Page 1

Rio de Janeiro a Janeiro 2

VinĂ­cius Antunes

1


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

É livre a reprodução desta obra, desde que sejam mencionados seus autores

2


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

Índice

O suicida do Cristo ....................................................................................................................................... 5 A 5ª obra ....................................................................................................................................................... 6 A mãe do árbitro ........................................................................................................................................... 7 O gari da Sapucaí ......................................................................................................................................... 9 Conversas com Drummond ........................................................................................................................ 11 O Espírito da Lapa ...................................................................................................................................... 12 O passador de cantadas............................................................................................................................... 13 Narciso ....................................................................................................................................................... 15 O Jardim dos Sentidos ................................................................................................................................ 16 História Real ............................................................................................................................................... 17

Autores ...................................................................................................................................................... 19

3


Rio de Janeiro a Janeiro 2

VinĂ­cius Antunes

4


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

O suicida do Cristo Adam Bizauskas nasceu na Lituânia e planejava onde iria morrer. Amante da literatura romântica e obcecado pelo mundo virtual e suas novas tecnologias, decidiu matar-se depois de uma pesquisa no Google: “A Lituânia é o país com a maior proporção de suicídios no mundo.” Interessou-se pelo tema e, embora não fosse triste, tampouco era feliz. Um dia, então, resolveu seguir o destino pátrio. Diante do computador, o jovem Bizauskas aventurou-se durante dias e noites nas mais famosas cidades do mundo, mais famosas que a sua fluvial Vilnius. Ao fim, uma certeza: se mataria na exótica cidade do Rio de Janeiro: moderna, quente, marítima, florestal, violenta, promíscua e acolhedora. Era 3 de janeiro de 2011 quando Bizauskas, curioso e decidido, subiu ao Cristo Redentor para, ali, juntar-se ao hall de privilegiados que decidiram a data da própria morte. O clima não estava como sonhara, era um dia abafado e nublado. Entretanto, entre as nuvens, tentava admirar e adivinhar a paisagem, comparando com as fotografias do seu guia de viagens. Não se animou com os prédios que nasciam depois da Floresta da Tijuca, com a Baía de Guanabara, sequer se animou com a vista do Pão de Açúcar. Mesmo assim, olhou para cima, como a agradecer por aquele momento banal e conseguiu avistar o rosto do Cristo que se desvencilhou das nuvens com um aparente assopro. Era um rosto como o seu, pensou. O Cristo não parecia triste, não parecia feliz. Seu rosto de pedra-sabão não expressava absolutamente nada. Refletiu que Cristo era o suicida mais famoso da história. Olhou novamente para aquele rosto sem expressão e pela primeira vez na vida, embora tão próximo da morte, sentiu-se irmão de Deus. Bizauskas caminhou até o parapeito, respirou fundo, estava pronto. Evitou pensar na dor, na vida após a vida, evitou pensar. Debruçou-se sobre a paisagem de cartão postal e cutucaram-lhe o ombro. Bizauskas olhou assustado: seria uma intervenção divina? Não. Era apenas um casal que solicitava uma foto para guardar de lembrança. Conversaram em inglês, Bizauskas fotografou-os e pediu para que olhassem se haviam gostado. O casal de turistas, animado, virou-lhe as costas. A mocinha, não muito satisfeita, queria outra. Quando se viraram de volta, Bizauskas não estava mais lá.

5


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

A 5ª obra Diante do Pão de Açúcar, quando saía o sol, ela sentava na areia da enseada. Cabelos encaracolados

soltos

ao

vento,

sandálias

havaianas, caderno de desenho à mão, lápis HB. Aparenta ter uns 19 anos, é canhota e segura diferente o lápis, talvez um sinal de insegurança, não sei… Lembro que especificamente neste dia o céu parecia mais amarelo que nunca, não era um amarelo hepático, era um amarelo forte, escuro, quase laranja, o céu parecia Van Gogh. Mas, no caderno da menina, o Pão de Açúcar era chumbo e o céu branco, como na foto em preto e branco que ele acabara de imprimir em seu estúdio. Ele é fotógrafo profissional, embora ame o que faça. Apara a barba uma vez por mês e corta o cabelo às vezes, é fotógrafo e não modelo. Perambula sempre pela Zona Sul guiado por sua Nikon que faz seu caminho. Há três meses, enquanto fotografava a enseada, as lentes capturaram a menina numa foto em branco e preto. Viciou-se pela imagem: o Pão de Açúcar imenso com a criaturinha frágil à sua frente rabiscando um micro Pão de Açúcar mais frágil ainda. As paredes, o laptop, a vida, tudo está repleto de fotos como esta. Estão impressas por todos os cantos, em branco e preto como o desenho em preto e branco da menina da enseada. Os religiosos dizem que Deus levou três dias pra fazer a terra. Os cientistas dizem que a terra se formou em milhões de anos. A menina recria o Pão de Açúcar em algumas horas: mais rápido que Deus, mais rápido do que julga a ciência. O fotógrafo recria o Pão de Açúcar em um segundo: mais rápido que Deus, mais rápido do que julga a ciência, mais rápido do que a menina. Hoje, como ocorre em todos os dias, ela está com os pés cheios de areia e a frágil e calejada mão esquerda recriando o Pão de Açúcar a grafite. O Pão de Açúcar ignora a existência da menina, assim como ela ignora a existência do fotógrafo que de longe a recria e recria sua paisagem. Viverão assim, talvez pra sempre: o Pão de Açúcar, a menina, o fotógrafo e o poeta, que nenhum deles sabe, mas segueos de longe diariamente pois acha toda esta história tão inspiradora…

6


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

A mãe do árbitro Arlindo Peçanha era árbitro de futebol. Andou pelo Maracanã nos anos 80 e 90, fininho, rápido, sempre em cima do lance, numa época em que a arbitragem ainda era famosa pelo excesso de barriga e escassez de agilidade. Orgulhava-se de sua invisibilidade em campo: árbitro bom é aquele que não aparece na partida. Os locutores mal sabiam seu nome, a torcida o desconhecia, jogo com Arlindo era arbitragem de videogame. Lindalva Peçanha era a mãe de Arlindo. Senhora mui católica, mas sem ranço. Velhinha branquinha que nem neve, enrugada que nem damasco seco. Sempre orgulhosa do único filho. Viúva desde sempre, dizia. Não era muito de sair, não era muito de falar, porém quando saía, porém quando falava, dona Lindalva parava a rua. Era a pseudo-vovó mais simpática da Tijuca e, ultimamente, mostrava a dentadura à toa, estava à beira de completar noventa anos. - Não acredito, mamãe! - Que foi, Lindinho? - Fui convidado pra apitar a final. - Ai, minha virgiMaria, que coisa mais boa, sempre foi seu sonho! - Mas, mamãe, a final é justamente no aniversário da senhora. Apesar das eternas insistências da velha, Arlindo Peçanha nunca tinha levado dona Lindalva pra assistir a um jogo. Achava que futebol não era coisa pra mulher, muito menos pra uma senhora, muito menos ainda pra uma senhora sua mãe. - O campo do Maracanã é grande, filho? - É enorme, mãe. - Maior que a casa do teu tio Arnaldo? - Muito maior, mãe. Dona Lindalva não entendia absolutamente nada de futebol, sequer entendia pra que servia a profissão do seu filho. Como podia vinte e dois homens não conseguirem organizar uma partida? E pra que um campo tão grande? Como podiam correr assim ao sol? E de onde saía tanta gente pra ver aqueles jogos? Se uma mulher pode chegar aos 90 anos com alguma curiosidade, a de dona Lindalva era essa: o que acontecia dentro do Maracanã? - Filho, já sei um presente. - Que bom, mamãe. A senhora não é de pedir presentes. - Quero ir ao jogo. - Esquece, mamãe. É seu aniversário. - Por isso mesmo.

7


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

- Não, nada disso. Eu não vou apitar essa final, vou pedir pra escalarem outro. - Tá doido, menino? Te dou umas bolachas! - A senhora pode tirar o cavalinho da chuva, a senhora não vai. - Vou sim. - Não vai não e tenho dito. Até que chegou o dia da final, até que chegou o aniversário de dona Lindalva. - Quer um picolé, mamãe? - Não, deve estar muito gelado. - A senhora vai ficar sentadinha aqui nessa cadeira e não vai se mexer até o jogo acabar. - Isso daqui tá ficando muito cheio, né? - Eu avisei pra senhora. - Ai, eu sei… eu sei… parece até que a velha é você e não eu. Vai trabalhar. - Até, mãe. - Lindinho… - Que foi, mamãe? - Ó, fica mais daquele lado ali do campo que tá mais sombrinha. - Tá bom, mãe, bença. O uniforme negro já estava encharcado de suor e Arlindo ainda nem tinha pisado em campo. Sua preocupação não era mais com a final e sim com mamãe. O que dona Lindalva iria pensar? Final era jogo duro, coisa catimbada. Futebol era pra homem e não pra uma senhorinha de oitenta e nove, digo, noventa anos… rezou um painosso e dez avemarias e pediu a Nossa Senhora pra que nada de ruim acontecesse. Arlindo apitou e a bola rolou. Os primeiros minutos são sempre os piores, o coração sai pela boca, depois se acostuma. Na vida, a tudo se acostuma: seja a não ter pai, seja à solteirice eterna, seja à profissão de árbitro de futebol. No gramado, Arlindo tornava-se um robô e o jogo, por milagre, ia chegando aos noventa sem problema algum, nem parecia final. O zero a zero era do time com melhor campanha. Arlindo estava doido pra apitar o fim, e Arlindo já-já apitaria o fim… Noventa minutos cravados no cronômetro. O time que perdia o campeonato resolveu guardar a correia pro final. Arbitragem impecável, mas de que adianta? O atacante Romildo, num desespero final, atirou-se descaradamente na área adversária. Arlindo, exemplar, viu a forçação de barra e não caiu na malandragem. Mandou o jogador levantar e não marcou pênalti. Mas, já era. O que Arlindo tanto temia aconteceu. Cerca de cinqüenta mil torcedores ensandecidos encheram a boca pra gritar: filho da puta! filho da puta! filho da puta! Dona Lindalva, sentada em sua cadeirinha, escorregou ruborizada, depois empalideceu, depois se abanou, pensou em ir embora, pensou em brigar com todos, mas congelou, não conseguia mover um dedinho sequer: como foi que estes desgraçados descobriram?

8


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

O gari da Sapucaí Baseado na história do gari Renato Sorriso.

- E quando o carnaval acabar? - Quando acabar acabou. Ano que vem tem mais. - Não, não é isso. Quero saber o que vai acontecer quando acabar pra sempre… Sorriso não era filósofo por profissão, era gari. Se por um lado o Carnaval o deixava feliz, por outro o deixava comovido como o diabo. Enquanto se divertia, pensava na infinita finitude das coisas, tudo acaba eternamente, mas vai que um dia acaba de acabar! Haverá alguma última quarta-feira de cinzas?

Enquanto não topava com a resposta,

pensava na quarta mais próxima, quando voltaria pra Praça Xavier de Brito pra varrer, varrer e varrer, aguardando um outro Carnaval chegar. - A merda dessa vida é ter que trabalhar até no Carnaval, Sorriso! - Acho não, Xavier. Só assim posso ver o desfile aqui na Sapucaí. - Porra nenhuma, Sorriso. Tem é que varrer esta merda toda que o povo caga. - Rapaz, deixa de falar besteira. Aqui a gente vê a bunda das modelos passando. Quando na tua vida você pensou em ver ao vivo a bunda da Luiza Brunet?! - Lá quero saber de bunda, quero dinheiro no bolso e ir embora dormir. - Pois eu queria é sambar numa escola dessas, todo mundo aplaudindo, mandando beijo. Nasci pra isso, Xavier. Sou cem por cento carisma, imagina o negão aqui de Mestre Sala! - Com essa vassoura na mão tu tá mais pra porta-bandeira. Pára de falar merda e varre, não vou varrer tua parte. Tá certo que ninguém reparava, mas se reparasse, veria que Sorriso não andava pela avenida, ele flutuava, ao mesmo tempo em que entrelaçava as pernas como se fossem de uma marionete desgovernada. Segurava a vassoura que nem bandeira de estandarte e dentro da sua cabeça tocava uma bateria prodigiosa que ia descendo pelo corpo, passava pelo coração e o fazia pensar e sentir com os pés. - Tá vendo ali, Xavier? - O que? - Aquela modelo, é rainha de bateria! - E? - E que ela não samba porra nenhuma. - Novidade. Eu também não sambo e estou aqui. - Mas você tá varrendo. Então ela é que deveria estar contigo, varrendo, e eu lá.

9


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

- Então cê quer ser rainha de bateria, né? - Num fode, Xavier. Só queria estar lá no meio da Escola. Gari não é patrão. Muito menos na Sapucaí, onde é fiscalizado diretamente pelo chefe. O cimento tem que ficar limpinho pro salto das modelos pisar, pra passista não tropeçar, pra baiana poder rodar… - Faz silêncio nessa porra! Pára de conversar! Limpa direito. – gritava o chefe. E o samba, pra Sorriso, era que nem canto de sereia. Quando a bateria explodia o silêncio, ele ia afrouxando as cadeiras, os pés saltitavam no chão, os ombros rodavam, a cabeça caía prum lado e pro outro e ele ia atrás que nem folião. Num descuido do chefe, Sorriso deslizou pra perto da Escola, acenou pro público, brincou com as pernas feito um Mané, fez a vassoura parecer encantada e enquanto pisava no chão seus pés faziam som de tambor. O público delirou. Já não se via mais carro alegórico, rainha de bateria, mestre sala, nem porta-bandeira. Já não se ouvia ronco de cuíca, batuque de tambor. Só se via o samba no pé de Sorriso e se ouvia o chocalho do seu corpo. Este foi o primeiro Carnaval.

10


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

Conversas com Drummond Dedico este texto aos meus alunos, porteiros de Copacabana, do projeto Porteiro Amigo do Idoso do qual sou coordenador.

Quando Everaldo foi contratado para a portaria do prédio, Afrânio já era velho. Passados quinze anos, Everaldo caiu nas graças dos condôminos, já Afrânio atingiu aquela faixa etária que ainda não se nomeou, sabe-se apenas que vem depois da velhice. A princípio, Everaldo era apenas uma espécie de escravo de ganho de seu Afrânio: deixava a portaria para ir à rua comprar-lhe frutas, remédios, jornal e ficava com alguns trocados pra si. Seu Afrânio era um velho excêntrico que andava de meias e chinelos, bermuda bege e camisa azul de cobrador de ônibus. Fedia, babava e falava sozinho, falava com qualquer um, falava com os quadros da portaria, com os degraus da escada, com o botão do elevador e babava e fedia. Até que Everaldo começou a dar banho no velho, por caridade só, sem querer as moedinhas que ganhava para ir à rua. Os outros porteiros estranharam, fizeram piadas, espalharam boatos, mas o nordestino dizia com seu sotaque carregado: num tenho medo de piru murcho! O que mais intrigava a vizinhança era o fato de o velho não morrer. Resistia ali sem família, sem memória, sem dignidade alguma. Os porteiros falavam que seu Afrânio tinha posto cada pedrinha no calçadão de Copacabana e era ao calçadão que ia todos os dias, uma única vez, sempre no mesmo horário, às cinco da tarde, caminhar e conversar com o Drummond. Se saía triste, voltava feliz, depois ficava horas intermináveis a contar para Everaldo tudo que o poeta tinha lhe falado. É um poeta muito espirituoso, Everaldo, adoro quando me recita aquele poema da bunda. Diziam que o velho sofria de Alzheimer e todos se assustavam quando a boca banguela atirava que nem metralhadora poemas imensos do itabirano. Às vezes lhe perguntavam o próprio nome e o velho não sabia dizer, mas se lhe perguntassem qual era o sexagésimo quinto verso de “A Morte do Leiteiro”, responderia na hora. Everaldo achava tudo aquilo misterioso e estranho, chegou a seguir, de longe, o velho Afrânio até a estátua do Drummond e ficou um fim de tarde inteiro a observar como aquele senhor conversava entusiasmado com o poeta. Na última sexta-feira de agosto de 2010, Everaldo estranhou Afrânio não descer às dezessete horas para conversar com ele e com o Drummond. No sábado, repetiu-se o sumiço do senhor do 808. O porteiro pressentia o pior. Trêmulo, chamou o elevador, foi ao oitavo andar, enfrentou o corredor sentindo a perturbadora presença da morte. Bateu na porta a primeira vez: nada. Bateu na porta a segunda vez: nada. Gritou por Afrânio: silêncio. Gritou novamente: silêncio. Decidiu entrar. Tomou distância e chocou-se contra a porta. Encontrou o cadáver do velho, descansando com um risinho nos lábios, risinho igualzinho ao da bunda. Everaldo recuou, atravessou novamente o corredor, desceu ao térreo, deixou a portaria abandonada, vazia, foi caminhar por Copacabana sobre as pedras portuguesas do Calçadão e sentou-se ao lado da estátua do Drummond. Segurou as lágrimas e bateu no joelho do poeta: Fala! Me diz um destes teus versos que fazem sorrir!

11


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

O Espírito da Lapa Os loucos do Rio de Janeiro não estão na Colônia. Estão soltos por aí. Se olharmos com atenção, veremos que na Colônia estão os sóbrios – muito provavelmente, protegidos dos loucos que infestam a cidade. Vá ao Centro do Rio de Janeiro, numa sexta-feira à noite, verás os ébrios, os apaixonados, os enfermos dançantes. Um professor universitário à mesa dum bar diria como numa sala de aula: é o espírito dionisíaco. Merda nenhuma! Entenda o Rio de Janeiro como é, bem longe das universidades, nas carnais madrugadas da Lapa. Os espíritos ali são outros: É o Exu de camisa listrada, chapéu inclinado, cigarro na boca que sobe as escadas. É a Pomba-gira que roda a saia, que canta gritando, que cospe no chão. Na Lapa, à noite, todo espírito é feito de carne. Quando começa a música, até São Jorge desce da lua pra dançar. Próximo aos arcos, Chico, Antônio e Eduardo subiram as escadas dum sobrado desses qualquer. Era cedo, inda ia dar meia-noite. Atravessaram as nuvens de fumaça pra se recostar numa janela com muito mais tempo de vida que a idade dos três somada. Já sabiam o que esperavam: muito além da música, da bebida, da maconha – era o que garantiam Antônio e Eduardo ao Chico que estreava na noite. Muito melhor que qualquer vídeo-game, punheta, seriado de tevê, explicavam novamente, pra falar a língua do rapaz. Por volta de duas da manhã, imagina-se o barulho dos saltos já que não se pode ouvi-los por causa da música. Cabelo escorrido, seios imensos, bunda ainda maior – falsa claro, tão falsa quanto os seios, tão falsa quanto tudo naquela noite. Cláudia. Caminha até os amigos, com a presença de uma locomotiva que lança a sua fumaça no ar. Cumprimenta-os. Apresentam-lhe o novato. Ele, pela timidez, lhe diz Francisco. Bebem ainda mais, fumam ainda mais. O dia vai ficando mais próximo, mas a vida se torna mais escura. Deixam-lhes a sós, recostados à parede. Apesar do decote, da saia curta, do cheiro de álcool e do cigarro, imprensada à parede, Cláudia era uma puritana. Bem falaram os amigos: diante da platéia era cheia de não-me-toque, mas no quarto, vista só por dois olhos, se transformaria num furacão. Chico já perdera o recato, já multiplicara as mãos, já não era mais ele e queria Cláudia como seu ebó. Bastou dizer uma vez: vamos pra outro lugar. Antes de dizer sim, já estavam lá. Era um quarto modesto, muito aquém de Cláudia, um quartinho como dum puteiro: uma cama muito usada e um banheiro pra dar conta da sujeira. Ele estava atirado na cama, nu. Esperava Cláudia que resolvera se aprontar no banheiro. Tudo muito rápido, mas, pra ele, uma eternidade. Passados alguns breves minutos, ouve-se a porta. Surgem olhos ainda mais vivos, os cabelos escorridos pelos ombros, os seios totalmente a mostra, um umbigo perfeito, cintura fina e um piru muito maior do que o do garoto deitado na cama. Era assim que Cláudia, ou Cláudio – como prefira – já tinha tomado muita porrada na vida. Mas, a maioria dos navegantes, já que estava ali, preferia não perder a viagem.

12


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

O passador de cantadas Adolfo, ou melhor, Adolfinho – como era popular – corria desde jovem pela orla de Ipanema, muito antes do MP3, pedômetro, monitor cardíaco, tênis Nike. Começou a correr na época em que se corria de chinelo ou descalço. Correu tanto que se tornou um bom atleta de beira de praia, correu a ponto de dizer que corria mais que qualquer morador de Ipanema. Correu muito. Correu. Correu demais Aldolfinho. Porém, como dita o clichê da vida, o tempo correu mais que ele. Com 72 anos, possuía duas imensas paixões que começaram juntas: correr e enaltecer mulheres. Quando deu os primeiros passos pela orla de Ipanema e viu a primeira morena bronzeada correndo em sua direção, não resistiu: sua linda! Nos primeiros segundos, Adolfinho ficou rosado, vermelho, vinho! Depois passou. Até que veio uma loira e ele repetiu a dose: sua linda! Mais alguns segundos de timidez e pronto, passava. Ao final do dia, já estava passando cantadas a torto e a direito e ria, vencera a timidez. A beleza seria enaltecida, verbalizada, babada… Velho babão! Esta era a devolução mais comum às suas cantadas. As mulheres, com o tempo, ficaram mais respondonas, mas quem disse que isto não lhe agradava? Gostava daquelas que enchiam a boca com palavrões, espraguejavam, perdiam a linha. Pensava Adolfinho: isto era sinal de potência sexual, energia acumulada. Ele também foi se adaptando à modernidade, foi adequando as cantadas à época: tchutchuquinha, popozuda, delicinha… O coroa não era burocrático, classista, segregador, elitista, sectário ou religioso na hora de passar cantadas no mulherio. Cantava e pronto. Via beleza por todos os lados, em cima e embaixo, bastava ser mulher: morena, loira, negra, ruiva, asiática, careca, cabeluda, gorda, magra, anoréxica, obesa, alta, baixa, média, anã, dentuça, banguela, deficiente, cheirosa, fedorenta… e até Iasmim. Logo Iasmim – jamais esqueceu desse nome. A madame estava de canga florida, chapéu, óculos escuros… Oi, linda. Foi o que disse, se é que chegou a dizer oi. Ela se sentiu privilegiada, diferente, exclusiva e fez o que há muito ninguém fazia: desejou o velho. Transtornada, a madame correu de volta pra casa e se ancorou no sofá até que o marido chegasse trazendo a noite. É um absurdo, Oswaldo. Um absurdo! Nem na praia se pode mais andar! Velho tarado! Doente! Deve ser até pedófilo, se bobear… estuprador! Como consegue falar essas coisas pra mim? Não admito, Oswaldo! Tanta vagabunda no mundo e ele vem falar sacanagem pra mim? Ah, não! Você vai ter que tomar alguma providência, Oswaldo. Oswaldo era ciumento de nascença! Era de escorpião com ascendente em câncer, descendente em leão cruzado com touro chifrado por capricórnio. Oswaldo era bicho ruim. Bicho ruim era bom. Oswaldo era bicho horrível de péssimo. Mesmo sem ter razão, já tinha mandado pra cova muita gente, imagina agora que estava se achando dono da verdade. O sol fritava e Adolfinho corria. A cada passo uma cantada. Pé direito. Sua linda! Pé esquerdo. Sua gostosa! Pé direito… Até que esbarrou com Oswaldo ou Oswaldo esbarrou com ele, a mesma cara descrita pela mulher. Então é você o velhote tarado que fica assediando a mulherada, né? Vem comigo, entra nesse carro. No banco de trás, dentro do Corola preto de vidro fumê, estavam dois mascarados. Oswaldo com uma voz fria e grossa anunciou: vamos dar um passeio até a Barra, vovô!

13


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

Mais que uma surra, o que Adolfo levou foi uma lição. As pauladas foram pra nunca mais mexer com mulher dos outros. O tapa na cara foi pra nunca mais falar sacanagem. Os chutes no estômago foram pra nunca mais mexer com mulher nenhuma e os pontapés no saco serviriam pra aprender a ser velho. Adolfo não esqueceria mais dessa escola. Vendo pelo lado do aluno, que mal fazia ele em elogiar o que era belo? Que mal fazia em ter um espírito jovem? Que mal havia se às vezes ganhava até um sorrisinho… um sorrisinho e agora muita porrada. No fim da tarde, o Corola voltou à orla de Ipanema tão despercebido quanto chegou. Tá entregue, vovô. Abriram a porta e jogaram o velhote todo roxo sobre as pedras portuguesas. Ficou ali, estirado entre a lucidez e o desmaio. A primeira que o avistou foi uma preta muito bonita que tomou um susto, apiedou-se e correu em direção ao velho enquanto pegava o celular para ligar pra emergência e pra polícia. Ajoelhou-se ao lado do vovô todo moído e, em pânico, perguntou: - O senhor está bem? - Agora tô, sua linda, agora que tô aqui no céu vendo uma anjinha. – E desmaiou.

14


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

Narciso São um ou dois pássaros, ali do lado direito. Algumas plantas se movem, não dá pra saber quantas ou quais são. Umas imagens deformes parecem pessoas. Um rosto que vai se multiplicando e logo volta a ser um, fica torcendo e distorcendo, balançando sutilmente de um lado para o outro e às vezes se desfaz em anéis de água. São quatro ou cinco olhos negros, vidrados e curiosos. A pele também é negra e de múltiplos contornos. O cabelo é ouriçado como anéis que uma pedra produz ao cair num lago. As orelhas não estão na mesma direção. A boca parece metade triste, metade feliz. O nariz é torcido. Parece que Deus é Edvard Munch. É o que Narciso vê refletido na Lagoa Rodrigo de Freitas, abaixado em um deque próximo ao Parque dos Patins. Os turistas que passam, talvez não entendam ou não tenham tempo para entender. Os moradores já não se importam, pois sabem que aquele homem não faz mal algum. Enquanto todos caminham, fotografam, pedalam, Narciso vê apenas os reflexos na água da Lagoa, tal sombras platônicas redimidas. Detêm-se naquele rosto recriado pela Rodrigo de Freitas e se contempla de manhã à noite, quando o sono chega e o faz sonhar seu reflexo de água. Seu rosto é o rosto do Cristo Redentor negro, seu corpo gigante escala a pedra da Gávea em posse de uma turista loira e de seios grandes, ele é um King Kong. Urra até despertar com o próprio urro. Recomeça o dia ajoelhado sobre um deque da lagoa. Os turistas contemplam a paisagem. Narciso contempla as imagens da Lagoa, seu rosto entrecortado por uma garrafa pet, seus olhos mesclados a sacos plásticos, seu cabelo espuma branca, sobre sua boca um peixe morto. Narciso quer mordê-lo: aproxima-se do reflexo a ponto de tocar o nariz no espelho d’água, submerge o rosto para abocanhar o peixe. Desequilibra-se. Narciso mergulha no reflexo, o reflexo acolhe Narciso. Parte a parte encontra-se o corpo: primeiro a cabeça, ao final, os pés. Mesclam-se numa figura única sob as águas sujas e calmas da Lagoa Rodrigo de Freitas.

15


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

O Jardim dos Sentidos Não podia dizer se a cegueira era branca ou negra, pois nascera cego. Não conhecia cor: fosse rosa, azul, vermelho, verde. Conhecia apenas os sons, os cheiros, os gostos, as texturas – isso conhecia bem, melhor que você, eu, melhor que a avó até. Por sinal, sua avó, já não tinha lá os sentidos tão bons – com exceção do sexto. Olfato falho, audição ruim, paladar escasso, tato duvidoso, só a vista que era melhor que a dele, mas isso não queria dizer que enxergasse bem. Enxergava o suficiente para sentar o neto no colo, na frente da tevê, e narrar-lhe tudo que se passava. Ele se divertia com as narrações engraçadas da avó que transformava qualquer filme em comédia, ria com tanta incoerência entre a descrição das cenas e a fala das personagens. Mais que sentir prazer com os filmes, gostava de ouvir-lhe a voz frágil e escassa, de apalpar-lhe as peles geladas e moles, de sentir aquele perfume de jasmins que só sua avó possuía. Não viu o enterro da velha, como nunca vira nada na vida. Apenas sentiu-lhe a carne fria e dura e o cheiro de jasmins. Os filmes passavam a ser apenas a fala das personagens. Já não havia colo, não havia braços para apalpar, não havia a voz mansa e suave da avó. Havia apenas uma solidão comprida e vagarosa que se espraiava pela casa. Havia um silêncio quase onipresente apenas quebrado pela voz do Charles Bronson, Bruce Lee, Vivien Leigh. Ouviu que batiam à porta. Perguntou quem era e surgiu uma voz antiga e amiga. Abriu. Abraçaram-se como amigos que não se encontravam desde a infância. Sentaram-se no sofá e compartilharam histórias antigas e recentes, felizes e tristes, aquelas mais verdadeiras e as mentiras que se inventa só para ter o que contar. O visitante percebeu-o triste, amarelado, reparou-lhe as imensas barbas por fazer, os cabelos desarrumados. Foi então que soube da avó, do silêncio, da solidão e de como a vida era feita só de vozes esparsas, sem roteiro algum. Disse-lhe que precisava sair, sentir o sol, ouvir os pássaros e todas estas coisas que se diz a um enfermo quando se quer animá-lo. Chegaram ao Jardim Botânico junto com a tarde. Não podia vê-lo, mas tampouco precisava. Sua pele, seu nariz, sua boca, seus ouvidos, diziam-lhe tudo que estava ao redor. Tirou os chinelos para sentir melhor o chão e andou calmo como se estivesse sobre o gelo. Tentou assobiar, copiando um pássaro, mas nunca aprendera, apenas saía-lhe um assopro engraçado. O sol deixava-lhe a testa quentinha que logo depois era esfriada numa fonte ruidosa. O amigo estendeu-lhe a mão e disse que o levaria às flores. Andaram, trôpegos, sentindo grama, pedras e insetos. Em sua ausência de imagens, esticou as mãos e tocou as pétalas que estavam à sua frente. Sentiu a flor frágil como um bebê ou como um velho muito velho. Queria saber como era, como seria ver o mundo e como seria ver seu próprio rosto. Abaixou para cheirá-la. Era um jasmim. Estava, novamente, diante de sua avó.

16


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

História Real Outrora a Quinta da Boa-Vista era a morada dos nobres. Hoje, durante a noite, até o mais vulgar dos homens teme passar por lá. Do lado de fora, legiões de travestis, prostitutas e mendigos dividem a calçada. Dentro, a escuridão predomina no parque e rodeia o antigo palácio real. Ouvem-se uivos dos animais do Zoológico e sons macabros vindos do presídio Evaristo de Moraes. Às portas do museu, suando como fosse dia, montavam guarda Marcelo e Bernardo: - Já pedi a troca de turno, Bernardo. - Tá com medo daquela coisa? - Tenho dois filhos, sei lá o que pode acontecer. - Olha, lá vem ela de novo. - Parece o fantasma do rei. - Que rei? - O tal do Dom Pedro que morou aqui. Nunca viu num livro de história? - Então fale com ele, já que tem tanta intimidade. - Quem está aí? Pare agora mesmo! Identifique-se. - Sumiu. - É sempre assim. A história começou a correr. Primeiro entre a administração do museu, depois entre os funcionários da Quinta da Boa Vista, em breve era a história mais comentada em cada bar de esquina de São Cristóvão. Chegaram até a comunicar dona Isabel Maria Josefa Henriqueta Francisca Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança e Wittelsbach, ou seja, a atual sucessora de Dom Pedro I. Entretanto, ela disse não querer saber de espiritismo e que não daria dinheiro nenhum a ninguém. Marcelo não conseguiu a troca de turno. Bernardo sequer tentou. A princípio, foram noites difíceis. O fantasma do imperador passou a fazer visitas cada vez mais freqüentes. Chegou-se a pensar que alguma coisa ruim deixava sua alma inquieta, que chegava o fim do mundo, que trazia algum aviso importante ou, até mesmo, que queria vingar-se como algum rei dinamarquês. Marcelo e Bernardo acompanhavam todas as noites a movimentação do fantasma de Dom Pedro I. Surgia ao lado da estátua de seu filho, depois sumia. Reaparecia carregando em seus braços alguma prostituta, depois sumia. Os guardas pensaram que o imperador voltava ao mundo para buscar almas femininas, mas não. Quando saía o sol, buscavam ao redor do palácio e não encontravam corpo algum. O passar do tempo trouxe o costume e a coragem. Numa noite de lua graúda, Marcelo e Bernardo seguiram o espírito que carregava em seus braços mais uma dessas mulheres da vida. Caminharam a passos silenciosos até o matagal de trás do museu e, ao chegar lá, viram aquela cena sobrenatural: Dom Pedro nu a amar a prostituta. Depois do evento revelador, Dom Pedro passou a tratar os guardas como se fossem seus súditos mais leais. Jogavam cartas quando Pedro se desentendia com as mulheres e ele lhes contou que não voltava a este mundo por dor, vingança ou ódio. Voltava apenas porque se cansara da morte e lhes disse que não conseguia levar a eternidade sem amar as mulheres.

17


Rio de Janeiro a Janeiro 2

VinĂ­cius Antunes

18


Rio de Janeiro a Janeiro 2

Vinícius Antunes

Autores É livre a reprodução desta obra, desde que sejam mencionados seus autores

Vinícius Antunes - escritor Vinícius Antunes da Silva é carioca. Nasceu em Quintino, andou por Cavalcante, Cascadura, Madureira, morou em Vila Valqueire e agora vive em Sulacap. É formado em História e quase formado em Letras. Trabalha na área de Educação. É autor do blog Crônicas dumas Viagens e publica, mensalmente, no jornal JPA em Destaque uma coluna com o mesmo nome do blog. É autor de poemas, crônicas, contos e peças de teatro. Contato:

escrevedordoquartomundo@hotmail.com

blog:

http://cronicasdumasviagens.wordpress.com

Rogerio – Ilustrador Rogerio Tadeu Monteiro da Silva é arquiteto e cartunista. Trabalhou para diversos jornais: O Pasquim, Jornal dos Sports, O País, A Tarde, A Notícia, Gazeta de Notícias, Espírito da Coisa, Nas Bancas e Feira Hoje. É criador, em conjunto com Luís Pimentel, de personagens como Mão Estendida e Zé Bode. Foi premiado na I Bienal Internacional de Quadrinhos (prêmio na categoria Charge). Contato: rogercartum@hotmail.com - Blog: http://rogercartum.zip.net

19

Rio de Janeiro a Janeiro 2 - A Cidade Conhecida  

Contos de Vinicius Antunes, ilustrados por Rogerio, passados nos principais pontos turisticos do Rio de Janeiro.