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Índice Capítulo i - Brincadeiras de colégio ....... 12/00 Capítulo II - Heróis Enforcados ............ 21/00 Capítulo III - Lady Gelo ................... 30/01 Capítulo IV - Dada e Jazz .................. 38/01 Capítulo V - Encontros ..................... 46/02 Capítulo VI - Sobre os Carris .............. 53/02 Capítulo VII - Intriga em Atenas ........... 60/02 Capítulo VIII - Jornada para Delfos ........ 68/03 Capítulo IX - O Regresso ................... 76/03 10 - Ascensão da Divina Linfa .............. 80/03 Capítulo XI - Intriga de Taberna ........... 88/04 Capítulo XII - Na Neblina .................. 98/04 Capítulo XIII - Leituras .................. 106/05 Capítulo XIV - O último Apoio ............. 116/05 Capítulo XV - Manobras .................... 126/06 Capítulo XVI - Recepção Real .............. 135/06 Capítulo XVII - À Volta da Fogueira ....... 146/07 Capítulo XVIII - Com Guarda à Vista ....... 155/07 Capítulo XIX - Histórias de Encantar ...... 163/08 Capítulo XX - Nova Subida ................. 174/08 Capítulo XXI - Parceiros Parisienses ...... 181/09 Capítulo XXII - O Onfalo .................. 190/09 Capítulo XXIII - A Fuga de Delfos ......... 199/10 Capítulo XXIV - No Palácio ................ 209/10

prólogo Delfos, Grécia - 1922 Indy estava suspenso na escuridão como uma lua em quarto minguante, suspenso por uma corda que Lhe queimava já o peito e os sovacos. Ouviu gritos acima de si, mas não conseguiu perceber as palavras. Quando inclinou a cabeça para trás, a abertura lá em cima não dava mais luz do que uma estrelinha a brilhar. - Dorian! - gritou. - Manda-me outro archote! A sua voz ecoou para cá e para lá de encontro às paredes


rochosas da fenda; ficou sem saber se ela o teria ouvido ou não. Esfregou a cara de encontro ao ombro e espreitou para baixo. O negrume estava em toda a parte, como um véu de tinta opaca que o desorientava e estonteava. Sentiu-se invadir por uma náusea. Apertou com força os olhos e desviou as mãos um nadinha para cima, na corda, com o descontrolado receio de que no segundo logo a seguir ela se fosse partir e ele fosse como o anterior archote por aquela escuridão sem fundo. Não havia espaço, e não havia tempo. Havia apenas a força da gravidade, a sucção do vazio. Não devia ter ficado a balançar por mais de alguns minutos, mas parecia-lhe que estava ali pendurado havia horas, à espera da luz que o viesse salvar. - Jones! - gritou Dorian. O seu nome reboou no abismo. Olhou para cima e viu uma luz oscilante que vinha a dançar para ele. Acorda que a segurava enrolava-se e desenrolava-se como uma serpente com a língua a soprar fogo. Indy encolheu-se quando o archote lhe passou junto à cabeça e depois deitou a mão à corda, apanhando a ponta do archote. Agarrou-o com força, com a respiração a saltar-lhe do peito como que aos soluços. Espreitou para a parede na sua frente, já sem ter a certeza que fosse aquela. Talvez ele estivesse muito abaixo. Deu dois esticões na corda e Doumas, o ajudante de Dorian, baixou mais meio metro. Nessa altura ficou mesmo em frente da placa. Estava saliente na parede como uma lápide tumular num cemitério, e ligeiramente inclinada para baixo. Tirou da mochila um grampo de quatro pontas e cravou-o com um martelo na parede. 9 Ia a colocar o archote nele quando qualquer coisa lhe saltou à vista. Ergueu o archote diante da placa e inclinou-se para diante para ver melhor. Tinham-lhe dito que a inscrição devia estar completamente empastada de porcaria e que teria de ser cuidadosamente limpa logo que fosse trazida para a superfície. Mas aquilo que tinha na sua frente eram linhas paralelas de hieróglifos que eram não só claramente reconhecíveis como também eram escritos em grego antigo, uma língua que ele sabia ler. Os olhos saltitaram-lhe pelas palavras, a devorá-las. Sentiu uma excitação que quase lhe fazia um nó nas tripas. Tornou a pôr o archote no seu suporte da parede e tirou um bloco de


apontamentos de um bolso lateral do saco. Rapidamente rabiscou a tradução. Não podia crer. Aqueles loucos filhos da mãe sabiam do que é que estavam a falar... Teve vontade de gritar lá para cima, mas decidiu conservar as suas energias. Tornou a meter o bloco de apontamentos no saco, tirou a rede e cobriu cuidadosamente com ela a placa, antes de amarrar as pontas a um gancho na ponta da corda. Ia começar a martelar na parede para soltar a placa, quando subitamente a corda teve um esticão contra o seu peito. Caiu uns centímetros; a corda apertou mais debaixo dos braços. - Hei! Que diabo é que se passa aí? A sua voz reboou de encontro às paredes da fenda. Agora ele tinha ficado mesmo por baixo da placa e viu marcas de escopro mesmo por baixo da sua orla inferior. Alguém já ali tinha estado e tinha não só limpo a inscrição como tentado arrancar a placa. Mas quem? A corda tornou a esticar. Um sinistro estalido encheu a fenda e Indy reconheceu o que era: a corda estava a desfiar-se. Tirou o archote do suporte na parede e levantou-o tentando descortinar qualquer coisa. Oh, Cristo! "Calma!" pensou. Colocou o archote na boca e deitou as mãos à corda, mais acima do sítio em que se estava a desfiar. Ouviu um estalido, um som seco, terrível, que ecoou na fenda. Os seus dedos como garras cravaram-se na corda. Ficou pendurado por uma mão, com a ponta desfiada da corda a roçar-lhe pelo pulso. O archote chamuscou-lhe os pêlos do braço. Tinha o rosto contraído numa careta, a tentar esticar a outra mão acima da cabeça. A testa cobriu-se-Lhe de suor que lhe escorria para os olhos. Sentiu um forte esticão vindo lá de cima, e a corda escapou-se-lhe de entre os dedos. Tentou desesperadamente agarrá-la com a outra mão, mas o seu punho desesperado fechou-se na escuridão do ar. Caiu. 10

CAPÍTULO I BRINCADEIRAS DE COLÉGIO


Chicago - dois anos antes Era noite fechada e tudo estava em silêncio quando os dois homens desceram o estreito carreiro, com corpos inertes às costas. A água da chuva de um aguaceiro de Primavera juntara-se em poças retidas em covas escondidas, ocultas na sombra dos altos prédios de um e de outro lado. Iam a aproximar-se de uma esquina e para lá dela ficava o terreno relvado que era o seu destino. Um dos homens era alto e espadaúdo, e gingava ao andar, como se estivesse constantemente a reajustar o peso do corpo que transportava. O outro era baixo e musculoso. Tinha rolos de corda pendurados em ambos os lados do cinto, e deslocava-se com a facilidade de um escalador de montanhas. Subitamente tropeçou numa raiz e desequilibrou-se para o lado, quase a cair desamparado. Ágil, sim, mas também atacado por ocasionais espasmos de falta de jeito. - Raios partam! - explodiu quando se conseguiu equilibrar. Aquilo estava prestes a acabar e ele estava a ficar nervoso. - Estás bem? - perguntou o mais alto. - Fino! Vamos parar um minuto. Estou com maus pressentimentos a respeito disto... O mais alto deixou cair sem cerimónia o corpo dos ombros, e tirou do bolso do casaco um frasco. Ofereceu com um gesto do braço, mas o seu companheiro abanou a cabeça. - Não? - O mais alto encolheu os ombros e bebeu um largo trago. - Vai devagar com isso! - sibilou o homem da corda. - É para acalmar... - Mais um quarto de hora e acaba-se isto... - disse o homem da corda. Abraçou as sombras dos prédios, avançando deliberadamente, sempre com o corpo atravessado aos ombros... Quando chegou à esquina olhou para um lado e para o outro. 11 Apesar da sua preocupação, estava disposto a concluir a sua missão e queria que todos os pormenores fossem perfeitos. Voltou-se a fazer sinal ao seu companheiro, mas o homem estava já a seu lado, com o outro corpo atirado sobre os ombros. Desceram um passeio molhado pela chuva, com o reflexo dos candeeiros a brilhar no chão húmido. Pararam quando chegaram ao primeiro candeeiro e deixaram cair os corpos no


chão relvado. Quase invisíveisjunto a uma cerca de arbustos ali perto estavam dois outros corpos que ali tinham deixado meia hora antes. - Toca lá a tua música! - disse o mais alto. - Prepara o Paine. Quero-o primeiro a ele. E vê lá se fica com o chapéu direito... Soltou uma das cordas que trazia no cinto. A corda tinha na ponta um nó de enforcado, e com um gesto airoso do braço, atirou-a por cima do candeeiro. O laço ficou a dançar sob a pálida luz. - Óptimo. Passa-lho pelo pescoço e toma cuidado que o letreiro com o nome não caia... O mais alto ergueu o corpo e passou-lhe o laço pela cabeça. Quando este ficou justo tirou o colete de Paine e um chapéu de três bicos e colocou-Lho firmemente na cabeça. O outro homem, entretanto, tinha trepado ao candeeiro e agora estava a içar o corpo para o seu lugar. Atou rapidamente a corda e saltou para o chão. - Ena, ficou óptimo! Agora só faltam mais três... O mais alto levou outra vez o frasco à boca. E mais outra vez fez um gesto a oferecer ao companheiro. - Agora a seguir fazemos o Georgie... - disse o outro em resposta. - Jesus, nem quero pensar qual vai ser a reacção amanhã de manhã... Um vulto sem cabeça rastejou debaixo de uma capa escura como um mágico a lutar para se libertar de correntes e de cadeados. Depois apareceram o alto de uma cabeça, os sobrolhos e um rosto a sair daquele negro casulo. Endireitou a toga a cobrir as pernas nuas, e mirou-se num espelho de corpo inteiro. Passou a mão pela densa cabeleira que estava apartada ao meio, e depois colocou sobre a cabeça o tradicional barrete universitário de topo quadrado com a borlinha pendurada. Aelaborada e litográfica inscrição do seu diploma dizia que ele era Henry Jones Júnior. Mas aqueles que o conheciam chamavam-lhe Indy (abreviatura de Indiana) nome que usara desde a adolescência. Isso do «Henry Júnior» estava reservado para documentos oficiais, e para seu pai que lhe continuava a chamar Júnior. 12 Na realidade, a única marca visível da sua infância era uma cicatríz no queixo que tinha ganho numa zaragata com uns


ladrões com que deparara numa caverna quando descobrira uma relíquia da conquista espanhola. Mas até mesmo o seu pai, se ali estivesse, veria que ele já não era uma criança. Era simpático, embora com um aspecto um pouco rude, com olhos claros e determinados, cor de avelã, ombros largos e músculos de um jogador de rugby. Não que ele jogasse rugby; senhor de uma admirável coordenação de reflexos, preferia a equitação e o esqui a desportos como o futebol ou o basebaal. Era também perito com um chicote, uma velha habilidade de que raramente falava. Não que isso de momento tivesse qualquer interesse. "Formado. Diplomado pela Universidade...", disse para consigo e sorriu à imagem que aquelas palavras evocavam, mas o seu sorriso mostrava mais alguma coisa que uma sugestão de ironia. Formara-se apesar de tudo. Tinha faltado a tantas aulas no Outono passado; as suas notas tinham descido na vertical e quase que tinha sido expulso. É que durante várias semanas ele tinha simplesmente perdido o interesse pela sua educação formal ao mesmo tempo que andara a arranjar outro tipo bem diferente nas ruas. Ele e o seu companheiro de quarto, Jack Shannon tinham passado noites a fio em tabernas de piano da pipa na Margem Sul, a ouvir músicos com nomes como Smith Pinheirinho, o coro Clarence Lofton, o Pinta Vermelha e Davenport Vaca Brava martelarem as teclas de pianos em ruínas. Chamavam àquilo «ano da pipa», porque os pequenos bares onde havia música dessa serviam bebidas tiradas directamente das pipas. Ou, pelo menos, era o que faziam até ter começado a Lei Seca, havia alguns meses. A maior parte dos músicos de jazz tinham vindo de Nova Orleães - a pátria do jazz, nos últimos cinco anos - e cada semana chegavam mais. As condições de vida para os negros eram melhores em Chicago, havia empregos em clubes onde podiam ganhar cinquenta dólares por semana comparados com o dólar por noite que ganhavam em Nova Orleães. E em Chicago havia estúdios de gravação que faziam discos de jazz. Quando osbares fechavam, Indy e Shannon iam para reuniões de roda livre em casas alugadas, onde a música continuava até de madrugada. Shannon trazia a sua trompete e tocava com tipos como Johnny Dunn e Jabbo Smith. Shannon era não só um dos poucos brancos que Indy já vira a tocar jazz como era sem sombra de dúvida o único aluno de Economia que se dedicava à música. A maior parte dos músicos de jazz das tabernas de piano da pipa pouca, ou nenhuma,


13 instrução tinham: não sabiam ler música, não seguiam quaisquer regras, nem as conheciam, nem se ralavam com isso. Nem sequer sabiam que a sua música era fora do vulgar, e tudo isso contribuía para a sua força e para a sua integridade. - Ei! Estás pronto? Disseste que querias estar lá cedo, não foi? Ergueu os olhos, despertando daquele sonhar acordado. Os cabelos ruivos de Shannon estavam mais despenteados do que nunca. Tinha a toga dobrada no braço e vestia um casaco e gravata. O casaco estava muito curto nas mangas, mas Shannon não se ralava muito com isso. Tinha o costume de balançar a cabeça para a frente e para trás quando estava nervoso, e era precisamente isso que estava naquele momento a fazer. E isso não era nada de estranho: Shannon parecia estar sempre em pulgas, como se não estivesse verdadeiramente preparado para este mundo. As únicas alturas em que parecia estar perfeitamente à vontade era quando estava a tocar trompete. Nessas alturas todo o seu corpo desengonçado parecia fluir com a música e mal se reparava nos seus enormes pés ou no seu comprido pescoço onde avultava uma enorme maçã de Adão. Indy tornou a dar uma vista de olhos a si próprio e depois tirou o barrete. Estavam a meia dúzia de quarteirões do enorme relvado onde iria ter lugar a cerimónia; daía poucos minutos estariam lá. - Tá bem, deixa-me vestir. Ainda não pus as calças... - Desafio-te a ires assim mesmo receberes o diploma de formatura sem calças, pá! - Não, obrigado, não vejo qualquer razão para isso... olhou para Shannon pelo espelho, sabendo já que ele lhe ia fazer uma proposta. - Digo-te isto: compro-te uma garrafa da rija. Apanhamos uma tosga. Indy encolheu os ombros. C'os diabos; com a toga vestida ninguém daria por nada... - Tá bem. - Na verdade ele não estava muito ansioso com a cerimónia; o que queria era ver aquilo acabado. E não ter as calças vestidas até era capaz de tornar a coisa gira. - Parece que já estou a ouvir o Mulhouse... - disse quando iam a sair de casa. - Vós sois uma nova geração: uma geração de esperança... - perorava com uma voz profunda, autoritária, a imitar o director da universidade. - "... A guerra acabou: ide para o mundo e mostrai aos outros, que são menos


afortunados, que ajuventude da América é feita de indivíduos dedicados ao trabalho, produtivos, que conseguem sempre concluir a sua obra, qualquer que essa obra seja..." "Sim, seria qualquer coisa assim", pensou. Mas não: a cerimónia não era a única razão porque Indy queria estar lá cedo. 14 - Como é que é isso sem calças? - perguntou Shannon quando eles iam a descer a alameda bordada de carvalhos. - É fresco e arejado. Devias experimentar... Indy esperava que ele se risse e dissesse qualquer piada, mas Shannon ficou com um ar pensativo. - O teu pai vai lá estar? Indy abanou a cabeça: - Está muito ocupado. Raios, nem sequer deu qualquer desculpa... - Verdade? - Pois! Sabes como é: o meu pai, o notável perito nas lendas do Santo Graal, é uma pessoa com muito pouco tempo para seja lá o que for que não pertença às suas investigações escolásticas... - E foi sempre assim? - Só depois da morte da minha mãe, quando eu era miúdo. Desde então começou a ficar longe de mim, fosse o que fosse que eu fizesse. Acho que me licenciei em linguística só para ver se lhe despertava a atenção... Shannon olhou para ele. - Mas como é que a linguística lhe podia chamar a atenção? - Porque desde que me conheço que o ouço dizer que á língua é a chave para o conhecimento da Humanidade. E depois Como é que ele espera que eu compreenda a Humanidade quando eu nem a ele consigo compreender? - Olha, o que eu queria era que a minha família ficasse em casa. Raios, eu nem sequer me queria formar... - Que disparate é que estás para aía dizer, Jack. Ficas com um emprego e a fazer bom dinheiro... Shannon tinha sido contratado como contabilista por uma firma de transportes de Chicago, com o ordenado de duzentos e cinquenta dólares por mês, uma quantia que parecia astronomicamente grande. Quando Indy lhe perguntara como é que tinha arranjado aquilo, a única resposta de Shannon fora "... relações de família". - E ainda ficas com tempo para tocar nos clubes - continuou


Indy. - Olha lá. lembras-te daquela noite em que fomos ao Royal Gardens ver o King Oliver? Autênticojazz crioulo de Nova Orleães. E está tudo a mudar-se agora para cá, mesmo aqui para as nossas traseiras. O que é que mais queres? Shannon não deu qualquer resposta quando atravessaram a rua. - Tu vais tocar, não vais? - perguntou Indy, olhando para um carro Tin Lizzie novo que ia a passar. - Fiz um acordo. 15 Indy reparou na expressão sombria do seu rosto. - Que espécie de acordo? - Tenho de deixar de tocar jazz. Foi o preço do emprego... - Mas isso é uma loucura! Porquê? - Não é música respeitável, Indy. Indy sabia que o jazz era difícil de aceitar. E muitos brancos pensavam que o ritmo sincopado, as notas acentuadas quando menos se esperava e o estilo de improvisação era... música selvagem. É uma coisa "... leva o ouvinte a mover-se de forma estranha e sugestiva...", ouvira ele um comentador de rádio dizer um dia. - Isso é uma safardanice, Jack, porque eu acho que tu podes ser tão bom como o Earl Hines ou o Johnny Dodds. Vais ver: as coisas vão mudar assim que a música pegar... - Não sei se isso alguma vez acontecerá... - Shannon balançou o corpo para um lado e para o outro, com os braços compridos a marcarem o seu próprio ritmo. - Sabes, eles estão a pôr as culpas no jazz por causa daquelas zaragatas na Margem Sul. Consegues acreditar nisso? - As zaragatas não têm nada a ver com o jazz... No entanto as manifestações raciais eram um ponto nevrálgico num país que se estava a sentir feliz com a vitória dos Aliados. Faziam um triste contraste com as grandes paradas que desciam triunfantes a Quinta Avenida a celebrar o papel da América no triunfo. - É que não é música de marchas, Indy. Percebes o que eu quero dizer. Ninguém se sente um grande herói ao ouvi-la. E é nisso que reside o problema. Vem de um sítio diferente; tal como eu... Indy deu uma risada: - Podes sempre ir comigo para a Europa, e começar uma vida nova...


- Não penses que eu não tenha pensado nisso. Tenho uma inveja dos diabos. E vais adorar... Paris, Indy tinha a certeza, devia ser fascinante, mas não tinha a certeza de vir a tornar-se um perito em línguas mortas. - Imagino que sim. Mas estudar velhos manuscritos em bibliotecas não me parece que seja a minha ideia de uma vida de excitação... - estás sempre a dizer isso. Por que é que o fazes? - Porque era uma oportunidade, e não a quis perder; é tudo... Simples como isso! Shannon virou de repente para uma azinhaga e fez um gesto a Indy para o seguir. - Onde é que vais? - Anda! - disse com voz abafada. - Eu disse que te comprava uma garrafa. Vamos arranjar uma para levarmos. Há aqui um gajo que a arranja. - Não sei, Jack... - A Lei Seca era uma fraca piada mas Indy estava ansioso por chegar à faculdade. 16 - É só um minuto. Anda? Encolheu os ombros e seguiu-o. Embora os dois se dessem bem, tinham opiniões muito diferentes quanto ao consumo e à atitude a respeito do álcool. Shannon bebia imenso desde os 17 anos, e a Lei Seca não lhe tinha diminuído os hábitos. Indy, por outro lado, aguentava mal o álcool e não tinha grande interesse pela bebida. A meio da azinhaga Shannon abriu uma cancela e foi pelo carreiro até uma porta nas traseiras. Bateu na porta com os nós dos dedos o código universal a dizer "sou eu": Toc-toc-toc-toc. Um cão respondeu de dentro de casa, a latir. Shannon olhou para trás, para Indy como que para se certificar que ele ainda ali estava. Momentos depois um homem baixote de ar mal disposto, abriu a porta. A cara apresent ava um a barba de dois dias e o cabelo branco estava desgrenhado como se tivesse estado a dormir. Deu um grito ao cão para o calar e perguntou o que é que queriam. - Uma garrafa de pinga, Elmo; o que é que havia de ser? disse Shannon com uma careta. O homem fez-lhes um gesto para entrarem. Indy cheirou-lhe o uísque no hálito assim que entraram no caos da cozinha. Um cão rafeiro de pêlo áspero rosnava atrás do dono. A tinta


verde das paredes estava a cair em vários sítios, deixando à mostra o velho papel que a forrara em melhores tempos. Uma das portas do arm ário estava caída no ch ão, onde parecia ter caído há muito tempo, e a casa tresandava a jornais ensopados em urina a um canto. - Só uma garrafa, depressa, Elmo. Estamos atrasados... - É bem feito... - olhou para trás de Shannon e enrugou a testa ao ver a toga negra de Indy. - Quem é esse gajo, um juiz? - Tu não conheces um homem que vai ser doutor? Vamos agora para a cerimónia do grande dia... - Ai é? Aquele professor que às vezes me visita diz que eu devia ter um diploma honorário; que tal? - Elmo riu-se, deixando ver os dentes alinhados que pareciam uma cerca que o sol tornara amarela. - Diploma de quê, de uísque marado? - perguntou Shannon. - Não, senhor; de química! Indy riu-se, mas sentia-se pouco à vontade. E bem desejaria que não tivessem ido ali. - Tens ou não, Elmo? Não podemos ficar aqui o dia todo... - Cinquenta cêntimos. - Cinquenta? - Shannon ergueu os braços, indignado pelo preço. - Que tal um desconto para os novos doutores? Vamos lá, Elmo! 17 - Cinquenta cêntimos! - respondeu Elmo, cruzando os braços sobre o peito. - Pronto, pronto! - Shannon voltou-se para Indy: - Tens aí25 cêntimos? - E a nossa aposta? - Eu pago-te depois, não tenhas medo! Indy rebuscou nos bolsos. Ganhava algum dinheiro para gastos dando lições de latim e de francês aos putos do liceu, mas nunca era lá grande coisa. Deu de má vontade a Shannon os 25 cêntimos. Elmo meteu as moedas no bolso, atravessou a cozinha e desceu à adega. Indy olhou para o relógio. - Espero que ele não se perca lá em baixo... Shannon fez um gesto impaciente com a mão, a minimizar a preocupação de Indy. - Descansa, daqui a nada estamos lá... Indy reparou que o cão tornara a arreganhar os dentes e recomeçara a rosnar. - Que é que se passa? - resmungou Indy.


Shannon estendeu um braço para o cão. - Calado, rafeiro! O cão, contudo, desatou a correr, passando por eles com um salto, direito à porta onde alguém começou a bater com força! Shan non olhou para a entrada dacave, encolheu os ombros e perguntou: - Quem é? - A tua mãe! Abre lá, quero falar com o Elmo! - Quem está aí? - perguntou o velho contrabandista a sair da cave. Entregou a garrafa a Indy, e o diplomado em perspectiva enfiou-a no barrete. A porta abriu-se e no limiar surgiu um homem com um casacão preto, gravata e chapéu. O rosto era todo ele uma máscara dura e ameaçadora, e na mão tinha uma pistola. "Oh, diabo!", pela espinha de Indy perpassou um arrepio. Elmo deitou um só olhar ao novo visitante e correu para a porta dafrente. O homem gritou-Lhe que parasse mas Elmo continuou a correr. O homem pôs-se também a correr, atravessando a casa, com o cão a latir-lhe aos calcanhares. Indy e Shannon trocaram um olhar e correram para a porta da cozinha. Ao fundo dos degraus Indy tropeçou na beca e caiu de joelhos. Pôs-se atarantadamente em pé e correu atrás de Shannon que já acelerava a atravessar o pátio. Indy teve vontade de rir; tinham conseguido fugir, escapando ao perigo, e até tinham conseguido o uísque. Mas nesse momento Shannon parou de repente e Indy foi chocar com ele. Junto à cancela estavam dois polícias prontos a agarrá-los. - Eh! Vocês dois aí! 18 - Merda! Shannon deu meia volta, atravessou o pátio a correr e meteu-se entre os dois prédios. Indy não esperou por indicações: foi atrás, arregaçando a toga. Passou por Shannon ainda iam a meio da rua. correram, atravessando a fugir uma porção de pátios e intervalos entre as casas. Tinha quase a certeza que tinham escapado quando percebeu que tinham entrado para um pátio rodeado por uma cerca de madeira de dois metros e meio de altura. - Raio! - sibilou. - Cuidado! - gritou Shannon atrás dele. Indy voltou a cabeça de um sacão, à espera de ver os polícias. Em vez disso eram dois doberman de fila que corriam para eles.


- Jesus! - deixou ele escapar. Deitou fora a garrafa, enfiou o barrete na cabeça e marinhou pela vedação acima. Quando estava mesmo a passar uma perna para o outro lado, sentiu-se puxado para baixo. Um dos doberman tinha-lhe filado a toga. O cão rosnava e abanava a cabeça para um lado e para o outro, ao mesmo tempo que Indy lutava para se libertar. Baixou-se um bocado e deu um esticão para cima, arrancando a toga da boca do cão. Saltou para o outro lado da vedação, deixando-se cair no chão onde Shannon já estava à espera dele. Atravessaram outro pátio, esgueirando-se por detrás de uma garagem e depois pararam de repente: os dois polícias estavam ali parados na azinhaga com as pistolas apontadas. - Bem tentado, rapazes. Parados! Aí mesmo! - disse o polícia mais baixo. Indy sentiu-se gelar. Agora estavam mesmo metidos num sarilho, e o sarilho nem sequer era seu. - Billy? - disse Shannon, inclinando-se para a frente nos calcanhares. - És tu? - Jesus... - murmurou o polícia. - Jack Shannon! O que é que andas aqui a fazer? - Eu podia perguntar-te o mesmo! - Fomos ali buscar uma garrafa. Vamos para a nossa festa da formatura... - Diabo, Shannon! - Olhou para o companheiro -, É o irmão do Harry... - Fez um aceno de cabeça para o lado: - Cavem já daqui para fora, e vejam lá com quem é que fazem negócios daqui em diante! - Obrigadinho, Billy! - Não me agradeças, Jack. O Harry vai ficar a saber disto, podes ter a certeza... Indy não fazia a mínima ideia do que é que o irmão de Shannon teria a ver com o polícia. Ao dirigirem-se apressadamente para a Universidade, a toga rasgada de Indy drapejava ao vento como uma bandeira. - O teu irmão não é polícia, pois não, Jack? O rosto de Shannon sombreou-se: 19 - Não, mas tem amigos. Este Billy Flannery é vizinho nosso. - Mas o que é que eles andavam a fazer? - A acabar com o negócio de um concorrente de meia tigela, o Harry tem um território a conservar... - Os polícias trabalham para o teu irmão? - Acorda, Indy! Todos eles trabalham para a organização.


Harry é membro honorário. É de família... 20

CAPÍTULO II HERÓIS ENFORCADOS A parte detrás da toga de Indy estava feita em tiras, e manteve-a mais ou menos direita com uma das mãos quando passaram os portões da universidade. Mas isso pouco ou nada o preocupava. Sentia-se feliz por se ter libertado dos polícias, dos bandidos e dos cães. Ia realizar a sua formatura e isso era a única coisa que contava. Olhou para a enorme bandeira que tremulava ao vento. Dizia: «CELEBRAI O DIA DOS PAIS FUNDADORES - 23 de Maio». À vista daquilo o estômago deu-lhe uma volta e aquela sensação de alívio esvaiu-se. Com tudo o que acabara de acontecer tinha-se esquecido completamente da noite anterior. E aquilo que antes lhe parecera uma forma notável de acabar a sua carreira universitária já não parecia tão tentadora. Quando chegaram ao fim da alameda que ia ter ao enorme relvado, pararam. Uma pequena multidão de estudantes de togas pretas e suas famílias estava parada junto ao passeio. Acima deles, balançavam uns corpos na ponta de cordas amarradas aos candeeiros. Do sítio onde estavam, os manequins enforcados pareciam autênticos cadáveres humanos vestidos ao estilo dos antigos revolucionários americanos, trajes completos de camisas e coletes, calÇas justas e chapéus de três bicos. - Ena, olha para isto! - disse Shannon com um sorriso de malícia -, O George, os dois Tom e o Benji... Indy olhou absorto para o quadro. O entusiasmo tinha mesmo desaparecido. - Não sei. À luz do dia parece grotesco. Acho que nunca me convenci de que ainda aqui estariam... Se fosse um dia de semana, com certeza que os trabalhadores do serviço de conservação da universidade já os teriam tirado para baixo e levado dali para fora. Mas era sábado, era manhã cedo e era dia da formatura, e assim toda a gente ali parava e ficava a olhar. - Olha, cá por mim acho bestial! - disse Shannon a rir, dando-lhe uma palmada nas costas. - Conseguimos! - Não havia


na sua voz nem sombras de preocupação. - Bom... ainda bem. 21 - Olha a imprensa está ali. É a nossa oportunidade de lhes di zer tudo... E fora de facto essa a sua intenção original. Agora, contudo, já não estava lá muito seguro de querer receber os créditos pelo feito e muito menos de se gabar disso. Talvez não tivesse sido assim tão boa ideia transferir aquela partida da noite anterior ao Dia dos Pais Fundadores para a véspera da formatura. Talvez ninguém chegasse a compreender isso... Shannon deu-lhe uma palmadinha num ombro: - Ali estão os meus pais. Atéjá! Indy viu-o desaparecer na multidão e depois dirigiu-se para o local onde os fotógrafos estavam a tirar fotografias a Tom Jefferson. Várias pessoas falavam todas ao mesmo tempo, e as suas pa lavras eram como socos que Lhe estivessem a dar na barriga. - Quem é que poderia ter feito isto? - ouviu um perguntar, E com que finalidade? - Não tem finalidade nenhuma! - É horrível! - Deve ter sido um bolchevista. Ouvi dizer que há cá muitos. - Talvez fosse um realista. Tenho a certeza que deviam odiar o Franklin... - Um inglês louco! Ninguém parecia achar graça nenhuma àquilo, nem sequer abarcar o seu significado. Agora já quase se não podia conter. Teve ganas de lhes gritar que aquilo era precisamente a sua interpretação do Dia dos Pais Fundadores e perguntar-lhes se eles não percebiam o que é que aqueles homens significavam... - uma vergonha para a universidade! - trovejou uma voz autoritária debaixo do outro candeeiro. - Um ultraje da pior qualidade! Mallery Mulhouse, o director da universidade estava rodeado de repórteres, estudantes e pais. Tinha um rosto mais severo do que costume e a testa perlada de suor. O Dia dos Pais fundadores era uma ideia sua. Era um dia repleto de discursos e manifestações patrióticas e embora ninguén fosse obrigado a participar era considerado grosseria se os alunos lhe não dessem importância. Durante os dois primeiros anos quando Indy ainda dormia numa camarata, o chefe do andar tinha tido a responsabilidade de


levar todos a fazer qualquer coisa ou qualquer projecto para a festa como balões, grinaldas e coisas semelhantes. No ano anterior, quando já se mudara para um apartamento na faculdade, tinha sempre evitado o Dia dos Pais Fundadores. Mas naquele ano Mulhouse tinha exigido que todos os alunos de história ou de inglês escrevessem um trabalho sobre os Pais Fundadores, sob pena de chumbarem se não o fizessem. 22 Indy tinha-se submetido de má vontade; mas à sua maneira. - Quem quer que seja que tenha enforcado as efígies dos fundadores da nossa pátria nos candeeiros da nossa academia, numa academia de estudos superiores, é, sem sombra de dúvida, um criminoso desequilibrado e perigoso! - continuou Mulhouse. - Eu considero isto um acto de verdadeira sedição, uma afronta a tudo que a nossa pátria representa! Começou a formar-se uma ruga na testa de Indy à medida que se ia aproximando de Mulhouse. Na verdade, tinha esperado que houvesse uma controvérsia; e até desejara que a houvesse; mas nunca pensara que Mulhouse considerasse aquilo uma espécie de crime de lesa-pátria. - Não acha que pode ter sido uma partida de estudantes perguntou um dos jornalistas. O rosto de Mulhouse cobriu-se de indignação, ficando ainda mais vermelho do que já estava. Respondeu: - Se foi uma brincadeira, é de extremo mau gosto. Quem quer que tenha estado por detrás disto será descoberto, e sofrerá o devido castigo! - O senhor quer dizer que enforcar esses bonecos se pode considerar um acto criminoso? - perguntou outro jornalista. - A polícia da universidade já foi notificada, e os nossos advogados estão neste preciso momento a estudar as implicações legais que isto possa ter. Neste momento não ponho de parte nenhuma hipótese... - Dr. Mulhouse, isto que estamos aqui a ver não será apenas uma exemplificação da liberdade de expressão que tão professada foi pelos nossos Pais Fundadores? - perguntou um aluno que Indy reconheceu como editor dojornal escolar. Mulhouse apontou para o George atrás dele, que um dos seus assistentes estava agora a tirar da corda pendurada no candeeiro: - Jovem, enforcar a efígie do primeiro presidente da nossa pátria num candeeiro de uma universidade não é um exemplo de liberdade de expressão. Pelo contrário, é uma ameaça a essa


mesma liberdade! Raios! A coisa não ia nada bem. Indy olhou para baixo, para o barrete da formatura que tinha na mão e ficou a pensar se afinal lhe iriam recusar o diploma. E depois? Azar o seu era o que era. Devia ter pensado nisso na noite passada. - Que é que achas disto, Jones? Voltou-se e viu Ted Conrad, o seu professor de história. Andava pelos 30 anos, e tinha um enorme bigode de guias, à antiga; era o instrutor de quem Indy mais gostava. 23 Indy encolheu os ombros e deu um a olh ada ao boneco mais próximo: - Deram-se a um trabalho e tanto... - A mim parece-me o primeiro tiro contra o Dia dos Pais Fundadores... Nos lábios de Indy desenhou-se um meio sorriso: - Acho que pode muito bem ser... Gostava daquele professor pela sua atitude franca e também pelas suas ideias arrojadas. Conrad tinha muitas vezes dito nas aulas que se deviam bater por aquilo em que acreditassem, sem receio de questionar a autoridade. Liberdade de expressão, dissera, significava que a pessoa se pudesse expressar da forma que entendesse e desde que não prejudicasse ninguém. Era isso o significado da democracia. Tinha também troçado ligeiramente a respeito do exagero das celebrações do Dia dos Pais Fundadores, e quando fora notificado para tratar do tal trabalho da aula tinha-os espicaçado, dizendo: "Tenham em mente, quando fizerem esse trabalho, que vocês estão numa universidade, não numa igreja!" E Indy tinha feito precisamente isso, e agora o Conrad suspeitava dele, tinha a certeza. - Aquilo que eu estou aqui a ver, Jones - disse ele, sorrindo, ao mesmo tempo que se aproximava das figuras penduradas -, parece-se muito com aquilo que tu sugerias no teu trabalho... Indy teve subitamente a consciência de que para Conrad, ele era transparente como água. Disse: - Eu não disse que eles deviam ter sido enforcados; a minha opinião era que se os ingleses tivessem vencido, os nossos grandiosos Pais Fundadores teriam sido considerados traidores e provavelmente enforcados... - Oh, eu compreendo o teu ponto de vista; e gostei do teu trabalho. Até lhe dei a nota mais alta...


Óptimo. Ele, pelo menos, tinha compreendido. - Então pode compreender o que eu fiz aqui... - exclamou Indy. - Este é o meu projecto de despedida do Dia dos Pais Fundadores. Democracia na prática. Conrad assentiu. Comentou: - Apenas uma semana mais tarde, mas mesmo assim admiravelmente ajustado para coincidir com a tua formatura. Admiro o teu arrojo, Jones. Mas a verdade é que vais ter ainda de enfrentar as consequências, sabes... Olhou para a parte de baixo da toga de Indy, toda rasgada, deixando à vista as pernas cabeludas. - A propósito, esse conjunto fica-te bem... 24 Indy sentiu-se como um insecto apanhado num papel matacas, ainda vivo mas prestes a ser esmagado. Estava de pé ao fundo de uma enorme mesa de conferências, numa sala ricamente apainelada do quarto andar do edifício da administração. Ficava bem no centro do frio e cinzento coração da universidade, um sítio onde raramente alguns alunos se atreviam a ir. Sentados em torno da mesa estavam o reitor dos estudantes, o residente do departamento de história, um membro do corpo de estudantes da universidade, dois advogados da universidade e Ted Conrad. À excepção de Conrad, que o tinha denunciado, todos os outros eram severos homens de idade, vestidos de cinzento. Subitamente, abriu-se a porta e o presidente Mulhouse entrou majestosamente na sala de conferências. Cumprimentou todos os que estavam em torno da mesa e depois olhou para Indy: - Sente-se, Sr. Jones. - Mulhouse apontou para uma cadeira no topo oposto da mesa. Indy tinha sido acordado na manhã do dia anterior por dois agentes da polícia da universidade, e interrogado no gabinete deles. Tinha confessado tudo, excepto a participação de Shannon. Tinha estado presente o reitor Williams e depois da polícia ter acabado, este tinha interrogado durante mais de meia hora sobre a sua vida pessoal. O reitor, um senhor muito distinto de cabelos brancos, já fora professor de filosofia, e as suas perguntas mostravam bem isso. Por fim tinha recebido ordem para se apresentar ali naquela sala, às 10 horas em ponto. - A Natureza dos Patriotas e traidores Americanos"... - leu ; Mulhouse, batendo ao de leve com o dedo no trabalho de Indy


acerca do Dia dos Pais Fundadores. - Bom, pelo menos é melhor do que Heróis Enforcados, como os jornais chamam a este episódio... Olhou por cima do aro dos óculos, presos no nariz para o recém-formado, e começou a dar pancadinhas no queixo, um daqueles gestos académicos estudados em que era excelente. - O senhor realmente pensou que se conseguia safar desta, Sr. Jones? - Eu... ah... - Indy tossiu a aclarar a garganta tentando dominar o seu nervosismo. Começou: - Eu não estou a tentar safar-me de nada. O meu trabalho é acerca da estreita linha divisória entre os heróis populares e os traiçoeiros vilões. Se os ingleses tivessem vencido... - Mas os ingleses não venceram, Sr. Jones! - interrompeu o director do departamento de história. - E quando o senhor enforcou as efígies dos nossos heróis nacionais, os nossos Pais Fundadores, naqueles candeeiros, foi o senhor que agiu como um traidor. E é isso precisamente o que a maior parte das pessoas vê nisso... 25 - Eu penso que teremos de considerar algumas circunstâncias atenuantes, nojulgamento do Sr. Jones! - disse o reitor Williams - Eu tive ontem de manhã uma longa conversa com ele, e creio que ele é um jovem bastante perturbado. Em minha opinião, o seu acto não é tanto um ataque dos nossos Pais Fundadores; é mais contra o seu próprio pai, o seu único parente vivo, o célebre investigador da época medieval, o Dr. Henry Jones. Tal como eu me apercebo, o Dr. Jones é uma pessoa extremamente ocupada e infelizmente não teve tempo para vir de Nova Iorque assistir à formatura do seu filho. E aí, ao que parece, houve da parte de seu filho um certo ressentimento pela importância demonstrada pelo pai a esse facto; e o que se passou nessa noite, na véspera da festa da formatura, foi uma manifestação desse sentimento... Era uma coisa que incomodava Indy, o facto de estarem a dis cutir os seus motivos, como se ele ali não estivesse. E o que é que aquele estava a dizer? Claro, ele estava ressentido contra o seu pai,, mas não fora por isso que enforcara os Pais Fundadores. Ia dizer isso mesmo quando Ted Conrad falou: - Isso é uma análise interessante, reitor Williams, mas eu tenho a certeza que não tem grande coisa a ver com os actos do


Sr. Jones. Os seus motivos foram, obviamente, relacionados com o seu trabalho sobre o Dia dos Pais Fundadores. Esse trabalho foi mui to bem pensado. escrever sobre a História é, na melhor das hipóteses, fazer um a especulação, mas os factos que ele descreve estão bem interpretados... A boca de Mulhouse cerrou-se por momentos a mostrar reprovação. Respondeu: - O senhor está a concordar com as acções que ele praticou, Prof. Conrad? Indy inclinou-se para diante: - Desculpe-me, mas... - Não, senhor; não estou a concordar com o que ele fez! interveio Conrad, ignorando Indy. - Ele foi consideravelmente mais longe do que era pedido ou até mesmo permitido em tal projecto. Estou simplesmente a explicar o que penso que o tenha motivado... Era evidente que Mulhouse não estava a aceitar nada daquilo. - É evidente que se pode olhar para isto psicologicamente ou academicamente. Mas a verdade dos factos é que o Sr. Jones demonstrou a suafalta de respeito pelos fun dadores da nossa pátria, e a sua desaprovação pelo dia dos Pais Fundadores que é uma instituição desta universidade! Falaram ainda alguns minutos sobre as razões, e todos concordaram que fossem elas quais fossem, ele tinha procedido mal. Depois disso pediram a Indy que saísse da sala. 26 - Posso dizer uma coisa, por favor? - disse ao levantar-se. Mulhouse olhou-o de testa franzida: - Diga, jovem. Mas seja breve! - Tudo o que tenho a dizer é que o meu pai não tem nada a ver com aquilo que eu fiz. Nem por sombras me passou pela ideia que o estava a enforcar simbolicamente... E com isso voltou-se e saiu da sala, indo sentar-se no amplo vestíbulo cá fora. Suspirou profundamente. Imaginou-os a continuarem a conversar, falando sobre alternativas, decidindo o seu futuro, e a tentarem ao mesmo tempo dissecarem a sua própria personalidade. Pelo menos ele tinha a certeza de que Mulhouse estava firmemente decidido a retirar-Lhe o diploma. E o que é que ele faria sem um diploma? Já não iria para Paris; isso era certo. Teria de arranjar um emprego. Mas que espécie de emprego? Sem diploma nem sequer poderia ensinar


francês ou latim. Nem queria pensar no que é que poderia fazer até porque nem o sabia. Alguns minutos depois, a porta abriu-se e o reitor Williams fez-lhe um gesto para ele tornar a entrar na sala das conferências. Quando Indy se sentou, o olhar de Mulhouse dardejou intensamente sobre ele. Disse: - Ora, Sr. Jones, o senhor tem a sorte de eu ser um a pessoa que ouve atentamente aquilo que os outros têm a dizer. Primeiro de tudo, os nossos advogados e eu discutimos a possibilidade de apresentar queixa-crime por causa disto. E foi nossa opinião consensual que não resultaria nenhum benefício para esta instituição se levássemos o assunto mais por diante, pelo menos pelas vias legais. Preferimos esquecer o caso. "Anda, acaba lá com isso. Di-lo; di-lojá. Diz que me retiras o diploma"... - A forma mais simples de tratar do assunto seria pura e simplesmente a de o expulsar. Mas o senhor já se formou: sorte sua. Abriu um sorriso frio e duro. -Sabemos, no entanto, que estava a planear ir para a Sorbonne no próximo Outono. Podemos facilmente recusar-nos a enviar os seus registos, e nesse caso é muito duvidoso que o senhor possa ser considerado um estudante legítimo. Fez uma pausa deliberada, para deixar bem vincado o sentido das palavras que dizia. "... mas vamos dar-lhe a oportunidade de se redimir. Mulhouse olhou em roda para os outros e eles anuíram com uma aprovação silenciosa. - Gostaria que o senhor apresentasse as suas desculpas a todos aqui presentes pelo que fez, e depois escrevesse uma carta de desculpas que o meu gabinete depois apresentará aos jornais. Todos os olhos na sala se voltaram para ele, como se todos esperassem que ele respondesse. Mas ele não tinha nada para dizer. 27 Por que é que ele tinha que pedir desculpa por qualquer coisa de que se não arrependia de ter feito? E então aquilo de afirmar claramente as coisas em que acreditava? E a democracia? Conrad olhava-o intensamente e a mensagem que lhe intentava


passar era implícita: "aceita o que te estão a oferecer!" Indy afastou dele os olhos, irritado por Conrad, que o tinha traído, e que nem aos seus próprios princípios era fiel, estar agora a presumir de lhe poder dar conselhos. No entanto, se ele não pedisse desculpa, sabia perfeitamente que Mulhouse levaria por diante a sua ameaça de lhe recusar os registos. "Era o menor de dois males", pensou. E disse: - Óptimo. Assim farei. Mulhouse aprovou com um leve baixar de cabeça e teve um leve sorriso: - Estamos a aguardar. Vamos lá a ouvir... Indy olhou para o tampo da mesa: - Apresento as minhas desculpas a todos vós. Lamento... lamento ter feito o que fiz. O seu gabinete receberá amanhã a minha carta de pedidos de desculpa. Depois afastou-se da mesa, pôs-se em pé e saiu rapidamente da sala. Desceu as escadas a duas e duas até chegar ao primeiro andar, e depois dirigiu-se para o relvado. Nem sabia para onde ia; e nem interessava. Estava literalmente a ver tudo vermelho. - Jones, aguenta aí, está bem? Era Conrad. Indy continuou a andar. - Jones! Parou e voltou-se. - O que é que quer? - Quero falar contigo. Indy reparou que estava a cerca de um metro do candeeiro em que ele e Shannon tinham enforcado o primeiro manequim. - Acho que o senhor gostaria que eu subisse ali acima e me enforcasse! - disse ele, apontando um dedo ao candeeiro. - Ou então quer que eu lhe apresente as minhas desculpas a si pessoalmente, não é? - Calma, Jones. Portaste-te muito bem lá em cima. Mesmo muito bem... - Claro. Fui bestial. - Ouve o que te digo. marcaste a tua posição; acredita que o fi zeste. Eu falei com Mulhouse em casa dele, ontem durante mais de uma hora, e ele acabou por concordar que tinha reagido exageradamente. - Bom, não o ouvi pedir quaisquer desculpas por isso... - Não. Mas também não te viste preso. Aqueles advogados podiam ter engendrado uma dúzia de queixas desde vandalismo a traição. Não estás a ver? Tu ganhaste! Raios, se a bebida não estivesse ilegalizada, pagava-te um copo! 28


- Eu venci, e tenho que pedir desculpas? Que espécie de vitória é essa? - Repara, o Mulhouse tem de manter o seu manto de credibilidade. Se tu Lho rasgasses, recusando-te a pedir desculpas, ele não tinha outra alternativa senão a de arruinar-te as esperanças na Sorbonne... Indy sabia que o professor tinha razão. - Então a desculpa que eu tenho de apresentar por escrito? - É a tua oportunidade de explicares a toda a gente o que é que estavas a fazer. Não te vanglories disso: diz que reconheces que foi um erro... - Talvez; acho que sim... Conrad deu-lhe uma palmadinha no ombro: - É assim mesmo. Boa sorte em Paris. Invejo-te, sabes? Tenho a certeza que vais ter sucesso lá e vais encontrar aquilo que procuras... E quando Conrad se afastou, Indy ficou a pensar naquilo que o professor dissera. De que é que ele estava à procura? Não sabia; mas tinha a impressão que o reconheceria quando o visse...

29 CAPÍTULO III LADY GELO Paris - Outubro 1922 Era uma manhã fresca de Outono, e Indy apertou o casaco de cabedal no pescoço ao palmilhar pelo Boulevard de St. Michel. ao contrário da maioria dos franceses com que se cruzava, não usava cachecol. Madelaine tinhalhe oferecido um no Natal passado mas havia várias semanas que não a via e o facto de o usar fazia-o lembrar-se dela. Inclinou-se para a frente, puxou o chapéu para a testa e acelerou o passo. Era não só para fugir ao frio, mas também porque estava ansioso por assistir à aula dessa manhã do curso de arqueologia grega. O tema era o Oráculo de Delfos e ele


estava com curiosidade de saber como seria a abordagem que a Prof.a Belecamus fazia desse assunto. Atravessou o terreiro da escola, dirigindo-se directamente para o edifício das aulas. Após dois anos a estudar na Sorbonne, orgulhava-se de conhecer a cidade tão bem como qualquer parisiense nato. É claro, no entanto, que ali seria sempre um estrangeiro, e por estranho que parecesse, gostava de sentir isso. Era como que um intruso a viver lá dentro. Estava no seu terceiro ano de um curso superior sobre as antigas línguas escritas, e era por isso que estava a tirar o segundo curso de arqueologiaclássica. Dava bem com os seus estudos do antigo grego, mas havia além disso qualquer coisa mais naquele curso que o cativava: a professora. Tudo nela, desde os vestidos ao perfume que usava, a maneira como falava e como andava, tudo era marcadamente feminino. E, apesar disso, por debaixo desse verniz, Indy pressentia uma força e uma autoconfiança que o intrigavam. A dicotomia sugeria naquela mulher qualquer coisa de mistério, e marcava também os limites da aura pessoal que a rodeava. "Chegaste perto de mais, e estás em perigo", era o que aquilo segredava. 30 Até agora não tinha havido problema. Estava a meio do seu segundo curso com ela e era brilhante nele. Os seus conhecimentos do antigo grego, a par da sua vasta compreensão da mitologia grega colocavam-no em posição bastante destacada entre os seus iguais, mas ela agia como se ele não existisse. Alguns dias antes ele tinha-se aproximado dela depois da aula e feito algumas perguntas acerca da exposição que ela fizera. A professora respondera-lhe de uma forma ríspida que era igual à fria indiferença dos seus olhos. Indy recusara-se a ficar intimidado e dissera-Lhe como tinha apreciado a sua exposição. - Ainda bem! - respondera ela. E com uma breve desculpa seguira o seu caminho, deixando-o ali parado. Dorian Belecamus era a Lady Gelo. Era o que ele pensava dela. E, no entanto, também se pode derreter, e em qualquer lado, lá bem no fundo dessa muralha de protecção tem de existir uma mulher quente e amigável a ansiar por um pouco de intimidade. Ou pelo menos assim ele fantasiava. Perdido nos seus pensamentos chocou com outra pessoa ao


entrar para a aula e só nesse momento percebeu quem era. Que era ela. Deixou-se cair sobre um joelho para apanhar o livro de apontamentos que escorregara das mãos de Belecamus. Os olhos fugiram-lhe para as esculturais pernas da mulher, agora apenas a poucos centímetros da sua cabeça. Na maior parte dos dias ela vestia uma saia comprida e uma blusa branca por cima da qual usava um colete de veludo sem mangas. Hoje, porém, trazia um vestido mais curto, plissado, de aluna de liceu, que lhe fazia parecer mais uma das alunas do que a professora. Ela baixou-se e apanhou um papel que tinha caído do seu livro de apontamentos. Ergueram-se ao mesmo tempo e os seus olhares cruzaram-se: os olhos dela adoráveis, enormes e escuros, quase pretos. - Desculpe, Dr.a Belecamus; não a vi... - Obrigado, Jones... - Passou uma das mãos pela abundante cabeleira. Estava atada atrás com um laço, a fazer sobressair os seus atraentes olhos, malares salientes e lábios carnudos. Olhou ao dizer: - Engraçado encontrá-lo aqui. Venha falar comigo depois da aula. Tenho uma coisa para falar consigo... Inopinadamente voltou-se e dirigiu-se para o estrado. Indy ficou de olhos abertos a olhar para ela, espantado pelo facto de ela ter mesmo sorrido para ele. Olhou em redor à espera de ver olhares de inveja de todos os outros homens e olhares cúmplices das mulheres. No entanto, ninguém parecia ter dado por nada. Tinha partido - ou pelo menos feito uma brecha - na carapaça de gelo que rodeava Dorian Belecamus, e ninguém se importava com isso! Que se passava com aqueles fulanos? 31 As suas expressões eram tão inescrutáveis como as fussas dos esqueletos que os olhavam das estantes que forravam as paredes da sala. Os franceses têm a fama de serem grandes amantes, mas nenhum destes parecia pensar que aquela professora tinha qualquer coisa de especial. Sentou-se numa carteira da coxia e abriu o caderno de apontamentos, tentando pensar nos motivos que ela teria para querer falar com ele. Não chegou a nenhuma conclusão. Uma rapariga de asPecto banal e que pouco ou nada devia à beleza, de cabelos castanhos escorridos inclinou-se para ele, da carteira ao lado: - Jesus, viste como ela vem vestida hoje? - murmurou. - Como se se julgasse uma de nós...


"Nem por sombras!", pensou Indy. "Mundos aparte; e mundos muito melhorados..." - Mas não é; nem nada que se pareça! - respondeu em tom de comiseração. Voltou a olhar como que atentamente para o seu livro de apontamentos, a cortar a conversa. - O tema hoje é um com o qual eu estou intimamente familiarizada... - começou a Belecamus. "Irónico..." pensou Indy. "Intimidades com uma cidade morta." - Quando eu era criança, visitei as ruínas de Delfos nos primeiros anos da sua moderna restauração, que começou em 1892... Dardejou um olhar para a porta quando um aluno a chegar mais tarde se esgueirou sob a sua gélida mirada à procura de um lugar vago. - Quando era aluna do liceu, e mais tarde, da faculdade, passei as minhas férias de Verão a trabalhar, primeiro como voluntária e depois como assistente contratada para o local. Delfos tornou-se o objectivo da minha tese de formatura. Antes de vir para aqui dar aulas passei cinco anos como arqueólogachefe das ruínas, em associação com a Universidade de Atenas... Baixou por momentos os olhos e sorriu como que para si: - Um dos meus assistentes cometeu uma vez um erro de se referir jocosamente a mim, chamando-me Pítia. Como todos sabemos, Pítia era o nome da sucessão de mulheres que serviam de Oráculos de Apolo, ou Oráculos de Delfos. E para vir a ser Pítia uma mulher tinha de pertencer a uma família pobre de gente do campo, ter mais de 50 anos e não ser particularmente inteligente... Os seus olhos percorreram a sala: - Espero que compreendam porque é que eu não fiquei muito encantada com tal comentário. 32 A frase provocou uma gargalhada colectiva na aula. Belecamus não se ajustava nem pela idade, nem pelo quociente de inteligência. E também, pensou Indy, não lhe parecia que tivesse vindo de uma família de camponeses pobres. - Pítia fazia as suas profecias do altar do Templo de Apolo, onde ela se sentava num tripé de cobre e ouro, colocado sobre uma fenda na terra. Supunha-se que por essa abertura subiam vapores intoxicantes que punham a mulher num transe de frenesim... Sorriu outra vez como que para qualquer coisa divertida só


dela conhecida e depois os seus olhos detiveram-se em Indy. Continuou: - Uma testemunha do século I descreveu a transformação de Pítia da forma seguinte: "Os olhos brilhavam-lhe, deitava espuma pela boca e os cabelos ficavam-lhe de pé. Depois ela respondia à pergunta que lhe tivesse sido feita." In dy subitamente teve a sen sação de que ela estava a falar apenas com ele; que o resto da aula lhe não interessava. Sentiu uma onda de calor na nuca. Os seus olhos ficaram fixos nela, apanhando de caminho a luz que se reflectia nos seus cabelos negros e brilhava nos olhos da mesma cor. - A resposta dela era sempre uma algaraviada incoerente feita de palavras e de frases soltas. Incoerente para todos, quero dizer, excepto para os sacerdotes do templo, que as interpretavam para os suplicantes. Belecamus olhou para os seus alunos. Disse: - A propósito, alguém sabe o que significa a palavra Delfos? Sr. Jones, o nosso estudioso de grego; que tal? Claro, ela tinha estado a olhar para ele; e sabia dos seus estudos de grego antigo. - Significa «o lugar do golfinho». A professora acenou afirmativamente: - Muito bem. Mas diga-me; porque é que tinha esse nome? Indy tinha aprendido a história mitológica de Delfos em criança, muito tempo antes de saber que a Grécia era um país. - Apolo chegou ao santuário sob a forma de um golfinho... - E o que é que ele lá encontrou? Sentiu-se subitamente como quando tinha 12 anos, e o pai o obrigava a repetir os mitos que lhe tinha dado para estudar. Mas Dorian Belecamus não se parecia nada com o seu pai... - Um dragão chamado Pitão. Era a serpente - filho de Gaea, a deusa da terra e de Poséidon, o que sacudia a terra. Pitão morava numa caverna da montanha e anunciava as suas profecias através das sacerdotisas Pítias. - E o que foi que sucedeu? - Apolo matou o dragão e atirou-o para uma fenda da terra. - Muito obrigado, Sr. Jones... O seu olhar desviou-se dele e percorreu a sala. Continuou: 33 - Agora deixemos os aspectos mitológicos e tomemos o nosso conhecimento histórico de Delfos. Explicou que por mais de um milénio, desde 700 a.C. até 362 d. C. o retiro da montanha fora o local de um oráculo. Saiu do


estrado ao mesmo tempo que falava. Era evidente que não necessitava de quaisquer apontamentos. - No auge da sua influência, Delfos era a sede do poder no Mediterrâneo, virtualmente ditando a história política da região. Rara era qualquer acção importante que fosse tomada pelos que ali mandavam, sem que tivesse sido consultado o oráculo. Até mesmo filósofos cépticos como Platão e Sócrates, tinham em grande consideração o oráculo. ao longo dos anos, Delfos foi acumulando um vasto tesouro em ouro e estátuas de mármore, Quadros e jóias, tudo oferendas dos suplicantes. - E as profecias eram certas? - perguntou um aluno. - Era disso que ia agora falar. As profecias eram a maior parte das vezes apresentadas em frases ambíguas, abertas a várias interpretações... - disse. - No entanto, uma dessas possibílidades era geralmente exacta. Vejamos alguns exemplos: - Quando lhe perguntaram como é que os gregos se portariam perante um ataque dos persas no ano de 480 a. C., o Oráculo disse-Lhes para confiarem nas muralhas de madeira. Muito embora o significado de paredes fosse altamente discutido os gregos conseguiram sucesso na sua defesa com a sua frota de barcos, de madeira; mesmo depois de cercados. Por isso, aqueles que interpretaram «paredes de madeira» como «barcos de madeira» tiveram razão... - concluiu a professora. "Quando o imperador romano Nero foi avisado de cuidado co os setenta e três", decidiu interpretar esse aviso como uma profecia de que morreria aos 73 anos. Em vez disso, foi derrubado quando tinha 31 anos por Galba, que, esse sim, tinha 73 anos. Algumas profecias eram exactas - muito embora num sentido ambíguo ou até mesmo cínico - continuou ela. - Por exemplo uma profecia que foi feita a Creso, afirmava que se ele invadisse a vizinha Cyros, destruiria um poderoso império. E assim sucedeu: destruiu o seu próprio império... "Patacoadas...", pensou Indy. Duvidava seriamente que Platão ou Sócrates dessem qualquer importância ao Oráculo. Faziam-lhe vénias porque era a religião daquele tempo; e desafiar a autoridade podia custar-Lhes muito caro. Indy sabia por aquilo que tinha estudado que eram os poderosos sacerdotes que interpretavam as algaraviadas de Pítia que estavam no centro da Liga Anfectiónica, uma coligação de cidades-estados Gregos, e estavam, portanto, bem informados sobre todas as actividades importantes da região. 34 Serviam-se simplesmente do Oráculo para dar um cunho de


verdade às suas proclamações. Na realidade, aquela velha chamada Pítia não passava de um veículo ritualista sem qualquer importância. Também sabia que o seu pai o desancaria se ele se atrevesse a dizer-lhe semelhante coisa. Reduzir o Oráculo de Apolo a uma forma de corrupção política sem qualquer realidade mística era pura heresia. Mas ao longo de toda a sua infância, Indy tinha visto o seu pai se tornar cada vez mais obcecado em fantasias míticas que Lhe tinham absorvido a vida e que virtualmente lhe tinham arruinado a sua. Levantou o braço. - Que eram exactamente esses vapores que a Pítia respirava quando fazia as suas profecias? Belecamus pareceu achar graça à pergunta: - Ah, os lendários gases mefíticos, como lhe chamavam! Quem sabe? A lenda dizia que eram as emanações da apodrecida carne de Pitão... - Felizmente os cientistas não aceitam as lendas e os mitos como factos - respondeu Indy. - É nisso que a religião e a ciência diferem... Belecamus parou na sua frente. O olhar de Indy foi atraído para as pernas fortes e morenas, nuas quase até ao joelho. A professora olhou para ele: - Então o que é que pensa que eram esses vapores, Sr. Jones? Desviou o olhar das pernas dela; por momentos nada disse. A presença dela tão perto de si perturbava-o. Aclarou a voz a reunir os pensamentos. Ela estava a desafiá-lo e tinha de a enfrentar. Disse: - Muito provavelmente tratava-se de uma mistura de incenso queimado, juntamente com folhas de louro. A Pítia inalava essa mistura e provavelmente mastigava folhas narcóticas de louro para entrar em transe. Esses tais vapores eram apenas uma outra forma dos sacerdotes mistificarem e ritualizarem as suas actividades... Belecamus cruzou os braços: - O senhor é muito racionalista, Sr. Jones; e isso é bom. Mas muitas vezes temos a necessidade de espicaçar a nossa imaginação, em arqueologia. Os mitos são muitas vezes o trampolim para a verdade e para a compreensão... - Mas também podem sugestionar e levar ao engano; e muitas das vezes são tomados como a própria verdade! - respondeu. Até por pessoas inteligentes... "O seu pai, por exemplo...", pensou. Belecamus sorriu e voltou a encaminhar-se para o estrado. - Muito bem posto. Espero que todos aqui compreendam a dupla natureza dos mitos...


35 Como a hora estava a chegar ao fim, Belecamus disse que queria fazer uma declaração. E depois de uma curta pausa disse: - Esta conferência sobre Delfos, como sabem, estava marcada desde há duas semanas. Mas, bastante curiosamente ela coincide com um assunto muito urgente em Delfos. Há apenas dois dias atrás houve naquela zona um pequeno abalo de terra... - E houve grandes danos? - perguntou alguém. - O tremor de terra sacudiu e deformou o solo e abriu um a fenda no templo de Apolo. Mas sob um aspecto feliz parece que disso resultou uma nova descoberta: uma placa de pedra foi descoberta, saída de dentro das terras abaladas... - E que é que ela tinha? - Ainda não sabemos. Eu vou sair de Paris brevemente, para inspeccionar o local. Isso significa que o meu instrutor assistente me irá substituir aqui no curso até ao fim do período. Indy sentiu um súbito vazio no peito, uma espécie de ausência dos órgãos vitais como se o coração Lhe tivesse sido sugado. Ela concluiu: - Desejo a todos as melhores felicidades no curso. Os senhores foram um grupo muito atento; vou sentir a vossa falta... Todos aplaudiram. Umafila de estudantes passou por ela a desejar-lhe boa sorte, mas Indy deixou-se ficar na sua carteira. Quando os últimos alunos saíram, levantou-se e aproximou-se do estrado. - Sr. Jones, espero não o estar a privar de qualquer coisa. Outra aula? Ou talvez alguma namorada que o espera no átrio? - Não, não, absolutamente nada... - Óptimo. Eu pedi-lhe para esperar porque quero dizer-lhe mais alguma coisa acerca dos meus planos imediatos. - Ah, quer? Os olhos dela fixaram-se nos seus. Era um olhar penetrante e íntimo como um abraço e com uma intensidade que o espantou. - Estaria interessado em acompanhar-me a Delfos como meu assistente? - Eu... - O senhor. Na realidade o senhor é o meu melhor aluno e eu preciso da ajuda de alguém que esteja associado à Universidade de Atenas. Política, sabe o que eu quero dizer... - Bom... eu não sei... não sei se posso sair já... -


gaguejou. - Assim, no meio do período e tudo... Ela fez um gesto com a mão: - Não se preocupe; eu trato de tudo com a universidade. A minha dispensa urgente já foi autorizada, e ao senhor o tempo é-lhe contado como trabalho de campo. As suas despesas básicas serão cobertas pelo meu orçamento de investigação. O que me diz? 36 Indy não sabia o que responder; por outro lado estava extasiado. Por outro lado o facto de ela partir do princípio assente que ele pura e simplesmente largaria tudo, irritava-o. E, além disso, a arqueologia nem sequer era o seu campo de estudo. - É uma coisa assim tão repentina... Ela deu um passo a aproximar-se dele e sorriu: - Vai valer a pena, Henry... Ainda quis corrigi-la; dizer-lhe para lhe chamar Indy, que Henry era o seu pai. Mas o simples facto de ela se lhe ter dirigido chamando pelo nome próprio, era uma enorme abertura. Era como se qualquer barreira invisível entre professora e aluno tivesse sido derrubada. Tratá-lo assim familiarmente era como dizer que eram iguais, e ela tinha tornado bem claro, desde o primeiro dia de aulas, que não era sua igual. Não só ela tinha estudado arqueologia grega desde a adolescência, como também ela era de cultura grega; estava-lhe no sangue. No seu curso ela era uma autoridade, uma fonte viva de conhecimento; e eles não passavam de esponjas que ali estavam para absorver um pouco da sua sabedoria imensa. E agora ela estava a dar-lhe aquilo que bem poderia considerar-se a oportunidade de uma vida. Vai valer a pena. É claro, ela queria referir-se à oportunidade de trabalhar em Delfos; mas não seria aquilo uma encoberta sugestão a mais qualquer coisa? Ou era ele que já estava a imaginar isso? - Gostaria de pensar nisso... - disse-, mas parece-me.... interessante... Interessante: que palavra fraca! Mas é que nada mais lhe tinha ocorrido. - Não demore muito, Henry... - a voz dela era grave e quente. - Oportunidades como esta não aparecem todos os dias...


37

cAPÍTULO Iv DADA E JAZZ Indy abriu a porta do Jungle, uma boite de Montparnasse. Era ainda cedo e sentiu-se aliviado ao ver que as mesas que a malta do Dada geralmente preferia, perto da porta, ainda estavam livres. Não estava com disposição nenhuma para lhes ouvir o falatório. Na sua maior parte eram arrogantes e cínicos que gostavam praticamente de passar a vida a insultar quem quer que entrasse pela porta dentro. Olhou em roda tentando adaptar a vista àquela semiobscuridade. O tecto estava pintado a cobre e as paredes forradas a madeira; o pequeno bar estava também orlado de cobre. Suspensos lá do alto havia diversos candelabros vitorianos que davam uma luz fraca, e a sala tinha a toda a volta uma espécie de galeria com mais mesas. A um dos topos do clube sob uma abertura dessa galeria erguia-se um pequeno estrado de madeira; tinha por cima uma única lâmpada vermelha que espalhava o seu difuso clarão sobre um piano vertical e uma bateria. Só três ou quatro mesas estavam ocupadas e numa delas perto do bar, Indy descobriu o vulto solitário debruçado em concentração, a escrever qualquer coisa numa folha de papel. Um vago clarão de luz de uma vela acesa no gargalo de uma garrafa vazia iluminava os cabelos ruivos do homem. Indy dirigiu-se para lá e puxou uma cadeira. - Olá, Jack... - Indy! - disse Shannon sem levantar os olhos do papel. - A modos que vens cedo... - Eu sei. Sentou-se na cadeira e reparou que uma madeixa do despenteado cabelo de Shannon estava perigosamente perto da cham a da vela. O seu antigo companheiro de quarto vivia em Paris desde o ano passado, depois de ter largado o emprego na companhia de transportes em Chicago. E muito embora tivesse mantido o seu acordo com a família, e não tivesse tocado em nenhum clube,


38 todos os dias praticava no seu apartamento, coleccionava dúzias de novos discos de jazz e durante todo esse tempo economizara o seu dinheiro e planeara a sua escapada para Paris. - Queria falar contigo sobre uma coisa... - Dispara! - Shannon ergueu os olhos pela primeira vez. - Em que é que estás a pensar? Contou a Shannon a oferta de Belecamus. E acrescentou: - Só hoje soube isto, e ainda estou a tentar analisar a coisa... Shannon poisou o lápis na mesa: - Deixa-me oferecer-te uma bebida. Parece que precisas disso... Levantou o braço a chamar a atenção do empregado do balcão, e mandou vir dois Pernods. - Diz-me mais coisas dessa mulher; essa professora tua... - Na verdade não há muito a dizer. Não a conheço muito bem... - teve um leve sorriso -, pelo menos... ainda não. Shannon não pareceu achar muita graça: - Se fosse a ti, perguntava por aí, antes de desandar com ela por aí fora. Havia de saber o que é que ela é... Shannon, o analísta. - Ora, deixa-te disso! Então tu pensas que ela teria engendrado tudo isto para regressar à Grécia no meio do período e me levar com ela? - Não sei. Dá-me a impressão que ela está a fazer de ti um anjinho... - Shannon, por amor de Deus! Nós não estamos precisamente na Margem Sul a arranjar um assalto de gangsteres... Shannon olhou friamente para ele, e Indy percebeu que não devia ter dito aquilo. - Desculpa. É que se tu assistisses a uma das suas aulas perceberias que ela não é desse tipo. É séria, e inteligente... - E bonita! - acrescentou Shannom. - Certo? - Também. - Toma cuidado. A mim parece-me suspeito. - Porquê? - Repara: se tu fosses um aluno de arqueologia, eu não pensava duas vezes nisso. Mas não és. Indy encolheu os ombros à observação: - Repara, é uma oportunidade; uma boa oportunidade, e eu estou disposto a perdê-la por causa de umas vagas suspeitas...


Shannon levantou os braços: - Ei! Eu não estou a argumentar contigo; estou apenas a dizer o que eu penso... - Bem sabes como eu me tenho sentido ambivalente acerca da vida de um estudioso. Talvez isto seja aquilo de que tenho andado à procura: uma carreira com um bocadinho de aventura... - Quanto à carreira não sei, mas o que tenho a certeza é que a tua professora é que vai ser a aventura. 39 Raios, não sei. Talvez seja mesmo disso que tu precisas... Quando chegaram as bebidas Indy olhou em volta e ficou espantado com o número de mesas que já estavam ocupadas. Era como se uma multidão de pessoas tivesse ali chegado passando através das paredes. - À Grécia! - brindou Shannon. - Oxalá resulte! Indy beberricou o seu Pernod e depois fez um gesto de cabeça para o papel em frente de Shannon: - Que é que estavas a escrever? - Só uma música... Uma canção. - Uma canção? Para a orquestra? - Claro! - E quem é que vai cantar? A «orquestra», era Shannon na trompete, um pianista de Brooklyn cuja experiência profissional se limitava a exibições em algumas festas de nar mitzvahs e um baterista parisiense que nunca tinha tocado jazz antes de ter ouvido os discos de Shannon. Tanto quanto Indy sabia, nenhum deles cantava. Shannon agitou o papel à luz da vela. - Ando à procura de intérprete. Uma mulher. Tem de ser bem quente, com uma voz grave. Nada de sopranos. Se estivéssemos em Chicago podia ir até aos Jardins de Dreamland e tinha lá muitas para escolher... - Calculo que sim; mas não há assim muitas delas de visita a Paris... - Ah, mas hão-de vir, Indy! - Inclinou-se para a frente com os olhos brilhantes de súbita excitação. - Repara na multidão que aqui se junta só com esta orquestra a fingir - as pessoas estão famintas de jazz nesta cidade. As orquestras não tardarão a aparecer por aí. Montes delas. Ouve lá e dá-me a tua opinião. Isto chama-se Cá no Bairro... Shannon olhou para o papel de testa franzida. E recitou:


Foi em fins de vinte e um Que Chicago quis deixar; E vim solitária e triste Por cima do imenso mar... Sem ver o sol nem a lua Cheguei só, com minha pena, E fiquei por cá no bairro Na margem esquerda do Sena... Mas encontrei tanta gente, Lá da terra, junto a mim Que às vezes até parece Que afinal ainda não vim... 40 Cá no bairro Cá no bairro... Vem ter comigo, esta noite", Cá no bairro! Shannon encolheu os ombros: - Foi até onde consegui chegar, até agora. - Por que é que não dizes "... Que às vezes até parece que ainda não estou em mim...."? - Porque não é verdade. Além disso o número de batidas fica errado. Indy concordou com um gesto. E acrescentou: - Eu gosto. Não sabia que escrevias canções... - Bom, por enquanto são apenas algumas palavras num papel, mas acho que tenho cá dentro algumas canções de amor boazinhas. Mas tenho de arranjar a tal cantora... Indy riu-se: - Ah, ah! O que me parece é que tu andas à procura de alguma coisa mais do que uma cantora... Os dois voltaram-se rapidamente ao ouvirem uma barulheira ao pé da porta. Algumas cadeiras caíram ao chão; as pessoas gritavam. Indy espreitou por cima do ombro: - Que é que se passa? - Parece que estão a discutir por causa da mesa... - A malta do Dada. Já devia calcular... - disse Indy secamente. Tinham ocupado duas mesas de cada lado da porta e agora um dos homens batia na mesa e entoava uma cantilena que soava mais ou menos como "czar... czar... czar..." e um outro


acrescentava: "arf... arf... arf..." - Que é que eles estão a dizer? - Tzara e Arp. Tristan Tzara é um poeta; Arp é um artista. Ouvi dizer que vinham cá os dois esta noite... - Então vais ver uma daquelas noites Dada... - disse Indy pouco entusiasmado. Shannon engoliu o resto da sua bebida: - Na realidade não é malta muito má. Só às vezes um bocado cáusticos para aqueles que eles consideram muito tradicionalistas... - Para toda a gente que entre por aquela porta! - corrigiu Indy. - A mim não me agradam nada... - Eles estão a abrir uma fenda, Indy... Precisamos de gente como esta para nos acordar, às vezes... - Concordo; mas eles afinal estão tão dependentes das tradições como quaisquer outros. Talvez mais ainda... - Como é que podes dizer uma coisa dessas? 41 - Pois onde é que eles estariam sem tradições, Jack? Se não houvesse tradições não havia qualquer base para a arte não tradicional... Shannon riu-se e abanou a cabeça: - É, acho que deve ser isso. Mas como eu disse, precisamos de gente que nos aponte a forma de quebrarmos os velhos moldes. Se não fizermos qualquer coisa diferente muito depressa, vamos estoirar numa outra guerra! - Estás a abrir uma brecha, Jack; e não acredito que andes para aí a cuspir em padres e em freiras. E como é que essa forma de conduta nos vai impedir de fazer guerras? - Indy, eles cuspiram nos seus próprios amigos. Foi um acontecimento, como sabes: estavam só vestidos de freiras e padres... Shannon pôs-sE de pé. - Então ficas por aqui? - Só para a primeira parte. - Ouve: estavas a falar a sério a respeito daquilo da Grécia? - Não sei, Jack. Tenho de pensar nisso... Deu uma palmada no ombro de Indy: - Tenho a impressão de que vais... O clube estava apinhado quando a orquestra ia a meio da


primeira parte. Indy esvaziou o seu segundo copo de Pernod mesmo na altura em que Shannon estava a acabar o solo. A bebida verde e licorosa começava a produzir os seus efeitos e apeteceu-lhe andar. Deteve-se um momento a decidir se iria até ao bar buscar mais uma bebida ou devia sair já. Vestiu o casaco de cabedal e procurou o chapéu. Espreitou por debaixo da mesa e nas outras cadeiras. Por fim levantou-se e levou a mão à cabeça, reparando que afinal já o tinha posto. Estava na altura de sair. Pôs-se em pé e olhou para o estrado. Shannon estava a palrar qualquer coisa sobre a canção seguinte. - A primeira vez que ouvi esta melodia foi num sítio chamado Dreamland, na Cidade do Vento - disse quando Indy ia a abrir caminho por entre as mesas. - É uma música da orquestra de Feddie Keppard; mas o Kep não grava esta música: diz que tem medo que lhe roubem as melodias. E tinha razão, porque eu lembrei-me desta. É mais ou menos assim... Quando começou a canção e Indy se dirigia para a porta, os dadaístas miraram-no de alto a baixo. - Ei! Onde é que arranjaste esse casaco? - perguntou um deles. - Vais para alguma missão de bombardeamento? Todos os que estavam nas duas mesas começaram a cantarolar: "Arp, Arp. p, p..." "parecia um bando de focas", penzou Indy. "Um grupo catita..." 42 - Tu tens alguma coisa contra os nossos irmãos alemães? gritou outro direito à cara de Indy. - Guarda lá isso para uma velhinha ou para uma freira! ripustou ele, continuando a andar. Quando já ia a chegar, bateu-lhe qualquer coisa nas costas; Sentiu álcoól a molhar-Lhe o pescoço. Parou e voltou-se. - Essa foi para a mãe do barão Vermelho, rapaz! - gritou um fulano de óculos na mesa à sua esquerda. - Tzara, Tzara, Tzara, Tzara! - gritou a multidão em cadência. Indy dirigiu-se ao homem, tirou-lhe a cadeira de baixo e depois pegou na borda da mesa e pô-la em pé sobre um dos lados. As bebidas caíram ao chão; a garrafa de vinho com a vela em cima, estilhaçou-se. A chama tremeluziu por momentos e apagou-se.


Subitamente a música parou e toda a gente no clube se virou para ver o que se passava. Por momentos ninguém se moveu ou disse uma palavra, e então uma poderosa voz ressoou vinda do estrado: - Aquele é o meu amigo Indiana Jones, que veio de Chicago! - disse Shannon. - Uma noite ele também voltou uma mesa na Margem Sul, mas isso era a sua própria mesa: acho que estava à procura do chapéu... - Que parvalhão! - disse alguém. - Ei! Faz isso à nossa mesa, pá. Indy começou a recuar para a porta, mas Shannon não tinha ainda acabado: - E noutra altura - e esta história é verdadeira! - ele enforcou George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos, e três dos seus amigos em candeeiros da Universidade de Chicago, imaginem só! Um gajo verdadeiramente tradicional! Bom, ele lá tinha as suas razões. Mas tenham cuidado com ele no próximo aniversário da tomada da Bastilha... Indy sorriu, levou dois dedos ao chapéu em direcção ao estrado e saiu da Jungle. Enquanto ia descendo a rua sentiu que a humidade no pescoço e no cabelo lhe causava arrepios, mas ignorou-o. Fora unicamente culpa sua. Porque é que tinha deixado que aqueles filhos da mãe tirassem partido dele? Podia muito bem tê-los sim plesmente ignorado e saído. Em vez disso tinha entrado nojogo deles, e eles tinham conseguido precisamente aquilo que queriam: uma reacção... Vagueou sem destino pelo Bairro Latino com os seus pensamentos a saltitarem dos dadaístas para a decisão que tinha de tomar. Talvez fosse de facto a altura para deixar Paris. Precisava de uma mudança. Na realidade, precisava fosse do que fosse. Passou por um teatro con um terraço envidraçado a anunciar várias aventuras de «Os Perigos de Paulina». Afrouxou o pásso, 43 e olhou para o cartaz na montra principal que mostrava uma loura suspensa de um precipício pelas pontas dos dedos. Sorriu. Crescera lá na terra a ver aqueles filmes. A Pauline nunca falhava; metia-se sempre nos piores sarilhos. Quando não estava pendurada num avião ou amarrada adiante de uma locomotiva a avançar a toda a velocidade, ficava numa armadilha de um fosso de víboras, ou a afundar-se em areias movediças. Ou amarrada por correntes numa masmorra.


Olhou para as outras montras que anunciavam as próximas atracções: O Raio da Morte, O Quarto Envenenado e os Cristais de Sangue. Quando aqueles filmes chegassem já ele teria partido. Continuou a andar; agora já sabia que se ia embora. Andou assim à deriva por mais de uma hora e por fim voltou a encontrar-se em Montparnasse, à porta de um salão de dança vizinho. Sabia que tinha parado ali, porque aquele era o bal musette favorito de Madelaine, e um dos primeiros a mudar-se do bairro do Luxemburgo. Daí a pouco tempo, sem sombra de dúvida todos eles estariam no Bairro Latino. Os hábitos populares, parecia, seguiam sempre os artistas alguns anos depois, e a malta boémia estava bem arraigada ali, tal como os impressionistas do século passado se tinham fixado no bairro de Montparnasse. Lá dentro os dançarinos martelavam o fox-trot ao som de um acordeão e de um violino. A frequência era jovem e bem comportada em comparação com a da Jungle ou de qualquer das outras boites. Quando estavam na pista de dança, os homens nunca falavam sequer com as mulheres a quem pediam para dançar; era considerado incorrecto. Sob certos aspectos as coisas não pareciam ter mudado muito desde os tempos do minueto. - Indy, há anos que não te vejo! Como estás? - disse Madelaine na sua voz fina e esganiçada. Ele voltou-se e ela plantou-lhe um ligeiro beijo na cara. Estava vibrante e de olhos brilhantes como sempre. O seu cabelo curto e encaracolado emoldurava-lhe o rosto marcadamente escultural, dando-Lhe um toque de suavidade. - Eu estou bem. E tu? - Amaldiçoou-se intimamente pelo facto de não a ter visto primeiro. Na realidade não a esperava ver e não tinha qualquer interesse em falar com ela; mas agora já não podia evitá-lo. - Estou maravilhosa, e está uma noite adorável! - inclinou a cabeça a ouvir melhor a música nova que agora começava. Queres dançar? Podemos fazer desta uma java! Passou a mão por debaixo do braço dele e agarrou-lhe os dedos. Deu um par de passos e todo o seu corpo ondulou à frente dele. - Não, obrigado; hoje não estou inclinado para dançar... Madelaine era da mesma exuberância de sempre, a rainha da festa e agia como se nada tivesse sucedido entre eles. 44


- Tu não tens graça nenhuma, Indy! - amuou ela. - Vou para a Grécia! - deixou ele escapar, como se a sua iminente viagem o tornasse mais atraente para ela, mais digno da sua atenção. - O quê? Grécia? Que esplêndido! Não me levas contigo? Gostava imenso de conhecer a Grécia! "Que curta memória..." pensou ele. E em voz alta: - Parece-me que me recordo de teres dito que não me querias tornar a ver porque achavas que estávamos a ficar muito sérios; querias estar livre, parece-me que foi como tu disseste... - E foi; e estou livre! Não precisamos de nos casar para ir à Grécia, pois não? - É uma expedição arqueológica a Delfos. Vou trabalhar e não posso levar ninguém comigo... - Ah, então tu precisas de estar livre! Indy sorriu: - Isso mesmo... - Ah, Madelaine, estás aqui! - exclamou um homem, aproximando-se deles. Olhou para Indy: - Jones, que surpresa! Abandonaste as línguas mortas esta noite? - e olhando para Madelaine outra vez: - Vamos dançar, amor? Indy conhecia o simpático e jovem inglês; era Brent, um dos conhecidos de Madelaine. Tal como ela, também ele parecia não fazer mais nada senão de salão de baile em salão de baile, de café em café, sempre com o mesmo grupo. E havia sempre mais como eles no Bairro Latino em cada dia que passava. Se tivesse que escolher entre passar uma noite com Brent e os do seu grupo ou ser insultado e irritado pelos dadaístas, Indy teria bastante dificuldade em escolher. - Brent, imagina! Indy vai para a Grécia, para um sítio chamado Delfos, e não me leva com ele! A sua voz ainda se esganiçara mais. Brent encolheu os ombros: - Eu levo-te à Grécia em qualquer altura que tu quiseres, querida! Paris está a ficar horrivelmente maçador. Mas agora vamos dançar. Tenho as pernas a saltar sozinhas... E Madelaine foi arrastada para a pista de dança. Ainda se voltou uma vez, disse adeus com um sorriso e desapareceu na multidão. Indy sentiu-se abatido. Por que é que não tinha deixado o passado em paz? Agora, mais do que nunca, estava ansioso por avançar para o futuro. - Adeus, Madelaine! - disse sem pena nem desgosto. Voltou-se e foi-se embora.


45 CAPÍTULO V ENCONTROS Era quase meio-dia quando Indy enfiou os téniz e o casaco. Habitualmente aos sábados agarrava num livro e ia até à esquina para almoçar nos Deux Magots. Hoje, contudo, ia dar um passeio até ao Le Dôme, o café onde Dorian Belecamus tinha sugerido que se encontrassem. Ela iria responder-lhe a todas as perguntas e ele iria tomar a sua decisão. Parecia tudo muito simples; mas fosse lá porque fosse, Indy tinha a sensação de que aquilo não iria ser assim tão simples como parecia. Pegou no chapéu que estava num cabide da parede. Debaixo dele estava um chicote enrolado, a única coisa mais ou menos decorativa no seu «cortiço» de duas divisões. O apartamento ficava por cima de uma padaria na Rua Bonaparte, a poucos quarteirões da Sorbonne. Uma das divisões era uma minicozinha com uma geladeira, um fogão de gás e um armário. Na outra havia um colchão com uma caixa de molas no chão, uma mesa de madeira com duas cadeiras e uma estante baixa pejada de livros por todos os lados. Havia dois anos que vivia naquele apartamento e aquilo tinha ainda o mesmo aspecto que tinha quando ele ali chegara. Encheu o peito de ar ao descer as escadas, mas o tentador cheiro do pão fresco da padaria mal se notava. Normalmente, quando saía para as aulas o cheiro era tão intenso que acabava por se deter aí: por momentos a comer um ou dois croissants. Naquela manhã, contudo, tinha ficado a dormir até tarde, depois de ter ficado acordado até perto das três, a acabar uma recente novela chamada Ulysses. Quando finalmente fechara o livro, que tinha setecentas e trinta páginas, e acabara por adormecer, sonhara com a Madelaine e com a Belecamus, mas tanto uma como a outra estavam em Dublin e, o que não era para admirar, tinham as mesmas artimanhas e as mesmas preocupações da Molly Bloom de James Joyce. Enquanto se dirigia para Montparnasse, os seus pensamentos tornaram a voltar-se para a decisão que teria de tomar nas próximas horas. A noite passada julgava que já se tinha


decidido, mas agora, à luz do dia, já não estava tão certo disso. 46 Claro que a Grécia era uma oportunidade. Mas seria uma coisa prática? É que muito embora Lhe fosse creditado o tempo para o curso de arqueologia, ainda teria de voltar a completar os seus outros cursos. De certo modo iria ficar prejudicado... Além disso, qual era a finalidade daquilo? Teria ele realmente intEresse em seguir uma carreira de arqueologia? Ou estaria apenas interessado em Dorian Belecamus? A verdade é que ele estava interessado nas duas coisas, mas a falar verdade, duvidava que a longo prazo, uma e outra fossem verdadeiramente a sua meta. Tinhajá feito dois anos de formatura em linguística. Quantos mais seriam precisos para se diplomar como arqueólogo? Na realidade não fazia sentido. Quando chegou ao Le Dôme passou os olhos pela esplanada. Apesar do tempo bastante fresco de Outono, algumas das mesas estavam ocupadas, provavelmente por turistas que tinham ouvido dizer que os franceses comiam sempre nas esplanadas. E para os satisfazer havia brilhantes carvões a arder num enorme braseiro a aquecer o ar, pelo menos num dos cantos. Para si os cafés ao ar livre eram muito bons mas era quando o tempo estava agradável. Entrou no café e olhou para as mesas. Tinha chegado uns minutos mais cedo, e ao que parecia, chegara antes da Belecamus. Os olhos fixaram-se num homem com casaca aos quadrados que estava sentado sozinho a uma mesa. Tinha a seu lado um livro, e na mão um lápis, sobre um bloco de papel. Pareceu-lhe de certo modo familiar, e a verdade é que agora o homem olhava intensamente para Indy. Cruzou o olhar para ele, desviou a vista e depois voltou a olhar para lá. O homem tinha-se levantado da mesa e dirigia-se a ele, abrindo caminho por entre as mesas cheias de gente. Quem seria? Algum escritor que ele tinha conhEcido? Ou talvez alguém simplesmente à espera de um papalvo que lhe pagasse uma bebida. Se assim era vinha bater a má porta. - Henry Jones, meu Deus! Como estás? Indy olhou para o homem por momentos, até que o rosto se lhe encaixou na memória: - Prof. Conrad! O que é que está aqui a fazer? Conrad riu-se: - Anda daí, vamos sentar-nos. É uma longa história...


Indy tornou a dar uma vista de olhos à procura da Belecamus e depois acompanhou Conrad até à mesa: - Vim aqui para me encontrar com uma pessoa para almoçar, mas ela ainda não chegou... - Espera aqui até que ela chegue. Ou melhor: porque é que vocês dois não me fazem companhia? 47 Quando se sentaram o empregado apareceu e mandaram vir café com leite. O seu antigo professor de história não tinha mudado muito em dois anos. O cabelo cor de areia tinha o mesmo penteado, os olhos azuis continuavam vivos e brilhantes e ainda tinha o mesmo bigode a cair aos cantos dos lábios. Parecia agora, no entanto, menos formal; mais solto e relaxado, como se tivesse encontrado em Paris qualquer coisa que nos Estados Unidos Lhe faltara. - Que bom que é encontrá-lo! - disse Indy. - Foi uma surpresa... - Sabes... Tenho pensado muitas vezes em ti, depois da tua formatura... Considerada a situação na última vez que ele se encontrara com Conrad, Indy ficou sem saber se aquilo seria um cumprimento ou não. Disse: - Então por que é que não está a dar aulas? - O Mulhouse recusou-me a entrada no quadro, e no Verão passado não me renovaram o contrato. - Mas porquê? O senhor é um óptimo professor; talvez o melhor que eu tive na faculdade... - Obrigado, Jones... - passou os dedos pelo cabelo. Mulhouse nunca me deu qualquer justificação... Encolheu os ombros e continuou: - Não tinha qualquer obrigação de o fazer. Mas o cerne da questão era que queria ver-me fora dali desde aquele fiasco do Dia dos Pais Fundadores. Não era de admirar que o homem tivesse muitas vezes pensado nele. Disse: - Desculpe! Ao que parece a minha estúpida garotice teve mais repercussões do que eu tinha imaginado... - Não foi culpa tua. - Sorriu e inclinou-se para diante: Desde essa altura semprefiz questão de mencionar aquela tua maneira muito especial de celebrar o Dia, nas minhas aulas. Contei sempre a história de forma jocosa, e ao que parece o Mulhouse teve conhecimento disso... - Então e há quanto tempo está por aqui?


- Apenas há alguns dias. Estou a escrever uma novela que se passa em Paris no tempo da Revolução. - Sim, aqui é a cidade dos novelistas. Parece que sempre há, pelo menos, um ou dois em cada café... - Eu sei. Ainda outro dia vi o Booth Tarkington. Falámos um bocado. - Bateu ao de leve com o dedo no livro que estava sobre a mesa: - Depois disso tive de ir à procura de um dos seus livros. Seventeen. Já o leste? - Há alguns anos... - Era sobre um rapaz americano em confronto com a adolescência; era tudo o que se lembrava, 48 além do facto do rapaz ter uma irmã mais nova que comia pão com molho de maçã. Acrescentou: - Também vi cá o James Joyce. - Ah, viste? - Conrad olhou em redor como se esperasse ver logo ali o autor irlandês. Depois o seu olhar foi atraído por alguém que se aproximava da mesa. - Henry Jones: cá estás... Indy voltou-se e viu Dorian Belecamus a dirigir-se para a mesa. Trazia um vestido azul e um turbante branco. Tal como Conrad, parecia ter saído do seu normal aspecto professoral. Os dois homens levantaram-se e Indy apresentou os dois professores. Acrescentou: - E vocês os dois podem chamar-me Indy, em vez de Henry; Henry é o nome do meu pai... Belecamus pareceu aborrecida. Olhou em torno de si como que a procurar outra mesa. - Parece que isto está cheio! - disse Conrad com uma certa frieza, a reagir àquela espécie de evidente falta de à vontade. - Gostaria que me fizesse companhia a almoçar... - Oh, eu não queria incomodar... - respondeu ela. - Não incomoda nada. Vendo que não havia outra alternativa, ela anuiu e sentou-se. Indy tomou a iniciativa da conversa a falar do curso de história de Conrad, e dos motivos pelos quais tinha ficado sem emprego. A princípio Belecamus parecia indiferente, mas quando Conrad começou a pormenorizar o episódio do enforcamento dos heróis, o seu interesse aumentou. Olhou por diversas vezes para Indy e fez uma porção de perguntas definitivamente objectivas acerca das reacções na universidade, e da forma como ele reagira a elas. Quando o empregado se aproximou da mesa, tanto Indy como Belecamus mandaram vir ostras frescas com pommes frites e


Conrad mandou vir outro café com leite. - Na Grécia, nem sequer haveria discussão sobre o assunto... - disse Belecamus quando o empregado se afastou. - Se enforcasse a efígie de qualquer dos líderes, iria imediatamente para a cadeia. Não lhe passaram pela cabeça quaisquer possíveis repercussões? - Quando estava a fazer aquilo, não. Só depois... Ela abanou a cabeça: - Então por que é que o fez? - Acho que queria marcar uma atitude... - Mas também sentiu com isso um certo frémito, não foi? Ele encolheu os ombros: - Acho que sim... - Na realidade nunca tinha verdadeiramente posto isso naqueles termos, mas era exactamente o que tinha acontecido. 49 Ela riu-se. Era uma gargalhada cheia, profunda, deliciosa. Concluiu: - O senhor tem um traço de irrequietação em si. Uma espécie de rebeldia... Encostou-se para trás na cadeira. - Indy... - disse ela. A palavra pareceu desenrolar-se-lhe da boca como uma expressão de música. - Indy... Nunca ouvi tal nome; mas... gosto dele. E... pode chamar-me Dorian! A mão dela tocou na sua quando se inclinou de novo para a frente; um toque breve e deliberado que ele sentiu em todo o seu corpo como um suave choque eléctrico. Não foi só o toque em si. Foi a revelação de que a Lady Gelo não era afinal tão impenetrável como ele tinha pensado... Conrad olhava com curiosidade para os dois, mas não fez qualquer comentário. Indy nada lhe tinha dito acerca da iminente viagem à Grécia, e Conrad estava sem dúvida espantado sem compreender o relacionamento que poderia haver entre eles. Falou-lhe por isso na oferta que ela lhe fizera. - Delfos. Parece fascinante... - disse, pensativamente. - E vais aceitar a oferta da professora? - Na realidade ainda não me decidi... - Por que não? - perguntou Belecamus. - A minha especialidade é linguística; não a arqueologia. Vou perder um semestre; mas... não sei. Não tenho bem a certeza do que quero fazer... Ela desviou o olhar e ficou a olhar para a porta, como se desejasse não estar já ali.


- Vocês, americanos! - disse com um suspiro. - São aqui uma espécie de colónia. Escritores, artistas, estudantes. Têm muita sorte. Podem estar a viver num país estrangeiro, e ao mesmo tempo sentirem-se perfeitamente como se estivessem em casa, entre compatriotas. E apesar disso o que fazem, a maior parte de vocês..., é queixarem-se. São... são um grupo de infelizes, perdidos num mar de cultura... Não havia rancor na sua voz; estava apenas a mencionar as coisas, tal como elas se lhe afiguravam. Indy ia começar a discordar daquela opinião, mas nessa altura chegou o empregado com a comida. Comeram em silêncio durante algum tempo. Um silêncio que não era totalmente confortável. Por fim Belecamus meteu uma ostra na boca e apontando o garfo a Indy disse: - Afinal disse-me que estava interessado em arqueologia, e o tinha sempre estado desde quase a sua infância. Então por que é que está a estudar linguística? - O meu pai ensinou-me línguas muito cedo. Línguas e mitos. 50 Havia semanas em que só me falava em francês; outras semanas era só em espanhol ou em alemão. Estudei latim uma hora por dia, depois da escola, quando tinha 9 anos. Quando tinha 10 anos já conhecia a mitologia grega. Ele sempre me disse que estava a preparar a minha carreira de estudioso; de estudioso em linguística. Ela suspirou e abanou a cabeça. Perguntou: - Pronto, isso foi o seu pai. E o senhor? O que é que tinha interesse em fazer? A maneira como ela pôs aquilo aborreceu-o, mas apenas por ser um reflexo dos seus próprios sentimentos. - Qualquer coisa de excitante. Acho que não me agrada lá muito a ideia de passar o resto da minha vida em bibliotecas a embrenhar-me em manuscritos de línguas mortas... - Então por que é que não mudas para a arqueologia? perguntou Conrad. - Ficavas com mais variedades... - Também não me agrada ficar a ser um estudante a vida inteira! Belecamus afastou o prato para o lado: - Olhe, In dy: se a placa que foi descoberta em Delfos for importante, e eu tenho uma sensação que diz que é, vai poder servir-se dela como base para a sua tese de doutoramento. Com o seu currículo eu diria que pode facilmente chegar ao


doutoramento em dois anos. Um dia de estudo intensivo, e depois a sua tese, e pronto: chega a arqueólogo. E, se não resultar, pode voltar para a linguística... Esta última parte não lhe agradava lá muito. Se se decidisse pela arqueologia, seria por aí que ficava; não haveria regressos. - E se a placa não for o qe pensa? - Nesse caso escolhe outra coisa qualquer para servir como tese! - respondeu ela com um certo laivo de secura. - Não te preocupes, Indy! - disse Conrad. - Se realmente o quiseres, encontras com certeza aquilo de que precisas... Decidiu-se: - Muito bem: Vamos nisso! Aí estava. Rápido. Simples. Belecamus sorriu. - Óptimo. Logo calculei que aceitaria. Saímos para Atenas amanhã à tarde. esteja no meu gabinete pela uma hora da tarde. Agora tenho de me ir embora... Estendeu a mão a Conrad: - Prazer em o conhecer. E boa sorte com a sua escrita... Momentos depois a porta do café fechou-se sobre ela. Indy olhou para Conrad: - Que é que acha? - Acho que a arqueologia é uma coisa de que vais gostar; e vais sair-te disso muito bem... - E sobre a Prof.a Belecamus? 51 Conrad cruzou e descruzou os dedos. A resposta foi lenta e calculada: - Não sei o que é que há nela Indy, mas eu teria muito cuidado. Tenho a impressão acerca dela que... bom: está a dizer uma coisa e a pensar outra... - Acha que eu deva recusar a oferta dela? - Não foi isso que eu disse. É simplesmente que me parece haver aí qualquer coisa mais do que aquilo que ela diz... 52

CAPÍTULO VI


SOBRE OS CARRIS O comboio ia mastigando quilómetros, a rolar pelos campos abertos do Sul de Itália. Dorian Belecamus olhava pela janela para as colinas sombreadas que se recortavam no horizonte arroxeado. Os últimos raios de luz davam-Lhe um toque de dourado, criando-lhes uma espécie de mágica. "Mas não era a magia da Grécia", pensou ela. A sua terra natal era uma paisagem de dramáticos contrastes: casas caiadas de intensobranco a pontilhar as margens de um mar tão azul que quase fazia doer a alma; montanhas da cor de uvas maduras e céus queimados pelo sol. "Em breve", pensou. O exílio que a si própria impusera, estava quase a acabar. De manhã chegariam a Brindisi, onde tomariam o barco para o porto de Pireu. Daí seguiriam por terra até Atenas, e ela estaria em casa. Afastou o olhar dajanela, levantou-se, e ligou a lâmpada de leitura do seu lado do compartimento particular. No outro lado Jones estava meio recostado sobre o seu lado esquerdo, com o chapéu descaído sobre os olhos. Ela sorriu ao olhar para ele. "Não havia qualquer dúvida", pensou. Ia-lhe ser muito útil. Era precisamente aquilo de que eles precisavam; rápido e inteligente, mas não tão rápido nem tão inteligente que representasse perigo para eles. O sismo era a desculpa perfeita. Ela e Jones trabalhariam nas ruínas até se poderem concluir os arranjos, e preparar a armadilha. Ouviu qualquer coisa, uma espécie de estalido: a porta movera-se. Ela não a tinha fechado completamente e pensou que aquilo pudesse ter sido causado pela deslocação de ar no corredor à passagem de alguém. Viu, no entanto, como que o delinear de uma sombra pela greta da porta e percebeu que estava alguém do lado de fora. Aguardou à espera que batessem e que a voz do condutor a dizer-lhe que o jantar ia ser servido. Como o não ouvisse, perguntou: - Quem está aí? Deu dois passos para a porta e abriu-a: não estava ali ninguém. Espreitou ao longo do corredor e viu um homem vestido de preto a atravessar a porta para a outra carruagem. Olhou para dentro, para Jones que ainda estava a dormir, 53


e logo a seguir correu atrás do homem de negro. A carruagem seguinte era de segunda classe: filas e filas de passageiros ou liam ou dormiam. Não havia ninguém no corredor. O homem devia ter-se sentado. Avançou olhando para todos os passageiros, um a um. Viu um homem vestido de preto a falar baixinho a uma rapariga. Tinha um jornal aberto nos joelhos e parecia pouco provável que tivesse acabado de se sentar. Duas filas mais adiante viu outro homem vestido de preto. Estava a dormir. Ou estaria a fingir que dormia? Era um homem de idade: a sua respiração era profunda e regular; tinha a boca um pouco aberta e no lábio inferior brilhava uma gota de saliva. Continuou pelo corredor e contou quatro homens vestidos de preto. Era inútil; que poderia dizer se interrogasse cada um deles? Podia perguntar por que é que tinham estado a espreitar-lhe o compartimento, eles negariam e pronto: seria tudo. Nesse momento viu a parte de cima da cabeça de um homem louro, com o rosto enterrado atrás de um exemplar do Punch. Tinha camisa branca e gravata. Era Farnsworth, claro. Devia ter calculado. De via ter despido o sobretudo preto, mas o estúpido desm ascarara-se com a revista inglesa. Voltou-se rapidamente e afastou-se da carruagem. Farnsworth tinha andado a segui-la na Universidade durante todo o mês anterior. Depois de ter reparado nisso, e ter tido a certeza de que ele a andava a vigiar, contratara um investigador para descobrir quem ele era. Quando soube o seu nome, não precisou de saber mais nada. Em silêncio tornou a entrar no seu compartimento. Depois de se certificar que Jones continuava a dormir, tornou a instalar-se no seu lugar e abriu um livro no colo. Olhou para ele sem o ler; os seus pensamentos fluíram de Farnsworth para os dois homens mais importantes na sua vida, o seu pai e Alex Mandraki. As coisas que ela tinha feito por Alex! Não o amava, mas sentia-se presa a ele. Sabia, contudo, que fosse o que fosse que fizesse por ele, fazia-o por seu pai. Afinal fora ele quem lhe apresentara Alex, e ofuturo docoronel de meia-idade estava tão intimamente ligado ao do seu pai como o seu próprio. Aquilo que seu pai não sabia era que ela e Alex estavam a planear lançar-se nesse futuro. E por que não? Não fazia qualquer sentido ficar a aguardar o inevitável... Mas primeiro de tudo tinha de tratar de Farnsworth. Ele não passava de um incidente trivial num esquema muito mais vasto, mas tinha de ser tratado rápida e eficientemente. E o comboio era o sítio ideal para isso. Afinal de contas ela já o tinha enfrentado uma vez antes e tinha-lhe dito para a deixar em


paz. Ele, no entanto, decidira ignorar o seu aviso, 54 e ela agora já não podia suportar por mais tempo aquela contrariedade. Se tinha que agir era agora antes de regressar à Grécia; antes de Alex descobrir. Afinal de contas o problema era dela, não dele. Procurou no compartimento de bagagem por cima do seu lugar e desatou um saco de lona de pôr ao ombro e procurou qualquer coisa entre as espátulas, colheres de pedreiro e pincéis, as ferramentas do seu ofício. Quando os seus dedos sentiram o suave e frio aço do seu espigão favorito, sorriu. Sabia bem senti-lo na mão outra vez. Tirou-o rapidamente e meteu-o na sua bolsa. Jones estava a mexer-se no sono, quase sem dar por isso e ela voltou a sentar-se. Encostou o pé à barriga da perna dele, levantou-a e depois deixou-a cair. Ele levantou a cabeça de repente. Olhou em redor meio confuso, ainda ensonado, e depois viu-a e sorriu-se. - Acho que me deixei ir. Que horas são? - Quase horas de jantar. Está a dormir há mais de uma hora. Vamos tomar um aperitivo? Indy pousou a mão no monte de livros a seu lado. Respondeu: - Estava a pensar trabalhar um pouco mais antes do jantar, mas acho que pode ficar para depois... Tinha trazido consigo uma pequena biblioteca sobre arqueologia grega. A sua excitação pelas perspectivas de trabalhar em Delfos era mais ou menos travada pela sua insegurança quanto à sua própria capacidade. E isso era uma vantagem que ela contava utilizar para seu próprio benefício. Quando chegaram à carruagem-restaurante, encontraram uma mesa livre. Jones mandou vir uma cerveja e Dorian que normalmente bebia muito pouco pediu um francês sessenta e cinco. Ia precisar daquilo depois. - Que espécie de bebida é essa? - perguntou Jones. - Champanhe e Vodka. Tem o nome de um canhão francês que foi usado na guerra... - Deve dar cá um coice... Ela riu-se: - E dá mesmo... Ficou a rufar ao de leve com os dedos na mesa estudando-o disfarçadamente. Ele parecia nervoso, como se tivesse qualquer coisa para dizer, mas não tivesse ainda a certeza por onde ou


como começar. - Dr.a Belecamus...? Ela inclinou-se ligeiramente para diante: - Por favor, não me chame doutora... - Dorian! Pronunciou o nome como se estivesse a experimentar-lhe o som, a saborear-lhe o gosto. Mas não acrescentou mais nada. 55 Ela teve a impressão que ele lhe queria perguntar por que razão é que ela o tinha escolhido para a acompanhar, porque ele não acreditara na explicação que ela dera, de ele ser o seu melhor aluno. Havia muitos alunos noutros cursos com muito mais experiência académica e de campo, e ambos o sabiam. - Continue: o que é? - Nada... - Ouça, Indy, nós vamos trabalhar juntos durante bastante tempo; talvez semanas. Por isso é muito importante que sejamos francos um com o outro... - Francos. Isso... - Repetiu as palavras com a lenta e medida cadência de quem não conhece bem a língua. Aventurouse: - Eu acho que estava a pensar o que é que, exactamente, quer que eu faça em Delfos... Dorian sorriu e estendendo o braço sobre a mesa, tocou-lhe na mão: - Vai haver muito a fazer; não se preocupe com isso. Vai trabalhar e vai aprender. Vai ser uma valiosa experiência... Indy anuiu. Mas mesmo assim continuava pouco à vontade. Aquele seu gesto, claro, tinha surpreendido, como ela soubera que surpreenderia. "Ele ia sem sombra de dúvida ser muito fácil", pensou ela. "Sem qualquer dificuldade." Submisso como um gatinho. Tinha feito uma excelente escolha. - Que eu queria dizer é que eu sei que não tenho experiência, mas também não quero só fazer serviços de servente... - continuou ele. - Quero dizer: gostaria de ter a oportunidade de fazer qualquer coisa de relevo... Aí estava. Ele queria estar no centro das coisas. Dorian passou lentamente os dedos pelas costas da mão dele. Indy engoliu em seco e mudou de posição na cadeira. Sentiu na face um leve rubor. Ficou a olhar para a mão dela. Ouviu-a dizer: - Terás a tua oportunidade... de mais maneiras do que pensas.


Afastou os dedos da mão dele. E continuou: - Na realidade, quero que seja o primeiro a examinar a inscrição na placa quando a retirarmos lá de baixo, da fenda. Pode pôr a funcionar os seus conhecimentos do grego antigo... - Suponha que não seja grego antigo, mas sim Linear B... Dorian riu-se e abanou a cabeça. Linear B era a designação das inscrições nas placas encontradas durante as escavações em Knossos, Creta, em 1899. Ninguém fora ainda capaz de decifrar esse código. - Indy, tem andado a ler muito! As possibilidades de se encontrar uma placa escrita em Linear B em Delfos, são muitíssimo remotas. Não se preocupe com isso... 56 Acabou a sua bebida num a série de tragos, e ficou a olhar a surpresa que se estampava no rosto de Jones. Riu-se suavemente: - Que é que há de mal? Pensava que eu não bebia, que nunca relaxava nem me divertia? Jones beberricou um pouco de cerveja: - Às vezes não tenho bem a certeza do que penso a seu respeito... Ela sorriu-Lhe em resposta e olhou-o nos olhos: - Pois bem, eu vou dizer-lhe o que penso a seu respeito. O senhor tem não só inteligência e potencial, como é também um homem muito interessante. Tenho de admitir que se você fosse um feio brutamontes nunca Lhe teria pedido para vir comigo... A perplexidade que se espelhou no rosto dele, divertiu-a. "Provavelmente nunca ouviu falar assim tão cruamente", pensou. - Então o que pensa de mim? Descalçou um sapato e tocou com o dedo do pé na perna de Indy. - E seja franco! Ele parecia assombrado. Tartamudeou: - Na realidade nunca... encontrei uma mulher assim. Acho que deves fazer parte da revolução das novas mulheres... - Não. Sou uma excepção a elas... Indy parecia mais perplexo do que nunca. Esperava com certeza que ela concordasse com ele e dissesse que agora estavam já nos anos vinte. As mulheres estavam a mudar e já não estavam dispostas a viver espartilhadas, tanto em vestidos como em ideias. Mas ela tinha as suas próprias ideias sobre a revolução. - As mulheres estão a revoltar-se, Indy, mas apenas em


coisas superficiais: fumar cigarros em público e cortar os cabelos. E isso não é nenhuma revolução... - Bom, pelo menos é um começo! - O mal de muitas mulheres, principalmente as da sua idade, é o de se recusarem a tratar com os homens de uma maneira aberta, e intelectualmente. Em vez disso preferem o subterfúgio, a intriga e o sexo. - Acho que na realidade nunca pensei nisso dessa forma... - Pois bem, eu pensei, e compreendo. Muitos homens não estão preparados para tratar com as mulheres em pé de igualdade. Os homens não precisam de se servir de subterfúgios ou de intrigas para conseguirem o que querem das mulheres... Inclinou-se para diante e tocou-lhe com um dedo no peito: - Fazem-no clara e abertamente... - Muitas mulheres estão mesmo a pedir isso. Provocam os homens... Ela desatou a rir: - Vê o que eu disse? As mulheres estão a pedir por isso, portanto..., vale tudo. As mulheres são consideradas o sexo fraco, mas deixe-me dizer-lhe uma coisa:

57 secretamente a maior parte dos homens receia e odeia as mulheres... Ele abanou a cabeça e sorriu: - Eu não. Não tenho medo de mulheres e definitivamente, não as odeio. E aí é que está o problema: eu adoro mulheres... Quando ojantar chegou, Indy estava cheio de esperanças. Apesar dos seus depreciadores comentários a respeito dos homens, tinha a certeza de que Dorian o convidaria nessa noite a ir para a cama dela e não podia deixar de imaginar como seria com ela. Pensou em si a passar as mãos pelos seus longos cabelos negros, tocar-lhe o rosto, os ombros, ler todo aquele maravilhoso corpo como um cego a ler braille. Nunca encontrara ninguém como ela; nunca... - Quer alguma coisa para sobremesa? - perguntou ela, quando acabaram de comer. - Talvez um gelado italiano... - Spumoni, claro! Eu vou procurar o empregado. O serviço é horrivelmente demorado!


- Não, deixe, Dorian! - disse ele, mas a mulher já se tinha levantado e seguia pelo corredor. Voltou-se a olhar para ela e viu-a deter-se e inclinar-se para uma mesa onde estava sentado um homem sozinho. Os seus olhares cruzaram-se por um momento, e qualquer coisa brilhou neles; qualquer coisa que Indy não conseguiu decifrar. O homem depois olhou para o lado, os olhos a saltitar como insectos e os ombros a tremer nervosamente. Teria cerca de 30 anos, cabelos louros e ligeiramente gordo demais. Quando Dorian desapareceu para a carruagem seguinte, o estrangeiro levantou-se e seguiu-a. O olhar de Indy seguiu-o, a ele. Que diabo se passava? Estava tentado a levantar-se e ir atrás deles, mas decidiu não o fazer; não era da sua conta. Poucos minutos depois chegaram dois pratos de gelado. Indy olhou para o conjunto de coloridas bolas no prato que tinha diante de si. Esperou imenso tempo até que as orlas do gelado começassem a derreter. Abriu com a colher e provou. "Por que é que ela se demora tanto? O que é que estarão a fazer?" Olhou por cima do ombro e depois voltou a sua atenção para o prato. Lentamente, colher atrás de colher, acabou de o comer. Quando terminou pousou a colher ao lado. Era a altura de dar uma vista de olhos. levantou-se da cadeira e seguiu rapidamente pelo corredor da carruagem-restaurante. 58 A carruagem seguinte, que era a última do comboio, era um bar. Estava cheio, mas Dorian não estava à vista. Nem tão-pouco o homem que a tinha seguido. Descreveu Dorian ao empregado do bar e perguntou-Lhe se a tinha visto. - Não! - disse o jovem, abanando a cabeça. - Lamento... - Mas eu via-a entrar para aqui; há uns minutos apenas; e não saiu... - Talvez tenha ido lá para fora... Lá para fora? Passou através da multidão de pessoas que ali estavam e abriu a porta. O ar suave do fim da tarde envolveuo, num perfume de campo e de céus de púrpura. Deu uns passos no varandim de ferro e viu Dorian encostada à grade, a fumar um cigarro. Por um ou dois momentos ela pareceu não dar pela sua presença. Estava imóvel e tão adorável como uma estátua de perfil, com o vento a soprar-lhe o cabelo afastando-o do


rosto, um braço cruzado na cintura e apoiada no outro com o cigarro na mão. Nesse momento voltou-se, viu-o e sorriu: - Comeu o seu gelado? "Calma e controlada" pensou ele. E por momentos o gelado trouxe-lhe à memória a Rainha do Gelo. Fez um aceno afirmativo com a cabeça e apontou-Lhe para o cigarro: - Não sabia que fumava... Ela atirou fora o cigarro por cima do gradeamento e pôs as mãos na cintura: - Provavelmente eu faço uma porção de coisas que não sabe... Indy tocou-Lhe o rosto - lentamente beijou-a; um beijo hesítante,lento. A sua boca tinha o sabor de um fruto doce e exótico, de exótico vinho, de tudo exótico. Passou-lhe a mão pelos cabelos soltos, adorando a sua densidade e a sua suavidade e nesse momento ela afastou-se dele, deixando ainda a boca na sua. Murmurou: - O meu gelado está a derreter-se... - Aposto que sim... Seguiu-a através do bar para o salão-restaurante e nessa altura lembrou-se que não tinha tornado a ver o homem louro, e agora a mesa onde ele tinha estado sentado estava vazia. Um acto de desaparecimento, como nas mágicas. Talvez ele tivesse imaginado tudo aquilo. Talvez Dorian se tivesse detido a puxar uma meia e o homem tivesse ficado embaraçado por ter sido apanhado a olhar para ela. Não a tinha seguido: tinha ido à casa de banho. Nesta altura já estaria no seu lugar, na carruagem de passageiros. Claro. Tinha de ser isso. 59

CAPÍTULO VII INTRIGA EM ATENAS O sol descia já no horizonte quando chegaram à Acrópole, e a cidade parecia banhada numa névoa acobreada. Do sítio onde estavam, bem acima de Atenas, os raios oblíquos do sol bronzeavam as magnificentes colunas dóricas do Parténon, e Indy deteve-se deslumbrante a olhá-las.


- Desde criança que sempre pensei que a Grécia era uma lenda... Dorian riu-se: - Parece-me que estou a ouvir os ecos da voz do teu pai... - É. As suas histórias para adormecer eram sobre os feitos de Zeus, Heracles, Poséidon, Hermes e todos os outros: Madusa, as Górgonas, Jasão e os Argonautas. Ouvi tudo a respeito deles... - Na realidade isso dá a ideia de uma infância maravilhosa disse ela, enfiando o braço no dele. "Pois, formidável...", - pensou ele; mas não expressou a sua discordância. Pelo menos, nesta altura não. Inspirou fundo, como se o mágico ar que rodeava aquele bastião pudesse de certo modo reter aquele momento. - Qual é a mais maravilhosa coisa que achas da Acrópole? perguntou ela. Indy ficou por momentos a lembrar-se de tudo quanto lera, mas nada lhe ocorreu e abanou a cabeça. Ela disse: - Para mim, é que ainda exista alguma coisa dela! - E explicou: - Os turcos armazenaram munições num edifício chamado Propileia, e um dia, em 1645, tudo aquilo explodiu. Quarenta e dois anos depois, os venezianos fizeram explodir o Partenon. O único motivo por que ele ainda lá está foi porque no século xix, os arqueólogos o restauraram conforme aquilo que acreditavam ter sido o seu aspecto no século v d.C... - Agora pareces outra vez uma professora... - comentou ele a sorrir, só para lhe mostrar que o não dizia em tom de crítica. - Isto afinal deve ser para ti um lugar de especial... - Na verdade é, mas na realidade o meu lugar favorito em Atenas é a Torre dos Ventos, na Agora Romana, especialmente de madrugada... 60 - Qualquer dia tenho de ir vê-la. - Indy ficou a olhar para a cidade lá em baixo, sob a luz que ia esmorecendo. Disse: - Lugar maravilhoso para se ser arqueólogo: as melhores ruínas logo ali mesmo, no quintal atrás da casa... Esperava que ela se risse, mas ela não o fez. Em vez disso respondeu: - A arqueologia cresceu em torno deste país tal como o fez a civilização europeia... Deixaram as imponentes colunas do Partenon e dirigiram-se para o Erecteu, o único edifício que sobrevivera. Indy olhou para ela:


- Então por que é que ensinas em Paris? Calculo que gostasses mais de estar aqui... - É uma coisa bastante complicada. Tens de compreender que nós, os arqueólogos gregos, somos inclinados a favorecer os aspectos estéticos da ciência. Em vez de nos andarmos a enlamear pelas galerias à procura de fragmentos de vasos, a maioria de nós prefere estudar as grandes obras da antiga escultura. Com efeito, o director de arqueologia das nossas principais universidades é na realidade também presidente da história da escultura... - Sim? E porquê? - É uma forma de compensação, pelo facto de estarmos económica e socialmente atrás dos países que ficaram com a nossa herança. Nós só nos tornámos independentes há noventa anos, como sabes, após quatro séculos de domínio estrangeiro. Assim , centrando-nos nos aspectos estéticos da arqueologia, conseguimos mesmo muito ao de leve elevar a nossa actual cultura. - E tu concordas com essa forma de abordagem? - Não; mas compreendo-a. E ensino em Paris, porque assim é mais fácil uma mais vasta abordagem do campo. Detiveram-se diante do Erecteu e ficaram a olhar para as Cariátides, uma série de virgens de pedra que serviam de pilares à varanda do lado sul do edifício. Os últimos raios de sol dançavam nos rostos das deusas de pedra; atrás delas, riscos de luz e de sombra perpassavam através de péjunto à base de uma das estátuas. - Tu fazes-me lembrar vagamente um outro estudante... disse ela em voz tão baixa que Indy quase julgou que ela estava a falar consigo mesma. - Era de Inglaterra. Quando veio para aqui, não tinha a mais leve ideia da nossa história recente. Sabia que Lord Byron tinha morrido em Missolongui; e era tudo... Calou-se por momentos e Indy ficou à espera que ela continuasse. Por fim disse: - Temos de ir andando... As primeiras luzes começavam a piscar entre os crepúsculos de sombra sobre a cidade. 61 Indy concordou com um aceno, mas a sua atenção foi de novo atraída para o Erecteu. Afirmou a vista, tanto quanto podia, nos recessos interiores da varanda. A luz tinha mudado, o reflexo tinha desaparecido e agora já se via claramente toda a


varanda. E estava ali alguém. Não: duas pessoas. Dois homens, e estavam a espreitá-los. - É estranho... - O quê? - perguntou Dorian. - Estão ali dois fulanos ao pé das Cariátides a observar-nos... Dorian voltou-se subitamente como se ele a tivesse apunhalado nas costas. - Não vejo ninguém... - Agora recuaram. Ela pegou-lhe no braço: - Vamos! Indy não sabia porque era a pressa, mas seguiu-a, de regresso ao Partenon. Logo abaixo dele havia um carreiro que levava à estrada onde os cavalos e os carrinhos esperavam. Em Atenas havia um misto de carruagens e de automóveis, ao passo que em Paris o predomínio era dos automóveis, e os cavalos eram coisa rara. Era como se Atenas não se conseguisse ainda decidir se havia ou não de entrar no século xx. Dorian apertou-Lhe outra vez o braço: - Indy, eles vêm atrás de nós... Ele olhou para trás. Os dois homens dirigiam-se para o Partenon, um deles alguns metros adiante do outro. - Por que é que pensas que vêm atrás de nós? Provavelmente trata-se de um par de turistas... - Torna a olhar! Os homens tinham-se aproximado. Não vinham propriamente a correr, mas não se preocupavam sequer em disfarçar o facto de estarem com muita pressa. - Vamos esperar. O mais provável é que nem sequer estejam preocupados connosco... Dorian pegou-lhe no braço: - Não sejas doido. Corre! Começaram a correr, saltando por cima da escarpa rochosa. Indy sentia-se um pouco ridículo; continuava a duvidar que os homens os viessem a perseguir. Tropeçou e quase arrastou Dorian a cair por cima dele. Sentiu uma dor lancinante no tornozelo. - Raios! - Depressa! - sibilou Dorian. Ele fez uma careta de dor ao levantar-se e coxear atrás dela. As sombras tinham mudado para um tom escuro de púrpura, dificultando ainda mais a vista. Arranharam os braços da densidade agreste dos arbustos ao descerem o carreiro, 62


e o tornozelo de Indy latejava como um surdo grito a cada queda que ele dava. Olhou várias vezes para trás, mas não viu ninguém a persegui-los. As ruínas estavam quase vazias e uma única carruagem esperava ao fundo do carreiro por algum retardatário. Dorian correu para ela, agitando os braços para o cocheiro. O homem calmamente abriu-lhe a porta; Indy atravessou a estrada a correr, mesmo a coxear. - O senhor está bem? - perguntou o cocheiro. - Óptimo. Vamos! Quando a carruagem arrancou, Indy olhou pela janela para o escuro da noite que caía. Ainda viu os homens no momento em que chegavam à estrada. Pararam e ficaram a olhar para a carruagem que se afastava. - Provavelmente vinham a ver se ainda conseguiam apanhar o último trem, e não a nós... - disse. Ela não respondeu. Acasa de Dorian ficava numa colina de um bairro velho chamado Monastiraki, de onde a qualquer hora do dia se podia olhar e ver a Acrópole a pairar nos céus como um templo de deuses. A casa era de aspecto esquisito com pilastras aos cantos, um tecto de telhas debruado com deusas de terra-cota, e um pequeno pátio protegido da rua por um gradeamento de ferro fundido e cheio de vegetação. "Nada mal...", pensou Indy Quando entraram em casa e lhe cheirou ao jantar que estava a fazer. Ela chegara a casa ao fim de dois anos e era como se nunca de lá tivesse saído. Tinha ali outra vida, e era como se nunca a tivesse abandonado. Não só ojantar estava a ser feito pela governanta, como também a aguardava um banho de espuma. Enquanto tomava banho, Indy sentou-se na cama a banhar o tornozelo inchado num balde de água fria. - Olá, Indy! - gritou Dorian. Ele olhou para a porta da casa de banho: - Sim? - Traz o balde de água para aqui, para podermos conversar! "Boa ideia...", pensou ele. Na verdade queria falar-lhe, e... porque não quando ela estava no banho? Teve um sorriso atrevido a encrespar-Lhe os lábios ao tirar o pé do balde. "Como é que eu não pensei nisso antes?" Pousou o balde ao lado da banheira e sentou-se numa cadeira por cima de uma toalha. No chão, ao lado da banheira estavam


uma garrafa e um copo de vinho. Dorian tinha na mão um copo meio cheio. - Serve-te de retsina! - disse ela quando ele enfiou outra vez o pé no balde. 63 - Obrigado. O que é isso? - Um vinho feito de seiva de pinheiro. - Seiva de pinheiro? - despejou vinho no copo, provou-o e fez uma careta. Dorian riu-se: - Vais acostumar-te, pateta. É muito popular; há quem diga que é popular de mais. É preciso ter-se muito cuidado para se não abusar... Bebeu outro pequeno trago; os olhos desviaram-se do rosto dela. Avisão do seu corpo envolto naquele monte de espuma com uma perna languidamente esticada sobre um dos lados da banheira, trouxe-lhe à memória o seu recente encontro íntimo. Viu-se a ele e a ela enlaçados no beliche dela do comboio, com os movimentos sincronizados com o matraquear dos carris lá em baixo. Aquele encontro amoroso quase lhe parecia agora irreal; nada que se parecesse com uma recordação. Ainda lhe custava a crer como a Dama de Gelo de Paris se tinha tão depressa derretido nos seus braços. E, no entanto, ali estava ele agora, tranquilamente a vê-la tomar o seu banho. Tudo desde então Lhe parecia qualquer coisa como uma cena desfocada. Tinham saído do comboio ontem de manhã, e passado a maior parte do dia no ferry-boat. Ao chegarem ao porto de Pireu, tinham tomado um táxi para Atenas. Tinham chegado perfeitamente exaustos, e tinham dormido doze horas. Hoje, enquanto Dorian se ocupara dos pormenores para a viagem até Delfos, Indy tinha ido explorar a cidade sozinho. Primeiro tinha devidamente ocupado a manhã no museu arqueológico; depois tinha simplesmente andado a vaguear e a ver as vistas. - Então que pensas de Atenas? - Murmurou ela. - Gosto, mas não se pode comparar a Paris... - E a que conclusão chegaste? - Ela estendeu uma das pernas com os dedos dos pés a apontar para o tecto. Indy pensou por momentos. "Na realidade, a textura de vida aqui é diferente", concluiu. A beleza de Paris era vista através das subtis mudanças da qualidade da luz. Aqui a luz é mais crua, mais brilhante, em contraste com a rudeza da paisagem...


- A Grécia é indiscutivelmente fértil; a França é mais... intelectual; mais refinada... - De acordo. Ambas as cidades estão ligadas ao passado, mas o passado afectava cada uma delas de diferente maneira. Paris brilhava como centro de cultura artística, como a resultante criativa de passados triunfos artísticos. Aqui, muito embora o passado estivesse em toda a parte, a cultura que florira, estava agora adormecida. Paris era uma escultura ainda a definir-se; 64 Atenas era um monumento, e a sua gente só podia ficar a olhá-lo e a assistir à sua lenta deterioração. E, no entanto, apesar de viverem à sombra dos seus antepassados, os gregos ainda pareciam brilhar em espírito. Via-os como um povo gregário, falador, que expressava livre e abertamente as suas emoções fossem elas de alegria, de ira ou de tristeza. A maioria dos homens era morena, de cabelos encaracolados e belos. Fumavam tabaco escuro e bebiam intermináveis chávenas de café enquanto desfiavam com ar ausente rosários de contas de âmbar ou de prata. As mulheres, contudo, pareciam resignadas às suas tarefas domésticas e muitas delas vestiam de preto como se viessem em permanente luto. Tentou exprimir o possível dos seus pensamentos, mas Dorian não parecia já interessada. Interrompeu: - Indy, quero dizer-te por que é que eu pensei que aqueles homens nas ruínas vinham atrás de nós. - Óptimo. Tenho muito interesse em ouvir! - Primeiro tenho de te dizer um bocadinho a respeito da minha família... - disse ela, inclinando as costas para lavar a base do pescoço, e fazendo os mamilos rosados do seio aflorar acima das largas e coloridas bolhas de espuma. - A tua família? - Era difícil concentrar a atenção no que ela dizia. - Sim, a minha família. É que, sabes, as raparigas gregas do campo não se tornam por encanto em arqueólogas. O meu pai era um construtor de barcos, e possuía bastantes terras. Possuímos até um par de ilhas... - Ilhas? Ilhas mesmo inteiras? Ela riu-se: - Sim, mas não são muito grandes... - E ele vive em Atenas? - Tem uma propriedade aqui, e casas em Roma e em Londres.


Actualmente está a viver em Roma e não pode vir a casa... - Por que não? - Política! Cuspiu a palavra como se fosse uma praga. - Depois da Grécia ter alcançado a independência, deixou de haver nobreza, por isso as famílias que se envolveram na política foram as que enriqueceram. - Isso parece bastante típico... - Sej a como for, quando o rei decidiu invadir a Turquia, no ano passado, o meu pai excusou-se. Sabia que aquilo ia acabar num desastre. E por ter dito as verdades... foi exilado. O amargo da sua voz reflectia-se na dureza das feições. ConCluiu: - E continua exilado. 65 Indy sabia que os resultados da guerra com a Turquia tinham sido exactamente como ela dissera. Tal como ele tinha entendido, a Grécia tinha invadido o país vizinho, na esperança de libertar os gregos que viviam fora da Grécia. Agora a cidade estava pejada de refugiados que tinham sido forçados a abandonar as suas casas durante o conflito, e a perda de vidas tinha sido elevadíssima. - Calculo que a invasão não resolveu nada... - disse. - Tudo o que sucedeu foi um erro tremendo e horrível. Enviámos para lá cem mil homens e ainda estão a ser massacrados... Indy assentiu, sem saber ao certo o que dizer. Beberricou um pouco do seu retsina e olhou para ela. - Seria de pensar que tivéssemos aprendido alguma coisa com a Grande Guerra. Sofremos tremendamente com o nosso apoio à Inglaterra e a França. O povo grego está cansado de lutas e agora estamos novamente a lutar... - Mas o que é que isso tudo tem a ver com os dois homens na Acrópole? Dorian girou a aresta do copo entre os dedos, a coligir os pensamentos. Lentamente disse: - O meu pai avisou-me para não voltar até que as coisas aqui assentassem. Disse-me que seria muito perigoso se o fizesse... - Pensas então que eles trabalham para o rei? - É possível. - E por que é que eles não te proíbem pura e simplesmente de trabalhar nas ruínas? - perguntou. - O rei com certeza que podia impedir-me de regressar a


Delfos, mas não é parvo. Delfos é um tesouro nacional e ficava-lhe mal se me proibisse de regressar, principalmente depois daquele tremor de terra... - Pensas então que eles te andam a vigiar às escondidas, para verem o que é que andas a fazer? Ela deu o copo vazio a Indy, pedindo-lhe com um gesto para lho tornar a encher. Respondeu: - Se eles me andassem apenas a vigiar, não me importava, Mas estou convencida que a gente do rei, se não o próprio rei, gostaria muito de ferir o meu pai. E se eu fosse morta, seria uma vi tória para eles. - E o que é que vais fazer? - Nada. Vamos para Delfos amanhã de manhã, tal como tínhamos planeado. Recuso-me a ser intimidada... Indy inclinou a garrafa, a encher o copo de Dorian e depois o seu. Decidiu que a retsina, afinal de contas, não era má de todo, estendeu-lhe o copo e ficou a vê-la ensaboar uma anca com uma esponja redonda. - Pousa os copos... - disse ela, passando-Lhe a mão pelo pescoço. 66 - Que é que estás a fazer? Ela puxava-o para si para dentro da banheira e a retsina entornou-se no chão. - Acho que estás a precisar de um banho... A voz tinha inflexões roucas e macias, entrelaçadas com reminiscências de risos. Ela enlaçou os braços molhados nas suas costas e ele caiu de lado, espadanando água e colando o seu corpo ao de Dorian que lho enlaçou com as macias pernas. - E a criada? - Não te preocupes. - E ojantar? - Depois... Ele tartamudeou a passar o braço molhado pela cara enquanto ela Lhe tirava as roupas encharcadas: - E eu é que devia ser o agressivo... se demoras muito. Além disso estás a precisar de umas lições. - Pronto, senhora professora... Tirou a camisa que estava numa sopa. - Parece que afinal ainda sou o seu aluno... 67


CAPÍTULO VIII JORNADA PARA DELFOS O quarto estava escuro quando Dorian se levantou da cama. Empurrou para o lado a cortina e a fraca luz acinzentada da madrugada varreu o quarto. Passava das 5 horas; tinha de se apressar. Atravessou silenciosamente o quarto, olhou de relance o vulto coberto na cama e depois enfiou rapidamente uma saia plissada, uma blusa e um colete de lã. Ia já a sair do quarto quando Jones se mexeu. Ela imobilizou-se, olhando para ele, fazendo mentalmente força para que não acordasse. Quando se certificou de que ele a não tinha ouvido, voltou-se e saiu. Cá fora, ao lado da casa, pegou na bicicleta e trouxe-a para fora do pátio. Abriu a cancela de ferro, fez uma careta quando a ouviu chiar e depois montou na bicicleta e começou a pedalar. A uns três quarteirões da casa, Dorian virou à esquerda e começou a descer a colina. O ar da manhã estava fresco e sentiu-se satisfeita por ter vestido o colete. Lá adiante começava a alargar-se vagamente nos ares uma claridade de um rosa demasiado a desafiar o carrancudo cinzento do horizonte ocidental. Começou a travar quando chegou ao fundo da colina, virou à direita e atravessou a Platia Monastikariou. A praça, normalmente pejada de vendedores de nozes, lugares de fruta e vendedores ambulantes, estava àquela hora ainda silenciosa. A igreja, mosteiro do século x, no centro dela tinha um ar desolado e cinzento, como relíquia solitária do tempo em que a vida era simples. Passou as paredes em ruína da Biblioteca de Adriano, e seguiu pela Rua Eolou até chegar às portas de Athena Archegetis, a entrada para o Forum Romano. Gravado na base da pilastra em frente à Acrópole via-se um edicto de Adriano a anunciar as regras e as taxas para a venda de azeite. Dorian pensou distraidamente: "Se Adriano pudesse ver hoje isto!" Levou a bicicleta à mão para passar o portal e entrar nas ruínas, passando ao lado de barracas improvisadas sobre as ruínas das antigas latrinas públicas.


68 Pelas frinchas das portas de algumas das barracas escapavam-se delgadas volutas de fumo, os primeiros sinais do dia que começava. Por toda a extensão das ruínas da praça do vetusto mercado, havia barracas improvisadas construídas pelos refugiados que tinham invadido a cidade. Mais uma catástrofe nacional. Continuou a avançar até chegar a uma torre octogonal, ao lado da qual encostou a bicicleta. Não sabia bem ao certo porquê, mas a Torre dos Ventos fascinava-a. Fora assim designada no século I d.C. por um astrónomo sírio chamado Andronico de Cirra, e servia de bússula, relógio de sol, catavento e relógio de água accionado por um riacho. Se o relógio ainda estivesse a funcionar, poderia indicar que eram 5 horas e 30 minutos, pela leitura do nível da água no cilindro do interior. Ergueu os olhos para a torre. Cada uma das suas faces estava ornamentada com a escultura em relevo de uma entidade mítica a personificar cada um dos oito ventos. Mesmo acima do sítio onde ela estava havia um relevo de Skiron, a segurar um recipiente de carvão. A seu lado Boreas, o Vento Norte, soprava numa trombeta feita duma concha. - Recebi o teu recado... - disse uma voz atrás de si, ao mesmo tempo que uma mão lhe poisava no ombro. - Chegaste cedo... - ela baixou os olhos e voltou-se. À pálida luz da manhã, Alex Mandraki era um vulto escuro e carrancudo, tão misterioso como os seres míticos no alto da torre. - A zelar pelos meus interesses... Passou a mão ao de leve pelo rosto dela, muito suavemente, como se não tivesse bem a certeza de ter o direito de o fazer. Disse: - És uma admirável estratega, Dorian; darias um homem formidável, melhor do que muitos. Deve ser por isso que eu gosto de ti. Ela passou-lhe a mão pelo rosto, a pele tinha um toque áspero, mesmo com a barba feita há pouco tempo. -Só gostar? Pensei que me amavas,.. Ele pegou-lhe na mão. As suas feições suavizaram-se tanto quanto podia ser numa pessoa de quem apenas um olhar bastava para fazer tremer os seus homens. - Claro que te amo; e tive saudades tuas... Puxou-a para si e beijou-a com uma súbita intensidade. - Também senti a tua falta... - murmurou, afastando-se dele.


- Foi muito horrível? - Uma matança. Mais do que quaisquer palavras possam dizer. E nada se podia fazer para o evitar... - Tanto mais razão para aquilo que temos de fazer. Ele observou-a por momentos, talvez a tentar ler-Lhe o pensamento através da sinceridade e da intensidade do seu olhar, da sua expressão. 69 - Sei que te aproximaste do americano, mas espero que não tomes a tua tarefa muito a sério... Ela sorriu-lhe pela primeira vez: - Estás com ciúmes, Alex? - Não... - passou os dedos pelos cabelos curtos e encaracolados. - Ainda... ainda não. - Tornou a pegar-lhe na mão. Começaram a andar. O nariz dele, adunco, numa silhueta a contrastar com a luz ainda pálida parecia um bico aguçado e mortífero de uma ave de rapina. - O ciúme é como o ódio: é uma emoção que consome energias... - Pode dizer-se o mesmo da guerra... - Na presente situação - disse ele, referindo-se à invasão da Turquia - concordo por absoluto. Mas não podemos em caso algum eliminar o nosso exército; passaríamos a ser um povo fraco, incapaz. Os gregos nunca mais poderão ficar subjugados! - Não precisas de me catequizar, Alex. Principalmente a esta hora da manhã... - Há qualquer coisa que te preocupa. O que é? Ela contou-lhe o aborrecimento que tinha tido no comboio. Ele assentiu com a cabeça e depois disse em voz firme e marcada: - Fizeste o que devias fazer. Mas eu tinha-te avisado que Farnsworth podia dar trabalhos; devia ter posto alguém no comboio contigo... Ela sorriu: - Eu sei dar bem conta de mim... - Assim parece. Então não há problema. - Ainda não acabei. Parece-me que há dois outros a trabalhar com o Farnsworth... - e contou-Lhe dos dois homens que os tinham perseguido na Acrópole. Pelos seus olhos perpassou uma profunda sombra. Abanou a cabeça: - Dá a impressão de se tratar de amadores... - Graças a Deus. Eu estava vulnerável; não consegui vê-los


bem, mas o Jones conseguiu... - descreveu o melhor que podia os dois homens. - Vou ver o que posso fazer, e mandar pôr um guarda ao teu carro. - Não é preciso! - Por favor, deixa-me decidir a mim o que é que é preciso para te proteger... Sorriu e pegou-Lhe na mão: - Agora quero que me digas o que é que estás a pensar para Delfos! 70 Quando ela fez deslizar a bicicleta para a rua, minutos depois, havia já pinceladas de rosa e amarelo no céu. A tranquilidade da madrugada acabara e o velho Forum começava a despertar, com as pessoas a saírem em grupos das barracas. "Vai ser um dia muito longo...", pensou. Indy corria pela Acrópole com os braços a balançar aos lados e as pernas quase numa mancha informe sob si, e a respiração a arfar em jactos contínuos e agudos. Atrás de si ouviu os homens, com os sapatos a bater na calçada e os gritos a cortarem o ar. Aproximavam-se cada vez mais; voltou rapidamente a cabeça; não conseguia correr mais depressa, porque as pernas não o ajudavam. Sentiu o pânico apertar-lhe a garganta. Um dos homens subitamente passou à frente do outro e atirou-Lhe com uma garrafa de retsina à cabeça. Sabia que lhe devia ter doído, que uma dor aguda e lancinante lhe devia ter atravessado o crânio; mas a única coisa que sentiu foi uma intensa reverberação que lhe ecoou na cabeça, a soar como uma corneta. - Acorda, Indy! Abriu os olhos e fechou-os logo a seguir por causa da luz, daquela luz cruel e brilhante. - Jesus! - gemeu. O som agudo da corneta do lado de fora da janela continuava a bater-Lhe lá dentro, contra as paredes da cabeça. - Que diabo é que se passa? - É o nosso transporte para Delfos. Apressa-te a arranjar-te. Mas primeiro bebe isto... Sentou-se na cama, esfregou a cara en sonada e viu que Dorian já estava vestida. Estendia-lhe uma chávena de café denso como um xarope; a chávena pouco maior do que um dedal.


- Espero que não tenha o tal «ouzo»... - disse, Na realidade ao jantar tinham acabado a garrafa de retsina e depois da refeição tinham provado uma outra bebida grega; o ouzo, um licor que pareceu a Indy qualquer coisa como o Pernod que às vezes bebia em Paris. E a cabeça ainda lhe latejava com os resultados daquela combinação. - Nem uma gota, posso garantir-te... Fez uma careta quando a buzina soou outra vez, mas poucos minutos depois estava já vestido e pronto para sair. Estendeu a mão para debaixo da cama à procura da mala, mas não a achou. Baixou-se mais e descobriu a mala, e mais qualquer coisa. Estendeu o braço, a tentear o chão e tirou cá para fora uma bota. O par estava logo atrás dela; pareciam do tipo militar. - Indy, vamos... - Dorian parou no limiar: - O que é que estás a fazer? 71 - Estava só a tirar a minha mala. - Deixou cair a bota e olhou para Dorian. - No caso de estares a pensar coisas, informo-te que são do filho da minha governanta. Morreu na Turquia. Eu espero lá fora... Voltou-se e saiu. Indy atirou com a bota para debaixo da cama e pegou na mala. "Curioso, conservar as botas de um soldado morto...", pensou. Quando chegou cá fora viu dois homens armados de espingarda encostados à parte detrás do camião. Quando trepou para o banco da frente ao lado de Dorian, perguntou-lhe quem eram. - Guardas. - Estás à espera de complicações? - Só preparada para isso... Minutos seguiam aos saltos por uma estrada de cascalho em direcção às colinas para além da cidade. As molas do camião estavam em péssimo estado, e cada sacão ainda mais aumentava a dor da cabeça de Indy. O motor rugia fazendo um enorme barulho de cada vez que acelerava, tornando difícil a conversa. - Esta estrada... - ouviu Indy, Dorian começar, mas depois só lhe via os lábios a mexer, e não conseguiu distinguir as palavras que dizia. - O quê? - gritou. - Esta estrada... de Édipo. Franziu a testa e abanou a cabeça. Que relação poderia haver entre aquela estrada e Édipo.


Dorian inclinou-se para ele e gritou-lhe ao ouvido: - Esta estrada não mudou muito desde o tempo de Édipo! Era de acreditar. Dorian desistiu de conversar e Indy pôs-se a olhar para as colinas cinzentas de pedra e para os pinheiros ao longe. Parecia que desde o dia em que saíra de Paris a viagem assumiu uma nova dimensão. Primeiro, o seu relacionamento com Dorian tinha-se transformado radical e dramaticamente. Depois descobrira que ela era persona non grata no seu próprio país. A ideia de poder ser apanhado em maquinações políticas que nem sequer entendia, perturbava-o. Ela dissera que deviam ser completamente francos um para o outro, mas ao que parecia ela só era franca quando achava isso oportuno. Agora começava a compreender as suspeitas de Conrad acerca de Dorian. Até Shannon, que nem sequer a tinha conhecido, tinha razão a respeito de uma coisa: viajar com Dorian era uma aventura, e tinha a impressão que ainda não tinha visto tudo. Raios: pois se ainda nem tinham chegado a Delfos! Mas a verdade é que ele procurara um desafio, e até talvez algum perigo. E as aventuras eram assim, afinal de contas. Mas por outro lado também queria continuar vivo; disso não havia dúvidas... De vez em quando olhava para trás, a certificar-se se não estariam a ser seguidos; mas só o que via era nuvens de pó atiradas pelas rodas do veículo. Por fim Dorian encostou-se a ele: - Queres deixar-te dessas preocupações? Temos dois guardas connosco; se houver algum problema, eles tratam dele! Ele concordou com um aceno de cabeça, deixou-se escorregar no banco e encostou a cabeça, fechando os olhos. Em pouco tempo o monótono barulho do motor lhe trouxe a sonolência. Passou pelo sono, acordou sobressaltado e tornou a adormecer, num ritmo quase tão previsível como o tic-tac de um relógio. Ao princípio da tarde já iam a subir as faldas do Monte Parnasso, e a sua expectativa de ansiedade aumentava com a crescente altitude. - Estamos quase lá! - disse Dorian, espreitando pelo pára-brisas para o pico da montanha. Indy tocou-lhe ao de leve na coxa; ela afastou-se dizendo: - Temos de nos portar profissionalmente enquanto estivermos nas ruínas. Aqui, és meu aluno; nada mais. Percebes? Tinha uma expressão dura, quase como moldada em pedra. Indy soltou uma pequena gargalhada nervosa: - Ora vamos, c'os diabos! Estás com receio de algum escândalo por eu ser mais novo do que tu? - Isto não é brincadeira nenhuma, Jones. E a idade não tem nada a ver com isso. Simplesmente não é próprio uma professora


dormir com um aluno... "Não é próprio para quem?", pensou, mas não fez a pergunta. Teve o súbito desejo de lhe dizer que nunca tinha sentido nada que se parecesse com fazer amor com ela; era mais do que uma simples paixão sexual: era a realização do seu desejo por uma mulher que era diferente de todas as outras que tinha conhecido até aí. E, no entanto, desejava mais do que nunca. Ela era tão sedutora e tão enigmática como o próprio mistério de Delfos, e ele precisava dela. Mas não lhe disse nada, também. Tinha medo que ela se risse dele, que lhe chamasse um querido aluno de amor, ou qualquer outra coisa tão humilhante como isso. - Além! Estás a ver? - apontou ela. Indy inclinou-se para diante e viu o planalto de um a montanha que parecia literalmente suspenso no espaço, no intervalo entre dois ameaçadores picos rochosos. Parecia pequeno e insignificante, em comparação com a montanha. Dorian disse ao motorista para parar por um minuto. Saíram do camião e ficaram a olhar para Delfos. - Acho que esperava que fosse maior... - disse Indy. 72 73 - O tamanho não tem nada a ver com a sua importância! respondeu ela. - Pensa nisto, Indy: durante um milhar de anos, reis e homens de Estado, chefes militares e mercadores, subiram os contrafortes destas montanhas, para levarem perguntas ao Oráculo... Lembrou-se dela ter dito na aula que as profecias eram na maior parte das vezes obscuras e ambíguas. E se assim era, como é que isso podia ter durado tanto tempo e impressionado tanta gente? - Houve alguma vez alguém que verificasse a exactidão das profecias? - Por Que é que perguntas isso? - Porque se eu fosse fazer depender o meu futuro nas palavras desconexas de uma velhinha, gostaria de saber que crédito é que elas me mereciam... - Vocês, americanos! - riu-se Dorian. - Vocês julgam que todo o mundo é como um dos vossos jogos de basebaal; querem que toda a gente tenha uma determinada percentagem de batidas. Duvido que alguém tivesse alguma vez conservado registos desse tipo, mas é evidente que a tradição do Oráculo nunca teria sobrevivido durante tanto tempo se as suas profecias fossem normalmente erradas...


- Aposto que os sucessos tinham muito mais a ver com o conhecimento dos sacerdotes do que com o Oráculo... Dorian não Lhe deu resposta. O seu enigmático sorriso era por si só uma resposta. Voltaram a subir para o camião e daí a dez minutos rodavam na última curva e chegavam a Delfos. A mais de Quinhentos metros de altitude, o ar era um pouco mais fresco do que em Atenas. Ele ficou a olhar para os imponentes picos que os rodeavam e se elevavam a mais de dois mil e quinhentos metros, e depois à abrupta queda da paisagem até ao vale lá ao fundo. O camião parou e eles saíram. A maior parte dos edifícios pouco mais era do que alicerces e ruínas, o resultado de séculos de abalos de terra e da destruição pelo próprio homem. Mas só a vista das inclinadas colunas dóricas do templo de Apolo, tão perto da face quase a pique da montanha, fazia correr calafrios na espinha de Indy. Ali estava o mais famoso santuário religioso da antiguidade, um lugar outrora considerado o centro do mundo, um lugar de terra e de pedra e, tinha a certeza disso, ainda cheio de segredos ocultos. - Em que é que estás a pensar, Jones? 74 Aborrecia-o que ela agora já raramente lhe chamasse Indy, mas nada disse. O que interessava era que ele estava ali, finalmente em Delfos. - Afinal não é um mito. É um lugar real, verdadeiro. Ou pelo menos, foi. Mas Ainda é um lugar verdadeiro, real. Acredita; não o esqueças. Ia para dizer que naquele momento era muito mais real do que a Sorbonne, quando viu um homem gordo a correr para eles. "Melhor dizendo, a tentar correr", pensou Indy, mas a sua corpulência fazia os seus esforços parecerem pouco mais do que um espadanar. Quando estava a chegar perto deles era fácil ver que o homem estava excitadíssimo. - Dr.a Belecamus, ainda bem que finalmente chegou! - disse ele por entre o arfar de sôfregos haustos de ar. - Estamos à sua espera há já alguns dias... - Eu disse-lhe que vinha assim que pudesse! - Indy pareceu-lhe detectar um laivo de aborrecimento na voz dela e pressentiu que existiria uma certa animosidade entre eles. - Jones, este é Stefanos Doumas, o actual chefe de


arqueologia aqui... Indy calculou que o homem pouco mais velho fosse do que ele. Estendeu-lhe a mão, mas o homem limitou-se a fazer um gesto de cabeça e continuou a falar com Dorian: - Sucedeu uma coisa incrível! - exclamou. - Tem de vir imediatament,e e ver com os seus próprios olhos! - De Que é Que está a falar? - É a fenda, no templo! - gesticulou com as mãos. - Estão a sair de lá vapores. Vapores... como aqueles que o Oráculo respirava. 75

CAPÍTULO IX O REGRESSO Panos, o canteiro, ia andando pela rua principal da aldeia a caminho da platia, o parque relvado no outro extremo do povoado. Ao passar pelo restaurante acenou com a cabeça aos velhotes conhecidos sentados num banco de madeira comprido encostado à parede meio esboroada. Se não fosse pelas contas komboloi que Lhes deslizavam lentamente pelos dedos pareciam gatos num «rom-rom» de satisfação ao sol da manhã. Pouco distante do lugar onde estavam sentados, um par de toscos barrotes de madeira estavam aplicados de encontro à parede onde os tijolos tinham feito uma barriga e criado uma teia de aranha de rachas a alargar pela suja caliça da parede. "Resultados do recente abalo de terra", pensou. Mas a vida continuava; sismos e tremores de terra eram na aldeia de Delfos coisa tão vulgar como um a trovoada; faziam parte da vida: o nascimento, a morte, os tremores de terra. Um dos velhotes chamou--o e perguntou-lhe pela saúde da mãe. Era o mais que o velho já lhe dizia: ele estava na aldeia mas já não era dela; era mais um visitante, como as pessoas que vinham ver as ruínas. Só os velhos o conheciam: lembravam-se do Panos de outros tempos. Por isso falou da saúde da mãe de forma que o compreendessem: "... agora está muito melhor, porque o filho e os netos estão cá outra vez...",, sorriu: - Diz que anda para cima e para baixo...


Os velhos riram-se. Era o que toda a gente dizia em Delfos quando se perguntava como estava: "Vamos para cima e para baixo." Era a vida da montanha: para cima e para baixo, na montanha. Ver os velhos sabia-lhe sempre bem. Eram como que os porta-bandeiras da aldeia. Parecia-lhe que sempre ali tinham estado, ao pé do restaurante, esperando, olhando, algumas vezes a falar. E, no entanto, sabia que houvera um tempo em que eles tinham estado activos; pessoas vitais, que trabalhavam e que andavam para cima e para baixo da montanha. Carpinteiros, operários, comerciantes ou pastores. 76 Mas isso fora antes da mudança, quando a aldeia se mudara lá do alto das sagradas ruínas para o local onde agora estava. Os homens agora eram como as próprias ruínas de Delfos, com os ossos cansados a não poderem já aguentar uma existência activa. Continuou a andar pela estrada, deixando os velhos a murmurar sozinhos. Talvez estivessem a falar do acidente há tantos anos em que Estelle tinha morrido. Ou mais provavelmente talvez estivessem a repetir uma velha história sobre o que tinha acontecido depois. Estelle ia por um carreiro da montanha com o seu filhinho Grigoris, quando uma avalanche de terra os tinha soterrado aos dois. Panos, que ia alguns metros à frente, tinha conseguido arrancar Grigoris debaixo da enorme camada de terra; e milagrosamente não estava ferido. Mas quando Panos conseguiu chegar até Estelle, gritou de dor e de tristeza. Estelle, a sua jovem e linda esposa, estava morta, com a cabeça esmagada por um pedaço de rocha. "Isso fora no ano da mudança. Há trinta anos", pensou. No ano em que tinham chegado os arqueólogos. O ano em que tudo mudara. No entanto, da morte de Estelle nascera uma nova vida - a sua própria. Ele transformara-se, mudado pela morte dela, pela mudança da aldeia e por Milos, o pai de Estelle. Sempre, desde que o conhecera, Milos fora apelidado de o Louco, e depois disso ainda mais louco se tornara. Mas Panos aprendera a ver para lá da loucura de Milos, e a pouco e pouco começara a perceber que ele era um vidente e um guardião do antigo saber. Panos atravessou a platia e sentou-se no seu banco favorito. A praça em si era pequena e banal, mas a vista do vale compensava isso. Depois da morte de Estelle tinha passado dias


sem conta sentado naquele mesmo lugar a imaginar-se a si próprio um corvo a sulcar os ares por sobre o vale. Fora ali, num desses dias, que Milos viera ter com ele e lhe dissera que era a altura de ele aprender os segredos da Ordem de Pítia. Ali perto dois homens em fato de trabalho azul caiavam o tronco de um velho carvalho para o proteger dos insectos. Nunca tinha visto nenhum deles, o que era estranho visto que praticamente conhecia toda a gente que ali vivia; mesmo tendo morado em Atenas durante vários anos, sempre regressara por diversas vezes a Delfos para ver a mãe e para estar perto do local sagrado. Observou os homens até que o que estava mais próximo olhou na sua direcção. Panos fez-Lhe um aceno, cumprimentou e perguntou-lhe como estava. O homem deteve-se, tirou o boné e limpou a testa com o braço. Disse que estava bem, mas que nunca tinha suado até então num tempo tão fresco. - O sol está quente, mas o ar é fresco... - disse. - Na montanha é assim; não é como em Atenas... 77 disse panos, percebendo rapidamente pela fala do homem que era da capital. E acrescentou: - Há quanto tempo está cá? - Desde ontem; foi o governo que me mandou... - encheu o peito de ar e a voz tinha um ar de se sentir importante. Olhou para Panos para ver se ele ficara impressionado. Panos, no entanto, desiludiu-o. Riu-se e abanou a cabeça: - Então o governo agora manda homens para tratar das árvores quando há um terramoto; se calhar a seguir tornam a mudar a aldeia! A voz do homem assumiu um tom defensivo: - Eu estou aqui porque o rei vem visitar Delfos na semana que vem! - Vem cá? - perguntou Panos incrédulo. O homem sorriu, por ver que sabia qualquer coisa que Panos, um homem da terra, desconhecia. - Pois claro! Vem cá para inspeccionar os prejuízos nas ruínas, e vai ficar cá duas noites! Tornou a pôr o boné na cabeça e regressou ao seu trabalho. Panos ficou a olhar para o vale, a pensar no que tinha acabado de ouvir. Sabia que o rei tinha uma espécie de refúgio de montanha a alguns quilómetros dali, mas que raramente lá ia. Agora tinha a certeza de que a profecía estava certa; a altura era perfeita.


- Papá, cá estás! Panos olhou por cima do ombro e viu Grigoris a correr pela praça direito a si. O filho, agora já crescido, era quase como que um duplicado de si mesmo: musculoso, de ancas estreitas e cabelo curto encaracolado. Com certeza também tinha ouvido falar na visita do rei e esperava fazer surpresa disso ao pai. - Nem vais acreditar, papá. Já está a acontecer... Panos levantou-se do banco, pegou no braço do filho e levou-o para mais longe dos operativos. - Eu sei, anda daí! - Como é que sabes? Tens estado aqui! E eu acabei de falar com Stefanos fora do campo... Panos deteve-se e voltou-se para Grigoris: - Eu disse-te para te afastares das ruínas, e afinal foi a primeira coisa que fizeste quando eu saí esta manhã. - Eu não fui às ruínas: fiquei cá fora. Ela não me viu; nem tãopouco o estrangeiro. Eu tive muito cuidado... Panos abanou a cabeça; o filho ralava-lhe a paciência. Grigoris já cometera um erro em Atenas quando deixara que o vissem na Acrópole. E depois, antes de Panos o ter podido impedir, ainda mais complicara as coisas ao perseguir o casal. 78 - Eu já pedi desculpa pelo que aconteceu. Quantas vezes tenho de me desculpar? Eu já não sou nenhum a criança. Agora tens de me ouvir. o que é que tu fazias se eles tivessem parado e esperado por ti? O filho rolou os olhos negros, impaciente: - Eu já te disse que só quis assustar o estranho. Talvez lhe dissesse para não se aproximar daqui... Panos ficou por momen tos a olhar para Grigoris, como que ainda a ralhar-lhe em silêncio. Por fim disse: - Isso não é motivo para me pedires desculpa a mim. Pede-a a ti próprio... Estava quase a invocar uma das sagradas directivas: "Conheço-te a ti mesmo", mas Grigoris interrompeu: - Pai, o véu rasgou-se. Estão outra vez a subir vapores do templo... - O quê? - É o que tenho estado a tentar dizer-te. - Tens a certeza? - Havia sempre uma névoa em torno do templo de Apolo durante as manhãs e em muitas ocasiões ele próprio imaginara que os vapores estavam outra vez a subir e que a profecia do Regresso se tinha cumprido...


- Eu próprio não vi, porque me disseste para não ir às ruínas, mas deve ser verdade... Panos sabia que Stefanos pensava que Grigoris era ingénuo, talvez aquilo fosse uma das suas brincadeiras. - Veremos... - disse. - Que é que vais fazer? - perguntou o jovem ansiosamente. - Já esperámos muitos anos. Bem podemos esperar mais algumas horas, ou mais alguns dias... Panos recordou a profesia. Depois da morte de Estelle, Milos havia profetizado o Regresso e tinha dado todos os sinais. Na altura Milos fora o último membro ainda vivo da ordem de Pítia mas ao longo dos anos, tinha ido passando lentamente todo o conhecimento para Panos. Por fim tinha chegado a altura de Panos invocar a sua autoridade como o novo líder da Ordem. Ele próprio falaria com Stefanos, mas intimamente já tinha a convicção de que era verdade. Tudo se juntava, finalmente. Já não havia motivo para recear Dorian Belecamus por causa do seu poder no lugar sagrado. Agora estava claro: Ela era a tal. Ela seria a nova Pítia; seria a intérprete e a primeira profecia tinha a certeza, seria para o próprio rei... 79 10 ASCENSÃO DA DIVINA LINFA Uma lanterna sobre a mesa de madeira iluminava o interior de um a desconjuntada cabana primitiva. Ao lado da lanterna estava um grosso volume aberto numa página cheia de escrita grega antiga. Era o texto de uma placa de pedra que fora salva dos arquivos de Delfos, e o seu autor fora Plutarco que servira como sacerdote em Delfos no século I d.C. Durante um bocado antes, Indy tinha estado lentamente a traduzir a inscrição para um pedaço de papel. Muito embora a versão inglesa estivesse escrita na página seguinte do livro, ele queria experimentar as suas capacidades. Havia apenas três palavras de que não tinha bem a certeza, e deduzira o seu significado pelo teor geral. Soprou o papel a secar a tinta e pousou a caneta permanente na mesa. - Ora muito bem: vejamos... - murmurou, aproximando o papel da luz. Tanto quanto se apercebera o escrito era a resposta a


uma pergunta acerca das razões pelas quais as profecias do Oráculo eram sempre dúbias e ambíguas. Leu a tradução em voz baixa: - ... porque não era apenas uma questão de qualquer pessoa individualmente consultar o Oráculo sobre a compra de um escravo ou qualquer outro assunto particular, mas a de cidadãos muito poderosos, reis e tiranos com poderosas ambições a procurarem o conselho dos deuses sobre importantes assuntos. Irritar ou aborrecer tais homens com duras verdades que contrariassem os seus desejos, teria as suas desvantagens para os sacerdotes do oráculo... Indy voltou a página e viu que havia ainda mais texto. Desta vez traduziu à letra, sem escrever as palavras. Como uma criança a aprender a ler, leu lentamente o texto emperrando nalgumas palavras aqui e além. - ... quanto às respostas... dadas a pessoas vulgares, era por vezes aconselhável que elas... fossem escondidas dos seus opressores ou... ocultas dos seus inimigos. Que também elas fossem envoltas em... circunlóquios e... equívocos 80 para que o significado do oráculo, ainda que escondido dos outros fosse sempre entendido por aqueles que estavam interessados, se se dedicassem a estudá-lo." "Parecia um político a explicar porque é que não tinha cumprido as promessas da sua campanha", pensou Indy enquanto voltava a página. Analisou a tradução inglesa que se seguia ao texto e sorriu. Estava satisfeito com a sua própria precisão e confiante de que saberia traduzir a placa que o aguardava lá no fundo da fenda. Agora, se Dorian se deixasse de perder tempo, ele ia meter-se a isso. Tirou do bolso o relógio e olhou de relance. Sem excepção os vapores subiam da fenda durante doze minutos antes de se dissiparem, mas a duração dos períodos de acalmia ia lentamente aumentando. Da primeira vez que tinham feito uma medição de um intervalo, durara três horas e cinco minutos. Da segunda vez que os vapores tinham subido tinham passado três horas e onze minutos. Não demorara muito a perceber que cada intervalo aumentava sempre seis minutos. Agora, no seu terceiro dia em Delfos, Dorian continuava a insistir que se fizessem os cálculos. Indy tinha estado a vigiar a fenda desde a uma hora da tarde. Os gases tinham-se elevado às 4 horas e 16 minutos e


tinham ficado parados, agora durante quatro horas e cinco minutos. Se se mantivesse o programa que fora estabelecido, os vapores elevar-se-iam daí a dezoito minutos, ou seja, às 8 horas e 39 minutos da tarde. "Irónico...", pensou. Tinha abandonado os estudos a meio do período por aquilo que parecia ser a oportunidade de uma vida; mas até esta altura a única coisa que tinha estado a fazer era de cão de guarda a um buraco no chão. Abanou a cabeça desgostoso. Bom, pelo menos, podia ansiar pela hora dojantar. Seria rendido às 9 horas e seguiria para a aldeia. Estendeu as mãos por cima da braseira que aquecia a cabana. Quando achou que já tinha apanhado o calor que podia apanhar, puxou para o lado o pano que tapava a porta, Deitou a mão ao chapéu que estava sobre a mesa, mas a mão foi tocar na lanterna e virou-a. Rolou para a orla da mesa; mergulhou para ela e conseguiu apanhá-la quando a mesma ia mesmo a cair ao chão. Pousou-a cuidadosamente no meio da mesa, e retirou cuidadosamente as mãos. -Agora fica aí quietinha... Deu um passo para atrás e o calcanhar voltou a braseira. Carvões incandescentes saltaram para o chão encardido e alguns rebolaram até à parede. Rogou uma praga e desatou aos saltos a dar pontapés em carvão atrás de carvão, primeiro para o centro da cabana, e depois para fora da porta. 81 Olhou em redor; farejou. Fumo... Subitamente chamas rastejaram a querer trepar da base da parede. Indy bateu-lhes com o casaco e por fim descobriu a brasa e atiroua para a rua. Pisou as fagulhas e abanou o pano da porta para fazer sair o fumo. No entanto o ar agitara-a e reacendeu uma fagulha que tinha ficado esquecida e a parede voltou a ser lambida pelas chamas. - Raios! - gritou, pegando num grande jarro de água que estava no chão e apagando o fogo. Quando teve a certeza de que todas as faíscas estavam extintas, baixou a lanterna e examinou os prejuízos. Um bocado da parede tinha ficado escurecida, e toda a cabana cheirava a fumo, mas a estrutura parecia ter ficado ilesa. A última coisa que ele queria era acabar o seu quarto de vigia deitando fogo à cabana.


Mas, pensando bem, talvez Dorian se não importasse. A cabana, que era feita de ramos, penas e cera de abelhas, era um a tentativa para recriar o primeiro templo de Delfos. Fazia parte de um plano levado a efeito por Stefanos Doumas para relacionar o presente com o passado e tornar as ruínas mais acessíveis e interessantes aos visitantes não científicos. Fora construída do lado de fora do templo por Doumas e seus assistentes pouco tempo antes do tremor de terra e conseguira escapar incólume a este. Quando tinham ali chegado e Doumas os acompanhara até à fenda, Dorian tinha parado junto à cabana, olhara para ela, e perguntara a Doumas o que era aquilo. Desatara a rir quando ele acabara a sua explicação, e comentara: - Então agora tornaste-te um promotor turístico ao mesmo tempo que arqueólogo. Foi isso que eu te ensinei quando eras meu aluno? - Bom, não exactamente, mas... - Na verdade, aquilo que eu te ensinei, Stefanos, é que os turistas são um aborrecimento muito dispendioso. As promoções turísticas sugam o dinheiro que deveria ser para investigação, e se os deixarem à rédea solta, os turistas destroem o nosso trabalho! Doumas ficara bastante abalado com a crítica, mas depressa se recompôs: - Pois bem, há um turista muito importante que cá vem, Dr.a Belecamus. Nada mais nada menos que o próprio rei, e tenho a certeza que é de opinião que lhe devemos agradar... Dorian afastara-se da cabana e durante alguns momentos ficou a olhar para o templo. Indy ficou admirado pela forma como ela conseguia ocultar bem os seus sentimentos. Devia estar a pensar que a viagem do rei a Delfos devia estar relacionada com a dúbia situação política da sua família e com o seu próprio regresso ali. 82 Quando se tornou a voltar para eles, sorria e disse: - E assim está tudo a acontecer ao mesmo tempo: os vapores estão a subir, e o rei vem aí... - E tu estás aqui! - acrescentou Doumas. - Sim, estou aqui. Agora diz-me lá mais coisas a respeito desses vapores... Doumas disse que os vapores tinham subido três vezes nesse dia, com cada erupção separada da seguinte de duas horas e


meia a três horas. - Muito bem. Vamos transformar a cabana num ponto de vigia e cronometrar os vapores... - disse. Quando Doumas protestou que a cabana não tinha sido construída para ocupação, ela lembrou-lhe que ele a tinha mandado chamar por causa dos prejuízos do abalo de terra e tinha solicitado a sua ajuda. E concluiu: - Já que eu vim de Paris, toda esta distância para esse fim, deixe-me fazer o meu trabalho como eu achar melhor, Stefanos. Ficamos entendidos? Doum as recuara imediatamente e desse momento em diante ficou praticamente assente que enquanto Dorian estivesse em Delfos, era ela quem mandava. Indy pôs o chapéu e saiu da cabana. O luar banhava as ruínas, iluminando as colunas do templo de Apolo e os destroços e restos das antigas paredes. Para lá do Templo a escarpa abrupta da encosta da montanha escondia-se na sombra deixando pairar uma sensação agoirenta. Esfregou as mãos uma na outra, para afastar o frio e dirigiu-se para o templo. Pensou em tudo quanto tinha lido nos últimos dias a respeito de Delfos, e tentou imaginar o que teria sido uma visita ali no pico do seu maior poder. O templo fora construído em meados do século iv a. C. depois de um templo anterior ter sido destruído por um abalo de terra. Nas décadas e nos séculos que se seguiram, fora estabelecida uma espécie de rotina regular. Os visitantes que procuravam o conhecimento do futuro, sacrificavam primeiro uma cabra ou uma ovelha e se a leitura das entranhas fosse propícia, eram autorizados a entrar no templo. "Se a pessoa fosse rica, com certeza que as entranhas eram propícias", pensou Indy. Depois de entrarem o portal, eles começavam por ver as paredes com inscrições de máximas de sabedoria, tais como «conhece-te a ti próprio...» e «tudo com moderação,». Para lá do portal havia estátuas de Poseidon, de Apolo e das três deusas dos Fados (1). *1 As três deusas mitológicas Clotho, Laehetis e Atropos que, segundo a lenda, regulavam o curso da vida dos mortais. (N. da T.) 83


Outros tesouros do interior incluíam uma estátua de Homero e a cadeira de ferro onde Píndaro se sentava quando vinha a Delfos cantar odes a Apolo. Abaixo do nível do solo ficavam as câmaras centrais do santuário. Uma gigantesca estátua de Apolo guardava a entrada do santuário interior chamado Adito. Nesse santuário interior estava a tumba de Dionísio e o tripé em que a Pítia se sentava e inalava os gases mefíticos que se criavam e subiam de uma abertura na terra. Ali próximo ficava o Onfalo, uma pedra preta em forma de cone considerada como o umbigo do mundo e que estava sempre perto da Pítia quando ela falava. Mas tudo isso tinha desaparecido; "perdido, roubado ou destruído", pensou ele ao atravessar a Via Sagrada, um caminho largo que serpenteava pelas ruínas. Paroujunto a uma corda que impedia a entrada no templo. Até se saber algo mais acerca dos vapores ninguém era autorizado a passar para além daquele ponto. Antes de ter sido colocada ali a corda, Indy mediu cuidadosamente a fenda. Tinha cerca de dois metros e setenta de largura no ponto mais largo, e cerca de nove metros de comprimento. O terreno em ambos os lados da abertura tinha como que inchado e sido atirado para cima, pelo que a fenda estava rodeada por montes de lixo e de terra. Era, no entanto, possível chegar-se perto da fenda, mas apenas pelo lado que ficava mais próximo da entrada do templo. Do outro lado havia como que uma trincheira de seis metros de profundidade a orlá-la. Uma ténue voluta de vapor começou a desenrolar-se lá no meio. Olhou para o relógio: 8 horas e 39 minutos. Quatro horas e vinte e três minutos depois da última subida de vapores; precisamente à hora prevista. Dentro de poucos segundos os vapores adensaram-se e dançaram por cima da fenda. Como seria inalar aquele gás? O mais provável era que fosse simplesmente água aquecida até à vaporização pela terra ardente lá em baixo, e empurrada pela pressão para a superfície. Raios, estava farto de ficar ali a vigiar os vapores. Iria experimentar o gás e provar que era inócuo. E se se sentisse mesmo ao de leve nauseado, só tinha de dar uns passos atrás e vir respirar ar fresco... Olhou para as ruínas e depois fez força na corda e passou-lhe uma perna por cima. O ar agira por cima do monte de terra, tinha um tom violáceo. O coração bateu-lhe com mais força quando levantou a outra perna. Talvez aquilo fosse um


erro. Talvez o gás fosse venenoso... Acaba com isso! Anda! Vai! - Jones, o que é que estás aí a fazer? Baixou a perna, ficando a cavalo na corda e olhou para trás, 84 vendo Dorian a sair das sombras da cabana. O luar caía sobre ela, iluminando-lhe um dos lados da cara. Meio desajeitadamente passou a outra perna e sorriu quando ela se aproximou. - Começou outra vez. Exactamente à hora... - Estou vendo... - aproximou-se dele. - Mas não me respondeste à pergunta: o que é que ias fazer? Tentou inventar uma desculpa, mas não era possível. Disse: - Ia ver mais de perto... - Pensei que te tinha deixado ficar bem claro que não quero que ninguém ali vá quando os fumos estão a subir. Não sabemos nada sobre esses gases... - Talvez sejam ichor, Dorian... Agora via-lhe bem o rosto; e ela não tinha achado qualquer graça na sua observação. Ichor era o fluído etéreo que corria nas veias dos deuses. - Não é a altura de ser petulante! - ripostou. - O estudo da arqueologia exige pensamento racional e um processo de trabalho feito passo a passo. - Se queres que eu fale racionalmente, óptimo. E o facto é que nunca saberemos nada até que alguém vá ali dentro e inale os gases. - E tu serias essa pessoa, suponho eu...? - Estou disposto a tentá-lo, porque penso que estamos aqui a perder tempo. - Não! - disse ela com firmeza. - Não é assim que o vamos fazer... Nesse momento os vapores dissiparam-se; foram adelgaçando e desapareceram. Dorian anotou a hora. - Onde é que está a tabela? - perguntou. - Tens tomado nota das horas? - Deixei-a na cabana, e tenho tomado nota das horas. Disse-lhe as horas a que os vapores tinham subido. Dorian abanou a cabeça e olhou-o: - Jones, se vais ser um arqueólogo, tens de aprender a ter paciência. A época do arqueólogo-aventureiro caçador de tesouros acabou. A arqueologia é um processo lento e trabalhoso. Estudamos os mais ínfimos pormenores, os


fragmentos, os resíduos, o lixo dos anos. E é assim que conseguimos avançar no nosso conhecimento do passado. - Tenho a certeza que sim. Mas neste caso temos de ver isto sob o ponto de vista geológico. Quanto mais tempo esperarmos maiores são as possibilidades de perdermos a placa por causa de alguma réplica ou de um outro sismo. - Tenho a consciência disso. - A voz tornara-se-lhe dura e fria. - Amanhã de manhã vou amarrar uma cabra junto à fenda e veremos as suas reacções. 85 - Uma cabra? - riu-se. - Tem a sua propriedade. Na lenda do original Oráculo de Delfos, fora um a cabra que primeiro inalara os fumos vindos de carcaças apodrecidas de Pitão, e que enlouquecera. Mais tarde alguns pastores haviam descoberto a fissura, e muitos deles intoxicados pelo fumo caíram pela fenda. - Também pensei que apreciasses isso. Indy, contudo, não desistira de a desafiar. E se ela se zangasse com ele, pronto. Era melhor do que ser ignorado. Desde que tinham ali chegado ela passara a tratá-lo friamente. Não só tinha deixado de ser sua amante, mas mal se lhe dirigia. Indy por vezes pensava se ela não teria um outro homem, possivelmente alguém que morasse na aldeia. Afinal ela trabalhara ali durante anos antes de ir para Paris. - Aposto que estás à espera que os gases sejam mesmo a sério, que faças as pessoas entrar em transe e ver o futuro... - Jones, estás a ser insolente e além disso a desconsiderar-me. Eu não tenho quaisquer ideias preconcebidas a respeito dos vapores. Não estou a tentar provar nada... - E se a cabra não reagir? - Então continuaremos o nosso trabalho. - Que é... - Decidi que serias tu a descer lá abaixo, na fenda. Claro que não és obrigado a ir, se não quiseres; isso é contigo. Estou a dar-te a primeira oportunidade... - Vou! - disse ele sem hesitar. - Quanto mais depressa melhor! - Ainda bem! Fico muito satisfeita por ouvir isso... Os olhos negros da mulher procuraram os seus, e ele teve a sensação que ela estava a olhar para além dele. Em voz mais suave ela acrescentou: - Desculpa se te tenho... ignorado. É que tenho tido muito que fazer.


- Isso é compreensível, penso eu. Tens muitos amigos na aldeia? - Por que é que perguntas isso? Ele encolheu os ombros: - Disseste que tinhas andado muito ocupada... - Ocupada com trabalho; não com afazeres sociais. Não sei se já deste por isso mas a gente da aldeia distancia-se bastante daqueles como nós que trabalhamos nas ruínas... - E porquê? - É uma espécie de tradição que já vem dos tempos em que a aldeia foi transferida para nos permitir a nós, arqueólogos fazer as escavações. 86 Ela sorriu e ia a dizer qualquer coisa quando ele deu um passo adiante e lhe quis pegar na mão. Ela recuou imediatamente e disse-lhe em voz deliberadamente formal: - Já podes ir jantar. A moussaka hoje está óptima. Eu fico de vigia até de manhã... Anda fria, pensou ele. E muito embora ela o tivesse como que avisado da forma como trataria com ele, mesmo assim doía. Ficou a olhar para ela a afastar-se para a cabana. Estava prestes a ir-se embora, mas em vez disso, sem mesmo saber porquê decidiu esperar. Sabia que ela ainda não tinha acabado de tratar com ele naquela noite. - Jones! - gritou ela. - Por que é que está aqui tanto fumo? Encaminhou-se para a cabana na altura em que ela vinha a sair e disse-lhe o que tinha sucedido. Ela fez um aceno de cabeça, com as mãos nas ancas e avançou alguns passos para fora da cabana. Depois chegou-se a ele: - Devias tê-la deixado arder toda... - murmurou. Inclinou-se para diante e beijou-o ao de leve nos lábios, e a barreira que se erguera entre eles balançou por momentos. - É melhor ires... - Está bem. Deixa-me levar os livros, não vá o fogo pegar outra vez... Ela riu-se e ele sentiu-se mais perto dela do que nunca desde o dia da chegada. Meteu os livros no saco de lona e deteve-se por momentos à entrada da cabana. - Estás ansiosa pela vinda aqui do rei? - Ansiosa? Nem pensar! Estou deliciada! 87


CAPÍTULO xI INTRIGA DE TABERNA Enquanto jantava, Indy ia folheando os livros, tendo cuidado de não salpicar as páginas com o molho grosso do guisado. Até a placa ser recuperada e limpa, queria aproveitar todos os momentos possíveis a estudar a escrita do grego antigo. Queria mostrar a Dorian que a escolha que fizera do seu assistente fora válida. Ouvia ocasionalmente fragmentos das conversas dos aldeães que comiam à sua volta. A maior parte delas eram sobre a visita do rei, desde há quanto tempo ele não ia ali, e quais as possíveis razões que o teriam levado a esperar que tivesse havido um terramoto para ali voltar. Por seu lado, os homens deitavam de vez em quando uma olhada a Indy, mas fora isso ignoravam-no completamente. Quando estava a acabar de jantar, tirou do bolso um lápis e fez umas contas. Se os vapores continuassem a elevar-se com os mesmos intervalos, voltariam a subir à 1 hora e 48 minutos da madrugada, às 5 horas e 43 minutos e depois às 10 horas e 24 minutos. Ora Dorian tinha dito que submeteria a cabra aos vapores, bem cedo na manhã seguinte, e nesse caso deveria ser às 5 horas e 43 minutos. E ele tinha de lá estar nessa altura: nada o impediria de assistir. Eram quase 11 horas da noite quando Indy pegou nos livros para sair. Apesar do adiantado da hora, ainda estavam diversas mesas ocupadas. Da taberna do lado de lá da rua chegou-lhe aos ouvidos o gemido de um instrumento qualquer de sopro que não conseguiu identificar. Ainda se sentiu tentado a ir até lá tomar uma bebida, mas resolveu não ir. Apesar de ter passado horas praticamente sem fazer grande coisa durante a sua vigília na cabana, estava cansado e pronto a ir para a cama. Atirou o saco dos livros para o ombro, olhou para o céu a espreitar as cintilantes constelações e dirigiuse para a estrada. Sentia-se como um dos antigos mestres gregos a caminho do maravilhoso Delfos. E o que é que o velho mestre poderia aprender com o Oráculo? Que iria criar uma grande obra da ciência, casar com a filha de um rei, vir a ser um grande e sábio mestre? E porque é que esse inteligente estudioso


88 não haveria de perceber que o oráculo era um instrumento dos sacerdotes e que aquilo que lhe diziam não era mais do que uma algaraviada de disparates? Naturalmente porque o não queria saber, porque não queria pagar o preço do conhecimento verdadeiro. Quando Indy ia a entrar no hotel Delfos, a porta abriu-se e saiu um rapaz delgado masjá bastante encorpado que teria cerca de 15 anos. Tinha o cabelo curto e as clássicas feições do clássico grego. - Olá Nikis! - Indy! Não me digas que te vaisjá deitar! É sábado à noite. Vem comigo até à taberna! - Mas tu não és ainda novo de mais para isso? Os olhos negros do rapaz olharam em redor, abarcando tudo ali à volta. - Que é que queres dizer com isso?-perguntou. Indy franziu a testa, Na sua terra até ninguém podia beber; aqui, era um miúdo de 15 anos que ia às 11 horas da noite para a taberna... - Gostas de retsina? - Eu não bebo - respondeu Nikos. - O meu pai não deixa. Mas posso ouvir a música e dançar. Vem, anda comigo! Vais ver que nos divertimos! Nikos era o recepcionista do hotel que era do pai. Crescera ali na pequena aldeia, mas como tinha estado sempre em contacto com imensos estrangeiros, tinha aprendido a falar inglês, alemão e francês. Indy voltou-se a olhar para a taberna, com certa hesitação, mas Nikos insistiu: - Dá cá os livros: vou guardá-los atrás do balcão. E também te podes divertir um bocado... Ele encolheu os ombros: - Está bem, mas apenas por pouco tempo... Entregou o saco ao rapaz e viu-o desaparecer lá para dentro do hotel. Não queria que Nikos ficasse ofendido com a sua recusa. Era uma valiosa fonte de informações, e praticamente a única pessoa que falava com ele. Além disso, uma bebida antes de ir para a cama era boa ideia, mas tinha de ser só uma. Queria estar no quarto à meia-noite, o mais tardar. Nikos falava em inglês com Indy, e fazia-lhe imensas perguntas a respeito da América. De uma vez tinha querido saber se era verdade que lá havia ruas pejadas de automóveis,


e se todas as casas tinham aparelhos de rádio. De outra vez perguntara-lhe se a América era maior do que a Grécia e a Turquiajuntas. Indy respondia-lhe o melhor que podia e em troca Nikos davalhe algumas informações sobre o que se passava na aldeia e nas ruínas. 89 Fora através de Nikos que soubera que Dorian e Doumas tinham discutido a seu respeito. Nikos não tinha ouvido tudo, mas contara-lhe que Doumas se queixara por ele não ter qualificações para trabalhar nas ruínas, e que a sua presença era uma verdadeira ofensa para arqueólogos gregos. E Doumas tinha ficado furioso quando Dorian se mantivera na sua. Agora Indy percebia os motivos para a ofensa de Doumas: Ela devia ter-lhe dito que fosse Indy a ir para a fenda e retirar de lá a placa. - Vamos! - disse Nikos quando tornou a sair do hotel. - Esta noite vamos divertir-nos. ias às tabernas em Atenas? Indy abanou a cabeça: - Não tinha tempo... - As melhores são as da Platia Flamouson Hetairae! comentou Nikos a seu lado, balançando os braços. - A praça das cortesãs que gostam de música... - Isso mesmo. Indy, o teu grego é muito bom! Quando se iam a aproximar da taberna Indy tornou a ouvir o fraco mas agudo gemido que já ouvira antes. - Que barulho é aquele? - Aquilo não é barulho, Indy: é música! É uma askómandra, sabes? Uma espécie de gaita de foles. Mas é feita com uma pele de carneiro... - Nunca ouvi. Olha lá, eles aqui tocam jazz? - Jazz? O que é isso de jazz? Indy riu-se: - Não, acho que não tocam. Quando fores a Chicago levo-te à Dreamland para veres as bandas de jazz. - Dreamland é na América? - Há quem pense que sim... - Indy abriu a porta e entraram na taberna. - Óptimo. Quero ir para a América! - gritou Nikos por cima da barulheira. No meio da taberna havia homens a dançar ao ritmo da música tradicional grega e do som lamentoso da askómandra. Indy olhou em roda, sentindo-se como que deslocado, mas quase


imediatamente a seguir um empregado de camisa branca que mais parecia uma blusa trouxe-lhe uma bebida. - Ouzo! - disse-lhe Nikos quando ele levantou o copo e observou o líquido transparente. - Pensei que seria uma cerveja... Nikos fez um gesto com a mão, para diante e para trás, ao mesmo tempo que abanava a cabeça: - Cerveja aqui, não. Só ouzo, retsina, raki e aretsinoto. - Evidente! - disse Indy, olhando a bebida de testa franzida. 90 - Em Delfos faz como os delfins... Vários homens à sua volta olhavam curiosamente para ele. Nikos anunciou orgulhoso! - É americano! Os homens assentiram e fizeram com os copos uma espécie de muda saudação, ou talvez a ensiná-lo como se bebia. Quando engoliu um trago da bebida que sabia a anis, dois dos homens deram-lhe palmadas nas costas, como que a felicitarem-no por qualquer rito de misteriosa admissão. Nikos olhou orguLhosamente em volta. Um dos homens,já velho e que tinha na cabeça um velhoboné de marinheiro grego, deu um passo em frente e resmungou-Lhe qualquer coisa. Indy abanou a cabeça, a dizer que não conseguia ouvir-lhe as palavras com o barulho à sua volta. Nikos chegou-se ao ouvido de Indy e disse-lhe quase a gritar: - É um velho tonto! Está a falar dos antigos deuses! - E que foi que ele disse? Nikos abanou a cabeça. Mas o velho era persistente. Bateu com um dedo no peito de Indy e tornou a falar. Indy olhou para Nikos interrogativamente. - Qualquer coisa a respeito de Pítia... - Qualquer coisa... como? Nikos falou ao velhote que tornou a olhar para Indy e resmungoú mais qualquer coisa. - Então? O que é? - insistiu Indy, vendo que Nikos nada dizia. - Eu já te disse que é um velho tonto. Até lhe chamam Louco... - Mas o que foi que ele disse? - Diz que a Pítia te tem a ti nas garras, e... - E o quê?


"... e que te vai devorar como a um ratinho. Foi o que ele disse! Indy rIu-se e inclinou-se a falar ao ouvido de Nikos: - Diz-lhe que ainda não a encontrei; mas que quando eu encontrar a filha de uma serpente, podes ter a certeza de que sei o que é... Um outro grego pôs-se à frente do louco, e agarrando num ombro de Indy disse qualquer coisa numa voz roufenha. Nikos explicou: - Está a convidar-te para ires a casa dele provar a retsina que ele mesmo lá fez... - Obrigado! - Indy sorriu e acenou ao velho. Para Nikos disse: - Aquilo tem um sabor horrível... O homem que não compreendeu uma palavra, sorriu agradecido. Indy e Nikos desataram a rir. - Um grupo de gente amiga... - disse Indy. Mas mal lhe tinham saído as palavras da boca o sorriso desvaneceu-se-lhe. 91 O círculo dos dançarinos desfez-se e os homens dispersaramse e, de repente, ele ficou a ver completamente o outro lado da taberna. Sentado a uma mesa junto à parede estava Doumas, e com ele estava um homem cujas feições Lhe pareceram familiares, de cabelo encaracolado. Olhando para ele Indy sentiu-se pouco à vontade, e esforçou-se por se lembrar onde é que o já tinha visto. E de repente lembrou-se. Era um dos homens que o tinham perseguido, a ele e a Dorian, na Acrópole. Tinha a certeza disso. - Nikos, quem é que está a falar com Doumas? Nikos estendeu o pescoço: Depois disse: - Chama-se Panos. Vive em Atenas, mas nasceu aqui; vem cá visitar a mãe. Traz sempre o filho com ele... - E como é que Doumas o conhece? - O Stefanos conhece toda a gente. Quis saber como é que o homem reagiria diante de si, e por isso sugeriu a Nikos que fossem lá cumprimentá-los. Nikos abanou a cabeça: - Não acho que seja uma boa ideia... - Porquê? - Panos não é uma pessoa... muito amigável, especialmente para pessoas como tu. Para estrangeiros, quero eu dizer. - Ora... o mundo é muito grande. Isso há-de passar-lhe...


Indy foi abrindo caminho entre as pessoas mas Doumas reparou nele e levantou-se, colocando-se entre ele e Panos. Quando Indy chegara a terra, Doumas tinha-se esforçado por exibir os seus conhecimentos sobre Delfos e sobre a arqueologia em geral, fosse em que altura fosse. Depois, por voltas do segundo dia, quando soube que Indy nem diplomado era em arqueologia, passara pura e simplesmente a ignorá-lo. - Boa noite, Stefanos! - disse Indy em ar de conversa. Quem é o teu amigo? Acho que ainda não fomos apresentados... - Mete-te na tua vida, Jones! Indy encolheu os ombros: - Pronto, pronto! - começou a voltar-se, mas em vez disso deu a volta em torno do gordo arqueólogo e com um gesto súbito levou Panos na sua frente. - Olá aí! O homem pareceu surpreendido. Abanou a cabeça e disse: - Não inglês... Indy bateu-lhe com um dedo no peito: - Eu conheço-te! - disse no momento em que a música recomeçara a tocar. - Andámos outro dia a jogar às escondidas na Acrópole... Doumas agarrou no ombro de Indy: 92 - Jones, que diabo é que estás a fazer? - gritou por cima do barulho da música. Indy deu-lhe uma violenta cotovelada na barriga, soltando-se da mão que o prendia. - E estavas a perseguir-me, a mim e à minha amiga, porquê? Falava lenta e distintamente, mas Panos apenas tornou a abanar a cabeça e tentou libertar o braço. - Indy, cuidado! - gritou Nikos; mas já era tarde. Indy só viu uma sombra pelo canto do olho. Não era Doumas, mas alguém maisjovem, mais delgado... e nesse momento o punho do recémchegado abateu-se violentamente no seu queixo. Cambaleou, indo chocar com um outro grupo de dançarinos. Alguém o agarrou pelos sovacos, e foi sendo atirado de uns para os outros. Vozes desconexas ecoavam em grego e o estrídulo lamento da Askómandra envolvia-o todo. Perpassaram-lhe pela frente dos olhos fragmentos de caras a rir-se; olhos e narizes mudavam de posição como num quadro cubista. E depois tornou a ver o homem , uma versão mais jovem de Panos. O estranho levou o braço atrás para outro soco, mas desta vez Indy reagiu com mais rapidez, e esmagou com um potente soco o nariz do adversário. E subitamente era Nikos


que estava a seu lado, dizendo: - Depressa, vem! Temos de sair! Estavam quase a chegar à porta quando Indy sentiu um arrepio na nuca ao ouvir um crescendo de gritaria atrás de si. Voltou-se a tempo de ver o homem a quem dera o soco a correr para ele com uma navalha erguida acima da cabeça. O homem desferiu o golpe no mesmo momento em que Indy erguia o braço para o deter, mas o golpe não atingiu o alvo porque Doumas apertara com os grossos braços o tronco do assaltante. Levantou-o em peso, rodou com ele no ar e puxou-o para trás. Indy olhou para trás e viu que toda a gente na taberna estava a olhar para si. Fez um fraco sorriso e disse: - Parece que são horas de ir para a cama... Recuou a sair pela porta e apalpou o queixo dorido. Nikos correu para o seu lado a perguntar: - Indy, estás bem? - Acho que sim. Olha lá, as tabernas em Atenas também são assim divertidas? Atrás deles ouviu uma voz forte, profunda: - Jones! Voltou-se e viu Doumas de pé entre as portas da taberna. Tinha o rosto vermelho e perlado de suor, e apontava-lhe um dedo agressivo, acusador: - O teu lugar não é aqui. Se queres tornar a ver alguma vez Paris, não te metas nos assuntos dos gregos! 93 Indy meteu a chave à porta do seu quarto do hotel, abriu-a uns centímetros apenas e pousou os livros lá dentro no chão. Olhou por cima do ombro a certificar-se que Nikos o não tinha seguido. Depois, em vez de entrar, bateu com a porta e atravessou o patamar em direcção à escada das traseiras. Já cá fora, deu a volta ao hotel e foi até às cavalariças e montou um dos cavalos do acampamento. Tinha de chegar às ruínas o mais depressa possível. Delfos era uma armadilha. Doumas devia fazer parte da conspiração contra Dorian e seu pai e ele tinha que lho dizer. Tinham de sair dali, e não havia tempo a perder. Não podia ir pela estrada que atravessava a aldeia; passava pela taberna e Doumas ou algum dos seus homens podiam vê-lo. Guiou o cavalo pelas traseiras da cavalariça até uma estreita vereda que atravessava o bosque. Ainda só tinha ido por aquele caminho uma vez, e fora durante o dia, acompanhado


de Nikos. Sabia que tinha de confiar no instinto do cavalo para achar o caminho de regresso a casa. Enquanto ia trotando, a escuridão envolveu-o com uma imensa venda. Pouco mais podia ver do que um metro à frente do cavalo. A vereda subia íngreme, depois descia. A seguir tornou a subir. Indy encostou-se para trás na sela, puxando as rédeas, reduzindo o andamento do cavalo a um trote curto. - Calma, pá. Vai só pelo caminho... De repente o trilho desceu abruptamente e o cavalo escorregou para o lado e soltou um relincho. - Oua, oua! - gritou Indy puxando-lhe as rédeas. "Aquilo era um erro, um tremendo erro..." - disse a si próprio. Mas agora já não podia voltar atrás. Tinha de lá chegar: fosse como fosse. Como que em resposta aos seus pensamentos o cavalo parou de repente. - Que foi, pá? In dy percebeu então que o trilho ali abri a-se em dois, e o cavalo estava à espera de indicações. - É pá, não sei! Vai para o acampamento. E sabes, para a cavalariça! O cavalo assoprou, abanou a cabeça e escavou no chão. Mas não se moveu donde est ava parado. E nesse momento Indy ouviu um barulho atrás de si. Virou a cabeça para ouvir melhor. Lá estava, outra vez. E logo a seguir o som de um cavalo que se dirigia no trilho para onde ele estava. "Jesus", vinham atrás dele... "Anda!" Virou a cabeça do cavalo para a esquerda, tocou-lhe com os calcanhares na barriga e deu-lhe rédea. O cavalo arrancou num trote e subiu a ladeira. 94 Deviam tê-lo visto a sair do hotel, e percebido o que ele ia fazer. E ali não era de forma alguma lugar para uma confrontação, mas isso era precisamente aquilo que eles queriam. Nada de testemunhas; perfeito. "Meu rapaz, és mesmo um anjinho...", pensou ao ouvir os seus perseguidores a aproximarem-se. Talvez devesse desmontar do cavalo, e incitá-lo a continuar pela vereda abaixo. Assim, eles perseguiam o cavalo e ele podia fugir. "Boa ideia!..." disse a si próprio; mas quando ia


para desmontar as rédeas fugiram-lhe das mãos. Procurou-as às apalpadelas no escuro, mas não as conseguiu encontrar. - Que se lixe! - disse em voz alta e começou a tentar desmontar mesmo com o cavalo em andamento; mas nesse momento o carreiro voltou a subir e um tronco de uma árvore bateu-lhe em cheio na testa, atirando-o do cavalo abaixo. Trambolhou no escuro indo cair com um barulho surdo no chão. Abriu a boca num profundo hausto do ar que a queda arrancara, e ouviu o barulho de cascos de cavalo. Rolou o estômago e depois com dificuldade pôs-se em pé. Cambaleou, um passo, depois outro, e acabou por cair de joelhos. Tentou levantar-se de novo, mas caiu para trás. Lá em cima as constelações giravam loucamente em círculos alucinados. Fechou os olhos e ao afastar-se daquilo tudo, desmaiou. Ao longe ouviu uma voz: - Indy! Indy! Estás bem? Piscou os olhos antes de os abrir de todo e viu Nikos. Disse: - Para onde é que eles foram? Vinham atrás de mim, e... - Era eu! Estava a ver se te alcançava; e quase que passei por cima de ti... - Olha, eu sinto-me como se estivesse passado mesmo... - Consegues andar? Sentou-se no chão e esfregou a cabeça: - Sei lá! Acho que não parti nada... Nikos ajudou-o a levantar-se. Perguntou: - Por que é que estavas a voltar para as ruínas a esta hora da noite? - Preciso de falar com a Dr.a Belecamus. Onde é que está o cavalo? - Ali em baixo - disse Nikos, apontando para o carreiro. Mas tu meteste pelo carreiro errado; este não vai dar às ruínas... - Indica-me o caminho, Nikos! - disse Indy, sacudindo o fato e dirigindo-se para o sítio onde estava o cavalo. - Indy, eu acho que devias ter cuidado com a Dr.a Belecamus... - Ter cuidado com ela? Porquê? - Por causa de ela ser quem é. Tu não sabes tudo a respeito dela... - Tens razão; não sei. 95 Lembrou-se do que Dorian Lhe tinha dito acerca da atitude


dos aldeães para com ela. Em voz alta acrescentou: - Havemos de falar nisso noutra altura. Agora preciso de chegar o mais depressa possível às ruínas... Soltou o cavalo da árvore onde Nikos o prendera e montou. - Ouv-me, Indy - gritou Nikos, correndo para ele. - Olha que é perigoso para ti estares perto dela! Indy olhou: - De que é que tu estás a falar? Nikos aproximou-se e pegou nas rédeas do cavalo: - O Oráculo vai regressar; e dizem que a Dr.a Belecamus é a Pítia... - Quem é que diz isso? - Aqueles homens na taberna. Panos e o filho dele, Grigoris. E também Doumas, acho eu. Todos eles são da Ordem... Indy abanou a cabeça, espantado: - Da Ordem? Que Ordem? - A Ordem de Pítia. São os detentores do antigo conhecimento! - E por que é que eles pensam que Belecamus é a Pítia? - O velho que lá estava na taberna, o Louco, é o mais velho membro da Ordem, e há muitos anos profetizou que a Pítia iria voltar um dia. Nessa altura ele disse que isso aconteceria depois de um tremor de terra e antes do rei chegar. - Óptimo. Mas isso não responde à minha pergunta. Por que é que Belecamus há-de ser a nova Pítia? - O Louco disse que a Pítia seria uma dória. - Uma Dória? E quantas há? Nesse momento lembrou-se de qualquer coisa que lera ainda não há muito tempo. Os Dórios eram uma tribo de invasores, cujo nome era sinónimo dos Tempos Negros da Grécia, por volta de 1000 a.C. Tinham substituído a deusa-mãe por divindades masculinas, e a sua influência poderia ter sido a razão da subida ao poder de Apolo em Delfos. Tinha havido imensos dórios, e Belecamus nada tinha a ver com eles. No entanto, ela era, sem sombra de dúvida uma dória". Nikos continuou a explicação: - Durante muitos anos, ninguém falou grande coisa acerca da profecia. Mas então, depois daquele tremor de terra, Doumas contactou a Dorian Belecamus, e foi quando ela disse que regressaria que Panos teve a certeza de que a profecia se ia cumprir... - E tu acreditas nisso? Nikos olhou espantado para ele: - Nunca ninguém me pergunta nada a esse respeito, Indy. E até eu sempre pensei que isso fosse conversas de gente tonta, até ouvir dizer que o rei vinha cá. Bem vês, assim acerta tudo...


- E como é que tu sabes tantas coisas do que se passa? perguntou Indy suspeitoso. Nikos sorriu e chegou-se mais para ele: - É o que eu faço melhor. Indy. Vejo e ouço. Há muitas coisas para ver e para ouvir. Se não fosse assim passava uma vida muito aborrecida... - Ainda bem, Nikos. Mas quer a Dorian seja a Pítia ou não seja, a verdade é que eu preciso de falar com ela. Esses homens são uma verdadeira ameaça... - Não, Indy; tu não percebes! Eles não estão interessados em fazer-lhe mal; o que eles querem é protegê-la! - Protegê-la? De quê? - Da gente de fora. Como tu... 97

CAPÍTULO XII NA NEBLINA Aos primeiros alvores acinzentados da madrugada, uma pequena e arisca cabra trepava o monte de velhos detritos. Esticava a cabeça, sacudindo-a de um lado para o outro como se não tivesse o controlo dos músculos do pescoço. Quando conseguiu chegar lá acima, inclinou-se para a frente, a esticar a peia que a prendia. Do sítio onde Nikos e Indy estavam, na Via Sagrada a umas dezenas de metros do monte, era difícil dizer se a cabra queria atravessar de um salto a fenda ou saltar lá para dentro dela. Eram 5 horas e 40 minutos da manhã e os vapores deveriam começar a subir daí atrêsminutos. Sem dúvida o arisco animal iria receber uma boa baforada. Indy olhou para Dorian e Doumas que conversavam amigavelmente, como se fossem os melhores dos amigos. Pensou em todo o trabalho que tinha tido a noite passada só para chegar até ela, e afinal para nada. Tinha corrido para a cabana e tinha-lhe falado dos homens na taberna, e tudo que tinha ficado a saber sobre a ordem de Pítia. Dorian tinha ouvido em silêncio até ele terminar o seu relato e depois limitara-se a dizer-lhe que ainda bem que se tinha resolvido o mistério dos dois homens; que assimjá podia ficar descansada. E que agora podiam tratar dos seus assuntos.


Indy ficara assombrado com aquela atitude. Ela não ficara nada preocupada com a organização e tinha até achado graça ao facto de eles pensarem que ela era a Pítia. Sabia desse grupo já desde há muitos anos, dissera. Era simplesmente uma coisa que fazia parte do folclore e da cultura da aldeia, e os homens eram Inofensivos. E também sabia que Doumas tinha tido um certo interesse na Ordem; na realidade era uma coisa que ele até tinha encorajado, porque proporcionava um elo de ligação entre a aldeia e os cientistas. Indy regressara ao hotel sentindo-se como um balão que alguém tivesse furado. Estava um bocado confuso, mas reconhecendo que provavelmente Nikos tinha razão; que a Ordem estaria mais preocupada com ele, um estranho, do que com Dorian, a suposta Pítia. 98 Como a demonstrar a sua preocupação, Nikos tinha-lhe pedido para o deixar ir com ele na manhã seguinte. Embora relutante, Indy tinha transmitido o pedido a Dorian, e ela tinha autorizado, mas depois de estipular que ele ficaria responsável pelo rapaz. Subitamente, Doumas soltou um grito e apontou para a fenda. Indy olhou para lá, à espera de ver os vapores, e por momentos não conseguiu compreender porque motivo Doumas estava tão excitado. Depois viu que a cabra tinha conseguido partir a estaca a que estava presa e que ia saltitando precariamente à beira do abismo. - Eu apanho-a! - gritou Nikos, saltando por cima da corda que bloqueava a entrada. - Não, deixa lá! - gritou Indy. - Sai daí! Mas Nikos já se tinha atirado para a base do monte de detritos. - Raios te partam, Nikos! - Indy correu atrás dele, mas deteve-se a alguns passos do monte. Nikos estava agachado a pouco menos de um metro da corda. - Calma, menina, calma... - dizia suavemente Nikos, aproximando-se lentamente do animal que estava como hipnotizado a olhar para o abismo. O rapaz ia quase a agarrar a corda quando se ouviu um surdo rugido de uma espécie de silvo sinistro e agoirento. "Jesus, outro tremor de terra...", pensou Indy. E depois lembrou-se que já ouvira um som semelhante, embora mais fraco, na noite em que tinha visto subir os vapores. A cabra tropeçou; escorregou para a beira do abismo. Nikos


mergulhou e agarrou a ponta da corda e puxou. O súbito esticão desequilibrou o animal, mas instantes depois estava de novo em pé e a trepar para o topo do monte. Para lá da cabra, começaram a elevar-se nos ares as primeiras volutas dos fumos. Indy correu para junto de Nikos e tirou-lhe a corda da mão. - Deita-te! - ordenou. Estava prestes a puxar o animal para baixo, quando se recordou do que tinham planeado fazer. Deixou-se ficar rente ao chão, cobrindo o nariz e a boca. Olhou uma vez para cima e viu a cabra imóvel, envolta numa névoa densa e branca. Tinha a cabeça baixa, a oscilar lentamente de um lado para o outro. Depois, sem qualquer espécie de aviso, a cabra deu um esticão e a corda escapou-se das mãos de Indy. Viu-a esgueirare e levantou a cabeça para a ver melhor. A cabra estava a executar uma estranha dança, rodando em círculos apertados, a contorcer o corpo em posições esquisitas, invulgares. Bateu com os cascos no chão, primeiro os da frente e depois os de trás. A seguir deixou-se cair de joelhos e ficou a bater com os cornos no chão. Nikos subitamente atirou-se para o monte atrás da corda. - Volta aqui! - gritou Indy; mas era demasiado tarde. 99 Os vapores tinham-se adensado e Nikos desapareceu no meio da névoa juntamente com a cabra. A névoa pairava sobre os detritos e dirigia-se para ele. Era quase como se aqueles vapores tivessem consciência e se tivessem apercebido da sua posição. Indy ficou sem saber se ir procurar Nikos ou recuar. Depois, tão depressa como desaparecera, Nikos saiu da névoa e ambos fugiram do templo. - Vocês estão bem? - perguntou Dorian, olhando alternadamente para Indy e para Nikos. - Onde é que está a cabra? - perguntou Doumas. - A cabra estava a dançar! - disse Nikos. - Quase que Lhe conseguia agarrar a corda, mas ela saltou mesmo para o buraco... - Tens a certeza? Talvez tivesse saltado para o outro lado... - disse Doumas. - Por que é que o deixaste ir lá acima? - perguntou Dorian acusadoramente a Indy. - Fui eu que fui sozinho! - disse Nikos. - Foi só culpa minha. Eu queria mostrar-te que era capaz de salvar a cabra... A névoa finalmente dissipou-se, mas a cabra não estava à


vista. Subiram o monte e Indy seguiu Nikos de volta até ao outro lado, para espreitarem pela estreita abertura. Estava vazia. E então ficaram com a certeza: a cabra ficara perdida. Dorian pousou a mão no ombro de Nikos quando atravessaram para o outro lado. Disse-lhe: - Pronto, deixa lá. respiraste aqueles vapores? Ele abanou a cabeça: - Acho que não. Sustive a respiração... - Bom... - Dorian ficou por momentos a olhar para o fundo do abismo. - Seja como for, foi pena, isso da cabra. Agora ficamos sem saber se a sua reacção era um medo temporário ou se era mesmo por defeito dos vapores... - Penso que era apenas medo - disse Indy. - Puxar-lhe a corda como Nikos fez era o suficiente para o animal reagir daquela maneira... - Talvez... - disse Dorian. - Mas não podemos ter a certeza. A dúvida na sua voz era evidente. Parecia-lhe que Dorian estava a tentar convencer-se a si mesma que os vapores produziam um qualquer efeito. - A única maneira de se ficar a saber com certeza que os vapores são inofensivos é um de nós respirar um pouco deles disse Indy. Dorian assentiu: - De acordo. Da próxima vez que os vapores subirem vou eu mesma fazê-lo. 100

- Vais? - Indy que ainda na véspera estava disposto a inalar aqueles vapores, agora já não estava seguro de que isso fosse uma grande ideia. - É tempo de acabarmos com as especulações. Além disso, eu nunca o faria se pensasse que era realmente prejudicial... Voltou-se e desceu o monte, afastando-se do templo. Indy olhou para Doumas, à espera que ele protestasse. Mas o homem limitou-se a ficar a olhar para ela. Daí a quatro horas e meia saberiam. A expressão de Panos era de uma rígida determinação quando seguia pela estrada de terra batida e orlada de árvores com Grigoris a seu lado. A confrontação com o estrangeiro Jones tinha-o enervado e ao mesmo tempo levara-o a tomar uma decisão.


Sabia que chegara a altura: Dorian Belecamus tinha de ser enfrentada. Devia dizer-se-lhe, e ela tinha de compreender. Semicerrou os olhos por causa do sol que se erguera por cima do pico da montanha. Passaram a curva para a cavalariça e a oficina, e seguiram em frente mais um bocado até chegarem a um trilho onde uma antiga muralha tinha outrora rodeado Delfos. O trilho levara-os acima do «recinto sagrado» e iriam aproximar-se pelo lado dos degraus do anfiteatro sobranceiro ao Templo de Apolo. Era um percurso mais longo, mas pelo menos por ali ninguém os veria chegar. - Ela não te vai ouvir, pai! - disse Grigoris, andando mais depressa para acompanhar a passada de Panos. -Ela é uma intelectual: vai-se rir de ti. Vai pensar que não passas de um camponês ignorante, cheio de ideias e de superstição... - E tu, é também isso que pensas? Panos estava confiante de que o filho era profundamente dedicado à Ordem, mas mesmo assim de tempos a tempos, gostava de o pôr à prova. Grigoris hesitou antes de responder. Acabou por dizer: - Se eu tivesse crescido em Atenas, e tivesse andado lá nalgum colégio, com certeza que era isso que pensava... Panos olhou-o com marcada expressão desaprovadora; tinha ensinado o filho a responder clara e directamente às perguntas, não a fazer comentários obscuros. Grigoris acrescentou logo a seguir: - Mas a verdade é que eu sei muito mais: não tenho as vistas curtas como os intelectuais. Estou aberto para aceitar aquilo que eles consideram superiormente como inacreditável... Panos abulhiu a sua concordância. Era a resposta que esperava Grigoris lhe desse; sentia-se orgulhoso. Um dia havia de vir. 101 que seu filho seria o líder da Ordem de Pítia. E como Sumo Sacerdote de Delfos, e emissário de Apolo, viria a ser um homem determinado; disciplinado. Mas primeiro precisava de aprender a compreender as suas mais negras emoções. Se o não conseguisse fazer, Panos sabia que todos aqueles anos que levara a preparar o seu filho para aquele papel, teriam sido anos perdidos. Sempre que se sentia preocupado com o temperamento de Grigoris, pensava nos deuses do Olimpo. É que eles também muitas vezes se comportavam tão mal como o seu filho.


Eles eram afinal um autêntico bando tempestuoso que conseguira o poder após uma luta brutal com os seus antecessores, os tãs. Apolo, em essencial, mostrava o mesmo tipo de agressividade de Grigoris. Sempre que em Delfos Apolo era consultado acerca da viabilidade de se travar uma guerra, a maior parte das vezes ele aconselhava que se invadisse imediatamente o inimigo. O trilho fez uma curva e os dois homens saíram mesmo acima da curva de bancos de pedra que formavam o velho anfiteatro. Lá em baixo o templo tinha a cobri-lo um manto de névoa, como estava sempre ao princípio da manhã. Panos ficou por momentos a olhar para baixo. Mas conseguia distinguir as colunas: mas aquele não era um nevoeiro vulgar: a manhã já ia alta para isso. Eram os gases mefíticos, ichor, a linfa dos deuses, a dar-lhe as boas vindas. Fosse porque motivo fosse, parecia-lhe que sempre soubera que os vapores se elevariam nos ares quando ele ali chegasse. Era mais um sinal de que chegara a hora. Olhou por momentos a desconjuntada cabana cá fora do templo, entre a Via Sagrada e o sítio onde em tempos ficara o santuário de Poseidon. Doumas tinha-lhe dito que a cabana fora construída de maneira a poder ser levada por alguns homens para a orla da fissura onde ele e Pítia instituiriam a corte para o rei e para outros que solicitassem os seus serviços. Mais tarde, quando o renascimento de Delfos fosse mais largamente conhecido, haveria dinheiro suficiente para a construção de um novo templo. Na opinião de Panos as ruínas dos velhos edifícios bem podiam ser arrasadas para dar lugar a outros novos. Acima de tudo, Panos estava ansioso por ouvir a Pítia falar. Sa bia que perceberia imediatamente aquilo que para os outros não passava de um linguajar incompreensível. A críptica linguage dos deuses era um legado da Ordem; não se aprendia como uma vulgar língua: aprendia-se a um nível muito mais profundo. Ao longo de seiscentos anos, geração após geração, e século após século, a Ordem tinha servido de curadora do conhecimento sagrado dos seus segredos. Por vezes a Ordem tinha perdido um ou dois membros, mas o conhecimento e os segredos tinham sempre sobrevivido. 102 Os Panos não tinham quaisquer dúvidas de que os deuses


haviam protegido a Ordem, haviam guiado os seus membros, instilando sempre neles a convicção de que o Oráculo um dia regressaria ao mundo. Afinal, os deuses e o destino eram uma só entidade, e o regresso de Pítia era inextricável. E agora, finalmente, após longos séculos de espera, ia começar a nova época...

Nesse momento viu Dorian Belecamus, a Pítia, a sair da cabana. Deteve-se e viu-a entrar no templo e desaparecer na névoa. Quase lhe apeteceu gritar de pura alegria. Tinha-se cansado de pensar, tentando descobrir um processo de a levar até aos vapores para lhe provar que ela é verdadeiramente Pítia: e afinal ela fazia-o de motu próprio. Isso ainda mais lhe arraigou a certeza de que tudo se estava a realizar como estava determinado. Desceu quase a correr os degraus de pedra com Grigoris só um passo atrás dele, e quando se aproximaram da base do anfiteatro surgiram mais dois vultos, que foram atrás de Pítia. - Vão para dentro do templo! - gritou Grigoris. E então, antes de Panos ter tido tempo para lhe dizer que olhasse e que esperasse, Grigoris deu um grito a chamar Doumas. Este e Indy pararam e voltaram-se para o teatro. - Não tens o mínimo sentido de prudência! - ralhou Panos, sentindo ao mesmo tempo que o dizia, que afinal Grigoris estava certo: era a altura de agir, não a de vigiar e espiar. - Panos! - gritou Doumas. Agitou freneticamente as mãos. Grigoris desatou a correr e Panos apressou-se a seguir o filho. Quando chegaram ao pé dele, Doumas explicou-Lhes aquilo que eles já sabiam. Belecamus estava na névoa e nãohavia sinais dela. Jones ficara uns passos atrás deles e olhava-os com curiosidade. Se o incidente na taberna o assustara, não mostrava sinais disso. Grigoris interpôs-se entre Jones e o templo. E disse: - Eu tomo conta dele, pai. - Que é que se passa? - perguntou Jones. - Nada da tua conta! - ripostou Doumas. - Não esqueças aquilo que ontem te disse... Grigoris deu um passo em frente como que para reafirmar que fora ele quem o atacara. Panos voltou de novo a atenção para o templo, e perguntou a Doumas o local exacto da fissura. O rotundo arqueólogo, mais parecendo um pato a andar, deu alguns passos em frente e apontou. E nesse preciso momento um guincho arrepiante cortou


os ares vindo do den so véu de névoa. Aquele som arrepiante fez correr calafrios pela espinha de Panos. - Fiquem aqui e esperem por mim! - disse, correndo para o templo. Saltou por cima de uma corda e dos restos da parede, 103 e trepou o monte de detritos que estava parcialmente coberto pela névoa. Sabia que os vapores só afectavam aqueles que eram susceptíveis de entrar em estado de transe, e que ele, como sacerdote da Ordem, estava protegido. Mesmo assim inspirou profundamente e susteve a respiração enquanto subia o monte. Chegou lá em cima e olhou em roda. Nem sinais dela. Soltou a respiração e cautelosamente farejou o ar. A névoa não cheirava a nada, nem causava efeitos imediatos que desse por isso. Deu um passo em frente e olhou lá para baixo, para a hiante boca do abismo. Sentiu um aperto no coração ao lembrar-se de que o grito que tinham ouvido talvez tivesse sido o derradeiro apelo de Pítia antes de tombar no vazio. Não haveria regresso: pelo menos nos dias da sua vida. Belecamus era mesmo a tal: ninguém a poderia agora substituir. Como é que ele tinha podido errar daquela maneira? De repente sentiu-se estonteado, assim como costumava ficar depois de ter bebido alguns copos de retsina. Estonteado, mas com a mente clara. Sentia-se extraordinariamente vivo, a pressentir que ia acontecer qualquer coisa. Cuidadosamente deu um passo atrás a afastar-se do abismo: e uma mão agarrou-lhe no cotovelo. Voltou-se sobressaltado e sacudiu o braço para o soltar. Era Belecamus e tinha as mãos erguidas como se se estivesse a preparar para o lançar para o buraco. Nesse momento viu-lhe o rosto: os olhos pareciam rolar-lhe numa fuga para cima, tinha a boca muito aberta e a língua pendente para o lado. Abriu a boca de espanto, e só conseguiu perguntar: - ... sabes quem és? Moveu os lábios e a cabeça oscilou-lhe para a frente e para trás, mas não pronunciou uma só palavra. - Tu és Pítia. Tens de o compreender. O Oráculo regressou, e tu és Pítia! Ela deu um passo inseguro para diante e abanou a cabeça para um lado e para o outro. O maxilar movia-se para cima e para baixo, sem que da boca lhe saísse qualquer som. Depois, num súbito assomo de energia, girou sobre si mesm a agitando os braços e aproximou-se da orla da fenda. Preparava-se para se


lançar no abismo. Panos agarrou-a firmemente pela cintura e puxou-a para trás. Murmurou-lhe ao ouvido: - Aceita! Tens de o aceitar... Ela ficou a balouçar lentamente nos seus braços, de um lado para o outro. Depois, bem lá do fundo do seu corpo soltou-se um gemido, um ronco de incontrolável dor, cada vez mais forte, como o de uma mãe ao dar à luz. Teve um tremor violento e desmaiou. Panos ergueu-a, e ao fazê-lo reparou que o ar estava a clarear. Levoua dali, sabendo que a transformação se tinha completado. Dorian Belecamus era Pítia, e da próxima vez que os vapores se levantassem ela seria de novo atraída para a névoa, e ele estaria lá também. O seu guia; o seu intérprete. A sua voz para o mundo inteiro. 104 105 CAPÍTULO XIII LEITURAS Dorian estava junto a um banco da platia a olhar para o vale. Tinha um vestido de algodão campestre em vez das calças largas que semprevestira desde que chegara. Tinha as mãos assentes nas ancas. Quando Indy atravessou o parque para se aproximar dela, pareceu-lhe estar a ver uma estátua grega. Parou a alguma distância dela e aclarou a voz. Perguntou: - Como te sentes hoje? - Muito melhor... - respondeu, sem desviar o olhar do vale. A intensidade do seu olhar fez-lhe pensar que ela estaria a ver qualquer coisa em especial; mas a única coisa que ali havia para ver era a paisagem no seu todo. Uma bela paisagem, sem mais nada que fizesse qualquer pessoa olhar tão intensamente como ela o fazia. - O que é que estás a ver lá em baixo? - perguntou. Ela não hesitou: - História... cultura... o passado! - a voz era suave, calma. Distante. Indy voltou a olhar para o vale. Tinha passado dois dias


desde que Panos a trouxera em braços do templo. Ela tinha dormido profundamente durante onzehoras, e depois de ter acordado tinha sido observada por um médico, que Lhe não descobrira nada de mal. Dissera que ela estaria provavelmente a sofrer de stress e de sobrecarga de trabalho e aconselhou um descanso. Apesar disso, pelo meio dia do dia seguinte ela tinha ido para a oficina que ficava perto das ruínas e lá ficara até às 9 horas da noite. Parecia como que alheada; como se só parte dela estivesse ali presente. Seria cansaço? Ou teriam sido os vapores? Indy pensara imenso nisso, e acabara por decidir que deveriam ter sido as duas coisas juntas. Ela tinha andado a lutar contra a exaustão durante muitos dias, e os vapores, ou pelo menos as suspeitas que ela tinha tido acerca deles, teriam desencadeado o colapso; um naturalíssimo colapso nervoso. 106 - Muito bem, Jones! - disse ela, afastando o olhar do vale , Não podemos passar toda a manhã aqui no parque. Temos trabaLho a fazer... - Tens a certeza que estás capaz para isso? Ela endireitou-se: - Estou bem. Melhor, estou óptima. Sinto-me óptima! A súbita mudança do seu estado de espírito, aquela sua nova energia, surpreenderam-no. Era como se ela tivesse acabado de despertar de um sonho. - Que é que vamos fazer? Ela olhou para ele como se pensasse que ele tinha endoidecido. Perguntou: - Então não sabes que temos de retirar a placa lá da fenda o mais depressa possível? Já perdemos demasiado tempo! Quero a placa limpa e em exposição quando o rei chegar, depois de amanhã! - Não estás a levar as coisas depressa de mais? Pensava que a arqueologia era um trabalho lento e pormenorizado... Ela sorriu-lhe: - E é. Mas isto é uma emergência. Cada hora que aquela placa continua lá dentro da fenda, mais aumenta o perigo dela se perder... Agora ela parecia tão ansiosa como ele tinha estado, antes de ter penetrado na névoa.


- Por que é que a queres mostrar ao rei? - perguntou. - Não achas que a sua vinda aqui pode ser uma forma de te perseguir por teres regressado? Ela riu-se: - Ora! Deixa-te disso... - Onde é que está a graça? - É que o rei pode ser impertinente e mesquinho, mas não anda a cozinhar e alterar planos e fazer viagens de emergência, só por causa de uma pessoa como eu. Duvido até que ele saiba que eu estou cá... - E não pensas que haja algum perigo agora por parte dos inimigos da tua família? Ela abanou a cabeça: - Não. Principalmente aqui em Delfos... Não te preocupes. Estamos em segurança, e quando o rei vir o novo achado, vai ver que até os tremores de terra têm o seu lado bom... Indy encolheu os ombros ainda perplexo por aquela súbita urgência em tirar a placa e pela sua súbita e benigna atitude a respeito do rei. Acabou por perguntar: - Então o que é que queres que eu faça? - Está tudo a ser preparado. Vais fazer a descida precisamente ao meio-dia. - E os vapores? - perguntou. 107 Dorian afastou um pouco os cabelos para trás dos ombros. - Tive isso em consideração. Esta manhã subiram às 9 horas e 3 minutos, cinco horas e trinta e cinco minutos depois da última subida: um acréscimo de seis minutos ao intervalo. O mesmo ritmo de sempre. In dy tirou o relógio do bolso e começou a calcular a hora da próxima subida. Ela olhou por momentos e disse: - Às 2 horas e 44 minutos. Vais ter tempo suficiente. Tudo o que tens a fazer é colocar a rede em posição por cima da placa, e picar a terra na base dela. - E se os vapores vierem mais cedo? A pergunta fora ditada pela sua curiosidade em saber qual a sua reacção, porque ela pouco tinha dito sobre a sua própria experiência. - Não temos qualquer motivo para pensar que eles não sigam a mesma cadência de sempre... - disse ela, evadindo a intenção da pergunta. Indy tornou a olhar para o relógio e depois guardou-o. Eram 10 horas e 35 minutos. Ficou a pensar no que iriam fazer até


ao meio-dia. Disse: - Acho que eu podia ir descansar um bocado antes do meio dia. Voltas para o hotel? Se ela percebeu a sua oculta intenção, não o mostrou: - Eu disse que tínhamos trabalho a fazer, Jones. Vamos para a oficina: quero vistoriar contigo as ferramentas... Dirigiu-se a passos rápidos para o hotel, junto do qual estavam amarrados os cavalos. - Vens, Jones? - perguntou por cima do ombro. Indy enterrou o chapéu na cabeça e seguiu-a. Quando iam a montar os cavalos, ainda perguntou: - Olha lá: E o Doumas? Ela franziu a testa: - O que é que tem? - Ouvi dizer que ele era contra a ideia de ser eu a ir lá buscar a placa... Fez um gesto de negligência com a mão, e respondeu: - Ah, já lhe passou. Era só um caso de orgulho ofendido... Indy assentiu em silêncio, mas não deixou de pensar nas relações de Doumas com a Ordem de Pítia. Quando já iam cavalgando fora da terra, passou-lhe pela ideia a dúvida se o arqueólogo estaria tão interessado como Panos e o filho em proteger Dorian das pessoas de fora. Se assim era, entrar na fenda com ele em qualquer parte das imediações podia ser coisa perigosa. Por outro lado Doumas também estava interessado na placa, raciocinou. E por esse motivo, o mais certo era não fazer nada que pusesse em perigo a sua recuperação. 108 Iam já quase a meio caminho da oficina quando Indy avistou um vulto solitário parado à beira da estrada. Quando se aproximaram dele verificou que era o velho do boné de marinheiro grego que lhe tinha falado na taberna. O Louco. Com tudo o que tinha acontecido desde essa noite, quase o tinha esquecido. Tentou recordar-se do que o homem lhe dissera: Qualquer coisa a respeito de Pítia. "Que ela o devoraria..." sim, era isso. E agora parecia-lhe que fazia muito mais sentido do que quando ele o dissera. Mesmo assim... se calhar não passava de baboseiras de um velhote de taberna. O velho ficou a olhá-los, quando passaram. Indy perguntou a Dorian: - Conhece-lo? Ela sorriu, e era evidente que conhecia: - Não é pessoa com quem nos preocupemos...


- Ouvi dizer que é membro da Ordem de Pítia, e que tem feito profecias... Em resposta ela riu-se e abanou a cabeça: - Talvez seja então por isso que na aldeia lhe chamam o Louco; ninguém o toma a sério... Como que a indicar-Lhe que não queria falar mais do velho, tocou com os calcanhares os lados do cavalo que começou a galopar distanciando-se do seu. Indy foi em sua perseguição durante todo o caminho até chegarem às cavalariças onde deixaram os cavalos e depois foram a pé até à oficina ali perto. Era uma construção construída em madeira que do lado de dentro mais parecia o interior de uma biblioteca poeirenta e mal iluminada. Só que em vez de livros, as filas de prateleiras continham artefactos. Tanto quanto se podia dizer de uma primeira observação nenhum deles era do tipo de antigo artesanato que pudesse interessar os caçadores de tesouros. Nem ouro, nem prata nem pedras preciosas ou valiosas. Nem sinais do vasto tesouro que Creus tinha oferecido por uma só leitura: cento e dezassete pedaços de metais preciosos, um leão de ouro que pesava trezentos quilos, uma estátua do seu mestre pasteleiro com mais de um metro e meio de altura e uma imensidade de outros tesouros. Toda essa fortunajá de há muito se dissipara, levada por reis, imperadores e por muitos outros. Só Nero, por si só, havia roubado de Delfos quinhentas estátuas de ouro. Muitas das prateleiras estavam atulhadas com filas e filas de placas do tamanho de uma mão onde estavam inscritas velhas leituras. Perto de uma dúzia delas estavam pousadas sobre a comprida mesa onde Dorian costumava fazer o seu trabalho. - Tens estado a pôr as leituras em dia? - perguntou Indy, passando ao de leve os dedos por uma das inscrições. - Ontem li umas centenas delas - disse. 109 - Porquê? - Há anos que eu não lia nenhuma; e é bom que refresque de tempos a tempos o teor destas leituras... Indy pegou numa das placas e traduziu o grego antigo. Era uma leitura banal a respeito dos planos de um mercador quanto a vender seiscentos fardos de lã a um novo cliente. O Oráculo dissera-lhe para se manter firme no seu preço, e depois para baixar um pouco antes de concluir o negócio e sssim firmaria um longo e proveitoso relacionamento com o cliente, que


duraria muitos anos. Pousou a placa, ficando a pensar o que é que Dorian lucraria com a leitura daquele material. Talvez fosse apenas um a forma de relaxar, depois do seu colapso nervoso. Estava muito interessado em ouvi-la falar da sua experiência, mas da única vez que tinha abordado o assunto, ela nada dissera que pudesse revelar o que pensava sobre o assunto. Ficou a olhar para ela, a vê-la tirar uma mochila de um armário e levá-la para cima da mesa. Espalhou no tampo seis espigões com os ferros de tamanhos diferentes, e explicou que, originalmente, todos eles tinham tido o mesmo comprimento, mas que tinham sido desgastados pelo uso. - Muitos arqueólogos - disse -, preferem servir-se de colheres de pedreiro, porque provocam menos prejuízos nos artefactos. Mas eu cheguei à conclusão que, se se tiver cuidado, o espigão é uma ferramenta muito mais manejável. Anda lá: escolhe um. Indy passou a ponta do que escolhera pela palma da mão. - Tens a certeza de que não vou estragar a placa? - Só se batesses nela. Demora o tempo que precisares e trabalha em torno da base. Da parte que está visível, eu diria que quinze a vinte centímetros dela estão enterrados. Não precisas de chegar muito ao fundo... - Por que é que umas vezes se serviam de placas grandes e outras vezes pequenas? - perguntou. - A maior parte das leituras ficava registada em placas pequenas; mas as leituras importantes, que não eram para uso individual mas para toda a gente, eram muitas vezes escritas em placas grandes, como essa que tu vais recuperar. Indy apontou para uma série de pincéis que tinham ficado dentro da mochila e perguntou se precisaria de algum. Dorian respondeu: - Não. A placa vai ser limpa depois de ser tirada do buraco. - Meteu a mão no saco e tirou um pincel de cerdas rijas: - Em todo o caso leva este, para a eventualidade de surgir alguma coisa inesperada. E, antes que esqueça, aqui tens um suporte de lanterna e um maço para o cravar na parede. 110 Enquanto Indy colocava as ferramentas na sua própria mochila, olhou em torno de si, como se lhe faltasse qualquer coisa. - Stefanos deve já ter levado as cordas e a rede. Uma das


cordas é para tu ires preso e a outra é para a placa. Cobre a placa com a rede assim que lá chegares, e depois prende os ganchos na abertura do laço na ponta da corda. - Acho que posso dar conta disso! A forma como ela o estava a tratar era irritante. É certo que talvez ele não tivesse muita experiência, mas não era um completo imbecil e sabia muito bem prender ganchos na ponta de uma corda... - Alguma pergunta? - Acho que não. Ela cerrou os lábios e ele nada leu na sua expressão. Depois de uma curta pausa disse-lhe: - Tudo isto te pode parecer muito elementar, mas aquilo que te tenho estado a dizer pode representar a diferença, o sucesso e o falhanço. Não quero que chegues lá abaixo e não saibas o que tens a fazer, ou, pior do que isso, que faças alguma coisa errada. - Quanto tempo pensas que demorará? - não vais poder trabalhar confortavelmente, pendurado na ponta de uma corda, durante muito tempo. Nós vamos puxar-te para cima ao fim de quinze minutos. Depois, se estiveres em condições para isso, tornamos-te a descer outra vez, após um descanso de quinze minutos. - Talvez acabe logo na primeira descida. Ela sorriu: - Não contes com isso. Trabalhar naquela posição não vai ser fácil. Se não acabares mesmo depois do segundo período, espera até os vapores se dissiparem e tentamos outra vez pelas 3 horas. - Então os vapores são perigosos? Dorian correu o fecho da mochila, a fechá-la. Disse apenas: - Seria difícil trabalhar no meio dos vapores, não achas? "Continuava a esquivar-se", pensou ele. Respondeu: - Claro, principalmente se forem perigosos... Ela levou a mochila para o cacifo do armário e guardou-a. Era altura de a apertar: - De que é que tu te recordas? Ela voltou-se e parou em frente dele: - Como? - Nos vapores. O que foi que sucedeu? Dorian desviou o olhar para o monte de placas que estava sob a mesa. Depois de uma curta hesitação, disse: 111


- Não tenho a certeza, Indy. - A voz tornou-se-lhe subitamente trémula. - Acho... acho que tenho andado a tentar não pensar muito nisso... Era a primeira vez que ela lhe chamava Indy, depois de terem chegado a Delfos. Ele insistiu: - Talvez fosse boa ideia tentares recordar-te... Ela fez um gesto de assentimento e voltou-se de frente para ele: - Lembro-me de entrar na névoa, de a inalar e de pensar que não tinha nada de mefítico. Que era inofensivo. Na verdade, agora que penso nisso, acho que me senti bem; que me senti melhor do que há muito tempo não me sentia... - Mas desmaiaste... - Não me lembro de mais nada. - Talvez estivesses a reagir ao facto dos vapores serem inofensivos... - sugeriu ele. - Estavas cansada, tinhas trabalhado demais, e foi apenas isso... - É possível,julgo eu; mas a verdade é que eu não sou muito dada a desmaios. A outra explicação, evidentemente, é que esse desmaio tenha sido provocado pelos vapores... Indy fez uma careta. Mais do que nunca, suspeitava que Dorian fosse atreita ao mesmo tipo de fascinação que consumira o seu próprio pai, e que desde pequeno conhecera. Disse-lhe: - Pensa bem nisto, Dorian. Se os vapores fossem perigosos então o homem que te trouxe cá para fora, o Panos, também teria sofrido a mesma reacção. Tenho a certeza de que ele não conseguiu suster a respiração, como fez o Nikos; esteve lá dentro tempo de mais para o poder ter feito... Atrás deles soou o estalido de uma tábua do chão, e eles voltaram-se ao mesmo tempo. Doumas estava à entrada da porta. - É quase meio-dia, Dr.a Belecamus! Dorian endireitou-se e fez um gesto de cabeça: - Pois é. Acho que estamos prontos. Dorian viu a copa do chapéu de Jones desaparecer na fenda enquanto Doumas e os seus dois assistentes iam lentamente fazendo passar a corda pelas mãos. Em breve teriam a placa. Talvez tivesse interesse, mas provavelmente não era nada de importância. As escavações em Delfos, para todos os efeitos práticos, estavam terminadas. Alguma coisa mais que se encontrasse, já só serviria para confirmar o que já era sabido. Claro que ela não tinha dito isso a Jones, e ele, na sua ingenuidade, tinha-a seguido a pensar que iria ficar ligado a qualquer grande descoberta. Mas a verdade é que Jones iria desempenhar um importante papel, e muito em breve. Nem ele sabia como era importante...


112 O aliado de Alex no gabinete do rei cumprira perfeitamente a sua missão. Tudo tinha funcionado admiravelmente. O rei fora persuadido. Quando muito ela só tinha era que se admirar com a rapidez de decisão. E, no entanto, ela estava a ter uma certa dificuldade em se concentrar na missão de Alex. Que era precisamente isso, pensou. ErA missão de Alex, não a sua. Não propriamente a sua. Os vapores tinham mudado tudo. No momento em que ela tinha penetrado nos vapores o mistério do Oráculo dominara-lhe completamente os pensamentos. E isso, só por sijá era estranho. Ela nunca pensara em boa verdade no Oráculo como sendo um mistério. Era um fenómeno dos antigos tempos; de uma era pré-científica. E, no entanto, agora ela via-o como qualquer coisa mais. Como um fenómeno com um futuro, tal como o passado que tinha. Mas talvez tudo fosse errado. Seria realmente possível que ela própria fosse Pítia? Precisava de falar com Panos. Isso era natural. Mas tinha que se certificar de que ninguém os via. - Posso ajudar? Dorian virou de repente a cabeça. Atrás dela e um pouco ao lado estava um jovem grego que já tinha visto na aldeia. - Que estás aqui a fazer? - É o filho de Panos! - Disse o Doumas. - Vem cá, Grigoris. Dá aqui uma ajuda com a corda! Dorian olhou-o com certa suspeita. De repente a corda ficou lassa e Doumas gritou para Jones lá em baixo. - Já lá deve ter chegado - disse Dorian. Doumas abanou a cabeça: - Ainda não. Não desceu ainda bastante. - Então estica-a! - gritou ela, pensando que Jones poderia ter ficado preso entre as paredes. - Depressa! Doumas, contudo, não reagiu com a rapidez necessária e a corda deu um esticão que soou como o estalo de um chicote. Dorian inclinou-se sobre a fenda e chamou por Jones. Um momento depois ele respondeu que estava bem, mas que tinha perdido a lanterna. Imediatamente uma outra foi atada à corda que se destinava à pesca e mandada lá para baixo. Quando Jones assinalou que já tinha a nova lanterna, Doumas e os outros continuaram a fazê-lo descer. - Tenham cuidado com ele! - acautelou Dorian. Não demorou


muito para que Jones gritasse que já tinha visto a pesca e lentamente fizeram-no descer o resto do espaço que lhe faltava. Dorian passeava de um lado para o outro ao longo da fenda. Se tivesse sorte, poderia completar o trabalho e regressar à superfície dentro de meia hora. Muito dependeria da dificuldade que tivesse no trabalho. Se o seu principal interesse fosse a placa, nunca o teria deixado ir em primeiro lugar buscá-la. 113 Muito embora ele tivesse uma boa cabeça e estivesse surpreendentemente bem informado acerca de arqueologia, não tinha experiência. Claro que Doumas tinha tido razão a respeito dele: não tinha qualificações. Mas ela tinha-o escolhido para a tarefa, apesar disso, porque percebera que ele tinha de sentir o apelo de um desafio ou então perdia o interesse e regressaria desgostoso a Paris. E isso ela não podia deixar que acontecesse. Agora, não. Ele fazia parte, e parte importante, do seu plano. Estava próximo do extremo da fenda quando ouviu uma excitada troca de palavras entre Doumas e os outros. Jones não podia ainda ter extraído a placa; não tinha tido tempo para isso. Ou, pelo menos, a não ser que ela estivesse estalada ou se tivesse partido. Quando chegou perto dos homens, Doum as tinha na mão uma das cordas e o resto dela estava solto, suspenso por cima do buraco. - Que foi? - gritou ela. - Dr.a Belecamus, a corda partiu-se! Não sei como foi que isto aconteceu... - Mas que corda? - A corda onde estava Jones - respondeu Doumas. - O quê? Não!!! Caiu de joelhos e espreitou para o abismo, mas a única coisa que tinha diante de si era a escuridão. Arrancou a corda das mãos de Doumas e puxou-a rapidamente para cima. Parecia que tinha sido cortada até meio e depois esfregada em qualquer coisa suja para dar a impressão de se ter desfiado. Levantou-se e levantou a mão que segurava a corda, com ar acusador. O filho da mãe de Grigoris tinha um ar de troça: tinha a certeza disso, muito embora a expressão do rapaz parecesse impassível. E Doumas? Balançava de um lado para o


outro como se estivesse prestes a cair, ou não conseguisse equilibrar-se. De repente ela lembrou-se da outra corda. Talvez Jones se tivesse agarrado a ela quando a primeira se partira. Procurou no chão, mas não a viu. - Onde é que está a outra? A outra corda? Doumas olhou para Grigoris: - Ele perdeu-a; naquela excitação... Nesse momento ouviu um som; um som em que quase não queria acreditar, vindo lá de baixo, da fenda. Caiu de joelhos e pôs as mãos aos lados da boca, a aumentar a força do grito: - Indy! Estás a ouvir-me? Indy! A voz dele veio lá de muito longe, tensa, num esforço: - Sim! Estou a ouvir-te! - Estás bem? Não respondeu, por alguns momentos. Depois disse: - Não muito; manda-me uma corda. Depressa! - Está bem! Onde é que estás?

114 - Estou pendurado na placa, mas não sei quanto tempo mais isto vai aguentar... Dorian olhou por cima do ombro para Doumas: - Stefanos, depressa! Uma corda! Doumas olhou em redor como se estivesse à espera que estivesse ali alguma. Depois respondeu: - Tenho de ir lá abaixo: há uma na cavalariça... - Vamos, não fiques aí parado, raios! Vai buscá-la! Depressa! - Vai a correr à cavalariça, Grigoris! - disse Doumas. Depressa. Há uma corda pendurada num gancho, atrás da porta! Dorian gritou: - Eu não te disse para mandares ninguém buscá-la! Doumas, no entanto, também já lá ia a tentar correr atrás do aldeão que corria lá adiante. E atrás dele corriam também os seus assistentes. Parecia que nenhum queria ficar ali só ao pé dela, e por momentos passou-Lhe pela cabeça a vaga pergunta do motivo que teriam para isso. Abanando a cabeça sem compreender tornou a aproximar-se da fenda. Gritou: - Já aí vêm, Jones! Uns minutos mais... Devia ter ido ela mesma buscar a corda. Não confiava em nenhum deles...


Não houve qualquer resposta. - Jones! Estás bem? O silêncio continuou. Teria caído? Mas se tivesse... não teria gritado? - Indy! Responde-me! - Sim! Ouvi-te... - respondeu-lhe uma voz fraca depois de um momento que lhe pareceu uma eternidade. - Mas não demores. 115

CAPÍTULO XIV O ÚLTIMO APOIO Indy estava a cavalo na placa como se ela fosse uma sela. Encostou-lhe a cara e agarrou-a fortemente com os braços. Sentia junto ao rosto os arabescos recortados das letras. Quanto tempo teria ainda de esperar? Tentou afastar a ideia daquela precária situação, relembrando passo a passo o que sucedera. Mal tinha acabado de rabiscar a tradução da placa quando a corda começara a desfiar-se. Tentara desesperadamente subir por ela mas a corda partira-se mesmo quando ia a pegar nela acima dos fios soltos. Balouçara por um momento, depois sentira um puxão lá de cima e a corda escapara-se-lhe da mão. No entanto, a sua mão livre estava nesse momento toda esticada para cima, e ao cair conseguira agarrar a outra corda, e escorregara até à placa. Tinha gritado, e a corda ficara frouxa e caíra, quase fazendo-o cair a ele daquele precário apoio. Os pensamentos de Indy nesse momento interromperam-se a ouvir uma espécie de estalo quando a placa se começou a soltar da parede com o seu peso. Ficou inclinada a fazer um ângulo de quarenta e cinco graus, e cada vez se tornava mais difícil manter-se seguro. Reparou que tinha ainda a mochila com as ferramentas. Nada melhor que a pessoa cavar a sua própria sepultura... Não precisava mais daquele peso. Cuidadosamente começou a tirar os braços, um de cada vez. Estava quase a deixá-lo cair quando se lembrou que o espigão lhe podia fazer jeito. Meteu a mão no saco, sentiu-lhe o bico aguçado e tirou-o. Dei xou cair o saco e momentos depois ouviu um a pancada, como


se ele tivesse batido em qualquer coisa. Devia ter batido na parede, pensou. Ficou à espera de o ouvir bater no fundo; abanou a cabeça quando mais nenhum barulho lhe chegou aos ouvidos. - Sem fundo. Lindo... Falar em voz alta parecia ajudar a afastar o medo. - Tenho de fazer seja o que for. Mas o quê? Sentiu a placa escorregar uns centímetros mais. 116 Fechou os olhos. Lembrou-se de Dorian a recomendar-Lhe como se utilizava o espigão e como ele devia atar a corda à placa. Devia ter-se preocupado um pouco mais com o que se passaria na outra ponta da corda. Raios! Ela devia ter inspeccionado a corda antes dele ter descido; e o Doumas? Mas agora havia muito pouco tempo para ficar a matutar no que tinha acontecido. Já tinha trabalho que chegasse a tentar desesperadamente manter-se vivo. Sentiu a rede debaixo dos pés e pensou se não seria melhor soltá-la para aliviar o peso. Mas não: isso exigia muitas manobras e muitos movimentos; se desse mais um esticão só que fosse, a placa soltava-se da parede. Além disso, o peso ali era o dele, não o da corda. - É isso; tenho de me safar... Se ele pudesse escavar apoios para os pés e para as mãos com o espigão, talvez se conseguisse equilibrar na parede. Mas por quanto tempo? - É melhor morrer a tentar safar-me do que ficar sem fazer nada... A placa tornou a gemer e escorregou um pouco mais; não ia aguentar muito tempo. Lentamente começou a içar-se, apoiando-se na placa, para chegar à parede. "Mais uns centímetros..." disse a si próprio. "Paciência. Calma.", Por fim chegou perto da parede, para poder chegar lá com o espigão. Agora arranjar um pouco de balanço... Estendeu a mão acima da cabeça e bateu com o espigão na aresta. Mas para surpresa sua bateu em qualquer coisa rija e o espigão fugiu-lhe da mão. A placa gemeu e inclinou-se ainda mais e ele escorregou uns centímetros para baixo antes de se poder agarrar. Jesus, tinha batido no suporte da lanterna! Tinha-se esquecido completamente dele, e ele lá estava, fixo na parede por quatro espigões. Agora aquilo era a sua única esperança.


Tinha de se aproximar novamente da parede e deitar-lhe a mão. Se conseguisse distribuir o peso entre a base da placa e esse apoio, talvez se safasse. Imaginou-se a si próprio como um ágil e delgado acrobata subindo quase a deslizar pela placa e a equilibrar-se sem esforço aparente. A placa soltou mais um doentio gemido e ele esqueceu imediatamente a fantasia das manobras acrobáticas. Sentiu-se gelar: a placa estava a abanar e ele ia a escorregar para baixo. Soltou uma mão. Lembrou-se do seu chicote que lá devia ainda estar enrolado numa parede do seu quarto em Paris. Se o tivesse ali, poderia atirá-lo a enrolar-se no suporte da lanterna com um golpe seco de pulso. Jurou a si próprio que se chegasse a ficar vivo para se meter noutra aventura arqueológica, o chicote passaria a ir sempre consigo. 117 Escorregou uns centímetros mais; e quanto mais escorregava, mais a placa ia saindo da parede. O gemido tornou-se mais forte. a placa estava prestes a cair. Desesperado apoiou-se ainda mais na placa e mergulhou para a parede. O chapéu saltou-lhe da cabeça e tombou no escuro, mas as pontas dos seus dedos conseguiram apanhar o suporte da lanterna, primeiro uma mão, depois a outra. Experimentou a resistência do suporte: a pancada do espigão tinha-o entortado um pouco, e os espigões tinham começado a sair. "Mesmo lindo..." Cuidadosamente pôs-se em pé sobre a placa, equilibrando-se no suporte e na parede. - Indy! Estás bem? - A voz de Dorian ecoou fantasm agoricamente pela fenda. - Indy...? - Não! - A corda deve estar a chegar! Aguenta-te! - Como conselho, não está mal... - disse. Estava outra vez a chamar-lhe Indy. Havia de servir de muito, se não se conseguisse aguentar e caísse... "A Pítia devora-te como se fosse um rato...", Ecoavam-lhe na cabeça as palavras do velho. Talvez ele não estivesse a falar de Dorian, mas sim da mítica Pitão, e da maneira como ele estava agora a dançar precariamente nas fauces da criatura... Sentiu um arrepio na espinha. Murmurou: - Odeio serpentes; mesmo que sejam um simples mito... Mas apesar da força de vontade, os pensamentos mórbidos não o deixavam. Talvez que a primeira experiência arqueológica


fosse também a última. Uma curta carreira, disso não havia dúvidas... "Boa piada, Indy. Continua assim que vais longe..." Olhou para cima, para o ponto de luz que via lá longe. - Depressa com essa corda! Depois outro pensamento lhe aflorou a ideia, como um mosquito impertinente: E se ninguém tivesse ido buscar a corda? Se Dorian tinha mandado o Doumas, o mais certo era ele nãovoltar. Provavelmente tinha sido esse filho da mãe quem cortara a corda, e quando descobrira que ele conseguira agarrar a outra corda, deixara-a cair. A não ser isso, o que é que poderia ter sido? Um acidente? Duvidava. É que alguém, provavelmente Doumas, já lá tinha estado em baixo e limpara a placa; e tinha sido por isso que ele não queria que lá fosse a baixo, para recomeçar. E depois devia ter alterado os planos, quando reconhecera que podia proteger a Pítia livrando-se dele. E isso irritou-o; havia de mostrar a esse Doumas. De uma maneira ou de outra havia de sair dali vivo... 118 - Hei-de conseguir! - disse entre dentes. - Não hei-de cair! "Raios! Ainda até talvez pudesse salvar a placa, Quando a corda aqui chegar, e vai chegar, e já estivesse firmemente seguro a ela, havia de agarrar a corda que ainda estava com uma ponta amarrada à placa. Tinha a certeza que com um bom puxão a soltava ; mas tinha de esperar até conseguir sair daquele maldito buraco para fazer isso..." - Indy? - Já aí a tens? - Ainda não. Vou ver porque é que se estão a demorar tanto, devia lá ter ido eu mesma. O Doumas não serve para nada... "Lindo. Mais tempo à espera..." Tentou descontrair-se ajustando a posição dos pés. Foi um erro, mas só deu por isso tarde de mais. A mudança de peso de um para o outro fora o bastante para soltar a placa. Com um estalido mais forte partiu-se e caiu por ali abaixo. As pernas iam a acompanhar-lhe a queda, e depois ficaram a arranhar a parede. Ouviu um barulho surdo como se a placa tivesse batido em qualquer coisa. Os pés procuraram desesperadamente um apoio, mas a parede era praticamente lisa. O suporte da lanterna dobrou-se para baixo, com os espigões a


soltarem-se lentamente da parede. - Oh, merda! Era agora. Apertou com força os dentes; o coração bateu-lhe violentamente nos ouvidos no momento em que os espigões se soltavam da parede. Caiu. Outra vez. Seguia por um túnel fora para uma luz. E a luz ia ficando cada vez mais brilhante. "Isto é a morte. Indy. Indy." Um som a ecoar à sua volta. Piscou os olhos por causa da luz. Tão brilhante! Como uma bola de fogo. E tão perto, agora. O que é que sucederia quando atingisse a luz? Para onde é que iria? Desviou os olhos para o lado e àquela luz viu o seu chapéu e a mochila que deixara cair. E bocados partidos da placa. E voltou-lhe tudo à memória: tinha caído no abismo; batera com as coxas no peito: sentia uma dor lancinante. E depois mais nada. Agora doíam-Lhe as costelas. A mão direita latejava-lhe: estava molhada de sangue. Tinha a garganta meio afogada de poeirada e uma das coxas doía-lhe como se tivesse levado uma 119 martelada. A morte era assim tão dolorosa? Ou as pessoas despertavam a sentir todas as dores que não tinham sentido por terem perdido o conhecimento? Tentou levantar-se, mas não foi capaz. Continuava a seguir em direcção à luz deslumbrante; já lhe doíam os olhos... Então percebeu que era uma lanterna. Estava amarrada a uma corda e vinha direita a ele. Afinal estava vivo. E estava ainda dentro daquele maldito buraco. Encolheu-se de dor ao pôr-se em pé. Por que é que ainda estava vivo? A lanterna estava a balançar um ou dois metros acima de si, e depois viu que estava numa espécie de saliência que saía da parede. Semicerrou os olhos por causa da luz e olhou para cima. Não podia dizer ao certo onde a placa tinha estado, mas agora tinha a certeza que não tinha caído de muito alto; talvez de uns cinco ou seis metros. Sentiu debaixo de si pequenos buracos da pedra que se estilhaçara; se não tivesse o casaco de cabedal vestido, teria ficado muito mais ferido. Viu a lanterna cair e passar junto a ele, continuando a ir por aí abaixo, com o clarão a desaparecer até ser só um vago ponto de luz. "Devia pará-la. Mas não parei." - Indy! Estás a ouvir? - Dorian, já chegámos até muito mais abaixo do lugar onde


estava a placa! - disse outra voz. - Ele foi-se; tens que enfrentar o facto! A voz não era tão forte como a de Dorian, mas o abismo era como uma espécie de megafone que lhe trazia as palavras até ele. Doumas; o sacana estava a dá-lo por perdido. Estava outra vez a ficar claro. A lanterna vinha a subir. E en tão percebeu claramente o que estava a acontecer: estavam a abandoná-lo. Sentia-se como que paralisado: sem poder coordenar os pensamentos e acções. Tinha de fazer qualquer coisa. Aclarou a garganta. Com um grande esforço, gritou: - Dorian! Apenas lhe saiu um murmúrio. Tinha a garganta seca e como que empastada de porcaria. Tentou outra vez; agora mais forte, um ronco grave. Mas não suficientemente forte. A lanterna continuou a bailar aos seus pés; à sua cintura. Junto ao seu peito. Estendeu um braço e agarrou-a. Sentiu um puxão e puxou por ele, em resposta. Depois a corda descaiu, a oscilar como uma cobra. - Deve ter ficado presa em qualquer coisa... - disse Doumas. A cobra foi subindo até ele sentir a fazer-lhe força no braço. Deu-lhe um puxão. 120 Por momentos não houve qualquer reacção, depois sentiu outro esticão na corda que o fez ficar de pé. Sentiu-se como se estivesse na pesca; só que agora o peixe era dele. - Que foi? - perguntou Dorian. - Não sei... - Dá cá isso. Indy! Indyyyyy!!!!! Inclinou-se para apanhar o chapéu e percebeu que estava em pé, a meio passo da orla daquela saliência. - Indy! Por favor, responde! Deu um passo para trás. Viu uma rocha do feitio de um cone a sair da parede e deitou-Lhe a mão. Puxou a corda uma, duas, três vezes. - É ele! Sinto-o. Ele está lá em baixo. Indy? Torna a puxar, se me estás a ouvir. Assim fez. Rapidamente arranjaram uma forma simpmlista de se comunicarem: um puxão, "sim"; dois puxões, "não". Estava muito ferido? "Não",.. Era capaz de amarrar a corda à sua vólta? "Sim". Precisava de mais corda? "Sim." Quase logo a seguir enrolaram-se à sua volta mais alguns metros da corda. Sentou-se para pensar na melhor forma de


prender a corda. Não a queria em volta da cintura nem do peito: tinha pelo menos uma costela estalada ou partida de cada lado. Talvez mais. Tenteou à procura da corda; tinha a mão a latejar. Apertou a palma ensanguentada contra o estômago, tentando suster a hemorragia. Finalmente deu uma laçada, enfiou a corda por ela e passou mesmo por aquele grande laço. Iria sentar-se nele como se fosse um balouço infantil. Estava quase a dar sinal a Dorian de que estava pronto, quando deu de novo com os olhos na rocha a que tinha estado agarrado. Era preta, do feitio de um cone, e estava parcialmente enterrada na parede. Apontou para lá directamente a lanterna. A sua superfície estava como que estriada. Como se tivesse um dia estado embainhada numa bainha de corda e os fios se tivessem petrificado. - O que será isto? - murmurou em voz rouca. Pegou na mochila e tirou o pincel de cerdas rijas. Raspou alguma da sujidade que estava encrustáda e passou os dedos pela áspera superfície. Baixou a lanterna até ficar quase a tocar no cone. Parecia obsidiana, ou ferro, e o estriado, disso tinha a certeza, não era natural, fora feito pela mão do homem. - Indy. Estás bem? - gritou Dorian lá de cima. Ele olhou para lá e depois deu um esticão à corda. - Pronto? - perguntou Dorian. Desta vez deu dois puxões. "Ainda não." Tinha perdido a placa, talvez pudesse salvar o cone. Não sabia bem porquê, mas tinha a impressão que era qualquer coisa de importante; qualquer coisa que não devia deixar para trás. 121 Pôs os braços em torno do cone, a ver se o conseguia soltar. Puxou com força e ficou com a im pressão que ele se tinha movido. Respirou fundo e tornou a puxar. Aí estava: movera-se, tinha a certeza. Encostou o peito ao cone para poder respirar mais normalmente. Estava exausto e sentia-se estonteado. E foi então que viu a águia. Ia bater as asas, direita ao céu. A águia. A sua águia. Ali, para o ajudar. A águia. A sua guardiã. A sua protectora. "Mas onde é que tens estado? Eu precisei de ti...", Indy ouviu os seus próprios pensamentos, como se fosse ele próprio que estava a falar, mas tinha a certeza de que não estava a


mexer os lábios. A águia continua a cortar os ares, mais alto, cada vez mais alto. Sentiu a pele a encrespar-se-lhe. Não estava nem a dormir nem acordado. Os seus pensamentos derivaram para o passado, para quando ele tinha 14 anos e tinha conhecido um velho índio Navajo chamado O Homem que Muda, numa caminhada pelo deserto, com o seu pai. O índio ficara a gostar muito dojovem Indy e tinha dito que havia de o tornar a ver. Isso parecia muito pouco provável, porque poucosmeses mais tarde, Indy tinha-se mudado para Chicago. No Verão a seguir ao ano em que acabara o curso do liceu, tinha voltado ao Sudoeste para trabalhar no rancho do seu tio, mas ne altura, já o seu encontro com o velho índio não passava de uma recordação distante. E, no entanto, um dia ele parara num posto de venda para comprar mantimentos, e lá estava O Homem Que Muda. E não só ele se lembrava de Indy, mas agira como se tivesse estado à sua espera. "Estava já preparado para a sua procura da visão?", perguntara. Indy não sabia o que aquilo significava, mas estava curioso acerca do velho índio e dos seus costumes, e disse que sim, que estava preparado. No dia seguinte encontrou-se com o Homem Que Muda ao romper do dia, à porta do posto de venda, e caminharam pelo terreno escalvado até ao planalto. Ao cair da noite viu-se sozinho e sem comida na planície varrida pelo vento. O Homem Que Muda tinha-Lhe dito que tinha que esperar ali até que um animal se aproximasse dele, e, de aí em diante ele seria o seu protector e o seu guia espiritual. Ao fim de dois dias ele estava delirante de fome, e o seu cantil estava quase vazio. 122 Fora um erro, um tremendo erro. Talvez a procura da visão resultasse com os índios, mas parecia que nenhum animal estava interessádo em si, a não ser que fosse Para Lhe esburgar os ossos. Afastou-se do abrigo de pedras que construíra, na esperança de ter forças bastantes para a caminhada pela montanha abaixo. Tinha de encontrar água e comida e voltar para o rancho; e daí a algumas semanas estaria outra vez em Chicago para começar a Faculdade. Quando chegou à orla do planalto ouviu uma voz atrás de si.


A Voz do Homem Que Muda. "Onde é que vais?" Espantado, voltou-se. Não estava ninguém. Estava a ficar com alucinações,.. Mas hesitou. O trilho era muito íngreme; o sol estava baixo. Sentindo-se derrotado, regressou ao abrigo para mais uma noite. Esperaria até de manhã... E de repente, uma águia pairou em voo baixo sobre o planalto e foi pousar no topo de uma das paredes do abrigo. Ficou imóvel a olhar e nesse momento tornou a ouvir a voz do Homem que Muda: "Ela há-de guiar-te sempre!..." Apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo, tinha encontrado o seu protector. Lembrou-se daquilo tudo, ao ver a águia a cortar os ares lá acima de si. Podia vê-la até virar a cabeça como se estivesse a procurar uma presa. Ou talvez a olhar para ele. Fez um ruído qualquer. O que é que estava a dizer? A águia desapareceu mas o som continuou: - Indy! Indyyyyyy!!! - Era Dorian. Parecia assustada. -Responde-me! Deu um esticão na corda. - Não há muito tempo! Os vapores... Os vapores! Cristo: tinha-se esquecido completamente disso. Estava lá em baixo assim há tanto tempo? Tirou do bolso o relógio, tinha resistido à queda e estava ainda a trabalhar. Eram 2 e 44 minutos. Pôs-se em pé e apertou a laçada da corda. Não estava lá muito convencido de que os vapores fossem perigosos, mas não havia razão para correr riscos. Nem havia já tempo para tratar do cone. Devia ter perdido por minutos a consciência. "Mas havia de ali voltar para o tirar", disse para si. Puxou a corda uma vez. Momentos depois sentiu-se levantar e ficar suspenso acima da saliência coberta de detritos. Os seus olhos fixaram-se no negro cone congelado no interior da parede. Depois perdeu-o de vista, envolto na escuridão, perdido num negro abismo. Levantou a lanterna a ver o sítio onde a placa tinha estado. 123 Três, quatro, seis metros. Continuou a subir. Estava tudo meio enevoado por causa do fumo da lanterna, mas nessa altura viu-o. Um buraco negro e acima dele um pequeno dente onde o suporte da lanterna tinha sido arrancado da parede. Jesus, a sorte que ele tinha tido! Havia pessoas que caíam de um metro e meio e partiam os ossos. Ele caíra da altura de


dois andares através de uma escuridão de breu, e safara-se com alguns golpes, arranhões e provavelmente uma ou duas costelas rachadas. Ouviu nesse momento um rugido surdo vindo de algures lá em baixo. Fora precedido pelo mesmo silvo que anunciara a subida dos vapores e já sabia que Lhes não poderia escapar. A lenta e suave oscilação da subida continuava e não havia nada que ele pudesse fazer para a acelerar. Agitou a lanterna na sua frente reparando na névoa: era muita para ser só do fumo da lanterna. Apertou com força a corda e inalou uma profunda inspiração.: Fez-lhe doer as costelas, e depois deitou fora parte dele. Pensou vagamente quanto tempo ainda lhe faltaria para chegar à superfície. Passou um minuto. Lentamente, deixou escapar o resto do ar. Ar viciado. Não valia a pena suster a respiração, se estava já a respirar os vapores. Farejou o ar. Não parecia causar quaisquer efeitos, a não ser deixá-lo meio sonolento. Encostou a cabeça com força à corda e fechou os olhos. Daí a segundos sentiu-se à deriva, meio a dormir meio acordado. Endireitou subitamente a cabeça e agarrou-se à corda. Devia ter passado pelas brasas. E então viu os vapores a subir à sua volta. Há quanto tempo estaria a respirar? Obrigou-se a si próprio a concentrar-se na corda e em manter o equilíbrio. "Aguenta-te. Fica acordado. Tenta não respirar..." Jesus, como tudo lhe doía! Passou outro minuto. Um minuto elástico que pareceu duas horas, mas finalmente chegou à orla do buraco e sorveu o ar a longos haustos. O monte de detritos estava envolto em névoa, não conseguia ver ninguém. Pôs-se em pé, com uma careta de dor e sentiu-se arrastado para baixo do monte. - Indy, para aqui! Cambaleou para a frente, desequilibrado. Levantou instintivamente os braços para deter a queda. Mas logo a seguir houve mãos que o agarraram. Tiraram-lhe a corda pelo peito, pelos ombros, pelos braços. Caiu de joelhos e depois ao comprido, sobre o estômago. Alguém o ajudou a voltar-se. - Temos de o levar ao médico! - a voz de Dorian. - Levem-no para o carro; depressa! 124 Viu movimento à sua volta. Vultos. Sombras. Sentiu-se levantar de novo. Fechou os olhos.


- O que é que aconteceu lá em baixo, Indy? - perguntou Dorian. - Como foi que te salvaste? - Achei uma pedra. Uma pedra preta... - murmurou. - Que espécie de pedra? - era a voz de Doumas. - Do feitio de um cone. Com estrias... - Serias capaz de a tornar a encontrar? - Perguntou Doumas. - eras? Mas Indy não lhe chegou a responder. Os olhos fecharam-se-lhe e desmaiou. 125 CAPÍTULO XV MANOBRAS Dorian levantou os olhos do monte de placas de pedra que estavam sobre a mesa de trabalho, quando ouviu o som de um leve bater. Era tão fraco que bem poderia ter sido o vento. Mas depois tornou a ouvi-lo; mais forte, agora. - Entre! A porta rangeu ao de leve ao abrir-se lentamente. Viu uma sombra no limiar; depois reconheceu Panos. Disse-lhe: - Bom, tenho estado à tua espera... Panos hesitou e baixou os olhos para as mãos: - Não tanto como eu esperei... As palavras eram forçadas. Uma confi ssão. Depois entrou e es preitou para as filas de placas de pedras. - Em breve será construída uma casa de arquivos moderna... A voz era já mais forte e as palavras eram já como que um desafio. Olhava fixamente para ela. - Eu sei - respondeu Dorian. - Sabes? - ele de novo desviou a vista quando ela o fitou e ela percebeu que o homem se sentia embaraçado. Talvez... dominado... - Vai ser precisa... - acrescentou ela. - Diz-me... diz-me quem és! - pediu ele sempre com os olhos a fugir dos dela. Ela sorriu e respondeu sem hesitar: - Pítia, evidentemente... Ele assentiu, olhando-a: - O véu está a dissipar-se. Eu sabia que isso ia acontecer. Ela pegou numa das placas de pedra, e passou-lhe os dedos de


leve por cima. Disse: - Agora sei que o Oráculo nunca nos abandonou. A última Pítia limitou-se a deixá-lo adormecer: e agora ele está a acordar. - Bem dito... - É muito estranho; mas agora compreendo que todo o trabalho da minha vida sempre constituiu um simples prelúdio para o Regresso. Há uma semana atrás eu própria me teria rido de uma tal ideia. Agora sei que isso é um inegável facto. 126 Panos deu alguns passos ao longo da comprida mesa coberta de placas de pedra. Pegou numa, olhou-a de relance e depois tornou a poisá-la lá. Havia qualquer coisa nele, como que uma atitude de desafio, como se estivesse a proclamar em silêncio o seu domínio sobre a oficina e sobre tudo o que ela representava, desafiando-a a disputar-Lho. - O meu filho Grigoris disse-me que Jones achou qualquer coisa na fenda. O que era? - Não sei ao certo. Disse qualquer coisa acerca de uma pedra preta... Panos rodou sobre os calcanhares e olhou de frente para ela: - A pedra é importante e Doumas nem sequer lhe deve tocar! A voz tornou-se-lhe ríspida, pelos olhos passou-lhe como que um relâmpago. Acrescentou marcando bem as palavras: - É nossa; temos de ficar com ela! Dorian ficou espantada; surpreendida por aquela explosão. Não sabia do que ele estava a falar. - Não percebes? Ele encontrou Onfalo; temos de o exigir! O Onfalo era um dos aspectos misteriosos do Oráculo de Delfos que Dorian nunca tinha claramente compreendido. Na lenda , era por vezes descrito como uma pedra tão grande como uma sala, e outras vezes era pequena e facilmente transportável, do feitio de um cone, como Jones a tinha descrito. Às vezes até a Delfos se chamava o Onfalo: o umbigo do mundo. Ela sempre o tinha considerado mais simbólico do que real, mais como uma definição de Delfos do que como uma relíquia que se poderia recuperar. - Como é que sabes que é o Onfalo? - O Oráculo nunca poderia regressar sem o Onfalo... respondeu ele. - E porquê, Panos? Ele franziu a testa. Murmurou:


- Ainda tens muito para recordar. A Pítia devia saber o grande segredo de Delfos... - Ela sorriu, e disse: - Eu sou a Pítia, mas sou também Dorian Belecamus, e não sei tudo o que a Pítia sabe. Fala-me do Onfalos... Panos olhou-a por momentos e ela teve a nítida impressão de que ele não tinha a certeza de que lhe devia dizer qualquer coisa. Mas resolveu-se e falou: - O segredo é simples. Os vapores limitam-se a aumentar aquilo que o Onfalo cria. O Onfalo é o poder de Delfos... - Sim: é simples... Pela maneira como ela o disse dava a impressão de estar apenas a mencionar um facto interessante; nada mais. Mas em todos us anos de estudos e todo o seu trabalho em Delfos, nunca ela tinha ouvido semelhante coisa. 127 O Onfalo fora sempre uma coisa nublosa, simbólica. Nunca a própria força. - Quer isso dizer que a autoridade de Pítia pode ser levada para além de Delfos se tivermos o Onfalo? - O umbigo do mundo é onde o Onfalos estiver. Dorian cruzou os braços e encostou-se à mesa. Olhou-o e perguntou: - Panos, eu tenho tantas coisas a recordar... Fala-me mais do Onfalo. De onde é que ele veio? Panos apontou para o céu: - Foi uma dádiva do próprio Apolo... Ela ergueu os olhos, como se os deuses morassem ali, mesmo nas traves do tecto. Perguntou: - Queres dizer que o Onfalo caiu dos céus e tombou aqui mesmo em Delfos? Panos olhou demoradamente para amesa coberta de placas de pedra, e conservou-se em silêncio por mais de um minuto antes de dizer: - Isso é outro segredo... Dorian ficou a olhá-lo à espera que continuasse. Por fim ele continuou: - Bem gostaria de te poder respon der que foi assim; mas a verdade é que ele caiu noutro lugar qualquer, e um mensageiro de Apolo o trouxe para aqui, para o local sagrado onde os gases estavam a sair do chão... "Provavelmente um meteorito...", pensou Dorian. Seria lógico


que uma pedra assim fosse adorada e o facto de ela não ter caído exactamente no sítio de onde emanavam os vapores ainda tornava isso mais crível. Sorriu confiante: - Vamos conseguir o Onfalo. Mas agora vem cá o rei... - Pois vem. E tu deves falar-Lhe. Ele precisa de compreender quem tu és. Tem de o aceitar... Ela anuiu com a cabeça, solenemente como que num voto. Panos continuou: - Eu sei que tu o podes convencer... - falava suave e convincentemente, mas via-se que continuava ainda pouco à vontade na sua presença. Os seus olhos fixavam-se mais vezes na mesa do que no rosto dela. - Eu sei. E até pressinto já aquilo que a Pítia lhe dirá... Panos desviou a vista, mas a insegurança do olhar mostra que ele estava à espera que ela lhe revelasse algo do que estava a pensar. Dorian continuou: - Vou dizer-lhe aquilo que já sei: em breve todo o mundo reconhecerá que o Oráculo de Delfos está vivo. 128 O mundo inteiro dirigirá os seus olhares de esperança para o Oráculo, e o poder da Grécia será cem vezes maior! Panos teve um largo sorriso: - E a Pítia dirá isso ao rei... Os seus olhos pestanejaram rapidamente: - Sim, isso... e ainda mais. Pegou num dos braços do canteiro e levou-o para fora da cabana, continuando a murmurar-lhe ao ouvido. A dizer-lhe muito mais do que aquilo que ele alguma vez esperara ouvir. Panos ia beberricando a sua retsina e ouvia Doumas. Era ao princípio da tarde e só algumas das mesas da taberna estavam ocupadas. Estavam sentados no mesmo cubículo onde tinham estado na outra noite em que Jones se dirigira cambaleando para eles, e também agora o estrangeiro voltava a estar presente nos seus pensamentos. Na verdade o homem era um problema; e potencialmente um problema grave. Doumas, infelizmente, não era dessa opinião. Um gordo intelectual, todo ele barriga e bochechas, preocupava-se mais com as ideias do que com a acção. - Eu não sei o que Grigoris estava a pensar, mas tu tens de o controlar; ele quase que matou o Jones. E o que é pior é que


a Belecamus suspeita que aquilo não foi um simples acidente... O duplo queixo de Doumas tremia quando ele falava. Dava a Panos a ideia de um enorme peru. Teve ganas de lhe gritar que ele afinal não tinha tutano, que falhara miseravelmente no que se referia a Jones, mas em vez disso ostentou um ar de espanto. - Como é que sabes disso? - Porque ela me descobriu a discutir com Grigoris na cavalariça; ele até puxou de uma navalha para mim, para eu não lhe levar a ela outra corda... Panos despejou mais um bocado de retsina da garrafa à sua frente para o copo. - E ela viu a navalha ou ouviu alguma coisa que vocês disseram? - Acho que não. Estava com muita pressa mas percebeu que estávamos a discutir. Panos deitou um olhar de aborrecimento aos ocupantes de uma das mesas. Eram estrangeiros: três homens e uma mulher. Falavam em voz alta, em inglês. A mulher, principalmente, tinha voz esganiçada. Bem desejaria que se fossem embora. Não tinha nada que ali estar: em Delfos, não. E agora ainda menos! - Há qualquer coisa que eu não compreendo. Se a corda partiu, porque é que Jones está vivo? Doumas mostrou um ar irritado: 129 - Teve sorte! Panos pensou por um momento. Sabia que devia dizer a Doumas que iria controlar Grigoris, mas a verdade é que ele estava fora de qualquer controlo. - Vou falar com o meu filho. Ele não te devia ter ameaçado; tenho a certeza de que te vai pedir desculpas. Prometo-te... Doumas não pareceu muito satisfeito. Pior para ele. Continuou: - Agora diz-me outra coisa: Que relação há entre Jones e a Belecamus? Doumas sorriu, um sorriso velhaco a dizer que era fácil de saber: - Ela gosta de estrangeiros novos. Que mais queres que te diga? Então era isso. Agora, mais do que nunca, Panos tinha a certeza de que Jones tinha de ser rapidamente eliminado. Ele só podia trazer sarilhos; podia retardar a transformação. Era a altura de pôr Doumas à prova:


- De uma maneira ou de outra, é preciso arrumar o Jones Imediatamente. Não podemos arriscar-nos a que ele interfIra no nosso trabalho. - Não vai interferir. Está retido na cama do seu quarto do hotel. E tenho a certeza de que não sairá dali para lado nenhum antes do rei chegar e voltar a ir-se embora. Além disso, se alguma coisa lhe acontecer, vais irritar a Belecamus... - Como é que podemos ter a certeza que ele continua de cama? Não tenho nenhuma confiança nele: ele não percebe sequer o que Delfos é! - Preocupas-te de mais, Panos. Sabes muito bem o que dizia a placa na fenda. Agora nada pode deter o Regresso. Nem Jones, nem ninguém. É tão certo como o rei ser rico... Panos olhou-o com ar de indignação: - A placa é a confirmação do plano; mas mesmo assim tenho de fazer aquilo que é preciso para que ele se cumpra! Doumas despejou o copo e depois colocou-o sobre a mesa. Respondeu-lhe: - Tu tens de compreender a minha posição, Panos. Eu sou um cientista: um arqueólogo. Tenho a minha reputação... Panos desatou a rir: - A tua reputação! O que é a tua reputação, Stefanos? Um curador de pedras velhas! Deixa-te de fantasias; toda essa tua traLha continua exactamente na mesma, faças tu o que fizeres! - E o que é que tu queres que eu faça, Panos? Eu trouxe a BElecamus aqui; eu fui lá abaixo daquele buraco e interpretei a placa. Podia até ter morrido. Que mais queres tu que eu faça? 130 - Tu quiseste saber tudo a respeito da Ordem de Pítia. Tudo. Agora tens de cumprir a tua parte! - Eu não sou um assassino. Isso é trabalho para o Grigoris! Panos saltou da cadeira e agarrou Doumas pelo colarinho: - Não fales do meu filho dessa maneira! -rosnou por entre os dentes cerrados. - Percebes? Não quero tornar a ouvir isso! Quando se voltou a sentar na cadeira viu que o grupo dos estrangeiros estava a olhar para ele. Ignorou-os. Doumas lançou-lhe um olhar furioso: - Não me peças para matar o Jones nem seja lá quem for. Não farei semelhante coisa. Mas posso dizer-te qualquer coisa que tu não sabes: qualquer coisa de muito valor... Panos olhou-o ainda carrancudo:


- O que é? Doumas debruçou-se sobre a mesa: -Eu sei exactamente quando os vapores vão subir. Existe uma espécie de bitola, e a menos que as coisas se alterem eu posso prever a hora das subidas amanhã, para o mês que vem, até durante anos... Panos pensou naquilo que estava a ouvir. Ficou admirado de Doumas saber uma coisa daquela importância, e teve que se dominar para ocultar o seu espanto. - Pronto: diz lá... Enquanto Doumas falava Panos olhou por cima dos ombros do arqueólogo para dois homens fardados que acabavam de entrar na sala. Olharam em volta e sentaram-se. O mais alto dos dois pareceu-lhe vagamente conhecido. Tentou concentrar-se no que Doumas estava a dizer. Comentou: - É bom saber-se isso: seis minutos é praticamente a chave... Tornou a desviar o olhar para a outra mesa. Recordava-se agora onde tinha visto o homem. Belecamus tinha-o encontrado na manhã em que ele a tinha seguido de sua casa ao Agora Romano. Da forma como se tinham comportado nessa altura, ficara convencido de que eram íntimos. Lembrava-se agora de ter nessa altura pensado que aquele oficial representava um perigo em potência e agora tinha a certeza de ter razão. - Temos um outro problema... - disse, indicando com a cabeça a outra mesa. Doumas seguiu-Lhe a direcção do gesto: - Militares. Provavelmente qualquer coisa relacionada com a vinda do rei... Panos percebeu pela expressão de Doumas que ele sabia mais do que estava a dizer. Insistiu: - Quem é ele, Stefanos? Eu já o vi com ela... 131 Doumas tornou a olhar como se o não tivesse reconhecido à primeira. Tornou a debruçar-se sobre a mesa: - Coronel Alexander Mandraki. Belecamus tem-se encontrado de vez em quando com ele. Amantes... Panos enrugou a testa: - Mas o que é que ela vê nele? É feio... Doumas teve um riso de troça: - Poder, evidentemente. Devias calcular isso... Nos lábios de Panos desenhou-se um vago sorriso quando se


encostou para trás na cadeira. Na sua mente começava a formar um plano. Disse: - Temos de o voltar contra o Jones, para que seja ele a fazer-nos o serviço... Doumas olhou disfarçadamente por cima do ombro, a certificar-se que Mandraki os não estava a ouvir. Disse: - É uma possibilidade... - Assim Belecamus vai ficar é irritada com ele o que é também vantajoso para nós... - Mas a quem ela é devotada é a Mandraki. - disse Doumas. Não se vai viver contra ele... - Talvez não por muito tempo; mas o choque de saber que matou o seujovem aluno e amante com certeza que a afastará dele por algum tempo. E nós o que precisamos é só de algumas horas. Doumas entrelaçou os dedos, fazendo estalar os nós. Como que pensando em voz alta, murmurou: - Dois pássaros com uma pedra só... és esperto, Panos. Devias ser um político... Panos olhou para os estrangeiros que se estavam a levantar da mesa. Sim, quando a transformação estivesse completa, ele seria uma espécie de político; um agente do poder para os líderes do mundo inteiro que viriam até ele, para poderem chegar a Pítia do Oráculo de Delfos. - Não percamos mais tempo, Stefanos... - Muito bem; eu vou-Lhe dizer do Jones... - Não; quero ser eu a fazê-lo. Vocês, intelectuais, têm muita dificuldade em tratar de assuntos emocionais. E eu quero ter a certeza que a coisa é bem feita. Quero irritá-lo de maneira que ele se resolva a fazer qualquer coisa... Panos afastou a cadeira da mesa e afastou-se sem mais demora. Doumas ficou a ver Panos debruçar-se sobre a mesa de Mandraki e dizer-lhe qualquer coisa. "Aquilo ia ser interessante,", pensou. Tornou a encher o copo. 132 O coronel fez com a cabeça um gesto de assentimento e voltou-se para o outro homem que estava consigo à mesa. O soldado pôs-se imediatamente de pé, e dirigiu-se para o bar. Mandraki fez a Panos um gesto convidando-o a sentar-se e ouviu-o; o homenzinho poisou um cotovelo na mesa e levou a mão até junto da boca num gesto de confidência.


Doumas desviou o olhar quando dois dos estrangeiros da outra mesa saíram da taberna. Sabia exactamente o que Panos pensava dele. Para as pessoas rudes e terra-a-terra como o canteiro, uma pessoa com peso excessivo era sinónimo de fraqueza. Panos via-o como um bamboleante guarda das ruínas com estudos a mais. Mas não fazia mal: era precisamente isso que lhe agradava que ele pensasse. Sabia que Panos já se via como o novo Sumo Sacerdote do Oráculo, mas era doido em pensar que Dorian Belecamus alguma vez ia permitir que ele a manipulasse. Belecamus tinha a sua própria agenda; e mesmo que os vapores a afectassem, como Panos dissera, ela nem sempre estaria sob a sua influência... Panos não conhecia a Belecamus; apenas sabia coisas dela. sabia as histórias a seu respeito que qualquer pessoa nas faculdades de arqueologia lhe podia contar. Até mesmo o Louco, que dizia saber tanta coisa, nada sabia da sua vida particular. E quem conhecia a Belecamus: sabia as histórias, e sabiam que eram verdadeiras. O rosto de Mandraki carregou-se e sombreou-se. Os cantos da boca descaíram-lhe. Esfregou o queixo e fez um gesto de cabeça e a seguir com um aceno da mão afastou Panos como se estivesse a sacudir uma mosca. Panos deu literalmente um salto pondo-se em pé e fazendo tombar a cadeira. O coronel arreganhou os dentes e apontou para a porta. Doumas ouviu-lhe distintamente a voz irritada: - Fora da minha vista, malaka! Panos afastou-se rapidamente. O companheiro do coronel voltou para junto da mesa e ergueu a cadeira que Panos deitara ao chão. Mandraki fez um gesto de mão como que a indicar que não tinha importância e depois fez um gesto ao soldado para ele se retirar. - Malaka... - repetiu Mandraki em voz alta. Doumas riu-se para si mesmo. Sabia-lhe bem ver o líder da Ordem da Pítia, que se tinha em tão grande conta e tão mal pensava, ser chamado parvalhão, e mandado embora como um criado que não soubesse fazer o seu serviço. Se a Belecamus fosse uma mulher normal ela reagiria como Panos esperava; repudiaria o coronel Alez, se ele matasse Jones. Para Belecamus Jones era já um homem morto: tinha a certeza disso. "Estava tudo nas suas mãos", pensou Doumas.

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O coronel nunca permitiria que Panos se aproximasse de Belecamus tempo suficiente para ele a conduzir à fenda, e se Panos falhasse, o plano nunca mais seria viável. Perder-se-ia a oportunidade. Parar com o trabalho da suavida destruído, regressaria a Atenas e ao serviço de canteiro, e Dorian Belecamus, a Pítia falhada, regressaria a Paris e às suas aulas. Mas as coisas não terminariam aí. Afinal de contas, a mensagem que ele descobrira na placa antes da chegada de Belecamus convencera-o de que Panos estava no bom caminho. Contudo a inscrição deixava claramente em aberto o assunto de quem assumiria as tarefas da nova Pítia. Até mesmo a antiga profecia de o louco, que mencionara o regresso de uma «dória», não especificava que ela fosse o Oráculo. Apesar daquilo que sucedera na fenda, ele tinha a certeza que ela não era a Pítia. Ela era destituída de escrúpulos e ardilosa, e isso não eram indiscutivelmente traços característicos de uma boa Pítia. Talvez o Sumo Sacerdote fosse ardiloso, mas a Pítia era muito inocente; uma mulher do campo sem mácula, transformada num instrumento de adivinhação. Quando toda a gente partisse e ele ficasse ali só e com Delfos ao seu cuidado, poderia calmamente recuperar a pedra negra, Onfalo. Depois experimentaria asjovens moças da aldeia e talvez de entre elas ele viesse a achar a verdadeira Pítia. Cada vez mais sentia que era destino seu - não de Panos cuidar da nova Pítia. Seria o seu intérprete, o sacerdote, aquele que a apresentaria ao mundo. E o poder seria seu. 134

CAPÍTULO XVI RECEPÇÃO REAL Indy abriu devagar os olhos, mas conservou-se perfeitamente imóvel, quase sem respirar. Sentia que havia ali qualquer coisa no ar que não devia lá estar: uma presença estranha. Estava alguém ali com ele. Sentiu instintivamente que os membros se lhe tornavam tensos. Muito devagar virou a


cabeça a inspeccionar o quarto. . E nesse momento viu um vulto de pé, em frente da janela, recortado contra o sol da tarde. - Jesus, Nikos! - disse ao reconhecer o nariz aquilino e as clássicas feições gregas. - O que é que andas a fazer? O miúdo estava a tornar-se uma peste. Havia dois dias que não saía do pé dele, e Indy tinha estado a falar com ele mesmo antes de ter adormecido. - Desculpa, eu ia agora mesmo a sair, e não te queria acordar. Trouxe a mochila: pu-la debaixo da cama... - Isso foi rápido! - Tu dormiste quase duas horas! - Dormi? - Indy fez uma careta ao mesmo tempo que se levantava e palpava tentativamente o lado do corpo, Da última vez que lhe falara, tinha pedido a Nikos para, sem ninguém dar por isso, lhe trazer a mochila da oficina. Esfregou os olhos a afastar o sono. Perguntou: - Alguém te viu? Nikos abanou a cabeça: : -Não estava lá ninguém. Eu entrei por uma janela... O olhar de Indy voltou-se para a mesa de cabeceira. Piscou os olhos a tentar perceber aquilo que via. Ali em cima estava uma tigela de barro, e dentro dela viam-se três cabeças de alho enrolados umas nas outras. - O que é isto? Nikos desviou os olhos da tigela para Indy: - Móli; alho dourado. Vai ajudar-te... Indy tornou a olhar: - Móli! Jesus, desde criança que não me lembro de alguém dar nome aos alhos... Nikos aproximou-se dele: 135 - Não sabia que na América havia móli. Para que é que o usavas quando eras miúdo? - Isso é uma longa história... - Conta-me! - disse ele, sentando-se na cama. Indy cruzou as mãos atrás da cabeça e recordou o incidente, aquele incidente que nunca mais esqueceria. "Vai buscar móli!" dissera-lhe o pai um dia. E quando Indy confessara que não sabia de que é que ele estava a falar, fora obrigado a comer um dente de alho por dia, até saber porque é que ele se chamava móli. A pergunta perseguiu-o durante perto de duas semanas, o tempo suficiente para perder um par de amigos que achavam que ele cheirava horrivelmente. Em


resultado disso, passou mais tempo a ler Homero, outra tarefa exigida pelo pai. E finalmente quando labutava com dificuldade com uma das //canas da Odisseia, descobriu o móli. Era uma espécie de alho que se cria possuir poderes mágicos. Hermes tinha-o dado a Ulisses para o proteger dos encantamentos da Circe. Depois disso nunca mais o seu pai lhe pedira nem que comesse alho nem que lhe chamasse móli... - Pensas que eu preciso de protecção, Nikos? - Acho, sim! - Porquê? - Porque se estão a passar coisas muito estranhas... - Que coisas? - Apostaria que seria alguma coisa relacionada com a Ordem de Pítia e esperava que Nikos lhe dissesse que Panos e Doumas andavam a conspirar para o matarem. - Depois de eu voltar da oficina, dois americanos vieram cá ao hotel. Pareciam muito amigáveis: disseram-me que te conheciam e que te queriam ver... - O quê? - Pois! Mas antes de eu os poder trazer cá acima, apareceram três soldados e levaram-nos. - Levaram-nos para onde? Nikos abanou a cabeça. Indy olhou-o espantado. Perguntou: - Soubeste os seus nomes? - Não me disseram, mas há qualquer coisa mais que tenho que te dizer... - Ah sim? Que mais? - Era agora que ele ia falar da Ordem Mas estava outra vez enganado. - É a Dr.a Belecamus. Não julguei que tivesse importância, mas agora já não estou tão certo... Três ríspidas pancadas na porta fizeram calar imediatamente Nikos. Saltou da cama como se tivesse sido atingido por um raio. 136 - Vai, abre! - disse-lhe Indy. Era Dorian. Trazia um vestido de algodão branco e parecia que ia para um baile. O cabelo negro tinha reflexos brilhantes ao sol do fim da tarde que se filtrava através da janela e a sua beleza era quase deslumbrante, Olhou de Nikos para Indy, e disse: - Venho interromper alguma coisa? - Não, entra! - Tenho de me ir embora - disse Nikos. Deitou um olhar


furtivo a Indy e saiu. Dorian aproximou-se da cama: - E como te sentes hoje? Indy encolheu os ombros: - Melhor. Prazer em ver-te... Havia um laivo de sarcasmo na sua voz: era apenas a segunda visita que ela lhe fazia desde o acidente, e da primeira vez tinha lá estado apenas alguns minutos. Tinha-lhe pedido desculpa do acidente, mas quando ele lhe perguntara como é que aquilo tinha acontecido, ela respondera que não fazia a mínima ideia. Não tinha acreditado nela; tinha a certeza de que ela estava a esconder qualquer coisa; possivelmente as suas suspeitas de Doumas. - Tenho estado muito ocupada, mas tenho pensado muito em ti. Ouvi dizer que o Nikos te tem feito companhia... O seu sorriso parecia mostrar que o interesse do rapaz por Indy era ridiculamente infantil. Continuou: - É engraçado; mas de que é que vocês falam? - Imensas coisas. Agora mesmo, por exemplo, ele estava a falar de dois americanos. Disse-me que tinham vindo ao hotel perguntar por mim... - E viste-los? - perguntou alegremente. - Não; o Nikos disse-me que apareceram uns soldados e os levaram. - Eram os seus acompanhantes! - disse ela. - Eu encontrei-os antes disso na taberna e convidei-os para a recepção real desta noite. É um casal encantador. E eu vinha cá saber se tu também podes ir... - Mas quem são eles? Eu não conheço ninguém na Grécia... Dorian sorriu intencionalmente: - Eu soube umas coisas do teu passado. Era aquela tua velha amiguinha, a que deixaste em Paris... - Madelaine? - disse Indy espantado. - Essa mesma. Estava com um inglês chamado Brent; um muito simpático. Estavam em Atenas quando souberam que o rei vinha cá, e vieram imediatamente... - Não posso crer! E por que foi que os convidaste a eles para a recePção? - a verdade é que eles estavam a fazer tudo para serem convidados e ficaram encantados quando eu sugeri isso... 137 - Posso imaginar. São convidados admiráveis: têm uma grande experiência em festas...


Dorian sentou-se na cama e deu-lhe uma palmadinha na perna. - Parece que ficaste com um bocadinho de ciúme... Ele riu-se um bocadinho nervoso: - Não, ciúme não. Só admirado... - Vens comigo, por favor? Tenho a certeza que eles gostariam de te ver... - Eu também gostava de os ver... - Óptimo. Isso quer dizer que te deves estar a sentir melhor? - Acho que sim. Não me agrada ficar na cama dia e noite... - E agora tens a oportunidade de te encontrares com o rei. Acho que ele soube do que te aconteceu, e tenho a certeza que gostaria também de te ver. Podes contar-lhe a tua aventura no coração de Delfos! - Eu tive esperanças de que tu própria estivesses interessada nisso; nem sequer me perguntaste nada sobre a placa... Ela mostrou-se espantada: - Mas por que é que eu te havia de perguntar por ela? Perdeu-se, não foi? - Alguém esteve lá antes de mim, e limpou-a... - O quê...? - a sua expressão era de incredulidade. - Tens a certeza disso? - Eu até tive tempo para a traduzir! - Traduziste? E o que é que dizia? - Eu leio-te. Indy pôs as pernas do lado de fora da cama, e ajeitou a camisa de dormir. Procurou debaixo da cama, cerrando os dentes ao sentir um trejeito de dor no corpo. Depois lá conseguiu chegar a mão à mochila e puxou-a para fora. - Como é que arranjaste isso? - perguntou Dorian num trejeito de desconfiança. - Oh, mandei-a buscar... - respondeu ele evasivamente. Procurou no bolso do lado e encontrou o livro de apontamentos. Quase não conseguia perceber a sua própria letra, o que não era de addmirar porque tinha garatujado quando estava suspenso da corda e numa meia obscuridade. Lentamente leu a tradução. A legenda começava com uma pergunta, e era seguida da resposta: Precisamos de saber: Haverá sempre Pítia? Essa pergunta é feita por todas as gerações E a resposta sempre a mesma é. Vasto é o poder do Oráculo de Apolo Mas apenas enquanto a crença existir.


138 Em verdade o dia virá em que a última Pítia se afaste do sagrado Delfos. Só então se apagarão o grande poder de Apolo E desfazer-se-ão em pó as obras dos seus seguidores. Ergueu os olhos do livro de apontamentos e olhou para Dorian que se conservava imóvel, pensativa. - Mas há mais... Virou a página à procura do sítio em que tinha escrito a segunda pergunta e a sua resposta: Ó Pítia! A ti clamamos reverência para estes ramos de súplica que trazemos nas mãos, e nos dês algo mais que nos conforte sobre o futuro do Oráculo! Se assim não for este santuário não deixaremos, e aqui ficaremos até que a morte nos arrebate. Verdade é o que foi dito. Só quando o Oráculo já for Uma remota recordação, Haverá uma esperança. Erguei agora os vossos corações, E regressai felizes a casa. Porque após a restauração o Oráculo regressará E o seu grande segredo será revelado. Dorian levou a mão à garganta: - Interessante, muito interessante... - murmurou. Levantou-se e passou as mãos pelo vestido a alisar-lhe as rugas. Sorriu longamente: - Pena não a teres podido recuperar... Bom; o melhor é arranjares-te; está a fazer-se tarde. Vou mandar vir uma carruagem ao hotel daqui a vinte minutos. - Vinte minutos? Ena, obrigado por avisares com tanto tempo... Ela não respondeu: ia já a sair a porta. Indy fez uma careta de dor ao vestir a camisa, e depois com muito cuidado enfiou as calças. Não tinha muita roupa consigo, por isso, as calças de caqui, uma camisa de algodão e uma gravata tinham de chegar para a recepção. Depois de vestido enfiou o casaco de cabedal e pôs o chapéu. Deambulou em torno do quarto e viu o móli. Apanhou-o da mesa e deu-lhe voltas na mão. Não se considerava supersticioso, O móli não passava de um alho, e o alho era apenas isso: alho. Mas também... não lhe fazia mal nenhum levá-lo consigo, pensou. E meteu-o no bolso.


139 O vestíbulo do hotel Delfos era tudo menos importante: Era um recinto acanhado com um tapete muito usado, um divã que já tinha conhecido melhores dias e um par de cadeiras de costas direitas. A um dos lados estava a mesa da recepção e atrás dela, debaixo da escada, estava um divã onde Nikos estava deitado de lado. Quando viu Indy pôs-se em pé de um salto. - O que é que estás a fazer fora da cama? - Vou à recepção do rei! - Mas...? A porta da rua abriu-se e Dorian espreitou para dentro: - Ah, já aí estás! A carruagem está à espera! - Óptimo! - olhou para Nikos e encolheu os ombros: - Depois falamos... Quando saíram da aldeia e subiam a montanha ao som ritmado do clip-clop dos cascos dos cavalos, Indy tentou diversas posições para aliviar o desconforto, mas estava constantemente a ser atirado de um lado para o outro, e as costelas doíam-lhe imenso. Bem teria preferido ficar na cama e quase disse a Dorian que queria voltar para trás. Em vez disso perguntou: - Afinal, quando é que arranjam alguns automóveis para aqui? - Tu não estás em Chicago, Indy. Além disso, um passeio de carruagem nesta estrada é tão suave como um Model T... - Talvez tenhas razão... - disse ele. - E a propósito: porque é que tu vais a esta recepção? Admiro-me que tenhas sido convidada; ou até mesmo que te queiram lá... - Ora, ora, Indy! Nós não somos bárbaros! Poisou-lhe a mão no braço, mas só por um momento: - Estamos nos anos vinte: temos um protocolo, como quaisquer pessoas civilizadas. O rei vai mostrar-se respeitoso para mim, e eu farei o mesmo a seu respeito; e as minhas opiniões políticas não serão objecto de discussão... Indy sentiu-se tentado a pousar a mão na coxa dela, para ver qual seria a sua reacção, mas achou melhor não. Claro, ele bem gostaria que as coisas fossem como eram antes de terem chegado a Delfos, mas também, se ela mudara a sua atitude, ele nada podia fazer a esse respeito. Pelo menos, naquela noite. - Indy, amanhã de manhã, quando o rei visitar as ruínas, gostava que fizesses parte da comitiva... - Porquê? - Por que não? Acho que seria uma boa altura para lhe


falares da placa. Esta noite ele vai estar muito ocupado... Minutos depois o refúgio do rei surgiu à vista no alto da estrada. A maciça estrutura era feita em pedra e parecia quase 140 nascer da própria montanha. Tanto a mansão como a montanha pareciam um quadro com pinceladas com cambiantes de vermelho e laranja lançados pelos ráios do sol poente. Quando viraram pela estrada principal, Indy reparou nos grupos de pequenos vultos que se recortavam na varanda, e logo a seguir a mansão desapareceu da vista. Pararam num posto de segurança, e um guarda consultou uma lista quando Dorian lhe indicou os seus nomes. Acenaram-lhes para seguirem. A carruagem deixou-os à porta princiPal. Quando iam a subir os degraus, um outro guarda postado à entrada olhou-os de alto a baixo. Franziu a testa ao fato de Indy e depois com certa relutância fez-lhe um gesto para seguirem. Dorian ignorou-o, mas Indy deteve-se a olhá-lo também de cenho igualmente carregado. E disse-lhe: - Endireita a gravata, soldado! Entraram. A sala estava pejada de convidados e de criados de casaco branco a servirem bebidas e aperitivos. Havia pelo menos doze lareiras na sala, todas acesas. - Já aqui estiveste alguma vez? - perguntou Indy. - Só uma vez; é um sítio adorável... - E grande, calculo! - Trinta e quatro divisões, incluindo quinze quartos de cama. "A média para um rei, imagino... - Bastantes sítios para descansar, pelo menos. Talvez pudéssemos pedir um; afinal... estamos nos anos vinte. Ela inclinou a cabeça para ele e disse com uma ponta de severidade: - Deixa-te de criancices ou de brincadeiras; e seja lá o que for que faças, não digas qualquer coisa disparatada ao rei! - Eu acho que me sei comportar. Indy descobriu Doumas que avançara por entre a multidão em direcção a eles, precisamente a pessoa que não tinha o mínimo interesse em ver. Afinal aquele gorducho arqueólogo ou era incompetente, ou tinha deliberadamente deixado que ele descesse à cratera numa corda desfiada. - Olha quem aí vem! - disse ele a Dorian. - Já não me sinto muito bem...


- Jones! Já a pé? Que espantosa recuperação! Estou espantado com essa resistência! Pronto: outra vez amigos. Maravilhoso... - E eu também! - Olha, o que é que tu estavas a dizer de uma pedra preta? Enquanto falava ia mastigando coisas de um prato de aperitivos que tinha na mão. Indy franziu a testa: - Não me lembro de ter dito qualquer coisa a esse respeito... - Pois, lembres-te ou não, a verdade é que disseste! 141 disse Doumas. - Quando te tirámos do buraco, vinhas a resmungar qualquer coisa a respeito de uma pedra do feitio de um cone que tinhas achado e que querias lá voltar para a trazer... - E disse isso? - Estavas a delirar - disse Doumas. - Mas o que foi que viste, exactamente? Indy olhou para Dorian; esta observava-o atentamente. Respondeu: - Foi exactamente isso: tinha uma coisa qualquer a cobri-la como uma corda que se tivesse petrificado. E eu gostaria de lá voltar para a trazer. - Porquê? - perguntou Dorian. Indy não sabia. Mas tinha pensado muito naquela pedra. Na realidade era uma coisa que não lhe saía da cabeça. - Apenas acho que valia a pena ir lá buscá-la; principalmente visto termos perdido a placa... - Mas tu não estás precisamente em condições para fazer isso - disse Doumas. - Não acha, Dr.a Belecamus? Dorian respondeu rispidamente: - E também não me parece que tu o estejas; e eu não quero que ninguém desça aquela fenda sem me dizer. Está entendido, Stefanos? - Claro, mas... Dorian afastou-se sem mais palavras e desapareceu na multidão. - Ela está zangada consigo - disse Doumas. - Por causa da corda. - Pegou numa fatia de bolo do prato e meteu metade na boca. Indy sentiu passar-Lhe uma coisa pela vista, ao ver a audácia do homem. Ripostou: - Eu é que devia estar zangado! Afinal, que diabo é que se


passou? - A corda estava podre. E depois naquela confusão, perdemos a outra. Desculpa. Eu queria ir pedir-te desculpas há mais tempo, mas não queria incomodar... Indy esteve quase a acusá-lo de ele próprio ter ido lá abaixo e ter limpo a placa, quando Doumas se aproximou mais dele e lhe disse ao ouvido: - Se eu fosse a ti, Jones, tomava cuidado com a Dr.a Belecamus, hoje. Está cá o namorado dela, sabes? É aquele além, fardado de coronel. E dizem-me que ele é muito ciumento... Indy quase se sentiu sufocar com o fedor que tresandava de Doumas. Deu um passo atrás. O homem que Doumas indicara tinha um rosto rude e um nariz adunco. Parecia andar perto dos cinquenta; talvez vinte anos mais velho que Dorian. 142 - Obrigado: não me esquecerei disso... - disse Indy. Como se um dia Doumas tentava matá-lo, e no outro estava a avisá-lo do perigo. Não fazia sentido. E a maneira como Dorian tinha reagido no seu quarto aos seus comentários sobre a placa? Parecia ter ficado abalada, não pelo facto de alguém ter limpo a placa, mas pelo que ela dizia. Em especial, as últimas linhas acerca do regresso do Oráculo e da revelação de um grande segredo. "O número de coincidências ligadas às profecias do velho estava a crescer...", pensou. Tinha havido o terramoto, tinha surgido a Dória. Tinha chegado o rei. Agora a placa parecia confirmar aquilo que o velho tinha dito: raios! Não era de admirar que ela tivesse empalidecido; naturalmente devia estar a pensar se afinal não seria mesmo a Pítia. Mas coincidências acontecem constantemente; e só são misteriosas quando estamos à procura de mistérios... - Indy! Ora cá estás tu! Voltou-se ao ouvir a voz esganiçada: - Madelaine! - Ela estava como se nada se tivesse passado, e estivesse simplesmente em mais um bal musette: - Disseram-me que estavas aqui, mas eu quase nem queria acreditar. - Que bom, não é? Eu adoro a Grécia; e tu? - Claro! É uma coisa que mexe connosco cá dentro... A tua amiga Dorian disse que tu tinhas sofrido um acidente; mas a mim pareces-me bem... Indy ia a dizer-lhe o que lhe tinha acontecido, quando ela


disse qualquer coisa que o deixou como que paralisado: - Aquele teu amigo, o Jack Shannon, também cá vem hoje? - De que diabo é que estás tu a falar? O Jack Shannon está em Paris.! - Não está, não! Está aqui. Ainda hoje de manhã o vi na taberna e estava com um outro que disse que também te conhecia... - Tu viste-o aqui? - Foi isso que eu disse! - E quem era o outro homem? - Não me lembro. Jack apresentou-me, mas estava uma grande confusão. Tom, Terry... talvez Larry. Era mais velho... - Mais velho... quanto? - Teria talvez 35... 40 anos. Sabes? Velho! Tinha barba; era canadiano, acho eu, não sei... Quem é que ele conhecia que tivesse barba e fosse viajar para a grécia com Shannon? Não se lembrava de ninguém. Ninguém assim mais velho. Ninguém que ele conhecesse... - Tu tens a certeza disso? Falaste com o Shannon? 143 - Claro! Tomámos um copo de ouzo juntos. Disse-me que andava à tua procura: parecia preocupado... Olhou em redor e continuou: - E agora para onde é que foi o Brent com a minha bebida? - Como é que Jack sabia que eu estava ferido? - Não creio que o soubesse: eles tinham acabado de chegar, cerca de uma hora antes de nós... - Mas tu encontraste-te com a Dorian; ela falou com eles? - Não sei. - A rapariga estava a ficar aborrecida com as perguntas. Torceu o pescoço e pôs-se em bicos dos pés a olhar para a sala. Indy, no entanto, insistiu: - Tu e Brent vieram ao hotel para me ver quando souberam que eu estava ferido? Ela sorriu pouco à vontade: - Bom, a verdade é que ainda não tivemos oportunidade... Apertou-lhe o braço com meiguice: - Mas agora estás aqui, e está tudo bem... - Pois. Está tudo de primeira! Nesse momento anunciaram o rei, e um homem alto, um pouco grisalho entrou na sala. Apertou as mãos das pessoas, umas atrás das outras à medida que ia passando pela multidão, coxeando muito ligeiramente. Madelaine escapou-se, ou para ver mais perto o rei, ou então à procura de Brent e da sua bebida.


Indy viu ao longe Dorian ao lado do coronel. Tinha a certeza que ambos tinham estado a olhar para ele. Queria acima de tudo perguntar a Dorian por Shannon e pelo outro homem, mas hesitou ao lembrar-se de que Nikos lhe tinha dito que tinham sido soldados que tinham levado o casal. Que explicação daria Dorian desta vez, e para onde diabo os teriam levado? Não se podia conter mais; precisava de respostas. Começou a atravessar a sala, mas de repente viu-se frente a frente ao rei que lhe estendeu a mão. Indy apresentou-se rapidamente e apertaram as mãos. - Ah, sim! O senhor deve ser aquele que eu ouvi dizer que tinha caído no buraco... Indy assentiu em silêncio, sentindo-se pouco à vontade perante aquela atenção real. Disse: - Não volta a acontecer... O rei riu-se e deu-lhe uma palmada no ombro: - Esperemos que não. Amanhã de manhã vou visitar as ruínas. Vai lá estar? Indy tinha outras coisas em mente, mas o que é que podia dizer? - Sim, evidentemente! - Óptimo. Talvez então me possa contar tudo o que aconteceu. Até amanhã! 144 Indy deu um passo atrás e o rei voltou-se e começou a falar com outra pessoa. Agora já não via Dorian nem o coronel. Vagueou pela sala e foi até à varanda. Ela não estava à vista. - Pareces perdido, Indy! - Disse Doumas atrás dele. - Viste a Dr.a Belecamus? - Foi-se embora. Saiu com o coronel Mandraki há poucos minutos. 145 CAPÍTULO XVII À VOLTA DA FOGUEIRA Indy esgueirou-se em silêncio da mansão e dirigiu-se para


as traseiras onde os cocheiros esperavam com as suas carruagens. Perguntou pela carruagem de Doumas e indicaram-lhe o cocheiro. Dirigiu-se a ele e disse-lhe: - O Sr. Doumas pediu para tu me levares para o hotel! O cocheiro olhou para ele, duvidoso: - Tem a certeza? Ele tinha-me dito para esperar por ele... - Ele vai passar cá a noite... - Indy aproximou-se confidEncial: - Ouzo a mais... - Já...? - Já! - respondeu Indy gravemente. O homem assentiu e subiu para o seu lugar ao mesmo tempo que Indy subia para a carruagem. Nada do que tinha dito era verdade, mas não sentia o mínimo remorso por deixar assim Doumas sem transporte. Quando chegaram ao hotel, Nikos estava deitado no seu divã a ler um livro. - Viste a Dorian? - Não; ainda não chegou... - passou a mão pelo cabelo curto. - Voltaste cedo... - E talvez não fosse o suficiente. Quem é o coronel Mandraki? - Era o que eu te ia dizer quando ela entrou no quarto. É Aquele o namorado dela... Não era de admirar que ela se tivesse mostrado fria desde que tinham chegado a Delfos... - É um homem muito perigoso, e acho que a Dr.a Belecamus também o é quando ele está perto. Foi por isso que eu te trouxe móli. Para te proteger. - Obrigado. Agora diz-me mais coisas dos americanos que me vieram ver. - Um era alto e magro, com cabelo ruivo e uma barbicha: no queixo... - Nikos esfregou a mão no queixo a indicar uma barba rala. - O outro era mais baixo e tinha uma grande barba. E eu tenho aqui uma coisa para ti... 146 Inclinou-se para baixo do balcão e estendeu-lhe um chicote enrolado. Disse: - O teu amigo mais alto pediu-me para te entregar isto antes de tu te encontrares com ele. Disse que tu havias de saber o que era. depois ia a entrar para o teu quarto. Mas chegaram os soldados. Indy pegou no chicote e passou as mãos por ele. Era a


confirmação: Shannon estava ali, mas continuava a desconhecer a identidade do outro homem. - Indy, tenho outra pergunta sobre a América... Não estava com muita disposição para conversa amena. Respondeu: - Não é lá muito boa altura, mas mesmo assim, diz lá! - É verdade que os americanos põem compota de maçã no pão? Indy olhou espantado para ele: - De que raio é que estás a falar? O rapaz mostrou-lhe o livro que tinha estado a ler: - Aqui diz que a rapariga come o pão assim... - era um velho exemplar do Seventeen. - Onde é que arranjaste esse livro? - Foi um dos americanos que mo deu; o mais baixo, com barba. E nessE momento Indy recordou-se daquele dia na Le Dôme, de quando Ted Conrad lhe falara no encontro com Booty Também lhe mostrara o seu exemplar usado. Pegou na revista e leu a primeira página. E lá estava, assinado pelo Tarkington a dedicatória: «Para Ted, boa sorte na escrita.» Mas que diabo estaria Conrad, o seu velho professor de história a fazer ali? E porquê com o Shannon? Nem sequer se conheciam um ao outro.,. E mais: por que razão Mandraki os queria afastar? - Olha, encontrei isto no livro... - disse Nikos. Conheces? Passou para as mãos de Indy a fotografia de um homem simpático, sorridente, mais ou menos da sua idade. Estava de pé ao lado do que parecia ser uma estátua grega e atrás dele viam-se os degraus de pedra de um anfiteatro. - Nunca na vida o vi... - disse Indy. Bateu distraidamente com a fotografia na orla do balcão e franziu a testa. Disseste que os meus amigos tinham sido levados pelos soldados. Pediram-lhes delicadamente para irem com eles, assim como se fossem uma escolta? Nikos abanou a cabeça vigorosamente: - Nada delicadamente! Foram levados como se fossem criminosos. O coronel Mandraki é que dava as ordens... - para onde é que os levaram? - Isso não sei, mas partiram na direcção das ruínas... 147 - Já é um bom começo. Eu vou procurá-los. Posso ficar com isto? - mostrou a fotografia. - Só se me deixares ir contigo...


Indy hesitou: - Eu não te quero meter em sarilhos, Nikos... - Eu posso ajudar-te a descobri-los. Conheço bons esconderijos perto das ruínas. Podemos procurá-los lá... Indy meteu a fotografia no bolso interior do casaco, e entalou o chicote no cinto. - Está bem; mas lembra-te que não andamos a brincar às escondidas com esses soldados. Isto agora é a sério... - Eu sei. Tens o móli? Indy forçou um sorriso: - Tenho... Minutos depois tinham já montado a cavalo, com Indy a aconchegar com a mão as costelas doridas e depois a atiçar os flancos dos cavalos que partiram a galope. Quando se aproximavam das ruínas, Indy fez um gesto a indicar a oficina e deixaram a estrada. O sítio parecia calmo e deserto, mas mesmo assim ele queria vistoriá-lo. Desmontaram perto da cavalariça e avançaram cautelosamente até à oficina. Experimentou a porta e ficou admirado ao ver que não estava trancada. Lestamente abriu-a. Sobre a mesa ardia um candeeiro de petróleo. Avançou ao longo das filas de prateleiras carregadas de placas de pedra, olhando ao longo de cada corredor. Nem sinal de Dorian nem de qualquer outra pessoa. E iajá a voltar para a porta quando reparou em qualquer coisa branca e filamentosa a sair de um dos cacifos. Baixou-se sobre um joelho e palpou o tecido. Teve quase a certeza de saber o que era. Abriu a porta, e tinha razão: era o vestido de Dorian, o que tinha vestido nessa noite, na recepção. Tinha estado ali, e tinha mudado de fato. O facto de não ter voltado ao hotel só podia significar que ela e Mandraki estavam com pressa. Ia a fechar a porta quando viu uma folha de papel colada na rede do fundo do cacifo. Tinha três colunas de números, a atravessar a página com a disposição seguinte: 1 4.23 (3.05) 1 7.28 (3.11) Não demorou muito a descobrir de que se tratava. O número da esquerda representava os dias e o dia 1, tinha a certeza, era aquele em que tinham chegado e tinham começado a registar os vapores. Na coluna do centro eram as horas da subida 148


dos vapores. Os números da direita representavam a duração em tempo entre as subidas. Percorreu com o dedo a página e percebeu que se tratava, não apenas do registo das anteriores subidas, mas da programação das subidas que se verificariam nos próximos dias. Um dos conjuntos de números estava sublinhado, e indicava: 11,41 (manhã) (6.53) Indy contou os dias desde que tinham chegado. Hoje era o oitavo. Amanh ã de manhã o rei visitaria as ruínas, e os vapores elevar-se-iam às 11.41. Isso podia ser útil. Esforçouse por decorar as horas das subidas de vapor para os dias seguintes. - Aqui não está ninguém... - disse Nikos. - Eu sei. Estiveram cá e saíram; e fosse lá para onde fossem, Dorian não quis usar o seu vestido... - Talvez se não quisesse sujar... Indy fez um aceno de concordância: - Pode ser. Conheces alguns esconderijos sujos para onde possam ter levado os meus amigos? Nikos pensou por momentos. Depois disse: - Há uma gruta por cima das ruínas... - Achas que Dorian a conhece? - Eu sei que conhece... - Como é que sabes? - insistiu Indy. Nikos pareceu subitamente pouco à vontade; os olhos negros mudavam constantemente de direcção e esfregava distraidamente os pés no chão. Por fim decidiu-se: - Sabes, um dia, quando eu tinha 12 anos, fiz uma coisa muito... - Diz lá! - Eu segui a Dr.a Belecamus e um namorado até aqui. Entrei nessa gruta depois deles, e... e vi-os fazer aquilo. - Esse namorado: queres dizer o coronel? Nikos abanou a cabeça: - Não, outro. Um ajudante; uma pessoa assim como tu: um estrangeiro! "Então ela tinha por hábito andar metida com os seus ajudantes diplomados...", pensou Indy. Lindo. Não sabia porquê, mas sentiu uma ponta de ciúme: sentiu-se traído. - Anda daí; vamos dar uma vista de olhos... Seguiram o carreiro para as ruínas, e subiram ao velho estádio que ficava para lá do teatro. Daí Nikos seguiu à


frente por uma vereda arborizada. Apontou para a parede escura da montanha lá à frente. 149 Indy não via nada senão a silhueta das árvores recortadas no céu banhado pela lua. Não parecia muito prometedor, mas agora não havia por onde escolher. O carreiro era íngreme e cheio de curvas a rodear o penhasco. Quase a cada passo Indy sentia aguilhoadas de dor nas costelas e na coxa, mas continuava a andar, impelido pela negra sombra de traição de Dorian. Por fim Nikos parou e apontou para diante: a luz da lua mostrou uma fenda com pouco mais de metro e meio de largura. - Só um bocadinho mais à frente... - murmurou. A fenda fazia uma curva em torno de uma saliência de rocha. Estreitava e os pés de Indy estavam a poucos centímetros da abertura. Sentiu-se subitamente satisfeito pelo facto da escuridão obscurecer a vista lá para baixo: assim não parecia tão perigoso, já que não podia ver a altura de que cairia se escorregasse... - Alto! - murmurou Nikos. Estava encostado à rocha, com o rosto na sombra. Indy ia a perguntar o que era quando ouviu o bater de pés no chão, mais adiante da fenda. Alguém ia ali mesmo à frente dele mas as rochas não deixavam ver quem era. Não havia tempo para mais nada senão tentarem fundir-se com as sombras dos penhascos. Encostou-se com força à parede, mas encolheu-se logo com uma dor lancinante quando a pedra lhe bateu na anca. Os passos tornaram-se mais fortes; viu qualquer movimento no escuro. Quem quer que era parara, certamente por ter pressentido as suas presenças. Estavam encurralados. O silêncio foi subitamente cortado por um berro patético e estranho, e Nikos desatou a rir: - É só uma cabra, com os seus três cabritos... - O que é que ela faz aqui? - Vivem aqui; são animais bravios... Nikos chamou a cabra, mas o animal manteve-se teimosamente no caminho à frente deles. - Não há outro por onde possamos ir? - perguntou Indy. - Não. Indy olhou em volta e descobriu um grosso ramo que atravessava por cima do caminho. Desenrolou o chicote e com um seco golpe de pulso fez a ponta dele enrolar-se em várias


voltas no penhasco. Depois deu balanço e passando por cima da fenda e das cabras foi cair do lado de cá delas. - Chô! Ponham-se a andar! - sibilou-Lhes; e a cabra, seguida dos cabritos afastaram-se apressadamente. - Como é que fizeste isso? - perguntou Nikos espantado. - Sorte, acho eu... Vamos embora. Seguiram cautelosamente o caminho rodeando as rochas até chegarem a ver a estrada da gruta. Do interior vinha o clarão de uma luz. Estava lá gente. Indy deu uma palmadinha no ombro de Nikos: - Boa marca. Tinhas razão! Chegaram-se mais próximo. Havia uma árvore que nascia num sítio qualquer acima da ravina e cujos ramos cobriam a entrada da gruta; não admirava que não tivesse visto qualquer luz quando Nikos indicara o local. Quando chegaram mais perto da entrada, Indy ouviu o murmúrio de vozes. Atrás de si Nikos tossiu ao de leve a aclarar a garganta e Indy voltou-se para trás levando um dedo à boca a indicar silêncio, mas com a pressa do movimento tropeçou numa pedra solta que rolou pela encosta. - Lá está, ouviste? - era a voz de Dorian. - Alex, vai lá fora ver o que é... Indy suspendeu a respiração. Jesus! Se aquela águia era a sua protectora, era agora que ele precisava dela... - Estive lá agora mesmo! - gritou Mandraki. - Já te disse são as cabras! As estúpidas cabras! - Desculpa, sou eu que estou nervosa... - respondeu Dorian. Indy limpou a testa, e agradeceu a Deus. E também à águia. Agradecia fosse a quem fosse que se encarregasse de manter o coronel Mandraki na gruta. Avançou muito lentamente até chegar perto da entrada da caverna. Baixou-se sobre um joelho e espreitou lá para dentro. Ao meio da gruta ardia uma fogueira, com o fumo a escoar-se por uma chaminé invisível lá no alto; e havia vários vultos sentados à volta da fogueira. Dorian estava de costas para ele e a seu lado estava Mandraki. Do outro lado viam-se dois soldados com espingardas. Apurou a vista àquela luz mortiça e foi então que viu dois corpos estendidos no chão, de barriga para baixo, e com as mãos atadas atrás das costas. Para lá deles havia três covas compridas e fundas e junto delas uma pá. Seriam algum sítio de escavações que ele desconhecia? Era de duvidar. Aqueles buracos mais pareciam sepulturas. Novas. Três. - Alex? - O que foi?


- Isto foi um grande erro; devíamos tê-los deixado em paz... - Não, não foi erro nenhum. Se eu os tivesse deixado falar com Jones, ele ia-se embora: e nós precisamos dele amanhã... - Mas nesta altura ele já sabe com certeza que alguma coisa se passa, e não vai aparecer nas ruínas: vai procurar os seus amigos. 151 - Não te preocupes: nós controlamos a situação! garantiu-lhe Mandraki. Indy fez sinal a Nikos para recuar. Cautelosamente foram-se afastando da boca da caverna até ficarem a uma distância que não pudessem ser ouvidos. - Ouve, Nikos; quero que voltes para o hotel. Se alguém perguntar por mim, dizes que voltei cedo e que me fui deitar. - E o que vais fazer? - Descobrir um sítio para ficar de atalaia. Mais tarde ou mais cedo, Dorian sairá: e é nessa altura que eu entrarei... Quando Nikos começou a descer a caminho das ruínas, Indy subiu um pouco mais da ravina até um sítio de onde podia ver fosse quem fosse que saísse da gruta. Isso, se se conseguisse manter acordado. Juntou um monte de folhas para Lhe servir de uma espécie de almofada e sentou-se encostado a uma árvore. Esfregou cautelosamente a coxa e ajustou a ligadura que lhe envolvia as costelas. Tentou descontrair-se, e ficou a pensar no que é que Dorian e Mandraki quereriam com Shannon e com Conrad, e também, por outro lado, por que razão teriam aqueles dois resolvido vir à Grécia; mas quanto mais pensava nisso mais confuso ficava. Insensivelmente fechou os olhos e estava a começar a adormecer quando o subconsciente o fez despertar de um salto. Pôs-se em pé e começou a andar de um lado para o outro para se manter acordado. E quando ia a sentar-se outra vez ouviu um ruído; não do lado debaixo, mas de cima. Virou a cabeça a tentar ouvir: deviam ser as cabras. Lá em baixo viu uma sombra a mexer. Inclinou-se para diante e espreitou. E depois percebeu que era a luz da fogueira na gruta; com certeza que tinham posto mais lenha nela. Tornou a ajeitar-se escorregando mais para baixo no tronco a que estava encostado, a tentar uma posição mais cómoda. Esfregou os braços, abraçando-os contra o corpo; estava frio e húmido. Se aqueles quatro lá na gruta estavam a fazer turnos de guarda aos prisioneiros, ia ser uma longa noite... As pálpebras teimavam em cair-lhe. Abriu os olhos, esfregou a cara e olhou


lá para baixo. Imaginou Dorian e Mandraki, abraçados junto à fogueira, quentinhos e depois a imagem diluiu-se e transformou-se. Agora era ele. E era Dorian, e Os dois, aninhados no beliche do comboio, abraçados. Quentes e seguros. E de repente sentiu qualquer coisa ameaçadora; estava perto, mas não conseguia ver. Era um homem louro a olhar para ele, o mesmo homem que tinha seguido Dorian depois de ela ter estado a falar com ele, o homem que tinha desaparecido do comboio. O homem apontou, e viu-lhe os lábios a mexer. Mas o que está ele a dizer? Era qualquer coisa: uma espécie de aviso, mas Indy não o conseguia perceber claramente.

152 Acordou num sobressalto, e sacudiu a cabeça. Apenas um sonho; Fica acordado! Esfregou os braços. Mas momentos depois tudo se esvaiu de novo. Vozes. Era alguém a não o deixar dormir. E ele devia saber quem era. Tinha de fazer qualquer coisa, mas as vozes misturavam-se com o sonho em que ele estava em Chicago. A voz de Dorian. Mas Dorian não tinha nada a ver com Chicago. Piscou os olhos, conseguindo por fim abri-los e orientar-se. "Estou na montanha. À espera. Mas de quê?" E depois tudo se encaixou no lugar, as confusas peças daquele estranho puzzle. Acordou. A lua estava a cair por detrás das montanhas, mas ainda havia que chegasse para ver a fenda. Não estava lá ninguém, e depois ouviu a voz de um homem na gruta. E depois a voz de Dorian: estavam a discutir. Quanto tempo teria dormido? Tirou o relógio do bolso: estava havia mais de duas horas. - Vou-me embora! - disse Dorian. - Está bem: vou contigo! - respondeu o homem. Falou em voz baixa com outra pessoa e nessa altura saiu da gruta. Indy espreitou para baixo, para a ravina, vendo Mandraki segui-la. Acompanhou-os com a vista até desaparecerem. Continuou imóvel, à espera, a ouvir. Os sons dos passos foram diminuindo até deixarem de se ouvir. Pôs-se em pé com a mão no cabo do chicote. Agora estava pronto. seguindo cautelosamente o caminho à beira da fenda, atento aonde punha os pés. O aroma no ar era intenso, quase doce, e teve vontade de fechar os olhos e voltar a adormecer. Algures mais adiante o mato tinha um a aberta que era suficiente para descer, pensou: "é aqui: cá está..." Ia preparar-se para descer quando o som de um ramo a partir-se o imobilizou. Voltou-se de repente. A princípio nada viu, depois vislumbrou


uma sombra, um braço levantar-se, uma lâmina a cortar o ar direita a si. Travou a pancada com o braço, agarrou o pulso do homem e bateu-lhe com o braço no joelho; a navalha saltou-lhe da mão e caiu para o escuro. O atacante tentou fugir, mas Indy agarrou-o pelo colarinho e puxou-o para si. E então viu quem era. - Filho de um cão! Deu um violento murro no queixo de Grigoris que o atirou para a frente. foi bater num tronco de árvore e depois tombou no chão. Avançou para ele e abaixou-se: a mão de Grigoris rebuscava à procura da navalha, a serpentear, em silêncio. Quando conseguiu apanhá-la, Indy deitou-lhe a mão. Encostou a navalha ao pescoço do homem, e disse-lhe: 153 - Sabes que eu não gosto muito de ti. Fazes um único som e corto-te as amígdalas. Percebes? Procurou nas algibeiras do homem e achou um lenço: amordaçou-o com ele. Disse: - Simpático da tua parte: assim não preciso de usar o meu. Agora desata as botas! Grigoris ficou a olhar para ele, mas logo a seguir sentiu a ponta da faca na garganta. - Já! Quando ele acabou Indy atou os atacadores um ao outro e depois amarrou os pulsos de Grigoris atrás das costas e à volta do tronco de árvore. Não iria ficar seguro por muito tempo, mas pelo menos devia demorá-lo um bocado: e ele devia pensar duas vezes antes de pensar fazer qualquer coisa: Ou, pelo menos, Indy assim o esperava. Pôs-se em pé. - Se eu te torno a ver esta noite, atiro-te do monte abaixo. Entendido? Indy desceu da escarpa e chegou à entrada da gruta. A fogueira ainda ardia rasteira. Shannon e Conrad continuavam deitados no chão, no mesmo sítio em que os tinha visto antes. Junto dEles estava um guarda. Um guarda. Onde diabo estaria o outro? Por cima dele ouviu um ramo estalar. Olhou para lá e nesse mesmo momento o outro guarda saltou da ravina. Volteou a coronha da espingarda tentando atingir Indy na cabeça. Este baixou-se e depois atirou-se de cabeça baixa contra o corpo do soldado. Rebolaram os dois até à entrada da gruta, com Indy a


tentar desesperadamente agarrar a espingarda. E, de repente, sentiu o frio do metal encostado à nuca. Era o outro guarda. - Não te mexas, malaka. Ou és um homem morto. 154

CAPÍTULO XVIII COM GUARDA À VISTA O começo da madrugada estava jáa varrer para longe o negro manto da noite no céu quando os fizeram sair da caverna e seguir ao longo da ravina. Shanon, todo ele braços e pernas, cabelo ruivo solto e barbicha a esvoaçar, cambaleava atrás de um dos guardas. Indy ia logo atrás e depois seguia Conrad com o casaco desportivo de lã sujo e amarrotado, o rosto e a barba enxovalhados da húmida terra da gruta. Mesmo depois de ter estado deitado no chão e amarrado durante várias horas, era a primeira vez que verdadeiramente os via: dèsde que os três tinham estado amordaçados e vendados. - Siga, siga! - ordenava continuadamente o outro guarda atrás deles. - Siga, siga! Continuem a andar, mas não muito depressa. Indy sentia-se estonteado por não ter dormido, e sentia o corpo dorido. No entanto, sabia que não iam ser mortos: pelo menos por enquanto. Felizmente os guardas não sabiam que ele os podia entender, e tinham estado a falar à vontade quando ele estava a ouvir. O que vinha lá atrás, de patente ligeiramente superior à do outro, tinha dito que deviam esperar por Mandraki, como ele tinha mandado. O outro guarda, contudo, o que o tinha apanhado de surpresa estava convencido de que Indy era alguém importante e que o devia levar imediatamente a Mandraki. Depois, o primeiro disse que era a ele que competia levar Jones, por ser o superior. Tinham discutido isso horas a fio, e por fim tinham chegado à conclusão que se Mandraki não regressasse até de madrugada, levariam ambos os quatro cativos até às cavalariças, e ali o mais graduado ia buscar o coronel. Quando chegaram ao fim da vertente, Indy teve finalmente a possibilidade de trocar olhares com Shannon e com Conrad. Não


conseguia adivinhar aquilo que eles estariam a pensar mas viu medo nos ares dos dois homens, e não se admirou muito: provavelmente ele próprio teria o mesmo olhar. 155 Quando desciam o atalho para o vale, o céu para lá das montanhas passou de um cinzento macambúzio para um rosa profundo. Abaixo deles as ruínas estavam ainda na sombra, cobertas por um manto de névoa. Se os vapores estivessem agora a sair, não se distinguiriam por causa do nevoeiro. Talvez fosse por isso que Dorian tinha querido aquele horário. Mas... se ela era a Pítia, o que tinha ela a ver com tudo o que estava agora a acontecer? Talvez nada. Talvez tudo... Na altura em que se estavam já a aproximar das ruínas, o corpo de Indy parecia não saber decidir-se se devia estar frio ou quente. Tinha a testa encharcada de transpiração, e os seus dedos estavam enregelados de frio. Saíram do carreiro, passaram para lá do estádio, e passaram pelas traseiras do teatro em ruínas. O nevoeiro estava a levantar e Indy teve a esperança de que alguém os visse. Com certeza que três homens de mãos amarradas e amordaçados seriam qualquer coisa de inesperado, e o boato rapidamente se espalharia; depois com certeza alguém iria investigar, especialmente hoje, quando o rei vinha visitar as ruínas. Como que em resposta aos seus pensamentos, Indy viu a sombra de um vulto passar pelos bosques ao longo do carreiro entre a cavalariça e as ruínas. "Por favor, que seja alguém que esteja com o rei..." suplicou para si. Depois viu que era uma mulher. Era Dorian, e as suas esperanças renasceram. Quando ela se aproximou, avaliou rapidamente a situação. - Bom trabalho. Andávamos à procura dele..... - disse, fazEndo um gesto de cabeça em direcção a Indy, como se ele fosse um carneiro ou uma vaca que se tivesse escapado do redil. Quando os guardas lhe disseram onde estavam a pensar levá-los, Dorian abanou a cabeça: - Levem-nos para além, para a cabana e tirem-lhes as mordaças. Depois dêem-lhes alguma coisa para comerem. Sorriu para Indy: - Não queremos que tu morras de fome antes de veres o rei! Olhou-o de alto a baixo e tornou a abanar a cabeça: - Também temos de te arranjar roupas novas; e deves fazer o


possível para descansar um bocado... "Era doida; tinha de o ser", pensou ele quando estavam a ser levados quase a correr para a cabana arruinada. Por que raio ainda quereria ela que ele visse o rei? Se ele próprio não tivesse inalado os vapores iria acreditar piamente que lhe tinham dado volta ao juízo. À entrada da cabana os guardas retiraram-lhes as mordaças e avisaram-nos por gestos para não falarem. Um após outro foram empurrados pela porta dentro. Lá dentro a luz era muito muito fraca, mas mesmo assim conseguiam-se ver uns aos outros. 156 Ninguém disse palavra; pelo menos durante um ou dois minutos. Indy esfregou o queixo e olhou em redor. A mesa e as cadeiras tinham sido tiradas, mas quanto ao resto a cabana estava na mesma, tal como tinha estado da última vez que a vira. Deixouse escorregar para o chão e encostou as costas à parede. Por debaixo do pano que cobria a porta de entrada, viam-se as botas pretas do soldado. Conrad deixou-se também cair a seu lado. Disse: - Eu podia dizer que era bom ter-te encontrado, mas nestas circunstâncias... Shannon passeava de um lado para o outro na cabana: - Não gosto nada disto a falar verdade, odeio-o. Quero dizer, estou completamente fora do meu ambiente. Não posso continuar desta maneira; quero tocar a minha trompete. Quero ouvir jazz, um jazz qualquer, seja lá o que for, até jazz falsificado, e quero uma bebida; nem que sej a essa merda horrível de pinheiro que aqui bebem. Seja o que for... - Jack, cala-te! - sibilou Indy. - Senão tornam-nos a amordaçar... - Ninguém me torna a amordaçar. Temos de sair daqui... - Havemos de sair, Shannon. Havemos de descobrir maneira de o conseguir! - disse Conrad. - Mas Indy tem razão: não faças barulho... Indy olhou para os dois homens: - Algum de vocês não se importa de me dizer que diabo estão aqui a fazer? Nenhum dos dois falou por momentos. - Vamos, vocês agora não estão amordaçados - murmurou. - E não me venham dizer que simplesmente lhes passou pela cabeça fazerem juntos um a excursão à Grécia. Raios! Eu nem sequer sabia que vocês os dois se conheciam. Os dois guardas estavam lá fora a discutir, provavelmente


sobre qual deles iria buscar a comida para eles. Conrad tirou partido dessa distracção: - Deixa-me começar pelo dia em que lá na Le Dôme tu me apresentaste a Belecamus. Depois de vocês os dois saírem do restaurante, um cavalheiro inglês chamado Gerald Farnsworth chegou-se ao pé de mim, e disse-me coisas preocupantes a respeito da Belecamus. Claro que eu fiquei preocupado, e disse-lhe que ias partir no dia seguinte para a Grécia com ela, mas não sabia onde tu vivias nem onde poderia contactar contigo. Ele disse-me que iria apanhar o comboio e que te informaria ele mesmo... "Farnsworth tinha-lhe prometido mandar um telegrama dentro de um ou dois dias", continuou. "Quando não recebeu quaisquer notícias dele, contactara a polícia e ficara a saber que o seu corpo havia sido encontrado num beliche do comboio. 157 Tinha sido apunhalado com um estilete afiado, qualquer coisa como um picador de gelo. Indy sentiu um nó no estômago quando percebeu que o homem que seguira Dorian desde o salão-restaurante devia ter sido esse Farnsworth. Tornou a olhar por debaixo da porta: as botas já não estavam à vista, e a discussão vinha agora de mais longe. Continuou a ouvir Conrad. Nessa noite Conrad tinha ido até à Jungle e começara a beber.í Tinha acabado de mandar vir o terceiro uísque, quando Shanno o reconheceu como professor da sua própria faculdade; não demorou muito tempo para Conrad descobrir que Shannon tinha sido companheiro de quarto de Indy e também tinha falado com ele antes da sua partida para a Grécia. - Quando eu disse ao Jack aquilo que tinha descoberto, ele ficou a saber que tu estavas em perigo e quis ajudar. Indy não se conteve mais: - O que é que o Farnsworth te disse? Conrad franziu a testa: - Eu tinha comigo uma fotografia, quando cheguei. Devo tê-la perdido. Seja como for, é... - Um momento. - Indy procurou no bolso do casaco e tirou fotografia que Nikos lhe tinha dado; estava meio amachucada e ele fez o possível para a alisar. - Queres dizer... este? - Ele mesmo! - disse Conrad excitado. - Fala baixo! - Agora era Shannon que tomava conta do nível de barulho. Olharam os três ansiosamente para a porta e ficaram a ouvir. Os guardas continuavam a falar, mas em tom


mais baixo. Indy ergueu a fotografia: - E então quem é ele? - Chama-se, ou chamava-se, Richard Farnsworth, irmão mais novo de Gerald, e antigo estudante formado em arqueologia na Universidade de Atenas onde Belecamus costumava ensinar. Desapareceu há dois anos. Nunca mais se descobriu rasto dele. - E então o Gerald Farnsworth começou a procurar o irmão continuou Conrad. - Descobriu que Richard e Dorian Belecamus tinham sido amantes, mas que ela andava também envolvida com Mandraki. E sucede que no fim de semana em que Richard desapareceu, o coronel foi visto com a Belecamus... Pela espinha de Indy correu um calafrio. Embora Conrad continuasse a falar, as palavras soavam como se estivessem a ser pronunciadas debaixo de água. Vogais longas, consoantes curtas. Como uma voz gravada a setenta e oito rotações. Esfregou o ouvido de encontro ao ombro a tentar aclarar a cabeça. 158 - O Gerald Farnsworth descobriu também que um outro aluno dela tinha sido encontrado morto com um tiro no seu próprio apartamento, cerca de um ano antes. E também tinha sido a mando dela. Tinham suspeitado dela, mas nunca ninguém foi acusado do assassínio. Depois, logo a seguir ao desaparecimento do Farnsworth, ela pediu a demissão da universidade. Possivelmente estaria prestes a ser acusada de conduta imprópria e de falta de ética perante os estudantes. - Muito pouco próprio! - interveio Shannon. - Foi então que ela trocou a Grécia por Paris. - A mim deu-me uma história diferente a respeito de ter deixado a Grécia - disse Indy, sentindo crescer dentro em si um bulhar de ira. - Acho que o que ela tem é um extraordinário apetite por alunos já formados, e eu estava a seguir na calha. Mas como é que se entende que Nikos, o miúdo do hotel, não soubesse quem Farnsworth era? Foi ele que me deu o retrato... - Porque Farnsworth nunca veio até aqui a Delfos. O romance dela com ele foi em Atenas; ela tinha muito cuidado para não arranjar namoros onde fosse difícil escondê-los... "Mas pelo menos deve ter tido um...", pensou Indy, ao lembrar a história de Nikos. Aquela sensação gelada já passara; agora em vez dela, sentiu um enorme peso, uma rígida opressão no estômago. Shannon acrescentou:


- E depois quando ela se fartava dos rapazinhos, passava-os ao seu amante assassino. Mas isto não é tudo, meu velho... Indy olhou-o espantado. Depois da história de Farnsworth não podia imaginar o que mais haveria. - A minha família tem alguns contactos aqui para estas bandas - disse Shannon. - Sabes o que eu quero dizer: gente com relações políticas. "Coisas secretas... contactos com o submundo...", pensou Indy. Shannon estava a fechar muito ojogo. Perguntou: - E o que é que vocês descobriram? - Primeiro de tudo, a tua professora de arqueologia tinha em mente qualquer coisa mais do que uma simples placa de pedra, quando fez esta viagem. Sabias que o pai dela é dissidente grego e está a viver na Itália? - Ela falou-me nisso. Disse que o papá não ia lá muito à bola com o rei. Diferenças de opinião... - É mais do que diferenças de opinião. O querido dela, o Mandraki, é muito chegado ao pai dela. Ouvi dizer que anda a planear qualquer coisa; talvez um golpe qualquer e que a Belecamus está metida nisso... - Um golpe? - Exacto. Por isso uma pessoa que eu conheço entrou clandestinamente no escritório dela e descobriu uma carta de Mandraki que confirmava isso. 159 "Shannon fora possivelmente essa pessoa", pensou Indy. - Mas se o que estás a dizer é verdade, então por que é que Dorian me trouxe com ela? - Eles vão servir-se de ti para qualquer coisa... - disse Shannon. - Deve ser qualquer coisa relacionada com o teu encontro de hoje com o rei. Cá por mim estou a pensar que eles querem matar o rei e tu servias para ficar com as culpas. Esta gente é pior que gangsters de Chicago. talvez até mais espertos... - O Mandraki ameaçou matar-te? - Não viste as covas na gruta antes de te vendarem os olhos? - perguntou Shannon. - Eles estão a planear matar-nos a todos hoje... Nesse momento o pano da porta da cabana foi afastado e um dos guardas entrou. Fez-lhes um sinal irritado para se calarem. O companheiro entrou com três pratos, cada um deles com um bocado de pão duro, batatas cozidas e uma fatia de queijo.


Enquanto comiam em silêncio, Indy ficou a pensar que Dorian era bem capaz de fazer aquilo que Shannon sugerira. Não sabia como é que ela planeava fazê-lo, mas fosse como fosse, tinha de avisar o rei. Indy aproximou-se de Shannon quando acabaram de comer e Disse: - Desculpa ter-vos envolvido nisto... - Fomos nós que nos envolvemos. Conrad pousou o garfo: - Eu nunca pensei como é que nós íamos ser descobertos tão depressa quando cá chegámos. Mas é claro, a Belecamus lembrava-se de mim... - A propósito - perguntou Shannon -, que diabo é que aquela tua amiga esganiçada, a Madelaine, está cá a fazer? - Riu-se pela primeira vez - Fiquei banzado! Mal tínhamos chegado aqui, e a última pessoa em que eu podia pensar aparece-me na rua a encontrar-se comigo... Nesse momento os dois guardas irromperam por ali dentro e obrigaram Shannon e Conrad a pôr-se em pé à bruta. - Ei, que diabo é isso? - gritou Indy. Ia a pôr-se de pé, mas atiraram-no ao chão e deram-lhe um violento pontapé no estômago. Quando se conseguiu endireitar Shannon e Conrad já lá não estavam, e ele estava de novo amordaçado. - Sacanas! - murmurou dentro damordaça. Rolou lentamente pelo chão de forma a poder ver a porta e espreitou. Conseguia ver um par de tacões de botas. Ficou a pensar se alguma vez tornaria a ver Shannon e Conrad. Pensou em Shannon e nas suas partidas na faculdade e como ele tinha ficado irritado quando Conrad o tinha denunciado ao reitor. 160 Mas tudo isso parecia agora muito infantil, em comparação com o sarilho em que estavam metidos. Fora a sua atracção por Dorian Belecamus que o tinha dominado. Tudo afinal se resumia a isso. Irritado deu um pontapé na parede, e, para surpresa sua, o pé passou lá para fora. Percebeu que o sítIo onde batera tinha ficado queimado pelo fogo que involuntariamente ateara no dia em que ali estivera a cronometrar os vapores. Puxou o pé para dentro e olhou para os tacões das botas do lado de fora da porta: não se tinham movido. Cautelosamente fez força com o pé na madeira meio carbonizada à volta do buraco. Bocado a bocado foi arrancando pedaços da rede até conseguir um buraco por onde coubesse. Começou a tentar passar


por ele, com os pés primeiro, e rastejando sobre o estômago. As ancas, no entanto, eram muito largas e começou a sentir-se muito apertado de encontro à parede. Apertou as pernas uma contra a outra e tentou de novo, de dentes cerrados quando a coxa onde a coxa se tinha ferido na queda raspou de encontro à parede. Dessa vez conseguiu, e ficou assim, meio dentro e meio fora da cabana. Firmou osjoelhos no chão e conseguiu sair mais um bocado. "Já não falta muito...", pensou; e nessa altura foram os ombros que ficaram presos. Torceu-se para a direita e para a esquerda, mas nada resultou. Quando muito parecia ter ficado mais preso. Deitou fora o ar dos pulmões e fez força com os joelhos, empurrando com quanta força tinha. A cabana abanou, mas ele continuou preso naquela armadilha. Olhou para a porta: os tacões das botas já não estavam à vista. "Oh, merda. E agora?" A resposta não se fez esperar. Sentiu que uma das mãos lhe agarravam os tornozelos e o puxavam. Soltou um gemido quando os ombros rasparam brutalmente contra a aresta, e logo a seguir estava cá fora do buraco. Virou a cabeça e viu um par de sapatos pretos. Olhou para cima; mas não era o guarda. Era Nikos. O rapaz tirou-lhe rapidamente a corda que lhe prendia os pulsos e arrancou-lhe a mordaça. - Cuidado, o guarda! - sussurrou Indy. - Não te preocupes! - respondeu Nikos. - Já tratei dele... e mostrou-lhe um cacete. Indy pôs-se em pé e teve um largo sorriso ao mesmo tempo que sacudia a terra do fato: - Como é que sabias que eu estava aqui? - Não sabia, até ver o soldado de guarda à porta. Vim à tua procura porque vi o coronel Mandraki levar os teus amigos pela porta das traseiras do hotel, escada acima. Está um soldado de guarda a eles num dos quartos. 161 Nesse instante Indy ouviu o estalido de uma pistola a ser engatilhada. Ergueu os olhos e viu o rosto duro de Mandraki a olhá-lo, com um trejeito na boca a tentar passar por um sorriso. Tinha uma pistola apontada à sua cabeça. - Ias a algum lado, Jones? Indy manteve o olhar na pistola e não respondeu. A última coisa que queria era antagonizar o homem, que, estava certo, não tinha qualquer hesitação em puxar o gatilho.


Mandraki olhou para Nikos: - Vai para o hotel, e fica lá... - disse por entre dentes. Se disseres uma palavra seja a quem for, eu mato-o. E depois vou à tua procura... Nikos deitou um olhar a Indy e depois afastou-se rapidamente. - Eu não gosto de matar crianças, Jones. Mas se tiver de o fa zer, faço-o. Isso agora é contigo... - Não sei o que é que queres dizer com isso... O sorriso de Mandraki tornou-se mais sinistro. Disse: - vais fazer o que eu disser. Caso contrário o miúdo e os teus amigos morrem. - O que é que queres que eu faça? - Vai haver um acidente. O rei vai cair na fenda depois dos vapores subirem. E tu vais dar-lhe uma pequena ajuda com um pequeno empurrão! "Espera aí que já vou!", pensou Indy. E em voz alta: - E se ele não quiser chegar-se ao pé dos vapores? - Vai querer; porque tu vais-lhe dizer como aqueles vapores te curaram os ferimentos, e que acreditas que lhe farão bem aos males de que ele sofre. Ele tem uma afecção na coxa; tem sido visto por médicos de todo o mundo, mas continua a sofrer disso. Vai querer tentar os vapores, isso posso garantir-to... Indy não sabia o que dizer. Tinha de descobrir a maneira de deter Mandraki. - Se tentares avisar o rei, mato-te nesse mesmo instante, lembra-te disso. Mas se cooperares com o acidente, tu e os teus amigos serão autorizados a sair imediatamente do país. Percebes? Indy não acreditou naquelas palavras. Nem por um segundo que fosse. Mandraki atirou-lhe com um saco de roupas: - Entra na cabana e muda de fato. Queremos que estejas apresentável para te encontrares com o rei... Teve um largo sorriso, a descambar numa gargalhada. Pela alvar. Pela mente de Indy perpassou um breve pensamento. "Se a águia era a sua protectora, não parecia estar a fazer grande coisa..." 162 CAPÍTULO XIX HISTÓRIAS DE ENCANTAr


Do seu lugar na saliência de uma rocha na base da encosta da montanha, para lá do templo de Apolo, Panos olhava por sobre as ruínas para um monte de pessoas reunidas na estrada, perto da entrada. O rei ainda não tinha chegado, mas devia estar a chegar de um momento para o outro. Já passava das 11 horas e os vapores iriam subir às 11 horas e 41 minutos. - Vamos! - disse Grigoris. - Podemos chegar mais perto! Panos abanou a cabeça: - Há muito tempo... Como sempre Grigoris estava cheio de pressa; mas esta manhã estava também com uma disposição carregada, negra. Quando Panos ali chegara, havia meia hora, Grigoris tinha despejado a sua história de infortúnio da noite passada. Panos tinha ouvido, olhado para as botas sem atacadores do filho e encolhera os ombros. Que não interessava, dissera-lhe. O que ele queria dizer era que Jones... não interessava. Já não interessava. Tinha visto os dois soldados de Mandraki levar os três estrangeiros pela montanha abaixo; não iam já criar qualquer problema. - Olha ali! - o dedo de Grigoris apontou para a estrada no preciso momento em que Panos via um enorme automóvel parar junto à entrada. O rei tinha chegado. Ficou a olhar, a ver um homem fardado sair do banco da frente do carro e ir abrir a porta de trás. Momentos depois um homem alto, de cabelo grisalho era ajudado a sair do banco de trás do carro.Vestia um traje de safari, como muitos dos estrangeiros que vinham a Delfos, e por momentos Panos não o reconheceu. Mas não havia dúvidas, pelas atitudes de deferência dos outros, de que se tratava do rei. Só a vista do homem que governava o seu país deixou Panos intimidado. Lembrou-se então do que Belecamus lhe tinha dito quando o acompanhara ao sair da oficina; e estava ainda confuso com isso. O rei estava em perigo, e o perigo estava perto, dissera ela. Teria sido a Pítia a falar, ou a Belecamus? Ou ambas? Era muito confuso... Fez um sinal a Grigoris, e começaram a descer o trilho até ficarem mesmo à saída das ruínas. 163 Esperaram por detrás de um tufo de árvores, a menos de


cinquenta metros dos pilares. Tinham chegado o mais longe a que se atreviam e agora olhavam para o grupo que se aproximava do templo. I Panos centrou a sua atenção no rei. Sentiu o coração a bater-lhe: sabia que estava para suceder um acontecimento monumental. História. Pela primeira vez, não era do passado. Estava a acontecer aqui e agora, um importante acontecimento histórico que afectara todo o mundo. Estava a vê-lo: faria parte dele... Belecamus estava a um dos lados do rei, e Mandraki do outro. Não gostava da maneira como o coronel parecia dirigir a procissão, como se fosse ele quem estivesse a mandar. E por que razão estava Doumas a ficar para trás como um parvo? Depois Panos suspendeu subitamente a respiração ao perceber que Jones estava no meio do grupo. O que é que ele estava ali a fazer? Não fazia sentido... Mesmo à distância, pressentiu o perigo; uma negra presença que o fez arrepiar. Tinha de ser o Jones; mas se Jones estava livre, fora Mandraki quem o permitira. E de repente soube que era o coronel a verdadeira origem do perigo. Ia assassinar o rei, e de uma forma ou de outra, servir-se de Jones para o fazer. Não podia permitir que tal acontecesse. Não hoje, principalmente. Não aqui em Delfos. Estava tanta coisa em jogo... Olhou para Grigoris e viu o ódio nos seus olhos; e ficou a saber que também ele tinha reconhecido Jones. - Pai, estás a ver...? - Sim, e agora ouvme com muita atenção. Não faças nada até eu te dizer. Tem de ser na altura exacta... Grigoris ficou a olhar para Jones e assentiu lentamente. Quando falou foi sem convicção: - Compreendo. Estamos aqui, e isso basta. Grigoris repetia apenas as próprias palavras de Panos. Mas agora Panos já não tinha bem a certeza de que fossem verdadeiras. Doumas acompanhou a comitiva do rei pelas ruínas, enquanto Belecamus ia falando alternadamente a gabar-se dos seus trabalhos como chefe arqueóloga de Delfos e a apontar os estragos causados pelo terramoto. Talvez ninguém mais pensasse que ela se estava a gabar, mas a insolência dela era óbvia para si. Conhecia bem a extensão dos seus trabalhos, e as suas limitações. Nada lhe agradaria mais do que a ver sair de Delfos para não mais voltar; pelo menos enquanto ele estivesse encarregado das ruínas. Esta não seria de forma alguma a maneira como ele apresentaria Delfos áo rei. Que diabo é que Mandraki sabia?


164 Não havia qualquer justificação para ser ele a ficar ao lado do rei. E depois havia o Jones. Provavelmente a única razão por que estava ainda vivo seria por o rei ter pedido para ele estar presente, e a Belecamus não querer que ninguém fizesse perguntas. E, no entanto, o homem parecia um lunático; tinha as calças muito curtas e a camisa grande de mais. Os sapatos estavam cobertos de lama. Se fosse noutro lugar qualquer que não as ruínas, nunca lhe seria permitido aproximar-se do rei. E não era só o fato: parecia arrastar-se como se não dormisse havia muitos dias. Que diabo teria ele andado a fazer depois de lhe ter fugido com a carruagem? Ao aproximar-se do templo, Belecamus estava a falar da fenda. Estava a dar grande ênfase ao facto desses vapores serem semelhantes aos dos valores históricos dos vapores mefíticos do Oráculo de Apolo. Atirou até uma mitológica referência chamando aos vapores o ichor, a seiva da vida dos deuses. Doumas quase desatou a rir. Nunca tinha ouvido falar de Delfos em termos tão românticos. "Deve ser influência do Jones...", Pensou. - E que efeito têm esses vapores em quem os inalar? perguntou o rei, avançando a coxear. - Tudo o que podemos afirmar com certeza é que não parecem causar quaisquer efeitos perniciosos. Pode haver uma sensação de bem-estar, mas isso pode ser apenas psicológico. Devo, contudo, dizer que o Sr. Jones tem outras ideias, das quais vos falará mais tarde, se estiverdes interessado. Ele parece pensar que os vapores têm efeitos curativos... "Muito esperta...", pensou Doumas. Estava a passar em claro por cima do que lhe tinha sucedido a ela própria, provavelmente por achar que seria pouco profissional dizer que tinha ficado afectada pelos vapores e tinha agido estranhamente durante alguns dias. Nem sequer tinha admitido ter mesmo inalado os vapores... Mas o que era aquilo a respeito de Jones? Uma coisa parecia ser certa, agora: ela devia estar prestes a dizer que era ela a Pítia. E, portanto, tinha perdido: ela não ia cooperar como ele esperara. Por que é que havia de o fazer? O canteiro fora um louco por pensar que ela o faria... - Quando é que os vapores sobem? - perguntou o rei. - Parecem vir e ir irregularmente; não achas Stefanos? Ora, porque é que ela tinha dito aquilo e o tinha colocado a ele em posição de ter de concordar com uma mentira? Aclarou a


voz: - Bom... parecem aparecer cada vez com menos frequência à medida que passam os dias... O próximo devia estar a surgir a cada momento; e ela devia sabê-lo. Mas talvez com a distracção da visita do rei se tivesse esquecido. Ficou a pensar se não deveria falar nisso. Mas... e se estivesse enganado? O rei iria pensar que ele era um parvo. Podia até ficar sem o seu cargo, 165 se o rei se decidisse a ficar à espera dos vapores e nada acontecesse. Não; não podia arriscar-se a isso... Doumas aproximou-se de Belecamus quando ela se dirigia para as inclinadas colunas do templo. Quando surgisse uma oportunidade iria mencionar a hora da subida dos vapores e deixá-la resolver depois o assunto. Ela, no entanto, parecia ansiosa por continuar a andar, e disse ao rei que do alto do monte ele já podia ver a fenda. - Sr. Jones, por que é que não conta a Sua Alteza a sua própria experiência? - perguntou Belecamus, pegando no braço do rei, guiando-o a subir o monte. - O senhor é que sabe mais a este respeito do que qualquer outra pessoa... "Incrível!", pensou Doumas. primeiro fora o coronel a indicar o caminho, e agora era Jones que não tinha mais qualificações do que ele, a assumir funções. Não queria tomar parte naquilo. Com evidente relutância foi seguindo atrás dos outros, detendo-se a meio do monte, próximo dos dois ajudantes do rei. Enquanto o rei espreitava para a fenda, Jones falou da sua queda. Descreveu a placa de pedra, e para surpresa de Doumas fez uma exacta descrição do que ela dizia. O rei, contudo, não parecia estar muito interessado. Ouviu Jones contar a sua queda na fen da e depois interrompeu para perguntar como é que os vapores o tinham afectado. - Penso que os vapores têm efeitos curativos... - disse Indy, mas não pareceu estar lá muito convencido do que dizia. - Bem vê, eu fiquei muito ferido com a queda, mas já sarei, muito rapidamente... - E nenhuns efeitos perniciosos? Jones abanou a cabeça. "Não parecia estar lá muito bem...", pensou Doumas. O rei depois de um curto silêncio disse: - Gostaria de experimentar eu próprio esses vapores, em qualquer altura...


"Não se eles te fizerem agir como a Belecamus...", pensou Doumas. Deu uns passos em frente, percebendo subitamente que a Belecamus estava a preparar alguma. O rei ia ver os vapores, e possivelmente também inalá-los. Belecamus estava agora a falar da placa de pedra e do regresso do oráculo: - De facto, alguns aldeães dizem que existe uma antiga profecia sobre o regresso da Pítia depois de um tremor de terra e na altura em que o rei chegar... O rei sorriu: - Ah, sim? Doumas susteve a respiração ao perceber que se tinha enganado: ela ia fazê-lo... 166 Nesse momento, como se por se falar nos vapores os tivesse despertado, Doumas ouviu o surdo rugido e o sopro que os anunciava. Os gases começaram a subir: ela planeara assim as coisas: talvez que fosse mesmo a Pítia. Mas nessa altura ela desceu do topo do monte quando os vapores lhe chegavam aos tornozelos. Mandraki pôs-se à frente dela, impedindo os dois ajudantes de chegarem perto do rei. - Deixem-no estar! - ordenou-lhes. - Majestade! - gritou um dos ajudantes ao ver os vapores envolverem o peito e os ombros do rei. Mas o rei ignorou-o. Belecamus afastou-se subitamente de Mandraki e desapareceu nos vapores com o rei e com Jones ao mesmo tempo que a densidade dos mesmos os envolviam completamente. Tudo sucedeu tão depressa ,e Doumas mal reparou que Panos e Grigoris estavam com eles. E, subitamente, criou-se um caos no templo. Panos correu monte acima para eles, mas Mandraki empurrou-o para trás. Os dois ajudantes estavam desvairados, tentando esgadanhar o caminho até ao rei. Mandraki lutou para os deter, mas nesse momento Grigoris foi esbarrar com o coronel. Panos correu novamente monte acima, e dessa vez desapareceu no meio dos vapores. Mandraki estava envolvido com Grigoris e com os dois ajudantes e não percebeu o que estava a acontecer. Doumas ficou a olhar num silêncio de assombro, quando um grito que era mais animalesco do que humano cortou os ares. Sentiu calafrios na espinha: sabia que Belecamus se estava a transformar em Pítia. Estava a acontecer, tal como Panos o tinha planeado. Ouviu a voz de Panos a proclamar a presença da Pítia... Não! Tinha de os deter. Era ele quem devia ter o


poder, não o Panos. Esforçou-se para trepar o monte, tropeçou e escorregou para trás. Ouviu as desconexas palavras de Dorian e a voz do rei. Rastejou para a frente, pôs-se em pé, e lançou-se para o meio dos vapores no sítio em que Panos tinha desaparecido. A nuvem de vapores ocultou os outros. A gritaria do lado de lá dos vapores parecia distante; sem interesse. Até o rei que estava perto de Indy tinha uma aparência fantasmagórica; uma vaga silhueta. Mas mesmo assim conseguia ouvi-lo a encher os pulmões de profundas golfadas dos vapores. - Senhor! Majestade! - Como é que se devia dirigir a ele? O rei ignorou-o. - Desculpe-me, Majestade... Tinha de o avisar do perigo. Mas depois como é que iria salvar Shannon e o Conrad... e a si mesmo? As suas vidas estavam em jogo, fosse o que fosse que acontecesse ao rei... 167

- A minha anca já está a sarar! - Havia júbilo na voz do rei. - Este lugar é... é um verdadeiro milagre! Antes de Indy poder dizer mais nada, outro vulto surgiu por entre os vapores. Era Dorian. Tinha os cabelos em pé, porque agitava a cabeça de um lado para o outro, espasmodicamente. O queixo escorria-lhe de baba; os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas. Gritou, um berro não humano. - O que é que tens? - perguntou o rei assombrado. Depois Panos avançou por detrás dela: - Majestade, a Pítia voltou! - exclamou quase a gritar. - O que é que pretendeis perguntar? O rei olhou, espantado. Pítia aproximou-se mais dele, olhando de esguelha com a língua a sair-lhe da boca: - Afasta-te! Afasta-te de mim! E logo a seguir começou a balbuciar coisas desconexas. As palavras saíam-lhe da boca, mas eram palavras que não faziam sentido. Indy detectou uma palavra familiar aqui e além: Latim. Francês. Grego. Inglês. Mas nada que se percebesse. - Pítia está a dirigir-se a vós, Majestade! - disse Panos. Diz que sois vós que tendes que vos afastar; que estais em perigo. "Que alguém muito próximo de vós vos quer assassinar. Fugi deste lugar; fuji já, para salvardes a vida. Mas ide com a convicção de que Delfos voltará a crescer de novo na fama, e


os destinos do vosso país irão mudar! - Quem és tu para me estares a dizer isso? - perguntou o rei. - Não sou eu: é a Pítia que fala... O rei olhou incrédulo para Dorian. Tinha a cabeça descaída para um dos lados e os olhos fechados. Balançava cadenciadamente para um lado e para o outro. - Ela é a Pítia? Indy virou rapidamente a cabeça ao divisar a corpulenta figura de Doumas perto de si. Corria com os braços estendidos direito a Panos e agarrou-o pela cintura. Dorian foi empurrada pelos dois e caiu, batendo com a cabeça com força no chão. Indy correu para ela, mas foi também empurrado por Doumas e Panos. Deu um passo atrás, a tentar recuperar o equilíbrio, mas os pés escorregaram-lhe à beira da fenda. Escorregou tentando desesperadamente agarrar a terra com as mãos em garra, até conseguir firmá-las num pedaço de rocha mesmo à beira do abismo; mas a rocha estava meio solta, a oscilar. "Meu Deus, não! Não quero morrer. Aqui, não; não com esta gente..." Puxou com quanta força tinha, conseguindo erguer o peito até à orla do buraco, no preciso momento em que a rocha se soltava e tombava no vazio. Ficou com as pernas penduradas mas conseguiu rastejar um pouco mais para cima e passar primeiro 168 uma e depois a outra para cima. Depois rolou, deixando-se ficar estendido de costas. Olhou para cima mesmo a tempo de ver um pé a descer-lhe sobre o rosto; agarrou-o no último momento e sacudiu-o. Viu então que o pé era de Grigoris, que voltava de novo a atacálo. Mas Doumas agarrou-o pelo pescoço. Segurou pai e filho num desesperado abraço e os três rolaram em círculos perigosamente perto da orla da fenda. Em qualquer momento podiam tombar no abismo e arrastar Indy com eles. Indy tentou rolar para mais longe da orla, mas quando o fez, diversos pés tropeçaram nele e os corpos caíram para o buraco. Alguém gritou e Indy viu umas mãos enclavinhadas à procura de um apoio. Estendeu o braço e agarrou-o num pulso. Quem quer que fosse ficara precariamente suspenso no ar, com um insuportável peso a puxar-lhe pelo braço até ao limite da sua resistência. Ouviu um grito lancinante quando um dos homens, não sabia


quem, mergulhou no abismo. Os repetidos gritos ecoaram pavorosamente no escuro, cada vez mais distantes, até se perderem num silêncio de morte. À sua esquerda Panos estava meio pendurado sobre a orla e Grigoris esforçava-se desesperadamente para o puxar para cima. Quem teria caído? Doumas? Então quem é que estava pendurado na sua mão, no seu braço, em todo o seu corpo. Com um esforço que lhe exigiu todas as suas forças, puxou, firmando os pés na terra solta. Viu aparecer um braço; um ombro. O pescoço. E por fim a cabeça do rei. Com a ajuda da outra mão que o rei lhe estendia conseguiu tirá-lo da boca diante do abismo. Puseram-se em pé ao mesmo tempo, e o rei olhou-o longamente. - Não me irei esquecer disto... - disse -, Salvaste-me a vida! Tão depressa como tinham surgido, os vapores dispersaram-se como um nevoeiro arrastado pelo sol. Era como se Doumas tivesse sido devorado vivo pelas forças subterrâneas de Delfos, e agora essas enigmáticas forças estivessem a retrair os seus etéreos tentáculos... Logo a seguir os ajudantes do rei estavam junto dele, amparando-o para o ajudarem a sair do templo em ruínas. - Ele queria-me matar... - disse o rei. - Quem? - perguntou um dos ajudantes. - O gordo; o arqueólogo. Mas eu fui avisado pela Pítia. Aquela mulher é a Pítia... Entretanto Mandraki amparava Dorian, e Grigoris ajudava o pai a levantar-se. - É mesmo a altura boa para dar à sola... - murmurou Indy, esgueirando-se dali. Correu por detrás do teatro para o carreiro que levava à cavalariça. Correu tanto quanto podia, com a anca dorida a latejar em cada passo que dava. 169 Os vapores não lhe tinham feito absolutamente nada; nem à anca nem às costelas, a bem dizer. O carreiro acabava na oficina, e ele correu pelo pátio fora até à cavalariça. Percorreu as divisórias e escolheu um cavalo; um que Dorian lhe tinha dito que era o mais forte e mais rápido. Atirou-lhe uma sela para o lombo, mas assim que a sentiu, o cavalo encabritou-se atirando fora a sela e quase atirando Indy ao chão. Saiu logo da divisória, resmungando: - Está bem, pá; fica para a outra vez...


O cubículo seguinte estava vazio, mas no outro ao lado estava o cavalo que ele já tinha montado antes. Selou-o rapidamente mas quando ia a montá-lo viu ao longe Mandraki a dirigir-se para ali, com Dorian nos braços. Podia é claro passar por eles a correr, mas o mais certo era Mandraki estar armado. Soltou uma praga entre dentes e voltou a meter o cavalo no estábulo, tirou-lhe a sela e baixou-se a um canto. Segundos depois Mandraki entrava na cavalariça. "Não venhas para aqui...", pensou Indy. Fechou os olhos ao ouvir o ranger de uma das portas. A que estava a seu lado, a do cubículo vazio. Mandraki deitava Dorian na palha do chão. - Dorian, acorda! Temos de ir embora! Indy ouviu uma bofetada seca. Depois outra. - Com mil raios, Dorian! Que diabo é que te deu? Dorian abriu os olhos ao sentir uma violenta bofetada numa das faces, e depois outra no outro lado. Não sabia onde estava. Depois viu Alex debruçado sobre ela. Olhou em redor. - O que é que eu estou a fazer aqui, na cavalariça? Ai, a minha cabeça... Com muita cautela palpou um ponto doloroso perto duma das fontes. - Saiu tudo mal; o que é que tu ficaste a fazer no meio dos vapores? Tu devias ter saído comigo... - E saí. Mas eu não sei o que aconteceu... - Bom, o rei escapou, e agora já sabe que houve um atentado contra a sua vida! - disse Mandraki. - O Jones tentou empurrá-lo? - Não sei! - respondeu Dorian. - Não consegui ver. Eu estava muito preocupada para ver se conseguiria sair dali sem cair lá para o buraco. Estamos em má situação? Mandraki abanou a cabeça: - Não. Ele pensa que foi Doumas que o tentou matar, e o Doumas está morto. Caiu... 170 - Então estamos safos... - Não antes de nos limparmos. - disse Mandraki. - Temos de ir depressa... - O que é que queres dizer com isso? Mandraki franziu a testa, admirado com aquela súbita estupidez. Martelou: - Temos de nos livrar do Jones e dos seus amigos. Depois de acabarmos com eles, eu vou pessoalmente tratar daqueles dois


idiotas da aldeia; do pai e do filho. Tens alguma ideia do que é que estavam aqui a fazer? Dorian voltou a cabeça para o lado. - Não faço ideia... - Outro dia o mais velho disse-me que Jones andava atrás de ti. Porque é que ele estaria interessado nos meus assuntos? Ou talvez, melhor dizendo, nos teus? Mandraki sempre tinha tolerado os seus devaneios com homens mais novos, amenos que achasse que já estavam a durar tempo de mais. Nessa altura acabava com eles, à sua maneira. E Jones não seria uma excepção, ela bem o sabia. Mas ela queria-o vivo. Fosse como fosse tinha de deter o Mandraki; tinha os seus planos a respeito de Jones... - Vai tu andando, Alex. Eu vou ficar aqui deitada um bocado a descansar... - Tens a certeza... Nesse momento ouviu um som como que de um resfolgar. - O que foi aquilo? - disse Mandraki. Pôs-se em pé e abriu a porta do estábulo. A palha e a poeira faziam cócegas no interior do nariz de Indy. Sentia um formigueiro a subir e descer pelo nariz; susteve a respiração. Tentou tudo para deter o espirro que se estava a formar. Mandraki estava a poucos passos de distância, não podia deixar de o ouvír. Apesar dos seus desesperados esforços a cabeça teve um espasmo sacudido e soltou um espirro meio abafado. - Raios! - murmurou entre dentes. A porta do cubículo ao lado abriu-se com um rangido. Indy esperou gelado e imóvel. Passou uma mão diante do espaço visível à sua frente. A mão fez uma festa no focinho do cavalo diante de si. Se Mandraki abrisse a cancela, via-o com certeza; não havia dúvida disso. - O que é que tens, bicho? Constipado? Graças a Deus; ele pensava que tinha sido o cavalo... - Realmente não pareces lá muito bem... Mandraki afastou-se do cubículo e deu uns passos em frente. 171 Mas o alívio de Indy foi de pouca duração. Quase logo a seguir outro espirro se começou a formar. "Depressa, vai-te embora!", suplicou mentalmente a Mandraki enquanto o coronel selava um cavalo noutro cubículo. Por fim, depois dos mais longos minutos da sua vida, ouviu Mandraki levar o cavalo lá para fora.


- Tens a certeza de que ficas bem? - perguntou o coronel a Dorian. - Tenho. Daqui a pouco já saio... Assim que Mandraki lá fora meteu o cavalo a galope, Indy soltou um sonoro espirro que acabou num ronco de satisfação. Sentiu-se tão bem que até sorriu. Mas logo a seguir o sorriso apagou-se-lhe. - Quem está aí? O perigo de Mandraki tinha sido tão grande que se esquecera completamente de Dorian. - Ninguém... - Jones! És tu? Quando se pôs em pé tocou com a mão no cinto e desejou intimamente que os guardas lhe não tivessem tirado o chicote. Dorian era sem sombra de dúvida uma pessoa de quem era preciso aproxim ar-se com mil cautelas. Abriu a porta do cubículo e ficou a olh ar para ela. Estava deitada de lado, com a cabeça apoiada num cotovelo. Não viu que ela tivesse quaisquer armas, mas também não se sentia disposto a baixar a sua guarda. Ela sentou-se e passou a mão pelos cabelos; bocadinhos de palha caíram-lhe pelos ombros. - Vem cá... - disse ela em voz baixa, gutural. Alguns dias antes aquela voz teria sido sedutora. Agora soava-lhe viperina... Não se moveu, nem disse palavra. Os olhos dela chamavam-no. - Ouviste o que eu disse ao rei quando estávamos nos vapores? - Ouvi a tradução... - O que é que eu disse? - Ela abriu os olhos e olhou-o com intensidade. Não sabia se ela na realidade se não lembrava, ou se o estaria a experimentar. Repetiu o que Panos dissera ao rei. - Avisei-o de uma ameaça contra a sua vida! - disse Dorian. - Como vês, desafiei Alex... - Sim? - Eu salvei a vida do rei, Indy. Tu ias matá-lo... - Isso era o que o teu querido queria que eu fizesse! contrapôs Indy. - E agora ele quer matar-me e aos meus amigos... - Eu posso ajudar-te... Ele abanou a cabeça: 172 - Não confio em ti, Dorian. Sei muito a teu respeito...


Os olhos negros da mulher pareciam querer atravessá-lo: - De que é que tu estás a falar? - Do teu antigo namorado; o Farnsworth. Tu mataste-o, a ele e ao irmão. E sabe Deus a quantos mais... - Não fiz nada disso... - Eu vou-me embora. Recuou a sair do cubículo e entrou no outro lado; mas quando estava a selar o cavalo, Dorian bloqueou-lhe a porta. - Eu... eu nem sempre fiz as coisas certas, Indy! - disse em voz suave. - Deixei que o Alex me manipulasse. Mas isso acabou, juro! Eu posso ajudar-te: a ti e aos teus amigos. Posso provar-te que não sou aquilo que tu pensas... - Obrigado, mas eu prefiro arranjar-me sozinho. - Se fores para o hotel, vais ser morto... - disse ela em ar de conversa. - É precisamente isso que o Alex espera que tu faças. e não os mata enquanto não te apanhar a ti; eles são o isco. Se queres continuar vivo, esconde-te até de manhã. Eu trago-te os teus amigos ao templo às 8 horas e 30 minutos. Pensou naquilo. Ela tinha provavelmente razão no que dizia sobre o hotel. Tinha poucas probabilidades de tirar o Shannon e o Conrad de Mandraki sem que pelo menos um deles morresse. - Então mais cedo! - Não. 8 horas e 30 minutos. Está lá a essa hora; não mais. Indy sabia pelo horário do cacifo de Dorian que os vapores se levantariam às 8 horas e 38 minutos. Que diabo tinha ela agora em mente? Mas também, que outra possibilidade é que ele tinha? Tudo se resumia a isto: Dorian era a pessoa de menos confiança que ele conhecia, mas de momento parecia ser ela a sua única opção. Respondeu: - Lá estarei. 173

cAPÍTULO XX NOVA SUBIDA O nevoeiro cobria as ruínas como montes de lã acabada de tosquiar. Panos só conseguia ver o vago contorno da cabana arruinada onde tinha passado a noite e virou de lá o olhar aborrecido.


Apesar do nevoeiro tinha confiança que Belecamus, a Pítia, ali estaria dentro de minutos. Ela iria ser atraída para os vapores como os ricos e poderosos em breve seriam atraídos para Delfos como formigas a correr para mel derramado. Em breve Delfos floresceria num renascimento dos tempos de antigamente. Os cofres do Oráculo ficariam carregados de peso sobre as ruínas do antigo templo, um novo Templo seria construído. E não haveria em Delfos mais lugar para cabanas toscas e arruinadas; ele se encarregaria disso. A cabana fora a maneira como Doumas fizera a ligação do passado com o presente, mas tinha sido um fraco elo em comparação com a poderosa força do Regresso. Doumas, no entanto, tinha sido uma contradição: tinha afincadamente procurado compreender a Ordem de Pítia da mesma maneira como estudava velhas construções em ruínas. E embora nunca se tivesse iniciado na Ordem tinha-se familiarizado com muitos dos seus segredos. Mas no mais devia ter-se sentido invejoso do poder que o sacerdote do oráculo abarcaria. Tinha desvairadamente tentado mudar o curso da história e apagar o inevitável regresso da Pítia. "Não: não estava certo", concluiu Panos. Doumas tinha querido o poder só para si próprio: fora por isso que ele o atacara a ele, em vez de Pítia. Mas claro, não o conseguira, e a sua vida terminara brutalmente num fracasso. Graças a Grigoris, Panos tinha escapado a idêntico fim. Nas duas horas desde que se levantara, Panos nada tinha comido e iria continuar em jejum até à subida. Esta manhã iria perguntar a Pítia como é que o rei reagira ao que tinha acontecido ontem, quanto tempo ainda demoraria antes do poder da própria Pítia vir a ser conhecido de todos. Quanto mais pormenores soubesse, melhor poderia planear. 174 Passara nessa manhã mais de uma hora sentado na terra suja do chão da cabana a calcular a duração dos intervalos que havia numa semana, num mês, num ano e mais tempo ainda. A princípio ficara preocupado com a rapidez com que os intervalos entre subidas iam aumentando. Em breve apenas haveria uma subida por dia, e depois uma de dois em dois dias. Mas depois percebeu que à medida que os períodos de acalmia se tornavam maiores, a velocidade da mudança diminuía. Quando houvesse uma semana entre as subidas, levaria dez semanas antes que o período calmo se expandisse por mais de uma hora. e duzentas e quarenta semanas quase cinco anos antes dos


intervalos aumentarem para oito horas. E depois disso os aumentos ainda seriam mais lentos. Iriam passar décadas antes dos intervalos serem de duas semanas. Ouviu passos que se aproximavam pela parte de trás da cabana. Era ela, sabia-o. Mas foi Grigoris que surgiu do nevoeiro. - Que fazes tu aqui? Eu disse-te para te afastares, esta manhã! - Eles vêm aí, pai. Eu vi a Pítia a sair do hotel... - Eu sei que ela vem! - ripostou Panos. Mas depois forçou um: - Obrigado por me avisares... - Não conseguia zangar-se com Grigoris, especialmente tão pouco tempo depois de ele o ter salvo de cair na fenda. Grigoris sempre tinha tentado fazer aquilo que julgava estar certo, tal como Panos lhe ensinara. Mas também Lhe havia ensinado a obedecer às ordens, e essas lições eram as que Grigoris mais dificuldade tinha em aprender. - mas eu pensei que tu quererias saber que ela não vem sozinha. Indy tinha dormido no sítio em que esperava fosse o último onde Mandraki o iria procurar. O facto de ainda estar vivo provava-lhe que a gruta por cima das ruínas tinha sido uma boa escolha. Agora avançava lenta e cuidadosamente ao longo da fenda. Nem sequer conseguia ver os próprios pés através do nevoeiro. Era muito mais denso do que ontem, tornando o percurso especialmente traiçoeiro. Bastava um pé posto em falso e imediatamente se despenharia pela rochosa encosta da montanha. Aquele passeio - o mesmo que a metáfora em que a sua vida se tornara: um passo em falso, e estava morto. Enquanto rodeava cuidadosamente os penhascos, recordou-se daqueles tempos em que por aqueles sítios passara horas a fio à espera para cronometrar as subidas dos vapores. Nessa altura tinha sido terrivelmente aborrecido e irrequieto: agora, nem uma coisa nem outra. A luta pela sobrevivência tinha-lhe apurado 175 os sentidos, tornando-o muito mais atento e interessado em tudo o que se passava à sua volta. Por fim chegou ao fim da fenda e desviou-se para o carreiro. Quando eram 8 horas e 15 minutos estava ainda na encosta da montanha, uns centos de metros acima das ruínas. Mas quando


olhou lá de cima para a velha Delfos a seus pés, apenas viu uma névoa branca irregular que parecia um manto recente de neve. Desceu o resto do caminho, sem se preocupar em se esconder, escondido já ele estava, mas também, toda a gente o estava, se é que por ali andaria alguém. Parou quando chegou perto da Via Sagrada e espreitou através do nevoeiro. Não se via a mais de três metros na sua frente. Avançou, olhando de um lado para o outro a cada passo que dava. Nesse momento ouviu vozes. Escutou. Sim; eram vozes como um distante gorgulhar das águas de um rio. Não conseguia distinguir de que lado vinham, nem a que distância estariam. Continuou a avançar, detendo-se a cada momento para tentar escutar. Teria ele imaginado as vozes? Talvez fosse todo aquele conjunto de murmúrios que a Pítia atraíra das profundezas do nevoeiro, em busca da sagrada Pítia. Ou a saudar a nova Pítia. E daí... talvez nem tivesse ouvido vozes nenhumas. E subitamente os pilares da entrada do templo ergueram-se imponentes na sua frente. Tirou o relógio. Eram 8 horas e 33 minutos. Os vapores subiriam dentro de cinco minutos. Olhou em redor, sem saber o que fazer. - Jones! Onde estás?-era a voz de Dorian a ecoar no templo. Então, sempre estava lá... Espreitou através das colunas inclinadas para a fenda: - Aqui mesmo! - gritou. - Vem cá. Já! - ordenou Dorian. - Tenho aqui os teus amigos. Indy hesitou. - Depressa! Eu cumpri a minha parte do acordo! Entrou no templo aproximando-se cautelosamente do monte. - Como é que eu sei...? - Diz-lhe! - ordenou Dorian. - Estamos aqui com ela: mais ninguém! - disse Shannon. Indy, no entanto, detectou uma certa rigidez nas suas palavras. - Vem cá acima, Jones! Ele parou na base do monte: - Mas porquê aí em cima? - Os vapores, claro! Quero ter-te aqui para veres o que acontece! Ia a meio caminho da subida quando divisou as três figuras envoltas na névoa. 176


- Para quê? - Vais ver! Continuou a subir e agora já conseguia divisar mais pormenores. Shannon e Conrad estavam a um dos lados de Dorian. Nenhum deles estava algemado. Por que é que não tinham tentado fugir? Mas logo a seguir percebeu porquê. Dorian ergueu um revólver e apontou-lho à cabeça. - Desculpa, Indy - disse Shannon. - Ela tinha isto encostado à minha testa. Ouviu um som atrás de si e percebeu aquilo que sempre tinha receado: era uma armadilha. Panos não gostou do facto dos dois estranhos estarem com ela. Nem de Jones ir a subir o monte para se juntar a eles. Ela devia bem saber que eles eram perigosos; e era por isso que estava armada. Mas por que é que os tinha trazido para ali? Porquê agora? Subiu o monte. Com Grigoris a seu lado, sabendo que não havia nada que agora pudesse fazer. Estavam lá: pois que estivessem. Numa questão de segundos Belecamus entraria em transe, e então ele tomaria conta das coisas. No momento em que, para si, aceitou os estrangeiros, a presença deles passou subitamente a fazer sentido. Surpreendentemente sabia porque é que eles ali estavam e o que a Pítia lhes iria dizer. Estava em sintonia com ela. Até sentia as palavras que ela lhes diria, mesmo antes de ela as pronunciar. Era assim, com o sacerdote do oráculo... Jones mostrou-se espantado quando os viu e depois tentou dar à voz um tom de alívio: - Vocês! Dorian, o que é que eles estão aqui a fazer? - O que é que achas? Os vapores vão subir... - respondeu ela. Era a altura e a Pítia pousou um joelho em terra. Era impossível distinguir o nevoeiro dos vapores, mas a Pítia inalou-os profundamente. Tinha a cabeça curvada para baixo e o cabelo caía-lhe sobre o rosto. Depois a névoa adensou-se e ela deixou de ficar visível. Panos avançou para os vapores, com Grigoris atrás de si. Depois pôs-se em pé a oscilar de um lado para o outro... Indy olhou para ela, e viu que já não tinha a pistola. A cabeça descaiu-lhe para a frente, mas logo a seguir ergueu-a. Os olhos que tinham estado desmesuradamente abertos quando o rei ali tinha estado, eram agora umas delgadas fendas. Havia qualquer coisa de diferente nela: era como se estivesse a suceder qualquer coisa. Olhou para ele, e inclinou a cabeça, a fitar os outros


homens. Por fim o olhar deteve-se-Lhe em Jones. Sorriu, um sorriso meio torcido, e depois, logo a seguir deu un passos e abraçou-o. 177 Jones não lhe retribuiu o abraço; o seu corpo estava rígido. Dorian murmurou qualquer coisa em voz muito baixa que Panos não podia ouvir. Mas não interessava: ele sabia o que ela estava a dizer. - Pítia diz que deves partir hoje para a tua terra natal e dizer a toda a gente que conheces, que a Pítia regressou. Muitas maravilhas irão em breve ter lugar aqui e o mundo tem de saber isso! Pítia riu-se, uma gargalhada escarninha, arrepiante, e afastou-se de Jones. - Que maravilhas? - perguntou Jones. - Que espécie de maravilhas? - Orientação a respeito do futuro; aquele que sabe o que o espera será muito mais forte do que os que nada sabem... - Já ninguém acredita nisso! - interveio o homem alto e ruivo. - És um louco, se não acreditas! - gritou Grigoris, avançando para ele como que a desafiá-lo. - Que coisas maravilhosas prevê Pítia? - insistiu Jones, olhando intensamente para ela. - Diz-me alguma... - Isso é uma grande dádiva que ela oferece ao mundo, e tem de ser usada com prudência! - interveio Panos. - Não é para tua distracção... A Pítia deixou escapar outra curta gargalhada e continuou a sorrir como se troçasse. Jones parecia hesitante, e Panos ia de novo admoestá-lo quando ouviu uma voz vinda do lado de fora dos vapores: - Dorian! Onde estás? Era Mandraki. - Ignora-o! - disse Panos. - É um ardil... - disse um dos homens. - Eu trato dele! - interveio Grigoris. - Espera! - gritou Panos; mas Grigoris não se deteve. Momentos depois ouviu-se o estalo de um tiro e Panos ouviu um grito do filho. - Não, não! - gritou, correndo para fora da nuvem de vapores. Grigoris estava caído com a cara no chão, a meio caminho da descida do monte.


Panos correu encosta abaixo e caiu de joelhos ao lado do corpo do filho. Acabeça do rapaz estava torcida num ângulo estranho. Virou-Lhe o corpo. O rosto era uma massa meio desfeita de carne e sangue, pedaços de ossos e massa encefálica. Panos atirou a cabeça para trás num desvario de horror. 178

- Tu... tu! - gritou. Olhou de frente para o olhar gélido do coronel Mandraki que estava imóvel ao fundo da colina, por entre o nevoeiro que se ia desvanecendo, com uma espingarda na mão e um cinto de munições pendurado do ombro à cintura. - Mataste o meu filho! Um estalido anunciou a entrada de outra bala na câmara da espingarda. - Maláka! - praguejou Mandraki, apontando a arma à cabeça de Panos. Puxou o gatilho. Ao som do primeiro tiro Indy atirou-se para o chão. Conrad e Shannon fizeram o mesmo, mas Dorian continuou de pé. Por que é que eles não tinham fugido da colina quando tinham tido possibilidade de o fazer? A arma de Dorian desaparecera-lhe da mão e ela continuava a soltar gargalhadas secas como uma bruxa velha. Que raio de efeito é que os vapores tinham sobre ela? Mas estupidamente tinham ficado ali a ver, a ouvir a arengada de Panos e agora Mandraki estava ali. Ouviu-se um outro tiro. Jesus! Que é que se estaria lá a passar? Indy, a falar verdade até nem tinha muito interesse em saber. Queria era estar o mais longe dali possível; mas agora estavam encurralados entre Mandraki e a fenda do abismo. E para qualquer dos lados era morte certa... - Dorian! Sai já daí! - berrou Mandraki. Shannon aproximou-se de Indy: - Estamos feitos, Indy. Assim que os vapores passarem, acabou-se tudo... - Dorian! - voltou Mandraki a gritar. A única possibilidade que tinham de escaparem dele era a de seguirem pela orla da fenda até caírem no abismo; mas isso não adiantava muito. Estavam completamente encurralados; como se já estivessem mortos... Dorian deu um passo em frente, Os vapores começavam a diluir-se e Indy já quase conseguia distinguir o vulto de


Mandraki. - Dorian, onde é que estás? - perguntou Mandraki. - Tens af contigo esses três? Ela conservou-se em silêncio. Seria ela ainda a Pítia, ou qualquer coisa de intermédio? Nesse momento Indy viu-a a tirar o revólver das dobras de um cinto de pano. Levou o cano à própria testa. - Jesus, ela vai-se matar... - Alex! - gritou ela. - Cuidado! 179 Depois num movimento felino baixou o braço, apontou e disparou. Mandraki deu um passo hesitante para trás. A espingarda caiu-lhe ao chão. Oscilou sobre os calcanhares enclavinhando as mãos no peito. Depois dobrou-se lentamente e tombou no chão, mais um corpo a juntar à carnagem.

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CAPÍTULO XXI PARCEIROS PARISIENSES - Matei-o em autodefesa! - disse ela calmamente. - Ele ia-nos matar a todos... Indy ficou a olhar os corpos estendidos no chão. Perguntou: - Por que é que ele te havia de querer matar a ti? - Por muitas razões. Principalmente, ciúme. Panos contou-lhe tudo a nosso respeito. Mas também ficou irritado por o rei ter escapado e pôs as culpas em mim... Ele olhou-a atentamente. Não havia o mínino sinal de quaisquer aberrações produzidas pelo transe nas suas feições. Parecia calma e até dava a impressão de se sentir aliviada depois de ter morto o seu amante de tantos anos. A pistola balançava solta entre os seus dedos. Indy esperava ansiosamente que ela a deixasse cair, porque assim que o


fizesse ele imediatamente mergulharia para a apanhar. Os seus olhos desviaram-se para Shannon e Conrad que continuavam a seu lado; pareciam tão nervosos como quando ele tinha ali chegado. Dorian pressentiu todo aquele pouco à-vontade. Disse: - Não estejam a olhar para mim como se fosse para uma louca: vocês estão vivos, só por minha causa... - Que é que vais fazer agora? - perguntou Conrad, dando um passo para perto dela. Dorian sorriu de bom humor: - Eu sei exactamente o que vou fazer, e vocês os três vão-me ajudar... Conrad deu mais um passo em frente e estendeu a mão: - Que bom, Dorian! Eu fico com a pistola; agora já não precisas dela... O seu corpo ficou instantaneamente tenso e ela apontou a pistola para Conrad: - Não me venhas com paternalismos, professor. Eu sei o que estou a fazer. Sentem-se já, vocês os três. Eu vou dar-lhes uma liçãozinha de história sobre Delfos. O senhor gosta de história, não gosta,professor? 181 Fez um sorriso que era mais uma careta e por momentos Indy pareceu-lhe tornar a ver a expressão que lhe vira no rosto quando ela era Pítia. Esse pensamento ficou a bailar-lhe na ideia, mas sentou-se tal como os outros, conforme ela ordenara. - Nos tempos do passado, Delfos era como que um íman que atraía gente de toda a volta do Mediterrâneo... - começou. Aquilo era de loucos. Três corpos caídos ali mesmo atrás dela, e ela a discursar como se estivesse numa das aulas da Sorbonne. Indy teve ganas de a mandar calar, mas tinha a certeza que se o fizesse, ela era bem capaz de o matar tão tranquilamente como tinha morto Mandraki. Ela continuou: - Não eram só os gases mefíticos que constituíam o poder da Pítia; era também o Onfalo, uma misteriosa pedra preta em feitio de cone... - Dorian percorreu com os olhos a sua audiência. - Está lá em baixo, na fenda, ao nosso alcance. Indy achou-a, e eu quero-a! - Como é que a vamos alcançar? - perguntou Shannon a


desempenhar o papel de aluno muito interessado. - Tu e o professor vão fazer descer o vosso amigo com uma corda. Ele vai ter assim uma oportunidade para aperfeiçoar as suas habilidades arqueológicas e ao mesmo tempo recuperar um dos mais valiosos artefactos de todos os tempos... Voltou-se para Indy: - Estás de acordo? "Como se tivesse alguma opção", pensou. Respondeu: - Não vejo aqui nenhuma corda... - Vais buscá-la. Vai à oficina; lá encontrarás uma corda e as minhas ferramentas de escavações. E depressa! A voz endureceu, ao continuar: - Mas se não estiveres de volta dentro de quinze minutos os teus amigos vão fazer companhia aos outros. Percebes? - Não precisas de me ameaçar, Dorian! Ela sorriu e as feições suavizaram-se-lhe. Disse: - Gosto de ti, Indy. Lamento ter de fazer isto assim; mas não tenho outra alternativa. Sem a pistola eu não podia contar com a tua cooperação... Indy desceu rapidamente a colina, passando pelos corpos de Panos, Grigoris e Mandraki. Correu através das ruínas para o trilho arborizado que levava à oficina. Tinha de contar a qualquer pessoa o que tinha acontecido, mas não tinha tempo para ir à aldeia nem a outro sítio qualquer. Como as coisas estavam tinha até de andar bastante depressa para pegar no equipamento e regressar dentro do prazo. Achou a mesma corda que tinha servido para o tirar do buraco, e que estava perfeitamente enrolada sobre a mesa. 182 Ao lado dela estava a mochila de Dorian com as suas ferramentas de escavações. Pela forma como estava tudo arrumado, ficou a pensar se ela não teria já planeado tudo. E se isso assim fosse, ela também teria planeado matar Mandraki. Aquela mulher era sem sombra de dúvida a Rainha do Gelo: afinal uma assassina calculista e fria, com um coração feito de um bloco de gelo. Olhou em redor da oficina. Tudo parecia estar na mesma desde quando ali tinha estado antes. Foi até ao cacifo de Dorian e viu que a tabela das subidas dos vapores continuava ainda colada na parede do fundo. A próxima seria às 3 horas e 49 minutos da tarde. Tinha tempo suficiente para tirar o Onfalo ou lá o que era, do buraco. Muito embora, pensou, os vapores pouco mais fossem do que um vago incómodo para si; tinha


respirado aqueles gases mefíticos já por diversas vezes e nada tinha sentido de anormal. Era como andar por entre um nevoeiro; nada mais. O rei tinha desejado tão intensamente acreditar nas suas propriedades curativas que até era possível que a dor na perna lhe tivesse abrandado um pouco; mas Indy ficaria muito admirado se a dor não tivesse voltado a afligi-lo. Mas então por que é que Dorian reagia de forma tão dramaticamente diferente do que ele e qualquer outra pessoa aos vapores? Que é que a tornava em Pítia, e o não fazia a mais ninguém? Ia a fechar o cacifo quando reparou em qualquer coisa familiar na prateleira de cima. Esticou-se até lá acim a e apanhou o seu chicote. Talvez ela pensasse que aquilo era uma espécíe de recordação de mais um aluno (e amante) seu. Mas este aluno tinha uma grande vantagem sobre os outros; sabia deles e das suas mortes. Entalou o chicote no cinto e saiu da oficina, com a mochila atirada sobre um ombro e a corda no outro. Mas dera um passo fora da porta quando viu dois homens que se aproximavam a cavalo. Estava com sorte: podia pedir-lhes para irem procurar socorro. Mas quando eles se aproxim aram mais as suas esperanças desfizeram-se mais depressa do que a luz ao fim do dia. Soldados. Baixou a cabeça e puxou o chapéu para os olhos, continuando a avançar rapidamente; mas quando ia a chegar ao princípio do carreiro para as ruínas um dos homens chamou-o: - Eh! aí! Viste o coronel Mandraki? Abanou a cabeça numa negativa muda e continuou a andar. - Vamos ver nas ruínas! - disse o soldado. Indy reconheceuhlhe a voz: era o mesmo filho da mãe que o tinha atacado à saída da gruta. - Ei! Espera! Aquele não é o gajo que estávamos a guardar? Disse o outro. Indy continuou a andar, na esperança que os soldados começassem de novo a discutir. Quando o carreiro fez uma curva e ele ficou fora da vista deles, desatou a correr, mas mal tinha andado uma dúzia de metros quando ouviu o tropel dos cavalos atrás dele. 183 Saltou fora do carreiro, atirou para o chão a mochila e a corda e tirou o chicote do cinto. Quando o primeiro cavaleiro


ia a chegar perto dele, atirou uma chicotada seca, fulminante. O chicote desenrolou-se numa larga elipse e foi enrolar-se com duas voltas no pescoço do soldado. Com um sacão seco Indy puxou-o para o chão. O cavalo que vinha logo atrás encabritou-se para se desviar do corpo no chão e atirou fora o cavaleiro. Indy apanhou a espingarda que caíra a seus pés e apontou-a aos soldados. Gritou: - Em pé! Encostados àquela árvore! Os homens obedeceram, mas quando ele se baixou para apanhar o rolo de corda um deles atirou-se a ele. Indy num reflexo instantâneo respon deu com um a larga coronhada que atingiu o soldado no lado da cabeça. O homem deu dois passos a cambalear, caiu sobre os joelhos e depois ficou estendido no chão. Entretanto o outro soldado meteu a mão na bota e tirou uma navalha. Com um gesto seco a partir quase do nível da anca, atirou-a com força. Indy baixou-se e a navalha foi cravar-se no tronco de uma árvore a poucos centímetros da sua cabeça. Indy olhou para a faca e depois para o soldado. O homem olhou também para ele, aparentemente sem saber que fazer a seguir. Depois decidindo que a retirada era a melhor estratégia, voltou-se e fugiu a correr. Indy, contudo, já esperava por isso. Mas o homem tinha dado meia dúzia de passos quando o chicote cortou de novo os ares e foi apanhá-lo pelos tornozelos. Indy puxou-o como um pescador que sente a linha presa, mas o seu «peixe» voltou-se a ele. Pôs-se em pé de um salto e atirou um violento soco que passou a rasar o ombro de Indy. Este, contudo, ripostou imediatamente e aproveitando o balanço que o outro pusera no ataque, assentou-lhe um poderoso murro no queixo que o deitou por terra. O homem caiu para trás com o impacte e foi bater com a cabeça num tronco de árvore ficando inanimado. Indy encontrou um bocado de corda no selim de uma das mon tadas e amarrou-a em torno do peito de um deles, passou-a por um dos grossos ramos e atou com a outra ponta o outro homem. Quando acabou os dois homens estavam sentados um de cada lado da árvore, de costas um para o outro e bem amarrados à árvore. - Eu ficava aqui mais um bocado a conversar com vocês, mas sucede que estou com pressa... Com isso voltou a entalar o chicote no cinto, apanhou a mochila, a corda e a espingarda e montou num dos cavalos. Infelizmente estava muito carregado e caiu da sela. Olhou de esguelha para os soldados meio zonzos e sacudiu o pó do fato. - Não digam a ninguém...


184 Desta vez prendeu a mochila e a corda no bornal da sela, e tornou a montar. Meteu o animal a galope: não tinha muito tempo e não estava disposto a pôr Dorian à prova. Agora, contudo, as coisas iam ser diferentes. Estava armado e só precisava era de a apanhar desprevenida. Refreou o cavalo ao chegar às imediações das ruínas. O nevoeiro tinha levantado, mas as colunas do templo tapavam-Lhe a vista da colina e não conseguia ver ninguém. Desmontou, apanhou o equipamento e dirigiu-se o mais depressa que podia para o templo, levando a espingarda encostada ao lado da perna. Quando a colina ficou à vista, parou de repente. Não estava ali ninguém perto. O templo parecia vazio. E os corpos tinham desaparecido. - Que diabo... Não sabia o que fazer. Ver a cabana. Correu para lá e parou do lado de fora da porta. Na outra ponta estavam dois cavalos. Ouviu vozes vindas lá de dentro. - Achas que estes cavadores de ossos fazem a coisa aqui mesmo no chão, Brent? - Mmm! E se calhar é mesmo com os ossos... - Não acredito! - murmurou Indy. Afastou a porta de pano: - Que é que vocês estão aqui a fazer? - Indy! Olá, lindo! - Madelaine vestia calções de montar, botas altas e um chapéu de feltro com uma peninha de faisão. - Jones, Jones! Olhem para ele! - Brent saiu da cabana atrás dele a cofiar o bigodinho. - Todo aperaltado para arqueologia! Corda, mochila e até uma espingarda; e sujo, também! Mesmo autêntico! - Vocês podem falar mais baixo? - Indy olhou para a colina mas não tinha havido qualquer mudança. Ninguém à vista. - Vamos partir para Atenas esta manhã e decidimos vir a cavalo até aqui para nos despedirmos... - disse Madelaine na sua voz esganiçada. - Sabes, o rei já se foi embora, por isso agora é tudo muito chato... - Chato ainda é pouco! - concordou Brent, ajustando o lenço que trazia ao pescoço no fato de safari. - Ouçam lá: vocês viram aqui alguém? - Nem vivalma! - disse Madelaine. - E já nem pensávamos verte a ti. Olha lá: então que coisas excitantes é que tens andado a fazer? Não te vemos desde a recepção ao rei... - Pouca coisa... - disse Indy secamente. - Onde é que está o Shannon? Não o vi desde que cá cheguei...


- Anda por aí... Tinha de fazer qualquer coisa. Precisava deles para lhe trazerem socorro, mas o mais provável é que trouxessem soldados, e ele duvidava que pudesse confiar neles. Meteu a mão no bolso do casaco, e descobriu lá uma cabeça de alho. E de repente teve uma ideia: 185 - Ouçam: vocês ainda vão à aldeia antes de se irem embora? - Com certeza que não vamos a cavalo até Atenas, disso podes ter a certeza... - Podem fazer-me um favor? - Acho que sim... - disse Madelaine. - Isto é, se não demorar muito e se Brent se não importar... - Passem pelo hotel e digam a Nikos, o miúdo da portaria, que eu vou descer outra vez à fenda e que preciso do meu móli. - Do teu quê...? - Ele sabe o que é. - É claro, móli! É uma coisa de arqueologia! - disse Brent em ar de conhecedor. - Uma das ferramentas de escavação, ou coisa parecida. Para fazer buracos, acho eu. É isso, não é Jones? - Nem mais. Mas não demorem: preciso disso com muita urgência! - Queres que voltemos cá a trazer-ta? - perguntou Madelaine. - Não; Nikos pode tratar disso. Agora tenho de ir. Boa viagem para vocês! - Até Paris, Indy! - Ela beijou-o ao de leve no rosto e depois enfiou o braço no de Brent e saíram da cabana, em direcção aos cavalos. Indy pegou na espingarda e espreitou para a colina. Dorian devia ter visto Madelaine e Brent, e decidira esconder-se. Afastou-se da cabana, atravessou a Via Sagrada e parou junto a um dos pilares. Encostou-Lhe a espingarda e deu uns passos para o largo. - Dorian, onde estás tu? - Mesmo atrás de ti! Indy deu um salto ao ouvir-lhe a voz. Quando se voltou ela es tava de péjunto ao pilar, uma mão a apontar-lhe a pistola e outra a segurar a espingarda. - Surpresa! Devia ter estado a espreitá-lo do outro lado das colunas, mas calculou que estaria longe de mais para ter ouvido a conversa.


- Que é que disseste aos teus amigos? - Que estava ocupado, e desejei-lhes boa viagem para Atenas... Ela olhou para a estrada: - E por que é que eles vão para a aldeia? - Para irem buscar as malas e uma carruagem, acho eu. Só vieram aqui a cavalo para se despedirem... Ela assentiu lentamente a olhá-lo com atenção. - estás do meu lado, não estás? 186 Indy olhou para a espingarda e depois deu a Dorian o olhar mais sincero que conseguiu arranjar: - Claro que estou! Se tu não nos tivesses salvo, a esta hora estávamos mortos! - Se os teus encantadores amigos aparecem aí com soldados, estamos todos tramados, bem o sabes... - Não trazem! E não precisas de me estar a apontar essa coisa, também... Ela apontou com a cabeça a espingarda: - Eu não sou parva, Indy. Onde é que arranjaste esta espingarda? Indy contou-lhe o encontro com os soldados. E concluiu: - Se eu os não tivesse detido, estavam agora aqui à procura do Mandraki... - Bom, a verdade é que o não encontravam aqui... Ficou sem saber o que é que ela queria dizer com aquilo. - Onde estão o Shannon e o Conrad? - perguntou quando se dirigiam para a colina. - Jack e Ted? - ela olhou para os lados da fenda. - Vamos procurá-los! Então agora já eram Jack e Ted. "É bom que isto não seja uma gracinha macabra...", pensou. Se eles estivessem mortos ele havia de... Não sabia ao certo que fazia, mas não seria coisa bonita de se ver. - Onde é que estão os corpos? - Foram-se! - disse ela ligeiramente. "Foram-se,", pensou ele. Foram-se, como Richard Farnsworth e sabe Deus quantos mais namorados antes dele. Ficou à espera que ela se explicasse, quando iam a subir a colina. - Viste para aí o Alex? - perguntou ela ao chegarem lá acima.


- O quê? - O Alex! Viste-lo? Ela estava doida com certeza. - Dorian. Lembra-te: tu mataste o Alex... - Não, não matei! - ela sorriu e voltou-se para a fenda: - Tudo bem, rapaziada. Já se foram todos embora e o Indy está de volta. Jesus! O estômago deu-lhe uma volta. Ela devia ter-lhes dado um tiro a cada um e atirado os corpos para o buraco. Estava a negar tudo, até o facto de ter morto Mandraki. Devia ser dos vapores. Fosse como fosse deviam tê-la afectado a cabeça e ela não conseguia deixar de dizer exactamente aquilo que estava a pensar... - Que é que os vapores te fizeram, Dorian? Não percebo... Ela olhou directamente nos olhos e riu-se. - Queres dizer, quando eu era Pítia? não sabes, pois não? não sabes o que é que eu senti nos vapores Indy... 187 - Não, realmente não sei... Ela deu um passo para ele. "Cuidado. Olha bem para ela...", pensou. - Senti o mesmo que tu! - disse ela. Indy franziu a testa e abanou a cabeça: - Que queres dizer com isso? Não compreendo... - Não havia transe nenhum, Indy! - disse ela secamente. - Eu estava a fingir aquilo tudo... - Mas como é possível? Tu estavas a balbuciar coisas sem nexo e Panos estava a interpretar... Dorian abanou a cabeça: - Panos queria tanto acreditar naquilo tudo que até pensou que estava a interpretar. Mas estava apenas a seguir deixas que eu lhe dera. Eu disse-lhe que o rei estava em perigo na véspera do dia em que fingi ter o transe. Ele sabia que era isso que a Pítia lhe queria dizer... Jesus, ela era ainda mais manhosa do que ele pensara! - Onde é que eles estão, Dorian? - perguntou rispidamente. Teve vontade de a sacudir pelos ombros. - Onde é que está o Jack? e o Ted? Ela guiou-o para dar a volta até ao outro lado da fenda. - Além! Afastou-se dela, rodeando a fenda para evitar ficar de costas para ela. O monte do outro lado era mais um pináculo, estreito no topo e quase a prumo aos lados, a fenda num lado e


a encosta a prumo no outro. Espreitou para lá e por momentos nada viu. Depois lá descobriu na orla mais distante, viu-os aos dois, seis metros mais abaixo num estreito ressalto, de cócoras encostados à rocha suja. - Vocês estão bem? - Óptimos! - gritou Shannon. - Puxa-os cá para cima com a corda! - ordenou Dorian. E despacha-te que temos coisas a fazer... Ia para dizer que os podia puxar com o chicote, mas deteve-se a tempo. Até aí ela ainda não tinha reparado nele e era melhor que assim continuasse. Puxou primeiro Shannon enquanto Conrad o ajudava empurrando o companheiro para cima. - Fiquei preocupado convosco! - disse ele quando o agarrou pelo braço. - Porque é que vocês não responderam? Voltou a atirar a corda para baixo e Conrad rapidamente escalou a parede rochosa. - Ela sabia onde estávamos... - disse Shannon com naturalidade. - Obrigou-nos a atirar os corpos para o buraco e depois saltarmos para aqui... 188 - Só dois corpos! - disse Conrad, sacudindo a terra das mãos. - O Mandraki ainda está vivo. Ela deixou-o ir embora... - O quê? - Eu disse-te que o não tinha morto! - disse Dorian do outro lado da fenda. - Quando o vi levantar-se tão corajosamente e ir-se embora a coxear, não tive coragem de acabar com ele. Deixei-o ir... - E sabes uma coisa? - disse Shannon. - Não havia nenhum sangue no sítio onde ele estava caído. Explica lá isso... Indy não foi capaz. Mas teve a funesta sensação de que ainda iriam tornar a ver o coronel Mandraki... 189

CAPÍTULO XXII O ONFALO


Indy desceu para a escuridão, com uma lanterna numa das mãos e a corda que estava amarrada à cintura na outra. Apesar do que tinha acontecido da outra vez que descera aquele buraco aparentemente sem fundo, sentia-se estranhamente seguro. Desta vez sabia que estava em boas mãos: Shannon e Conrad haviam de fazer tudo quanto pudessem para que ele continuasse vivo. Foram-no descendo lenta e firmemente, e não demorou muito até chegar ao sítio de onde a placa fora arrancada da parede. Não muito mais longe, agora. Estendeu a lanterna à procura da saliência. Um bocadinho mais; não muito... Estendeu o braço o mais que podia e espreitou para baixo. A luz da lanterna saltitou nas paredes; e logo a seguir viu-a: como que uma estreita prateleira a sair da parede. Mas havia lá mais qualquer coisa, também. Qualquer coisa com que não contava. - Meu Deus! Os pés assentaram-lhe na saliência: a corda ficou bamba. Dorian lá em cima gritou para ele; a voz ecoou fantasmagoricamente pelas paredes. Deu dois esticões na corda para lhes dizer que estava lá, e durante todo esse tempo não conseguiu tirar os olhos da espectral visão do corpo de Panos. Estava caído em ângulo sobre a plataforma de pedra com uma das pernas penduradas do lado de fora da berma. Tinha a cabeça voltada para baixo e o braço direito dobrado por cima do cone negro. Na morte, Panos tinha encontrado o Onfalo. Indy aproximou-se, e baixou-se sobre um joelho. Cuidadosamente levantou o pulso do morto de cima da pedra, mas quando o fez, o corpo escorregou um bocado mais para a berma. Ficou por momentos a oscilar e depois Indy deixou-o ir. O corpo tombou e desapareceu nas entranhas de Delfos. "Um lugar apropriado para servir de campa ao mestre da Ordem de Pítia", pensou. E assim ficava junto a seu filho. 190 Olhou para aquele profundo manto de escuridão por um momento mais. Não tinha quaisquer motivos para sentir a falta de nenhum daqueles homens: tinham-lhe dado mais desgostos do que qualquer outra pessoa que algum a vez se tivesse atravessado no seu caminho; e, no entanto, as suas mortes ainda o afectavam, quanto mais não fosse por lhe lembrarem que a morte


é a sequência da vida, e que ele era tão vulnerável como qualquer outra pessoa. Talvez mais. Talvez fosse ele mesmo a pessoa que iria a seguir. Sacudiu esse incómodo pensamento e voltou a atenção para o Onfalo. Passou a mão pela sua áspera superfície, ficando a pensar quanto estaria ainda embebido na parede. Tirou do ombro a mochila, pegou numa colher de pedreiro e começou a raspar a pedra e os detritos que o seguravam à parede. Alguns minutos depois viu que tinha feito poucos ou nenhuns progressos, e percebeu que tinha que adoptar uma acção mais definida. Pousou a colher de pedreiro e pegou num espigão com que começou a atacar a parede. Durante a meia hora seguinte foi partindo a rocha e esfarelando o lixo acumulado, abrindo um buraco em torno da pedra. Por fim agarrou-a com ambas as mãos e experimentou a ver até que ponto ela estava ainda firmemente implantada na rocha.Se se tratasse de uma frágil peça de cerâmica, sabia que aquele procedimento era uma loucura, mas aquele artefacto parecia ser mais sólido do que um bloco de motor de um modelo T. O cone moveu-se ligeiramente quando ele o forçou para um lado e para o outro. Puxou com mais força mas as mãos escorregaram-lhe e com o balanço caiu para trás. Instintivamente rolou sobre o estômago e uma das pernas escorregou-lhe para a berma. Esbracejou a tentar agarrar o ar, com os olhos fixos na profundeza do abismo. "Cuidado, Indy, cuidado!", disse a si mesmo. Desviou-se da berma e voltou ao trabalho, a martelar a rocha em torno da pedra. - Indy! Tudo bem? - gritou Dorian. Claro. Tudo numa maravilha. Não podia estar melhor. Deu dois esticões à corda para lhe dizer que ainda a não tinha. Escavou mais, puxou e torceu a pedra, voltou a escavar e voltou a puxar. Tinha a certeza de que estava quase solta. Firmou os pés na parede, agarrou o cone com as duas mãos e puxou com quanta força tinha. As mãos escorregaram-lhe e ele caiu de costas. Levantou-se sobre um cotovelo e olhou para a pedra com raiva. E com raiva deu-lhe uma violenta pancada com o tacão da bota. Era tudo o que faltava: a pedra soltou-se. Piscou os olhos a afastar a poeirada e os lábios abriram-se-lhe num largo sorriso quando ergueu o Onfalo do monte de cascalho que ali se juntara. Pousou-o na saliência e limpou-o do pó. Tinha cerca de quarenta e cinco centímetros de comprimento e cerca de quinze a dezassete centímetros de diâmetro na base, estreitando-se depois gradualmente até um módulo arredondado.


191 Era pesado como ferro. O procedimento correcto, como Dorian lhe tinha ensinado exigia que puxasse da fita métrica e do caderno de notas que tinha na mochila e anotasse as medidas exactas e a descrição e os pormenores de remoção. No entanto, considerando as condições em que estava a trabalhar, isso parecia um bocado ridículo. Não pôde deixar de rir de tal ironia: A professora estava armada e havia uma forte possibilidade de quando ele chegasse lá cima à superfície com o achado, ela o matasse. E isso, tinha ele a certeza, não era com certeza o procedimento correcto... Puxou a corda uma só vez. Gritou: - Já o tenho! Puxem! Pousou a lanterna na saliência e apertou o cone contra o peito, agarrando a corda com força. Sentiu-se a ser puxado e tentou descontrair-se. Não queria pensar no que iria acontecer quando chegasse lá acima: não podia fazer nada a tal respeito. Pelo menos agora. E se calhar nem mesmo nessa altura. O Onfalo parecia estranhamente quente. A sensação alastrou-se pelo peito e o calor invadiu-lhe o corpo todo com uma estranha sonolência. Fechou os olhos, sentiu-se vaguear... Era claro como se fosse dia. Estava a olhar para uma águia, a sua águia, e ela estava pousada na beira de um ninho. Conseguia ver ovos, lá dentro do ninho. Ovos prateados. Estava a sonhar e ao mesmo tempo estava acordado. Sentia-se estático, melhor do que nunca se tinha sentido antes. Mas... o que é que estava a acontecer? Que é que ele estava a ver? A águia voltou a cabeça como que para melhor o ver a ele, ou para ver se ele lhe estava a prestar atenção. E com uma pancada seca do bico, a ave partiu um dos ovos e A ave e o ninho desapareceram e Indy viu-se com o rei numa sala cheia de livros. Uma biblioteca real. O rei vestia uma túnica de cetim azul e chinelos. Estranhamente soube de repente que o rei iria sobreviver ao atentado de Mandraki à sua vida, mas soube também que o rei seria em breve exilado. Era como se tudo isso tivesse acontecido. Reparou que o rei tinha qualquer coisa nas mãos: era o Onfalo e estava a oferecê-lo a Indy. Depois, tão depressa como o rei tinha aparecido assim desapareceu e Indy viu o Onfalo num museu. Junto a ele Indy viu o curador, que reconheceu como M. Brody, um velho amigo seu e que fora por vezes como que o substituto de seu pai. Sorria orgulhoso.


Depois a cena mudou e a sensação de contentamento que tinha tido transformou-se numa onda de choque: a vitrina que guardava a relíquia estava estilh açada: o Onfalo tinha desaparecido. Ouviu a voz de Brody: "Roubado! Foi roubado!" 192 Mas a afronta que sentiu esvaiu-se rapidamente quando a águia tornou a aparecer na sua frente, pousada no ninho. Inclinou outra vez a cabeça como tinha feito antes, e bateu com o bico noutro ovo. Indy estava a falar com Dorian. Ela estava excitada a dizer-Lhe que ele tinha de fazer qualquer coisa. Tinha de agir depressa. Mas... o que é que tinha de fazer? E então Mandraki estava na sua frente. Levantou a pistola, apontou-a ao coração de Indy. E disparou. Outra vez a águia. Mais um ovo partido e desta vez as imagens surgiram-lhe rápidas e duras. Vislumbrou um homem com um fato aos quadrados, de cachimbo e bigode num escritório cheio de livros. Falou num tom de voz que demonstrava autoridade: - Não misture a mitologia com a arqueologia, porque se o fizeres a tua tese é reprovada. São duas disciplinas diferentes. Se queres a Grécia como a zona focal do teu trabalho, aceita o desafio da Linear B. Tens aí o fundamento perfeito para lidar com o problema da língua... Depois o homem dissolveu-se. Quando se voltou a materializar era Mandraki. Levantou a pistola e disparou. Ovos prateados. Restavam dois. O bico da águia bateu violentamente num deles, e quando se estilhaçou, Indy viu-se a si próprio a falar diante de uma sala de aula. Não conseguia ouvir as suas próprias palavras mas sabia que estava a dar uma aula de arqueologia... E de repente a sala de aula desapareceu: ele estava agora no centro de um círculo de enormes pedras. Stonehenge. Abraçava uma mulher. Não Lhe conseguia ver o rosto, mas sabia que estava mais ligado a ela do que a qualquer outra mulher no mundo. E depois a mulher desapareceu. Outra vez Mandraki. A apontar. A disparar. O último ovo. O olho negro da águia fitava-o. Depois bateu ao de leve no ovo. Abriu-se uma fenda a todo o comprimento da casca, a casca abriu-se em duas. Indy tornou a ver-se a si próprio, agora mais velho, no auge da sua carreira. Tinha um aspecto mais decidido; mais aventureiro do que estudioso. A visão piscou e desapareceu e foi substituída por uma enfiada de imagens. Selvas, Desertos. Ruínas. Cidades perdidas. Relíquias


de poder. E agora mais horrível: um fosso de víboras. Uma enorme imagem de uma negra, quebrada. Uma mão a empunhar uma adaga mas outra a oferecer auxílio. Uma voz sobrepôs-se às imagens: aventuras que excedem a imaginação, mas não sem grandes perigos. Por fim um encontro com o pai. "Aquilo que ele procura, tu encontrarás!", as cenas que iam mudando desapareceram de repente quando a luz crua o inundou. Ouviu vozes. E depois sentiu outra vez as mãos. 193 Desta vez a levantarem-no do buraco. Piscou os olhos a defender-se da luz intensa. Estava de joelhos ainda abraçado ao cone negro. - Então aí está ele... - disse Dorian. - O Onfalo! Indy sentiu-se atordoado, oprimido, incapaz de falar. Piscou os olhos aguados, e viu Dorian pousar a espingarda. Conservando ainda o revólver, tirou-lhe o Onfalo das mãos. Era mais pesado do que esperava e apertou-o ao peito. Indy sentiu que amente se lhe aclarava. O sonho, afantasia ou fosse lá o que fosse que lhe tinha acontecido, passara. Tentou concentrar-se naquilo que era real, ali e agora. Shannon e Conrad estavam debruçados sobre ele. Ajudaram-no a tirar a mochila. De repente susteve a respiração e um ar de espanto e choque passou-lhe pelo rosto. O revólver balançou meio solto na sua mão, a poucos centímetros da cabeça de Indy. Ficou imóvel, as feições como que paralisadas num instante de surpresa. Num gesto rápido e inesperado, Shannon tirou-lhe o revólver da mão; Conrad deitou a mão à espingarda. Dorian nem sequer fez menção de reagir. A expressão no seu rosto mudou lentamente para um ar de espectral assombro, e depois tombou no chão, ainda agarrada à pedra negra que abraçava. - Que foi que aconteceu? - perguntou Shannon. - Não sei... - respondeu Indy ainda meio confuso por tudo quanto se tinha passado lá nas profundezas. - Vamos levá-la para a cabana. - Vou meter a pedra na mochila - disse Shannon, ao mesmo tempo que a tentava soltar das mãos de Dorian. Esta, contudo, contorceu-se violentamente, o rosto em convulsão e começou a gritar. - Deixa-a levar a pedra! - disse Conrad. Shannon levantou-a pelos cotovelos e Indy pegou-lhe pelos pés. Ela, contudo, esperneava e torcia-se, entre guturais gritos abafados e gemidos, e a marcha era por isso muito


lenta. Quando saíram do templo e se dirigiam para o carreiro que levava à oficina, Indy parou subitamente. Olhando para os outros disse: - Esperem um momento: Não me parece que a oficina seja muito boa ideia. Ela é difícil de carregar e nós não temos o dia todo. Além disso, da última vez encontrei por ali alguns soldados. Rapidamente contou-lhes o encontro que tivera. E concluiu: - Assim que alguém os encontrar, vamos ter companhia, pela certa... - Tens razão - disse Conrad. -Nós temos é que sair daqui. Talvez fosse melhor deixá-la ficar... Indy abanou a cabeça: - Não. Vamos levá-la para a cabana, e depois resolvemos o que fazer. 194 Mal tinham acabado de resolver isso quando ouviram o ruído de um cavalo a galope a dirigir-se para as ruínas. - Depressa! - sibilou Indy. Carregaram Dorian para dentro da cabana, deitando-a no chão. Indy baixou-se imediatamente ficando apoiado nas mãos e nosjoelhos e foi espreitar pelo buraco meio chamuscado da parede do fundo. - Toma isto! - disse-lhe Shannon, entregando-lhe o revólver de Dorian. Indy só conseguia ver umas pernas. Era alguém que corria para ali, para a cabana. Ouviu-se uma voz gritar: - Indy! Onde é que estás tu? - Meu Deus, é o Nikos! - disse Indy aliviado. E logo a seguir gritou: - Aqui, Nikos! - Recebi o teu recado; que foi que aconteceu? - disse o rapaz, arfando de cansaço. - Muita coisa! - respondeu Indy. Nikos susteve pormomentos a respiração à vista de Dorian que continuava deitada no chão, a gemer e a contorcer o rosto. Murmurou: - Pítia! - Não sei quem diabo ela é. Sei é que Panos e Grigoris estão mortos... Contou-Lhe o que se tinha passado na fenda. - E o que é que tu vais fazer? Se o coronel Mandraki está


vivo, vai com certeza voltar à procura dela e de todos vocês... - Temos de sair daqui e depressa! - disse Conrad. - Lá nisso tens tu razão! - corroborou Shannon. - Começo a ter mesmo saudades de Paris... - Nikos, que possibilidades é que tens de nos arranjar uma carruagem? - perguntou Indy. - Uma carruagem? E por que não um automóvel? - Tens algum? - Tem o coronel Mandraki! Deixou a ch ave dele na recepção do hotel; e eu até sei guiá-lo, sabias? - Não sei se isso de lhe roubarmos o carro... - disse Indy como se pensasse em voz alta. - Por que não? - perguntou Shannon. - Se nós o tivermos não o tem ele... - Mas Mandraki fica a saber o que é que tem de procurar... - E depois? - respondeu Shannon. - Vamos até Atenas, largamos o carro em qualquer ruela e saímos do país o mais depressa que pudermos. Além disso ele levou um tiro, não se esqueçam. Não deve estar em grande forma para andar por aí às correrias... 195 Conrad fez um gesto de cabeça a indicar Dorian que parecia agora adormecida: - E ela? - Deixa-a ficar! - disse Shannon. - Deixa que o Mandraki tome conta dela. Bem merece aquilo que lhe acontecer... Indy pensou por momentos: - Nikos, tu és capaz de trazer aqui o carro sem que ninguém te veja? - Toda a gente me há-de ver! - respondeu orgulhosamente o rapaz. - Para verem que eu sei guiar! Indy assentiu: - Pois. Era o que eu pensava. - Voltou-se para Conrad: - Ouçam: Por que é que vocês e eu não nos servimos das fardas daqueles soldados que eu amarrei? Vamos a cavalo até à aldeia e depois pegamos no carro. podes ficar com a Dorian. Nós vimos depois apanhar-te... - Toda a gente na aldeia te conhece de vista - protestou Conrad. - Não vais dar um soldado muito convincente. Vamos fazer isto de outra maneira: Tu ficas aqui; o Jack e eu vamos buscar o carro... - Boa ideia! - concordou Shannon. - Além disso, está-me cá a


parecer que parece que tu atrais sarilhos, Indy... - Pronto, pronto! - Eu vou preparar o carro! - disse Nikos, saindo da cabana a correr. Conrad pegou na espingarda que tinha deixado encostada à parede, e Indy entregoú o revólver a Shannon. Nesse momento Dorian soltou um gemido mais forte e rolou para o lado, deixando que o Onfalo escorregasse para o chão. Sentou-se e ficou por momentos a esfregar a cara. - Achas que ficas bem com ela? - perguntou Conrad. - Muito bem... Quando eles saíram, Indy ajoelhou-se junto a Dorian e enfiou o Onfalo na mochila. Ela olhava-o atentamente sem dizer palavra. - Que foi que aconteceu? - perguntou-lhe ele. Dorian abriu a boca, mas a princípio não pronunciou qualquer palavra. Por fim soltou: - Eu... pensei que estava morta... - Porquê? - Não sei. Estava a ficar sufocada por uma cobra gigantesca, Umapitão. Estava toda enrolada em mim; era horrível. Conseguia até sentir-lhe a respiração fria e acre! Apertou o corpo com os braços num tremor. O cabelo negro caía-lhe sobre um dos lados da face; estava sentada como uma criança, com uma perna dobrada debaixo do corpo e a outra estendida. 196 197 - Parecia tudo tão verdadeiro... O seu aspecto não parecia nem de longe nem o da austera professora, nem o de uma assassina. Era quase duma criança abandonada, confusa. Indy não queria sentir pena dela, mas não podia deixar de a sentir. - Por que é que tu fingiste aqueles transes, Dorian? - Não percebes, Indy? não reconheces o poder da Pítia? - Um momento! Tu mesma disseste que não havia Pítia; que tinhas estado a fingir... - Eu não disse que não havia Pítia. Pergunta ao rei; ele viu, e tenho a certeza de que acredita... - E agora que Panos está morto, o teu sacerdote desapareceu... Ela inclinou-se para diante e um sorriso transfigurado fixou-se de novo no olhar dele, a chamá-lo, a atraí-lo. - Panos não estava destinado a ser o meu sacerdote; não era


o que devia ser. És tu Indy. És tu que deves ser o meu sacerdote... e o meu amante... Indy fez um esforço para se afastar dela: - Não, Dorian. Acho que não... - Tu pensas que eu não posso ser a Pítia, que ninguém me acreditará? Tu próprio viste que as leituras eram quase sempre ambíguas, interpretadas de uma maneira se certa coisa acontecesse e de outra se acontecesse outra coisa. É uma técnica: eu ensino-te. Inventaremos a nossa própria maneira de comunicarmos por gestos e por palavras-chave... Pegou na mão dele e insistiu: - Pensa nisso: podemos ser as duas pessoas mais poderosas e mais conhecidas do mundo inteiro. Já pensaste nisso? Indy retirou a mão: - Claro... Ela pôs-se em pé e aproximou-se dele: - não me desejas, Indy? Eu serei tua; e vais ver que vale a pena: prometo. Pensa nisso... Chegava até ele o seu perfume almiscarado, e sentia de novo a atracção dos seus olhos. Deu outro passo atrás. Disse: - Mesmo que eu estivesse interessado, Dorian, há aqui um importante assunto: o da confiança. Tu trouxeste-me aqui com a intenção de te servires de mim como bode expiatório nesse teu louco plano de assassinar o rei. E arranjaste uma história... - Não, não, esse plano não foi feito por mim. Isso foi obra de Alex; e o mesmo se passou com o Richard Farnsworth. Foi ele que o matou, não fui eu! Indy cerrou as mãos em punhos apertados. A ira avermelhou-lhe o rosto. Quase gritou: - Mas tu fazias parte dos planos dele; não deste um passo para o deter... 197 - Porque não podia! Ele obrigava-me! E de resto tu sabes que eu acabei por ir contra ele: dei-lhe um tiro, por amor de Deus! Ele devia ter morrido; o que é que posso fazer mais para te provar as minhas intenções? - Tu mataste o irmão do Farnsworth. Ele vinha no comboio para Brindisi. Tu mataste-o com um dos espetos da tua ferramenta, e depois atiraste-o do comboio abaixo, lá na última carruagem enquanto eu estava a comer o gelado... - Não! Não foi assim que isso sucedeu; ele tentou matar-me: eu tinha apenas de me defender... Ela tinha resposta para tudo, e as respostas que dava


pareciam razoáveis: era uma espécie de dom que ela tinha. - E há uma coisa que eu ainda não consigo entender. Se tu estavas apenas a fingir os transes no vapor, por que é que fingiste aquele último ataque quando me tiraste o Onfalo das mãos? Para que foi isso? - Não. Isso não foi fingimento nenhum. Não sei o que aconteceu, nem quero tornar a pensar nisso... Indy ficou por momentos a pensar. Agora que ela tinha admitido a verdade, já ele não podia tão facilmente afastar da ideia a sua própria experiência com o Onfalo como se se tratasse apenas de um sonho inconsequente. Nesse momento ouviu-se a buzina de um carro. Indy atirou a mochila para o ombro. Voltou-se para ela: - Adeus. - Tu... tu levas o Onfalo? - Levo. Vou tratar de arranjar para que ele fique num museu. - Leva-me contigo também. Agora não posso ficar aqui... - Não. - Por favor... - agarrou-lhe no braço. - Não sabes a espécie de coisas que o Alex me pode fazer... O carro tornou a buzinar. Indy disse: - Está bem, mas com uma condição. Levo-te ao palácio do rei e tu vais-Lhe confessar a tua parte no plano do assassínio e desmascarar o Mandraki. - Está bem: eu farei isso. Tudo o que disseres... Saíram da cabana e ficaram os dois a olhar para o templo de Apolo. Com a mão livre, Indy procurou no bolso e tirou o relógio. - Faltam oito minutos para as 4 horas! - disse. - Os vapores já deviam ter começado a subir há três minutos, e nem sinais deles... Dorian olhou-o longamente. Depois disse quase num murmúrio: - Pois. Quebrou-se o ritmo... 198 CAPÍTULO XXIII A FUGA DE DELFOS Do lado de fora das ruínas estava estacionado um brilhante e luzidio Pierce Arrow, e por momentos Indy pensou que devia pertencer ao rei. Mas logo a seguir viu Conrad atrás


do volante. - Esse é que é o carro de Mandraki? - Um deles... - disse Dorian quando corriam para o carro. Lá na América podia comprar-se uma carripana utilitária aí por duzentos e oitenta dólares, ou cinco dólares por semana, a prestações, mas poucas pessoas podiam dar-se ao luxo de comprar um Pierce Arrow de luxo; e com certeza que na Grécia o seu preço devia ser ainda muito mais caro. Comentou: - Ele deve ter dinheiro... - Imenso. - Vamos... - disse Conrad do seu lugar, olhando para Dorian meio desconfiado. - Onde é que estão os vossos uniformes? - Os soldados já se tinham ido embora... - Conrad olhou para Shannon. - Quase que nos não conseguíamos safar. Jack disse ao Nikos para voltar ao hotel para lhe trazer a trompete, e enquanto esperávamos mais de metade da aldeia veio até ali para ver o carro. Acho que o boato se espalhou rapidamente... Indy olhou pela estrada para os lados da aldeia: - Vamos cavar já daqui... - O que é que ela está aqui a fazer? - perguntou Shannon. - Vou levá-la ao rei. Shannon não pôde deixar de sorrir: - Tu vais... o quê? - Ela vai confessar. - Ah, pois claro! - Bom, eu não podia deixá-la aqui! Mandraki não hesitaria em matá-la, se estiver ainda vivo... - Eu ouvi dois soldados a falarem - disse Nikos lá do banco de trás. - O coronel está bem: a bala bateu-lhe no cinturão... - Parabéns, foi um belo tiro! - disse Indy a Dorian. Nikos, o melhor é saíres; nós temos de seguir... 199 - Eu quero ir a Atenas com vocês! - disse o rapaz com ar orgulhoso. - O meu pai deu-me licença... - E ele sabia como é que tu ias? - Bom, lá isso... não. - É que pode ser perigoso... - Achas que sim? - perguntou o rapaz esperançado. Subitamente surgiu na estrada um camião militar vindo dos lados da aldeia. Conrad ligou o motor e carregou a fundo no acelerador. O carro tossiu uma ou duas vezes sem pegar. - Está afogado! - gritou Shannon.


Conrad experimentou outra vez. O camião aproximava-se. Indy abriu a porta de trás e agarrou Dorian pelo braço: - Entra! Depressa! O motor rugiu a funcionar em pleno. Mas Dorian apanhou-o de surpresa. Torceu o braço a soltar-se e correu para o camião. - Dorian! - gritou ele, saltando do carro, mas a mochila prendeu-se-lhe na porta. Puxou a tentar soltá-la mas era tarde de mais. Ela corria já para o camião, agitando os braços e gritando por Mandraki. O camião travou. "Está morta...", pensou Indy. - Entra, por amor de Deus! - gritou Conrad pondo o carro em marcha. Indy deu uma corrida e saltou para o estribo. Olhou para trás e viu Mandraki a abraçar Dorian no meio da estrada. - Que diabo...? - exclamou. Uma dúzia de soldados saltaram do camião pela traseira e abriram fogo. Conrad carregou no acelerador, enquanto Shannon respondia ao fogo. Indy abriu a porta do carro e ia a deslizar para o banco de trás quando sentiu que qualquer coisa lhe batia violentamente entre as espáduas. Caiu batendo com o rosto no banco. Shannon deu um grito de alegria selvagem por cima do barulho do potente motor: - Acertei-lhe nas rodas da frente! Indy arfava tentando encher os pulmões de ar. Disse: - Foi bom. Mas parece-me que eles me apanharam... Nikos ajudou-o a tirar a mochila. Indy esperava sentir mais forte o aguilhão da dor, e o encharcado do sangue. - Mas tu não foste atingido! - disse Nikos. - O quê? - perguntou espantado voltando-se a olhar para Nikos que tinha a mochila erguida no braço. - Vê! Aqui está o buraco da bala, mas só na parte de trás. A bala bateu nessa coisa que tu achaste; foi ela que te salvou... 200 Indy abriu a mochila e olhou incrédulo para o Onfalo. Ainda pensou em tirá-lo para fora, a ver se descobria a marca da bala , mas depois reconsiderou. - Estás bem? - perguntou Shannon por cima do ombro enquanto o carro deslizava velozmente montanha abaixo. - Óptimo!


- Tens tanta sorte como o coronel Mandraki... - disse Nikos. Shannon voltou-se para trás: - Eu não entendo aquele Mandraki. A mulher dá-lhe um tiro, e ele recebe-a de braços abertos, como se ela lhe tivesse salvo a vida... Indy abanou a cabeça: - Também não percebo... O telegrafista nas traseiras do camião acabou de transmitir a mensagem. Esperou até receber a confirmação e depois fez um aceno a Mandraki: - Nunca irão chegar a Atenas... - disse Mandraki sorrindo para Dorian, satisfeito consigo próprio. - Óptimo! - disse ela. - Mas não podemos ocultar as suas mortes. Muitas testemunhas... Mandraki franziu a testa: - Nós também não podemos admitir que os matamos; o rei iria servir-se disso contra mim... - Calma, Alex. Não vai haver problema. Afinal eles roubaram o carro de um oficial e um achado arqueológico que é um tesouro nacional. E foram mortos numa troca de tiros quando tentavam fugir. Nada mais simples... - És uma mulher bastante complexa, Dorian. Mas as tuas simples soluções agradam-me. Agora diz-me lá: quem é que disparou contra mim? Era já crepúsculo quando eles desceram as colinas nos arredores da capital. As luzes de Atenas piscavam lá em baixo. Indy estava cansado, sequioso e com fome, mas mais do que tudo, ansioso por chegar ao palácio presidencial. Era o único lugar onde sentia que podia ficar seguro durante a noite. Isso, claro, se conseguisse passar pelo portão de entrada... - Se queres que te diga, acho que devíamos dispensar a visita ao palácio e irmos para o Pireu e tomar o primeiro barco que saísse... - disse Shannon. - Com um pouco de sorte podíamos estar em Paris amanhã à noite. - Isso não era um pouco de sorte; era um pouco de milagre! Interveio Conrad. - Mas era realmente boa ideia safarmo-nos daqui se pudermos... 201 Indy abanou a cabeça:


- Não; eles vão estar à nossa espera no cais... - Mas estão atrás de nós... - disse Shannon. - Mandraki pode estar lá, mas os homens dele devem andar à nossa procura. Podes ter a certeza disso... - O porto não é o único sítio onde nos esperam! - disse Conrad. - Olhem ali para diante! Indy fez uma careta: - Lindo! Barreira na estrada... Nikos inclinou-se para diante: - Aposto que é aqui que as coisas começam a ficar perigosas... Indy olhou para o rapaz: - Pelo menos é um dos sítios... Conrad interrompeu-o: - Ouve: Vamos argumentar com eles; dizemos-lhe que temos de ir ao palácio presidencial que temos uma informação muito importante para transmitir ao rei. É possível que eles lhe sejam leais... Não houve tempo para discutir o assunto, carregou no travão e o carro abrandou. Estavam a uns cinquenta metros da barreira na estrada quando um dos soldados apontou. Vários outros levantaram as espingardas. Soaram tiros e o pára-brisas estilhaçou-se. - Acho que não estão para conversas... - disse Indy. Conrad pisou o acelerador e saiu da estrada. Desceu um bocado da colina, tentando rodear a barreira na estrada. O carro inclinou-se perigosamente e uma saraivada de balas foi embater no tejadilho. O que se passou a seguir pareceu demorar apenas uma fracção de segundo: a colina era muito íngreme e o carro voltou-se e rolou sobre si mesmo, uma e muitas vezes. Indy e os companheiros rebolaram de um lado para o outro, sem conseguirem distinguir quando estavam virados para cima ou voltados para baixo, até que por fim o carro acabou por parar, e, milagrosamente, sobre as quatro rodas. E mais miraculosamente, na estrada, já a umas centenas de metros do outro lado da barreira. Os lugares, no entanto, tinham-se trocado; agora era Indy que estava atrás do volante, Conrad a seu lado e Shannon no banco de trás. - Ena! Estou a guiar! Indy olhou pelo espelho e viu soldados na estrada a dispararem sobre eles. As balas choviam, vindas do camião. É certo que o camião os podia perseguir, mas se o Pierce Arrow se conseguisse manter na estrada, com certeza que nenhum veículo militar o alcançaria. - Já estamos fora do alcance das armas deles - disse. -E a


cidade éjá ali adiante. Acho que vamos conseguir... 202 - Achas? - perguntou Conrad. Tinha os olhos embaciados e fixos. Deixou escapar: - Nunca pensei que soubesses guiar desta maneira, Ted... - Nem eu. É que estava encolhido atrás do volante, sem ver a estrada... Indy olhou por cima do ombro: - Olhem lá: o que é que aconteceu ao Nikos? O garoto levantou-se do chão: - Esperem até eu contar esta aos meus amigos... - E tu como estás, Jack? - Acho que tenho o pescoço partido, e um lábio inchado. Creio que esta noite não vou tocar grandes melodias ao rei... - Por falar em rei: alguém sabe o caminho para o palácio? - Sei eu! - disse Nikos. - É pelo Estádio Olímpico... - Onde é que é isso em relação à Acrópole? - Eu mostro-te. Indy notou que as pessoas que passavam na rua olhavam admiradas para o carro, à medida que iam atravessando a cidade. Comentou: - Acho que esta boa gente se sente altamente impressionada pelo Pierce Arrow... Mas nesse momento vislumbrou o reflexo do carro no vidro de uma grande montra; o tejadilho estava amachucado, o lado do condutor estava deitado abaixo e por todo o veículo se viam buracos de balas. - Temos muita sorte em estarmos vivos... -Indy, aqui estamos na Platia Phlomouson Hetairae! - disse Nikos ao entrarem numa praça. - Lembras-te de eu te falar dela? - O quê? - perguntou Shannon. - É onde estão situadas as melhores tabernas da cidade... respondeu Indy. - A mim apetecia-me uma bebida... - disse Shannon enquanto continuavam a deslizar. - Ali está o estádio! - disse Nikos. - Vira à esquerda quando lá chegares! De repente saíram do estádio dezenas de soldados, correndo para a rua a impedir o trânsito e agitando armas. - Talvez estes estejam do nosso lado... - disse Conrad, esperançado. Mas logo a seguir uma bala passou a raspar no carro e outra veio alojar-se no banco da frente, entre Indy e


Conrad. - Não me cheira... - disse Indy. - Isto está a tornar-se monótono! - resmungou Shannon. Indy virou brutalmente o volante para a esquerda, metendo o carro a toda a velocidade por uma rua estreita e sinuosa até chegar a um cruzamento. 203 Nikos apontou para a direita: - O palácio é além! Mais soldados corriam para a rua que Nikos tinha indicado. Em vez de virar Indy seguiu em frente, direito a um parque. Passou a rasar o passeio, fazendo fugir os transeuntes a protestar, aos gritos e ameaçando-o com os punhos. - Onde é que estamos, Nikos? - Nojardim do palácio. Vai por ali! - gritou ele. Indy guinou para a direita e dirigiu-se para a alameda que ficava diante dos terrenos do palácio. Deu a volta, tendo agora o palácio à sua direita. - Vamos conseguir... - disse Conrad. - Estás a sonhar! - respondeu-lhe Shannon. Indy afrouxou ao chegar ao portão principal. Uma dúzia de soldados armados mantinha-se ali de guarda. - Estes são os homens do rei! - disse Indy. - Têm de ser... - Se queres que te diga, parecem-me iguais aos que nos têm andado aos tiros... - disse Shannon. Indy começou também a ter dúvidas. Disse: - Parece-me que vou de roda. Deve haver outra entrada... Deram a volta ao palácio, mas a única outra entrada que descobriram também não parecia muito prometedora. - Que raio de maquineta é aquela ao pé daqueles soldados? perguntou Nikos espantado. - Aquilo chama-se um tanque! - explicou Conrad. - Começaram a ser usados na guerra. O primeiro combate de tanques deu-se em 1917, em Cambrai... - É sempre bom ter um professor de história à mão... - disse Indy. - Cá por mim sou da opinião que tentemos a entrada principal. O que dizes, Ted? - Não temos nada a perder. Pelo menos quando passámos por lá ninguém disparou sobre nós... - Que é sem dúvida um bom sinal... - disse Shannon com a voz repassada de ironia. Nikos apontou: - Olhem, estão-nos a abrir o portão principal!


Indy deu a volta ao volante. Porto seguro, finalmente. Mas de repente carregou no travão, outro tanque estava a bloquear a entrada. - Espero sinceramente que seja um comité de boas-vindas. Indy olhou em redor a avaliar a situação. Ia começar a fazer marcha atrás quando viu que o outro tanque estava já atrás dele. O delapidado carro foi imediatamente rodeado por um monte de soldados de espingardas apontadas para eles: - Isto não me cheira lá muito bem... - murmurou Conrad. 204 Inúmeras mãos se agarraram às portas, por entre gritos excitados e gritos de ordens. Depois, como que por encanto, toda a gente recuou. Ninguém disparou. Os soldados ficaram a olhar para o carro como se ele estivesse numa exposição. - Que é que se passa? - perguntou Shannon. Com os soldados mais afastados, a coisa tornou-se óbvia: os dois tanques avançavam para eles, um de trás e outro pela frente. Momentos depois ouviu-se o estalido e o guincho do metal a rasgar quando se encostaram ao carro. - Raios partam... - berrou Shannon, abrindo a porta. Saltaram do carro para o meio dos soldados. Indy sentiu-se agarrado pelos braços e pelas pernas, ao mesmo tempo que a mochila lhe era arrancada dos ombros. - Ei! Esse saco é meu! Preciso dele! Ninguém lhe ligou nenhuma. Atrás de si os dois tanques, a avançarem um para o outro, mastigaram os restos do Pierce Arrow. - Majestade - disse Dorian. - O homem é perigoso; não precisamos cá de estrangeiros como ele. Acho que ele e os seus amigos deviam ser imediatamente expulsos! O rei recostou-se na cadeira acolchoada da biblioteca real. Disse: - Se é verdade o que me dizes, então a expulsão é coisa demasiado simples para eles. Afinal trata-se de um assunto de honra e também de justiça, quando alguém rouba uma coisa que é propriedade de um dos nossos oficiais e depois abre fogo contra ele... - Compreendo os vossos sentimentos, majestade. Contudo, e como sabeis, ninguém ficou ferido... O rei acariciou o queixo a pensar no que ela dissera. Perguntou:


- Por que é que o está a defender, Dr.a Belecamus? "Nem sonhas...", pensou ela. Respondeu: - Porque me sinto em parte responsável. O homem é um aluno meu, diplomado, e fui eu quem o trouxe para cá... - Eujá me encontrei com o Sr. Jones, como se recorda. Achei-o um bocado estranho, mas isso não deixa de ser vulgar entre os americanos. No entanto, não me pareceu que fosse criminoso, e gostaria de ouvir a sua versão da história... Precisamente aquilo que ela queria evitar. Olhou para Mandraki: "Diz qualquer coisa, raios!" - Não acho que valha a pena dar-vos a esse trabalho - disse Mandraki. - Bem vedes, em atenção à Dr.a Belecamus, eu não pretendo apresentar queixa contra o Jones nem os outros homens. 205 O rei assentiu em silêncio. Depois fez um gesto a um dos seus ajudantes: - Prepara os papéis de expulsão: Quero que estejam no barco para Brindisi pela manhã. Dorian levantou-se, aliviada e estendeu a mão: - Muito obrigada, majestade. Agradeço-lhe muito, e peço desculpa pelos inconvenientes que isso vos causou... - Terei muito gosto em tomar conta deles até à saída do navio! - disse Mandraki. O rei encolheu os ombros e fez um gesto com a mão: - Não há qualquer inconveniente em conservá-los aqui esta noite. Prefiro assim. Não quero tornar a ouvir falar de mais nenhuma fuga espectacular... Disse isto num tom de finalidade, e Dorian percebeu que não serviria de nada argumentar. Ia a levantar-se quando o rei mudou de assunto: - E a respeito do tal artefacto? Foi por causa dele que perseguiram Jones e os outros, não foi? - Olhou para Mandraki: - Além do carro, claro... - Foi, sim, majestade. - Bom, e quereis levá-lo convosco? Só pensar no Onfalo deixava Dorian mal disposta. Nunca mais lhe queria pôr a mão em cima: mas não podia dizer isso ao rei. - Por agora não. Mandarei alguém buscá-lo daqui a alguns dias! - Afinal o que é essa coisa, o Onfalo? - Julgo que é um meteorito que foi cortado e polido e


coberto com uma rede que ficou petrificada. O seu valor era simbólico nos tempos de Pítia. Agora não passa de uma curiosidade... - E por que é que Jones o queria? Ela encolheu os ombros: - Quem sabe? Acho que ele ficou um bocadinho desnorteado por ter aspirado aqueles vapores. Eu estava a falar prematuramente quando disse que eles não tinham aparentemente quaisquer efeitos. O facto é que parece causarem efeitos diferentes... Sorriu modestamente como uma humilde servidora: - Fiquei bastante satisfeita, majestade, por eles me terem. afectado a mim de forma a poder-vos ajudar. Não me recordo do que aconteceu, mas acho que tive a oportunidade de vos avisar de uma ameaça contra a vossa vida... O rei levou a mão à anca, e Dorian ficou a pensar se ele ainda acreditaria que os vapores o tinham curado. - Sim, e desejo agradecer-lhe. Foi uma sensação estranha, mas se eu não tivesse sido avisado, sabe Deus o que poderia ter acontecido... 206

Tornou a acariciar o queixo, assentindo pensativo. Depois levantou-se da cadeira: - Bom, e agora é já tarde... Dorian deu-lhe as boas-noites e esperou que Mandraki apertasse a mão do rei. Sorriu para si própria ao ouvir o rei murmurar uma desculpa pelo que tinha acontecido ao carro. Quando ela e Mandraki saíram da biblioteca, falou-lhe baixinho: - Acho que nos saímos muito bem. Ele vai já para a cama, e quando acordar já eles se foram... Mandraki não deu resposta. - Que é que há? - Eu já não estou preocupado com o Jones... - disse ele em voz baixa, enquanto desciam o vestíbulo. - O que temos é de derrubar este cretino do poder. Agora está cheio de refugiados; e cada dia que passa chegam mais. O país está a cair aos bocados... - Ele vai pagar pelos seus erros! - disse Dorian. - Nós trataremos disso, na devida altura... - E que seja breve! - acrescentou Mandraki.


207

CAPÍTULO XXIV NO PALÁcIO Numa cela nua, algures por baixo do palácio, Indy balançava na orla do sono. Via uma águia a bater as asas, pairando nos ares por cima de si, e depois o rosto de Mandraki tapou a águia. O coronel tinh a um sorriso cruel e depois apontou-lhe o cano da pistola à cara. Indy acordou sobressaltado, deu um soco na enxerga dura e voltou-se para o outro lado. Sabia que o que lhe tinha acontecido lá nas profundezas da fenda tinha sido mais do que um sonho. Mas não queria pensar nisso, não queria atribuir-lhe um significado porque tudo o que via era a morte; a sua própria morte a obliterar-lhe o futuro. Tornou a virar-se para o outro lado, tentando deter os pensamentos, mas só o conseguia fazer por poucos segundos. Começou a contar de cem para trás. Noventa e nove, noventa e oito... Já chegara a oitenta e cinco quando os números se começaram a esfumar na mente e começou a vaguear. Oitenta e seis... setenta e oito. Adormeceu. Piscou os olhos ao acordar. Qualquer coisa o tinha sacudido no sono. Escutou. Ouviu respirar. Shannon e Conrad. Mas fora outro som que o acordara; tornou a escutar. Vozes no vazio. Distantes. Agora mais próximas. Ecoaram passos no vestíbulo. Ouviu o tilintar de chaves. Uma voz roufenha resmungou qualquer coisa; outra grunhiu uma resposta. E agora? Aporta abriu-se. Àluz difusa do vestíbulo viu dois guardas fardados entrarem na cela. Olharam em redor. Um deles apontou para Indy e o outro imediatamente o puxou do chão. - Que é que se passa? - gritou Shannon ao ver Indy ser


arrastado em direcção à porta. - Para onde é que o levam? - Conrad pôs-se em pé, mas foi imediatamente empurrado para trás. A porta fechou-se com estrondo. "Oxalá não seja a visita para a execução...", pensou Indy. - Já é manhã? - perguntou em grego quando o levavam. Os guardas não responderam. Ninguém tinha dito uma palavra sequer aos prisioneiros. Tinham-lhes dado sopa, pão e água, e tinham-lhes entregue uma manta e uma delgada enxerga a cada um. Mas todos os pedidos que tinham feito para verem o rei ou outra pessoa qualquer que os ouvisse tinham tido por resposta o mais completo silêncio. Na verdade nem sabiam até do paradeiro de Nikos. Não o tinham visto desde que tinham saltado do carro e Indy esperava sinceramente que no meio da confusão ele tivesse conseguido fugir. Chegaram a uma escada e os guardas literalmente subiram os degraus a dois e dois. - Eh, rapazes! Para que é tanta pressa? Foi conduzido a um vestíbulo das traseiras. Vislumbrou uma enorme cozinha do lado de lá do vestíbulo onde homens vestidos de branco esfregavam o chão. Pairava no ar um vago cheiro a comida. - O quê, já são horas do pequeno-almoço? Os guardas conservaram um ar carrancudo. - Acho que não... Continuaram a andar e entraram depois noutro vestíbulo, mas este era mais ornamentado, mais próprio de um palácio. Os pés afundaram-se-lhe numa grossa carpete. As paredes eram de mogno e as cornijas ornamentadas a folha de ouro. Não restavam dúvidas que se encontravam na parte principal do palácio. A meio caminho do vestíbulo pararam em frente de uma porta dupla da altura de um gigante. Um dos guardas bateu ao de leve. Imediatamente a porta se abriu uns centímetros. Trocaram-se algumas palavras e depois Indy foi conduzido a uma biblioteca forrada de livros nas paredes, desde o chão até ao tecto. "A biblioteca real...", pensou. Tal como no meu sonho! Um homem alto e de aspecto musculoso, elegantemente vestido, apontou para uma cadeira e Indy sentou-se. Olhou sombriamente para o homem, à espera de um interrogatório. Mas porquê numa biblioteca? Só se ele pensava dar cabo dele a bater-lhe com livros; olha, com o Ulisses, de Joyce podiam dar cabo dele com uma pancada só... - Olá, Sr. Indiana Jones! Indy olhou para o lado e viu aparecer o rei. Vestia uma túnica azul e chinelas, tal como na visão, e coxeava ligeiramente ao andar.


- Majestade... - Indy levantou-se mas o guarda tornou a empurrá-lo para a cadeira. 209 O rei sentou-se numa cadeira giratória em frente à lareira. - Estou a falar-lhe contra os desejos dos meus conselheiros. Eles acham que eu o devia expulsar do país sem mais qualquer palavra... - Verdade? - Eram as melhores notícias que ouvia desde que saíra de Delfos. - Tenho a certeza de que os meus amigos e eu aceitam isso. Mas... O rei levantou a mão, a detê-lo: - O motivo porque decidi falar-lhe foi por achar que lhe devo pelo menos isso; o senhor salvou-me a vida... - Sinto-me muito feliz por estar aqui convosco... O rei riu-se. - O senhor tem muita sorte em estar ainda vivo, muito menos no palácio. Se os relatórios que eu recebi eram exactos, a sorte tem estado do seu lado... Indy tentou dar qualquer resposta, mas sentia a garganta seca e a voz roufenha. O rei murmurou qualquer coisa e estalou os dedos. Um homem a quem se dirigira e que tinha estado oculto pelas estantes apareceu por instantes. Indy olhou em volta a pensar quantas mais pessoas estariam ali na sala. Momentos depois o ajudante apresentou a Indy um copo de água. - Agora diga-me porque é que roubou um artefacto de Delfos e um automóvel ao coronel Mandraki. Indy bebeu um largo golo de água e aclarou a garganta. Disse: - Mandraki ia matar-vos. Isto é, queria que eu vos matasse. - Um momento! - interrompeu o rei. - Comece do princípio. Por que é que foi para Delfos com Dorian Belecamus? Indy contou a sua história, desde o seu primeiro encontro com Dorian. Disse tudo ao rei, desde a sua artimanha de se transformar em Pítia até à história de Richard Farnssworth. Esperava que todos os pormenores tornassem a sua história do plano do assassinato mais crível. O rei ouviu atentamente, não podendo ocultar o seu espanto perante as duplicidades da Belecamus. - Não admira que os vapores milagrosos não funcionassem: a cura não durou mais do que a nova Pítia...


Perguntou-lhe depois por Stephanus Doumas e Indy disse-lhe que o falecido arqueólogo havia estado envolvido com a Ordem de Pítia, mas não na tentativa de assassínio. - Quer então dizer que essa alegada tentativa para me assassinarem não tem nada a ver com essa mística ordem, mas é apenas um golpe militar chefiado pelo coronel Mandraki? 210 Indy assentiu num gesto de cabeça. O rei pareceu descoroçoado: - Eu bem sei que os meus inimigos políticos crescem cada vez mais em número, e nem tudo tem corrido como eu desejaria. Mas até aqui nenhum deles me tinha tentado matar... Voltou-se para Indy e sorriu: - Se o que me diz de Mandraki é verdade, já não me sinto tão mal por lhe ter mandado esfrangalhar o carro... Levantou-se e foi a coxear até à lareira. Esfregou as mãos uma na outra por cima do braseiro baixo e depois tornou a voltar-se para Indy: - Gostaria de lhe oferecer a si e aos seus amigos a escolha entre ficarem aqui no palácio como hóspedes de honra, ou se partirem: como preferirem... - Eu acho que posso falar em nome dos meus amigos, e dizer que todos nós estamos mais do que prontos para regressar a Paris... Indy perguntou-Lhe depois por Nikos. O rei olhou para o lado e o ajudante que tinha trazido a água tornou a aparecer. O homem ficou a olhar fixamente para Indy enquanto o rei lhe falava em voz baixa. Disse qualquer coisa ao rei e depois de uma outra breve troca de palavras, o ajudante afastou-se. - Desculpe, Sr. Jones - disse o rei -, mas não sabemos nada do rapaz. Espero que ele tenha conseguido escapar-se do carro... - Quer dizer que ele não chegou a sair do carro? - Indy levantou a voz, e o guarda que estava junto à porta deu dois passos em frente direito a ele, até que o rei o deteve. E disse a Indy: - Eu estou a dizer-lhe que não sei. Se eu soubesse que ele estava morto, dizia-lho! O ajudante regressou com a mochila que entregou ao rei. Este entregou-a a Indy: - Creio que isto é seu... "Incrível. Vai-me dar o Onfalo...", pensou Indy. Outra vez; tal como na visão...


Abanou a cabeça: - Não, não é meu. É o Onfalo. Pertence a toda a gente... - Parece-me que se está a dar mais atenção a esta pedra do que a que ela merece... - disse o rei. - Não estou tão certo disso, Majestade. O rei abriu a mochila e tirou de lá o cone com uma só mão. Lentamente, olhando para Indy disse: - A Dr.a Belecamus, com todos os seus defeitos, é uma autoridade em Delfos, e ela disse-me que o Onfalo na realidade não passa de uma curiosidade; um meteorito, para ser mais exacto. Tenho a certeza que se tivesse um grande valor ela não sairia do palácio sem ele. E eu gostaria que o senhor ficasse com ele, como recordação da sua viagem... 211 -Majestade, acho que deveis torná-lo a meter na mochila. Se se pega nele durante muito tempo, pode... pode... Indy não sabia como se explicar. Na realidade não acreditava, mas algo já lhe tinha acontecido a ele. A ele e a Dorian... - Não noto nada de estranho nele... - o rei deu-lhe voltas na mão. - Parece estar quente... Deixou-se cair numa cadeira. - Estou a ficar com sono... A mochila caiu ao chão quando ele pôs os braços em torno do Onfalo. Ficou imóvel por alguns segundos. Depois os olhos abriram-se-lhe muito e a boca torceu-se-lhe numa expressão de choque: Indy percebeu que o artefacto estava a exercer o seu encantamento. Correu para a frente mas o corpulento guarda agarrou-o antes de ele poder chegar perto do rei. - Façam qualquer coisa! - rugiu Indy. - Não vêem que ele precisa de auxílio? Agarrem a pedra! O ajudante chegou-se perto do rei a perguntar-lhe se ele estava bem. Cuidadosamente retirou-lhe o Onfalo das mãos e pousou-o no chão. - O médico! Depressa! - gritou. O rei levantou a mão: - Não, estou bem... Passou a mão pelo rosto. - Solta-o! -ordenou ao guarda que ainda segurava Indy. - Desculpe, majestade. Eu tentei avisar-vos... O rei olhou para o Onfalo no chão. Disse: - Tive uma experiência muito estranha. Era como um sonho, mas eu estava acordado. Estava rodeado por horrendas formigas


de huerra que me estavam a picar. E estavam a tentar arrastar-me com elas... Indy assentiu, sem saber o que dizer. - Que é que me aconteceu? - Não sei! - respondeu Indy. - Acho que esse artefacto terá de ser cuidadosamente estudado por cientistas... - Deve é ser trancado! - disse o rei. - Ou então perdido outra vez... Houve um momento de silêncio. - Bom, se vocês querem chegar a horas ao ferry o melhor é porem-se a caminho... Quando o rei o acompanhava à porta da biblioteca, Indy ficou com a impressão que havia qualquer coisa diferente nele; mas não conseguiu saber ao certo o que era. 212 Agradeceu ao rei o seu auxílio. - Eu é que agradeço o teu. Agora tenho uns exércitos de formigas para me entreter até de manhã. Quando a porta se fechou atrás de Indy é que percebeu o que o rei tinha de diferente. Já não coxeava. A cidade começava a acordar quando eles saíram do palácio por uma porta lateral e chegaram à rua. Num campanário tocou um sino. Mais ao longe cantou um galo. O matraquear das patas de um cavalo a puxar uma charrete contrastava com o roncar do motor de um automóvel. - Mal posso acreditar que estamos a sair vivos deste pesadelo - disse Shannon. Quando chegaram à rua um soldado armado de espingarda dirigiu-se a eles. - E agora o que mais? - resmungou Indy. O soldado apontou para um Cadillac novo que aguardava à esquina: - Seu transporte para porto. Quando o soldado lhes fechou solenemente a porta do carro, depois de terem entrado, Indy não pôde deixar de comentar ironicamente: - Este parceiro provavelmente ontem estava disposto a liquidar-nos... - Está só a fazer o seu trabalho... - disse Conrad. - Pois, Maria vai com as outras...


- E o que é que nós estamos a fazer? - perguntou Indy. - Nós... tocamos de ouvido! - Assim é mais divertido... - comentou Indy. - Para alguns... - respondeu Conrad. Olhou para o palácio pela janela do carro, com ar saudoso. Acrescentou: - Tinha sido bom ficar alguns dias no palácio. Até me podia ter inspirado para escrever o meu romance... Indy olhou para ele enquanto o carro se afastava: - Então e todas as coisas que nos aconteceram nestes últimos dias? - As experiências são enganadoras. Indy. Um escritor sai-se muito melhor a trabalhar material que lhe vem lá de dentro, do seu eu, do que do resultado de confusas experiências... Indy pensou por momentos e respondeu: - Se queres que te diga, em meu entender são as pessoas que são confusas; não as experiências... 213 Conrad não respondeu e ficaram os dois em silêncio. Quando passaram pelas ruínas da biblioteca de Adriano e se aproximaram do Forum Romano Indy olhou para os aglomerados de refugiados que se tinham erguido por cima das ruínas. Havia fumo a evolar-se de alguns telhados e esses fios delgados lembraram-lhe os vapores que se elevavam da fenda do templo de Apolo. E então viu-a a passar na alvorada cinzenta, com os longos cabelos feitos numa trança. Não havia dúvida no seu espírito: era Dorian Belecamus. - Pára! - Que é que vais fazer? - perguntou Shannon ao ver Indy abrir a porta do carro. - Temos de seguir para o Pireu! - Ouçam: esperem cinco minutos por mim. Se eu nãovoltar sigam viagem. Irei ter convosco ao ferry. Tenho de fazer um a coisa... - Não temos muito tempo! - avisou Conrad. - Eu sei, eu sei. Bateu com a porta e sem mais palavras correu por entre o aglomerado de barracas. Ela fora naquela direcção e ele calculava saber para onde se dirigia. Passou pela antiga porta do Forum e continuou, quase a correr até que viu a Torre dos Ventos. Ela lá estava, junto a ele, a olhar para o alto. Dorian olhava fixamente o rosto de Lips, o vento sudoeste que ia a acelerar a viagem de um barco. Jones e os outros em breve


se iriam. O perigo passara. E, no entanto, ela sentia-se vazia. Sentiria a falta de Jones. Tinha gostado verdadeiramente da sua companhia, coisa em que ele nunca iria acreditar. Ele nunca compreenderia a complexidade da sua vida, e como as forças exteriores à sua vida pessoal a dirigiam. E ela também sabia que mesmo que tivesse conseguido romper com Mandraki e se tivesse tornado Pítia, não haveria qualquer diferença. As mesmas forças políticas continuariam a empurrá-la e a sua fantasia a respeito de si e de Jones no trono do poder, ruiriam. Não sabia qual seria o seu futuro. Talvez regressasse a Paris. Ou talvez não. Nada podia ser resolvido antes de Mandraki agir. A sua vida não lhe pertencia, e ela abominava isso. - Agora sei por que é que esta é a tua ruína favorita... Ela voltou-se de um salto, assombrada: - Indy! - Tu és mesmo como ele: Rostos diferentes para diferentes ventos... - Regresso a Paris. Vim dizer-te adio... Ela olhou em volta. Mandraki estava a inspeccionar a situação dos refugiados e devia encontrar-se com ela ali a qualquer momento. - Não devias estar aqui! Figete! Ele soltou uma gargalhada: - Agora dizes-me para desaparecer! Mas eu não saio daqui sem satisfazer a minha curiosidade. Por que é que Mandraki te tornou a receber depois de lhe teres dado um tiro? Ele não me parece ser exactamente do tipo de perdoar as ofensas... Ela sabia que ele não partiria se lhe não respondesse. Disse: - Ele não soube quem disparou sobre ele. Vê-se melhor dos vapores para fora do que de fora para lá deles. Ele só me ouviu chamá-lo pelo nome... - Era de crer. Enganaste a ele como me enganaste a mim e provavelmente a todos os homens da tua vida. E pensar que durante algum tempo eu te amei... Ela enfrentou o seu olhar frio. Respondeu: - Eu na verdade não sou uma pessoa má, Indy. Eu faço aquilo que tenho de fazer. Mas tu és homem; nunca o compreenderias... Ele abanou a cabeça: - O teu sexo não tem nada a ver com isso. Se todas as mulheres fossem como tu, estaríamos todos... - Vai-te embora. Por favor! Mas era tarde de mais. Mandraki estava a pouco mais de um metro deles. E empunhava um revólver.


A pistola pareceu mover-se em câmara lenta. Aquilo não podia estar a acontecer. A visão não podia ser verdadeira. Então e todas as aventuras? Todo o seu inteiro futuro, ou a falta dele, teriam dependido de ele ter ou não saído do carro para se ir encontrar com Dorian? - Jones... estás morto! - Não! - gritou Dorian correndo a interpor-se entre os dois homens. - Sai da minha frente, Dorian! Já! - Não! Tu não o vais matar! - Sai da frente! - Terás de me matar primeiro! - Maldita sejas, Dorian! Soou um tiro. - Que estás tu a fazer aqui? 214 215 Indy agarrou Dorian quando ela caiu. Sentiu o calor do seu sangue passar-lhe através da camisa e ouviu o suave e horrível arquejo da sua débil tentativa de fazer entrar ar nos pulmões. Sabia que Mandraki ainda estava com a pistola quando pousou gentilmente Dorian no chão. Levantou-lhe um pouco a cabeça para ela se não afogar no seu próprio sangue. - Dorian... - murmurou Mandraki num lamento. - Não foi minha intenção; a pistola disparou-se... Ela tentou falar, mas não conseguiu. Tentou levantar uma mão, mas também não foi capaz. Indy inclinou-se para ela e acariciou-lhe o rosto. - Afasta-te dela! - berrou Mandraki. - Fizeste isto; foste tu que a mataste, e agora vais morrer! Indy ficou por uma fracção de segundos a olhar para o cano da arma apontada a si. Exactamente como na visão. Era agora. Ouviu-se o tiro. Mandraki cambaleou alguns passos. - Malaka! - praguejou. E tombou no chão. Indy reconheceu imediatamente o guarda da biblioteca do rei, de pé na clareira. Quando o guarda se aproximava deles, Indy viu Mandraki levantar outra vez a arma e tornar a apontá-la para ele. Mas o guarda estava preparado. Disparou vários tiros sobre ele. A pistola caiu-Lhe da mão. Um fio de sangue rolou-lhe da boca para o chão. E desta vez já se não voltou a levantar. Quando Indy tornou a olhar para Dorian, ela estava morta. Os olhos abertos estavam meio velados a abarcar o imenso azul do céu da manhã.


Estranhamente Indy sentiu que iria ter saudades dela. Apesar das suas deficiências, ela tinha definitivamente influenciado a sua vida. Ele nunca mais voltaria a ser a mesma pessoa, e sabia que tinha encontrado a carreira que iria ser o trabalho de toda a sua vida. Passou a mão pelo rosto de Dorian e depois cerrou-lhe os olhos. -Indy! Estás bem? - Nikos! O que é que fazes aqui? Nikos olhou ansiosamente em redor: - Escondi-me toda a noite no jardim do palácio, e depois vi-te sair no carro. Segui-te num táxi porque te queria dizer adeus... - Tenho de ir apanhar o ferry... - Anda daí; o táxi está à espera. Ainda chegas a tempo... Olhou uma vez mais para a expressão gélida de Dorian e voltou-se, começando a andar. A buzina do ferry berrava ferozmente quando chegaram ao porto. Apertou a mão de Nikos e agradeceu-lhe a ajuda. - Vem visitar-me em Paris! - E também quero ir à América e ver uma banda de jazz e visitar o «Grand Canyon»! - gritou-lhe Nikos. - E por que não? - respondeu Indy a sorrir. Depois subiu a prancha do portaló. A buzina gritou outra vez e a prancha foi retirada atrás dele. Quando o ferry se ia afastando do cais Indy ouviu outro som mais familiar. Era Shannon a tocar a sua trompete no tombadilho. Dirigiu-se lentamente para lá, saudando com um aceno Conrad. Shannon tirou mais algumas notas num ritmo compassado de blues e depois baixou a trompete: - Chegaste mesmo no último minuto, Indy; onde diabo é que te meteste? - Mais tarde te conto. Vamos ter muito tempo para conversar. Mas que música era essa? Não será impressão minha de que já a ouvi? - Isso é por só teres visto a letra. Chama-se Cá no Bairro. Ainda precisa de quem cante, mas já lhe arranjei mais um verso... Estacou os dedos em rápidas flexões e soltou as notas na trompete: Fui viajar para a Grécia distante E o bairro tive então Que abandonar. Mas meu Deus, que saudade lancinante Senti no coração


Do meu segundo lar... - Exactamente o que eu pensava! - disse Indy. - Tenho uma coisa para ti! - disse Conrad, entregando a Indy um embrulho. - Chegou aqui momentos antes de ti... - Que é isto? - perguntou Indy rasgando o sobrescrito pregado ao tampo do embrulho. Era um bilhete do rei. Prezado Sr. Jones. Espero que mude de ideias e aceite o Onfalo. Afunde-o no mar, se assim o entender, mas por favor, o mais longe possível da Grécia e de Delfos. Os dias do Oráculo de Apolo já passaram e nós os gregos teremos de olhar para o futuro em vez de tentarmos reviver o nosso distante passado. Obrigado. 216 217 - Que é isso? - perguntou Shannon quando o ferry se começava a afastar do cais. - Um bocado de uma estrela cadente, acho eu... - disse Indy equilibrando o embrulho na amurada. - E que é que vais fazer com isso? Indy olhou lá para baixo, para o mar de um azul carregado. - Ainda não sei. Mas conheço o curador de um museu de Chicago que ficaria muito satisfeito por ter isto na sua colecção de coisas da Grécia... FIM DO LIVRO

Data da Digitalização Amadora, Setembro de 1999

Indiana jones e os perigos em delfos rob macgregor  
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