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Fora da Ordem

Vinicius Borba

Edição do Autor São Sebastião - Brasília - DF 2015


Fora da Ordem

Poemas de Vinicius Borba Ilustras de Carlione Ramos 2003 - 2015

Dedico esta singela peça de rebeldias aos que resistiram para além de suas capacidades físicas e emocionais aos vícios de poder, que resistiram aos ataques torpes da vida contra seu senso de justiça, aos que decidiram subverter a lógica quando esta demonstrou seu descompaso e absurdo, subvertendo a história e se mantendo Fora da Ordem posta. A tod@s que se consideram e sabem ser Radicais e Livres. Dedico em especial à minha companheira e filhas, meus dois melhores poemas.

Fora da Ordem - Poesias e diagramação: Vinicius Borba; Ilustração: Carlione Ramos; Capa: George Gregory - 1ª ed. - São Sebastião - Brasília (DF): Ed. do Autor, 2015. 36 p.; 21x14 cm. 1. Poesia. 2. Literatura Divergente. 3. Resistência rimada. Direitos de reprodução autorizados desde que citados autor e fonte. Apoio e Realização

À minha mãe, que persistiu Fora da Ordem para me mostrar que o caminho é o amor, e só ele fica ao final, bem como às minhas amadas irmãs. E a meus / minhas mestr@s da vida e de lutas, pela paciência em ouvir meus desenganos e contradições, incentivando sempre a resistir e furar bloqueios quando a vida assim exige.

Fb.com/PoetaViniciusBorba www.viniciusborbablog.blogspot.com


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Hipertextualidade e gênero Este livro contém hipertextualidade, links em alguns pontos e palavras, formas de você ampliar o sentido e entender mais profundamente com outros textos, vídeos, fotos e reportagens quais fontes inspiram o artista num determinado ponto. Cheque você mesm@, passe o “mause” com a seta sobre os títulos e palavras destacadas e navegue para além do sentido da poesia, dando milhares de novos sentidos a suas emoções. Inspiração querida da Arte de Interface proposta pelo Coletivo Palavra, irmão do Radicais em inúmeras correras nos últimos anos. Este livro teve esforço em buscar alguma linguagem inclusiva de gênero, aplicando @ em alguns momentos do texto para permitir a leitura do ponto de vista dos diversos gêneros e identidades sexuais que a vida, o amor e o respeito ao outro, a outra e a@s outr@s permita. Sabemos que há debates diversos sobre a aplicação do @ nestes casos, mas evitando maiores dificuldades para a aplicação do texto e de sua forma poética, não pudemos ser mais preciosos e perfeitos diante das diferentes teses que se apresentam pelos movimentos que realizam este debate. Perdão a quem se ofenda, não foi essa intenção. Mas aprimoraremos nos próximos.

Poesias de Vinicius Borba

Índice Não me representa...................................................................................................................................................... Proesias In Concert..................................................................................................................................................... Quebrada Nossa........................................................................................................................................................... Pois sou poeta!.................................................................................................................................................................. Grito Latino....................................................................................................................................................................... Tempos de Ódio............................................................................................................................................................ Com a força de pioneiro....................................................................................................................................... Refugiad@s...................................................................................................................................................................... Sarau Enamorados.................................................................................................................................................... Candidata......................................................................................................................................................................... Incandeia............................................................................................................................................................................ Ode à Spartacus ou: Como precisamos disso!............................................................................... Juventude de Luta................................................................................................................................................... Honestino Eterno....................................................................................................................................................... Elo Fraco ou Elo Forte........................................................................................................................................... Ódio que mata..............................................................................................................................................................


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Não me representa Não me representa foi o grito Das ruas de martírios Sob fogo, bombas, tiros Una voz a ecoar Na difícil unidade Tantas gentes, multidão Manipulada por maldade Promoveu a confusão Elegeu fruto do medo Um Congresso reação O mais mais desde os milico Muito menos representativo Vou dizer o que eu sinto O que não me representa Vou lembrar porque gritei Em junho de nosso alerta Não me representa o pastor que guia lobos Que se diz fiel em Cristo Endemoniza o inimigo Mantendo conta na Suiça Abraçado em traficante manda expulsar mãe de santo Lavando dinheiro do dízimo Manipulando a boa fé, rasgando o Livro E destruindo o que restou da política

Não me representa o coronel falso moralista Que deixou alta patente Por ter grupo de extermínio Por assassinar minha gente Pelos becos e vielas Diz que bandido bom, é bandido morto Mas quando defende a indústria da guerra Que lhe paga palanque e verbas Nunca fala das seqüelas Nunca paga o tanto de velas Acesas por becos e vielas Pra velar seus concidadãos Mais de 50 mil irmãos, todos os anos Genocídios comandados Por seus gabinetes Comandos Não me representa o gabinete do Doutor Que aliena minha saúde Que depois corta meu plano de morte Sem pensar em nossa dor Que precariza o público hospital E perdoa a baita multa das empresas no final Não me representa o sonegador Que exige Estado Mínimo

E que se fodam os direitos dignos Terceirizam, precarizam o trabalhador Desde que seu lucro esteja sempre garantido Não me representa o coronel de gravatas Que deixa as fazendas e vacas Pra pregar que sua produção salva vidas Mas por trás forma milícias Para matar índio inocente Persegue como cães os parentes Pra exportar nossas feridas Não me representa esse ódio raivoso Contra as lutas populares Que há anos promovem justiça Por direitos basilares Renegam as nossas conquistas Acusam de terroristas Por termos um ideal Reclama que paga imposto Enquanto trabalhador rói o osso De seu luxo capital

Não me representa o jornalista valente Que ao povo diz que defende E ao som de gritos fortes De teatro em frente à câmera e alguns fricotes Promover o ódio pretende Prega alto o olho por olho E com todo mundo caolho Exige dente por dente Essa tal plutocracia Está mais para inferno astral Mas já sei o que tem que acabar Que os liga e destrói toda gente É o financiamento empresarial É o investimento eleitoral Que compra até o presidente É pensar que empresa vota Como se fosse consciente Empresa que doa só pensa lucro Mas pra quem quer mudar isso tudo Tá decidido e sustenta Já chega de covardia Quero mais democracia Horror às oligarquias Isso não nos representa


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Proesias In Concert Sarau é verso, é encanto Aula de sabor espanto Rara luz, emancipando Alta corte de favelas Unida ao nó, mas desatando Sarau é estrondo, trovejando Argumento explosivo, livre girando Rasgado em versos, recitando Aula de esperança, acalanto Ungida pelos mestres deste canto Sarau é reunião d@s mártires Assembleia Anti-tiranos Resistência em profusão Armada de desenganos Umoja para meus manos Sarau é luz e som Agitação de insanos Regime sustenido ao extremo Ação Griô, sem meio termo Ocupação de verso e prosa, e pronto!

Quebrada Nossa Agrovila quebrada nossa, Trajetória Nossa história rima em versos Resistência, tuas ruas Tuas noites de sarau Lua ao alto deste morro Gameleira e Olaria E eu subia, eu subia Parecia que era o céu Era córgo, bosque, mata Era um povo lutador Quebrada nossa, trajetória Sempre mais com muito amor E a dor das juventudes Transviadas n’agressão Muitas mortes e atitudes, Geram ciclos de horror Mães de Lágrimas Desgraças Nas delegas corredor Essa quebra que resiste, Esse povo lutador, Que lutou independência Que constrói a capital Dos Areias desta terra Barro, argila, fundador De tijolo, suor e vida São Sebas nossa querida Quebrada de sonhador


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Pois sou poeta! Pois sou poeta rapaz, Nunca que ninguém lhe disse? Poeta de rua, poeta da noite, Da favela, da taverna contra o açoite, de tantos outros como eu E em tempos de fim de mundo Apocalipses pré-colombianos Antes de entrar em paranoias Fiz foi trazer duas joias Pra poder logo com tudo Trouxe foi duas meninas ao mundo Enquanto covardes diziam: -- Olha a crise! Olha a bolsa?! Lá estava eu fazendo menino, sem medo da calvície Pois sou poeta rapaz, nunca que ninguém lhe disse? Que se tem coisa melhor Que trazer menino ao mundo Nunca que vi, nem to pra essas mesmices E trouxe logo foi duas gatinhas, Que foi pra passar a régua Manu e Milena, meus dois melhores poemas Se algo de fato me assusta? Para com o futuro de minhas crias?? Hum, vejamos... Pode a bíblia estar certa...? Não!

Podem os Maias estar certos?? Não, não, não. Pode o InriCristo estar certo? Nããããoooo! Tudo que sei é que, Se tenho algum medo por minhas crias Por minha prole querida É que o mundo não mude É que jornalistas não furem seus chefes e edições Que professores não amem suas profissões Que nós da favela nos matemos, antes de enfrentar os patrões Que cada poeta em seus corações Se neguem a gritar seus versos Se neguem a riscar verdades cruas Que junto ao povo não invadam as ruas E tomem a unha o que lhe é de Direito Por que liberdade conquistada É o único caminho Pra quem tem espírito de luta E se com papel e pena Fazemos nossa labuta Então que se grite E pras novas gerações registre e ensine O peso de nosso fardo, missão, sacerdócio, calvície Pois sou poeta rapaz! Nunca que ninguém lhe disse


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Grito Latino Eu ouço um grito Um grito seco Não é gemido É desespero Eu ouço um grito Um desapego Reivindico Não peço arrego O que exijo Por desemprego Menos delito Algum lampejo Não seja a bala Que quando estala É a esperança Que aqui nos cala Em cada auto De resistência São mais dois gritos De indecência Rajadas secas De madrugada Conheço bem Essa pegada A quem resiste Enfrenta a morte

Peço que grite Que seja forte Vem logo atrás A outra marcha Vem com escolta Não tá com nada Segue incluida E grita forte É a guarimba Quer nossa morte Essa outra marcha Que grita ódio Quer mais Maiami Exige o ócio Seu privilégio Mantém minha morte O seu poder É meu açoite Abra o ouvido Entenda o mote Marchando grito Sul é meu norte Marchando eu grito E grito forte Norte é o Sul Sul é meu norte


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Tempos de ódio Em sua insustentável leveza Seres seguem fazendo estragos E demonstrando sua fraqueza Respeito a vida segue escasso Eu vejo este ciclo há séculos Ainda assusto com as tragédias E alguns estúpidos flácidos Tentam convencer de suas comédias Vomitam feras de assassínio Ideias fontes de extermínio Justificam o impossível Com seus pobres raciocínios Hoje erguem moralistas Alçam vôo alguns nazi Mentirosos um tanto loquazes Embebedam multidões, nojentos vorazes Lembram daquela Matrix... Que parecem esquecer,

ou se negam a saber? Mister Smith quer poder! Se seguir essa batida Assim será e vai feder Só para alguns, Não se iluda Não vai ter pra onde correr Pobre, negro, gay ou puta Com deficiência, afrodescendência De Religião africana, ou fumante da erva bruta, Militante de esquerda ou progressista de luta A ilusão moralista Na verdade não limpa De sangue lambuza, traumatiza Cria monstros, sataniza E iludindo que higieniza A nazi-pocrisia ressucita


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Com a força de pioneiro O povo primeiro lutou forte e conseguiu, No prazo que o homem pediu, Mostrar o valor do pioneiro. A beleza rimada. A silhueta projetada, em palavras sensuais e declamada, em atos rituais. Assim foi o projeto, Que Juscelino imaginou. Em pleno Planalto, Castelo concreto. Do qual a ditadura dura, O afastou! Mas hoje a vitória é certa. Aos amigos da vida, Vivendo aqui concretizam a meta dos objetivos Postos na vinda. E vencendo em tudo, Mostramos o valor dos calangos, Gigantes mudos Que agora mostram na voz, O amor, a dor e o calor.

As vezes me sinto, Candango verdadeiro Quando sinto o cheiro De comida caipira e até de cajueiro. Neste Cerrado indomável Abrindo caminho talvez. Sigo desbravando a vida, Inabalável! Como pioneiro da primeira vez. Tirando cabaço... Destas terras virgens! Sugando a fruta seca, o sabor. Soprando a poesia, e a fuligem. Deste atemporal destino, Tirando a dor, fazendo amor Poetando a história Me tornando criador. E sem dúvidas da vitória Me tornando do destino, mestre mor! Vou construindo, com muitos e até só Este castelo lindo, Que jamais se tornará pó. Minha memória, De pioneiro Cult, Sem dó!


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Refugiad@s Meu refúgio é minha consciência Meu refúgio é minha resistência Todo sangue e glória que não me pertença Se do desespero alheio e da morte dependa Mais um corpo infanto desembarca nas areias brancas Sem vida se arrasta, já não desengana E ainda que por bênção se abra a fronteira insana A foto só choca em escala pois o cadáver não vem do Gana A guerra violenta que agora abala Foi mais um movimento comercial Yanke Enquanto o povo chora toda essa desgraça A indústria golp-estado vende mais um tanque A Síria que sangra lágrimas É a mesma Nigéria das meninas sequestradas Filhas do ódio que o ocidente embala Retratos de um tempo feudal, De colônia e escravidão As mesmas falas Cruzadas

As vítimas refugiadas Levando rasteira de jornalista reaça Decidem entre morrer naufragadas Ou a morte em vida, no inferno dos campos refugiadas. Aqui também temos refugiados Vítimas das mesmas violações Um holocausto diário Marcad@s por perseguições Pais de santo agredidos e seus terreiros queimados Homossexuais também refugiados Oprimid@s por sua identidade E predicados Refugiad@s de seus direitos Refugiad@s da dignidade da vida Resistentes contra a chaga ferida Da dor que vem dos humanos direitos Da violação que não se contém Refugiad@s de uma guerra cínica não declarada


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Sarau Enamorados A vejo... no sopé da porta. E penso se peço beijo, Não peço, não posso. Beijo não se pede, se rouba! A vejo... num Sarau Alternativo. E penso se tento a sorte? Mas olho... Tem macho à roda. E meço palmo a palmo a largura dos ossos... Pois vai que o tal corno se incomode.. Hum! Minha vida? O pouco que me resta? Sempre tive o tal medo da morte E mais vale um covarde vivo, Que o herói presunto besta, no pacote. A vejo, num Sarau da Tribo. Até que o mosca véio... quase não varejeira... Quase não varejeirava! Mas tava todo no prumo, As tranças trançadas, no rumo, Daquela que então me bicava:

E zóia eu. E zóia ela... E um tal de não sei qual foi que inventei de ir na mesa mais perto da dela, E soltar uma piscadela Para ver se não tinha jeito. Pra quê!?? Pois começa então Aquele tal de forró, Bom de agarrar e não mais ficar só. Que fui me desavexar.. Pois já tava só o pó, Mas não tinha a cara de chegar. Tumei três quatro goro, Foi que então eu me enfezei: -- Agora eu chego nessa mulher! E a ela me projetei. E a cada passo que eu dava... O intestino soprava (...) E o frio me arrefecia. A menos de um metro e meio do “rela bucho” do amor... Sentei na cadeira outra vez. O zóin dela chega entristece. Pois não é que num só passe, sua pele se enrubece Enchendo de indignação

Me pega pela mão Puxa para ralar... E disse: --Bora dançar!! Cabra frouxo! Eu disse: -- Arrocha! Bote a mexer os cachos Que é hoje que eu tiro o atraso! Pra quê?! Pois foi no Riacho Fundo II, Que fui confirmar minha sina. Duas semanas depois lá estava, Tão linda, tão bela, Dulcineia! Num frevo dos cumpade comum, Que abonam a nossa história. E desde então é assim, No susto do início, Na certeza do agora, Um sentimento que cresce no peito E neste frenesi Dos acontecimentos é que a gente Se enrosca, se ama, se namora. E dou gritos a desvairada patuleia: --Moças de meu passado próximo!.. Convivas da esbórnia e boemia. A primeira dama... já está de posse! Dulcineia, Dulcineia, Dulcineia! E que venham os moinhos de Cervantes!


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Candidata Certa feita Um poeta me inquiri Onde andas? Mostra a peita? Ao que lhe informo o diagnóstico, com cara de Brasília: -- Burrocratite crônica! Dilema de Behr, Entre o carimbo e a papelada. -- Sabe como é poeta... Poesia vivo por amor! Mas de amor mesmo, Nem casamento vive! Arrumei um ternão bruto, burrocratite! Fui trampar num gabinete eleito, acredite... Ao que Rego Júnior, Com a Boemia e desfaçatez de poeta Me retruca com azia: “Tá vendo, tá vendo... Não elegeu a poesia?” Pois teje eleita!

Incandeia Cada Kaiowá que cai na aldeia Cada canto de Tekoha que queima Incendeia meu coração Cada milícia encapuzada que chacina nas favelas Cada mano meu que morre de quebrada do meu lado Incendeia meu coração Cada mãe de santo morta pelo ódio do pastor Como se também não fosse Oxalá nosso senhor Incendeia meu coração Como pode num país tão rico em tudo O ódio ser tão maior que a ganância o absurdo Incendeia Meu coração Te levanta juventude, pelo justo de responsa Democrática segue em luta, de redes e de ruas! Incendeia meu coração


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Ode à Spartacus ou: Como precisamos disso! Quando invado em poesia um baú lotado Quando invado a fazenda do grileiro safado Quando ocupo o esqueleto-prédio vazio especulado Quando invado sua mente e deixo tudo devassado Quando destruo sua moral inconsequente nesse Estado Quando invado a casa do corrupto armado Ou apedrejo os seus cães por engolirem calados Quando invado o sinal e simplesmente falo O que todo o meu povo sente há muito tempo calado Eu não aceito mais tanta desculpa louvável E vou pro choque, linha de frente Ação direta, eu abalo Explodo seu esquema, seu gabinete, sua linha editorial Por que não nasci pra ficar de joelhos, nem pra pagar pau A minha luta é das antigas Não renego minhas origens Povo humilde, forte, aguerrido que nunca desiste Vinicius Borba na guerrilha Poeta radical livre Quebrada São Sebastião Perifa DF na resist E não assiste omisso Toda essa sacanagem Que vem maquiada, patrocinada Governo, mídia, pilantragem Minha poesia, é soco na boca do estômago desse sistema Que se repete, escraviza A maioria nos esquema Aqui no DF “companheiro” que se corrompeu é mato

Sob argumento da revolução em “nova fase” Mó garganta puro descaso Não enxergam que como orienta o grande Galeano O pior pecado é o atentado contra a esperança dos manos Quando eu invado sua mente Inconsequente com minha rima É para lembrar o que nos disse e orientou o primeiro escravo revolucionário um dia Perguntados sobre com o que Poderiam ajudar na luta, Cada qual se ergueu Para fazer armas, colaborar na labuta Mas um garoto ainda jovem Com pena e papéis em baixo do braço Respondeu com humildade dando a frente um largo passo: “Guerreiro, eu só sei fazer poesia. Relato minha aldeia, nossa luta, nosso dia-a-dia” E aquele escravo, forjado a ferro e fogo para batalha, Se ergueu e respondeu, evitando os canalhas: “Poeta, pra que nossa vitória seja completa, para não esquecermos de onde viemos e para onde vamos na certa Dependemos do sonho e resistência que no peito levas! Não baixe a guarda! Não aceita corrupção! Não seja omisso. Foste mandado pelos deuses, como precisamos disso!”


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Juventude de Luta Toda vez que te perguntam De onde vem tua essência Não se faça aparência Responda: Sou Juventude de Luta Quando nosso tempo aflora E há tempos de turbulência Quando o mal e a indecência Tomam conta dos poderes É hora de assim dizeres Sou Juventude de Luta Enquanto o certo for o certo E houver valor na disputa Se com quem você combate Honra a saia, a calça e a boina Responda firme a pergunta Sou Juventude de Luta Se tu sabes qual tua origem Da favela, campo ou asfalto Se não nega a luta de classes O teu papel no assalto Derruba o corrupto no ato Reage ao pelego de fato Sou Juventude de Luta Mas se a tentação bate a porta Por emprego, dinheiro, sexo ou droga Não te esquece da labuta Não te entrega na primeira hora

Por que as coisas do mundo A gente consome e passa Mas nosso compromisso de luta Nossa memória corrupta Não se apaga Está todo mundo vendo E depois não tem remendo Que a consciência refaça Pra quem vive na trapaça Já acha até natural Trai @s própri@s companheir@s Achando que é @ tal Acaba no isolamento Com suas relações compradas Com Maquiavel abraçadas Mas sem luta no firmamento Não contavam com minha astúcia? Se ilude @ anti-herói Vitórias sem qualquer fidúcia Castelos de areia constrói Sendo que ao primeiro vento Seu poderio se esvai E a juventude de luta De anseios, energia e valores na disputa? Uma geração se frustra Os princípios se vão ao léu E a tua balela de: depois passa...


Fora da Ordem Deixa marcas indeléveis. Silencia a flor no revés. Se perde um@ jovem de luta. Nosso pecado contra a esperança É a morbidez que nos toma É a traição de si mesm@ Pois ser Juventude de Luta É construção, é disputa É descobrir no passo a passo @s mestres nessa labuta Sem amarras para contradições Enfrentar o mundo em intenções Entre a incoerência e a loucura Rompendo com a amargura Desancando @s canalhas Se pisar... que aguente a batalha Pois não cabe aliviar. X9 tem que rodar Traição com inimigo? Vá lá. Mas entre nós, É mostrar uma marca de caráter. Não renego a política Ela é caminho, é trajeto É meio, não apenas um fim certo A gente tem que lidar Aprender a disputar e seguir Caráter reto A vida é feita de lutas Não há que temer o incerto

Poesias de Vinicius Borba Há que temer cabritagem Há que temer trairagem E evitar dar de espert@ Por que quem vai pra disputa Representa comunidade, Se alinha com uma postura Quem sustenta tem respeito Quem num guenta esmorece Mas quem luta com responsa Levanta bandeira da esperança E se pegam fazendo lambança Mata o sonho, acaba a dança Tipo som quando dá brek O que a gente se esquece, É que @ militante comprad@ Agora está do seu lado Mas não dura, se esquece E o dinheiro pelo dinheiro O poder pelo poder, O patrão sempre tem mais Ao final @ oprimid@ Vira opressor@ contumaz Se pretender entrar numas Te prepara pro pior Companheir@ que é companheir@ Nunca corrompe a banca Se não entendeu o recado Teje ligad@, escuta Somos Juventude de Luta E o bicho vai pegar!


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Honestino Eterno Acabem com essa tortura! A tortura do holocausto, a tortura do silêncio, A tortura de Honestino, sem destino paradeiro. Acabem com essa tortura! Libertem almas daqueles que ainda aguardam Um retorno, pura amargura, Um vazio enquanto amam. Aos que diziam defender o país, amor ao chão, sua raiz, Esqueceram que é dos jovens o amor nessa construção Que se há país, povo, nação, Isso surge da voz que grita, da voz que diz. Mas se silenciaram a luta, Não calarão nossa memória. E que se cale esse cálice, cala-te Cálice! Que se repete, em cada Amarildo, em cada moleque morto na viela escura. Em cada oprimid@ espancad@ em via pública. Por exigir a letra morta, antes esperança pura. Levanta de novo essa nossa luta, Nos junta, leva às ruas! E Honestino revive na W3, Na Rodô, nas UnBs, seus Câmpus e contradições Renasce, pois Cale-se não posso mais! Não me calo nunca mais. Guimarães é nosso ontem, nosso hoje Mas amanhã, honestamente Amanhã já é maior. Honestamente Eterno!

Elo Fraco ou Elo Forte Se não há quem ouça E não há quem leia, Também não há quem viva E não há quem creia Revolta humana Contra o silêncio divino, Até quando esperar? Gritam de fome os meninos! Faroeste caboclo ou Distrito Federal? Capitalismo para os loucos, Comem pasto no curral eleitoral. A vida não espera. O universo transpõe eras. Se da quebra a corrente está a mercê Jamais esqueça: o elo fraco... pode ser você! Dizer que não és capaz? Fácil fuga, covardia. Se és forte e audaz Ao próprio ser desafia Na simplicidade destes versos, Peço feche essa ferida Fortalecendo estes elos, Na nossa corrente da vida.


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Ódio que mata Toda vez que ouço O levantar de tua voz contra @ human@ Toda vez que vejo teu calibre levantar contra meus manos Sangro com cada um deles Toda vez que vejo sua violência atroz Expressa em palavras sujas Defendendo um estupro Toda vez que ouço a sua voz defender mais um abuso Sangro com o estupro del@ls Toda vez que você grita Nossas irmãs, mães, filh@s Violentadas na lógica do algoz “Tava de roupinha curta, olha a roupa da menina! Tava pedindo, botou pilha!” Só que não, vê se escuta. Toda vez que vejo, Um jovem defender a opressão Como instrumento de liberdade Fico vendo a falsidade, O horror e a intensidade A intencionalidade Do patrão rindo em gargalhas

Por que quando a bala come Por que quando chega os homi, Revistando estourando os barraco Invade, bate, quebra e toma Se achar dinheiro? Sombra! Sem registro tudo some. Porque quando chega os homi, Dificilmente vem proteção, Chega sempre camburão, caveirão e armamento Chega morte, vem mais homi Só não chega solução O que ouço na sua voz São os gritos da tortura Do silenciar do debate Cabô essa conversa, Assembleia, reunião, democracia? Você grita que é loucura E com bala quer a cura Da liberdade de pensamento. Te informo já de pronto Cada grito teu, é um tombo, Cada tiro, gera estrondo Mas não cria fundamento Tu fica mais violento, burro e sonso, só lamento

Enquanto no debate pronto Encontramos solução Buscamos o firmamento E seja sonho, seja estrada, Nosso caminho fazemos Na contradição, debatendo Buscando nossa utopia E o amanhã para todos e todas Traçamos melhores dias Mas teu ódio ainda acha eco A vingança e não a justiça É o que busca o desafeto Critica os direitos humanos, Critica os direitos dos manos Mas quando está em maus panos Reclama por covardias Acusa o elemento político Por defender o humano Mesmo sendo todos e todas, sujeit@s de desenganos Se erramos, que se faça justiça então Mas não exija vingança, Exija a lei e a esperança Porque quem erra pode ter cura E quando a pena é injusta Morrem dois nessa vingança

As masmorras desumanas, Onde a pena se executa Não cura, reeduca, ou engana Traz a morte e mais ódio E no treinamento pra demo A sociedade sai perdendo E o crime tem mais sócios Empurramos nossa gente pro veneno Criando monstros no ócio Mas o pior de teu ódio Que sai na rede social Que tu acha que é normal Bonito e coragento, cria uma rede de nojentos Que aumentam seu potencial Na tua frente defendem o bem Nas costas praticam o mal Falam de boca cheia em justiça capital Mas nas costas ninguém freia O psicopata marginal Espanca a esposa e os filhos Mata homossexual Estupra adolescentes, culpando a vítima afinal Com revólver mata os negros Diz que é praga irracional


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Poesias de Vinicius Borba

Do autor Ganha muita grana isento Com igreja e filial, Demoniza os diferentes Acusa de deliquentes Manda matar em nome de Cristo Como se o Rei sem castelos Não tivesse amado afinal Exige uma liberdade absurda Onde poucos possam tudo Com dinheiro propina e ganância Mas na frente da galera Defendende com arrogância Dos políticos má fé Diz que é tudo criminoso Tem que derrubar, Botar outros. Mas não diz o que bem quer Quer o trono pra você! Tá com sede de poder, Pra fazer igual ou pior Acha que encarna o bem Mas não vê nem mais ninguém O interesse o pormenor, O que quer bem lá no fundo É matar os ditos vagabundos, Que se oponham a seu poder

Que voem em seus aviões Cursar suas faculdades Deixas na miséria os milhões Sem viver dignidade O seu ódio é seletivo Escolhe a dedo o inimigo E encrimina a vontade Quer de volta o privilégio, a vantagem De onde vem o coronel Quer de volta sua santidade Que o negro e o pobre disputa Que o operário equilibrou na verdade Isso tudo te preocupa Mas te informamos de uma Estamos nas ruas, nas lutas Somos classe em disputa Somos frente organizada Somos entidades mobilizadas Pra compor nessa labuta Não seremos seus bonecos Nunca mais vítimas suas Somos irmãos e irmãs de utopia Temos sonhos e conhecemos a via Que nos une na disputa

Vinicius Borba, poeta, jornalista, agitador cultural e blogueiro da periferia do DF é mais um resistente contra as opressões do mundo. Em defesa dos direitos humanos e dos manos, segue realizando saraus como MC, apresentando espetáculos diversos e contribuindo como ponte de saberes e fazeres culturais. Resistente da esquerda brasileira, progressista de coração e alma, Vinicius colabora diretamente em manifestações e agitações na cidade, participando da cena política e na rede de saraus das perifas do Distrito Federal, do Brasil e da Pátria Grande, com poesia ácida e de lutas. Sua escrita denuncia as violações de direitos, nossas humanidades e desumanidades, amores e contradições, sempre buscando na consciência de classe seu viés condutor das vozes oprimidas rumo à emancipação libertária por meio da palavra. Seguidor de Freire, ouvinte de Gog, apaixonado e inspirado em Galleano, curtidor de Nicolas Behr e resoluto em Buda e Cristo, Vinicius segue debatendo em rima nos palcos da vida sua literatura vivida, e até então não publicada para além dos zines, blogs sujos e mentes insanas das perifas na absurda metrópole. Dentre suas principais participações artísticas estão a produção e coordenação do grupo Radicais Livres S/A, desde 2003, com a realização e participação em mais de 200 saraus Radicais com o grupo, participações na Feira do Livro de Brasília, XI Jogos dos Povos Indígenas, Noites Culturais do Açougue Cultural T-Bone, Bienal do B- Poesia na Rua, Bienal Internacional em Brasília, Acampamentos do MST, saraus da Cooperifa, do Binho, Suburbano Convicto, Preto No Branco, dentre outros em SP. Trabalhou e militou nas áreas de proteção à vítimas de violência, direitos indígenas, direitos humanos e da infância, além de sua atuação como repórter em jornais da capital.


Da ilustradora Carlione Ramos é artista plástica autodidata, mineira e radicada na comunidade de São Sebastião (DF) há 15 anos. Encontrou no lixo da própria comunidade suas primeiras referências para produção artística, encontrando beleza nas cores dos dejetos urbanos. Dali produziu suas primeiras peças reciclando materiais e construindo sua identidade artistíca. Hoje a artista estuda Artes Visuais e design pela Universidade Federal de Brasília (UnB) e desenvolve sua produção no atelier, Meridiano, com parceria, orientações e colaboração da mestra e doutoranda em Artes, Leisa Sasso. Realiza em suas instalações e obras o que chama de “arte das coisas”, reunindo conceitos de design e artes visuais atualmente também em moda, desenhando e criando novos modelos inspirada em sua origem periférica mas também na diversidade de cores, como dito pela arttista, “para vestir o mundo”.


Fora da Ordem é o caminho d@s que compreendem e vivem o momento crucial de ter atitude, de agir ante as injustiças. Fora da ordem é a resistência de quem vive a esperança e utopia que no peito encerra. De quem vive a política com mais fígado que estômago, de quem não espera e faz a hora acontecer. Neste livro de poesia ácida, encontram-se fórmulas de rebeldia, consensos entre a incoerência e a loucura, sangue nos olhos e o resgate de princípios num mundo marcado pelo obscurantismo, armamentismo extremo, lucro-fruto da desgraça alheia e da intoxicação por todo tipo de químico, num planeta em desencanto. Com sua poesia, Vinicius Borba expressa sua combatividade, discute incoerências e as enfrenta, sabendo-se imperfeito num mundo transviado. Com a ilustração mágica da artista Carlione Ramos, que tirou do lixo suas inspirações para a busca do belo, o livro traz o resgate das humanidade cada dia mais em risco pelo recrudecimento de conflitos, de valores e visões de mundo. Ambos vem do coração da perifa do centro nervoso do Brasil, a cidade de São Sebastião (DF), subúrbio de uma das mais contraditórias capitais brasileiras, Brasília, terra de oportunidades e caricatura de um país ainda vítima da própria história de colonialismo, alienação, cultura de opressão e violência civil e estatal. “Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”, afirmou Caetano. Nada mais justo do que expôr as vísceras destes paradoxos antes que a confusão nos destrua. Se não acredita mais neste mundo, ou acha que não há mais o que esperar, se omitir ou conciliar... vire essa mesa e saia Fora da Ordem.

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Obra repleta de hiperlinks. Amplie sentidos, clique e viaje para além da poesia! Fora da Ordem – Poesias de Vinicius Borba é a primeira publ...

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