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ORIXÁS CABOCLOS E ENCANTADOS Livreto de Histórias Projeto Laroyê! A magia dos Orixás dos terreiros às escolas


ORIXÁS CABOCLOS E ENCANTADOS Livreto de Histórias Projeto Laroyê! A magia dos Orixaá dos terreiros às escolas


COORDENAÇÃO DE EDUCAÇÃO ETNICORRACIAL COORDENAÇÃO DE ESCOLAS QUILOMBOLAS SEMED/SANTARÉM/PARÁ

AFRO­­RELIGIOSOS

SANTARÉM/PARÁ


COORDENAÇÃO DE EDUCAÇÃO ETNICORRACIAL COORDENAÇÃO DE ESCOLAS QUILOMBOLAS SEMED/SANTARÉM/PARÁ

AFRO­­RELIGIOSOS

SANTARÉM/PARÁ


ORIXÁS CABOCLOS E ENCANTADOS Organizadores Vanessa Lorena Anastácio Vinícius André Diniz Moreira


ORGANIZAÇÃO: Vanessa Lorena Anastácio PRODUÇÃO: Vinícius André D. Moreira ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Telma Bemerguy EDUCADORES: Vanessa Lorena Anastácio Vinícius André D. Moreira CAPTURA DE ÁUDIO: Israel Palestina FOTOGRAFIA: Israel Palestina Vinícius D. Moreira Lorena Anstácio Telma Bemerguy

DESENHOS:

Escola N. S. do Livramento Escola São Sebastião TRANSCRIÇÃO: Lorena Anastácio Telma Bemerguy REVISÃO DE TEXTO: Cristina Borges Lorena Anastácio DESIGN GRÁFICO: Vinícius D. Moreira TRANSPORTE: Terrestre: UFOPA/Marcelo Santos Flúvial: Barco Universo Urbano: Telma, Lorena Vinícius COZINHEIRAS: Murumurutuba: Rosielce Fernandes, Fabíola Reis e Rosiane Santos Saracura: Escola N. S. do Livramento

WWW.LAROYE.ART.BR

CONTATOS

Vanessa Lorena Anastácio (93) 91 350455 (31 ) 9999-9667 vlanastacio@gmail.com www.trupemalalo.blogspot.com.br

www.trupemalalo.com Vinicius D. Moreira (31 ) 9821 -1 61 7 vinimo@gmail.com ASSOCIAÇÃO CECÍLIA FÉLIX DOS SANTOS


ÍNDICE LAROYÊ, EXU...................................05 PREFÁCIO.....................................................................08

CAPÍTULO 01: O DONO DA MINHA CABEÇA: HISTÓRIAS DE VIDA E CABOCLOS

O PODER DA CABOCLA MARIANA E DE OMULÚ..................12 MINHAS CABOCLAS MARIANA E ERONDINA........................13 MINHA CABOCLA MARIANA..........................................15 MEU CABOCLO TUPINAMBÁ..........................................17 HISTÓRIA DO CABLOCO TUPINAMBÁ.....................19 O ERÊ..............................................................20 AS OFERENDAS...............................................................25 MEU CABOCLO ZÉ MINEIRO ................................................23 CAPÍTULO 02 : ORIXÁS LINGUA DE EXÚ.....................................................26 O INÍCIO DO UNIVERSO.....................29 A TERCEIRA MULHER DE XANGÔ..................30 O REI QUE PROIBIU O SACRIFÍCO HUMANO.....................32 O PODER DE XANGÔ........................................................34 COMO A SENHORA DAS CABEÇAS ENLOUQUECEU O MARIDO..........35

IEMANJÁ SE TORNA RAINHA DO MAR............................36 OXUM EXIGE O PROMETIDO...............................................38 O CAÇADOR NÃO RESPEITA O TABU.........................................39

CAPÍTULO 03: ENCANTADOS O SERINGUEIRO.........................42 A SAPONA ....................................... 43 CALÇA MOLHADA...............................................44 O CURADOR ZÉ PINTO............................46 O HOMEM DA CASTANHEIRA QUEIMADA...............49 FOGO.......................................................50 MENINO DE BREU.................................................52 HISTÓRIA DA SAPA.................................................53 OUTRA HISTÓRIA DE SAPA...........................54 QUILOMBOS DO BAIXO AMAZONAS..............................58 AGRADECIMENTOS..........................................................59


Referências bibliográficas Projeto Laroyê! A magia dos Orixás dos Terreiros às Escolas: ANASTÁCIO, Vanessa Lorena; MOREIRA, Vinícius André Diniz. A palavra do contador de histórias na contemporaneidade: oralidades em performance. BEATA DE YEMONJÁ, Mãe. Caroço de Dendê: a sabedoria dos terreiros: como ialorixás e babalorixás passam conhecimentos a seus filhos. 2 ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2008. CARAM, Cecília, Andrés; MATOS, Gislayne Avelar. O conto na escola: considerações sobre a arte de contar. MARTINS, Adilson. Lendas de Exu. Rio de Janeiro: Pallas, 2008. p. 1 1 a 1 6. MATOS, Gislayne Avelar. A palavra do contador de histórias. SP: Martins Fontes, 2005. MATOS, Gislayne Avelar. A preparação do conto e do contador. MATOS, Gislayne Avelar. Manfei Obin. Trad. Gislayne Avelar Matos. Atelier Aprendendo a Contar Contos. Belo Horizonte: Projeto Convivendo com Arte, 1 996. p. 1 0-1 5. MATOS, G A. e SORSY, I. O ofício do contador de histórias. Martins Fontes, 2005. MATOS, Gislayne Avelar. Os contos no processo educativo. . HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. SOVIK, Liv. (org). Trad. Adelaine La Guardia Rezende [et al.]. 2 ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 201 3. PRANDI, Reginaldo. (org). Encantaria Brasileira: o livro dos Mestres, Caboclos e Encantados. Rio de Janeiro: Pallas, 201 1 .PRANDI, Reginaldo. Os príncipes do destino: histórias da mitologia afro-brasileira. São Paulo: CosacNaify, 2001 . PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 . PRANDI, Reginaldo. Ifá, o adivinho. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2004. PRANDI, R. Os príncipes do destino: histórias da mitologia afro-brasileira. SP: CosacNaify, 2001 . PRANDI, Reginaldo. Oxumaré, o Arco Íris: mais histórias dos deuses africanos que vieram para o Brasil com os escravos. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2004. PRANDI, Reginaldo. Xangô, o trovão. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2004. POINT, Anna Soler-Pont. O príncipe medroso e outros contos africanos. Trad. Luiz Reyes Gil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. VERGER, Pierre Fatumbi. Lendas africanas dos orixás. Trad. Maria Aparecida da Nóbrega. 4 ed. Salvador: Editora Corrupio, 1 997. VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses Iorubás na África e no Novo Mundo. Trad. Maria Aparecida da Nóbrega. Editora Corrupio/Círculo do Livro: São Paulo, 1 981 . VERGER, Pierre Fatumbi. Notas sobre o culto aos orixás e voduns: na Bahia de todos os santos, no Brasil e na antiga costa dos escravos, na África. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Editora Corrupio/Círculo do Livro, 1 981 .


LAROYÊ, EXU.

Olha quem vem lá no portão, de Capa e Cartola e pé no chão. Será seu Capa Preta, será, será, Será seu Marabô, será, será, Será Exu do Lodo, será, será…

Antes de tudo peço licença aos meus mais velhos para colocar a minha voz nessa roda de contação de histórias. A oralidade é o grande princípio mantenedor das religiões e filosofias de matriz Africana e Afro-brasileira. Mas o que contam e recontam essas vozes? Quais são as suas tramas, as suas texturas, o seu ritmo, os seus segredos? As famosas histórias e lendas envolvendo os Exus, os Caboclos, Encantados e os Orixás estão repletas de ensinamentos sobre como podemos enfrentar os infortúnios e as adversidades da vida. Elas também nos mostram a beleza de viver plenamente as nossas paixões mais arrebatadoras e os nossos amores mais serenos. Se eu pudesse resumir diria que são histórias que nos ensinam a ser altivos e fortes tanto nos tempos de paz como nos tempos de guerra. Mas, quem canta e conta essas histórias? Para essa tarefa litúrgica há um grupo de sacerdotes e iniciados que chamamos afetuosamente de os nossos mais velhos. Falamos dessa maneira quando nos referimos àquelas pessoas cuja função é nos ensinar os melhores caminhos para colocarmos os nossos pés na longa estrada da vida. Nas religiões afro-brasileiras os mais velhos, ou seja, aqueles que atingiram um certo nível de conhecimentos cerimoniais e rituais são profundamente respeitados por toda a comunidade. Sendo assim, em que ocasião especial podemos aprender com os nossos mais velhos? A resposta vem sem rodeios: a cada instante em que nos colocamos em contato com eles. Por exemplo, quando estamos num espaço sagrado de uma Casa ou de um Terreiro tudo o que se vê, o que se ouve, o que se toca, o que se sente no corpo é aprendizado. E essa é uma relação tão profunda que chegamos mesmo a aprender quando os nossos pés descalços tocam o chão, porque dessa forma estamos entrando em contato direto com os nossos antepassados, com a nossa história, com a nossa memória coletiva que tem nome, chama-se África. As Divindades e Entidades também nos contam e cantam? Sim, eles nos falam em diferentes momentos e a partir de diversos lugares. Eu gosto de pensar na rica experiência de participar das festas em homenagem aos Caboclos ou aos Orixás. Essas celebrações costumam ser abertas ao público e 5


fazem parte do calendário religioso de todas as Casas e Terreiros de Santarém. Nessas ocasiões podemos sentir como se o espaço e o tempo se diluíssem até desaparecerem por completo como num sonho. Esse efeito mágico é produzido dentro da gente naquele exato momento em que a Cabocla Mariana gira a sua saia rodada e exala o seu perfume pelo Barracão. Da mesma maneira, esse encantamento pode nos atingir quando os nossos ouvidos percebem a força melódica do Adarrum que faz bailar os Orixás. E ainda ao sentir a maciez de um tecido que pode lhe roçar o corpo por acaso, ou ainda ao perceber a elegância de Exu quando anuncia a sua presença. Quem teve a oportunidade de entrar num território sagrado como são as Casas e Terreiros de Umbanda, Mina e Candomblé da cidade, sabe exatamente do que estou falando. Porque a experiência de ser atravessado por essas sensações é uma dimensão importante para a compreensão dos processos de transmissão das tradições religiosas afro-brasileiras. Para essas religiões o ato de ensinar-aprender envolve a totalidade do nosso corpo, das nossas extensões sensoriais e ancestrais nos ligando simultaneamente ao mundo dos vivos, dos mortos e daqueles que ainda não nasceram. Essas filosofias e teologias não fragmentam o corpo em frações como se fosse uma engrenagem, e nem mesmo nos resumem a um mundo do presente sem laços ancestrais ou futuros. O que elas fazem na verdade é amplificar os nossos corpos e as nossas vozes para outros mundos possíveis. O valioso trabalho realizado no âmbito do Projeto Laroyê! Abrindo caminhos dos Terreiros às Escolas Quilombolas resultou numa costura poética entre universos de conhecimento dos mais ricos que podemos encontrar no país. De uma lado, temos a força inventiva e a vanguarda das escolas quilombolas e, do outro, as nações Jeje, Jeje-nagô, Angola, Savalu, Ketu, Caboclo, a tradição da Pajelança e dos Sakaka. Tal como disse antes, essa tecitura poética pode se transformar num poderoso antídoto contra o racismo que muitas vezes impõe uma separação absoluta entre comunidades quilombolas e as comunidades tradicionais de terreiro pelo Brasil afora. Esse tipo de afastamento se alimenta, sobretudo, de dinâmicas sociais que produzem o esquecimento. E por essa razão, devemos contar e (re)contar as nossas histórias a fim de reconstituir laços que podemos ter deixado pelo caminho. Oxalá, tenhamos sabedoria para colaborar cada vez mais com essas aproximações e que elas sejam duradouras! Axé. Carla Ramos 6


Orixรก Exu, mensageiro e guardiรฃo das encruzilhadas e da porta da rua.


PREFÁCIO As histórias aqui transcritas foram gravadas em rodas de contar e ouvir histórias com contadores e aprendizes de contadores na cidade de Santarém e nas comunidades quilombolas de Murumurutuba e Saracura. Murumurutuba na região do planalto e Saracura na região de várzea do rio Amazonas, ambas no município de Santarém. São histórias de vida, caboclos, orixás e encantados da região. Estes lugares cercados pela fluidez das águas estão repletos destas histórias que vieram como a força de um banzeiro no curso de Contação de Histórias e Produção de Livreto. As rodas de contação de histórias e as rodas de diálogos organizadas pela equipe e participantes deste trabalho fizeram girar a “palavra” de contadores e aprendizes. Os olhos e ouvidos repletos de curiosidade dos mais velhos, jovens, adultos e crianças fizeram das escolas, universidade, terreiros e quintais, lugares por onde passamos, espaços lúdicos de ensino, aprendizado e memória. A poesia oral é o lugar onde a memória se renova, o passado se apresenta e se transforma e o futuro se projeta. É também o lugar do encontro entre a tradição e o novo. Buscamos com este trabalho vivenciar a estética da oralidade poética do contador de histórias. Promovemos o encontro de gerações rememorando histórias de vida e fortalecendo a memória coletiva afro-brasileira e afro-religiosa na região. Neste livro os textos foram transcritos buscando guardar a característica poética dos contos na oralidade. O registro das histórias foi feito em uma linguagem em que convivem diferentes aspectos da fala, como: o ritmo, as repetições, as hesitações e as estruturações sintáticas e semânticas próprias da oralidade e, mais especificamente, na maioria dos textos, próprias do dialeto paraense. Ou seja, a literatura oral dos contadores é traduzida para a escrita, procurando-se o trânsito entre as duas linguagens. Por este motivo, o leitor encontrará nos textos um tipo de escrita com a qual não está acostumado a conviver em outros livros vinculados à tradição da escrita.

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No curso trabalhado, lemos histórias de tradição oral registradas por diferentes autores, com diferentes opções de estilo, também ouvimos muitas histórias dos mais velhos e dos sacerdotes afroreligiosos das regiões por onde estivemos. Cada pessoa que conta o faz com sua experiência cotidiana, suas vivências acumuladas, suas referências culturais, enfim sua memória corporal e afetiva. Foi por isso que, na montagem deste livro, optamos pela gravação e transcrição dos contos, buscando a valorização das diversas vozes e estilos que serviram como suporte para as narrativas. Mas como expressar na escrita a sinergia entre o contador e o ouvinte? Como colocar no papel a emoção do ouvinte? Como representar, através da escrita, as pausas e acelerações de fala do contador? Esses são alguns desafios enfrentados ao transpor a voz para a letra, desafios que mostram o quanto a oralidade e a escrita são sistemas diferentes. Esta diferença ser observada na maravilhosa “História do caboclo tupinambá”, que, como uma exceção ao método usado neste livro, não é fruto de uma transcrição. A história foi escrita por seus contadores. Assim, temos uma situação interessante: uma história já contada e recontada de memória foi aqui escrita por seu tradicional contador. Se você observar bem, a história, mesmo nos apresentando o sistema da escrita, guarda ainda certo fluxo da oralidade, como se pudéssemos ouvir a voz do contador ressoando por trás de sua escrita. Esperamos que, ao ler estas histórias, você sinta a mesma emoção que sentimos nas rodas, e vibre com cada história de vida, de caboclo, de orixá e de encantado. Histórias com as quais, generosamente, estes magníficos contadores, anciões de suas comunidades, pais e mães de santo, jovens estudantes, professoras e professores nos presentearam, permitindo sua publicação. Lorena Anastácio

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" EU AMO MINHA SANTA, NOSSA MÃE OIÁ , DEUS ABENÇOE. MAS O CABOBLO, ANTES DOS ORIXÁS, DA NAÇÃO CANDOMBLÉ KETO, JEJE, ANGOLA, EXISTIAM OS CABOCLOS. ANTES DOS ORIXÁS VIM PRO BRASIL, JÁ EXISTIA. EXISTIA OS CURANDEIRO, EXISTIA PAJELANÇA, AS BENZEDEIRA, AS PARTEIRA..." PAI EDIVANEI

"CABOCLO É TEMPO, GENTE! ELE É TEMPO! ELE É VENTO! ELE PODE TÁ EM QUALQUER LUGAR, EM QUALQUER HORA E SE TRANSFORMAR NO QUE QUIZER. DA FOLHA DO CHÃO À FOLHA DO TEMPO. ISSO É CABOCLO!" MÃE KÁTIA

" A DIFERENÇA ENTRE ORIXÁ E CABOCLO É QUE O ORIXÁ É SANTO . ORIXÁ NÃO FALA, ELE NÃO ABRE OLHO. CABOCLO FALA, CABOBLO BEBE, CABOCLO FUMA." PAI CLODOMILSOM DE OGUM


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CAPI TULO1 O DONO DA MINHA CABEÇA: HISTÓRIAS DE VIDA E CABOCLOS


O PODER DA CABOCLA MARI ANA E DE OMULÚ

Vou contar mais uma história. Um dia chegou uma pessoa chorando na minha casa. Chorando, chorando: – Ai, Dona Brígida, pelo amor de Deus, meu pai perdeu a perna e tá na UTI. Aí eu perguntei: – Mas o que tu queres que eu faça? – Não, porque o fulano me mandou aqui, que a senhora faz isso. – Pera lá. – Não, porque eu quero! – Não, pera aí, não é assim. Eu vou passar um negócio aqui, mas você vai ter que entrar lá na UTI, você vai? – Vou, claro, Mãe Brígida! Noutro dia, eu disse: – E agora? Sempre a gente tem vela dos clientes, aí eu coloquei uma vela lá no pé de Omulu. Aí vocês vão

perguntar quem é Omulú? É o deus da peste da doença, e eu fui pedir a cura pras pessoas. Aí fiz minhas coisinha! Pão, os deboru, que são as pipoca... Fiz as trouxinhas tudinho. – Menina, tu vai passar isso no teu pai? – Vou sim senhora. Aí ela pegou uma bolsona desse tamanho. Na hora que ela foi visitar o pai... Eu digo: – Vai! Aí tu pede pra Cabocla Mariana, já que tu vieste atrás dela, que ela vai te guiar e ela vai fazer com que desapareça todo mundo de lá, pode ir lá, vá lá! Ela foi lá. Chegando lá, ela disse: – Cabocla Mariana, me dá um axé aqui, eu quero a cura do meu pai! Sumiu todo mundo da UTI, ficou só ela. Eu disse: – Depois que tu passar tudo isso no teu pai, tu vai nas águas lá em frente daquela praça do pescador da orla, tu joga naquela ribanceira de água, que vai embora. Ela me contou que fez tudo direitinho. Menina, isso aí foi de manhã! Quando foi de tarde, ele começou a se mexer, aí começou a abrir os olhos. Aí o médico disse assim: – Não tô entendendo mais nada, ele tava quase parando o coração... Olha! Eu fiz a festa da Cabocla Mariana, essa menina deu um boi, um boi pra Cabocla Mariana. E o pai dela foi! A cabocla Mariana disse que ele ainda ia lá na minha casa, e ele foi. De cadeira de roda. Tá são e vivo. Agora ele colocou uma perna mecânica. Contada por Mãe Brígida em 201 4, Roda de Contação de Histórias, Santarém/Pará/Brasil.

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depois da minha separação eu vim ter um menino que é a cara dele. É uma ladainha a minha história, se for contar tudo tim tim por tim tim, passa um mês! Hoje em dia, minha filha é evangélica do sétimo dia, minha irmã é testemunha de Jeová, todas essas coisa. Aí meu exmarido teve um problema muito sério, e a minha filha, quando ela ainda não era evangélica, disse assim: – Papai, por que tu não vais com a mamãe? Eu já vi a mamãe curar tanta da gente, por que ela não pode lhe curar? Aí ele foi e eu fiz um ebó nele, pedi ao senhor Omulú a cura dele, a saúde, e quando ele foi no médico de novo fazer novos exames, o médico disse: – Não tô entendendo, Bastos, não tá mais aparecendo nada da doença que tu tava. Desde aí, hoje em dia, meu exmarido respeita, quando dá pra ele ir nas minhas festas, ele vai. Então, são umas histórias assim maravilhosas!


MINHAS CABOCLAS MARIANA E ERONDINA

Minha mãe era mãe de santo na Umbanda. Eu casei com quinze anos, e o meu marido era daqueles ferverento católico. Aí eu tinha que ir pra igreja e me benziam, me benziam, aí eu virava o zezeu, batia as pernas, eu dormia engatada no meu marido, no meu ex-marido, e aquilo me agoniava! Só veio melhorar quando eu servi o povo! A minha mãe era mãe de santo na Umbanda, aí eu olhava assim a mamãe fazendo os trabalhos dela e tudo... Aí eu casei com quinze anos, mas eu já sentia, já vinha sentindo: corria na rua, não conseguia estudar, era uma perturbação, uma coisa fora do natural! E aí eu me casei, namorei esse meu marido, meu ex-marido, que eu tenho dois filhos. Aí a mamãe disse assim pra ele: – Olha! Tu vais casar com a minha menina... Ah, porque naquela época ninguém podia se beijar, e me acharam já me beijando com esse meu marido, pai dos meus filhos. Aí me botaram pra casar, com quinze anos, coitadinha! E ele com dezoito anos. E, quando eu casei, aí que o negócio piorou, eu comecei correr, começou me dar aqueles problemas de aceleração do coração, perturbação mental e haja médico, haja médico. Meu ex-marido gastou o que ele não tinha com médico. Foi um transtorno muito grande que eu passei. Aí passou, passou, e eu engravidei. Primeira gravidez minha, eu abortei, perdi o primeiro filho. Aí, depois de quatro anos, eu engravidei da minha filha que está em Portugal.

Quando eu engravidei dela, aí que me atacou. Me atacou, me atacou, me atacou. Quando ela tava no primeiro mês dela, eu não consegui conviver com ela. Aí me levaram no terreiro. Antes disso, eu só vivia amarrada. Me amarravam e eu me desamarrava e sumia dos hospitais, principalmente aquele hospital ali da orla que até derrubaram, a casa de saúde da orla. Naquela época era o Dr. Pamplona. E eles amarravam e davam sedativo. Quando passava aquilo ali, eu ficava boazinha, me desamarrava e sumia. E foi passando... mas, quando eu tive minha filha, aí começou me atacar, me atacar, me atacar... A Mãe Nazaré Rufino, naquela época, chegou em Santarém. Aí disseram: – Leva essa tua mulher lá na Nazaré Rufino, que era ali, perto da travessa dos mártires, no centro. Aí me levaram lá e eu fiquei sentada lá, agoniada, agoniada, me agoniava. Aí desce a Cabocla Mariana: pã! Vira o zezeu. Eu tava bem sentadinha lá quando: pã! Me deu aquela vontade de quebrar tudo, aí arriou a Cabocla Erondina. Nessa época eu ficava doida, maluca, eu ficava porque esse meu marido não me levava pra uma pessoa rezar. E a mamãe que me rezava, mas o negócio foi feio, não é fácil. Meu ex-marido não aceitava, aí que eu sofri, aí que sofria mesmo! Aí me levaram, aí arriou a Cabocla Erondina. Ela disse: – Olha, tu não vais aceitar, tu não tás aceitando, mas tu vai aceitar, porque ela vai separar de ti e ela ainda vai ter vários maridos. Aí ele disse: – Mas a senhora é um demônio! Aí começou essa história de demônio, credo em cruz, aquelas coisas toda. Eu sei que nessa coisa eu ainda vivi dez anos com ele, mas nós separamos, eu me separei grávida. E

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Histórias de Mãe Brígida Terreiro de Mina Iansã


pro-vocar aquele sangue todo coalhado, meu corpo foi limpando. Então por isso eu prezo, zelo muito. Então, pra mim, abaixo de Deus, e de Cristo, da Virgem Santíssima, a Mãe Mariana, depois deles, em primeiro lugar. Ela que me dá vida, me dá caminho, cuida de minha vida, cuida da vida dos meus irmãos hoje em dia. E de muitas pessoas que vão em busca de pedir um auxílio, uma palavra amiga, uma palavra de con-forto, uma palavra de esperança, porque é isso que às vezes as pessoas vão buscar numa casa de santo. Já vão num momento assim que já é dificultoso, sem um socorro preciso, sem um socorro presente. Então o que eles fazem? Bate nas nossas portas e nós te-mos que fazer o quê? Abrir as portas e os braços. Conduzi-los pra tentar encontrar um caminho melhor pra suas vidas. A história de Cabocla Mariana começa assim. Três irmãs: Mariana, Jarina e Erondina. Filhas de um turco que foram desprezadas um pouco pelo pai. Uma foi pras águas, outra foi pra mata, também se torna pelas águas também. São três irmãs que se encantaram por causa da perversidade do pai. E aí depois foram se difundindo dentro do nosso Brasil! Contada por Pi Edvanei em 201 4, Roda de Contação Histórias, Santarém/Pará/Brasil.

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resumiam em três. Aí foi aquele alvoroço todo e mãe Mariana lá, perseguindo, perseguindo... Aí surgiu um médico que tinha recém chegado de São Paulo, olhou e disse: – O que está acontecendo com este menino? Aí minha mãe pegou e falou pra ele. – Então, por que a senhora ainda não fez o que esta mulher branca que está do lado dele esta mandando? Além dele ser médico, ele era sensitivo! Ele tinha o dom da visão, eu não enxergava ela. E minha mãe, a família, ali, todo tempo: Jesus! Glória! Isso e aquilo, daquele glamour todo do pessoal que pensa que Cristo é surdo. E minha mãe só chorando, chorando. – Eu vou tirar ele de lá, que ele morre pra casa. Com três dias que eu estava em casa, me deu uma crise muito grande de convulsão, e sempre saía aqueles pedaços de sangue. Minha mãe se desesperou e queria me levar de volta pro pronto socorro porque a família tava em cima: – Tu vai matar teu filho! Tu vai deixar teu filho morrer! Tu não pode crer numa coisa que você não tem conhecimento, que vo-cê não sabe nem o que é. E minha mãe pegou e na hora que minha mãe me levou lá, estava esse médi-co. Ele disse: – Dona Maria, leve seu filho. Se esta entidade falou pra senhora levar o seu filho pra casa, é pra senhora levar. Depois que eu terminei de


MINHA CABOCLA MARIANA

Eu trabalho com a cabocla Mariana, pai Zé Raimundo, seu Zé Mineiro, Seu Ogum Rompe Mata... Se eu fosse escolher um pra contar uma história... pra mim é uma emoção muito grande! É uma emoção, um sentimental, tanto pessoal quanto da minha família. Eu sou rodeado de praticantes de religiões diferentes. Da parte da família da minha mãe, tem da Assembleia de Deus, tem da Igreja de Sétimo dia, tem a minha irmã, que é Testemunha de Jeová, tem da Igreja da Paz. Da parte do meu pai, tem os mórmons, da igreja de Jesus Cristo do Santo dos Últimos Dias... Nós nos respeitamos. Pra contar uma história, escolher uma, é difícil! Porque eles nos dão caminho, nos dão vida, nos dão ensinamento. Então eu não vou contar uma história, eu vou contar um pedaço de uma delas. Quando eu resolvi aceitar minha vida espiritual, eu só vivia doente. Doente, doente, doente... passei por nove cirurgias sem precisão. Dos meus onze pros doze, eu conheci a casa de Obacilê, dona Conceição Moraes, aí passei cinco anos de minha vida lá na casa dela. Aí depois saí de lá da casa dela, mas por caminhos que só De-

us e eu sei. Com meus treze anos, eu comecei a adoecer, adoecer, adoecer, adoecer demais. E doença, doença. E opera daqui, opera dali, opera daqui. Só de garganta eu fiz quatro cirurgias. Na minha décima pra décima primeira, pra décima terceira cirurgia, porque eu ia fazer três cirurgias dentro do antigo municipal, a Cabocla Mariana se manifestou em mim. Meu sangue coalhou por dentro e eu botava os pedaços pra fora, tanto pelo nariz quanto pela boca. Se eu pegasse um arranha assim, aquilo ficava negro, uma coisa horrível. E foi quando os médicos se juntaram e disseram pra minha mãe: – Olha, dona Maria, seu filho vai ter que ir pra São Paulo urgentemente, porque aqui dentro de Santarém nós não sabemos o que que é. Porque o sangue dele tá coalhando por dentro. E o pior, circulação não tinha no meu organismo. E minha mãe se desesperou, porque eu venho de uma família muito humilde. Quando foi nesse período de sete dias, seis dias pra fazer o transe de levar pra São Paulo, foi que a Cabocla Mariana se manifestou em cima de mim. E disse pra minha mãe: – Se você quer que o seu filho fique bom, tire ele daqui. Ele já tá todo ticado, feito um peixe. Porque o médico falou que iam fazer uma cirurgia daqui do dedo mindinho até aqui, o coração. Daqui iam fazer nas costas, no pulmão. Sei que se

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Histórias de Pai Edvanei Terreiro de Mina Santa Bárbara


O barco afundou! Afundemo todo mundo. Só que eu me acordei e minha mãe já tava segurada num carote. Eu não sei o que aconteceu, porque o barco afundou no meio e eu tava em cima duma pedra. Nessa hora, o pessoal gritaram: – Ele tá ali, em cima da pedra! Mas como é que um barco afunda e depois vai parar ali em cima duma pedra? Estranho essa história, né? Mas eu também não acredito. E o pessoal dizia: – Não, esse menino tem que ir num terreiro, tem que ir em algum lugar, esse menino tem alguma coisa, ele não morreu, aconteceu um monte de coisa e ele não morre! Fui militar. Aí foi o tempo que servi o quartel. Lá no quartel tinha um cabo aéreo, que a gente faz. E a corda arrebentou! No ar! Oh, já passamos pelo fogo, pela água,

agora pelo ar. Arrebentou a corda e eu fui bater em cima duma árvore. Fiquei seguro no galho! E na hora que eu fiquei seguro, que eu me acordei, eu vi um índio! Um índio que eu sempre via comigo. Ele tava de abraços abertos pra mim. – Tá seguro, meu filho, ele falou assim. Aí foram lá e me tiraram de cima da árvore. Aí o pessoal: – Rapaz, como é que esse soldado Hilckson não morreu? A corda arrebentou e como é que ele lambou nessa árvore? E eu ainda não acreditei. Eu duvidando. Aí foi o tempo que eu saí do quartel e eu comecei a frequentar o terreiro da mãe Francisca, que até pai Edivanei aqui frequentou também e Pai Juscelino também. Pai Clodomilson também andou lá no terreiro da Mãe Francisca. Ajudou muito ela, deu muito apoio, porque ela já era uma pessoa mais idosa. Aí eu comecei minha caminhada.

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meu filho, teu pai é do Codó, teu pai nasceu lá, preto, preto, preto! Tinha só o dente branco. Nome dele era Jô Soares. Tinha um bar lá na vila Caçula, um prostíbulo mesmo. Então, com sete anos de idade, minha mãe me deu pra ser criado com um juiz, e a mulher do juiz gostava muito disso. Eu não posso falar, porque é uma história complicada. Mas ela me levou pros lugares, sempre as entidade que baixavam ficavam: – Ah esse menino tem uma mediunidade, esse menino tem alguma coisa... – Eu não, dona Selena, tenho isso não, tenho nada disso, eu sou uma pessoa de Deus! Não tenho isso! Eu sempre rejeitava. No começo eu rejeitei muito. Eu pedia sempre pra ir pro garimpo, pra andar de avião que eu nunca tinha andado, e a minha mãe dizia: – Tu vai pegar malária, menino! Ah, mas, se tu for, tu vai de barco! E adivinha o que aconteceu?


MEU CABOCLO TUPINAMBÁ

A minha história ela vem de Itaituba aonde eu nasci. Tem um avô que faleceu esse ano que era Sacaca. E daí minha mãe trouxe também um pouco de conhecimento com ele. Quando eu completei meia idade... Meu pai, maranhense do Codó, hoje minha parte da família dele mora em Santa Luzia... Então eu tinha visões. Criancinha, desde criança, eu tinha visão e mamãe dizia: – Para com isso menino, tu não é isso... E eu tinha visão, e a visão que eu tinha era os índios, fazendo aquele círculo, aquela roda de fogo no meio. E, um certo dia, minha mãe se deixou do meu pai. E, já com meu padrasto, saiu pra assistir um filme. Um filme do Bruce Lee, aquela época ainda existia, antigo, né? Faltava energia em Itaiutuba e minha mãe deixou a vela

acesa. E o que aconteceu? A casa pegou fogo! Arrodiou de fogo e eu no meio, junto com meu irmão. Eu na rede e meu irmão na cama, e o fogo arrodiado. Aí tinha uma visão, como se fosse ao vivo, materializado de um Exu, de um Exu Capa Preta. Porque hoje eu sei o que é, antes eu não sabia. E ele disse pra mim, fez o sinal: – Pula! Em cima do fogo. E pega o teu irmão. Desci da rede e pulei. Não aconteceu nada eu não me queimei. Com pijama, porque, naquela época, existia o Banana de Pijama, e eu era o B1 e o meu irmão era o B2. Aí eu meti a mão no fogo lá e puxei o meu irmão. Só que tinha um detalhe, o quarto que eu peguei tava trancado também. E agora? E eu era muito católico, coroinha de igreja também, mamãe sempre ia pra igreja, eu cantava no coral da igreja. E eu vi uma luz, um

cavaleiro, todo montado, e ele disse pra mim: – Vai até aquela janela que ela vai se abrir. E as janelas tudo fechada, tudo fechadinha mesmo, não tinha como eu consegui abrir, era alto. E eu pequeno, tinha sete anos de idade. E, quando eu cheguei próximo da porta, acontece da porta se abrir. E eu saí correndo, desembalado na carreira, e cheguei lá com a minha mãe: – A casa tá pegando fogo. – E como é que tu saiu lá de dentro, que tava arrodeado de fogo lá? Quando os vizinhos chegaram lá, só já tava só o pó. Tinha acabado tudo, se transformado em cinza. E a mamãe disse: – Esse menino só pode ter alguma coisa! E eu: – Não, mamãe, eu tenho é Deus no meu coração, eu não tenho essas coisas não. Meu avô que faz as pajelanças dele lá, quem cura as pessoas é ele, eu não tenho nada disso não. – Mas teu pai,

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Histórias de Pai Westerley de Ogum Terreiro de São Jorge


permissão de Oxalá. Sem palavras, ele falou da vida dele na terra, sendo que o chefe já sabia. Então ele falou que queria ir atrás do espírito da cobra que tanto o ajudou. E eles foram. Ao chegar lá, ele viu uma linda cabocla vindo ao encontro deles. Ele, sem entender nada. Ela começou a explicar tudo. A serpente em vida foi uma linda cabocla, mas ainda jovem foi estuprada e jogada nas matas por caçadores, com o corpo estendido no chão, toda machucada. As cobras, vendo aquele corpo todo ferido, começaram a passar por cima do corpo dela. Com os outros animais e com as magias das cobras, elas curaram a ferida do corpo e da alma dela. Só que ela não aguentou e acabou falecendo, mas o espírito dela preferiu ficar ali com as cobras, pois, durante o dia, ela dançava e cantava para atrair os homens, levando eles para o meio da mata, para ficarem perdidos e serem comidos pelos animais, do mesmo jeito que ela foi. Ela fazia por vingança.

Depois ela voltava a ser cobra, só que ela conheceu o índio, ele ensinou a ela a amizade, o carinho e o respeito, fazendo-a se esquecer da vingança que trazia no coração. Quando ela faleceu, sem eles saberem, ela foi despertada do sofrimento, e o espírito dela foi por um caminho de luz. Ele explicou a intenção dele de fazer caridade nos templos de Umbanda, e ela aceitou. Não são todas as pessoas que trabalham com o caboclo que trazem ela junto, a pessoa é escolhida por Oxalá. Ela é uma caboclo de descarrego, é um caboclo de trabalho. Quando elas vêm na Umbanda, ela solta o brando dela, ou seja, o som de uma serpente, demonstrando o amor que sente por ele. E ele, o piado da cobra coral, demonstrando o desafio que ele tem com a cobra coral por causa da serpente, que hoje traz o nome de Cabocla Curupira. Contada por Pai Westerley, Camila, Célia e Roberta em 201 4, comunidade quilombola de Saracura

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que preparavam remé-dios e curavam pessoas. O carinho entre o índio e a cobra fez com que eles conse-guissem se comunicar pelo pensamento. E nisso ele sentiu quando ela o nomeou co-mo Tupinambá das Sete Matas, pois é o único índio que conhece as sete matas e os segredos delas. Muito emocionado ao sentir essa vibração de amor e carinho, ele fez uma reunião com o povo dele e passou essa homenagem ao seu povo. Com o passar do tempo, a idade foi chegando, a tristeza aumentando, e ele sentiu que ia morrer. Preferiu não se despedir de ninguém. Então se isolou na mata, sentado debaixo de uma árvore, com a cobra grudada no braço. E ficou ali, com os seus pensamentos e a cobra. A sua morte não demorou muito a chegar. Só que, antes de falecer, a serpente faleceu primeiro. Depois de muito tempo de falecido, ele encontrou seu amigo, que era chefe da aldeia onde ele foi criado. A alegria dele nascia de novo e ele passou a trabalhar com ele, fazendo caridade. Com amor, com a permissão de Oxalá, ele falou ao caboclo: – A partir desse momento, você vai ter a sua própria linha de trabalho, pode escolher sete espíritos, que você já tem a


as matas cresceram e as marcas deixadas por ele desa-pareceram. Enquanto eles andavam no meio da mata, procurando saí-da, ela o levou até a morada das cobras e, lá, elas ensinaram o se-gredo delas e as magias para sal-var. Nisso, elas subiram no corpo dele, curando as feridas causadas pelos insetos. Ele passou a convi-ver com elas, até que um dia ele se surpreendeu com um ataque da cobra coral. Isso aconteceu várias vezes. Ela tinha ciúme dele com as outras cobras e isso foi cri ando uma rixa entre os dois. Para provocar a coral, o índio a imitava, até que, nessa brincadeira, ela o atacou e ele acabou matando-a a. Então, ele catou o couro dela e colocou na testa dele, simbolizando-a. Quando as outras serpentes viram, elas aceitaram, mas as outras corais não. E permaneceu a rixa entre eles. Nisso, a serpente foi mostrando pra ele as sete matas. Ele começou a conhecer as matas como a palma da mão. Cada mata tinha

seus segredos, as pessoas olham as matas e pensam que é uma só, por ser muito grande, mas não Ela é dividida em várias partes, até chegar ao centro da mata virgem. E, de tanto eles andarem de lá pra cá, ele começou a se lembrar do caminho de sua aldeia. A alegria era imensa! Mas, para sua tristeza, durante o tempo que ele ficou perdido nas matas, a aldeia dele foi invadida por caçadores e queimada. Mataram a mãe dele. Antes disso, eles usaram e abusaram da mãe dele e o resto da família foi embora dali com o povo da aldeia. Ele não quis ir atrás deles. Preferiu ficar ali, com a sua mais nova amiga, a serpente. Já que ela não desgrudava dele ali, ele montou uma cabana pra eles, permanecendo sozinho por pouco tempo, pois, assim que as índias viram aquele índio, formaram famílias. Tupinambá se tornou muito triste, de poucas palavras. Sem perceber, aquela mini aldeia se tornou uma grande aldeia. Todas as enfermidades que surgiram eles

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HISTÓRIA DO CABOCLO TUPINAMBÁ No meio de uma caçada nas matas, Tupinambá levou uma pancada na cabeça. Não se sabe o que foi. Ele ficou desacordado muito tempo. Estendido no chão, os insetos começaram a picar-lhe e isso fez que ele levantasse mau cheiro, atraindo mais animais. Um desses animais feroz foi direto atacar o corpo do índio quando, para a surpresa do animal, uma serpente pulou em cima desse animal. No meio dessa gritaria entre a cobra e o animal, o índio acordou assustado e logo pegou sua faca que carregava na cintura, e atacou o animal, matando-o rapidamente. Ele e a serpente se afastaram um do outro, sem tirar o olhar um do outro. Então ele começou a andar de um lado para o outro, ele estava com medo que ela desse o bote, e ela com medo que ele matasse ela. Isso durou horas de caminhada, até que ele começou a perceber que ela ajudava a caçar. Quando ele sentia perigo por algum motivo, a serpente ia à frente dele, servindo de isca e, quando um animal ia atacar a cobra, ele matava-o. Eles ficaram tão próximos um do outro que ele carregava ela no braço, como se fosse um bracelete. Por ter ficado muito tempo desacordado, Tupinambá se perdeu nas matas, pois


Terreiro de Mina Santa Bárbara

O ERÊ

O Erê é uma divindade espiritual que vem, sobrenatural, que vem por cima da mente, por cima do ori. O ori é o odú que o ser humano traz, que é a cabeça. Mas dizer que fosse seu anjo de guarda. O Erê responde pelo santo que rege sua cabeça, rege sua vida, rege seus caminhos. Mas o caboclo são os mestiços, os nossos antepassados, os índios que se tornaram nossos caboclos, nossos vodunson, nossos catiços. Essa que são as histórias. Porque às vezes as pessoas contam as histórias e não sabem diferenciar uma coisa da outra. Fica dizendo: porque o candomblé, porque o santo, santo, santo... Tudo era o santo! Sim, existe! Lindo maravilhoso, é nossa vida, eu amo minha santa, nossa mãe Oiá, Deus abençoe. Mas o caboclo, antes dos orixás, da nação candomblé Ketu, Jeje, Angola, existiam os caboclos. Antes dos orixás vim pro Brasil, já existia. Existia os curandeiro, existia pajelança, as bezendeira, as parteira. Os médico! Pra eles serem médicos eles fazem o quê? Estudam, estudam, estudam... vão definhar o ser humano do pé a cabeça, de dentro pra fora e de fora pra dentro. Mas quem são os médicos

populares? São os pais de santo, são os curandeiro, são os benzedor, porque se um ser humano vai na casa deles, vai nas nossas casas, já vai no último auxílio! Porque já foi num médico, já foi no outro... aí o que a gente vai fazer? Nós vamos pedir a benção e a proteção divina de Deus e aos nossos guias, nossos caboclos, nossos orixás, para nos dar mentalidade de qual remédio precisa, até mesmo uma folha de mangueira pode servir pra murchar, uma folha de arruda, uma casca de pau. Olha, pra tu rir, os curandeiro já sabiam o que era quebra-pedra, raiz do açaí, o caroço do abacate, o médico não usa isso por quê? O remédio vem da onde? Vem das raízes, vem das cascas de pau, vem das folhas. Então, pra ele fazer um remédio, eles estudam anos e anos. Os caboclos baixa e já diz qual o remédio.

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Histórias de Pai Edivanei


AS OFERENDAS Exu gosta de galinha, de preta, porque tá dando caminho, porque você tá dando vida à pessoa, porque você tá cortando. Porque... pensa numa pedra. Se a gente cortar um bicho de pena, aí a gente vai dar vida pra aquele objeto. Porque o que corre na nossa veia é sangue. Sangue é vida! E as pessoas dizem que é despacho... Que despacho! Isso é uma oferenda que a gente tá dando pra você crescer, prosperar, ter saúde, prosperidade. Quando tem alguém no hospital, internado, a gente tem que doar o quê? Pra sobreviver aquela pessoa? Sangue. Você tá dando vida pra aquela pessoa.

Rapaz, isso era em Jacareacanga, dentro do garimpo. Aí eu falei: – Meu Deus do céu, mas quem que vai invadir aqui, rapaz? Eu conversando com ele na gruta. E ele começou se manifestar na mina do ouro. Aí desde lá ele começou me pegar e, desde lá, eu fiz o assentamento do seu Zé Mineiro. O caboclo Zé Mineiro trabalhava nas minas, cavava com os carrinho dele, e a mina desabou! Então quando ele se manifestou em mim, ele me pegou na beira do igarapé. Aí ele contou a história dele todinha. Que era José Mineiro da Silva, aí contou a história dele. Porque são vários mineiros, são dez povo de mina. O meu mineiro é o Zé Mineiro Chapéu de Couro e, quando ele se manifestou, contou a história dele. Que ele foi na gruta, que tem aqueles carrinho, com picareta, quebrando pra tirar o ouro da gruta e a gruta desabou e aí ele morreu. E hoje ele vem na terra pra fazer os seus trabalhos, pagar o que ele não fez aos antepassados.

Contada por Pai Clodomilson de Ogum em 201 4 Roda de Contação de Histórias, Santarém/Pará/Brasil.

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Histórias de Pai Clodomilson de Ogum Terreiro Ile ase ogumja ode


ele foi nascido e criado, no Ilê Axé da Elza Moraes Fernandes, terreiro de mina. Depois que eu passei de mina, aí já passei pro Ile Axé Opó Afonjá, que é da Kaloy Isabel. Saí das águas da Kaloy , passei pras águas do Pai Cléber de Iemanjá, que é do Rio de Janeiro. Saí das águas do Pai Cléber, fui pro Ilê Axé Casa Branca, que era do Pai Wanderley. Aí foi assentado meu Exu. Seu Exu Marabô. Depois foi feito toda uma situação até eu chegar onde eu estou hoje. Nasci e me criei dentro da Mina, depois de certo tempo, ou de vinte e poucos anos de Mina, eu passei pro Candomblé, porque meu santo tava cobrando. Eu tava ficando quente, porque filho de Ogum é quente! Foi quando eu resolvi me iniciar dentro do santo, ser raspado, catulado, e, graças a Deus, paguei minhas obrigações e, hoje, estou no Candomblé. Pronto! Hoje eu vou em qualquer lugar, posso ir aonde eu for, caboclo não baixa, dou até palestra. Então, hoje o meu pai me vê diferente. Porque é a nossa religião, eu não tenho culpa, pai, de ser assim. Como vai nego lá na minha casa, da aldeia waiwai, os quilombola, chega lá comigo e tiram as dúvidas que eles querem tirar. Aí papai diz: – Isso tá amarrado, em nome de Jesus! Eu digo: – Pois é, Axé! Como o senhor tá dizendo que tá amarrado, eu digo axé pro senhor.

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O caboclo Zé Mineiro começou a me pegar na sala de aula, quando eu tinha sete anos. Eu estudando, ele me pegava e eu começava a babar, e disseram que era epilepsia. Mas era o caboclo. Me levavam pra Igreja, me amarravam, e aí que ele atacava forte. Ele, com raiva do velho, porque o velho me amarrava. Aí ele começou a se manifestar, e cada vez mais violento. Aí que meu pai me espancava. Porque, na igreja, ele era santinho, mas, quando ele chegava em casa, era um demônio. Minha mãe, pra me dar comida, tinha que me dar escondido, porque ele ficava 24h no meu corpo, não queria sair o caboclo, até levarem uma curadeira pra cuidar do caboclo, porque eles não sabiam, então só levavam pra igreja. E me amarravam. Aí que ele ficava mais violento, e eu não comia. Ficava semanas sem me alimentar, porque, quando você tá na fase do desenvolvimento, não dá fome, não dorme. Você tá em transe, você não é você, você não queria ter aquilo, eu não queria ter essas coisas, eu queria ser uma pessoa normal. Eu ia muito pra garimpo, buscando ouro. Eu via ele, o caboclo Zé Mineiro, nas grutas. Ele chegava comigo, com aquelas prancheta que usa pra pegar o ouro. Ele aparecia pra mim e dizia: – Tu é meu filho, cabra! E batia no meu peito! Ele disse: – Sai daqui, que vão invadir o barraco!


MEU CABOCLO ZÉ MINEIRO Meu pai é pastor da Assembleia de Deus, cinquenta anos pastor da Assembleia de Deus. Aí eu comecei a pegar caboclo. E o que ele me levava? Pra Igreja. Aí, haja o Pastor: – Tá amarrado, em nome de Jesus! Pra expulsar o demônio, que era o meu caboclo Zé Mineiro. E me amarravam, eu apanhava de choque elétrico... Quanto mais me batiam, aí que o Zé Mineiro se revoltava, meu caboclo. Ele queria pegar eles, só que eles diziam: – Segura, segura, segura o demônio aí! Aí eu falei pra ele: – Eu não tenho culpa de ser escolhido, de ter um dom, porque eu sou de sete meses, sou prematuro, por isso que eu tenho esse buraco aqui na cabeça e sou magrinho assim desse jeito. Meus irmãos são tudo evangélico, são tudo de nove meses, e eu sou de sete. Agora eu tenho culpa de ter nascido desse jeito? Culpado foi o senhor que deitou com a mamãe. Portanto, o senhor vai ter que me aceitar de qualquer jeito, queira ou não queira.

O nome do meu caboclo é Zé Mineiro Chapéu de Couro. Quando ele começou a me pegar, desde pequeno, me levavam pra Igreja e me amarravam. E a porrada cantava! Até que eu inteirei sete pros oito e saí da casa dos meus pais. Eu só vivia internado, tomando soro. Eu tive que sair porque tava ficando louco, de tanto meu pai me bater. Aí a vizinha do lado disse: – Se o senhor não levar esse rapaz pra uma curadeira, um pajé... se tu não levar pra curadeira, meu filho, pra bezendeira, eu vou dar parte no ministério público porque o senhor tá maltratando esse menino. Eu amarrado, todo tempo amarrado no fio, e porrada! Porque evangélico não acredita nessas coisa, até hoje tá lá ele como pastor. Minha mãe, graças a Deus, se libertou dele, depois de cinquenta anos de casado. E foi quando uma mulher me pegou e me levou pro terreiro de Elza Moraes Fernandes. Foi quando ela começou me cuidar, tratar do meu caboclo, e foi quando eu descobri que eu tinha esse caboclo Zé Mineiro, porque eu não sabia. Eu tava na escola, na sala de aula, escrevendo, quando... uuuuuuh! Baixava o espírito. Os alunos saía correndo, até a professora! Aí ela mandava chamar o pastor, que é o papai. E era: – Amarra, amarra que é o demônio, em nome de Jesus! Eu sofri! Eu dou graças a Deus que, depois, eu batizei meu caboclo Zé Mineiro, depois eu batizei meu caboclo com Elza Moraes Fernandes, onde

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Histórias de Pai Clodomilson de Ogum


capítulo 2 15

o rixás


EU SEMPRE ACHEI ASSIM: OS ORIXÁS SÃO AQUILO QUE NÓS CONVIVEMOS. O TEMPO, A RESPIRAÇÃO É O ORIXÁ. A ÁGUA! AO REDOR DE SANTARÉM! É OXUM. ÁGUA DOCE! NÓS ESTAMOS RODEADOS DE ÁGUA DOCE. (MÃE BRÍGIDA) EU COSTUMO DIZER QUE SANTARÉM É UMA CIDADE ABENÇOADA PELOS ORIXÁS. NÓS ESTAMOS NA CASA DE OSSAIM, NO BERÇO DA FLORESTA, QUE É O PAI DA MEDICINA. NÓS ESTAMOS NA CASA DE OXÓSSI, QUE É O DEUS DA CAÇA, O ORIXÁ DA FARTURA. TEM DOIS RIOS MARAVILHOSOS BANHANDO SANTARÉM. SÃO A CASA DE OXUM! E DIZEM QUE SANTARÉM É UMA PÉROLA, E PÉROLA SE ENCONTRA NO MAR, A CASA DE IEMANJÁ. ENTÃO NÓS ESTAMOS TOTALMENTE LIGADOS AOS NOSSOS ORIXÁS EM SANTARÉM. NÓS ESTAMOS ABENÇOADOS PRINCIPALMENTE POR OXUM. SANTARÉM É CONHECIDA COMO CIDADE QUE TEM MUITO OURO, QUE TEM MUITA RIQUEZA, E OURO É UM ELEMENTO DE OXUM. TEMOS PEDREIRAS AQUI PERTO, A CASA DE XANGÔ. MEU PAI! ENTÃO NÃO HÁ O QUE SE DISCUTIR. SANTARÉM É UMA CIDADE RELIGIOSAMENTE ABENÇOADA PELOS DEUSES AFRICANOS, PELAS DIVINDADES DO CANDOMBLÉ. E ESTRADAS E MAIS ESTRADAS AÍ, QUE É A CASA DE EXU, SÃO OS CAMINHOS DE OGUM. ENTÃO SANTARÉM É UMA CIDADE ABENÇOADA POR TUDO ISSO. (ZENILDO)


LÍNGUA DE EXú

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O povo yorubá não tinha era tudo de boca em boca. Pra eles também o homem foi criado com o barro. Eles acreditam que quem deu o barro pra Obatalá que é Oxalá, depois criar o mundo foi Nanã, essa vovozinha que é bem velha. Nanã é uma divindade para os yorubás, divindade feminina que habita os pântanos, ela é a lama. Então foi com o barro de Nanã que Oxalá fez o homem. Por isso que Nanã é muito importante, porque Oxalá sabia fazer o homem, mas ele não tinha matéria pra fazer, e Nanã deu pra ele o barro. Porque Oxalá sabia fazer o Homem, mas ele não tinha a matéria para fazer, e Nanã deu pra ele o barro. Mas acontece que agora já estou falando de Oxalá. Pra continuar, vou pedir ajuda de uns instrumentos e de um músico pra cantar uma canção. Dizem que, quando a gente chega na casa das pessoas, a gente tem que pedir licença, a gente não chega e vai abrindo a mala assim, e vai chegando... tem que pedir licença: Senhores donos da casa, senhores donos da casa, como vai, como passou? Como vai, como passou? Viemos pedir licença, viemos pedir licença pra contar nossa história! Oi, licencê, oi, licençá, foi agora que eu cheguei que eu vou me apresentar.

Tem muitas coisas em comum entre o Brasil e a África. O Brasil foi primeiro habitado pelos índios. Depois chegaram os portugueses. E aí vieram mais tarde os negros africanos. Eles foram trazidos pelos portugueses pra trabalhar aqui nessa terra, ajudar a construir todo esse Brasil que nós temos hoje. Muitas coisas, senão todas, passaram pelas mãos dos negros trazidos da África. E olha que foram muitos povos diferentes. Às vezes a gente fala assim: ah, veio da África, e pensa que era todo mundo igual, mas não era não! Vieram os negros banto, os negros ketu, os homens lá do Daomé, vieram outros lá debaixo, de Ifé, de Irê e vieram os negros yorubás. Os yorubás não vieram com a mão vazia não! Vieram cheios de coisas. Trazendo, no coração e na memória, seus batuques, suas comidas, aqueles temperos que só tinham lá na África. Sabe de uma coisa que tinha só lá na África que eles trouxeram pra cá? Uva! O que mais? Inhame, cará. Outra coisa que é muito gostosa é quiabo! Hum, tá me dando até fome. Pois bem, trouxeram as comidas. E trouxeram os tecidos coloridos, cada um mais lindo do que o outro. Tinha tecido colorido pra homem, tecido colorido pra mulher, tecido colorido pra criança, tecido colorido pra homem e mulher, enfim. Era muita gente. Trouxeram búzios, trouxeram suas crenças, trouxeram os deuses, que eles chamam de Orixás.


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Porque eles eram diferentes dos portugueses. Os portugueses acreditavam num único Deus, e os yorubás não. Os yorubás acreditavam em vários deuses. Acontece que, pra eles, cada deus é uma energia que existe na natureza. Pra eles, deus está presente em tudo na natureza! E eles contam que, há muitos, muitos anos atrás, nesse mundo só existia água, só água. Orumilá, que é o deus supremo, mandou Odudua e Obatalá descerem aqui, onde só tinha água, pra criar o firmamento, a terra e criar o homem. E eles vieram! Aconteceu umas confusões no meio do caminho, mas isso é outra história, agora eu tô contando outra, então não vou contar as confusão não. Então aconteceram umas confusões no meio do caminho e tal, mas Obatalá criou o homem. Ah, mas ele trabalhou demais! Quem foi que deu o barro pra ele criar o homem mesmo? Nanã. Nanã deu o barro pra ele e ele foi moldando o homem um por um. Ele moldava e Orumilá soprava, e o homem saía andando. Ele moldava e Orumilá soprava, e o homem saía andando. Ele moldava e Orumilá soprava, e o homem saía andando. Ele moldava e Orumilá soprava, e o homem saía andando. Mas era muito trabalho, era homem pra criar, era muito homem, mulher, criança, e Obatalá precisou de ajuda. Ele escolheu um homem muito ideúdo, muito idereta, muito esperto e muito trabalhador. Chamou Exu! É! Exu morava por aí, pela rua, tinha casa não, coitado, mas ele era muito

trabalhador. Obatalá falou assim: – Olha, Exu, você vem aqui, me ajuda a criar o homem, que você gosta de trabalhar, tá? E depois eu vou te pagar muito bem, vou te dar muita comida, vou te dar até uma casa se você quiser, mas é que eu tô precisando de ajuda. E Exu foi ajudar Obatalá, e os dois ficaram muito tempo ali criando o homem. Quando acabou tudo, Odudua já tinha criado o firmamento, o homem já tava ali povoando a terra, andando pra tudo quanto é lado, homem, mulher, criança... Obatalá falou: – Ah, vou descansar. Vou descansar um bucadin, que eu fiquei cansado, trabalhei demais. Mas você não vai descansar não, Exu, porque você é pra trabalhar, você é trabalhador. Então, você faz um favor, você vai lá no mercado, busca pra mim a melhor comida que existe aí nessa terra que foi criada. Agora eu quero provar qual que é a comida mais gostosa que tem nesse lugar. Exu, obediente, andou, andou, andou, andou... Chegou no mercado e comprou língua de boi. Obatalá tinha pedido a comida mais gostosa, Exu foi lá e comprou língua de boi. Só que Exu não foi bobo nada, ele comprou uns temperinho, umas ervinhas... chegou em casa, temperou a língua de boi, mas assim fez aquela língua toda temperada, recheada, cheia de coisa boa, assou! Serviu a língua pra Obatalá! E Obatalá comeu, comeu, comeu, comeu, comeu, comeu... lambeu os beiços e falou: – Nossa, Exu! Uma delícia de comida, língua de boi, hum! E esse


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temperinho então... hum! Uma delícia! Bom demais! Muito bom! Comeu tudo, falou: – Muito bem, a melhor comida do mundo é realmente muito boa. Agora, Exu, que eu já provei da melhor coisa que tem no mundo, você faz um favor pra mim, você vai lá no mercado e compra a coisa mais ruim que tem nesse mundo que eu vou comer também. Porque se eu já comi do melhor, agora eu vou comer do pior! Quero saber o que tem de mais gostoso e o que tem de mais ruim! E Exu foi. Andou, andou, andou, andou, andou, andou... ele já tinha comprado a coisa mais gostosa do mundo que era língua de boi e agora então o que ele comprou? Exu comprou língua de boi! De novo! E levou a língua de boi pra casa, chegou lá, preparou a língua, colocou uns temperos, preparou, preparou, preparou... pôs no forno pra passar, e aí foi assando, foi assando, foi assando... Mas não cheirou muito não, dessa vez não cheirou não! Aí ele colocou no prato, na mesa, e Obatalá olhou aquele trem assim: – Oh, Exu, esse negócio tá meio parecido com aquele negócio que você me serviu antes, que era o mais gostoso, não tá não? Exu falou: – É sim, tá parecido, mas eu não gostaria agora de exprimir a minha opinião, eu gostaria que o

senhor comesse esse prato. Exu muito sério, falou muito sério. Obatalá até estranhou, porque ele não era de falar sério assim não. – Bom, vou comer. Comeu. Pegou o primeiro pedaço e, quando ele pôs o primeiro pedaço na boca... Ah, tava ruim demais! Mas ruim demais da conta! Ele não aguentou nem comer, jogou o negócio fora. Foi muito ruim. Aí ele falou assim: – Oh, Exu, você me trouxe o prato mais gostoso que é a língua! Muito bom, muito bom, a melhor comida do mundo. E o que é isso aqui que é a pior comida do mundo, Exu? – Uai, Obatalá, isso aí é língua, de boi. – Língua de boi também? – É, Obatalá, isso aí é língua de boi! Obatalá não entendeu nada, vocês estão entendendo alguma coisa? O melhor prato do mundo é língua de boi. O pior prato do mundo, língua de boi. E aí foi que Exu deu a ideia. Ele disse o seguinte: – Olha, Obatalá, você me pediu pra trazer o melhor prato do mundo e eu trouxe língua de boi. Você me pediu o pior prato do mundo, eu trouxe língua de boi. Porque a língua pode ser muito boa, dependendo da forma como você usa. Se você usar ela, temperar ela, botar um tempero ruim, a língua vai ser ruim. Se você botar um tempero bom, a língua vai ser boa. E aí Obatalá descobriu o seguinte: que tem muita coisa boa no mundo, mas também pode ter muita coisa ruim, dependendo do jeito que você usa. E, olha, é o seguinte! Eu contei minha história! Entrei por uma porta e vou sair pela outra, quem quiser que conta outra! Contada por Lorena Anastácio e Vinícius Moreira em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém /Pará/Brasil.


O I N ÍCI O DO U N I VERS O

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A história que eu vou contar é sobre o início do universo. Alguém sabe a história do início do Universo? Não? Nem eu sabia, aprendi ainda agorinha! No início de tudo, eram duas extensões: o céu e o mar. O céu era habitado pelo rei Olorum, ele vivia plenamente no seu universo, no seu reino. E o mar era habitado, era reinado, pela rainha Olocum. Vivia também bem, mas não tinha grandes coisas lá não, só tinha mar. Uma coisa chata, não tinha marido... Uma coisa muito chata. Então, um aprendiz de deus, chamado Obatalá, olhou pra extensão debaixo e disse: – Caramba, que lugar feio! Não tem vida lá, vou ter que chegar com alguém e falar que precisa de vida nesse lugar. Aí chegou lá com Olorum e disse: – Majestade, na extensão debaixo é só cinza, é feio, é desprovido, eu queria mudar, eu queria algo diferente, montanhas, lagos, extensões, pássaros, animais, vida... lá não tem! Aí Olorum ficou pensando... Realmente! Essa ideia é boa, mas quem vai fazer isso? Eu não posso sair daqui, tô muito bem aqui. Aí: – Eu! Eu! Se o senhor quiser, eu tô aqui. Eu vou lá. Se o senhor me permitir, eu vou lá. Na hora! – Então, você tem que primeiro passar pelo meu filho, que ele faz umas previsões pra você ver se vai dar certo ou não. – Tá, tudo bem. Ele chegou lá com o filho dele e disse: – Orunmilá, queria saber: se eu for naquele lugar feio, tentar fazer ele ficar bonito, vai dar certo? – Vai! Na hora! Vamos lá, você só vai precisar de uma concha com areia, uma galinha, um gato preto e uma tâmara. E outra coisa, pra você chegar até lá, você não vai chegar voando, você não tem asa, não vai chegar voando, você vai ter que construir uma corrente de ouro, aí você vai poder chegar até lá. Aí ele: – Tudo bem. Chegou lá no ferreiro: – Senhor, o senhor tem que fazer uma corrente pra mim que eu tenho que chegar lá naquela extensão debaixo. Ele disse: – Oh, negócio é o seguinte. Não tem ouro suficiente pra fazer a corrente. Aí ele: – Mas nós vamos já pedir ajuda. Pediu ajuda de toda a comunidade do reino pra conseguir o ouro. Quando a corrente tava pronta, Orunmilá chegou com ele e um saco com a galinha, a tâmara, o gato preto e a concha com areia, deu pra ele e ele começou a descer. Quando chegou num certo ponto, ele disse: – meus deuses, num dá! Acabou a corrente e eu ainda tô longe. Ficou lá pendurado, pensando. Aí ele ouviu uma voz de Orunmilá: – EEEI! OBATALÁÁÁ! Jogue a concha com areia, homem, deixe de ser besta. Ele jogou a concha com areia. E a concha se transformou no firmamento. A areia que tava dentro da concha se transformou no firmamento e as areias maiores se transformaram nas montanhas e nas colinas, e foi se transformando. – E, AGORA, JOGUE A GALINHA! Aí ele jogou a galinha. A galinha começou a ciscar pra expandir o firmamento. E, quando ele viu que já tava o firmamento, ele pulou. E, quando ele pulou, ele ficou muito feliz. Aí chegou lá, cavou, colocou a tâmara, e imediatamente surgiram várias árvores, foi uma confusão! Uma coisa bela começou a aparecer, foi bom e tudo muito lindo! E o gato preto? Cadê o gato preto? O gato preto só ficou servindo de companhia pra ele, porque ele não tinha mulher. Foi isso! Obatalá ficou sendo o deus da terra; Olorum, deus do céu; Olocum, rainha do mar. E é isso. Contada por Emília Katyana dos Santos Dourado em 201 4, na comunidade quilombola de Saracura, Santarém/Pará/Brasil.


A TERCEIRA MULHER DE XANGÔ

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Vocês vão conhecer agora a história de Obá, a terceira mulher de Xangô. Quem era Obá? Obá era uma mulher guerreira, forte e determinada. No entanto que ela tomou como profissão guerrear e ser pugilista. Vocês conhecem o Anderson Silva que gosta de lutar? Então, Obá gostava de fazer isso, por isso ela se tornou lutadora. E não havia lá no reinado ninguém que a derrotava nenhum Orixá conseguia derrotar ela. Ela lutou com Xangô, lutou com Oxumaré, lutou com vários Orixás, ainda colocou Exu pra correr tá. Só pra vocês verem a bravura da mulher! Obá estava lá toda, toda que ninguém conseguia vencer ela, toda poderosa cheia de garra, não havia Orixá naquele lugar que vencia ela; ela já tinha colocado Exu pra correr. Foi então que faltava alguém. Hum... era a vez de Ogum. Só que Ogum que não era besta nem nada, cuidou logo de ir consultar Ifá. Ifá é o adivinho; ele chegou lá pra Ifá e perguntou: – Ifá é a minha vez de lutar com Obá; e Orixá nenhum consegui derrotá-la e até Exu ela colocou pra correr! O que eu faço? Ifá o adivinho disse assim pra ele: – Ogum você tem que fazer uma... vou lhe dizer o que você vai fazer e você vai oferecer em forma de oferenda; pegue 200 espigas de milho e 355 quiabos, e você vai pegar e vai misturar tudo aquilo tornar em uma pasta homogênea e vai colocar lá no lugar que vai acontecer a luta. Foi então que Ogum pegou lá as 200 espigas de milho os 355 quiabos colocou lá e tratou de pilar: PÓ, PÓ, PÓ, PÓ, PÓ; Chuc,chuc,chuc, chuc, chuc. Preparou tudo e deixou lá guardado. Na hora da luta perguntou: – É chegada a hora da nossa luta, você está preparada? E Obá então respondeu: – Estou, estou preparada, vamos para o combate, boa sorte na sua luta. Foi então que começou a luta e Obá tinha tomado conta da situação quando de repente Obá escorrega na oferenda de Ogum e cai. Caiu lá e então Ogum venceu a luta e levou Obá para o altar, lá mesmo a possui e ela se tornou a primeira esposa de Ogum. Passado o tempo Obá que gostava muito de lutar e Ogum que era um homem muito


forte e também não tinha sensibilidade alguma era bruto, truculento... Então ali não deu certo o casamento e eles se separaram. Com o passar do tempo Obá conheceu Xangô e Xangô tinha a sua primeira esposa, era Iansã; e tinha Oxum que era a sua segunda esposa e era sua preferida. Oxum era linda maravilhosa, tinha toda a sua perfeição e sabia muito bem como preparar o alimento preferido de Xangô. Foi então que Obá casou-se com Xangô tornando-se a sua terceira esposa. Só que um certo dia, como Oxum era toda linda e maravilhosa e sabia preparar tudo aquilo que Xangô gostava, Obá ficava só pelos cantos observando... Sempre procurava saber e perguntar para as outras esposas o que era que ele mais gostava, como ela fazia pra agradar ele. Foi então, que Oxum ficou enfurecida e disse: – Vou preparar uma armadilha, vou preparar uma armadilha para Obá; eu sou e sempre serei a esposa preferida de Xangô! Oxum já tinha preparado todo o alimento e ela disse para Obá: – Obá, venha amanhã às três horas. Não falte, que eu vou lhe ensinar qual é o meu segredo, o que mais deixa Xangô todo encantado! E Obá ficou alegre, pegou e foi, no dia seguinte ela chegou lá Oxum estava na cozinha preparando a comida: – Você está vendo? Você está vendo? Aqui eu tirei uma das minhas orelhas, preparei e esse aqui é o segredo. E você vai faça o mesmo que Xangô vai amar, ele vai gostar! Então que ela preparou e quando Xangô chegou lá estava todo encantado... Amou, se satisfez e foram para seus aposentos, Xangô e Oxum. Passado o dia seguinte, chegou o dia de Obá preparar a comida e cuidar de Xangô. Obá então fez o que Oxum tinha ensinado tirou uma de suas orelhas, cortou fez lá tudo certo. Quando Xangô chegou: – Xangô meu bem! Está aqui. Ele olhou pra ela: – AAAAAHHHHHH! Ficou horrorizado! Horrorizado porque ele tinha ficado triste, não era aquilo que ele esperava. Foi então que Obá ficou furiosa, pegou Oxum e começaram a lutar, começaram a brigar... Xangô se irritou e soltou a sua fúria: – CABUUUUUMMMM! O trovão! E elas saíram correndo e se transformaram em rios. Foi ali que Xangô ficou furioso e as duas fugiram com medo, que ele era tão bravo... Elas fugiram e se tornaram em dois rios turbulentos que quando se encontram estremece tudo, a canoa vira. Elas ficam furiosas! Por causa disso, a disputa pelo amor de Xangô. Lembram do nosso rio Amazonas e Tapajós, não parece? Não é, quando eles se encontram lá? Contada por Patrícia Guimarães, Raimunda Pereira dos Santos e Marcio em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


O REI QUE PROIBIU O SACRIFÍCIO DE HUMANOS

Boa tarde a todos meus queridos e amados! Tudo bom com vocês? Então, hoje nós vamos contar uma história linda pra vocês, maravilhosa a história. É de um reino muuuuito distante. Lá tinha uma cultura que eles gostavam de sacrificar humanos. Então nesse reino chamado Benin que também tinha um rei que chamava Benin. Esse rei ele tinha uma filha muito linda, linda, linda, linda a filha dele. Então, a filha dele como era linda, maravilhosa, esplendorosa os adivinhos chegaram com o rei e falaram: – Senhor rei, se você não oferecer sacrifício em prol da sua filha, ela vai ser levada pela floresta! Mas o rei ficou caminhando de um lado para o outro e achando aquela história muito absurda. Aonde, que se ele não oferecesse sacrifício a filha dele ia sumir? – Ah! isso é uma bobagem, eu não vou oferecer sacrifício coisa nenhuma! Só que lá os adivinhos já tinham dito isso que se ele não oferecesse sacrifício ela ia desaparecer na floresta. Então quando foi uma bela tarde ela começou a passear perto do reinado e ela ia se distanciando do reinado e ela ia andando, andando... e quanto mais ela andava mais ela se distanciava andando pela floresta. E ela se perdeu na floresta e sumiu! Aí o rei começou a mandar

Ela simplesmente desapareceu. Desapareceu. Num outro reinado muito próximo estava lá um rei que ele tinha um empregado, um escravo que ele era fujão, queria porque queria fugir do reino. Quando foi uma bela tarde ele saiu correndo e o rei, sem ter tempo de chamar o empregado, começou a correr atrás e foi pra floresta. E ele ia correndo, correndo, correndo, correndo pela floresta correndo até que ele caiu dentro de um buraco: BUM! O buraco era muito grande cheio de folha, era uma armadilha. Então ele começou a ficar lá desesperado, ficou mais de sete dias! Aí a princesa que era a Poié a filha perdida do outro rei, linda e maravilhosa, passeando por lá ela viu aquele rei que tinha desaparecido atrás do escravo e ela salvou ele daquele buraco lá. E ele que era uma espécie de gênio, daquele gênio da lâmpada... ele disse assim: – O que você quiser eu vou fazer e realizar o seu desejo! Peça o que você quiser já que você me libertou do buraco! E ela fez o pedido pra ele: – Eu quero um filho! – UM FILHO! Ah! Um filho eu até posso dar, né. Mais casar com você eu não posso! Até porque eu já tenho... duas mulheres. Na realidade ele tinha era três mulheres, não era só duas não. – Contigo eu não posso casar mais porque as outras não vão deixar! Eu só posso ter três mulheres! Então naquela mesma tarde muito agradecido porque ela tinha salvado ele do buraco, até porque como ela


E o rei preocupado com aquela notícia foi também ouvir aquela conversa lá, aquela música. Eu sou Omolu, filha de Poié Se eu tivesse pai ele ia me salvar Eu sou Omolu, filha de Poié Se eu tivesse pai ele ia me salvar – Quem é você? – Omolu, filha de Poié. A minha mãe disse que a muuuito tempo atrás ela encontrou um homem num buraco na floresta. Ela salvou esse homem e ele ficou muito agradecido com ela e disse que ela podia pedir o que quisesse que ele faria por ela. Aí ela pediu um filho e eu nasci.– Lembro disso! Você é minha filha! Nunca mais você vai sofrer e nem vai ser escrava. A partir daquela tarde o rei ficou tão feliz com aquela notícia que ele mandou comprar uma cabra e ele mandou sacrificar aquela cabra no lugar da Omolu e ele determinou em todo reinado que jamais haveria sacrifício humano naquele lugar. E nós entramos por essa porta e vamos sair por outra, contamos esse conto, quem quiser que conte outra! 15

tinha desaparecido logo ela se tornou o quê, uma encantada, né. Ela ficou na floresta e ela se tornou uma encantada. Então, ela se deitou com ele e ela engravidou e teve uma filha linda, a Omolu. E aí, por ocasião do destino, essa menina que foi libertada que foi, digamos que ela nasceu do relacionamento do rei Ifá. Simplesmente essa menina foi morar lá no reinado, se tornou escrava do rei, daquele rei que era seu próprio pai. Mas ele não sabia, ele não sabia! E ela ficou lá sendo escrava dele e quando foi uma bela tarde ele mandou espalhar em todo reinado que ele ia fazer um grande sacrifício de uma linda jovem, virgem. Porque naquele tempo os sacrifícios tinham que ser de uma jovem virgem. Se não fosse virgem não era aceito pelas divindades. Então ele mandou espalhar: dentro de três dias ele ia oferecer um grande sacrifício de uma jovem. Então ela, a escrava, começou a cantar uma linda música e as esposas do rei começaram a escutar: Eu sou Omolu, filha de Poié Se eu tivesse pai ele ia me salvar Eu sou Omolu, filha de Poié Se eu tivesse pai ele ia me salvar Então, a rainha foi chamar o rei e contar aquela história que ela tinha ouvido: – Magestade eu escutei a escrava cantando e dizendo que era filha de Poié a deusa da floresta! – Da floresta? – Da

Contada por Raimunda Núbia Rocha de Souza, Itaiciara Nascimento Guimarães, Wanderleia da Silva Vieira e Missilena Santos Carvalho em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba,


O P O D E R D E XAN G Ô

Eu vou falar a história do poder de Xangô. Há muito tempo atrás, Xangô e Iansã viviam tranquilamente pelo reinado de Oió. Até que um momento Xangô queria mais poderes. Então ele foi consultar Ifá e pedir a ele para receber mais poderes. Ifá receitou a ele oferecer um ebó para Exu. Xangô oferecendo ebó a Exu logo recebeu seus poderes. Sua voz ficou estridente: – CABUUUUUMMMM! Ele tinha poderes magníficos. – CABUUUUUMMMM! O que ele falava era ordem. – CABUUUUUMMMM! Todo o mundo o respeitava. Iansã vendo aquilo queria ter os mesmos poderes que o seu marido, então Iansã foi consultar a Ifá para receber os mesmos poderes. E Ifá, não sendo diferente, falou o mesmo para ela o que fez a Xangô: oferecer um ebó a Exu. Rapidamente Iansã tinha os mesmos poderes do que o seu marido Xangô. Ela tinha raios! Ela tinha poderes tão magníficos quanto seu marido Xangô. Xangô vendo aquilo ficou furioso: – NÃO PODE! NÃO PODE! Ficou bravo: – NÃO PODE! E assim foi mal dizer a Exu. Mal dizer a Exu e ainda humilhou sua mulher Iansã: – NÃO PODE! ISSO É ERRADO! E dessa forma Exu pregou uma peça em Xangô. Sempre que Xangô usava seus poderes Iansã vinha na frente. Sempre que tinha um trovão primeiro vinha um raio. Assim, Iansã vinha primeiro com o raio e só depois vinha Xangô com o trovão. Essa foi a maldição que Exu pregou em Xangô por mal dizer a ele e humilhar sua mulher Iansã. É por isso que todas as vezes que tem um temporal a gente vê primeiro o raio e logo em seguida: – CABUUUUUMMMM! contada por Israel Monteiro Cardoso, Tamires Montes Carneiro, Pedro Jorge R. De Alcântara, Alessandra Caripuna e Marcos Antônio Arruda Branco em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/BrasilContada por Israel Monteiro Cardoso, Tamires Montes Carneiro, Pedro Jorge R. De Alcântara, Alessandra Caripuna e Marcos Antônio Arruda Branco em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


COMO A SENHORA DAS CABEÇAS ENLOUQUECEU O MARIDO

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Certo dia nas distribuições de missões, era Olorum que distribuía as missões, aí ele distribuiu as missões para ca-da um dos Orixás. Mas teve uma Orixá que não achou a sua missão muito interessante. Vocês acreditam nisso? Era Iemanjá, ela achou que sua missão não era importante. E por incrível que pareça a sua missão era uma das mais importante de to-dos! Era cuidar de Oxalá. Ele já tava velhinho assim, cansado, não podia mais se abaixar que a coluna doía, era reuma-tismo... e andava esquecido... esquecia até do nome dele. Vocês acreditam nisso? Ela não queria essa missão, porque ela queria uma missão que todos olhassem pra ela e admirassem a beleza dela, né. Ela andava toda arrumada, toda linda. Aí o que aconteceu, por ela não se conformar com essa missão ela foi lá com Oxalá: – Olha Oxalá, não vou que-rer essa missão não, poxa! Olha só a minha beleza aqui, eu que-ro uma missão assim mais importante Oxalá, poxa! Vê que você pode fazer aí por mim! Aí Oxalá não respondeu nada. Ela inconformada tornou a voltar com Oxalá: – Oxalá, por favor Oxalá, vê o que você faz aí por mim! Poxa Oxalá... os homens nem me admiram... não estão nem vendo a missão que eu tô fazendo!E aí ele não respondeu nada pra ela de novo. E todo dia ela reclamava a mesma coisa. Até que um dia ela deixou Oxalá maluco! Ele es-quecia já de tudo. Já não tava muito bom da mente e com a perturbação de Iemanjá aí que ele ficou mais maluco né. Aí o que aconteceu, ela ficou pensando assim:–Meu Pai Eterno!O quê que os outros Orixás vão dizer de mim? Qual vai ser será o meu castigo? Aí o que que ela fez? Ela voltou rápido pra cui-dar de Oxalá. Ela deu carinho pra ele, amor... e ele foi se recuperando. E o que acon-teceu? Oxalá, ele foi lá com Olo-rum e disse assim: – Olorum eu tô vendo assim o esforço de Iemanjá e ela cuidou bem de mim esses tempos que eu tô adoentado, eu queria que você desse a ela uma missão assim mais impor-tante, que as pessoas reconhecessem. E Olorum, sabe o que ele fez? Ele deu a missão mais importante que era cuidar de todas as cabeças dos mortais que não era pra ninguém nascer assim maluco, pra pessoa ficar tranquila, viver em paz. Ela ganhou esse presente porque ela cuidou de Oxalá. E por herança de sua mãe Olocum ela ficou conhecida como a Deusa do Mar e aí que ela é mais fes-tejada; né? No Brasil, na África, em todos os lugares qui-lombolas ela é festejada como a rainha dos mares a Deusa dos Mares. E aí vocês não sabem de uma história: a Dona Silvina, ela presenciou Iemanjá de perto. Dona Silvina conte aqui pra nós essa história? Bom gente aqui tá apresentando Iemanjá. Ela mora no mar e eu vi ela chegar. Eu cheguei lá no dia do aniversário dela. Aí ela chegou muito bonita com aquela saia. Aquela saia... aí ela falou muita coisa lá, di-zendo que ela era uma pessoa que ela curava de todo jeito. Tinha aquela água na bacia. Todo um que chegava ela la-vava a cabeça. A pessoa saía assim pra lá, pra aqui, pra ali, e vinha e dobrava, aí ela chegava pegava na cabeça e só fazia levantar. Agora eu quero aí uma música pra nós se divertir! E acabouahistória ! Contada por Silvana Pinto, Gicele P..Santos, Rosete Silva e Maria S. Silva na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


IEMANJÁ SE TORNA A RAINHA DO MAR

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Iemanjá era filha de Olocum. E Olocum é a Deusa dos Mares. Iemanjá era casada com Olofin só que chegou um certo tempo. Ah! E com Olofin ela teve dez filhos então ela amamentou a todos. E por esse motivo os seios dela ficaram enormes. E aí chegou certo tempo Iemanjá tava cansada já daquela vida com Olofin. Então ela fugiu, ela foi embora. Foi embora pro norte. Aí ela chegou numa cidade chamada Ifé. Ifé ficava lá pro norte. E lá ela conheceu Okerê. Okerê, ele se apaixonou pela Iemanjá porque ela era uma.. ela era um ser muito bonito né, muito lindo mesmo. Iemanjá era linda! Então, foi aí que o Okerê a propôs casamento; só que ela impôs a ele uma condição: que ele nunca a envergonhasse, a ridicularizasse por causa dos seus seios. Porque eram enormes! E ele disse que não, Okerê sempre né colhido, gentil, disse que não que ele jamais faria isso. Ele tava muito apaixonado e queria só casar com Iemanjá. Foi aí que eles casaram né? Ele casou com Iemanjá. Só que certa vez ele bebeu vinho de palma em excesso, bebeu demais, bebeu demais, e aí ele chegou em casa assim muito muito bêbado e acabou tropeçando nos seios de Iemanjá. Então foi tudo que não podia ter acontecido, porque quando ele tropeçou nela ela começou a xingar ele de bêbado imprestável e tudo. E ele revidou aos gritos né dizendo: – E você com teus seios enormes, balançantes! Então ele jamais poderia ter feito isso porque ela pediu a ele que não a ridicularizasse por causa dos seios. Então foi, foi assim o ponto chave pra Iemanjá ficar ofendida, profundamente fendida. Então ela resolveu ir embora dali, fugir dali, fugir de perto de Okerê. E no primeiro casamento de Iemanjá ela tinha ganhado da mãe dela da Olocum né, a Deusa dos Mares, ela ganhou uma garrafa de vidro que continha um pó mágico. E ela carregava ele na cintura o tempo todo. E nesse dia quando aconteceu esse fato com Okerê que ela resolveu fugir dali muito ofendida, muito triste, profundamente magoada. Na hora da fuga caiu, deixou cair a garrafa... e a garrafa se quebrou. A garrafa se quebrou espalhando aquele pó mágico assim que foi se transformando num rio. E aí a Iemanjá ela ia fugir pras bandas da mãe dela que era a deusa dos mares a Olocum,


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então ela ia pro oceano né, pros mares. Só que Okerê não queria deixar ela fugir, ela ir embora. Não queria. O que que ele fez: ele impediu a fuga de Iemanjá se transformando num monte. No monte Okerê. O monte recebeu esse nome por causa dele, do Okerê. Tá, então como a garrafa tinha quebrado e aquele pó magico né tinha se transformado num rio com águas turbulentas que iam levar Iemanjá pras bandas da sua mãe. Ele... ele não deixou ele se transformou nesse monte. Então o que acontecia: Iemanjá ia pela direita ele se deslocava pra direita, Iemanjá ia pra esquerda ele se deslocava pra esquerda impedindo a passagem de Iemanjá pro mar. E aí o que aconteceu, foi nessa hora que ela chamou o filho dela mais poderoso. Ela teve dez filhos né, no primeiro casamento. Xangô, isso mesmo. Então, o Xangô é o filho mais poderoso de Iemanjá e foi aí que ela chamou Xangô pra que ele a ajudasse. Ela precisou fazer uma oferenda a ele, após essa oferenda ele juntou nuvens da direita, nuvens da esquerda, muitas nuvens. Ele chegou bem no centro assim, bem em cima de Okerê; quando ele uniu as duas nuvens dos dois lados ele despencou um trovão; um raio! Um raio tão forte que partiu Okerê ao meio. Quando Okerê foi partido ao meio foi aí que abriu e aí Iemanjá pode passar. Ela passou pelo meio de Okerê. E quando Okerê foi pra o orum foi aí que Iemanjá conseguiu se libertar e chegar ao seu verdadeiro lar que era a casa de sua mãe Olocum. E foi aí que quando Okerê partiu, quando ela chegou ao mar que ela enfim ela se tornou a rainha dos mares. Ela herdou o reino da mãe dela, Olocum, por conta disso. Isso mesmo, foi assim que Iemanjá hoje se tornou a rainha dos mares. E por isso que agente conhece Iemanjá como a rainhas dos mares, dos rios, das águas. Contada por Maria da Conceição Gomes dos Santos em 201 4 na comunidade quilombola de Saracura, Santarém/Pará/Brasil.


OXUM EXIGE O PROMETIDO

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Boa tarde! Nós vamos apresentar a história de um velho pescador. Certo dia um velho pescador saiu rumo ao rio com sua rede de pesca. Chegando na sua canoa embarcou e começou a remar. Remou, remou muito até chegar no meio do rio. Quando chegou no meio do rio os banzeiros ficaram muito fortes, quanto mais ele remava mais a maresia queria alagar a sua canoa e ele desesperado não sabia o que fazer. Começou a gritar, não tinha quem acudisse, começou a remar e não conseguia arrear a sua rede de pesca porque a canoa não deixava, os banzeiros estavam fortes demais. Foi aí que ele gritou: – OXUM! ACALMA ESSE RIO OXUM! E Oxum não queria saber. Quanto mais ele remava mais Oxum se aborrecia porque ele estava pescando os peixes do rio. E ele precisava desses peixes pra se alimentar, ele precisava alimentar sua família. E o pobre pescador continuou na sua canoa implorando pra Oxum... Oxum se aproximou e disse: – Quer dizer que você que é o pescador que fica todos os dias aqui no rio? – Sim, eu preciso Oxum que você pare esses banzeiros Oxum; eu preciso pescar meus peixe pra alimentar minha família! Foi aí que o velho pescador prometeu pra Oxum que lhe daria muitos ouros e diamantes preciosos. Oxum aceitou e ele soltou a barca no rio e ela começou a ir na direção de Oxum. Oxum até que aceitou, mas mesmo assim continuou furiosa! e o velho pescador no meio do rio sem saber o que fazer. Oxum não quis somente isso porque o velho tinha prometido para ela que lhe daria preciosa, mas a Preciosa era a filha do velho pescador. Era a princesa que se chamava Preciosa. – Esse não foi o prometido! Leve de volta, você não me prometeu Preciosa? Preciosa não é isso! Aí que foi o mal entendido; o velho pescador pensou que Oxum queria ouro, cobre, porque ele tinha prometido oferendas preciosas foi então que Oxum entendeu que Preciosa era a filha do velho. E o velho não teve outra saída porque ele precisava pescar no rio para alimentar sua família, foi aí que ele abriu os braços na sua canoa desesperado no meio do rio e gritou: – OXUM! PARE, ACALME-SE! Eu lhe darei preciosa Oxum, porque eu preciso pescar pra alimentar minha família! E Oxum respondeu: – Se você trouxer o que você me prometeu eu acalmarei o rio. Aí que o velho pescador com sua princesa, muito cansado porque não conseguia pescar nada no rio porque Oxum não deixava, entregou sua filha que era a mais Preciosa. E o velho pescador consegui atravessar o rio, mas só depois que ele entregou sua filha a Oxum. Parapapapaiera Papapaiera Papapaiá Moro é do lado de lá É do lado de lá na beira do rio Amazonas Eu moro é do lado de lá É do lado de lá na beira do rio Amazonas Pescador pegue a canoa que eu quero atravessar Lá vem Oxum, rema ligeiro! Rema ligeiro tenho medo do banzeiro! Foi aí que o rio se acalmou e a princesa chamada Preciosa foi entregue para Oxum. E Oxum tornou dela cachoeiras lindas maravilhosas, rios maravilhosos. Oxum... Contada por Maia Inês da Cunha Correa, Ilva Vânia de Azevedo Santos e Ivanilda Jesus Laurindo em 201 4 na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


O CAÇADOR NÃO RESPEITA O TABU

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Diz que Oxóssi quando vem da Aldeia ele traz na cinta uma cobra coral. Inclusive tem uma história que ele é o caçador. Oxóssi é o caçador que vive nas matas. Um dia ele vai lá e mata uma cobra, e a cobra era quem? Oxumaré. Oxumaré é o arco íris no céu e a serpente na terra. Nessa época Oxum era mulher de Oxóssi, falou pra ele assim: – Oxóssi, você não vai caçar porque hoje é dia de tabu! Dia de tabu é aquele dia assim que você tem que descansar, guardar para o seu desenvolvimento espiritual, da sua mente... não pode fazer mais nada. E Oxóssi não respeitou o tabu. – Que é isso mulher? Cê tá doida, eu tô com vontade de comer uma caça, eu vô saí pra caçar sim, vô pensa em tabu nada! Não respeitou o tabu, saiu pra caça. E aí quando passou a serpente ele já foi, na primeira flecha, que é uma flechada só, né? Ele é o caçador de uma flecha só, com ele não tem erro não. Bateu, matou a cobra, levou pra casa, fez aquele cozido gostoso... Quando chegou em casa Oxum não tava, ele falou assim: – Ô beleza! Melhor mesmo, porque mulher fala demais no ouvido da gente, eu vô cozinha aqui vô cumê essa cobra! Pôs dendê, cebola roxa, aquela coisa toda, fez aquele caldão de cobra. Comeu... comeu e deitou. Deitou... ele tava até roncano. Oxum chegou com a roupa do rio foi colocar a roupa lá na cerca pra secar tá ouvindo os roncos de Oxóssi, de repente ela não ouviu mais nada. Parou de roncar. Ela pensou: – Ué, Oxóssi acordô, vô lá vê se ele tá precisando de alguma coisa. Quando ela chega lá, olha olha, Odé tava morto em cima da cama e do lado no chão da casa um rastro de cobra que sumia pela floresta. Oxum começou a chorar, mais chorou, mais chorou, mais chorou, mais chorou, mais chorou, mais chorou tanto que as lágrima dela já ia formando um rio até que ela pediu, suplicou, pra Olodumaré que é o Deus supremo, pra ter piedade de Oxóssi, porque ele apesar de ter errado aquele dia, não ter respeitado o tabu ele era um homem muito bom, fazia muitas coisas boas, era um marido bom. E ela gostava demais, era apaixonadíssima por ele. Olodumaré ficou com dó do pranto de Oxum e também reconheceu que Oxóssi, apesar de não ter cumprido o tabu, havia sido um homem bom. E aí, Olodumaré transformou Oxóssi num Orixá e disse pra ele pra respeitar sempre o dia de tabu e principalmente os animais que passam por ali que naquele caso não era um bicho, era quem? Oxumaré. E assim termina essa história, agora... diz que Oxum chorou demais viu, chorou demais, mas não chegou a virar rio não sabe. Diz que ela virou rio mesmo foi quando Xangô sumiu da Terra aí ela chorou tanto que ela virou um rio, tem até hoje lá na África o rio Oxum quem quiser ir lá pode ver que tem lá o rio Oxum que corre lá e as água dele são brava! Contada por Lorena Anastácio e Vinicius D. Moreira em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


Encantaria é o quê? Foi o ser humano que já viveu, mas que se encantou com corpo, mente e alma. Nunca apareceu o cadáver. Então se chama encantados. Encantados das matas, das águas, dos rios, das cachoeiras, do igarapé, dos igapós. É isso. (Edivanei)


C A P Í T U L O 3 OOSS EENNCCAANNTTAADDOOSS


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O ASERINGUEIRO última que eu vou contar é do seringueiro. O seringueiro, se ele tivesse

vivo, ele estava cortando a seringa. Certo dia ele contou essa história pra gente, nós tava trabalhando lá pelo Madeira. Aí ele perguntou pra mim assim: – Antônio, você acredita em Pajé? Eu disse: – Rapaz... depende né?, depende... Mas por que o senhor tá perguntando? Disse ele: – Olha, eu já fui servente de Pajé. Eu servia ele, ele fazia as sessão, aí chamava eu pra servir. Porque os cara que faz esses trabalho, ele tem o servente pra levar um pouco de cachaça, um pouco de água, um pouco de café. Então eu disse: – Mas como aconteceu isso com o senhor? Ele respondeu: – Não, eu não acreditava no cara, aí quando foi um dia ele me perguntou: – João, tu não acredita? E eu disse que não, não acreditava de jeito nenhum. – Pois eu vou mostrar pra ti que existe o encante! Encante é a pessoa que é encantada ou então tem encante. As pessoas dizem que Alter do Chão tem um encante lá, embaixo tem uma cidade encantada. Óbidos também. Aí ele disse assim, ele disse pro cara lá: – Só eu vendo que posso acreditar! Pois foi acontecer...Quando deu umas nove horas da noite, ele chamou João para sair para fora de casa. Quando ele saiu lá, vinha um navio bonito e encostou bem em frente da casa dele. Chamaram ele: – Tu viu o navio? – Vi. – Tá acreditando? – Não, isso aí é um navio que está perdido praticamente. – Agora volta pra fora e vê se tu vai ver um navio aí. Aí ele varou pra fora e não viu o navio. – Agora vamos lá fora embarcar naquela canoa. Eles embarcaram. – Eu vou te levar lá no encante agora! É do outro lado do Amazonas. Era lá do outro lado do Amazonas. Remaram e atravessaram pra lá. Antes de chegar no encante, ele disse: – Olha, o que tu vê lá, tu não come e nem toca também! Ele concordou, dizendo que estava tudo bem. Quando encostaram na beira, o Pajé foi logo dizendo: – Tu fecha teus olhos! Quando desceram, mandou o homem abrir os olhos. Abrindo os olhos, ele estava na cidade. Lá tinha muito ouro, lá tinha muita pimenta, tinha muita melancia, tudo com fartura. Ele viu muitas pessoas andando, mulheres de um lado pra outro transitando. Ele recebeu do Pajé a ordem de não falar com ninguém. Eles andaram tudo por lá, pelo encante. Na hora de voltar, fechou os olhos novamente, andou um pouquinho, e já estava na canoa. O Pajé perguntou: – Agora tu acreditou? E o homem disse que mesmo assim não acreditava! – Pode ser uma magia que tu está colocando. Segundo a minha esposa, ela morava na casa de uma senhora que também se encantava num homem, que mudava a voz dela. Segundo ela, o encante desta cidade é lá em Alter do Chão. Contada por Sr. Antônio Pereira Pinto em 201 4,

na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


A SAPONA

Bem, vou falar do meu tio que já se foi, mas é história verídica mesmo, sabe co-mo é? Os mais velhos sabem disso, mas os mais novos não sabem. Então ele era meio espiritado, topava a parada com qualquer um que fosse, ele não levava desaforo pra casa. Certa vez... nós temos um olho d'água ali, é muito antigo esse olho d'água, né? Toda a nossa família ali se servia desse olho d'água. Aí, quando foi um dia, ele baixou pra lá, ele agarrou que chegou lá. Quando foi pegar água, apresentou uma sapa. Ele agarrou, pegou um pau e: tá! No olho da sapa. Furou o olho da sapa, né? Passou tempo, passou muito tempo... aí o povo aqui começou a pular. Quem ia pro riacho lá, chegava lá, vinha de lá... mulher, inclusive mulher menstruada, chegava lá e pulava, pulava, pulava... Quando foi um dia, ele foi visitar a sobrinha dele e ela tava incorporada no corpo dela, a sapa. A Buiúna, se der o nome da sapa é Buiúna. Aí ela disse assim: – É... tu veio me visitar, né?, mas foi tu que furou meu olho, hehe. Ela falou no corpo dela. Aí ela disse: – Olha, avisa o pessoal lá, todas as coisas que vocês verem no riacho lá, se vocês verem um peixinho, se veem uma jacina... Conhece jacina? Conhece? Brilhante, tem umas asas assim bem avermelhada, bonita! Tem um que chama, vocês já ouvIiam falar em Põe a Mesa? Pois é, tinha um bem ali. Então, é ele que se gera nesses bicho, pra encantar as pessoas que vão lá. E esse é o princípio da história da Buiúna. Bem, essa sapa, um tempo quando subia pra trabalhar pro centro, que agora ninguém trabalha mais, a gente ia caminhando. Quando foi um dia... o dono de um terreno aqui tem uma lagoa lá em cima, a gente fez um bebedor de gado. Aí eu ia subindo de manhã, vi a sapa lá, grande, ela se entoava todinha, ficava bem brancazinha assim. Aí... a gente já sabia quem era a sapa né?, mas só que não deu pra ver se ela era cega ou não. Eu garrei e rodei aí, um dia conversando com ele, ele disse assim: – Antônio, essa sapa, se não for a Buiúna, é parecida com ela. Que ele também subia pra lá e reparava a sapa lá também. Então, pra nós que moramos aqui, tem várias e várias histórias desses encantados, que, muitas vezes, as pessoas não dão valor. Ó, hoje eles não respeitam mais, né? Os igarapés, antigamente, pra se passar num igarapé, a gente tinha que fazer um movimento pedindo licença. Se passasse sem fazer movimento nenhum, mais tarde já estava pulando. Contada por Sr. Antônio Pereira Pinto em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.

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Aí o pai diz que não acredita também, mas trouxe. Defumou a menina. Quando eu cheguei lá, nós embarquemo num carrinho e fomo imbora pra benzedeira. Cheguemo lá, a mulher, a curadeira mandou sentar, ela disse: – Ah, tá condenada dum espírito que quer se apoderar de você. Quando ela benzeu, quando ela bateu as folhas da espada de São Jorge, conhece o São Jorge? A menina queria pular da cadeira. Aí ela agarrou, bateu de novo três vezes, benzeu... Sem mentira nenhuma, de lá nós saímos, eu, ela e o pai, quando nós chegamos lá na residência, na nossa residência, na casa que é dela, pois o bicho incorporou nela. Foi, mana! Aí tinha uma sobrinha que tava lá fora e disse assim: – Entra, entra! Ela disse: – Ah eu não entro não. Por quê? Por que eu não entro aí. Aí eu disse: – Ajuda logo aqui! Aí o bicho falava grosso! Ele disse que ele morava aqui no Murumurutuba. Ele disse que era o Calça Molhada. Ele queria os espírito, né? Mas nós tinha muitas oração, muita reza. A minha sobrinha veio, rezou, e disse que aquela pessoa não era dele não. Era nossa. Ele disse que subia toda noite aqui. A gente até sabia, porque fazia poc! Poc! Poc! A calça molhada. Era o Calça Molhada. Era o bicho de calça molhada. Aí acabou, acabou a história! Incorporou já dentro de casa, da casa dela, sabe? Incorporou nela, na menina. Ela era uma menina solteira, nova... Ele disse que ele era morador do Murumurutuba e queria levar ela, quer dizer, queria uma companhia. Aí a minha sobrinha tava lá no quintal e entrou e disse: – Olha, você não vai levar ela porque ela é da parte de Deus, viu? Nós reza muito por ela e por todos nós. Mas, menina! A voz do homem era dum homem! Era grossa! Era forte a voz do bicho. Os olhos dela chega parece que queria sartar. Por Deus do céu! Isso eu vi! Aí a minha sobrinha trabalhou na oração, mas ela ficou boa assim logo, ela procurou outros meios para ela ficar boa. Pra ele deixar ela, mas depois que apareceu a energia, pronto, acabou. Mas eu tenho medo dele. Demais! Contada por Dona Maria Alexandrina Pinto em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba,Santarém/Pará/Brasil. 44


O CALÇA MOLHADA Antigamente tinha um espírito que andava ali no igarapé.

Ainda incorporou numas crianças aí, nuns moço. Depois tiraram o bicho. E uma foi embora pra Manaus, pra ele poder deixar ela. Aí a outra, caminha e apareceu aqui. Veio tomar um banho aqui nesse porto, nesse porto no igarapé. Aí ela agarrou, subiu de lá com febre, muita dor de cabeça. Ela disse: – Ah, vovó, eu tô com muita febre, muita dor de cabeça. Eu disse: – De quê? Tu não tomou banho com febre? Ela disse: – Não, eu estava lá e me deu uma dor de cabeça e uma febre. – E agora, minha filha? Tinha um carrinho aí. Eu disse: – Bora pra lá, pro motorista te levar lá pra Santarém. Aí eu disse: – Só que eu não vou. Eu não tô arrumada. – Eu vou só com o motorista e minha irmã, meu irmão. Aí ela agarrou, ela foi. O cara deixou ela na porta da casa dela, ela ficou lá. Aí eu fui de madrugada, peguei o carro, graças a Deus, graças a Deus! Eu agradeço aquele do céu e Nossa Senhora da terra, que apareceu esse transporte fácil pra gente. Porque era difícil, minha filha, era difícil. Aí eu agarrei de madrugada e fui. Eu vou ver a Arlete, a Arlete passou mal. Aí eu fui e cheguei lá. E ela tava ardendo em febre. Eu tenho uma filha por nome Maria, ela disse: – Olhe, mamãe, nós não dormimos com Arlete. – Por quê? – Arlete queria correr, Arlete gritava, Arlete quer socorro, Arlete pulava... E eu liguei pro pai dela lá na Rosa Passos, pra ele vim com nós, é da nossa banda. Aí ele veio. Chegou aí, andou atrás de uma benzedeira, curadeira, até a Maria do Dendê foi a curadeira dela. Quando eu cheguei lá, menina, de manhã, ela estava com olhos que parecia que era uma pimenta! Os olho aceso. Eu digo: – Menina, o que tu tem? – Vovó, eu tô com muita febre. – Credo! De quê? – Num sei. Aí a Mariazinha: – Nós não dormimos, mamãe. Olha, a Arlete queria pular, a Arlete queria gritar, Arlete queria correr, deixar nós aqui. Eu digo: – Credo! Bora, mandei Chico numa benzedeira. Aí ela foi, e ele foi benzer. A benzedeira disse: – Leve cigarro, defume ela.


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fincava o pé na carreira eu corria mesmo. Aonde a mamãe me mandava eu ia rápido, ela diziam assim: – Eu vou cuspir bem aqui, eu vou cuspir bem aqui, se tu demorar tu vai pegar uma pia. Aí eu, a gente... naquele tempo era tudo bestinha, agora não! Não tem nenhuma criança besta, se eu disse “vou cuspir aqui pra ti não demorar” ele vai dizer assim “mas vai secar”. E eu pensava que se cuspisse não ia secar nunca e eu andava só assim às carreira. Aí eu fui lá e o que foi que ele falou? Eu disse: – Meu padrinho, é pro senhor ir lá com a Suzana. Ele disse: – É? É o resto né? Eu sou o resto né? Eu disse: – Não, o senhor não é o resto. É porque a gente corre, nós não sabia o que era. E aí ele foi lá em casa, e ele disse assim: – Suzana. Ela disse: – Senhor, meu padrinho. Aí ela tomou bença, ele abençoou. – Tu achas que eu vou te tratar? Ela falou: – Eu acho. Aí o papai disse assim: – Aooonde? Nós já veio do hospital e ela não ficou boa, como é que lá ela vai ficar boa né? Ele não tinha muita fé. Eu digo pra vocês nós cheguemo de tarde, atemo a rede e butamo ela tesa. Juro pra vocês quando nós botamo a bóia na mesa pra ele comer a colher caiu aí o mestre encostava nele e dizia assim: – Gente, eu não posso comer. Eu to tratando duma filha e ela vai ficar boa. Aí ele empurrava o prato e

aí ele ia né. Que era o mestre que sempre acompanhava ele. Ele num cumia e dava o prato e a cumida pra ela. Ele ficava de jejum pra curá ela. Mas pra cuidar dela no dia assim só quem suportava era só eu a mamãe e os outros ninguém, que num tinha quem custasse, que o fedor era demais, ela tava podre, lhe juro, se ele tivesse vivo ele dizia a verdade. É ele fazia jejum porque ele não podia comer pra curar a menina. Ele curou? Curou! Eu não to dizendo, tem parece que dez filhos pra dentro de Manaus, cada morenão que vocês precisa ver. Cura dele, do meu padrinho Zé Pinto. E eu digo que ele sabia alguma coisa porque quando eles chegavam, que eles davam nele, eles cantavam: – São Pedro e São Paulo ajude a Jesus. Jesus de Nazaré ajude a de vim. Aí também pronto, ele ia lá, ele dizia assim: – Suzana de Nazaré você vai alevantar pra me mostrar quem eu sou. E levantou. Tem num sei quanto, num sei se é dez ou doze filhos que ela tem. Cada morenão! Neto tudinho ela tem. Foi intoxicação. Ela intoxicou, que ela só fazia urinar, ela não defecava, não comia, nem nada, trancou os dentes.. Contada por Dona Maria Silvina Silva em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


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O CURADOR ZÉ PINTO

O meu padrinho Zé Pinto ele era um curador pra nós aqui muito bom. Por que a minha irmã, eu tava eu já era casada, aí a mamãe cozinhou um fígado de porco e deu pra ela comer nisso ai eu chamei ela pra lá. Aí ela saiu correndo, quando ela saiu correndo que ela voltou ela desmaiou. A mamãe disse: – Pois minha filha vai morrer! Aí vai morrer, vai morrer... Com essa menina nós fomos pelo hospital e vortemo, ela ficou tesa, tesa, tesa que nem um pau. Aí nós fomos, a mamãe botou ela no hospital, ela veio, a mamãe tirou ela forçado de lá, ela veio, nós fumo pra Saracura com uma senhora que era curadeira também, a Dona Tapuia né. Aí o que eles disseram pra nós, os mestres dela disse: – Quando uma pessoa ta pra morrer a gente deixa em casa e essa aí ninguém não dá conta ninguém não sabe, não tem como nós curar ela. E eu disse pra eles, porque eu era todo tempo, eu era assim uma pessoa... sei lá... perigosa mesmo, caboclo não dizia certas coisas pra mim. Certas coisas pra mim pra eu ficar calada? Eu tinha de dar a resposta. Aí de lá eu disse: – Olha, mais do que Deus não tem; quem sabe até nós não vamos achar uma pessoa pra curar ela né? Mas era tesa sabe, ela não defecava, ela não comia, ela não fazia nada, a boca trancou e aí nós metia na coisa assim: nós abria a boca dela pra meter as vezes um chá, uma coisazinha, um leite pra ela tomar, era o sustento dela. Quando foi um dia nós viemo embora lá de cima. – Papai, eu quero ir mimbora, me leva pra casa. Aí nós fomos. Papai andava com uma canoa grande né, metendo ela embaixo da torda e lá ela ficou. Aqui num tem eu acho um parente dela. Era o finado Boaventura que morava bem ali, vem até chegando a neta dele, aí ele chegou e olhou assim embaixo da torda disse assim: – Mas vocês acham que essa pequena ainda vai viver? Eu posso ir até primeiro de que ela, mas essa não escapa. Eu disse: – Seu Boaventura, eu tenho certeza que se Deus quiser ela vai ficar boa. Aí quando foi um dia ela me chamou, ela chama pra mim, ela chamava pra mim, chama até hoje por que ela não morreu, ela disse: – Minha mãe Servina. Eu disse: – O que é minha filha? Ela disse assim: – Vá lá na casa do meu padrinho Zé Pinto, que se eu chamasse padrinho pra um eles chamavam também né, vá lá na casa do meu padrinho Zé Pinto e diga pra ele vim aqui que ele... Eu digo: – Mas minha filha, aonde que ele vai te curar? Aí ela disse assim: – Vá chamar ele que ele vai me curar. Eu digo: – Mas será minha filha? Ela disse: – Vai mamãe! Aí eu fui lá com a mamãe. Eu disse: – Mamãe, olhe a Suzana disse que era pra nós ir lá na casa do meu padrinho Zé Pinto chamar ele pra ele vim aqui. A mamãe disse: – Mas será


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O H O M EM D A C AS TAN H EI RA Q U EI M AD A Olha nós morava ali no centro, lá ali na Serra bem pra ali, nós morava lá. Um dia o papai tava pro lago, aí nós tava tudo esperando ele chegar pra subir porque ele subia a serra; nós morava na desteira lá da serra. Aí que quando nós vimo, bem na encruzilhada que ia pra cá pra serra, pra cá era nossa casa né, a mamãe contava já isso, que quando nós tava tudo lá, era luar, aí diz que eu que era a mais danada aí eu disse: – Olha mamãe lá vem o papai, lá vem o papai! E a gente queria correr. Ela disse: – Não corram, vocês não corre que não é o pai de vocês. E o homem ficou bem em pé! Ai teve, teve, teve e ela disse: – Vumbora pra dentro que não é teu pai. Aí nós fomos. Quando foi um dia como ela tá contando do meu padrinho Zé Pinto, que era meu padrinho, que ele era curador. Ele fez um trabalho, nós fomos lá, sempre a gente acompanhava essas coisa. Aí ele, os mestres dele que era o Pedro não sei de que o nome dele, ele disse: – Olha, Dona Maria, vocês tiveram muita sorte, essa sua filha é perigosa. A senhora teve muita sorte porque se ela fosse mais adiante eles iam levar ela. Ele ia levar. Eu vou trazer ele aqui pra ele vim aqui falar com a senhora. Aí ele saiu no corpo dele, quando ele entrou ele disse: – Qual é menina da Dona Maria curiosa? E a mamãe disse: – Ela não é curiosa, se o pai tava pro lago então nós tava tudo no terreiro esperando ele chegar, aí se apresentou o homem lá, ela ia correr porque ela pensava que era o pai dela. – Pois é, mas ela teve muita sorte, porque eu ia levar ela. Tinha uma castanheira grande adiante de nós que a gente chamava castanheira queimada. Aí lá ele se butava, quando a gente ia ajuntar castanha era limpo limpo aonde ele vivia, e ele vivia lá. Esse homem... Por que naquele tempo existia muita coisa aqui. Contada por Dona Maria Silvina Silva em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


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papai se aborrecia... nós dava umas três voltas e papai se aborrecia.–Nós não vamos mais ! Vamos ficar aqui mesmo! Raimunda tá remando, gastando força e nós não sai do lugar! Nós vamos ficar aqui mesmo! E minha prima: – Reza, Sulina; reza, Raimunda, minha filha, vão bora! E a gente tornava a pegar no remo de novo, e ela repetia sempre com a mão na barriga: – Reza, Mariinha, minha filha, re-za. Reza, minha filha, para nós ir embora! Até que, com muito custo, nós chegamos ali, num porto. Naquela arrumação, a gente en-xergava fogo, ali, na serra do seringueiro, nós dizia pro papai: – Ô, pai, aquele fogo pr’ali é lá na Serra do Seringueiro! E ele teimava que era na cidade, e nós teimava que era na Serra. Lá no curral do Paulo Zinho, que era onde tinha gado. Graças a Deus, mandado por Deus, veio um de canoa, pas-sou por nós e chamou:– Eh, Sr.Acorrentou-ro, o senhor viajando uma hora dessas! O senhor não chega de noite da cidade. O pa-pai já muito bravo com nós, porque nós ti-nha demorado, chegado depois do horário. – Essas cunhantã que foram pra lá, pro cen-tro da cidade, chegaram fora de hora, agora nós estamos aqui, perdido aqui no meio do lago! Aí viemos embora, metemos o remo de novo. Viemos metendo o remo, remando, e aí... tava lá no mesmo lugar de novo. Aí pa-pai: – Agora não tem mais jeito! Vamos ficar aqui mesmo! E a minha prima, ela se ajeita-va no banco: – Ai meu Deus do céu! Reza, Sulina; reza, Raimunda. Pelo amor de Deus!Para nós sair daqui! E até que aquela arrumação, graças a Deus, com aquela conversa,

nós saímos, né? Conseguimos sair. Quando acaba, ela já vinha com dor pra ganhar neném. Aí cheguemo, encostemo na beira. Essa mulher saiu, pegou a estiva e saiu, caía do nada. E ela tava com uma sobrinha dela, uma moleca que ela criava. A moleca caía com a lata que lá vinha trazendo. Ela dizia: – Levanta, minha filha! E vamos embora! Ela vinha aperreada, né? Porque ela vinha com sinal de parto. Por isso que apareceu aquilo pra ele, aquela coisa pra deixar ele perturbado. Não sabia, porque ela já vinha com todo sinal de parto já e não poderia acontecer aquilo no meio do rio. E aí quando cheguemo em casa, nós não sabia que ela tava com dor, porque ela não dizia, só mandava rezar. Quando chegou em casa, ela também não queria dizer pro papai que já ia ter, porque naquele tempo respeitava muito. Ela queria chegar na casa dela, no Bom Jardim. Chegou em casa, vão bora, bora deitar.– Sulina, minha filha, puxa minha barriga!– Mas puxar como, Germana?– Puxa de baixo pra riba, minha filha!Que era para o moleque subir. Eu sei que nessa puxação, de baixo pra riba, o moleque aguentou até de madrugada. De madrugada, deu tempo dela sair lá de casa e foi pra casa da minha tia Josefa. Foi lá que ela pariu o moleque. Mas, então, era coisas que a gente não podia andar menstruada no rio, na estrada. Se saísse menstruada na estrada, quando não demorava, tava pulando, só ficava boa quando ia pra mão do curador. Então isso aí aconteceu com nós no rio e com ela, que é porque já vinha com sinal de parto. Contada por Dona Raimunda Pereira dos Santos em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


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FOGO

Essas coisas, elas apareciam não era só aqui na terra firme, mas no rio elas aparecem tam-bém. Aparecia, hoje a gente já não vê mais. Mas essa aí eu vi com meu avô. Antigamente, a gente viajava daqui pra Santarém de canoa. A gente ia num dia, para voltar no outro dia. Sempre o horário de sair de Santarém era 1 1 horas, 1 0 horas, para chegar aqui à luz do dia. Mas, naquele dia, eu, minha mãe e meu avô fo-mos pra o comércio e passamos da hora. E chegamos na hora para sair, já fora de hora. Ia chegar aqui em Murumurutuba de noite mesmo, pela hora que nós saímos de lá. Quando chegou no centro da cida-de, na prainha, tinha uma prima nossa que estava lá no porto, na beira, ela es-tava gestante e pergun-tou para o meu avô: – Você me dá uma passagem para mim ir pra lá para comunidade? Aí, de lá, eu vou pro Bom Jardim. Aí meu avô disse: – Vão bora, que eu não sei que horas que nós vamos chegar lá em casa hoje, por-que essas duas socaram para o comércio. Agora que vieram chegar, nós vamos che-gar de noite em casa! Mas, vão bora, tu quer ir as-sim, bora! E viemos embora. Foi anoitecen-do no meio da viagem. Viemos embora... Quando chegou aí, tinha umas ilhas que a gente cha-mava Ilha da Mariazinha, e de lá pra cá anoi-teceu mesmo. Aí viemos, viemos, e quando chegou certa parte, ela começou a olhar pra trás. E nós vinha no remo, remando. Remo pra lá, remo pra cá... e ela começou a olhar para trás: – Tio Acorrentouro, olha aquele fogo ali pr’atrás, tio Acorrentouro! E o papai nem li-gava, remando... estava eu, a Mariinha, que era a prima minha, a mamãe...

E nós no remo. Com pouco, ela olhava: – Tio Acorrentouro, olha o fogo ali pr’atrás, tio Acorrentouro! Até que uma hora papai foi olhar:– Mas que fogo, pequena? – Olha, aquele fogo ali pr’atrás! Ele olhou para lá, quando ele virou já virou dizendo: – Bora do-brar a canoa que nós estamos indo er-rado, nós temos que ir pra cá, aí nós vamos voltar pra cidade de novo. E a gente falava que não, que era pro lado mesmo que já estava indo, que tinha de continuar. E ele dizia: – Não, é pra cima, nós temos que ir pra cá! Nós não vamos pra lá, nós vamos é pra cá! A gente saía de lá daquele pedacinho que a gente tava, desde a hora que ele olhou para trás, aí ele perdeu o rumo mesmo da viagem. A gente rodava, ia até certa parte, quando a gente olhava, já tava lá no mesmo lugar de novo, de onde tinha saído. Papai se aborrecia, meu avô, né? – Nós não vamos mais! Vamos dormir aqui! Vamos sair daqui amanhã de manhã, que já era para nós tá em casa... não mandei vocês estarem lá para o comércio, se demorarem, vieram chegar tarde! Agora nós vamos ficar aqui! E minha prima, com a mão na barriga, só fazia dizer: – Ai, Tio Acorrentouro... reza, Mariinha; reza, Raimunda; reza, Sulina; minha filha! Ela já estava com dor. E papai dizia: – Bora de novo! Vamos ver se nós sai daqui! Nós pegava no remo, remava, remava, remava... quando dava pra ver, nós tava no mesmo lugar de onde nós tinha saído. Aí que


MENINO DE COCA OU MENINO DE BREU

Deixa eu contar outra história. Nós vinha de um jogo, naquela época não tinha máquina pra limpar a estrada. Era nós mesmo, comunitários, que limpava a estrada, roçava bem. Certo é que passou por mim um garoto, eles chamava de menino de coca, né? Mas não era menino de coca, era moleque de breu que chamava. Quando vi aquele homem pequenininho assim, eu fui obrigado a dar o caminho pra ele. E ele passou. O pessoal que vinha atrás de mim não encontraram com esse homem. Então são fatos que acontecem. A gente vê, mas não sabe o que é realmente. Neste igarapé da comunidade, lá onde meu tio furou o olho da Buiúna, da sapa, lá, nesse igarapé, meu primo que está em Manaus foi tomar banho e aí ele viu um moleque também lá. Só que ele saiu correndo atrás do moleque e está correndo até hoje atrás do moleque, e não encontrou o moleque. O moleque que tava lá no riacho. Uma outra vez, tinha só esse poço, todo mundo da família baixava pra tomar banho lá. E a gente tinha um sistema, porque era aberto, e a gente respeitava mulher, qualquer um que tava tomando banho lá. Chegava lá em cima e gritava hei. Se tivesse alguém, respondia hei. Teve um dia, que eu baixei do centro, estava trabalhando, era meio dia, fui tomar um banho. Cheguei lá, escutei zoada em cima da ponte, vi que tinha alguém tomando banho. Fiquei lá. Mas, rapaz! Quase meia hora! Tava demorando esse banho, eu já com fome pra caramba! Baixei e vi que estava enxutinha a ponte, não tinha ninguém tomando banho lá. Então, esse nosso poço ali tem muitas coisas que acontece. E muita gente que baixou pra lá e até se mudou pra Manaus e trocou a religião dele por outra, porque pulava muito, né? contada por Sr. Antônio Pereira Pinto em 201 4 na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.

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H I S TÓ RI A D A S A P A A Buiúna, ela incorporou num menino também. Aí ela aparecia, sabe? O moleque dava pontapé nela, e flechava ela, e jugava pro riacho... porque aí tinha um igarapezinho. O moleque, eram três moleques: dois sobrinho meu e um filho. Aí, pois! Ela se incorporou. Acho que era um espírito, né? Eu acho que era espírito. Ela incorporou neste menino aí, ela se invocou pra ver. Eu fico assim, pensando, como é as coisas! Diz que ela se gerou num passarinho, num galho do pau. Aí o moleque foi balar o passarinho e lá ela judiou ele. Este menino pulava! Deus o livre! Aquele pulou mesmo! Filho da Maria, tu conhece Maria? Pulava igual à sapa. Mas ficou bom, foram embora pra Manaus também, mana. Ficaram bom aqui em Santarém não, foram embora pra Manaus. A Buiúna invadiu o menino balando o passarinho na árvore. Foi bater em Manaus! Os bezendor não deram conta dele. Ele pulava muito.

Contada por Dona Maria Alexandrina Pinto em 201 4, na comunidade quilombola de Murumurutuba, Santarém/Pará/Brasil.


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O U TRA H I S TÓ RI A D A S A P A Lá no Solimões duas crianças vinham da aula. Elas viram um passarinho na estrada, eram pequenos, né? Aí viram o passarinho e iam atrás do passarinho. Toda vez iam atrás do passarinho, iam pegar o passarinho. Aí sumiram as crianças. Passou, passou, os familiares foram atrás e tudo e tal, pra procurar. Diz que era muita gente! Não conseguiram achar. Passou, passou. Foi, um cidadão encontrou eles. Eles contando que, quando eles vieram da escola, eles viram o passarinho e foram pegar o passarinho. Só que, toda vez que eles chegavam perto do passarinho, a estrada mudava de lugar. E eles foram entrando mais pra dentro do mato, mais pra dentro do mato. Ele contou que, numa noite, eles dormiam na árvore e a irmã dele caiu da árvore, e caiu no pé duma onça. No luar, ele viu a onça lá embaixo, mas não fez nada não. Ele chamou ela, ela subiu. Quando encontraram eles, tavam muito magrinho. Se alimentavam de fruta no mato. Foi a a Sapa que tinha se gerado no passarinho e queria levar eles, as crianças. Contada por Márcio em 201 4, na comunidade quilombola Santarém/Pará/Brasil.

de

Murumurutuba,


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PARTICIPANTES Elizangela M. Hadad Gicele Pereira Luzenira Caetano Cristiane Pinto Patrícia Pinto Erli Silva dos Santos Silvana de Jesus Pinto Rosete Silva Alessandra Caripuna Mario Fernando Diego Darlisson Carla Pantoja Malenna Farias Divanilda Silva Joana Coelho Raimunda Sousa Tamires Carneiro Pai Westerley Pai Edivanei Roberta Menezes Camila Cristina Célia M Campos Manuelle Matos Rosimari Santos Ederlan Corrêa Jucimara de Jesus Maria Perpétua Maria Marcele Alexandra dos Santos Celcilane Barbosa Ney Nascimento Givanildo Carvalho Mª Claudemira C. Antonio

Conceição G. dos Santos Bianca P. de Almeida Everson C. C. Melo Anderson B. C. da Costa Simone C. Carvalho Andressa S. da Silva Clara Ariete M. Costa Tamires M. Carneiro Bruna J. de Oliveira Vaz Pedro J. Alcantara Anderson Pereira Emília Dourado Laryssa Sousa Silva Maike Vieira Silvert Gregorio Tatianne Picanço Maria do S. Peloso Israel M. Cardoso Mae Brígida Pai Clodomilson Raimunda Núbia Itaciara Nascimento Ilva Vânia Patrícia Guimarães Wanderleia Vieria Missilena Santos Bruna da Silva Ivanilda Laurindo Maria Inês Zildenice Barreto Gecineide Bentes Taciana Miranda Helder Gama

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QUILOMBOS DO BAIXO AMAZONAS

Foi no século XVII que começaram a chegar os primeiros escravos negros de origem africana na região hoje conhecida como Amazônia. Vindos de diferentes partes da África, eram comprados pelos habitantes locais (que passavam a chamar de senhores) e utilizados nos mais diversos trabalhos: na lavoura de diferentes produtos (cana, arroz, cacau e outros), na criação de gado, nas casas dos seus senhores, nas atividades urbanas e até na extração das chamadas “drogas do sertão”. Inseridos naquela sociedade, entraram em contato com outros indivíduos e grupos (com destaque para as populações indígenas), com quem ora viviam harmoniosamente, ora em conflitos, mas geralmente em constante negociação. Não podemos pensar, porém, que brancos, indígenas e negros eram iguais entre si e se viam como iguais; pelo contrário, havia muitas diferenças em jogo.Pensando os negros escravos como sujeitos históricos – capazes de entender o mundo ao redor e sabendo agir politicamente –, as relações que estabeleciam com seus senhores foram marcadas pelo conflito e pela negociação, como apontam alguns historiadores. Além disso, resistiram de várias formas: cometeram crimes contra os senhores, os familiares ou subordinados dos mesmos; foram à justiça, ou seja, às vias legais; no dia-a-dia, desobedeceram, protelaram serviços, entre outras posturas; fugiram por diversos motivos e com diferentes rumos, muitas vezes constituindo quilombos.No período colonial e imperial, vários quilombos foram constituídos no Baixo Amazonas, principalmente em torno de Óbidos, Santarém, e Alenquer, principais cidades escravistas na região. Como diz o historiador Eurípedes Funes, nestas comunidades, situadas em locais de difícil acesso, mas em trechos navegáveis, onde se pudesse plantar, pescar e coletar bons produtos da floresta, os quilombolas em geral se estruturavam a partir da família e em torno de lideranças, responsáveis por conduzir politicamente os grupos. O sincretismo era outra grande característica, tanto na religiosidade quanto na organização social e outros aspectos culturais, onde os elementos africanos e americanos constantemente se mesclavam. A relação com o meio ambiente era intensa, marcando cada característica da vida no quilombo. Por outro lado, nem sempre os quilombos ficavam isolados do mundo ao redor. O contato com as cidades e aldeias indígenas próximas, por exemplo, eram muito úteis à economia dos quilombos e à sobrevivência dos mesmos, pois também praticavam o comércio e precisavam rotineiramente criar e recriar estratégias de resistência frente à perseguição das autoridades estabelecidas. Afinal, continuavam sendo vistos como escravos fugidos. Estes contatos, portanto, eram sinônimo de troca de bens, ideias e informações, valiosíssimas para a continuidade dos quilombos. Luiz Carlos Laurindo Júnior Referências: FUNES, Eurípedes A. “’Nasci nas matas, nunca tive senhor’. História e memória dos mocambos do baixo Amazonas”. In: REIS, João José & GOMES, Flávio. Liberdade por um fio: história dos

quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1 996, pp. 467-497.


NOSSOS AGRADECIMENTOS

A Oxalá, o grande pai, Deus sobre todas as coisas. A Exú por abrir nossos caminhos, a todos os Orixás e Caboclos. À nossos pais e mães. A todos os Terreiros que nos receberam com Axé. Mães de Santo, Pais de Santo, Ogãns, Ekedes e Filhos de Santo. Em especial Pai Edvanei, Pai Clodomilson, Mãe Brígida, Pai Westerley por participarem mais ativamente deste projeto. Às comunidades quilombolas de Murumurutuba e Saracura pela emocionante rece-pção, acolhimento e participação. Ao Núcleo de Estudos e Pesquisas das Expressões Afro-religiosas do Oeste do Pa-rá e Caribe – NPDAFRO/UFOPA – pelo importante e necessário trabalho que pratica em Santarém, pela acolhida e confiança nesta equipe e nesta ação. Alessandra, Marcos e Mário – SEMED – pela abertura ao diálogo e confiança. Francinei – FOQS – pela disponibilidade e escuta. Aos amigos Hermes, Luciana, Palestina e Cibele que dividiram conosco suas casas, pertences e carinhos. Carla, Telma, Aldo e Taciana pelas importantes conversas que contribuíram para o sucesso das ações. Pai Zildo e Pai Edvanei pela acolhida e companhia em visita a outros terreiros, uma ponte de comunicação entre nós e algumas casas de santo. Lucibete pelo quão solícita na etapa de organização do transporte. Kátia Hadad por esquentar nossa roda de diálogo com experiência e conhecimento. Nosso grande amigo Catraca por fazer soar os tambores e a memória de África por onde passa e em especial na viagem a Saracura. Às crianças, adolescentes, professores e funcionários das escolas quilombolas São Sebastião e Nossa Senhora do Livramento. Guaraci Maximiano por acreditar e confiar no nosso trabalho. Cris Borges pela parceira na revisão textual e consultoria amiga quando o assunto é literatura oral. À Fundação Cultural Palmares pela iniciativa do Edital Ideias Criativas que viabilizou este trabalho. Finalmente a todos que estiveram conosco nesta fantástica roda de arte, ludicidade, memória e resistência. Axé! Laroyê! Lorena Anastácio e Vinícius D. Moreira Projeto Laroyê! A magia dos Orixás dos Terreiros às Escolas. 59

ORIXÁS CABOCLOS E ENCANTADOS  

Livreto de histórias resultado do projeto "Laroyê!: a magia dos orixás dos terreiros às escolas" realizado por Lorena Anastácio e Vinícius D...

ORIXÁS CABOCLOS E ENCANTADOS  

Livreto de histórias resultado do projeto "Laroyê!: a magia dos orixás dos terreiros às escolas" realizado por Lorena Anastácio e Vinícius D...

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