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saúde

Silêncio forçado

FOTOS DE ARQUIVO PESSOAL

Problemas nas cordas vocais prejudicam líderes; especialistas alertam sobre os cuidados com a voz Por Vinicius Cintra*

É

por intermédio da voz que as pessoas se comunicam. Ela é usada em todos os lugares: na casa, na rua, no trabalho e na igreja. E se não for tratada com o devido respeito, aumenta o risco do surgimento de problemas nas cordas vocais — principalmente para quem fala muito, como os pastores. Especialistas alertam sobre os cuidados necessários para garantir que a sua voz não envelheça nem perca tonicidade. Com o passar dos anos, as cordas vocais se desgastam. A voz possante e firme da juventude se torna fraca e sem intensidade. Muitas vezes, o quadro piora por causa da negligência do cantor ou orador. A ingestão de bebida alcoólica, bebidas quentes e frias, o uso indevido e em tons mais altos são alguns dos muitos fatores que provocam consequências negativas no futuro.

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Para entender como funciona a voz, o professor Joel Soares Costa, do Centro de Aperfeiçoamento Musicando, em Vila Maria, zona norte de São Paulo, faz a comparação com um sistema de carro. Segundo ele, há quatro elementos básicos: motor, vibradores, ressonadores e articuladores. O motor, segundo ele, é a pressão do ar que vem dos pulmões. Os vibradores são as pregas vocais, que se unem, vibram e produzem o som. “Os ressonadores são os locais onde a voz ressoa, amplificando o som”, explica. Os principais ressonadores são a laringe, a faringe, a boca, as cavidades na base do crânio, a passagem nasal, a cavidade torácica e a nuca. Há também o quarto e último integrante desse sistema: os articuladores, que são os lábios e a língua agindo com o palato e os dentes. “É preciso que tudo esteja

Fernanda Rodrigues: a fonoaudióloga atende líderes e executivos com problemas na voz

bem cuidado para funcionar bem”, diz o especialista. Quando esse motor não está em boas condições, problemas como pigarro, rouquidão, cansaço para falar, dificuldade em falar forte ou

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fraco e até afonia podem ocorrer. “Quando esses sintomas persistem por mais de uma semana, podemos dizer que a pessoa é propensa a alterações de voz, as chamadas disfonias”, explica Fernanda de Morais Rodrigues, especialista em voz e mestre em Fonoaudiologia pela PUC. Em seu escritório de consultoria, ela atende líderes e executivos de várias empresas há seis anos. Fernanda lembra que há três tipos de disfonias (veja o boxe). A maioria das disfonias pode ser curada por meio de terapia fonoaudiológica e acompanhamento de um otorrinolaringologista. “Imagine se ficássemos durante seis horas seguidas batendo palmas com força. Provavelmente surgiria um calo nas mãos. É justamente isso que ocorre quando gritamos: as pregas vocais vibram com uma força excessiva e, como consequência, surgem os famosos calos nas pregas vocais”, diz. Na terapia fonoaudiológica são realizados exercícios específicos para alteração de voz, respiração,

velocidade de fala e volume de voz, entre outros parâmetros. Em alguns casos, como no caso do calo, é possível eliminar o problema somente com exercícios. Em casos mais graves, só uma cirurgia pode dar jeito.

Roquidão O pastor metodista Carlos Eduardo Chaves, do Rio de Janeiro, sabe bem a dor de cabeça que é não ter a voz ativa. No início do ano de 2005, ele começou a ter rouquidão sempre no início da manhã ou no fim da tarde. Mesmo alertado por uma prima fonoaudióloga que o problema não era tão simples quanto ele pensava, o pastor foi deixando a rouquidão de lado. Depois de muito tempo, procurou uma especialista e foi diagnosticada uma fenda na garganta. Não foi preciso intervenção cirúrgica; apenas exercícios. Passados dois anos, sua voz voltou a piorar. Com uma nova bateria de exames, foi constatada presença de pólipos (pequenas verrugas) que se formaram nas

Os três tipos de disfonias Disfonias orgânicas São produzidas pelo nosso organismo. Quando estamos com gripe ou alguma alergia respiratória, a voz fica alterada, podendo ficar mais nasal, rouca ou com falhas. Essa alteração ocorre como instrumento de defesa do próprio organismo. Disfonias funcionais Ocorrem quando abusamos da voz, com gritos exagerados e falas sem pausas. É comum essa alteração quando vamos a um show, culto barulhento ou jogo de futebol. Depois de dois dias, a voz volta ao normal. Disfonias organofuncionais São conseqüências das disfonias funcionais. A ocorrência frequente pode causar lesões nas cordas vocais.

cordas vocais. Só uma cirurgia deu jeito no problema. “Comecei a fazer os exames para a cirurgia. Nesse ínterim, surgiu um problema muito

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Adriano Mendonça: descanso e relaxamento antes e depois de cantar

mais grave em outra parte do meu corpo. Passei por uma cirurgia e esse problema foi resolvido, só que a voz continuava rouca”, lembra. Com intervenção divina, sua voz voltou ao normal. Depois do susto, Eduardo tem mais cuidados com a voz enquanto está pregando, bebe água regularmente e tenta moderar o tom.

Problemas com a voz são mais comuns do que se pensa. Calcula-se que o mal atinja cerca de 70% da população. Qualquer pessoa está sujeita a esse tipo de problema, mas dependendo da atividade que ela exerce, a propensão é maior. Vendedores, locutores, advogados, músicos, pastores, professores e outros profissionais que usam muito a voz devem

Sabendo usar, não vai faltar Sua voz é uma jóia, por isso tome alguns cuidados bem simples: Beba bastante água, mas não gelada. Mantenha a higiene bucal.  Discipline-se: só fale alto ou grite quando for estritamente necessário.  Procure não deixar o volume da TV, do aparelho de som ou do rádio do carro muito altos. Para ser ouvido, você terá de falar alto e, com isso, forçará a voz.  Se usar aparelhos do tipo iPod ou MP3, mantenha em volume baixo, pois eles podem fazer com que você perca a noção do volume da voz.  Ao falar em público, faça questão de que o som esteja bem regulado. Isso ajuda muito a evitar que você precise forçar a voz.  O aquecimento das cordas vocais antes de cantar ou fazer uma palestra é aconselhável.  Descanse a voz sempre que possível. Se você a usa o tempo todo no trabalho, procure falar baixo e suave em casa. Se possível, passe períodos de repouso total para a voz.  Tudo o que prejudica os órgãos envolvidos na fala afetam a voz, em algum momento. Fumantes, por exemplo, podem ter problemas respiratórios que refletem na voz.  Alguns alimentos podem prejudicar a voz direta ou indiretamente — por exemplo, causar pigarros.  Evite aborrecimentos. O estresse pode causar rouquidão e pigarros.  Respire adequadamente.  Evite contato com substâncias que provoquem alergia e ambientes com muito pó.  

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tomar cuidados especiais, principalmente com relação à respiração, volume de voz, pronúncia das palavras e o tempo que falamos. Adriano Mendonça, vocalista do ministério Adoração e Intimidade, tem o cuidado de repousar a voz antes de ministrar nas igrejas, evitando doces, gelados e dando preferência a uma alimentação saudável. “Tive experiências difíceis durante a gravação do nosso primeiro CD. Na época, estava com um excessivo cansaço mental, somado a ansiedades e preocupações. Isso acabou influenciando na hora de gravar. Tive diversas pausas para relaxamento e descanso. Quem tem a voz como instrumento de trabalho deve cuidar o máximo que puder”, aconselha. * Sob orientação de Omar de Souza e Celso de Carvalho

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SILÊNCIO FORÇADO