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O I N ÍCI O DO U N I VERS O

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A história que eu vou contar é sobre o início do universo. Alguém sabe a história do início do Universo? Não? Nem eu sabia, aprendi ainda agorinha! No início de tudo, eram duas extensões: o céu e o mar. O céu era habitado pelo rei Olorum, ele vivia plenamente no seu universo, no seu reino. E o mar era habitado, era reinado, pela rainha Olocum. Vivia também bem, mas não tinha grandes coisas lá não, só tinha mar. Uma coisa chata, não tinha marido... Uma coisa muito chata. Então, um aprendiz de deus, chamado Obatalá, olhou pra extensão debaixo e disse: – Caramba, que lugar feio! Não tem vida lá, vou ter que chegar com alguém e falar que precisa de vida nesse lugar. Aí chegou lá com Olorum e disse: – Majestade, na extensão debaixo é só cinza, é feio, é desprovido, eu queria mudar, eu queria algo diferente, montanhas, lagos, extensões, pássaros, animais, vida... lá não tem! Aí Olorum ficou pensando... Realmente! Essa ideia é boa, mas quem vai fazer isso? Eu não posso sair daqui, tô muito bem aqui. Aí: – Eu! Eu! Se o senhor quiser, eu tô aqui. Eu vou lá. Se o senhor me permitir, eu vou lá. Na hora! – Então, você tem que primeiro passar pelo meu filho, que ele faz umas previsões pra você ver se vai dar certo ou não. – Tá, tudo bem. Ele chegou lá com o filho dele e disse: – Orunmilá, queria saber: se eu for naquele lugar feio, tentar fazer ele ficar bonito, vai dar certo? – Vai! Na hora! Vamos lá, você só vai precisar de uma concha com areia, uma galinha, um gato preto e uma tâmara. E outra coisa, pra você chegar até lá, você não vai chegar voando, você não tem asa, não vai chegar voando, você vai ter que construir uma corrente de ouro, aí você vai poder chegar até lá. Aí ele: – Tudo bem. Chegou lá no ferreiro: – Senhor, o senhor tem que fazer uma corrente pra mim que eu tenho que chegar lá naquela extensão debaixo. Ele disse: – Oh, negócio é o seguinte. Não tem ouro suficiente pra fazer a corrente. Aí ele: – Mas nós vamos já pedir ajuda. Pediu ajuda de toda a comunidade do reino pra conseguir o ouro. Quando a corrente tava pronta, Orunmilá chegou com ele e um saco com a galinha, a tâmara, o gato preto e a concha com areia, deu pra ele e ele começou a descer. Quando chegou num certo ponto, ele disse: – meus deuses, num dá! Acabou a corrente e eu ainda tô longe. Ficou lá pendurado, pensando. Aí ele ouviu uma voz de Orunmilá: – EEEI! OBATALÁÁÁ! Jogue a concha com areia, homem, deixe de ser besta. Ele jogou a concha com areia. E a concha se transformou no firmamento. A areia que tava dentro da concha se transformou no firmamento e as areias maiores se transformaram nas montanhas e nas colinas, e foi se transformando. – E, AGORA, JOGUE A GALINHA! Aí ele jogou a galinha. A galinha começou a ciscar pra expandir o firmamento. E, quando ele viu que já tava o firmamento, ele pulou. E, quando ele pulou, ele ficou muito feliz. Aí chegou lá, cavou, colocou a tâmara, e imediatamente surgiram várias árvores, foi uma confusão! Uma coisa bela começou a aparecer, foi bom e tudo muito lindo! E o gato preto? Cadê o gato preto? O gato preto só ficou servindo de companhia pra ele, porque ele não tinha mulher. Foi isso! Obatalá ficou sendo o deus da terra; Olorum, deus do céu; Olocum, rainha do mar. E é isso. Contada por Emília Katyana dos Santos Dourado em 201 4, na comunidade quilombola de Saracura, Santarém/Pará/Brasil.

ORIXÁS CABOCLOS E ENCANTADOS  

Livreto de histórias resultado do projeto "Laroyê!: a magia dos orixás dos terreiros às escolas" realizado por Lorena Anastácio e Vinícius D...

ORIXÁS CABOCLOS E ENCANTADOS  

Livreto de histórias resultado do projeto "Laroyê!: a magia dos orixás dos terreiros às escolas" realizado por Lorena Anastácio e Vinícius D...

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