andava para os lados e cantarolava, quase que de forma inaudível, sus surrando. Bailava com a cabeça erguida e os olhos distantes, perdidos no infinito espaço... –

Mestra, você está bem?

Lua nada respondia. Continuava com sua canção íntima. Aos poucos sua aparência foi mudando. O rosto feliz e cantante começou a ser tomado por um terror. Ela gritava, ajoelhada e olhando para o chão, derramando lágrimas. Balançava a cabeça negativamente e gritava “Pare! Pare! Pare!”. Qlon olhava para ela sem saber o que fazer. De repente, um vento forte se abateu sobre o local. As penas esvoaçaram pela praça, e luzes distantes enfraqueceram. A estátua passou a chorar sangue. Lua desmaiou.

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O horizonte negro aos poucos formava um vórtex. Qlon sentia uma aproximação perigosa. Puxou Lua para um dos becos e, de lá, permaneceu imóvel olhando o que acontecia. Aos poucos, anjos puros como a luz brotavam do interior do vórtex. Uma essência pura, Qlon podia sentir emanar. Preenchia seu corpo e o dava alívio. Eram exatos sete: As Sete Virtudes Divinas. “Apesar da aura de bondade que eles emanavam de seus corpos puros, eram temidas e respeitadas. Não eram apenas sete virtudes que havia nos céus, mas elas eram as mais importantes, pelo que dizia-se. Muitas lendas cercavam o surgimento das sete, mas o que era mais aceito é que todas foram criadas ao mes mo tempo, com uma origem contestável. Eram, basicamente, as sete regras da ordem celestial. Existiam mais virtudes que foram criadas a partir delas, mas elas eram, teoricamente, as progenitoras de todas as outras. Todas usavam a mesma roupa. Um enorme manto branco, que os cobria da cabeça aos pés. Uma máscara protegia seu rosto, inexpressiva. O seu diferencial eram números escritos nas testas das máscaras, números de I a VII. Duas asas brancas, e duas vezes maiores que o comum, brotavam de suas cos tas. Cada uma carregava em sua cintura uma espada. Mas até mesmo sua voz era igual...” –

Diligência, ela não deve mais estar aqui. - Disse o número V.

Não me interrompa, Paciência! Eu sinto o seu cheiro. Aquele cheiro único, cheio do pecado original! - Respondeu IV.

Vamos, os dois. - Interrompeu VI – Não precisam discutir aqui. Não há nada em nossa vista. Além do mais, quais são as chances da sobrevivente ter retornado após tantos anos?

Quieto, Bondade! - Voltou a tomar a voz Diligência. - Não sente o cheiro do pecado? Precisamos procurar por ela! Precisamos exterminá-la, custe o que custar!

Não pegue tão pesado com a Bondade, Diligência. - Chamou a atenção II. - Sabe muito bem como ele costuma agir.

Além do mais, - A voz que vinha do número I se pronunciou. - não há nada aqui. Ela deve ter escondido-se entre todos os outros. Será impossível distinguir o cheiro do pecado dentre tantos mais.

Talvez tenha razão, Valor. E quanto a você, Generosidade, mantenha o olho em seu irmão.

Ele é seu também. - Voltou a se pronunciar II. - Humildade, está em silêncio. Ocorre algo?

Não, nada. É que ver esta cena me dá tristeza. - Foi a vez de VII. - Me

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lembra daquele dia... –

Vamos voltar. A partir daqui, não é mais nosso domínio. Sabe muito bem que apenas guardamos esta entrada. - Disse III, recebendo aprovação dos outros.

Sempre com uma ótima opinião, Liberalidade. - Disse Valor. - Vamos esperar que venha até nós. Estaremos aguardando.

E todos voltaram pelo mesmo vórtex de que tinham saído. Qlon olhou tudo de um ponto escuro entre os becos, com Lua em seus braços. Quando tudo desapa receu no infinito escuro do universo e as luzes voltaram ao normal, Lua acordou, ainda meio desorientada, e perguntou a Qlon: –

Você está bem?

Deveria preocupar um pouco consigo mesma, mestra.

O que aconteceu?

Longa história. Por enquanto, vamos procurar abrigo... Pode levantar-se?

Lua cambaleou. Suas pernas tremiam como varas verdes expostas a um vendaval. Caiu sobre seu próprio peso, mesmo que quase inexistente no satélite. –

Temo não conseguir.

Como vamos mover-nos, então?

Por aqui...

Uma voz desconhecida, suave como uma pétala de rosa, ressoava por trás de uma porta aberta em uma pequena fresta. –

E podemos confiar em você? - Perguntou Qlon, sussurrando.

E tem alguma outra escolha, por acaso? Venha, ande logo. Estas ruas não são tão seguras quanto acham que deve ser, andando por aí e fazendo barulho com suas conversas.

Qlon meditou por poucos segundos. Não vendo outra opção, tentou arrastar Lua até a porta o mais rápido que pôde. Apesar de confiar naturalmente nos outros, aquela era uma situação delicada. Por fim, dentro da casa, a voz se revelou. Era de uma mulher pequena, quase do mesmo tamanho de Qlon, mas pelo desenvolvimento do corpo, mostrado pelo contorno de seu vestido puramente branco, de manga longa e que descia até os joelhos, e um decote que fazia seus seios quase saltarem aos olhos por causa do corpete de couro que usava por baixo do busto, percebia-se que era mais adulta. Tinha longos cabelos castanhos, cacheados e oleosos, que desciam até suas canelas. Usava uma tiara de madeira para afastar a franja. Duas pequenas

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asas saíam de suas costas, mas eram tão pouco formadas que suas penas maiores mal tocavam suas nádegas. Em compensação, tinha olhos que pareciam roubar a cor de uma galáxia inteira. Da pupila para fora, a cor parecia explodir em um gradiente de azul cristalino para chegar em um violeta profundo na borda de sua íris, tão expressivos e brilhantes quanto poderiam ser. Pés pequenos, justos em uma sapatilha de madeira, igual suas mãos e seus dedos, pequenos e finos como um graveto. Extremamente branca, tal que sua pele quase transparente mostrava boa parte de suas veias, mesmo em sua panturrilha. Assim que olhou para Qlon e para Lua, sorriu. Um largo sorriso de dentes bem feitos, que se escondiam atrás de uma boca pequena e bem delineada. Após uma pausa, ela disse: –

Estão a salvo agora. Sua amiga poderá descansar aqui, jovem mestre.

Mestre? Espere... Tenho muitas perguntas. - Tentou chamá-la de volta, enquanto ela estendia um lençol um pouco amarelado de sujeira em seu sofá, perto de uma pequena lareira, onde chamas quase mortas consumiam ainda algumas pequenas rochas acinzentadas, que julgava Qlon não ser carvão.

Suas perguntas podem esperar um pouco, jovem mestre? Creio que tratar de sua amiga seja o mais prudente a se fazer agora.

Qlon engoliu as palavras que estavam prestes a sair e concordou, movendo a cabeça vagarosamente. Após arrumar a cama improvisada, a estranha colocou o braço de Lua atrás de seus ombros. Qlon fez o mesmo com o outro, e mesmo sendo menores que ela, a arrastarem até o sofá e a deitaram. –

Gostaria de alguma coisa, mestra? - Perguntou Qlon à Lua.

Somente descansar um pouco. Vou fechar meus olhos por um instante, monte guarda esta noite...

Noite? Pelo que parece, aqui é sempre noite... Mestra?

Tarde demais. Ela dormira tão rápido que seus olhos e boca ainda estavam entreabertos. Respeitosamente, Qlon os fechou com a ponta de seus dedos. –

Então... Como devo chamar-te?

Meu nome é Zarat. Zarat Xcallber. Prazer em conhecê-lo, jovem mestre. É realmente uma honraria inigualável. - Disse, ajoelhando e beijando sua mão esquerda.

Bem, para começar com as perguntas... Por que motivos me chama de jovem mestre?

Pelos seus olhos, posso perceber de que casa faz parte. É da família

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Eros, meus antigos senhores. Deveria estar acostumado a esse tratamento, ou estou errada? –

Errada, pois minha mãe, apesar de ser uma Eros, nunca me deu honrarias pesadas demais para que eu pudesse carregar, e acho que mesmo como o herdeiro legítimo do trono, jamais gostaria de ser tratado tão cheio de cuidados com a voz. Gosto de ser tratado como qualquer anjo comum. Não me sinto tão diferente assim, apesar de saber o fardo que carrego sendo herdeiro desta casa.

Tem sangue de um nobre, mas age como um cavalheiro. E ainda assim, é tão jovem... Será um grande rei um dia. Se me perdoar a rude pergunta, qual é seu nome completo, meu senhor?

Qlon Warrior Eros. E não precisa pedir perdão por algo tão sem importância quanto isso. Como disse, gosto de ser tratado normalmente, então... Se puder parar de chamar de “mestre” uma criança de apenas cinco anos, ficarei grato. E por favor, fique logo de pé!

Se assim deseja... - Disse Zarat, levantando-se. - Como deveria chamá-lo, então?

Apenas de Qlon. Não preciso de nada mais que um nome.

Zarat sorriu novamente. Qlon se sentia confortável com seu sorriso. Um sorriso tão puro e tão formoso, onde até as maçãs do rosto saltavam e salientavam sua face de bochechas rosadas. –

Tens mais alguma pergunta, jo... Digo, Qlon?

Sim, mas apenas uma curiosidade: Disse que costumava servir a família Eros, então... Como veio parar aqui?

Séculos atrás, um dos de nossa família tentou roubar as joias da rainha. Os soldados descobriram quando adentraram o quarto da majestade para fazer uma verificação de rotina. Para se defender, nosso parente matou um dos soldados, mas acabou por ser preso por outros guardas reais. Fora levado a corte, julgado e sentenciado à morte. Como punição adicional, o resto da família fora mandada para o exílio. Ou seja, aqui.

Isso é injusto demais... Uma pessoa não deveria arcar pelos erros de outra... Mas sabe por que ele roubou?

Tudo que sei são as histórias que meus pais me contaram antes de falecer. O criminoso aparentemente era meu tio, e queria presentear sua amada com as joias. Foi muita imprudência, mas homens, quando apaixonados, são todos loucos mesmo... Não que vá entender, Qlon. Parece ser muito novo para isso...

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Realmente, não entendo. Mas também não acho que tenha sido uma pena justa para ele. Apesar de ter sido um crime nada inteligente e muito singelo, matou um dos guardas na sua tentativa de fuga. Merecia a morte, apesar de que a morte dele não pagaria pela vida do soldado morto e nem pela tristeza dos seus familiares...

Realmente. É muito sábio para alguém de sua idade. Deve ser o orgulho da família. - Disse, virando o seu rosto enquanto secava com as mangas de sua vestimenta algumas lágrimas que pareciam brotar de seus olhos. - Mais alguma coisa que deseja saber, Qlon?

Só mais uma coisa... Por que nos ajuda? Todos aqui parecem ser tão... tão... - Qlon não achava uma palavra amena para descrevê-los.

Frios? Bem... Apesar de nossa família ter sido exilada, ainda somos anjos, e a bondade ainda reina em alguns corações. Em poucos, pois a maioria aqui guarda rancor. O perdão é divino, mas parece que nem todos os anjos são. Mesmo assim, gostaria apenas de ajudar.

Obrigado pela ajuda. E como sinal de gratidão, eu prometo: quando eu voltar ao meu lar, intercederei por sua família. Eu juro.

Muito obrigada, Qlon. Mas não precisa se assim não desejar... Além do mais, sou a única que sobrou daqueles de meu sobrenome...

É o mínimo que posso fazer. Não posso garantir seu retorno... Mesmo porque, será complicado explicar o que eu estava fazendo em Lunae para que conhecesse a você, mas darei meu melhor. Ah, ainda tenho mais uma pergunta. Garanto que será a última...

Pois bem, o que mais deseja saber de mim?

Como chegar no andar superior?

Quer dizer, a Mercurii? A única forma é conjurar um vórtex na fonte celestial e ser julgado pelas sete virtudes. Pelo menos que eu saiba. O plano astral não pode ser dobrado sem que as virtudes tomem conhecimento disso.

Mas elas não estavam nos caçando a pouco tempo atrás?

Sim, e eu sei o porquê... Ao menos eu penso que sei. Mas para explicar isso, sua mestra precisaria estar acordada. É algo que a envolve.

Qlon olhou para o rosto de Lua. Sua respiração estava pesada, mas quase não emitia som algum. Para ter mais respostas, precisaria esperar que ela abrisse seus olhos, mas não sabia se teria tamanha paciência. Era curioso, e até saciar sua sede de conhecimento não se distraia ou se aquietava.

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Por que acha que envolve ela? E afinal, o que está acontecendo? - Perguntou Qlon, já demonstrando sua impaciência.

É uma história antiga, que acontecera antes mesmo de minha humilde existência. Meus pais a contaram para mim, pois a presenciaram. Sua pena no exílio havia começado.

E que história é essa? Ande, diga!

Tenha paciência, Qlon. Saberá assim que ela acordar.

Qlon sentiu-se ignorado. Uma criança tão recheada de mimos maternos não gostava de algo parecido. Fechou o rosto e inflou suas bochechas como ar, demonstrando profunda irritação. Zarat levantou-se, e enquanto se curvava para pegar um pequeno bule de ferro que se aquecia na lareira, deixou escapar um sorriso tímido em seus lábios, e pensou: “Apesar de suas palavras adultas, realmente, não passa de uma criança.” … O tempo se arrastava a passos curtos. A noite daquele lugar parecia não ter fim, apesar de que, durante a fase de lua nova, o sol queimava a superfície lunar. Da janela perto do sofá, onde sua mestra jazia quase imóvel, não fosse o subir e descer de seus seios devido à respiração, Qlon podia ver quase nada. O topo de alguns edifícios de quatro, cinco andares, ofuscava a sua visão entre aqueles becos. O céu só podia ser visto por pequenas frestas entre as construções e, mes mo assim, nada mais que poucas estrelas se mantinham visíveis naquele curto espaço. Já estava ali parado a mais de uma hora, pensando. Está certo que uma criança nesta idade não tem muito a filosofar sobre a vida e seus conceitos, mas até mesmo ele era capaz de enxergar a complicação que sua jovem vida estava se tornando. Imaginou treinar na base, com um bom mestre que ensinasse ele e seus outros pupilos a manejar uma espada e matar os anjos caídos. Nada mais. Jamais imaginou parar com uma mestra de um passado incerto, cujos métodos letivos, apesar de eficientes (lembrou-se do teleporte), eram um tanto quanto duvidosos, e que o arrastara até aquele perigo por um motivo pessoal. Como ele, que sempre recebera elogios de sua família por ser uma criança precoce, conseguiu não notar até o devido instante a estranha situação que se abatera sobre ele? Apenas a desculpa de conhecer mais sobre sua origem fora suficiente. Mas, apesar de tudo, aquele era um bom aprendizado. Pensou também em seu pai. Por que havia partido? Nunca recebera nenhuma explicação derradeira. Se sentia quase que um órfão, e o pior: do homem a quem mais idolatrava sem nunca antes ter visto seu rosto pessoalmente, apenas por retratos. As histórias que ouvia sobre seu progenitor eram tão gloriosas que enchiam seus olhos de brilho e contentamento. Afinal, matar um dos grandes generais do inferno não é

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algo que mero anjo faria. Aliás, nem mesmo um mero serafim. Já emaranhava seus neurônios em outro pensamento quando sua mestra gemeu um pouco, pondo a mão em sua cabeça. Qlon olhou ao redor, procurando pela pequena Zarat, mas se lembrou que ela havia saído para arrumar alguma comida entre os poucos mercadores que ali se estabeleceram. Lunae, apesar de apresentar diversas adversidades à vida, tinha um bom aspecto: um solo extremamente rico em nutrientes. Tal solo alimentava pequenas plantações na periferia da cidade, que podiam gerar apenas o suficiente para uma subsistência. –

Graças aos deuses! Sua temperatura está normalizando. - Disse Qlon, depositando suavemente a palma de sua mão sobre a testa de Lua.

Quanto tempo... Onde...

Você desacordou por quase duas horas. Estamos na casa de Zarat, uma belíssima dama que nos cedeu ajuda. E descanse mais um pouco. Quando ela voltar, faremos uma refeição para que possa recobrar as energias.

Apesar do ardente desejo de Qlon de falar que a queria acordada para finalmente ouvir a história, deixou um pouco de seu egoísmo para pensar naquela que era cara no instante. Lua fechou novamente os olhos e caiu em um sono profundo instantaneamente, dessa vez com uma respiração mais calma. Qlon pegou o pano que estava ao seu lado, molhou em uma bacia com água fria e a depositou novamente na testa de sua professora. Com o serviço concluído, voltou a meditar na janela. … Não se passou muito tempo desde o último despertar de Lua até a volta de Zarat, se muito uns vinte minutos. Ela carregava consigo uma bolsa, cheia de nabos, pepinos, cenouras, batatas e até mesmo uma pequena abóbora. –

Qlon, ajude-me a preparar a refeição.

Qlon se colocou de pé. A cadeira deixara suas nádegas doloridas de tão dura, mas não importava. Foi até o cômodo chamado “cozinha”, que nada mais era que a mesma sala revestida por um piso gélido e rígido, cheio de pequenos buracos. Ele havia retirado as sujas botas por educação, mas deveria ter seguido o conselho de Zarat e ficado com elas. Era certamente penoso pisar naquele chão irregular. –

E então, Qlon, nossa “paciente” já acordou? - Perguntou Zarat enquanto descascava as batatas.

Sim, e não faz muito tempo. Ela estava meio desorientada, acho que teve um sonho ruim ou mesmo uma alucinação, então coloquei-a para dormir novamente.

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É comum a quem não está acostumado com esta gravidade, pode ter certeza. Aliás, até me surpreende que você não teve, ainda, a mesma reação que ela. É apenas uma criança, os efeitos desta gravidade nula deveriam estar deixando-te louco.

Bem, então eu acho que sou um pouco mais resistente do que previra.

Ambos deram risinhos tímidos, abafado pelas chamas que saiam de um velho fogão a lenha recheado daquelas pequenas pedras negras. –

Zarat, se não se incomoda com a pergunta... Que pedras são essas?

Esta é uma rocha lunar um tanto quanto abundante abaixo da primeira camada do solo lunar. O povo daqui a chama de Breu, e ela é capaz de manter fogo aceso por horas sem muito desgaste.

Interessante. Poderia dar-me algumas mais tarde? Podem vir a ser úteis em nossa jornada.

Claro, mas no momento, vamos nos concentrar na comida. Sabe, Qlon, algumas mulheres apreciam mais um homem que saiba cozinhar do que um homem que saiba lutar.

Por quê?

Um homem que sabe lutar e protege a todo o reino é comum. Mas um homem que poupa serviço de sua mulher e agrada seu paladar, com certeza também é um grande cavalheiro.

Então, mulheres são conquistadas pela boca, assim como os homens?

Zarat gargalhou, quase deixando derrubar uma amassada panela preta de ferro. Alisou o cabelo de Qlon como quem afagaria um animal doméstico, e voltou a se concentrar na comida. Ambos cozinharam entre brincadeiras e risos, se descontraindo um pouco do tenso ambiente que se formara mais cedo no mesmo dia. E o tempo se arrastava... … Chegou, por fim, a hora de todos partilharem do alimento. Uma sopa de legumes havia sido feita, mas sem uma massa. Uma sopa um pouco rala, mas mestra e aluno estavam agradecidos, pois a muito não comiam. Acabada a refeição, Lua foi a primeira a se declarar: –

Você disse a meu pupilo que sabia o motivo de as virtudes terem sentido nossa presença e vindo até nós. Isso é verdade?

Isso não sei, é apenas algo que disse pensando em uma antiga história que meus pais me contaram antes de morrerem. Eu mesma não vi pessoalmente, mas... A criança do conto também bailou perto da fonte...

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Cap. 13 – Uma História Esquecida

Q

lon ajeitou-se na cadeira em uma tentativa inútil de achar uma posição confortável naquele sólido pedaço de pedra. Não queria perder nem ao menos um detalhe da história, e isso o deixara um tanto inquieto. Lua mantinha uma respiração controlada, mas seus olhos expressavam uma incontrolável angústia. –

Dizem que, há muito tempo, - Começou Zarat. - uma família fugida do céu chegou a Lunae. Era a semana do meio-dia, como chamam aqui na lua o período que esta face é completamente exposta ao sol. No seu planeta é a fase de lua nova. Traziam consigo uma pequena criança de longos cabelos dourados e que formavam caracóis.

E o que aconteceu? - Tentava apressar Lua.

Acalme-se, chegarei nessa parte. - Prosseguiu Zarat, sem dar muita atenção à Lua. - Esse casal estava banhado em sangue, mas não pareciam ser os pais verdadeiros da garota, pois ela tinha três pares de asas e eles apenas dois. Ambos fugiram pelo vórtex celestial, carregando a criança em seus braços. Estavam encharcados de sangue e suor da cabeça aos pés, e mal podiam falar. Alguns anjos tentaram socorrê-los, mas era tarde demais. Eles morreram pelas feridas ao entrar no plano mortal, mas a garota sobreviveu. A criança não devia passar dos três anos, e estava completamente aterrorizada, não parava de chorar.

Qlon mantinha-se atento a cada palavra pronunciada, e parecia imaginar a cena em sua cabeça. Não era difícil pensar em Lua com um rosto infantil, pois parecia que ela ainda não passara nem dos quinze anos, tamanha a perfeição de sua face. –

Não demorou muito para as virtudes virem atrás dela. Ninguém sabe o motivo disso, mas eles vieram do vórtex perguntando pela garota, que uma mulher já havia aninhado em seu colo para dar proteção. Eles pediram, mas a mulher não quis dar. Eles ameaçaram ela de morte por acobertar uma fugitiva, e mesmo assim ela não cedeu. Outros anjos que aqui viviam, revoltados com a cena, propuseram-se a acobertar sua fuga, e protegeram-na dando suas vidas enquanto ela corria para longe.

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E depois? - Perguntou Qlon, como um garoto faminto por histórias.

Não adiantou muito. As virtudes são muito poderosas, jovem Qlon, e em poucos segundos todos os anjos e arcanjos exilados que se revoltaram haviam encontrado uma morte dolorosa e rápida. Eles correram pela cidade atrás de tal mulher, que carregava consigo a pequena sobrevivente de um possível massacre, mas ela já parecia haver sumido entre os becos. Eles ameaçaram qualquer um que a ajudasse com a morte, e mesmo assim alguns cidadãos tentavam inutilmente barrar o caminho enquanto tal moça procurava um abrigo. Até hoje, diz-se que, naquele meio-dia, quase toda a população de Lunae fora morta enquanto tentavam proteger aquela pequena estranha.

Está aí um bom motivo para aqueles que sobraram terem ficado frios como o gelo de inverno. - Disse Qlon. - Mas desculpe-me a interrupção, continue o relato.

Bem... Parece que a jovem conseguiu se esconder em uma casa, e ocultou a garota em um jarro de água quase vazio, como aquele. - Falou, apontando para um jarro bem arredondado, feito de argila e com uma tampa simples. - Pediu para que ficasse quieta, e saiu pela rua correndo novamente. Não conseguiu prosseguir mais de dez metros e morreu. As virtudes investigaram a casa, mas como nada encontraram, a deixaram lá. E naquele dia, perto daquele monte de cadáveres, amaldiçoaram a fonte e a área ao entorno dela. Poucos cidadãos sobraram vivos.

E a garota? - Lua e Qlon perguntaram em uníssono.

E o mais importante: - Prosseguiu sozinha Lua. - Como que ela foi acabar dançando perto da fonte?

Vocês são ansiosos demais. Após as virtudes retornarem pelo vórtex, quando já era meia-noite, o período de lua cheia em seu planeta, a garota finalmente saiu do jarro. Estava sem comer havia dias, mas ainda assim estava viva por causa da pouca água que restara no vasilhame. Bebia aos poucos de tamanho medo, e dizem alguns que sobreviveu bebendo também de sua urina, já que fazia suas necessidades também naquela vasilha.

Qlon sentiu uma enorme ânsia de vômito, mas continuou a ouvir o relato. A sopa rala que caíra em seu estômago estava seguramente presa em sua garganta. Lua também se sentiu um pouco enojada de sua possível atitude. –

Me desculpe, Qlon, - Disse Zarat. - mas estou apenas sendo fiel aos detalhes. Enfim, após sair, alguns diziam que ela estava delirando e muito doente, provavelmente uma infecção intestinal devido àquela sujeira toda dentro do jarro. Todos achavam que ela havia desaparecido.

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E então... - Lua queria saber o término, assim como Qlon.

Então ela se encaminhou até os cadáveres na praça. Como ninguém mais se atrevera a se aproximar de lá, os corpos estavam em decomposição e ela se sujou, misturando-se a eles.

Foi demais para a pequena criança. Correu até a janela e vomitou. Lua continuava escutando, afinal, aquele era seu passado. Quando Qlon retornou, Zarat ofereceu um pano para limpar a boca e ele aceitou, tirando um pouco de suco gástrico e pequenos pedaços de legumes que escorriam por sua boca. Então, Zarat prosseguiu a história. –

Os que viram a cena, e meus pais estavam entre eles, ficaram chocados e diziam que ela estava louca, pois após alguns segundos ela passou a dançar em meio a eles, dizendo apenas: 'Não conseguem ouvir a melodia?'. Tentaram a chamar de volta ao seu juízo assim que o vórtex começou a se abrir, mas nada escutara. E assim que as virtudes começaram a surgir, um pânico tomou seus olhos, e, com um grito, ela os atirou para o vórtex de onde saíram, e o fechou. Seu poder estava fora de controle e ela passou a destruir algumas das casas vizinhas com sua voz. Por sorte, desmaiou. E, por mais sorte ainda, um estranho estava de visita e, ao ver a cena, ficou surpreendido com a garota e a levou em seus braços, prometendo cuidar dela. Alguns moradores que sabiam dos relatos tentaram convencer ele do contrário, contando a maldição que a garota carregava consigo, mas fora inútil.

Que história... Chocante. - Disse, por fim, Lua.

Ainda estou tentando recuperar-me de certas partes nojentas. - Falou Qlon sobre efeito da náusea.

Pequeno Qlon, se quer ser um cavaleiro um dia, melhor controlar teu estômago. - Disse Zarat, friamente. - Acha que em um campo de batalha as coisas são mais belas? Esteja preparado para cenas bizarras.

Me sinto um pouco envergonhado pelo descontrole, mas acatarei seu conselho.

Lua permanecia quieta em sua cadeira, olhando para o vazio, pensativa. Qlon a encarava, tentando obter uma resposta em seu rosto enigmático. Por mais de minuto ela permaneceu com a mesma inexpressão, tentando recobrar o fôlego. Nem mesmo os acenos de Zarat a fizeram acordar. Por fim, disse, curvando sua cabeça em forma respeitosa: –

Zarat, se não for muito incômodo, eu e meu pupilo podemos pernoitar aqui? Prometo que seremos cuidadosos e a ajudaremos em seus afazeres domésticos.

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Mas é claro, não precisava nem pedir. Eu ofereceria meu lar para descansarem enquanto acharem necessário. E não se incomodem em me ajudar, sou descendente de uma família de criados, posso cuidar de meus afazeres.

Muito obrigada. Qlon, - Disse Lua virando-se a seu aluno. - não estou sentindo-me muito bem. Preciso dormir. Pela manhã, partiremos rumo ao nosso planeta. Não podemos deixar abusar da hospitalidade de Zarat, e como ela disse, é impossível para mim passar pelo vórtex.

Mas, mestra...

Sem discussão. Apenas obedeça. E descanse também, não creio que essa história tenha feito muito bem ao seu estômago.

Levantou-se e foi para o sofá onde havia dormido antes. Estava com uma face triste. Qlon levantou e, curvando-se, agradeceu a Zarat. A espada de seu pai repousava em um canto do pequeno cômodo que era ao mesmo tempo três: sala de jantar, sala de estar e cozinha. E, junto a ela, sentou e reclinou suas costas na fria parede de pedra. Fechou os olhos, mas soube que, mesmo naquela escuridão toda, não poderia dormir. … “Naquela 'noite', eu não pude deixar de pensar o quanto era penoso para Lua ouvir o que Zarat tinha dito. Eu olhei o seu rosto, e vi o descontentamento em seus olhos. Era quase como se uma última esperança fosse arrancada do fundo dela, deixando-a indefesa e sem rumo. Naquela época eu não entendia muito bem aqueles sentimentos, mas pude perceber que era a mesma maneira que mi nha mãe olhava, vagueando o vazio com seus olhos, enquanto pensava no meu pai. Não, aquela viagem não poderia ser em vão. Eu fiquei decidido a criar um plano e o criei, com bastante esforço. E, naquela minha primeira grande atitude altruísta, pude sentir-me um pouco como achava que meu pai sentia-se ao salvar os milhares de vidas que depositavam nele a sua confiança. Estava tornando-me um jovem herói.” … Horas se passaram até que Lua finalmente despertasse. Como não se tinha ideia do que era dia e do que era noite em meio ao negro do céu que tomava conta do lugar, Qlon não proferiu seu habitual “bom dia” ao ver sua mestra, enquanto estava sentado à mesa comendo uma fruta a que chamara alegremente de café da manhã. Lua tinha duas negras e pesadas bolsas em baixo dos olhos, o que fez Zarat perceber que ela fora a única a ter um sono completo. A anja dos cabelos dourados e encaracolados pegou também uma maçã pequena, e a deu mordidas bem espaçadas. Não mencionara uma palavra desde o dia anterior, e o clima tinha tornado-se desconfortável entre eles.

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Mestra, eu pensei muito ontem a noite, e queria que soubesse que estou disposto a descobrir seu passado. Eu criei um plano e... - Quebrou o si lêncio o pequeno tolo de cinco anos.

Não adianta, Qlon. É impossível. - Lua disse, desgostosa. - Não ouviu? Eles estão atrás de mim. Não há como entrar. Nós falhamos antes mesmo de tentarmos.

Ao menos ouça meu plano, eu garanto que pode vir a interessar-te...

Silêncio! - Sua voz saltou para um tom de ira subitamente, assustando os dois companheiros. - Não quero mais ouvir uma palavra.

Lua retirou-se da mesa e saiu da casa a passos curtos, mas nenhum dos dois atreveu-se a seguí-la. Qlon manteve a cabeça baixa por algum tempo. Lágrimas escorreram de seus olhos. Zarat o abraçou e colocou sua cabeça em meio a seus grandes seios, e disse apenas “Chore, criança.”. … Lua havia regressado. O triste olhar não havia fugido de seu rosto. O ar melancólico dela não agradava a Qlon desde que ela acordara, não gostava de ver sua mestra abatida. Talvez por isso decidiu ajoelhar-se na frente da porta e esperar seu retorno. E ali estava, com a espada embainhada nas pernas, esperando o retorno de sua mestra. Ela olhou Qlon de cima, um pouco surpresa com aquilo, mas ainda se mantinha rígida, com uma expressão invariável. Qlon olhou-a de baixo, com olhos ainda cheio de lágrimas, e um nariz vermelho. Reuniu fôlego e um pouco de coragem para dizer o que diria. Estivera pensando nas palavras a tarde toda: –

Mestra, eu sei que está abatida ao saber o que se passou, mas não posso admitir retornar sem terminar a minha missão. - Sua voz era rouca e grave, e ainda meio chorosa. - Por isso, não quero desistir! Quero a ajudar a encontrar seu passado, e não vou medir esforços para isso!

Lágrimas brotavam dos olhos de Lua, e sua expressão misturava um pouco de tristeza e ira. Ela se ajoelhou, sem dizer uma palavra, abraçou Qlon pelos ombros e desatou a chorar. Qlon sentia as pesadas lágrimas tocarem suas vestes já um pouco sujas com o passar do tempo, mas retribuiu a atitude. Desta vez, havia agido mais do que como um simples aluno: estava agindo como um verdadeiro amigo. Até mesmo Zarat, que os olhava do alto de uma pequena escada de madeira que conduzia até seu quarto, se emocionou e deixou gotas salgadas correrem pelo seu rosto. … De faces secas, devidamente alimentados e descansados, mais um dia havia passado. O sol já começava a surgir em um horizonte distante, mas sua luz reve-

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lava as duras paredes de pedra daquele lugar nada hospitaleiro e de uma agres sividade e rancor ocultos por entre as muitas portas de madeira cerradas. Os três encontravam-se sentados à mesa, mas essa era a vez do mais novo de todos eles se pronunciar. Qlon, como um cavaleiro, colocou sua arma em cima da mesa, mostrando assim sua honra e sua presença. E, calmamente, pronunciou seu tão esperado discurso. –

Como eu queria dizer a vocês, eu tenho um plano. Um plano para entrar em Mercurii, mas apenas eu poderei entrar.

Esperei tanto para ouvir isso, Qlon? - Tomou a voz Lua. - Quer ir sozinho para Mercurii? Mas que espécie de ideia tola é essa? Esperava mais daquele que foi indicado como meu pupilo!

Espere, Lua. - Zarat interveio. - Deixe-o acabar de falar.

Obrigado Zarat. Como eu ia dizendo, Lua não pode entrar sem passar pelas virtudes, e parece que elas não estão atrás de mim. Mas antes de continuar com os detalhes do plano, gostaria de lembrar algumas coisas. Primeiro, eu ouvi há muito tempo atrás que, quando se está no paraíso, o tempo no reino mortal parece estar congelado, não estou correto? Ou seja, o tempo aqui passa mais devagar em relação a eles.

Sim realmente o tempo lá passa mais rápido. Um segundo para nós são quase um mês para eles. E além do mais você quer entrar sozinho. - Interveio Lua. - E como saberia onde ir, pegar as informações necessárias? ... Você ainda é uma criança, por mais que seja inteligente. Então sejamos realistas, mesmo que você entre sozinho, o que em si já seria quase impossível, seria atirar uma flecha no escuro: você nunca saberia se vai voltar, ou mesmo quando vai voltar. Não saberia se mover por lá e nem o que fazer.

Sim, e nem você se me arrastasse para lá, não é mesmo?

Lua calou-se por alguns segundos. Ele estava terrivelmente certo. Como poderia ser tão impulsiva e ter criado um plano tão tolo após ter ganhado liberdade do diretor para treinar Qlon da maneira que servisse melhor? –

Mas você estaria supervisionado por uma adulta. E estaria acompanhado por alguém mais velho e com maior experiência de combate, já que defendi durante anos a entrada da Base por parte de demônios menores.

De qualquer jeito, querida mestra, seria um tiro no escuro. Lá os anjos são muito mais fortes pelo que soube, e ainda pesa o fato de você ser procurada como uma pecadora. Então, não faria muita diferença ir só ou na sua companhia, as chances de sairmos ilesos de lá seria a mesma.

Lua novamente se silenciou. Ele estava certo e ela orgulhosa de seu aluno

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pródigo. Continuou a ouvir, achando que poderia, talvez, surgir algo bom dali. –

Agora devem estar se perguntando: “E como ele fará para entrar?”. Prosseguiu Qlon com o discurso. - Eu percebi duas coisas quando as virtudes vieram. Primeiro, que demora tempo até o vórtex se formar completamente, tanto é que tive tempo de arrastar minha mestra para longe. Algo em torno de uns 20 segundos. Também percebi que demoram-se cerca de 10 segundos para a completa conjuração de um daqueles. Nesse meio tempo, devem se passar muitos meses no céu, ou estou enganado?

Até eles voltarem a entrar... - Tomou a voz novamente Lua, calculando o tempo em sua mente. - Vai ter, na melhor das hipóteses, dez meses de tempo lá. Arredondemos para um ano. Ouvi dizer que quando o vórtex é conjurado entre dois planos, o tempo entre eles se torna igual. Isso se eles perceberem de imediato a sua entrada e se o vórtex se fechar com pletamente atrás de você sem nenhum deles entrar.

Sim. Um vórtex demora cerca de 5 segundos para se fechar após eles passarem. É tempo de sobra para vários anjos passarem por ele. Se uma isca puder prender a atenção de todos eles enquanto o vórtex se fecha, eu poderia passar e ficar tempo suficiente lá para conseguir algo. Mas para isso, precisaria de uma isca importante para trazer todas as sete virtudes ao mesmo tempo para este plano.

Então, seu plano é fazer-me de isca? - Perguntou Lua ao escancarar o óbvio. - E além do mais, já pensou o que pode acontecer a você e à sua família?

Sim, basicamente. Mas você não correria muitos ricos. E também pensei nisso, e não vejo motivos para não arriscar fazer o certo. Acho que morreria com honra, neste caso.

E como não? - Intrometeu-se Zarat. - Ela deve ser a mais procurada entre todas as virtudes!

Pois ela não precisaria nem ao menos batalhar, apenas fugir. Só teria de chamar a atenção tempo o suficiente para que eu pudesse entrar no vórtex. Depois disso poderia se teleportar para longe.

Qlon, há uma falha na sua teoria. - Ergueu a voz Lua. - Quem disse que eles não iriam atrás de mim se teleportando também?

Pelo mesmo motivo que eles não te acharam antes e não te acharam a algum tempo. Esta cidade está repleta daquilo que eles chamam de pecadores, e seu “cheiro” se misturaria ao deles. Bastaria apenas fugir mais rápido e esconder-se em algum lugar. Você não sabe se eles podem se teleportar, e nem eles sabem se você pode. Com a possível surpresa de-

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les, você ganharia alguns segundos de vantagem. E até eles voltarem para o vórtex, após uma suposta perseguição, eu teria a vantagem de mais alguns segundos. –

Sim, mas isso pode deixar-te preso por tempo demais lá dentro, caso eles demorem.

E quem disse que não posso aprender a conjurar um vórtex? E mesmo que eu não possa, não seria melhor ainda para mim? Eu teria mais tempo para procurar relatos e pedaços do seu passado.

Lua e Zarat se entreolharam. Elas sabiam, mas ele ainda não pelo que pare cia. Então, Lua o explicou cuidadosamente: –

Qlon, meu pupilo, herdeiro das casas Warrior e Eros. Mesmo com todo o conhecimento que já possui, vejo que ainda não sabe disso. As conjurações de vórtex são extremamente avançadas. Não é uma magia como o teleporte que, aliás, aprendeu muito rápido. Vários anjos levariam dias e dias nela, e por isso eu considero que tenha uma capacidade de aprendizado muito forte. Mas magias como conjurações de vórtex dimensionais envolvem uma ideia de espaço-tempo que ainda não tem e é muito demorada para aprender. Mesmo eu não sei como conjurar um, é uma coisa que apenas magos muito seletos, como as virtudes, são capazes de fazer. E ainda assim, nada garante que possa usar esse tipo de magia, tendo em vista que nem todos os seres do universo conseguem controlar espaço-tempo. Os que podem, conseguem equiparar-se, em parte, a deuses, visto que são capazes de brincar com a realidade. Seres assim chegam a ser tamanho perigo para os deuses que, quando se manifestam em algum ser não-angelical, nem mesmo as virtudes são enviadas para matar: são mandados os grã-serafins, os guardiões do trono. Os deuses os mandam pessoalmente para eliminar essa ameaça. Entende agora a complexidade?

Sim, com certeza entendo. Mas eu também posso esperar que eles abram outro portal e sair por ele. Entenda que, de qualquer jeito, meu plano envolve uma saída para mim. E não descarte assim a hipótese de eu não poder aprender enquanto permaneço lá. Isso me parece até mesmo com um desafio.

Tudo bem, meu pupilo. Eu entendo o seu plano e acho ele... Bem, tendo em vista que não é um pecador e com certeza eles nem notarão sua presença, parece ser um ótimo plano. Mas ainda estaria disposto a arriscar tudo mesmo sabendo que há a chance de nunca mais voltar? Está disposto a arriscar sua vida e a vida de sua família?

Não descarto essa hipótese, mas confie em mim. É a nossa única chance. A minha de ter um “aprendizado maior” enquanto lá permanecer e a

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sua de ter alguma pista sobre seu passado. Sei que é muito cedo para coisas do gênero... Além do mais, é uma loucura isso tudo acontecer tão rápido na minha vida... Mas creio que tudo possui um propósito. –

Você definiu bem. Isso é loucura de sua parte. - Disse Zarat com um pouco de peso na voz. - Está arriscando a sua própria vida e sabe disso, mas mesmo assim não deseja parar? Você é muito novo, tem uma longa vida pela frente e quer jogá-la fora assim?

Estou com Zarat nesse ponto, Qlon. Por que se arriscar tanto assim? Você é muito novo para querer ser um herói. Arriscar a sua vida desta forma, sem nem ao menos considerar o sentimento de seus parentes ao nunca mais poder ver teu rosto. Lá você não pode morrer, mas pode ficar preso em uma prisão astral durante toda a eternidade. E então, o que faria? Você é muito novo, e não posso deixar a vida de meu pupilo acabar assim. Ainda é uma criança que mal aprendeu a lutar...

Uma criança que quer ver a felicidade de sua mestra. Posso não parecer velho o suficiente para tomar uma decisão tão importante quanto esta, mas eu quero tentar. E se quiserem impedir-me, irei impor meu título real de príncipe, como primeiro herdeiro ao trono, para que sigam meu plano. De acordo com meus avós, tenho essa autoridade. Não gostaria de usála nunca, mas a possuo.

Quanta petulância... - Disse Lua com uma voz que ia se elevando à medida que falava. - Você ainda é meu pupilo, e está aos meus cuidados! Não pode se impor como um príncipe perante mim, não seja arrogante a esse ponto!

Qlon abaixou a cabeça, mas antes conseguiu ver mais lágrimas escorrerem do rosto de sua mestra, misturados a um amargo sorriso. Sentia-se envergonhado. Realmente ainda era jovem demais para querer dar ordens, tanto quanto um comandante como quanto um sucessor ao trono. Em que estivera pensando? Queria sentir-se um herói, mas talvez realmente fosse criança demais para um ato tão arriscado. Agora percebia o quanto se precipitara. Ainda assim, seria um pouco mais petulante. Bateu suas mãos na mesa de pedra, fazendo com que seu sangue pulsasse para suas palmas. Ignorou a dor e começou seu discurso. –

Já foi irresponsável ao me trazer aqui para seus propósitos egoístas, arriscando a minha vida, e agora quer pensar em tomar uma atitude que o beneficiaria? Quanta hipocrisia! Não parece estar apta para ser uma mestra agindo dessa forma! Em que VOCÊ estava pensando?

Lua se calara. Engolira suas palavras e suas lágrimas rapidamente. Sentia-se completamente envergonhada, não tinha palavras para rebater aquilo. No auge de sua infantilidade, ele deixou a casa, batendo a porta ao sair. Comportou-se de tal forma que envergonhou-se de si, e foi refletir sozinho.

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Cap. 14 – Despedidas

U

m erro acabaria custando suas vidas. Qlon sabia disso quando se retirou da casa naquele dia. Sabia que era muito jovem, sabia que estava arriscando muito e que as chances de conseguir eram demasiadamente baixas. Sabia também que estava comportando-se como a criança mimada que, de fato, era. Mas mesmo assim, sabia que aquilo era o certo a se fazer, o certo a se tentar. Seu pai teria feito o mesmo, tinha aquela certeza em seu pe queno, tolo coração. Ele soubera pela voz de Zarat que os anjos nem sempre eram tão justos, sentia que aquilo que acontecera a Lua também não deveria ser de muito orgulho para o nome da raça mais pura e imaculada, cujas lendas se espalhavam entre os homens desde os tempos mais remotos. Seu pai não aceitaria calado. Dirigiu-se a passos largos para fora da cidade. O pouco tempo que tinha passado por aquelas ruas fora o suficiente para decorar o caminho de volta. Tudo parecia mais distante, mais escuro, mesmo com alguns pequenos filetes dourados surgindo do horizonte à sua frente. Queria um lugar sozinho para pensar e descontar sua raiva. Havia sido agressivo, sabia disso. Mas ela precisava ouvir aquilo para notar aquilo que que tinha feito. Agora, apenas duas opções resta vam: voltar para a Base como derrotados e tentar esquecer aquilo que ocorrera, seguindo normalmente com o treinamento ou arriscar o plano de Qlon. Jamais imaginaria tudo isso para seu segundo dia de treino. –

Qlon, espere. - Uma voz conhecida o chamou.

Sim, Zarat? - Perguntou o pequeno anjo, virando-se.

Eu entendo que queira ajudar, mas não acha o que disse a Lua um pou co extremo? Ela estava realmente triste e calada quando vim correndo atrás de ti.

Eu imagino, mas eu acho que essa dosagem de verdade a fará bem. Só queria que ela visse o quanto nossas opções são limitadas...

Qlon...

Volte para sua casa e cuide de minha mestra. Retornarei quando achar que pensei o suficiente. - Ordenou, virando-se e voltando a caminhar.

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“Eu realmente precisava de um tempo sozinho. Como uma criança precoce, eu também era um pensador precoce, e costumava meditar algumas vezes. Será que eu estava agindo precipitadamente? Realmente, não seria melhor voltar para o planeta natal? Afinal, se eu não tivesse ouvido falar daquela missão dias antes eu nem estaria ligando para ela no momento. Questões tomavam a minha mente mais rápido do que eu podia formulá-las. Foi com aqueles pensamentos que passei um longo tempo nos portões de Lunae. Sentei em meio ao chão irregular e fiquei ali, parado, com a espada em meu colo, tentando tomar a melhor decisão... Será que ele também ficava assim?” … O tempo se arrastava sem qualquer meio de medição, a não ser por parte do sol, que mostrava pequenos raios dourados em um horizonte, como se fosse o seu nascer naquele lugar. Tirando o fato que o sol demorava dias para nascer ali, era basicamente ver o mesmo do que em seu planeta natal... Quando achou que já havia meditado o suficiente, levantou-se e limpou as calças com umas batidinhas. Ainda de cabeça meio baixa, voltou para a casa de Zarat. O caminho nunca parecera tão longo. Mal poderia encarar Lua após ter dito tudo aquilo, se sentia envergonhado, como quem não tinha o direito de dizer o que disse. –

Bem-vindo, meu pupilo.

Lua estava parada à porta com um sorriso na face. Ao contrário do que Qlon imaginara, não havia uma lágrima sequer em seus olhos. E ali estava ela, de braços abertos, literalmente, apenas esperando seu retorno. Qlon deixou que lágrimas finalmente escorressem pelo seu rosto, e quando correu de encontro ao seu abraço, pôde apenas sussurrar: –

Desculpe...

Tudo bem, Qlon. Está perdoado. Agora entre, se quisermos seguir o seu plano, precisamos nos preparar antes...

Qlon estava ocupado demais para sentir dúvida, apenas seu remorso tinha espaço naquele momento. … –

Como assim seguir meus planos? - Perguntou Qlon, agora sim podendo expressar o que sentia.

Comia um pão tão duro quanto uma pedra, mas que parecia um manjar. Seu estômago não estava preparado a passar tanto tempo sem comer decentemente. Algumas maçãs e uvas completavam aquilo que seria sua refeição. Lua olhava para ele com um olhar severo, impenetrável. Mesmo que ela tivesse perdoado-o pelo que tinha dito, ele ainda sentia um certo incômodo. A vergonha o consumia aos poucos, fazendo com que desviasse o olhar a todo custo.

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Eu pensei no que disse Qlon... E se não quer desistir, não o impedirei. Acho que de qualquer jeito não teria um treinamento muito normal. Nunca tinha sido mestra antes. Meu treinamento na base fora duro, mas mesmo assim não me sinto capaz de lecionar, ainda mais depois dos últimos acontecimentos.

Se foi pelo que eu disse, - Interrompeu Qlon, com uma voz carregada. eu imploro seu perdão. Disse aquilo com o humor exaltado. Acho que nenhuma outra mestra seria tão boa em lecionar, mostrando ao pupilo na prática tudo sobre o conhecimento que deveria aprender.

E colocando-o em perigo? - A voz de Lua tornava-se séria. - Meu método de lecionar não é desculpa para colocá-lo em uma situação dessas. Céus, uma invasão ao paraíso! No que eu estava pensando? Acho que fui egoísta demais, e por isso peço desculpas. É como você disse antes.

Eu entraria em perigo mais cedo ou mais tarde, esqueceu? Sou filho de um Warrior, entraria em meio a combates de vida ou morte a qualquer hora. - Falava de boca cheia. - Que diferença faz um treinamento assim? Acho até bom, desse modo posso acostumar-me desde cedo aos desafios. Lembre-se que ainda estamos em guerra, qualquer método de treinamento é aceitável.

Bem, de qualquer modo, queria dizer que aceitarei seu plano, mesmo sabendo que o coloco em perigo. Por isso, para livrar-me de qualquer responsabilidade, eu saio passivamente do meu título de mestra. Está agindo por conta própria, e aceitarei a sua ajuda como um amigo.

Qlon foi tão surpreendido que engasgou. Zarat permaneceu boquiaberta por alguns momentos. Lua nem se movera. Permanecia ali, como uma estátua, depositando o olhar sobre aquele que um dia fora seu aluno e as mãos a tapar sua boca, apoiando os cotovelos sobre a mesa. –

Como? Ficou louca de vez? - Disse Zarat quando recobrou a voz. - Ele tem apenas cinco anos! O que a faz pensar que ele se sairá bem? Ainda mais sem alguém para dar instruções!

Não sei, mas vejo em ele algo... Especial. Acho que tem uma enorme capacidade. Dominou o teleporte em menos de uma hora, sabe falar como um adulto antes mesmo de ter pelos no rosto e, antes de chegar até mim, já se provara mais capaz do que crianças com mais treinamento naquele local. Acredito que sim, ele pode conseguir. E mesmo que eu ainda fosse sua mestra, não teria como o instruir nesta situação.

Mas não vejo por que devo perder minha mestra! - Pedaços de pão voa vam de sua boca quando falara. - Apenas para seu desencargo de consciência? Isso é ser tão egoísta quanto antes.

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Isso não é nenhum castigo, não gostaria que visse assim. Pense como justiça.

Justiça?

Sim. Vou passar a ser uma mestra responsável de um anjo qualquer: qualquer ato ilícito que queira cometer, cometa por si só. Não farei de mim uma cúmplice. Afinal, você não acha errado alguém pagar pelo crime de outra pessoa?

É mesmo... Tem razão. - A voz de Qlon ficou triste. - Isso quer dizer que nunca mais voltarei a sua tutela se for para lá?

Quando eu disse que não seria mais sua mestra, quis dizer que não terei mais a obrigação de professora para aluno contigo. Não disse que deixarei de ser sua amiga... E como amiga, não acho que faria mal em ensinálo algumas coisas...

Qlon sorriu. Percebeu a face de Lua esboçar um sorriso, mas que logo se apagara também. –

Mas isso será nosso segredo. Entendido? As pessoas continuarão a nos ver como mestra e pupilo, e isso que acabei de dizer ficará apenas entre aqueles que estão agora nesta casa.

Entendido.

Espere... - Foi a vez de Zarat falar. - Quer dizer que está pedindo para o jovem mentir?

Não, não será uma mentira. Mas ele não precisa contar nada disso a ninguém, e se alguém perguntar coisas como “Qlon, como vai a sua mestra?”, ele poderá responder tranquilamente: “Ela não é minha mestra, é minha amiga.” Só pretendo não levantar suspeitas sobre o que aconteceu aqui. E caso alguém venha a descobrir a verdade, ele não poderá ser julgado como pecador por mentir. Mas isso não fará muita diferença. Se descobrirem o que está acontecendo aqui, ele será decapitado tão rápido quanto possa dizer qualquer coisa em sua defesa em um tribunal.

É... Inteligente, eu concordo. - Disse Zarat. - Mas ainda acho um risco que Qlon deveria reconsiderar.

Concordo, Zarat. - Falou Lua, fazendo um movimento com sua cabeça. E se desistir, eu poderei voltar a ser sua mestra sem nenhuma preocupação, e esta conversa e o que aconteceu aqui se apagará em nossas memórias. O que me diz? Não quero que se arrisque tanto por mim. Ainda mais por um motivo tão egoísta quanto esse.

É uma boa proposta, mas já tomei minha decisão. E além do mais, eu

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sempre quis ver o reino celestial com meus próprios olhos. Quero saber para onde vou após realizar meus 900 anos de serviço. –

Então descanse, Qlon. Amanhã colocaremos seu plano em prática, e Zarat... Desculpe-nos por abusar de sua hospitalidade.

Não tem problema. Fazia muitos anos que não tinha qualquer companhia, então eu que devo agradecê-los por terem tratado-me como alguém. Acho bom dormirmos, não é mesmo?

Zarat levantou-se de sua cadeira. Curvou-se para Lua e deu um abraço em Qlon, que ainda comia com vontade tamanha sua fome. Afagou seus cabelos e deu um beijo em seu rosto. “Ela aproximou-se de meu ouvido, em meio a um leve sussurro, e disse: 'Durma em minha cama hoje, pequenino.' Sua voz era suave e delicada. Não percebi nenhuma malícia nela. Não pensei em por que ela queria isso, mas também nada pude responder. Apenas sorri. Acho que foi um sim, e ela também entendeu dessa forma. Deu-me outro sorriso, enquanto subia para seu quarto. Olhei para minha mestra e pensei em contá-la, mas acho que ela já sabia do que se tratava. Outro sorriso se formava em seu rosto. Ela apenas me disse que era comum entre os soldados ganhar um presente feminino antes de sua partida, e que não faria mal algum receber tal presente, mesmo sendo muito novo. Deixei minha espada sob sua tutela, para que a vigiasse, e subi as escadas de madeira. Não havia corrimão, e nem precisava. Era uma passagem estreita e baixa, com frias paredes em suas lados, além de curta. Ao chegar lá em cima, deparei-me pela primeira vez com uma anja nua.” … Seu quarto era pequeno, mas era maior que qualquer outro cômodo da casa. Devia ter o mesmo tamanho que a sala de estar e jantar somadas, e apenas um guarda-roupas antigo, uma pequena cama de casal e uma cômoda ao seu lado preenchiam o local. Um tapete de pano em um tom beje era o único ornamento do quarto inteiro. Uma pequena janela atrás da cama com abas de madeira, já cerradas, completavam aquele pobre cenário. Zarat estava nua à sua frente. Segurava em suas mãos um suporte de ferro com uma vela acesa, que era toda a iluminação do quarto. Os seus seios, redondos e firmes com pequenos mamilos rosados, recebiam a maior parte da luz junto com a firme e pequena barriga, que era magra o suficiente para vislumbrar os ossos dos seus quadris. –

Mas que lástima um jovem anjo, um guerreiro, à beira da morte, sem nunca ter provado dos poucos prazeres mortais que são uma pequena recompensa para aqueles que protegem a paz entre todos os seres. - Dizia Zarat.

O que eu devo fazer? - Respondeu o jovem, sentindo-se perdido.

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Apenas experimente hoje algo que faz os mortais terem paz em suas ca mas nas longas noites frias. Hoje poderá ser a última noite que provará disso, mas tenha em mente que, caso sobreviva, está será apenas a primeira de muitas vezes.

Zarat abraçou-o, colocando o rosto do pequeno entre seus seios. Acariciou seus longos e sedosos cabelos com as mãos. Qlon abraçou-a pela cintura, sem dizer mais nada. Sentia-se bem, confortável. –

Deve sentir-se sujo nessas roupas, não é mesmo? - Disse Zarat.

Sim. Já faz tempo que não tomo um banho e troco minhas vestes. - Havia evitado tomar banho, pois até a água das torneiras daquele lugar o deixava tremendo de frio.

Então venha, tomemos um banho. A água está gelada pois não tive tempo de aquecê-la antes que viesse, mas eu o deixarei limpo. - Disse Zarat, puxando-o de leve até um cômodo que ficava em frente à cama e ao lado do armário.

O banheiro era, sem sombra de dúvidas, o menor cômodo da casa. Tanto o de baixo, onde se apertara para fazer as necessidades, quanto aquele. Assim como o do andar inferior, tinha uma privada e uma pia, mas naquele também havia uma banheira. Todos esculpidos na própria pedra. Zarat fechou a pequena tampa de madeira e abriu a torneira, e água, tão gélida quanto poderia, preencheu a banheira. Ela foi a primeira a entrar, e Qlon reparou que os pelos de seus braços e pernas eriçaram-se ao menor toque com a superfície do líquido cristalino. Após afundar completamente, chamou-o. Ao entrar e sentar de costas para ela, percebeu que aquela água era tão fria quanto a que bebia em casa nos dias de verão, com cubos de gelo flutuando em sua superfície. –

Está com frio, criança? - Falou, abraçando-o. - Não se preocupe, partilharei do meu calor e o aquecerei.

O frio da banheira não o incomodava mais. Seu corpo queimava por dentro. Os seios macios onde reclinara sua cabeça eram tão quentes e suaves que, estranhamente, o aqueciam. A pele de Zarat era fina e macia como uma pluma. Ela pegou o sabonete que repousava em um dos apoios da banheira e passou pelo seu peitoral, descendo pela barriga curvando na parte interna de suas coxas, próximo a virilha. “Algo revirava-se em meu estômago. Nunca havia sentido tanto calor antes. Calor suficiente para, mesmo em meio a uma água congelante, suar pela testa. Estava sentindo quase o mesmo torpor que senti ao roubar e beber escondido uma taça do vinho de meu avô. Mas nem mesmo aquele prazer que senti aos meus três anos se comparava a sensação daquele momento com Zarat...” Com suas mãos em concha, apanhou um bocado de água e o despejou sobre

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seus cabelos ruivos. Passou o sabão em suas mechas, e depois o enxaguou. Es fregou suas costas e até mesmo suas nádegas, cumprindo a promessa de o dei xar completamente limpo. –

Anda, é sua vez de esfregar-me.

Zarat afastou a Qlon e virou-se de costas para ele. Já limpo, ajoelhou-se atrás dela para ter o mesmo tamanho e, assim como ela, passou o sabão pelo corpo nu a sua frente. Começou pelo pescoço e desceu pelos seus seios, que estavam rígidos e quentes. Pela barriga e pelas coxas, até notar algo que não havia em seu corpo. –

O que é isso, Zarat?

É o que diferencia um anjo de uma anja, Qlon. Um macho de uma fêmea. É por aqui que os bebês entram e saem do corpo de uma mulher, mas claro: ainda é jovem demais para saber disso.

Posso... Tocar?

Claro... Se você não oferecesse, eu mesmo pediria...

Qlon deixou cair o sabão dentro da banheira, e, delicadamente, passou sua mão naquela região. Tinha alguns pelos, ao contrário da mesma área de seu corpo. Aquele pequeno órgão não pendia e nem mesmo a pequena bolsa enrugada. Apenas uma área lisa e muito quente estava ali. Quanto mais deslizava a mão para sentir aquela região, percebia que os suspiros de Zarat aumentavam. –

Devo parar?

Não, continue até saciar sua vontade! - Respondeu ela em um tom quase que autoritário.

Ele sentia algo confuso ao fazer aquele movimento, mas gostava. Era tão macia e quente, e parecia tremer quando tocava em alguns locais. Continuou a acariciar até que Zarat soltou um grito agudo e com as coxas prendeu a sua mão, provocando uma dor suportável. Após voltar a controlar a ofegante respiração, ela virou-se para ele, com um sorriso no rosto. Com a mão direita segurou seu queixo delicadamente, e aproximou suas faces. Os seus lábios tocaram-se em um carinhoso beijo. Curto, mas que para ele pareceu durar uma eternidade. Os lábios dela tinham um adocicado sabor de maçã. Ela saiu da água e enxugou-se com uma toalha de algodão. Mandou ele sair e fez o mesmo em seu pequeno corpo, e teve até mesmo a paciência de secar mecha por mecha de seu cabelo comprido. Por fim, esvaziou a banheira e puxou-o de volta ao quarto. Deitou-se na cama e chamou-o para que deitasse ao seu lado. Ao deitar-se, Zarat novamente o abraçara e colocara sua face entre seus seios. Ele retribuiu o abraço e afundou o rosto ainda mais entre aqueles seios macios.

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Durma criança. E espero que tenha gostado de meu presente...

Qlon nada conseguiu pensar. Seus olhos estavam pesados. Assim que os fechou, caiu em um profundo sono. Talvez, o sono mais agradável que já tivera desde que saíra do conforto de sua cama... … “Naquela época, eu nada sabia daquilo que acabara de acontecer, e só fui descobrir do que se tratava alguns anos mais tarde. Mesmo não tendo feito nada do que um adulto teria feito, aquela fora minha primeira experiência sexual e com certeza a levarei em minhas memórias até o dia de minha morte. Sinto que deveria ter simplesmente pulado e ignorado esta parte, mas me senti na obrigação de contar. E o porquê poderá ser visto no decorrer de meus relatos. Prosseguindo, com certeza aquela noite fora uma das melhores que eu já tive. Mas acordar e ter de encarar o sorriso malicioso de minha mestra não fora tão bom. De certa maneira aquilo me constrangia. Zarat não parecia incomodada. Pelo contrário, ao fazer nosso café da manhã, cantarolava como um pássaro novo e bem alimentado no galho de uma nodosa árvore. Mas, situações constrangedoras à parte, naquela manhã teríamos de repassar o plano.” –

Pois bem, Qlon. Ao contrário de você, minha noite de sono foi tranquila e curta. E como acordei cedo, estive repensando o seu plano original. Zombava dele Lua.

Como assim “repensando”? É um bom plano! - Tentava não dar atenção às brincadeiras, enquanto Zarat dava risinhos na cozinha.

Sim, sem sombra de dúvidas, é. Estou de pleno acordo. Mas há alguns pontos nele que podem ser mudados, e nisso que estive pensando.

Então diga quais, estou ansioso para ouvir.

Pois bem. Mantendo o plano original até a parte em que chamo a atenção deles, após isso poderíamos fazer algo melhor. Eu poderia tentar dialogar com eles pelo tempo em que o vórtex fica aberto e, acabado esse tempo, você entraria no último segundo e eu desapareceria.

E como pretende desaparecer no ar?

É um truque que tenho na manga. Agora, o mais importante é que, antes de desaparecer, eu vou chamar a atenção deles a você entrando no vórtex. Isso com certeza fará com que eles te persigam.

Espere. - Pronunciou-se Zarat da cozinha. - Isso não é um pouco perigoso para ele? E se o alcançarem? Com certeza morrerá tão rápido quanto uma presa de animais selvagens! E já que vai desaparecer, porque não entra com ele?

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Eu sei que está preocupada com seu... Prometido. - Disse em meio a mais um riso abafado. - Mas isso seria meio tolo de minha parte, visto que eu devo ser procurada por todo o reino celestial para terem tido o trabalho de me tirar de lá às pressas. E sim, é perigoso para ele, mas assim que o virem entrando, irão atrás dele por certo. E como eu vou desaparecer, eles não terão outra coisa a fazer senão abrir o portal. Com isso, o tempo de Qlon será constante no paraíso. Cerca de uns dez meses, o que equivaleria a um ano, aproximadamente.

É... Realmente, uma boa modificação no plano original. - Ponderou Qlon, querendo parecer sábio. - Mas ainda quero saber como vai desaparecer em meio ao nada.

É uma magia que prometo ensinar quando retornarmos. Não sei quanto tempo vou conseguir enganar eles com aquele truque, mas penso eu que durará os cinco segundos necessários. Mas o mais importante é que façamos isso enquanto o sol pode permanecer o máximo de tempo possível no horizonte sem nascer. Hoje, de preferência.

Eu concordo. - Disse Qlon. - Mas com uma condição.

E qual seria, meu pupilo?

Que pare com suas piadinhas.

Todos na sala romperam em risinhos abafados, mas no final Lua concordou e tentou acabar com as brincadeiras. Disse que, para efeito histórico, ele ainda era virgem, mesmo que ele não soubesse o significado disso e mesmo que, de uma certa forma, aquilo ironicamente fosse verdade. Prepararam o plano com um pouco mais de detalhismo, descrevendo até mesmo o roteiro. O vórtex se abriria, como da última vez, exatamente acima da estátua, virado para baixo. Visto por uma pessoa comum de pé, pareceria uma pequena auréola branca dois metros acima da cabeça da estátua. Mas vista por uma pessoa deitada aos pés do anjo de pedra, seria como olhar para uma luz através de um círcu lo com pouco mais de um metro de diâmetro. Independentemente da forma que aparecesse, com certeza Qlon deveria ir voando rápido até lá. E ter esperado to das as virtudes sair por completo, óbvio. Após a saída delas, teria seus preciosos cinco segundos. Zarat apenas ouvira, em nada participara do plano. Mas disse que queria ver de longe o que aconteceria, e, mesmo avisada do perigo, consentiram que ela assim o fizesse. De planos traçados, só bastava colocar tudo em prática. Qlon e Zarat deram a volta em becos e ruelas e esconderam-se do lado oposto ao de Lua, que andava a passos curtos em direção àquele que fora um dia o local da morte do seu passado. Não podia esconder o medo no seu rosto, mas arrancava coragem do fundo da alma para continuar andando. E, por fim, parou em frente ao destino.

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Cap. 15 – Breu

E

stava ventando. Um vento forte. Em um horizonte distante, o sol raiava tão lentamente que mesmo o mais romântico dos mortais não teria capacidade para esperar que ele se mostrasse por completo. Lua jazia ali, em frente à estátua, apenas esperando como fora instruída. Ao menor sinal do surgimento do vórtex, o plano começaria a ser executado. Não demorou muito para que o vento aumentasse de intensidade. Principalmente porque um novo, vindo da direção da fonte, pareceu aumentar ainda mais o antigo. Penas esvoaçavam para todos os cantos quando Qlon pôs-se quase de pé, ficando curvado sobre suas coxas, como alguém pronto para pular. Seus cabelos esvoaçavam. Zarat se aproximou por trás dele e o abraçou pelo braço, colocando seu cotovelo entre os aconchegantes seios. –

Prometa. - Disse com uma voz chorosa.

O que eu deveria prometer? - Perguntou, curvando o rosto.

Prometa-me que irá voltar. Aquilo que aconteceu entre nós ontem, além de ser um presente de despedida, foi também um incentivo. Por isso, prometa-me que irá retornar. - Uma pequena lágrima correu de seu olho esquerdo assim que acabou de falar.

Eu... Eu tentarei. - Respondeu com uma voz incerta.

De uma forma que nem ele mesmo conhecia, sentia-se apegado a ela. Talvez pelo fato de ter recebido tanto carinho e atenção, desde que ele a vira pela pri meira vez. E na noite anterior, ela passara a significar mais ainda. Ele nem mesmo sabia ao certo o porquê daquilo, nem sequer tinha vivido ainda um romance. Aquele sentimento confuso era muito novo para seu pequeno coração. –

Qlon, observe! - Gritou Lua, chamando sua atenção.

Ela correra em direção ao sol, do lado oposto de onde estava. O movimento era meio confuso. Estaria ela se precipitando? O vórtex já começava a aparecer perto da estátua, na mesma posição que previra anteriormente. Então por qual motivo ela corria para longe? Sua sombra apenas aumentava a medida que se distanciava. Que espécie de plano era aquele?

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“E foi da 'cabeça' da sombra que surgira um 'clone' de Lua, na mesma posição que ela estava antes. Então eu pude entender o plano e a magia. Ela apenas ti nha ficado ali antes para conseguir atrair a atenção das virtudes, mas depois projetara sua sombra, contando com a iluminação própria do sol, e dela fizera um clone. Era o que eu, uma certa vez, tinha lido sobre: uma magia de replicação. Pelo que eu sabia, existiam várias delas. De acordo com o livro, tais réplicas podiam falar e ver com os sentidos de seu criador, mas ao serem tocadas, desapareciam. Nunca havia visto uma pessoalmente, até aquele dia. Realmente, fora uma tática brilhante!” Agora, precisavam contar apenas com um pouco da sorte. Após as virtudes aparecerem, deveriam dialogar com Lua por alguns segundos sem sequer tocá-la. Se conseguisse, bastaria entrar e o resto sucederia por si só. Elas viriam atrás dele após serem alertadas, e então Lua desapareceria da mesma forma que surgira: em uma sombra. As virtudes veriam-se obrigadas a abrir o portal e ir atrás dele. A única coisa impensada até o momento seria: na hora que ele fosse voltar, como escaparia das virtudes? Nem Lua nem Zarat haviam percebido isso, para a sua sorte, senão definitivamente o proibiriam de ir. Mas Qlon já havia pensado nisso desde as horas que passara na entrada da cidade, meditando. Era com certeza muito arriscado para ele, um anjo sem treinamento algum, tentar voltar e fugir das virtudes. Com certeza os quatorze olhos se voltariam para ele, mas já não importava mais. Apenas queria completar a missão a que fora confiado. Mas, daquele plano perfeito, apenas uma coisa não se lembraram e não contaram. A iluminação ambiente que era distorcida pelo portal. Com isso, a réplica de Lua também se distorcia. E, ao sair da primeira virtude... Tudo acontecera muito rápido. 1 A virtude de número IV, Diligência, viu a imagem distorcida de Lua, e com um rugido que dizia “Aí está, pecadora!” partiu para a atacar com sua espada. As outras virtudes se amontoavam no portal, tentando puxar Diligência, e eram arrastadas por sua força. Ao perceber a lâmina da espada vindo em sua direção, a réplica pulou para trás, e a imagem se distorcera. Tentou dizer alguma coisa, mas suas palavras saiam estranhas, provavelmente pela interferência do vórtex. Com um segundo golpe, mais rápido que o anterior, a espada de Diligência cortou o ar, atravessando a réplica ao meio e a fazendo desaparecer. Qlon, calado, percebia seu erro. Sua face se distorcia em uma careta de repreensão enquanto observava a última das sete virtudes atravessar pelo portal. O plano ainda estava valendo. O barulho causado pelo campo de força, as descargas elétricas e o vento não o deixaram ouvir as palavras que Zarat o gritava, mas não importava. Quando observou a última virtude ser puxada para fora do vórtex agarrada à cintura de seu companheiro, suas pernas pegaram um impulso direto para o portal.

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2 Diligência parecia meio perdida, mas por fim pareceu entender o que havia sucedido. Gritou uma praga qualquer e, mesmo sendo segurado por três outras virtudes que tentavam o impedir, conseguiu usar o teleporte, sumindo em um filete de luz azulado na mesma direção de sua mestra. Lua já deveria estar fazendo o mesmo aonde estava, tentou prever Qlon. Ele já havia pegado impulso e voava em direção ao vórtex. Tentou concentrar-se para um teleporte, mas não conseguiu. Apenas bateu as asas em direção à espiral de luz. Zarat ainda gritava uma coisa qualquer às suas costas. Qlon olhou de relance para uma virtude caída no chão. Liberalidade o olhava com a máscara inexpressiva, e já colocava a mão no cabo da espada que trazia à cintura. 3 As virtudes que seguravam Diligência foram jogadas ao ar, como bonecos. Duas outras virtudes gritavam alguma coisa, àquela altura inaudível aos ouvidos de Qlon, que se aproximava cada vez mais rápido do vórtex. A passagem se encontrava acima da cabeça da estátua, e estava a mais ou menos quatro longos metros de distância de seus olhos. Sentia que já havia percorrido a metade da distância, e estava perto do seu objetivo. Mas para seu azar Liberalidade já estava de pé, com olhos que flamejavam por trás das aberturas do disfarce facial. Sua mão já sacara a lâmina, e seu corpo se dobrava sobre as pernas para tomar um impulso forte. Algo empurrara Qlon pelos pés com uma certa força, aumentando sua velocidade. As duas virtudes que gritavam para Diligência parar, Bondade e Paciência, voltaram sua atenção para a cena que ocorrera perto da fonte. Faltava apenas mais um pouco... 4 Com o impulso, Qlon finalmente chegara acima da cabeça da estátua. Encontrava-se praticamente deitado, com a barriga virada para a cabeça careca do anjo de pedra e as costas, de asas abertas, voltada para o portal. A imagem de Liberalidade voando ao seu encontro era rápida, e vinha quase que abaixo dele. A espada se erguia com o movimento de seu braço, e como se fosse uma lança, apontava para o peito de Qlon. Mesmo tentando sacar a Sanctus de sua bainha, sabia que não haveria tempo o suficiente com sua baixa agilidade. Realmente, seria melhor ter treinado mais antes de colocar o plano em prática. Poderia ter voltado para seu planeta e ficado alguns anos treinando sob a tutela de Lua. Impulsos. A sua vida havia resumido-se àquilo, impulso em conseguir realizar seus desejos. E isso, provavelmente, estaria enviando-o diretamente para a morte. A lâmina da espada dourada de Liberalidade voava rápido em direção ao seu peito. A boca escancarada de Qlon em um grito de guerra que apenas um soldado usaria. Quando pensou que a morte estava perto, sentiu algo estranho...

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5 Uma mão, mais do que conhecida, tocara em seu ombro. Zarat havia mergulhado em um movimento suicida, o empurrando em direção a abertura de planos, que já estava se fechando, e ficando em seu lugar para receber o golpe letal de Liberalidade. Sentia o vórtex puxá-lo. Seu cabelo estava arrepiado. O vento ali era forte, e sugava-o para dentro. Teve tempo suficiente de ver Zarat, virada de frente para ele, receber a espada dourada cujo destino principal era seu peito. O frio metal a atravessou a barriga, e um grito agudo de dor podia ser ouvido com clareza pelos ouvidos do pequeno Qlon, que sentia uma súbita tristeza invadir todo o seu corpo. Soltara a sua espada, que fora arrastada para dentro do vórtex, e tentara estender a mão para socorrer sua querida amiga e quase amante, que agonizava de olhos fechados e boca completamente aberta. Repentinamente, seus olhos se abriram e olharam diretamente para o descendente dos seus antigos mestres. Ela chorava. Sua boca se contorceu em uma tentativa de sorriso disforme, mostrando seus brancos dentes. A luz se esvaia de seus olhos. Lágrimas e gotas de sangue eram varridas junto com Qlon, ele pôde senti-las tocando o rosto e a testa e podia vê-las manchando sua roupa. Ela moveu os braços, e com o que restara de força atirara a ele duas pedras, negras como a noite. E, em seu último olhar para aquela triste cena, pôde perceber que seus lábios se moviam e formavam uma última frase. “Cumpra sua promessa.” A luz se esvaíra quase por completo de seus olhos, e eles cerraram, assim como a cena à sua frente. O portal havia fechado por completo, e ele agora se sentia caindo a uma velocidade assustadoramente alta. As pedras vieram ao seu encontro, e bateram uma no peito e outra na face. Com um movimento rápido das mãos, pegou-as e analisou. “Breu, assim como ela havia prometido. Comecei a chorar. Peguei as duas pedras e as coloquei em minha pequena bolsa de couro, que jamais saíra do meu lado. Como eu estava indo muito rápido, fora muito difícil mover-me, mesmo que apenas os meus braços. Algo assoviava às minhas costas. Tentei virar o corpo, e com muito esforço consegui. Mergulhando muito rápido em um ambiente que parecia o centro de um tornado onde a cor branca predominava, Sanctus rasgava o ar com sua ponta. Estava rápida como um cometa, e criava ao seu redor labare das de chamas azuladas, que se propagavam até seu cabo. Estendi a mão para alcançá-la, mas não consegui. Ela era muito mais rápida que eu e parecia tomar uma direção diferente da minha. A acompanhei com os olhos lacrimejantes até que ela saiu do meu limitado campo de visão. Estava perdendo o meu item mais precioso: a espada do meu pai. De súbito, senti uma estranha vontade de fechar os olhos. Parecia que tudo aquilo havia sugado minhas energias. E então, entreguei o resto nas mãos de meu impiedoso destino.”

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… A chuva caía fina sobre seu rosto. Sem mover sequer um músculo, Qlon fitava o céu nublado. Estava deitado sobre a relva, de braços e pernas abertos, em um lugar desconhecido com nada ao seu redor. Nem mesmo uma árvore, em léguas de distância. O terreno era todo plano, regular. Era como um vasto deserto de ve getação rasteira, que se estendia até detrás do horizonte. Não sabia como havia chegado ali. Apenas acordara naquela posição e naquele lugar. Também não desejava mover-se. Gostaria de permanecer naquela posição para sempre, com o inútil desejo de que tudo aquilo que passara fosse apenas um pesadelo terrível, e que quando abrisse os olhos ao próximo piscar, tudo teria voltado ao normal. Estaria deitado em sua cama, em Aeria, em sua casa em frente ao cemitério, e sua mãe estaria ao seu lado, acalmando-o e dizendo que tudo aquilo não passara de um péssimo sonho. Mas essa cena nunca vinha, por mais que fechasse os olhos e permanecesse com eles cerrados. Sua roupa estava ensopada. Devia estar ali a mais tempo desmaiado, ou tomou muito tempo pensando. “Foi a primeira vez que eu presenciei a morte de alguém próximo a mim. Toda vez que meus olhos fechavam, eu podia ver seu sorriso e sua boca dizendo 'Cumpra sua promessa' em palavras mudas. Um sentimento de impotência seria quase que o suficiente para descrever o que se passava em minha cabeça. Mas ainda tinha outros, como o ódio de mim mesmo por tê-la envolvido em tudo aquilo, a tristeza por ter visto sua partida, a decepção. Minha imprudência, pressa e incapacidade tática custaram a uma pobre anja seu bem mais precioso: a vida. No final, ela se sacrificara para que eu pudesse seguir com meu egoísmo e, posso dizer até hoje, que foi a maior prova de amor, bondade e altruísmo que eu po deria ter visto.” Ainda estava cansado e sem sua espada. Pelo menos sua mochila ainda estava agarrada ao seu ombro, com alguns itens básicos de sobrevivência e lembranças preciosas daquela que perdera. Sonolento, cansado e triste, ali adormecera novamente, sem nem se mover. … –

Ele está morto?

Não, esqueceu que é impossível morrer aqui, irmã?

Mas ele está caído, e não se move.

Então tente acordá-lo!

Qlon sentia algo tocar suas bochechas, e moveu a cabeça de lugar, tentando evitar o toque incômodo do objeto fino e pontiagudo. –

Está vendo? Eu disse que ele não estava morto.

Mas ainda assim, ele não acordou...

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Tente mais uma vez, uma hora ele abrirá os olhos, acredite.

A garota mais uma vez espetou o galho em seu rosto. A face do pequeno anjo deitado na relva se contorcia, mas se negava a abrir os olhos ou mesmo a boca. –

Deve estar doente... Já ouvi falar sobre isso! Entre os mortais é comum!

Entre os mortais, irmã! Como já disse, aqui todos somos imortais. Céus, sua inocência me incomoda às vezes. Ele teria de ter definhado aqui por dias para estar doente...

Desculpe-me, irmão. Então... O que devemos fazer com ele?

Ele aparenta cansaço. Até mesmo entre nós é comum ficar exausto. Deve ter chegado recentemente de fora. Acho que seria prudente tratar dele até que tivesse condições de mover-se novamente. Lembre-se de nosso teste.

Mas, as virtudes já não estão aqui, e não aparecem a dias! Não são elas as responsáveis por isso? E eu acho estranho... Como ele conseguiu entrar aqui sem estar acompanhado por elas? Ele não devia ter sido julgado antes?

Não sei, também é um mistério.

Será que ele é um viajante de planos? Isso é proibido! Irmão, estaremos arriscando-nos se o colocarmos em nossa casa...

Por acaso já esqueceu-se do que somos e de nosso dever? Por acaso esqueceu o motivo de nossa criação? Se precisamos ensinar aos mortais verdadeiros valores, protegê-los e cumprir seus desejos puros, como então somos capazes de recusar ajuda a um necessitado?

Mas eu tenho uma má impressão! Isso não é um bom presságio... Lembra do meteoro que apareceu a alguns dias no horizonte? Nenhum dos guardas que fora investigar retornara ainda.

Qlon podia ouvir suas vozes falando entre si, mas não conseguia abrir os olhos para ver seus rostos. Queria dizer “Sanctus, me leve até ela. Me leve até minha espada!”, mas as palavras não pareciam sair de sua boca. –

Olhe, sua boca está se movendo! - Disse a voz feminina.

Realmente irmã. Será que ele quer comunicar-se conosco? O que ele quer dizer? Não consigo ler suas palavras...

Nem eu...

Qlon estendera e abrira a mão, como quem quisesse pedir algo. Mas seu esforço não durou muito. O cansaço que pesava em seu corpo era insuperável. Ha-

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via tempo não comia. Bebia apenas a água da chuva e nem conseguia se mexer. –

Se ele veio de fora, então provavelmente não está habituado a esta gravidade. Ainda. - Disse a voz masculina.

E como sabe, irmão?

Soube que o reino mortal é composto por uma atmosfera com uma gravidade inferior a nossa. Cálculos apontam que a deste reino é pelo menos quatro vezes maior. E também, quanto maior o andar, maior a gravidade imposta.

Nossa, irmão! Você realmente se dedica aos estudos!

Em partes. Agora me ajude, devemos levar o corpo dele para nossa casa até que ele tenha capacidade suficiente de mover-se por conta própria.

Ainda acho uma má ideia, mas você é o mais velho, por alguns segundos mas é. Então, por mais que eu deteste admitir isso, devo seguir suas ordens.

É bom ver que me respeita, irmã. Agora, pegue-o pelos ombros. Eu o carregarei pelas pernas.

Um pouco desajeitados, os dois anjos seguraram-no firmemente e levaram consigo para um outro lugar. Qlon nada sentia, mas ainda assim estava grato pelo auxílio prestado pelos dois estranhos, que nem pudera ver o rosto. … Abrira seus olhos. Finalmente tinha forças para isso. Estava em uma cama, um pouco dura e desconfortável. Nu. Seus trajes sujos haviam sido retirados, e estavam dobrados em cima da cômoda de madeira ao seu lado. Sua bolsa estava logo no chão, recostada na mesma cômoda. Verificou-a. Todos os seus itens estavam lá dentro. A casa aparentava ter apenas um cômodo. Quarto, cozinha e sala de jantar, com uma mesa pequena e duas cadeiras, no mesmo recinto. Apenas uma janela, que se encontrava ao lado da parede à sua direita. A porta parecia dar para o ambiente externo. –

Ah, então vejo que acordou. - Disse a voz de um homem que entrava por ela. - Como se sente?

Bem... - Respondeu Qlon com a cabeça cheia de perguntas, mas nenhuma conseguia sair por sua boca.

Devo imaginar que tenha muitas perguntas, pequenino, assim como temos para você. - Falou ele, parecendo ler os pensamentos do anjo acamado. - Mas espere minha irmã chegar. Ela me “mataria” se soubesse que conversei com você enquanto ela estava fora. Ela foi buscar algu-

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mas ervas para prepararmos uma sopa. Foi ela que te alimentou enquanto permanecia daquela forma, lembre-se de agradecer. Ele era baixo, devia ter cerca de um metro e setenta. Cabelos despenteados, lisos e castanhos pendiam até os ombros. Seus olhos eram verde-água, e tinha um corpo magro, mas de músculos definidos. Não usava roupa alguma e não possuía uma genital nem umbigo. Sua pele era um pouco mais escura que o comum. Também não tinha asas. Estava parado junto à porta, apenas observando. Qlon olhou meio pasmo para aquilo, mas o anjo desconhecido, novamente parecendo ler sua mente, disse: –

Ah, como já deve ter percebido, não somos sequer anjos. Quer dizer, so mos, ainda não aprendi bem ao certo. Apenas acabamos de ser criados e estamos passando por um treinamento.

Eu sou Qlon, e tenho 5 anos. - Disse, um pouco confuso.

Guarde as apresentações para após a refeição, ainda deve estar sentindo-se desnorteado e, provavelmente, com fome. Consegue mover-se?

Qlon tentou mover braços e pernas. Ainda sentia um pouco de dificuldade. Mas já podia levantá-los normalmente. –

Enquanto estava apagado, ouvi vocês dizerem que a gravidade aqui é quatro vezes maior do que em meu planeta e que os andares superiores apresentam gravidade maior ainda. Isso é verdade?

Sim, é.

Péssima notícia. Quanto tempo estive inconsciente?

Cinco noites. Mas você parece ter muita sorte e força para um garoto de sua idade. Seu corpo se adapta rápido.

Qlon tentou levantar, mas caiu na cama após alguns segundos de pé. –

Ei ei, mais devagar, garoto. Não precisa ter pressa. Cuidaremos de você até ter forças suficientes para se cuidar sozinho. Até lá, descanse.

É verdade que o tempo aqui passa mais rápido que lá, certo? Pode expli car-me a proporção correta e o porquê?

Para alguém tão novo, tem muita sede de conhecimento. Mas sim, claro que posso responder sua pergunta. Sim, passa mais rápido que lá. A proporção correta é de 28 dias aqui para um segundo. E o motivo são as preces.

Preces?

Exato. Os mortais fazem muitos pedidos para seus deuses, e, com isso

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temos muito trabalho. Como alunos, nosso objetivo é traduzir todas as orações para o idioma celestial e encaminhar ao andar superior. –

Então estou mesmo em Mercurii, correto? - Perguntou Qlon.

Sim. Mercurii, o andar primitivo. Seja bem-vindo.

Então não tenho tempo a perder. Daqui a quase um ano eu deverei regressar ao meu planeta.

Tentou levantar-se de novo, mas logo caiu na cama. O anjo de pele meio morena riu e foi até ele, ajeitando-o no leito. –

Pelo visto, antes de partir, vai ter de usar um pouco mais de nossa hospitalidade. E responder a algumas perguntas, estamos curiosos para saber como veio parar aqui, Qlon.

A porta se abriu. Uma anja quase idêntica a ele surgiu. Tinha longos cabelos, lisos e também despenteados, pendendo até as nádegas. Sem asas e sem genitais, igualmente nua. Ao menos ainda tinha seios, o que dava um certo diferencial. Seus olhos eram iguais, sua altura era igual e até mesmo as curvas de sua face. –

Irmão, ele acordou! - Disse, assustando-se e deixando cair os legumes e ervas que trazia.

Sim, acordou. Bem, acho que agora podemos apresentar-nos. Meu nome é Carlos, e o dela é Camila. Somos gêmeos, e temos 17 anos, sendo que sou alguns segundos mais velho que ela. - Falou enquanto Camila pegava o que deixara cair.

Prazer em conhecê-los, Carlos e Camila. - Respondeu gentilmente Qlon, fazendo um aceno com a cabeça. - Meu nome é Qlon Warrior Eros, tenho 5 anos e sou o único descendente do trono real de Seal. Encantado.

Ao ouvir o nome, os dois fizeram uma enorme reverência, que durou muitos segundos. Camila novamente deixara cair as coisas. Ajoelharam-se para ele, como um mortal fazia diante de seus deuses. Mas, sem perceber, Qlon havia errado em algo. Dissera seu nome. Ainda não sabia das consequências que aquilo acarretaria, mas tinha de ser mais cuidadoso dali em diante. –

Por que tamanha reverência? Por favor, ponham-se de pé. - Pediu Qlon, envergonhado.

Eles agiam com muita inocência, eram bondosos... Entrara em uma ideia de paraíso mortal. Um lugar completamente primata, onde seus habitantes andavam nus e ainda gozavam de uma pureza perdida a eras. Isso o fazia pensar: será que eles tinham todas as respostas aos seus questionamentos? O tempo corria, e ele precisava achar o que fora buscar.

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Cap. 16 – Visitas Inoportunas

D

emorou um pouco até a sopa ficar pronta. Qlon, acamado, nada pôde fazer além de esperar pacientemente, enquanto Camila o enchia de gracejos e indagações. Quando ficou pronto, finalmente comeram. Primeiro alimentaram Qlon na cama, colocando parte da sopa em uma tigela de madeira e servindo para tomar, como a um suco qualquer, com a sutil diferença de parar para mastigar a espessa massa a cada gole. Enquanto ele bebia pacientemente a sopa, que parecia um néctar dos deuses tanto pelo sabor que apresentava quanto pela intensa fome, um bombardeio de perguntas começou: –

Então Qlon... - Começou Camila. - Diga-nos de onde você veio.

Eu vim do Reino Mortal de Seal. Nosso reino foi criado para que anjos combatessem os demônios no planeta dos humanos e evitar que o reino das criações divinas caia em desgraça.

Acho que já ouvimos falar dele, irmã, uma ou duas vezes. Lembra-se das aulas de história?

Ah sim, bem lembrado irmão. Então Qlon, príncipe do reino de Seal... O que faz aqui, entre os imortais? Não me parece que prestou todos os seus anos de serviço... Eram 900, não é mesmo irmão?

Exato, irmã. Realmente, Qlon, o que um garoto como você faz aqui?

Qlon ficou mudo. Não sabia como responder àquilo sem mentir. Se dissesse a verdade, possivelmente iriam perseguir ele aonde quer que fosse, sem contar que tinha a grande possibilidade de tornar-se um caído e passar para o outro lado da moeda, na melhor das hipóteses. Na pior, seria morto ou aprisionado eternamente em uma prisão astral. Se mentisse, poderia safar-se da perseguição por todos os sete céus, mesmo já estando marcado pelas virtudes, mas com certeza era um bom motivo para virar um caído. Mentir é horrível aos olhos divinos. De todo jeito, só por estar ali já era um motivo para virar um caído. Tudo estava complicado demais. Mas a pureza de ajudar compensava, tornava aquilo tudo suportável. Valia a pena ajudar Lua, só para ver aquele belo sorriso em seu rosto novamente, e para ver sua mente livre dos grilhões do passado. Não entendia ainda como querer ajudar poderia ser um pecado, mas mesmo assim...

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Tomou mais um gole de sopa da tigela. Tinha um sabor agridoce, e estava repleto de ervas, batatas, cenouras e sentiu até mesmo um gosto apimentado. Mantinha a boca ocupada com a comida a fim de adiar a resposta o máximo possível, de tentar encontrar uma forma de falar a verdade sem precisar revelar tudo que o levara àquele lugar. Por fim a sopa acabou, e com ela veio uma resposta. –

Estou procurando por minha espada.

Não era mentira. Ele havia perdido enquanto estava no vórtex, e isso o preocupava muito. Aquela espada era muito especial para ficar perdida ou cair nas mãos de outros. –

Ouvi dizer – Continuou. - que um meteoro caiu aqui, e que nenhum dos guardas que foi investigar voltou, correto? Ela viajou junto comigo no vórtex, mas escapou de minhas mãos e foi parar em algum lugar por acidente. Provavelmente deve ser esse meteoro que mencionaram quando me encontraram quase inconsciente.

É uma espada importante? - Perguntou, com seu jeito doce e inocente, Camila.

É a única lembrança que tenho de meu pai.

Pai? - Pareceu confuso Carlos. - Ah, é mesmo. Ouvi dizer que no reino mortal dos anjos eles se reproduzem como os animais.

E vocês não? Digo... De onde surgiram? - Perguntou Qlon.

Somos pedaços dos deuses. - Respondeu-o Camila. - Nós, por exemplo, fomos feitos a partir de um mesmo fio de cabelo de um deles.

E não sabem de qual dos deuses se originaram?

Não. Ninguém, nem mesmo nós, pode nomeá-los ou diferenciá-los, e você deveria saber disso como um anjo. Os únicos que os dão nomes são os mortais. Mas isso não importa muito, afinal, nossa missão é sempre uma só, independente de origem. - Respondeu sabiamente Carlos. Mas por favor, responda: qual foi o ato que tornou um dos anjos de primeira esfera? Aliás, não apenas de primeira esfera, mas a função de mais alta classe, um serafim?

Como assim?

Ah, você não sabe? Anjos nascem sempre como nós, e aqui recebemos treinamento e missões de nossos deuses. Dependendo de nosso desempenho, ganhamos as nossas asas, que são o símbolo da esfera de poder que regemos. As esferas são três, e quanto mais importante é ela, mais um par de asas adquirimos. É assim aqui no paraíso. - Ensinou-o Carlos, com uma voz serena.

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Sim. - Completava Camila. - E quanto maior a função dentro dessas três esferas, maior o tamanho das asas. Eu também prestei atenção nessa aula, irmão! Um anjo de primeira esfera pode ter um par gigante de asas, e um de segunda esfera pode ter apenas duas asas pequeninas.

Eu sei, aprendi hierarquia angelical com minha mestra. Mas não imaginava que a diferenciação física se desse assim...

Mestra? - Indagou, com cara de curiosidade, Carlos. - Como assim?

Uma professora.

Uma mortal? - Mostrava-se cada vez mais confuso.

Sim, mas uma detentora de muitos conhecimentos.

Que azar o seu, pequenino. Aprendendo de alguém com conhecimento incompleto. - Disse Carlos com tristeza na voz.

E como vocês aprendem aqui? Não é a partir de outro de vocês que ostenta um maior conhecimento?

Claro que não! - Interveio Camila. - Aqui aprendemos diretamente com os deuses. Eles passam todo o conhecimento que precisamos.

Bem... O ensino dela pode não se comparar ao dos deuses, mas com certeza é um ótimo ensino. Bastante... Dinâmico e participativo. E como entram em contato com os deuses?

Não entramos. - Respondeu Carlos.

Então como...

Entramos em contato com eles? Aqui as mensagens divinas são passadas de andar em andar. O sétimo andar, lar dos deuses, manda para o sexto, que manda para o quinto, que manda para o quarto... E assim até chegar a nós.

É um sistema um tanto quanto complicado. E tenho outra dúvida: como os diferenciam aqui? Digo... Apenas a aparência? Nenhum de vocês tem uma habilidade especial?

Sim, dependendo da parte do corpo que nascemos. - Camila também se mostrava experiente. - Mas como são muitas partes que podem nos criar, até mesmo unhas, as habilidades são muito diferenciadas.

Entendo.

Qlon, nós enchemos você de questões, e por isso nos desculpamos. Já acabamos com nossas perguntas. Tem mais algo que queira saber?

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Qlon pensou bem nas perguntas que faria. Uma pergunta que errasse e teria que revelar ainda mais coisas do que pretendia. Não levantar suspeitas tornavase difícil, mesmo com aquela inocência natural de seus anfitriões. Sem contar que não poderia aproveitar-se muito daqueles amáveis seres, seria um crime. –

Desejo saber apenas a direção que o meteoro caiu. Preciso recuperar a minha espada.

Acho que mesmo que digamos, seria impossível para você entrar e sair de lá, jovem. - Disse Carlos.

E por quê?

Este não é um andar primitivo atoa, Qlon. - Falou Camila. - Aqui os deuses deixam guardadas... “Coisas”. Muito bem escondidas, inclusive. E essas coisas precisam de proteção. E nada melhor para proteger do que bestas míticas, totalmente agressivas contra invasores.

E o lugar onde o meteoro caiu - Completou Carlos. - é o mais perigoso de todos. É perto da árvore de Yggdrasil, onde os maiores tesouros celestiais encontram-se. As bestas mais temíveis habitam lá e, quando o apocalipse final chegar, todas elas serão soltas para devorar os impuros.

E que bestas seriam essas? - Perguntou o interessado Qlon.

Juggernaut, Behemoth, Leviathan e Tiamat. Os quatro dragões-deuses que foram a ferramenta dos deuses para formar seu mundo.

“Quando pequeno, várias histórias me foram contadas, mas com toda a certeza essa foi a que mais me prendeu a atenção. Sempre tive um gosto estranho por bestas míticas, principalmente dragões. Soube que eles haviam criado todo o nosso planeta, e como recompensa, os deuses deixaram que eles espalhassem seus descendentes. Tais descendentes, até os dias atuais, foram responsáveis por aterrorizar os demais mortais e fazer com que se lembrassem do poder dos deuses e de suas criações. Se os descendentes deles emanam poder por um simples respirar, imaginem por suas próprias cabeças o que os dragões-deuses seriam capazes. Mas as histórias nada me diziam sobre tais bestas estarem fazendo a guarda de Yggdrasil e dos itens que ela ocultava...” –

Mesmo assim, aquela espada é demasiado importante para mim. Partirei pela manhã.

Tem certeza que está em condições, Qlon? - Perguntava Camila, preocupada com sua atual situação.

Já consegui habituar-me razoavelmente bem. Já consegui ficar de pé...

Sim, por três míseros segundos. - Disse Carlos. - Não se preocupe com o tempo, pode ficar conosco o quanto quiser.

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Temo que eu não tenha tanto tempo aqui... - Falou sem querer.

E por quê?

Tenho um determinado prazo para retorno.

E por que haveria de ter um prazo? Digo... Não veio parar aqui por aci dente em uma tentativa de criar um portal para outro lugar e sua espada acabou se perdendo? Pois foi isso que pareceu passar...

Qlon estava em uma situação delicada. Ele não podia contar, de maneira alguma. Se eles descobrissem, por certo o entregariam para anjos de nível superior e ele seria levado a um julgamento. Condenado como um caído, traidor, qualquer pena que conseguisse iria ser temível. Ele apertou os lençóis e virou o rosto, mordendo os lábios. Não mentiria. –

Não, não foi um acidente. O único acidente foi eu ter perdido aquela espada, preciso pegá-la de volta.

Irmão, ele parece incomodado com tantas perguntas. Acho que ele esconde algo.

Se ele esconde algo, não é a nossa obrigação descobrir a verdade. - Disse Carlos, virando as costas. - Se ele não quer dizer mais nada, não o forçaremos.

Mas, irmão...

Basta, Camila! Os motivos dele não me importam.

Mas estamos ajudando! E se estivermos ajudando um pecador? O que faremos? Não temos o direito nem a um julgamento. Seremos...

Aniquilados? - Interrompeu Carlos. - Por ajudar um estranho que nem sabemos o real motivo de ter vindo? Camila, a inocência e a ignorância são duas bênçãos que temos a nosso favor. Não as desperdice querendo saber mais do que precisa. Se os deuses e as virtudes nos ensinaram a bondade, então nada mais correto que praticá-la.

Qlon manteve a cabeça baixa, apenas ouvindo o que discutiam. Não tinha mais a coragem de encará-los nos olhos. Estava retribuindo toda a generosidade deles com o silêncio. Sentia vontade de pedir desculpas, mas as palavras simplesmente não chegavam até sua boca. –

Eu... Eu peço desculpas por não poder contar tudo. E apenas se complicarão caso eu fique aqui, não quero que algo os aconteça por se envol verem com os meus problemas. Estou muito grato pela gentileza, mas partirei assim que o sol raiar, se não se importarem em me hospedar apenas mais uma noite.

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Qlon... - Disse Camila com um olhar triste. - O que você fez? Por acaso estaremos em perigo se o abrigarmos? Por favor, responda! Meu irmão pode não prezar tanto por nossas vidas, mas eu prezo. Diga!

Apenas se mais alguém descobrir. Até lá, estarão a salvo.

Isso é aliviador, não é, Camila? - Perguntou Carlos.

Camila engoliu aquilo com um silêncio cortante. Arregalou os olhos e olhou pro irmão, estampando em sua face um pedido de desculpas. –

Você... Contou para mais alguém, não é mesmo?

Desculpe-me, irmão. Eu... Fiquei empolgada com a notícia de um viajante desconhecido em casa! Então, quando eu estava colhendo os legumes... Digamos que...

Para quem contou? - Perguntou, com um tom severo.

Apenas para Valéria. Mas juro que foi apenas para ela.

Céus, esta é uma cidade pequena, Camila! Logo mais até mesmo os anciãos estarão sabendo! Sua ingenuidade nesse caso passou de bênção para defeito.

Ela jurou segredo! E eu confio nela! Mas...

Mas...?

Ela me pediu para ver o forasteiro. Não como condição para ficar silenciada, apenas como curiosidade.

Como não é uma condição, então não precisamos mostrá-lo. Logo, ela não irá vê-lo.

Algumas batidas soaram na porta. Carlos olhou perplexo para sua irmã, buscando por uma resposta que, com certeza, já sabia. Mas apenas para confirmar, sentiu-se obrigado a perguntar. –

Por acaso não a disse que poderia ver Qlon hoje a noite, não é mesmo?

Irmão, eu... Eu...

Sente muito. Eu sei. Alguma ideia para fugir desta situação?

Deixá-la entrar? Parece o mais óbvio a ser feito. E eu não me importo em ser exposto como um animal enjaulado. Me senti assim boa parte de minha vida mesmo... - Opinou Qlon com um olhar calmo.

Ah! Então essa é a voz do forasteiro? - Disse uma voz inquieta atrás da porta. - Abra Camila, ande!

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Já vai! - Disse Camila, colocando-se de pé e indo, cabisbaixa.

Ao abrir a porta, entrou uma “quase anja” tão inquieta como uma verdadeira criança. Olhos de um azul-marinho incomparável quase saltavam de sua cabeça ao arregalá-los para ver Qlon. Tinha curtos cabelos vermelho-alaranjados de pontas arrepiadas que tocavam as orelhas e esvoaçaram quando ela correu até a cama, no alto de seus 150 centímetros. Pele tão branca quanto leite e com sardas no rosto, seria tão criança quanto Qlon se não fosse pelo busto desenvolvido e pelas grossas coxas. Em um ato tão espontâneo quanto respirar, pegou a mão esquerda de Qlon e colocou entre as suas. –

Sempre barulhenta, Valéria. - Recebeu-a Carlos, com um tom seco na voz. - Ao menos respeite o estado do nosso hóspede, não vê que ele está cansado?

E você, sempre rigoroso, Carlos. Se ele estivesse tão cansado estaria dormindo, não acha? Agora eu quero conhecer esta pequena e linda criança que com certeza é um presente dos céus.

Presente dos céus? Acho que anda imaginando coisas demais. E o que foi prometido por minha tola irmã seria que iria vê-lo, apenas. Agora, se não se importa em retirar-se, já está muito tarde e...

Então pequenino, - Dizia Valéria, ignorando completamente o que era dito. - diga-me seu nome e sua idade. E como veio parar aqui. UAU! Seis asas? E grandes... É um serafim? Tão jovem?

Valéria enchia-o de perguntas mais rápido do que ele poderia responder qualquer uma delas. Enquanto Qlon conversava com Valéria, Carlos olhava para Camila com desaprovação, mas ambos se descontraíram e passaram a rir da situação. Carlos fez um chá de ervas e a conversa adentrou a noite, com Qlon sempre evitando dizer algo que fosse comprometedor, mesmo que para cada resposta dada Valéria falasse dela por muito tempo mais tempo do que gastava olhando para o pequeno anjo, cujos profundos olhos desgrudavam dele apenas tempo o suficiente para piscar. … “A noite havia estendido-se mais do que planejávamos. Carlos adormecera recostado na parede. Camila havia deitado-se no chão, em cima de seu braço direito e Valéria dormira com as mãos ainda agarradas nas minhas. Eu não dormi aquela noite. Estava descansado e sentia-me revigorado. O pensamento de não querer prejudicar àqueles pobres seres também me ajudou a tomar aquela decisão. Soltei minha mão das de Valéria e fiquei de pé. A gravidade ainda estava deixando-me pesado, mas consegui permanecer de pé e dar os primeiros passos. Peguei minha bolsa e olhei-a. Ainda estava com tudo dentro, principalmente aquilo que eu mais temia perder: as duas pedras de Breu. Retirei de lá de dentro

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uma pena e um papel, e escrevi uma breve carta de agradecimento e despedida, dizendo que fora um enorme prazer ter conhecido a todos eles, mas que eu realmente precisava partir para evitar qualquer desconforto futuro. Também pedi desculpas por ter pegado um pouco de suprimentos, mas não seria mais do que apenas o necessário. Enchi meu pequeno cantil, depositei a carta sobre a mesa e deixei uma pena branca de minha asa como lembrança. Não era muito, mas era tudo que eu podia dar. Pensei em abrir a porta para sair, mas já havia perce bido que ela rangia e fazia um grande barulho ao ser aberta. Então, com um pouco de esforço, eu saí pela janela e caí em um fofo gramado, ainda de pé. Olhei ao meu redor: era uma vila realmente pequena nas encostas de uma floresta densa que parecia estender-se ao infinito. Todas as casas eram feitas de madeira e barro, com uma ou duas feitas de pedra. Todas com forro feito de folhas gigantes das árvores. Mesmo assim, não deveria haver mais que quinze casas e uma pequena praça com um poço artesanal ao seu centro. E para todos os lados que eu olhasse além dela, uma enorme planície verde podia ser notada. Poucos rios que saíam da floresta cortavam-na, e todos tinham o mesmo destino final: no final de uma vasta planície a nor-nordeste, estava ela, a sagrada árvore de Yggdrasil. Ao menos as raízes e a parte de baixo do tronco podiam ser vistas. O resto estendia-se por um céu infinito e desaparecia por detrás de nuvens que rodeavam apenas a ela. Acho que estava mais do que óbvio como eu deveria subir os andares. O que eu tinha mais medo, na realidade, era de ter de confrontar os quatro deuses dragões, cujo poder com certeza estaria fora de minha alçada. De qualquer modo, era para lá que eu deveria ir: a espada de meu pai ainda estava esperando para ser resgatada. Não vendo outra escolha, passei a caminhar de encontro a ela, com passos curtos.” … Não demorara muito para Qlon precisar de um abrigo em apenas quatro horas de caminhada. Andar sob o efeito de uma gravidade maior o deixara totalmente exausto, sem contar na noite de sono perdida. Mas naquelas infindáveis planícies, um abrigo para descansar era quase impossível. Poderia novamente estender-se sobre a grama macia, mas um arqueiro ainda poderia vê-lo da vila que saíra e atirar uma flecha. Não havia distanciado-se muito mais que três quilômetros com seus passos curtos. Até mesmo tentara voar, mas estava completamente fora de cogitação: suas asas não completamente formadas não aguentariam sequer cinco minutos de voo sobre aquela pressão atmosférica, e isso caso conseguisse sair do chão. Estava, basicamente, arrastando-se. Caso um caçador saísse em sua busca, não seria nada difícil rastreá-lo. Mesmo sob tais adversidades, reclinou-se na sombra de uma árvore duramente encontrada e descansou. Olhou para o chão com mais atenção e percebeu pequenas raízes, que não pareciam pertencer nem à grama e nem à árvore cujo caule servia de apoio. Não era a hora de investigar o que eram, e sim hora de descansar. O dia estava apenas raiando, mas ele precisava dormir. Fechou os olhos, que pareciam pesar mais que

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seu próprio corpo naquela dura caminhada e dormiu um sono contínuo. … “Acordei e os quatro sóis já estavam altos, quase no período do cume. Só então eu tinha percebido que eram quatro e que, no auge do dia, eles ficavam um atrás do outro. O céu estava claro, completamente sem nuvens, tirando as mais distantes que se aglomeravam perto de Yggdrasil. Um cheiro forte invadia as minhas narinas. Algo queimava à distância. Meu primeiro reflexo foi olhar para a vila, temendo o pior. Por sorte não se concretizou. O forte cheiro de algo sendo consumido pelas chamas vinha de outro lugar, e justamente do lado diretamente oposto. Mesmo daquela distância, um enorme dragão podia ser avistado voando nos céus, soltando chamas por sua boca. Era ele, o deus dragão das chamas e trovões: Juggernaut. Não conseguia ver com todos os detalhes, mas era realmente colossal. Já havia visto montanhas menores do que ele. Muitos barulhos podiam ser ouvidos, dentre eles inúmeras explosões quase ensurdecedoras. Ondas de vento carregando poeira chegavam até mesmo onde eu me encontrava. A parte boa é que Yggdrasil parecia intacta. Rezavam as lendas que, se ela fosse destruída, todo o universo entraria em colapso e seria consumido. Por isso, os deuses criaram-na com um tronco tão resistente que nem mesmo a ponta da mais afiada lança poderia atravessar.” … A viagem custara em torno de dois dias, mas apenas mais um de viagem seria o suficiente. Havia adaptado-se facilmente à gravidade depois de certo tempo, sentia-se leve. Mesmo assim, incapaz de voar. Não arriscaria quebrar suas pequenas asas em uma tentativa possivelmente fracassada. Pouco restara dos mantimentos que carregava consigo. Os pequenos pães sovados tinham deixado apenas farelo, mesmo com a grande economia que tentava fazer. Já havia um certo tempo que seguia um dos rios, por isso não se preocupava tanto com água. Mesmo assim, mantinha o cantil sempre cheio em caso de emergências. Yggdrasil continuava lá, intacta. Mas o que quer que estivesse acontecendo naquele lugar, não acabaria tão cedo. As explosões e barulhos continuavam por todo ambiente. O dragão parecia exausto, mas mesmo assim ainda voava, mantendo-se no ar com o que o cansaço não havia consumido. Uma enorme serpente, que vinha a sua mente como Tiamat, a serpente que era o equilíbrio entre Luz e Trevas, enrolava-se na árvore, e tentava armar um bote a algo que daquela dis tância não podia ser visto. Por várias vezes os rios quase secaram, e ele jurou poder ver uma enorme onda, possivelmente formada por Leviathan, que outras vezes conjurava uma enorme nevasca. Behemoth tremia a terra com suas pesadas pegadas. Algo estava acontecendo, possivelmente uma batalha. Não queria que acabasse antes de ele presenciar. Para isso estava movendo-se mais rápido. Queria ver com seus próprios olhos o poder dos dragões, queria saber como era o poder das criaturas lendárias que, por muitas vezes, habitaram sua mente.

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Cap. 17 – Uma Batalha para Memorizar

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ncontrava-se a mais ou menos dois quilômetros quando por fim percebera que seria impossível aproximar-se mais. Já era quase noite. Pedras voavam constantemente em todas as direções e grandes ondas chegavam perto o suficiente para molhar seus pés por dentro das botas. Relâmpagos formavam-se nas nuvens e golpeavam o solo com grande intensidade, e chamas podiam chegar perto o suficiente para aquecer seu corpo. Uma forte ventania emanava de Yggdrasil, e até mesmo grandes tornados formavam-se nas suas proximidades. O vento puxava e outras horas empurrava, e se não quisesse ser engolido pelo movimento do ar, era melhor permanecer onde estava. A oscilação de energia era tamanha que algumas horas, tudo escurecia, e em outras o clarão era tão intenso que chegava a cegá-lo momentaneamente. Ainda não visualizava direito o que ocorria, mas podia ter mais detalhes do que se passava. O cansaço de três dias em claro tomava seu pequeno corpo. Todos os quatro dragões atacavam diretamente a um ser encapuzado de manto negro que, pela distância, se parecia com um pequeno ponto preto que mal podia ser notado, movimentando-se tão rápido quanto os relâmpagos que queriam atingi-lo. Tivera de forçar tanto sua visão que ficou com dores de cabeça Sentou-se e agarrou-se a uma das grandes raízes que chegavam até ali. Aqueles pequenos veios que vira antes na terra iam crescendo com o passar das milhas e formavam grandes emaranhados, gerando por fim raízes grandes o suficiente para dar dois de si. Tinham a cor de um verde vivo, que brilhava quando a luz nelas refletiam. “Era uma batalha épica, e eu não queria perder nenhum detalhe. Mas, antes, deixe-me diferenciar os quatro dragões de acordo com as próprias lendas e pelo que eu pude perceber: Juggernaut era o dragão clássico: Cabeça de lagarto, com ossos mais pontiagudos, cujas extremidades perfuravam sua pele e as escamas negras, e eram vistas por fora de seu corpo ao longo de toda a sua extremidade, principalmente os que passavam pelas vértebras de sua coluna, articulações das patas e asas e, até mesmo, costelas. Na testa, tais ossos formavam o que se parecia com uma coroa. Um pescoço longo ligava a cabeça a um corpo grosso, com patas cujas garras eram tão afiadas que, diziam os mitos, cortava até mesmo diamantes. Duas colossais asas de membranas grossas e avermelhadas saíam de suas costas e, quando usadas, gerava ventanias fortes o suficiente para derrubar árvores de uma floresta. O corpo terminava em uma longa

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cauda, onde um ferrão feito com os próprios ossos aguardava para perfurar um inimigo em uma espessa armadura. Da cabeça até a a ponta do rabo, media mais de dois quilômetros, e de uma a asa a outra deveria chegar ao dobro. Tiamat era a serpente gigante, cujas escamas verde-esmeralda eram eriçadas como pelos expostos ao frio. Tinha enormes olhos amarelados em duas cabeças ovaladas separadas pelo pescoço e unidas após dois quilômetros de extensão. Presas saíam de suas enormes bocas que, se fossem usadas para uma mordida, poderiam devorar um contingente inteiro de soldados. Tais presas possuíam o veneno mais mortífero do universo, de acordo com as lendas, que matava qualquer ser vivente apenas com o seu cheiro e derretia até mesmo metal. Seu corpo era o maior de todos, tanto é que podia dar três voltas no grosso tronco de Yggdrasil. Possivelmente mais de vinte quilômetros do seu focinho até o final de sua cauda, onde um chocalho balançava agitado. Behemoth era um dragão terrestre sem asas, mas grande como uma montanha. Sua cabeça era arredondada e achatada, com pequenos olhos negros, mas uma boca enorme igual a da sua irmã serpente, ou até mesmo maior. De tal boca, a mandíbula pendia para a frente e seus dentes em forma de serra se ex punham. Se o resto de seu corpo fosse comparado ao de um animal, provavel mente se equipararia a mistura de um elefante e de uma tartaruga gigante. Patas arredondadas e extremamente pesadas, sem qualquer garra. Costas revestidas por uma couraça verde escura, com longos espinhos feitos de ossos que tinham no mínimo um quilômetro até a ponta, intrespassável por qualquer objeto pontiagudo. Corpo coberto apenas por uma grossa pele cor-de-terra, com pequeníssimas escamas, e um curto rabo que saía por detrás de sua carapaça. Tinha uma altura, quando ficava sobre as quatro patas, de três a quatro quilômetros, e dá cabeça até a ponta do rabo o dobro. Leviathan quase não saía de algo que parecia ser um enorme lago que rodeava a árvore da vida, mas ainda assim emergiu e mostrou-me sua beleza fina. Suas escamas azul-escuro eram lisas e arredondadas, e brilhavam com a luz refletida na água que as umedeciam. Seu corpo era extenso e tinha seis enormes nadadeiras divididas em três pares ao longo de seu torso. Uma cauda de tamanho razoável estava no final de seu corpo, bifurcada como a de um peixe e com uma fina membrana branca semitransparente. Tal membrana revestia também suas grandes asas. Tinha um pescoço gigantesco e uma cabeça longa, com uma boca pequena e que mantinha cerrada, mesmo que seu maxilar fosse extenso e dois enormes caninos inferiores saíssem por seus lábios. Seus olhos eram esbranquiçados e enevoados, e as histórias dos antigos contavam que os homens perdiam a memória apenas por olhá-los diretamente. Ver qualquer um deles batalhando sozinho já seria mais do que suficiente para que qualquer um dos poucos anos de minha vida e toda a jornada até ali valessem a pena, mas ver todos eles juntos era motivo de um choro carregado de sentimentos, tamanha a emoção. Tudo que eles faziam, os movimentos fluídos e

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que se completavam, os poderes, as técnicas que se emendavam uma à outra... Era como ver um espetáculo circense onde todos os artistas estavam em equilíbrio, usando suas habilidades mais deslumbrantes para chamar a atenção do público que o prestigia. Eu sentia-me privilegiado por ser o único espectador daquela batalha épica que enchia meus olhos de lágrimas a cada segundo. Chegava a ser uma covardia ser o único a ver uma luta tão exclusiva, que jamais seria descrita em histórias...” Mas, para o azar do pequeno anjo, a luta parecia estar acabando, e não eram os dragões-deuses que estavam vencendo. Mesmo os dragões, em um nível de força extremo, não conseguiam sequer tocar no ser, que se movimentava como um fantasma. Pareciam estar atacando o ar, e hora ou outra ele os confundia e fazia atacarem uns aos outros. Todos os quatro pareciam estar extremamente cansados. Mas a luta continuou. Labaredas iluminavam o céu de quatro sóis, que se punham um de cada lado do horizonte. Não havia lua, apenas um céu estrelado surgia acima de sua cabeça, começando por detrás das nuvens que encobriam o topo da gigantesca árvore e espalhando-se pelo céu em forma de cúpula. As chamas que Juggernaut soltava por sua boca nunca acertavam diretamente o alvo. Apenas faziam com que bailasse no ar uma dança ditada pelo ritmo de suas esquivas, que não apenas evitavam que fosse queimado como também eletrocutado pelos diversos raios que surgiam dos céus. A grande serpente estava enrolada na árvore e acompanhava seu movimento fluído, hora ou outra tentando abocanhá-lo. Mas suas investidas não surtiam efeito algum, mesmo com duas cabeças. Aliás, aquilo tornava-se uma desvantagem. Quando ele, o vulto, entrava entre os dois pescoços, o dragão negro tinha de parar de atacar, e as duas cabeças constantemente chocavam-se ou os pescoços entrelaçavam-se algumas vezes, sendo demorado seu desenrolar. Behemoth, do chão, pouco podia fazer, a não ser atirar algumas rochas que apanhava do solo por uma mordida e cuspia em sua direção. Mas, assim como as chamas, nem chegavam a tocá-lo, e acabava atrapalhando a seu irmão Juggernaut, por inúmeras vezes acertando-o ou bloqueando suas chamas. Quando atirava um espinho de sua carapaça, o vulto deixava passar e bater no que estivesse no caminho, que por muitas vezes fora Tiamat. Para a sorte deste, tais espinhos, apesar de enormes, não faziam muitos estragos em sua armadura de escamas. Quando eles batiam na árvore de Yggdrasil se quebravam como se fossem feitos de vidro. Leviathan apenas ficava no lago, acompanhando seus movimentos como uma enorme sombra. Quando podia, atirava um espeto de gelo que varava os céus, ou criava uma onda grande o suficiente para engoli-lo. Mantinha conjurada uma eterna nevasca, mas nem isso parecia ser suficiente para atrapalhar o movimento fluido do oponente. O vulto era mesmo um mestre na arte da esquiva, mas apenas nisso. Não parecia golpear, ou ao menos não teria visto uma brecha para

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isso em meio àquele mar de ataques sucessivos e combinados. A terra tremia com cada pisada de Behemoth, que aparentava uma fúria incontrolável. … “A batalha se estendera pela noite. Já estava parado a muito tempo, apenas contemplando o esplendoroso embate que parecia não ter fim. Mas havia chegado a um. O pequeno ponto preto mantinha-se parado no ar. Juggernaut ofegava e chamas saíam de suas narinas. Tiamat já quase havia escorregado da árvore sagrada uma ou duas vezes em sua tentativa de dar o bote. Leviathan muito se escondia nas profundezas e já não lançava ondas gigantes nem conjurava seus tufões enquanto Behemoth já parara de atirar espinhos de suas costas. Tudo se resumiria ao próximo movimento. Mais rápido que uma flecha, o ser foi ao encontro de Tiamat e pairou entre suas duas cabeças. Elas tentaram um ataque final, mas, no último instante, ele voou para o alto e as duas se colidiram, nocauteando-a e a fazendo cair do tronco com um baque ensurdecedor em cima de Behemoth. Ambos estavam agora fora de combate. Juggernaut não usava mais seu fogo. Voava atrás do vulto com toda a sua velocidade, dando voltas ao redor da árvore e tentando por vezes devorá-lo. Leviathan atirava algumas poucas estacas de gelo para cima. Uma acertou Juggernaut exatamente na barriga e destroçou-se. Já quase sem forças e despencando, ele ainda tentou lançar dos céus um último raio ao seu inimigo, mas seu azar foi tamanho que Leviathan estava no ar tentando comê-lo e acabou recebendo o raio em seu lugar. Ambos despencaram direto no enorme lago e uma outra onda enorme foi molhar-me, chegando aos meus joelhos, enquanto uma fina chuva caiu nas proximidades, ditando o final do embate. O vulto havia sumido, por fim, de minha vista. Meus olhos doíam e nem mesmo eu sei como consegui ver tão longe. Caminhei por cerca de uma hora em meio ao lamaçal que havia formado-se no solo encharcado até chegar ao local onde fora travado o combate. Os corpos dos dragões jaziam ali, apenas nocauteados. Sua respiração ainda podia ser notada com o movimento de seus enormes ventres. Afinal... Quem será que tinha vencido quatro lendas? Por certo não estava mais ali. Para onde teria ido? Mas aquilo não era o mais importante no momento. Não havia encontrado a Sanctus ainda, e eu rezava para não estar debaixo de nenhum deles.” Os corpos caídos atrapalhavam sua movimentação. Era como um enorme labirinto, e ainda tinha a árvore sagrada de Yggdrasil para atrapalhar sua limitada movimentação. Nas raízes que se estendiam pela superfície, haviam enormes espaços vagos onde a água se acumulava, formando um gigantesco lago, onde os corpos de Leviathan e Juggernaut boiavam. Só podia passar pelas raízes, lisas e que dificultavam seu caminhar. Elas funcionavam como pontes sobre o lago, e um escorregão poderia significar que teria enorme dificuldade para sair dali. O corpo de Tiamat estava depositado em um círculo ao redor da árvore, cujo

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tronco tinha dois longos quilômetros de diâmetro. Seria exaustivo chegar ao outro lado, mas não tinha outra alternativa. ... Mais de quatro horas desviando dos grandes dragões, temendo seu despertar, e escalando raízes que se amontoavam e Qlon finalmente via o que estava atrás da árvore de Yggdrasil. Mais uma vasta planície, por onde suas raízes se ramificavam indefinidamente. Muito mais distante, outra grande floresta tomava conta do lugar. Parando para pensar, a vila dos aprendizes de anjo era realmente pe quena em toda aquela vastidão que era o primeiro andar. Tentou vislumbrar qual era o lugar onde sua espada caíra, e não demorou muito a encontrar. Uma enorme cratera era vista a cerca de cinco quilômetros dali. As raízes nem ao menos haviam sido destruídas com o impacto: apenas se afastaram ligeiramente, dando lugar ao gigantesco buraco. Por certo era um grande estrago. Parou por alguns instantes e olhou para cima. Perto da árvore as nuvens eram mais grossas e negras. Devia ser realmente ali a entrada para o próximo andar. Mas antes precisava recuperar aquilo que o pertencia: Sanctus. Onde estariam guardados os tesouros sagrados? Não havia visto sequer uma das relíquias em lugar algum. Estaria o vulto ali para saqueá-las? Demorara dias em uma mesma batalha, deveria procurar por algo, com toda certeza. Contanto que não tivesse levado sua espada, estava de bom tamanho. E, ainda exausto, colocou-se a caminhar até a relíquia que ele havia perdido. … A Sanctus fizera um grande estrago, deveras. A cratera devia ter um raio de trezentos metros, e a profundidade de uns quinze. Mesmo da borda da cratera, Qlon conseguia enxergar o leve brilho azulado refletido pela lâmina de Mythril. Como quem não visse um parente amado depois de muito tempo, correu em sua direção. A gravidade e o cansaço já não importavam mais. Ao chegar próximo à ela, ajoelhou-se e colocou suas mãos no frio cabo de aço. Uma sensação indescritível de êxtase tomou seu corpo. A espada havia cravado fundo no solo: mais da metade estava enterrada, e foi muito difícil retirá-la dali. A pressão atmosférica fazia questão de incomodá-lo até mesmo naquele seu momento de superação. Mas nem se preocupou tanto com aquilo, até mesmo cavou parte das pedras, machucando suas mãos apenas para empunhá-la novamente. Quando a pegou, ergueu-a, ainda que estivesse mais pesada. Deu-se por satisfeito. Limpou a lâmina suja de terra com a própria roupa encardida, e vislum brou o o seu reflexo. Cabelos sujos e despenteados, roupa com pequenos rasgos e completamente revestida de pó, calças limpas apenas dos joelhos para baixo... Havia tornado-se alguém igual ao seu pai: heroico, impulsivo e completamente desprovido de higiene. Por fim, embainhou-a. O peso levemente acentuado em sua cintura fora o suficiente para que caísse de exaustão e dormisse ali mesmo. Estava cansado demais para qualquer movimento, e feliz demais para

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qualquer outra preocupação. … Dormiu por um dia inteiro. Os sóis nasceram e caíram, e só então ele voltou a abrir os olhos. Algumas poucas nuvens se aglomeravam no céu, mas não eram de chuva. Apenas finas e bem dispersas. Levantou-se com fome. Os suprimentos haviam acabado. Bebera a água morna do cantil mas não adiantara de muito, também havia acabado. Era melhor procurar por suprimentos ao subir para o segundo andar, e deveria fazer aquilo logo. O problema seria: como passar por aquelas monstros que vira lutando? Ele não tinha habilidade suficiente para tal. Bom, haveria de pensar em um plano. Antes de qualquer coisa, saiu da cratera e olhou para Yggdrasil. Os dragões que ali jaziam haviam sumido. Estranho. Seria assim tão fácil? Tentou voar. Até conseguira por algum tempo, mas logo fora obrigado a descer ao chão novamente. Doíam os músculos que usava nesse processo, perto dos ombros e aqueles que estavam na articulação das asas. Tinha esperanças de finalmente parar de andar, suas coxas ainda doíam muito da exaustiva caminhada até ali. Não restando outra alternativa, fez o que mais tivera feito desde que chegou ali: andou de volta a árvore mãe. Ao chegar lá, não se deparou com nenhum dragão, para seu alívio... Que não chegou a durar muito: na sua frente, quatro grandes seres pararam diante dele. Tinham corpos diferentes, mas eram praticamente iguais em altura. –

Somos os grandes dragões-deuses. - Disseram em uníssono. - Diga o motivo de sua presença e julgaremos se sua causa é nobre. Se for nobre, forasteiro, poderá passar. Caso não seja, receberá uma tortura mais agonizante que a própria morte. Escolha bem suas palavras.

“Sentia-me amedrontado. A presença daqueles quatro seres era, realmente, empírica, e se eram os quatro dragões-deuses ou não sequer importava. Aparentavam uma força maior do que a minha do alto de seus musculosos corpos que chegavam a três metros de altura. Por coincidência ou não, seus corpos realmente apresentavam algumas marcas que os relacionavam aos dragões. O primeiro, que estava exatamente a minha frente e bem próximo a mim, tinha longos cabelos vermelho-alaranjados e arrepiados que tocavam seus os ombros, onde ossos arrebentavam carne e pele e ficavam completamente expostos, parecendo ombreiras de pontas ligeiramente afiadas. Em sua cabeça, uma coroa com os ossos de seu próprio crânio o adornava e dentes afiados se mostravam enquanto falava. Tinha cotovelos e joelhos bem ossudos, e apenas três dedos em cada mão, com unhas compridas e pontiagudas. O mais a esquerda tinha duas cabeças quase idênticas, uma feminina e outra masculina, com línguas compridas e esguias que pendiam de seus lábios. Os caninos superiores saltavam de suas bocas. Eram carecas tão lisas que pareciam ser polidas. Ao contrário dos outros, era magro (a), com braços grandes o suficiente para arrastar no solo e pernas que pareciam duas varas. O corpo deles era

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dividido: o lado da cabeça feminina tinha suas características, como um seio arredondado e uma costela a menos. O outro tinha o peitoral másculo definido e uma costela a mais. O que estava entre ele(s) e o ruivo era o que aparentava ser uma mulher de seis braços. Longos cabelos loiros e lisos tocavam o solo. Tinha uma face fina e delicada, com nariz e queixo ligeiramente compridos. Em suas mãos, dedos longos pendiam com membranas finas entre eles. Em seu pescoço, guelras faziam oito pequenos buracos, quatro de cada lado. Apesar disso, aparentava ser uma bela fêmea com um corpo bem torneado... Ao contrário do último terrível ser. Estava mais à esquerda e ocupava o mesmo espaço que todos os três ao seu lado. Era alto e gordo, com o maxilar estendido para a frente, de onde dentes como uma serra saltavam para fora de sua boca grossa. Mantinha os olhos constantemente fechados e uma 'monocelha' espessa se fechava no alto de seu nariz com o formato de uma batata. Uma testa grande o suficiente para um anúncio de lojista terminava em um emaranhado de curtos cabelos cor-de-terra, grossos e completamente despenteados. Seu corpo era gordo, com uma barriga que, se tivesse um útero, poderia carregar até sete ou oito bebês. Tinha braços e pernas que não acompanhavam o crescimento do corpo e eram extremamente pequenos, com mãos e pés enormes. E, para finalizar, era corcunda. Daqueles que eu pude ver, nenhum tinha sexo, tinham olhos amarelos com uma fina pupila e escamas revestiam algumas partes (menos na bola de carne). Todos me davam olhares penetrantes e não mostravam qualquer expressão. Medo começava a se formar em meu coração, então tomei a atitude mais imbecil de todas que eu podia ter tomado: saquei a minha espada e os encarei com olhos afiados, em minha melhor posição de batalha, segurando lágrimas de medo em meus olhos.” –

Olhe só, Juggernaut. – Disse a de cabelo loiro virando-se para o de cabelos rubros. - Ele pretende enfrentar-nos. Não é uma graça este pequeno serafim?

O que acha, devo matá-lo, Leviathan? Olhe só, nem chega a se mover direito, é um inútil mesmo! - Olhou firme para Qlon e disse: - Vamos, garoto! Dê a mim um pouco de diversão antes que eu devore sua carne!

Qlon não conseguiu mais segurar o choro. Rompeu em lágrimas e gritos de medo, enquanto agitava freneticamente a Sanctus, sem nada acertar. Sua bexiga não conseguiu conter sua urina que escorreu pelas calças. –

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Isso é simplesmente hilário! A quantos milênios eu não via alguém se mijar em minha frente! - Disse Juggernaut às gargalhadas. - Ande guri, venha até mim! Devorarei sua carne, mas não irá morrer. Todos os dias ela crescerá novamente, e será mantido acordado e obrigado a ver seus órgãos serem dilacerados.

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O ser gordo da direita, que inconfundivelmente parecia-se com Behemoth, chegou a deixar baba escorrer pelo canto da enorme boca e balbuciou algo que Qlon não entendera, pois mal conseguia mover seu maxilar. As duas cabeças carecas que, sem sombras de dúvida, eram a forma de Tiamat, deixaram escapar um es guio sorriso, e traduziram o que aquele de barriga enorme queria dizer, falando ao mesmo tempo em uma perfeita sincronia: –

Behemoth diz que nunca provamos carne de Serafim antes. Deve ter um gosto muito especial. - As enormes línguas aumentavam o som do “s” que saia por suas finas bocas.

Então, está decidido! - Disse Juggernaut quase berrando. - Hoje nosso jantar será a carne de um Serafim!

Todos pareciam contentes, menos Leviathan, que se pronunciou logo em seguida, com uma voz leve: –

Esperem, irmãos! Não veem o que acabou de acontecer? - Disse parando na frente do garoto antes que Juggernaut o agarrasse com seus grandes braços. - A criança urinou! Diga-me, Juggernaut, onde foi que vira isso pela última vez?

Ora essa! No mundo mortal, é claro! - Respondeu com brutalidade na voz. - Por quê?

Então! Será que não viram? Este jovem ainda é mortal. Ele deve ter entrado neste reino sem o consentimento das virtudes, por isso... - Apanhou o braço direito de Qlon e passou sua unha na altura do pulso, cortando-o. Sangue passou a pingar pelo fino corte. - … ele ainda possui órgão genital para excreta urinária e suas feridas não se fecham na mesma hora que ocorrem. Isso é muito incomum...

Então, o que sugere, Leviathan? - Perguntou o confuso Juggernaut.

O óbvio. Vamos trancafiá-lo no calabouço e, depois de um tempo de tortura controlada para que não morra, iremos investigar o que está acontecendo aqui. - Disse ela, apertando o braço de Qlon a ponto de esmagar seus ossos.

Argh, Leviathan! - Berrou Juggernaut. - Sempre com essa mania de trancafiar e questionar. Sabe que as bestas da grande floresta mal nos ser vem de alimento, e se não fosse por sua interferência poderíamos ter devorado aqueles guardas ao invés de deixá-los passar!

Lembre-se você, Juggernaut, – Disse ela, levantando a voz. - que só estamos vivos ainda por misericórdia dos deuses! Eles nos mantiveram aqui após nossa tarefa como ferramentas de criação ter sido concluída, e agora guardamos os tesouros celestiais!

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Guardávamos... - Pronunciou o esguio ser de duas cabeças.

Todos baixaram as cabeças. Após uma longa reflexão, Tiamat pronunciou-se: –

Mas os deuses não precisam ficar sabendo!

Eles já devem saber. - Disse Leviathan com uma triste voz.

Então sabem que não foi nossa culpa! Não vão nos matar! - Insistiu Tiamat, com as duas cabeças ainda falando em uníssono.

Se querem saber, façam como desejar. - Disse Juggernaut, recostandose em uma das imensas raízes. - Eu vou voltar a dormir. Realmente, um anjo pequeno como esse não faria diferença alguma em nossa dieta. Mas tenho um estranho pressentimento... Que já senti este cheiro. Em algum lugar...

Os três restantes ficaram em silêncio e entreolharam-se. Mantinham um olhar de culpa incontestável. Após uma longa pausa, Leviathan pronunciou-se novamente, com a voz mais calma e pesada: –

Se todos aqui estão de acordo com minha ideia quanto ao garoto... - Ainda mantinha o braço de Qlon firme em seu punho.

Sim. - Disse Tiamat, e até mesmo Behemoth soltou um gemido que parecia concordar com o que era dito.

Então, escoltemos ele até a sua prisão.

“Leviathan me levou pelo braço direito e Tiamat pelo esquerdo. O gorducho apenas serviu de escolta, como se fosse fazer alguma diferença: eu não tinha força alguma para resistir, então apenas cedi pacificamente enquanto me arrastavam pelas raízes de Yggdrasil. Me levaram ao outro lado da árvore, que eu não estivera antes, e então eu pude entender onde os tesouros estavam guardados. Um templo de pedras em ruínas estava no local, com enormes pilares cujos pedaços se estendiam pelo chão. A entrada estava limpa, mas uma boa quantidade de pedras jaziam ao seu entorno. A construção aprofundava-se em uma enorme galeria e uma grande torre ao seu centro, que estava esburacada e quase desabando. Não pude ver muito, pois não era para lá que me conduziam. Um enorme alçapão feito de madeira e com maçanetas redondas de ferro enferrujado estava às margens do lago que, circundava a toda Yggdrasil. Nem precisaram de archotes quando me conduziram por uma escada que parecia não ter fim e por um longo túnel, com inúmeras curvas. Aqueles olhos de dragão com certeza eram ótimos para enxergar no escuro. Por fim, abriram uma porta cujas dobradiças rangeram, criando ecos no ambiente. Pude sentir Leviathan conduzir-me sozinha e forçar-me a sentar, reclinando brutalmente meu corpo contra a parede. Usou seus muitos braços para me prender em algemas e grilhões, com correntes presas à parede e ao solo. Por fim, largou-me ali, na escuridão.”

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Cap. 18 – Julgamento e Pena

S

ombras. Naquela prisão, era tudo o que podia ver. Não havia ninguém encarcerado além dele no mesmo recinto, ou já teria comunicado-se ao ouvir os “olás” que Qlon mandara e ecoaram por todos aqueles túneis nos primeiros quinze minutos. Se houve, alguma vez em toda a história, algum prisioneiro em todo aquele lugar, com certeza absoluta já deveria estar morto ou, se fosse imortal ainda, estaria até mesmo com as cordas vocais rompidas. Após as primeiras horas, seus olhos haviam habituado-se a ver mesmo em todas aquelas trevas. Um lugar deplorável. Era um cubículo pequeno, de pouco mais que três metros quadrados. Apenas na sua parede havia as algemas, grossas e pesadas, feitas de aço, que se prendiam por correntes de meio metro aos blocos de pedra acima de sua cabeça, deixando seus pequenos braços permanentemente levantados. Seus pés estavam presos a grilhões que deixavam suas pernas bem abertas, presas ao chão. Não conseguia mover nada além de sua cabeça, mas acreditava que era por esquecimento de seus carcereiros, pois atrás dele sentiu uma argola de couro que poderia deixar seu pescoço bem preso. Acima dele, o teto de blocos de pedra tinha um lampião não aceso. Pequenas raízes de Yggdrasil saíam por frestas, e havia incontáveis goteiras. Uma delas estava logo acima de sua cabeça, e as gotas caíam rápido sobre seu cabelo, en charcando-o. A porta era feita completamente de ferro, e estava enferrujada a ponto suficiente de ter vários buracos. Uma viseira estava em seu topo arredondado, e havia uma pequena entrada para comida perto do frio chão pedregoso. “E eu fiquei ali, parado naquela exata posição, durante muito tempo. No começo eu ainda tentava contar o tempo como forma de distração. Passaram-se dez minutos. Meia hora. Duas horas. Dez horas. Um dia. Três dias. Após o décimo dia, já não tinha mais a mesma vontade de contar. Apenas a goteira que me pin gava na cabeça me dava água, e me torturava. Cada gota parecia ter o peso de um martelo, e machucava-me, ao menos em minha mente. Em todo aquele tempo, não haviam feito sequer um contato. Não sabia se haviam esquecido de mim ou se tinham me deixado apodrecer naquele lugar. Não me deram comida, bebida, nem mesmo mais uma palavra. Meus olhos haviam ficado muito sensíveis, podiam enxergar tudo com perfeita clareza, e quase chegava a perceber as cores dos fios rubros de minha franja que pendiam sobre

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meus olhos. Minha audição havia chegado à um nível tamanho que eu podia ouvir passos no chão exterior e até mesmo goteiras que não pingavam em minha cela. Meu tato podia sentir pequenas correntes de ar que deveriam entrar pelas portas do alçapão externo que conduzia àquele lugar, ou mesmo leves respingos vindos das gotas que não paravam de cair no chão. Sentia odores estranhos, fétidos, como se algo houvera apodrecido ali há muito tempo. Tinha adaptado-me a toda aquela situação. E, finalmente, depois de muito tempo eles vieram...” Passos pesados ecoavam pelos corredores desertos. Aproximavam-se rápido. Qlon podia ver uma fraca luz passar pelos buracos da porta corroída e criar sombras irregulares nas paredes. Os passos pararam. Estava perto, podia ouvir seu respirar. Abriu a viseira da porta e a luz de um archote quase cegou os olhos do pequeno anjo, que desviou o rosto e fechou os olhos pois pareciam queimar. O ser que não conseguira reconhecer parou perto dele e abaixou-se ao seu lado. Abriu a boca para falar, mas a voz parecia tão alta que quase o ensurdecera e ele mal pôde ouvir enquanto gritava de dor. Uma mão fina tocou seu rosto e o vi rou. Podia sentir uma respiração em seu rosto. Abriu os olhos vagarosamente, como quem acorda pela manhã e olha para o sol desnudo nos céus do meio-dia. O rosto era familiar: Leviathan. Novas palavras que pareceram não fazer sentido. Ele apenas ganiu de dor, e, ao abrir a boca, carne crua de peixe fora enfiada nela. Cuspiu e levou um tapa na face esquerda. As palavras pareciam ficar mais claras em sua mente: –

Coma logo, não queremos que morra de fome. - Disse em uma altura que aos seus ouvidos parecia que era um grito.

Mais um pouco de carne crua de peixe fora enfiada em sua boca, e desta vez Qlon mastigou, ainda com um pouco de nojo, mas engoliu a cada punhado como uma ceia. Quanto mais mastigava, mais carne Leviathan enfiava garganta abaixo. Por fim, comera o que achava ser mais de vinte peixes grandes. Também abriu sua boca o suficiente para ter um cálice de vinho forçado em sua garganta, que o deixara com um pouco de dores na cabeça, mas nada permanente. Ao acabar de alimentá-lo, olhou em seus olhos acinzentados e perguntou: –

Então, está pronto para confessar o que viera fazer aqui?

Qlon tentara falar, mas palavras não iam até sua boca. Era como se tivesse ficado mudo. –

Sei... Já não fala há muito tempo, não é? Talvez eu o devesse ensinar de novo.

Deu-o um murro nas costelas que parecia ter quebrado duas delas. Urrou alto, agonizando de dor e tentando mover seu tronco. Para finalizar, perfurou a pele na altura das escápulas com unhas afiadas. –

Reaprendeu, pequenino?

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Re... re-a... pre... prendi. - Gaguejou com dificuldade.

Ótimo. Então me responda: está pronto para confessar agora ou quer passar mais dias aqui, nesta prisão?

Qlon havia pensado tempo suficiente. Contaria ou não? Se contasse, sua missão estaria comprometida, e a partir daí não sabia o que os dragões fariam com ele. Mas eles haviam dito que bastava sua causa ser nobre para que pudesse avançar. Sem dúvida alguma era uma causa nobre. Sem contar que os dragões não pareciam ser apenas escravos dos deuses, ou simples funcionários. Eles tinham um certo poder para julgar por si só. Poderia confiar neles? Não tinha outra alternativa. Poderia escolher entre morrer ali, não contando nada, ou então contar a eles e ter um destino incerto. E com certeza não queria morrer ainda. Não ali, não daquele jeito, não naquele momento. –

Si.. Sim. Es-tou pron... to. - Disse por fim.

Ótimo. Creio que tenha feito a escolha certa. Vamos.

Ela desprendeu as algemas e grilhões. Ele tentou colocar-se de pé sozinho, mas sentia dores demais. O contato com as frias pedras daquela prisão tinha retirado a sensibilidade das partes que ficaram em contato constante, deixando a pele em carne viva. Muito tempo se passara desde que tinha ficado de pé pela última vez, acabou ficando desnorteado. –

Acho que 15 dias são demais para um cárcere, não é? Achou que deveríamos ter esquecido, - Disse Leviathan, pegando-o em seu colo. - não é mesmo? Desculpe-nos, garoto. Estávamos ocupados reconstruindo nosso templo e buscando o paradeiro do vulto que havia atacado. Você entende, não é?

Minha espada... Sanctus... Onde está? - Já conseguia dizer mais claramente, mas ainda assim era um enorme esforço.

Haviam retirado a Sanctus de sua cintura quando o atiraram naquele lugar, e não sabia do paradeiro de sua espada que fora tão difícil de apanhar depois da sua queda naquele andar, Mercurii. Também retiraram sua bolsa. Sentia a sua falta como a de um ente querido, afinal, as histórias de seu pai se faziam lembrar com aquela espada. –

Deveria se preocupar com isso depois. Por enquanto, - Disse carregando-o com dois braços enquanto um terceiro segurava o archote - preocupe-se em ter forças para sua confissão e rezar muito aos deuses para que o deixemos vivo.

Qlon calou-se e esperou em silêncio ser conduzido até o seu julgamento. Sentia-se fraco, mas a carne de peixe de certa forma não se retorcia em seu estômago como imaginava que iria. Precisava de tempo para digeri-la, pensou. Foi con-

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duzido pelos imensos corredores, que tinham curvas e mais curvas, um labirinto feito para evitar fugas, com toda certeza. Por fim, chegaram às escadas que levavam ao ambiente exterior. E que alívio sentira por ver a luz dos sóis novamente. Cegavam seus olhos, mas valia a pena admirá-los por entre o céu repleto de nuvens disformes, que deixavam alguns poucos espaços. A árvore de Yggdrasil emanava seu verde límpido por seu tronco e raízes. O lago recebia luz, e de sua água pura e cristalina podiam ver-se pequenos peixes em cardumes, algas e crustáceos em suas margens. Ela conduziu-o do alçapão ao templo que antes havia visto, mas este havia sido reformado. A torre estava agora completa. Os pilares foram repostos e a entrada estava limpa. Nenhuma rachadura, nenhuma imperfeição, nenhum monólito estava fora de seu devido lugar. Sob a grande porta da entrada que era feita de madeira e tinha maçanetas douradas com cabeças de dragões, estava um brasão, onde os quatro dragões da lenda retorciam-se um sobre o outro. Já havia visto aquele símbolo no livro das lendas que sua mãe contara antes de levá-lo para a cama. Juggernaut voava de asas abertas no topo do brasão. Tiamat refugiava-se por baixo de sua asa esquerda e abraçava-o com seu corpo de serpente. Leviathan pairava na horizontal por baixo dele e abaixo Behemoth se encontrava de cabeça erguida, com os espinhos de suas costas na forma de uma montanha que tinha até mesmo nuvens que a rodeavam. Pela porta adentraram e deparou-se em um enorme salão com um tapete vermelho e várias tochas presas às paredes. Não havia sequer um lustre para ajudar na iluminação escassa do fogo que crepitava por todos os lados, e até mes mo em tochas presas em seis colunas, três de cada lado, pendendo para a passagem que se formava e iluminando o vasto caminho. Haviam sim algumas janelas, mas eram bem esguias e altas, e a iluminação era muito escassa por parte dos sóis, mesmo que estivessem em todas as direções. No fundo, repousavam quatro grandes tronos de pedra, totalmente desconfortáveis. Todos iguais, feitos de rocha e com braços feitos de ferro retorcido. Não fosse pelos brasões talha dos em seus topos, seriam todos idênticos. Cada um era uma parte do brasão que guardava a entrada, mostrando um de cada dragão. Três deles se encontravam ocupados. No mais a esquerda sentava-se Tiamat, que podia quase deitar-se de tão esguio. Repousava seus braços no encosto a eles destinado, mas eram tão grandes que, após o cotovelo, pendiam para baixo como pêndulos. No mais a direita, Behemoth ocupava o espaço do segundo trono, sentindo-se terrivelmente desconfortável naquela “cadeirinha” de pedra com dois metros de altura e um e meio de comprimento. Não parava de tentar mover-se para achar uma posição mais confortável. Não conseguia ter todo o espaço que necessitava por motivos mais do que óbvios. Talvez devessem ter construído um trono mais condizente com seu enorme tamanho... Juggernaut encontrava-se em um trono de “honra”, no topo de uma pequena

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elevação de três degraus, no trono a esquerda. Olhava fixamente para o miúdo ser que Leviathan carregava em seus braços. Um olhar que o fazia tremer ao menor vislumbre de seus olhos amarelos. Repousava o cotovelo no braço do trono e recostava a cabeça em seu punho, como quem estivesse pensativo, ou até mesmo entediado. Leviathan colocou-o ajoelhado perante eles, os quatro guardiões. Tomou então seu lugar entre Juggernaut e Behemoth. “Lá estavam eles, os quatro grandes dragões-deuses, na mesma posição que os encontrei pela primeira vez. Todos ali, esperando algo, apenas me encarando. Não me atrevi a dizer uma palavra nos minutos seguintes, esperando que primeiro se pronunciassem. Ao invés de falar o que tinha passado dias tomando coragem para dizer, decidi olhar mais ao meu redor. Alguns pedestais encontravamse espalhados por toda a sala do trono, mas o que quer que estivesse em cima deles já não estava mais ali. Duas portas, uma de cada lado da sala, levavam a um outro aposento, e uma enorme porta atrás dos tronos de Juggernaut e Levia than deviam levar à torre que podia ser vista do lado de fora.” –

Creio que, - Destruiu o incômodo silêncio Juggernaut. - se deseja confessar para nós as suas intenções, deveria começar agora enquanto ainda é tempo. - Apenas seu maxilar se movia.

Creio que, - Tomou a voz Qlon, já recuperada. - se isto é um julgamento, eu antes deveria saber as regras dele, quem me julgará e quais são as acusações que recaem sobre mim. Por fim, também deveria saber quais serão minhas penas caso eu seja culpado, e o que acontecerá caso eu seja inocente.

Leviathan colocou-se de pé, mas não pareceu ter tomado aquilo como uma insolência assim como Juggernaut, que mordia seus lábios. Tiamat mantinha um riso sádico na face enquanto acompanhava a cena. Behemoth parecia não entender nada... Então, Leviathan disse: –

É acusado de invadir os sete céus em prol de uma causa desconhecida, sobre a qual concordou em falar hoje, perante este tribunal sagrado. Será julgado por nós, os quatro dragões, guardiões de Yggdrasil, e sua pena irá depender do crime e dos motivos que o levaram a cometê-lo. Caso seja considerado inocente, terá um requisito atendido, por ter ficado desconfortável em nossa prisão por tanto tempo. Considere isso como uma forma de recompensá-lo. Também terá sua passagem livre e espada devolvida, e poderá circular por toda a área dos sete céus enquanto seu motivo ainda for uma desculpa.

Sua voz era firme, falava com clareza e pregava a verdade. Se fosse considerado inocente, ganharia aquilo tudo que desejava. Mas ainda tinha um julgamento para enfrentar. Não havia outra escolha, já havia chegado até ali. –

Começarei então o meu relato. Meu nome é Qlon Warrior Eros, sou...

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Não nos diga o óbvio, garoto. - Falou Juggernaut do alto de seu trono.

Óbvio? Como assim? Achei que não sabiam meu nome.

Seu nome sim, desconhecíamos. - Dizia Tiamat. - Mas seus sobrenomes não. Lembre-se, meu jovem, que guardamos uma das entradas e saídas dos reinos astral e mortal. Acha mesmo que não reconheceríamos a família dos olhos prateados? Mais ainda, acha que não reconheceríamos Atirou a Sanctus na frente de Qlon, embainhada. - a família que empossou um dos nossos maiores tesouros?

Como pode pegar nela? Ela deveria apenas obedecer ao seu mestre! Apenas o mestre de cada geração da família Warrior pode suportar seu peso, assim como me fora instruído. Nem mesmo minha mestra pôde içá-la!

Somos os guardiões dos tesouros - Prosseguiu a serpente. - e podemos tocar naquilo que nos fora confiado. Também podemos tocar aquilo que carrega parte de nossa essência...

Como assim? Parte de sua essência...?

Chega! - Irritou-se Juggernaut, batendo suas pesadas mãos sobre os braços de seu trono. - Está fazendo perguntas demais! Continue logo com seus relatos, antes que minha paciência se esgote.

Qlon engoliu em seco. Mesmo com aquela pergunta martelando sua cabeça como a goteira que o molhara por tantos dias, ele teve de prosseguir com o que começara. … “Por mais de uma hora relatei tudo o que havia ocorrido, desde que entrei na Base: o primeiro dia de 'treinamento', a decisão tomada por Lua, o plano de entrada, a vila de Mercurii (que descobri chamar-se Originus), a batalha que presenciei entre eles e o vulto (nessa parte específica Juggernaut pareceu ficar inquieto)... Até o momento que os havia encontrado. Relatei motivos, pensamentos, desejos... Por fim, minha garganta estava exausta de falar e minha boca seca. Pedi um cálice de água, se possível. Juggernaut estalou os dedos e Levia than fora até o lago externo buscar um pouco. Entregou para mim, e bebi até da última gota. Observei-os no final de tudo, buscando encontrar respostas em seus olhares gélidos e inexpressivos.Reuniram-se em um círculo para discutir. Se eu tivesse energias, tentaria correr, mas minhas pernas não me obedeciam, nem minhas asas. E também, mesmo que seguissem meus comandos, eu não iria muito longe. A única coisa que fiz foi ficar ali, esperando, com a Sanctus aos meus joelhos.” …

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A reunião demorou pouco mais de quinze minutos. Por fim, todos voltaram a sentar-se em seus respectivos tronos. Tiamat ficou de pé, proclamando: –

Como um dos quatro supremos dragões, - Suas vozes disseram como uma só. - considerado também o dragão da sabedoria e do equilíbrio entre o bem e o mal, juiz desta sessão, declaro que seu veredicto, Qlon Warrior Eros, descendente ao trono real de Seal, é... Indefinido! Precisamos de mais tempo para poder julgar e chegar a um consenso. Até lá, voltará aos seus aposentos. Deixe a espada onde está e acompanhe pacificamente Leviathan até lá.

… “A estadia naquele cubículo não me agradava sequer um pouco. Pelo menos daquela vez não haviam prendido minhas mãos e eu podia levantar-me para caminhar, o que ajudava a me habituar a gravidade, e Leviathan me levava comida e bebida três vezes ao dia, passando-as por debaixo da porta. Era a mesma carne de peixe crua com vinho que haviam dado quando me retiraram de lá, mas não importava, contanto que eu armazenasse energias. Me mantiveram ali por cinco longos dias, até que por fim vieram buscar-me. Novamente ela, Leviathan.” –

Vamos, Qlon?

Ah, se aqueles olhos inexpressivos falassem! Como ele queria ter uma prévia da sentença ao olhar em seus grandes olhos amarelados de lagarto, mas infelizmente era impossível. Tudo que ela dizia com sua boca fechada era um mistério indecifrável. Desta vez, ela não precisou tomá-lo no colo. Ele levantou-se sozinho, com o corpo completamente sujo dos seus dias sem higiene, desde que fora mantido preso. Durante 20 dias suas vestes foram sujas com suas fezes e urina, mas nos dias que ficou confinado com apenas as pernas presas, se movimentava para os cantos da sala e fazia suas necessidades lá. Emagrecera muito, e a gravidade já não era tamanho empecilho. Sua pele esbranquecera tanto que parecia não ver o sol a muitos anos. Seus sentidos estavam estranhamente mais aguçados, sentia-se muito estranho. Andou pelos corredores, tentando notar cada curva, cada leve declive e aclive. Subiu as escadas apoiando-se nas paredes sem corrimão. Fora conduzido com um pouco de dificuldade pelas escorregadias raízes de Yggdrasil e, novamente, levado ao templo, que permanecia intocável. A mesma cena, a mesma atitude. Ajoelhado perante seus juízes, manteve-se de cabeça baixa, olhando para o chão o tempo todo. Todos notaram seu estado deplorável, mas ninguém disse nada. Apenas Tiamat levantou-se para pronunciar a sentença. O olhar de todos pesava sobre suas duas cabeças. Por fim, ele disse solenemente: –

Qlon Warrior Eros, Príncipe Legítimo de Seal, eu, Tiamat, Dragão do Equilíbrio, Protetor da Luz e da Sombra, sob minha condição de juiz, declaro-o culpado da acusação de traição contra o reino celestial.

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Qlon pôs-se de pé, indignado. –

Mas...

Não há “mas”! - Prosseguiu a serpente. - A sua intenção realmente foi muito nobre ao querer ajudar a sua mestra, mas agira deliberadamente! Fora inconsequente em seu pensamento, tentando tornar-se um herói que não é. Independente da sentença dela e do porquê de ela ter recebido essa pena, é uma decisão do reino celestial, e é incontestável! Para ter uma ideia da gravidade que envolve esta situação, nem mesmo nós acabamos sabendo dessa tal “Lua” até você mencionar seu nome. Com certeza esta decisão foi concedida por alguém de um andar superior, alguém que tem mais poderes para julgar do que nós. Surpreende-me o fato de ela ter conseguido escapar do reino dos céus sem sermos avisados e com as virtudes em seu encalço, isso sim. Os anjos que a traziam deveriam ser poderosos...

Mas qual sentença foi essa? Qual o crime que uma pequena garotinha poderia cometer contra o reino dos céus? Por que querer matá-la?

Isso não é da nossa conta. Tudo aquilo que nós, dragões, podemos fazer é julgar aqueles que aqui chegam, vindos de cima ou de baixo. Assim como as virtudes têm seu papel para manter a ordem entre os dois planos, a nós foi dada a ordem de guardar Yggdrasil e os tesouros com nossas vidas e julgar por conta própria quem merece passar ou não. E você, pequenino, traiu os céus e o julgamento divino. Deveria tê-la entregado para as virtudes, e elas tomariam a decisão do que fazer.

Com certeza aquela seria a última coisa que teria feito. Se tivesse entregado, já estaria morta. Vira como Diligência agira com ela quando serviu de isca. Não perguntou nada, apenas atacou. Ela sequer teria a chance de um julgamento justo. Seria retalhada em milhares de pedaços antes que pudesse dizer qualquer coisa em sua defesa. –

Chega de demais explicações. - Prosseguiu Tiamat. - Se fosse um imortal como nós, estando aqui, a sua pena seria uma vida infinita de prisão e tortura. Mas, como pode morrer, sua sentença é tortura e morte. Tortura, para que sinta o peso da idiotice que cometera através da dor, até se arrepender, e morte como o final de seu sofrimento.

Disseram que julgam por conta própria, correto? Então... Poderiam ao menos me responder se alguém a mais nos andares superiores sabe que eu estou aqui?

Não, e nem precisam. - Disse Juggernaut de seu trono. - Seria muito incômodo uma peste como você atrapalhar qualquer outra decisão importante nos céus. Seu julgamento é este e sua pena será realizada aqui!

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Olhou para todos sentados em seus tronos e para Tiamat. Todos mantinham a mesma expressão, menos Leviathan, que ficara com a cabeça virada para o lado, evitando olhar para Qlon. –

Qlon Warrior Eros, - Dizia Juggernaut. - por seu crime de traição, eu, líder dos dragões guardiões, o sentencio agora a uma pena de torturas por tempo indeterminado e, por fim, a morte. Que os céus o perdoem com sua morte e que sua alma possa reencarnar em um bom corpo, livre de pecados. Quisera ser tratado como um adulto, tanto nas decisões como na forma de pensar. Mimado, acha que pode querer impor suas vontades a todos ao seu redor, contando com sua posição superior e sua precocidade. Esta é a pena que merecia. Leviathan!

Leviathan colocou-se de pé, ainda evitando encarar Qlon, olhando para baixo. –

Sim, Juggernaut?

Conduza-o para sua cela. Nós decidiremos quando e como serão suas torturas e, desta vez, mantenha-o completamente preso, até pela pescoceira. Ele não deverá ter o mínimo movimento além do abrir e fechar dos olhos e boca, e essa é a primeira tortura.

Sim, Juggernaut.

Leviathan o levantou do chão pelo braço, agarrando-o com força. –

Agora vá, - Dizia o grande líder dos dragões. - e tire esse pequeno empecilho de nossas frentes. Temos mais com o que nos preocuparmos...

Leviathan carregou-o pelos braços para fora do salão. Quase o arrastava. Ele queria dizer qualquer coisa em sua defesa mas as palavras não vinham à boca. Realmente, ele estava errado. Não tinha contestação, não tinha segunda opinião. Sabia que isso poderia ocorrer a ele, e mesmo assim arriscara tudo. Valia a pena sacrificar-se por aquilo? Bem, ele agora pensava que não. … Leviathan o prendera como fora ordenado, até mesmo ao seu pescoço naquela tira de couro que estava encravada na parede. Olhou para ele, ainda com sua tocha em mãos. –

Por céus, Qlon. - Disse por fim, encarando-o nos olhos. - É tão inocente ainda... Por que tomou aquela decisão?

Se pudesse ajudar a um grande amigo seu, Leviathan, mesmo sabendo que aquilo que deveria fazer é errado, ainda o ajudaria?

Não sei... Mas Qlon, se servir de consolo... Votei contra essa pena.

E deixou-o ali, na escuridão, sem dizer sequer mais uma palavra.

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Cap. 19 – Tortura Desumana

E

star entre a vida e a morte, esperando por uma tortura, não era lá algo muito agradável. Cada segundo parecia demorar uma hora, e ele rezava para que desistissem daquilo. Que espécie de punição era aquela aplicada pelo reino dos céus e seus servidores? Tanto para ele quanto para Lua... Aquilo era demais! Seria a justiça divina assim tão falha? Mas, para a surpresa dele, após dois longos dias e no meio de uma noite, ele receberia uma visita em meio as sombras... “Passos rápidos em um infinito escuro. Eram ligeiros e bem afastados, quase não faziam barulho. Alguém estava ali. Finalmente parou à minha porta. Por fim, um ruído leve como um sussurro. A porta havia sido aberta, e, para minha surpresa, Leviathan encontrava-se ali, parada na minha frente.” –

Qlon, suas torturas foram decididas. - Disse baixo, aproximando-se.

Mas por que...? - Falava o garoto, confuso.

Guarde suas perguntas para depois. Vim aqui ajudá-lo pois sinto pena da sua situação. O único crime que cometeu foi o de ser puro demais.

Em uma de suas mãos, trazia alguma coisa dobrada numa folha de um verde vivo, cintilante. –

No primeiro dia, - Disse ela. - açoitarão suas costas após te pendurarem pelos pés. Terá dor e muitos machucados, sangrará bastante. Mas disso pode recuperar-se sozinho, apesar do sangramento.

Sim, e no segundo?

Não era como se estivesse ansioso para saber, era só que, quanto mais rápido ela acabasse de falar aquilo, menor seria a tortura de ouvir seus dizeres e mais tempo poderia preparar-se mentalmente para o que estava por vir. –

No segundo dia será pior. - Prosseguiu Leviathan. - Será colocado ajoelhado na Extensão, e isso sim irá doer. Eles não vão puxar o suficiente para matá-lo, mas vai sofrer muito, e pode até quebrar alguns ossos.

E o que é essa Extensão?

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Não tenho tempo para explicar, poderá ver com seus próprios olhos. O mais importante é que, no terceiro dia, cortarão as suas asas e o sacrificarão no altar da torre.

CORTAR...

Silêncio! - Quase gritou Leviathan, tentando conter o susto de Qlon.

“Para os anjos, só havia uma desgraça ainda maior do que se tornar um caído. Tal desgraça era ter as asas cortadas. Era a prova do traidor que não pôde fugir dos céus e refugiar-se no inferno por não ser hábil o suficiente para isso. Uma vez sem asas, o anjo perde completamente o equilíbrio, os sentidos são muito afetados, habilidade de voo retirada e, porventura, vinha a morrer com o passar de algum tempo.” –

Sei que isso é penoso para você e os de sua raça, pequenino, mas deve entender que, aos olhos dos céus cometeu um crime. Mas não é isso que vim aqui falar com você. É sobre sua fuga.

Fuga? - Perguntou Qlon novamente surpreso.

Sim, fuga. Eu não posso deixar que você morra assim. Você está fazendo algo bom em seu coração, mesmo que seja contra os céus. Talvez por isso cada vez mais hajam anjos caídos.

Leviathan... Por quê? Por que está ajudando-me assim? Eu não... Você pode... É perigoso. - As palavras para terminar as frases não saíam pelos seus lábios, eram travadas em sua garganta.

Não me pegarão se você agir corretamente. Escute: Eu preparei um plano, mas precisarei de sua ajuda.

E porque simplesmente não me liberta agora?

Isso seria imprudente. Por certo eles iriam desconfiar de mim. Behemoth não dorme e sempre guarda a entrada do templo, e disse que sairia para vê-lo. Se fugir agora, eles terão total certeza que eu o libertei, e posso ganhar uma pena bem semelhante à sua. Por agora, apenas me ajude a executar o plano que elaborei.

E como farei isso? Estou impossibilitado de fazer qualquer coisa, como pode perceber.

Fique tranquilo, isso não é para agora. Por enquanto deverá sobreviver as duas primeiras torturas, e por mais que eu saiba que os anjos são fortes, seu corpo pequeno e em desenvolvimento não pode suportar muito esforço. Por essa razão, trouxe isto.

Leviathan desembrulhou o que carregava na folha. Eram duas pequenas bolas

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brancas e semitransparentes. Ela pegou-as e colocou na boca de Qlon, dando-o instruções: –

Isso é seiva de Yggdrasil escondida em uma pequena casca de ovo de um pássaro comum da floresta. Tem enormes poderes curativos. Use uma a cada final de tortura para curar as feridas que forem feitas.

Mas - Dizia o pequeno com um pouco de dificuldade. - e se eu acabar gritando de dor?

Não se preocupe com isso, ao torturá-lo Juggernaut colocará uma mordaça de ferro. Ele detesta qualquer barulho que não seja o estalar do chicote com a pele ou o quebrar de ossos. Preocupe-se mais em não engolir quando for pegar água da goteira com a boca ou em não deixar que elas escorreguem pela garganta enquanto dorme.

E quanto a depois das torturas, como vou sobreviver? E como vou recuperar a minha espada?

Depois da segunda tortura, vão achar que não terá mais utilidade prendê-lo, pois não conseguirá ir a lugar algum. Por causa da extensão, no melhor dos casos, seus ombros apenas deslocarão. Conheço Juggernaut e suas atitudes estúpidas. Espere que ele saia da cela e coma o último ovo. A extensão será provadora e garanto que vai querer comer o ovo até mesmo durante a tortura, mas tem de resistir bravamente.

Sim, e depois?

Qlon, não sei se percebeu, mas aqui não temos chaves. Todas as portas são abertas. Poderá sair andando.

Mas aqui é um labirinto.

Eu já ia chegar nessa parte. Qlon, esta é a última vez que irá me ver antes das torturas que se iniciam amanhã. Por isso, grave estas direções atentamente, as falarei apenas uma vez pois não tenho muito tempo. Está pronto?

Sim, estou. Pode dizer.

Aqui todas as extensões se trifurcam, por isso escolherá sempre entre três direções. Daqui até a saída, as direções são estas: Meio, direita, esquerda, meio, esquerda, direita, direita, direita, direita. Entendeu?

Sim.

Então repita.

Meio, direita, esquerda, meio, esquerda, e mais quatro vezes direita.

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Exato. Isso é tudo, retornarei agora aos meus aposentos.

Leviathan ia retirando-se quando Qlon a chamou. –

Mas e minha espada? Sanctus, onde está? E minha bolsa?

Qlon, eu sei onde a espada está e posso até dizer... Mas se eu o aconse lhasse a não pegá-la, ainda tentaria pegar?

Sim, é óbvio. É a recordação que ganhei de meu pai.

Por isso mesmo não pretendo dizer. Preocupe-se em fugir e completar a sua missão. Se tentar pegá-la, não poderei garantir que sairá vivo.

Mas onde ela está?

Você irá procurá-la de qualquer jeito, mesmo que eu não conte, após fugir, não vai?

Sim, vou.

Está no quarto de Juggernaut, acima de sua cama, como um troféu. E sua bolsa está do lado de sua cômoda. Mas é muito arriscado. Por isso, Qlon, não tente pegá-la.

Qlon vira que era complicado, e preferiu ficar calado ao tentar dizer qualquer coisa. Leviathan, de pé, retirou-se da cela e o disse enquanto fechava a porta: –

Pequenino, mantenha-se vivo... E boa sorte. Irá precisar.

Espere, Leviathan!

Tarde demais. Ela já fechara a porta e sumira pelos corredores. Pelo visto, as informações que queria dos sete céus só poderia encontrar mesmo no segundo andar. Em meio aos gemidos de dor e a mastigar ovos com seiva, não teria com quem conversar para perguntar o que era necessário. Mas ao sair, com certeza escalaria a árvore. Era o lugar mais óbvio para tentar atravessar ao segundo andar. Mas o que mais o incomodava no momento era pensar se seria com ou sem a Sanctus pendendo em sua cintura. … As horas se arrastaram como lesmas em uma folha. A adrenalina corria em seu sangue antes mesmo da hora chegar. Seu coração estava disparado como nunca, e a única coisa que podia pensar era em como seria dolorido levar açoitadas, ainda mais com as costas no estado que se encontravam, quase em carne viva devido às feridas provocadas pelas pedras. Por fim, ouvia passos, pesados e ágeis. A porta de sua cela abriu-se com tanta força que batera na parede e um pedaço que já estava enferrujado veio ao solo. Juggernaut encontrava-se parado com um açoite enrolado na mão direita.

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“E não era um chicote comum. Era formado por uma tira de couro mais grossa, formada pelo enlaçamento de outras menores que se dividiam, tendo mais de dez pontas. Cada uma delas tinha uma pequena lâmina em suas extremidades que servia para ferir a pele. Tinha um comprimento curto para um chicote, de seu cabo de madeira negra até as pontas devia ter cerca de um metro e meio. Inde pendente do tamanho, logo eu saberia como eram seus golpes...” Na outra mão Juggernaut trazia consigo, assim como dissera Leviathan, uma mordaça de ferro. Colocara brutalmente em sua boca, fechando o encaixe na sua nuca com rudeza. Por sorte, nenhum dos ovos fora quebrado naquele movimento rude. –

Não gosto de gritos de dor enquanto golpeio. Desconcentram. - Disse, soltando as travas de suas algemas, grilhões e desatando sua pescoceira. - Infelizmente, entretanto, não posso evitar gemidos.

Pegou-o pelos braços, puxando-os para cima como se segurasse uma ave para abate. Olhou-o nos olhos cinzentos, escurecidos pelo ambiente, e disse: –

Vamos, eu estou ansioso pela sua punição.

Qlon fora arrastado pelo chão sem sequer se debater. Ao menos era sua barriga que arrastava pelo frio chão, e não suas costas, nádegas e pernas feridas. Eles adentraram um pouco mais pelos corredores da prisão até chegar a uma porta selada por correntes. Ele quebrou-as com um empurrão na porta de aço maciço, que nem enferrujada estava. –

Sabe, esta é uma sala especial, pequeno. Não espero que entenda, afinal é muito novo para isso, mas aqui guardamos todos os nossos aparelhos de torturas. Ainda não será a última sala que irá ver, mas com certeza é a mais interessante.

A sala estava completamente escura, e ao ser arrastado para dentro dela, sentira degraus batendo na altura de seu peito enquanto era puxado para baixo. Ele soltou-o ali e estalou os dedos. Chamas começaram a queimar em uma canaleta de óleo que estendia-se por toda as paredes. A sala era imensa. Era quadrada e de uma ponta a outra tinha cerca de quinze metros. O teto ficava a pouco mais de três metros do chão e algumas algemas estavam presas a ele. Pela sala, aparelhos e mais aparelhos de execução, tortura e contenção se encontravam. –

E acredita que todos estes instrumentos nem são nossos? - Falou Juggernaut. - A maioria veio de humanos. Sim, simples humanos. De todos os mortais inteligentes, são os que possuem a vida mais curta e mesmo assim sabem matar e torturar com grande afinco.

Qlon permanecia em silêncio enquanto era içado pelas pernas e preso às algemas, ficando de cabeça para baixo. Também fora vendado.

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Garanto que sentirá bastante dor, pequeno. Mas não se preocupe, ainda não chegou a sua hora. Estarei reservando uma surpresa. - Disse o dragão com um sorriso estampado em seu rosto.

… O seu braço se movia. O ar era cortado pelas tiras de couro e fazia um ruído um tanto quanto desagradável para Qlon. As pontas laminadas batiam em suas costas, pernas, costelas... A cada batida, suor e sangue jorravam em pequenas gotículas no ar. Com as vendas, não conseguia ver aonde viriam os golpes, e ele sempre variava. Arrancara a roupa de Qlon e chicoteava em todos os cantos, até mesmo em sua genital. Para sua sorte, os cortes não eram profundos o suficiente para retirar por completo aquela parte, mas seu prepúcio e o escroto estavam bem cortados. A mistura de sangue e suor corria desde seus pés até sua boca, e tinha um gosto desagradável. As chicotadas doíam ainda mais quando eram na parte de trás de seu corpo, causando um enorme desconforto. Mas, depois do que pare ceu ser uma infinidade de tempo, Juggernaut parara. –

Meu braço está cansado, então chega por hoje.

E após tirá-lo do teto e o colocar em seus ombros como um animal abatido, estalou novamente os dedos e o fogo que iluminava o recinto se apagou. … O arrastou para sua cela. A dor o sedara completamente, tanto que nem sentia ser preso novamente. Quando foi retirada sua mordaça, Juggernaut se aproximou bem de seu rosto e olhou em seus olhos. –

Sim, esses são olhos que eu gosto de ver. Olhos de alguém que já sofreu, olhos de alguém que está sem nenhuma esperança, sem nenhuma vontade. Aproveite a noite, jovem, amanhã tem mais.

E lá ele o deixou, saindo pela porta e fechando-a com mais um estrondo. Estava nu e completamente ferido. Mas ainda tinha os dois ovos em sua boca. Era hora de quebrar um. Com um pouco de esforço, usou a língua para colocar um entre seus dentes. Mordeu-o e um líquido espesso escorreu por sua garganta junto com os pedaços da casca quebrada. Era refrescante, e ao mesmo tempo dava sono. Ajeitou o outro ovo abaixo de sua língua e reclinou-se. Exausto de tanto apanhar, dormiu. … Acordou com seu corpo queimando. Estava tão molhado de suor que sentiu-se no término de um banho. Não tinha mais fome ou sede, apenas uma estranha sensação de estar completamente cheio. Suas pernas faziam força, mas sequer se moviam. Queriam fechar-se, seu órgão reprodutor doía horrores. Olhou para

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seu corpo, cujos músculos tinham espasmos estranhos. “Parecia queimar de dentro para fora. As feridas fechavam aos poucos, como se fossem costuradas por uma agulha invisível. Todas fecharam por completo, apenas a sujeira do sangue restara em minha pele. Fiquei feliz pela ajuda concedida a mim por Leviathan, mas e se Juggernaut no dia seguinte notasse que eu não estava mais ferido? Por via das dúvidas, ainda havia um ovo em minha boca. E mais um dia para suportar.” Ele não estava nem um pouco cansado. O efeito da seiva era muito forte, restaurara completamente as energias e as feridas. Um milagre apenas da seiva da árvore da vida... Mas havia uma coisa que Leviathan não ensinara a ele: os efeitos dela. Não todos. Começara a ter alucinações e sonhava acordado. Muitas ve zes vira Lua, sentado ali na sua frente, e começava a chorar. Outras, podia ver o rosto de sua mãe flutuando em meio a escuridão, e dando a ele um sermão inesquecível. Por fim, via a Zarat, nua, sentada ao seu lado. Podia sentir como se ela o acariciasse os cabelos encharcados. Quando ele olhava para sua barriga, a espada de Liberalidade ainda estava lá, e ela perguntava “Por quê?”. Qlon balbuciava o que conseguia, pois seus lábios não obedeciam aos seus comandos e com um ovo em baixo da língua era meio difícil tentar explicar-se. Adormeceu de novo, tendo seus pesadelos para assombrá-lo durante a noite. … “Acordei com uma mordaça sendo presa à minha boca. Juggernaut me olhava com fúria flamejando daqueles olhos amarelos. Seu respirar exalava fogo. Literalmente. Pegou meus braços do mesmo jeito que no dia anterior e me encarava face a face. Eu podia sentir o calor do fogo expirado por suas grandes narinas. E me arrastou para a sala de tortura da mesma maneira que no dia anterior. Apertava tanto meus pulsos que quase os quebrou. Ainda estava nu, mas agora não me importava mais, tinha ainda um ovo de Yggdrasil para me recuperar.” … –

Então, - Disse Juggernaut enquanto colocava-o de joelhos perto de dois pedaços de madeira horizontais na altura dos ombros do jovem anjo. - temos aqui um anjo com a dádiva da cura. Meus parabéns garoto. Conseguiu irritar-me a um nível que poucos antes foram capazes. Detesto ver que meus golpes, no caso, tortura, foram em vão. Pode deixar, de hoje para amanhã terá um probleminha a mais para curar-se. Eu garanto isso!

Os pedaços de madeira tinham um vão de meio metro entre eles. Colocara o corpo de Qlon justamente ali. Eram ocos e com uma abertura em sua frente. Duas algemas foram presas às suas mãos. As algemas eram presas, por sua vez, a grossas correntes, que estavam enroladas cada uma em uma roldana de madeira. Também passava uma corrente que ligava as duas algemas pelo peito de Qlon. Juggernaut colocara-se na sua frente, e caçoara:

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Ouvi dizer que é assim que os mortais fazem suas preces. Começaria a fazer isso se fosse você. Implore! Quem sabe assim eles não podem ouvi-lo! Ah, é mesmo, me esqueci completamente. Essa mordaça impede que grite. É uma pena. Hoje eu sinto vontade de ouvir gritos seus, mas temo que, se os ouvisse, o executaria aqui mesmo!

Juggernaut rodou a polia da esquerda, e ela puxara violentamente o braço de Qlon. Quase o cegara de dor. Achava que tinha deslocado o ombro, ou mais pro vavelmente o pulso. Mesmo assim, ignorara. Juggernaut prendera a polia com uma trava e dirigira-se para a outra, caçoando. –

Ah, vejo que ficou mais resistente com minha tortura anterior. Se fosse meu pupilo, provavelmente eu teria orgulho.

Rodou a outra polia. Seu braço direito se esticara e a corrente que estava no vão batera em seu peito brutalmente. A dor era ainda maior. A corrente parecia ser laminada e cortara-o na altura dos mamilos. Estava tão manchado de sangue que quase não notara quando o mesmo escorreu por seu corpo sem qualquer vestimenta. –

Será um longo dia. Deixarei que decida. Qual das correntes deverei alongar mais agora? Direita ou esquerda?

Então aquela era a temida Extensão. … O dia chegara até o fim. Pelo menos era isso que disse Juggernaut ao retirar suas algemas. Um riso ia de orelha a orelha... Ou melhor, de cavidade auditiva a cavidade auditiva, e olhando para o pequeno anjo não era de se estranhar o motivo. Qlon encontrava-se com o peito cortado até o osso esterno e tocava algumas costelas. Já não sangrava mais, pelo menos. A própria corrente fazia pressão para estancar. Só ao ser retirado que o sangue voltou a jorrar. Juggernaut queimara a ferida, para que não morresse por hemorragia. Os dois ombros, cotovelos e pulsos encontravam-se deslocados e feridos. Quase chegaram a ser arrancados tamanha a força que eram tracionados. Não conseguia sentir qualquer parte de seus braços e nem mesmo mover seus dedos. Seus músculos pareciam estar moídos de tanto que latejavam de dor. Por fim, Juggernaut levou-o até sua cela e o atirou para dentro, sem sequer prendê-lo, como havia previsto a dragona da água e dos ventos. Apenas retirara sua mordaça. Caíra de braços abertos em meio ao duro chão, com goteiras molhando todo o seu corpo nu. –

Duvido muito que cure todas essas feridas imediatamente. Mesmo que consiga, duvido que sairá daqui. Se sair, não irá longe. Quaisquer que sejam suas alternativas, suas horas estão contadas. Tenha bons sonhos.

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E saiu pelos corredores a gargalhar. “Mais do que depressa, mordi o ovo e me ergui apenas com as pernas. Meu corpo ainda doía muito. Era um trabalho difícil, mas após muito me curvar, consegui. O efeito não tardaria muito, e eu precisaria sair dali o mais rápido que eu pudesse, antes que as alucinações começassem. Esperei os passos de meu carrasco distanciarem ao máximo e o alçapão cerrar-se ao fundo. A porta abria apenas para frente, então coloquei meu pé debaixo dela e a puxei para trás. Quase caí ao fazer aquele movimento, mas por sorte me equilibrei a tempo. Andei pelos corredores enquanto lembrava das direções dadas por Leviathan. Para minha sorte, meu corredor era um beco sem saída, então deveria apenas tomar a outra direção. Meio, direita, esquerda, meio, esquerda, e mais quatro vezes direita. Este foi o caminho ditado. Até hoje me recordo. Corri com passos leves pelos corredores, que eram longos e cheios de celas, com suaves inclinações descendo ou subindo. Alguns tinham comprimentos de até trezentos metros, o que me fazia imaginar quão grande era aquele complexo subterrâneo, e para que servia. Cada curva que fazia a dor da cura provocada pela seiva aumentava. Eu estava tonto, quase desnorteado, mas mesmo assim continuei seguindo. Já havia corrido por mais da metade do caminho e meus braços estavam melhores. A ferida queimada em meu peito cicatrizava aos poucos e a pele revestiaa quando, por fim, alcancei o último corredor. Um barulho de tempestade tomava conta do ambiente. Subi as escadas engatinhando e abri uma porta do alçapão. Gotas pesadas de chuva molharam meu corpo desnudo e ajudavam a amenizar a queimação que eu sentia em minha pele. Mesmo durante a tempestade e à noite, meus olhos demoraram a acostumar-se com a luminosidade dos relâmpagos que cortavam o céu. Mas não havia muito tempo a perder. Ainda cambaleando, fui até o templo. Por mais que tivesse sido advertido, não sairia dali sem a minha espada. Abri a porta. Estava tudo escuro. Os archotes estavam apagados e apenas os clarões do exterior atravessavam as estreitas janelas. Havia três portas... Uma dava para a torre, aquela atrás do trono. E era justamente aquela a que eu mais queria evitar. As outras duas... Eu não tinha certeza. Deveria vasculhar. Escolhi aquela à direita dos tronos. Era a errada. Apenas corpos de animais estavam seguros por ganchos presos ao teto. Búfalos, antílopes... Até mesmo algumas aves e peixes. Uma das portas ao seu fundo dava para uma sala de jantar muito rude, com uma enorme mesa de madeira com apenas quatro cadeiras e um lustre preso ao teto. A outra dava para uma fossa nojenta e logo voltei a fechá-la. Meus músculos queimavam quando voltei meu caminho e cheguei até a porta à esquerda dos tronos. Quatro quartos, cada um com um brasão acima da sua porta. Era tudo aquilo que havia naquela pequena galeria circular. O dragão de asas abertas era o símbolo de Juggernaut. Aquele quarto era o do meu destino. Olhei e tive a certeza antes de empurrar a porta de madeira com maçaneta dourada em forma de uma cabeça de dragão, tentando ser muito furtivo...”

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Cap. 20 – O Vulto

J

á era tarde demais para voltar atrás. Adentrara a porta na profunda escuridão. O quarto era grande, mas com pouca iluminação. Uma vela na cabeceira da cama de Juggernaut era tudo que havia, e já estava quase completamente gasta. Tinha uma cama grande, mas não muito luxuosa. Estava encostada na parede esquerda e na do fundo. Não passava de um cercado de pedras, cheio de feno e com um lençol cobrindo o corpo que respirava profundamente em um sono pesado. Em uma pequena cômoda ao lado do local de repou so do dragão negro, sua bolsa encontrava-se recostada. As dores incomodavam, mas ele seguia adiante. Acima da cama, pouco mais do que alguns centímetros centímetros, ele podia ver a mal-iluminada bainha da Sanctus. Como pegaria era um mistério. Aproximou-se com passos de gato, esperando fazer o mínimo barulho possível. Até mesmo controlava a respiração, pois os sentidos dele com certeza eram mais aguçados que o normal. Por fim, chegou perto da cômoda. O rosto de Juggernaut, para sua sorte, estava virado para o outro lado. Subiu na pequena mureta de pedra que separava o piso da “cama” e esticou o braço para pegá-la... “Pude tocar na sua bainha e colocá-la em minha pequena mão... Mas, como alguém de pouca sorte, meu ombro fisgou. A dor espalhou-se pelo meu braço e chegou até minha nuca e, de relance, soltei a espada. Ela caiu em cima da cabeça de Juggernaut, que a princípio não se moveu. O medo me paralisou. Aquele quarto era vazio demais para tentar achar qualquer esconderijo. Atrás da cômo da? Pouco espaço. Entre a mureta e o chão? Não esconderia minhas asas. Fora isso, minha única opção era mergulhar no feno, mas seria a mesma coisa que uma maçã cair na tigela de um mendigo. Sair correndo não me parecia uma boa ideia. Faria barulho demais. Fiquei ali, esperando uma reação qualquer, que não demorara a vir. Em um só movimento, Juggernaut jogou seu corpo ao ar, girou-o em seu eixo horizontal e me acertou um chute na barriga, que me fez voar para trás por três longos metros, até que minhas costas batessem na outra parede, desmaiando-me. A última coisa que me recordo foi Juggernaut andando em minha direção, com seus olhos amarelos mudando de tonalidade e ficando rubros como o fogo da vela. Ele colocou a mão pesada sobre meu ombro e o apertou, fazendo doer ainda mais. Disse algo, mas eu não ouvia mais nada...”

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… Ainda chovia forte. O vento aumentara e um sonolento frio úmido se espalhara por Mercurii. Gotas molhavam seu peito. Ele jazia ali, de olhos fechados, sem qualquer indício de que fosse acordar. Era um sono atordoado, mas ainda assim muito forte. As feridas, as dores musculares... A seiva de Yggdrasil era milagrosa, por certo, mas curavam dor com mais dor. Era um tanto penoso ter de usar tal medicina, mas não sabia se alguma outra poderia servir. Algo batia em seu rosto e o cortava. O corte se regenerava aos poucos, o que provava que ele ainda estava sobre o efeito da seiva. Abriu vagarosamente os olhos, com a ferida na face o incomodando um pouco. O rosto de Leviathan estava sobre ele, de cabeça para baixo. Tentou mover seus braços, mas ele nem sequer saía do lugar, assim como suas pernas. Ela olhou-o, com um pouco de pena em sua expressão. Aproximou-se do seu ouvido e sussurrou: “Eu avisei.” –

Estou morto? - Perguntou Qlon com a voz fraca.

Não. - A voz de Juggernaut chegou aos seus ouvidos. - Ainda não.

Com dificuldade, moveu seu pescoço na direção do som, e viu Juggernaut com a Sanctus em mãos. Atrás dele estava Tiamat, que logo disse: –

Behemoth pede desculpas por não poder apreciar sua morte, mas ele não pode subir até o alto desta torre. Primeiro por não ter fôlego o suficiente para as escadarias, e depois porque tem medo de lugares altos.

Onde... Onde estou?

Chutei tão forte a ponto de perder sua memória? Não seja entediante. Matar você sem as memórias do que fiz nos últimos dias seria desestimulante.

Está no altar de sacrifício da torre, Qlon. - Dizia Leviathan, sem nenhuma alteração em sua voz. - Aqui cumprirá a parte final de sua pena: terá suas asas cortadas e, por fim, será sacrificado.

Sim, ele lembrava. Só estava tentando lembrar melhor da estupidez que fizera na noite anterior. Mas, apesar de estar custando sua libertação e, logo mais, sua vida, não estava arrependido. Não sairia de lá sem sua espada e sem o breu que recebera. Tudo parecia tão distante no tempo... Sua vida em Aeria, a Base, Lua, Primitus, Zarat... Sua vida fora tão curta e tão enclausurada em uma prisão social... Mal conhecera seu próprio continente. Mal saíra de casa. Mal treinara, mal aprendera, mal tomara decisões... E ali tinha ido parar. Ele recordava de uma frase que sua amada mãe, Tera, dizia que o seu pai sempre usava: “Como os humanos dizem, cada um colhe aquilo que semeia.” Da última vez que ouvira ainda não compreendia o significado, mas agora sim. –

Está pronto para sua pena? - Perguntava Juggernaut.

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Sim, estou.

O mínimo que podia fazer naquela altura era aceitar seus erros e o que eles haviam trazido para ele. Não se arrependia: sempre fez o que achou mais certo, o que achou mais justo. Juggernaut aproximou-se dele e pediu que os outros se afastassem. Leviathan saiu de perto dele e olhou para seu corpo vestido por um robe puramente branco deitado no altar de pedra antigo, construído ali a muitos e muitos anos. Em sua base estavam gravadas inúmeras runas antigas, que selavam-no com uma magia sagrada. As asas do pequeno anjo encontravam-se todas expostas, o que tornava a movimentação ali, no topo da torre, um tanto quanto dificultada. O topo da torre era aberto, sem um teto. Algumas pequenas pilastras serviam de enfeite em suas bordas. Apenas o altar estava ali. As escadas que até lá con duziam estavam dentro da torre, em espiral. A visão dali era espetacular. Léguas de distância podiam ser percorridas com os olhos. As grandes planícies, a floresta... Pelo menos morreria com honra e visto por todo o segundo dos céus. –

Posso começar? - Dizia Juggernaut educadamente, mas com a costumeira ironia em sua voz.

Sim.

Dor. A palavra que definira muito bem seus últimos dias ali estampara-se mais uma vez em seus gritos. A asa superior direita havia sido cortada. Nem mesmo sangue jorrara de sua articulação partida cerca de dez centímetros longe de sua escápula. A Sanctus fizera o trabalho de cicatrizar com uma leve ardência. Os gritos cessaram depois de dois ou três minutos, e Juggernaut preparara um novo golpe, erguendo a espada acima de sua cabeça. –

Coitado... Irá morrer e nem ao menos sabe como utilizar a arma mais poderosa de todo universo. - Dizia Juggernaut enquanto arrancava mais um grito de dor de Qlon, cortando a asa média direita.

O sentimento era lacerante. Uma corrente elétrica passava por todo seu corpo e distribuía-se até seus dedos dos pés, fazendo seus músculos travarem. A única reação cabível era quase romper suas cordas vocais em um berro tão audível que ecoava pelo céu aberto. –

O que me consola - Dizia Leviathan. - é que ele morrerá em uma terra de imortais, e seu nome estará gravado em nossas almas.

Sim. - Concordou Juggernaut. - Qlon Warrior Eros, a criança tola que pensou poder invadir os sete céus e sair ileso...

A espada varou o ar, arrancando um fino assovio. A asa inferior direita fora cortada, e novamente a dor invadiu seu corpo, que aos poucos se acostumava com aquele sentimento terrível. Mas, desta vez, um tintilar metálico bateu no solo.

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Qlon virou a face molhada por lágrimas para ver Juggernaut. Ele estava com uma das mãos tentando estancar uma ferida no antebraço e olhava fixamente para o outro lado dele. Ele também se virou. Um vulto de manta negra estava lá. Cabelos alvos como o luar escorriam em uma fina franja que quase tapava completamente seus olhos rubros como dois rubis. Sua face estava coberta por uma máscara de ferro que ia de seu queixo até sua testa e tinha apenas a cavidade para os olhos e narinas. Sua vestimenta molhada e suja de sangue o cobria do topo da cabeça até as canelas, mostrando suas grandes botas de couro com solado de aço puro. Em sua mão, revestida por um par de luvas meio-dedo, segurava uma espada negra e opaca com cabo dourado, cuja lâmina trazia inscrições em alto-relevo em uma língua completamente desconhecida. –

Esse será conhecido como o dia - Disse o vulto. - que fiz um dos quatro dragões imortais sangrar no paraíso. - Sua voz era terna, mas firme. Delicada, mas fria. Lembrava o gelo.

Com mais um movimento, cortou as amarras que prendiam Qlon. Um movimento fluído como água, rápido como um raio. Sua manta esvoaçou e mostrou um peitoral marcado por cicatrizes. Na mesma velocidade, embainhou a gigantesca espada de duas mãos em suas costas e apanhou Qlon em seus braços fortes e seguros, enquanto abaixou para pegar sua espada. Após colocar a mão em seu cabo, deu um salto mortal e saiu da torre, pairando nos céus mesmo sem ter uma asa. A espada repousava sobre o corpo do pequeno anjo que, inconscientemente, a abraçou. Duração de tempo de todos estes movimentos: menos de um segundo. –

É ele, o vulto! Irão ficar aí, parados, Tiamat e Leviathan? - Berrava Juggernaut sentindo menos da metade da dor que infligira nos últimos dias.

Os dois dragões permaneciam parados e surpresos, como se não acreditassem que ele seria capaz de retornar a cena do crime mesmo após ter partido com todos os tesouros sagrados. –

Andem, peguem-no! - Gritava com todos os pulmões Juggernaut, com veias saltando à sua face e parecendo aumentar de tamanho a cada momento.

Tiamat saltou da Torre e com uma rápida transformação se tornou na serpente mítica que carregava seu nome. –

Leviathan, controle a atmosfera e forme uma cúpula de ar! Impeça que ele fuja! Agora o pegaremos, nem que isso custe nossas vidas! - Pediu Juggernaut consumindo-se em fúria.

Leviathan! - Dizia o vulto. - Pare agora!

O quê!? - Exclamou surpresa Leviathan, enquanto conjurava uma magia.

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Tiamat já se enrolava na árvore de Yggdrasil e faltava apenas uns poucos instantes para Juggernaut usar sua fúria para transformar-se no grande dragão negro. Leviathan parara o que fazia, e todos olharam perplexos para ele. Qlon estava quase apagando nos braços do vulto. “Olhei para ele. Sua máscara de ferro era soldada na frente, na linha do nariz. Mantinha os olhos voltados para Juggernaut, e sua respiração era tranquila, calma. Falava de maneira resoluta, com uma voz temerosa. A dor ainda era muito forte e me consumia por dentro. Sem energias de tanto gritar e chorar, adormeci ali. Parando para pensar... Nas últimas semanas a única coisa que cheguei a fazer foi olhar para o vazio e dormir, com fome. Esperava que aquilo mudasse com o resgate, ao menos...” … Sentia frio. Seu corpo tremia com o vento que tocava sua pele, agora quase tão branca como o robe que usava. Aos poucos seus olhos abriam. Não havia teto algum sobre sua cabeça. A neve caia de um céu cinza, insensível. Sentia-se muito, muito fraco. Ter arrancado suas asas fora cruel demais. Sobraram apenas três delas, as do lado esquerdo. Do lado direito, três tocos restavam. Estavam levemente queimados em suas pontas, e com ossos parcialmente expostos. O que havia acontecido no templo em Yggdrasil? Tentou mover o pescoço para olhar ao seu redor, mas o mais leve dos movi mentos o travara. Uma voz conhecida falou com ele: –

Então, finalmente acordou.

O vulto estava quase ao seu lado, sentado de costas para ele. Como sempre, com o capuz cobrindo seus cabelos. –

Onde estou? Como vim parar aqui? O que aconteceu?

Você faz perguntas demais. Aposto que isso deve ser um problema para você e aqueles ao seu redor.

O vulto ergueu-se vagarosamente. A espada estava em suas costas, na vertical, apontando perfeitamente para baixo. Sua vestimenta esvoaçava com o gélido vento que passava por imensas dunas de neve, fazendo com que a respira ção saísse em pequenos vapores pelo nariz. –

Você agora está no terceiro céu, Qlon. Este é Veneris. Estamos agora no norte dele, no deserto de gelo. Eu trouxe você até aqui, resgatando-o da morte. E quanto às suas asas... É uma lástima, não cheguei a tempo de evitar que fossem cortadas. Mas em compensação...

O vulto retirou das dobras de sua roupa a Sanctus já em sua bainha e sua bol sa, onde guardava os itens básicos de sobrevivência. Depositou-os levemente ao lado de Qlon, curvando-se para isso.

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… Em compensação, recuperei seus itens que estavam em poder deles.

Mas por quê?

Ainda está cansado. Descanse. Suas asas irão crescer com o passar do tempo. Não será capaz de voar pelos próximos meses, mas não morrerá. Não crescerão da forma que imagina também, mas... De todo modo, ao acordar novamente vá para o sul. O vento o levará até seu destino. Lá tem uma grande cidade, poderá pegar informações.

Ainda não me respondeu... Por quê?

Porque achei que essa fosse a coisa certa a ser feita.

Pôde sentir um olhar terno de sua parte. –

Aqui a gravidade é seis vezes maior que a de seu planeta, - Disse ele, colocando-se a andar. - uma vez e meia maior que a do andar inferior. Não demorará tando assim a se acostumar, mas ainda será inoportuno nos próximos dias. Está fraco. Tem um pouco de alimento que coloquei em sua bolsa também, certifique-se de comer tudo. Ficará melhor. O cantil está cheio, quando sentir necessidade encha-o com neve.

Qual o seu nome?

O vulto voltou a se virar para vê-lo, de relance. Com olhos sinceros, respondeu a pergunta com tenacidade: –

Responda-me você.

E, em meio a imensidão de gelo, mesmo contrastante com o ambiente, desapareceu como se fosse uma miragem. Nevava forte. … “Aquela neve que nunca parava de cair me confortava. Depois de muito tempo, me sentia finalmente livre. O vulto havia deixado mais mistérios do que eu viera resolver. Quem seria ele? O que ele realmente queria? Como havia segurado a Sanctus? Perguntas sem respostas que só geravam ainda mais delas. Mas não havia mais tempo para pensar naquilo. Pelos meus cálculos, minha estadia no segundo andar tinha durado mais do que eu planejava, além de não ter conseguido nenhuma informação naquele lugar. As informações que eu queria ali estavam, o segundo andar seria meu ponto de partida. Após um longo descanso e de ter comido a fruta a mim dada pelo meu salvador, de cor amarelada e com um sabor bem diferente, levantei-me, sentindo certa dificuldade de ficar de pé. Com toda a certeza meus sentidos haviam sido brutalmente afetados por todo aquele tempo no calabouço e por ter perdido metade de minhas asas. Cambaleando, coloquei a bolsa em meu ombro. O robe que eu usava me fazia sentir muito frio, era quase como se eu estivesse pelado. Ainda assim permaneci com

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ele no corpo. A sensação de nudez não me agradava muito. Mexi em minha bolsa e achei as pedras de Breu. Por sorte, as duas ainda estavam ali. Não havia muitos itens lá dentro além disso. Corda, lampião, alguns fósforos, um cantil e as pequenas pedras negras entregues a mim por Zarat em seu último suspiro. O vulto disse que o vento me levaria ao sul, então permiti que ele me carregasse...” … Seguiu o vento frio por longos dias, mas não parecia haver dia ou noite naque le deserto. O céu era sempre cinza escuro, nenhuma luz por ele passava. Depois que comera aquela fruta, a fome o deixara em paz. Estava acostumado a ficar sem alimentos após a dura experiência que passara definhando na prisão subterrânea. Suas asas começaram a crescer. A pele se fechara onde fora cortado, mas isso era tudo que podia sentir ao tocar suas pontas. Não se atrevia a arran car nem mesmo uma pena, a angústia de antes não o largava. Fora fácil acostumar-se com a pressão nova, uma vez que não era muito maior do que a ele imposta em Mercurii. Podia andar. Vagarosamente, mas podia. Seu corpo emagrecera e seus músculos estavam mais definidos. Podia sentir seus braços e pernas mais pesados. Sanctus repousava em sua cintura e a ponta da bainha onde estava quase tocava o chão. Por mais de uma semana deveria estar peregrinando, parando para dormir sobre a neve apenas algumas vezes. Sentia o clima esquentar a cada dia, mas o gelo parecia nunca derreter. Eram dunas e mais dunas, colinas e mais colinas. Seus rastros se apagavam a cada sopro do vento, que o ajudava a caminhar, sempre empurrando-o para a frente. E naquela imensidão branca, continuou a peregrinar, invisível. … Após muitos dias, encontrou um enorme morro. Sem muitas esperanças, foi até seu topo. Olhou para o horizonte. O inverno e as grossas nuvens terminavam ali, e daquele ponto começava um outro deserto. Desta vez, um de areia. Um sol escaldante era visto no céu claro, sem nenhuma nuvem. Mas no chão, nada além do fino e dourado grão de quartzo. Nem mesmo ao fundo, lá longe, podia avistar qualquer indício de civilização. Haveria o vulto o enganado? Impossível, então não haveria sentido em tê-lo salvo da garra de quatro ferozes dragões-deuses. Vendo que teria de encarar o calor ao invés do frio, preparou-se: bebeu a água que sobrara e encheu o cantil de neve. Com o tempo ela derreteria de todo jeito. Não duraria sequer três dias com aquele pouco volume, mas era o que tinha. O vento ainda soprava forte. … O sol realmente não se punha. Na verdade, nem sabia se havia mesmo um sol, não conseguia olhar diretamente para o céu tamanha a intensidade da luz. A areia escaldava. Estava descalço e sentia seus pés queimarem. Pensou em colocar água neles para sair correndo, mas só funcionaria se tivesse energia suficien-

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te para isso e água, que acabara a tempos. Ao menos, antes de entrar no deserto fora inteligente: rasgara parte do grande robe que o cobria até os calcanhares, deixando a saia até os joelhos, e improvisou um par de botas de pano. Não havia sequer um oásis. Era areia para todos os lados, não importava para onde olhasse. Não conseguia dormir, era um clarão tão forte que permanecia com as pupilas vermelhas quando fechadas. Ao menos recuperara parte da cor que havia perdido no confinamento. Aliás, muito mais do que parte. Sentia a pele queimar. Por vezes colocava as asas restantes na frente do rosto. Era a única sombra que conseguia. E permaneceu andando por tanto tempo que perdera completamente a noção de onde estava. Miragens apareciam, assim como as alucinações que tivera em sua apertada cela. Mas ele acostumara: ignorava-as. Não podia perder seu foco. Andou, até sua pele descascar. … Portões reluzentes de ouro formavam-se ao longe, atrás de uma duna. Seria aquela mais uma de suas fantasias? Não obstante, o vento soprava para lá. Já estava muito fraco e não levantava mais enormes nuvens de areia como antes, no início daquele inferno, mas ainda assim podia sentir seu toque gelado acariciando sua pele suada. Fora muito tempo de caminhada, para, por fim, chegar a ver eles de perto. Enormes portões de ouro com muros que se estendiam a mais de cinquenta metros acima de sua cabeça. Podia ver torres que iam até mesmo além dos muros, cujos tetos pontiagudos perdiam-se em meio ao clarão do dia infindável. Tudo era parte de um único grande castelo, uma única fortaleza, provavelmente maior que Behemoth. Por trás dos dourados portões feito de várias barras retorcidas, podia ver ruas, ruelas e anjos transitando. Finalmente chegara. Empurrou e puxou os portões com muito esforço, mas eles não se abriam. E agora? Tentou gritar para alguém, mas ninguém o ouvia. Ajoelhou, voltou a gritar, mas sua voz era tão fraca que mal conseguia ouvir a si próprio. Permaneceu ali, chorando, esperando que alguém o notasse. … Tempo se passou. Sua boca seca clamava por água. Olhou ao redor. O muro se estendia por muitos, muitos quilômetros. Haveria algo além deles? Não sabia responder. Mas achou que deveria checar. As pessoas passavam e pareciam não o notar ali, mesmo olhando naquela direção. Sentia-se realmente invisível, cheio de fome e sede. Aliás, era um milagre não ter morrido em todo o caminho. Não havendo mais nada que pudesse fazer, retirou-se dali e escolheu um dos lados. Esquerdo ou direito, não parecia fazer a menor diferença. Por mais longe que olhasse, via apenas o que vira nas últimas horas: areia. Por aqueles portões, passava apenas um fraco vento carregando um pouco de pó, que era extremamente fino... Talvez tivesse encontrado sua resposta naquilo que seus olhos estavam tão cansados de ver.

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Por baixo dos portões o piso ainda era arenoso. Pôs-se a cavar com as próprias mãos um buraco grande o suficiente para que pudesse passar. Não demorara muito. A areia era muito fofa e fina. Por fim, conseguira. Com um pouco de esforço passou por debaixo dos portões. Contemplou aquela cidade mais uma vez antes de procurar por alguém, precisava de ajuda. Abrigo, comida e água, tudo que pedia. Um esforço ainda assim inútil. Falava de perto com as pessoas, mas elas pareciam não o ver. Tentava tocá-las, mas sua mão passava direto, como se elas não estivessem ali. Por fim, após muito tentar, ouviu algo: –

Não adianta, elas não podem vê-lo. - Disse uma voz desconhecida, vinda de lugar nenhum.

A voz era suave e pacata, fina como a de uma criança. –

Quem está aí? Estou imaginando isso também?

Para sua decepção, não.

Então, poderia ajudar-me?

Antes responda, forasteiro, a três perguntas: primeiro, qual o seu nome completo?

Qlon. Posso dizer apenas este.

Segundo, qual é o seu propósito aqui?

Estou apenas de passagem. Preciso reunir informações para uma missão, mas logo deixarei o lugar.

E terceiro, o que é aquilo que mais deseja?

No momento, roupas decentes, uma cama confortável, abrigo, comida e água. Não me incomodaria em pagar por minha estadia trabalhando.

Vejo que seu coração é puro, e em suas palavras não há mentira.

Uma criança do mesmo tamanho que ele surgiu ao seu lado. Tinha um cabelo castanho, curto atrás, mas com uma longa franja que tocava os ombros. Usava uma túnica branca que cobria-o até os joelhos, e estava descalça. Seus olhos eram de um negro profundo e opaco, e tinha a pele morena. Agarrou-se no braço direito de Qlon como uma criança se agarra ao braço do pai. –

Mas por quê...

Então, vamos?

Para onde?

Vou ajudá-lo. - Disse, soltando um risinho no final da frase. - Ou por aca so não aceita da compaixão alheia?

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Cap. 21 – Demorada Conversa

O

utra situação muito peculiar. Uma criança, sem nome e vinda de lugar nenhum, o arrastava para um lugar que não conhecia. Aliás, sua vida tinha tornado-se um enorme emaranhado de situações muito anormais. Desde que entrara na Base, nada correu normalmente. Não que as coisas estivessem correndo rápido demais, apenas estavam muito diferentes do que havia planejado. Queria somente um mestre para ensiná-lo a arte do manejo de espada, nada mais. E agora, estava ali. No terceiro céu, em meio a um deserto, exausto, com fome e sede, queimado de sol, com um total estranho que o puxava para um lugar desconhecido. Tudo isso após uma experiência de quase morte e com apenas três de seis asas restantes. –

Então... - Tentou iniciar uma conversa Qlon. - Tem um nome?

Meu nome é Viruel.

Viruel... Nome um tanto quanto incomum.

Digo o mesmo quanto ao seu, Qlon. Sabe, nomes de anjos aqui do reino celestial costumam ter o sufixo “el”. Recebem nomes novos ao passar do segundo para o terceiro andar. Não acho que saberia disso, vindo do reino mortal, não é?

Ele sabia de onde Qlon vinha. Também, não achava que adiantaria de muita coisa esconder isso. Afinal, quem mais nos sete céus apareceria daquele jeito naquela cidade? Andando, cheio de fome, sede e cansaço, e tendo de escavar a areia para conseguir entrar? Estava mais do que óbvio de onde ele era. –

Então... Viruel... Poderia explicar por que está ajudando a mim? Deve saber que sou um intruso...

Sim, sei. Mas a minha função aqui não é de guarda. Sou apenas um “recepcionista”, por assim dizer. Por que acha que o portão não se abriu para você? Ele apenas deixa passar aqueles que aqui eram para estar. Bem, ao menos não tentou entrar por cima. Há uma magia nos muros que fazem eles se estenderem infinitamente aos céus. Reportarei o erro aos superiores, dizendo que uma infiltração aérea é impossível, mas uma pelo solo... Simplesmente brilhante, devo parabenizá-lo.

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O pequeno anjo não parava de falar, parecia realmente entusiasmado, com os olhos tão brilhantes como lamparinas na madrugada. –

Ah! E antes que pergunte minha idade, saiba que tenho mais de dez mil anos em anos mortais. Aliás, quase doze mil. Só sou pequeno assim e com essa aparência infantil por causa da parte do corpo do meu deus que eu nasci, que aliás, nem pretendo mencionar qual foi. Então, Qlon, o que deseja aqui? Pode dizer tudo. Como expliquei, sou apenas um recepcionista. E tudo bem, não vou passar nada a nenhuma guarda, não temos nenhuma neste andar e nem posso comunicar-me com os andares superiores, sou um simples anjo, não tenho tais poderes.

Então estou completamente seguro aqui?

Não. Passarei a informação aos meus superiores, como me fora instruído. Mas acredito que até as virtudes voltarem, sim, estará parcialmente seguro.

Como posso confiar em você?

Reino celestial, anjos... Aqui respeitamos a verdade. E pelo visto você também respeita. Poderia ter mentido para mim, mas passou no teste. É um bom anjo, e não entendo o motivo desta invasão aos céus, se assim posso chamar. Poderia contar-me o porquê?

Sim, posso. Mas antes, preciso de cuidados. Mal aguento falar...

Entendo.

O anjo guiou-o por uma série de estreitos corredores dentro da fortaleza. Eles passavam, por muitas vezes, entre outros anjos que circulavam por lá. Por fim, chegaram a uma sala que era pequena, apenas um cubículo. Uma cama de madeira estava intocada no canto oposto à porta, com belos lençóis de cor rubra e um travesseiro. Na frente da porta, uma pia de vidro com uma cesta de frutas e alguns pratos e talheres. Uma porta ao fundo deveria dar em um banheiro, prova velmente. Um enorme tapete circular estava no meio dela. Beje, sem nenhuma espécie de bordado ou qualquer adorno. Em cima dele, uma mesa circular pequena, de madeira, com apenas uma cadeira. –

Este é meu quarto. Hospedarei-o por alguns tempos. Sairei para reportar a situação aos meus superiores, e logo voltarei. Enquanto isso pode ficar à vontade. Lave-se, coma, beba, descanse.

E deixou a Qlon ali, sem dizer mais uma palavra. Virou-se e fechou a porta. … Havia bebido água direto de uma jarra. Não sendo suficiente, a reabasteceu duas vezes em um vasilhame ao lado da pia. Esvaziou a cesta de frutas, comen-

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do maçãs, uvas e peras. Nem mesmo amoras e framboesas escaparam ao seu imenso apetite. Após fartar-se, tomou um bom banho em uma banheira de cerâmica, com água fria. Quase dormira ali mesmo. Lavou todo seu corpo sujo de areia. Sua roupa havia virado míseros farrapos. Também limpou bem seu cabelo, ensebado e despenteado. Ao sair da água, secou-os escovou-os por longos minutos, até ficarem completamente lisos, sem nós, assim como gostava. Não sabia como vestir-se. Jogara o robe branco em uma cesta no banheiro com várias roupas sujas. E foi para a cama, onde dormiu nu. Sentira-se confortável, depois de muito, realmente muito tempo. Relaxara e, pela primeira vez em longos períodos, tivera um descanso com sonhos bons. … Acordara descoberto, com os olhos fixos de Viruel em cima dele. Olhava fixamente para o meio de suas pernas. Com uma voz terna disse: –

Ah, então isso é um órgão genital.

Com um tanto de vergonha, Qlon cobriu seu corpo com os lençóis. –

Não precisa ter vergonha, - Disse Viruel. - eu não estava imaginando nada obsceno, como diriam os mortais. Mesmo assim, desculpe por incomodá-lo.

Está tudo bem, não se preocupe. Eu que peço desculpas, acho que me senti à vontade demais. Desculpe por abusar de sua hospitalidade.

Não se incomode com isso.

Você foi contar sobre mim ao seu superior, estou certo?

Sim, está. O nome dele é Haniel, um Princípio. Ele disse que chamará as virtudes assim que conseguir que elas voltem ao nosso plano. Acho bom que sua estadia não levar muito tempo.

Um dos oito grandes princípios? Incrível... E quanto a minha estadia, não se preocupe: assim que eu souber daquilo que preciso saber, eu sairei. Quanto a isso... Poderia me ajudar?

Sou apenas um anjo com baixo conhecimento... Mas naquilo que eu puder ser útil, por favor, diga. - Viruel puxou a única cadeira da sala e sen tou-se nela, próximo a Qlon.

Primeiro... Se não for incomodar mais ainda, poderia dar-me alguma roupa? Não me sinto confortável ao ter uma conversa nu.

Viruel foi até uma cômoda com um espelho em cima, e da gaveta do meio tirou uma túnica branca igual a sua, uma calça e um par de sandálias. –

Tome, use isso enquanto estiver aqui.

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Obrigado.

Qlon vestiu e então sentou-se na cama, a conversa seria longa. –

Para começar, eu gostaria de saber mais sobre este andar.

Shehaquim? Prossiga.

Shehaquim? Que espécie de nome é esse?

Oras, o nome deste andar na nossa língua nativa. Ah, sim, perdoe a indelicadeza. Você veio de Seal, então no latim deve chamar-se... Veneris, certo? Bem, para começar, os sete céus tem uma língua própria, chamada pelos mortais de “enoquiano”. O latim foi apenas uma língua criada pelos mortais para manterem contato conosco, por ser uma língua um tanto quanto... Simples, eu assim diria.

Sim, já me disseram no primeiro andar que havia uma língua celestial, poderia me ensinar depois?

Sim, por certo.

Qlon simplesmente não entendia como podiam ser tão gentis com ele nos sete céus, mesmo que ele fosse um invasor. Aquela era a melhor fonte de informações que tinha até ali, seria bom aproveitar a oportunidade e fazer muitas per guntas. O máximo que precisasse, pelo menos. –

Como eu ia dizendo, - Voltou a explicar Viruel. - o nome dos sete andares celestiais é diferente aqui. Primeiro vêm Shamain, ou Lunae. É o andar de contato mais próximo com a terra, e antigamente havia uma dimensão especial só para ele. Isso é, antes do caos se instalar.

Entendo... Continue.

Após ele está Raqia, ou Mercurii. O andar dos “aspirantes” a anjos e bestas mitológicas, que guardam os tesouros divinos e a passagem para o restante dos céus pela árvore de Yggdrasil.

Sim, tive um desagradável contato com tais feras... Continue.

Esta, como já disse, é Shehaquim, ou Veneris. É o andar onde os anjos de mais baixo escalão, ou anjos da terceira esfera, trabalham em assuntos pendentes aos mortais.

Sim, até aí eu sei. Uma coisa que gostaria que dissesse antes de prosseguir a explicação dos andares é como faço para continuar até o andar superior, tenho assuntos pendentes lá.

Assuntos pendentes? Então, como forma de retribuição por mais explanações, gostaria de saber de tais assuntos.

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Estou ajudando uma amiga que, digamos, acho que foi completamente injustiçada pelos deuses.

Viruel ficou meio pálido e pasmo. A respiração estava ofegante, e voltou a falar com a boca trêmula: –

Injustos? Os deuses? Por certo, um dia se tornará um caído. As virtudes tomarão conta disso...

Agora que dei tal informação, gostaria que me dissesse como avançar.

Da mesma maneira que chegou aqui. Pela árvore da vida.

Mas como? Não a vi desde que aqui cheguei.

Ela está no deserto de gelo, e o vento que o trouxe aqui emana dela.

Sentia-se um idiota. Tinha andado tanto até ali para, no fim, retornar ao lugar de onde veio. Estava tão perto... Ao menos aquela jornada não fora completamente inútil, estava aprendendo tanto quanto queria. –

Mas - Completou Viruel. - não é tão fácil quanto pode imaginar que é. Quanto mais próximo dela, mais forte o vento fica. Poucos são os que conseguem atar-se ao seu tronco. É um teste, onde apenas os mais fortes podem passar.

Entendo... Então, no final das contas, não foi um desperdício vir até aqui. Desculpe-me o incômodo... Pode continuar com a explicação sobre os andares. E detalhando mais ainda o que acontece aqui e quem são aqueles anjos que eu nem pude tocar.

Oh, eles? São o que pretendem ser, espíritos. A partir do momento que se abandona o treinamento de Raqia, alguns anjos perdem completamente o corpo físico.

Mas por quê? E por que você pode ver-me, tocar-me...?

Eu sou um anjo de escala menor. Apenas um “recepcionista”. O único anjo comum aqui. É uma função muito pequena para colocarem um anjo de cargo maior, e eu não estive apto para guerrear no reino mortal, como pôde ver. Acho que sou, no final, o anjo mais inútil de todos... Aqui, além de mim, existem apenas Princípios, de escalas maiores ou menores. Todos tomando conta dos assuntos mortais em seu planeta. E eles não podem ver ou tocar pois estão sempre ocupados.

Então... Estaria aqui também a informação sobre outros anjos mortais?

Anjos não cuidam de anjos, muito menos de demônios. Ao menos não os anjos de terceira esfera. Os responsáveis pelos assuntos celestiais estão dois andares acima. Está fazendo uma investigação?

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Sim. Como disse, acho que ela foi injustiçada, e preciso de provas para afirmar isto.

Entendo... Bem, não acho que conseguirá passar pela segurança mais acima, ela é muito mais estrita que a daqui. Por exemplo, o andar de cima é o lar das virtudes e, acredite, não são apenas sete. De acordo com o aumento de valores mortais, mais virtudes tiveram de ser criadas. Eu diria que são no mínimo umas 10, fora as sete iniciais.

E o que tem naquele andar de tão importante assim para tantas virtudes morarem nele?

Machen, ou Solis? Ah... Melhor não querer saber. Digamos que seria o último lugar de todas as dimensões que gostaria de estar, confie em mim. De qualquer modo, será praticamente impossível passar por lá.

Sim, mas me preocuparei com isso depois. Me fale sobre o quinto andar.

Machon, ou Martis, o andar das Dominações. São anjos tão importantes quanto as Autoridades, deveria dizer. Elas que guardam os julgamentos e história dos anjos. Acho que é por elas que procura. Lá há apenas uma grande corte. Realmente grande. Os Tronos também se encontram lá, e são chamados de grandes juízes, ou sábios. Apenas casos extremamente importantes são levados a eles.

E como chegar até lá?

Pela mesma maneira que até aqui, por Yggdrasil. Ela que conecta os mundos celestiais. Todos os andares são assim, mas cada andar tem seu desafio para encontrá-la ou ultrapassá-la.

E poderia dizer o desafio dos outros andares?

Como, se nem eu sei? Nunca estive sequer um andar acima. Tudo que sei é conhecimento básico passado a mim em Raqia, nada mais. Foram muitos anos de treinamento, mesmo para um simples recepcionista.

Entendo... Bem, acho que essa é toda a informação que desejo saber por agora.

Nada mais sobre os sete céus? Tem muitas curiosidades, acho que seria um conhecimento bom a ser adquirido antes de morrer.

Bem...

As palavras de Viruel eram confiantes, ele não mostrava qualquer receio em falar o que falava, e não dizia tais coisas com sentimentos impuros. Era apenas sua estranha sinceridade. Realmente estranha. Talvez ele acreditasse que Qlon fosse mesmo morrer. De qualquer modo, Qlon terminaria aquilo que começara.

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Pode ser. - Disse Qlon após pensar um pouco. - Além da língua celestial, esse pode ser um conhecimento realmente útil.

Então sente e escute com atenção... Já falei sobre os cinco andares. Agora falarei dos andares mais importantes. Primeiro, o sexto andar: Zebul, ou Jovis. Lá reside um tipo principal de anjos: as Autoridades, que guardam parte dos poderes retirados pelos deuses dos serafins.

Por falar nisso, nunca entendi por que eles fizeram isso.

Qlon, Serafins, lá em Seal, podem se comparar a anjos comuns e arcanjos que circulam por ruas e ruelas... Mas aqui? É um nível completamente diferente de força e de soberania. Eles são quase divinos, e quando digo isso falo em poder. Se eles fossem para seu planeta sem perder nenhuma parte de seu poder, batalhar contra os demônios que perderam boa parte dos seus poderes ao cair, sim, com certeza a guerra acabaria muito rápido. Talvez em um piscar de olhos. Mas também aniquilariam o planeta apenas com um golpe, e não é força de expressão. Eles são tão fortes que, nos contam, podem eliminar galáxias com um sopro...

Com certeza, os deuses não pensaram em destruir o planeta que criaram com tanto esmero. Estão mais preocupados em preservá-lo, não acha?

Faz sentido. Mas continue a falar do sexto andar...

Sim, certo. Em Zebul reside, em primeiro lugar, o Eden, que se encontra na copa de Yggdrasil e é guardado por um Querubim em especial. Ninguém sabe seu nome ou idade, ele apenas fica parado, como se fosse realmente uma estátua, em um pedestal.

Incrível! E o que mais?

Lá também se encontra o portão do sétimo céu. Guardado por uma legião de outros Querubins, frios como o gelo, duros como rocha e impiedosos como ninguém mais.

Uau... E o que tem de importante assim no sétimo céu?

Araboth, ou Saturni. Lar dos deuses. Dizem que apenas os serafins lá podem residir, mas...

Mas...?

Qlon, os serafins estão batalhando em Seal. Todos, salvo aqueles que já retornaram, que são a minoria pois a guerra não é tão longa para datar de mais de um milênio. E os deuses precisam de assistentes, já que os antigos que voltam estão preocupados em outros assuntos relativos à

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guerra... Sabe qual o rumor? –

Não, mas parece interessante. Conte, estou curioso!

Qlon se sentia absorvido por aquela atmosfera. Parecia uma história qualquer, apenas um conto. Mas ali era mais sério, realidade estava envolvida. Seu peito palpitava em uma enorme expectativa. Curiosidade o tomara por completo. –

Dizem - Começou Viruel - que os deuses fizeram para si novos criados. Não tão fortes quanto os serafins, mas completamente diferentes. Estão os chamando de “A Quarta Ordem”.

Quarta ordem? E o que faria tal ordem?

É uma ordem que faria tudo que os serafins fazem. Seria como uma... Ordem de reposição, por assim dizer dizer.

E já se sabem quais anjos constituem tal ordem?

Ainda é um mistério, sendo que nenhum anjo de outra esfera sequer os viu. Bem... Acho que já falei demais. Descanse mais, Qlon, e desculpeme por interromper seu sono.

Antes de ir, Viruel, poderia dizer uma coisa?

Sim. Mais algo que deseje saber?

Sim, mas só uma curiosidade... Por que me ajuda tanto? Digo... Você não deveria ajudar um invasor, ainda assim. Poderia ser cordial comigo mas ignorar-me qualquer coisa, qualquer informação. Então, por que ainda assim ajuda tanto, cede qualquer coisa que eu precise?

Primeiro, – Acomodou-se na cadeira para explicar. - pois caridade também é uma virtude. E devemos praticá-la aqui nos céus. Sim, eu poderia negar qualquer informação, mas admitamos, se conseguiu chegar até aqui é porque não é uma criança ordinária de seis asas. Descobrirei hora ou outra, apenas agilizei o processo para você. E por último...

O rosto de Viruel corava, e quase que gaguejava ao falar, mas ainda assim deu sua última explanação: –

Por último... Faz muito tempo que esta cidade não recebe uma visita. Eu digo... Aqui nós enviamos orações para o andar superior e raramente alguém de esfera maior vem para fiscalizar-nos. Apenas uma vez a cada sete mil anos, um dia terrestre. E mesmo assim, nada falam. Apenas cumprem sua missão: entregam mensagens e as repasso aos meus superiores. Aqui sou um recepcionista e um ajudante, nada mais. Ninguém fala comigo, e isso é um pouco só... Então... Obrigado por me ouvir. Imagino que eu deva falar demais, mas falar para um espectador é melhor

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do que falar para si mesmo. E vou voltar aos meus afazeres. Até mais tarde, Qlon. Dizendo isso, levantou-se, pôs a cadeira no lugar e curvou seu corpo em reverência, como era de costume. Retirou-se da sala sem mais nada dizer, mas ainda ruborizado por aquele pequeno discurso. Qlon mergulhou a cabeça no travesseiro e deitou-se novamente. A túnica fitava-o bem. Apesar de Viruel ser um tanto mais magro que ele, caíra como uma luva. Sua espada e bolsa repousavam sobre a mesa. Viruel nem mesmo fizera questão de procurar algo nela. Era realmente, um anjo bondoso e hospitaleiro. Com certeza devia a ele um grande favor, assim como para Carlos e Camila. Também devia um a Zarat, mas que nunca poderia ser pago. Virou-se para cima e fitou o teto. As paredes daquele lugar eram feitas de pedras amarronzadas, e o teto não era diferente. Seguras por grossos pedaços de madeira, as pedras de cima não cediam e davam um aspecto muito simplório ao quarto. Andara por corredores e mais corredores para chegar ali, e nem se lembrava do caminho. Se quisesse continuar ali nos próximos dias, deveria ter, no mínimo, um bom mapa. Sua cabeça era ótima para memorizar coisas, mas aquela fortaleza era realmente gigantesca. Algo assim jamais existiria entre os mortais, imaginava. Além disso, seria ótimo aprender a língua angelical, o “enoquiano”. Talvez pudesse misturar-se mais dessa forma e passar sem dificuldades pelos próximos andares até o seu destino, Machon. Também preocupava-se em como chegaria até a Yggdrasil após o que ouvira sobre o teste de Shehaquim. Ventos muito fortes certamente o arrastariam para longe, e sem asas para d-lo equilíbrio suficiente, aquilo seria ainda mais complicado. Até a hora certa, pensaria em algo. O que dava mais medo era atravessar todo o caminho que levara muito tempo para percorrer e debilitar-se ainda mais. Muitas dúvidas suas foram retiradas, e seu cérebro adorara sorver todo o conhecimento que fora dado, até mesmo sobre a tão falada “Quarta Ordem”. Como seriam tais anjos, quais seriam suas funções específicas? Uma ordem para substituir apenas serafins... Com certeza, os poderes das famílias de seus progenitores eram grandiosos. O que faria se tivesse tal poder um dia, ao completar seu serviço entre os mortais? Aquilo parecia meio fora de cogitação depois de todos os acontecimentos. Voltar ao reino celestial após tê-lo invadido e fugido? Quem seria tão louco a esse ponto? Mas, se conseguisse as provas que precisava para Lua, poderia ao certo ser perdoado por todos os seus crimes. Afinal, nada de tão grave fizera até ali. Não matara ninguém, não enganara ninguém. Ainda mantinha suas virtudes como um anjo. De qualquer modo, não queria pensar naquilo. Sua cabeça ainda pesava de todos os dias vagando por aquelas vastidões de neve e areia. Precisava de descanso. Virou para o lado e dormiu, desejando que tudo que fizera até ali, todo o esforço e empenho que aplicara, não acabassem em vão. Dormiu rapidamente com o calor sufocante do deserto que o cercava.

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Cap. 22 – Linguagem Angelical

U

ma língua muito esquecida era o idioma celestial. Quando Viruel entregou ao seu hóspede um livro de capa vermelha e ele o abriu, nada entendeu, apesar das poucas gravuras que o recheavam. A maioria de símbolos que nunca vira. O dialeto com certeza era o antigo. O livro era grosso, devia ter muito mais de mil folhas, e tinha em sua capa e contracapa um brasão: uma estrela dourada de seis pontas com dois círculos ao seu redor. O interior de tais círculos era como um relógio. O interno tinha a numeração igual ao do convencional. O outro trazia os números em um sentido anti-horário. Todos iam de um a doze. –

Que livro é este, Viruel? - Perguntou Qlon com olhos reluzentes.

Esse é o livro original de Raziel, passado a Enoque, um antigo profeta. É todo o conhecimento angelical. Creio que será interessante lê-lo, principalmente pelas informações contidas nele. E este outro...

Viruel colocou sobre a mesa um segundo livro. Tinha uma capa negra, com uma inscrição em dourado, que ainda não sabia o que significava. –

… É o livro do primeiro apocalipse. Ele conta a história dos anjos, desde seu início até o final do primeiro apocalipse, onde quase todos os humanos foram exterminados e os demônios finalmente encontraram sua ascensão. Eu leria com atenção, pois conhecerá o nome de grandes anjos que morreram no primeiro embate entre céu e inferno, nossos maiores heróis. Mas não traz muitas informações, é apenas história.

Há mais algum livro que eu precise estudar?

Não, nenhum.

Posso ficar com eles? Estudarei-os apenas quando voltar à Base. E antes de eu começar, creio que precisa ensinar-me a lê-los.

Sim, pode ficar com eles. Eles são livros muito fáceis de serem encontrados aqui nos sete céus. E não é tão difícil já que conhece o latim. O latim é apenas uma... Digamos, melhora gráfica dessa língua tão antiga e complicada. Deixe-me pegar uma folha em branco...

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Ele pegou uma folha qualquer em uma das gavetas de sua cômoda e escreveu o nome de Qlon em latim: QLON –

Esta é a representação gráfica de seu nome na linguagem que conhece. Agora, sem mudar a pronúncia, irei escrevê-lo no dialeto que deu origem ao seu nome...

Então, ele escreveu quatro símbolos, que representavam o nome Qlon em enoquiano: QLON –

Este é seu nome em enoquiano, que é a linguagem criada por Enoque, o profeta. Que nada mais é que uma pequena variação do idioma original... Agora veja seu nome em idioma celestial.

Mais quatro símbolos, escritos rapidamente na folha:

QLON –

Viu uma pequena semelhança? -disse Viruel.

Com o enoquiano, sim. Parece ser bem simples.

Aliás, Qlon... Sabe o que significa seu nome na linguagem antiga?

Não faço a menor ideia.

Significa “Palhaço da Desgraça”. Nome peculiar que seus pais escolheram, mas não acredito que eles saibam da linguagem celestial, senão não teriam colocado isso.

Bem... Analisando profundamente, - Dizia Qlon cabisbaixo. - o significado desse nome parece estar bem correto.

Como assim? - Perguntou Viruel espantado.

Todos à minha volta sofrem por minha causa. - Respondeu Qlon, apertando as dobras de sua túnica e iniciando um tímido choro. - Acredito que não foi a intenção de meus pais, mas mesmo que tenha sido... Esse nome encaixou bem no meu destino.

Não diga isso. - Falou Viruel tentando consolá-lo. - Está apenas no começo de sua vida. Aposto que ainda trará muitas felicidades aos outros. Conte com isso.

Qlon acalmou-se e agradeceu a Viruel com um aceno, limpando a face com a manga longa de sua veste. Por alguns momentos os dois permaneceram em silêncio, sem saber o que dizer.

206


Bem, - Viruel quebrou o silêncio. - agora ensinarei os dois alfabetos. Primeiro o enoquiano, e depois o Angelical. Por fim, ensinarei-o a lê-los, que é a parte mais simples, acredite. Posso montar uma pequena tabela para que se guie por ela?

Vá em frente.

Qlon reclinou-se na cadeira, ainda sentindo um pouco de tristeza, enquanto Viruel se encontrava debruçado sobre a folha. Trocou-a de lado e fez quatro pequenas colunas, como descritas a seguir: Letra em latim

Celestial

Enoquiano

Forma de Leitura

A

A B C D E G I K L M N O P Q R S T U Z

A

Aleph

B

Beth

C

Cieth

D

Daleth

E - H

F

Thraddi

G

Gimel

I

Iod

K

Kath

L

Lamed

M

Mem

N

Nun

O

Oin

P

Q

Qoph

R

Rosh

S

Sameth

T

Teti

U

Vau

Z

Zaën

B C D E-H F G I–J-Y K L M N O P Q R S T U-V Z

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Qlon, pode ver?

Sim... Mas fico perguntando-me como isso originou o idioma que eu uso, o latim. E olhando de perto, nem como uma originou a outra...

Quanto ao latim, alguns padres humanos, há muito tempo atrás, decidiram simplificar a língua de Enoque. Pode ver as formas de leitura simplificadas ao lado? Pegue a primeira letra de cada e terá a grafia que usa. Apenas o som dessa primeira parte da letra angelical fora incorporado no latim, na maneira de falar. Se pegar qualquer palavra em latim, basta incorporar o som de todas as letras que terá o celestial e o enoquiano. Veja, já aprendeu a ler...

Sim, mas como o celestial inspirou o enoquiano?

Como deve imaginar, Enoque, o profeta que carrega o nome de seu idioma, o criou. Digamos que na época em questão o povo ao qual ele per tencia era... Desacreditado. Então ele criou esse código para passar seus conhecimentos, aprendidos através do livro de Raziel, aos seus aprendizes e pessoas de confiança sem que os mesmos aprendessem a fonte original, apenas por segurança. E se olhar para alguns símbolos, basta girá-los, tirar um de seus traços ou acrescentar algum outro...

Dá para fazer isso com absolutamente todas as letras de todos os dialetos possíveis... Essa explicação foi muito vaga...

O fato é que os sete céus adotaram o Enoquiano por sua simplicidade. Os dois, enoquiano e celestial, têm quase a mesma pronúncia, apenas a grafia é diferente. O Thraddi ( F )... É apenas uma nova letra criada por Enoque para complemento. Ele observou que algumas letras têm a mesma pronúncia no final, com um som de “efe”. Em sua língua, ele tirou essa terminação das letras e acrescentou o Thraddi, para agilizar a leitura, sendo que essa letra é usada apenas como final em uma palavra cuja letra antecessora é uma das que carregam o som de “efe”.

É melhor dar um exemplo...

Viruel, no mesmo pedaço de papel, montou uma palavra em Angelical e outra em enoquiano. –

Muito bem, primeiro veja a palavra em celestial:

AMICUS –

É uma palavra que deve conhecer. Em latim significa “Amicus” (amigo). Mas quando pronunciada em angelical, é comprida... “Alephmiciethausameth”. O enoquiano foi criado e resolveu esse pequeno vício de linguagem angelical, veja agora:

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AMICUSF –

Lido agora, “Alemiciausathraddi”. Bem abreviado, como pode perceber.

Independente da forma de leitura, - Disse Qlon. - Tenho pena do povo antigo e o povo daqui. As frases e textos devem ser enormes... Ao menos posso enxergar agora de onde veio o latim.

Sim, são. Mas mesmo aqui a língua mais usada passou a ser o latim, pelos anjos chamados “pós-apocalípticos”. A conversação em idiomas mais antigos é apenas para os anjos muito, muito velhos, criados antes ainda dos sete céus. Esses já são raros, visto que poucos sobreviveram ao apocalipse. Documentos oficiais podem usar o enoquiano, adotado pelos “pós-diluvianos”, mas nunca podem ser manuscritos em latim. Ainda assim, a maior parte de toda comunicação aqui é feita através de cartas, o que torna o processo mais fácil. E letras não podem ser repetidas em uma palavra. Apenas a primeira que conta, na escrita e fala. Muito mais fácil agora, não acha? Isso serve para o celestial e o enoquiano.

Compreendo... Mas porque eu deveria aprender o celestial?

Os sete céus foram criados há muito tempo atrás, e há algumas inscrições, como direções, ainda escritas na linguagem antiga.

Isso faria mais fácil minha locomoção... Mas me resta uma dúvida, Viruel... Há uma letra usada em latim não correspondida nesta tabela: “X”.

Seus correspondentes são as letras de pronúncia mais próxima. “X” corresponde a uma soma de “Cieth” ou “Kath” com “Sameth”. Entendeu agora? Latim é uma abreviação de uma abreviação, com palavras novas. Outra coisa que ainda não expliquei é que nem todas as palavras em latim tem um correspondente, e as que possuem um tem uma forma abreviada. Por ter uma pronúncia complicada, o idioma celestial e o enoquiano contam com poucas palavras e frases curtas. Também há palavras em enoquiano e angelical que não existem significado em latim, mas isso não será muito importante. Mesmo que venha a ser, os dois livros que dei para você explicam tudo.

Entendo agora o porquê do latim ter surgido. - Qlon pegou a tabela em mãos e a analisou. - Posso praticar minha conversação contigo, Viruel?

Sim, claro. Disponha.

Não sei nem como agradecer...

Por enquanto não precisa. Apenas grave a tabela em sua mente, pratique um pouco de leitura em um dos livros, mesmo que não queira analisá-los profundamente agora, e depois iremos praticar diálogos. Garanto

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que passarei tudo que estiver ao meu alcance. Viruel e Qlon sorriram. Uma nova amizade nascia daquela complicada situação que o anjo de cabelos rubros encontrava-se, mas por mais que quisesse ficar ali e aprender tudo o que podia, seu tempo era limitado. Já perdera muito dele em Raqia, precisava recuperá-lo. Ainda havia de invadir o quinto céu e procurar pelas pistas que precisava. Não havia tempo a ser perdido. “Afoito, estudei a tabela por horas e tentei algumas pequenas traduções no li vro de Raziel, pois Viruel me disse que o do apocalipse havia muitos nomes e símbolos que eu não saberia reconhecer ainda. O tempo passava sem qualquer mudança notável. Não havia noite. Quando eu queria descansar, repousava minha cabeça na mesa e dormia ali mesmo, para recomeçar meus estudos no dia seguinte. E o tempo passou...” … Por muito tempo chegou a esquecer que estava em uma missão. Viruel tratava-o cordialmente como sempre, e por vezes conversavam animadamente em enoquiano. Os seus estudos tinham gerado belos frutos, ele conseguia falar a língua do antigo profeta fluentemente, mas tinha alguns poucos problemas com o idioma celestial. Era muito complicado: apresentava muitos vícios de linguagens, abreviações, simbologia e palavras que ele desconhecia. Ao menos, ao ser ensinado por Viruel, conseguiu aprender boa parte do que precisava. Era um tanto quanto estranho ter um professor que aparentava ter menos idade que ele, mas aos poucos se acostumou. Ao término do que pareceu ser duas semanas, sentiuse pronto. –

Pois bem Qlon, - Disse Viruel, fechando o livro de Raziel que era lido por seu “aluno”. - sente-se preparado para uma conversação bem longa em celestial?

Em celestial? Não pode ser em enoquiano? Me sinto mais a vontade com tal língua.

Eu sei que sim, mas vai ser preciso. Lembra-se do meu superior?

Haniel? Sim, lembro-me bem. O que houve?

Ele quer ter uma longa conversa formal com você. Como deve saber, venho informando a ele cada passo que realizamos e ele gostaria de conhecê-lo pessoalmente. Ele parece muito interessado em você. Principalmente pelo fato de suas asas estarem crescendo novamente e de uma forma... Digamos, atípica.

Qlon havia evitado tocar no assunto ou esquecer-se dele, mas não adiantava. Era a mesma coisa toda vez que se olhava no espelho do banheiro. Suas asas cresciam rápido e estavam quase completamente formadas de novo, mas algo o

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preocupava: elas estavam crescendo negras como a noite. Penas maiores já surgiam em meio ao monte de pequenas plumas. “Não que asas não fiquem negras, mas não acontece logo após serem cortadas. Elas ficam negras por um encantamento celestial jogado aos anjos caídos. Quanto maior a maldade julgada por elas, mais intenso é o negro. E minhas asas estavam tão escuras que jurava não poderem ser vistas em uma noite profunda. A maioria dos anjos caídos de baixa classe ficava com suas penas acinzentadas, seus crimes eram pequenos. Poucos eram aqueles que conseguiam escapar para as profundezas do Seol. A maioria era capturada antes mesmo de chegar ao segundo céu, e os que conseguiam fugir eram usados como fantoches na guerra e morriam facilmente. Apenas os que cometiam enormes atrocidades e conseguiam escapar tinham as penas escurecidas com tamanha profundidade.” –

Não entendo, Viruel. Por que isso está acontecendo? Digo, eu entendo o motivo de estar sendo considerado um caído, mas não chego a nenhuma conclusão do porquê de apenas três das minhas asas estarem assim.

Nem eu, Qlon. Por isso mesmo deveria ainda mais falar com Haniel. Aliás, já que aprendeu nossa língua... - Falava com um tom de voz mais baixo e choroso. - Quando pretende partir?

Eu tive um plano para avançar até a Yggdrasil, mas para isso precisarei que todas as minhas asas estejam do tamanho normal. Pelo ritmo que elas estão renascendo, creio eu que em muito pouco tempo eu estarei pronto.

Entendo... Qlon...

Sim, Viruel?

Sentirei sua falta. - Disse quase chorando.

Qlon e Viruel abraçaram-se e choraram juntos. Um choro silencioso, sem soluços ou gemidos. Apenas lágrimas quentes. Qlon, realmente, ainda era uma criança. Mas, se fez bem os cálculos, Viruel era extremamente velho... Não apenas em seu reino. Acabada a comoção... –

Pronto, Qlon? - Perguntava Viruel sentado na cadeira.

Sim, estou. - Qlon respondeu da cama.

hus, QLON. quo es? (Olá, Qlon. Como está?)

hus, HANIEL. Gratus, es ben. Quod cuper? (Olá, Haniel. Estou bem, obrigado. O que desejas?)

responi. (Respostas.)

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pode interoga, magnus princum.

(Pode perguntar,

grande Princípio.) –

Qlon... Você está pronto. Sabe como responder a todas as perguntas?

Sim, vou apenas falar a verdade afinal de contas.

Preciso ensiná-lo como portar-se na frente de grandes autoridades também?

Viruel, acho que nunca cheguei a contá-lo, mas... - Qlon parou no meio da frase que saía de sua boca.

Pelo jeito que os julgamentos celestiais eram, revelar sua identidade era um perigo. Poderia encrencar toda a sua família se dissesse seus sobrenomes ali. Já havia dito para os quatro dragões-deuses, mas se arrependera profundamente depois, e esperava que não contassem nada. Às vezes, sentia vontade de falar de suas duas famílias importantes, isso poderia evitar alguns comentários vindos de Viruel. Mas só pelo fato de ser de uma família de Serafins, isso já tornava-o extremamente importante, e seu parceiro de quarto sabia disso, por certo. –

Sim, Qlon? - Perguntou Viruel, confuso.

Nada que eu possa mencionar, desculpe-me. Apenas esqueça. Eu sei sim portar-me na frente de autoridades. Sou um serafim, afinal!

Sim, e muito culto, inclusive. Qlon... Poderia contar-me sobre o reino onde você vive? O reino de Seal?

Claro, seria uma honra!

Qlon pouco conhecia de seu próprio reino: nunca chegara a sair muito de Aeria, a capital. Apenas algumas visitas às planícies que as circundavam no inverno. Podia, se tivesse sorte, achar resquícios de guerra nos campos: pedaços de escudo, espadas de lâmina trincada, pontas de lanças e flechas... Tudo enterrado na neve. Sua mãe sempre o acompanhava, geralmente com algum outro guarda de vigia. “Tudo que eu sabia do reino onde vivia era através de mapas e pinturas emolduradas nas paredes dos castelos de meus avós, paternos e maternos. Tentei descrever para Viruel aquilo que eu sabia em meu escasso conhecimento: além do que eu já conhecia (cidade natal e o que estava ao seu redor), descrevi o meu pequeno conhecimento sobre outras áreas e sua geografia. Cada palavra deixava Viruel pasmo. Pobre anjo, nunca havia saído daquela fortaleza no deserto. Mesmo antes fora confinado apenas ao segundo andar, que não tinha grandes visões além da relva e das florestas. Ouvir sobre o mundo externo através de um visitante deveria parecer a ele com um conto de fadas. Montanhas, florestas, rios, vastas pradarias, pântanos, campos floridos... Apesar de nunca ter sequer

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visitado sua maioria, eu os descrevia como nas imagens: um belo e vasto paraíso suspenso. Ao acabar olhei para Viruel, que mantinha um olhar distante contemplando o nada.” –

Está tudo bem, Viruel? - Perguntou Qlon, tentando acordar seu amigo do transe que entrara.

Oh, sim... Desculpe-me pelo devaneio...

Sem dizer mais uma palavra, levantou-se da cadeira e foi até a única e solitária janela do cômodo, que ficava ao lado da pia, e olhou para fora. –

Sabe, Qlon... - Disse Viruel com pesar na voz. - As vezes acho que entendo o porquê de tantos anjos terem tornado-se caídos...

Como assim, Viruel?

Qlon... Fomos criados como um povo de ajudantes. Nada mais. Toda a nossa vida é de serventia. Ficamos sempre no mesmo lugar. Olhamos para os mortais e somos encarregados de auxiliá-los. Se os deuses pedem algo, devemos obedecer. Mas sabe... Nunca vi nenhuma recompensa em tudo isso. Não temos um livre arbítrio ou um pagamento como os mortais. E ah! Como os invejo! Vivem suas curtas vidas alegremente, livres... E quanto a nós? Temos uma eternidade para ajudar a todos, mas nunca fazem nada pela gente. Deuses ou mesmo mortais. Não cantam odes em rituais e cerimônias para nós, não nos prestigiam por nosso duro trabalho como mantenedores dos planos... Todos seus cânticos são voltados aos nossos criadores. Poucas vezes citam nossa presença e poucos são aqueles com os nomes gravados na história... Nós somos meros fantasmas de toda uma existência. Fantoches, bonecos dos deuses e dos mortais... Onde está a tão falada felicidade em meio a tudo isso? Os humanos acham que somos frios como a rocha, mas sua bondade acabou nos tocando e, com o passar do tempo, até mesmo adquirimos sentimentos. Somos capazes de sorrir e de chorar... Então por que não podemos ter um sorriso por uma simples recompensa?

Qlon ficou em silêncio, esperando algum complemento. –

Ah! Desculpe-me, meu amigo. Desculpe-me por forçar a ouvir meu desabafo. Eu só estou cansado desta minha pobre e quase inútil existência...

Eu acho que entende o que quer dizer, Viruel. Mas não seria a nossa felicidade uma expressão de nossa devoção em ajudar? Eu digo... É tão bom fazer alguém sorrir. Isso já não é recompensa suficiente? Saber que está contribuindo para o sorriso alheio? Ou ainda assim é pouco demais para satisfazer seu coração?

Qlon... Às vezes penso que eu deveria ter recebido suas novas asas...

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Cap. 23 – Um Importante Aliado

P

or um longo e largo corredor caminhou. Anjos passavam por ele, mas não o viam e nem mesmo podiam tocá-lo. Caminhava sozinho, Viruel não vinha no seu encalço como das outras vezes que fora explicar o ca minho. Era fácil perder-se, então, para ter certeza que o seu hóspede não o faria, Viruel fez questão que ele decorasse cada um dos milhares de corredores e salas daquele labirinto no deserto, mesmo que Qlon achasse isso desnecessário. Afinal, que dificuldade havia em subir até o quarto andar e caminhar pelo corredor principal até o seu fim? Estava curioso em saber como era um dos oito gran des princípios. Distraiu-se imaginando como seria um dos grandes princípios, aqueles que governam sobre as raças mortais. Sem notar, havia chegado ao final do corredor. Uma enorme porta com altura de cerca de cinco metros e com enormes maçanetas de ouro em formato de argolas estava à sua frente, impedindo sua passagem. Com um bocado de esforço as empurrou, e algo parecido com uma grande biblioteca surgiu. Lembrava-o da biblioteca da base: uma grande sala recheada de estantes nas paredes e no piso, com escadas e passarelas de madeira. Uma abóbada de vidro deixava a luz passar, iluminando os pergaminhos e mais pergaminhos que recheavam o lugar. Tudo não deveria passar de um imenso arquivo. Ao entrar, a porta atrás dele fechou-se sozinha. –

Então vejo que chegou, Qlon Warrior Eros. Por favor, sente-se. Estava aguardando. - Uma voz por trás de uma mesa lotada de papéis o chamava. Não podia ver de onde exatamente pois uma imensa pilha de documentos atrapalhava sua visão.

Qlon sentou-se em uma pequena cadeira almofadada de madeira e olhou para a mesa. Sentia uma estranha presença: era forte, mas ao mesmo tempo generosa. Não poderia ser nenhuma espécie de ameaça, não sentiu que qualquer outro sentimento além de bondade emanasse dele. –

Haniel, é uma honra... Ops! Mil perdões.

Não se preocupe em falar no idioma celestial comigo, garoto. - Acalmouo. - Que espécie de anjo acha que eu seria se não conhecesse os idiomas dos homens, de quem tanto cuidei e vi seu crescimento?

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Então desculpe-me por minha falta de consideração.

Não precisa ter tantos cuidados com o que fala comigo, meu jovem. Mais importante, deve estar perguntando-se por que o chamei aqui para esta conversa, não é mesmo?

Sim, e devo admitir, estou com muito medo.

Não se preocupe. Não irei machucá-lo e nem mesmo fazer com que seja preso ou ferido. Esta será apenas uma conversa.

A voz agora estava ao seu lado. Vinha de um anjo alto, com cerca de um metro e noventa. Tinha dois pares de asas, ao contrário do que um princípio deveria ter. Possuía longos cabelos pretos, amarrados delicadamente em uma enorme trança que chegava à cintura, presa em sua ponta por uma bela fita de seda vermelha. Sua face era longa e formal, com grandes queixo e testa. As maçãs do seu rosto eram grandes e rosadas, e contrastavam com seus pequenos e finos, mas longos, olhos azuis. Sua sobrancelha era igualmente fina e seguia por toda a ex tensão do olho. Tinha uma boca pequena, quase sem carne nos lábios. Usava um enorme gibão acinzentado e bem justo, com plumas brancas na gola de um casaco negro de mangas longas. Sandálias feitas com tiras de bambu fitavam seus pés. Tinha um brinco prateado com um símbolo desconhecido em sua orelha direita. Carregava uma espada longa na sua cintura, e em sua mão esquerda carregava uma pena, ainda gotejando tinta. –

Aceita um chocolate? - Abriu sua mão direita, que pesava em um bolso de sua jaqueta e tirou um embrulho dourado e em forma de um pequeno cubo.

O que é isso?

Apenas um doce. É uma antiga receita humana feita com leite de vacas e essência de uma fruta chamada cacau.

Qlon pegou o pequeno embrulho e abriu-o. A imagem de um pedaço quadrado de uma pedrinha amarronzada veio aos seus olhos. Timidamente, deu uma mordida. O gosto era bom, e seu interior vinha recheado com o sabor de algo um pouco azedo. Apesar disso, era incrivelmente doce, e a sensação de saborear tal iguaria dava uma espécie de felicidade instantânea. –

O que achou? Desculpe-me pelo recheio azedo, é café. Quando eu estava no mundo mortal acabei provando de seu sabor. Era uma frutinha avermelhada que me mantinha acordado por horas a fio. Acabei viciando.

Qlon realmente sentia-se um tanto quanto energizado com aquele pequeno doce. Pensou em até mesmo pedir a receita, mas lembrou que estava ali para um motivo sério e não para agir como uma dona de casa. Ajeitou sua postura na cadeira como quem quisesse iniciar um longo debate.

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Desculpe-me por apressá-lo senhor, mas...

Eu sei. Não pretende ficar aqui muito tempo mais, não é mesmo? Viruel informou-me dos seus passos este tempo todo, espero que saiba disso.

Sim, eu soube.

Pois bem, o motivo de eu tê-lo chamado aqui é apenas um, Qlon. Eu soube do que andava fazendo a partir do momento em que chegou aqui. Não sei se tem conhecimento sobre isso, mas eu sou um dos antigos sete arcanjos.

Perdoe-me a ignorância, mas nem mesmo sei quem foram.

Haniel sorriu. Tomou em suas mãos uma taça de vidro cheia de água e a bebericou vagarosamente. Acabado, colocou o cálice sobre mesa e suspirou: –

É... Acho que nem mesmo lendas regem mais nosso nome. Devemos ser mesmo muito velhos... Mas isso não importa. - Virou-se para Qlon de súbito. - Qlon... Sabe mesmo o que está fazendo? Digo... É isso mesmo que deseja? Enfrentar os céus para provar que está certo, mesmo que suas chances sejam mínimas? Tanto a de sair vivo desta empreitada quanto a de estar tão correto quanto acha que está?

Lorde Haniel... Eu até poderia dizer que não, mas seria uma mentira. Acredite, passei por muitas dificuldades para chegar aqui e, mesmo sabendo que posso estar errado, e que provavelmente receberei um castigo pior até mesmo do que a morte, ainda acho que eu esteja lutando por uma causa nobre. É o que meu pai faria, estou certo.

Haniel novamente tomou o cálice em mãos, que enchera magicamente. O modo lento e vagaroso como o ingeria denotava que pensava profundamente em algo. Restava saber o quê. –

Qlon... Pode contar-me toda a história?

Só poderia caso o senhor jurasse segredo.

É algo tão grave assim?

Não que seja grave, mas envolve nomes que... Digamos... Acredito estarem sendo injustiçados pelos céus.

Compreendo... Nesse caso, eu juro solenemente que guardarei vosso segredo. O que for dito nesta sala quanto a ele, não sairá daqui.

“Sentindo-me confiante, novamente descrevi a história, mas daquela vez sem o medo de ser punido. Tudo que houvera para que eu pudesse chegar até ali, os andares que percorri e sofrimento que passei... Não poupei nem mesmo o menor dos detalhes. Talvez fosse uma confissão para buscar por perdão, mas eu não

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estava sequer um pouco arrependido.” Mais uma vez, pegou o cálice. Bebericou com vagarosidade enquanto andava pelos corredores cheios de livros e rolos, mas não pegou nenhum deles. Com um rosto fechado, voltou para sentar-se à frente de Qlon, puxando uma cadeira. Ficou em silêncio por alguns segundos, puxando ar para respirar, e então disse: –

Então... Você também acha que o céu julgou errado. Isso?

Exatamente.

Como o mestre das virtudes e dos princípios, posso dizê-lo que, apesar de ser um anjo muito importante há muitos milênios... Não concordo com o fato de filhos pagarem pelos crimes dos seus antecessores. Mas esse é o desejo dos deuses, então não podemos simplesmente decidir acatar ou não: cumprimos nossa função sem titubear. A minha função aqui é jul gar os caídos e condená-los, além da função de vigiar a raça humana.

Então quer dizer que...

Qlon, para falar a verdade, estou tão surpreso quanto você. Eu não sabia da existência dessa criança até agora. Aliás, algumas coisas que ocorrem nos andares mais altos sequer chegam mais a meus ouvidos desde o primeiro apocalipse, onde lutei ao lado de meus companheiros.

Suavemente ele deslizou a mão pelo cabo de sua espada. –

Então você acha que...

Quem quer que tenha dado essa ordem e essa pena, está em um nível muito superior ao meu.

Não há como perguntar para as sete virtudes quem deu tal ordem?

Mesmo que eu pergunte, - Dizia Haniel recostando-se mais ainda na cadeira e cruzando as pernas. - duvido que eu vá conseguir qualquer informação. Eles podem ter jurado segredo como estou fazendo agora, e ficarão em silêncio.

Isso é muito complicado.

Na verdade, tudo está complicado há muito tempo, desde o primeiro apocalipse. Não sei no que os deuses estão pensando agora, mas antes eles comunicavam-se conosco. Mas já não podemos mais ouvir sua voz. Os seus guardiões falam por eles agora.

Haniel levantou-se e foi até uma estante, sem sequer tocar nela. De costas para Qlon, murmurou: –

Qlon, como um dos mais importantes anjos deste reino, eu não posso

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simplesmente ajudá-lo e dar permissão para fazer bem o que queira. Me julgariam um caído. –

Sim, eu sei.

Eu não irei julgá-lo, Qlon. Esse não é o motivo de nossa conversa hoje. Eu fiquei é muito surpreso em ver como uma simples criança pôde invadir os sete céus. Não creio que seja apenas sorte, deve haver alguma força oculta em você que ainda não sei como explicar.

Acho que se não fosse a ajuda que recebi até agora, provavelmente estaria morto.

Sim, possivelmente. De qualquer forma, Qlon... Eu não tenho mais poder para condenar como antes eu tinha. Senão eu deveria fazer isso agora mesmo, mas meu papel hoje é tão burocrático que chega a ser entediante... Veja só, um dos sete grandes arcanjos reduzido a um arquivologista... Nunca imaginei isso para mim. Ainda assim...

Qlon mantinha-se calado, prestando atenção em cada palavra que conseguia ouvir. Haniel parecia um anjo muito bondoso, mas falava como um juiz. Deveria ser, realmente, muito poderoso. –

Ainda assim, - Continuou após uma breve pausa para recuperar o fôlego. - saiba que, cedo ou tarde, esse dia chegará para você. Pode não ser agora, pode levar ainda alguns anos, mas esse dia por certo chegará.

Então... Por que ainda não chegou?

Uma boa pergunta. Será que ainda não sabem de sua existência nos andares superiores? Suas asas também estão negras, ao menos as que estão se recompondo... O que será que está havendo? Tudo está muito estranho... Não posso ver nada com clareza. Qlon... O que quer que esteja acontecendo, não é normal. E quanto os andares superiores...

Haniel olhou para cima, vislumbrando a cúpula de vidro, limpa como cristal. –

Se não souberem... É minha obrigação informá-los

Lorde Haniel...

Mas sabe... Anjos velhos como eu podem esquecer de uma coisa ou outra, com tantas funções aqui. Afinal, preciso anotar o passo a passo de toda a história da humanidade. Com essa papelada toda, pode ser que eu leve muito tempo para conseguir transmitir qualquer mensagem.

Qlon sorriu, e murmurou um obrigado muito baixo. Haniel olhou para o jovem rosto, cabisbaixo e tímido, e sorriu. –

Há muito tempo atrás, eu entreguei o livro de Raziel para Enoque e o gui-

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ei pelos sete céus. Tantas lendas surgiram desde então... Humanos são engraçados. Eles deturparam tanto o conhecimento celestial e difundiram de maneira tão errônea para os outros... Ocultaram muitas partes da história original, modificaram traduções e pergaminhos... Mas, por incrível que pareça, isso de certa forma fortaleceu sua fé. –

Talvez a ajuda que eu tenha dado, no começo ao menos, pôde ter sido errada. Mas creio que foi para um bem maior. Afinal, se eu não tivesse dado tal ajuda, sua fé teria morrido muito antes do primeiro apocalipse.

Entendo.

Qlon, eu não posso prestar mais serviços, como eu gostaria. Diretamente não, ao menos. Mas têm alguém que quero que conheça.

E quem seria?

Um amigo de muito tempo atrás. Infelizmente, nestes tempos recentes, ele anda muito... Parado. Já faz muito tempo desde a última vez que estive com ele.

E... O que exatamente eu deveria falar com ele?

Não falará nada.

Qlon ficou confuso, mas antes que pudesse perguntar mais qualquer coisa, Haniel disse: –

Peça para Viruel guiá-lo até a área norte da fortaleza, no grande galpão. E, para abri-lo, pegue isso.

Haniel tirou de dentro de suas vestes e do entorno do seu pescoço, uma cor rentinha com uma chave nela pendurada. Era uma chave de aço comum, com um brasão em sua cabeça: uma grande águia de quatro asas abertas. Qlon estendeu a mão e pegou, e em seguida colocou ao redor de seu pescoço como um colar. –

Agora vá. Nossa reunião está encerrada e eu preciso voltar para o meu tédio constante.

Sim, senhor.

E Qlon... - Chamou-o de volta Haniel segundos antes de ele sair pela porta. - Tome cuidado. E boa sorte.

A porta atrás dele fechou-se como antes, e Qlon saiu com a vaga certeza de que aquela seria a última vez que veria aquele anjo tão importante. …

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E então, como foi conversar com Haniel?

Viruel estava entusiasmado quando Qlon cruzou novamente a porta de seu quarto. Seus pequenos olhos brilhavam. –

Foi... - Qlon não encontrou uma palavra adequada para o momento em que esteve em sua companhia, então usou a primeira que veio em sua cabeça. - … Edificante.

Entendo... E então, o que ele disse?

Infelizmente não posso contar todos os detalhes, mas... Acho que ganhei uma espécie de aliado em minha campanha.

Isso é muito bom, Qlon! Se Lorde Haniel julgou-o digno, devo pedir desculpas por ter julgado seus atos. Este não era meu dever, e muito menos tinha conhecimento suficiente para isso.

Não se importe com isso, caro amigo. Eu no seu lugar teria feito o mes mo, por certo. Aliás, Viruel... Estou de partida.

Mas já? Agora? O que aconteceu para querer ir assim, tão repentinamente? Foi algo que ele disse?

Não exatamente. Mas minhas asas já estão recompostas e não tenho mais tempo a gastar aqui.

Compreendo. - Dizia Viruel com uma triste voz. - Então, ao menos, descanse por agora. Durma bem, e quando acordar, vá.

Agradeço sua oferta, e aceito-a. Muito obrigado. Mas assim que eu acordar e, antes de partir, eu gostaria de pedir um favor.

Qual?

Saberá assim que eu acordar. - Falou Qlon com um sorriso meio bobo na face. - Pretendo guardar a surpresa.

Crianças... Muito bem, descanse o quanto quiser. Eu estarei em meu posto, poderá ir até lá quando estiver acordado.

Viruel... Muito obrigado. Sentirei sua falta, nobre amigo.

Eu também sentirei...

E com uma lágrima escorrendo de seu rosto, Viruel levantou-se de sua cadeira, abraçou Qlon e saiu pela porta, deixando-o sozinho nos seus aposentos. Logo seu mais recente amigo iria partir, não podia conter as lágrimas que brota vam de seus olhos. …

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Já acordado, Qlon andava pelos imensos corredores com sua mochila pendurada no ombro e sua espada em sua cintura. Dirigia-se até a entrada da fortaleza, onde Viruel disse que esperaria. –

Então, finalmente está pronto. - Disse o pequeno recepcionista.

Sim. E agora pedirei aquele favor.

Viruel desceu do telhado de um dos corredores onde estava sentado. Olhou profundamente em seus olhos e pousou a mão sobre seus ombros, dizendo: –

Então peça. Esse será, possivelmente, o último favor que conseguirei realizar para você.

Guie-me até o grande galpão da ala norte da fortaleza.

Viruel olhou meio incrédulo para ele. Mesmo quando apresentara a fortaleza, nunca havia mostrado a ala norte por ser uma ala especial, destinada apenas ao uso dos princípios. Lá estavam seus aposentos e seus relicários. Não era prudente um simples guia andar com um serafim de três asas negras por aquele lu gar. Aliás, mal havia lógica nessa cena. –

Foi Haniel que disse para pedir-me isso?

Sim. E como prova... - Qlon mostrou a chave que estava em seu pescoço, escondida por sua pura e limpa túnica branca.

Entendo... Então venha, irei levá-lo até lá. Mas aviso: não entrarei com você naquele galpão.

E por que não?

Se o que dizem está certo... O que está lá dentro é algo que um anjo pru dente como eu não deveria aproximar-se.

Pois bem, eu confio na palavra de Haniel e tenho coragem para entrar sozinho lá. Apenas me conduza pelos corredores.

Pois bem. Siga-me.

… Por horas eles percorreram o que parecia ser um enorme labirinto. A cada cur va que faziam, menos anjos encontravam. Os corredores estreitavam, ficavam mais sujos de areia e vazios o suficiente para poder ouvir o vento uivar pelas pe quenas aberturas nas paredes de pedra. No final chegaram a um corredor com pletamente escuro. Viruel usou um pouco de magia para iluminar o caminho. –

Este é o ponto máximo que posso chegar. A partir daqui, está sozinho. O corredor terminará em uma porta que apenas essa chave poderá abrir. Boa sorte, amigo. - Disse Viruel, entregando um archote aceso em suas

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mãos. –

Obrigado... Grande amigo.

Em um gesto de carinho, os dois se abraçaram. Lágrimas escorreram pelos seus olhos. Qlon guardaria boas lembranças daquele andar, ao menos. –

Adeus. - Despediu-se Viruel.

Voltou-se para o corredor de onde viera e andou apressado, quase correndo. Qlon estava sozinho agora, como estava antes de ter chegado naquele lugar. Mas precisava prosseguir destemidamente sua missão. Pelo corredor escuro andou. Vários metros à frente estava uma porta de madeira já bem antiga e lacrada por várias correntes. Um cadeado negro as mantinha unidas. Ao seu lado, um porta-archotes. Colocou o seu ali e parou para prestar mais atenção no cadeado. Uma verdadeira obra de arte, com várias runas no idioma celestial nelas inscritas. Não pôde ler tudo com clareza mais pôde decifrar o mais importante: uma parte escrita “Aqui se encontra o nono princípio”. Encaixou a chave na tranca e a deu duas voltas. Com um tintilar metálico, ele se abriu. Retirou as correntes ao redor da porta e empurrou-a. Estava tudo escuro, então novamente apanhou o seu archote. “O galpão norte era enorme e tinha pilhas e mais pilhas de sacos de pano. Deveria ter cerca de 1600 metros quadrados e pelo menos uns vinte metros de altura. O archote não iluminava completamente, então procurei por mais archotes para acender nas paredes. Achei então um corrimão embebido em óleo e coloquei fogo nele. O fogo espalhou-se por sua extensão até o teto, acendendo um enorme lustre. Isso clareou todo o lugar e revelou uma das belezas do mundo celestial. A chave não tinha aquele brasão atoa. Uma grande águia ali repousava em um poleiro perto do chão. Seus olhos estavam cerrados e respirava profundamente. Era realmente grandiosa. Cerca de nove, dez metros de sua cabeça até a última pena de sua cauda. Suas quatro asas mantinham-se próximas a seu corpo. As penas de sua cabeça e pescoço eram brancas, e a do restante de seu corpo douradas. Seu bico era longo e com uma pequena curva em sua ponta. Demonstrava ter sua extremidade bem afiada. Suas garras eram gigantes, e pareciam ter envergadura e força suficiente para arrancar uma grande árvore de uma floresta. Repentinamente seus olhos abriram e olharam diretamente para mim. Dois olhos amarelados. Ao invés de medo, senti fascínio. Então, uma voz grossa e selvagem veio a minha mente, mesmo sem passar pelos meus ouvidos.” –

Quem és tu, que ousa perturbar meu sono?

Sem saber como responder, ele pensou no seu nome silenciosamente. A águia parou por alguns segundos para “ler” seus pensamentos. –

Qlon Warrior Eros? Eu sou Nisroc. Diga-me o motivo de sua visita!

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Cap. 24 – Liberdade

A

quela cena o fez lembrar um pouco do encontro com os quatro dragões-deuses. Não que terminaria do mesmo jeito, mas aprendera a temer (e muito) bestas mitológicas. Nisroc, a grande águia de quatro asas à sua frente, era temível. Não tanto quanto seus antigos “anfitriões” quando transformados, afinal, bestas com quilômetros de extensão não são muito comuns. –

E então, Qlon. Diga-me o motivo de sua visita!

A voz que falava em sua mente era digna de um rei. Grossa, soberana e, acima de tudo, inquestionável. Tentou pensar no motivo que o levara até ali, para continuar a conversação telepática, mas Nisroc disse: –

Se preferir, pode falar em voz alta. Eu sou mudo, não surdo.

Desculpe-me, Nisroc. - Qlon sentira-se encabulado. - Fui enviado até aqui por Haniel. Ele disse que eu não precisaria falar nada contigo, mas agora vejo que isso é impossível, não é mesmo? Provavelmente vai querer saber por que estou aqui e...

A ave, aos poucos, ganhou forma humana. Um alto anjo de curtos e selvagens cabelos dourados tomou forma, com quatro reluzentes asas douradas. Seu corpo tinha a cor de bronze e era muito bem esculpido, com músculos que, se dados a um humano, poderiam fazer com que derrubasse um javali selvagem. Sua face era bem torneada e suave, apesar das grossas sobrancelhas da mesma cor de seus cabelos. –

Ele não estava errado. - Disse Nisroc, interrompendo-o, sem mover os lábios. - Eu descobrirei por mim mesmo.

Caminhou com passos suaves na direção do pequeno anjo ruivo, que sequer sentia medo. Colocou a mão suavemente sobre sua cabeça e fechou os olhos amarelados para concentrar-se. –

Pense em tudo aquilo que o trouxe aqui. Todas as imagens, todas as vozes, todas as cores. Não me esconda nada, não omita nada. Seja sincero comigo, pois se eu descobrir que me escondeu algo, matarei-o.

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Qlon obedeceu, fechando os olhos por alguns segundos e retrocedendo no tempo dentro de sua cabeça. … –

Entendo. Então foi por isso que Haniel o mandou até mim.

Acabados seus pensamentos, Nisroc soltou sua cabeça e Qlon, imediatamente, caiu ao chão. Sentia-se cansado, e sem condição de mover-se. Mesmo assim, nada temia. A presença de Nisroc dava uma espécie de conforto. Tirando fôlego de dentro da sua alma, disse: –

Se não se incomoda com minha pergunta... Quem é você, Nisroc?

Nisroc sorriu. Não deveriam perguntar aquilo com frequência pelo visto, e muitas vezes Qlon sentia-se estranhamente ignorante perto de todos aqueles que conhecera. Tudo bem, era uma criança, mas não saber nem ao menos do conhecimento comum o deixava perturbado. –

Eu sou Nisroc, aquele que guarda todas as bestas espalhadas pelo universo, reservando-as o último e mais importante princípio, que deveria ser guardado por todos os mortais. Sou o Princípio da Liberdade.

Se não se incomoda que eu diga isso... É um tanto quanto contraditório proteger a liberdade estando enclausurado em uma sala.

É uma criança muito sagaz. Eu poderia sair daqui quando quisesse, mas meu antigo amigo, Haniel, colocou-me aqui para minha salvação, até quando chegar a última hora.

Última hora?

O dia da última batalha entre céus e inferno, onde os mundos colidirão. Para uma criança tão esperta, surpreende-me que nunca tenha ouvido falar disso. Os anjos não ensinam mais a seus filhos as lendas mais comuns entre nós? Isso é vergonhoso.

Minha mãe deve ter dito algo sobre isso, mas não me lembro bem. E qual o motivo de estar preso aqui?

Eu inspirei os anjos a caírem. Eles mantém-me aqui por medo de que um dos seus maiores e mais poderosos anjos faça o mesmo.

Como assim os inspirou?

Nisroc andou pelo estábulo enquanto falava, e Qlon o seguia com os olhos. –

Qlon, ao nascer, foi dada a mim uma missão: Fazer os anjos pensarem por si só e tomarem suas próprias decisões, com o objetivo de tornaremse mais confiantes e trabalhar com mais afinco, podendo estar certos de

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que foi sua opção lutar pelos céus e que estariam fazendo o certo. Mas, infelizmente, ao dar escolhas há sempre a chance de escolherem a outra opção... Ao ouvir algumas de minhas palavras, uns poucos anjos decidiram rebelar-se contra o governo dos céus. Qlon... Eu criei os demônios. Qlon permaneceu em silêncio, boquiaberto, ouvindo atentamente a voz do grande princípio falar em sua mente. –

Depois disso, eu vaguei por milênios como uma ave na terra dos mortais, olhando o estrago que “eu tinha feito” e me redimindo por todos eles. Também inspirei os mortais a serem livres, mas alguns fizeram como os anjos caídos e usaram mal a sua liberdade. Ao chegar o primeiro apocalipse, Haniel deu-me a chance de batalhar ao seu lado como forma de expiar definitivamente meus crimes. Mas a batalha não acabou como todos imaginaram que acabaria. Um empate. Parece uma piada, não é mesmo? Os céus, com seus deuses todo-poderosos, tendo suas forças combatidas frente a frente por seres que eles mesmo ajudaram a criar.

E o que aconteceu então?

Culparam-me novamente pelo fracasso deles. Haniel foi o único dos sete arcanjos que me protegeu e livrou-me da morte. Ele alegou o mesmo que aleguei. Que cumpri a minha missão como foi ordenado, e que não tinha culpa por nem todos terem usado corretamente o meu princípio.

Ele prendeu-me para poupar-me. Ele salvou a minha vida. Sou eternamente grato a ele. E acho que, agora, olhando para o seu motivo, posso ver o porquê de estar aqui.

E qual seria?

Oras, Qlon: Estamos no mesmo barco. Ambos, eu, sua mestra e, agora, você, recebemos uma injusta pena dos céus. Não é claro?

Eu entendo que por muitas vezes tenha pensado que você está errado, e que deveria sentir-se envergonhado de lutar contra aqueles que defende. Mas entenda, é para defender uma coisa que esse lugar há muito parece que já esqueceu: justiça. É por um bem maior, é por uma causa maior! E é assim que seu pai pensaria, pelo que pude ler de seus pensamentos e memórias. Eu acredito nisso, e pelo jeito você também acredita, senão não estaria aqui. Estaria levando um treinamento normal ao lado de Lua.

Tem razão.

Haniel enviou-o para que eu o ajudasse em sua missão, eu acredito.

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Esta é nossa chance, Qlon! Podemos ajudar um ao outro! O que diz? –

Eu... Aceito sua... Proposta.

“E adormeci. A felicidade preenchia-me enquanto eu suspirava e permitia minha mente entrar em um mundo de sonhos. Sonhos esperançosos.” … –

E então, está pronto?

Ainda não entendi muito bem o plano... - Qlon continuava a reclamar.

Mas é muito simples. Aliás, mais simples do que isso... Impossível.

Quebrar o telhado e sair voando até a Yggdrasil? Nossa, que plano perspicaz.

Qual o motivo da ironia? - Reclamava Nisroc, desta vez, de cara fechada.

A porta está aberta. Por que simplesmente não usá-la, então? Sabe, andar por aí com sua forma humana. Essas coisas.

Oh, claro, senhor gênio de cinco anos de idade. Um prisioneiro celestial andando pelos corredores da mais segura fortaleza do plano astral com um anjo “meio-caído”, se assim posso chamá-lo. Mais alguma ideia brilhante ou vamos seguir a minha agora?

Ah, obviamente seguir a sua. Afinal, ao romper um teto de pedras, não sobraria nenhum escombro que pudesse acertar-me e fazer-me cair de suas costas ou até mesmo matar-me.

Levarei-o no bico então.

Oras, mais genial ainda. Assim receberei totalmente a força do vento e minha roupa se rasgará com a força que serei jogado na direção oposta.

Garras?

É... Pode ser uma saída. Se conseguir manter-me longe das pontas de suas unhas que, com certeza, me rasgariam em vários pedacinhos.

Conheciam-se a menos de algumas horas e agiam como velhos companheiros. Não era de se estranhar. Nisroc era muito instintivo e sentimental. Talvez assim o princípio das bestas deveria realmente ser. Agia impulsivamente e mudava de humor drasticamente. Raiva, felicidade, dúvida... Era muito expressivo. Talvez passar tempo demais com os humanos tenha deixado-o mais... Sensível. –

E como abriremos caminho? - Perguntou Qlon tocando a parede de fria rocha amarelada. - Seus músculos são grandes e fortes, mas pode quebrar paredes sólidas com eles?

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Pelo visto, não sabe nem um terço do que deveria saber. Deixe isso comigo. Afaste-se, garoto.

Qlon afastou-se e virou-se. Viu Nisroc tomar uma certa distância da parede e colocar o braço direito atrás das costas. De um pulo, saltou e deu um golpe que fez abalar até mesmo o chão. A parede rompeu-se com um estrondo, e logo pe dras voavam para fora e uma enorme rachadura espalhou-se pelo teto. O corpo do anjo da liberdade transformou-se rapidamente na águia de antes. –

Vamos, ou quer morrer com pedras sobre seu corpo?

Qlon correu até Nisroc, que o pegou pela garra e saiu voando pelo grande deserto. Quando a luz batia em suas penas douradas, refletia como em um espe lho. E, com um bater de asas que fazia esvoaçar as areias do deserto em pequenos tufões tamanha a sua força, eles partiram da fortaleza, deixando em sua ala norte um enorme buraco. … Com o tempo, as areias tornaram-se neve. O ar ficou gelado e o sol sumiu por entre espessas nuvens cinzas, escuras. O vento tornava-se cada vez mais uma tempestade, que fazia os cabelos de Qlon esvoaçarem enquanto preso, firmemente, às garras da grande águia dourada. Não demorou muito até o vento tornar-se tão forte e cheio de neve para que pudesse, enfim, ser chamado de tor menta. A árvore de Yggdrasil podia ser avistada ao fundo, mas apenas por uma fina faixa verde que indicava ser o seu caule, e apenas se o gelo que esvoaçava com muita fúria não os cegasse. –

Qlon, assim que estivermos na árvore mãe, eu irei largá-lo dependurado no caule e subir primeiro. - Falou telepaticamente Nisroc.

Mas por quê? - Pensou Qlon, curioso e preocupado.

O quarto andar é o mais bem guardado que existe. Virtudes patrulham a árvore noite e dia, será mais do que difícil entrar despercebido. Não é para menos, lá muitos anjos caídos estão sendo presos e sob vigia constante. Por isso, irei na frente para distrair os guardas enquanto você passa para Machen e continua a escalar até Machon. Eu distrairei a elas em uma perseguição, por isso não demore muito.

E qual o motivo de não voarmos rapidamente até lá?

Qlon, as virtudes não são nada cegas. Elas perceberiam sua presença e, mais do que de imediato, começariam uma perseguição por todos os sete céus atrás de mim e você. Você não pode ser notado.

E por quê?

Oras, Qlon! Use a cabeça! Você ainda não é conhecido pelos sete céus,

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é apenas um anjo novato atrás de informações. Ninguém sabe como é seu rosto ou seu objetivo, além de poucos e seletos anjos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo. Ainda conta com o elemento surpresa para invadir o quinto céu e pegar aquilo que precisa das Dominações e, talvez, de alguns Tronos. –

E quanto a você?

Eu já sou conhecido e... Digamos, procurado. Agora, com minha fuga, estarão completamente atrás de mim. Vou fugir e esconder-me. Provavelmente no segundo andar, nas florestas de lá.

Então quer dizer que não irá ajudar-me a conseguir o que quero?

Qlon... Infelizmente, eu não posso. Estará sozinho, de novo. Mas não se preocupe! Assim que pegar o que veio buscar, irei ajudá-lo a sair. É uma promessa.

Então você pode abrir um portal para a minha dimensão?

Sou o anjo da liberdade, lembra-se? Que espécie de honraria seria essa se eu não estivesse apto a viajar por onde quero? E, se preciso, voarei novamente até o quinto céu para resgatá-lo.

Mas como saberá quando vir?

Espere até chegarmos ao tronco de Yggdrasil.

… Após atravessar o que parecia ser uma barreira de ar soprada de cima para baixo, alcançaram o tronco. O vento em si não provinha dele, e sim de um andar acima. Uma estratégia de defesa? Provavelmente. Nisroc depositou-o suavemente sobre uma abertura em seu tronco, para que ele não caísse, e depois alojou-se dentro dele junto com seu mais novo amigo, voltando à forma humana. O buraco mais parecia uma pequena caverna formada naturalmente pela maneira com que as grossas raízes reuniam-se e entrelaçavam. –

Eu pedi para que esperasse para saber como eu saberia quando precisasse da minha ajuda. Aqui está.

Após a frase confusa, Nisroc estendeu para Qlon uma pequena pena dourada; uma pluma. Qlon pegou-a pela ponta delicadamente, com medo que fosse frágil e, de alguma forma, quebrasse. –

Esta é uma das penas de minhas asas. Uma pequena pluma em formação, ainda. Fique com ela presa em seu cabelo. Assim partilharemos pensamentos. E, caso vá escrever e acabe usando-a para tal fim, saiba que ela perderá seus poderes quando tocada pela tinta. Mantenha-a pre-

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sa firmemente, para que não a perca. –

E se eu perdê-la ou, por algum acidente, ela manchar-se com tinta? Como farei para encontrá-lo novamente?

Desça até Raqia e procure-me na floresta. Poderá demorar um pouco, mas caso volte vivo eu poderei sentir seu cheiro e ir ao seu encontro. Até lá, mantenha-se vivo e livre.

Entendo... Nisroc?

O que foi, Qlon?

Obrigado... Por sua ajuda.

Não há por onde agradecer. Mas, se quiser, poderá compensar.

E como farei isso?

Nada vem à minha mente agora. Mas ficará devendo um favor.

Então grato deverei.

Ótimo. Pois bem, já podemos colocar o plano em prática? Para nossa sorte, essa abertura no tronco se encontra próxima a Machen.

Como irei escalar? Se bem me recordo, as raízes tinham um aspecto liso, escorregadio.

Use essa espada que carrega na cintura, a Sanctus.

Qlon não ficou muito surpreso ao ouvir Nisroc falar o nome de sua espada. Mas queria saciar sua curiosidade. –

Como sabe sobre esta espada?

E quem seria eu se não soubesse? É um dos tesouros celestiais, até onde eu saiba. Por acaso roubou-a do templo dos quatro dragões?

Não, não roubei. Ela foi passada a mim por meu pai, e esse por sua vez recebeu de seu pai. É uma espada passada através de gerações na família Warrior.

Ter ficado um certo tempo afastado dos céus pode ter afetado meu conhecimento comum... Mas, de qualquer forma, essa é uma espada muito especial. Foi forjada a partir das escamas dos quatro grandes dragões, e carrega consigo a essência dos deuses. O metal que a reveste é o mais raro de todo universo, sendo inquebrável e inigualavelmente leve. Foi levado um milênio inteiro para que inúmeros anjos ferreiros dobrassem seu aço milhares de vezes e afiassem perfeitamente sua lâmina, para eliminar qualquer impureza. Ela, o escudo, e a armadura sagrada ficaram

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prontas apenas depois de dez mil anos. –

Espere... Escudo e armadura sagrados?

Você nada sabe dessa espada que a foi confiada? Não sabe da lenda que a cerca, dos seus equipamentos irmãos, ou até mesmo como usála? Oh, céus. Ao menos isso deveria saber como seu portador.

Não foi passado nada...

Bem... Não posso contar tudo sobre ela pois, como disse, eu estive ausente por muitas eras. Mas, até onde sei desses equipamentos, é que foram criados para matar um anjo em especial. Não posso revelar o seu nome, pois fomos proibidos de pronunciá-lo neste reino, mas posso dizer que era um serafim muito poderoso. Os deuses estavam furiosos com sua atitude, então ordenaram que fosse exterminado.

E que atitude era essa?

Traição. Qlon... Você sabe sobre a era antes do primeiro apocalipse?

Nisroc encarava-o profundamente, com o rosto sério e frio como o gelo. –

Não, mas tenho aqui um livro que fala sobre isso.

Então, se quer saber mais sobre tal anjo, leia esse livro atentamente. Cada linha, cada parágrafo. Cada simples palavra. Enfim... Como ia dizendo, esses equipamentos foram criados para matar um serafim. Então, imagine a quantidade de poder que carregam... Rezam as lendas que, o escudo, chamado Sacrum, gera uma barreira impenetrável, por ataques físicos ou mágicos. Mesmo que um golpe possa, em uma remota hipótese, ultrapassar tal barreira, ainda há a armadura, chamada Divinae. Quando todas suas peças estão unidas, além de intransponível, ainda atribui ao seu usuário diversos outros poderes. Suas grevas dão uma velocidade insuperável. Suas manoplas concedem força suprema. O elmo dá conhecimento divino, com sua viseira ampliando a visão, e seu peitoral atribui imortalidade. A espada, Sanctus, em si é a arma perfeita. Sua lâmina pode cortar até mesmo um espírito, além de que tal arma pode transformar-se em qualquer outra pela vontade de seu dono. De simples soqueiras até enormes polearmas. Ainda dizem que tal arma revela, através de um encantamento, a verdadeira forma de seu dono, ampliando e concedendo um poder ainda maior. Quando todos os equipamentos estão reunidos, seu usuário torna-se invencível.

Nossa... Eu não sabia nem mesmo metade disso. E o que aconteceu com os outros equipamentos? Digo, eu tenho a Sanctus aqui e agora, e sei que foi um presente divino para nossa família. Mas, e o resto? - Qlon então lembrou-se do assalto ao templo dos dragões.

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Qlon, temo não ter as respostas para tudo que procura. Apenas leia o livro quando tiver a oportunidade e tudo será esclarecido.

Posso fazer apenas mais uma pergunta?

Claro.

Esta espada pode matar um imortal?

Nisroc sorriu. Colocou a mão na cabeça de Qlon e ajoelhou-se, fazendo carinho em seus fios rubros. –

É a única arma que pode sequer tocar um imortal. Por quê? O que pretende fazer com tal informação?

Estava pensando em fazer bom uso dela caso seja necessário.

Entendo...

Nisroc afastou-se do pequeno anjo e foi para a entrada do buraco. –

Qlon, leia o livro que carrega consigo. É apenas isso que posso aconselhar no momento. Agora, vamos focar em como passar daqui, concorda?

Tudo bem, concordo. - Disse Qlon um pouco relutante, ainda buscando respostas. Queria saber mais sobre sua arma, mas talvez aquele não fosse o momento.

Então veja, o plano é o seguinte: Subirei e você irá esperar aqui até que eu voe para baixo. Tomarei cuidado para passar por este lado, você verá meu sinal. Esconda-se aqui. Não faça barulho algum, não olhe para fora quando eu acabar de passar. Espere que todo o barulho de asas cortando o ar do lado de fora acabe, então poderá sair. Em quanto tempo acha que pode escalar tudo isto com tal espada?

Quantos metros há entre o chão e o céu do próximo andar?

Assim como o de todos os andares, oito mil metros. Como pode perceber, é uma subida vertiginosa e cansativa.

Poderei voar?

Não. O barulho de penas neste andar chama as Virtudes, e ao passar por ele verá por quê. Escale apenas usando seus membros e sua espada. Então, quanto tempo acha que precisará?

Cerca de... Não sei, é uma altura muito grande.

Há uma regra em perseguições: Seja uma isca por um longo período e notarão que você está apenas ganhando tempo. Terá duas horas, é o máximo que posso conseguir. E não se esqueça: espere meu sinal!

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Cap. 25 – Escalada Interrompida

R

ápido como uma flecha a ser atirada por um arco, Nisroc saltou pela abertura, transformou-se em besta e subiu aos céus. Qlon escondeu-se em qualquer canto escuro que achou ao lado da entrada. Desembainhou sua espada com suavidade, apenas esperando o momento certo. Mantinha a cabeça para fora, olhando para onde o tronco de Yggdrasil tocava as negras e tempestuosas nuvens. Raios circulavam entre elas, em uma constante descarga elétrica. Não levou muito para Nisroc voar para baixo. Ele varou as nuvens em uma alta velocidade e logo passou pelo esconderijo que haviam arrumado. Apenas por um milésimo de segundo, Qlon pôde perceber que a grande águia dourada o olhou com sua íris de amarelo turvo. Em um movimento imediato, Qlon recolheu sua cabeça para dentro da cavidade e permaneceu ali, de pé, encostado no tronco da árvore sagrada. Um barulho ensurdecedor de asas cortando os céus foi escutado em seguida. “Pelas sombras projetadas, percebi vários corpos voando em direção ao solo. Todos portando consigo algum tipo de arma. Voavam quase no mesmo ritmo de Nisroc, que mantinha uma velocidade um pouco maior apenas. Conhecendo sua velocidade como eu conhecia, sabia que estava apenas ganhando um curto espaço em relação aos seus perseguidores, não voava nem mesmo na metade de sua capacidade máxima. Assim que o barulho do lado de fora se cessou, com cuidado olhei para o exterior da abertura. Tudo havia ido, apenas brancas penas que dançavam pelo ar restaram. Havia calculado meu tempo de subida com base no tempo estimado que Nisroc havia dado. Oito mil metros em duas horas... Isso dava um total de quatro mil por hora. Cerca de setenta metros por minuto. Pouco mais de um por segundo. Não havia tempo a perder. Com a pena dourada de meu amigo bem presa em meu cabelo, seu cálamo repousando atrás de minha orelha, cravei a espada no tronco de Yggdrasil e iniciei minha subida.” … O começo foi rápido. As nuvens negras estavam perto, já podia sentir seus pelos arrepiarem por causa da eletricidade. Cada vez que estendia seu braço para cima e fincava a espada como um alpinista a usar sua picareta, um pouco de seiva escorria pelo grosso caule. Era difícil perfurar sua superfície rígida. Isso o fez pensar naquela luta do vulto desconhecido que o salvou contra os quatro dra-

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gões-deuses. Se aquela espada carregava mesmo sua essência, então seus poderes também podiam cortar Yggdrasil. Eles controlaram seu poder o tempo todo para evitar destruí-la. Ou aquilo era tudo premeditado, ou ele dera muita sorte. De qualquer jeito, não era hora para se pensar naquilo. Tinha muito a subir em pouco tempo, e as nuvens negras estavam cada vez mais perto. … Ao atravessá-las, sentiu seu corpo ser puxado para baixo de imediato. Novamente a gravidade pesava. Não era tanta coisa como da passagem do segundo para o terceiro andar, mas por certo a gravidade do quarto andar era superior. Além de sentir-se um pouco mais oneroso, uma leve corrente elétrica atravessou seus músculos e o fez sentir leves contrações. Uma sensação estranha e gélida percorreu sua espinha e quase perdera o equilíbrio e despencara dali de cima. Sim, possuía suas asas, mas ainda assim fora proibido de usá-las. Ao finalmente avistar o quarto andar, seus olhos se preencheram com uma horrível visão... “Chamas quase mortas espalhavam-se em velas que flutuavam em todas as direções, formando corredores. A luz era demasiado fraca, apenas um jogo de sombras conseguia ser avistado. Parecia não haver chão e paredes. A um metro além do grosso caule da árvore, uma espécie de campo de força separava as nuvens de um imenso vazio, recheado apenas pelos pequenos e esvoaçantes objetos cilíndricos de cera branca. Os círios não eram consumidos. De um lado, anjos sem asas pareciam atados por correntes que estavam presas a lugar nenhum. Mantinham os olhos abertos, vazios. Eram inexpressivos e sequer moviam, como bonecos. A base de suas asas, junta às costas, aparentava ter sido quebrada com força. Não havia sangue. Em um outro canto, anjos, esses com asas, estavam encarcerados em um cubo branco, feito por energia mágica. Tais cubículos, com cerca de um metro cúbico (se muito), os deixavam em uma posição fetal, desconfortável. Assim como os outros, não moviam sequer um dedo. A maior parte do espaço era preenchida por celas com grades, onde anjos de asas negras com a garganta costurada estendiam a mão para fora das barras e gritavam por um socorro silencioso. Tinham a feição magérrima. Ossos saltavam de seus pulsos e o contorno de seus ossos craniais era visto com perfeição por baixo de um manto negro que os cobria do topo de sua cabe ça até seus pés de dedos finos e tornozelos ossudos. Deixavam à mostra apenas o rosto, parte do pescoço e peitoral, onde as costelas e o esterno revelavamse por baixo da pele fina e sem músculos. Assim como na sala de tortura por onde passei, vários instrumentos se faziam de uso ali. Até mesmo a dolorosa extensão. Em uma delas um anjo ainda estava sendo mantido preso. As virtudes pareciam haver saído antes que acabassem de cumprir seu “dever”. E esperava eu que não voltassem tão cedo... Aos poucos, tentei ignorar a cena e continuar rumando ao topo de Yggdrasil, que parecia cada vez mais distante...”

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… Tal cenário estendia-se por metros e mais metros acima, não importava o quanto subisse. Parecia haver andares e mais andares com o mesmo aspecto. Até mesmo um grupo de velas subia em espiral, como se circundasse uma escada invisível. O topo ainda estava longe. Mal havia chegado a um terço do caminho quando parou para pensar... Aquele céu era o contrário do que o nome de seu planeta vigente pregava. A escuridão se estendia quilômetros além de seus olhos. Se não fossem as velas espalhadas, a escuridão seria total. –

Qlon... Qlon!... Pode ouvir-me?

A voz de Nisroc falava diretamente com seus pensamentos. Respondeu com a comunicação mental que haviam estabelecido pela pena: –

Sim, posso! Houve algo, Nisroc?

Acho que as virtudes perceberam minhas intenções. Algumas delas pararam de me perseguir e estão tentando alertar as outras. Se eu não fizer algo, logo o alcançarão!

E o que planeja fazer? Não cheguei nem ao menos na metade do caule.

Eu sei, por isso mesmo entrei em contato. Qlon, apresse-se! Travarei uma batalha com elas e não sei quanto tempo poderei suportar, nem ao menos se poderei suportar.

Batalhar? Contra as virtudes?

Exatamente.

O que deseja, por acaso? Ser capturado e ir para a prisão que vejo agora? Por certo perderia suas majestosas asas!

E tem algum outro plano para poder ajudá-lo, grande gênio de cinco anos? Por acaso esqueceu-se de quem sou também? Sou o poderoso Nisroc! Tomarei as rédeas da situação por algum tempo, então eu imploro: seja rápido!

Posso usar minhas asas?

Já disse que não!

Mas não disse que estaria batalhando com elas? Aposto que também estariam ocupadas demais para notar qualquer coisa!

Não seja estúpido, garoto! Não podemos arriscar! Temos apenas uma chance, então vamos fazer da maneira certa, tudo bem? Não quero ter de resgatá-lo de Machen, seria muito mais trabalhoso lutar nesse andar. Apenas siga com o plano original.

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Entendi, entendi... Bem, então... Boa sorte, amigo!

Não houve mais alguma resposta. Checou a pena. Ela mantinha-se no lugar de sempre: atrás de sua orelha. Não estava manchada ou qualquer coisa do tipo. Isso só poderia significar uma coisa: a batalha havia começado. Mais do que depressa, apertou as mãos contra os grossos ramos que subiam pelo tronco de Yggdrasil e fincou a espada com mais força e velocidade, esperando escapar logo dali. Ah, se a gravidade colaborasse... … Se encontrava mais perto do final do que antes. Um pouco mais da metade havia atingido. Sentia seus músculos doloridos. O esforço que fazia para vencer a gravidade e o cansaço era tremendo. Por um segundo pensou em parar e descansar, mas o sacrifício de Nisroc não poderia ser em vão. As virtudes poderiam voltar a qualquer segundo, e isso não seria nada bom. Mas, ao olhar para cima, percebeu algo que não era para estar ali. Quatro anjos, imponentes, que olhavam diretamente para Qlon. Todos possuíam traços femininos, tais como cinturas destacadas e seios de um tamanho médio. Usavam longos vestidos brancos, sem mangas, amarrados atrás do pescoço e presos na cintura por uma faixa dourada. Cada um com seis grandes asas de um branco puro e completamente reluzente. Apresentavam características pessoais diferentes. Não dava para diferenciá-las direito. Ainda estavam cerca de cem metros acima de sua cabeça. Mas não vinham em sua direção. E agora, o que fazer? Desistir ali, chamar a ajuda de Nisroc e voltar ao primeiro andar para resgatar Lua e fugir? Não, havia chegado longe demais. Com a Sanctus em mãos e com a ajuda do lendário Nisroc, sentia-se confiante. Podia vencer até mesmo um imortal. Mesmo não apresentando treinamento suficiente, era preciso. Decidiu não desistir mais de seus planos. Agora iria até o fim. Então, com cora gem batendo forte em seu peito jovem, continuou a escalar. … –

Pare aí mesmo, estranho. - Uma voz feminina soou em um tom grave.

Qlon olhou ao seu redor. Todas as quatro cercavam-no e olhavam diretamente para ele. –

O que querem de mim?

Apenas que se façam valer nossas quatro virtudes. Se for considerado capaz, poderá atravessar até o andar superior. Este é o andar do julgamento e da punição. E nós somos as juízas.

Vocês... Também são virtudes? - Perguntou Qlon, olhando para seus três pares de asas. Aquilo era um tanto confuso. Fora que já ouvira algo sobre ser julgado merecedor antes, e não acabara muito bem... Ainda sen-

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tia nos ossos as penosas lembranças de Raqia. –

Sim. Somos as quatro virtudes cardeais. Justiça, Coragem, Índole e Prudência.

Como? Digo... E as sete virtudes? Elas não são as primordiais?

Não, nós as criamos.

Elas não foram criadas diretamente pelos deuses?

Não. Na verdade, as sete virtudes nada mais são do que nós, as quatro virtudes originais, misturadas aos sentimentos humanos de fé, amor e caridade. As sete virtudes conhecidas hoje foram criadas pela vontade humana, e não pela vontade divina como nós.- A mais à esquerda falou sozinha.

Ela tinha os olhos vendados, mas longos cabelos cor-de-mel ondulados até a cintura, soltos. No topo de sua cabeça, uma coroa de ferro enferrujado, ainda adornada por belas pedras preciosas de todas as cores. Em sua mão esquerda, uma espada curta, com um cabo dourado envolto numa fita branca, cujas pontas esvoaçavam cerca de vinte centímetros soltas no ar. Na mão direita, uma balança de bronze. –

Estão aqui para combater?

Não. Nós, como as virtudes primordiais, não temos essa função. Apenas o testaremos, e nada mais. - As outras permaneciam caladas.

Testar-me? Mas por quê?

Para saber se merece prosseguir ou se seu coração não é puro o suficiente para isso. Não somos porta-vozes das vontades divinas, mas temos autonomia para julgar quem é ou não merecedor de ascender os céus. Eu sou a Justiça. - Disse. Sua voz era pesada para uma voz feminina. Nem mesmo os grandes reis tinham tal tom de voz. - Não temos tempo a perder com mais conversas. Que se inicie seu teste.

… As imagens se esvaíram de sua cabeça. Pareciam nunca ter estado ali. Era como se sempre fosse cego. Sua consciência entrou em um enorme vazio. Então era assim ser testado pelas virtudes? Estava sentado, acomodado em uma cadeira de madeira. Tudo estava escuro. –

Este é o nosso teste. - Disse Justiça. - Começaremos comigo mesma. Está de olhos abertos?

Sim, mas nada enxergo. - Falou Qlon.

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Não tenha medo. Não faremos mal algum. Ao menos não se passar em nossos valorosos testes. Está agora dentro de sua própria mente. Consegue ouvir?

Vozes misturavam-se e pareciam tomar o cenário de uma movimentada cidade. O que falavam não parecia fazer sentido algum. –

Sabe de quem são essas vozes? - Justiça perguntou, fazendo um eco em seus ouvidos.

Não sei, não consigo diferenciá-las. Todas falam juntas!

Porque não está sabendo ouvir. Preste atenção, concentre-se em apenas um som por vez...

Aos poucos, sua audição acostumou-se com uma voz. Uma voz muito peculiar Ele a ouvia todos os dias, mas de quem seria? Então, de súbito, ele percebeu: –

Mas, Justiça, essa é minha voz.

Precisamente. E sobre o que ela fala?

Qlon parecia já ter ouvido aquela conversa antes. Escutou com atenção. Havia mais uma voz ao fundo, mas não sabia de quem era. Ele falava sobre ajudar, e parecia se irritar com o decorrer da conversa... Isso lembrou-o da discussão que tivera com Lua para que pudesse subir todos os céus que restavam. –

Estou falando com minha mestra... Tentando convencê-la a me dar permissão. Permitir que eu suba os céus à procura de respostas.

Tal atitude, pequeno anjo, – Dizia Justiça. - por certo é muito nobre. Mas é a mais correta? É a mais justa?

O que você quer dizer?

Acha que sua mestra não deve ter sofrido ao ouvir o que disse? Será que levou em consideração os pensamentos alheios antes de tomar suas ações? Será que tudo aquilo que fez agora não passou de egoísmo ao invés de altruísmo? Acha que a justiça foi aplicada nesse caso, por ambos os lados?

As vozes continuaram. Conversas passadas podiam ser lembradas, desde que entrara para a Base. Sua cabeça girava com tanta informação. –

Quero sua resposta, Qlon.

Por quê? Qual o motivo dessa pergunta? Tudo é tão confuso agora... Tão confuso quanto seu repentino aparecimento.

Este é seu teste: julgar a si mesmo tendo como base apenas o que foi ouvido de sua própria boca. Imagens não são necessárias para a verda-

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de transparecer, mas o som... Esse é essencial. Foque nele e responda a minha pergunta: Acha que está sendo justo até agora? As vozes cessaram e um incômodo silêncio tomou conta da cabeça do pequeno anjo. Por tempo refletiu, mais uma vez, sobre tudo. Por fim, respondeu. –

Eu dei a ela a escolha de poder enviar-me ou não. Eu quis ser enviado apenas para ajudá-la, nada mais. Pedi desculpas se a magoei com meus dizeres. Não estou contra a vontade divina, apenas quero respostas para poder ajudar aquela que é minha mestra. Não estou pensando em mim. Não quero honrarias por ajudar, nem satisfazer a mim mesmo. Apenas busco a verdadeira justiça divina, que acho não ter sido concedida.

Justiça ficou em silêncio. Dizer aquilo para ela era como um desrespeito. Oras, ELA era a encarnação da justiça divina. Se ela dizia ter autonomia para julgar os anjos, então provavelmente teria julgado Lua. Será que ela teria aplicado tal pena? Mas por quê? Queria perguntá-lo, mas seria mais prudente esperar até que tal teste fosse encerrado. … A resposta demorou. O longo grito do silêncio era uma tortura aos seus ouvidos, causava ansiedade. Mas nada podia fazer até que a Justiça desse sua sen tença. Depois de muito tempo, a resposta veio. –

Qlon... Eu, Justiça, considero você um anjo justo, para consigo e para com aqueles ao seu redor. Lembre-se que o significado da virtude que guardo é que suas ações são reflexos de seus pensamentos, e esses, por sua vez, são formados a partir da sua interação com o ambiente ao seu redor. Enquanto fizer aquilo que é o melhor para todos aqueles próximos a ti, inclusive você mesmo, serás verdadeiramente justo. O meu teste será finalizado aqui.

Justiça, eu tenho perguntas pertinentes sobre algo.

Suas perguntas podem esperar. Ainda têm mais três testes que deverá passar antes. Verificar a justiça de seu coração foi apenas a primeira etapa. Ela o qualifica para a segunda, e assim sucessivamente.

Mas, Justiça...

Eu sei do que tratam suas perguntas. Eu posso ver sua mente. Mas, como disse, elas podem, e devem, esperar.

Compreendo...

Devo ir agora.

A voz calou-se, e a imensidão obscura se tornou uma vastidão branca.

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“Era como despertar de um profundo sono com a luz do sol sobre meu rosto. Aos poucos, imagens tomaram forma ao meu redor. Pelo que eu pude perceber, ainda estava dentro de meus pensamentos. Uma enorme torre estava no horizonte, no final de um vasto campo de grama alta. Seu topo sumia atrás de nu vens tempestuosas no céu. Com passos receosos, dirigi-me até ela. A distância não incomodava, apenas a ventania que precedia a forte chuva. Mas, quando os ventos pararam, a grama ainda se movia. Eu parei. Ela continuava a agitar-se. Eu ouvia tais sons distantes de mim, mas como a relva atrapalhava a minha visão e eu não sabia o que me esperava na parte de baixo daquele imenso capin zal, apertei o passo. A torre já não estava tão distante, mas à medida que eu andava mais rápido, os sons aproximavam-se. Senti vontade de correr. A chuva começou a cair. Fortes gotas encharcavam rapidamente minha roupa e eu ficava mais pesado e mais lento. Raios cruzavam os céus e clareavam tudo ao meu redor. Mesmo com todo aquele barulho de tempestade, eu podia ouvir seus passos, eu sentia olhos selvagens me vigiando. Tentei levar minha mão à cintura, mas a Sanctus não se encontrava lá. Eu estava desarmado. A torre estava a menos de vinte metros de mim, e a relva se agitava com ferocidade cerca de dez metros ao meu redor, atrás e aos meus lados. Aproximavam-se velozmente. Então, eu cometi o erro: corri para a porta da torre com todas as energias que me restavam.” Mesmo com a relativa proximidade, o peso de sua roupa molhada atrasou-o. Aquilo que corria na grama o alcançou assim que chegou à porta. Tentou empurrar suas metades, mas elas sequer se moveram. Então ele sentiu algo gelado na sua nuca. Uma sensação, quase um pressentimento. E então, uma forte dor o paralisou. Algo parecia cravar na carne de seu ombro presas enormes. Quase que em desespero, desmaiou sem sequer ver o que havia acontecido. … Acordou. Uma forte luz o cegava. Aos poucos, tudo ao seu redor tomou forma, revelando um grande campo de grama alta. Estava deitado numa clareira. Levantou-se e olhou para o horizonte, fitando uma torre quilômetros dali. Tinha a impressão de já ter estado ali antes, mas não se lembrava ao certo. Teria tudo não passado de um sonho? Sim, parecia um sonho o que havia ocorrido. Mas o céu estava da mesma forma que antes. Nuvens negras, na iminência de despejar sobre aquele lugar uma chuva devastadora. Ainda assim, teve medo da dor. Medo de direcionar-se de novo àquela torre. Mas, olhando em volta, nada mais podia ser feito. Após passar pelo teste da Justiça, aquele deveria ser o seu novo teste. O que será que aquela desconhecida virtude queria? Só havia um meio único de descobrir. Com passos curtos, caminhou de novo ao encontro da distante torre, cujo topo se perdia no céu coberto. Mas algo estava estranho... Apesar do vento que movia as folhas ao seu redor, quando tal agitar cessava elas continuavam a fazer baru -

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lho. Algo não estava certo. Olhou para a fonte dos ruídos, mas nada viu. Então continuou a caminhar. Com o tempo, a chuva passou a cair. Encharcou sua roupa e o deixou mais pesado. Era difícil caminhar, mesmo porque o solo havia tornado-se um pouco lamacento. Ainda com todo aquele barulho das gotas de água se chocando com o solo, era possível ouvir passos. Um estranho sentimento atravessou sua mente. Por fim, lembrou-se de tudo que havia ocorrido antes. Estava naquela posição, parado a cerca de vinte metros da porta. O medo invadiu seu corpo. A dor que sentira antes... Não queria sentir novamente. Não queria passar por tudo aquilo mais uma vez. “Mas, ao invés de deixar o medo me controlar como da vez passada, parei e pensei: se isso aconteceria toda vez que eu, em desespero, corresse para a torre, e no final acordaria novamente como se nada tivesse acontecido... Então aquilo não iria matar-me. Aquele era meu teste: eu deveria ter a astúcia necessária para encarar o perigo que me cercava. E, com uma súbita curiosidade, andei na direção contrária. Andei na direção daquele ser que me perseguia, afastando a grama com as mãos. Tal foi minha surpresa ao ver a figura de um enorme felino, com uma espessa juba alaranjada e olhos amarelados. Estava sentado, parado, olhando para a minha face. O leão não se manifestava, qualquer que fosse a forma. Não pensei em tocá-lo, nem em afugentá-lo. De certa forma, ele parecia amigável. Existiriam mais naquela relva? Leões e leoas me cercando? Sem resposta alguma, a porta da torre abriu silenciosamente. Quando voltei-me para fitar o leão, ele havia sumido. Fiz o óbvio: rumei para a torre.” Ao passar pela porta, ela fechara com um estrondo. Estava sozinho em um imenso saguão, cheio de pilastras quebradas, iluminado por archotes presos às paredes. No meio do recinto, um trono vazio jazia. Um mistério. Uma escada subia pelas paredes da torre, em uma imensa espiral até seu topo, invisível na es curidão. Pegou um dos archotes da parede e pôs-se a subir as escadas. Aquele teste estava indo longe demais. Fora tudo tão repentino. De uma hora para a outra, as virtudes cardeais estavam lá, e no instante seguinte estavam testando-o. Não havia um motivo muito bom além do fato de elas estarem guardando a entrada para Machon. O que estava acontecendo? Fora que isso era o menor dos seus males. Quanto tempo será que havia perdido apenas ao meditar em sua mente desde que a Justiça o pôs para pensar? Nisroc estava em perigo. Precisava ser rápido. Aliás, mais do que rápido. Subindo de dois em dois degraus, com uma enorme pressa, esperou alcançar o distante topo da torre. “Não sabia o que me aguardava. Aliás, sequer sabia o estranho rumo que minha jornada estava tomando. Ao menos aquele encontro daria a chance de perguntar à Justiça o que estava acontecendo. Mas para isso, passar pelos quatro testes era necessário. Com o desejo de acabar aquilo o mais rápido possível, continuei a subir os degraus da escadaria quase que infinita da torre no meio do nada.”

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Cap. 26 – Aprendendo com os Erros

A

o final da longa escadaria ascendente, uma luz fraca. Gotas de chuva caíam pela abertura que dava acesso ao topo da torre. Qlon havia subido por muito tempo aquele monte de degraus bem espaçados. Sentia uma estranha dor na cabeça e seu nariz sangrava, escorrendo em seus lábios, fazendo-o sentir o gosto de seu próprio sangue. Calafrios subiram por sua espinha e os poucos pelos de seu braço infantil arrepiavam-se. Ao chegar na abertura, saiu e olhou em volta. A chuva voltou a molhá-lo com suas gotas geladas. De costas para ele, um serafim olhava o horizonte, sentado na mureta que separava o chão de pedra dos céus tempestuosos. As nuvens ali eram todas negras e raios passavam de uma para outra com uma frequência admirável. Os ventos eram bem mais fortes e quase arrastavam o seu corpo pequeno. Do anjo desconhecido, curtos cabelos dourados que mal passavam da nuca estavam ensopados. Penas brancas soltavam-se de suas seis belas e grandes asas abertas, como um anjo que queria voar. No centro do terraço redondo, um trono idêntico ao do térreo jazia, com as mesmas pilastras quebradas ao seu entorno. Qlon situava-se entre o trono e o anjo. –

Com sua licença... - Disse Qlon, saindo da pequena abertura quadrada.

É uma espada interessante essa que possui. - Falou uma voz feminina.

Como?

Qlon olhou para sua cintura, mas nada estava lá além do pedaço de pano branco que a cobria. O anjo voltou-se para ele, com a espada entre seus grandes seios, abraçando-a em uma cena um tanto quanto erótica. Seus lábios e nariz tocavam o cabo e suas pernas laçavam sua lâmina. Suas mãos deslizavam por sua extensão, acariciando-a. Estava completamente nua, e seus olhos de um amarelo-âmbar profundo com uma fina e comprida pupila fitavam Qlon. Olhos que inspiravam medo. –

É o atual mestre desta espada?

Sim, sou... - Respondeu sem tanta convicção. - Foi passada a mim por meu pai.

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É apenas uma criança... E nada deve saber do fardo que tal lâmina carrega... Tem coragem para empunhá-la ou deverei eu ser sua dona?

“O sangue pulsava ainda mais em minha cabeça. O nariz parara de sangrar, mas o líquido que preenchia minhas veias alojava-se agora em meus músculos, que contraíam freneticamente. Meus dentes rangiam e eu podia sentir um fogo interno ao olhar para o fundo daqueles olhos de felino. Uma vontade de lutar surgia em meu coração, que acelerava seus batimentos. Meus punhos cerravam com tanta força que minhas unhas perfuraram a pele. Seu rosto belo se moldara em um sorriso terno, mas que demonstrava pena de certa forma, e aquilo me enfurecia ainda mais. Eu não sabia que espécie de sentimento era aquele que crescia dentro de mim, mas de certa forma, era incontrolável.” –

Que pose mais ameaçadora, jovem anjo. - Disse a serafim. - O que foi? Por algum acaso deseja tua espada?

Sim, desejo. Devolva-me!

Venha e tire-a de mim, se for corajoso o suficiente.

A anja levantou-se e mostrou seu belíssimo corpo nu, um tanto quanto musculoso. Aos poucos, uma armadura até então invisível foi tomando forma nele. Uma armadura de vidro límpido. Empunhou a Sanctus com sua mão esquerda. A direita pegou uma maça de cabo curto que estava ao seu lado, com uma bola de ferro sem espinhos em seu topo. –

Até onde vai a sua vontade de tê-la? Até onde vai a sua coragem de enfrentar os desafios?

Isso é mais um teste?

Descubra sozinho. O óbvio ainda não foi estampado o suficiente diante da sua face infantil?

Qlon avançou em direção à bela amazona, mirando a mão esquerda em sua espada. Quase a tocou com a ponta de seus dedos, mas ela se esquivara e dera um golpe com a maça em sua barriga desprotegida, fazendo-o cuspir sangue. –

Acha que será fácil assim pegá-la de mim? Tolo. Prove-me seu valor.

E como deveria eu fazer isso?

Essa é uma pergunta que cabe a você mesmo responder.

Sua barriga doía com o impacto, mas soube que ela não usara toda a sua for ça. Novamente, tentou uma investida querendo tocar a ponta do cabo de sua arma, mas novamente ela havia esquivado. Seu instinto de proteger-se falou alto, e colocou a palma de sua mão esquerda próxima a seu rosto. A bola pesada de ferro veio com mais força dessa vez, e seu movimento serviu apenas para reduzir

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um pouco o impacto. Teve sorte: se tivesse recebido o golpe diretamente, por certo teria perdido muitos dentes e desmaiado. “Apenas” voou alguns metros para trás, parando aos pés da mureta de segurança. –

Sua força não se equipara à minha. Desista, jamais obterá a sua arma assim.

Nunca!

Levantou-se ofegante e com a visão um pouco destorcida. Correu em sua direção com a força que queimava em seu corpo, mas dessa vez não almejou a espada: visou um soco no rosto da jovem serafim, e quase conseguiu. Ela esquivou seu corpo com um suave movimento para o lado no último instante e golpeou Qlon com um pesado movimento de sua maça em suas costelas. Qlon gritou e, novamente, o gosto do sangue tomou seu paladar. Enquanto ainda parado no ar, um outro golpe atingiu suas costas e levou-o ao chão em segundos. Protegeu o rosto com um rápido movimento das mãos, tentando amortecer a queda. Ela afastou-se a passos curtos para trás, como se nada tivesse feito. Seu rosto ainda era severo. –

Ainda planeja lutar contra mim? O que quer conquistar, a minha pena?

Eu não vou desistir.

E nem eu irei entregá-la enquanto for tão prepotente. Eu não sentirei pena nenhuma de ti, e se eu precisar matar-te, eu o farei sem hesitar.

Qlon levantou-se cambaleante e repousou sua mão direita sobre as costelas. Devia ter quebrado uma ou duas, mas ainda assim manteve-se de pé. –

Devolva-a... Devolva-a!

O ruivo anjo avançou tentando tomar sua arma mais uma vez, e novamente fora interrompido com a esquiva sagaz da serafim. Antes que o seu golpe de maça o atingisse, que vinha de cima para baixo em uma vertical mirando sua cabeça, Qlon recuou alguns centímetros. A bola de ferro atingiu o chão e provocou uma rachadura. Qlon mantinha-se ofegante e respirava com dificuldade, mas seus músculos ainda queimavam de excitação. –

Um movimento esperto, deveras.

Por que não me ataca? - Perguntava Qlon.

Eu não tenho motivo algum para isso. Você foi o primeiro a agir com ru deza aqui, eu estou apenas me defendendo.

Então também não há motivos para empunhar a minha espada, sendo que nem a usou. Devolva!

Realmente não tenho, mas não pretendo devolver tal lâmina sagrada a

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um covarde. –

Covarde? Eu estou aqui enfrentando uma forte amazona, recebendo golpes e mais golpes enquanto tento tomar de volta o que é meu por direito, e ainda assim me chama de covarde?

Um covarde que faz o primeiro movimento portando consigo agressividade. Essa não é a atitude digna de um cavalheiro, jovem tolo. Não se demonstra verdadeira coragem fazendo algo que qualquer imbecil em sua situação faria.

E o que deveria eu fazer?

Responda isso a si mesmo.

A única resposta que posso achar é batalhar por aquilo que é meu!

Então sua resposta está errada.

Raios dançavam no céu escuro enquanto a tempestade aumentava sua intensidade. Ao mesmo tempo que um baile elétrico estendia-se pelos céus, outro baile começava no topo da torre. As investidas de Qlon eram fracassadas, mas ao menos ele conseguia mover-se rápido o suficiente para evitar alguns golpes da destrutiva arma da anja desconhecida. Rodeava, pulava, socava, esquivava. Perto da amazona, não passava de um iniciante sem perícia em combate. Ela mantinha movimentos curtos e não consumia largos espaços. Esperava seu movimento para então revidar, e seus golpes eram rápidos e certeiros. Por sorte sua arma era pesada, e isso dava mais tempo para que o pequeno herói de cabelos escarlates a evitasse. –

Enquanto continuar com esse pensamento primitivo sobre coragem, jamais poderá conseguir esta espada novamente. - Falou a serafim, iniciando um voo enquanto Qlon mantinha-se mais afastado.

Pretende fugir?

Até que encontre a resposta definitiva para tal teste, não a devolverei.

Não irá escapar de mim!

SILÊNCIO, TOLO!

O grito dela parecia um rugido, e isso paralisou-o em seu lugar. O vento soprava forte e, em meio às nuvens, ela desapareceu em um bater de asas, deixando para trás suas brancas penas. “Eu sentia minha pele queimar de ira. Uma louca frenesia e desejo de batalhar tomavam conta do meu ser. Lancei-me na tempestade atrás dela, voando por entre as nuvens. Sentia o frio e uma certa corrente elétrica percorrer meus dedos, mas não me incomodava. Procurei por todas as direções e, em meio ao pálido

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cenário, perdi-me entre as nuvens. Aos poucos, ira foi tornando-se desespero, e o desespero tornou-se medo. Sem rumo, vaguei de um canto a outro dos céus. Claro que, em meio à confusão, não pude pensar em voar para o solo, para tomar uma referência. Direita e esquerda, ambas somavam-se em meio a fortes ventos que me faziam girar, perdido. Até que o medo tornou-se arrependimento. Eu acho que foi naquele momento que percebi meu erro. Busquei, então, a redenção.” –

Sei que pode ouvir-me! Coragem! Esta é você, não é? Este é seu nome, não é? Por favor, responda ao meu chamado.

Em meio ao rugir de trovões, em meio ao assoviar do vento cortante, gritou. Enchia seus pulmões e suplicava ser ouvido novamente, uma nova chance. –

Ouvi seu chamado. - Veio uma voz de suas costas. - O que quer agora? Planeja atacar-me mais uma vez?

Surgindo do meio de lugar nenhum, lá estava ela. A virtude de armadura de vidro. Ainda carregava a Sanctus em uma de suas mãos. –

Perdoe-me. - Pediu Qlon, com os olhos em lágrimas.

E por que eu deveria fazê-lo?

Pois fui um tolo. Agora entendo a lição que queria passar a mim.

Então diga-me: Qual era a lição?

Sem dúvida, ela ainda mantinha aquele olhar. Um olhar de primazia, de excelência. No final, ela havia vencido o embate. –

A lição é que... A verdadeira coragem, como você mesma disse, não está em querer sempre batalhar para conseguir aquilo que é preciso. Coragem não precisa ser um sinônimo de estupidez. Coragem de verdade é não ter medo de fazer o mais sensato, e agora eu vejo.

Parabéns. Lembre-se agora desta lição para o resto da sua vida: não deve ter medo de fazer o certo, não deve ter medo de fazer o que é pre ciso e, principalmente, não deve ter medo do desconhecido.

Qlon soluçava em seu choro de angústia. Coragem passou a ter um olhar mais delicado sobre o pequeno e jovem anjo. Afinal, a bondade estava mesmo no coração dos seres mais puros além da severidade. –

Deseja agora fazer o certo, Qlon? - Perguntou, afagando seus cabelos.

S-Sim...

Então faça, agora. Nunca é tarde para a redenção.

Estavam em pleno ar, mas não importava. A tempestade começava a se dissi-

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par, e as nuvens abriam para a passagem de mornos raios de sol. Ali mesmo, Qlon dobrou suas pernas, como se estivesse de joelhos. Olhou para os profundos olhos de Coragem e pediu: –

Por favor, devolva a minha espada.

“Um gesto simples, mas que minha estupidez não fora capaz de pensar desde o primeiro momento. Talvez aquela estranha agressividade que tomou conta de meu ser desde o começo tivesse algo relacionado. De qualquer forma, percebi a mensagem que ela passava, não apenas em relação a ser corajoso, mas também algo que boa parte dos anjos já não pregava mais naquela época de guerra: cortesia. Não importa se é amigo ou inimigo, não importa se haverá retribuição. A primeira opção é sempre o diálogo. E foi ali que aprendi definitivamente aquilo.” Coragem depositou vagarosamente o cabo da Sanctus em sua pequena mão. Ele apertou-o, mas a espada sumiu como pó ao vento. Aos poucos, o cenário também começou a desaparecer, como se estivesse tornando-se areia. –

Espere, Coragem! O que está havendo? - Qlon perguntou confuso.

Seus testes ainda não acabaram, Qlon. Mas fico feliz que tenha passado pelo meu. Apesar de ser bem jovem, agora posso ver seu valor e o motivo de ter chegado tão longe. Não desista. Você orgulha a nossa raça.

E com aquelas palavras ecoando em sua mente, Qlon caiu em um profundo e escuro abismo que parecia não ter fim. Não tinha forças para voar, estava cansado... Deixou-se levar pela força do seu próprio peso, que empurrava para baixo. … Acordou deitado em algo macio. Vislumbrava o céu azul, sem nuvens e sem sol. Sentia-se aconchegado. Uma face feminina olhava para ele por trás de uns óculos quadrados. Tinha longos cabelos negros presos por uma fita logo no topo do crânio. Uma franja que tapava sua testa pendia acima dele. Seus olhos negros viam-no com um olhar materno, um tanto quanto meigo. Percebeu então que dormia em seu colo. Um pouco envergonhado, demorou a levantar-se do seu alento. Olhou para ela. Estava apoiada em seus joelhos. Usava o mesmo vestido branco que vira no corpo de todas elas da primeira vez. Naquele sonho, ela não portava asas. Mas carregava ao seu lado direito um grimório que aparentava ser bem antigo e de páginas amareladas. Presa à fita que circundava sua cintura, um pequeno espelho com cabo de madeira. –

Olá, Qlon. - Sua voz era fina e adocicada. Era a mais feminina de todas as virtudes. Falava vagarosamente, não se importava com o tempo.

Olá...

Deve estar perguntando qual das virtudes eu sou, certo? - Escondeu um tímido sorriso. - Eu sou a Prudência. É um prazer conhecê-lo.

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Não, o prazer é todo meu. Por que você, uma grande virtude, sentiria prazer em conhecer um anjo tão comum quanto eu?

Comum? Eu não diria isso.

Aos poucos ela levantou-se e retirou pequenos pedaços de capim da saia de seu vestido. Caminhou em sua direção, olhando antes para os lados. Nada além de uma grama baixa havia em uma vasta planície. Cada passo que dava era lento, e parecia estar constantemente desequilibrada, pois primeiro tentava firmar seu pé ao chão. Quando chegou próxima a ele, segurou suas mãos e as trouxe para perto de sua face, fazendo com que cada uma tocasse um lado de seu rosto. Tinha a pele morna e sedosa. –

Qlon, sabe o que a prudência representa?

Não, desculpe a ignorância.

Ela é chamada de a progenitora de todas as virtudes, e não sem motivos. Todos os atributos por ela passada são vislumbrados em outras virtudes.

Então... Você é a mãe definitiva de todas as virtudes?

Exato. Todas as outras foram criadas a partir de nós, quatro virtudes cardeais, mas para que as outras três fossem criadas, foi necessária a minha orientação. Sou a primeira virtude criada diretamente.

“Indagar a origem das virtudes e como elas somavam para criar novas era muito complexo para a minha jovem cabeça entender. Não era aquele mistério que importava no momento.” –

Então, o seu teste provavelmente será o mais difícil, certo?

Teste? - Novamente, escondeu o sorriso com as costas de sua mão. Qlon, eu não preciso testá-lo. Ao menos não de uma forma difícil, que envolva longas reflexões filosóficas.

Não? E... Por que não?

Oras... Se está aqui é uma prova que assimila todas as qualidades que represento, que já é prudente o suficiente. Não siga o meu exemplo, pois minha prudência é demasiada, como pode perceber.

E por que tanta prudência?

Qlon, eu sou a representante de minha virtude. A personificação dela. Então é óbvio que assim como cada virtude que conheceu até agora, representarei ela da melhor forma possível. E também por conta de um trauma, mas isso não vem ao caso...

Ela soltou suas mãos e pegou o espelho que portava. Olhou seu rosto no es-

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pelho de todos os ângulos possíveis. Ao término do ritual que durou mais de um minuto em um profundo silêncio, ela voltou a guardar seu objeto do lugar de onde retirara. Agachou-se vagarosamente, pegou seu grimório e pôs-se de pé. –

Estou confuso, Prudência. - A cabeça de Qlon girava em dúvidas.

Oh, coitadinho. E o que causa tamanha confusão? Venha, – Falou, tomando novamente suas mãos. - conte-me enquanto caminhamos pelo infinito desta paisagem que seu sonho trouxe.

Eles passaram a caminhar de mãos dadas. Prudência ditava o seu ritmo e Qlon a acompanhava com passos de uma vagarosidade tremenda. –

Primeiro, disse que não precisa testar-me de uma maneira difícil. Eu não entendo... Por que não?

Qlon, deixe-me explicar algo... Nós, as virtudes personificadas, precisamos representar o mais fielmente possível o nosso nome, e por isso exageramos. Qlon, não é necessário que você tenha todos os nossos atributos, mas que entenda e pratique bem todos eles. Se quer um exemplo... Não acha que a prudência em exagero vira falta de coragem? Não acha que a justiça em si é relativa e que nunca poderá ser justo o suficiente com todos para atender seus desejos? E coragem? Será que nunca temer a nada não o faria perder humildade, ou mesmo prudência?

As palavras dela estavam certas, e Qlon teve um pequeno tempo perdido em seus pensamentos absorvendo aquela informação. –

Não estamos aqui buscando a sua imácula em todos os atributos, mas queremos sentir a presença de todos eles dentro de seu coração e de sua mente. Queremos que nossa lição seja compreendida e que haja um equilíbrio entre as suas ações, tendendo sempre ao bem.

Acho que entendo...

Mas é claro que entende. - Disse Prudência, sorrindo. - É um anjo muito esperto. E prova disso é sua presença aqui. Você é precoce demais. Qlon, isso trará problemas ao seu futuro... Mais alguma dúvida?

Mais duas. Quais são as qualidades que disse que demonstro?

Qlon... A prudência, como virtude, engloba alguns princípios e qualidades: Uma boa memória para saber dos perigos que já enfrentou e como evitá-los, a docilidade de uma mente aberta à novas experiências e o livrar do medo contínuo, reflexos para tomar uma escolha rapidamente, razão para fazer as escolhas certas, previdência para poder prever o que está por vir, circunspecção para ver a situação de todos os ângulos possíveis e cuidado para evitar o perigo.

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Posso ver agora como as outras derivam dela...

Então, acho que também pode ver o seu exagero. Qlon, há algo que precisa saber quanto a ser prudente: não importa o quanto seja capaz de previr e evitar os perigos e os atos errôneos. Uma hora será atingido por eles. Tanto é que a ideia de perfeição cabe apenas aos deuses. Nós, anjos, mesmo os que vivem aqui, não somos e nunca seremos perfeitos. Temos uma mente tão mortal quanto a de um humano. Por mais que alguns de nós se aproximem da perfeição, a sua totalidade é impossível, entende?

Sim. Acho que sim.

Houve apenas um anjo que aproximou-se da perfeição absoluta, mas essa é uma longa história e acho que a descobrirá uma hora ou outra com o livro que carrega em sua bolsa.

Aquele livro... Toda vez que o mencionavam, sentia-se na urgência de lê-lo. Era como se ele fosse um extremo ignorante: enquanto outros anjos falavam de inúmeras lendas que cercavam suas vidas, ele nada entendia. Aliás, será que aquilo era falado pelos anjos que viviam em Seal? Pelo pouco que vivera, não sabia. Mas tal sede de conhecimento não saciaria agora... –

Há mais uma dúvida, Prudência.

E qual seria, jovem amigo?

Como surgiu seu trauma?

Prudência passou a ter uma expressão séria tomando conta de seu rosto. Parou de andar e apertou a mão de Qlon, como se revivesse aquilo em um curto sonho. Qlon jurou poder ver lágrimas brotarem de seus belos olhos, antes cintilantes de contentamento. Percebeu que tocou em um assunto que não deveria. –

Desculpe-me.

Não tem problema, é uma dúvida pertinente, eu concordo. Mas ao mesmo tempo, não posso revelar este meu segredo.

Na linha do horizonte, um enorme penhasco surgira. Nuvens e mais nuvens podiam ser vistas, mas não o que estava em baixo delas. Então ele percebeu que sonhara com uma das planícies de Seal o tempo todo. Sempre quis vê-las em um verão sem guerras, mas tais desejos nunca se concretizavam. Então também percebeu o afeto materno que aquela estranha virtude tivera por ele. Era como se fosse sua mãe. –

Seu teste acabou. - Disse Prudência com um sorriso meigo. - O importante é que tenha aprendido a lição que quis passar. Agora vá, pule. Sei que, ao ver o infinito do céu, esse desejo é inevitável...

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Cap. 27 – O Quarto Teste

V

ontade tinha de ficar ali. De todos os testes e lugares que tinha estado desde que deixara Seal, aquele era o mais acolhedor e terno. Aproximou-se da beira do penhasco e olhou para baixo. Apenas nuvens brancas podiam ser vistas. Mas eram muitas e o que estava além delas não podia ser visualizado. Voltou a olhar para trás, por cima de seu ombro direito. Prudência olhava para ele da mesma forma, apenas secara as lágrimas que escorriam por sua face. Aquele olhar carregado de apreço, carinho. –

Boa sorte, Qlon. E tenha cuidado. - Foram suas palavras.

As últimas que ele ouvira vinda de sua parte. Era como se aquelas nuvens o chamassem para que fossem visitadas por seu pequeno corpo. Deixou-se cair. O vento soprava contra ele enquanto despencava. Podia sentir o ar cortar sua pele. Quase não podia abrir os olhos tamanha a velocidade de sua queda. Podia voar, mas não queria. Estava gostando de ser conduzido pelos braços gelados do vento, que fazia seus cabelos esvoaçarem para trás. E, assim como das outras vezes, seus pensamentos vaguearam e foram sumindo aos poucos, em uma torrente de um prazer inimaginável. … –

Bem-vindo, Qlon, ao seu último e derradeiro teste.

Sua cabeça pesava. Sentia o frio de um chão de pedras, úmido. Estava deitado quase que em posição fetal. Seu outro sonho acabara. Estava agora em um lugar escuro, frio. Apenas luz de tochas presas às paredes esculpidas em pedra iluminavam o estreito corredor. –

Levante-se, garoto. Pegue uma das tochas para iluminar seu caminho. E ande, seu tempo é curto, não vai querer jogá-lo fora descansando.

Qlon levantou-se devagar. Sua mente girava, tudo ali era vago. Pegou o archote da sua esquerda e olhou ao seu redor. A luz que emanava dele iluminava apenas três metros ao seu redor do curto corredor que se estendia em duas direções. O resto era engolido por trevas, como se a luz não ultrapassasse mais aquele ponto no escuro.

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Onde estou? Qual será meu teste agora?

Qlon acostumou-se àquilo. Aos enigmas, aos desafios. De uma certa forma, gostava. Significava que, aos poucos, avançava. Seus limites não mais o seguravam. Podia não ser o “ás” da espada, nem conhecer muitas técnicas de combate além de vagas ideias que retirara de livros, mas estava ficando forte. Mentalmente, por conta dos desafios que conseguira decifrar e de tudo que aprendera, e fisicamente, por resistir a torturas inimagináveis e suportar o enorme peso da gravidade do reino dos céus. –

Seu teste – A voz falava claramente em um tom que lembrava o dançar de folhas numa árvore em uma ventania. - será sair de onde se encontra.

E onde me encontro?

Descobrirá no final de seu teste, caso consiga passar. Mas, apenas para situá-lo, é um labirinto.

Tinha ouvido falar de labirintos apenas em lendas que lera. Diziam que era o maior dos enigmas que existia para a mente humana, pois era preciso um grande controle mental para dele sair. Os seus túneis infinitos e sinuosos, seus milhares e milhares de caminhos sem saída... Para a mente de qualquer mortal, era desesperador. Poder nunca mais sair dali, perder-se para sempre. E como decifrar qual caminho já foi percorrido? Como saber qual era o certo, se estava indo pelo lugar correto? –

Não há dicas? Enigmas? Qualquer coisa que me leve para fora?

Se eu desse uma dica, ficaria fácil demais. Descubra por si só, afinal de contas, é um teste. Não ache que facilitarei para você só porque ainda é uma criança, Qlon.

Pode ao menos me dizer seu nome? - Se cada virtude carregava o nome da qualidade que queriam buscar em seu coração, então saber quem o desafiava poderia deixar tudo mais fácil.

Não vejo motivos para escondê-lo... Eu sou a Índole. E a partir de agora, ficarei calada, apenas observando. Boa sorte.

Índole... Índole... Já havia ouvido tal palavra em algum lugar. Já tinha lido sobre ela em algum canto qualquer de um livro, mesmo que fosse em uma nota de rodapé... Mas não conseguia recordar ao certo o que significava. Mas não importava tanto. Qual direção seguir agora? Para frente ou para trás? Com a tocha em mãos, olhou para os caminhos que o aguardavam. Ambos imprecisos, invisíveis. Tirou na sorte. Fechou os olhos e rodou em seu eixo até ficar tonto. Encostou-se na parede e abriu os olhos. Qualquer que fosse aquela direção, era ela que Qlon iria seguir. Apoiando-se no muro, ainda zonzo, prosseguiu pelo túnel escuro, com a tocha em mãos.

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… O archote, aos poucos, revelava um caminho sinuoso e cheio de outros corredores mais estreitos. Ainda havia o corredor principal, mas ele chegava ao fim em uma trifurcação. Pensou em usar o mesmo método que da última vez para escolher por onde seguiria dali para frente. Mas parou e refletiu... Devia haver um meio. O ar era gélido e ele expirava fumaça pelas suas narinas. Mas não sentia frio: apenas uma súbita solidão. Na trifurcação, seguiu pelo caminho do meio. Ao menos assim sabia que seria mais difícil perder-se. … O caminho parou no final de um extenso, quase infindável corredor. Fazia muito tempo que não via qualquer outro caminho alternativo, talvez desde a sua entrada. Estava parado ali, em meio às trevas eternas, em frente a uma parede que parecia ser tão antiga quanto a de um templo primitivo. A neve tomava conta do cenário, mas apesar da baixa temperatura, o corpo de Qlon nada podia sentir. Parecia estar entrando em transe. Estava tonto. Apoiou-se na parede e tentou fechar os olhos para conter aquela sensação desgostosa. Quando abriu novamente, a parede parecia engoli-lo. … –

Meu filho... Meu filho...

Tera chorava. Qlon podia ver. Era o rosto de sua mãe chorando sobre ele. Sen tia-se impotente. Gostaria de ajudá-la, mas não tinha forças. Seu corpo não mais respondia. Tudo que fazia era balbuciar qualquer coisa inaudível e mover-se de uma forma sem sentido. –

Serão tempos difíceis. Seu pai... Ele deixou a nós. É por uma causa maior, eu sei, mas ele mal acabou de sair e já sinto tanto sua falta!

Gotas caíam sob seu peito nu. Estendeu a mão para cima, tentando tocar o rosto de sua mãe. Ela notou o movimento, e colocou a mão perto de Qlon. Ele agarrou um de seus dedos e apertou. Sua mão... Era tão pequena... Mas podia sentir o sentimento de sua mãe pelo calor daquele simples dedo que apertava com o pouco de forças que tinha. Aquele toque... Jamais poderia esquecer dele. Talvez tenha sido naquele dia, naquele instante, que tenha prometido tomar conta de sua mãe como o guerreiro que o deu origem. Queria proteger aquela pessoa que, debruçada sobre seu berço, sorria em meio a lágrimas para dá-lo um pouco de afeto. Estava frio. … Acordou. Estava na mesma posição que antes parara, reclinado à parede. Ainda estava lá, aquele final de túnel côncavo, como que escavado por mãos. A neve ainda cobria o chão e o ar que exalava ainda saia em forma de névoa. Mas a sensação estranha havia sumido. A saída ainda não estava ali. Deu as costas

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para o final do túnel e, com o archote iluminando seus passos vagarosos, prosse guiu de onde viera, olhando de relance para onde acabara de vir. … Voltou para o corredor principal. Ainda haviam ali duas bifurcações e vários outros corredores. Mas sabia que aqueles três principais corredores escondiam algo. Não era apenas mera coincidência. Esquerda ou direita? Assim como um livro que gostava de ler, escolheu começar pela esquerda. As páginas fluem da esquerda para a direita, as letras fluem da esquerda para a direita... Então talvez aquilo que devesse descobrir seguia mesma ordem a partir de agora. Nem ele mesmo entendeu muito bem sua lógica, mas, de qualquer forma, foi por aquele corredor da esquerda que seguiu. … Era pouco mais aquecido. Podia sentir um odor de flores... Mas de onde vinham? Ao invés de neve, uma grama brotava entre as falhas das pedras agrupadas ao longo do caminho. E, após andar por algum tempo, viu o final do corredor. O mesmo sentimento de um torpor indecifrável tomou conta de seu cérebro e, antes que pudesse vir, a parede já o havia engolido novamente. … –

Mãe, mãe! Olha, olha quantas flores!

O jardim suspenso do castelo dos Eros. Quanta nostalgia! Não ocorrera a tanto tempo. Era a manhã do seu aniversário de três anos. Mesmo que no início de outono, a primavera ainda deixara suas belas e cheirosas flores. Usava uma bela túnica azul de cetim, e sapatilhas pretas estavam bem presas aos seus pés. No topo de sua cabeça, um pequeno gorro cobria e prendia seus cabelos sedosos. Ainda não eram tão longos quanto viriam a ser, mas já chegavam a tocar seus ombros. Corria de um lado para o outro e seus olhos vislumbravam os canteiros de flores, com variedades de todos os cantos do mundo, onde abelhas retiravam o seu pólen e borboletas voavam, vivazes, por entre as pétalas. Sua mãe estava sentada com suas avós em cadeiras brancas de recostos adornados, ao redor de uma mesa enquanto bebericavam chá. Elas riam alegremente, e quando sua voz tocou os ouvidos de Tera, ela sorriu e acenou alegre mente para ele. Ele não deu muita atenção na hora, estava mais preocupado em correr alegremente pelo caminho de paralelepípedos cinzentos e tocos de madeira que delimitavam a área de plantio. Mas, naquele dia, lembrava-se ele, algo aconteceu. Não podia lembrar do que, mas estava prestes a descobrir. Tentou arrancar uma flor, mas seu caule tinha espinhos e, sem querer, acabou furando seu dedo. Não doía, mas o sangue de um vermelho vivaz que escorria por seu dedo médio mostrava o local da perfuração. Seus olhos lacrimejaram, mas não queria chorar por uma besteira qualquer.

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Era apenas um furo, que mal faria? Para alguém que queria tornar-se um guerreiro forte como seu pai que nunca conhecera e deixara sua mãe, aquilo era relevante. Talvez... Sim, naquela época ele ainda o odiava pelo que havia feito. Sua mãe havia dito que fazia parte de sua profissão, mas ele poderia ter recusado. Por que não o fizera? Se ele soubesse quantas noites Tera, sozinha em seu quarto, chorou por ele até desmaiar de sono. Isso quando dormia, pois alguns dias ela ia acordá-lo em sua cama com os olhos vermelhos e olheiras profundas, mas ainda com um sorriso na cara. Um sorriso que escondia uma profunda tristeza, na verdade. Mesmo que não quisesse chorar, tinha de fazer algo para estancar o sangramento. Decidiu ir até sua mãe, perguntar por uma bandagem qualquer. Foi quando virou-se para ela que viu um soldado ajoelhado sobre a perna esquerda aos seus pés. Em sua mão direita carregava uma carta de envelope branco. Assim que Tera pegou-o, uma de suas empregadas conduziu-o até a saída. Qlon aproximou-se devagar, sem que notassem sua insignificante presença. Chegou a ficar ao lado de Tera, perto do vestido amarelo, cor-de-creme, que usava e das sandálias com tira de bambu que fitavam seus pequenos pés. Usava algumas joias discretas, como duas pulseiras douradas, uma em cada braço, e um pequeno cordão de rubis. As mãos dela tremiam ao segurar o embrulho pequeno. Havia um selo feito com cera, mas não podia ver direito o brasão. Yuna estava ao seu lado e pedia para acalmar-se. Foi ela que notara a presença de seu neto ali e alertara a sua nora. Tera olhou para os olhos repletos de dúvidas de Qlon, com o dedo ensan guentado na boca e a flor em outra. Ela colocou o envelope em sua pequena bolsa e fechou-a. Secou as lágrimas que brotavam dos olhos e abraçou-o, em uma tentativa de acalmar seu coração disparado, que seu filho com certeza sentia. Mas não conseguia esconder sua aflição. –

O que foi, mamãe? Aconteceu alguma coisa?

Não meu filho, foi nada... - Dizia com a voz variante.

Mentirosa! Eu sei que é mentira! O que houve, mamãe? Como eu posso ajudar? - Inquietou-se Qlon.

Pode ajudar aproveitando seu aniversário, meu bem. Hoje é o seu dia, e eu não irei preocupá-lo com assuntos triviais... O que houve com sua mão? - Disse pegando a mão de Qlon e olhando o furo em seu dedo.

Furei ele num espinho.

Está doendo, meu príncipe? - Falou a protetora Tera, com a voz preocupada.

Não, mãe. Estou bem. Só quero bandagens para fazer um curativo.

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Yuna olhava para ele e sorria. Disse, pegando-o no colo: –

Tão independente quanto seu pai. Um dia ainda será um grande guerreiro! Vai proteger sua mãe também, Qlon?

Claro! Vou proteger a mamãe para todo o sempre!

Todas as mulheres riram em coro. Quanta ternura... … A parede o cuspira para o lugar de onde viera, o labirinto. Memórias que pare ciam tão antigas, mesmo para sua idade, reprimidas em sua mente. Por que estavam voltando à tona apenas agora? Não sabia, mas se aquilo era uma história, tinha de saber o final. Voltou pelo túnel correndo com o archote em mãos. O fogo tremia acima de sua cabeça, ainda iluminando um corredor que, tinha certeza, nunca mais voltaria a ver. … Já corria pelo último corredor, o direito. Não havia frio ou calor, não havia odo res. Apenas um longo, longo corredor, com curvas tao bruscas que pareciam estar dizendo: 'Não venha! Estamos escondendo um segredo!'. Apesar do longo caminho, não desistiu. A lembrança do primeiro corredor com certeza não podia ser lembrada naturalmente. Não se lembrava de absolutamente nada de antes dos seus dois anos. Mas esquecer aquilo que ocorreu em seu aniversário... Logo naquela data... Não poderia ter esquecido. Talvez algum trauma a tenha selado lá, assim como aquele pedaço de sua curta vida que buscava indo pelo último corredor da trifurcação de histórias. Por fim, após quase dar de cara diversas vezes nas paredes com curvas de mais de noventa graus, chegou ao final do corredor. Esperou sentir aquela sensação de tontura novamente, mas ao invés disso, nada aconteceu. Ele queria saber o final. Queria saber como acabava aquela história, se é que havia alguma ligação entre elas. No desespero, urrou como um urso. O grito ecoou nas paredes da caverna, e o eco produzido fora como o som de um trovão rasgando os céus. Seus ouvidos doeram. Tapou-os com as mãos e foi ao chão, fechando os olhos. … Tinha um temporal lá fora. Podia ver os raios que cruzavam o céu negro pela janela da sala, enquanto andava pela penumbra da madrugada sem uma vela. Sabia o que buscava e onde buscava. Estava no armário, em uma caixa de madeira que sua mãe achava que escondia em seu topo. Era pequeno demais para alcançar, mas sua curiosidade era maior que aqueles dois metros do chão até seu alvo. Fora ali que vira sua mãe guardar as cartas. Mas que cartas seriam aquelas? Via ela receber mês após mês desde seus três anos. Já havia passado mais um ano. Era o início da primavera, as tempestades marcavam bem essa fase do ano. Já havia recebido muitas cartas, e aos poucos seu humor começava

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a melhorar. Não tinha mais sorrisos falsos em sua face. Havia apenas a natureza de sua felicidade, coisa que em todo seu tempo com ela nunca havia conseguido dá-la. Não de uma maneira plena. O que continham tais cartas? Precisava descobrir. Aos poucos, subiu pelas portas e gavetas até alcançar a parte do armário onde estavam as taças e copos de vidro. Acabou esbarrando em um, que caiu. O som do trovão ajudou a abafar o quebrar do recipiente. Será que sua mãe havia escutado? Não importava. Caso ela achasse o que ele estava fazendo, pegaria a caixa e trancaria-se em seu quarto. Não ficaria feliz até ter terminado de ler tudo aquilo. Talvez tenha aprendido a ler tão cedo justamente para ler tais cartas que o intrigavam. Esticou o braço. Estava quase alcançando... –

Qlon, desça já daí! - A voz de sua mãe vinha das escadas. Ela estava de camisola e segurava uma vela em um suporte, iluminando a sala com sua baixa claridade.

O susto foi tamanho que ele caiu para trás no tapete, puxando a flanela onde estava a bandeja com as taças, fazendo todas se quebrarem no chão. Tera correu até ele para acudilo. Ele começava a lacrimejar, como quem fosse iniciar um choro, mas fazia força para não demonstrar fraqueza. –

Qlon... Oh, céus... O que foi isso? O que você quis fazer?

Eu... - Falou o pequeno anjo, soluçando. - Eu queria ver... O que tinham naquelas... Naquelas cartas.

Ele levantou-se aos poucos e recebeu um olhar severo de sua mãe. –

E por que não me perguntou?

Eu perguntei! Mas você insistia em não me mostrar. - Com as costas de suas mãos, limpava os olhos.

Oh, filho... Mil desculpas... Elas são cartas de seu pai.

De meu papai?

Sim, e têm coisas nelas que apenas eu posso ler. Na primeira carta que recebi, no seu aniversário de três anos, ele disse que apenas eu poderia lê-las. Não queria que mostrasse para mais ninguém, muito menos a você.

Mas por que, mamãe?

Se soubesse onde ele está e o que anda fazendo, procuraria por ele. Certas coisas ainda não pode saber. Ora filho, pelo seu comportamento de querer ser um herói a todo custo, eu acabo concordando com essa decisão que ele tomou.

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Os dois caíram em um silêncio constrangedor enquanto o barulho das gotas de chuva do lado de fora e os trovões que davam o ar de sua graça algumas vezes compunham todo o som do ambiente. –

Prometa-me uma coisa, Qlon. - Pediu sua mãe, cortando o silêncio.

O que, mamãe?

Prometa-me que jamais tentará ler qualquer uma das cartas que estão naquela caixa. A localização de seu pai é um segredo que apenas eu sei, e gostaria de manter esse segredo mesmo de você, como foi pedido.

Mas, mamãe... Ele é meu papai! Eu tenho o direito de saber onde ele está! E além do mais, aquelas cartas te fazem tão feliz... Tenho um pou co de ciúmes! Nunca antes eu havia dado a você um sorriso tão alegre...

Tera sentiu vergonha. Sentia também um remorso, tão estranho quanto o embrulhar de seu estômago. Seu filho estava apenas preocupado com sua felicidade, todo esse tempo. –

Se você prometer, meu filho, que não tocará naquela caixa sem minha permissão, eu prometo que, um dia, quando chegar a hora, verá seu pai novamente.

E como você pode prometer isso? Eu não sei nem se ele pode estar vivo uma hora dessas...

Engoliu em seco. Seu filho estava certo. Aliás, os sentimentos de seu eram tão puros que ela passara a considerar-se uma péssima mãe. Tivera tudo que pôde naqueles últimos anos que cuidara dele quase que sozinha, tudo aquilo pareceu ser apagado naquelas doces e inocentes frases de criança que estava mais certa do que ela.

filho feito mas uma

Filho... Desculpe por ser uma mãe ruim...

Você não é uma mãe ruim, mãe! Pelo contrário, eu amo muito você, e só quero que fique bem! Mas ao mesmo tempo... Eu quero saber do papai.

O ódio que Qlon tinha de seu pai estava, mais do que nunca, presente naquela conversa. Tirara o sorriso de sua mãe antes, mas quando o devolvera, não havia importado-se sequer com ele? Será que ele não sabia que todo filho abandonado procura por seus pais? Será mesmo que Ronan Warrior, o general prodígio e um dos heróis de Seal por ter derrotado Abigor em uma batalha épica, tinha saído por estar tão descontente com sua vida? Ele queria respostas, respostas que nunca tivera de sua mãe, não obstante o quanto perguntasse. Tudo o que ela dizia é que “era preciso”, “era seu serviço”. Ele podia ter negado, podia ter ficado com sua família. Ele era alguém de alta patente! Era tudo muito confuso... –

Mamãe... Desculpe, eu prometo nunca tocar naquela caixa sem que você

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me permita. –

Obrigada, meu filho. E posso dizer algo... Têm muitas coisas sobre sua vida que não tem respostas ainda, mas um dia terão. Até lá, seja curioso, mas cuidado: nem todas as respostas que procura são boas. Entenda que, se escondo algo de ti, filho amado, é que não quero que sofra. Bem... Vá dormir agora. Machucou-se?

Não, mamãe... Estou bem. E obrigado.

Pelo quê?

Por não ter dado uma bronca.

Oh, meu filho... Está tudo bem. Você é uma criança muito boa. Não merecia todo esse sofrimento com dúvidas pulsando dentro de sua mente, mas com certeza não merece o sofrimento de uma mãe irada dando sermões. Nem um castigo físico. Dizem os ensinamentos do povo que, quando a criança sai muito da linha, educá-la usando a força é necessário para que não se desvirtue. Mas você... Você é o exemplo que nunca precisarei levantar o tom de voz ou a minha mão para educá-lo.

Qlon sorriu enquanto sua mãe acariciava seus cabelos com as unhas. Mas estava cansado. Quase dormia de pé. Bocejou enquanto sua mãe o levava para a cama, subindo as escadas. Quando ela o deitou em seu colchão e cobriu-o com lençóis, disse para ele, que já estava quase dormindo: –

Qlon... Não tenha seu pai como um vilão... Ele ama tanto a você que se esconde de você para que não sinta tristeza. Entenda isso... Você deveria ter como seu exemplo, como seu herói. Boa noite meu filho. Que o brilho das estrelas e da lua o iluminem.

Talvez fosse ali... Justamente ali, que Qlon tenha passado a admirar o seu pai. O grande guerreiro que dava seu sangue e sua felicidade para proteger àqueles que amava. Aquele era seu progenitor, de quem passara a sentir orgulho. Queria ser como ele, ou até mesmo superá-lo um dia. Mas aquilo era demais para se pensar no meio do sono. O que havia acontecido naquela noite mesmo? Nem mesmo se lembrava. A caixa sumira no dia seguinte. E Qlon passou a viver sua vida para chegar ao nível de seu pai. Algum dia... … Qlon chorava, ajoelhado e com as mãos nos ouvidos. Lembrou de tudo. De como passou a admirar aquele que era, naquele instante, seu ídolo. Lembrou de como ele o ignorara para poder deixá-lo viver sua vida, feliz. Não entendia por que não se lembrava antes, mas com certeza não iria mais esquecer. Levantouse e não teve mais dúvidas que, agora, poderia seguir em frente.

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Cap. 28 – Conflito Mental

I

r em direção ao futuro nunca pareceu tão penoso. Mas algo em seu interior o consolava. As memórias que voltara a ter podiam ser, de certa forma, tristes, mas ele sentia que aquilo o fortalecia. Durante a longa caminhada para voltar ao lugar de onde viera, aquele extenso corredor cheio de outros caminhos ramificados e sem saída, sentia sua vida passando por ele. Chegou a vislumbrar um corredor feito de pedras negras, mas imaginava do que se tratava. Não queria reviver tal cena... Aliás, o caminho era realmente grande. Pelo fim do que mais pareceu uma jornada, deparou-se com a parede. Uma bela parede, feita de tijolos ainda novos e avermelhados, com rodapés de madeira escura. Um quadro na parede mostrava a última daquela que fora suas visões antes de ser testado pelas virtudes cardeais. A cena delas, ao seu redor, e sua visão ficando confusa, distorcida, aos poucos. Como se visse por um globo. –

Parabéns, Qlon. Está quase no final de seu último teste.

Índole? É você?

Sim, sou. - Respondeu a voz que vinha do além. - Gostaria de parabenizá-lo por estar quase acabando suas tarefas. É uma criança muito forte, e, caso consiga acabar esta última etapa de seu teste, poderá ter um futuro realmente brilhante.

Mas eu ainda não saí de seu labirinto...

Exato. E esta será a última e mais desafiadora parte.

Por quê? Este labirinto não possui uma saída?

Sim, possui. Contarei onde está agora, que já pude ver seu passado e descobrir de onde vieram as qualidades que têm hoje. Apenas empurre a pintura para trás e um portal se abrirá, sugando-o para dentro.

Mas o objetivo não era que eu descobrisse a saída? Se já está contandome, então quer dizer que...

Não confunda seus objetivos. Eu disse que sua missão era sair daqui, descobrir onde está a saída faz apenas parte do processo. E, como eu

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disse, o ato de sair daqui que será complicado. –

O que eu devo fazer agora?

Tenha fé e confie em si mesmo, Qlon. Não posso dar uma dica mais valiosa do que esta. Se conseguir passar por esta etapa final, será considerado digno pelas quatro virtudes cardeais. E, se conseguir este título, significa que qualquer virtude deverá reconhecer o seu valor.

E caso eu falhar?

Caso isso venha a acontecer, estará morto dentro de sua própria mente. Nunca mais poderá sair daqui, e seu corpo físico apodrecerá do lado de fora.

Estou com medo, apesar de ter aprendido a ser corajoso.

Todos temem a morte, e talvez por isso se agarrem tanto à vida. Faça o mesmo, Qlon. Agora o deixarei sozinho novamente. Pegue sua espada e faça o que tiver de fazer.

Mas minha espada não está comigo.

Você está na sua mente, Qlon. Acredite, o seu poder aqui é ilimitado.

Então, se eu quiser, como em um sonho, ela irá aparecer?

Não apenas isso. Aqui dentro, Qlon, você é seu próprio Deus. Bem, acho que dei mais dicas do que deveria. Faça agora o que tiver de fazer, e lembre-se das lições que hoje ensinamos.

Eu vou. Obrigado, Índole.

Com os ecos da voz sumindo ao fundo, Qlon empurrou a parede. Assim como nos outros túneis que visitara antes, a parede veio até ele e engoliu-o, levando o pequeno anjo para seu interior. … –

Está escuro aqui.

Aquele pensamento apenas atravessou sua mente, mas podia ouvir seu eco ressoar pelo ambiente que estava. Estava escuro demais para poder enxergar cerca de um palmo à sua frente. Seu archote se fora, e não sentia mais o peso do tecido que estava em seu corpo. Aos poucos, uma luz roxa, quase que espectral, tomava conta do lugar. Nuvens de fumaça negra cobriam algo que parecia ser o céu, e entre elas a luz púrpura tomava brilho. Por entre as nuvens, raios passavam ligeiramente de um lado para outro. Via seu corpo nu. Via um chão de vidro, com uma escuridão forte do outro lado. Um escuro tão profundo e vazio que parecia sugar até mesmo a pouca luz que vinha do ambiente superior. Dava

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náuseas olhar para lá, então parou. Olhou para frente. Alguém estava sentado, também nu, de costas para ele. Seu rosto estava entre os joelhos, e um longo cabelo rubro da mesma cor de um rubi, descia até metade de suas costas. Não tinha asa alguma. Cantarolava algo. Uma música que Qlon conhecia, não sabia como.

“Que as estrelas do céu E o brilho do mar Guiem-me pelos sonhos E não me deixem voltar Que as nuvens distantes E o vento a rugir Apaguem meus pensamentos E me façam dormir...” Aquela canção... Sim, sua mãe cantava para ele quando ainda era menor, até que pegasse no sono. Não era a tanto tempo atrás, deveria haver nem mesmo um ano quando a ouviu pela última vez. Mas a voz daquele garoto... De certa forma era familiar... –

Ei, com licença... - Chamou Qlon.

O garoto não se moveu. Apenas continuou naquela posição, movendo apenas os lábios, nem sequer piscava seus olhos nevoados. –

Com licença, garoto... - Insistiu.

Sem resposta. –

Por favor, poderia... - E tocou em seu ombro.

Talvez tenha feito o movimento errado, pois o pequeno garoto parou de cantarolar e o olhou com os olhos rubros flamejando de cólera. –

Você... Me despertou. - Disse ele, com uma voz que soava familiar.

Desculpe, eu...

Despertou-me por sua própria vontade. Você não sabe o erro que acabou de cometer, criança estúpida.

Qlon afastou-se alguns metros e surpreendeu-se. Era como se visse a ele mesmo no espelho, sem as seis grandes asas que portava. Todos os detalhes fa-

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ciais, o cabelo, os olhos, a boca, o nariz, formato do queixo... Tudo, absolutamen te tudo era igual. –

Quem... Quem é você? - Perguntou Qlon.

Eu sou você.

Mas como pode se eu estou aqui?

Eu sou toda a sua ira, sua raiva, sua fúria. Sou todos os seus medos. Guardo as mágoas de todos os seus arrependimentos. Sou todos os seus desejos ruins acumulados durante essa sua vida. Eu sou aquele que você evita dia após dia ao tomar uma decisão. Eu sou o outro você.

Você é apenas uma encarnação de meus desejos ruins?

Exato. E acredite, não sabe como tenho ficado forte recentemente... E mal sabe como desejo dominar o seu corpo... Será que se eu te matar aqui e agora, seu corpo será meu?

Qlon sentia-se acuado, mas tentava manter a calma. Percebia a fúria no olhar de seu adversário. Tentou escolher bem as palavras que usaria, tentando não demonstrar nenhuma fraqueza: –

Então venha. Não vou deixar meus medos vencerem.

“Isso foi um tanto quanto clichê, admito. Como se aquela frase tivesse vindo de um livro de histórias que eu tivesse lido, mas simplesmente saiu por entre meus lábios. Mas o que mais eu poderia dizer? Iria eu deixar meus medos dominarem meu corpo sem nada fazer para pará-los? E também, pareceu uma ótima forma para eliminar todos eles de vez.” Qlon desejou a Sanctus com a força de seus pensamentos. A espada de seu pai, aquela que carregava o poder absoluto. Precisava dela ali e naquele instante, para vencer o seu mais temido inimigo até então: ele mesmo. Por fim ele pôde perceber qual era o motivo das virtudes estarem o testando. Se ele não pudesse vencer a si mesmo em todos os testes, superar as suas próprias expectativas, então com certeza ele não seria digno de ir adiante. E aquela era a parte final: enfrentar o lado mais obscuro da sua mente, aquele que mais evitava. E a Sanctus materializou-se na sua frente, como se sua arma obedecesse ao seu comando. Tomou seu cabo em mãos e apontou a lâmina azulada, que irradiava um brilho mais forte que o comum. Não tinha mais medo. –

Deseja mesmo enfrentar-me? Nada irá conseguir!

O garoto que antes era sua cópia se transformou num dragão negro feito de fu maça, talvez a mesma que estava em baixo dos seus pés em um chão de vidro. Aos poucos, a antes enevoada forma transformou-se em um dragão de verdade. Escamas longas, pontiagudas. Quatro grandes e patas com enormes garras.

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Duas asas colossais em suas costas onde espinhos se espalhavam por sua coluna. Dentes tão afiados quanto pontas de lança e uma longa cauda. Ainda assim, não era mais atemorizante que Juggernaut, seu antigo carrasco. –

Que a batalha comece! - Disse o dragão junto a um rugido forte o suficiente para trincar o chão de vidro.

“Se aquele dragão era feito apenas de parte da fumaça, se tal vidro quebrasse a infinita neblina negra emergisse, eu não tinha ideia da força que ele teria. Precisava terminar aquela luta antes que o chão rompesse com os estridentes rugidos do dragão.” O primeiro a começar os ataques foi Qlon. Segurando fortemente sua espada, partiu para cima do monstro feroz, visando seu peito. Em um pulo sagaz cheio de energia, conseguiu ser mais rápido que o comum. Um golpe tentando cravar a espada aonde achava estar o coração do poderoso lagarto, querendo acabar de vez com aquilo. Naquele movimento, duas coisas surpreenderam-no. O efeito da gravidade alterou sua força muscular e resistência. Podia, em um ambiente de gravidade menor, saltar mais alto, correr mais rápido... Sua força muscular deveria ter aumentado na mesma proporção que a quantidade de atmosferas sobre sua cabeça aumentava. A outra coisa que o surpreendeu foi que seu golpe, apesar de ter acertado diretamente no alvo, não infligira dano nenhum ao dragão, que o repeliu com um movimento de sua garra, atirando seu corpo nu para trás com três enormes rasgos em seu tórax, marcas das afiadas unhas do oponente. –

Tolo! Não pode acertar meu coração! Eu não tenho um!

O dragão parecia zombar da ingenuidade do garoto, que levantava com dificuldade. Tinha sentido a dor lacerar e visto o sangue escorrer, mas agora... Nada mais havia no lugar. Nem mesmo uma marca. Só sentia-se mais inapto a vencer, de uma certa forma. O vidro rachou um pouco mais. Mas ainda tinha esperanças. Ele não queria e não iria desistir ali, ou tudo o que passara nada significaria. Ergueu novamente a espada na altura de seu peito e proclamou: –

Se não posso vencê-lo atingindo o coração, então será cortando sua cabeça, monstro maldito!

Novamente um pulo alto, e desta vez com um auxílio de suas asas para voar ainda mais alto. Com a espada acima da cabeça, descia em alta velocidade ao encontro da cabeça do réptil gigante, que virou e rebateu-o com sua longa cauda. Qlon voou para trás e aterrissou no chão com um baque surdo. Não largara a espada, nem naquele momento. –

Você não é capaz de vencer, criança inútil! Desista, será mais forte quando eu puder dominar seu corpo! Nunca mais terá de sofrer! Eu mesmo serei o seu sofrimento!

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Qlon cambaleava, usando a espada de apoio para manter-se de pé. O golpe fora forte, mas como da outra vez, a dor sumira depois de um tempo, e um senti mento de impotência tomava seus pensamentos. –

Não é verdade. - Disse Qlon. - Assim que dominar meu corpo, será o meu fim. Se meus medos me dominarem, a coragem que carrego para levantar minha espada se extinguirá. A indecisão irá ser constante e, com isso, não poderei mais tomar nenhum julgamento. A raiva não me deixará controlar meu corpo, e não sentirei mais a necessidade de ter cautela. Os meus valores se perderão.

Agora podia ver com clareza o seu desafio final. Podia enxergar tudo aquilo que as virtudes prepararam, podia sentir em seu peito todas as quatro queimarem como uma chama forte e viva. “Um golpe. Tudo que eu precisava era de apenas um golpe de sorte e nada mais para matar o monstro que eu mesmo havia criado. Enquanto eu ainda podia manter-me de pé, enquanto ainda podia manter meus olhos abertos... Eu precisava lutar.” Um golpe que, com certeza absoluta, acertasse o alvo. Sem chance de defesa, contra-ataque ou esquiva. Apenas um golpe final, resoluto, para poder finalmente voltar a sua missão original. Talvez uma magia. Sim, era justamente isso que precisava. Mas, como? Ele não havia treinado nada (ou quase nada). Não havia dominado nenhuma além do teleporte. Talvez se houvesse se teleportado para perto antes e dado um golpe... Daria certo? Não havia mais tempo ou energia para um teste. Se iria fazer aquilo, seria sua única chance. –

Venha até mim, garoto, ou eu precisarei ir até você?

“Havia esquecido que aquilo ainda era um embate e que, se eu passasse tempo demais pensando em uma estratégia, hora ou outra ele atacaria. E justamente assim que aconteceu. O dragão soltou uma rajada de fogo negro em minha direção: um enorme filete de chamas vindas de sua enorme boca escancarada. Em um ato de reflexo, corri para os lados, evitando o fogo. O dragão perseguia meus movimentos com o pescoço, mirando o ataque para o lado que eu corria. Um fogo frio, que parecia sugar o calor de meu corpo. Eu corria em um arco ao redor do dragão, esperando uma oportunidade para teleportar, esperando que ele interrompesse as chamas por um segundo pelo menos.” O dragão interrompeu o fogo e começou a voar. Alto, muito alto, quase tocando as nuvens. –

Não estou com paciência. Vou acabar com você agora, é mais fácil mirar daqui de cima!

Precisava alcançá-lo no teleporte antes que ele soltasse as chamas do céu. Seria mais fácil acertá-lo assim. Bolou então, como que em um segundo, qual se-

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ria seu último movimento. Abriu suas asas e voou o mais rápido que podia em direção ao lagarto crescido, que tomava fôlego para o novo ataque. –

Você não vai atrapalhar-me, seu verme! Volte para o chão e aprecie sua morte!

O réptil negro tentou mandar Qlon para o chão com uma caudada, mas Qlon esquivou-se no ar e usou o teleporte para trás da cabeça de seu inimigo. Com a Sanctus, deferiu um golpe na junção do pescoço com o crânio. Mas, para a surpresa de Qlon, ele esquivou-se com um outro teleporte. –

Estamos em sua mente, paspalho! Eu sou um produto da sua mente! Posso ouvir cada um de seus pensamentos como se fossem meus!

Prendeu-o em suas garras como quem agarra um pássaro em pleno voo, estrangulando-o. Qlon gritava de dor enquanto sentia seus ossos partirem dentro de seu corpo. Suas energias cada vez mais iam embora. Como poderia vencer agora? Não podia desistir ou perder a sua vontade de vencer. Ainda apertava o cabo de sua espada com força, não iria soltá-la mesmo que morresse ali. –

Não era você que venceria, seu anjo patético?! - Rugia o dragão.

Atirou Qlon para o chão como uma pedra. Ele bateu no chão e quicou uma ou duas vezes, parando de cabeça para baixo. O vidro se rachara ainda mais. Estava quase em um ponto crítico, poderia quebrar a qualquer segundo e com a me nor pressão. Tinha vontade de cerrar seus olhos, mas não podia. Com o rosto grudado no vidro, olhou para baixo. A fumaça negra entrava em um turbilhão. –

Como é agora? Sentindo que as esperanças vão acabar?

O dragão aterrissou em cima dele e fez com que o pequeno corpo virasse de frente para ele. Qlon nem ao menos podia mover-se. Sentiu o exalar do ar de seu inimigo saindo das enormes narinas. O vidro estava a ponto de quebrar. Aquele era, entre todos os momentos que viveu, o mais tenso. Estava lá por conta própria e não tinha ideia de como sair. –

Bem-vindo ao seu enterro.

O réptil começou a abrir a boca em cima do rosto de Qlon. Podia ver as chamas negras formarem lá dentro, em um brilho fraco. Sua mão ainda segurava sua espada, mas não sabia se conseguiria mexer seu corpo. Se ao menos seus músculos respondessem... “Podia sentir a chama vital sair de meu corpo, que ficava frio como um cadáver. Não sei de onde tirei forças, mas antes da labareda sair, consegui cravar a espada no céu de sua boca. Ele tentou esquivar-se, mas ainda assim foi o sufici ente para atravessar suas narinas e sair entre seus olhos.” –

Maldito! Como ousa? - Rugia e debatia-se enquanto balançava Qlon, que

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segurava sua espada. –

Eu não vou... Deixar você... Vencer!

Antes que qualquer palavra a mais pudesse sair da boca de Qlon, ele tirou forças de dentro de sua alma. Com as duas mãos segurou sua espada, que parecia cada vez mais leve enquanto a empunhava. Em um movimento único, girou seu corpo e conseguiu cortar o focinho do dragão em dois. –

Imbecil, cortou para o lado errado! - Vangloriou-se o dragão.

Qlon sorriu apenas com o canto da boca enquanto caía após ser arremessado para o alto. Estava tão fraco que podia sorrir apenas com metade da face. Não sabia como havia feito aquilo, era como se algo tomasse conta do seu corpo e guiasse seus movimentos. Mas ele fez mesmo assim. Foram movimentos rápidos como um raio e imperceptíveis como um vento. Moveu sua espada sem direção, mas ela acertava justamente no seu alvo. Vários cortes por segundo atingiram o dragão negro, mas ele sequer se deu conta. Como aquilo havia ocorrido? “Você está na sua mente, Qlon. Acredite, seu poder aqui é ilimitado.”. Tudo aquilo ocorria porque ele queria que ocorresse, como em um sonho que se pode comandar seus movimentos e atitudes. Finalmente havia percebido que, se ele desejasse, ninguém poderia derrotá-lo enquanto ele fosse o dono de seus pensamentos. –

Se pode ler meus pensamentos, leia este: MORRA!

Quando caiu ao chão, teve tempo de ver pedaço por pedaço de carne cortada do réptil negro deslizar e cair. Asas, patas, cabeça... Tudo se separava em vários pedacinhos devagar, como se ele devesse aproveitar a dor do término de sua existência. E, aos poucos, seus olhos fechavam dentro de seus sonhos. Pela última vez. … –

Qlon, acorde. - Dizia a voz de Prudência.

Aos poucos, abriu os olhos. Estava lá, ainda escalando Yggdrasil. –

Você passou, Qlon! - Prudência dizia entusiasmada enquanto alisava seus cabelos. - Meus parabéns, pequeno.

Eu venci?

Sim, venceu. - Falou Índole. - E graças ao meu conselho. Sabia que poderia aproveitar-se dele.

Obrigado. - Falou Qlon. - Eu teria morrido se não fosse por sua ajuda.

Não precisa agradecer. Ainda é seu mérito ter vencido o monstro dentro de você mesmo. Um monstro que só quem o criou pode destruir.

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Esta era a única virtude que ainda não havia conhecido. Assim como todas as outras, estava no traje que a vira antes: um vestido longo e branco. Seus cabelos eram negros e brilhosos e suas pontas mal passavam das orelhas de tão curtos. Tinha uma franja curta que tapava sua testa. Um nariz fino e de ponta levantada que dividia dois olhos cor de safira. Ela estava de braços cruzados, parada e fi tando o fundo de seus olhos. –

Isso significa... - Começou Qlon.

Sim, que está livre para prosseguir. - Completou Coragem.

Finalmente... Preciso ir rápido! Voltaremos a nos ver em alguma outra ocasião? - Perguntou ele sem pensar.

Talvez todos os dias nos veja dentro de seu coração. - Filosofou Prudência. - Enviaremos você para o próximo andar como presente por ter conseguido vencer nosso desafio. Não é o primeiro a realizar este feito, mas com certeza é o caso mais impressionante.

Eu tinha perguntas para fazer, e você a mim, mas acho que estamos sem tempo. - Lembrou-se Justiça. - Mas com certeza ainda quero vê-lo novamente algum dia. Precisamos colocar um ponto final nesta história. E apesar de achar que não devíamos prestar esta ajuda, fez por onde merecer. Seu coração é nobre, Qlon. Podemos estar condenando a nós mesmas ao realizar um ato como este, mas nunca deixamos de lado o nosso valor. Nunca se esqueça deste dia e de tudo aquilo que aprendeu.

Prometo que jamais esquecerei. - Respondeu Qlon sentindo orgulho de seus atos.

Agora adeus, Qlon. - Disse Coragem. - Esperamos vê-lo novamente algum dia. E espero que fique mais forte até lá. Você é uma criança muito especial, jamais esqueça disso. Ganhe poder, para poder sempre passar em todos os mais duros testes que a vida infligir!

Ficarei. E obrigado, de coração, a todas vocês. Ensinaram-me muito. Agora, devo partir. Meu amigo está protegendo-me e penso eu ter abusado demais de sua bondade.

“Deu tempo de avisar mentalmente para Nisroc parar, mas não sei se ele ouviu. Não chegou a responder. As virtudes deram as mãos e fizeram um círculo, enquanto pronunciavam um encantamento em idioma angelical: 'Que os ventos de todos os cantos carreguem esta alma para o seu destino final, e que os sete céus protejam sua viagem'. Ao acabar, pediram para entrar no círculo. Voei e entrei nele por baixo, como foi instruído. Antes que eu pudesse perceber, uma forte corrente de ar bateu nos meus pés e empurrou-me com força para cima. O vento literalmente carregava meu corpo, e aos poucos eu via o andar das virtudes ser deixado para trás enquanto o fim da jornada finalmente se aproximava.”

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Cap. 29 – Casualidade

V

arou as nuvens em direção ao andar que delimitaria o fim de sua procura: Machon. Como Viruel dissera até um tempo antes, aquele andar era compreendido apenas por uma enorme corte, onde os julgamentos celestiais eram mantidos. Procuraria ali, por fim, os documentos necessários sobre sua mestra e sobre ele mesmo. Um céu azul, límpido e com poucas nuvens entrou em seu campo de vista. O vento parou de soprar e ele caiu em um vasto gramado. A gravidade ali era ainda maior que a do andar inferior. De acordo com o que Viruel dissera, deveria ser dez vezes maior do que a que estava habituado em seu planeta. Sentiu a diferença na hora de levantar e limpar a roupa suja com folhas da vegetação rasteira que se estendia até o vasto horizonte. De um lado, terminava em um penhasco que dava para o nada. Do outro, uma enorme corte, com incontáveis andares. Suas paredes, portas, escadas... Tudo feito de cristal límpido. Não tinha teto algum. Dentro de suas paredes, Qlon podia ver anjos transitarem de um lado para o outro, com vários rolos de pergaminho. Alguns os arquivavam, outros os levavam para que outros anjos os analisassem. De todo modo, o movimento ali nunca parava. “Mal sabia eu, naquele instante, que meu azar não acabara. De tudo que eu podia imaginar encontrar lá, eu não estava preparado apenas para uma coisa: o que viria a seguir.” –

Qlon? O que está fazendo aqui?! - Perguntou uma voz conhecida.

Qlon voltou-se para ver de onde vinha a voz e foi surpreendido por Freutz, que olhava para ele com um certo tom de espanto e curiosidade. Usava trajes iguais aos seus e estava parado, de pé, ainda sem acreditar no que estava vendo. –

Senhor diretor! Eu... É...

Espere, não fale nada agora. - Disse Freutz, vislumbrando suas asas. Tornou-se um caído?!

Não! Ao menos ainda não... Senhor, eu posso explicar...

Sim, e com certeza vai. Por favor, acompanhe-me.

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Mas senhor, eu...

Sem desculpas, sem qualquer outra explanação agora. Fique quieto e acompanhe-me antes que mais alguém veja que está aqui.

Sim senhor. - Conformou-se o pequeno anjo.

Seguiu-o até um lugar afastado: um pequeno vilarejo a oeste da grande corte. Protegido por um pequeno muro de pouco mais de um metro de altura, tinha um cenário pastoril, mas ainda assim bem organizado: ruas pavimentadas, com casas de no máximo dois cômodos, ao redor de uma praça onde água pura jorrava de uma fonte artesanal. Entraram em uma pequena casa ali perto. Todas pareciam tão idênticas com suas paredes brancas, janelas e telhados de madeira que quase não notou a diferença daquela. Por dentro, era como aparentava ser por fora. Pequena e apertada, o quatro fundia-se com sala e cozinha, sendo apenas o banheiro separado por uma porta. Será que assim viviam todos os anjos de lá? Não importava. O rosto de Freutz e sua expressão mostravam que a conversa que viria a seguir não seria muito boa. Tentando manter a voz calma e firme, ele começou: –

Qlon... Por que motivo está aqui?

Ele puxava o ar com a boca, e exalava rapidamente. A aparente confusão ha via transformado-se em fúria, e Qlon nem ao menos entendia. Calmamente, tentou explicar-se: –

Senhor, a Lua...

Lua? O que a Lua tem a ver com isso? Sua mestra pediu para invadir os céus por algum acaso? Por todos os deuses, deveria ter deixado Silverius treiná-lo...

Não, não é isso! Eu me ofereci!

Ofereceu-se?! Para quê? Uma tentativa de suicídio ou uma exibição de estupidez? Eu esperava mais de você como aluno...

Se apenas deixar-me explicar, eu posso tentar...

Mas eu estou deixando! O que me incomoda é saber que nenhuma das explicações que possa dar parece ser plausível o suficiente para essa situação! Qlon, você por acaso tem ideia da estupidez que fez? Está muito difícil manter a sua inexistência nos arquivos celestiais...

Inexistência? Como assim? Devo ficar em anonimato?

Você deveria ficar em anonimato enquanto ainda está vivo! Assim que descobrirem sua existência e seus poderes, vão aniquilar-te tão rápido quanto se aniquilaria uma mosca!

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O tom de voz de Freutz havia subido. Estava suando, a gola de sua túnica já estava completamente ensopada. –

Você tem de partir... Você tem de voltar! AGORA!

Mas eu não posso! Ainda não terminei o que vim fazer aqui.

Não se preocupe com isso. Se você soubesse da verdade, esse seria o menor, o mais ínfimo de seus problemas. Seja como for que entrou aqui, saia! E saia agora!

Deixe ao menos eu explicar por que motivo eu vim!

Freutz levantou-se. Roçava sua barba com tanta fúria que pelos dela eram arrancados freneticamente. Andava de um lado para outro, tentando controlar-se. Então, colocou a sua testa em contato com a sólida parede, e pediu que Qlon desse suas explicações. … “Assim o fiz. Já estava cansado de dar explicações sobre o que fiz a todos, ou quase todos, que eu encontrava. Uma missão secreta não era tão secreta assim se todos soubessem dela. Mas, de certa forma, eu confiava em todos àqueles que contei meus segredos. Tirando, talvez, os quatro dragões sagrados, com exceção de Leviathan, que fora a mais amigável. Acabados os detalhes, ele finalmente convidou-me para sentar em uma cadeira de madeira artesanal, ao redor de uma mesa da mesma cor e material. Ele já estava lá sentado, ouvindo toda a história. Repousava sua cabeça nas palmas de suas mãos e mantinha os olhos fechados, como quem estivesse meditando profundamente.” –

Qlon, há um motivo em eu nunca ter contado à Lua quem ela era. Aliás, um ótimo motivo, mas que não vem ao caso agora. Sua existência aqui comprometeu todos os meus planos.

Planos? Que planos?

Qlon, você disse que recebeu um livro de capa negra enquanto esteve no terceiro andar, estou certo?

Sim, está.

Você fez questão de lê-lo?

Não, ainda não. E o que tem tão de especial neste livro para todos pedi rem que eu leia?

A história de seus poderes, seu jovem tolo. Ou ainda acredita que tudo que corre em seu sangue é uma mistura da família de seus pais? Você ainda não conhece sua verdade, e não está preparado para conhecer. Não enquanto estiver aqui. Portanto, aconselho novamente: volte para

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nosso planeta. Quanto mais ficar aqui, mais perigo irá correr! –

Pois eu não sairei daqui sem ao menos saber o que aconteceu com Lua. E se você não me contar, eu tentarei descobrir sozinho.

Sua determinação agora só trará problemas... Eu não vou colaborar nisso. Ainda sou o diretor da base, ainda temo por meus alunos! Silverius não está preparado para assumir o cargo se eu morrer.

Você não irá ajudar?

Não, com toda a certeza.

Então agirei sozinho!

Mesmo? E o que pretende fazer? Entrar lá e pegar os arquivos que tanto quer sozinho? Adoraria saber como quebrará a segurança, como não será visto pelas paredes e chão de cristal e, mais ainda, como encontrará o que tanto procura se não sabe onde está. Ou pretende vasculhar fileira por fileira de arquivos?

Você precisa de ajuda, Qlon, e é algo que não posso arriscar-me a dar. Espero que não tente implorar por isso com qualquer outro cidadão aqui. Será muito pior do que se viesse pedir a mim. Você confia demais nas pessoas, mas isso pode ser tanto uma qualidade como um defeito. Para seu bem, retorne! Agora preciso voltar ao meu trabalho.

Por favor, senhor Freutz! Eu imploro! Ao menos dê informações suficientes para que eu siga por conta própria!

E ser acusado de trair o céu caso falhe? Aliás, quando falhar, pois será certo que falhará.

Ninguém precisa saber quem deu as informações.

Freutz levantou-se e foi até a porta, abrindo-a. Sem ao menos olhar, voltou a resposta para Qlon: –

Acha que é simples assim? Apenas negar informação? Se fizer isso, terá sua língua e mãos cortadas e será jogado em uma cela pelo andar que acabou de passar. Se mentir, será pior: como caído, perderá suas asas se for condenado, e vai viver uma semi-vida de dor e tortura como jamais sonhou. Não se informou antes de vir para cá? Nos sete céus você pode ter mais alegria que uma criança, mas também pode encontrar uma dor maior que a do inferno. Aceite meu conselho e fuja. Nem sempre fugir é a atitude de um covarde, é apenas a atitude de alguém que é sincero o suficiente para prezar por sua própria vida.

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Acredita que ainda há um caminho de volta depois de ter feito o que eu fiz? Querendo ou não, um dia me encontrarão, como disse Haniel. Pode não ser nos próximos anos que eu ficar em Seal, mas com certeza será algum dia. Eu mesmo já me condenei.

Então atrase o máximo possível essa condenação. Acredite, vai querer estar bem treinado quando ela chegar. Pode usar esta casa enquanto quiser, mas use a pena que carrega e chame seu amigo Nisroc, é a coisa mais sábia que pode fazer. Até breve, e eu espero que da próxima vez que meus olhos tocarem sua face, já esteja na Base. Passar bem!

E dizendo isso, ele retirou-se de seus próprios aposentos, sem dar sequer mais uma explicação. Nem ao menos disse o que fazia pelos campos quando avistou seu aluno, mas isso não importava naquele instante. Tudo que importava é que, agora, uma barreira gigantesca começava a erguer-se na frente de Qlon. Ainda não sabia como iria ultrapassá-la, mas não chegara ali para desperdiçar seu esforço. Não era o primeiro grande desafio que queria pará-lo. Iria até o fim. … O dia foi cansativo. Empilhar pilhas e mais pilhas de papéis... Ele, como o guerreiro que era, não estava acostumado com esses cargos administrativos. Enquanto andava pelas ruas, sentia um ataque de nostalgia ao lembrar de seu passado... Sentia falta do campo de batalha, e como sentia! O suor escorrendo pelo seu rosto enquanto vestia sua tão gasta armadura, cheia de arranhões e buracos. Era o preço a ser pago por lutar com seres que queriam sua morte com tanta voracidade. Também sentia falta de lecionar. Como será que seus alunos estariam saindo-se a essa hora? Como diretor, ele fora muito mais importante. Mudara mestres, mudara conceitos de batalha, mudara praticamente toda a política da base. E o que aconteceu? Heróis jovens, com mais habilidade que muitos guerreiros veteranos. Havia provocado uma boa modificação, apesar de ainda achar um pouco errado treinar crianças que não eram tão desenvolvidas. Quando abriu a porta de casa, não se assustou ao ver Qlon ali. Com a Sanctus em cima da mesa, brincava reclinando-se na cadeira, tentando achar uma posição de equilíbrio. Quando sentia que ia cair para trás, batia suas asas, e elas davam o impulso necessário para continuar sentado. Aliás, asas negras... Engraçada ironia do destino... Se ele apenas soubesse... Mas aquilo era algo que seu aluno deveria descobrir sozinho. –

O que ainda faz aqui? - Perguntou enquanto sentava-se na cama e descalçava suas botas.

Ainda não me acostumei plenamente com a gravidade desse andar, acho que permanecerei aqui mais um pouco antes de tentar invadir a corte de cristal.

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Não vai desistir, não é mesmo?

Não.

Então boa noite. Também não vou ceder. Faça o que quiser, mas tenha em mente que fará por sua conta em risco. Se está adulto o suficiente para assumir suas responsabilidades, está também adulto o suficiente para fazer o que tiver de fazer por conta própria.

Até mesmo os adultos precisam de ajudas algumas vezes, não é? - Falou Qlon tranquilamente, como se estivesse ensaiado a tarde toda para aquilo. - Ou será que mesmo os adultos fazem tudo sozinhos?

Ainda não sou adulto, sou apenas uma criança. Mas sou uma criança que quer aprender cedo, e ser tão evoluída quanto qualquer adulto. Se o objetivo da Base é formar guerreiros, creio eu estar cumprindo meu papel até agora. Ou estou enganado?

Boa noite, Qlon.

O que aquela pequena criança havia falado estava certo, e ele não tinha argu mentos para rebater. Fora difícil pegar no sono aquela noite. Não por falta de cansaço e nem por muitos pensamentos terem invadido sua cabeça. O barulho irritante do ranger da cadeira desconcentrava. … O dia raiou, e Freutz foi cedo para o trabalho. Novamente deixara Qlon ali, naquela sala monótona. Apenas uma pia e um armário com mantimentos, a mesa com duas cadeiras e uma cama de solteiro estavam presentes em um piso de madeira encerada. Não havia um livro sequer. O banheiro era apertado, mas decente. Ao menos possuía descarga e água morna, o que era suficiente para suas necessidades mais básicas. Uma pequena lamparina pendia no teto de cada cômodo, tornando a luz o menor possível, ao menos durante a noite. De dia, havia uma grande janela em cada parede. Pensou em andar pela vila, mas tinha medo de ser visto por algum outro anjo que o denunciasse. Pensou em ler os livros que carregava consigo, mas matar sua curiosidade por saber quem era poderia atrapalhar sentimentalmente em sua missão. Assim que a acabasse e voltasse para onde viera, poderia lê-los, e quantas vezes quisesse. Tinha que esperar o retorno de Freutz e tentar convencê-lo mais uma vez. Não poderia invadir aquele lugar em especial sem ao menos conhecer o que procurava, e o mais importante: onde procurar. Ficou ali, fazendo exercícios e tentando acostumar-se com a forte pressão imposta pelo ar que o rodeava. …

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Ainda aqui?

O dia havia passado e Qlon permanecia da mesma maneira que Freutz o vira nos dias recentes. Tentando equilibrar-se na cadeira. –

Sim, disse que eu poderia usar pelo tempo que quisesse, não é mesmo?

Sim, pode.

Então. Ah, e espero que não se importe por ter comido um pouco de sua comida, eu estava realmente com fome.

Não, não me importo. Raramente sinto fome mesmo, viver no reino dos céus tira um pouco sua necessidade por nutrição vinda de alimentos. Apenas cansamos se realizarmos muito esforço...

Mas não são imortais?

Imortalidade não é a mesma coisa que incansabilidade.

Acho que compreendo.

Mais uma vez, boa noite. - Disse Freutz, tentando manter o mínimo possível de contato e apagando a luz da lamparina.

Ainda não decidiu ajudar-me?

E nem tenho que decidir. - Falou, espreguiçando-se e deitando na cama. - Não tenho o que decidir pois a decisão já foi tomada.

Eu sei que não me ajuda com medo que eu falhe, mas... E se por acaso eu conseguir o que quero?

Não vai.

Está realmente dizendo isso para um garoto que chegou até este andar sozinho? Sou competente o suficiente para cumprir a minha missão e sabe bem.

Sozinho? É uma piada, certo? Primeiro, a sua amante morta empurrou seus pés para alcançar o portal a tempo. Depois, foi salvo da morte por um vulto qualquer que deu sorte de estar ali. Por último, usou do poder de um anjo sagrado para ascender e passar para o quarto andar.

Sim, mas escalei Yggdrasil e passei nos testes das quatro virtudes cardeais. Por mais que eu tenha tido ajuda, sempre conquistei os objetivos impostos. É mais uma prova de que, com sua ajuda, posso novamente alcançar meu objetivo. Minha competência ainda não pode ser negada.

Até mesmo para os testes delas você teve ajuda, pelo que me contou. Pequenas dicas em forma de enigmas... Orgulha-se tanto assim de seus

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feitos? Isso é, ainda, uma prova de que é dependente demais dos outros, quase nada consegue fazer por si só. –

Não neguei ser dependente, apenas disse que sou competente. Assim como imortal é diferente de incansável. E, como uma criança... Mais ainda, como um aluno, ainda é óbvio que sou mais do que dependente. Ainda estou em processo de aprendizado, estou apenas pedindo sua colaboração com ele.

Não sou seu mestre.

Como não, se é o diretor da escola que eu estudo e diz preocupar-se com seus alunos ao ponto de continuar no cargo mesmo após sua aposentadoria? Se a vontade de lecionar em seu peito ainda é tão grande a este ponto, creio que isso te enquadra em uma posição até mesmo superior a de um mestre, como mestre de um mestre.

Um silêncio constrangedor formou-se entre os dois. Maldita era aquela criança, pensava Freutz. Tão jovem e tão bem articulada. Não sabia onde ele havia aprendido tudo aquilo, mas com certeza absoluta o ditado “argumente corretamente e nunca estará errado” aplicava-se a ele. –

Não temos mais o que discutir. Não insista com seus argumentos que são baseados em sentimentalismo. A resposta ainda é a mesma. Não. Boa noite. - Disse Freutz, cobrindo o corpo e tentando pegar no sono, ignorando o insistente aluno próximo a ele.

… Mais um dia havia passado, e Freutz retornava para casa. Sabia que Qlon estaria lá, mas não poderia ceder. Estava firme em sua decisão, e preocupado com o fato de algo poder dar errado e acabarem culpando-o. Quando abriu a porta de sua humilde residência, Qlon pulava de contentamento. Sua bolsa e a Sanctus estavam na mesa, e ele comemorava algo. –

Seja menos escandaloso, Qlon. Ainda posso ser descoberto pelos meus vizinhos e ser condenado por abrigar um traidor.

Mas eu consegui! - Comemorava eufórico.

O quê?

Equilibrar-me na cadeira.

Freutz riu. Não sabia o porquê, talvez pela felicidade da criança com algo tão simples e puro. –

O que foi? Acha um feito qualquer?

Sim, acho! - Desatou a rir. - É, deveras, algo bem inocente.

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Então o desafio a fazer!

Está falando sério?

Sim, estou.

Freutz pegou a cadeira e tentou fazer o mesmo. Rapidamente veio ao chão com um baque surdo. Tentou novamente, dessa vez com cuidado, mas ainda rindo da situação. Novamente, fora rápido demais, nem ao menos conseguiu equilibrar-se usando as asas. Tomando, dessa vez, aquilo como um desafio sério, levantou-se e tentou novamente, mas assim como das outras vezes acabou indo ao chão. Qlon mantinha um sorriso de vitória no rosto, e aquele sorriso o incomodava. Por mais dez vezes tentou. Todas as tentativas falharam. –

Se mesmo acostumado a esta gravidade ainda não consegue equilibrarse nesta simples cadeira, creio que consegui fazer uma proeza.

Foi então que Freutz teve ideia do que acontecera. Todo aquele tempo, equilibrar-se não fora uma simples brincadeira. Era um teste de resistência muscular, velocidade e destreza. Algo fora de série, que nunca esperaria em alguém de apenas cinco anos. –

Qlon, como conseguiu?

Praticando. Será que, agora, consegui provar todo o meu potencial para você ou ainda duvida de minha capacidade de completar o que me fora instruído?

Freutz estava pasmo. Qlon era, realmente, um gênio. Afinal, estava destinado a ser, não que ele soubesse. –

Eu... Eu preciso pensar nisso um pouco mais. Dê-me tempo até amanhã.

Sim, é claro. Mas também tenha em mente que, quanto mais tempo eu permanecer aqui, mais perigoso será para você. O senhor mesmo disse que ainda poderia ser acusado de traição por ter um traidor em casa.

Boa noite, senhor Freutz. - Disse Qlon, acomodando-se em um canto qualquer para dormir.

Era a primeira vez que Qlon desejava uma boa noite desde que botara os pés na casa... No dia seguinte, ao acordar, Qlon percebeu um bilhete sobre a mesa. Abriu e leu os seguintes dizeres: “Terá duas horas. Uma antes do ápice da noite e uma depois. Sétimo andar. Não fale mais comigo e saia desta casa. E certifique-se de destruir este recado.”

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Cap. 30 – O Fim da Procura

E

ra noite. Qlon aguardava do lado de fora da corte, enquanto o frio da escuridão assolava as planícies. Naquele andar não havia lua, ou estrelas para darem a iluminação necessária naquele período do dia. Tudo que podia ver eram as luzes das distantes casas da vila que saíra a pouco e a chama das velas que os guardas carregavam consigo. Eram apenas dois querubins guardando a entrada principal. Agora entendia o que Freutz queria dizer ao falar sobre segurança. Retirando este “pequeno” empecilho, cria que seria mais fácil movimentar-se lá dentro. Apesar de ser de cristal, a construção não era completamente translúcida. Apenas vultos podiam ser vistos em seu interior. Ainda que fosse bem transparente, era um pouco borrada tal visão. E como a superfície do cristal distorcia e espelhava os reflexos, seria ainda mais fácil mover-se entre os andares sem que os seguranças o alcançassem, pois estariam ocupados demais procurando em qual corredor e em qual andar o invasor estaria. Mas antes, tinha de encontrar um modo de entrar. Mas, para sua sorte, a ajuda que Freutz dera não acabaria com aquele simples bilhete. Logo ele saiu pelos portões e começou a conversar com os guardas: –

Boa noite, senhor Freutz. Indo para casa? - Disse o guarda mais à esquerda, notando sua saída.

Sim, está tarde.

Pelo que vejo, foi o último a sair hoje de novo.

Sim, claro. Com a quantidade de arquivos que tenho para colocar em ordem no trigésimo segundo andar...

Está dedicando-se demais. - O mais a direita pronunciou. - Ainda tem o resto da eternidade para fazer isso...

Sim... Eu espero que sim... Está tarde, não é mesmo? Gostariam de ir comigo até a taverna da vila?

Não podemos sair de nossos postos.

Não demoraremos. Apenas uma breve comemoração.

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E a que devemos essa comemoração especial?

Apenas um motivo a mais para não esquecer esta noite. - Disse Freutz olhando para Qlon, que se encontrava distante dali.

“Eu podia sentir seu olhar, como se aquele fosse meu momento de roubar o ato. Furtivamente, contornei os arredores do prédio enquanto eles conversavam com o mínimo de barulho que eu poderia fazer. O espaço entre os guardas e a entrada era suficiente para eu passar. Freutz havia deixado uma pequena fresta aberta. Entrei por ela e sumi em seu interior, olhando de relance Freutz acenar com a cabeça enquanto os guardas dispensavam-no para sua casa sem aceitar o seu convite.” … O saguão de entrada era formado por um grande corredor que terminava em uma cúpula circular, de onde vários corredores dividiam-se e uma enorme escada em espiral formava-se junto à parede. Qlon andava com todo cuidado para fazer o mínimo possível de barulho, desejando que ninguém o visse ou ouvisse. Apesar da escuridão, enxergava bem. Aqueles dias numa cela apertada com correntes prendendo-o pareciam ter dado a ele novas habilidades. Subiu as escadas, degrau por degrau, sempre olhando ao seu redor para ver se alguém o perseguia. Até mesmo as cidades em Seal tinham mais segurança. Mas elas tinham necessidade de ser seguras. Afinal, quem seria louco o suficiente além dele para invadir os céus e roubar um arquivo? Ainda mais, será mesmo que tal ser chega ria ao quinto andar? Nem sequer importava. Continuou rumando para cima. Sétimo andar. Comparada à altura daquele vão dentro da corte, o andar que ele precisava chegar era relativamente perto. A escada subia infinitamente, parecia nunca ter fim. A cada novo andar que a escada chegava, um patamar feito de cristal formava um anel que dava sentido a mais quatro corredores. Cada um desses corredores dividiam-se em várias portas e vários outros corredores. Se não tivesse um tempo de estadia muito curto naquele lugar, provavelmente adoraria passar a eternidade estudando cada registro de cada arquivo de cada estante de cada sala de cada andar. “Ao chegar no patamar de número 7, deparei-me com os quatro corredores novamente, um em cada sentido. Apesar de não estar impaciente para achar logo o lugar que deveria, mais uma vez vi a mão de Freutz ajudando: uma única vela estava acesa ao fundo do corredor oeste. Ao menos, esperava eu que fosse um sinal. Rumei para lá com passos de gatuno, e segui pelo corredor que dava para várias portas. Mas era apenas uma que mantinha a vela acesa em um suporte ao seu lado. Peguei-a e entrei pela sala. A dor da cera quente escorrendo pelos meus dedos era suportável. Ao entrar, deparei-me com várias estantes esculpidas na parede, onde diversos rolos de

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pergaminhos repousavam. Se não fosse pela última ajuda de Freutz, eu teria passado horas vasculhando aquilo, quando me deparei com alguns rolos já abertos em cima de uma mesa. Ao lado dele, repousava um bilhete: 'Use o conhecimento adquirido com sabedoria. Não leve o pergaminho, apenas a sabedoria que dele retirar.' Queimei-o na vela e as cinzas espalharam-se sobre a mesa. Sentei em uma das cadeiras esculpidas em cristal, assim como a mesa. Aliás, tudo lá era assim, menos os papéis, penas e velas, pelo visto. Pinguei cera sob a superfície espelhada e coloquei a vela em uma posição ereta para ler o que lá estava escrito.” … A patrulha celestial ouviu boatos... Boatos que o primeiro dos caídos tenha deixado descendência nos sete céus circulam entre a guarda. Apesar de sua ameaça ter sido eliminada a alguns séculos atrás, séculos estes que distanciam as duas primeiras eras com sua morte sendo o marco de passagem, o juramento que ele fez ficará gravado para sempre em nossas memórias. “Haverá de chegar o dia em que meu real descendente assuma meu lugar e batalhe contra a tirania imposta por nossos criadores!” No começo, achamos graça, rimos da ironia de anjos não poderem reproduzir. Mas o fato de ele ter alcançado o reino mortal agora nos dá dúvidas. Será que entre os mortais os anjos ganham seu meio nojento de reprodução? Se ela fugiu, sua protegida e amada, será que os dois tiveram mesmo um filho? Matamo-os tão rápido quanto a luz do sol banha o planeta ao seu nascer no horizonte. Ou há um novo método de criar descendentes que não nos foi informada? De qualquer modo, agora o medo toma as ruas. Ruas de um reino que seria improvável uma criança crescer sozinha, além do mais de ter vindo parar após seu nascimento. Apesar de duvidarmos muito desta remota possibilidade, iremos rastrear junto com os deuses a genealogia de todos os anjos. Um novo método de rastreamento será usado para isso, onde gravaremos marcas em nossos corpos. As virtudes farão isso, e agora elas também estarão encarregadas da investigação e punição dos possíveis descendentes do primeiro rebelde. Sua força será muito útil, e se cumprirem seu papel com mestria, talvez sejam nomeadas as punidoras oficiais do reino divino. Contamos para que esta missão seja bem-sucedida. … A missão foi um fracasso. O crescimento acelerado dos caídos tornou esta missão muito mais difícil do que já era. Ao menos, as virtudes cumpriram um papel que não foram designadas, e com uma eficácia enorme. Como são apenas quatro, os deuses pensam em ampliar seu número para dar conta da demanda. O quarto andar será transformado em uma prisão

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para os pecadores, e as virtudes farão deste o seu lar. O assunto dos descendentes foi congelado por enquanto e será retomado quando as coisas acalmarem, ao menos por alguns anos. A investigação, então, correrá em segredo, e qualquer ameaça será eliminada. A queda de muitos anjos provocou um esvaziamento dos céus, e os deuses precisam criar novos anjos para assumirem o lugar daqueles que partiram para o inferno ou estão presos no quarto andar. Nisroc fora condenado por inspirar a traição em massa, mas Haniel intercedeu por ele. Espero que tenha tomado a atitude correta. … Lucifel caiu. Uma nova era se estende diante de nossos olhos neste momento. Diante disto, qualquer trato com os descendentes agora torna-se trivial. Agora que os humanos evoluíram o suficiente para cuidar de seu planeta, ele decidiu criar um lar para seus companheiros. Plagiando o céu, criou o inferno em sete andares para ele e outros caídos morarem para que a terra dos homens não seja palco de uma disputa, e prometeu guerrear contra o seu antigo lar em uma batalha mortal, até que sua demanda seja cumprida. Será que ele era o descendente? Difícil de dizer, já que ele nasceu diretamente dos deuses, e ainda com um irmão gêmeo. Os deuses se calaram com este ato, e estão em um profundo sono agora. Aguardamos seu despertar para novas ordens. Mas com certeza, este foi o ato que mais deixou-nos surpresos. Logo ele, o representante da luz... Creio que Gabriel, seu irmão, será um excelente substituto para o cargo, apesar de ele ainda estar chocado com a queda de seu irmão. Os sete grandes arcanjos perderam um membro importante... Um substituto será criado para preencher este vazio. As últimas palavras de Lucifel antes de cair foram: “A minha luz é tão forte, que por causa de sua força acabou tornando-se as trevas.” … A guerra contra os descendentes fora retomada agora que o apocalipse se aproxima. Os humanos evoluíram ao ponto de compreenderem tudo como pequenos deuses, e isso assusta até mesmo a nós. Talvez, ao serem criados, eles tenham recebido liberdade demais, não sei ao certo. Logo as hordas infernais e celestiais chocarão uma contra a outra, e isto criará uma ruptura entre os planos. Os humanos poderão ver toda a magia que sempre os cercou. O mais importante agora é eliminar qualquer ameaça que ainda possa existir por aqui. As virtudes iniciarão sua missão, e desta vez contamos com seu sucesso, ainda mais pelo seu atual número significativo. … A missão novamente fracassou. Os deuses estão insatisfeitos, mas isso não impedirá o apocalipse final. Os preparativos acabaram, e logo o embate

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começará. Esperamos apenas que não haja manifestação dos descendentes enquanto guerreamos. … Um empate! Foi isso que a força divina conseguiu após todo o esforço que fizemos! Pelo visto, subestimamos os demônios e sua nova força, composta não apenas de anjos caídos, mas também de criaturas disformes que, dizem, são geradas por desejos impuros dos mortais. Muitos companheiros morreram nesta guerra entre bem e mal, mas ao menos eles não ganharam. A estratégia dos poderosos anjos que caíram e tornaram-se generais surpreendeu a todos. A guerra agora se estenderá por muitas eras, e para simplificá-la e evitar que os seres sem forma ataquem novamente, os deuses eliminaram os mortais, quase que totalmente. Apenas os seus fiéis prevaleceram. Ao menos, os descendentes não se mostraram, e isso foi um alívio. Um reino mortal para anjos fora criado no planeta mortal, e para lá foram mandados anjos de baixo calão e serafins para comandá-los. Com isso, os deuses perdem seus mais importantes servos, mas.... Retomaremos as investigações com total afinco, afinal, não podemos mais nos dar ao luxo de haver uma força a mais aqui nos céus que ajude nossos inimigos, criados por nós mesmos. … Um ser de poder extremo foi encontrado junto aos anjos que desceram ao reino mortal para batalhar. Ele é um dos filhos de Lúcifer com sua esposa, Lilith. Estranho o fato dele ter traído seu lar para ajudar aqueles que sempre foram seus inimigos. Mais estranho ainda o fato de seus poderes serem tão gigantescos assim. Não cremos que ele possa ser da linhagem de descendência, ainda mais sendo filho de quem é, então enviaremos a espada sagrada, Sanctus, que não era usada desde o assassinato DAQUELE anjo. Talvez ele seja o único que possa empunhá-la depois de Midael. De qualquer modo, continuaremos atentos aos seus movimentos. … Pistas foram finalmente encontradas. Uma família se escondia no paraíso, e o Querubim de Pedra, Cherubiel, de nada sabia. Não sabemos ainda se devemos considerá-lo um traidor ou não, mas com certeza ele falhou com sua missão. Vasculharemos o paraíso e aniquilaremos os descendentes, um a um, sem piedade alguma. Essas foram as ordens dos deuses, e nós as seguiremos como bons servos. … Lá, eles viviam como mortais. Invadimos o lugar e anjos nus, com sexos expostos, viviam em harmonia, desfrutando os frutos do Éden e fazendo

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amor entre seus irmãos. Incesto, uma prática imperdoável para qualquer mortal. Não titubeamos: sacamos nossas armas e matamos. Eles nem sequer revidaram. Dois anjos fugiram por Yggdrasil levando uma das descendentes, ainda criança. Mandamos tropas atrás deles, mas eles escaparam. Agora no reino mortal, será difícil rastreá-los. Ao menos, não estão mais nos céus e sua quantidade fora reduzida a um. Se ela for mesmo a descen dente, o inferno ganhou uma força a mais, e nós perdemos uma ameaça interna. Ainda não sabemos se isso foi lucrativo, mas estamos satisfeitos com o resultado. Encerramos o caso por aqui, após anos de tentativas que deram errado e muitos investimentos em vão. Ao menos, podemos dormir em paz sem temer um assassino na casa ao lado. … Passos romperam no corredor. Fora descoberto? Provavelmente. Será que fora por mudar a vela de lugar? Mas como fora tolo, poderia ter lido no escuro, ou levado os pergaminhos para o corredor e lido lá! Apagou-a e escondeu-se em um canto entre as estantes, limpando as cinzas da mesa. Repousou a mão sobre o cabo da Sanctus e aguardou. A porta de cristal abriu. Os dois querubins estavam lá, procurando por algo. Por ele. Sem fazer qualquer ruído além do da sua respiração controlada, pôs-se em uma posição sobre os calcanhares, pronto para pegar impulso. Sabia que seu esconderijo não duraria muito tempo, mas ainda assim observou a luz de seus círios preencher o lugar, procurando por ele. Os guardas vestiam-se igualmente e portavam as mesmas armas. Uma armadura da cor branca com adornos dourados, que cobria completamente seus corpos. Apenas seus olhos ficavam de fora da viseira de seus elmos. Portavam, cada um, uma espada na cintura e uma lança em riste. Se o descobrissem ali, no vão entre duas estantes, seria fácil eliminá-lo com aquela arma. Um deles aproximou-se da mesa e a examinou. Com os dedos cobertos por suas manoplas, tocou seu pavio, que ainda fumaçava. Avisou seu companheiro e olhou ao redor. Qlon teve a impressão de seus olhos alcançarem suas íris prateadas que repousavam na escuridão. Com um aceno, os dois trocaram um olhar. Com certeza o descobriram. Apagaram então as velas, sumindo na escuridão. “Por míseros segundos, eu ainda podia respirar. Passei a ofegar, mas não me desesperei. Apenas tinha certeza que eles sabiam de minha existência. A noite estava escura, muito escura. Logo, uma lança veio em direção ao meu rosto. Sua ponta beijou a lâmina da Sanctus, que saquei tão rápido quanto pude naquele curto espaço. A outra perfurou meu ombro e fez-me sangrar, manchando minhas vestes brancas. Segurei o grito e pulei para fora do vão, empurrando os dois para trás e fazendo com que caíssem no chão. Soltei a lança de meu ombro e voei para fora da sala o mais rápido que pude, ouvindo o ressoar metálico de suas armaduras ao levantarem. Como uma flecha, cortei o ar da torre interna da escadaria até seu chão, e segui para a porta, que estava trancada. Confiei em minha espada, e puxei forças do fundo da alma. Seria ela capaz de cortar até

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mesmo um cristal? Foi.” Um barulho agudo como um grito, e logo as portas encontravam-se partidas no chão. Qlon voou por entre elas, mas os querubins vinham afoitos em seu encalço. Seu ombro doía, mas não era nada comparado ao que já passara. Estancando o sangue com uma mão e segurando sua espada com outra, tentava voar até Yggdrasil, mas fora parado abruptamente no meio do caminho. Um dos guardas voou sobre ele e deu um chute, levando seu corpo ao solo. Girou em seu eixo para que caísse de costas, e logo viu o outro guarda voando para fincar a lança em seu peito. Rolou para o lado e a ponta tocou o chão, mas não fora o suficiente para parar o segurança da corte, que, de pronto, largou-a e sacou sua espada. Em um ato de reflexo, Qlon ficou de pé, pondo-se em posição de combate. Estava sujo de terra e sangue, mas isso não o incomodava. O outro anjo veio pelo seu lado direito, o mesmo que fora ferido no ombro, usando a espada para cortá-lo na altura da cintura. Qlon manejou sua espada e defendeu-se do golpe, mas não fora o suficiente. Eram dois contra um. O outro veio na vertical, procurando sua cabeça, mas o anjo ruivo pulou para trás e seu golpe atingiu a espada do companheiro, fazendo o tintilar de lâminas ser ouvido de longe. Não poderia fazer muito barulho, se viessem outros anjos em defesa daqueles dois querubins, seria seu fim. Tinha de alcançar Yggdrasil o mais rápido que pudesse. –

Mas que criança estúpida! O que quer que quisesse aqui, traçou o seu destino, e suas asas negras não me deixam outra escolha!

Eu também não tenho outra. - Revidou Qlon.

E o que irá fazer? Somos dois e você apenas um.

“Eu não tinha poderes, tampouco um treinamento decente, mas eu tinha algo que não me faria desistir: vontade. Talvez tenha sido ela que sempre me impul sionou, ou então fora algo que dentro de mim que até então eu desconhecia.” A Yggdrasil não se encontrava tão longe assim, mas não poderia simplesmente correr ou voar até ela. Talvez se a gravidade fosse pouco menor... Talvez assim, mas não tinha certeza. Ainda em posição de combate e com sua mão esquerda estancando sua ferida, decidiu lutar por sua vida. Aliás, não era sequer uma decisão. Era seu instinto falando através daquela singela atitude. Os golpes vinham por todos os cantos em velocidade assustadora. Quando alternados, ainda conseguia usar sua arma para defender-se. Quando ao mesmo tempo, esquivava de um e defendia outro, mas isso não adiantava muito. Suas vestes foram recebendo cortes, e à medida que se cansava sua pele também sofria com as lâminas dos inimigos. Logo, sua roupa branca estava com várias manchas avermelhadas como a cor de seu cabelo. Precisava de ajuda. Em sua mente, chamou por Nisroc. Precisava dele ali, senão talvez não escapasse. Sem resposta. Havia a pena quebrado ou manchado por tinta? Não sabia dizer, não ti-

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nha como checá-la. Mas aquela instância defensiva não o ajudava muito. Se não passasse a atacar logo estariam enterrando suas fatias. Um golpe na horizontal, altura do pescoço. Era daquilo que precisava. Aproveitando-se de sua baixa estatura, abaixou-se o golpe passou raspando em seus pelos sedosos. Atacou o seu autor passando a Sanctus na altura de sua cintura. A lâmina varou a armadura e fez um pouco de sangue jorrar em um curto jato, pois a regeneração divina o ajudava. “Eu deveria, de qualquer forma, correr até Yggdrasil, mas ela parecia mais distante a cada passo que eu dava em sua direção. Era possível ouvir os passos do último guarda atrás de mim, com sua armadura pesada. O outro ainda apoiava a mão no local onde sua armadura fora cortada, embasbacado com o fato de algo tê-lo ferido. Assim que o guarda que corria em minha perseguição atacou usando sua espada na vertical, de cima para baixo, eu esquivei pegando um leve impulso para o lado. Sua lâmina cortou a manga de minha camisa, mas em meu movimento fiz um corte em seu abdômen, que sangrara um jato. Isso deu mais tempo para correr até Yggdrasil. Naquele andar ainda era impossível ver seus galhos superiores, mas a formação de seus troncos iniciais começavam ali. Mas eu não estava tão preocupado assim com a parte de cima, eu não fugiria para o andar superior. Estava mais preocupado com o chão, onde as tempestuosas nuvens se formavam.” O guarda que fora primariamente trespassado gritou antes que Qlon pulasse para sua fuga: –

Via claudere! (Fechar o caminho!)

Qlon aterrissou em um piso feito do mesmo cristal que a corte suprema era criada. Deveria imaginar que os guardas ali ainda tinham um truque qualquer em suas mangas. O mesmo guarda que proferiu o encantamento pronunciou: –

Quando ativamos essa magia, ninguém entra ou sai deste andar. Mesmo que sua espada tenha cortado as portas do tribunal divino, não será capaz de ultrapassar a espessura deste cristal, poderá tentar se quiser.

Qlon realmente tentou, mas foi em vão. Quando cortado, o cristal se regenerara. Olhou para os guardas e perguntou: –

Como vou sair daqui, então? - perguntou para si mesmo.

Mesmo ferido, o pequeno ruivo demonstrava bravura ao continuar erguendo a Sanctus com apenas uma de suas mãos. Seu ombro doía, mas ele precisava primeiro sair dali com vida para depois tratar de suas feridas. Os guardas ficaram um de cada lado de Qlon. Acenaram um para o outro com um mover singelo de cabeças e iniciaram seu ataque. Qlon voou para defender-se, mas foi inútil, eles continuavam a caçá-lo mesmo no ar. Os golpes eram muitos, tanto em quantidade como velocidade. Continuar esquivando-se sob aquela gravidade seria quase

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impossível, ou defender-se. Já estava cansado. O seu braço mal aguentava o peso da Sanctus com apenas uma mão, voando e cansado... Era uma sentença de morte, a não ser que tivesse uma brilhante ideia. Teleportar de nada ajudaria, eles eram querubins e poderiam alcançá-lo tão rápido ele chegasse no destino de sua visão. Provavelmente eles não haviam usado sequer o total de suas forças, apenas subestimando ou testando a ameaça que lidavam, pois cada vez mais os golpes ficavam fortes. Afinal, após serem cortados pela única coisa que podia matá-los, era ilógico manter-se na mesma força de seu rival por opção. Uma ideia surgira, mas só teria tempo e oportunidade para fazê-la uma única vez. Não era a mais segura, mas era a melhor que podia ter. Ascendeu até o topo dos céus enquanto defendia-se e esquivava com o que restara de suas energias. “Não usem todo seu poder agora”, era o que desejava. Assim que chegou ao máximo que podia ir, o teto de cristal encantado pelos guardas, batalhou um pouco com eles, manejando sua espada e tentando afastá-los como conseguia. Precisava apenas de um pouco de espaço, e foi o que conseguiu em alguns instantes. Após afastar um dos guardas com uma tentativa fracassada de golpe na diagonal, de baixo para cima, o outro instintivamente atacou-o pelas costas, e era o que Qlon queria. Voou para baixo, e com o auxílio de suas asas e de seu enorme peso naquela atmosfera, voou rapidamente. Os guardas seguiram-no, mas assim que Qlon ergueu a espada acima de seus ombros e começou a perfurar o ar, sua velocidade aumentou grandiosamente. Os guardas até pensaram no mesmo quando Qlon já havia distanciado-se uns cinquenta metros, mas fora inútil. A aceleração já o deixava numa velocidade absurda o suficiente para que não fosse mais alcançado da metade da altura da queda em diante. Estava sentindo-se exausto, não ficaria acordado por muito mais tempo. Os querubins perceberam a estratégia dele tarde demais: não dava mais tempo para conjurarem qualquer magia. Em um ato desesperado, um deles atirou sua espada com todas as forças. Uma bela espada de duas mãos, com lâmina branca e adornos dourados assim como a armadura que o revestia. Mas ele errou. A espada passou ao lado de Qlon e tocou o solo de cristal das proximidades de Yggdrasil, quebrando-se em muitos cacos. “A última coisa de que me recordo é da Sanctus chocando-se contra o solo e estilhaçando-o, como um espelho qualquer. Minha velocidade era alta demais para aquela proteção parar-me ou regenerar-se. Como um cometa, rasguei o vento em direção do quarto andar. Passei por ele rapidamente, nada percebi, e logo cheguei ao terceiro. Na metade do caminho entre ele e o segundo, desmaiei, sem saber o que poderia acontecer comigo. Só desejava estar vivo no final de tudo e voltar para onde vim. Fora uma curta jornada nos sete céus, dos quais co nheci apenas cinco, mas fora longa o suficiente para que eu voltasse a desejar a tranquilidade de casa. Desejava regressar e contar para minha mestra sobre minha jornada e ver sua gratidão ao contá-la sobre seu passado. Apaguei, e como um corpo em queda livre, continuei minha jornada ao chão, mas agora de olhos fechados e uma sensação indescritível de ter cumprido meu objetivo, por fim.”

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Cap. 31 – Fuga do Plano Celestial

R

isadas ecoavam pela floresta de Raquia. Nisroc ria alto, caçoando das Virtudes que enganara alguns dias antes. Mesmo após todo aquele tempo, ele ainda continuava a rir da estupidez de suas perseguidoras. Como elas podiam ser tão fracas e tolas? Em uma batalha contra dezenas delas, mal podia acreditar que elas eram as executoras do julgamento celestial. Quase nem tocaram seu corpo, e ainda caíram em cada uma de suas provocações. Aquilo só poderia ser uma piada. Qlon... Onde estaria aquele pequeno anjo agora? Era noite em Raquia, e ele ria angustiado da situação, mas não sabia como seu protegido estava. Talvez a pena não funcionasse dada uma devida distância, ou havia uma interferência entre os planos agora. Não sabia ao certo. Assava um javali em uma fogueira quando ouviu um barulho. Algo cortava rapidamente o céu em um assovio agudo e chamava seu nome. Olhou em direção a Yggdrasil e um raio luminoso desceu. Descia sem rumo, e em chamas. Aquilo não era bom sinal. Deixando seu alimento ali mesmo, transformou-se na esplendorosa águia e voou pelos céus em direção ao meteoro, querendo apanhá-lo antes que tocasse o solo e criasse um ruído que acordaria os dragões. Conseguiu, mas pagara o preço de ser atingido por ele para reduzir o impacto. Quebrara algumas costelas, mas nada que o matasse. Veio ao chão com ele, cerca de cem metros distante de Yggdrasil, arrastando-se na terra. Não se surpreendeu ao se levantar e ver que era Qlon. Suas roupas estavam surradas: parte cortadas, parte queimadas. O que ainda estava intacto estava terrivelmente sujo de uma mistura nojenta: sangue, suor e terra. A Sanctus estava em seu braço direito, cujo ombro estava perfurado. Ao menos a ferida cauterizou-se um pouco com o calor. Seu cabelo tivera as pontas arruina das pelas chamas, mas aquilo não era uma questão de estética. Sentou-se ao seu lado, analisando a situação. Sanctus. Não poderia tocar nela, não era seu verdadeiro mestre e tampouco poderia erguê-la, mesmo que usasse todo o potencial de seus músculos. A pena ainda estava intacta atrás de sua orelha. Queria retirá-lo dali antes que mais alguém os visse. O garoto dormia tranquilamente com um sorriso escancarado em sua face. Pelo visto, tinha alcançado seu objetivo. Sem ver outra opção, tentou acordá-lo. –

Qlon... Qlon! Pode ouvir-me?

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“Recebia alguns tapas em meu rosto quando acordei. A face de Nisroc estava distorcida em meio à minha evidente exaustão, mas pude ouvir sua voz chamando em minha mente.” –

Qlon... Está bem? - Seus lábios não se moviam, como de costume.

Sim... Eu acho que sim. Onde estou? - Dizia erguendo o pescoço e apoiando-se em seus cotovelos.

Em Raqia. Foi uma queda e tanto essa sua, hein? Está cansado?

Bastante.

Então apenas embainhe sua espada e cheque sua mochila por seus pertences. Poderá dormir no caminho de volta para o primeiro andar.

Tudo bem. - Falou Qlon, embainhando sua arma e checando por seus pertences.

Está tudo aí?

Sim, está. - Sentia a textura das pedras de Breu na palma de suas mãos.

Então feche os olhos e durma. Quando acordar, estaremos na Lua.

Dormir... Eu não posso dormir! Não agora!

Ora essa, e por que não?

Quando chegarmos à Lua, uma cena ainda estará acontecendo. Esta cena envolve as sete virtudes, minha mestra e minha... Amiga. Preciso instruí-lo antes de partir para que possa ajudar-me.

Esqueceu que, em Shehaquim, eu li seus pensamentos? Pois então. Eu sei do que se passa lá, e garanto que ajudarei a todos que eu puder. Confia em mim?

Sim... Sim, confio.

Então apenas descanse. Parece estar demasiado exausto. Já cumpriu sua missão, agora cumprirei a minha promessa.

Nisroc transformou-se na besta alada, e Qlon nela montou. –

Agarre-se firme para não cair enquanto dorme.

Qlon apertou as penas douradas de seu amigo e fechou os olhos, deixando novamente sua mente planar no vazio de seus pensamentos. Nisroc, por outro lado, estava preparando-se para o que viria a seguir. Falando em uma língua que não era qualquer uma das que Qlon conhecia, recitou longos versos. Um portal começou a abrir-se à sua frente. Demorou muitos minutos para que finalmente

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estivesse completo, mas assim que o concluiu, voltou seus olhos para Qlon, que dormia pacientemente em suas costas, e disse tranquilamente: –

Durma, criança. Você ainda tem um longo caminho para trilhar...

E, voando, entrou no portal, que desapareceu de vista assim que passaram. … Liberalidade retirou sua espada das costas de Zarat, que caiu no chão ainda sangrando, quase sem vida. –

Rápido, precisamos conjurar um portal e voltar para pegar o invasor! - Dizia enquanto limpava o sangue de sua espada sagrada.

Não precisa nem pedir! Bondade já começou o encantamento! - Falava Paciência, preocupada com toda aquela situação.

Diligência ainda perseguia Lua e não dava sinais de existência. A essa hora, deveriam estar voando por toda colônia lunar, em um jogo de gato e rato. De repente, um portal começava a abrir mais acima da fonte. Um grande portal, grande o suficiente para todas elas atravessarem ao mesmo tempo. –

Mas o quê... - Liberalidade estava perplexa, apenas observando.

Uma pena dourada veio em sua direção como uma seta e atingiu-a na altura do peito, varando-a. Liberalidade caiu em um baque surdo no chão enquanto Nisroc saia do portal em forma de águia, com Qlon seguro em suas costas. –

É o anjo da liberdade! - Gritou Bondade, parando seu encantamento.

Se não quiserem ser mortas aqui, - Disse a águia gigante ao pousar perto da fonte. - sugiro que voltem imediatamente para seu lar.

Os seus olhos dourados estavam repletos de um desejo insano por um combate, mas sua racionalidade mandava evitá-lo. Havia um garoto descansando em suas costas e mais duas pessoas a serem resgatadas. Uma delas, quase morta, já estava presa em suas garras. –

Nisroc! Pare já com isso! - Generosidade pediu. - Não desperdice a chance dada por Haniel.

Eu não estou. Estou a usando por um bem maior. - Com Zarat em suas garras, passou a voar.

Era um pouco difícil naquela gravidade baixíssima, mas conseguia controlar bem o seu voo, como o anjo que era e que representava. Algumas virtudes pensaram em seguí-lo, mas Bondade parou-as. Aquele não era qualquer anjo, não poderiam vencê-lo e sabiam bem disso. Com um último olhar, Nisroc despediu-se das virtudes planando pelos céus de Primitus, procurando pela outra pessoa a

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ser resgatada. … Lua fugia como podia. Não podia voar muito senão a gravidade baixa a atrasaria mais do que poderia ajudar, então o melhor método era teleportando de um canto para outro. De ruela em ruela, beco em beco, a situação ficava mais complicada, pois Diligência a seguia de perto. Um erro e seria seu último. Até que um rugido vindo dos céus parou aos dois. Nisroc pousou na sua frente e os dois pa raram o jogo de pique. –

Nisroc... - Diligência estava assustada por baixo de sua máscara. - Pretende impedir-me?

Lua nada entendia. Estava com um sentimento de medo indescritível, mas então viu Zarat nas garras da enorme besta e passou a acalmar-se. –

Diligência, volte com as outras para os sete céus e deixe essa criança em paz.

Jamais! Ela é a descendente! Irei exterminá-la aqui e agora!

Gostaria de ver você tentando fazer isso por cima de meu cadáver...

Um silêncio abateu-se entre os dois. Diligência mantinha sua espada firme em punho, mas isso não assustava nem um pouco a Nisroc, que ainda mantinha sua postura, inspirando mais do que respeito no coração daquela virtude. –

Vai virar mesmo as costas para o seu lar, Nisroc? Vai mesmo virar as costas para seus criadores apenas para ajudar uma... uma...

Uma inocente que o único crime que cometeu foi nascer. Admita, Diligência, você nem mesmo sabe por que motivo luta, apenas luta. Se quer tanto assim um punhado de sangue para manchar sua espada, venha retirar o meu!

O olhar de Diligência era severo, mas isso não intimidava Nisroc. –

Vai arrepender-se disso! Tornar-se-á definitivamente um caído e jamais poderá retornar aos céus! - Dizia apontando para ele, condenando.

Já fiz a minha escolha. Ande e faça a sua.

Sempre suspeitamos de você e quisemos sua cabeça em uma bandeja... Haniel sempre nos impediu... Acho que estávamos certas no final.

Talvez sim, mas não culpe a Haniel por minhas decisões. São de minha autoria, e nada devo temer por tomá-las sendo o princípio que sou. Agora suma daqui! Não encostará um dedo sequer nesta jovem!

Cometeu seu maior erro, Nisroc. O novo apocalipse está próximo, irá pa-

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gar por seus crimes nele. E serei eu aquela que retirará sua cabeça. –

Se quer tanto assim, faça-o agora. Senão, engula suas palavras sem significado algum e volte para o lugar de onde veio.

Adeus, Diligência.

Diligência deu as costas e voltou por onde viera, antes olhando com o canto dos olhos para aquela cena. Não seria o último encontro entre aqueles dois anjos, com toda certeza. –

Lua é seu nome, certo?

S-Sim, sou eu... Nisroc?

Sim, sou o princípio da liberdade, Nisroc, e falo com você mentalmente agora. Conheci seu pupilo nos sete céus.

Lua imaginava agora o pior. –

Ele... Morreu?

Não, pelo contrário. Ele conseguiu completar sua missão e repousa em minhas costas. Vim apenas deixá-lo a salvo agora, cumprindo minha promessa. Não apenas ele, mas todos que ele tinha algum vínculo aqui. Creio eu que as sete virtudes não mais a atrapalharão.

Muito obrigada...

Nisroc voltou à sua forma original. Lua excitou-se com aquele anjo de corpo escultural. Em um braço ele carregou Zarat, que ainda sangrava pela perfuração em sua barriga, e no outro carregava Qlon, da maneira que o encontrara após sua queda. Lua surpreendeu-se ao ver o estado de suas asas do lado direito. Embasbacada, tentou arrancar uma explicação de Nisroc: –

O que aconteceu com ele?

Pergunte para o mesmo assim que acordar de seu sono. Creio que será melhor se souber de sua boca.

Deixou os dois corpos no chão, na frente de Lua. Abriu então suas asas douradas, e disse: –

Aproveitarei um pouco do que me fora retirado esses milênios em cárcere. Voltarei a espalhar meu princípio entre os mortais, ver o mundo que fora criado após a batalha que perdi alguns de meus amigos... Quando ele acordar, diga que cumpri minha promessa, e que espero que um dia ele cumpra a dele.

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Direi.

Ele é uma criança especial, cuide bem dele como sua mestra. Este garoto batalhou muito por você, é o mínimo que pode fazer por ele. Ele quase morreu diversas vezes, mas conseguiu cumprir sua missão. Quando crescer, ficará muito forte. Tão forte quanto jamais se imaginaria.

Obrigada, novamente.

Não precisa agradecer. Apenas cumpri com minha promessa. Bem, voltaremos a nos ver algum dia. Até lá, descendente.

Nunca entendera por que a chamavam assim. Mas sentia que agora, com o retorno de seu pupilo, iria. –

Até, anjo da liberdade.

Ele sorriu para ela e teleportou-se dali, retornando ao planeta que um dia inspirara a ser livre. Queria ver os resultados que sua palavra deixara. Queria ver o que tinha inspirado no coração daqueles mortais, e se os seus ensinamentos morreram ou foram resguardados pelas eras. Enquanto isso, Zarat estava jogada no chão. Desfalecia. Tossiu sangue e chamou a atenção de Lua, que virou seu corpo. O seu rosto tinha lágrimas. –

Qlon... Ele voltou?

Sim! Sim, ele voltou! - Lua pegou-o nos braços e mostrou para Zarat.

Ele... Cumpriu sua promessa...

É melhor tratarmos essas feridas antes que venha a óbito! Irei levá-la para...

Não adiantava mais qualquer palavra. Ela já havia partido para junto dos outros anjos que morreram em campo de batalha. Onde quer que fosse, morrera com um sorriso em seus lábios. Era como se tivesse aguardado aquele tempo para morrer, mesmo com o golpe que recebera. Lua pensou em acordar seu aluno, mas não faria isso apenas para mostrá-lo algo triste. … “Acordei. Uma forte dor de cabeça tomou-me de súbito. Sentia todo o meu corpo dolorido. Estava envolto em bandagens e nu, deitado no sofá de Zarat. Tinha por fim retornado a Lunae. Olhei em volta e vi Lua sentada numa mesa, comendo algo. Nisroc não estava mais lá. Procurei por meus pertences e encontrei-os. Minha espada repousava no chão, junto com minha bolsa, que carregava meus itens de sobrevivência, os livros, a pena do anjo da liberdade e as pedras de breu... Zarat! Onde estava ela?” Aos poucos, ele levantou. Lua percebeu e foi acudi-lo:

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Opa, espere Qlon! - Dizia, apoiando seu corpo no dela. - Ainda está cedo demais para tentar caminhar novamente. Está sentindo-se bem?

Onde está Zarat? - Foram as palavras que saíram de sua boca.

Sente-se. Contarei. - Falou, colocando-o acomodado no duro sofá. - Está com fome? Sede provavelmente? Você ficou desacordado por dias e...

Onde está ela?

Lua fez uma expressão de angústia, como quem sabia que aquela hora chegaria, mas não queria que chegasse. Sentou-se ao seu lado e falou: –

Qlon... Após a perseguição, uma águia parou na minha frente para salvar-me.

Era Nisroc! E onde ele está?

Ele disse que voaria por algum tempo pelo mundo para ver como as coisas tinham ficado após sua partida. De acordo com o que ele disse, você concluiu o que foi fazer. É verdade?

Sim, é. Mas o mais importante agora é saber onde está Zarat.

Então... Nisroc deixou o seu corpo e o dela comigo. Enquanto você descansava, ela... Ela morria, Qlon.

Lágrimas brotaram dos olhos do jovem anjo. –

Desculpe. Nada pude fazer para salvá-la. - Disse Lua, sentindo-se impotente.

Tudo bem. Eu já não tinha muitas esperanças de conseguir mesmo, não após o que as virtudes fizeram com ela... E o que você fez com o corpo?

A coisa mais digna que eu poderia fazer: enterrei-o.

Eu gostaria de visitar seu túmulo.

Agora? Nestas condições?

É o mínimo que posso fazer pela mulher que me salvou, não acha?

Lua forçou um sorriso em meio à tristeza do momento. Passou a mão nos cabelos de Qlon, um tanto arrepiados com as pontas queimadas. Ele havia amadurecido um pouco, podia sentir. –

Vamos. Levarei-o lá.

… O túmulo ficava um pouco afastado da cidade, fora dos portões. Era um cemi-

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tério simples, onde os corpos dos outros habitantes eram enterrados onde houvesse um espaço. O túmulo de Zarat não tinha sequer uma lápide decente. Era como todos os outros, apenas uma cruz feita de madeira. Um pedaço rasgado de seu vestido estava amarrado a ele, para lembrar a quem pertencia. Qlon ajoe lhou-se ao ficar próximo. –

Ela morreu sorrindo Qlon, por saber que você estava bem e tinha cumprido com sua promessa. - Disse Lua, tentando consolá-lo.

É... E é triste saber que jamais poderei cumprir a promessa que fiz para ela. Zarat Xcallber... Ela morreu por mim. Lua...

Sim, Qlon?

Se um dia eu for rei, colocarei o nome dela na história. De alguma forma. Mas até lá, fico triste ao saber que a única recordação, que a única lem brança que terei dela, serão estas pequenas duas pedras que carrego em minha bolsa e as lembranças que eu tive de seu rosto. Um dia, trarei flores para adornar seu túmulo. Um dia.

É. E neste dia, já estará forte o suficiente para entrar numa guerra sozinho. Até que seu treinamento se conclua, não vou deixar que retorne aqui, Qlon. Como sua mestra...

Mestra?

Sim, mestra. Não vou mais renunciar este cargo por besteiras, ainda mais depois do que fez por mim. E como sua mestra, não quero que ve nha mais aqui. Não enquanto não for forte o suficiente para enfrentar os perigos sozinho.

E por que não?

Já errei em ter deixado que fosse, Qlon. Por mais que tenha aprendido lá, sofrera, posso ver pelas marcas em suas asas. Você ainda é uma criança, e passou por diversas coisas que jamais deveria ter passado nesta idade. Mesmo o presente que Zarat o deu... Foi cedo demais para você receber. Enquanto dormia, eu pensava em como fui uma professora desleixada com meu discípulo. Em como pude ser tão egoísta e burra apenas para saciar a minha curiosidade. Garanto que, a partir de hoje, isso não se repetirá. Confia em mim?

Mestra... Sim, eu confio. - Respondeu.

Então, Qlon, vamos voltar. Voltar para a Base, voltar para Aeria. Lá te ensinarei tudo aquilo que aprendi com os grandes mestres, tudo aquilo que deverá saber para se tornar o maior guerreiro que nosso reino já viu. Tudo que precisa aprender para, até mesmo, superar seu pai.

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Obrigado, mestra.

Mas temos um problema, Qlon.

Qual?

Como vamos esconder essas suas asas agora?

Realmente, aquilo acabaria sendo um empecilho para sua estadia na Base. Se mais alguém o visse assim, provavelmente teria uma grande dor de cabeça para explicar como conseguira três grandes asas negras. –

É mesmo... - Ponderou Qlon. - Não há nenhuma magia que as deixe brancas novamente?

Uma magia para mudar a cor de suas penas? Impossível. Acho que nem se atirássemos tinta nelas. Asas negras são a marca do pecador, não podem ser ocultadas assim.

Há alguma outra forma?

Sim, existe. Mas isso vai consumir muita de minha energia. Criar uma ilusão na mente das pessoas não é nada simples. Ou mesmo escondê-las, que é algo virtualmente simples...

Se você me ensinar, eu poderia usá-la para proteger-me?

Sim, poderia, mas antes... Vamos voltar, Qlon. Conversaremos essa e mais coisas quando chegarmos em casa.

Qlon saiu andando com Lua pelo cemitério, prometendo que um dia retornaria para lá e visitaria sua amiga morta. Os dois permaneceram em silêncio enquanto caminhavam pelas ruas quase desertas de Primitus e selavam a casa de Zarat, como forma respeitosa de dizer seu adeus. Ficaram em silêncio até chegarem aos portais de ferro enferrujado da entrada. –

Então Qlon, o que foi que descobriu em sua missão? - Perguntou Lua.

Quando chegarmos em casa, contarei. - Respondeu Qlon, ainda pensando em tudo que lera no quinto andar do reino celestial.

É tão grave assim?

Não, mas creio que não gostará de saber. Há muito para eu contar.

E há muito para ensinar. Teremos todo o tempo do mundo para que me conte tudo que aconteceu lá...

O silêncio novamente pairou entre os dois. Teleportando-se, passearam pela vastidão lunar até encontrar uma vista de seu planeta para que, por fim, deixassem a entrada dos sete céus.

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Continua...

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Agradecimentos Especiais Primeiro, gostaria de agradecer a meu amigo Marcos Passos. Sem ele, meu sonho de criar um livro seria impossível. Estou no site desde seu surgimento, evoluindo em conjunto. Marcos sempre me apoiou em meu sonho, e gostaria que ele soubesse que sempre o apoiei neste projeto que promete revelar muitos escritores de qualidade. Em seguida, agradeço aos meus parentes e professores, que me suportaram e criaram, passaram por momentos muitos difíceis e cansativos para isso e merecem toda a minha gratidão. Também agradeço aos meus primeiros leitores: Tanize, Lucas, Jhan, Paul e Douglas, por me incentivarem e darem exemplos de que não estou sozinho neste mundo de letras em pedaços de papel. Encontrei em vocês uma forte amizade, atada pela paixão que temos em comum pela escrita. Também agradeço à minha fã número um (ou ao menos assim ela é auto-intitulada) Fabiely. Sempre paciente para ler meus textos, me ajudar com algumas correções simples, criticar e, de quebra, divulgar. Suportou também ser minha amiga, uma tarefa difícil que Camila Araújo, criadora da magnífica capa deste livro e grande companheira (além de minha escritora favorita, autora da série Legend of Raython) sabe muito bem como é. Ela também me ajudou e nela encontrei mais um exemplo para me apoiar. Mais recentemente, tenho de agradecer ao pessoal do RealNerd no Facebook (facebook.com/RealNerd) pelo excelente trabalho de divulgação que fizeram para mim. Paulo Siqueira, está aqui meu agradecimento, espero que goste. Por fim, mas não menos importantes, a todos os meus leitores, que, apesar de serem poucos, também melhoraram minha escrita indiretamente. Fiz isso por vocês e para vocês. Não fiquem tristes se seus nomes não aparecerem aqui, pois não cabem mais em uma página, mas saibam que sou grato aos seus incentivos e elogios, nos quais me apoiei para ir adiante. 297


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Notas Especiais Os idiomas Angelical e Enoquiano existem, mas não são pronunciados e escritos da mesma forma que aparecem neste livro. Caso queiram informar-se mais, existem diversos materiais espalhados pela internet e livros que tratam do assunto. Comecem pesquisando isto em conteúdos relacionados a ocultismo, apenas como uma dica. O Latim usado neste livro é de origem duvidosa, mas acreditem: fiz o máximo possível para corrigi-lo, usando de Dicionários de Latim até apostilas de Latim e consulta com professores de Latim (e minha namorada, que teve aulas de Latim. Caso tenham alguma correção gramatical, falha de roteiro, dúvidas, sugestões, agradecimentos, críticas... Estarei apto a recebê-las no e-mail: vinicius_rurouni666@hotmail.com Obrigado!

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Os Sete Céus - O Chorar dos Anjos, Livro I  

Primeiro livro da saga amadora "O Chorar dos Anjos". Todos os direitos reservados!

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