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O EMPRESÁRIO E O MONGE conto de desajuda

Era uma vez um monge. Era uma vez um monge que como todo monge possuía olhos bem pequenos, cabeça grande e corpo franzino. Era uma vez um monge que como todo monge vivia em um lugar longe, de monge, onde é sempre primavera, há sempre uma árvore florida e corre um rio. Monge ficava sentado na sombra da árvore, de olhos fechados, ouvindo o correr da água do rio. Abriu um olho, num dia, e viu a fragilidade do sempre. Viu que ao redor do seu longe cidades brotavam por perto. O clima foi ficando outro, o rio foi ficando outro, a árvore outra era. Monge não conseguia mais mongear quieto. Pensava durante todo o dia em descargar sua vida no rio. Suava frio e não se concentrava mais. Fugiu de si, correu para a cidade mais próxima. Monge chegou na vida urbana menos monge do que um monge, mas, para todo citadino, monge é sempre monge, novidade que vem de longe. Criancinhas apontavam-no como prolongamento dos olhos das mães, cachorros lhe faziam xixi para marcar território e os pais nem perdiam tempo, afinal era apenas um monge. Monge ficou sabendo de um grande empresário que poderia dar-lhe de novo a vida. Seu nome, como nome de todo grande empresário, era John. Que como todo grande empresário era bom, bom empresário. Monge conheceu John tão disponível a ponto de lhe receber no escritório. John possuía cabelos grisalhos, olhos grandes bem chamativos e nariz bem grande. Monge, tão necessitado, abriu a boca pela primeira vez na sua vida: - Que preciso para ser feliz? John sorriu com sua boca que também era grande. Entregou um enlatado para o monge. Monge leu: “FELICIDADE! Amostra grátis”. Monge, só em ler, ficou mais feliz. Rapou tudo, lambeu lata. Beijou a mão do misericordioso John. Despediu-se. Foi pra rua que estava com cara de casa. Dormiu num banco com cara de cama. Acordou, no dia seguinte, com cara de fome. A rua com cara de rua. O banco com cara de banco. John foi imediatamente procurado pelo monge. Ao chegar na porta do prédio Industry Felicity Now os seguranças seguraram o monge. Informaram-lhe, com todo pudor, que John não poderia lhe atender. Monge falou sobre o enlatado. Seguranças informaram-lhe, com todo pudor, que poderia comprar o produto em qualquer esquina. Monge insistiu. Disse não ter dinheiro. Seguranças, com todo pudor, lamentaram. Monge insistiu e voltou a insistir. Seguranças informaram-lhe, com algumas breves gotas de pudor, que John havia saído e voltaria em uma hora. Monge se foi. Voltou-se para a rua e voltou para ela para, em uma hora, voltar ao prédio.


Seguranças informaram-lhe que John estava muito ocupado, pediram-lhe para voltar no dia seguinte. Assim foi feito, no dia seguinte estava de volta. Seguranças informaram-lhe que John estava muito ocupado, pediram-lhe para voltar na semana seguinte. O monge relutou, mas assim foi feito, na semana seguinte estava de volta. Seguranças informaram-lhe que John estava muito ocupado, pediram-lhe para voltar no mês seguinte. Monge insistiu, relutou, mas assim foi feito, mês seguinte estava de volta. Seguranças informaram-lhe que John estava muito ocupado, pediram-lhe para voltar no ano seguinte. Monge reclamou, insistiu, relutou, mas assim foi feito, ano seguinte estava de volta. Seguranças informaram-lhe que John estava muito ocupado, pediram-lhe para voltar na década seguinte. Monge se espantou, reclamou, insistiu, relutou, mas assim foi feito, década seguinte estava de volta. Seguranças informaram-lhe que John estava muito ocupado, pediram-lhe para voltar no próximo século. Monge percebeu que no próximo século talvez não estivesse mais vivo. Pensou na possibilidade de estarem lhe passando pra trás. Monge, pela primeira e última vez na vida, ficou tomado de raiva e se foi. Monge, não sei como, nem ninguém sabe – nem detetive, jornalista e fofoqueiro – conseguiu entrar durante a madrugada no escritório de John. Dizem que monge, como bom monge, usou de sabedoria chinesa. Quando o empresário John entrou pela manhã no seu escritório, o Monge exibiu-lhe um cinturão repleto de bombas e explosivos que, como bons explosivos, explodiriam a qualquer clique. John ajoelhou-se e implorou perdão. Monge berrou palavrões. John beijou-lhe o pé. Monge chutou-lhe a cara. John disse que tinha filhos. Monge disse que nunca teve família. John prometeu-lhe todos os remédios gratuitamente. Monge colocou o dedo sobre o botão e disse que contaria até três. As lágrimas de John caíram como em câmera lenta. Caíu uma. Monge contou um. Caiu outra. Monge contou dois. Caiu mais outra. Monge contou

3.

Monge

berrou

mais

um

palavrão

alto

e

sonoro

e

apertou

o...

booooooooooooooooooooootão

BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM!

Vinícius Antunes (@cacofonias) – setembro de 2007

O Empresário e o monge (conto)  

Conto de desajuda de Vinícius Antunes

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