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Ficha Técnica Título: Villa da Feira - Terra de Santa Maria Propriedade: LAF - Liga dos Amigos da Feira ® Director: Celestino Portela Director Adjunto: Fernando Sampaio Maia Colectivo Editorial - Fundadores LAF: Alberto Rodrigues Camboa; António Luís Carneiro; Carlos Gomes Maia; Celestino Augusto Portela; Joaquim Carneiro Processamento de Texto: Carla Maria Costa Ferreira Coordenação Científica: J. M. Costa e Silva Supervisão Editorial e Gráfica: Anthero Monteiro Colaboração do TOC, Belmiro da Silva Resende Periodicidade: Quadrimestral Assinatura anual: 30 euros Assinatura auxiliar: 50 euros Este número: 15 euros Pagamentos por: Transferência bancária NIB 007900001127152910124 Cheque à ordem de LAF - Liga dos Amigos da Feira Capa: Monumento a Manuel Laranjeira Escultura de José Aurélio - Mozelos - S. M. Feira Fotografias: Óscar Maia, Arquivos particulares, Universidade Sénior, LAF e Fotos Web por José Correia Redacção e Administração: Apartado 230 • 4524-909 Feira

Publicidade: Telef.: 965 310 162 | 256 379 604 Fax: 256 379 607 Tiragem: 500 exemplares Edição: N.º 15 - Fevereiro de 2007 Pré-impressão, Impressão e Acabamento: Empresa Gráfica Feirense, S. A. Apartado 4 - 4524-909 Santa Maria da Feira Sede Social: Largo de Camões, 9, Apartado 230 4524-909 Santa Maria da Feira Email: villadafeira@portugalmail.pt Depósito Legal: 180748/02 ISSN: 1645-4480 Reg. ICS: 124038 Depositária: Livraria Vício das Letras Rua Dr. José Correia e Sá, 59 4520-208 Santa Maria da Feira Apoios: Câmara Municipal Santa Maria da Feira Irmãos Cavaco S.A. Zoo Lourosa - Parque Ornitológico Rohde - Sociedade Industrial de Calçado Luso-Alemã, Lda Termas das Caldas de S. Jorge Sociedade de Turismo de Santa Maria da Feira Patrícios, S.A.


PÓRTICO O Pórtico latino evoca porto, chegada e partida, abrigo, início, abertura. Arquitectonicamente, porém, aponta para galeria aberta de abóbada sustentada por colunas na frente dos edifícios de porte e nobreza, preferentemente de culto, aos quais servia de acesso ao que avançava e de abrigo ao que chegava e ficava. O Pórtico será assim um centro de convergência da chegada de um exterior infinito, indefinido a conduzir a um interior espaço de Vida definido pelo escritor em que a própria poesia se faz e faz História, enquanto realidade no tempo e no espaço produto de agente resultante ele também da cultura do tempo da escrita. Ainda que a vocação deste «templo» da LAF, periodicamente repetido, seja a História das «Terras de Santa Maria.», cientificamente considerada. Tudo quanto germina desponta para a vida e a vida é sonho tornado realidade na justa medida em que partindo de um exterior a si, a si num interior se faz vida. E que coisa mais bela que a Vida? Assim este Pórtico somente pela Vida em que nos introduz. Sonho? Mistérios da Vida?

Mas, queiramos ou não, cada um de nós, mais que explicação, se acha mistério na medida em que se integra num inconsciente e vasto projecto de realização, recuperação e sobrevivência humanas, porque tudo, mesmo cegos para ele, encerra um significado em que nos definimos também hoje e aqui e nos constituímos humanos em toda a dimensão do termo. Livremente? Mais instinto que consciência, norteados por escolhas originais, sem que delas tomemos tento, cá vamos rumando ao futuro um tanto mais conscientes de nós na consciência do nosso passado pelo que de nos vão revelando os colaboradores. O sonho expande, a sua ausência atrofia o Homem. E, assim, nascem e crescem as obras para muitos, germinadas no sonho de alguns. E aqui se vai vogando no oceano desta História feita pelos que fazem a LAF. Sonhando na poesia, trazendo o abstracto humano no que tem de concreto; Encontrando-nos no que somos carregando o que fomos ressuscitado na História de que somos feitos; Na consciência universal de que «cada um nasce para si... e cada um morre sozinho»;

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Cientes de que «os espíritos valem o que exigem e cada um vale o que quer»; Continuando aqui os «profissionais científicos da memória» a «trabalhar de forma a que a memória colectiva» desta terra «sirva para a libertação e não para a servidão dos homens», ao menos da ignorância do que se é por desconhecer o que se foi. Porém, sempre no sentido daquele pórtico ateniense, a «estoa», onde o filósofo e mestre Zenão de Cécio (335-264 a. C.) reunia os discípulos, honestamente reflectindo a Vida, a Ciência, a Humanidade.

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Estóicos chamaram aos que aí, no Pórtico do templo de Atenas, deusa e cidade, aprendiam e praticavam uma forma simples de vida, sobrevivendo com o mínimo de matéria, suportando privações, interessados na defesa e preservação do Espírito. Assim nascia o Estoicismo. Mas o inglês utilitarista e comerciante, metáfora do ser humano, logo transformou a «stoa», «pórtico», precisamente em «mercado», talvez pela forma abobadada e colunada desses lugares de vendilhões, tal como os estádios hoje pomposa e profanamente ditos «catedrais». Eis o «Pórtico» «Estóico». Antigo? Moderno?

David Simões Rodrigues


MENSAGEM Assoma à porta mais um número de Villa da Feira. É caso para acorrermos de braços abertos e o mesmo sorriso festivo com que se recebe um amigo que estremecemos. Este, ainda por cima, chega pontual, à hora marcada, sorri nos seus atavios e abre as mãos a transbordar de presentes: traz-nos aromáticos frutos de sabedoria, pérolas de exímios pesquisadores, histórias maravilhosas da nossa própria História, a música dos poemas que tornam o Mundo mais habitável, todo um arcoíris capaz de nos atravessar os sentidos e nos chegar à alma. Em cada número e cada vez mais, recebemos algo novo e simultaneamente familiar, porque o reconhecemos bem nosso e nos é já imprescindível: se nos faltasse, à hora certa, sentir-nos-íamos indigentes. Pelo contrário, sentimo-nos orgulhosos e sempre agradavelmente surpreendidos: pela vitalidade do que foi projecto e é renovada realidade, pela perseverança dos seus mentores, pela diversidade das colaborações, pelo estatuto dos colaboradores, pela pontualidade com que é realizado o compromisso quadrimestral com os leitores, pela apresentação cuidada e elegante da publicação.

Sempre que surge à luz um novo número de Villa da Feira, logo se justifica a festa que acompanha todas as grandes e úteis construções colectivas, como o champanhe que celebra o lançamento de uma nova embarcação ao desafio das ondas. O colectivo que lançou e faz navegar o barco, não invalida, porém, o papel de quem segue ao leme do empreendimento: há sempre alguém que vai na vanguarda, que não deixa esquecer o rumo e organiza os esforços dos demais. A minha breve mensagem (e agradeço o ensejo que me é dado) é essencialmente para o timoneiro e para o colectivo editorial: ao Dr. Celestino Portela quero expressar a minha particular homenagem de admiração por pertencer àquela rara espécie de homens que sabem construir e fazem realizar; aos fundadores e colaboradores mais próximos, o testemunho da minha alegria ao ver e poder sentir nas mãos a repetida dádiva que é este magnífico cometimento cultural e patrimonial da nossa terra. Aos leitores, apenas posso dizer: usufruam! Vale a pena!

Anthero Monteiro

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SUMÁRIO Pórtico David Simões Rodrigues

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Mensagem Anthero Monteiro

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Poesia Edgar Carneiro

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Poesia Anthero Monteiro

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Na Apresentação de Misticismo em Manuel Laranjeira de Anthero Monteiro Luis Machado Abreu

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Poesia Edgar Carneiro

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Reflexão sobre o Miticismo em Manuel Laranjeira, ou o autodiagnóstico de um médico doente

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de santidade (de Anthero Monteiro) Miguel Miranda

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Poesia Maria Fernanda Calheiros Lobo

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Apresentação de Misticismo em Manuel Laranjeira Anthero Monteiro

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Da Lavandeira à Azenha - Exemplar Mulher Feirense ou o arrojo do amor de Mãe David Simões Rodrigues

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Subsídios para um Dicionário Biográfico de Personalidades Feirenses Francisco Azevedo Brandão

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Poesia João Pedro Messéder

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Estalagens e Tendas Pe. Manuel Leão

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Poesia Judite Lopes

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Construção da actual Igreja de Escapães. Processo e Intervenientes. Pe. Alves de Pinho

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O Sr. Zé Talaia Serafim Guimarães

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Poesia Manuela Correia

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Sobre o Hidrónimo “Febros” Pe. Domingos A. Moreira

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Para a cura da Solidão: Terapia Ocupacional Maria Conceição Vilhena

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São Petersburgo Jorge Pais de Amaral

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Orações da noite (individuais) Pe. Domingos A. Moreira

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O Vidro (4) Jorge António Marques

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Resquícios de um Natal Judite Lopes

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A Propósito de Jeanne D’Arc Joaquim Máximo

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Laranjeira e Anthero, connosco hoje Celestino Portela

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O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira de Anthero Monteiro Orlando Silva

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Na apresentação do livro O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira Anthero Monteiro

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Poesia Ilda Maria

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Postais do Concelho da Feira

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Índice Alfabético de Autores

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ANTHERO MONTEIRO

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AO POETA AMIGO Edgar Carneiro*. De Laranjeira herdou o testemunho dum laico misticismo sem medida, ficando a meditar com Unamuno no sentimento trágico da vida. Na docência e na escrita tem seu posto de permanente e densa actividade e a tertúlias diversas leva o gosto de partilhar cultura e amizade. Com Minerva ganhou sabedoria e de Orfeu recebeu aquele talante de cantar as delícias da poesia. Eis de Anthero Monteiro algumas pistas que, sem jactância vã ou ar distante, é vulto singular e dá nas vistas.

* Nasceu em Chaves em 1913. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra. Foi professor dos ensinos técnico-profissional e secundário. De 1967 a 1974, dirigiu a Escola D. Pedro V, a primeira a funcionar em Fiães, neste concelho. Reside há 38 anos em Espinho, foi distinguido pela Câmara local com a Medalha de Mérito. Tem 11 livros de poesia publicados, o último dos quais saiu a lume em 2003 e tem por título «Depois de Amanhã».


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ENCONTROS Anthero Monteiro* era sempre ali no ângulo da rua que te encontrava: moravas por ali

acho agora que te conheço profundamente que somos irmãos e por isso dou conta de estar a tutear-te um dia destes teremos novo encontro e abriremos com olás a nossa interminável conversa

trocávamos rápidos mas firmes cumprimentos púnhamos cautelosos sorrisos na voz para repetir sempre as mesmas perguntas inócuas as mesmas respostas de circunstância mal ousávamos conhecer-nos para além daquela esquina e da usura das palavras por isso tratávamo-nos por você encontrei-te hoje na folha necrológica e soube que não será fácil voltar a ver-te naquela esquina ou noutra qualquer dobraste para sempre a da vida da tua vida só adivinhada * Escritor e poeta natural de S. Paio de Oleiros. Acaba de publicar mais um trabalho: O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira (Roma Editora), um ensaio sobre o genial escritor nascido na Vergada.


Miguel Miranda e Luís Abreu.

NA APRESENTAÇÃO de Misticismo em Manuel Laranjeira, de Anthero Monteiro. Luís Machado Abreu* Estamos aqui para festejar o lançamento de um novo livro e de um livro novo. Esta circunstância convida-nos naturalmente a um exercício de fulanização, porque somos convidados a celebrar o feito do autor que teve engenho para pensar e escrever e dispôs de peso simbólico para mobilizar solidariedades e recursos, abrindo assim caminho à publicação do seu labor de escrita. Mas a fulanização não se cinge, neste caso, apenas ao “ethos” do autor. Diz ainda respeito ao percurso da complexa individualidade de Manuel Laranjeira que serve de tema ao livro. E ouso mesmo imaginar que ela possa chegar um pouco mais longe, envolvendo igualmente alguma fulanização do apresentador. A isso me sinto impelido, quando penso no esmero, carinho e minuciosa preparação com que o meu amigo Anthero Monteiro delineou o roteiro que me trouxe hoje até Santa Maria da Feira. É caso para perguntar se o que verdadeiramente estava em causa era vir eu apresentar o livro sobre Manuel Laranjeira ou se o autor quis tirar disso pretexto * Professor Catedratico da Universidade de Aveiro.

para me apresentar a mim a terra ilustre que lhe serviu de berço, e os numerosos amigos que com ele se entregam aos prazeres da convivialidade, e da fruição das artes e das letras. Não exageremos, porém, e deixemos campo aberto para questões objectivas, armados sempre da simpatia e amizade que nos devem merecer as pessoas, sem prejuízo, porém, da isenção e rigor com que devemos tratar as matérias. Quando, há pouco mais de um ano, li o texto de Misticismo em Manuel Laranjeira, tive uma dessas generosas experiências da vida docente – não muito frequentes, infelizmente, – ao ser gratificado com um óptimo trabalho apresentado para avaliação da disciplina chamada “A Questão da Identidade na Cultura Portuguesa”, do Mestrado em Estudos Portugueses. Verifiquei que nele o aluno estava, afinal, a lembrar e a ensinar coisas interessantíssimas ao professor. Sabemos que é próprio da condição de professor ser ele quem vai à frente, a abrir caminho aos alunos que, em sua companhia, vão de jornada pelos caminhos do saber. E se os estudantes se conformam frequentemente com ouvir e ler o que diz ou escreve o professor, alguns estudantes há também que são capazes de surpreender e até enriquecer a experiência de quem segue à frente, a orientar o grupo.

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O texto de Anthero Monteiro surpreende pela habilidade e segurança com que, partindo do fim, o suicídio de Laranjeira em 1912, conduz a investigação das razões ou motivações que podem servir de chave, não tanto para explicar, senão para permitir compreender e interpretar os passos e o impasse de uma existência em sobressalto. Organiza, desse modo, um roteiro de vida em que, à medida que se avança, novas luzes vão ficando acesas. Mas ao invés do que legitimamente esperaríamos, os ganhos em claridade, em vez de dissiparem as sombras, tornam mais denso e fundo o mistério de todos os gestos em que o gesto final se reflecte. E assim os capítulos são estações de uma via-sacra trespassada pela poesia trágica de um destino atroz. E nós, leitores, somos os neófitos que, passo a passo, o mistagogo inicia na mística e no mistério de Manuel Laranjeira. Estamos, na realidade, em presença de um exercício ensaístico animado de vigoroso alento poético, em que não há lugar para o que quer que seja de dogmático e definitivamente conclusivo. Por meio de sucessivas aproximações, invertese o sentido dos desfechos habituais em matéria de conhecimento analítico. Em vez do esclarecimento ambicionado, penetramos cada vez mais intimamente nos densos mistérios da vida e da morte. Não os explicamos, mas tornámo-nos mais conscientes da intriga e da aventura mística que lhes entretece o percurso. Para isto se alcançar, é indispensável o conhecimento praticamente exaustivo do tema e do autor em estudo, e também reflexão amadurecida e sedimentada. Estas exigências foram satisfeitas pelo convívio de já longuíssimo curso mantido pelo autor com a obra de Manuel Laranjeira. Registe-se aqui o importante e originalíssimo poema O Remédio é Naufragar Manuel Laranjeira Despedindo-se, por ele publicado em 1998. Dentro deste poema, o lugar, o tempo e a voz da confissão pungente de Laranjeira são tão liricamente verdadeiros que o poeta de 1998, que nele finge, também o sente. E para que fique mais certa a nossa tensa incerteza sobre o que podemos sentir de verdade, tem o poeta o cuidado de produzir o efeito de verosimilhança, oferecendo-nos em notas extraídas da correspondência e do Diário íntimo a respectiva prova

Mirró Pereira declama poemas na apresentação do livro de Anthero Monteiro.

real biográfica. Falei do tema e da modalidade poemática publicada em 1998. Mas a lógica de construção do ensaio Misticismo em Manuel Laranjeira obedece à mesma inspiração poética. Estamos igualmente longe tanto de um procedimento de metodologia histórica positivista como de uma qualquer tentativa de análise ou de crítica literária. Tendo presentes, como horizonte de leitura, os dados fornecidos pela história da época, pela biografia e pela obra do autor estudado, obra tomada como um todo, sem selecção prévia de géneros nem da respectiva hierarquia de valor, quis o autor darnos uma achega, fundamentada e discutida, para a compreensão da caminhada laranjeiriana relativamente breve, mas cheia de perplexidades e sobressaltos e, por isso, deveras complexa. Não houve, em boa hora, a ingenuidade de defender uma tese subordinada ao propósito de pôr termo a julgamentos contraditórios ou a soluções antagónicas. O autor entregou-se, antes, a um encadeamento sábio de aproximações cautelosas ao recinto sagrado e secreto onde se resguarda o mistério de Laranjeira. O mistério, repito, e não o problema ou o enigma. Mais tarde ou mais cedo, os problemas e os enigmas resolvem-se, mas os mistérios persistem. Por isso, andou bem o autor ao propor-nos um muito pertinente exercício de ensaísmo compreensivo e interpretativo.


Ao correr da leitura, surgem as questões, que se vão perfilando como outros tantos desafios à nossa vontade de penetrar no coração da vida para lhes devassar os escaninhos. São de três ordens, a meu ver, as mais vastas e radicais interrogações que este livro nos vai levantando. a) Qual a configuração singular da experiência mística aqui invocada, como eco daquele “misticismo sem Deus”1 registado por Mário Sacramento, já lá vai quase meio século? b) Qual o estatuto do pessimismo tão obsessiva e diversamente abordado nas suas variáveis psicológicas, sociais, filosóficas e religiosas? c) Na quota parte de estetização da vida que tanto ocupou e preocupou Laranjeira, como se foram tecendo o dionisíaco e o apolíneo, o princípio de realidade e o princípio de prazer, o solar e o nocturno? Responsável como é por introduzir, ou pelo menos por dar actualidade e pertinência temática a tais questões, estou certo que o autor deste livro não as deixará sem resposta em próximos trabalhos para os quais, desde já, lhe endereço o meu cordial incitamento. Seja como for, por mais de uma vez me vi diante de Laranjeira, como se, em certa. medida, fosse ele um outro bíblico e sofredor Job. Tendo começado por uma vida razoavelmente pacata, em breve o espreitam contrariedades e sofrimento. E se acaba com o gesto violento, que me atreveria a designar como “desesperânsia”, pedindo emprestado o neologismo ao Anthero Monteiro, fico a contemplá-lo como o Homem só, a quem não terá sido feita a mercê da coragem ou da graça para arrancar das profundezas da solidão e do tédio o outramente místico grito do “misere mei, Domine”, “tende piedade de mim, Senhor “. Encaixilharei o meu retrato de Laranjeira numa moldura de misticismo de ideal e de positivismo chão, e olharei para ele como para um exemplo do que na humanidade pode caber de grandeza e de fragilidade. Antes de terminar, seja-me permitido felicitar o editor e as entidades patrocinadoras, que, segundo

Mário Sacramento, “Manuel Laranjeira ou o Misticismo sem Deus”, in: Idem, Ensaios de Domingo. Coimbra, Coimbra Editora, 1959, pp. 147-154.

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julgo, dão neste caso um sinal muito estimável de vitalidade da sociedade civil. Como apresentador e, por isso, padrinho desta criatura intelectual de Anthero Monteiro, apresento naturalmente muitos parabéns ao autor e fico, como todos os presentes, à espera de novos trabalhos que continuem e aprofundem este. E, sem quaisquer pretensões de desvendar mais segredos do que o de um futuro que já vem a caminho, espero que, dentro de cerca de ano e meio, possamos ter nova e ainda mais substancial contribuição do nosso autor para a valorização da presença de Manuel Laranjeira na cultura portuguesa. A todos quantos me escutaram com alguma expectativa e muita paciência direi, para concluir, que o encanto e prazer que senti ao percorrer a escrita elegante e ágil de Misticismo em Manuel Laranjeira, não pode nem deve ficar só para mim. Gosto de saber que, graças a esta artística e esmerada edição, poderei partilhar e usufruir convosco deste mesmo bem cultural. Aveiro, 19 de Junho de 2004 Luís Machado de Abreu CURRICULUM VITAE de LUíS MACHADO DE ABREU Endereço institucional: Departamento de Línguas e Culturas Universidade de Aveiro 3810-193 AVEIRO Telef.: 234 370 358 • Fax: 234 370 940 Email: lmabreu @ dlc.ua.pt 1. Elementos biográficos e académicos Luís Machado de Abreu, natural de Ronfe, Guimarães, é Professor Catedrático da Universidade de Aveiro. Cursou filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e ainda nas Universidades de Lovaina e de Paris X – Nanterre.

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Possui as seguintes habilitações académicas: 1977 – Licenciatura em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a classificação final de 16 valores. 1980 – DEA de Histoire et Critique des Idéologies, Mythes et Religions pela Universidade de Paris X – Nanterre e pela École Pratique des Hautes Études – Vème Section, Paris. , 1982 – Doctorat de 3ème Cycle em Filosofia, pela Universidade de Paris X – Nanterre e pela École Pratique des Hautes Études – O”-’e Section, Paris, com a classificação de Três Bien. 1991 – Doutoramento em Filosofia, na especialidade de História da Filosofia e da Cultura Portuguesa, pela Universidade de Aveiro, com a classificação de Distinção e Louvor por unanimidade. 1998 – Agregação, na especialidade de Cultura Portuguesa. 2. Actividades de Ensino e Investigação Como docente da Universidade de Aveiro, tem leccionado as cadeiras seguintes: a) às licenciaturas em ensino de línguas, Introdução às Ciências Humanas; Cultura Portuguesa I, II e III; Seminário de Cultura Portuguesa; b) ao Mestrado em Estudos Portugueses, A questão da identidade na cultura portuguesa e Paradigmas de crítica do discurso (módulo de cultura); ao Mestrado em Estudos Clássicos, Temas de cultura clássica na cultura moderna; e ao Mestrado em Gestão e Desenvolvimento em Turismo, Cultura e Civilizações. Coordenou o Mestrado em Estudos Portugueses entre 1996 e 2000 e entre 2002 e 2004. Foi coordenador científico do Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, durante os anos de 2000 / 2002. Como investigador do mesmo Centro, tem desempenhado funções de coordenador do grupo de investigação em Cultura Portuguesa. Coordena igualmente uma linha de investigação que estuda o anticlericalismo em Portugal. É ainda colaborador do Centro de Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira, da Universidade Católica

Portuguesa, Lisboa, na qualidade de coordenador científico do projecto Sena Freitas. Orientou ou co-orientou várias teses de doutoramento e dissertações de mestrado nas áreas de Filosofia da Cultura e de Cultura Portuguesa. Tem participado em numerosos congressos e colóquios nacionais e internacionais. 7. Publicações científicas mais relevantes a) Livros - Philosophie et Sociologie de la Connaissance – Rapports du rationnel et de l’idéologique. Paris: Université de Paris X – Nanterre, 1982. (Tese de doutoramento de 3.ème Cycle). – Spinoza – A utopia da razão. Lisboa Vega Universidade, 1993. – Coordenação de Diagonais das Letras Portuguesas Contemporâneas. Aveiro, Fundação João Jacinto de Magalhães, 1996. – Percursos do Oitocentismo Português. Aveiro, Universidade de Aveiro, 1998. -Coordenação de Sob o olhar de Spinoza. Actas do Seminário Luso-Hispânico sobre Spinoza, 13 e 14 de Novembro de 1998. Aveiro, Universidade de Aveiro, 1999. – Coordenação de O Discurso em Análise. Actas do 7.° Encontro de Estudos portugueses. Aveiro, Associação Labor de Estudos Portugueses, 2001. - Coordenação de O Anticlericalismo Português: História e Discurso. Actas do Colóquio realizado em 8 e 9 de Novembro de 2001. Aveiro, Centro de Línguas e Culturas / Departamento de Línguas e Culturas, 2002. - Coordenação de Variações sobre Tema Anticlerical. Aveiro, Centro de Línguas e Culturas, 2004. - Co-autoria de Dois Exercícios de Ironia. Lisboa, Ed. Prefácio, 2004. b) Artigos, Partes de Livro, etc. - “Uma apologia de Spinoza – O prefácio às Obras Póstumas “, Revista da Universidade de Aveiro /Letras, 2 (1985), p. 293 – 265. - “O espinosismo de António Sérgio”, in: Filosofia. História. Conhecimento. Homenagem a Vasco de Magalhães Vilhena. Lisboa, Ed. Caminho, 1990, p.123 – 144. - “A redenção pelo pecado na Pátria de Guerra


Junqueiro”, In: I Colóquio Internacional Judaico Português – The Portuguese Jewish Heritage. Lisboa, Associação Portuguesa de Estudos Judaicos, 1996, p. 229-237. - “Os afectos e a argumentação. A propósito do Tratado dos Afectos de Pedro José da Fonseca”, In: Actas do II’ Colóquio Clássico. Aveiro, Universidade de Aveiro, 1977, p. 285 – 296. - “Moldura para o retrato de Vieira”, Revista da Universidade de Aveiro /Letras, n.° 14, 1997, p. 9-20., - “Da ética do sábio á moral cosmopolita”, in: A Ética e o Futuro da Democracia. Lisboa, Ed. Colibri, 1998, p. 105 -111. - “As paixões racionalistas de Descartes e Spinoza”, in: Descartes – Reflexão sobre a Modernidade. Actas do Colóquio Internacional (Porto, 18-20 de Novembro, 1996). Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p. 49 -62. - “Santo António nos caminhos da Europa”, in: Cadernos Universidade Hoje Momentos – 6. Aveiro, Universidade de Aveiro, 1998, p. 5 – 10. - “A hermenêutica da cultura em Vitorino Nemésio”. In: Actas do Congresso Internacional de Estudos Nemesianos, Universidade dos Açores, 18 a 21 de Fevereiro de 1998. Lisboa, Ed. Cosmos, 1998, p. 521 – 533. - “O Discurso do Anticlericalismo Português (18501926)”, Revista da Universidade de Aveiro /Letras, 16 (1999). - “Ética e utopia em Spinoza”, in: Espinosa. Ética e Política. Actas do Encontro Hispano – Português de Filosofia. Santiago de Compostela, Universidade de Compostela, 1999, p. 51 – 64. - “As três viagens da Utopia”, In: Alberto F. Araújo, Justina Magalhães (Org.), História, Educação e Imaginário. Braga: Instituto de Educação e Psicologia – Universidade do Minho, 1999, p.61-68. - “Dois exercícios de ironia”, Brotéria, Lisboa, Janeiro de 2002, p.23-36. - “Lacordaire e a apologia das ordens e congregações religiosas”, Brotéria, Lisboa, Janeiro de 2004, p. 29-45

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A LÍNGUA Edgar Carneiro* A língua sabe dirigir a fala, a língua sabe modular o canto. A língua sabe dobrar a língua quando pede amor e deixa molhada a secura ardente duns lábios enxutos. A língua solta a palavra aos ventos; e rola, enrola mais ávida e quente no jeito felino de lidar os frutos.

* Nasceu em Chaves em 1913. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra. Foi professor dos ensinos técnico-profissional e secundário. De 1967 a 1974, dirigiu a Escola D. Pedro V, a primeira a funcionar em Fiães, neste concelho. Reside há 38 anos em Espinho, foi distinguido pela Câmara local com a Medalha de Mérito. Tem 11 livros de poesia publicados, o último dos quais saiu a lume em 2003 e tem por título «Depois de Amanhã».


A mesa na Secção Solene de apresentação do livro de Anthero Monteiro na Biblioteca Municipal: - Anthero Monteiro, José Leão - Governador Civil, Alfredo Henriques - Presidente da Câmara, Luis Machado de Abreu - Orientador do trabalho, Miguel Miranta - Apresentador do Livro e Fernando Sampaio Maia - Presidente da Fundação Sá Couto e Director Adjunto da “Villa da Feira”.

Reflexão sobre O Misticismo em Manuel Laranjeira, ou o autodiagnóstico de um médico doente de santidade (de Anthero Monteiro)

pensamento existencialista, ou místico no seu género ateu, ou apenas como incidente terminal de um humor depressivo exacerbado, serve de ponto de partida para a análise do seu pensamento, ou da falta dele.

Miguel Miranda* *** Sentados à mesma mesa, Kierkegard, Nietzsche, Heidegger, Sartre e Camus, desfolharam o opúsculo denominado Misticismo em Manuel Laranjeira ou o Autodiagnóstico de um médico doente de Santidade de um tal Anthero Monteiro. – Mais um apossado dessa peste. – O misticismo ateu espreita até os mais capazes. – É verdade. – Está a tornar-se recorrente. – Que podemos fazer? – Muito pouco. Mesmo nada. – Ainda acabamos contaminados. A risada geral afogou o vozear existencialista. Onde quer que eles estejam, os filósofos ora convocados para esta alocução diriam qualquer coisa parecido com isto, ou da mesma substância, quando confrontados com os 34 anos de vida de Manuel Laranjeira. O suicídio deste, como corolário, apogeu ou ocaso de um * Médico. Escritor.

Ao reflectirmos sobre o Misticismo em Manuel Laranjeira, ou o auto-diagnóstico de um médico doente de santidade – este ensaio levado a cabo por Antero Monteiro, onde se procura dissecar a controvertido pensamento de Laranjeira, surgiram-me duas linhas de reflexão: em primeiro lugar, a influência da profissão médica no seu percurso literário; e em segundo lugar, a importância do suicídio na sua criação literária e no seu pensamento, ou a importância do seu pensamento e da escrita no seu suicídio. Manuel Laranjeira, o médico e escritor. Há um aforismo no senso comum que costuma preencher manchetes literárias: existe uma classe de médicos escritores levitando sobre a mediania dos artífices da palavra. Médicos escritores, escritores médicos, não se sabe bem se a ordem dos factores é arbitrária ou condicionada, têm supostamente direito a um altar lateral no templo dos ídolos literários, uma

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condição flogística guindando-os à estratosfera da fama no imaginário popular e agnóstico. No areópago da literatura, os médicos escritores ou escritores médicos sobrenadariam em qualidade e em quantidade, tendo direito a capítulo próprio nos escaninhos da fama. Nada de mais falacioso, postiço. A realidade é bem mais opaca, supina. Se é verdade que, emergindo do passado, é possível recordar uma mão cheia de bons escritores acumulando a arte oficinal da escrita e a condição de médicos, o presente ou até o passado recente não é fértil em exemplos abonando esta tese. Esta seria uma boa questão, uma excelente proposta de trabalho para qualquer doutorando imberbe. Não sou crítico literário nem investigador, nem pretendo arvorar-me em tais condições. Acontece que, por ironia do destino, se cumprem em mim as duas funções objecto de análise nesta reflexão: sendo médico, sou também escritor, dividindo os afectos por estes dois estados de alma, em partes imprecisas, volúveis. Despojado do cutelo da crítica e do escafandro do literato, ao aventurar-me nestas considerações pratico uma espécie de nudismo mental, um atentado ao pudor configurado quase crime à luz da legis artis literária. Tudo isto com a tranquilidade dos ignorantes, incautos ou néscios. Uma desfaçatez talvez sem perdão, mas irresistível porque sentida. Mandaria qualquer mínima regra de bom senso, qualquer livro de etiqueta e boas maneiras da arte de bem cavalgar qualquer colóquio em toda a sela, que me limitasse a tecer loas e encómios à sudativa conjugação das duas artes. À aura especial que qualquer escritor dispõe, sendo médico. Àquela espécie de toque literário de Midas que permite a um médico, quando acometido de um processo mental de trabalho de parto literário, produzir obras-primas em gema, só ao alcance dos eleitos. Que eu me remetesse ao processo exaustivo de citação de exemplos, da evocação dos mortos, contados por invisível ábaco ou por digitália intensa. Sim, senhores, mandaria a mínima regra do bom senso que me munisse de Torga, Namora, Júlio Dinis, evocasse a fugaz passagem de Camilo pela Escola Médica do Porto, me compungisse com o suicídio de Manuel Laranjeira e o seu sombrio-pessimismo, brandisse António Lobo Antunes como um estandarte. Assim ajaezada a faena,

sairia de cena com pundonor, que é como quem diz em linguagem tauromáquica, de peito feito, encandeado com o meu próprio brilho oratório. Mas não consigo conviver com inverdades. A realidade, essa é muito mais baça e lodosa. Como corolário do axioma sobre a supremacia qualitativa e quantitativa dos escritores médicos ou médicos escritores sobre os simplesmente escritores, é também assumido pelo senso comum que ser médico é uma vantagem para um escritor, uma garantia antecipada de qualidade e sucesso. Nada de mais errado. Procurarei, ao longo desta exposição, explicar que, bem pelo contrário, ser médico é uma grande desvantagem para um escritor. Se há no passado um punhado de bons escritores, de excelentes e geniais escritores sobressaindo da mediania, que associados a essa excelência tinham em comum o facto de serem médicos, essa realidade foi rareando nos nossos dias. A verdade nua e crua é que hoje em dia há muito poucos bons escritores que são médicos. Em vez de ceder ao impulso fácil de falar sobre o sucesso de alguns, tentaremos esclarecer as causas da sua falta em muitos. O exercício da medicina foi muitas vezes considerado uma arte, mais que uma ciência. O médico dedica a sua energia e labor ao estudo e tratamento da pessoa humana, o outro eu sofredor que o procura para encontrar o bem mais precioso da humanidade: a saúde. Armado do seu arsenal tecnológico, ou apenas com a finura do tacto, o gume do olhar, a capacidade de ouvir, inteligir, o médico move-se entre sofrimentos vários, realizando técnicas e actos, analisando sinais, sintomas, elementos complementares de diagnóstico, exames mais ou menos invasivos, tratando o órgão, o aparelho, o sistema, sem perder de vista a pessoa. A dimensão humana da medicina transcende o mero acto de curar a doença, encontrando um diagnóstico e prescrevendo a terapêutica tecnicamente adequada. Envolve a compreensão do indivíduo enquanto ser complexo inserido numa sociedade e num universo, a percepção do todo e não apenas da parte. Talvez por obrigação do oficio, os médicos têm ou adquirem uma sensibilidade muito especial. Talvez por esse motivo seja possível encontrar muitos artistas que também são


médicos, ou muitos médicos que se dedicam às artes. Desde a pintura, à escultura, passando pela música, a fotografia, o teatro. Pela literatura também. Será que os médicos têm uma queda especial para a literatura? Será que um escritor, sendo médico, tem à partida uma garantia, ou pelo menos meia, de sucesso? Será que, pelo menos, o escritor, quando médico, tem à partida alguma vantagem (em termos de qualidade intrínseca, em reconhecimento público, sucesso de vendas, notoriedade na crítica ou meios académicos)? A resposta a todas estas questões é só uma: Não, o estatuto de médico não concede vantagem ou garantias de sucesso como escritor. Pelo contrário, há uma desvantagem insidiosa na junção destas duas qualidades, como passaremos a tentar dissecar. Vejamos, então, quais os aspectos negativos que a condição de médico transmitem ao escritor. Em primeiro lugar, há uma tendência insana para a rotulagem tipo selo de qualidade. Proliferam os textos, artigos, ensaios, compêndios, sobre escritores médicos / médicos escritores, encontrando no tracejado do fio condutor que os une – o exercício da medicina – uma espécie de bengala de cego capaz de tactear a vereda do sucesso sem tibiezas. Não se fala de engenheiros escritores, veterinários escritores, advogados escritores, fala-se apenas e só de médicos escritores por puro endeusamento da profissão médica. Afinal, são eles, os médicos, que lidam com a fronteira entre a vida e a morte, entre a saúde e a doença, entre a sanidade mental e a loucura. Não viverá a literatura também destas fronteiras? Talvez, mas esse facto não aduzirá qualquer garantia de qualidade literária aos médicos que enveredem pela escrita. Em segundo lugar, há outra tendência: seguir a receita da escrita por retalhos da vida clínica. Esta tendência alimenta-se de duas fontes: tentando seguir na esteira do sucesso de Namora, assentando na ideia oca que o que tem sucesso uma vez, o terá sempre, sem desgaste ou esmorecimento, tipo moto continuo ou parafuso sem-fim. Nada de mais errado, pois este tecido literário já se encontra demasiado puído, a sensação de

dejá vu é ensurdecedora. A persistência neste caminho gasto é empobrecedora, de três ângulos de análise: como relato textual de factos e pessoas, não abonará muito em favor da agilidade efabuladora do escritor; se se tratar de histórias de fantasia num contexto com alto grau de verosimilhança, limitam o universo da escrita aos muros da sua arte oficinal, o que se torna redutor e limitado, consistindo num ainda autobiografismo. A segunda fonte é a tendência voyeurista dos leitores. Neste caso, o público mais chegado, doentes e conviventes, não resiste à coscuvilheira tentação de encontrar no entre ligar páginas a vida da vizinha, da prima, do amante, deste ou daquele que se conhece ou julga identificar. No entanto, esta atracção pelo horror é uma epidemia que só atinge um raio curto de acção, embora possa ter um efeito ilusório de sucesso, como veremos mais adiante. Em terceiro lugar, a falsa ideia do alto apreço dos leitores pelo trabalho do escritor, quando médico. A maioria dos escritores vive em casulos, tecendo a seda da escrita. Tem acesso directo ao retorno de opinião, sempre bajuladora, do punhado de amigos que o rodeia. O pobre médico está rodeado por hordas de aduladores, os doentes que acreditam piamente na sobrenatureza das suas qualidades. Em Portugal, ser médico é ser semi-deus, no conceito popular. Ao médico se perdoam fraquezas, se vêm forças e qualidades onde podem não existir. Este carinho exacerbado pelos médicos imbrica na tentação de comprar uma espécie de seguro de vida, presenteando o médico pelo que fez, pelo que não fez, ou pelo que pode ainda vir a fazer, em favor da vida do presenteante. Estes actos de fé, tentando garantir não o céu mas a saúde tipo elixir da longa vida, fazendo parte da natureza humana, contribuem para um olhar presbíope do escritor, quando médico, sobre o seu próprio sucesso. Aquelas dezenas, às vezes centenas, de pessoas que vêm até ele louvando até à medula o último livro do pobre e iludido escritor, não são embusteiros de palavra mansa e oca, é gente que tem fé, acredita mesmo que leu obra de boa cepa. Acontece apenas que não se trata de olhares isentos, desapaixonados, nem na maioria das vezes de leitores com algum critério. Tentando levar até ao médico um retorno de sucesso em que realmente acreditam mas

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que pode não corresponder a mais do que um enfoque demasiadamente engajado, parcial, mais não fazem que contribuir para alicerçar nele a ideia (muitas vezes errónea, exagerada) de que está imbuído de raras qualidades literárias, que os textos são da mais fina água. Esta epidérmica sensação de sucesso garantido é algo de muito pernicioso para o crescimento do sentido de autocrítica do escritor, enquanto desgraçadamente médico. Em quarto lugar, a falsa ideia do sucesso comercial. As sessões de apresentação de obras de qualquer escritor médico ou médico escritor são invariavelmente muito concorridas. Os primeiros exemplares voam na voragem dos admiradores da primeira hora, que enfileiram para caçar um autógrafo, esperando pacientemente pelo naco de glória contido no acto autografaste em si mesmo, e do abraço efusivo ou aperto de mão contido do escritor. Cumprindo a longa função autografante, o médico escritor ou escritor médico encandeia-se com o próprio sucesso, criando justificadas expectativas na explosão das vendas no circuito comercial do livro. Mal preparado para a realidade, deprime e entra em ansiedade crónica com o lento escoamento dos livros nas livrarias, congeminando teorias conspirativas para tentar explicar a falta de continuidade do aparente sucesso inicial. Em quinto lugar, a insatisfação com a crítica ou a sua ausência. Convencido do sucesso garantido, o escritor médico ou o médico escritor, conviverá de forma conturbada com a ausência de recensões críticas ou o seu desfavor. Esta insatisfação é doença que mina todos os escritores, mas é exacerbada quando de médico se trate. Este sentimento não contribui para a clareza do auto juízo. Possuído por um ego desproporcionado, sofre com este alheamento da crítica ou o seu julgamento negativo, transmitindo por vezes este azedume nos entremeados da prosa. Em sexto lugar, a questão da limitação física do tempo de trabalho de escrita. A profissão médica é laboriosa e exigente, obrigando a longas horas de trabalho efectivo, outras de estudo e preparação, ainda outras de investigação ou de elaboração de trabalhos, currículos para exames. O avanço da ciência médica obriga a um

esforço contínuo de actualização, que consome também muito tempo. Ora acontece que a escrita é também muito laboriosa, consumindo igualmente muito tempo de dedicação contínua. É um esforço quase sobre-humano manter intensa actividade literária em plena actividade clínica. Por isso mesmo, são muito poucos actualmente os escritores com sucesso que são médicos no activo. Verifica-se que quando o escritor que também é médico, atinge o sucesso na literatura, invariavelmente deixa a clínica, possivelmente por manifesta incapacidade de compatibilização de cargas de trabalho. Há maior tendência para a poesia que para a prosa entre médicos, talvez por uma questão de tempo. A poesia é uma arte mais ociosa (que me perdoem os poetas) consome menos tempo de trabalho efectivo. A prosa e sobretudo o romance não se compadece com pequenos lapsos de tempo, necessitam de trabalho continuado e regular durante às vezes um ano, por vezes mais. Em termos de tempo disponível para a escrita, possuir em simultâneo a profissão de médico é saber que se vai ter muitas dificuldades em produzir. Por todas estas razões, deve ser considerada uma grande desvantagem para um escritor possuir em simultâneo a profissão de médico. Se é certo que há bons exemplos no passado de grandes escritores que eram médicos, estes vão rareando na actualidade, pelas dificuldades e desvantagens que esta duplicidade provoca. Os escritores, quando são mesmo de qualidade, não precisam de avocar em seu favor o facto de serem médicos – Lobo Antunes é o exemplo perfeito do que aqui se afirma. Esta duplicidade só traz engulhos, vicissitudes, equívocos. Aqueles que assim não pensam ou agem não se aperceberam ainda da morte clínica da sua escrita. Manuel Laranjeira não foi um grande clínico. A sua curta vida e a pouca saúde não lhe permitiriam uma prática médica muito intensa. Pouca ou nenhuma actividade clínica se lhe conhece, pois enveredou mais pela política e pela vida boémia. A sua tese A doença da Santidade é um incipiente trabalho de fim de licenciatura, no qual ele é afinal o melhor exemplo do delírio persecutório-megalómano de certos místicos a quem ele aponta o dedo. “Um homem sem coragem para sair de dentro de si próprio” (D.I. pág. 195)


Roberto Leão durante a sua intervenção artística.

encontra um dia a força ou o desespero para terminar o corpo que não lhe acompanha o espírito febril. Finou-se o único lúcido no meio da podridão que julga rodeá-lo. Do suicídio como forma literária de libertação mística, se falará agora um pouco. No fim do século XIX e no início do século XX, verificou-se a ocorrência de suicídio entre artistas, nomeadamente escritores, um pouco por todo o mundo e também em Portugal. Sem pretender ser exaustivo, cito: Soares dos Reis, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Trindade Coelho, Manuel Laranjeira, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Walter Benjamim, Miguel Rovisco; Ernest Hemingway, Virgínia Woolf, Primo Levi, Hart Crane, Cesare Pavese, Sylvia Plath, Anne Sexton, Hlaus Mann, Tchaikovsky. Por esta ou por aquela razão, ou pela ausência destas, personalidades de relevo e mérito intelectual

conseguido e reconhecido, escolheram pôr termo à vida, alguns na mais plena pujança da sua actividade criadora. A constatação deste facto é chocante e faznos procurar uma explicação para ele, embora todas as teses que se possam desenvolver sobre este assunto sejam sempre especulativas. A actividade criativa, em todas as artes e sobretudo na literatura, está dependente do desenvolvimento da capacidade de efabulação. Esta tem muito em comum com a actividade delirante dos psicóticos. 0 que destrinça uma da outra é que o doente em delírio não sabe distinguir o delírio da realidade, nem provoca intencionalmente os delírios. O escritor cria os seus delírios e normalmente sabe distinguir a ficção da realidade (embora esta fronteira seja muitas vezes ténue). Serão então os escritores apenas psicopatas borderline, sujeitos a despenharemse a qualquer momento no abismo da loucura? É uma hipótese que não pode ser descartada totalmente. Pelo menos, os escritores e outros criadores são indivíduos de sensibilidade exacerbada, sujeitos a humores variáveis, a picos de euforia e estados depressivos frequentes. Em gíria médica, poderiam ser apodados de ciclotímicos, embora alguns como Manuel Laranjeira, pareçam navegar apenas na fase depressiva do ciclo do humor. A hipertrofia do ego é outra das frequentes doenças do escritor ou do criador. Capaz de projectar o pensamento para além dos limites do padrão da mediania dos mortais, o escritor é apanhado em frequentes conflitos: a dificil convivência com a falta de reconhecimento; o contraste entre o mundo irreal que ele cria, onde tem acesso a tudo, e o mundo real, onde por vezes acede a pouco, no aspecto material ou afectivo; o desfasamento entre o excesso de vitalidade intelectual e a falta de viço corporal, ou o excesso de doença ou sofrimento físico – Laranjeira não foi o único a sofrer de tísica, sífilis e outras moléstias. A actividade de escritor é ainda essencialmente solitária e intimista, cultivando o isolamento do escritor, de certa forma até narcísica (embora uns muito mais que outros, os escritores terão todos uma faceta narcisista). Estes factos associados à tendência para o humor depressivo criam condições para a ocorrência de um número inusitado de suicídios entre escritores.

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Passar da constatação do suicídio de escritores à enumeração de alguns aspectos característicos de personalidade que poderão servir de explicação, é fácil. Mais arriscado é postular como génese do acto suicidante, a existência de uma tendência ou personalidade mística. A não ser que ouçamos Unamuno, sobre Manuel Laranjeira: “Matou-o a vida. E ao matar-se, deu vida à morte.” Ouçamos também Vinícius de Morais sobre o suicídio de Hart Crane, no poema:

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“O Poeta Hart Crane suicida-se no mar” Quando mergulhaste na água Não sentiste como é fria Como é fria assim a noite Como é fria, como é fria? E ao teu medo que por certo Te acordou da nostalgia (Essa incrível nostalgia Dos que vivem no deserto) Que te disse a poesia? Ouçamos também Florbela espanca, em poema premonitório, antecedendo-lhe o suicídio. Deixai entrar a morte A que vem para mim, para me levar Abri todas as portas par em par Com asas a bater em revoada Eminentemente poético, o suicídio é tema recorrente de reflexão e criação literária. Não é de espantar que, vistas todas as considerações anteriores, acabe por acontecer. A diferença entre o místico e o depressivo puro, quando em pleno acto de suicídio, será que o primeiro julga e espera perdurar, saindo da casca do corpo, pois acredita estar imbuído de propriedades espirituais que não se compadecem com o jugo do universo material (os místicos religiosos vão para o céu, os ateus vão para toda a parte, ou para nenhures). O depressivo profundo

atinge o suicídio como forma de analgesia, não espera nada para além do apagão, pretende apenas acabar com tudo (tudo é o imenso fardo em que se lhe transformou a vida). Certamente influenciado por Antero (de Quental e não Monteiro), pelo seu pensamento, percurso e obra, e pela forma abrupta como escolhe decepar a vida, Manuel Laranjeira escolhe partir dessa mesma forma: suicidando-se pelo mesmo exacto processo, com um tiro de pistola no crânio. Estaria o êxtase místico no seu pensamento nesse instante ou nos que o antecederam? No seu ensaio “A doença de Santidade” ele considerava o êxtase místico: “um fruto saboroso que é preciso conquistar à custa de uma tenacidade heróica, inquebrantável inflexível cheia de flagícios, de tormentos, de sofrimentos requintados” Na Galileia, um carpinteiro obscuro foi erigido em padrasto de Deus. Na Vergada, um rapaz destinado a carpinteiro foi erigido em místico, pelo facto de ter cometido suicídio. Não tendo uma coisa a ver com a outra, poderemos falar de misticismo religioso em relação ao caso da Galileia, enquanto que se tratará de misticismo ateu, no caso vergadense. Isto a fazer fé em Anthero (neste caso Monteiro, não de Quental). Acometido de êxtase místico, de síndrome depressivo puro, ou um misto das duas coisas, Manuel Laranjeira foi homem de trajectória curta no universo literário e no mundo dos vivos. Passou como um cometa, deixando riscado o seu percurso por um rasto de poeira cinzenta, tediosa, melancólica. *** Na mesma mesa, estão agora sentados Kierkegard, Nietzche, Heidegger, Sartre, Camus e Manuel Laranjeira. Este, acabado de chegar, anuncia:


– Quem tem toda a razão, é Anthero. – De Quental? – Não. Monteiro. Anthero Monteiro. – Quem é esse? – Um ensaísta. Também poeta. Lá dos meus lados. Entre Feira e Espinho. – E que diz o homem? – No fundo que o existencialismo é uma espécie de religião. A gargalhada foi geral. – Vê-se que é um poeta. Laranjeira, contagiado, sorri também, incidente raro nele. – Seja poesia. Embora amputados de crença em divindades, não deixamos de estar acometidos de uma santidade laica. Como se fosse uma doença. – Sim, embora poeta, o homem é capaz de ter razão. Pudessem os existencialistas ser convocados em abono de Anthero (Monteiro, e não de Quental, obviamente), e eles o fariam mais ou menos nestes termos. O Misticismo em Manuel Laranjeira ou o autodiagnóstico de um médico doente de santidade – o ensaio de Antero Monteiro, abre-nos uma proposta de reflexão sobre a idiossincrasia do pensamento de Manuel Laranjeira. Existencialista, místico, narcísico, apenas depressivo, ou talvez de tudo um pouco, Manuel Laranjeira, sem atingir o brilhantismo na medicina ou na escrita, é uma personagem enigmática, misteriosa, concitando a atenção e a curiosidade do ensaísta e de quantos pretendem conhecer as anfractuosidades do seu pensamento e da sua obra. Eis agora postulada, pela mão de Anthero Monteiro, uma vertente mística em Manuel Laranjeira, tese assaz estribada para merecer a reflexão atenta de todos.

Nota biobibliográfica Miguel Miranda nasceu no Porto em 1956. Licenciou-se em Medicina em 1979, especializando-se em Medicina Familiar. Exerceu até recentemente as funções de Director do Centro de Saúde Soares dos Reis em V. N. de Gaia. É membro da Associação Portuguesa de Escritores, presidente da Associação de Escritores de Gaia, membro da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e do Pen Clube Português. Em 2002 recebeu a medalha de ouro de mérito cultural e científico do município de V. N. de Gaia. Está representado no Dicionário de Personalidades Portuenses do Século XX, editado pela Porto 2001- Capital Europeia da Cultura. Contista e romancista, foi várias vezes galardoado como escritor, como aconteceu com a publicação dos seus Contos à Moda do Porto, Grande Prémio do Conto da Associação Portuguesa de Escritores em 1996, ou com a publicação do romance O Estranho Caso do Cadáver Sorridente, Prémio Caminho de Literatura Policial em 1997 ou ainda com o romance A Maldição do Louva-a -Deus, Prémio Fialho de Almeida 2001 da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos. Publicou outros romances, entre os quais: O Complexo de Sotavento, 1992, Bailado de Sombras, 1997, Livrai-nos do Mal, 1999 e o policial Dois Urubus Pregados no Céu, 2002. Entre os Contos, acrescente-se ainda: A Mulher Que Usava o Gato Enrolado ao Pescoço; 2000, Como se Fosse o Último, 2004, para além do infantil A Princesa Voadora, 2003. Alguém escreveu que Miguel Miranda... “surpreende pela escrita alada, a ironia e o sarcasmo, contrastando com a dimensão humana das personagens.“

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MATISSE Maria Fernanda Calheiros Lobo* Sou poeira De uma estrela Poeira de uma paixão Passou o vento, abracei-te Protegi-te Amarrei-te Bem dentro do coração Eu gosto da água Transparente, ou turva Quando serena, Assenta a poeira Um pouco como a vida. Se não é florida O sorriso neutraliza-a Fica a calma à nossa beira.

* Universidade Sénior - Douro


Apresentação de MISTICISMO EM MANUEL LARANJEIRA Anthero Monteiro* • Ex. mo Senhor Presidente da Câmara Municipal, • Ex.mo Senhor Governador Civil, • Ex. mo Senhor Director Geral da Fundação Joaquim de Sá Couto, Senhor Doutor Fernando Sampaio, Maia, (representando também nesta mesa a Liga dos Amigos da Feira) • Ex. mo Senhor Professor Doutor Luís Machado de Abreu, • Ex. mo Senhor Doutor Miguel Miranda, • Ex. mos Senhores Membros do Executivo LAF e restantes associados da Liga, • Ex. mos senhores autarcas presentes, • Caros colegas, amigos, conterrâneos, • Minhas senhoras e meus senhores: Um livro, por mais modesto que seja como este, envolve muito mais do que escrevê-lo: é preciso contabilizar o antes, o durante e o depois. Envolve também muito mais gente do que o autor que se arroga o direito de o assinar. A prova disso é a presença de todos quantos hoje quiseram aqui partilhar esta

realização colectiva. As minhas primeiras palavras são para reconhecer que esta mão que assinou este opúsculo tem, afinal, muito mais dedos do que se pode imaginar. Começo por esta Mesa, presidida pelo Senhor Presidente da Câmara, Senhor Alfredo Henriques, que, sempre atento também à iniciativa cultural, se dignou dar apoio bem concreto a esta publicação: sinto-me profundamente reconhecido e honrado também pela sua presença. Ao Senhor Governador Civil, Senhor José Manuel Leão, um ilustre feirense que conheci sempre apostado na dinamização cultural deste concelho, também agora do nosso distrito, agradeço-lhe a honra que nos dá com a sua presença e o seu manifesto apoio a esta publicação. Ao Dr. Fernando Sampaio Maia, Director-Geral da Fundação Joaquim de Sá Couto, que é um exemplo de magnanimidade na linha dos seus maiores, como foi o oleirense que dá o nome a essa instituição, eu quero agradecer também a presença, o patrocínio concedido a esta edição e a amizade com que me distingue. Representando nesta Mesa também a LAF, é duplo o meu reconhecimento, pelo quanto essa Liga de Amigos da Feira se revelou, ao editar este livrinho, amiga deste feirense.

* Escritor e poeta natural de S. Paio de Oleiros. Acaba de publicar mais um trabalho: O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira (Roma Editora), um ensaio sobre o genial escritor nascido na Vergada.

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Ao Professor Doutor Luís Machado de Abreu, meu distinto e prezado professor, que sacrificou um dia de descanso para descer até aqui e dar-nos uma das suas tão sábias lições (e espero tenham vislumbrado quanto elas costumam encher de gozo intelectual os seus discípulos), agradeço penhoradamente os incentivos dados antes, durante e depois do meu trabalho académico, a paciência das suas achegas e sugestões e a sapiência do brilhante prefácio com que facilita o caminho aos meus eventuais leitores. É costume dizerse que a verdadeira gratidão não tem palavras. Pior do que isso é, na ânsia de a não calar, afundarmo-nos cada vez mais em palavras tão desajeitadas, e eu sentime sempre humildemente atrás do Mestre e bebendolhe em grandes haustos as palavras fulgurantes de sabedoria. Depois da intervenção do meu Professor, tenho que sentir-me muito mais responsável pelo meu trabalho futuro. Espero, porém, poder corresponder às expectativas. Ao Doutor Miguel Miranda, que é romancista e contista cada vez mais galardoado, de quem tenho a honra de ser amigo e de quem colho sempre muito mais proveito do que ele nesta amizade, peço desculpa por mais este incómodo e curvo-me na minha profunda admiração e gratidão, cada vez mais onerado com uma dívida que nunca saberei pagar, até porque as suas intervenções em situações como esta – e não são poucas – têm-se revelado sempre “impagáveis”. Mas o meu reconhecimento é um abraço que compreende muito mais do que os membros desta Mesa. Quando falo de Manuel Laranjeira, há, pelo menos, dois nomes que emergem de imediato: por ordem cronológica de contacto, o incontornável Orlando da Silva, conterrâneo do autor de A Doença da Santidade: a ele devo, se me é lícito comprimir tanto em apenas duas linhas, o ter-me iniciado, já há vários anos, com os seus livros, o seu entusiasmo e conselho sábio, nos mistérios insondáveis do autor suicida; ao Dr. Celestino Portela, coleccionador de tudo quanto respeita a Laranjeira, devo o facto de, após ter conhecimento do meu original, ter sido ele o principal impulsionador e responsável pela publicação deste livro, com o seu permanente e revigorante acompanhamento em todos as fases da sua produção até este momento.

A todos os que, com o seu patrocínio e apoio, tornaram possível esta publicação, à Comissão de Vigilância do Castelo, à Associação Cultural Clube Feirense e às Juntas de Freguesia, em especial as de Santa Maria da Feira e de Mozelos, a minha reverente gratidão. Ao designer Mestre Joaquim Carneiro, que já nos acostumou à grande qualidade das revistas e livros da LAF, aos demais profissionais do livro, desde a composição à impressão até ao produto final, por sinal acima das expectativas, pelo menos na minha óptica, o meu franco reconhecimento. Encontrei nesta Biblioteca Municipal, que nos acolheu, as melhores condições para a realização deste evento e, da parte dos seus responsáveis, que tudo puseram à nossa disposição, só vislumbrei simpatia, aliada a um completo profissionalismo. Mais do que a minha gratidão, as minhas felicitações pelo trabalho realizado. A todos os que colaboraram nesta sessão, ao Dr. Roberto Carlos, exímio na sua condução, à comunicação social presente, aos meus amigos Mirró Pereira e Roberto Leão que a ilustraram e enriqueceram com a leitura de poemas, como só eles sabem fazer, a todos o meu abraço de gratidão. Nada disto teria qualquer graça se não tivéssemos também esta simpática moldura humana que, mesmo em dia de praia e de futebol, quis estar comigo ou uns com os outros no que seria um transe difícil, se nos víssemos aqui sozinhos: não fora a boa intenção de que venho animado, pediria a todos desculpa pelo incómodo que causei. Assim, fico apenas por este inexpressivo, mas sentido agradecimento a todos sem excepção. Quis a vida académica, em que me vejo outra vez envolvido, apenas pelo prazer da permanente aprendizagem (se um dia alguém se lembrar de caricaturar-me, não se esqueça de me colocar nas mãos um livro, que é algo que sempre me fez companhia...), proporcionar-me a oportunidade de escrever uma vez mais sobre Manuel Laranjeira. É natural que aos ouvidos atentos daqueles que se movimentam, como eu, dentro deste espaço físico diminuto em que Laranjeira passou a maior parte dos


Anthero Monteiro no momento dos agradecimentos.

seus parcos dias – um triângulo que tem por vértices o lugar da Vergada destas terras de Santa Maria da Feira, onde nasceu, Espinho, onde viveu e se dedicou à Medicina, e o Porto, onde estudou e se formou – ressoem com mais acutilância os ecos daquele estampido que acordou a pacatez da Rua Bandeira Coelho, actual Rua 19 da sede do concelho vizinho, e daquela noite de 22 de Fevereiro de 1912, o mesmo ano, como faço notar no meu opúsculo, em que, mês e meio depois, haveria de soçobrar também o Titanic. «O remédio é naufragar» – escreveu ele – e esse é já o título de uma primeira abordagem minha sobre a morte voluntária de Manuel Laranjeira, que, como todos os suicídios, é algo que sempre me intrigou por me parecer mais misterioso do que a própria morte. O primeiro caso que me fascinou, desde a juventude, foi o de Antero, o de Quental, talvez por ser meu homónimo e o meu sonetista predilecto, e afinal foi ele o modelo principal de Manuel Laranjeira, tanto no campo filosófico e ideológico, como no campo literário, sobretudo na poesia (comparem-se os sonetos de Antero e de Laranjeira e será fácil detectar as semelhanças), como ainda no âmbito de uma sensibilidade mística, em que há evidentes aproximações. Mais intrigante ainda para mim, com o seu quê de mistério (já agora, tenha-se em conta, antes

da leitura do meu texto, que “mistério” e “misticismo” são dois termos provenientes do mesmo étimo grego) será a observação, ainda que talvez abusiva e especulativa (mas não deixo, mesmo assim, de a trazer como mera curiosidade, se assim preferirem), de que o dia escolhido por Laranjeira para naufragar tenha sido aquele dia VINTE E DOIS do mês DOIS do ano DOIS da década DOIS do século DUAS dezenas, coincidências a mais, pensarão outros, para que não se interprete tal facto como mais um sinal da sua derradeira decisão. Lá diz Alberto Caeiro o que Max Nordau explica por outras palavras: «Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas. / Para ti tudo tem um sentido velado. / Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.» E o certo é que, se estivéssemos a falar de Pessoa, poderíamos recorrer a interpretações numerológicas, a que não seria avesso, e lembrar que, se o número UM remete para o Uno, para Deus, o número DOIS, até na Bíblia, significa separação, oposição: em Laranjeira, poderia representar a rebeldia, a recusa da vida, no seu caso daquela subvida, tal o lastimoso e esquelético estado a que chegara. E se a vida era, para ele, «um livro alegre que nos deixa tristes», o melhor, como confessa na última linha do seu Diário Íntimo, «o melhor é partir desiludido sem saudades!» Eu, que sou feirense e trabalhei à sombra deste castelo arqui-ancestral durante uma dúzia de anos, que fiz os meus estudos superiores na cidade do Porto e aí passo longas horas de convívio literário, que sou filho de uma espinhense, como Espinho é filho da Feira, e em Espinho leccionei durante quase um quarto de século, que inclusivamente coordeno uma tertúlia poética num espaço sensivelmente situado no mesmo local e homólogo àquele em que Laranjeira tinha também as suas tertúlias, estou certamente longe de ser uma reedição ou um avatar do autor de A Doença da Santidade. Sou, todavia, confessadamente, devido a estas e outras circunstâncias, alguém que, como acertadamente refere o distinto prefaciador deste livrinho, se deixou vencer pelo mesmo fascínio a que se viram presas outras personagens, algumas tão ilustres quanto o filósofo espanhol Miguel de Unamuno. Manuel Laranjeira é, sem dúvida, a maior

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Anthero Monteiro e a dedicatória a Manuela Correia. 28

personalidade da literatura, pelo menos entre os desaparecidos, dos concelhos de Santa Maria da Feira e de Espinho. Reconhecendo essa realidade, a Feira não esqueceu o seu nome na toponímia da cidade. Na sua Vergada, há também uma rua e uma travessa homónimas. A Câmara Municipal erigiu-lhe, em 1977, no centésimo aniversário do seu nascimento e graças ao inspirado escopro de José Aurélio, um expressivo monumento no lugar do Murado, na freguesia de Mozelos, bem digno dos ideais de beleza que animaram o autor do Diário Íntimo. Dez anos depois, ou seja 75 anos após o seu desaparecimento, inaugura-se, na terra natal do escritor, a Biblioteca Dr. Manuel Laranjeira. A XIV Exposição Filatélica Iberoamericana de 1990, realizada também nesta cidade, contempla o poeta e dramaturgo com um belo carimbo, inspirado na obra de José Aurélio, da autoria de Mestre Joaquim Carneiro, também designer deste livro, como dissemos. Orlando da Silva organiza, em 1992, uma fotobiografia de mais de cinco centenas de páginas, que intitula Manuel Laranjeira 1877-1912, Vivências e Imagens de uma Época, um verdadeiro monumento também, desta vez em papel e feito a suas expensas, que, a par do estudo Manuel Laranjeira et son Temps de Bernard Martocq, editado 7 anos antes, se tornou

uma referência obrigatória para todos os estudiosos do poeta. Em Mozelos, é criado pelo Grupo de Dinamização Cultural daquela vila o Prémio Manuel Laranjeira, que, entre outros, contemplou também Orlando da Silva. O pintor Manuel Joaquim empresta cor e arte ao mais famoso retrato de Laranjeira, tirado na Photo Central de José de Carvalho, em Espinho: esse quadro vem reproduzido na capa do livro que estamos hoje a conhecer. O Dr. Celestino Portela, um dos elementos integrantes do Executivo da LAF – Liga dos Amigos da Feira, coleccionador de tudo quanto diz respeito ao autor de Comigo, reúne no que chamou a Sala Manuel Laranjeira do seu livro Museu (2003), desta colecção Santamariana, uma série de preciosos artigos e intervenções que o evocam e historiam. Também em Espinho se repetem as manifestações de reconhecimento da grandeza do nosso polígrafo. O Liceu, hoje Escola Secundária, adoptou-o como patrono. Defronte, ergue-se um busto recente do poeta da autoria de Manuel Dias. O jornal Defesa de Espinho homenageia-o com uma placa colocada na frontaria da casa que habitou na Rua 19. A Livraria Livramar, que a tacanhez do burgo obrigou a encerrar precocemente, teve tempo, apesar de tudo, para se tornar num alfobre de admiradores de Laranjeira e um centro de tertúlias – a Onda Poética – que deu e continua a dar, noutros espaços, relevo à sua vida e à sua obra. Aí decorreram muitas sessões em sua homenagem. Aí nasceu também a Elefante Editores que criou a colecção Manuel Laranjeira, onde foram integradas obras como Manuel Laranjeira por Ele Mesmo, de Francisco Azevedo Brandão, e a Poesia Completa, organizada pelo entusiasta Orlando da Silva, que está em todas as iniciativas laranjeirianas. Aí foi lançado o meu livrinho já aqui referido, O Remédio é Naufragar – Manuel Laranjeira Despedindo-se, que, apesar de se tratar apenas de um poema, ainda que longo, me exigiu a leitura da maior parte da sua obra, uma longa pesquisa e a reescrita integral e várias vezes repetida do texto. Foi então que fiquei a conhecê-lo melhor, ainda que o seu Diário Íntimo me tenha chocado profundamente, sobretudo pela forma donjuanesca como são tratadas


as mulheres. Foi dali também que partiu a iniciativa de um grupo de amigos para se cumprir a última vontade do poeta, expressa à mãe e que ela certamente não entendeu: Mãe – é um desejo esquisito este meu: plante uma roseira sobre a minha sepultura. Depois quando me quiser falar vá lá beber o perfume das rosas: que esse perfume é a minha alma. É o poeta que fala, mas é também o naturalista e é ainda o místico de uma religião laica, que se arreda do Deus transcendente, mas crê na imanência, no carácter divino da Natureza, na comunhão de todos os seres. (Hoje mesmo fui ver as rosas da sua campa: estão viçosas, amigo Orlando, amigo Dr. Celestino! Pena que a lápide nos informe que morreu um ano e um dia mais tarde do que o que aconteceu na realidade… Temos que lá ir corrigir essa inverdade.) Se Laranjeira é evocado com alguma assiduidade nas terras de Santa Maria, parece haver alguns bons indicadores de que se trata de uma personagem da nossa literatura que, apesar de uma obra dispersa, fragmentária e inconclusa, começa a recuperar uma dimensão mais nacional que já terá tido. Convém, pelo menos, não esquecer que, para além de Unamuno, se correspondeu com outros vultos das Artes e das Letras como foram João de Barros, Teixeira de Pascoaes, João de Deus Ramos, Amadeu de Sousa Cardoso e António Carneiro, entre outros. São bons sinais denotativos do interesse actual pelo autor santamariano a publicação recente de algumas obras sobre ele, no âmbito de vários géneros: na novela, na dramaturgia e no ensaio, em teses e dissertações. Foi essa a minha boa intenção ao escrever e ao publicar este opúsculo: contribuir para um maior conhecimento daquilo que é a principal riqueza patrimonial da cultura dos concelhos a que estou ligado por laços naturais e afectivos. Muitas tarefas ficam ainda por empreender no que diz respeito a uma maior divulgação de Manuel Laranjeira. A primeira seria corrigir alguns erros que foram dados à estampa e originam outros por ricochete. Quero apenas referir os mais graves, por se tratar justamente de uma enciclopédia manuseada por milhares de

estudantes e pesquisadores: são os constantes da Enciclopédia Portuguesa-Brasileira e que têm a ver com o nascimento e com a morte de Laranjeira. Segundo ela, nasceu em 1887, um ano antes de Fernando Pessoa, portanto, quando o respectivo registo refere 1877. Decorrente desse lapso certamente, como aventa Orlando da Silva, outro foi cometido pelo ilustrador da capa da 2.ª Edição de A Cartilha Maternal e a Fisiologia, ao colocar junto do retrato de Laranjeira as datas, a primeira errada, que teriam balizado a sua vida. Mas a enciclopédia vai mais longe e diz: «Um dia – 22/II/1912 – dirigiu-se para a praia de Espinho, e pôs ali termo à vida.» Se não tivéssemos outras fontes de informação, ficaríamos a pensar que se suicidou afogando-se, inspirando assim o suicídio, 20 anos depois do americano Hart Crane, que se atirou de um barco a vapor ao mar, ou, em 1941, da poetisa argentina Alfonsina Storni no Mar del Plata ou, ainda, de Virgínia Woolf, em 1941, adentrando-se no Rio Ouse com os bolsos pejados de pedras. Ora, Manuel Laranjeira, que já não tinha forças sequer para escrever, embora tivesse o mar ali a pouco mais de 300 metros de casa, não conseguiria decerto chegar à praia e preferiu, segundo todos os testemunhos, reunir todo o ânimo para puxar um gatilho, certamente ainda dentro da hora 22, iria apostar, daquele dia 22. A Gazeta de Espinho do dia 25 seguinte e a certidão de óbito atestam que o seu falecimento ocorreu cerca das 23 horas, embora o testemunho de um amigo, Roberto Fernandes, que saíra de junto do leito do enfermo uns vinte minutos antes do suicídio, aponte para mais cedo. Foi um acto deliberado, maduramente pensado, ditado pela consciência. Outros dirão que o médico estava doente: «o mais miserável dos meus doentes», como referia, imitando uma personagem do teatro de Ibsen. Sim, não apenas sitiado fisicamente pelas garras da tuberculose ou marcado pela sífilis que degenerou em tabes. Não apenas tomado por um «demónio interior» a que não sabia que nome dar, se neurose, se neurastenia, se psicastenia, se histeria. Não apenas corroído pelo «ágil crepitar do tédio», como se escreve tão sugestivamente no prefácio, não apenas tolhido pela cor «gris» que em tudo vê, não apenas minado pela

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Anthero Monteiro e Manuela Correia com alguns elementos da Equipa “Villa da Feira”.

doença da decadência de um século que «desaba» para dar lugar a outro «mundo que germina» e em que «o homem», como escreveu, «esboça um novo homem». Manuel Laranjeira tinha de si uma elevada autoconsciência e, portanto, como diria, o seu amigo Unamuno, possuía um profundo «sentimento trágico da vida». Escreveu este filósofo: «...ninguém provou que o homem tenha de ser naturalmente alegre. Mais: o homem, por ser homem, por ter consciência, é já, em relação ao burro ou ao caranguejo, um animal doente. A consciência é uma doença.» Manuel Laranjeira desprezava, aliás, «a felicidade mais duradoura sobre a terra, que é a dos imbecis, como a do Lopes brasileiro», com a sua fortuna. As «doenças mais transcendentais de que pode sofrer um nabo daqueles» seriam «os seus insofríveis joanetes e alguma dor de barriga». O seu pessimismo era «uma fatalidade orgânica», pois acreditava que «o homem (...) ainda é um ser em conflito consigo mesmo: ainda é um agregado de vísceras que lutam por devorar-se – até ao dia da solidariedade, da harmonia final.» Era isto a morte para

ele e, por isso, a não temeu, antecipou-se-lhe, rindo-se dela – digo eu, parafraseando Roberto Fernandes. E é nesta concepção biológica (a Biologia era a sua Bíblia) que se pode assentar o seu misticismo laico, em busca da virtude e da beleza, que «na essência são a mesma coisa» para ele e que se traduzem, como se vê, na «solidariedade» e na «harmonia final». Com o meu opúsculo, pretendi dar uma visão diferente de Manuel Laranjeira daquela, menos simpática, que se pode consubstanciar nas críticas virulentas que lhe foram feitas, por exemplo, por Jorge de Sena. Este poeta, que não estará completamente isento de, pelo menos, algumas pechas que condena no escritor da Vergada, ainda que reconhecendo-o como «uma das mais importantes e significativas figuras da viragem do século», imputa-lhe «um complexo monstruoso de talento, mediocridade, cobardia moral, mesquinhez, capricho irresponsável, crueldade mental, orgulho, vaidade e desumanidade profunda, peculiar às almas que se auto-admiram como excepcionais» e vê, no seu suicídio, um fim «transcendentemente e


imanentemente justo como um castigo terrível, em que não há (…) o mínimo lugar para a grandeza ou para a dignidade humana». Sena, que não ficou por aí na sua verrina, omite o ser «magnificamente convivente» que viram nele Ramiro Mourão e Eugénio Lisboa, o «grande pensador» e «sentidor maior» de que fala Unamuno, «a sua integridade moral, independência de espírito, verticalidade de carácter, saber enciclopédico e lucidez de pensamento» a que alude Orlando da Silva, «a clareza das suas convicções progressistas» registada por Óscar Lopes, a militância por causas como foi a da República, sem nada esperar dela «para sua vantagem ou conveniência própria», como lembra João de Barros, as dos JardinsEscolas e a campanha em favor da Cartilha Maternal, o cidadão interveniente eleito para a Comissão Municipal de Espinho do Partido Republicano e para presidente da Comissão Municipal Administrativa local e nomeado Administrador do concelho e, finalmente, o homem solidário para com as vítimas das invasões do mar. Sena omite ainda os condicionalismos que a enfermidade impôs a Laranjeira durante toda vida até ao fim e que terão justificado a opção final, que ele achava ser «um recurso nobre, uma espécie de redenção moral», aquele «gesto corajoso e terrível» que, no dizer de João de Barros que com ele privou, «foi a última evidente prova da inteireza, da nobreza, da heroicidade de sua alma». Miguel Torga alude à sua «auto-crítica impiedosa» (o contrário de Sena que não lhe encontrava «o mais elementar exame de consciência»), «àquela lucidez inexorável, àquele desencanto total, àquele desespero sensual que só pode encontrar no suicídio não o seu paroxismo romântico, mas a sua redução existencial». Preferi ler a vida e a obra de Laranjeira à luz de todos esses condicionalismos a que esteve sujeito e que fez da sua vida, de pelo menos grande parte da sua breve vida, um exemplo de renúncia mística, quase franciscana, ainda que desprovida de Deus, a tudo o que seria facilidade hipócrita. Optou pela ascese através do silêncio, da solidão, do culto do sofrimento, a que não pôde subtrair-se, e que transformou em «prazer indizível – o prazer de me sentir superior à própria dor». É disso que vos fala este meu livro, uma espécie de

aperitivo para o trabalho que continuo apostado em alargar e aprofundar acerca deste ilustre concidadão santamariano. Falar do mistério será sempre uma conversa incompleta e interminável. Por isso, espero podermos reencontrar-nos um dia para dedicar a Laranjeira um diálogo talvez mais profundo, mas sempre inconclusivo. Ainda que eu tenha que voltar a agradecer-vos a paciência, a companhia, a amizade com que me distinguiram uma vez mais. MUITO OBRIGADO. Anthero Monteiro Santa Maria da Feira, 19 de Junho 2004 NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA Anthero Monteiro nasceu na vila de S. Paio de Oleiros, concelho de Santa Maria da Feira, em 1946. Estudou na Congregação do Espírito Santo, em Viana do Castelo e em Braga, e concluiu os seus estudos secundários no Liceu Nacional de Aveiro. Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Estava a frequentar na altura da publicação do livro a que aqui se faz referência, o Mestrado em Estudos Portugueses, na Universidade de Aveiro, preparando uma dissertação sobre O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira, entretanto já publicado na Roma Editores. Foi, durante oito anos, funcionário dos Serviços Municipalizados da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira. Começou a leccionar Língua Portuguesa e Francês na Escola Preparatória, actual E.B. 2/3 Fernando Pessoa, em Santa Maria da Feira. Prosseguiu a vida docente, até final da carreira, na Escola E. B. 2/ 3 Sá Couto, em Espinho. Foi formador de docentes na área da Didáctica Específica de Língua Portuguesa, nos centros de formação de Santa Maria da Feira, Porto, Espinho, Oliveira de Azeméis e outros. Foi coordenador, na zona norte do país,

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de uma experiência pedagógica, relacionada com a Comunicação Audiovisual. Foi, durante dois anos, orientador-delegado de estágios no Gabinete de Português da Direcção-Geral do Ensino Básico, no Porto. Publicou, em co-autoria, oito manuais de Língua Portuguesa no nosso país e em Cabo Verde. Escreveu, para revistas da especialidade, artigos pedagógico-didácticos e ensaios literários. Foi fundador e director de um jornal regional, dirige uma biblioteca pública e colaborou em vários periódicos regionais dos concelhos da Feira, Espinho e Ovar. No âmbito da Poesia, viu inseridos poemas seus, desde os 13 anos de idade, em vários jornais, só tendo publicado, porém, o seu primeiro livro em 1997. Consta do Cancioneiro Infanto-juvenil para a Língua Portuguesa – O Livro É Uma História com Boca – , organizado pelo Instituto Piaget. Consta também da Antologia POETRIX, publicada no Brasil pela Editora Scortecci, em 2002. É membro dirigente da Associação de Escritores de Gaia. É responsável pela organização da Onda Poética, em Espinho, e do Quarto Crescente, em S. Paio de Oleiros, e participa regularmente noutras tertúlias e recitais de poesia, nomeadamente nas noites poéticas do Pinguim, do Púcaro’s Bar e do Telégrafo, no Palácio da Bolsa, no Porto. Escreveu vários prefácios ou notas introdutórias em livros de outros autores. Fez a apresentação de livros de poesia e romance de vários autores. LIVROS DE POESIA PUBLICADOS Canto de Encantos e Desencantos Espinho, 1997, Edição do autor O Remédio É Naufragar – Manuel Laranjeira Despedindo-se Espinho, 1998 Elefante Editores A Lia Que Lia Lia poemas infanto-juvenis, Espinho, 1999 Elefante Editores

Com Tremura e Desamor em 2 “Tubos de Ensaio sobre a Decadência”. Os 7 Novos Pecados Mortais – V. N. Gaia, 2001- Corpos Editora Cenas Obscenas poemas Poéticas” V. N. Gaia, 2001 Corpos Editora.

incluídos

em

“Cigarrilhas

Esta Outra Loucura (o primeiro livro de poetrix em Portugal e na Europa) Corpos Editora, 2002 Desesperânsia Corpos Editora, 2003 A Sara Sardapintada poemas infamo juvenis, Corpos Editora, 2004 TEXTOS INSERIDOS EM LIVROS DE OUTROS AUTORES Introdução ao livro Comigo 1 Versos de um Solitário de Manuel Laranjeira Espinho, 1997 Elefante Editores Introdução à Antologia Poética de Edgar Carneiro, Espinho, 1998 Elefante Editores Introdução ao livro As Nuvens Não São Mais de Algodão de Manuela Correia Espinho, 2000 Elefante Editores LIVROS DIDÁCTICOS PUBLICADOS EM CO-AUTORIA (Manuais de Língua Portuguesa) Texto/Textos para alunos supletivos Porto, 1983 – Edições ASA Tapete Mágico 1 (5.° ano) Porto, 1985 – Porto Editora Tapete Mágico 2 (6.° ano) Porto, 1986 – Porto Editora Caminhar 1(5 ° ano em Cabo Verde) Porto, 1986 – Porto Editora Caminhar 2 (6.° ano em Cabo Verde) Porto, 1987 – Porto Editora Voz Activa 1 (5.° ano) Porto, 1992 – Porto Editora Voz Activa 2 (6.° ano) Porto, 1993 – Porto Editora Gira Gira (5.° ano) Porto, 1996 – Porto Editora


Da Lavandeira à Azenha Exemplar Mulher Feirense ou o arrojo do amor de Mãe David Simões Rodrigues* 1. O Estado da Questão 1.1. Uma vez mais trazemos à colação dos nossos leitores interessados na vida histórica do centro da Feira, mais um dos seus interessantes retalhos, porque de retalhos se trata estas nossas incursões na história do seu burgo. Mas, a propósito de retalhos, tenhamos presente que de células se constitui o nosso todo somático cuja sobrevivência e perfeição depende, no seu próprio todo, do cuidado e sanidade dessas pequenas partes. Hoje ocupa-nos um episódio histórico centrado ali na Azenha do Cáster e que em 24 de Novembro de 1714 esteve ligado à Lavandeira por um acto tabeliónico. Efectivamente, «nas casas de morada de Francisco Correa (Martins)1 do logar da Lavandeira desta villa ahi perante» o tabelião de notas da Feira compareceram, de um lado, os Padres da Congregação de São João Evangelista do convento do Espírito Santo desta Vila; do outro, Francisca de Vasconcelos Lobata, solteira, maior de 25 anos, moradora no lugar da Azenha, para

escriturar aforar o aforamento do domínio útil da Azenha cujo domínio directo andava na posse dos conventuais. Para habilitação ao emprazamento apresentou «hum instrumento de legitimaçam do Collegio dos Escriptores do Archivo da Curia Romana.» 1.2. Em 9.1639, D. Maria Lobata d’Afonseca, filha de Manuel Godinho Homem e de Vitória Pinto, casa com Francisco Tavares da Rocha.2 O casamento realizou-se na igreja paroquial da Feira, celebrado por procuração passada pelo noivo ausente ao licenciado Roque Pinto Lobato3 em que o nomeava este seu representante para o recebimento da noiva. A textura onomástica leva-nos a tê-lo, talvez, como irmão da noiva. Procuração para este fim corrente na época. 1) Este Dr. Francisco Correia Martins, morava no lugar da Lavandeira, casado com D. Antónia de Andrade Freire, aparentado com o pai da Francisca Lobato de Vasconcelos, e será esta razão de se fazer em sua casa a escritura mencionada. Falece na Lavandeira em 22.3.1738 e sepultado nos Lóios. 2) Francisco Tavares da Rocha era natural de Santo Tirso de Riba de Ave e veio casar na Feira. 3) Dr. Roque Pinto Lobato foi padrinho de baptismo do filho do Dr. Gaspar Leite Cabral e de D. Maria da Silva. Falece na Feira em 6.6.1668 e foi enterrado na capela de São Sebastião. As informações aqui introduzidas em nota servem, sobretudo, para ver como certos níveis sociais constituíam círculos quase fechados entre si. 4) Aires Fernandes do Carvalhal, filho de Domingos Gonçalo e de D. Isabel do Carvalhal, em 15.10.1614, casa na Feira, com D. Natália do Amaral de Vasconcelos.

* Licenciado em Filologia e Literatura Grega e Latina, Clássicas, com as variantes de Literatura Brasileira e Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Diplomado em Histórico e Filosófica. Curso de Teologia. Dedica-se à investigação Histórico-Científica.

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Testemunhas presentes ao acto, os fidalgos do burgo feirense Aires Ferreira do Carvalhal,4 Manuel Lobato e Gaspar Leite Cabral,5 este da Quinta da Lavandeira e licenciado. Estes entre outros mencionados, como ordinariamente acontecia nos registos de casamentos, e outros como se ali estivessem para testemunhar a celebração matrimonial, e como tal invocados. A praxe da época juntava-os no registo com o fim de dar ao acto publicidade e maior salvaguarda da verdade e solenidade do compromisso, em tempos também eles corredios, embora não tanto como hoje. Desta praxe, podemos referir expressões encontradas, tais como: «perante todos os presentes», «perante a freguesia inteira», «perante toda a freguesia que se toma como testemunha.» etc.6

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2. Amores de plebeia e de nobre. Não teríamos hoje este belo retalho histórico não foram os amores desta humilde moleirinha, que se mostrou às alturas das mais fantásticas mulheres desta Vila, e um safado nobre local. Em 1689, fruto desses fortuitos amores, no lugar da Azenha, nascia Francisca de Vasconcelos Lobato. Por este «Lobato» se é levado a ver certo parentesco com aqueles Lobatos, dada a relação onomástica das personagens em campo, para mais movimentando-se elas no mesmo espaço geográfico e cronológico. Teria o caso passado despercebido, incógnito até, como tantos outros, não fora a Francisca ser filha ilegítima de Maria Rodrigues, solteira, moleira, a viver da farinha no moinho da Azenha e terras adjacentes. Houve a filha do fidalgote feirense, D. Sebastião d’Afonseca Lobato, geracionalmente ligado àquela D. Maria Lobato d’Afonseca. Enamorados ou não, seduzido pela possível beleza, abusando da posição de membro da nobreza local, a verdade é que Francisca veio ao mundo e o pai logo esqueceu beleza, promessas, Dr. Gaspar Leite Cabral, vive mesmo na Quinta da Lavandeira, casado com D. Maria da Silva, do Porto. È cavaleiro professo da Ordem de Cristo e habilitando ao Santo Ofício. Filho do Desembargador Diogo Leite de Miranda. Vivia ainda em 4.9.1671. Terá falecido por 1675. Aqui ou no Formal de S. Vicente de Pereira? Tem um filho, o Dr. Manuel Pereira de Berredo que lhe sucedeu na Lavandeira e no dito Formal. 6) ADA – Registo Paroquial de São Nicolau da Feira, Casamentos. 5)

juramentos, foi à sua vida, deixando Maria Rodrigues com esta filha nos braços para criar e sobretudo com o peso na consciência de mãe, para cuidar do negro futuro da ilegítima. E não se apresentava fácil tarefa nesses tempos, como se vai verificar. Mas a pequena Francisca, se lhe faltou a sorte de nascer legítima, teve-a abundante por nascer desta mãe que se mostrou uma dessas raras mulheres de armas, capaz de responder a todos os desafios que se lhe deparassem. Ao tomarmos contacto documental com o caso o sentimento imediato de «Grande e extraordinária mulher esta feirense Maria Rodrigues, que não se ficou e lutou e venceu.» Não passava ela de simples foreira de bens do convento que, por isso, e dado que a pequena era portadora da, para a época, infamante nota de filha ilegítima, não podiam esses bens transitar para ela no caso de lhe faltar a mãe cujo coração materno lhe pungia atravessado pelo ecúleo do perigo consciente que a filha podia correr. O ecúleo vinha-lhe da prática da época, pois à sua volta não escasseavam exemplos de infelicidades de aproveitamentos da situação de filhas ilegítimas. Mãe extremosa, sobram-lhe razões para temer pelo futuro do seu rebento e por isso deseja por ela fazer tudo quanto estiver ao seu alcance. Nem que a pé tenha de ir a Roma arrojar-se aos pés do Papa implorando o breve da declaração de legítima. Do céu viesse o remédio. Vem a saber, de certo pelos Lóios do convento, que isso, (à época), era possível, mas só o Santo Padre podia resolver. 3. Ilegitimidade, dotação e bens de igreja. O mais interessante desta história é o facto de a mãe, Maria Rodrigues, querer dotar a filha de modo a, superando a ilegitimidade de nascimento, poder encontrar casamento condigno, muito dificultado pelo facto infamante, naquela altura, de ser filha de mãe solteira. E se esta era a infamante situação social não podia receber bens do convento considerados, nessa altura, sagrados. É afinal o que se depreende de todo o contexto da trama desta história. Nisso porém não consentia o seu amor de mãe. Consciente dos problemas, mãe providente, tirase dos seus cuidados e vai direita aos Lóios, senhorio directo da Azenha, informar-se do que tem a fazer para


ela o impedimento ao direito à sucessão na Azenha e suas propriedades anexas. Disposta a terçar armas, não seria a filha ilegítima nem deserdada. De contrário, que lhe reservava o futuro? Tudo negro. E a ideia fazialhe o coração de mãe «da cor do pano da paixão». A documentação deixa transpirar a luta.

Manuel Plácido - A Azenha.

ultrapassar com toda a segurança estas dificuldades aparentemente intransponíveis. Passa-lhe pela cabeça o desânimo de quem vive consciente da sua humilde e ignorada condição de mulher plebeia da província, para mais nesses recuados tempos de 1698, tão desconhecida e tão distante de Lisboa, quanto mais de Roma. Mas outro caminho se não deparava na solução do problema, informam-na. Maria Rodrigues ouve falar do Padre Santo, o coração de mãe corrige-lhe a razão de mulher, o resto é com a fé. Não olha para trás e lá no fundo esta mulher pensa: - o Padre Santo, se é pai dará remédio a um filho suplicante, e muito mais ainda, se é Santo. Cobra ânimo e vai sem perda de tempo ao convento. Esta moleira trazia de enfiteuse bens da Azenha pertencentes aos religiosos do convento de São Nicolau e segundo os princípios então vigentes, e como acima íamos dizendo, não podiam transitar para as mãos impuras dos filhos ilegítimos, pois seria uma espécie de profanação desses bens, além de incentivo à ilegitimidade condenada por esta forma de transmissão das propriedades destes senhorios. Assim sendo, o remédio era tratar da legitimação quanto antes e a todo o transe. Decidida, qual outra Deuladeu Martins, celeremente vence dois obstáculos ao seu desiderato de mãe: a ilegitimidade da herdeira e com

4. Bens conventuais, foros e heranças. Ora, os ditos termos dão a entender que as propriedades pelo facto de serem pertença ou terem como senhorio directo os freires adquiriam um certo carácter de sagrado e não podiam cair na posse de profanos como daqui se entende serem considerados os filhos ilegítimos. Era o sentimento corrente em relação a estes deserdados da sorte que, inocentemente, por culpas só atribuíveis aos pais, pagavam à sociedade o indevido tributo da pesada expiação traduzida nestas e noutras limitações que, para além de inconfessáveis e inacreditáveis, ocasionavam aproveitamentos, desnecessários de especificar.7 Não encontrámos isto dito directamente em parte alguma. Depreendemo-lo do conjunto das circunstâncias, do contexto da documentação e da linguagem que a percorre. Era para nós matéria desconhecida. Se para transmitir à filha o domínio útil tomado de enfiteuse aos ditos padres, a mãe carecia de autorização dos frades, estes não a podiam dar enquanto uma bula papal a não considerasse fora da situação de ilegitimidade por filiação irregular da moça. A mãe deseja que ela encontre casamento condigno. Para tanto carece de dote bastante que ela mãe possui. No tempo, um bom dote das filhas era quase essencial para um casamento de bom partido. E até para homens. Mas os bens que trabalha como caseira pertencem aos Padres da Congregação dos Cónegos Seculares de São João Evangelista do convento do Espírito Santo da Feira. As regras vigentes e a condição de filha natural, ilegítima, não permitem transmitir-lhe esses bens conventuais. Para que adquira a capacidade jurídica canónica de 7) O problema destes infelizes para quem a sociedade medieval e ainda renascentista era particularmente cruel tem-no o leitor magistralmente tratado no drama - tragédia «Frei Luís de Sousa» de Almeida Garrett. Foi principalmente a ilegitimidade que matou Maria, filha de Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena de Vilhena.

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modo os cónegos poderem validamente escriturar o emprazamento, houve que seguir o caminho de Roma e pedir à Santa Sé a devida licença, sob legitimação, para que esses bens, cujo direito senhorio era de natureza eclesiástica, pudessem validamente transmitir-se nas circunstâncias particulares descritas. Desconhecíamos tal particularidade porque não constam dos manuais de história eclesiástica ou monástica.

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5. O drama de Maria Rodrigues, mãe de ilegítima deserdada. 5.1. Cristã, cheia de esperança na paternalidade do Papa de Roma, Maria Rodrigues, no dia a dia da sua vida de mulher dividida entre as tarefas dos moinhos e do amanho das terras, debate-se com esta realidade que lhe atravessa e punge a alma: Francisca Vasconcelos Lobato seria libertada de tal peia. Pensa, consulta o mealheiro das poupanças das terras e do moinho, traça planos e decide. Informa-se da viabilidade da legitimação, – nem que vá até Roma –, dos trâmites do processo e socorre-se da caridade de um qualquer dos Lóios. A única obcecação é apagar da filha a nódoa infamante de ilegítima8 para a poder declarar herdeira do domínio útil das propriedades conventuais de que é enfiteuta. Quer que o seu coração em vida e a sua alma depois de fechar os olhos a este mundo descansem em paz. Mas, para tanto «só o santo padre de Roma o pode fazer. Irá a Roma se tanto for preciso. E, se bem o pensou, melhor o fez. armas.

5.2. Maria Rodrigues, da Azenha, mulher de

Se essa era a via a seguir para assegurar o futuro feliz da filha, para que não sofresse pelo seu pecado de mãe-solteira, não hesita em «colocar os pés a caminho de Roma» e aí buscar o remédio. Em boa hora o faz, porque alcançou o que pretendia, e com mais facilidade que imaginava. Perante o inesperado sucesso, dá largas à alegria e à gratidão que lhe afoga a alma. Maria Rodrigues, ali da Azenha, escreveu para o Padre Santo de Roma, e não é que ele lhe respondeu a tudo quanto e como queria!?... 8)

Os filhos ilegítimos nos finais do séc. XVII.

O feito deu brado na Feira. Não se falava noutra coisa, à saída das missas, na feira do Rossio, nos lavadouros, nas freguesias vizinhas. E não era para menos. Uma pobre moleira aldeã de terra perdida no vasto mundo receber do Padre Santo de Roma resposta positiva e paternal!... Ó feliz culpa!... Ainda valeu a pena ter a filha em solteira do solteiro fidalgote. Vê-se pela documentação, e nem sequer isso era preciso. Mas estava feliz, feliz, de toda a sua vida a pobre moleira, Maria Rodrigues. Bem tentaram demovê-la alguns Lóios e vizinhança. Mas nada que detivesse a determinação desta mulher de armas. Ainda lhe aturdiam os ouvidos caçoando que o Padre Santo estava mesmo ali à esquina para atender uma pobrezita, perdida no mundo entre farinhas e territas, e para mais a expor ao sol o seu pecado. Que isto e que aquilo. Mãe teimosa, mãe confiante, mãe cega na defesa do futuro negro da filha, lá se aventura. E com ventura o faz. Afinal o Padre Santo de Roma também é para os pequenos, também os cachorrinhos comem as migalhas caídas da mesa do seu senhor. Muitas comunhões, orações e missas Inocêncio XII recebeu desta senhora agradecida. Única forma de mostrar a eterna gratidão pelo despacho favorável à petição. Já podia a sua alma partir em paz. E de facto não lhe sobreviveu mais que dezasseis anos, 9 como se vê do emprazamento dos moinhos herdados feito pela Francisca Lobato de Vasconcelos em 1714, na sua posse já em 1700, por doação da mãe. 5.3. Maria Rodrigues, 1700, doa a Azenha à filha Francisca Maria Rodrigues não perde tempo não só porque gozará de pouca saúde mas também porque certa e segura da sua possibilidade de dotar a filha. Com este dote, em tempo de utilitarismo e pragmatismo da vida real, em que não bastava amor e cabana, mais 9) AHCMSMF – Convento dos Lóios, CL, Livro 7, fls., 242 e seguintes. Porque o livro aqui citado deste arquivo é o mesmo e apenas as páginas diferem, para obviar à repetição, deixamos já a indicação das páginas a que se reporta o assunto no seu desenvolvimento: 242 a 248, 250, 302, 362, 500 a 504, 508.


facilmente lhe assegura um bom partido matrimonial. Pondo em prática os desígnios de mãe solícita, combina com o tabelião da Feira e, em 7.3.1700, faz a escritura de doação de bens à filha, agora com 11 anos. 5.4. Escritura de doação da Azenha a Francisca Lobato «Em nome de Deos Amen. Saibam quantos este stromento de escritura de doação remuneratoria ou cal em direito melhor virem que no anno de N. S. J. Christo de mil e setecentos annos aos sete dias do mes de Março... nesta Villa da Feira... em o escriptorio de mim tabelliam ahi... apareceu Maria Rodrigues molher solteira moradora no logar da Azenha da freguesia desta villa e da outra sua filha Francisca com ella moradora... e pela dita Maria Rodrigues foi dito... que a dita Francisca era sua filha natural legitimada por breve de Sua Santidade Inocêncio XII... ao cal devia muitas e grandes obrigassoens por lhe ser muito obediente e tratar dellas com muito amor e afeissam, pelo que em remuneração dos ditos serviços e boas obras que dele tinha recebido e esperava receber pelo tempo adiante ella a seu moto proprio e sem constrangimento de pessoa alguma... nomeava a dita sua filha... para ella e marido com quem casar e para todos os seus herdeiros e sucessores de hoje para todo o sempre athe ao fim do mundo, lhes dava, doava e dotava o seu casal de prazo que possuía de que he dereito senhorio os Religiosos do convento desta villa... sito no logar da Azenha que consta de casas e propriedades com todas as suas pertenças, entradas e saídas e serventias novas e velhas contíguas, agoas de rega e de amerugem, árvores de fruta e sem ella, assentadas e mais pertenças, tudo monte roto e por romper... com a obrigação de pagar todas as dívidas que ella doadora vier a ter..., os alimentos necessários em canto viva for e per sua morte lhe fazer o bem de sua alma conforme sua calidade... e que renunciava se necessário desde logo a favor da dita sua filha...(Foram a tudo presentes as) testemunhas João Anriques e Paschoal Homem... de Sanfins...»

5.5. Autorização dos Lóios e auto de medição das propriedades legadas. Para a doação teve Maria Rodrigues que obter do direito senhorio licença concedida em 11 de Abril 1701, pelo vice-Reitor do convento, P.e João de Santa Maria Lima, em razão da desistência em favor da filha Francisca e em virtude de estar esta já legitimada por breve do Santo Padre de Roma, para poder possuí-la de ora avante. Contrato de emprazamento em 24.11.1714 entre os Lóios e Francisca Lobato. «Em nome de Deos Amen. Saibam quantos este público instromento de contrato de Renovação de Emprazamento de três vidas e três pessoas cumpridas e acabadas e mais nam... que no Anno do Nascimento de N. Senhor Jesus Christo de 1714 annos aos vinte e catro dias do mês de Novembro... nesta Villa da feyra que he terra de santa marya villa e terras da jurisdissam do Serenissimo Infante Dom Francisco10 que deos guarde... e nas casas de morada de Francisco Correa Martins do logar da Lavandeira desta villa ahi perante mim taballiam... apareceram presentes de huma parte o ... Padre António do Sacramento conigo Rigular da Congreguassam de Sam Joam Evangelista e morador no convento do Espírito Santo desta villa... como procurador... do dito convento e da procuração que me apresentou da cal ho teor de verbo ad verbum he o seguinte:».11 «Da outra apareceu presente Francisca de Vasconcellos Lobata, solteira, maior de vinte e cinco annos, moradora no logar da Azenha da freguesia desta villa da Feyra, pessoas conhecidas de mim taballiam... e logo pella dita Francisca de Vasconcellos Lobata me foi apresentado hum instromento de legitimaçam do Collegio dos Escriptores do Archivo da Curia Romana da qual o theor de verbo ad verbum he o seguinte.» Infante D. Francisco (1691- 1742). Filho de D. Pedro II e de sua mulher a rainha D. Maria Sofia Isabel de Neuburgo. Foi duque de Beja e grão-prior da Ordem de Malta, em Portugal, para além de Senhor da Casa do Infantado em que o antigo condado da Feira se incluía. Daí a referência à sua pessoa no documento dos Lóios. 11) Foi-lhe passada pelo Padre Brás da Purificação, Reitor do convento. Omitimola por nada apresentar de interesse e de novo. Além das bastas repetições ao estilo barroco. 10)

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5.6. O Breve do papa Inocêncio XII onde faz a Legitimação. Para que Francisca Lobato possa habilitar-se aos bens em causa, apresenta o documento em que o Santo Padre para efeitos religiosos e sociais a declara filha legítima, e por isso capaz de receber a herança e outros direitos próprios de qualquer filho legítimo pois de futuro como tal deveria ser havida. Começa o Sumo Pontífice por manifestar a sua paternal compreensão da fragilidade humana resultante do pecado original. Provam-no as consequências que levaram a peticionária a este recurso de modo a minorar os sofrimentos do seu coração materno. Nasceulhe uma filha, sendo ela e o pai solteiros. Por razões não aduzidas, mas fáceis de adivinhar, não casaram. Ela era plebeia e fidalgote ele, safado, mas era de outro sangue, e isso para o tempo pesava e muito. E assim fez. Compreensivamente lhe foi concedido o que humildemente impetrou. A graça foi dada em Roma no dia 27 de Abril de 1699, ano oitavo do pontificado do papa Inocêncio XII, subscrita pelos secretários do Arquivo, Estêvão Sechi e Andressimano. Tinha a legitimanda 10 anos. 5.6.1. Transcrição do essencial da legitimação de Roma, mal copiada donde a colhemos. Despacho da Secretaria da Cúria de Roma em 27 de Abril de 1699 «Collegium Escriptorum Archivi Romanae Curiae... universis et singulis... hoc praesens Publicum legitimationis Instrumentum prospecturis, visuris Literras pariter et audituris salutem in domino sempiternam sint Salvatoris Nostri immensa clemencia nonmodo pecati maculam que iamprimi parentis Umano generi relinquerunt sacri Regenerationem baptismatis delere sedes (pedes?) iis qui propriis pecatti infelicitate laborando penitentia agentes venire, recipere, remitere nam dignatur istas Romanus Pontifex qui celestis et auditionis gratias presertim... recurrentes minime repelere sit quum itaque pro parte dilleta fillia Francisca de Vasconcellos Lobata grate et domino Sebastiano da Fonseca Lobato filia a dicto Lobato solluto Et domine Maria Rodrigues mulier da Azenha parrochiallis Sancti Nichulay villa de Feira portugalensis diossesis Nobis

O Papa Inocêncio XII.

remissit espellicatur fuerit quatenus ipsam Franciscam que feti Nataliare et predita domino Sebastiano soluto et domina Maria et soluta patitur legitimare et ab omnia et singula per legitima neque sustentiones proditates legata libertates... onores... dignitates seculares seu mundanasque officia publica et privata et status et datus quecumque legitimos restituere, reponere, et reintegrare... et suficientem ad quem ex singula redare debetur et nabi defectum et inabilitatem a quo macula genitura ipsius... solemne a quo allios... appostolica opportune providere dignaremur, Nos igitur equidem dillecta fillia supplicationibus inclinatam... Sanctissimi... nostri Papae cuius ipsa parte vices gerimus,... Indulto


appostolico Collegio nostro concesso ac de consenso et de mature deliberatione... Et Reverendissimi domini Alexandre Bonnacussi protenuit appostolici denuorso parte... istius nostri Archivi Magistris Edecarretoris ac Ilustrissimis Domini Crispianis jus Archivi Scriptoris... deputatorem eandem Franciscam de speciali gratias... ad legitimandam et (h)abilitemus ... (f. 246) et passalium et presertim a Casale d’Azenha nuncupatur cuius dominium directum atque nominatione de canonibus secularis congregationis Evangelistae conventus Spiritu sancto dicta Villa da Feira Portugalensis diocesis ... et legitime possidere... Datum Romae, in consellaria appostolica et camera nostri Archivi autenticitate anno domini millesimo seiscentesimo nonagesimo nono, die vigesimo septimo Aprilis, pontificatus autem Sanctissimi in Christo Patris et Domini nostri Innocentii12 Divina Providentia Papa duodecimo, anno octavo pontificatus ipsius... Stefano Sechi et Andreassimano dicto Archivi Scriptoribus...»13 5.6.2.1. Tradução possível, dado o mau estado e a péssima transcrição do documento. «O Colégio dos Escreventes (Secretários) do Arquivo da Cúria de Roma, a todos e cada um dos que tomarem conhecimento do presente instrumento público de legitimação, o virem e ouvirem, saúde duradoira pela clemência de Nosso Salvador. Com todo o Género Humano fomos sujeitos à mancha do pecado pelos nossos primeiros pais logo nos primeiros tempos, ainda que possamos regenerarnos pelo baptismo. Também aqueles que têm a infelicidade de cair em pecados pessoais podem pelo arrependimento e penitência recuperar a graça divina. Também o Romano Pontífice pode obter-lhes graças e de modo algum repelirá (os arrependidos) como é o 12) Inocêncio XII, António Pignatelli, ocupa o sólio pontifício em 1691 e falece em 1700. Legitimação feita no 8º ano do seu pontificado, por isso em 1699. Tinha Francisca dez anos de nascida. A mãe era já falecida em 1714. 13) A transcrição deste breve pontifício, seja da responsabilidade dos padres seja do tabelião, está horrorosamente mal transcrito se não já escrito. Seria a leitura difícil, por razões de caligrafia, para quem fez a transcrição? Mas só? Já não viria direito, ou tiveram dificuldades na transcrição? Tal como se encontra no lugar citado a forma é intragável. Um pouco às apalpadelas, isto é, como quem adivinha, socorrendo-nos de alguns conhecimentos na matéria, demos - lhe uma pequena endireitadela. Citada a fonte e dada a explicação poderá o leitor confirmar o dito.

caso da nossa dilecta filha Francisca de Vasconcelos Lobata, filha de Dom Sebastião da Fonseca Lobato, solteiro e de Dona Maria Rodrigues, mulher solteira que vive na Azenha da paróquia de São Nicolau da Vila da Feira da diocese do Porto que nos explicou a situação da necessidade da legitimação para gozar dos direitos de legitimada: - ao retirar-lhe a inabilidade em que a mácula da geração ilegítima a lançou lhe concedemos o direito de receber legados, honras e dignidades seculares ou mundanas, benefícios públicos e privados concedidos aos filhos legítimos. Por isso, à nossa dilectíssima filha concedemos as mesmas graças apostólicas já concedidas a outros. Gozando da autoridade que em nós delegou o Santíssimo Padre... de comum acordo, tendo deliberado maduramente, decidiu este Colégio atender as súplicas da nossa dilecta filha. Nós, Rev. mo D. Alexandre Bonacussi e D. Crispiano por graça especial declaramos legítima a mesma Francisca para que receba a herança dos bens cujo direito senhorio são os Cónegos Seculares da Congregação do Evangelista do Convento do Espírito Santo da dita Vila da Feira, e para que legitimamente os possa conservar em sua posse. Dada em Roma em 27 de Abril de 1699, no oitavo ano do pontificado de Inocêncio XII. Os secretários do dito Arquivo Pontifício, Estêvão Sechi e Andressimano.» E foi este o instromento legal da legitimação acima referido apresentado no emprazamento da Azenha e suas pertenças a Francisca de Vasconcelos. Em 12 de Janeiro de 1714, tem Francisca 25 anos, e falecida já a mãe, entra na posse dos bens que por escritura de doação lhe transmitira a mãe e porque é «nova vida» na posse da enfiteuse se renova o contrato e lavram os autos próprios de medição e apegação das casas e propriedades Intervieram nesta medição: Manuel da Silva, dos Matos, e António Manuel, de Campos, todos «desta freguesia da Vila da Feira.»

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5.7. As propriedades e suas medições. 5.7.1. Primeiramente umas casas térreas com seus currais, palheiros de telha fechados que tudo está da banda de dentro na mesma Azenha que tem de comprido do nascente/poente 137 varas, (150,7 metros),14 de largo norte/sul 108 varas (118,8 metros). Confronta do nascente com o caminho que vai para Picalhos, e do poente com o rio e do norte com o mesmo rio e com a levada do moinho e do sul com a cortinha de João Ancho do mesmo lugar de Pombos e com o jardim de Mathias Lopes morador no lugar da Velha desta freguesia da Feira. Levará de semeadura 18 alqueires e centeio.

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5.7.2. O Ribeiro de Além, que tem de comprido nascente/poente, 50 varas, de largo norte/sul, 36 e levará de semeadura 3 alqueires e centeio. Parte do Norte com o rio, poente com a levada dos moinhos de Manuel Pereira de Resende e do norte com terras dela caseira que foram de João Fernandes, da Velha, e do Sul com a cortinha de Matias Lopes, da Velha. 5.7.3. A Devesa de cima da levada, que tem de comprido norte/sul 16 varas, e de largo nascente/ poente 16 varas, semeadura 3 alqueires de centeio. Parte Nascente com João Rodrigues e outros do lugar da Azenha e do poente com terras de Manuel de Oliveira, da Velha e do norte/sul com a levada que vai para o moinho de Manuel Pereira de Azevedo.

6. Encargos da enfiteuta para com o senhorio directo. 6.1. Renda: Por tudo ao convento pagará 25 alqueires de milho e 5 de centeio, livres para os senhorios, por São Miguel de Setembro. 6.2. Lutuosa, por falecimento de cada vida, um carneiro ou 500 réis por ele. 6.3. Domínio, pagará a percentagem de cinco um. 6.4. Testemunhas que a tudo estiveram presentes e assinaram: Francisco Correia Martins, a rogo da caseira, Maria Rodrigues, Manuel Soares e Domingos de Almeida, das Eiras.» 7. Últimas notícias de Francisca Lobato. Em 24.11.1714, na referida escritura de emprazamento ou aforamento feito já pela Francisca de Vasconcelos Lobato, por razões não explícitas, mas que depreendemos prenderem-se com a necessidade de exibir o documento da sua legitimação para desfazer qualquer dúvida entretanto surgida naturalmente ou por maldade, Francisca de Vasconcelos Lobato, ainda é solteira e tem 25 anos. Já era falecida a mãe, pois dela não mais se teve notícia.

5.7.4. A Devezinha de baixo da levada. Confronta com Gaspar Leite em razão da levada se meter por cima, com licença do Padre Reitor Jacinto da Conceição, por troca. Tem de comprido nascente / poente 12 varas e de largo norte/sul outras 12, por onde confronta com a Devesa de Pedro Carvalho, e do poente com terras dela caseira, do norte com a levada e levará de semeadura uma quarta de centeio. David Simões Rodrigues

14) Varas, medida linear equivalente a 1m e 10 cm., um metro e dez centímetros, tinha por isso 150 metros e 70 cm.


Subsídios para um DICIONÁRIO BIOGRÁFICO DE PERSONALIDADES FEIRENSES Francisco Azevedo Brandão* APRESENTAÇÃO A consulta que venho fazendo, desde há quatro décadas, em jornais, revistas, opúsculos, livros e diversos documentos dos e sobre os concelhos da Feira e Espinho, para trabalhos de índole histórica, publicados em livros e no Boletim Cultural de Espinho, que dirigi durante seis anos; e ainda trabalhos para os jornais Defesa de Espinho e Espinho Vareiro, que tive a honra de dirigir, e para o Notícias de Paços de Brandão que, neste momento dirijo, fez com que me deparasse com dezenas de personalidades feirenses que constituíram, ao longo dos séculos, com o seu esforço, talento e amor à terra, autênticos paladinos do progresso e desenvolvimento do seu rincão-natal e, por isso, merecedores de ficarem registado nos anais do seu concelho e da sua região. A dispersão, por tantas publicações, dos seus nomes e consequentemente das suas acções em prol

da comunidade, era de molde a perder-se na poeira do tempo, ficando irremediavelmente esquecidos das gerações vindouras. Por isso, achei urgente, justo e oportuno, organizar um dicionário que juntasse, por ordem alfabética dos seus apelidos, esta plêiade de personalidades do concelho da Feira, uns mais conhecidos, outros menos conhecidos e ainda outros esquecidos, como preito de homenagem a todos aqueles que, de algum modo, foram figuras de relevo na sua terra e no seu concelho. Por ter a plena consciência de que neste dicionário não consegui incluir todos quantos serviram o concelho, porque obras deste género nunca são definitivas, apelidei-o de «Subsídios para um Dicionário de Personalidades Feirenses», esperando que, com mais investigação própria e com a ajuda de parentes e amigos, se complete esta obra que agora se iniciou, ou que outros, mais habilitados, possam aparecer com obra mais completa e rigorosa. Sei que este trabalho não é original nem tão pouco criativo. Sem o contributo de muitos autores que se debruçaram sobre a história das suas terras em livros, publicações e artigos na imprensa regional, não me teria sido possível apresentar estes modestos «Subsídios». Para eles a minha mais sincera homenagem. Para mim, requeiro apenas a generosidade, a paciência,

* Licenciado em História pela Universidade do Porto e Bacharel em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra. Historiador local, é autor de “Anais da história de Espinho”, “O Associativismo em Espinho”, “Joaquim Pinto Coelho, um político de Espinho”, “O campo de Aviação de Espinho”, “O culto de Nª Sª da Ajuda em Espinho” e “Manuel Laranjeira, por ele mesmo”.

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o empenho e o amor que nele pus, como um serviço prestado à comunidade de que faço parte. O critério utilizado foi de registar as personalidades que já não se encontram no número dos vivos, já que os que ainda são nossos «compagnons de route», continuam a fazer o seu curriculum profissional, social, político e cultural, que serão, com certeza, recordados nos anais futuros do concelho. Aqui se registam as personalidades que nasceram no concelho, aqui viveram e trabalharam; os que nasceram no concelho e foram figuras de relevo noutros concelhos; os que não tendo nascido no concelho, aqui viveram e trabalharam para o seu progresso; os párocos das freguesias, os reitores dos mosteiros aqui estabelecidos, os sacerdotes nascidos no concelho, os familiares do Santo Ofício e, finalmente, os que não tendo nascido ou vivido no concelho, aqui possuíram terras e propriedades. Embora algumas personalidades tenham escassos dados biográficos, achei por bem registá-los, para que não fiquem esquecidos e para que um dia se possa completar com novos elementos pesquisados pelo autor, familiares, amigos e outros investigadores. Tratando-se de uma obra pioneira, contendo eventuais erros e omissões, solicito aos leitores, especialmente aos familiares e amigos dos biografados, que me enviem elementos adicionais que me permitam, em futura edição, melhorar estes «Subsídios para um Dicionário Biográfico de Personalidades Feirenses». Francisco Azevedo Brandão

ABELHA, Luiz (1893-1955). Nasceu na Vila da Feira em 1893. Foi secretário de finanças na Vila da Feira, depois de ter passado como aspirante de finanças nos concelhos de Gondomar, Arouca, Albergaria-aVelha e Feira, como oficial na Direcção de Finanças de Braga e como secretário em Vila Flor, Oliveira de Frades e Murtosa. Pelos seus serviços e dedicações relevantes, foi nomeado comandante honorário dos Bombeiros Voluntários de Gondomar e Feira. Era casado com D. Rosa Pereira Abelha, de quem teve três filhos: Angelina, Alírio e Abel Pereira Abelha. Faleceu em Julho de 1955. Bibliografia - Francisco Neves, Do Alto da Piedade. Edição da LAF – Liga dos Amigos da Feira, 2003 ABREU, António Gorjão de (? – 1792). Parece ter nascido em S. João de Ver. Em 18 de Outubro de 1752 substituiu o abade de S. João de Ver, padre Valentim da Silva Abreu e intitulava-se abade «resignado». Residiu na Paredinha, Rio Meão, em casa de sua irmã, Mariana Josefa da Silva Gorjão, a quem fez sua herdeira universal e que faleceu a 26 de Setembro de 1780 com cerca de 80 anos. Esteve ligado aos litígios que durante longos anos opuseram o abade de S. João de Ver, como defensor dos seus passais, e o abade de Sanfins, questão que terminou em 1790. Bibliografia - David Simões Rodrigues, Rio Meão – A Terra e o Povo na História. Edição da Junta de Freguesia de Rio Meão, 2001 ADÃO, Joaquim Tavares (1894-1987). Natural da Fermelã, Estarreja, nasceu a 26 de Agosto de 1987. «Teve um brilhante passado sempre na defesa dos trabalhadores e dos mais desprotegidos». Começou por volta dos anos 30 a fundar sindicatos das mais variadas actividades por todo o país, dentro da política corporativa do Estado Novo. Foi condecorado por duas vezes com a medalha de bronze de alto mérito corporativo. Faleceu em casa de seu filho, Jaime Tavares Adão, em S. João de Ver, em 26 de Agosto de 1987, com 93 anos de idade.


Bibliografia - Correio da Feira, 25.9.1987 AFONSO, Martim (? - ?). Viveu no reinado de D. Dinis. Foi reitor de Fiães, apresentado pelo abade do Mosteiro de Pedroso, confirmado e colado por D. Vicente Mendes, Bispo do Porto a 10 de Abril da era de 1326 (do senhor de 1288). A carta de confirmação consta de um pergaminho em latim, escrito junto à igreja de S. João de Ver, onde aquele prelado residia. Bibliografia - Padre Manuel Francisco de Sá, Santa Maria de Fiães da Feira. Casa Nun’Álvares, Porto, 1940 AFONSO, Martim (? - ?). Vem mencionado num documento da Chancelaria de D. João I, livro I, folhas 38 verso a 39 e transcrito pelo padre Domingos A. Moreira no seu trabalho «Nótulas Históricas Sobre Pigeiros (Feira)», publicado na revista Arquivo do Distrito de Aveiro nº. 150 (Abril, Maio e Junho), 1972. Na introdução ao documento o Padre Domingos Moreira diz: «No tempo da guerra de D. João I com Castela, muitos fidalgos, pondo-se pelo partido do rei castelhano, perderam os seus direitos e haveres que o rei português fez distribuir pelos seus companheiros de armas. Assim, tendo sido infiel o senhor de Pigeiros, então chamado Afonso Gomes da Silva, D. João I doou o senhorio desta terra a Martim Afonso e mais tarde a Gomes Freire». Transcreve-se a seguir o documento referente a Martim Afonso: «Doaçam de piguyeiros a martim Afonso de neyuoõ. DomJoham etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nos querendo fazer graça e mercee a martim Afonso de neyuoõ scudeiro de martim uaasquez da cunha portador desta carta a Rogo do dicto martim uaasquez que nos por elle enuiou pedir mercee por serviço que delle recebemos e entendemos receber. E querendolho nos conhecer e galardoar com mercees como cada huum senhor he theudo de fazer aaquelles que o bem e lealmente seruem. Teemos por bem e damoslhe e fazemoslhe pura doaçam ualledoira pêra todo o sempre pêra elle e todos seus herdeiros e sucesores que depôs elle vierem do lugar que chamam pigueyros que foe de Afomso

gomez da silua que ora sta em nosso deseruiço e destes regnos pella guisa que o auia o dicto afomso gomez. Outrossy de todollos beens mouees e raiz que gonçallo uaasquez e fernam roiz scudeiros do dicto afomso Gomez auiam e ham em quaaes quer lugares dos dictos regnos onde quer que forem achados por quanto os sobredictos forom e som em nosso deserviço com o dicto afomso Gomez. Porem mandamos que o dicto martim afomso per poder desta nossa carta tome possa tomar e cobrar e auer a posse e corporal posisam do dicto lugar de pigeiros e dos direitos fructos e nouos e pertenças delle e dos dictos beens e propriedade delles. E os possa vender dar e doar e scambar e fazer delles e do dicto lugar todo o que lhe pruuer como de sua coiusa própria e corporal posisam. E mandamos que nos nem outro nenhum nom posamos contradizer a esta doaçam em parte nem em todo. E que esta doaçam Seia firme e stauel pêra todo sempre. E se lhe alguém sobre o dicto lugar e beens quiser fazer força ou poer embargo alguum mandamos aas nossa justiças que estta carta for mostrada que o nom consentam e lhe alcem dello força e o metam dello em posse e o mantenham em ella, Ca noss mercee he delle hauer as dictas cousas pella guisa que suso dicto he saluo se a outrem som dados per nossa carta. E em testimonio desto lhe mandamos dar esta nossa carta Dante na cidade de lixboa XVI dias de Setembro de (sic) o meestre o mandou per joham Gil e martim da maya seus uassallos e veedores da sua fazenda vaasco piriz a fez era de milIIII XXIII anos», ou seja ano da Cristo de 1384; «Confirmaçam de pigeiros a martim afomso» Carta per que o dicto senhor confirmou hua doaçom que fez pêra sempre em seendo regedor destes regnos a martim afomso scudeiro de martim uaasquez da cunha do lugar que chamam pigeiros que foe de afomso gomez por andarem em deserviço do dicto senhor Dante em coinbra XXI dis de Junho de era mil IIII XXIII annos», ou seja ano de Cristo de 1385. Bibliografia - Padre Domingos A. Moreira, Nótulas Históricas Sobre Pigeiros (Feira)». Revista Arquivo do Distrito de Aveiro (Abril, Maio e Junho), 1972.

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AIMAR (? - ?). Grande proprietário nas terras da Feira, ele e sua mulher Susana e enteados doam, em testamento de 22 de Dezembro de 1107, à Sé de Coimbra e ao seu bispo D. Maurício, metade das herdades da «villa de Travanca», da villa de Teobalde do Souto (Feira) e de Insua e Maçada (Oliveira de Azeméis). Bibliografia - Samuel de Bastos Oliveira, Travanca – a informação paroquial de 1758 e uma retrospectiva do seu passado. Revista Villa da Feira – Terra de Santa Maria, Ano IV, n.º 11, Outubro 2005

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AIRES, Unisco (? - ?). Confirma, em 6 de Junho de 1150, as suas disposições testamentárias em favor do Mosteiro de S. Salvador de Grijó, pedindo também para ser enterrada no Mosteiro. Ela dá, de imediato, bens situados em Aldriz (Argoncilhe) e em Penso, assim como os seus direitos sobre as igrejas de Várzea e Santiago do Mato. Bibliografia - Robert Durand, Le Cartulaire Baio Ferrado du Monastètere de Grijó (XI-XIII Siècles), Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural Português, Paris, 1971 AIRES, Paio (? - ?) e sua mulher, Godinha Vermuiz, renunciaram, em Outubro de 1160, a favor do Mosteiro de S. Salvador de Grijó, a sua parte de direito sobre a igreja de Milheiros, mas conservaram o poder de designar o abade conjuntamente com os monges. Os contratantes comprometeram-se ainda ajuda mútua para a salvaguarda da igreja. Bibliografia - Robert Durand, Le Cartulaire Baio Ferrado du Monastère de Grijó (XI-XIII Siècles), Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural Português, Paris, 1971 ALBERGARIA, José Soares de (? - ?). Conhecido também como José Soares de Matos ou José de Matos Soares morou numa casa da Praça, foi Juiz dos Órfãos da Vila da Feira. Era filho do licenciado Lopo Soares de Albergaria e de Antónia Pinto, da

quinta de Pombos da Vila da Feira, e neto paterno de Amador de Aguiar Soares, da quinta do Paço, Juiz dos Órfãos do Candado da Feira e de Leonor de Meireles, filha de José Soares, senhor da Casa da Praça. Era casado com D. Mariama de Almeida de Pinho, filha de António de Almeida e de Francisca de Pinho Carregosa. Deste casamento houve os seguintes filhos: Francisco Soares de Albergaria, Amador de Aguiar Soares, António Soares de Albergaria, Leonor Soares, e Joana Soares. José Soares de Albergaria foi o primeiro possuidor da casa e quinta das Ribas, junto ao castelo e hoje pertencente à família Vaz de Oliveira. Crê-se que José Soares de Albergaria tinha sucedido, na dita propriedade, a seus maiores como enfiteuta à Casa da Feira. Os seus filhos e netos venderam a casa e quinta das Ribas ao padre Simão Ferreira de Aguiar Franco, por escrituras de 24 de Março e 22 de Dezembro de 1707. Este padre era irmão de João Ferreira da Cruz que foi o que na verdade viveu e usufruiu da citada casa e quinta, pois o Padre Simão doou-a à sua sobrinha Luiza, filha daquele seu irmão. Os descendentes venderam-na mais tarde, em 1789, ao Dr. Sebastião Gomes da Costa Pacheco. Bibliografia - Roberto Vaz de Oliveira, Ainda a Praça Velha – Vila da Feira. Revista Aveiro e o seu Distrito, n.º 11, 1971; Roberto Vaz de Oliveira, Quinta das Ribas – Família Vaz de Oliveira. Comissão das Comemorações, 1999 ALBERGARIA, Lopo Soares de (? - ?). Foi senhor do prazo e Quinta de Tarei, na terra da Feira. (Freguesia de Souto e Travanca). Fidalgo com brasão de armas dado pelo rei D. João III em 19 de Julho de 1549, era filho de Pero de Serantar Soares e neto de Lopo Vaz Soares. Casou pela primeira vez com D. Maria Mepelles e pela segunda com D. Branca Coelho, tendo tido de ambas descendentes. Teve relações íntimas com D. Joana de Albuquerque, filha de Nuno da Cunha, «e não querendo Lopo Soares casar com ela, fugiu e veio ao castelo da Feira, onde estavam os condes que eram seus parentes e lá ficou algum tempo com eles, porém, estando mal acomodado foi para casa de um cavalheiro que devia ter o apelido Homem». Ali se demorou alguns


meses a preparar a sua fuga para a Galiza. Andando um dia à caça com os condes na sua quinta de Tarei, foi assassinado «por mandado dos parentes de D. Joana de Albuquerque». Bibliografia - Roberto Vaz de Oliveira, «Quatro Séculos de história – Vila da Feira». Revista Aveiro e o seu Distrito, n.º3, 1967 e n.º 11, 1970 ALBERGARIA, Manuel Soares (1889- 1967). Nasceu nos Casais de Baixo, Rio Meão, em 2 de Abril de 1889. Era filho de Manuel Soares de Albergaria e de Ana Pinto de Jesus, neto paterno de Bernardo Soares de Albergaria e de Bernardina Rosa de Jesus, e materno de Luís Francisco da Costa e de Maria Pinto Rodrigues. Fez a escola primária em Rio Meão, entrou no Seminário do Porto, ordenando-se em Novembro de 1921, na diocese de Lamego, onde paroquiou as freguesias de Folgosa do Douro, Homezio e Fronteira de Castro Daire. Em 1924 os seus pais construíram, logo após a sua ordenação, uma capela dedicada a Nossa Senhora de Lurdes nos Casais de Baixo. Foi capelão em S. João de Ver e mais tarde foi nomeado para a freguesia de Madail, Oliveira de Azeméis, onde construiu uma ampla igreja e onde deixou «grande parte dos seus haveres». Diabético e quase cego, regressou a casa de seus pais onde ainda viveu alguns anos na companhia de duas irmãs solteiras. Faleceu na sua casa de Casais, Rio Meão, em 28 de Fevereiro de 1967 com 77 anos de idade. Era tio do padre do mesmo nome, Manuel Soares de Albergaria (ver entrada seguinte). Bibliografia - David Simões Rodrigues, Rio Meão - A Terra e o Povo na História. Edição da Junta de Freguesia de Rio Meão, 2001; Correio da Feira, 4.3.1967. ALBERGARIA, Manuel Soares (1916 - 1965). Nasceu no lugar do Gamoal, Rio Meão, em 1916. Era filho de José Soares de Albergaria e de Maria Joaquina de Jesus. Foi coadjutor de Cedofeita, colaborador da Rádio Renascença como angariador e mais tarde pároco de Pedrouços. Era sobrinho do padre do mesmo nome que tinha falecido em 28 de Fevereiro de 1967. Faleceu

em 1 de Janeiro de 1965, com 49 anos de idade, de leucemia, estando sepultado em Rio Meão. Segundo alguns testemunhos, foi uma pessoa caritativa «Dava tudo. Ficava sem nada». «Quando morreu não tinha um fato, uma camisa, umas calças decentes para levar para a cova e foram os paroquianos que arranjaram para não ir pior que um maltrapilho». Desprendido da vida («fez construir 8 casas para necessitados num terreno doado à igreja»). Bibliografia - David Simões Rodrigues, Rio Meão – A Terra e o Povo na História. Edição da Junta de Freguesia de Rio Meão, 2001

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SEM NOME João Pedro Mésseder* Tão longe as marés de luz e as ruas onde todos conheciam o meu nome. Caminhava na direcção da mata, caminhava como um filho do sol, colhendo os frutos da terra que madrasta se tornou. Na jangada da sorte, no porão do navio, entre as paredes geladas do camião, cheguei à pátria dos negreiros como carne de trabalho e mau viver. Ninguém me chama hoje pelo nome, que não tenho. Aqui só tenho cor – e o gume da pobreza feriu a minha alma, o meu olhar. Aqui só tenho cor e nada mais. E até os filhos que criei não olham esta pátria como sua, esta escola estes bairros e estas ruas. Ante os olhos da suspeita que não sabem resistir

ao canto das sereias mais impuras, os meus filhos desenham nos muros o seu grito. Hoje as pupilas me cercam – e os dias têm o peso das noites – dizem: o crime tem o teu nome, tem a cor da tua pele.

* Nasceu em 1957, no Porto, onde completou os seus estudos universitários e exerceu a docência. Publicou seis livros de poesia (os últimos intitulam-se Abrasivas e Elucidário de Youkali seguido de Ordem Alfabética), catorze títulos na área da literatura para a infância e uma antologia da poesia de Carlos de Oliveira. Três dos seus livros foram premiados.


Estalagens e Tendas Padre Manuel Leão* O trânsito de pessoas e dos animais que as transportavam fez criar, à margem das grandes vias de comunicação, estalagens e pequenos negócios feitos em tendas. Esta última designação abrangia pequenas oficinas de tanoeiro, albardeiro, oleiro, retroseiro, etc. A necessidade de apoio ao viajante foi reconhecida muito cedo, porque os conventos não tinham possibilidade de dar agasalho a toda e qualquer pessoa que aparecesse na portaria conventual. Em 1391, a Câmara Municipal do Porto resolveu fundar oito estalagens, sendo uma delas em Vila Nova. O desenvolvimento foi muito moroso: em 1482, só havia na cidade seis estalagens. Houve necessidade de proteger a fundação e funcionamento das estalagens, porque se chegou à conclusão de elas prestarem um serviço de carácter social. Os privilégios conhecidos tanto protegiam os donos das estalagens como a pessoa e bens dos que utilizavam os seus serviços. Os bens do hospedeiro ficavam defendidos; havia cuidado para evitar roubo da roupa; havia atenção especial para obrigar a pagar a conta antes de o hóspede partir. Para evitar a especulação,

havia uma tabela de preços para os serviços prestados, excepto a dormida quando o hóspede queria roupa de melhor qualidade. Os animais de carga, ao serviço da estalagem, não podiam ser requisitados para serviço oficial. O hospedeiro devia ter a sua casa guarnecida até com candeias para os hóspedes, assim como alojamento e pasto para os animais. As portas deviam estar bem fechadas para boa defesa dos haveres dos hóspedes. O estalajadeiro estava dispensado de pagar alguns impostos locais e até de certos serviços de interesse comum, bem como os seus animais. Os próprios produtos a consumir na estalagem gozavam de isenção de certos impostos. O estalajadeiro devia ter sempre alimentos para os hóspedes: pão, vinho, carne, peixe; para as cavalgaduras, cevada e palha. Tem algum interesse examinar como funcionava o sistema, de acordo, para este caso, com o respectivo livro do Arquivo Histórico Municipal do Porto(1). É interessante ver, através da forma como as pessoas estavam situadas em Gaia, como quase tudo se situava na rua Direita, numa parte chamada, além de Vila Nova, Povoação Nova, Terra Nova. O desenvolvimento de Gaia fez-se a partir dum núcleo muito antigo que era Gaia, 1)

AHMP Livro de licenças para tendeiros venderem na cidade, cota 1380.

* Natural de Milheirós de Poiares, concelho de Santa Maria da Feira, fez os seus estudos no Porto, tendo concluído o curso de Teologia e sido ordenado presbítero, na Sé do Porto, em 1943. Dedicou-se à educação e ensino, dirigindo o Colégio de Gaia, durante décadas. Esteve ligado à Fundação do Instituto Superior Politécnico de Gaia e Escola Profissional de Gaia, a cujas direcções pertence. Tem publicado numerosos estudos sobre história cultural do Porto e Vila Nova de Gaia, com incidência nos domínios da arte, da actividade livreira e do teatro portuense antigo. Tem promovido várias iniciativas de carácter social. Criou, em 1996, a Fundação Manuel Leão, com fins culturais e sociocaritativos.

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ou lugar de Gaia, à volta do Castelo, lugar cuja marca toponímica se manteve pelos séculos além, mesmo depois da destruição do Castelo, durante a Idade Média, no tempo de D. Dinis. O comércio marítimo e as profissões que suportavam este movimento portuário desenvolveramse mais na baixa, junto do rio. Vila Nova consagrou esse desenvolvimento fora do lugar de Gaia. Povoação Nova designava a parte mais alta, mais tarde chamada Palhacinhas (porque teria casas cobertas de colmo, as palhaças ou colmaças) e Bandeira. Esta lista que vamos apresentar é do tempo da ocupação espanhola, começa em 1606, para as tendas aprovadas para esta margem do Rio. Em 19 de Janeiro, Francisca Jorge, viúva, de Vila Nova, teve licença para ter três camas(2). Em 23 de Janeiro, Isabel André, de Vila Nova, teve licença para ter palha e cevada e dar duas camas(3). Em 28 de Janeiro(4), Brites Fernandes, viúva, de Vila Nova, obteve licença para dar duas camas. Em 26 de Janeiro(5), Luis Álvares, da Povoação Nova, podia dar duas camas. Em 26 de Janeiro(6), Antão Jorge, de Vila Nova, podia ter duas camas. Em 26 de Janeiro(7), Catarina Brás, mulher de Antonio Roiz, de Vila Nova, podia ter três camas. Em 26 de Janeiro(8), António Jorge, da Terra Nova de Gaia, podia vender palha e cevada. Em 28 de Janeiro(9), Maria Antónia, mulher de Manuel Ferreira, da Povoação Nova de Gaia, podia dar ~ hua cama aos pasageyros. Em 30 de Janeiro, Álvaro Dias, de Vila Nova, e sua mulher tiveram licença para venderem pão, carne, peixe, fruta, palha e dar duas camas(10). Em 17 de Fevereiro(11), Apolónia do Couto, Ibid. f.11. Ibid. f.14. Ibid. f. 20v. 5) Ibid. f. 25v. 6) Ibid. f. 25v. 7) Ibid. f. 25v. 8) Ibid. f. 26 9) Ibid. 35v. 10) Ibid. 50v. 11) Ibid. f. 59. 2) 3) 4)

viúva, de Vila Nova, tem licença para vender pão e dar de comer. Em 1626(12), havia um estalajadeiro castelhano, em Vila Nova. O domínio dos reis espanhóis favoreceu a vinda de espanhóis para o termo do Porto. Pero Vaz alugou casa com quintal, na rua Direita. No século XVIII, as estalagens aumentaram de número, algumas teriam mesmo criado mais qualidade, o que seria bastante raro. Os próprios estalajadeiros pediram carta régia, para fugirem às complicações e coimas dos magistrados municipais. A má qualidade da maioria prolongou-se, porque a liquidação de parasitas domésticos apareceu apenas depois da Segunda Guerra Mundial. A este propósito, há uma página de Rafael Bluteau que merece ser lembrada. Rafael Bluteau foi um frade de ascendência francesa e um dos influentes estrangeirados que tentaram espalhar ideias novas que pudessem ajudar o Reino a acompanhar o progresso conquistado nos países europeus da frente. Bluteau deixou-nos 10 volumes do seu Vocabulário Português (1712/28), onde encontrámos esta página satírica. Casa em que se dá agasalho e sustento por dinheiro aos passageiros e viandantes. Sem zombaria, entendo que se poderá derivar Estalagem de estalar, porque, em comparação das estalagens do Norte, entrar em estalagens de Portugal é estalar a paciência; sem bom alforge, é estalar de fome, e no rigor do inverno, é estalar de frio. Não desaprovaria esta etimologia Miguel Leitão de Andrade, que, no diálogo quarto da sua Miscelânea, compara umas com outras tão discretamente que não quero defraudar o leitor desta notícia. Bela cousa será ver aquelas estalagens de Itália e França que chamam Hostarias, onde as casas são uns paços, a polícia admirável, a limpeza aprazível, o serviço e recebimento do hóspede e gente da casa, o mais acariciativo que pode cuidar-se. Logo em chegando, vos tomam com uma mão a rédea, com outra o estribo, e eis que vos vêm brindar com qualquer cousinha ou doce, vos alimpam, lavam e vos entregam uma ou mais casas, armadas de seda e camas de brocado, cadeiras e bufetes, e tudo recendendo em perfumes. 12)

ADP Po 5,1ª s., 24, 105.


Se quereis comer a pasto (que dizem), vos servem à mesa, que em si é magnífica e limpa e concertada com toda a sorte de manjares: o faisão, a perdiz, o cabrito e veado, capão ou galinha, o pombinho, o carneiro e outras cousas, e diversos vinhos e frutas e doces e, no cabo, o finonchio que são umas cabeças de funcho, com sua semente confeitadas, para esgaravatarem os dentes. E tudo em um jantar por dous reales por pessoa. Se quereis damas, ali as achais, inda que só para entretenimento, com música e outros jogos. E é isto tanto em geral que em todas essas partes o achais e muito mais do que vos posso dizer. No que se pode bem ver quais pessoas e quão ricos são os que lá usam este Ofício, que tenho por mais nobre considerado bem que todo o outro ofício mecânico e ainda mercantil, continua o dito autor dizendo. Boa doutrina é essa para pregar nesta nossa terra, onde se teria por herética, em razão do que nela se pratica e usa, pois vemos que, além de a não usarem, se dão pessoas ou perdidas e quebradas ou muito baixas e de larga consciência, só a fim de roubar e esfolar os passageiros. E é isto tanto assim que, com não achares senão uma casa muito pequena, muito suja e tudo nela misturado: almocreves, albardas, azeites e disto assim, e uma cama com mil piolhos e pulgas e as bostelas pegadas de vinte que nela terão dormido. Vos aparece o hóspede muito encatarroado, por onde caminha Vossa Mercê. Eu sei bem este caminho e logo vos acode, que ele não era para este trato, porque é de tal geração, e tem um primo vigário em tal parte e seus parentes são da governança, etc. E não achais senão umas esteiras de tábua, cobertas de piolhos e mais moídas que sal, vos vem logo com esta arenga, etc. Tudo isto diz um português, e este muito amante da sua pátria, que a narração de costumes de diversas nações se deve considerar como relação para notícias e não como sátira para desdouros.

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SONHO DE LUZ Judite Lopes* Esta imensidão de mar que me arrepia a alma é força azul que ilumina o corpo e me alimenta o espírito com praias de lua cheia e regaços adormecidos nas horas do nada. Há uma festa de estrelas nas crinas do peito aberto aos aromas da natureza. Algures, nas margens do pensamento, vagueia um sonho de luz que me empresta segredos renascidos. Escuto a raiz do silêncio que rasga o brilho da manhã e deixo brotar o fogo dos desejos no leito ávido e febril entre algas molhadas e o poema azul do teu abraço que invento no fardo do tempo. * Licenciada em Animação Sociocultural. Autora do livro de poemas “Vislumbres”.


CONSTRUÇÃO DA ACTUAL IGREJA DE ESCAPÃES PROCESSO E INTERVENIENTES Introdução. Localização e generalidades Pe. Alves de Pinho* Escapães é uma das trinta e uma freguesias do actual concelho de Santa Maria da Feira, no distrito de Aveiro. Situa-se a nascente da cidade de Santa Maria da Feira, distância de 2,5 Km, confrontando-se, aproximadamente, do norte com Sanfins e Pigeiros, do sul com Arrifana e Milheirós de Poiares, do nascente com Pigeiros e do poente com Fornos. O seu nome deverá derivar de um genitivo patronímico, possivelmente germânico, configurado com «Scapus, scapanis» O seu orago é São Martinho de Tours. Conforme as fontes, a sua área é de 4,3 ou 5,5 Km2 e a sua população, ronda os 3000 habitantes. A sua implantação estende-se para nascente e poente da antiga Estrada Nacional – 1, Porto/Lisboa com maior superfície, estruturas e população na ladeira do poente. É também atravessada pela linha-férrea simples do Vale do Vouga. As indicações sumárias, anteriormente apresentadas são para nos ajudar a localizar a freguesia de Escapães e, nela o processo arquitectónico e o * Pároco de Fornos.

51 Mapa esquemático do concelho de Santa Maria da Feira, com a localização de Escapães.

compromisso notarial prévios, para a construção da actual igreja matriz. Com a implementação desse projecto a freguesia de Escapães foi singularmente marcada pelo principal edifício da sua identidade histórica, vai para trezentos anos. Desde então, até ao presente, é o mais relevante monumento da freguesia. No devir do tempo esta realização arremessanos para o primeiro quartel do séc. XVIII, quando o magnânimo D. João V governava o reino de Portugal e quando, na base deste território, bulia um povo irmanado pela mesma fé e solidário no mesmo torrão natal, guiado pelo voluntarioso Abade João Carneiro de Lima, primeiro de nome.


1. Fontes documentais

edifício, centro da vida paroquial de Escapães. Iremos começar pelo facto de Escapães, em tempos anteriores à actual igreja, pertencer ao padroado da Ordem de Malta, localmente representada pela Comenda de Rio Meão. 1. 1. Escapães e a Ordem de Malta Nesta súmula de referências seguimos de perto o estudo apresentado por David Simões Rodrigues na sua monografia sobre Rio Meão, freguesia de Santa Maria da Feira1. Terá sido em data incerta medieval (cfr. pg. 66), mas possivelmente no séc. XIII (há uma referência inicial de 1 de Janeiro de 1232), que Escapães, com outras diversas igrejas e freguesias das vizinhanças de Rio Meão e como tal conhecidas – Maceda, Arada, Lourosa, Nogueira da Regedoura, Paços de Brandão…

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Igreja Matriz de Escapães, Santa Maria da Feira

Escapães é uma terra antiga, acerca da qual há diversas referências e de diversas épocas, mas que não vamos considerar por não virem a propósito do tema, que nos propomos desenvolver. O assunto central deste estudo será a apresentação dos documentos fundamentais relativos à reconstrução da actual igreja de Escapães, a começar pela decisão de tal empreendimento, as condições de construção elaboradas para se abrir um concurso e a escritura notarial, que firmou o primeiro compromisso da construção entre as partes: os representantes de Escapães e o empreiteiro da Arte da Pedraria. Mas antes disso, queremos considerar circunstâncias envolventes, que melhor nos ajudem a conhecer o percurso seguido até à conclusão do actual

Velha igreja paroquial de Rio Meão e da antiga sede da Comenda da Ordem de Malta. - DAVID SIMÕES RODRIGUES, in Rio Meão / A Terra e o Povo na História, ed. Câmara Municipal da Feira e Junta de Freguesia de Rio Meão, de MMI, vol. I, pgs. 65/71.

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todas foreiras daquela Comenda e a ela sujeitas na apresentação dos Abades – foi adscrita ao padroado da Ordem de Malta. Mas, refere o mesmo autor, diversas informações e documentos mais explícitos relativos à Comenda de Malta de Rio Meão, enquanto padroeira de Escapães, ficaram-nos desde o ano de 1502, por causa de questões jurídicas acerca de tais direitos. Nessa data o comendador de Rio Meão, Frossos e Rossas, Fr. Bernardo Pereira, para ter documentação autêntica e actualizada a fundamentar o direito que lhe assistia de apresentação e colação dos párocos na igreja de S. Martinho de Escapães, requereu ao bispo do Porto, ao tempo D. Fr. João de Valadares, se dignasse mandar passar certidão do que constava no Censual da Mitra do Bispado do Porto, acerca desse direito. O bispo do Porto certificou em termos, que sucintamente passamos a citar: (pg. 69) «A quantos esta nossa certidão passada do livro das colações e confirmações, … acerca de cuja apresentação pertenciam as igrejas de … e de São Martinho de Escapães … de modo que fizesse fé … [virem], pronunciamos o nosso despacho…; e o escrivão da Câmara [certificou que] no ano de 1502 … consta a fls 5, do dito códice … um assento … do qual o treslado de verbo ad verbum é o seguinte»… Fomos consultar o Censual da Mitra2 e, de facto a fls. 5, (numeração original), encontrámos a confirmação daquilo que era objecto do requerimento, pois lá se dizia expressamente: «OSPITALL. Item a igreja de Sam Martinho de Escapães taxada em sesemta e çinquo livras he de apresemtaçam do Ospitall». E logo continuava: «Do ospital he aguora a comemda de Samtiaguo de Rio Meão da ordem de Sam Joham.» Tal certidão e com estas declarações, escritas em pública forma, terão satisfeito e documentado o bom do tal Fr. Bernardo! Nessa altura, por todas as razões, o edifício da igreja de Escapães devia ser uma simples construção de estilo românico, por ventura com alguma adjacência posterior. Essa era a forma constante dos templos religiosos – a arquitectura românica estava então em uso em todas as construções – uma vez, 2 - CÂNDIDO AUGUSTO DIAS DOS SANTOS, in O censual da Mitra do Porto, Publ. da C. M. P. 1973, pg. 196.

que vinham de uma inicial organização paroquial, aproximadamente contemporânea do nascimento de Portugal. E, porque assim foram construídos, assim se conservavam.

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Aspecto de uma igreja românica – S. Salvador de Várzea, Arouca. Nesta igreja, recentemente restaurada, evidenciam-se diversos aspectos: a torre é posterior ao corpo da igreja, possivelmente mais de 300 anos; da mesma época, é a porta principal e a janela que lhe fica acima, as quais foram modificadas para a forma rectangular, a substituir a porta de arquivoltas e arco ogival e o óculo circular sobranceiro. O pano de muro da nossa esquerda foi restaurado de acordo com o cânone original antigo. Esta igreja é, na sua arquitectura, com a recentemente restaurada igreja de S. Pedro, da Vila de Arouca, o espécimen mais representativo da arte românica, em Arouca.

O estilo de arquitectura gótica posterior, e depois dominante, nas igrejas (e palácios), até ao uso dos módulos clássicos, só nos aparece com frequência nas províncias meridionais de Portugal e depois da estabilidade territorial, pelo fim da primeira dinastia. No enquadramento desta discussão acerca do confirmação do direito de padroado, anos depois, em 23 de Março de 1630, o reverendo Abade de Escapães Licec.do Nuno Álvares Pereira Velho, foi à residência do vigário da igreja de Rio Meão, perante o juiz do tombo daquela Comenda, para prestar declarações e confirmar que, o direito senhorio do padroado da igreja de Escapães, era o Comendador de Rio Meão.


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E confirmou, para que tal depoimento constasse no novo tombo da Comenda, então, em elaboração. Continuamos a citar a pág. 70: «E logo por ele foy dito ao dito Iuis que elle era Abbade da dita Igreja de Escapaes, por renunciaçam que fez nelle seu tio João Alvares Moutinho, Abbade apresentado pello Comendador Duarte de Mello Pereira, … o qual [comendador], como senhor in solidum da dita Igreja, lhe deu licença para renunciar nelle dito Abbade … por ser sua a apresentação in solidum de todos os comendadores da dita Comenda de Rio meão, e isto que é de tempo imemorial, e assim lhe reconhecia na mesma conformidade a dita Comenda, e a seus Comendadores e sucessores por direitos senhorios [entenda-se: - aqueles, que, por direito enfitêutico, eram os senhores fundiários e primeiros proprietários da igreja, terras e habitações] na apresentaçam da dita Igreja e ser padroeiro dela … tudo com testemunhas prezentes, o Padre Antonio Teixeira, morador na cidade do Porto, Notário Apostólico (isto é, de nomeação e representação episcopal), e Manuel Godinho Homem, morador na Feyra … e declarou o dito Abbade que era Clerigo secular …» No dia seguinte, dia 24, continuou no mesmo lugar a nomeação, identificação, medição e demarcação das terras e pertenças do tombo da comenda de Rio Meão, em Escapães, como deve ser feito no acto de atombar. Nessa sessão, entre outras coisas, é apresentada uma certidão da Câmara Eclesiástica do bispado do Porto pelo seu delegado, o dito padre António Teixeira, (pg. 71) confirmando os direitos que eram reclamados pela Comenda de Rio Meão, em Escapães. De entre as diversas afirmações desta citação, podemos destacar os seguintes aspectos e conclusões: 1. O modo como o referido Abade Nuno Alvares Pereira Velho chegou a ser pároco de Escapães, o qual resultou de um parentesco e uma amizade que havia entre os dois, Álvares Moutinho, o anterior pároco, e o sobrinho Nuno Álvares Pereira, o pároco seguinte. Sem dúvida um acordo eficiente, que frutificou. 2. O referido António Teixeira declara, que viu um anterior tombo (já antigo) da Comenda de Rio Meão,

onde constavam os bens da comenda, localizados em Escapães. 3. Esse tombo antigo, escrito em quatro folhas de pergaminho, estava autenticado pelo sinal do público tabelião Braz Coelho. 4. E passou a ler o treslado da certidão: «In nomine Domini. Ámen. Saybam quantos este estromento de tombo e demarcação do assento [= casa de residência] e passais da Igreja de Escapaes, do Bispado do Porto e bem assim das mais casas e campos e herdades que à dita Igreja pertencem, cuja apresentação … he da Comenda de Rio meão … feito por mandado do Abbade desta Igreja … [e] do muito reverendíssimo Senhor … D. Barthezar [Limpo], Bispo do Porto … faço saber como no anno do Nascimento de Nosso senhor Iesu Christo [a 16 de Outubro de 1544] … para que o muito honrado Iorge Ribeiro, Abbade da dita Igreja de S. Martinho, me requereu a mym Notario, que lhe demarcasse os ditos passais … e bens, e passais das mais terras e casais pertencentes à dita Igreja, foros e sabidos, prazos e mais a ella pertencente … mandei chamar os caseiros da dita igreja … e logo disseram que todo o assento e casa do Abbade e pumar e casas do Cura era da dita Igreja e assim mais disseram que o campo do souto, e campo do Cura, e o campo da devesa e o campo da vinha velha, e corrente da hermida de Santo Antonio3 até fora ao monte e mão de pao, e o campo da eira, o campo das castanheiras, o campo do cortinhal, o campo do lodeiro, o campo do prado, o campo da vessada: todos eram da dita Igreja de Escapaes e que de tempo immemorial toda a agoa de Escapais era da dita Igreja, sem ninguém lha poder tomar, somente no tempo da rega dos milhos se parte por dia de São Ioão, reservando a dita igreja hum anel della … [24de Março de 1630]». 5. Digno de nota é também – porque o ficamos a saber – o nome daquele abade de Escapães de 16 de Outubro de 1544, anterior ao Registo paroquial – Jorge Ribeiro, citado nesta certidão. 6. É igualmente merecedor de atenção o direito consuetudinário da igreja, casa do abade e seus passais - A capela de Santo António, demolida há algumas décadas, ainda está na memória de muitos escapanenses, bem como o lugar onde estava localizada e o modo da sua implantação.

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terem, em todo o tempo do ano, a garantia de um anel de água dum principal caudal que rega as lavouras de Escapães, o qual em tempo de Verão é partilhado por diversos consortes, mas com reserva dessa quantidade de água. Esse mesmo direito é recordado, em 25 de Abril de 1758, pelo pároco de então, João Carneiro de Lima (2º de nome), nas respostas que deu ao questionário do Dicionário Geográfico de Luís Cardoso4, com toda a preocupação de que ele fosse conhecido e se respeitasse. A referida resposta é a seguinte: «Na fralda do mesmo monte nasce um rego d’agua que é desta igreja in solidum desde S. Miguel a S. João Baptista. No Verão anda agirada, entre a mesma igreja e os moradores dela, da qual água no tempo do gírio dos mesmos fregueses deve sempre correr um anel dela para a Igreja, à qual chamam água da povoação (?) e seu nascimento é no sítio de Penouços; e logo por baixo do dito rego da água, nasce outro que passa pelo meio da freguesia, porém «he commua». 6. A julgar pela amostra dos Tombos da Comenda de Rio Meão, citados por David Simões Rodrigues, datados respectivamente de 1629, de 1654 e de 1698-1702, conservados no Arquivo particular da Casa da Portela de Paços de Brandão, que naquela monografia foram muito parcamente referidos e que longamente foram estudados por esse autor, encontramos a referência a uma importante fonte histórica para conhecer o passado da freguesia de Escapães, no concelho de Santa Maria da Feira.

4 - ANTT - LUÍS CARDOSO, in Dicionário Corográfico … vol. XIV, n.º 49, fls.369. O Dicionário Corográfico de Luís Cardoso de 1758, também é conhecido como «As Memórias Paroquiais». Estas, relativas a Escapães, não são muito desenvolvidas, nem nos trazem grandes revelações históricas. Diz-nos ser seu donário o Infante D. Pedro, que tem 11 lugares, 100 fogos e 344 habitantes. A igreja tem 5 altares nomeados, 2 dos quais «ainda estão por compor, por ser igreja feita de poucos anos e a freguesia pobre»; o pároco é Abade e a igreja de concurso, rendendo anualmente 240.000 rs. Que foi da Religião de Malta, antigamente; que tem a ermida de S.António e a de S. Gonçalo. Só nos dias de festa 13 de Junho e 10 de Janeiro é que têm romagem, mais dos fregueses do que de fora da freguesia; quanto a frutos da terra, tem vinho verde de enforcado; correio é o da Feira; não há serra, mas um monte, onde corre a estrada de Lisboa; na parte do questionário respeitante aos rios, merece desenvolvimento a reserva do «anel de água» para a Igreja e a referência à ribeira de Nadais, «que vai morrer no Douro», em Crestuma. Tem uma azenha em Nadais. E as Memórias pouco mais dizem…

1. 2. Escapães e o Registo Paroquial Na sequência das disposições conciliares de Trento no fim do séc.XVI5, os párocos, entre nós, começaram a fazer o registo de todos os baptizados, casados, finados e crismados, que se realizaram nas suas paróquias, sob a sua jurisdição. Surgiram assim os livros do Registo Paroquial. Os dados identificativos dos paroquianos, sujeitos a esses actos, começaram por ser muito sucintos, mas com o tempo foram-se ampliando para melhor identificarem os fregueses, a quem diziam respeito. Ficou-nos assim uma documentação variada, autêntica e generalizada, envolvendo praticamente todos os indivíduos. Por excepção, inicialmente, não encontramos o registo de óbito dos indivíduos menores (abaixo dos 7, ou mesmo dos 10 anos), considerados ainda sem personalidade canónica. O Registo Paroquial, a partir desse tempo, passou a ser para todas as pequenas terras – as freguesias – uma afirmação da sua identidade, uma luz nova que se projecta sobre a realidade duma paróquia, mostrandonos a sua geografia humana, social, económica, cultural e moral, a par de muitas outras informações indirectas: idades, composição familiar, ramificação consanguínea, profissões, culturas agrícolas, emigrações, densidade demográfica, presença de epidemias, variação dos nomes dos lugares habitados, cultivados ou maninhos, enfim, os usos e costumes de determinada época e lugar, que inclusivamente podem ser estudados por métodos estatísticos para determinado período. Em Escapães6 o Registo Paroquial começou em 2 de Julho de 1587. Por maior interesse que haja nos pormenores personalizados do Registo Paroquial, não é nossa intenção abordar esse vasto e rico repositório de referências, mas sim apontá-lo como fonte imprescindível de quaisquer estudos daquela época. Aqui, consideramos o Registo Paroquial como fonte, principalmente para confirmar - Nas Constituições Diocesanas do Porto de D. FR. JOÃO MARCOS DE LISBOA, datadas de 1585, na Constituição Sétima diz-se textualmente: «que aja liuro em cada Igreja baptismal, em q se escrevã os baptizados, chrismados, casados, & defuntos». 6 - A. D. A., 1.º Livro do Registo Paroquial de Escapães. 5

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e relacionar muitos dados que queremos apresentar sobre a rica personalidade do pároco construtor da actual igreja e das circunstâncias, que envolveram essa realização, tanto quanto temos elementos para o fazer. 1. 3. Escapães e o Livro das Visitações

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Para nos localizarmos e acompanharmos o processo que exigiu uma nova igreja, recuamos a tempos anteriores a ela, considerando, sobretudo, os informes que sobre tal processo nos é fornecido pelo único, conhecido e sempre precioso Livro de Visitações7 de Escapães. Foram diversos os párocos que foram visitados naquele período de tempo. Foram muitos os aspectos considerados. Ainda que de leitura difícil, é com muita curiosidade que se aprecia este interessante, mas bastante mutilado e degradado manuscrito.

Exemplificamos: aqueles que eram relativos à celebração do culto e à conservação dos templos, à disciplina de costumes… os que repreendiam os abusos com as festas populares muito ruidosas, que se realizavam no adro da igreja e que o pároco havia de reprimir; os que davam orientações sobre os instrumentos e cânticos a utilizar na igreja; os que chamavam a atenção para os perigos morais que ameaçavam as mulheres, ou porque frequentavam saraus, ou porque iam aos moinhos após o pôr-do-sol, etc.; os abusos dos clérigos relativamente aos seus costumes e indumentária – uso do rapé, das gravatas e das cabeleiras; a decência, conservação e actualização dos espaços do templo, das imagens e das alfaias litúrgicas. Diversas vezes se faz referência a parcelas da igreja que necessitavam de reparação e actualização, sendo objecto de imposições ao pároco e aos paroquianos, sujeitas a prazo e, no caso de incumprimento, a pesadas penalizações pecuniárias.

7 - Livro manuscrito do Cartório Paroquial de Escapães, Santa Maria da Feira. As Visitações eram inspecções às paróquias, relativas ao estado da igreja, obrigações do pároco e paroquianos, correcção de costumes, promulgação e comunicação de constituições e orientações diocesanas e apostólicas, levadas a efeito por um delegado expresso do bispo às freguesias da sua diocese. Eram os visitadores. As visitações envolviam sempre a obrigação de serem escrituradas no livro exclusivo das Visitações, em forma de Acta, pelo secretário da visitação, que acompanhava o visitador. Esse livro era bem encadernado e zelosamente conservado no Arquivo da paróquia ao cuidado do respectivo pároco. Porque a acta da visitação constava de diversos artigos, versando as orientações a seguir e os assuntos a corrigir na freguesia, havia de ser lida depois, pelo pároco, à estação da missa em três domingos ou dias santos contínuos, para conhecimento de todos os seus fregueses.

Fac-simile de uma passagem do Livro das Visitações de Escapães, fls.16. Esta passagem diz o seguinte: (No texto) - “O Rdo Pároco, sob pena de excomunhão mayor ipso facto incorrenda, lea e publique esta Visitação a seus freguezes, em tres Domingos ou dias sanctos continuos e da publicação passará certidão ao pe Desta. data nesta Igr.ª aos 8 de Novembro de 1679. e eu, o pe Anto. de Souza Moreira, escrivão da Visitação, que o escrevy”

Ao fim da cada visita, o pároco ficava com a obrigação de anotar no mesmo livro e imediatamente a seguir, a declaração de que cumpriu a ordem de leitura, que lhe ficou no texto final da Visitação. Tais orientações ou reprimendas, designadas por capítulos da Visitação, não raro, constavam de chamadas de atenção ao próprio pároco, e dele, a denúncia aos seus paroquianos, de um qualquer seu desleixo; nem por isso o pároco podia deixar de fazer essa leitura, sob pena de incorrer nos mais pesados castigos. O livro, a que nos reportamos, é o primeiro Livro de Visitações de Escapães; outros, que tivessem existido, perderam-se. É um manuscrito incompleto, porque lhe faltam as folhas 12 e 39; mas também é incompleto, porque roto desde a folha 2 à folha 49, não permitindo conhecer-se todo o conteúdo, que inicialmente tinha. As visitações a que ele se refere, vão desde o dia 28 de Outubro de 1671, até ao dia 20 de Setembro (?) de 1712.


Numa das visitas – 21 de Setembro de 1698 – o visitador impõe que o «pároco proceda contra o juiz e eleitos da freguesia, para que em termo de vinte dias façam estatutos para governo da confraria geral da igreja, ou sub-sino, que em todas as igrejas deve haver» … Certamente que foram feitos, pois em todas as igrejas deveriam existir; mas se existiram perderamse como muitos outros testemunhos documentais daqueles tempos. Além da cópia, ou citação de documentos pastorais diocesanos, muitas advertências ou referências foram nele escrituradas. Vejamos algumas dessas passagens, que, em especial, se referiam ao estado e conservação da igreja. Visitação de 28 de Outubro de 1671 (fls. 2, v.º): «…os fregueses consertarão [na igreja] o telhado, na parte que falta …». Visitação de 4 de Maio de 1673: (fls. 3-v.º e 4) O visitador dita para o secretário da visita: «visitei a igreja, altares…e achei estarem decentemente venerados e a igreja bem servida no tocante à obrigação do pároco… [Ao pároco tocava a construção, manutenção e zelo da capela-mor; aos paroquianos, o restante da igreja] para depois continuar no tocante às obrigações dos fregueses: (à margem) «mandarão tapar um buraco» (e no texto) … na parede do baptistério … reparar o tecto…» depois na página seguinte: «… [Mandarão reparar o corpo] da igreja, naquelas partes em que está danificado e acabar de retelhar o corpo da igreja, como já lhe foi mandado na visitação passada; o que tudo cumprirão com pena de dez tostões para a Sé e meirinho8». Visitação de 25 de Setembro de 1674 e outra a 13 de Outubro de 1675. (fls. 6) 8 - O produto das coimas ou multas que estavam sob a alçada da disciplina eclesiástica, paroquial, ou diocesana, revertiam a favor da igreja episcopal diocesana (Sé), ou a favor dos oficiais de justiça, que dependiam da autoridade eclesiástica (semelhantes aos actuais oficiais de diligências), que pela diocese velavam pela cumprimento das disposições legais em vigor, a cargo das autoridades civis, ou religiosas. Eram os meirinhos (<maiorini) da justiça, detentores da autoridade, mesmo no foro civil. O produto das multas podia fazia parte da compensação, que pelo seu ofício recebiam.

O visitador acusa: «o rev.do Abade não tem satisfeito com as obras que lhe foram mandadas nas visitações passadas, ou por estar impossibilitado de suas doenças, ou por falta de aplicação das pessoas que lhe assistem; pelo que mando-lhe emende este desvio (?) tão contrário ao culto divino e à obrigação de quem o deve zelar; e porque não acho satisfeitas as obras que se têm mandado fazer, omito mandar outras de novo, por não dificultar mais o efeito das primeiras…» (E, à margem:) «o reverendo pároco não tem cumprido com o que nas visitas passadas se mandou, e que deve fazer» Visitação de 3 de Outubro de 1676. (fls. 6-v.º). O dr. Rev.do Sebastião de Carvalho Camelo, na sua condição de visitador mandatado pelo bispo da diocese, repara e intervém em muitos e curiosos assuntos disciplinares, que não vêm aqui a propósito. Destacamos o que ordena, relativamente à conservação da igreja: «Farão reparar logo a igreja na parte em que parece estar ameaçando ruína, picar e caiar as paredes por dentro e por fora e os dois altares colaterais com retábulos novos muito bem pintados e dourados e uma imagem de S. Sebastião ao moderno por ser informe a que tem; e consertarão o baptistério pondo-lhe portas com fechaduras e também umas novas na igreja; o que tudo farão até à Páscoa, sob pena de dez cruzados aplicados na forma sobredita». Acima, tinha-se ordenado: «todas as condenações acima declaradas e as mais que ao diante fizer, aplicar para a fábrica desta igreja, porque a pobreza em que a achei assim o pede». (fls. 8)

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Visitação de 29 de Setembro de 1677. (fls.9) O visitador continua o tema da reparação da igreja: «Os fregueses não têm satisfeito com algumas cousas que lhe mandaram fazer na visitação passada, pelo que incorrerão na pena de dez cruzados, que nela lhes foi cominada. Contudo por terem já cal para a igreja e as portas começadas os hei por condenados somente em dois mil reis; e mando façam tudo o mais que lhes está mandado, sob pena de dous mil reis para a Sé e meirinho»; «O rev.do pároco sob pena… leia e publique esta visitação aos seus fregueses à estação da missa em três domingos ou dias santos contínuos…»

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visita futura e não lhe comino penas, porquanto fio do seu muito zelo… Os fregueses mandarão dourar os retábulos dos alteres colaterais, até à visita futura...» Visitação de 17 de Maio de 1690 (fls. 29) «Os fregueses mandarão fazer dois ou três degraus de pedra para a porta principal no termo de um ano» Visitação de 30 de Setembro de 1696 (fls. 32) «Os fregueses em termo de um ano mandarão fazer um sino para a capela de Santo António…»

Visitação de 9 de Setembro de 1679. (fls. 15) Na visitação desta data o visitador adverte: «O oficial que está obrigado a fazer o retábulo para o altar mor o assentará perfeito e acabado até dia de Natal sob pena de quatro mil reis para a Sé e meirinho que irremissivelmente se executará, descontando-selhe no dinheiro que se lhe houver de dar, porquanto há muito tempo que se acabou o em que estava obrigado a fazer o tal retábulo [porque a] capela está em grande indecência por não ter […] O reverendo pároco lhe notificará este capítulo… Visitação de 7 de Setembro de 1680 (fls. 18) O visitador reprova o retábulo acabado de fazer. «O retábulo que se fez de novo para a capela mor não está suficiente para nela servir, porquanto em tudo está disforme, fora de medidas, sem remate ou guardapó e não vale o dinheiro que por ele se deu por conta dos frutos desta igreja, a qual fica muito prejudicada por respeito da lesão que há causada da imperfeição da tal obra. O oficial que a fez torne a repor o dinheiro em termo de trinta dias e se faça um retábulo suficiente, com as proporções simétricas da arquitectura por oficial que bem a entenda e saiba fazer o tal retábulo… Visitação de 27 de Outubro de 1684 (fls. 24-v.º) «Vi o retábulo da capela mor e está feito com toda a perfeição e para mais decência do culto divino mando ao rev.do pároco que o mande dourar até à

Fotografia (Sede da Junta de Freguesia) da antiga capela de Santo António, que existiu no Largo D. Rosália, de Escapãesde (1934?)9.

Visitação de 29 de Setembro de 1706 (fls. 43-v.º) «O reverendo Abade [note-se que, nesta altura, já era pároco de Escapães, há meia dúzia de anos, João Carneiro de Lima, primeiro deste nome] mandará fazer um lavatório de pedra para os sacerdotes purificarem as mãos com uma toalha nele, que tudo estará na sacristia na parte mais acomodada» - Esta fotografia, de amador, poderá ter sido feita pelo Abade de Escapães, Albano de Paiva Alferes, porque ele era um reconhecido amador fotográfico, que revelava as fotografias que fazia. Pároco de Escapães desde 1933 a 1942. Aliás, ele parece constar da fotografia encostado ao pilar da nossa direita, com batina e chapéu.

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Visitação de 24 de Setembro de 1711. O visitador dr. Bernardo de Azevedo e Carneiro, cónego prebendado na Santa Sé do Porto, nesta sua visita determina: «Os fregueses em termo de um mês mandarão caiar a igreja por dentro e consertar os telhados aonde for necessário; como também mandarão caiar a capela de S. António por dentro e por fora e pôr-lhe o campanário e nele o seu sino10; e mandarão também fazer-lhe uma escada de pedra de bastante largura por donde comodamente possam subir para o plano que está ao redor da dita capela; satisfarão em termo de seis meses e tudo o sobredito cumprirão com pena de quatro mil reis para a Sé e meirinho.» Estas foram as referências que nos foi possível identificar no Livro de Visitações, relativas à reparação e conservação da velha igreja de Escapães. São constantes as que estão relacionadas com a decência da igreja como lugar do culto, e as que manifestam a preocupação de actualizar o edifício da igreja, em muitos aspectos degradado e em ruínas, conforme o gosto que se foi generalizando pelo estilo clássico da Renascença11, com os cânones do maneirismo, no final do séc. XVII e princípio do XVIII. O Livro das Visitações acaba, mutilado com a falta das folhas finais, sendo bispo do Porto D. Tomás de Almeida e pároco João Carneiro de Lima, primeiro desse nome. - O campanário referido no texto, com toda a probabilidade, terá sido, aquele que a fotografia inserida apresenta. Se teve sino (sineta), no tempo em que a fotografia foi feita já não o tinha. Quanto à escada de três degraus, com guardas trabalhadas nos remates do muro e encimadas por pirâmides estilizadas, poderá ter sido aquela que a capela teve, até à domolição, conforme a mostra a mesma fotografia. 11 - Os críticos e estudiosos dividem o tempo da História afecta à civilização ocidental, em 4 grandes épocas: (não se contam os tempos pré-históricos) Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea. A Idade Média confina-se entre a queda do império romano do ocidente (455) e a queda de Constantinopla, capital do império romano do Oriente (1453). A partir desta última data, começa o espírito da renascença italiana, com cânones artísticos completamente diferentes do período anterior: - era o regresso aos clássicos tempos greco-romanos. Então se começaram a chamar «cânones modernos». É este conceito que, em 6 de Outubro de 1676, é aplicado por um visitador à igreja de Escapães, quando manda substituir uma imagem de S. Sebastião, por inestética e «informe», certamente porque românica e de pedra, por uma outra, pintada ao moderno, isto é, em estilo naturalista, pelas proporções, cores, carnações, roupagens e movimento, como se vulgarizou lentamente, a partir do séc. XVI. A expressão ao moderno, aparece-nos com frequência nesta época, nos contratos entre as instituições eclesiásticas e os artífices entalhadores e douradores, que, quando eram mais vultuosos eram objecto de contratos notariais, muitos ainda conservados nos arquivos dos registos notariais. 10

De entre as mutilações, certamente devidas ao tempo e ao descuido, parece-nos haver uma certa incidência no que diz respeito ao pormenor das obras de reparação a fazer na igreja e às suas penalizações cominadas, no caso de haver descuido. Mas admitamos, que as mutilações foram mais consequência do tempo e obra do acaso, do que de um encobrimento intencional. 2 . Párocos 2. 1. Abade João Carneiro de Lima (1.º de nome) Pelo Livro de Visitações sabemos que no final do séc. XVII a paróquia de Escapães esteve muitos anos sem Abade colado e orientada por padres encomendados, que como tal se apresentam, ao assinar os respectivos registos. Porém, no estudo que vamos prosseguir queremos ter em conta, especialmente, o tempo a que corresponde o ministério do Abade João Carneiro de Lima, 1º deste nome. Foi sem dúvida, um dos párocos de Escapães de maior relevo e projecção. Com alguma persistência foi possível encontrar bastantes dados biográficos deste pároco do princípio do séc. XVIII. Eles serão suficientes para melhor compreendermos algumas circunstâncias relacionadas com a sua pessoa, com as realizações paroquiais e com aspectos sociais, que o envolveram.

Fac-simile do 1.º registo de Baptizados do Abade João Carneiro, 1º de nome. (duas vezes auto-apelidado deste modo)

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O Abade João Carneiro de Lima aparece-nos como responsável do Registo Paroquial dos assentos dos baptizados, casados, falecidos e crismados daquela freguesia a partir 13 de Setembro de 1699,12 até à data da sua morte, ocorrida em 6 de Julho de 1748.13 Ao lermos os livros do Registo Paroquial de Escapães, correspondentes ao séc. XVIII, encontrámos mais do que um pároco com o nome de João Carneiro de Lima, pelo que, para os distinguir juntamos o ordinal correspondente a cada um: João… o primeiro deste nome14; João… o segundo deste nome… etc. Agora sabemos que ele nasceu e foi baptizado com poucos dias de vida na freguesia de São Tomé da Correlhã, concelho de Ponte de Lima, no dia 29 de Março de 1670,15 sendo pároco o Reitor Manuel do Couto Ribeiro. Ele era filho de Martinho Carneiro, homem viúvo16 do lugar do Souto e de Isabel Gonçalves17, do lugar da Bezerra18, ambos da Correlhã, Ponte de Lima. - A. D. A. 2º Livro manuscrito do Registo Paroquial de Escapães, desta data. O registo de Baptismo de Escapães, de um Manuel filho de João da Mota, de Nadais, datado de 13 de Setembro de 1699, é o primeiro assento feito por este novo pároco, no qual ele se assina João Carneiro, sem mais. 13 - João Carneiro de Lima (1.º de nome) veio a falecer em Escapães, conforme o seguinte assento: (não é cópia literal) – João Carneiro de Lima, Abade que foi desta igreja, faleceu com todos os sacramentos em 6 de Julho de 1748; sepultado na capela maior, com todas as vestes sacerdotais. Fez testamento nomeando como sua herdeira a sua irmã Isabel Carneira, com obrigação de lhe fazer seis ofícios de seis padres cada um e de mandar celebrar seiscentas missas pela sua alma; e de dar 100$000 reis a Manuel, filho de Joana da Cruz de Nadais, para ajuda de ser religioso; logo que o não seja, se distribuirá a dita quantia entre os outros irmãos e irmãs; que dê 12$800 reis que lhe devia o padre António Alves Vieira de Nadais e que lhe perdoava 4$800rs. Deixou por seu testamenteiro a João Carneiro de Lima, deixando-lhe todos os seus moveis … que se achassem em sua casa à hora da sua morte. À herdeira deixava também a obrigação de dar ao padre João Carneiro Cabeças, de Fornos 4$800 reis e 12$800 reis a cada um dos criados das soldadas que lhes devia. O registo de óbito é assinado pelo encomendado, Manuel Marques de Matos.

Ele teve, pelo menos, duas irmãs. Uma com o nome de Domingas. Casada com João Vaz19, «o Misca», a qual morreu cedo, deixando um casal de filhos gémeos: João20 e Maria21. Outra com o nome de Isabel22, baptizada a 11 de Setembro de 1672, que depois o acompanhou até à morte, em Escapães. Continuando a reconstituir o parentesco deste futuro Abade de Escapães, encontrámos outros dados que apresentaremos adiante e oportunamente. O padre João Carneiro, primeiro de nome, antes de ser pároco de Escapães, deve ter exercido o ministério noutra paróquia, atendendo à possível data da ordenação e ao primeiro assento do Registo Paroquial de Escapães. Mas, não conseguimos apurar onde. Para melhor conhecer a sua personalidade buscámos nos índices informatizados do Arquivo Distrital de Braga os processos «de genere»23 para recepção de Ordens Sacras (estado clerical).

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Fac-simile duma das últimas assinaturas do Abade João Carneiro de Lima; precisamente, aquela que figura no assento de óbito anterior ao seu próprio assento de óbito. Notar alguma indecisão no início, ao escrever «o Abb.e».

- No Índice do Arquivo Distrital de Braga e relativos à freguesia da Correlhã do concelho de Ponte de Lima, encontram-se mais de cinquenta processos «de genere» de clérigos de diversas épocas e de diversos nomes, onde, o sobrenome «Carneiro» era frequente e relativos à freguesia da Correlhã, do concelho de Ponte de Lima. 15 - Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Reg.º Paroq. de Correlhã, Ponte de Lima, Livro 6.º , fls. 63. 16 - Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Reg.º Paroq. de Correlhã, Ponte de Lima, Livro 6.º , fls. 95-v.º 17 - Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Reg.º Paroq. de Correlhã, Ponte de Lima, Livro 6.º , fls. 97,v.º. 18 - Ver esquema parental e cronológico no Apêndice Documental, apresentado ao fim do trabalho. 14

- Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Reg.º Paroq. de Correlhã, Ponte de Lima, Livro 6.º , fls. 105-v.º. O assento aqui citado, embora com uma grande semelhança de nomes, não pode ser o que se quer referir, tendo em conta as datas e os avós maternos. 20 - Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Reg.º Paroq. de Correlhã, Ponte de Lima, Livro 7.º , fls. 29-v.º Este é o futuro padre João Carneiro Cabessas, que, como sobrinho do padre João Carneiro de Lima, 1.º de nome, esteve em Escapães e que, depois, se fixou em Fornos, como veremos. 21 - Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Reg.º Paroq. de Correlhã, Ponte de Lima, Livro 7.º , fls. 29-v.º; e A. D. A. Registo Paroquial de Escapães / Livro dos Casamentos, relativos a esta data. Esta veio a ser a Maria Carneira que veio a casar com António Marques de Matos, da Quintã e foi mãe do 2.º padre João Carneiro de Lima. 22 - Arquivo Distrital de Viana do Castelo, Reg.º Paroq. de Correlhã, Ponte de Lima, Livro 6.º , fls. 95-v.º 23 - Arquivo Distrital de Braga, Processos «de genere» para clérigos. Os processos «de genere» eram uma inquirição que sempre se fazia, antes de se aceitar o requerimento dos candidatos ao estado clerical e à recepção de ordens sacras, para se averiguar das condições e qualidades dos candidatos à recepção das ordens sacerdotais, precedendo a recepção das mesmas. Eram organizados pela respectiva Cúria, para inquirição junto de testemunhas idóneas, isto é, da vizinhança dos lugares que o inquirido frequentara, ou que estavam relacionados com os seus familiares e respectiva avoenga, até aos avós e bisavós. Era escolhido para testemunha quem tivesse suficiente crédito local e social. Pretendia-se saber da sua família, da inteireza de sangue, do seu comportamento, costumes, religião, etc. As diversas testemunhas (6, ou 8) identificadas, de madura idade, ajuramentadas para dizer a verdade e guardar segredo, eram chamadas a deporem sobre aqueles requisitos do candidato, perante o delegado da inquirição e de um seu secretário, sempre identificados. Estas inquirições eram feitas não só na freguesia da residência do candidato como também em todas as freguesias onde ele, ou qualquer dos seus ascendentes próximos tivesse habitado. Tais processos eram repetidos nos 19


Dentre os diversos processos que se referiam a João Carneiro, (porque não encontrámos nenhum com um nome completo «João Carneiro de Lima») e requisitados para análise, pareceu-nos que, aquele que mais se aproximava do 1.º Abade de Escapães, João Carneiro de Lima, pelas datas, sobrenome e naturalidade (São Tomé da Correlhã24 termo de Ponte de Lima, 3ª parte da Visita de Nóbrega e Neiva na classificação de Pinho Leal,25) era o constante da Pasta 132, sob o número 2863, datado inicialmente de 16 de Maio de 1691 e continuado em 7 de Outubro de 1694, sob o simples nome de João Carneiro Neste processo, que sumariamente analisámos, a identidade do candidato era a seguinte: padre João Carneiro, filho de Martinho Carneiro e de sua mulher Isabel Gonçalves, naturais e moradores na freguesia de S. Tomé da Correlhã, no lugar da Bouça, Termo de Barcelos, neto paterno de Domingos Carneiro e de sua mulher Inês Cabeças e neto materno de G.[onça]lo Thezido e de sua mulher Catarina Gonçalves, todos da Correlhã e lavradores. Na continuação da busca, mais tarde encontrámos o registo de óbito de Isabel Carneira, irmã e principal herdeira deste pároco de Escapães26. Pelo que lá constava fazia-se luz sobre as dúvidas que envolviam a identidade deste 1.º João Carneiro de Lima. De facto, nesse assento datado de 15 de Abril de 1751, alguns anos depois do óbito do referido abade, afirmavase que essa Isabel Carneira era solteira, maior, a viver na Residência (paroquial) de Escapães, filha que ficou

diversos graus da ordenação: primeiro, para se ser integrado no estado clerical com a prima tonsura; depois para se receberem sucessivamente as ordens de epístola, evangelho e missa. Uma vez concluídos eram guardados nos arquivos secretos das cúrias diocesanas. Muitos perderam-se, ou foram destruídos. Outros continuaram arquivados e foram posteriormente incorporados, por nacionalização, nos fundos dos arquivos nacionais e distritais. Alguns terão escapado a este percurso e ainda se encontram na reserva da documentação eclesiástica. Quaisquer deles são uma curiosa fonte de muitas informações. 24 - O nome desta freguesia, «Correlhã», advém-lhe das suas características agrícolas em tempo do domínio romano, continuadas na medievalidade, em que ela constituía uma unidade agrícola chamada «Villa Corneliana», por ventura, nome derivado de um seu importante possuidor, chamado Cornélio. Actualmente, Correlhã é uma próspera freguesia do concelho de Ponte de Lima, contígua à vila, a juzante do rio Lima e na sua margem esquerda. 25 - Ver Portugal Antigo e Moderno – Dicionário Geográfico de Pinho Leal, 1874, Vol. Segundo, ed. fac-similada, s.v. «Correlhan», pg. 386 e sgts. 26 - O teor do assento de óbito de Isabel Carneira consta do Apêndice Documental.

de Martinho Carneiro da Correlhã. Tinha bens que «seu irmão João Carneiro de Lima deixou a ela defunta em seu testamento, tanto de dinheiros como de bens...». Mais: que ficou «com obrigação de dar a Manuel, filho que ficou de João da Cruz de Nadais, desta freguesia, ordenando-se de clérigo, ou religioso, ou a seus irmão e irmã cem mil reis em sastisfação [sic] dos que ela era obrigada a dar na forma que seu irmão dispôs em seu testamento». Conferindo-se o testamento do velho abade, vemos que ele refere esta mesma cláusula do testamento de Isabel Carneira. Assim, por esta coincidência, se esclareceu a identidade deste pároco, de seus pais e sua terra. Então, o primeiro Abade de Escapães era filho de Martinho Carneiro e de Isabel Gonçalves, da Correlhã. Aquele duvidoso processo do Arquivo Distrital de Braga era o seu processo «de genere», que nos dava mais informes sobre os seus ascendentes27. * Intrigante foi que este Abade de Escapães, depois de residir algum tempo naquela freguesia, deixasse de assinar o seu nome «João Carneiro» para o assinar posteriormente, e sempre, até ao fim da sua vida «João Carneiro de Lima». Pelo relevo que depois alcançou como pessoa e como pároco, ele deu tanto brilho e importância ao seu sobrenome composto daquele modo, que ele se iria perpetuar não só no seu sobrinho-neto e sucessor padre João Carneiro de Lima (2º de nome), como no seu sobrinho-bisneto padre João Carneiro de Lima (3.º de nome). Mas, não só: esse sobrenome estender-se-ia a um vasto leque da descendência da sua sobrinha e conviva em Escapães, Maria Carneira. De tal modo o nome era um cartão de apresentação, que se tornou um sinal de importância e distinção, como indicativo de relevo social e parentesco autêntico, até ao nosso tempo. Note-se: a persistência - O desenvolvimento que vimos trazendo à busca da identidade do Abade João, o primeiro, perdeu alguma oportunidade depois de termos consultado o Arquivo Distrital de Viana do Castelo, onde encontrámos respostas para muitas das nossas dúvidas. Elas já foram esclarecidas ao desenvolvermos inicialmente este capítulo.

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do sobrenome tinha as duas formas: «Carneiro» para os homens e «Carneira» para as mulheres – grafia incorrecta, mas que foi habitualmente assumida: Carneira de Lima. Interpretamos esta alteração como tendo dois motivos principais: Primeiro, a homenagem à sua Correlhã natal, freguesia a jusante e confinante com a sede de concelho, Ponte de Lima, toda ela limitada a norte, no sentido nascente-poente, pela tão decantada ribeira do Lima28. Terra fértil, plácida e frondosa, marginalizada pelas águas límpidas do rio, carregada de belas tradições, suscitou nele uma sentida e viva memória, que, mesmo longe, a não esqueceu. Antes, tornou o rio Lima tão presente que o acoplou ao seu próprio nome. Se até ali o seu nome de baptismo e de família era João Carneiro, pela sua pátria natal sempre seria «João Carneiro de Lima».

Capela românica de Santo Abadão, junto à Igreja Matriz da Correlhã. Seria assim a anterior igreja de Escapães.

- A ribeira do Lima foi um tema dominante na poesia lírica de seus naturais, Diogo Bernardes, pela maviosidade e lirismo com que a cantou; mas outro tanto acontecera com a poesia do seu irmão Frei Agostinho da Cruz, enquanto viveu no século, pois que, ao fazer-se frade, por essa poética ser profana destruiu-a. A ribeira do Lima é célebre desde a antiguidade clássica. No tempo da conquista romana, o rio Lima foi considerado como sendo o mitológico rio Letes – o rio do esquecimento. Atravessar o rio, era esquecer-se de todo o passado. A lenda diz que um general romano, tendo-o atravessado, de lá chamou um soldado, que ficara retido na outra margem, sem ter esquecido o seu nome. Verificado o sem fundamento da lenda, tinha-se vencido o enguiço. Ver, José Hermano Saraiva, in Temas de Historia de Portugal, I, Círculo de Leitores, 1989, pag. 39, 2ª coluna. No site da Correlhã, acessível através da Internet, encontrámos outras informações, que confirmam a importância desta freguesia, tanto no passado como no presente. Lá consta: a Correlhã foi concelho, extinto em 1846 e pertenceu aos Arcebispos de Compostela até 1426, tendo posteriormente sido comprada pelos Duques de Bragança. É atravessada por uma via dos caminhos de Santiago. A sua igreja matriz é um templo românico, atribuível ao século XIII, de uma única nave e ábside quadrangular. Modificada no interior de uma forma quase radical, mantém, todavia, externamente a estrutura primitiva — se bem que com diversos ultrajes. Destaca-se no edifício o curioso conjunto dos modilhões, a toda a volta da igreja, representando figuras humanas, animais ou motivos fitomórficos. Obra igualmente românica, de mestres provincianos do século XIII, (?) é a [adjacente] Capela de Santo Abdão, a qual desperta interesse pelas suas proporções reduzidas e pela decoração. Curioso o facto de, na porta principal, entre duas composições esculpidas, ter existido, em relevo, uma figura masculina desnuda (de Adão?) que, por ordem eclesiástica e por ser considerada uma imagem impudica, se picou em 1750. No interior do pequeno templo assinala--se o arco triunfal da ábside, sustentado por colunelos românicos com capitéis. Um retabulozinho dos começos do século XVIII enquadra a escultura de madeira do padroeiro da capela — Abdão, eremita e peregrino lendário. Entre as duas igrejas existem sepulturas antropomórficas abertas na rocha. Certamente, foi por tudo isto, com que João Carneiro comungava, que ele quis incluir Lima no seu sobrenome.

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Porta principal da Igreja Matriz de S. Tomé da Correlhã, após trabalhos de restauro nas suas arquivoltas, capitéis e tímpano.

Segundo, porque alguns anos depois de estar colado como abade de Escapães, também veio para a sua companhia, como padre capelão e coadjutor, um seu sobrinho, que por igual se chamava simplesmente, «João Carneiro». Para não haver confusões entre ele e o abade, este começara a chamar-se João Carneiro de Lima; o sobrinho passou a chamar-se «João Carneiro


Cabeças», em homenagem ao sobrenome de uma das suas ascendentes familiares. Assim, um e outro adoptaram esses nomes, permanentemente, até ao fim da vida. Mas, casos semelhantes a estes, na época, eram frequentes, respeitado o primeiro nome – o do Baptismo. * João Carneiro de Lima é, como vimos, Abade de Escapães desde 1699 até 1748. - Qual o seu percurso até chegar a essa condição? As Memórias Paroquiais, já anteriormente citadas, escritas pelo segundo Abade João Carneiro de Lima, em 1758, à 8ª interrogação «se o pároco é cura, vigário, reitor, prior ou abade e de que apresentação é e que renda tem», respondeu: «o pároco [actual] é Abade por renúncia. A igreja é de concurso, caso não seja renunciada. Rende 240.000 reis e foi da Religião de Malta, antigamente». Por esta resposta vemos que o seu autor, 2.º Carneiro de Lima, é pároco, porque beneficiou da renúncia do pároco anterior, que era precisamente o seu segundo tio, 1.º João Carneiro de Lima. E, vem-nos à ideia o que aconteceu no tempo do antigo abade, Nuno Álvares Pereira Velho: foi pároco, porque nele tinha renunciado o seu tio João Álvares Moutinho. O mesmo não aconteceu com o 1º Carneiro de Lima, porque não tinha quem nele renunciasse. Teve de se propor a concurso e sujeitar a exame, para obter este benefício eclesiástico. A igreja vagara de um abade anterior e ficara entregue a um encomendado; a autoridade diocesana, entretanto, abriu o concurso para a abadia de Escapães e a ela podiam concorrer os padres, que entendessem preencher as condições para serem nomeados29. Depreendemos que João Carneiro de Lima, talvez já a paroquiar uma pequena freguesia da diocese do Porto, confiado nos seus dotes e provas dadas, requereu participar no concurso. Concorreu - Antigamente, antes das orientações tridentinas, a igreja de Escapães era posta a concurso pelos padroeiros – a comenda de Malta e depois essa nomeação era confirmada pelo papa; mas, no tempo a que nos reportamos, a apresentação já era do bispo da diocese do Porto.

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e ganhou. Teve padrinhos influentes, que o ajudaram na colocação? Beneficiou do empenhamento do comendador de Rio Meão, ou de Leça do Balio, (titulares da Ordem de Malta), que o tivessem proposto e por ele tivessem intercedido? Não o sabemos, mas o recurso a tais expedientes existia e poderia ter sido usado. Após os exames a que se submeteu, foi considerado o mais digno e o mais apto. Com o placet da Comenda de Rio Meão, requereu as cartas apostólicas (pontifícias) de nomeação, que obteve, e foi colado no ofício e benefício de Abade de Escapães. Começou o seu ministério, como vimos, em 1699, com uma igreja pequena, degradada e em ruínas; assumiu-se como responsável pela conservação e zelo da capela-mor; deu provas de empenhamento e dedicação; impôs-se à consideração de seus paroquianos e dos seus pares; conquistou a condição de ser influente local. Isto se depreende do Livro das Visitações e da sua acção pastoral testemunhada nos assentos dos livros paroquiais, embora com laivos de interesseiro, se formos a fazer fé no seu testamento: não pagara em vida todas as suas dívidas, tendo dinheiro, mas deixou-as aos seus herdeiros, para que as pagassem. A igreja de Escapães não tinha sacrário nem reserva eucarística para socorro dos doentes e moribundos. Empenhou-se para conseguir para a igreja a faculdade de ter sacrário. No Registo Notarial da Feira30 consta que o pároco, o juiz e os oficiais da igreja com a maior parte do povo da freguesia de Escapães fizeram uma escritura de obrigação para se colocar o Santíssimo Sacramento por Viático, com a relação de todos os subscritores e dos encargos assumidos para se associarem em confraria e terem continuamente na igreja, com o sacrário, uma lâmpada acesa. Foram muitos os chefes de família, que participaram nesse compromisso e dão-nos uma ideia aproximada da população existente, do seu nível social e dos meios relativos da fortuna pessoal. Outra nota de registo da sua influência social é o número de pessoas que trouxe da Correlhã, cada vez mais ampliado, não só para rendeiros das propriedades - A. D. A. Registo Notarial da Feira, do tabelião João Correia Pereira, Escritura datada de 19 de Novembro de 1717.

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da igreja ou de seu próprio serviço doméstico, como também para ofícios eclesiásticos à sua responsabilidade, ou outras diversas e difusas carreiras sociais. Muitas mais referências a pessoas e a acontecimentos se encontram dispersas pelas muitas folhas do Registo Paroquial da sua lavra. Nelas, encontramos uma grafia firme, concentrada e limpa, denunciando o carácter do seu autor. 2. 2. Abade João Carneiro de Lima (2.º de nome)

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Outro dado esclarecedor da identidade do pároco de Escapães, João Carneiro de Lima (1.º de nome), de que vínhamos falando, foi o facto de, no seu registo de óbito, assinado pelo encomendado padre Manuel Marques de Matos, constar que o seu testamenteiro e parcial herdeiro foi um tal João Carneiro de Lima. É que lá não se dizia que, além de testamenteiro e herdeiro, ele era filho da sua sobrinha Maria Carneira, clérigo e candidato a sucessor do velho abade, como de facto veio a ser e a quem denominaremos Abade João Carneiro de Lima, segundo de nome. Assentes nisto, haveria algum fio de meada, que melhor nos elucidasse? Felizmente que sim. Na busca que fomos fazendo encontrámos dois ricos mananciais de informação, que directamente diziam respeito ao Abade de Escapães, João Carneiro de Lima (segundo de nome), e que, embora indirectamente, também iluminavam uma vasta trama da identidade de três «João Carneiro de Lima» e do seu interrelacionamento familiar.

de um candidato a ordens sacras de Fornos, Feira e devidamente identificado. Por este processo, conforme veremos, ficamos a saber que este clérigo já é o Abade de Escapães, pois «por título apostólico consta que o suplicante já está colado na abadia de Escapães», mas que ainda não fora ordenado de ordens sacras; pelo que ele faz um requerimento ao Ordinário diocesano para se ordenar, apresentando, como seu património para a ordenação de presbítero, o benefício da igreja de Escapães; com a condição jurada de se obrigar a não renunciar a ela, sem que tenha garantido para si uma côngrua sustentação, uma pensão de, pelo menos, 40$000 rs, em cada ano. De facto, ele já possuía o título concedido por Breve da Santa Sé, de ser o Abade colado de Escapães, mesmo sem ser ainda padre. O que agora lhe faltava era ser aceite para se ordenar na Ordem de presbítero. Antes de mais, prestemos atenção à data deste processo: é no fim do ano de 1748, isto é, depois de ter falecido o 1.º abade, João Carneiro de Lima. Por isso esta diligência está directamente ligada ao processo de sucessão do padre Carneiro de Lima, primeiro de nome, quer no benefício, quer no ofício de presidir aos actos do culto, administração e ministério em Escapães. 2. 2. 2. Transcrição do processo «de genere», da ordenação de João Carneiro de Lima (2º de nome)

2. 2. 1. O processo «de genere» deste 2.º Carneiro de Lima O primeiro manancial encontra-se no Arquivo do Paço Episcopal do Porto. Ao buscarmos o que se podia encontrar neste arquivo relativo a paróquia de Fornos, Feira, fomos encontrar a referência a um processo constante da pasta das Inquirições «de genere»31 - Arquivo da Cúria Diocesana do Porto, Paço Episcopal, procº n.º 588 e relativo a (padre) João Carneiro de Lima, datado de 12 de Dezembro de 1748.

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Fac-simile do 1.º requerimento de João Carneiro de Lima «que se quer ordenar a título de seu benefício» (fls.2)


[fls. 1 - Capa] Escapaes / Património / Feyra / Fornos da fr.ª / O R.do Abb. João Carneyro de Lima / Maço 7º. / Autos de Patrimonio a favor do R.do Abb.e de Escapais / João Carneyro de Lima / Camera / Anno do nassimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e sete centos e quarenta e oito annos, aos doze dias do mês de Dezembro do dito anno. [fls. 2] Diz o R.do João Carn.ro de Lima Abb.e de S. Martinho /de Escapains da Com.a da Feyra q se quer ordenar att.o [a título] de seu / benef.o e quer fazer tr.o [termo] na forma praticada em seme / lhantes / P. a V. Sn.ª m.de q o R.do Sc.am [Pede a vossa senhoria mande que o reverendo escrivão] da Camera lho / tome na forma q se costuma. [fls. 3] / Termo que faz o R.do /João Carneyro de Lima / Abb.e de Escapais / com.ca da Feyra. Aos doze dias do mês de Dezembro de mil e sete centos e quarenta e oito annos nesta cidade do Porto e cartório da Camera Eccl.a ahi perante mim Escrivão della aparesseu prezente o R.do João Carneyro de Lima Abb.e da Parrochial Igreja de S. Martinho de Escapais com.ca da Feyra deste Bispado e por ele foi dito e declarado que em virtude do despacho retro do M.to R.do Dr. Provisor, lhe tomase seu termo de como permetia e se obrigava a não renunciar a dita sua Igreja, sem tirar para sua congrua sustentação o patrimonio ao menos a penção de quarenta mil reis em cada hum anno; pois se queria ordenar de Ordens Sacras a titullo da dita Sua Igreja e por esta se dotava com ella para seu património com a clauzula asima declarada, ao que satisfis fazendo esta, e de como assim o disse prometeo e sobrigou debayxo do juram.to dos Santos Evangelhos que da minha mão para isso recebeo. Fis este termo que elle leo e asinou. E eu o P.e Fran.co da Costa Escrivão da Camera Eccl.a que o escrevi. [Seguem-se assinaturas:] João carnr.o de Lima / O P. Fran.co da Costa.

[fls. 4] V.ta ao M.to R.do Dr. Promotor [Vista ao muito reverendo doutor Provisor] / Como pelo tt.o [título] app. o [apostólico] consta estar o supp.te collado na Abbadia de Escapays da Com.a da Feyra deste Bispado; e render de fructos certos e incertos melhor de trezentos mil e pello tr.o [título?], [fl 2-vs.º] queyra nelles constituir seo património; e não resignar o d.º beneficio sem nelle reservar a congrua e penção de quarenta mil reis annuos p.a subsistência do d.o património não se me offerece duvida q assim se julgue por sn.ça [sentença] / Promotor / [rubrica] Dr. Faria / Aos quatorze dias do mês de Dez.ro de mil e setecentos e quarenta e oito annos forão dados estes autos com a reposta de nella [?] os fis conclusos ao M.to Rd.o Dr. Provizor. E eu o P.e João Bap.ta de Carv.o q o escrevy. [fls. 5] Conclusos / Vistos estes autos e o q per elles se mostra julgo no just.e [justificante] João Carnr.o Lima Abb.e de Escapaens a quantia de quarenta mil reis imposta nos frutos da d.a Igr.a por suff.e [suficiente] tit.o [título] p.a património, e a tt.o [título] destes poder ordenarse e não poderá renunciar a d.a Igr.a sem pr.(?) [primeiro] fazer (?) novo património ou reservar a referida quantia e se lhe passe sn.a [sentença] e pague os autos. Porto, 14 de xbr.o [Dezembro] de 1748. Dr. Fernando Soares de Novaes Palhares. Aos dezaseis dias do mês de Dezembro de mil e setecentos e quarenta e oito annos, me forão dados estes autos com o despacho da posse do M.to R.do Provizor que mandou se cumprisse, de que fis este termo. Eu o P.e Fran.co da Costa Escrivão da Camera Eccl.ca que o escrevi. / [fls.6] Sello ----- 50 / ? ------- 36 / Machado ---- 170 / . ---------250 pg [pago] [fls. 7] Diz o Rd.o João Carn.o de Lima Abb.e da Parochial Igr. a de São Mart.o de Escapains coma.ca da Feyra deste Bisp.do q elle supp.te p.a eff.o [efeito] de justificar o Breve de Interstícios appensara aos autos o tt.o [título]

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de seu benef.o; e como este ja esteja justificado e extrahedo sn.ca [sentença] elle quer se lhe entregue ficando recibo da entrega. / Pede a V.M. [Mercê] lhe faça m.ce m.dar q, [mercê mandar que,] visto se ter já extrahido sn.ca do breve, le entregue o tt.o do Benef. o do supp.e agg.o [agraciado?] ficando só recibo da entrega. E.R.M.ce. [À margem, despacho:] Como pede. Dr. Palhares. / [fls. 8] Recebi o próprio titullo de q. na ppd.m [petição?] se trata; hoje / [?] de Dezembro de 1748 o Abb.e João carnr.o de --.» 2. 2. 3. Comentário ao processo anterior

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O requerimento feito na portaria da Câmara Eclesiástica do Porto é, pois, assinado e actuado pessoalmente por este João Carneiro de Lima, 2.º de nome, que já é o Abade de Escapães. Pela análise do processo vemos o encadeamento dos seus diversos documentos: a fl.ª 1 é reservada ao título; na fl.ª 2 aparece-nos o requerimento para Ordens Sacras, a título do benefício da igreja de Escapães; na flª 3, documenta-se o seu compromisso de observar as cláusulas, que estas circunstâncias impõem, para serem despachadas; e foi atendido, conforme o parecer escrito do promotor das justiças da Cúria, que nas fls. 4 e 5 considera «conclusos» os autos. Vistos os autos conclusos e documentado o compromisso do Abade, segue-se o despacho por escrito do provisor diocesano dizendo: «se lhe passe sentença e pague os autos». Estes importaram em 250 rs. Após o pagamento, o abade faz um último requerimento, na fls. 7, para que lhe seja passada certidão final da sentença proferida e lhe seja devolvido o Breve pontifício, onde constam cumpridos os interstícios, para a sua imediata ordenação. Tudo lhe é entregue, conforme pediu e ele, fls.8, assina o recibo final – diga-se – com muito má caligrafia: «Recebi o próprio título». Era o fim do ano de 1748. Seguiu-se a ordenação. - Quando? Por quem? Onde? – Não sabemos.

2. 3. 1. O processo «Habilitações do Santo Ofício» Outro manancial de informações deste 2.º padre João Carneiro de Lima, Abade de Escapães – e este muito mais esclarecedor, muito mais pormenorizado e com muito maior amplitude – foi o de se encontrar e identificar um segundo processo, que directamente lhe dizia respeito, incluindo vastas circunstâncias da sua família. Na publicação «Arquivo do Distrito de Aveiro»32, tínhamos visto uma referência a um familiar do Santo Ofício, natural de Fornos e residente em Escapães. Há cerca de duas décadas, em estadia de pesquisa na Torre do Tombo, encontrámos o tal processo, do qual obtivemos uma fotocópia, que, entretanto, arquivamos. Tratava-se do processo de Habilitações do Santo Ofício33, respeitante ao padre João Carneiro de Lima, nascido em Fornos, Feira e que supúnhamos corresponder ao 3.º padre de igual nome, Abade de Escapães. Na actual busca de dados fomos revisitar o processo e recordar as notas, que, da sua leitura, na ocasião, tínhamos tirado. Por ele, e de modo indubitável, ficámos certos de que o dito João não era o terceiro, mas sim o segundo Abade João Carneiro de Lima: a suposição não se confirmava. O habilitando tinha requerido ser comissário e familiar do Santo Ofício, requerimento que foi aceite e que exigiu, conforme o regulamento daquela instituição, um longo e completo processo de inquirições, com cerca de 75 folhas (anverso e verso) manuscritas e compactas. 2. 3. 2. Transcrição das conclusões finais dos comissários do Santo Ofício (A) «Nesta freguesia do Salvador de Fornos como na de São Martinho de Escapães fiz estas diligências às pessoas que nelas juraram; estão tidas e havidas por cristãos velhos e por pessoas de verdade e fidedignas; - Vd. Revista Arquivo do Distrito de Aveiro, Ano de 1967, pg. 138. - A. N. T. T. Habilitações do Santo Ofício, «JOÃO» , Maço 113, nº 1838. Provisão de 17.X.1755.

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o que depõem em seus juramentos passa na verdade; e pelo que delas consta e particular informação que fiz, acho que o padre João Carneiro de Lima é natural do lugar da Quintã, desta freguesia de Fornos e morador na de São Martinho de Escapães, aonde é actualmente Abade, de cuja ocupação usa – tudo da Comarca da Feira, bispado do Porto. Ele, filho legítimo de António Marques de Matos, lavrador; o qual nasceu no lugar de Casal de Matos e morador no da Quintã, tudo da dita freguesia de Fornos; e de Maria Carneira, é natural (pelas notícias que achei, tanto fazendo esta diligência, como já antes falando algumas pessoas daquelas partes) da Correlha, próxima a Ponte de Lima, arcebispado de Braga, moradores no lugar da Quintã desta igreja de Fornos; e neto pela parte paterna de João de Matos, natural do lugar de Casal de Matos e de Isabel Marques, natural do lugar da Quintã, moradores no dito lugar de Casal de Matos, tudo desta freguesia do Salvador de Fornos; e todos viveram de suas fazendas e tiveram a ocupação de lavradores. E neto pelos maternos de João Vaz e sua mulher Maria Carneira, por assim o ter ouvido dizer várias vezes a um clérigo desta freguesia [deve entender-se como referente ao padre João Carneiro Cabeças], irmão da mãe do habilitando e pelos ditos nomes nomeava seus pais. E pelos ditos seus pais e avós paternos é o habilitando legítimo e inteiro cristão velho, limpo, e de limpo sangue e geração, sem raça nem descendência de mouro, digo, de judeu, mouro, mourisco, negro, mulato. E, suposto Marcos Jorge, bisavô do habilitando, pai de sua avó Isabel Marques tivesse algum rumor que seus ascendentes descendiam de um negro, é tão remoto, que já o dito Marcos Jorge não tinha coisa, que as pessoas, que o conheceram, soubesse tal; e só o ouviram dizer a pessoas velhas, cujas pessoas velhas, do tempo do Marcos Jorge, já o não sabiam, senão já de ouvida, sem se poder averiguar o princípio; só ouvirem dizer que naquela quinta da Quintã, assistira um Cavaleiro que tinha um preto, que tivera uns filhos; mas já as pessoas que conheceram aos pais do dito Marcos Jorge, terceiros ou quartos avós do habilitando, os tinham por gente limpa e o dito Marcos Jorge ordenou parentes, seus descendentes, e netos, sem que as testemunhas já então o certificassem, nem alguma desta Inquirição,

sendo tão velhas, como consta de suas idades, falasse de semelhante coisa; e só isto tinha ouvido dizer antes e achei em alguma informação que fiz. Mas quando o rumor que naquele tempo houve fosse certo, pois se não pode averiguar, fica o habilitando no sexto ou sétimo grau, ou mais distante; e assim está tido o habilitando por limpo de alguma infecta nasção das reprovadas em direito, contra a nossa santa fé católica; e por legítimo e inteiro cristão velho está; e foi sempre tido e havido e geralmente reputado, sem fama nem rumor em contrário; e, nem ele, nem alguns de seus ascendentes foram presos, nem penitenciados pelo Santo Ofício; nem incorreram infâmia pública, ou pena vil, de facto ou direito; e não foi casado nem consta de certo tenha filhos ilegítimos; [ … ]. O habilitando julgo ser capaz de servir ao Santo Ofício no emprego de Comissário, por ser homem com bom discurso, e prudente e capaz de dar conta com segredo dos negócios que forem encarregados; só escrever mal e pouco legível. É pároco colado e lhe rende a dita igreja mais de trezentos mil reis; e não tem bens alguns patrimoniais, que só seu pai se obrigou à côngrua sustentação, até ser senhor do dito benefício, do qual o está à mais de seis ou sete anos; trata-se bem e tem trinta e quatro anos, pouco mais ou menos e as certidões pedidas na Comissão se não acham nos livros das ditas igrejas por serem de poucos anos. É o que passa e achei na verdade. S. Salvador de Fornos da Feira, 13 de Setembro de 1755 anos. Bernardo José de Sousa e Silva Alcoforado / Comissário do Santo Ofício». (B) Habilitações do Santo Ofício (Da Inquirição feita pelo comissário da freguesia da Correlhã, Ponte de Lima)34 «Informação [do inquiridor de Correlhã] / M.to Ilustres Snrs / Fui à freguesia de S. Tomé da Correlhã pela Comissão de V.as Senhorias, e nela achei notícias do habilitando, o padre João Carneiro de Lima, Abade de Escapães na comarca da Feira e é conhecido na dita freguesia de Correlhã, por ter vindo aí assistir à Missa 34

- ANTT, Maço 113, n.º 1838, fls 78 (original)

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Nova de um parente, onde tem muitos, e alguns clérigos. Sua mãe, Maria Carneira, era natural desta freguesia de Correlhã e no tempo de moça e estado de solteira, foi assistir na companhia de um tio Abade de Escapães; e lá casou, de quem nasceu o habilitando. Ela era filha de João Vaz e de sua primeira mulher Domingas Carneira, um e outro naturais da mesma freguesia e moradores no lugar do Souto; eram lavradores pobres e ele vivia do seu trabalho. Depois de casado segunda vez, se absentou para Castela a ganhar vida e não voltou. É o habilitando por esta via legítimo e inteiro cristão velho, sem fama em contrário; parece-me que as testemunhas falavam verdade; os livros dos Baptizados e casados se acham recolhidos no cartório dos livros, vindos de Braga. E como v.as Senhorias me não ordenaram as fizesse extrair dos ditos livros, por isso não vão. Deus, Nosso Senhor guarde a v.as Senhorias. Souto, Rebordões e Setembro, 10 de 1755 anos.Reverendo súbdito de V.as Senhorias / Bento de Azevedo e Meneses» (C)Habilitações do Santo Ofício35 (Extracto do final do processo relativo a João Carneiro de Lima, em Fornos). «E perguntadas as testemunhas acima declaradas tanto nesta freguesia de São Salvador de Fornos como na de São Martinho de Escapães houve (?) ele reverendo Comissário estas diligências por findas, nas quais gastou comigo escrivão destas diligências três dias nesta residência de São Salvador de Fornos e um fora dela, de que mandou fazer este termo de encerramento, por ambos assinado, aos doze dias do mês de Setembro do ano de mil e setecentos e cinquenta e cinco. E eu, o padre Teodósio José Correia Gomes, que o escrevi. O padre «Theodozio Jozê Cor.ª Gomes» / Bernardo Joze de Souza e S.ª Alcoforado / Comiss.ro do S.to Off.º» 2. 3. 3. Comentários a este processo (Parentes dos Abades Carneiro de Lima) Do que constatámos e concluímos, elencámolo a seguir:

1 – Aquele processo respeitava ao padre João Carneiro de Lima, (2.º de nome), nascido em Fornos, no lugar da Quintã, a 8 de Fevereiro de 1722, filho de António Marques de Matos, que por sua vez era natural do lugar de Casal de Matos, da freguesia de Fornos, Feira e de Maria Carneira, esta natural do lugar do Souto, da freguesia da Correlhã, concelho de Ponte de Lima. Tal habilitado a Comissário do Santo Ofício faleceu em Escapães a 9 de Maio de 1788, sendo também um seu sobrinho materno, seu herdeiro, testamenteiro e subscritor do seu assento de óbito, o padre João Carneiro de Lima, (3.º de nome). 2 – A dita sua mãe, Maria Carneira era sobrinha do 1º Abade João Carneiro de Lima, porque filha da sua irmã Domingas Carneira falecida na Correlhã; e, depois de criada com um seu tio no lugar do Loureiro36, até à idade de moça, saiu da Correlhã, para casa do tio Abade de Escapães, até ao tempo do seu casamento, não voltando mais à sua terra natal. 3 – Veio para Escapães, como conviva e familiar do abade seu tio, mas não veio sozinha, porque com ela veio o seu irmão, padre João Carneiro Cabeças37. Depois, veio a saber-se que os dois eram irmãos gémeos. 4 – Este, oficiou em Escapães como auxiliar do Abade, até que sua irmã, Maria Carneira, casou na igreja de Escapães em 7 de Abril de 172038 com António Marques de Matos, da dita Casa da Quintã de Fornos, passando depois o padre Cabeças a residir, com o novo casal, na Casa da Quintã. Para a mesma Casa viria depois também o padre Manuel Marques de Matos, que por muito tempo

- ANTT, Fundo das Habilitações do Santo Ofício, “João” – Maço 113, n.º 1838. O presente texto do encerramento das Inquirições em Fornos e Escapães e o imediato foram feitos pelo Comissário encarregado. No original, fls 61, v.º. 36 - Depoimento da 11ª testemunha Ângela da Fonte, solteira, de entre as doze da Correlhã, que depuseram no processo de habilitação para comissário do Santo Ofício do 2º João Carneiro de Lima. 37 - Depoimento da 1ª testemunha da Correlhã, o rev. Dr. Manuel Pinto de Azevedo, que se apresenta como companheiro do Padre João Carneiro Cabeças, nos estudos de Braga. 38 - Ver transcrição no Apêndice documental (8). 35


tinha sido oficiante em Escapães,39 e que era irmão do chefe de família da Casa da Quintã de então, António Marques de Matos. 5 – Uma vez, em Fornos e integrado numa família prestigiada, o padre Cabeças dedicou-se a auxiliar os párocos de Fornos, sucessivamente Rodrigo Brandão da Silva e o seu sucessor e sobrinho Bernardo José de Sousa e Silva Alcoforado, morando na Casa da Quintã até à sua morte, ocorrida no dia 13 de Novembro de 176540, alguns meses depois do padre Manuel Marques de Matos, que falecera na mesma Casa. Ocasionalmente, mas com frequência, o padre Cabeças servia em Escapães, onde permanecia o velho abade, seu segundo-tio, com quem tinha convivido. Isso também se confirma no registo paroquial de uma e outra freguesia, sem aclarar essas relações familiares. Agora tudo claro. 6 – Conforme o processo em análise, o habilitando padre João, que nos ocupa, era neto paterno de João de Matos41 de Casal de Matos e de Isabel Marques, do lugar da Quintã, avós esses, que casados, passaram a morar no lugar de Casal de Matos, da freguesia de Fornos, Feira;

- O Padre Manuel Marques de Matos (de Escapães) faleceu na Quintã de Fornos a 7 de Janeiro de 1765, com mais de 60 anos. Foram seus herdeiros o Dr. Cirurgião Manuel de Pinho Almeida, casado com a sua sobrinha Maria Rosa Carneiro de Lima. Por sua vez, esta era filha de António Marques de Matos, irmão do sobredito P. Manuel Marques de Matos. Eram naturais de Casal de Matos, Fornos. Este (padre) deixou a obrigação dos seus «bens de alma», que eram 61 ternos de missas, a cargo do seu sobrinho João Carneiro de Lima, Abade de Escapães. Vd. 3º Livro do Registo Paroquial de Fornos, assentos do P. Alcoforado. 40 - 3º Livro do Registo paroquial de Fornos, fls. 164/165. João Carneiro Cabeças, que inicialmente trabalha em Escapães, passa depois a trabalhar em Fornos, como padre coadjutor, residindo na dita Casa da Quintã. No seu assento de óbito, diz-se que era sacerdote de missa, natural da freguesia da Correlhã, junto a Ponte de Lima e que faleceu «de idade de oitenta anos para cima» na Casa da Quintã de Fornos. 41 - Este João de Matos tem bastante relevo social nesse lugar de Casal de Matos. Além dos filhos António Marques de Matos e do padre Manuel Marques de Matos, que foi oficiante e encomendado da paróquia de Escapães, assinando, por exemplo, o assento de óbito do primeiro Abade João Carneiro de Lima e aparecendo com frequência noutros assentos de registo paroquial, ou como oficiante, ou como testemunha, teve outros filhos e filhas, casados em famílias de relevo local ou de freguesias circunvizinhas. 39

7 – O mesmo habilitando pela parte materna era neto de João Vaz e de sua primeira mulher Domingas Carneira, da freguesia da Correlhã, Ponte de Lima, os quais viviam no lugar do Souto, Correlhã, eram lavradores pobres e viviam do seu trabalho. Aquele João Vaz, conforme o depoimento de diversas testemunhas da inquirição, «tinha por alcunho, o Misca»; era natural do lugar da Portela, freguesia da Correlhã, concelho de Ponte de Lima. Depois de ficar viúvo da sua primeira mulher, a nossa Domingas, de quem tivera diversos filhos, voltou a casar. Do segundo matrimónio também teve diversos filhos. Então, por escassez de recursos – continuam os depoimentos – «foi para Castela para ganhar a vida e de lá nunca mais voltou»42 8 – João Carneiro de Lima, 1.º de nome, além «da nossa Domingas» tinha consigo uma outra irmã, como vimos, chamada Isabel Carneira, a qual nos aparece como sua principal herdeira e encarregada dos seus bens de alma. 9 – No mesmo processo de «Habilitações» encontrámos dados que nos iluminam as genealogias de tempos bastante mais recuados. Ao referir e identificar a avó paterna do requerente, identificada como Isabel Marques, há testemunhas que afirmam ter conhecido ainda a Marcos Jorge, proprietário da casa da Quintã, pai da dita Isabel e bisavô do subscritor habilitando. Ele tinha ficado viúvo em 2 de Maio de 1679 de Anastácia Fernandes, portanto muito cedo; por isso, da sua esposa, ou do seu nome, já não havia memória. Entretanto, este Marcos Jorge aparece em documentos relativos a Fornos, do início do séc.XVIII, como grande - No 6º Livro do Registo Paroquial de Casamentos da Correlhã, a fls. 105, v.º encontra-se um assento de casamento, fonte de confusão e que só se explica pela multiplicidade de nomes e sobrenomes iguais, sem indicações que os distinguissem tais como a idade, o nome de ambos os pais e os respectivos avós e moradas. Ora vejamos em síntese: “No dia 9 de Abril de 1672 João Vaz, filho de João Vaz da Portela e de sua mulher casou com Domingas Carneira, filha de Domingos Carneiro e de Inês Cabessa, já defunta, da aldeia do Souto. Testemunhas, João Carneiro e João Vaz, da Portela e o padre Domingos Pereira. Foram dispensados no 3.º e 4.º grau de consanguinidade”. É patente a semelhança de identidades entre estes noivos e os pais do padre João Carneiro Cabessas e Maria Carneira. Não pode ser o casamento dos ditos pais pelas datas expressas e pela diferença de nomes dos pais desta noiva. Conferir com os assentos de nascimento de João e Maria do 7º Livro do Registo Paroquial da Correlhã, a fls 29-v.º.

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lavrador foreiro, ainda que muito discreto e ocupado no amanho e administração das suas propriedades43. 10 - A identidade de Marcos Jorge, a sua naturalidade, a sua filiação, os seus parentes, se fossem conhecidos era uma chave mais profunda da genealogia da casa da Quintã. Mas o Registo Paroquial de Fornos, por incúria de alguns párocos desse tempo, foi muito omisso44 de assentos, pelo que não temos as informações que gostaríamos de ter.

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11 - A irmã do habilitando, que era Maria Rosa Carneiro de Lima45, casou com o cirurgião Lic.do Manuel (de Pinho) de Almeida Lima, de Macieira de Sarnes, Oliveira de Azeméis46 (+ na Quintã, com 70 anos, em 9.06.1791), em 25 de Fevereiro de 1756, os quais passaram a viver na Casa da Quintã e a serem os titulares da Casa. Este último casal teve diversos filhos, dentre os quais, referimos: A – P.e João Carneiro de Lima (3.º de nome) B – Ana Luísa de Almeida Lima, casada com Carlos José de Moura Barbosa Peixoto, de Macieira de Sarnes e mãe de Carlos José de Lima Peixoto, futuro abade de Fornos. C – Maria Angelina Carneiro de Lima, (*25.01.761; +16.02.833) foi conviva na residência paroquial de Escapães com o seu tio Abade João Carneiro de Lima, 2.º de nome, onde casou, em 12 de Setembro de 1784, com Marcelino José Correia Gomes, a viver em Escapães, mas filho de Francisco da Costa e de Marcelina Teresa Correia Gomes, - Ver Padre José Alves de Pinho, Fundamentos para o brasão de Fornos, (Separata de Villa da Feira, Terra de Santa Maria) Liga dos Amigos da Feira, Setembro de 2005, pg. 34. 44 - A.D.A. Regº Par. Sanfins, Feira, 1º Livro. Casamentos desta data. Lá, consta que em 9 de Abril de 1625, um tal António Jorge, filho de Ambrósio Jorge, casou com Maria Fernandes, filha de Diogo Fernandes e Catarina Fernandes, sendo testemunhas do casamento Simão Manuel, Diogo Gonçalves, Diogo João e Aleixo Fernandes, todas de Fornos. Será um parente próximo deste Marcos Jorge? Irmão? Fica a informação e a dúvida. 45 - Ver A.D.A. Registo Paroquial de Fornos, 2º Livro, pg.48-v.º Lá consta a data do seu nascimento: 25.03.1724. 46 - Vd. Assento de casamento de Manuel de Pinho de Almeida, com Maria Angelina Carneiro de Lima, em Escapães, a 25 de Fevereiro de 1756, no Apêndice Documental. 43

os quais foram nascidos e moradores na freguesia de Sanfins (Casa da Pena e Casa da Quinta dos Passais). Esta Maria Angelina deixou um testamento muito impressionante. Do seu casamento nasceram: a) – Francisco (Dr.) Correia de Pinho de Almeida Lima (*12.08.1794, casado com a sua prima Ana Maria de Sousa Lima, da Quintã e falecido a 19.05.1853, com 57 anos) b) – Padre João, poucas vezes referido em Fornos, a não ser como celebrante de algumas missas pela alma do seu irmão, que vamos referir como mártir nacional. c) – José, o dito «mártir» do Pinheiro das 7 cruzes, do Picoto, Moselos, arcabusado pelos franceses, na segunda invasão francesa de Soult. d) – Inácia Correia (d’Almeida Lima) [*9.04 .1798;+18.06.1867]; casou com José Leite Tinoco [*4.11.1786; +14.11.1868, com 79 anos] e viveram nos lugares do Ribeiro e da Igreja de Fornos. Foi possível identificar 10 filhos, dos quais a maior parte ou emigrou, ou casou fora da freguesia de Fornos. Entre outras, foram ancestrais da Casa da Mariana, lugar do Ribeiro, Fornos. e) – António Correia de Pinho, (*27.09.1802), casado em 14.06.1830 com Ana Margarida da Laje. Deixaram de residir em Fornos. - Por emigrarem? f) – Maria Angelina Carneiro de Lima (*10.11.1790) casou em 11.09.817 com Manuel José da Silva Teles, originário do lugar da Rua, Vila Cova da Lixa, fundadores da família Teles, inicialmente a viverem na Laje, depois no Montinho, Feira. Deste casal nasceram, entre outros, Camila Angelina Carneiro de Lima, da Casa dos «Fernandes» da Igreja, antecedentes da Casa Portela; Joaquina Angelina Carneiro de Lima, origem da Casa Terra (Casal de Matos) e D. Ana Angelina Carneiro de Lima, da Casa da Ascensão (v.g. Filipa Emília Augusta de Lima de Casal de Matos) e António José da Silva Teles, sem descendência. D – Joana Maria de Pinho, (+3.03.1833, com 65 anos), titular solteira da Casa da Quintã. Foi mãe de Ana Maria de Sousa Lima, fruto de uma possível relação com um fidalgo da Casa da Murtosa,


Mosteirô. Esta Ana Maria viria a casar bastante mais tarde, após uma relação mútua com o primo direito Dr Francisco Correia de Pinho de Almeida Lima, considerada incestuosa, enquanto não obtiveram a dispensa do impedimento de consanguinidade. Foram titulares da Casa da Quintã, Fornos, com um grande prestígio e projecção social. Ele desempen-hou lugares de relevo na administração municipal liberal.47 E – Manuel Pinho de Almeida, faleceu, sendo Desembargador em Porto Alegre, Brasil.48 F – P.e José de Pinho de Almeida Lima (+16.02.1835, na Quintã de Cima, com 72 anos), proprietário com diversos prazos, administrador e conviva da Casa da Quintã, personagem de relevo social, político liberal e representante de Fornos, nos primeiros corpos políticos do Liberalismo implantado. Esclarecidos alguns destes laços parentais, vemos agora melhor a identidade do 2.º Abade João Carneiro de Lima, a que dizia respeito este capítulo. Chegados aqui, é ocasião de se apresentar o processo da construção da igreja de Escapães, motivo principal deste estudo. Por isso, vamos continuar: 3. O processo documental O processo da construção da igreja de Escapães foi encontrado ocasionalmente49. Era um assunto muito aliciante pare se estudar, desenvolver e divulgar. O primeiro passo, que nesse sentido se deu, foi o de decifrar a sua leitura. Fez-se de todo o processo, um registo fotográfico. Depois, a fonte fotografada precisou dum tratamento informático, que permitisse segui-lo de modo ampliado. Processo algo demorado com as suas limitações, mas também com as suas vantagens. - Vd. Vaz Ferreira em manuscrito inédito da Biblioteca de Santa Maria da Feira, diversas referências. (fls. 1166). - Vd. Registo Paroquial de Óbitos de Fornos, da data correspondente: «O Desenbargador na soplicassam de Lisboa finalizado o logar de Provedor de Portto Allegre Manoel de Pinho de Almeida do logar da Quintam de Cima desta freguezia do Salvador dos Fornos de jdade de quarenta e oito annos e tantos mezes. Faleceu na cidade Portto Allegre a treze de Nobenbro do anno de mil oito centos e çete. Francisco Xavier Peyxotto, Abb.e». 49 - Vd. Processo da construção da igreja de Escapães (1735, disponível no Arquivo Episcopal do Porto. 47

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Em caso de dúvida ele podia ser ampliado mais do que o seu formato original, para melhor se poderem interpretar as passagens duvidosas. Deste modo, conforme as disponibilidades, o trabalho foi surgindo e ganhando forma, até ser lido, transcrito e fixado. Nesta fase, impunha-se fazer de todo aquele maço, alinhavado na lombada, uma cuidadosa análise. E, logo se verificou que, naquele processo arquivado, houve a preocupação de o guardar com as suas diversas folhas, mas não a preocupação de o ordenar cronologicamente: os diversos documentos tinham sido ajuntados quase ao acaso. Foi, a partir das datas e do encadeamento dos assuntos tratados em cada folha documental, que se tornou mais claro o itinerário da construção da igreja, com alguns acidentes de percurso. Antes de apresentar a transcrição do texto, recordemos as diversas imposições feitas pelos Visitadores para se reparar a igreja, conforme já o referimos e que constavam do Livro das Visitações. Os visitadores eclesiásticos ao fazerem a inspecção do estado da freguesia nos diversos capítulos da Visita, muitas vezes tinham chamado á atenção para a necessidade da conservação e da reparação da igreja. Vimos como a exigência das intervenções ia crescendo à medida que a velha igreja se degradava: uma vez era o telhado, outra era o retábulo, outra a caiação, outra a luz, outra as escadas, outra as imagens dos altares… Conforme a letra das informações desse Livro recordamos que a última recomendação dirigida ao povo e ao pároco de Escapães pelo Visitador para que a igreja fosse reparada era tão exigente que, se ela não fosse feita, deixaria de poder celebrar-se dentro dela os «divinos ofícios». Ao mesmo tempo, sobre toda a freguesia, na pessoa do pároco, do juiz e dos eleitos do povo, foi imposta uma pesada multa pecuniária, sujeita a um prazo limitado. 3. 1. Circunstâncias antecedentes Na documentação do processo, a caminhada para a construção da nova igreja parte exactamente desta situação degradada. Comecemos por citar o

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primeiro requerimento. Ele dá-nos uma informação sobre o estado em que ainda estava a igreja depois das diversas ordens e chamadas da atenção dos visitadores, não só as que já foram examinadas no velho Livro das Visitações, como as que posteriormente foram impostas, com obras mais alargadas e custosas e com multas mais duras e pesadas. No final de 1726 a opinião pública de Escapães já estava convencida de que era preciso lançar mão às obras da igreja paroquial; porém, avaliando o alto custo das mesmas para tão pequena melhoria das condições da igreja, melhor do que reparar o velho edifício, seria fazer-se, de raiz, uma igreja nova. Vejamos o que diz o primeiro requerimento, que introduz esse processo: o Abade e os representantes do povo de Escapães expõem que, por a sua igreja ser muito antiga e se encontrar arruinada, o Visitador impôslhes a obrigação de a repararem toda no prazo de um ano e meio; mais ainda: - dentro de três meses mandar fazer umas portas travessas de novo, consertando

- Nesta exigência, parece ser evidente que as paredes da igreja, quer no seu corpo, quer na capela-mor obedeciam ao estilo românico (séc. XIII?), com paredes espessas e pesadas suportadas lateralmente por alguns contrafortes, rematadas por um friso de cachorros, mais ou menos trabalhado, cortadas por portas baixas e estreitas, intervaladas com alguma esguia fresta para a iluminação, mas todas rematadas por arcos plenos ou ogivais, com poucos motivos de adorno, se algum havia. Sobre a porta principal e mais larga, a poente, um pequeno óculo redondo. Todo o tecto armado em madeira com uma cumieira longitudinal e caibros laterais nela fixados, decaindo em duas águas. Dentro, no topo nascente um mesa de pedra, com os seus linhos servindo de altar e um cadeirão para o celebrante; a um canto da entrada a pia do baptismo. No fundo da pequena e baixa capela-mor (ou ábside), em forma semi-oitavada, um crucifixo acostado à parede. No transepto, ao lado do arco cruzeiro uma mísula tendo à direita uma tosca imagem de Nossa Senhora, Mãe, e à esquerda uma outra de S. Martinho, padroeiro, ambas talhadas grosseiramente em granito. A telha vã sob os caibros não se via, ocultada pelo véu dos sobrecéus. O pavimento na capela-mor era formado por pedras esquadrejadas, mas de piso algo irregular. O do corpo da igreja era constituído por taipais de pinho humedecido, que se perfilavam lado a lado, encobrindo os covatos do cemitério interior. Em compartimento conjunto com a capela-mor estaria a sacristia, reservada às alfaias litúrgicas e aos «ornamentos» para as celebrações. Adossado ao corpo da igreja, ou num edifício adjacente, guardava-se a tumba, ou o leito do esquife, a caixa da cera branca, a cruz processional, o almário das opas e outros utensílios ocasionais pertencentes às diversas confrarias. Seria aproximadamente assim o aparato geral duma igreja de raiz românica, ainda a servir ao culto dum rarefeito povoado, neste final do séc. XVII. Como esta, também o seria a maior parte das igrejas rurais, antes de ser substituídas pelas actuais, «ao modermo» do séc. XVIII. A ordem rigorosa do visitador para se reparar a igreja, porque sem luz, com tecto roto, o pavimento encharcado, sobretudo em ocasião de cheias, soterrado pelo peso das paredes espessas durante séculos, assente em terrenos movediços e amolecidos pela água das regas, assim no-lo sugere, e supomos que, com alguma verosimilhança.

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as escadas adjacentes às portas, que davam acesso ao interior da igreja; depois, dentro do mesmo prazo de ano e meio, fizessem abrir frestas que iluminassem o púlpito e a capela-mor50 sem luz suficiente. Com o rasgar de frestas mais largas (janelas), impunha-se que fossem protegidas por grades de ferro forjado e por vidraças, coisas que anteriormente não eram necessárias, pela estreiteza das frestas próprias da antiguidade românica da igreja. Mais: que dotassem o púlpito com umas escadas de pedra e que consertassem o ladrilho da porta principal. Caso não dessem satisfação a esta imposição pagariam uma pesada multa de vinte mil reis, que reverteria para a fábrica da Sé (do Porto) e para o dote do meirinho. O abade continuava o requerimento, escrevendo: a obra de conserto da igreja, que nos é pedida, é tão dispendiosa e custa tanto dinheiro, que para nós é mais fácil fazermos uma igreja nova. Demais a mais, a actual igreja é tão pequena, que a maior parte dos fregueses não cabe nela; e, em tempo de enxurradas por maior cuidado que se tenha, a água entra pela igreja dentro e alaga todas as sepulturas, porque a igreja está implantada num terreno baixo e muito húmido. Atentas estas circunstâncias, é-nos mais fácil fazer uma igreja nova. Há-de ver-se onde é melhor implantá-la, para que ela fique desafogada e com espaço para todos os fregueses poderem assistir às celebrações. Veja-se se se há-de construir no campo do Souto, que faz parte do Passal, se no lugar da capela de Santo António, porque um e outro lugar lhes ficam imediatos. Tudo considerado em relação à velha igreja, agora vem-se requerer à autoridade diocesana que suspenda os prazos fixados para a execução das obras, e as penas constantes desse capítulo expressas naquela ordem do Visitador. Porque a freguesia é pobre, pedimos que nos seja concedido um tempo de dez anos para podermos construir a nova igreja e em lugar conveniente. Mas neste impasse perdeu-se muito tempo, obrigando a que, depois, se requeresse um prazo mais alargado de doze anos.


3. 2. Transcrição da 1ª parte do processo de construção (A ordem das folhas não é a mesma do original, por estar ordenada cronologicamente)

[Classificações recentes: - a lápis vermelho:] «24»; [- a lápis:] «1735» Autos de Reedeficação da / Parochial Igreja de Sam Mar / tinho de Escapais da Comarca da / Feira deste Bispado Camera Anno do Nascimento de / Nosso Senhor Jesus christo de mil / Sette centos e trinta e sinco aos / dezassette dias do mes de Marco» [fls.2] [À margem, 1º averbamento:] / «Informação R.do Pároco com o teor e / off.º (?). Porto em Cabpº . 21 Janº 1726 / O R I Deão Prada [assinatura] Barboza ?» / [À margem, 2º averbamento:] / «Remetida ao nosso R.do / D.or Vigrº G.al Porto em Cabp. / 31 de Jan.ro de 1726 / O M.to Rv. Deão Prada / Barboza »

[fls. 1] «Escapais

Redeficação da Igr.ª»

João Carn.ro de Lima Rv.º Abb.e juis e mais officiais

M.co 1.º

Ill R.mo S.or Dizem o Rv.º Abb.e João Carn.ro de Lima, Juis, mordomos, eleitos e mays Povo da frg.ª de Escapains, Comarca da Feir.ª deste Bispado = q por a Sua Igreja ser m.to antiga, e estar rota e quazi aruinada ficarão os supp.tes obrigados Por hum Capitlo de vezita a q no termo de hum anno e meyo armassem o tecto destta Igreja de madeir.ª de castanho e no termo de três mezes fizesse tam bem huas Portas travessas de novo da mesma madeir.ª e consertando a escada desta P.ª [para] a Parte imtrior da igreja e no mesmo termo de anno e meyo habrissem hua fresta na parede da parte do púlpito da mesma sorte na Capella Mor pondolhe grades de ferro e vidraça e juntam.te huas escadas de pedra p.ª o púlpito e fisesse com sertar o Ladrilho da porta principal e q acabado o referido termo faltando pagarião vinte mil rz P.ª esta Sê e meyrinho e porq a obra demanda de Custo i este fica mais fácil fazerem outra Igreja como esta he mais piqena em q já não cabe a frg.ª toda e fica a mayor parte dos freigeses de fora i esta [e está] em hu baixo m.to húmido entrandolhe m.tas agoas nas enxentes alagando as sepolturas por mays q no tempo dellas as vão reparar Verão(?) por onde a querem mudar para outra Parte donde fiqe livre e mayor p.ª os freigeses todos a cestirem aos off.os devinos.

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Como he p.ª o Campo do Souto q he dos Paçais, ou p.ª a Capella de S. An.to q são lugares q ficão a hi pegados em im midiatos Portan.to, P. a V: Il.ma lhe faça merce mandar sus / pender o dito Capitolo e Conceder L.ca p.ª a dita Mudança e acrecentam.to hus (?) dos ditos lugares em tempo de dês annos Por ser a frg.ª m.to Pobre. E. R. M.ce

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[fls.3] [Originariamente no verso da fls.2] Il.mo e R.mo Snor Todo o deduzido na petição retro he verdade e o q. se contem no capitullo da vesita próxima passada he o que se segue: ---- «estar toda a armasão do tecto desta Igrª muy velho, com as roinas e as portas travessas no mesmo estado: mando que os parochianos desta fregª no termo de Anno e meyo armem o tecto da Igrª de madeira de Castanho e no termo de tres mezes fação humas portas travessas de novo da mesma madeira e concertem e escada desta p.ª a parte interior da Igr.ª; e no mesmo termo de anno e meyo abrão hua fresta na parede da Igrª da parte do púlpito da mesma sorte que a da Capella Mayor, e lhe ponhão grades de ferro e vidrassa p.ª por ella se communicar a luz necessária aos altares collaterais q. de prezente se achão m.to escuros; e outrosy fação escadas de pedra p.ª o púlpito de q. se necessita m.to p.ª por ella se poder subir com comodidade, e concertem o ladrilho da entrada da porta principal, e fassão um pano preto p.ª a tumba, ao q. tudo darão comprim.to no Referido termo sob pena de Vinte mil Reis p.ª Se [para a Sé e seu meirinho] e Meirinho; e se passado elle não derem comprim.to ao disposto neste capitullo, o R.do parocho, debaixo da penna detriminada na Constituissão, remeterá certidão a juízo; e Recomendo m.to ao R.do parocho, continue com a obra q. intentão fazer na Capella Mayor acrecentandoa, [acrescentando-a] e fazendo nova Sachristia p.ª a parte do adro, e lhe não comino pena por confiar do seu grande zello da prompta atemção adita [à dita] obra = Niculao de Souza Crus notr.º Ap.co e Secret.º [notário apostólico e secretário]da vezita o escrevy = Manoel Barboza d’Albuquerque […]

[fls. 4] / De Albuquerque. E não se continha mais no dito capittullo; e V Ill.ma mandara o q. for servido. / Escapaens 27 de Jan.ro de 1726 / João Carn.ro de Lima [1.º averbamento] Declare o R.do Parocho se estão / Os fregueses conformes em reedificarem / A Igreja na forma allegada na / Petição. Porto 31 de Jan. ro de 1726 / Barboza [2.º averbamento] Constame estarem conformes os freguezes p.ª reedificarem a Igrª na forma alegada. Escapaens 6 de Março de 1726 / João Carn.ro de Lima [3.º averbamento] Concedo aos supp.tes o tempo de / dous annos com declaração que / dentro nelles darão principio a / reedificação. Porto 26 de / Junho de 1726 / Barboza [fls. 5] [Averbamento:] «Declare pr.º [primeiro] o R.do te Sup. se em Acto de / Vezita se aiustou ia o Sitio, e tudo q / Se tem passado nesta matéria; Porto 12 de / Junho de 1728» / J G.dor [rubrica] S.or Dizem O R.do João Carneyro de Lima Abb.e da fr.ª de S. Martinho de Ezcapains, juiz eleytos e mais povo da dita frg.ª Comarca da feyra deste Bispado q os supp.tes alcançaro despacho junto p.ª Redificarem a Ig.ª da dita fr.ª como consta do despacho junto; e como haya grandes duvidas entre os supp.tes sobre o sitio em q se deve fundar a nova Igª; alem de serem os supp. tes pobres por isso athe o prezente se não tem dado principio a dita obra; e pª mays facilm.te se lhe tirarem as duvidas, querem os supp.tes q V. Sr.ª mande fazer a eleyção do lugar em que se há de principiar a dita Igrª e junta m.te como a vinte e seis do prezente mez de Junho, acabão os dois annos q aos supp.tes se lhe concederão para darem principio a obra da dita Igrª esteyão feytos os apontam.tos para ella, e não há q.m lance na dita obra, em rezão de q em hum sitio poderá custar menos em outro mayz e porisso lh’é percizo asignarselhe [assinar-se-lhe] primeyro o sitio em q se deve fazer a dita obra,


P. a V. Srª seya servido mandar / fazer a dita eleyção d lugar em q / se deve fazer a dita Igª e concedendo-lhe / mays tempo para dar principo a / ella depois de acavado, o q consta do despacho Junto. E R M.cê 3. 3. Análise folha a folha deste processo… A folha 1 refere o título de todo o processo informando que ele diz respeito à reedificação da igreja de Escapães. Completa a informação indicando quem foram os requerentes de todo o processo: o Abade João Carneiro de Lima, o juiz e outros oficiais da Fábrica da Igreja. Completa a informação com a data final de todo o processo – 17 de Março de 1735. A folha 2, no seu anverso é o original do primeiro requerimento feito pelo abade e mais representantes do povo de Escapães. A esse requerimento já nos referimos anteriormente. Nele dizem: - porque a igreja é antiga e está arruinada, para o povo de Escapães é melhor construir uma nova, do que estar a compor a velha; pedem que o capítulo da Visita seja suspenso na pena cominada de vinte mil reis e no prazo estipulado de dois anos; requerem também que este seja alargado para dez anos. O cabido diocesano, em situação de diocese «sede vacante»51 toma conhecimento desse requerimento, conforme anota nele o cónego Deão (= decano), em 21 de Janeiro de 1726; dez dias depois, o mesmo deão remete o requerimento para o vigário geral, com funções de administrador capitular, para que tenha dele conhecimento e decida como lhe parecer justo. No verso desta segunda folha [fls.3], transcrita pelo abade João Carneiro de Lima e com data de 27

- A diocese do Porto encontrava-se sem bispo residente e por isso, «sede vacante». À morte do bondoso D. Fr. José de Santa Maria Saldanha, ocorrida em 26 de Setembro de 1708, foi nomeado para seu sucessor D. Tomás de Almeida, que tomou posse da diocese em Novembro de 1709. Entretanto, a diocese de Lisboa, por reiteradas ofertas e correspondentes pedidos dirigidos ao papa por D. João V, foi promovida a patriarcado e para seu primeiro patriarca foi escolhido e nomeado o bispo do Porto D. Tomás de Almeida, o qual tomou posse do lugar em 4 de Dezembro de 1716. Depois, por causa de diversos e sucessivos litígios, a diocese do Porto ficou «sede vacante» até 1739, data em que D. Fr. José Maria da Fonseca e Évora ocupou a sede vazia da Igreja Catedral do Porto. Por tudo isto, o processo da construção da igreja paroquial de Escapães decorreu, todo ele, em tempo de «sede vacante».

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de Janeiro de 1726 vai a cópia da ordem do Visitador que impôs aquela reparação tão profunda, com as respectivas penas. Aí se diz: «mando que os paroquianos no termo de um ano e meio armem o tecto… e no termo de três meses… portas travessas de novo… concertem a escada… abram uma fresta na parede… ponham grades de ferro…e vidraça… façam escadas para o púlpito… consertem o ladrilho… façam um pano preto para a tumba… ao que tudo darão cumprimento no referido termo, sob pena de vinte mil reis». E passado o prazo, se tal não for cumprido o rev. pároco enviará certidão da omissão a juízo. E recomendo muito… que continue com a … obra que intenta na capela maior, acrescentando-a e fazendo nova sacristia». Nesta parte final também se evidencia a conclusão de que a velha e pequena igreja era românica, com pequena capela-mor e sem sacristia. A folha 4 que continua a cópia do capítulo da Visita, em causa, completa-se com um primeiro despacho, averbado no verso do requerimento exigindo que o pároco informe a Cúria se os fregueses de Escapães estão todos de acordo em reedificarem a igreja, como se pede no requerimento. O pároco responde em 6 de Março de 1726, que sim. Estão conformes. (segundo averbamento) Finalmente, um terceiro averbamento que contém o primeiro despacho favorável, do promotor diocesano para arranque do projecto pretendido: «Concedo aos suplicantes o tempo de dois anos, com a declaração de que dentro deles darão princípio à reedificação». Foi assim, que, no Porto e conforme a data a 26 de Junho de 1726, o Dr. Barbosa promotor da justiça da Cúria Diocesana pôs em marcha o projecto da construção da nova e actual igreja de Escapães. Conseguido este despacho, há depois uma pausa considerável na produção de novos documentos. Mas, a caminhada empreendida não foi de modo nenhum uma paragem, ou um vazio. Choveram as preocupações: – Onde buscar e garantir os meios económicos para tão grande empreendimento?

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– Com que se pode contar, a expensas do pároco?

– Quem se vai obrigar a pagar, ou a ficar por fiador da obra?

– Com que podem contribuir os «pobres lavradores foreiros»?

– Pode o povo de Escapães começar o investimento sem garantias notariais?

– Qual o contributo que a Altíssima Casa do Infantado, como fundiária e primeira senhoria de muitas propriedades, pode dispensar?

– Quando, onde e como fazer a escritura de compromisso?

– E a Comenda de Malta de Rio Meão, tradicional padroeira de Escapães?

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– Quem, para intervir, e por que caminhos, para se conseguir que o rei e a sua administração conceda o rendimento do imposto do real, sobre a canada de vinho e o arrátel de carne, vendidas no concelho de Feira? – E por quanto tempo? – Onde se vai implantar o edifício da nova igreja? – Que fazer com a velha? – Quem nos vai facultar uma planta de arquitectura digna, moderna, suficiente e acessível às nossas possibilidades? – E completar a planta com as condições de construção? – Que mestres empreiteiros convocar para realizar o empreendimento? – Que fazer com a capela de Santo António, ali, acima do caminho, e tão próxima? – Não será o melhor sítio para implantar a nova igreja? – Deverá a capela de Santo António ser destruída?

É este conjunto de interrogações e de outras indocumentadas, agora umas e logo outras, que preocupam todos os escapanenses e todos os seus responsáveis, naquele fecundo período. Por inerência do ofício e por tarefa assumida, lá está à frente o nosso Abade João Carneiro de Lima. Não foi um tempo fácil, porque essa caminhada foi marcada por alguns desentendimentos, facções, dúvidas e adiamentos. As peças documentais deste processo no-lo dão a entender, enquanto, por outro lado, nos vão mostrando a superação das dificuldades. Então, continuemos a análise, mas par e passo com o constante da folha 12. Ela contém um novo requerimento do pároco, feito pelos princípios de Junho de 1728 e dirigido ao administrador capitular, onde o abade, partindo do despacho alcançado para fazerem igreja, informa que ela ainda não começou por não haver, entre todos, acordo sobre o sítio onde ela se devia edificar. Então, requer o abade: - «querem os suplicantes que Vossa Senhoria mande fazer a eleição do lugar em que se há-de principiar a dita igreja», até porque já no próximo dia 26 de Junho [1728] acaba o prazo, inicialmente concedido para começar-se a construção, sob pena daquela pesada e tão temida multa incidir sobre todo o povo de Escapães. E continua: já estão redigidos Os Apontamentos, isto é, as condições para concurso, mas os concorrentes à obra não aparecem, porque sem o sítio de implantação definido, não há condições para se fazer uma justa avaliação dos custos. Recebido tal requerimento, o promotor de justiça da Cúria vê-se obrigado a pedir que o pároco diga, se no inicial Acto de Visita, já ficou ou não definido


o sítio da implantação e o mais que houver a informar nesta matéria. Ora, porque os apontamentos já foram considerados redigidos no último requerimento do abade, vejamos qual o seu texto e as suas características. Essas condições básicas para o concurso da nova igreja apresentam-se desde a folha 5 à folha 12, inclusive, do processo em análise. 3. 4. Transcrição dos apontamentos

Fac-simile do início dos apontamentos sobre o projecto de construção da igreja de Escapães

[fls. 6] [APONTAMENTOS] «Apontam.tos da Igr.ª q de novo se quer fazer na freg.ª de S. Martinho de Escapãins da Com.ª da fr.ª Bisp.do do Porto. / em os 31 Dias do Mês de Dezembro de 1727, na maneira seguinte:

• Primeiram. te será fundada esta Igr.ª com os fundam. tos necesr.os lhe dar em terra firme; Terá de comprido oitenta Palmos, e de largo trinta e seis Palmos tudo em vão e livre das Paredes, e d’alto terá trinta e seis Palmos; As paredes serão feitas de pedra e cal a saber: três medidas de saibro, e hua de cal; estas paredes terão de largo ou grosso ate a superfície da terra sinco palmos e meyo ou o que for necesr.º conforme o alto e fundo do alicersse e dahi para sima se cortarão em coatro palmos e meyo e som.te a parede do Arco Cruzr.º ficará em grosura de tres palmos, e tres coartos de palmo; • Farceha hu Arco Cruzr.º de Escoadria q terá de Largura dezoito palmos e meyo, e de alto vinte e três palmos com a volta q. pedir; terá suas bazes e Capiteis e será refendido por cabessa e aduella terá hu palmo de cabessa da p.te da Igr.ª e da p.te da Capella mayor terá faixa tres 4.os de palmo, tudo traspilado, e m.to bem lavrado e escodado, será ecentado sobre hu degrao da mesma Esquadria, q encha e ocupe todo o vam do Arco tudo lavrado e bem escodado. • Hão-sse de fazer duas portas travessas da mesma Esquadria, q terão de Alto» [fls. 7] «De alto cada hua dellas doze palmos e de largo seis palmos; terão de cabessa hu palmo e de faixa meyo palmo, tudo traspilado; terão suas alquitraves e colarinho com com seu frizo e sacada; e o frizo hade ser refendido. • Hão-sse de fazer no frontespicio desta Igr. ª três cunhais de Esquadria, como também os dois

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do Arco Cruzr.º q fazem sinco, cada hu delles terá de largura p.ª cada p.te dous palmos e meyo; terão suas bazes e Capiteis; serão traspillados e bem lavrados e escodados e ham de acentar em sima de hu soco, q há de revestir e servir de faixa no frontespicio feito da mesma Esquadria. • Hasse de fazer hu Portal principal q há de ter de largo nove palmos e de alto quatorze palmos, há de ser apilastrado e há de ter de largo a pilastra dois palmos e a cabessa do tranqueiro há de ter palmo e 4.º; há de ser refendido como também a pilastra há de ter suas bazes e capiteis como também alquitrave, frizo e sacada q tudo resaltrará nas pilastras; há de ser este portal faixado e há de ter de grosura meyo palmo com seu traspilado, ou traspillo. • Hasse de fazer hua ginella pª se comonicar a vista ao coro q terá de largo sinco palmos e de alto oito palmos; terá cabessa de hum palmo de grosso e por dentro faixa de meyo palmo tudo traspilado como tam bem sua alquitrave, frizo e sacada com remate de ponto agudo; os frizos serão refendidos, tudo de boa esquadria, bem lavrada e escodada e levara os ferros assim machos como fêmeas, todos os que pedir a obra». [fls. 8] A porta principal há de asentar em sima de hum degrao q revista os emvazam.tose resalte (?) as pilastras. •Hãosse de fazer duas frestes de cada p.te q hão de ter de altura seis palmos e de largo três palmos; serão muy bem rasgadas de hua e outra p.te, hua faixa no grosso meyo palmo bem traspiladas e hão de leu-uar os ferros p.ª cada hua dous machos e sinco fêmeas. • Hasse de fazer hu arco p.ª serventia do Baptistr.º da mesma Esquadria q terá cabessa hu palmo de grosso com suas bazes e capiteis e há de ter de largura este d.to arco oito palmos com a altura q pedir o coro; hasse de fazer aqui hua ginella p.ª os Santos Óleos da mesma esquadria; e há de ter de largo três palmos, em quadra com seus quaixilhos p.ª andarem as portas. • Hasse de fazer hu portal de Esquadria p.ª a serventia do Coro, q há de ter de largo sinco palmos e de

alto oito palmos e meyo com cabessa de hu palmo de grosso e caixa meyo palmo tudo trespilado; há de levar hua ginella feita de tranqueiro p.ª dar vista o Baptisterio, q há de ter de largo e de alto tres palmos com sua grade de ferro bem segura; hua escada da mesma esquadria p.ª subir ao coro, q há de ter de largura seis palmos com todos os degraos q pedir; esta escada no Pateo de sima será lageada da mesma Esquadria e levara hu Pedrastal com seu Molám, e há de levar Corrimam no Pateo e há de ter de» [fls. 9] De altura coatro palmos. • Há de ter este campanário p.ª asentar os Pés direitos hua sacada q revista o campanário em volta e há de ser asentada no ulivel do Cume da Igr.ª; e dahi asima se há de continuar com o campanário, q. ha de ter de alto oito palmos e de largo quoatro palmos com a volta q pedir; há de ter de grosso os pés direitos dous palmos e meyo e ha de levar seu colarinho pª asentar a volta como tam bem levará seus seguintes alquitraves, frizo e sacada com seu remate aberto com Bolão no meyo, tudo de boa esquadria, bem lavrada e escodada; abobeda deste Baptistrº será de Alvenaria desbastada ao picão. • As Empenas da Igrª hão de ser feitas de Esquadria, terão moldura de meya cana como tam bem hu leito de grosso (?) ao sobre leito de largo três palmos hão de ter suas cruzes q terão de alto cada hua

Igreja de Escapães. Vista parcial da fachada sul com torre, porta com frontão, janelas; “frestes” no texto.


Igreja de Escapães. Notar remates da torre com pirâmides e gárgulas, cornijas ressaltadas, a sugerir “andares”, janelões dos sinos, lanternins das escadas da torre, janela no baptistério e porta de acesso à torre e coro alto.

se há de fazer sua escada de boa esquadria feita em vão direita a regoa por baixo com todos os degraos q pedir.52 • Hãosse de fazer coatro Pias sufficientes p.ª agoa benta nas portas principal e travessas, q hão de ser metidas na parede com seus zogalhõns e mejas canas. • Hamsse de fazer dous galheteiros na parede metidos como se costuma. • A pia do Baptistério será a mesma q esta na Igrª velha e som.te se alimpará bem e se ha de asentar no Baptistr.º da Igrª nova. • Quem ouver de tomar toda a referida obra nos apontam.tos asima e retro se há de aproveitar da pedra da Igr.ª velha p.ª aver de servir na nova, ficando de p.te do Pateo da rezidencia des palmos em todo o comprim. to da d.ta Igr.ª velha onde assim deve ficar p.ª tapar o Adro q demadia com o pateo da rezidencia e ultimam.te q.m ouver de tomar esta d.ª obra há de dar carretos de pedra, cal e saibro e todos os mais custos, por conta de q.m a tomar e for rematante E logo pondosse a lanssos a contheuda obra nestes apontam.tos p.ª aver de se rematar se fés ajuste com o mestre Pedreyro

A velha (românica?) pia baptismal da Igreja de Escapães.

dellas sinco palmos e meyo e os pedrestais hão de ter de grosso dois palmos e meyo com seus colarinhos; hamsse de fazer quatro peramedes com seus pedrestais, q com tudo fassão de alto nove palmos e os pedrestais serão como os das cruzes e a piramede q fica no cunhal do campanário há de ser metida no mesmo cunhal. • Hamsse de fazer duas columnas pª sustentar o coro q hão de ter a altura q pedir o mesmo coro; há de ter suas bazes, e capiteis com a grossura q pedir, hão de levar seus pedrastais com duas bazes e capiteis e hão de ter de grosso dous palmos e meyo e de alto quatro palmos e hão de ser refendidos e atados (?). [fls. 10] O púlpito há de servir o mesmo q esta na Igr. ª velha, que se esquodará, sendo necesr.º e p.ª elle

Base do púlpito em granito e em forma de mísula.

- Não parece que os cânones artísticos do púlpito sajam anteriores a outros efeitos ornamentais das cantarias, a não ser que a pia em referência fosse um enxerto muito recente na velha igreja. É mais viável supor que esta cláusula não foi tida em conta e que se acabou por fazer uma peanha de púlpito concordante com os restantes módulos artísticos.

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[fls. 11] Pedreyro An.to Rodrigues por alcunho o Picansso da freg.ª e Couto de Grijó e se obrigou a fazer a sobre d.ta obra na forma asi, e da mesma sorte q nos apontam. tos se contem pagando-lhe o Juis An.to da Sylva, Elleitos M.el de Sá e João Carn.ro da Crus por si e pelo mais povo desta freg.ª quinhentos mil reis, so m.te pella obra de Pedraria, como tam bem se lhe avia de dar a pedra da Igr.ª velha p.ª servir na nova Igr.ª, excepto a parede q há de ficar em todo o comprim.to da Igr.ª velha com des palmos de alto p.ª tapar o Adro e pateo da rezidencia e nesta forma se ajustarão todos e se obrigarão a dar entr. º [inteiro] emplem.to a tudo o q aqui tinhão detreminado, de q mandarão fazer este tr.º [termo], q huns e outros asinarão aos 4 de Fevr.º de 1728. [Seguem-se as assinaturas:] M el de Sa / João Carn. da Crus / De An.to + da Sylua / An to Ro[i]s [= António Rodrigues].

sem falta nem demenuissão alguma por presso de trinta mil reis como tam bem a fazer os remates p.ª as portas travessas e esses por sima da ginella do Coro no frondespicio por presso de quatorze mil e quatro sentos Reis e carregarlhe a pedra da Igr.ª velha p.ª na nova se aproveitar della (como ia fica dito) a parede q devide a igr.ª do Pateo da rezidencia em todo o comprim.to e altura de des palmos e pellos ditos juis e Eleytos estarem prezentes se obrigarão a dar a elle d.to Mestre Pedr.º as ditas quantias pellos acresentos e carregarlhe a pedra da Igr.ª velha p.ª a nova e nesta forma se obrigarão todos de q mandaram fazer este termo q asignarão oje, aos 5 de Jan.ro de 1729 [Seguem-se as assinaturas:] Sylva / Mel de Sa / AN TO ROIS João Carn.ro de Lima».

De An.to +

da

ro

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Dipois do ajuste asima feito detreminarão o juis e Eleitos Com o beneplácito do mais povo fazer mais por acrisento duas capellas por baixo dos Altares coletrais p.ª cujo effeito se contratarão [fls.12] Se contratarão e ajustarão com o mesmo Mestre An.to Roiz, q se obrigou a fazer as ditas duas capellas de Esquadria com bazes e capiteis e molduras tudo na for forma [sic] q estão os da Igr.ª de Lobão

Igreja de Lobão. Colunas suporte do coro alto.

3. 5. Continuação do comentário folha a folha… Esta peça compõe-se de duas partes: um corpo principal, datado no seu início de 31 de Dezembro de 1727 e na sua assinatura de 4 de Fevereiro de 1728, no qual se refere desenvolvidamente o específico da construção desde o alicerce até ao alto da torre e desde a base das portas até aos complementos aparelhados das paredes interiores; outro, um corpo secundário e pouco desenvolvido, chamado no texto de «acrescento», datado de 5 de Janeiro de 1729.

Capela de Nadais. As colunas da Galilé são as antigas colunas do coro alto da Igreja de Escapães.


Os apontamentos no seu todo são um documento muito curioso, redigido numa linguagem cheia de termos populares e específicos dos mestres e artistas da arte de pedreiro daquele tempo, cujo sentido mais se entende por intuição e à vista patente da obra acabada, do que por conhecimento experimental dessa línguagem.53 Isso mesmo nos revela a leitura de todo ele. Exemplificando, relevemos os seguintes aspectos: a medida fundamental utilizada para indicar medições lineares, como tamanhos, alturas, larguras e espessuras é o palmo; a parede, que havia de ser rebocada, é feita de pedra e cal – esta na proporção de três medidas de saibro para uma de cal; as paredes e as saliências ornamentais nobres, feitas em cantaria, tinham uma nomenclatura própria, como podemos observar na descrição que, de seguida, vamos apresentar. De facto, o edifício não foi feito ao acaso. Obedeceu a um projecto na disposição dos principais elementos tais como a nave principal da igreja, a capela-mor, a sacristia, a torre e o baptistério, com as suas portas, janelas e arcos. E neles, a decoração enriquecedora do edifício em construção, bem diferente do antigo templo e de tudo o que se usava até então. É dessa decoração que nos fala a peça fundamental, que se nos apresenta sob o nome de «apontamentos». Alguns termos e expressões são-nos familiares, porque comuns e permanentes; outros, próprios da linguagem - Estes Apontamentos são um projecto escrito e explicado. No desenvolvimento de todo o processo da construção da igreja de Escapães – nem se sabe que haja outra qualquer fonte documental – não há qualquer referência a peças desenhadas: plantas de base, ou de fachadas, alçados ou cortes longitudinais. Depois, é de notar que o Aditamento feito ao ajuste inicial tenha por referência o modelo que foi executado na igreja de Lobão. Por esta observação se pode concluir que a concepção arquitectónica e a execução dos diversos módulos das cantarias indicam, ou que o autor do projecto, ou o emprenteiro, ou os dois, teriam sido os mesmos. Realmente, encontramos nos dois edifícios algumas semelhanças em diversos pormenores dos ressaltos das cornijas, ou no lançamento das pilastras, nos remates do frontespício, no assentamento dos pináculos e cruzes, na distribuição dos diversos ornatos decorativos da fachada principal. Há mesmo referências a peças paralelas como sejam os altares colaterais, a disposição do baptistério, as colunas de suporte do coro alto, as escadas do púlpito, as pias de água benta, as frestas largas das janelas, etc. A torre da igreja de Lobão não é de considerar, pois foi feita posteriormente, com outro desenvolvimento em altura e outra distribuição de volumes. A propósito das colunas de suporte do coro alto, encontramos as de Lobão no seu sítio original, conforme se pode ver na ilustração; as de Escapães, foram deslocadas para a galilé da Capela de N.ª S.ª das Necessidades de Nadais, também reconstruída, onde se encontram.

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Igreja de Escapães. Capela baptismal, remodelada pelos anos 50, p. p.

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do tempo, de cariz popular e de uso exclusivo duma classe laboral. Ao fazermos a leitura deste passo do processo temos de interpretar aquilo que essas palavras nos querem dizer. Sabemos o que é frontispício, torre, baptistério, cantaria, esquadria lavrada, alvenaria, cunhal, arco cruzeiro, arquitrave, pilastra, coluna, soco ou base, capitel, pirâmide, cruz, púlpito, portal, jinela, etc. etc… Mas no presente só são conhecidas pelos lavristas da pedra, ou pelos técnicos estudiosos desta matéria palavras e expressões como estas: «arco refendido por cabeça e aduela»… «tudo traspilado»… «muito bem lavrado e escudado»… «porta travessa com cabeça e aduela»… «alquitrave e colarinho com seu friso e sacada»… «(portal principal) apilastrado, com pilastra e cabeça de tranqueiro»… «alquitrave, friso e sacada», etc… Então, pelo contexto, à vista da obra acabada adivinhamos o que queiram dizer expressões como estas: «Jinela para os santos óleos» será um nicho a servir de poial para guarda permanente dos santos óleos dentro do baptistério; «alquitrave, friso e sacada»


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será o frontão triangular isósceles com cornija e seus ressaltos, entablamento, filetes e colarinho sobre as portas travessas e janela da frontaria; «há de levar hua ginella feita de tranqueiro para dar vista ò Baptistério»; isto não compreendemos. - Deverá entender-se por «tranqueiro» a palavra usada para significar disposição enviesada no rasgamento de enxalços? «Faixa» tal como hoje, significando esquadria saliente e corrida, ou friso de ressalto, para indicar níveis de andares; «molão» deve entender-se por remate de um colunelo central, suporte de um corrimão, em forma oval (melão, ou bolão); «frestes» para significar janelas e não frestas, conforme o significado da palavra francesa fenaître – janela que, para segurança, necessita de uma grade em ferro forjado, com dois ferros verticais – os machos, e cinco ferros horizontais e vazados – as fêmeas. No desenvolvimento de todo este texto releva-se a preocupação de que se mantenham a pia baptismal e o púlpito da antiga igreja. Era a afirmação da continuidade e identidade do povo filho duma mesma mãe-igreja.54

- Uma das condições impostas pelas Constituições Diocesanas, para a construção de novos templos, substituindo outros mais antigos, era a obrigação de integrar a velha construção na nova. Por esta razão se compreende que, neste processo de igreja nova para Escapães, haja uma constante nas condições do concurso de pedreiro e na escritura pública: integrar a pedra da velha igreja na construção da nova. Era um material muito próximo e à mão, mas era sobretudo um material, que tinha sido objecto de uma consagração/ bênção e dedicação ao sagrado e nunca ao profano. Esta orientação torna-se mais evidente quando se diz expressamente que a pia baptismal – fonte da vida nova, comum a todos os filhos da igreja – e a pedra do púlpito – mesa onde se alimenta a fé pelo ensino, devem continuar as mesmas, como sinal de identidade e continuidade da vida religiosa da paróquia. A mesma orientação se aplicava às imagens notáveis pela sua forma e pelo seu culto, a retábulos entalhados, ou tábuas pintadas e outras restantes alfaias e objectos de culto: cruz, cálice e patena, cibório, galhetas e turíbulo... Mais: outras fontes e a análise iconográfica das imagens, esculpidas ou pintadas, de algumas tábuas entalhadas existentes na actual igreja nos levam a tal conclusão. A primitiva pia baptismal, que fora reverentemente enterrada no adro circundante da igreja e recentemente aparecida, nos fala da sua antiga origem: - uma peça de granito talhada, lavrada e modulada com nervuras levemente salientes, próprias da arte românica decadente. Tal como se fosse um sacrário, ela merece a veneração e o respeito da actual geração do povo de Escapães, como preito e homenagem àqueles seus antepassados, que com ela estiveram estreitamente vinculados. Ela está inventariada e muito deve ser reverenciada. Para nos inteirarmos duma vasta legislação sobre as disposições jurídicas eclesiásticas do tempo, é necessário consultar as Constituições Sinodais. Referimos por serem mais englobantes as Constituições de D. João de Sousa, derivadas do Sínodo diocesano de 18 de Maio de 1687. Ver Regimento do Auditório Ecclesiastico do Bispado do Porto. Porto,1690.

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Entre as especificidades do edificado está a construção do coro alto. Ele devia ser sustentado a meio por duas colunas cilíndricas, lavradas e com suas bases e capitéis. Lá estiveram até anos muito recentes. Com a remodelação da igreja e do coro alto deixaram de ser precisas, pelo que, em ocasião propícia, foram aplicadas à galilé da velha capela de Nossa Senhora das Necessidades de Nadais, onde se podem ver na sua elegância e classicismo. A redacção destas condições é muito típica sobretudo na conjugação do futuro pronominal do verbo «haver». Composição certa, mas que passou a ser pouco usada na língua corrente e erudita, embora usada ainda no linguajar do povo: «há-se de fazer, ou no plural, hãose de fazer». A parte final e complementar dos «apontamentos», expressamente considerada como um acrescento, foi, conforme diz o mesmo texto, uma preocupação de enriquecimento dos altares colaterais, ao dotarem-se de «duas capelas de esquadria, com bases, capitéis e molduras, na forma que estão os da igreja de Lobão, sem falta nem diminuição alguma». Estas informações levam-nos a pressupor que, feito o corpo dos apontamentos se seguiu o concurso, a atribuição da obra e o início dos trabalhos, firmados num contrato verbal. Foi já no decurso dos trabalhos, que surgiu aquela ideia e decisão de fazer umas capelas colaterais, aprovadas pelo juiz, eleitos e todo o povo, conforme tinham sido feitas para a igreja paroquial de Lobão. E, de facto, se fizeram. É de particular devoção o túmulo da Dormição de Nossa Senhora, que se evidencia pelo labor da sua talha dourada e pela delicadeza de todo o seu conjunto. Comentando todas estas circunstâncias, concluímos:

Igreja de S. Martinho de Escapães. Vitrine com uma imagem jacente da Virgem Maria, representando a sua dormição.


cemitério;

Igreja de S. Tiago de Lobão. Vitrine integrada no espólio museológico existente na sacristia da igreja e que estivera em vitrine de altar lateral, agora preenchido por pano de azulejos.

a) o concorrente contemplado com a atribuição da obra foi o empreiteiro António Rodrigues, por alcunha «o picanço» morador no lugar de Loureiro, do Isento de Grijó,55 actual concelho de Vila Nova de Gaia; b) o custo da empreitada inicial correspondente ao corpo dos «apontamentos» foi de quinhentos mil reis; c) a esta importância acresceu depois o custo do acrescento nos altares colaterais no valor de trinta mil reis; d) parece poder deduzir-se que a referência aos «remates para as portas travessas» e aos que figuram por cima da janela do coro, no frontispício «eram os frontões com o seu triângulo isósceles e o seu tímpano, que coroam as portas travessas e a janela da frontaria da igreja; estes também foram um acrescento que importou em catorze mil e quatrocentos reis; e) a este preço monetário juntou-se o encargo do povo de Escapães, através dos seus representantes, de dar toda a pedra da velha igreja e o seu carreto, excepto a da parede da igreja velha na altura de dez palmos, que havia de ficar como muro divisório entre a residência paroquial e seu pátio, e o sítio da velha igreja e seu adro, que todo ele ficaria entretanto a servir de - O Mestre-de-Obras e empreiteiro da arte de pedraria da igreja de Escapães, certamente que assumia este apelido Picanso porque o faz constar na escritura de compromisso. Grijó era uma freguesia, cujo padroado pertencia aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, a quem pertencia o mosteiro de Grijó e também eram conhecidos por «frades crúzios», da Ordem fundada na Igreja de Santa Cruz de Coimbra. Por isso a denominação da freguesia de Grijó no antigo regime sempre foi considerada – o Isento de Grijó, porque não sujeito à normal jurisdição episcopal diocesana.

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Igreja de Escapães Altar colateral (esquerda de quem entra), dedicado ao Coração de Jesus. É um rico conjunto de talha vazada, cujas colunas nos aparecem decoradas com motivos naturalistas e figurativos, anteriores à própria igreja. É tradição, que veio da antiga capela de Santo António, fundada no Largo da Prof. D. Rosália. Inutilizou a porta de acesso ao púlpito, aberta no interior da parede.

Igreja de Lobão Altar colateral (esquerda de quem entra), em cujo frontal esteve venerado o esquife de Cristo, exposto em vitrine, para a devoção dos Passos, e que, agora, se encontra em zona museológica da igreja. O espaço foi preenchido pelos azulejos, comuns ao restante lambril da igreja, conforme se mostra na fotografia supra.

f) pelo encadeamento das circunstâncias podemos conjecturar que o mesmo António Rodrigues teria sido o construtor da igreja de Lobão, que ele conhecia e que terá recomendado para ser visitada e assumida como modelo, para aqueles pormenores dos altares colaterais. E, a ser assim, poder-se-ia atribuir a data da construção da igreja de Lobão à proximidade desta data. Temos, entretanto, a referência ao entalhamento dos altares, com data. Ver Apêndice Documental. g) pelas indicações vagas acerca do sítio da velha igreja, podemos conjecturar que o local da sua implantação não andaria longe do local onde, agora, foi construída a actual capela mortuária;

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h) concluímos que este primeiro contrato, inicialmente verbal, terá sido firmado por testemunhas presentes, ou escritura particular. Posteriormente, todo ele foi objecto de um documento no notariado público, conforme consta da escritura inserta no mesmo processo; i) embora nada conste da documentação que conhecemos, é provável que os custos da construção da igreja, que não foi só o da arte de pedreiro, mas também os custos das artes de trolharia e de carpintaria, cujas verbas não conhecemos, tenha sido subsidiado pela concessão régia do imposto do real sobre o arrátel de carne e a canada de vinho, vendidos no concelho da Feira por determinado período. Esse subsídio era correntemente atribuído e era indispensável perante a enormidade das despesas, sobre uma pobre e pequena população de famílias rendeiras, por fateusim. j) entretanto, antes duma conclusão final, algo há a dizer constante do processo e que antecedeu o real início das obras. Foi a discordância que algum tempo dividiu Escapães, relativamente ao «sítio», onde devia assentar-se a igreja. A isso nos iremos depois referir; l) finalmente, concluímos este comentário aos apontamentos, deixando um fac-simile da assinatura do empreiteiro. Vemos que era homem de escrita rudimentar, que tinha dificuldade em assinar o seu nome. Porque a necessidade dos contratos assim o pedia, ele lá aprendeu a escrever o seu nome, letra a letra e na forma mais curta, utilizando as abreviaturas do tempo. Anto por António e Róis por Rodrigues, mas tendo já esquecido o lugar onde devia colocar-se a letra «i» na abreviatura «Róis».

3. 5. Impasse: que sítio para a igreja? Continuando a análise do processo folha a folha, chegamos à folha 13/14. Contém um requerimento em nome do pároco de Escapães, onde já consta o nome do mestre de pedreiro contratante e o preço inicial do contrato. Nele, se informa que as obras já começaram com o arranque de alguma pedra da construção antiga para a igreja nova. Portanto já se cumpriu uma condição para se não ser condenado por falta do cumprimento do prazo de início. Agora é precisa a indicação última do sítio, onde fazer a nova igreja e a licença para se demolir a igreja velha. Enquanto não chegarem estas licenças, pede-se que o prazo do início da obra da nova igreja seja prorrogado por mais algum tempo. Recebido este requerimento, o promotor, em 15 de Junho de 1728, observa em averbamento: já me pronunciei sobre o assunto há uns dias; junte-se aquele despacho a este e deferirei definitivamente esta petição destinada ao rev. do pároco. Os documentos das folhas 15/17 seguintes contêm depoimentos bastante intrigantes e por vezes contraditórios. No requerimento o pároco apresentase ao Vigário Capitular como «o mais humilde súbdito de Vª Senhoria», informando que a petição anterior fora feita por quem não tinha capacidade de a fazer e só era aceite por uma minoria de fregueses. Então requer que alguém, com autoridade e com mandato oficial venha ver o local para definitiva escolha do sítio, onde fundar a igreja. Pelo emaranhado dos requerimentos e contra-informações fica-se a saber que naquela altura ainda há uma grave divergência entre a população de Escapães. Jogam-se influências para se imporem opiniões. O pároco e uma pequena facção da população querem que a nova igreja seja construída no local, onde já existe a capela de Santo António; o juiz e os eleitos (representantes do povo) e alguns fregueses, informa o abade, «querem e determinaram que a nova igreja se há-de fazer e fundar no Campo do Souto, [pertencente] ao passal, situado por baixo e a sul do rego de água, que vem para a residência, e da estrada, que liga Vila da Feira a Arrifana. Seria pois, entre a estrada e o cemitério então existentes.


O pároco não deseja que o sítio escolhido seja no Campo do Souto, porque não quer que fiquem prejudicados nem a residência por falta de água55, nem o passal, benefício do pároco, por ficar mais pequeno. A diatribe continua com informações e contra-informações. Para uns a igreja nova já começou; para outros, a igreja nova ainda não começou; para aqueles, a igreja já tem sítio; para estes, a igreja ainda não tem sítio. Perante essas contradições, em 18 de Junho de 1728, o promotor despacha: «Diferindo a toda esta miscelânea de petições, concedo licença para que a igreja se faça, como está mandado. Quando se souber, por declaração juramentada do pároco, que ela já está principiada, então, lhes darei novo prazo para evitarem as multas cominadas na Visitação inicial. O Abade [folha 19] confirma sob juramento «in verbo sacerdotis», que é como quem diz: ‘com a minha palavra de padre, que nunca mente’... Entretanto, para acabar com as teimas o vizinho pároco de Arrifana é enviado para avaliar e decidir sobre a pendência. Vai convocar o povo, ver os sítios e ouvir os prós e os contras; formado um juízo, enviará à Cúria o seu parecer, para que tudo fique decidido. Mas, neste passo, há um novo contratempo. Ao estar já na cidade do Porto, o abade de Arrifana cai enfermo. Um oficial da Cúria informa: «como o Abade de Santa Maria de Arrifana se acha enfermo nesta cidade, não pode com a brevidade possível cumprir o mandato. Alargue-se o prazo». Em 9 de Julho de 1728 o Abade de Arrifana, João Brandão, já tem a sua visita concluída e formado o seu parecer. Podemos vê-lo na folha 18. Ele escreve: «em observância do mandato que recebi, fui a Escapães. Vi os dois sítios e ouvi as respectivas opiniões; e determinei que a nova igreja se fizesse no Campo do Souto, por ser vizinho da antiga igreja, contíguo e pegado ao seu adro e cemitério, para que o velho cemitério possa continuar a ser cemitério». - Os direitos sobre a água que vinha para a residência e para os passais eram uma preocupação constante dos sucessivos párocos. Recordemos a referência «ao anel d’água» de Verão e de Inverno, que pertencia á residência e que o redactor das Memórias Paroquiais refere, como um direito a acautelar, porventura algumas vezes invejado.

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Havia realmente a opinião de um pequeno grupo – continua o padre João Brandão – que desejava a igreja no sítio da capela; mas chegou-se a um consenso, porque o solo da capela não era conveniente; porque a capela estava muito decente; porque a capela era única na freguesia e era necessária para se celebrarem os ofícios divinos, enquanto se construía a igreja. «…e nisto ficaram todos os fregueses conformes e o rev. pároco. Vª Senhoria mandará o que for servido». Em 20 de Julho seguinte, veio o despacho favorável: «Faça-se a igreja no lugar destinado pelo rev. Abade de Arrifana de Santa Maria.». Começaram os trabalhos de construção no local determinado pelo pároco de Arrifana, de acordo com o projecto e apontamentos já tirados e sob a orientação e a responsabilidade do «Mestre Picanso». Precisamente, no lugar onde hoje está! Mas a obra é grande e medonha. O pároco, informando que tudo já começou, diante das dificuldades que se vão manifestando, queixa-se de que «a freguesia é uma conhecida pobreza, muito empenhada, a viver quase só do seu trabalho, já que os proprietários das terras moram fora dali; por isso, necessitam de um prazo de, pelo menos doze anos, para acabarem a sua igreja e pedem também, que sejam absolvidos da multa, em que incorreram. Continuam as «démarches»: - um visitador vá a Escapães e verifique a verdade da informação… Vai e vem a resposta: sim; [folha 21] tudo está em curso, declara o Visitador! No dia 12 de Junho de 1729, estando ainda em Escapães, após uma visita local, o Visitador defere o que é pedido no requerimento e envia à Cúria a sua decisão, que fica apensa em 2º averbamento, assumida por um «Meyrelles» responsável diocesano: - «Eu os absolvo»! 3. 6. O contrato, por escritura notarial A empreitada da Arte de Pedreiro (pedraria) da actual igreja de Escapães, foi garantida por uma escritura pública, [folhas 22 a 27] feita no Livro de Notas do Tabelião António Gomes Leite, com cartório de notário aberto em Vila da Feira, mas que se deslocou

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expressamente à Residência Paroquial de Escapães, para produzir este instrumento jurídico. Como primeiro outorgante, em nome da paróquia de Escapães, apareceu António da Silva, Juiz da Igreja e, também como representantes eleitos do povo, João Carneiro da Cruz (Nadais) e Manuel de Sá (Chaminé), todos de Escapães; como segundo outorgante António Rodrigues, o picanso, mestre pedreiro de Grijó. A escritura foi feita, em 3 de Junho de 1731, já a empreitada ia muito adiantada. De facto, do custo total, inicialmente contratado, 544.400 reis, já tinham sido pagos ao mestre de pedreiro 355.605 reis. Portanto, pouco faltava. O primeiro outorgante comprometia-se a pagar ao segundo todo o custo da empreitada até ao final da obra, ficando como garantia de segurança, por espaço de dois meses, 50.000 reis. O prazo combinado para acabar a construção de toda a igreja fora de um ano. O contrato terá sido feito, inicialmente, de modo verbal e agora fora reduzido a pública-forma para ter força de lei e todas as garantias jurídicas. Notemos que o pároco, ainda que presente, não assume compromissos contratuais; são só os representantes do povo. A razão era a de que, na construção de uma nova igreja, ao pároco só competia o encargo de construir, a expensas suas, a capela-mor; ao povo, é que competia construir o resto da igreja. Neste acto solene da escritura tabeliónica, cujo original possivelmente ainda se poderá encontrar no Arquivo do Registo Notarial distrital, participaram também como testemunhas o nosso conhecido padre João Carneiro Cabeças, dito da freguesia de Fornos; Manuel Gomes, sangrador de Escapães e Caetano de Almeida, familiar do Abade João Carneiro de Lima, mas então a residir na freguesia de Avanca, do actual concelho de Estarreja. O pároco, que a tudo foi presente, finalmente assinou também, não se dizendo na escritura a que título; para encerrar este instrumento jurídico também o tabelião o assinou, como não podia deixar de ser. No original manuscrito o aparato do sinal do notário é muito vistoso, tal o emaranhado de linhas, rematadas por uma cruz sobre a sua rebuscada assinatura. Após a pública-forma extraída da escritura e incluída no processo, neste, não há muito mais

a comentar. Na folha 28 encontra-se um outro requerimento a pedir que toda a igreja velha seja demolida para toda se integrar na nova. Por isso deve concluir-se que a pedra da velha igreja, a fazer parte das paredes da nova igreja, deve encontrar-se nos remates finais das paredes da igreja nova. 3. 7. Citação do texto oficial da Escritura [fls. 22] «Escreptura que fizeram o Juiz e eleitos da freg.ª de Escapains com António Rodrigues mestre Predreiro (sic) de Grijó Em nome de Deos Amen. Saibam quantos este publiquo instromento de escreptura e de segurança e obrigaçam de obra, ou como em direito mais firme e valiozo seja, virem que no anno do nascimennto de nosso senhor Jezus christo de mil e sete centos e trinta e hum annos, aos três dias do mês de Junho do dito anno nesta freguezia de escapains, termo da villa da Feyra, terra de Sancta Maria, villa e terra de Sua Altheza que Deos guarde Etc. e nas Cazas da morada, digo, e nas Cazas da residência da dita freguezia adonde eu tabaliam fui vindo ahi perante mim e das testemunhas ao diante nomeadas apareceram prezentes António da Sylva Juis da Igreja e Joam Carneyro da crus de Nadais e Manoel de Sá da chemine eleitos da mesma Igreja, e todos desta dita freguezia de escapains e da outra parte apareceo prezente António Rodrigues morador no lugar de loureiro da freguezia Isento de grijó mestre Pedreiro e todos pessoas conhecidas de mim tabaliam, de que dou fé serem as próprias aqui nomeadas – E logo pellos ditos Juis e eleitos desta dita freguezia de escapains foi dito que elles detreminavam fazer de novo a Igreja desta dita freguezia e tinham asartado e contratado com o dito António Rodrigues ofecial e mestre de Pedreiro de» [fls. 23] De fazer toda a dita Igreja de novo de Pedraria a qual Igreja tem já principio e porque athe a prezente nam tinham feito escreptura por isso dice elle dito


António Rodrigues que elle por este publiquo instromento se obrigava a dar a dita Igreja feita e acabada na forma dos apontamentos e acrecentos nos ditos apontamentos feitos, a saber, a Igreja em preço e quantia de quinhentos mil reis e os acrecentos da sacadas das portas travessas em catorze mil e quatro centos reis e duas capellas mais em trinta mil reis, que tudo fez soma e quantia de quinhentos e quarenta e quatro mil e quatro centos reis, e tudo na forma dos apontamentos e porque assim hera o referido ajuste, dice elle dito António Rodrigues que elle na sobredita forma se obrigava per si e seus herdeiros e sucessores a dar comprimento a dita obra na forma dos ditos apontamentos que elle tem assinado dentro de hum anno e dentro delle dar fim a dita obra, pera a qual obra da dita Igreja dice elle dito Antonio Rodrigues tinha já recebido por partes trezentos e sincoenta e sinco mil e seis centos e sesenta e sinco reis que constam de paguas e assentos em que tem assinado em livro e logo por estarem prezentes o dito Juis» [fls 24] Juis e eleitos diceram que elles em seus nomes e em nome de todos os moradores desta dita freguezia de escapãins que elles se obrigavam à satisfassam do restante que falta pera a quantia dos ditos quinhentos e quarenta e quatro mil e quatrocentos reis abatendoce e descontandoce os trezentos e sincoenta e sinco mil e seis centos e sesenta e sinco reis que o dito mestre já tem recebido cujo restante se obrigavam a satisfazer a elle dito Antonio Rodrigues em pagamentos ficando sincoenta mil reis em ser para o fim da obra, em lhe esta ser revista dentro em dous mezes depois de acabada; o que assim sendo e achandoçe perfeita conforme os apontamentos se lhe fará a elle, dito Antonio Rodrigues entrega dos ditos sincoenta mil reis e não se achando conforme entam se emendarão à custa do dito Antonio Rodrigues e resto dos sincoenta mil reis e que no cazo que dentro de hum anno depois de armada e cuberta de telha a dita Igreja e feita de todo a dita Igreja esta abrir alguma breha [brecha] ou quebrar alguma padieira ou portal ou no arco della ouver alguma falta, de minuecam, ou ruína dentro no sobredito tempo será tudo reformado em

[fls. 25] Em termos à custa delle dito António Rodrigues porque nesta forma era o ajusto e contracto que entre si tinham feito dizendo mais elle dito Antonio Rodrigues e Juis e eleitos sobre ditos que elles ao comprimento desta escriptura e a sempre a fazerem boa e depras [e de paz?] e segura em juízo e fora delle cada huns na parte que lhe toca obrigavam suas pessoas, todos os seus bens moveis e de tais [?] havidos e por haver e expecialmente os seus terços e todos os seus bens para o que diceram renunciavam todas as leis liberdades opinioens de Doutores que em seus favores alegar possam porque nada queriam usar senam o comprir e guardar este instromento como nelle se conthem e outrosim dice elle dito Antonio Rodrigues que sendo necessario ser obrigado por alguma couza ou falta ou deminuicam da dita obra da dita Igreja se dezaforava do Juis e Juízes de seu foro e queria ser obrigado perante as justiças que elles Juis e eleitos ou seus successores demandar quizerem porque renunciava toda a lei que em seu favor faça; assim o diceram huns e outros e outorgaram e aceitaram e neste, digo, e acataram de parte a parte e nesta nota de mim tabaliam mandavam ser feito este ins [fls. 26] Instromento e della dar os treslados necessários em publiqua forma todos de hum theor que eu tabaliam como pessoa publiqua asseitante estepulante assei, digo, estepulante asseitei, estepulei quanto devo e posso por solene estepulaçam de que tudo foram testemunhas a tudo prezentes que tudo viram e ouviram ler e aqui assinaram com elle Antonio Rodrigues e Juis e eleitos o Reverendo Padre Joam Carneiro Cabessa da freguezia de Fornos e Manoel Gomes sangrador desta freguezia de escapãins e Caetano de Almeyda da freguezia davanqua familiar do Reverendo Abbade; eu, António Gomes Leite tabaliam que o escrevi e assinei; e declararam que para a fim da obra nova ficariam os sincoenta mil reis; mais sim se lhe hiriam fazendo os pagamentos do restante do compito [cômputo] da obra conforme esta andar; e acabada a obra se ache, inteirarão de todo; testemunhas as sobre ditas; o mesmo tabaliam o escrevi e assiney. António Gomes Leite //

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António Rodrigues // Joam Carneyro da crus // Manoel de Sá // de Antonio da Sylva, huma crus // o Padre Joam Carneyro Cabessa // Manoel Gomes Leitam // de Caetano de Almeyda, huma crus. O qual instromento de escreptura eu sobre dito Antonio Gomes Leite, taba [fls. 27] Tabaliam do publiquo Judicial e notas nesta Villa da Feyra e seu termo por provimento de Sua Altheza que Deos guarde, etc. fis tresladar bem e fielmente de meu livro de notas que fica em meu poder e cartório ao qual em todo e por todo me reporto em fe e testemunho de verdade me assiney aqui de meus sinais publiquo e razo, de que uso nesta dita Villa e seu termo que sam os seguintes e eu António Gomes Leite o sobescrevi e assiney» 88

Em testo e fe da ver.de [Em testemunho e fe da verdade] [assinatura:] An.to Gomes Leite»

Fac-simile do final da escritura da Arte de Pedreiro da igreja de Escapães

3. 8. A conclusão das obras do concurso A folha 29 é muito clarificadora, porque nos apresenta o processo da construção da igreja de Escapães, após um lapso de tempo algo dilatado, muito operoso e fecundo. A nova igreja levantou-se do chão e está agora materializada numa construção impressionante, feita «ao moderno». À volta, excepcionada a igreja conventual da Feira e talvez a da Misericórdia, todas as igrejas são diminutas, arcaicas e talvez arruinadas. A igreja de Escapães é uma das primeiras igrejas, nestes arredores, que foi um fruto primeiro do século construtor de igrejas, sobretudo no tempo em que esse séc. XVIII esteve marcado pelo carácter magnânimo do rei D. João V. Esta folha 29 também é um requerimento, no qual o subscritor, dirigindo-se ao Ordinário do Lugar, escreve: «o rev. João Carneiro de Lima, abade da freguesia de S. Martinho de Escapães… juiz e mais eleitos dela, dizem que eles, com a sua pública e notória pobreza, têm acabada a sua nova igreja, que edificaram por ordem e licença de V/, e que já a têm coberta e fechada, com os seus adornos necessários e suficientes para, dentro dela, se celebrarem os ofícios divinos. Agora necessita de ser benzida por dentro e por fora onde está o cemitério dos pobres. Requerem que, a alguém mandatado para tal, lhes seja dada comissão para poder benzer a igreja. Estamos em 11 de Março de 1735. O despacho do requerimento é no sentido de se providenciar para que tais desejos sejam atendidos. Em 21 de Março de 1735, o vigário geral dá os autos por «conclusos». Completa o despacho mandando que se faça a vistoria da nova igreja, verificando se realmente está em termos de lá se começar a celebrar a missa. Em seguida, [folha 33] o Provisor daquele tempo, o dr. José Guedes Moniz, Abade titular de Marecos, Penafiel, em forma solene, encarrega o rev. Abade de Esmoriz de visitar a nova igreja e de, por certidão, informar nas costas daquele mandato, o que encontrou relativo à decência necessária para a igreja ser benzida, conforme o pároco e o povo estavam a pedir.


Não se faz rogado o sr. Abade de Esmoriz, Ovar, Dom Bento da Assunção Pimenta, [folha 34] que depois de tudo examinar, informa nos seguintes termos: «fui a Escapães, vi a igreja construída ‘a fundamentis’, bem situada, com a nave feita e acabada, com as paredes caiadas, bem madeirada, com um guarda-pó a servir muito bem de forro, dois altares colaterais com seus retábulos acabados, tendo um deles sacrário, onde recolher o Ss.mo Sacramento, com pia baptismal púlpito e janelas bem engradadas e suficientes paramentos. Está tudo como mandam as leis. Só lhe falta o soalho e o forro, que momentaneamente se dispensam. É de louvar o grande zelo com que o rev. pároco reedificou esta sua igreja, Esta a minha opinião. Hoje, em Esmoriz, no dia 29 de Março de 1735». O escrivão da Câmara Eclesiástica, padre João Tinoco Vieira, dá por findo o seu trabalho e o Vigário Capitular nesse mesmo dia, 30 de Março de 1735, passa a necessária licença, na forma do estilo, para que o rev.do pároco João Carneiro de Lima, 1.º de nome, benza a então nova, e agora actual igreja de Escapães. Muito gostaríamos de saber em que dia foi a bênção daquela igreja de S. Martinho de Escapães e qual foi o sermão, que este importante pároco de Escapães dirigiu ao seu povo, nesse dia de Te Deum! 3. 9. Citação da última parte do processo [fls. 13] [Averbamento:] «Juntasse a esta petição, outra q sobre a mesma / Matéria despachei hum destes dias, feito / Em nome do R.do Abb.e; e então deffirirei. / Porto, 15 de Junho de 1728»«J Gor» [rubrica]Illm.º Snor. Dizem o R.do João Carn.ro de Lima Abb.e da Ig.ra de Sam Martinho de Escapaens, e o juiz e Elleitos e mais freguezes della sita na Com.ª da Frª deste Bispado, que elles alcanssarão o desp.º junto p.ª poderem edificar nova Ig.ra pellos fundam.tos expressados na p.am [petição] junta, e com eff.º estam conformes em fazerem a d.ª Ig.ra nova tanto assim que estão ajustados com o m.e [mestre] pedreiro António Rodrigues, o picanço de alcunha, m.or no Isento de Grijó a fazerlhes a obra de pedraria por preço e quantia de quinhentos mil reis dando-lhes também elles supp.es a pedraria que se tirar

do corpo da Ig.ra, q. agora existe, excepto dês palmos de altura de parede da p.te q confina com o pateo da Rezid.ª em todo o comprim.to da d.ª Ig.ra , pª assim ficar decentem.te tapado o cemeterio da d.ª Ig.ra; e ficar dividido do sobred.º pateo; e já o ditto mestre pedr.ro tem mandado arancar quantid.e de pedra de alvenaria pª assim poder logo dar principio a [à] nova obra, antes que se completem os dous annos expressados no ultimo desp.º junto, pª assim elles supp.tes não incorrerem na pena dos [fls. 14] Dos vinte mil reis comminados no Capp.º da Vizita copiado no papel junto e p.ª principio a d.ª obra, he necess.ro preceder licença de V. S.ia p.ª se fazer em hum dos cítios apontados em a p.am [participação] junta, e outrossim p.ª se poder demolir a d.ª Ig.ra existente por junto. P. a V. S.ria seja servido conceder as sobred.as / licenças e porogar mais algum tempo pª o / princípio da d.ª nova obra por restarem já m.to / poucos dias pª complemento dos dous annos / facultados no desp.º junto. E. R. M.cê [fls. 15] Il.mo e Rev.mo Senhor: Esta petição foy feita nessa c.de [cidade] por pessoa q não tinha cabal conhecim.to do estado e mudança da nova Igrª q com o favor de Deos e licença de V. S.ia se imtenta edificar nesta freg.ª por cuio respeito se faz a segunda petição em q se alega a verdade; no acto da Vezita não se ajustar o sitio, nem sobre esse particular tem havido duvidas; só sim me consta q o juis, elleitos, com alguns dos freguezes querem e detreminarão q a nova Igrª se hade fazer e fundar no Campo do Souto do passal cito por baixo do Rego da agoa q. vem pª dentro desta rezidencia confinando pella parte do norte com o d.º Rego e estrada p.ª a Arifana e Villa da feira e pella parte do Sul com o cemitério e passal, e os outros fregueses mostram terem bontade de q. se faça a d.ª Igrª no terreno onde esta cituada a capella de Santo Antonyo, q. são os lugares aligados na primeira petição. Esta obra, sem embargo de serem pobres hya já de estar principiada, e continuar o curso

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della se não emtervier o imped.to de acodirem poucos mestres pedreiros nos dias destinados p.ª os lanssos, no q se passou bastante tempo, the ultmam.te se rematou a dita obra na forma e maneira q na seg.da p.am [que na segunda petição] se trata. Sendo verd.e tudo o mais q nella se narra e V.ª S.ra mandará O q for servido. Escapaens 17 de Junho de 1728 Do mais humilde súbdito de V. Sr.ª / João Carn.ro de Lima

deffirido a todos / os requerim.tos; Porto / 20 de Julho de 1728. / J G.dor (?). [rubrica] P a V S lhe faça m.ce distinar a pessoa q for / servido, q va os [aos] dous citios referidos, e por / v.ª de olhos, ouvidos os q não comvem no citio / de s.to An.to, por desp.º [despacho] detrimine o / lugar em q deve ser a Igr.ª e q ahi logo se lhe de / principio.

[fls. 16] Deffirindo a toda esta myscelania de petições, concedo L.ça p.ª q a Igreia se fassa como esta O mandado; e tanto q. constar por certidão jurada do R.do Parocho, q. a obra esta principiada, torne p.ª lhe conceder o tempo conveniente e q for justo pª evitare a pena do Capitulo da Vezita. Porto, 18 de Junho de 1728 G.dor [rubrica]

[2.º despacho:] Sor / Como o RdoAbb.e de Sta Maria da rifana em? se achar nesta Cidade emfermo não pode com bervidade possivel fazer o q V Sr.ª ordena e como depois / da manham q se conta vinte seys do corente acaba o tempo concedido

[fls 17] [À margem: 1º averbamento, com o 1º despacho:] «O R.do Abb.e de S.ta M.ª de Arrifana, vá Fazer / A vestoria; e ouvidos os fregueses, ajuste o sitio q / melhor lhe parecer p.ª se principiar a Igreia; / de que dará conta, p.ª se mandar executar. / O q tudo deixo no seu prudente arbítrio.Porto 22 de Junho de 1728 / JG.dor [rubrica] Ill.mo Sr Diz o R.do João Carn.ro de Lima Abb. e de Escapais, q a fação da nova Igr.ª de q tratão os documentos iuntos está rematada a officiais q tem ia quebrado pedra e querem logo dar principio e continuarem e o não fazem hem rezão de q ha duvidas sobre o citio, q huns querem no citio da Igrª velha no campo do Souto, e outros a s.to António, e qual dos citios he mais útil deve ser por vª [vista] de olhos, aviriguado com attenção a q he mais capas o citio de s.to António; e não pode servir de prezumpção esta inconstáncia a q não esta dada a obra porq os officiais para a rematarem attenderão ao cómodo de hua, ou outra p.te [parte] [À margem, 2º averbamento:] Façasse a Igreia no lugar / destinado p.lo R.do Abb.e de / Arrifana de S.ta M.ª, / com os freguezes ; e depois de principiada a obra / poderá requerer o tempo / q for conveniente p.ª não / incorrere na pena do / capitulo da Vezita; no q / hei por

E R Mce

Fac-simile do requerimento anterior


[fls. 18 – no verso da fls. 17] [No alto da página] «Esta defferido J. G.or» [rubrica] «Concedido e como o supp.te andão [= anda] nestas nessesarias deligençias pedesse a V Sr.ª q atendendo a deligençia em q se anda i estar o dito Rdo Comesario nesta cidade emfermo conceder pª se fazer estas deligençias para se prencipiar o q mto se ententa P a V srª lhe faça Merce / conceder algu tempo para fazerem/ o q v. mce ordena pois/ não falta senão dois dias/ ao concedido para não incorem [incorrerem] na pena/. E. R. Mce». [fls. 18] Illmo Sor Em observância do desp.º retro de V Sª fui a fregª de Escapaens procedendo p.[rimei]ro a delig. ª de mandar notificar a todos os fregueses della q são cabeças de família pª se acharem presentes em dia e hora determinada e ouvindo os q se quiserão achar presentes e vendo os dous citios declarados na petição retro determinei se fizesse a nova Igra no campo do Souto vezinho da Igra antiga e pegado no Adro e semeterio da mesma e q. este mesmo ficaria servindo de semeterio pª a nova Igra por ficar contiguo, e suposto houvese pareser de alguns poucos fregueses q a dª [dita]Igra se fizese adonde esta a Cappella de Sto An.to Contudo isto se desvaneceu por não haver solo capas e conveniente e por não pareser justo se demolise por estar mto desente e ser a única q tem aquela fregª nem haver adonde se celebrasem os Divinos off.os; e nisto ficarão todos os fregueses conformes e o Rdo Parocho. V S.ª mandara o q for servido: Arrifana de Sta M.ª 9 de Julho de 728. Humilde subd.º de V Sª João Brandam [fls. 19] João Carn.ro de Lima Abb.e da parochial Igr.ª de S. Mart.º de Escapãens da Com.ca da Feira; Certeffico q. a nova Igr.ª de q se trata nos docum.tos juntos, está principiada no cityo destinado pello R.do Abb.e de Arifana de S.ta Maria, e aiustado com os freg.es e os officiais q. trabalhão na dita obra abrirão logo os alicerces e depois

continuarão o assento da parede por todo o circuito q se acha the a superfice da terra com algua escadria assentada nos envazam.tos da fronteira e lavrando outra p.ª se assentar nas portas travessas e cunhais. Passa na Ver.de, e o juro in verbo sacerdotis. / Escapâens 22 de 8.bro de 1728 João Carn.ro de Lima [fls. 20] [À margem: 1º averbamento:] / «O R.do Vezitador da Com.ca q.do for / Em Vezita á Parochia dos sup.tes constan- / do-Lhe q a obra da Igreja se continua, / Poderá deferir-lhe, ao q. requerem. / Porto, 26 de out. bro de 1728» / [rubrica do Dr. Provisor] Sor Diz o Juiz e eleytos e mais povo da frg.ª de S. Martinho de Escapainz da Comarca da feira deste Bispado q pello despacho q V S.ia mandou na p.am [petição] a fl 2, mandando q se edeficasse desde o principio a nova Ig.ª no lugar distinado e q feito requeresse ao Repp.toso (?) a V Sr.ª pª lhe conceder o tempo conveniente e absolve los da pena do Capp.º da Vezita e como esteja já a nova Igª princip.ª no destinado citio, e avertos os licercez, asentada a parede nellez por todo o circuito athe a superfície da terra e a escadaria já asentada nos embazam.os da fronteyra, e labrandose a pedraria para o asento daz portaz travessaz, e cunhais como tudo consta da certidão do R.do Parocho junta a fl.1, e sendo q como a freguezia he hua conhecida pobreza e m.to empinhada e viver quaze toda de seu travalho por na dita frg.ª parte dos cazais ser de moradores de fora da dita frg.ª e q pella sua imposublidade lhe seja ness.º o tempo de doze annos p.ª acabarem a sua Ig. pello q. P a V S.ia em ponderação do referido q he hua conhecida verdade absolvelos da cominada penna da Vezita e concederlhe o Referido tempo, de q. / R.e Mce [À margem, segundo averbamento:] «Visto terem os / supp.tes principiada / a nova Igreja e / continuarem com / as obras della / os absolvo da pena / cominada na [Vizita] / Escapães, 12 de Junho de 1729». [rubrica] Meyrelles»

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[fls. 21] [À margem: 1º averbamento:] «Juntasse a escritura do ajuste q votarão (? / Porto 28 de Julho de 1731 / [rubrica: -] J G.dor» . [À direita, 2.º averbamento:] «Haja v.ta o D.or or Provi. / Porto 6 de Ag.to de 1731/ [rubrica:]J G.dor» [À margem esquerda: 3º averbamento:] «Gastandosse a pedra na nova Igreia / Concedo l.ça, p.ª demolir a velha . / Porto, 7 de Ag.to de 1731. [rubrica:] J G.dor» Dizem os moradores da frgª de S. Martinho de Escapães comª da Feira, q qdo [quando] fizerão o ajuste com o mestre pedreiro pª edificarem a sua nova Igreja ficarão de lhe dar toda a pedra da velha; e como esta se não possa de mollir sem l.ça de V Sra; e seja precizo tanto pª satisfação do ajuste; como por ser nessrª pª a mesma Obra, q já está m. ta pte della feita de paredes, P a V Sra lhe faça mcê conceder lca pª q se possa / demollir a dta Igreja na forma pedida. E R Mcê [À esquerda 4.º averbamento:] «Não duvido V.ª S.ª / haja de conceder a l.ca / pedida pois asim o de / determina a constituição / deste Bispado. Prom.or Figdo» [À esquerda 5.º averbamento:] «Juntão a escriptura e apontamtos / em os qoais na 3.ª folha inmed.[imediata] offere- / cem a pedra da Igreja velha. V S.ra / lhes faça m.cê deferir.» [fls. 22] [À margem, 1º averbamento:] «Remetida ao R.do D.or Provizor, pª q / procedendo às dilig.as da Constit. do Bisp.do / se lhe possa defirir; Porto, 11 de M.ço / de 1735.[rubrica] J G.dor Diz o R.do João Carneyro de Lima Abb.e da fregª de S. Martinho de Escapainz da Com.ca da Feyra, e juis e mais povo eleytos della, que elles com a sua publica e notória pobreza tem acabada a sua nova Ig.ª q edificarão por Ordenz e Lç.ª de V. S.ia e a tem coberta e fechada com seus Adornos ao prez.te ness.os [necessários] e com sufficiencia p.ª a celebração dos off.os devinos. E porq nessesita de ser benzida assim dentro como por fora

o Adro, sepultura dos pobrez dandole Comição a q.m o possa fazer pello q P. a V S.ia se digne ser servindo imformado do referido de [dê] Comição p.ª se benzer tudo na forma do costume e Constituição. E R: Mcê [À margem, 2º averbamento:] Junta os autos ou / setensas q tiveram / forma. [rubrica] [Ao fundo da página:] -Sr Rdo Dr Provizor Saztifazem os supp.tes com todos os Requerimentos e lç.as que hove para se fazer a nova Ig.ª p.ª se lhe deferir.E R M.cê » [fls. 23, no v.º da folha 22] «Autuado tudo haja vista o R.do Dr Promotor» [fls. 24] V ta ao Rdo Dr Promotor / Devece mandar fazer vesturia na d.ª Igr.ª p.ª se exeminar se esta [está] acabada, perfeita e em termos de nella se selebrarem os ofícios devinos. / [Segue-se a assinatura:] Prom.or Aragão / E aos vinte hum de Março de mil settecentos etrinta e sinco me forão entregues estes auttos e os vi (?) conclusos. Eu João Tinoco Vieira, Escrivão da Camera q o escrevy. / [rubrica] Passe ordem p.ª o R.do Abbe de esmoris vizitar a Igr.ª e enformar se esta capaz. Porto em 21 de Março de 1735 / [rubrica] [fls. 25] Aos vinte hum de Março de mil sete centos e trinta e sinco me forão dados estes autos com hum despacho do m.to R.ev Dor Provizor de que fis este termo. Eu João Tinoco Vieira, Escrivão da Camera que o escrevy. [fls. 26] O D.or Joseph Guedes Monis Abb.e de Sancto André de Marecos e Provisor neste Bispado do Porto pello Muito Illustre Senhor Governador delle Sede episcopale vacante etc. Fasso saber que atendendo ao


que por sua petição me enviou a dizer o Reverendo Abb.e de Sam Martinho de Escapais, juis e mais officiais da mesma Igreja dizendo me que com licença minha Renovarão e Edificarão de novo a mesma Igreja e Sancrestia ? (Parrochia?), e que esta se achava na sua ultima perfeição com a decência necessária para já nella se poder celebrar os officios Devinos, E que assim necessitava de ser Benzida. E para se lhe deferir mando ao M.to R.vo Abb.e de Sancta Maria de Esmoris, que vista esta lhe dou Comissão para que va a ditta Freg.ª de Escapais E ocularmente veja a dita nova Igreja que se fes; e examinará se está feita com toda a decência e tem todos os paramentos necessários e em termos de se lhe poder deferir a se poder Benzer e nella celebrar tudo na forma da Constituição do Bispado; e nas costas desta, do q achar passava sua certidão jurada e fechada. Remeta ao Escrivão da Camera. Dada no Porto sob meu sinal e somente aos 22 de M.ço de 1735. Eu, João Tinoco Vieira Escrivão da camera Ecclesiastica que a Escrevy. [Segue-se a assinatura:] Guedes Monis Desta 60 / Ordem (?) [fls 27] Ao S. D.or Provisor Em virtude da ordem retro eu D. Bento da Assumpção Pim.ta Abb.e de S.ta Maria de Esmoriz certifico em como fuy a freg.ª de S. Martinho de Escapaens, e vendo e examinando a Igr.ª Parochial da d.ª freg.ª novam. te erecta, achei estar bem cituada, e o corpo della feito e acabado, dealbadas as paredes, e bem madeirada, com seu goarda pô, q per hora serve m.to bem de forro, dous altares collateraes com seus retabolos acabados, e hum delles com seu sacrário, em q desentem.te se pode collocar o Santi.mo Sacram.to Pia baptismal, Púlpito, com boas frestas riparadas (?) tudo na forma da nossa constituição; e decente p.ª puder benzerse a d.ª Igr.ª, vista a gr.de nesessid.e q o povo tem della; pois se esta servindo de hua capella m.to piquena, q há na d.ª freg. ª; e se não poder duvidar do gr.de zello com q o R.do Abb.e reedificou esta Igr.ª «a fundamentis». - deixe de mandar logo forralla e solhalla – he de q nesessita; e tem os ornam.tos nessecarios p.ª os off.os devinos. O q

tudo passa na verd.e e o afirmo sendo nessr.º in verbo sacerdotis. Esmoris de Março 29 de 1735. O Abb.e D. Bento da Assumpção Pim.ta [rubrica:] P. Tinoco [fls. 28] Vta ao Rv.º D.or Promotor / Não tenho duvida se defira a petição fl. 22vº o q consta da informação do R.do Comisario / Prom.or Aragão. Aos trinta de Marco de mil settecentos e trinta e sinco me forão entregues estes autos. Eu João Tinoco vieira Escrivão da Camera que o escrevj [rubrica] Carlos ? P. L.ça na forma do estillo / p.ª o R.do Parocho benzer a d.ª Igreja, / na forma do Ritual Romano; / Porto 30 de M.ço de 1735 [assinatura:] Guedes Monis. [fls. 29] [Segue-se uma nota de conta final: ] Ao R.do escrivam de sello (?) 70 Ao Rev Sr Promr 200 Camª [Câmara?] 72 [rubrica final] ilegível. [Machado?]» 4. APÊNDICE DOCUMENTAL =1= Primeiro casamento do pai do P. João Carneiro de Lima 1.º de nome Em 29 de Janeiro de 1665, na igreja da Correlhã, Ponte de Lima, Martinho Carneiro casa uma 1ª vez com Isabel Fernandes, ambos do lugar do Souto, Correlhã. Testemunhas, João Vaz da Portela e Gaspar Monteiro do Souto. Ver ADVC, Registo Paroquial de Correlhã, Ponte de Lima, L.º 6, fls. 95, v.º =2= Segundo casamento do pai do P. João Carneiro de Lima 1.º de nome Em 17 de Março de 1666, na igreja da Correlhã, Ponte de Lima, Martinho Carneiro casa a 2ª vez com

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Isabel Gonçalves, filha de Gonçalo Tezido, já defunto e de sua mulher Catarina Gonçalves, do lugar da Bezerra, da freguesia da Correlhã. Foram testemunhas Cosme Amado da Seara, João Tezido e António Afonso, todos da Correlhã. Ver ADVC, Registo Paroquial de Correlhã, Ponte de Lima, L.º 6, fls. 97, v.º =3= Baptismo do P. João Carneiro de Lima 1.º de nome

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«O P.e Gaspar dos Reis em 29 de Março de 1670 baptizou a João, filho de Martinho Carneiro e de sua mulher. Foram testemunhas: Thomé Gonçalves e Domingas Carneiro, todos da Correlhã.» Era Reitor da igreja o padre Manuel do Couto (Ribeiro). - Vd.A.D.V.C. Regº Parº da Correlhã, Livro 6º, fls. 63. =4= Baptismo de Isabel, irmã do P. João Carneiro de Lima 1.º de nome No dia 11 de Setembro de 1672, pelo Reitor Manuel do Couto, foi baptizada Isabel, filha de Martinho Carneiro e de sua mulher da Bezerra. Padrinho Francisco da Costa e João Bezerra, todos da Correlhã. O Reitor, Manuel do Couto. - Vd.A.D.V.C. Regº Parº da Correlhã, Livro 6º, fls. 74-vº.

Terá falecido do parto mal sucedido deste casal de gémeos? Nenhum documento o diz, mas depois somos informados de que o tal João Vaz, «o Misca» casou uma segunda vez com uma mulher de quem não é referido o nome, da qual teve diversos filhos, indo depois ganhar a vida para Castela, donde nunca mais voltou. É-nos permitido concluir que ele casou em segundas núpcias com uma mulher de igual nome que a primeira, Domingas Carneira, mas de pais diferentes e poucos anos adiante, como consta do assento que vamos apresentar? Demais, deste casamento se diz que foram dispensados do impedimento de consanguinidade por serem parentes próximos. Vejamos a letra do assento: «A 9 de Abril de 1672 João Vaz, filho de João Vaz da Portela e de sua mulher casou com Domingas Carneira, filha de Domingos carneiro e de Inês Cabeça, defunta da aldeia do Souto. Testemunhas, João Carneiro e João Vaz da Portela e o padre Domingos Pereira. Dispensados no 3.º e 4.º grau de consanguinidade». - Vd.A.D.V.C. Regº Parº da Correlhã, Livro 6º, fls. 105-vº.

29.01.1665

Martinho Carneiro casa uma 1ª vez com Isabel Fernandes, ambos do lugar do Souto, Correlhã. Testemunhas, João Vaz da Portela e Gaspar Monteiro do Souto. Ver ADVC, Registo Paroquial de Correlhã, Ponte de Lima, L.º 6, fls. 95, v.º

17.03.1666

Martinho Carneiro, viúvo que ficou de Isabel Fernandes, da Cruz, casa a 2ª vez com Isabel Gonçalves, filha de Gonçalo Tezido, já defunto e de sua mulher Catarina Gonçalves, do lugar da Bezerra, da freguesia da Correlhã. Foram testemunhas Cosme Amado da Seara, João Tezido e António Afonso, todos da Correlhã. Ver ADVC, Registo Paroquial de Correlhã, Ponte de Lima, L.º 6, fls. 97, v.º Estes são pais de:

=5= Baptismo de Domingas, irmã do P. João Carneiro de Lima 1.º de nome Não foi inventariado o baptismo de Domingas, irmã do P. João Carneiro de Lima, o primeiro, que seria mais velha do que ele. Conforme indicações seguras de diversos documentos ela casou com um tal João Vaz, «o Misca», do qual teve pelo menos um par de gémeos, que viriam a ser o P. João Carneiro Cabeças e Maria Carneira, conviva do primeiro João, Abade de Escapães.


29.03.1670

João Carneiro, velho Abade de Escapães - o 1º deste nome - filho de Martinho Carneiro e de sua mulher, baptizado pelo Padre Gaspar dos Reis no dia 29 de Março de 1670, Foram padrinhos Tomé Gonçalves e Domingas Carneira, todos da Correlhã. Era Reitor da igreja Manuel do Couto (Ribeiro). Ver ADVC, Registo Paroquial de Correlhã, Ponte de Lima, L.º 6, fls. 63.

11.09.1672

Isabel, filha de Martinho Carneiro e de sua mulher, da Bezerra, foi baptizada no dia 11 de Setembro de 1672 pelo Reitor Manuel do Couto. Foram padrinhos Francisco da Costa e João Bezerra, todos da Correlhã. Ver ADVC, Registo Paroquial de Correlhã, Ponte de Lima, L.º 6, fls. 74, v.º

09.04. 1672

Domingas Carneira, irmã dos néofitos constantes dos dois assentos anteriores, casou em 9 de Abril de 1672 com João Vaz. Ele era filho de João Vaz da Portela e ela filha de Domingos Carneiro e Inês Cabeça, já defunta, da aldeia do Souto. Testemunhas, João Carneiro e João Vaz da Portela e o P.e Domingos Pereira. Foram dispensados no 3º e 4º grau de consanguinidade. - Não confere… ? Será o 2º casamento de João Vaz? Ver ADVC, Registo Paroquial de Correlhã, Ponte de Lima, L.º 6, fls. 105, v.º ??

=6= Baptismo do P. João Carneiro Cabeças (gémeo com a seguinte) À margem: «João» No texto: «Aos onze dias do mês de Outubro de mil e seis sentos e outenta e dous annos. Baptizou o p.e D.os ferrª. a João f.º de João Vaz e de sua m.er da aldea do souto; fão pp. o mesmo p.e D.os frr.ª e sua sobrinha M.ª, solt.ª vizinhos, todos desta frgª. E por verd.e se fes este termo q assignei, dia, mês e anno, era ut supra. Ab.e Coutto Rib.ro». Ver ADVC, Registo Paroquial de Correlhã, Ponte de Lima, L.º 7, fls. 29, v.º =7= Baptismo de Maria Carneira, sobrinha do primeiro P. João Carneiro À margem: «M.ª» No texto: «Aos onze dias do mês de Outubro de mil e seis sentos e outenta e dous annos. Baptizou o p.e g.par dos Reis coadiutor a M.ª [Maria] f.a de João Vaz e de sua m.er do souto. Foram pp [padrinhos] An.to Vaz de Barro [Barrô?] e sua m.er Angella barral, todos desta freg.ª e por verdade fis este termo q.e assinei, dia, mês anno era ut supra. M.el do Coutto Rib.ro». Ver ADVC, Registo Paroquial de Correlhã, Ponte de Lima, L.º 7, fls. 29, v.º =8= Casamento de Maria Carneira com António Marques de Matos57. «Aos sete de Abril de mil e setecentos e vinte annos na forma do Sagrado Concilio tridentino e Constituissam deste Bispado, com prezensa do Padre Joam Carneyro Cabeças Coadjutor da freguezia do Salvador de Fornos com minha licença in scriptis - A. D. A. Registo Paroquial de Escapães / Livro dos Casamentos, relativos a esta data.

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e das testemunhas abaixo declaradas foram recebidos nesta Igreja Antonio Marques de Mattos, filho legitimo de João de Mattos e de sua molher Izabel Marques do lugar de Cazal do Matto freguezia do Salvador de Fornos desta Comarca da Feyra deste Bispado, com Maria Carneyra filha legitima de Joam Vaz e de sua molher Domingas Carneyra do lugar do Soutto freguezia de Sam Thomé de Correlham, Coutto do Termo de Barcellos do Arcebispado de Braga; estando por testemunhas o Padre Joseph Correa do lugar de Nadais Coadjutor desta mesma Igreja e Manoel da Sylva do Barreyro desta dita freguezia; e por verdade mandey fazer assento, hoje des dias do dito mes de Abril, do dito anno de mil e sete Centos e vinte annos. O P.e Joseph Cor. ra / Manoel da Silva / o Abb.e João Carneiro de Lima». 96

=9= Assento de baptismo de João Carneiro de Lima (2º de nome)58 «João, filho de António Marques de Matos [este,*? - +29.12.1764, na Quintã de Fornos], casados entre si, em Escapães a 7 de Abril de 1720] e de Maria Carneira [+Fornos, a 8.03.1750], sua mulher, moradores no lugar da Quintã, desta freguesia do Salvador de Fornos, comarca da Feira, deste bispado do Porto, nasceu aos oito de Fevereiro do ano de mil setecentos e vinte e dois; foi baptizado por mim, Xavier Moreira, Abade da sobredita igreja, aos catorze do mesmo mês e ano, sendo padrinho o rev.do João Carneiro de Lima, Abade da Igreja de São Martinho de Escapães e madrinha Maria, solteira, filha de João de Matos e Isabel Marques, sua mulher, tia e avós do baptizado. Serviram de testemunhas o rev.do João Carneiro Cabeças, coadjutor desta freguesia e o rev. do Manuel Marques de Matos, tios ambos do baptizado e todos desta freguesia, que comigo aqui assinaram, dia mês e ano, ut supra. O p.e João Carneiro Cabeças; o p.e M.el Marques de Matos; eu Abb.e Xavier Moreira».

= 10 = «15. Igreja Paroquial de Lobão – Santa Maria da Feira. (Apreciação crítica da talha da sua igreja)59 Frontispício e retábulos colaterais / 1726 A igreja paroquial de Lobão, no concelho de Santa Maria da Feira, tem boa talha do chamado barroco nacional. O retábulo-mor foi cerceado na parte superior para se ajustar à altura da capela-mor. Os altares colaterais e o frontispício são muito bem executados. O frontispício tem septos divisórios; no centro abre-se em relevo um quadro ou retábulo representando S.Tiago (titular da igreja e padroeiro de freguesia) a cavalo. Na aduela do fecho do arco cruzeiro lêem-se as datas: (F) 1726 ® 1907 – feita em 1726 e reformada em 1907. 1726 corresponde à data da talha do frontispício e dos retábulos colaterais». = 11 = Assento de Óbito de Isabel Carneira. Irmã e conviva do 1º Padre João Carneiro de Lima60 - O assento de óbito é do seguinte teor: «Aos quinze do mês de Abril de setecentos e cinquenta e um faleceu da vida presente com todos os sacramentos Isabel Carneira, solteira e de maior idade, moradora neste Residência de Escapães; filha que ficou de Martinho Carneiro da freguesia de São Tomé de Correlhana, arcebispado de Braga. Fez seu testamento fechado e nele instituiu por seu herdeiro e testamenteiro a mim João Carneiro de Lima, abade desta igreja em que deixou todos os seus bens móveis e semoventes com obrigação de eu mandar fazer por bem de sua alma três ofícios,[…] cada um de quinze padres, e duzentas missas por sua alma e me deixou todos os bens, que seu irmão João Carneiro de Lima deixou a ela - A. D. A. Registo Paroquial de Fornos, 2.º Livro a fls. 45, vº. - DOMINGOS DE PINHO BRANDÃO in Obra de talha dourada, ensamblagem e pintura na cidade e na diocese do Porto. Porto, 1986 III, pg. 79/80. Vd. ainda o.c , II, pg. 442 60 - A. D. A. Registo paroquial de Escapães, Livro desta data, a fls 154. 58 59


defunta em seu testamento, tanto de dinheiros como de bens que eram seus próprios. Mais deixou umas terras e casas que possuía em São Tomé de Correlhan, arcebispado de Braga, ao Reverendo Francisco Carneiro da Cruz Reitor da mesma freguesia, para este nomear a dita propriedade em um sobrinho, ou sobrinha, que bem lhe parecesse, com obrigação de dar a Manuel, filho que ficou de João da Cruz de Nadais, desta freguesia, ordenando-se de clérigo, ou religioso, ou a seus irmão e irmã cem mil reis em sastisfação dos que ela era obrigada a dar na forma que seu irmão dispôs em seu testamento e com mais obrigação de dar a Domingas Carneira da mesma freguesia de São Tomé, irmã do padre João Carneiro de Fornos; dez alqueires de pão e uma casa todos os anos e a leira de terra do Juncal, para horta enquanto ela for viva; e depois do seu falecimento tornaria a ficar ao dito Francisco Carneiro da Cruz; e que ele? não querendo aceitar com esta condição poderia entrar de posse de todos estes bens e vende-los, o dito seu herdeiro e testamenteiro; e se, com esta condição queria valesse o seu testamento e não de outra sorte. E, por verdade, fiz este assento, que assinei. Foi seu corpo sepultado dentro desta igreja, de manhã. O Abb.e Joam Carnº de Lima». = 12 = Assento de Casamento De Manuel de Pinho Almeida com Maria Angelina Carneiro de Lima61 (À margem) «M.ª Carneira e M.el de p.º» (No texto) «Aos vinte e cinco do mês de Fevereiro de mil setecentos e cincoente e ceis de Manham nesta igreja de Sam Martinho de Escapãens, feitas nela as denunciações na forma do Concilio Tridentino, donde a contraente é moradora e na do Salvador de Fornos donde he natural e na freguezia de Macieira de Çarnes, donde o contraente é natural e na da Villa da feyra, onde he assistente, sem se descobrir impedimento algum como consta das certidões que ficam em meu poder. – Na presença de mim Joam Carneiro de Lima, Abbade desta 61

- A. D. A. Registo Paroquial de Escapães. Livro de Casamentos desta data.

Igreja e das testemunhas que pesentes – o Doutor, digo, estavam o Doutor José Caetano de Moura por – ? Ouvidor da Vila da Feira e seu termo e José Antonio de Meireles Freyre, Juiz de fora da mesma villa e termo e Jose dos Santos Ramalho, juiz do tombo da Sereníssima Caza do Infantado; se casaram solemne.te por palavras de prezente o licenciado manoel de pinho de Almeida, filho legitimo de Francisco de pinho e Domingas Antónia do lugar do Outeiro da freguesia de Santa Eulália de Macieira de sarnes; neto pela parte paterna de Manoel Heitor e Maria de pinho de Almeida, moradores que foram no lugar do Outeiro, freguesia de Sam pedro de César e pella materna de Joam Domingues e Maria Antónia do logar das Cortinhas, freguesia de Santa Leocadia de faradellos, termo de Barcelos, Arcebispado de Braga, -Com Maria Carneiro de Lima, digo, Rosa Carneiro de lima, filha legítima de António Marques de Matos e Maria Carneira moradores no logar da Quintãm, freguesia do Salvador de Fornos; neta pela parte paterna de Joam de Matos e Isabel Marques do lugar de Casal do Mato da mesma freguesia e pela materna de João Vaz e Domingas carneira do lugar do Souto, freguesia de Sam Thome de Correlham, termo de Barcelos, Arcebispado de Braga; e logo receberam as bencoens conforme os ritos da Igreja; e por verdade asignei com as testemunhas no dia acima mencionado.» [Seguemse as assinaturas.] 5. Algumas observações finais. 1. Uma apreciação muito ajustada, técnica e artisticamente, do edifício da igreja de Escapães foi feita pelo Prof. Nogueira Gonçalves no Inventário Artístico de Portugal / Distrito de Aveiro / Zona Norte, pgs. 75/77 e EST. CI. 2. Para se fazer uma ideia de Escapães, enquanto freguesia povoada, indicam-se alguns elementos demográficos, algo aproximados da data de construção da igreja. a) - D. Rodrigo da Cunha (1618-1627), in Catálogo dos Bispos do Porto: «S. Martinho de Escapães, Abadia, tem de comunhão 124 pessoas; menores 43».

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b) - D. João de Sousa, Constituições Diocesanas – Porto, 1690: «Fogos – 76; Pessoas maiores – 288; Pessoas menores – 40». c) - Carvalho da Costa Corografia Portuguesa – Lisboa MDCCVIII, pg. 168: «São Martinho de Escapães. É uma Abadia da Mitra; tem 80 vizinhos e huma Ermida de S.to António».

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3. Se procuramos encontrar as características da identidade social de Escapães, verificamos que a freguesia tem dois núcleos principais: Escapães e Nadais. No tempo da construção da igreja a freguesia era povoada por famílias de «gente pobre», conforme consta dos requerimentos do abade, confirmados pelos visitadores/inspectores. Os fundiários viviam fora da área da freguesia. Em tempos bastante anteriores, no Foral Novo da Feira (1514), encontrámos, de facto, a freguesia de Escapães foreira de Malta, Grijó, Castelo da Feira e Arouca. Enquanto foreira da Ordem de Malta, os seus casais (o Casal de Lopo Eanes, entregue ao filho de Diogo de Escapães, o Casal ermo do Ribeiro, o Casal ermo do Paçô, o Casal de Diogo Velho da Granja, o Casal de João Martins do Ribeiro, o Casal ermo do Ribeiro…) estavam integrados no Préstimo local da Comenda de Rio Meão, em confusão com os enfiteutas de Arrifana, (o Casal do gago de Manhoce, o do Marques de Guilhadães, o de João David, o de Martim Martins do Outeiro, o de Margarida do Outeiro, o de João de Vilar…), numa confirmação de que a generalidade da população de Escapães era constituída por famílias patriarcais – o rendeiro, ou sub-rendeiro, titular e emprazado, auxiliado pela sua parentela, mais ou menos numerosa, mas toda ela sem propriedades de fundo. 4. No frontespício da igreja está inscrita uma data (1771). Se já se sabia que ela era falsa, após os testemunhos documentais apresentados neste estudo ela não tem mais qualquer justificação. Para além disso, a grafia em que o milésimo foi escrito não tem nada que ver com a época nele indicada. É de crer, pela aparência da escrita – sobre massa e com tal forma – que ele foi lá aposto pelos meados do século XX.

A figurar uma data no frontespício da igreja ela devia ser a de 1735, e dessa circunstância conhecer-se o fundamento, para não mais constar esse erro histórico de lesa-arquitectura.

Frostespício da Igreja de Escapães. Imagem de Santo António (Séc. Ao alto, a data errada de 1771. XVII) da sua demolida Capela.

5. Sendo a igreja dos anos de 1726/1735 (intenção, projecto e construção) há, entretanto, algumas peças que, pelas suas características, manifestam um tempo e uma história anteriores. No recheio da igreja encontramos algumas peças que nos apontam para tempos anteriores ao actual edifício: fazem parte desse acerbo de peças a pequena imagem de Nª Sª do Rosário, a imagem de São Sebastião, a imagem de Santo António (e a outra da antiga capela dedicada ao mesmo santo), a imagem de São Gonçalo, que todas datam do séc. XVII e fariam parte do espólio da antiga igreja. Além destas referidas esculturas de santos, em madeira, deve-se referir um retábulo de tábuas pintadas, a representar um «Calvário», de execução aparentemente popular, mas com uma boa e clássica disposição das figuras habituais, inspirada nas valiosas


Pintura a óleo sobre tábuas, representando O Calvário. Fim do séc. XVI, ou início do séc. XVII.

e artísticas obras do séc. XVI decadente, apresentando fundos paisagísticos. Este conjunto pictórico foi mal repintado, mas que poderá conter ainda sobe a actual pintura a autenticidade de uma pintura de qualidade. Merece um restauro em oficina competente. Também se deve recensear um cibório de prata dourada, todo ele torneado e muito comum nesta alfaia sagrada do séc. XVII. Como em outros casos paralelos uma tal peça, acompanhada por um cálice e uma patena de prata foram deixados às igrejas como alfaias indispensáveis para o culto, pela legislação de Junot, invasor francês momentaneamente vitorioso, o qual exigiu como tributo de guerra todas as peças de prata, ouro, ou pedras preciosas existentes nas igrejas. Vem daí a pobreza em arte sacra, de tais peças anteriores às invasões francesas, com excepção das referidas, consideradas imprescindíveis para o culto. 6. Na freguesia de Escapães (excepto em Nadais), quase não há vestígios de casas antigas com algum relevo artístico, ou relativo desenvolvimento arquitectónico, como outras que se encontram em algumas terras provincianas. A existirem, esses edifícios ou eram de famílias de estirpe senhorial, ou de brasileiros endinheirados regressados com êxito do Brasil, ou de famílias beneficiárias de diversas heranças, ou de quadros da administração local, tais como os dos graduados

das ordenanças. Verifica-se que tais edifícios, quando são analizados, seguiam as tradições setecentistas das casas de habitação com largas cozinha, adega, celeiro/despensa num arrumado rés-do-chão, e com um sobrado no 1.º andar destinado à espaçosa sala e a pequenos (dois?) quartos de dormir, sobre a loja (adega, caixas de cereal, salgadeira e despensa…). A sala, que era o compartimento mais nobre, tinha habitualmente uma escada granítica de acesso exterior, com degraus de bocel, guardas laterais, por vezes, com colunas e corrimões estilizados em volutas e nervuras de efeito sumptuoso. Dentro, armários guarda-roupa nos ângulos, um santuário embutido na parede, assentos de granito nas janelas, tecto decorado, muitas vezes armado em abóbada oitavada, de caxetones de madeira. Acostada a este sobrado - o corpo mais evidente do assento habitacional - a cozinha, larga e prática, ponto de encontro à volta da lareira. Entre o edifício e a servidão pública um espaçoso terreiro, servindo dependências da criadagem, dos estábulos, da eira e outros, coberto por um dossel de parreira e isolado do exterior por um portal mais solene, guarnecido de portas fronhas. Outro género de edifício apalaçado, mas mais recente e inspirado nos cânones revivalistas da segunda metade do séc. XIX, ou era o edifício inspirado nos diversos e clássicos estilos do passado (gótico, árabe, românico), ou o edifício estilo colonial com os seus garridos azulejos, o seu torreão em forma de agulha e um desenvolvido pé direito, ou era o rebuscado efeito das habitações envolvidas por delicadas alamedas, exóticas plantas, caramanchões, fontes e estátuas, conforme os cânones românticos de gosto italiano, precursores da arte nova. - Porque é que, percorrendo a área de Escapães, quase não encontramos exemplares desses tempos, de arquitectura pastiche, com excepção da brasonada Casa do Vale Grande? Procurando uma resposta, somos levados a fazer conjecturas: - não encontramos, porque a generalidade da população desse passado, a que nos referimos, ou não tinha meios económicos para vistosas construções, ou, se tinham alguns, eram diminutos e insuficientes. De facto, na descrição do processo de construção da igreja, se bem nos lembramos, é constante a repetida

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afirmação da pobreza da população de Escapães. E daí para diante as circunstâncias não se alteraram significativamente, para que houvesse uma maior abundância de bens económicos. Escapães passou muito tempo na descansada modorra de uma situação agrária, com uma população dispersa pelo suave declive da ribeira da Granja, ocupada no amanho dedicado das suas ribeiras, dos seus gados e dos seus cereais. Entretanto, e dum modo quase abrupto, a situação alterou-se, quando em réplica ao desenvolvimento industrial de São João da Madeira e da vizinha freguesia de Arrifana, também em Escapães surgiu e se generalizou a indústria do calçado, tendo por pioneira a Família Castro, originária da freguesia de Sanfins. Inicialmente, instalada em oficinas domésticas ou familiares, com a participação de vizinhos e de assalariados, à mercê da concorrência do mercado; logo depois, em unidades industriais, cada vez mais desenvolvidas e econonicamente mais viáveis. Tudo isto numa proporção geométrica a partir da 2ª Guerra Mundial. Escapães ganhou confiança, especializou-se na produção em série, fez-se representar por agentes comerciais, multiplicou as unidades fabris, acolheu outras populações vizinhas, seduzidas pelo acesso ao dinheiro vivo e mais abundante de cada fim-desemana. Então, com esta prosperidade, a sua face mudou. Desapareceram os velhos pardieiros e as habitações antiquadas, substituídas por novos edifícios; abriram-se novas vias de comunicação, diversificaramse as iniciativas, multiplicaram-se as zonas de habitação e o seu parque industrial e habitacional cresceu e prosperou, fazendo esquecer o seu passado mortiço e resignado. Foi de facto após os meados do séc.XX, que Escapães acordou e se desenvolveu, desdobrando-se em variadas e diversas iniciativas cheias de confiança e dinamismo. Há portanto sérias razões para que, ao percorrermos Escapães, não encontremos edifícios gravados com a patine dos tempos, indicando, aqui, ou ali, uma maior prosperidade, própria de um centro populacional histórico. Encontramos sim, vivendas

com as características mais avançadas da arquitectura contemporânea, caracterizada pelo conforto, pela harmonia, pela conveniência e simplicidade da arte utilitária. 7. O pároco actual de Escapães é o padre Américo Dias Pereira, nascido na freguesia de São João de Ver, concelho de Santa Maria da Feira, no dia 29 de Janeiro de 1933, filho de Luís Dias Pereira e de Maria Rosa de Jesus. Concluídos os seus estudos, foi ordenado de sacerdote na Sé Catedral do Porto no dia 5 de Agosto de 1956. Consequentemente, o corrente ano de 2006 é o ano jubilar das suas Bodas de Ouro sacerdotais. Após a ordenação fez o seu estágio pastoral como coadjutor na paróquia de Santa Marinha, do concelho de Vila Nova de Gaia, até ser nomeado pároco de Escapães. Tomou posse da freguesia em 25 de Outubro de 1959. O corrente ano é pois para o rev. Américo Dias Pereira um ano singular, a que nos associamos, dedicando-lhe este estudo relativo à igreja, que há tantos anos serve. Congratulações!


O Sr. Zé Talaia Serafim Guimarães* Passei, ontem pelo extremo oeste da minha aldeia e fiquei consternado. O chalé do brasileiro José Talaia tinha desaparecido e, em seu lugar, vê-se agora uma “casa estilo maison”. A brutalidade iconoclástica chega a todo o lado a não poupa nada. Sei que aquela casa e o seu dono constituiam uma unidade, verdadeiramente simbólica, de um tipo humano, de uma situação social, de um fenómeno português. Como é possível! A que é que deu lugar aquele desbaste? A uma vivenda incaracteristicamente enquadrada na moda do decénio, igual a milhares de outras, com muitos telhados e telhadinhos, a darem uns para os outros, um relvado em frente e, a rodear tudo isto, o inevitável gradeamento retorcido, com setas a apontar para o ar! Pois o Senhor José Talaia era uma figura que se destacava das outras. Lembro-me dele na loja do 8, onde vinha de bicicleta procurar o correio e nos leilões, onde o mais elevado lanço tinha de ser seu. E lá ficava o Sr. Talaia com as orelheiras que tinham sido oferecidas ao Stº António, ou com os bolos ofertados para ajudar a comprar o relógio da torre! Fumava constantemente e a * Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

sua prenda para ser leiloada era sempre um charuto, um Príncipe de Gales que ele depois resgatava para fumar, impante, diante da multidão que o aplaudia! Todos os anos, batia o seu próprio record. A sua bicicleta era uma beleza. Tudo cromado. Uma corneta que, em vez de estar presa ao guiador, como é vulgar, aparecia ligada ao quadro, ao nível dos joelhos, de modo a ser premida pela aproximação das pernas. Atrás do selim uma mala de couro preto, de fivela polida, como uma jóia. A bicicleta, que tinha vindo, com ele, do Brasil, estava munida de todos os extras. Se por qualquer razão ele não aparecia com a sua bicicleta e havia correio para lhe ser entregue, a disputa dessa tarefa pela miudagem local merecia uma crónica: é que isso valia 5 tostões; dava para comprar um peão! Estou ainda a ver o seu dente de ouro e as suas correntes, que lhe davam o aspecto daquele merceeiro astuto representado num quadro pendurado na loja do oito a exibir o seu cofre recheado de notas, porque tinha vendido a dinheiro, ao lado de outro esfarrapado e miserável que, olhando para o seu cofre vazio de onde saíam ratos, concluía desolado que tinha vendido a fiado! Porto, 28 de Abril de 2006

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INSTANTE DE ETERNIDADE Manuela Correia* Chegaste com a intimidade do tacto a respirar em tuas mãos A nossa linguagem foi a da imaterial fonética que só o coração sabe de véspera Atravessaste solenemente o rio do meu corpo E por um instante bebi a eternidade nos teus olhos

* Nasceu na aldeia de Cabrum, concelho de Vale de Cambra, em 1961. Em Vale de Cambra, durante a frequência do liceu, aprendeu o gosto pela poesia. Iniciou a sua actividade profissional aos 18 anos e aí viveu durante anos. Actualmente exerce a sua actividade profissional no Porto e reside em Santa Maria da Feira, Vila Boa. Tem colaborado em muitas sessões e tertúlias de poesia. Livros publicados: - “As nuvens não são mais de algodão”, de 2000. - “Poemas Tri Angulares”, de 2002. - “Interlúdio d’ Eros”, de 2003. - “Escritos de Areia” de 2005.


SOBRE O HIDRÓNIMO “FEBROS” Por Domingos A. Moreira* Em 1967(1), num estudo-ensaio sobre nomes de rios, aflorámos o caso do rio Febros e, à falta de melhores dados comparativos (de que então não dispúnhamos), lembrámos um confronto com o vocábulo latino februum “limpeza, purificação”, que parecia oferecer possibilidades semânticas e formais, ideia já vislumbrada anteriormente por João Alves Pereira, em 1946, e Arlindo de Sousa, em 1957(2), e que este segundo autor abandonaria em 1961 para sugerir a nova etimologia do vocábulo celta *voberos “rio”(3), representado em médio irlandês por fobar “fonte”, címbrico ou galês gofer “rio”, bretão go(u)ver “rio” e rio gaulês Vóbera, actualmente dito Woevre e Voivre(4).

Em celta, o som inicial v passa para f no ramo goidélico ou hibérnico, pelo século VI-VII e para g no ramo britónico das línguas célticas, como se vê por exemplo destes casos(5): Antigo Celta v original:

Estudo Onomástico sobre Alguns Rios a Norte e Sul do Douro publicado no Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vol. 30, fasc. 1-2 (1967) pp. 100-101 e pp. 78-79 da separata. (2) Estudos de Arqueologia, Etnologia e História, Rio de Janeiro, 1957, p.57. (3) Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. 27, n.º 108, out. – dez. 1961, p. 247, nota 9. (4) Julius Pokorny, Indogermanisches Etymologisches Wörterbuch I Bern und München, 1959, pp. 132-133; Albert Dauzat, La Toponymie Française, Paris, 1960, p. 110 sgs. (5) citado (na nota 4) Indogermanisches..., p.133; Georges Dottin, Manuel pour servir à l’étude de l’Antiquité Celtique, Paris, 1906, p. 84, 86, 94, 101. * Pároco de Pigeiros.

tipo gofidélico com f

celta piemontês

línguas célticas de tipo brigtónico com g galês (ou

verna, top.

irlandês fern “amieiro”

címbrico) e bretão

gaulês

top. Irlandês Fern-mag

gwern, antigo

Verno-magus

córnico guern;

nome pessoal gaulês Viro-manduos, cfr. latim vir

(1)

línguas célticas de

irlandês fear, celta da

galês gwr, bretão

ilha de Manx fer

e córnico gour;

“homem” cfr. latim verus “verdadeiro”

cfr. latim vinum “vinho”

antigo irlandês fir

irlandês finn

antigo bretão guir, címbrico gwir;

galês (País de Gales) guin

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Se o fenómeno v / f podia verificar-se na etimologia *voberos / Febros, no entanto não há identificação no vocalismo tónico das duas palavras equacionadas: seria de esperar *Fobros, o que não acontece e demais perante a existência de tantos rios Febros (com vocalismo e). Sendo *voberos uma forma composta com a partícula céltica vo- (em goidélico fo e em britónico go) com um valor diminutivo, partícula essa equivalente formal e semântica do latim sub “sob”, grego hypó, gótico uf, etc., a forma simples *beros apresenta, de facto, o vocalismo e, estando representado no címbrico beru “gotejar”, médio bretão beraff “fluir, desaguar, correr”(6), mas não pode dar conta da palavra inteira de “Feberos” / Febros, além de que a partícula vo- / fo- / go- nunca apresentou o vocalismo e (apenas nalguns casos u e a em antigo irlandês) e, por outro lado, a extensão geográfica dos rios Bebr- / Febr-, como veremos, é maior que a área céltica. Em 1950, F. Ribezzo(7) e, em 1955, G. (8) Alessio lembraram o latim fibrae “últimas margens dum rio, terreno esboroável” para o rio Fibrenus Lácio (Itália), mas, se esse protótipo latino fibrae podia servir para o caso de Fibrenus, já não pode dar conta da variante hidronímica Bebr- na Europa e demais fora também da área latina ou latinizada e, por outro lado, não se conhecem correspondências vocabulares indoeuropeias(9) do termo fibrae, pelo que este deve ser um vocábulo latino muito isolado. Joseph M. Piel, em 1968(10) e depois em (11) 1980 , em vez de februum “purificação”, propõe o vocábulo latino fiber “castor”, isto é, Febros como tendo significado originariamente o rio dos castores, Georges Dottin, La Langue Gauloise, Paris, 1918, p. 100, 92, 97 ; D. B. Gregor, Celtic – A Comparative Study England / USA, 1980, p. 181 ; citado (na nota 4) Indogermanisches…, p. 1169, 1178, 1166 ; Rudolf Thurneysen, A Grammar of Old Irish, Dublin, 1980, p.123 e 511-512; Julio Pokorny, Antiguo Irlandés, Madrid, 1952, p.27 ; Holger Pedersen, Vergleichende Grammatik der Keltischen Sprachen Göttingen I. 59 e II. 10 ; I. C. Zeuss, H. Ebel, Grammatica Celtica, Paris, 1871, p. 53 e 127, 804 e 904 ; Alfred Holder, Alt-Celtischer Sprachschatz, vol. III, Graz, 1962, coluna 42, cfr. 422 (Vo-bergensis vicus) e 448 (vo-segus). (7) Archivio Glottologico Italiano 35 (1950), p. 62. (8) Le Lingue Indoeuropee nell’Ambiente Mediterraneo, Bari, 1955, p. 403. (9) A. Ernout, A. Meillet, Dictionnaire Etymologique de la Langue Latine, 4. ed., Paris, 1959, p. 232 sub voce ; A. Walde, Lateinisches Etymologisches Wörterbuch, Heidelberg, 1965, pp. 491-492 s.v. (10) Revista de Guimarães, 78 (1968), pp. 327-334.

conhecidos animais roedores dos rios (ainda existentes na Áustria, Rússia, Noruega) e muito procurados pela qualidade da sua pele e extracção de produtos para fins farmacêuticos(12). Esta proposta etimológica parecia viável pelo sentido e pela forma do vocábulo proposto, lembrando, a respeito deste segundo critério da forma, que o i breve latino evolui na vogal fechada portuguesa ê, como se vê de cibu / cebo, pira / pêra, etc.(13). Somente lhe achávamos, na altura, esta deficiência: uma vez que em vários nomes de rios, provindos de nomes de animais, além das formas simples, aparecem também formas derivadas em –al, -eira, etc., como acontece com os rios Cabr-al, afluente do Seia; Teixogu-eira, subafluente do Dão, etc.(14a), por que não aparece também rio Febreira, etc., até porque há vários rios Febros? Os dados de que actualmente dispomos acabaram por resolver esta dificuldade, como veremos adiante, a propósito do apelativo febreira. Mas já em 1957, Raymond Sindou(14b) apresentou o étimo latino fiber / feber no seu estudo sobre os nomes do castor nas línguas românicas, onde documenta o desaparecimento de fiber em época antiga do latim, mas continuando a vigorar a forma dialectal sabina feber. Contudo não chegou a referir os hidrónimos Febros. Quanto ao vocábulo latino februum “purificação”, J. Pokorny(15) supõe ser dotado doutros correspondentes nas línguas indoeuropeias; antigo indiano dhvansati “arruina”, grego Τhýο ”sacrifico”, “desfaço”, latim furo “estou furioso, enraivecido”, o que, no aspecto formal, estava apoiado com mais casos paralelos no referente à consoante inicial(16):

(6)

Aufsätze zur Portugiesischen Kulturgeschichte 16 (1980), p. 214. Vide A Fauna – Publicações Alfa, vol. 6, p. 21 sgs. (quanto ao género de vida); citados adiante (na nota 23) Principes..., p. 314 (quanto ao local da actual existência); Revista de Guimarães 78 (1968), p. 331 (quanto ao valor da pele e produtos de interesse farmacêutico). (13) Ismael de Lima Coutinho, Gramática Histórica, 4.ª ed., Rio de Janeiro, 1958, p. 112. (14a) citado (na nota 1) Estudo Onomástico..., p. 156 e p. 134 da separata. (14b) cfr. Revue de Linguistique Romane, vol. 21 (1957), pp. 231-248. (15) citado (na nota 4) Indogermanisches…, pp. 268-269. (16) Hans Krahe, Lingüística Indoeuropea, Madrid, 1953, p. 86; Oswald Szemerenyi, Introducción a la Lingüística Comparativa, Madrid, 1978, p. 83; Francisco R. Adrados, Lingüística Indoeuropea, vol. I, Madrid, 1075, p. 247; citado (na nota 4) Indogermanisches..., p. 236, 261, 278. (11) (12)


antigo indiano

grego

latim

dh

τh

f

dhama

“lei”

(aná)thema

facio

dhumah

“fumo”

Thymós

fumus

dvarah

“porta”

Thýra

foras

Thýo

furo

dhvamsati “arruina”

Se no aspecto de significado (“arruína”, “desfaço”, “sacrifico”, “enraivecido”, “purificação”) estas relações de correspondência parecem problemáticas e provavelmente por isso A. Ernout e A. Meillet julgam não haver ainda etimologia indoeuropeia(17), mesmo que tais relações fossem autênticas, a falta de nomes de rios idênticos a essas formas correspondentes indoeuropeias e sobretudo o facto de serem muito diferentes da variante hidronímica indoeuropeia Bebr- , tudo isto indica não dever-se prosseguir com a suposição dum possível confronto februum “purificação” / rio Febros. O vocábulo latino fiber “castor” coexiste com a forma feber “castor” na zona sabina, segundo o testemunho de Varrão, e com a forma beber “castor” nos escritores romanos Fedro, Prisciano e Juvenal(18). A forma sabina feber é quase igual à latina fiber (com i breve), o que não surpreende, pois o falar sabino gravita na órbita dos falares vizinhos do osco-umbro(19), havendo ainda a considerar a forma beber. A diferença de vocalismo (fiber, feber) não parece atribuível a diferenças dialectais, pois o osco-umbro não mostra ter essa alternância vocálica em relação ao latim(20). A forma beber procede da língua vizinha dos celtas (onde há essa forma, como iremos ver), povo que conviveu com os romanos, e daí o falar-se até duma certa unidade

citado (na nota 9) Dictionnaire…, p. 223, s. v. februus. citado (na nota 9) Dictionnaire…, p. 231, s. v. fiber; citado (na nota 9) Lateinisches..., p. 490, s. v. fiber; Raymond Sindou in Acta Salmanticensia, vol. XI, fasc. 2 (1958), p. 189. (19) Vittore Pisani, Storia della Lingua Latina, s. d. Torino, p. 78 ; Victor Jose Herrero, Introducción al Estudio de la Filologia Latina, Madrid, 1976, p. 105 ; P. Kretschmer, Introducción a la Lingüística Griega e Latina, Madrid, 1946, p. 213 (20) cfr. Angel Montenegro Duque, Osco y Umbro, Madrid, 1949, p. 8. (17) (18)

linguística ítalo-celta(21), mais concretamente de certas parecenças do latim com o celta de tipo goidélico e do osco-umbro com o celta de tipo britónico(22). Há efectivamente uma correspondência entre f latino e b celta (celta beber, também adoptado pelo latim), como vamos ver no quadro geral das correspondências indoeuropeias(23), cingindo-nos apenas às zonas linguísticas onde há o nome beber / feber e fiber “castor”: a) latino fiber “castor”, sabino feber “castor”; b) celta de tipo goidélico ou hibérnico: antigo irlandês beabhar “castor”; celta de tipo britónico : córnico befer “castor”, bretão bieuzr “castor”. Em córnico, o b medial costuma passar a f, como se vê doutros casos como cafos, kefis, etc.(24) e daí a forma befer “castor”. Ainda a respeito das formas com b / f em celta de tipo britónico e das formas irlandesas em –ar, e / es (cfr. beabhar), eis outros exemplos: Irlandês dobar e córnico dwfr; “ lobre e novo irlandês lobhar e córnico llowfr; “ gabor e novo irlandês gabhar e antigo córnico gauar e córnico gafr; “ ribar e novo irlandês riobhar e córnico rhefr; “ fer, fir e fear; “ antigo lebor e irlandês moderno leabhar e córnico llyfr; “ sesc e novo irlandês seasg; “ Feabha “Februar”(25).

citada (na nota 19) Introducción… (de Victor…) pp. 103-104 ; Revue Celtique 42 (1925), p. 379 sgs.; Emerita 2 (1934), pp. 263-306; Ernesto Faria, Fonética Histórica do Latim, Rio de Janeiro, 1957, p. 14. (22) citada (na nota 19) Introducción... (de Victor...), p. 104; citada (na nota 19) Introducción... (de Kretschmer...), p. 216; cfr. ainda Revue Celtique 3 (18761878), p. 40 sgs. e 35 (1914), p. 212 sgs. (23) Citado (na nota 4) Indogermanisches..., p. 136; citado (na nota 9) Lateinisches..., p. 490, s. v. fiber; Paul Lebel, Principes et Méthodes d’hydronymie Française, Dijon, 1956, p. 265, n.º 558; Revue Celtique 17 (1896), p. 297; citado (na nota 6) Alt-Celtischer... I Leipzig, 1896, coluna 363, s.v. bebru; citada (na nota 6) La Langue Gauloise, p. 232, cfr. 99; Whitley Stokes / Adalbert Bezzenberger, Wortschatz der Keltischen Sprachenheit, Göttingen, 1979, p. 167 (24) citada (na nota 6) Grammatica Celtica, p. 142. (25) citada (na nota 6) Vergleichende... I. 116-117, 171, 226, 71, 491 e II. 82. (21)

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c) Germânico: médio holandês bever “castor”, holandês actual bever “castor”; antigo alto alemão bibar “castor”; anglo-saxão bebr / beofor “castor”; antigo saxónico bibar “castor”; inglês moderno beaver “castor”; antigo islandês bjorr (de bebru) “castor”; norueguês moderno bever “castor”; sueco moderno bäver “castor”. d) Balto-eslavo: antigo prussiano bebrus “castor”; ~ lituano bebrus, bebras, bãbras “castor”; letónio bebris, bebra “castor”; polaco bobr “castor”; antigo russo bebrjanz “castor”; antigo servo-croata bobr “castor”. Em polaco o e é, em vários casos, substituído por o, cfr. bierzesz e biore, brzezina e brzoza(26a), anieli e aniol, kosciele e kosciola(26b), etc. e)Indo-iraniano: avéstico bawra “castor”. Em todos estes grupos indoeuropeus, a consoante inicial é b (bibar, bebrus, bebr, bawra, etc.), à excepção do itálico fiber e feber. De facto, nas correspondências indoeuropeias nota-se este paralelismo, segundo o qual só o osco-umbro adopta f (em posição inicial e medial), bem como o latim (mas só em posição inicial, porque em posição medial já adopta o b), como se vê nos casos paralelos(27) a seguir citados, e até esta diferença de tratamento medial foi também notada por Giacomo Devoto(28), a respeito do mediterrâneo teba “colina” que, na Sabínia, apresenta a forma tifa (Monte Tifata) e a respeito dos casos de Stabiae / Stafia, Alliba / Allifae:

antigo indiano b

eslavo

germânico

celta

b

b

b

f, b

antigo irlandês brath(a)ir, Manx braar, Galês bhratar “irmão”

antigo prussiano brati

brawd, gótico

córnico

brothar

broder / breur,

latim frater, osco-umbro fratrum

bretão médio breuz, bretão actual breur(29) gótico bharati “levo”

antigo

baira,

búlgaro

antigo alto

bero

alemão

irlandês berid (30)

latim fero

biru (gin)bhraj “rebentado

gótico

das

brikan

montanhas”

irlandês médio

latim frango

braigid

antigo alto

budhnah

alemão

“solo, terra” cfr. A. Meillet, Le Slave Commun, Paris, 1934, p. 43 ; A. Meillet, H. de Willman-Grabowska, Grammaire de la Langue Polonaise, Paris, 1921, p. 17, 18, 23. (26b) André Vaillant, Grammaire Comparée des Langues Slaves, vol. I, Paris, 1950, p. 108 ; Fernando Presa González, Gramática de la Lengua Polaca, Madrid, 1990, p. 20. (27) citada (na nota 16) Lingüística... (de H. Krahe), p. 86; citada (na nota 16) Introducción... (de Oswald...), p. 82; citada (na nota 16) Lingüística... (de F. R. Adrados), p. 246 cfr. 245; citado (na nota 4) Indogermanisches..., p. 183184, 128, 185, 174, 127, 118-119, 152, 120, 315, 882; citada (na nota 21) Fonética..., p. 240; citado (na nota 20) Osco..., p. 12, 92, 105; Max Niedermann, Précis de Phonétique Historique du Latin, Paris, 1959, p. 93. (28) Storia della Lingua di Roma, Bologna, 1944, p. 57.

itálico (lat., etc.)

latim fundus

bodam

26a)

bandhuh “parentes, afins” bhujati

lituano

“torce”

bugau

gótico

latim of-

bindan

fendix latim fugio

bhalam

címbrico

“brilho”

belau

latim fulica


bhanda

címbrico

“vaso”

bal

rabhas “névoa”

antigo

antigo alto

búlgaro

alemão

nebo

nebul

latim follis

latim nebula

Osco sifei

alemão albiz

germânico

balto-eslavo

celta

e

eei

e

e

antigo alto

Latim sibi,

antigo alto

latim

Latim albus, címbrico

Umbro alfu,

elfyd

Osco Alafa (ternum)

É de notar que também em címbrico o b medial pode passar a f, como se vê de dubr / dufyr, etc.(31). Diz Joseph M. Piel que “Todas as grandes línguas indoeuropeias: românicas, germânicas e eslavas apresentam no seu léxico, comum e toponímico, uma base indiscutivelmente celta, *Beber, aparentada, no plano indoeuropeu, com o latim Fiber / Feber”(32). Ora não nos parece que as formas em b (balto-eslavas), germânicas, para não falar do longínquo avéstico bawra) provenham todas do celta beber, mas essas formas balto-eslavas, germânicas, etc. são autóctones e correspondentes às celtas, onde em todas elas, segundo os exemplos comparativos acima referidos, como brathar, etc., há sempre o b inicial. Demais também se observam as correspondências vocálicas indoeuropeias, como se pode ver destes exemplos(33a): Além disso, o nosso vocábulo está representado fora ainda do domínio indoeuropeu pelo vocábulo relacionado berang “lontra”, animal parecido (33b). Por conseguinte, é compreensível o latim fiber e o sabino feber (formas com f) perante as formas (29) citado (na nota 6) Celtic..., p. 180; H. D’Arbois de Jubainville, Eléments de la Grammaire Celtique, Paris, 1903, p. 47 ; Revue Celtique 23 (1902), p. 165. (30) citada (na nota 6) A Grammar..., p. 36. (31) citada (na nota 6), grammatica Celtica, p. 133. (32) Revista de Guimarães 78 (1968), p. 332. (33a) citado (na nota 4) Indogermanisches..., p. 908, 315; citada (na nota 16) Lingüística... (de H. Krahe), p. 61; citada (na nota 6) A Grammar..., p. 36; citada (na nota 16) Introducción... (de Oswald...), p.57. Sobre o problema de empréstimos celtas em germânico ver Hans Krahe, Lingüística Germánica, Madrid, 1977, p. 30 e 34. (33b) Revista Orbis, tomo 16, n.º2, Lovrina, 1967, pp. 335-336.

fero “levo”

alemão beran e biru

senex “velho” nebula “névoa”

gótico sineigs

antigo búlgaro bers ~ lituano senas

antigo irlandês berid antigo irlandês sen

antigo alto alemão nebul

latim fiber,

antigo alto

sabino

alemão

feber

bibar

antigo búlgaro

antigo

nebo

irlandês nel

antigo russo

córnico

bebrjanz

befer

dos restantes grupos linguísticos indoeuropeus com b (beber, bibar, etc.). Como já observaram A. Meillet e K. Brugmann(34a) a respeito das línguas indoeuropeias, Jacques André quanto ao latim(34b) e G. Alessio(35) sobre as línguas do substracto mediterrâneo, nota-se em nomes de animais, etc. uma sílaba inicial reduplicada (redobro) formada da mesma consoante e com o apoio duma vogal. Para nos cingirmos apenas a alguns exemplos, temos os zoónimos turta ciconia “cegonha” (a par da forma nãoreduplicada ou simples conea), cicindela “pirilampo”, sisarra “espécie de ovelha”, peixe kikíbalos, téttics “cigarra”, cicada “cigarra”, kíkeros “crocodilo de terra firme”, séselos “marisco nu” a par da forma seliátes (sem redobro), títyros “certo macaco”, etc.(36). Como foi lembrado na Revue Celtique 17 (1896), pag. 297, a vogal do redobro (na sílaba inicial) ora é i, ora é e (além doutras vogais mais raramente, cfr. supra bobr, ba-wra): dídomi “dou”, tithêne “ama”, ciconia e, por outro lado, 34a) cfr. respectivamente Introduction à l’étude Comparative des Langues Indoeuropéennes, Paris, 1934, pp. 179-182, 203-204, principalmente p. 277 e Grundriss der Vergleichenden Grammatik der Indogermanischen Sprachen, vol.II, Strassburg, 1889, p. 91, 93, etc. (34b) Les Mots à Redoublement en Latin, Paris, 1978, sobretudo p. 57-58. (35) Giovanni Alessio, Le Lingue Indoeuropee nell’ Ambiente Mediterraneo, Bari, 1955, p. 672 e 673. (36) cfr. notas 34 e 35; citado (na nota 9) Dictionnaire... , p. 119; Studi Etruschi 11 (1937), p. 256, e 17 (1943), pp. 228-229, etc.

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dédoka “dei”, mémini “lembro”. Assim se compreende o mesmo fenómeno no nome beber / feber (com e) e fiber (com i) “castor” quanto à variedade vocálica do redobro, embora este pareça um tanto oculto por causa da consoante f, devido às citadas correspondências consonânticas indoeuropeias (entre b e f) e à fonética particular de cada língua, como acontece com o córnico befer “castor”. Assim o ambiente latino possui três vocábulos: beber (adoptado do celta), feber e fiber “castor” adaptados à fonética sabina e latina quanto ao consonantismo inicial b- / f- e com a variedade vocálica i / e no redobro. À semelhança do que acontece com a forma simples conea a par da reduplicada ciconia “cegonha”, também ocorre o mesmo no caso que estamos a tratar de be-ber / fe-ber e fi-ber “castor”, pois há a forma simples ber no significado de “castanho”, cor que corresponde à do animal castor e também do urso e daí termos(37) por um lado o lituano beras “castanho”, letónio bers “castanho” e médio alto alemão brun “castanho” e, por outro lado, antigo alto alemão bero “urso”, alemão moderno bär “urso”, anglo-saxão bera “urso”, antigo islandês bersi “urso” e antigo indiano bhallah “urso”. Sobre a descendência românica dos vocábulos romanos fiber / feber / beber “castor” eis o que se nos depara(38): italiano

corso

biévoro, beurus, beauero

espanhol português

antigo: bièvre;

bevero; dialectais

francês

W. Meyer-Lübke julga que o romeno bebru será antes de procedência eslava, devido à proximidade geográfica. Como se vê, a forma fiber aparece muito isolada na sua representação, como veremos também ao referirmonos ao hidrónimo Febros. É possível que pertença a esta série o apelativo castelhano febrera “canal por onde se conduz a água para regar” e cuja etimologia J. Corominas declara desconhecida(40) e que poderá talvez corresponder ao topónimo Febreira em Carvalhos – Barcelos, à leira de Febreira em Esturãos – Ponte de Lima(41) e topónimo asturiano Febrero também citado por Piel(42), havendo ainda o apelativo bévera “rio ou torrente pobre de água” em Brianza(43a) além do topónimo português na zona centro do País “ad rostrum de Bevero”(43b), que Arlindo de Sousa já lembrou(44) juntamente com “ villa de biberes” ou “uillam que uocatur Biberes” na zona de Miranda(45), mas este último topónimo não deve aludir à presença de castores, mas sim ao nome representado no topónimo próximo Campo de Víboras, pois, como já preveniu Raymond Sindou(46), o vocábulo vipera “víbora” acabou também por confluir no seu resultado fonético com o termo *bib(e)ra “castor fêmea”. Resta ainda estudar o caso de “fonte de Bibir”, em 1258, em S. Marinha de Oleiros – Vila Verde(47). Toda esta problemática carece ainda de um estudo mais aprofundado (bíbaro, vipera “víbora”, etc.), a que é de acrescentar o topónimo “uibros” 1264 e 1290 hoje San Salvador de Brigos Lugo (48a). O caso do topónimo galego “pontem de vivario” 1255 / “puente de Biuero” / Viveiro(48b), vocábulo

meridional: béfulu,

vibre,

béfelu

bivre, fibre; dialectais

citado (na nota 38) Diccionario Crítico..., vol. III, Madrid, 1980, p. 877, s. v. febrera. Arquivo de Ponte de Lima (1984), p. 290. Segundo me informa o Sr. P. António José Baptista (Facha - Ponte de Lima), trata-se de um terreno seco mas com um regato perto. (42) Revista de Guimarães 78 (1968), p. 332. (43a) cfr. Johannes Hubschmid, Pyrenäenwoiter, Salamanca, 1954, p. 16. (43b) O Archeólogo Português 16 (1911), p. 90. (44) Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. 27, n.º 108, Out. – Dez., 1961, p. 247, nota 9 e Revista de Portugal – série Língua Portuguesa, vol. 26, n.º 200, Dez., 1961, p. 475 (45) O Instituto 58 (1911), p. 167 e 170; Francisco Manuel Alves, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, vol. 4 (1983), p. 8 e 11. (46) Acta Salmanticensia, vol. XI, fasc. 2 (1958), p. 196. (47) Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones, p. 296. (48a) Boletín de la Comisíon Provincial de Monumentos Históricos y Artísticos de Lugo, n.º 39 (1953), tomo V, p. 180. (48b) Elisa Ferreira Priegue, Los Caminos Medievales de Galicia, Ourense, 1988, p. 208. (40)

antigo befre; bíbaro

bíbaro, bifre (39)

beuro, beiure

(37) citado (na nota 4) Indogermanisches..., p. 136; citados (na nota 23) Principes..., p. 265. (38) W. Meyer- Lübke, Romanisches Etymologisches Wörterbuch, 3.ª ed., Heidelberg, 1935, p. 87, n.º 1012; Joan Corominas, J. A. Pascual, Diccionario Crítico Etimológico Castellano e Hispánico, vol. I, Madrid, 1980, p. 554, s. v. befre; citada (na nota 14b) Revue..., pp. 231-248. (39) José Pedro Machado, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, vol. II, Lisboa, 1981, p. 338, s. v. bifre.

(41)


paroxítono, é já completamente diferente. Importa distinguir todos estes casos. Notar ainda “Piscaria de Bibella” 1086(48c), cfr. latinos liber e libellus, castrum e castellum, dolabra e dolabella, etc. Finalmente resta anotar a presença de rios com o nome de castor nas diversas áreas linguísticas aqui referenciadas: I a) rio Febros Gaia, já “fibrus” em 1097(49) e “fribus” em 1097(50), além da forma “feueros” em 1077(51). A forma “fribus” (com r na sílaba inicial) leva a perguntar se emparceirará com esta série onomástica o topónimo medieval do Centro de Portugal “hereditatem de Brivida”(52), importando ainda esclarecer com paralelos semânticos a terminação final –ida. b) “uilla draguncelli […] discurrente riuulo feuerus” 1091(53), hoje rio Febros em Argoncilhe – Feira, que passa na localidade vizinha da Vergada, onde se venera o Senhor das Febres, aproveitamento religioso da adaptação popular da voz hidronímica, como já notou Arlindo de Sousa com as expressões “atracção paronímica”(54) e “etimologia popular tão interessante […] que se deu na passagem de Febros (potamónimo) para Febres (invocação hieronímica)”(55). Quanto ao topónimo Febres (Cantanhede), J. Diogo Correia, na sequência de J. Leite de Vasconcelos(56), crê(57) proceder do culto da Senhora das Febres.

c) “aquam de Feveros” 1121-1128 e “Feveros” 1258(58) em Bitarães – Paredes; d) “in ripa feueros” 1059(59) e rio “Feueros” (60) 1104 em Laje – Vila Verde; e) rio Febros, afluente do Cávado, onde desagua na freguesia do Prado(61); f) rio Febros, afluente do Ave, onde desagua nas Taipas(62); g) “ribulo Feveros” 1126 em S. Miguel da carreira – Barcelos(63); h) rio “Feberos” 1107(64) possivelmente em Veatodos – Barcelos; i) rio Febros na região de Sernancelhe(65); j) Alfebre, afluente do Sado, que lembra na sua estrutura morfológica (elemento árabe al- “o”) o rio alentejano Alcórrego(66); l) “intrat in feueros” 1095 e 1169 Tuy(67) junto a Bembibre; m) “flumine de Feueros” 1135 região de Aliste – Zamora(68). A esta série se deverá adicionar o topónimo Monfebres (Candedo – Murça). II Itália(69): Fibrenus, la Bévera, afluente do Lambro na província de Como, Biberussa / Biberist.

Documentos Medievais Portugueses, vol. I, p. 72, n.º 58; Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones de 1258, p. 567. Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, p. 258, n.º 420. (60) Documentos Medievais Portugueses, vol. III, p. 145, n.º 166. (61) Revista de Guimarães 78 (1968), p. 329. (62) “ “ “ 78 (1968), p. 329. (63) Biblos 34 (1958), p. 24. (64) Documentos Medievais Portugueses, vol. III, p. 213, n.º 239. (65) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, s. v. Vila de Ponte (Sernancelhe), p. 438. (66) Américo Costa, Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular. (67) respectivamente Mons. Pascual Galindo Romeo, Tuy en la Baja Edad Media – siglos XII-XV, apêndice, p. V do documento 1-A e Catedral de Tuy, Becerro I, folha 76 (ver ainda folhas 77 e 250 verso). (68) Revista de Guimarães 78 (1968), p. 330. (69) citados (na nota 23) Principes..., p. 314; J. U. Hubschmid, Bezeichnungen von Göttern und Dämonen als Flussnamen, Bern, 1947, p. 15; Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo – Americana Espasa – Calpe; Revue Internationale d’Onomastique, septembre, 1955, p. 183. (58)

Jose M. Andrade, O Tombo de Celanwa, vol. I, Santiago de Compostela, 1995, p. 446. (49) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, p. 504, n.º 849. (50) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, p. 506, nº 853. (51) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, p. 332, nº 545. (52) O Archeólogo Português 16 (1911), p. 89 cfr. 91. O topónimo Alfrívida é esdrúxulo (Boletim Mensal da Sociedade de Língua Portuguesa, Dez., 1962, n.º 12, ano 13, p. 355). (53) Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae, p. 451, n.º 756. (54) Revista de Portugal – série Língua Portuguesa, vol. 26, n.º 200, Dez., 1961, p. 474. (55) Estudos de Arqueologia, Etnologia e História, Rio de Janeiro, 1957, pp. 5859, nota 4. (56) Etnografia Portuguesa, vol. II, Lisboa, 1980, p. 613. (57) Revista de Portugal – série Língua Portuguesa, vol. 24, n.º 171, Jan., 1959, p. 39. Sobre o culto da Senhora das Febres em Portugal ver P. Jacinto dos Reis, Invocações de Nossa Senhora em Portugal d’Aquém e d’Além Mar e seu Padroado, Lisboa, 1967, pp. 253-254. (48c)

(59)

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III) França(70) com bastante densidade e frequência: formas simples: Bevera / Bièvre, Bevra; formas compostas e derivadas: a) Beurotte; b) com o elemento –onno, -onna(71) de Sauconna, Ol-onna, etc., isto é, Bebr-onno, Bebr-onna: Beuvron, Bevron, Boivre, Brevon, Beuvronne, Brevonne, Breuvannes, Brevoines, Beauronne, Beurone, Biberonne, Brevenne, Brévine, além do sub-derivado Beuvronnet. IV) Inglaterra(72): Beferburna.

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V) Europa Central (Holanda, Alemanha)(73): Biber, Bever-bach em Burtscheid, Biber-aha 1093 / Biberach, Bebropius, Biber-affa, *Bebrisa / Bibis Biberbach, *Bibrina / Bivirna / Biverna, Biber-bach entre Solm e Lieser, Beverna 996 / Beveren. VI) Polónia(74): Bobern, Biebrza.

(70) citados (na nota 23) Principes..., p. 49, 282, 265, 313-315, 349; citados (na nota 69) Bezeichnungen..., p. 15; Ogam n.º 85, mars, 1963, tome XV, fasc. 1-2, p. 96; citado (na nota 23) Alt-Celtischer..., vol. I, coluna 363; Albert Dauzat, Gaston Deslandes, Charles Rostaing, Dictionnaire Etymologique des Noms de Rivières et de Montagnes en France, Paris, 1982, p. 28, 31; Revue Celtique 17 (1896), p. 297. (71) Louis-Fernand Flutre, Recherches sur les Eléments prégaulois dans la Toponymie de la Lozère, Paris, 1957, p. 212. (72) citados (na nota 23) Principes..., p. 314. (73) citados (na nota 23) Principes..., p. 314; Revue Internationale d’Onomastique 7e. Année, n.º 3, septembre de 1955, p. 170; citados (na nota 69) Bezeichnungen..., p. 15; citado (na nota 23) Alt-Celtischer..., vol. I, coluna 363; Revue Celtique 17 (1896), p. 297; citado (na nota 9) Lateinisches..., p. 490; Zeitschrift für Ortsnamenforschung 9 (1933), p. 47 e 48; Beiträge zur Namenforschung, vol. 14 (1963), p. 222. (74) citados (na nota 23) Principes..., p. 314; citado (na nota 4) Indogermanisches..., p. 136. (74b) Beiträge zur Namenforschung, ano 2, fascículo 1 (1950-1951), p. 15 e vol.11 (1960), p. 265. (75) citada (na nota 73) Zeitschrift...9 (1933), p. 47. (76) citado (na nota 4) Indogermanisches..., p. 136; citado (na nota 9) Dictionnaire..., p. 298; Revue Celtique 17 (1896), p. 298 e 27 (1906), p. 118. (77) Revue Celtique 17 (1896), p. 297 e 27 (1906), p. 340; citado (na nota 5) Manuel..., p. 74. (78) citado (na nota 4) Indogermanisches..., p. 136.

VII) Zona Balto-Eslava(74b): rios lituanos Bebrukas, Babrungas e Bebrujis e rio eslavo Boberasche. Também aparecem casos toponímicos ligados a beber “castor”, pelo que estamos perante uma base hidro-toponomástica: entre outros, eis os topónimos holandês Biverun ou Biveran(75), gálico Bibracte / Beuvray(76), italiano Bebriacus(77), além do étnico Bibroci(78), etc.


Para a cura da solidão: Terapia Ocupacional Maria da Conceição Vilhena* Uma das preocupações dos Serviços Sociais do Voluntariado é que os idosos vivam bem a sua aposentação. Mas viver bem, como? Aproveitando bem o nosso tempo. Para cada um há uma forma especial de viver o seu tempo. Uma forma que o faz feliz e que é diferente de pessoa para pessoa. Uma forma que esteja de acordo com os seus dons, com os seus gostos, com as suas capacidades. Com os seus credos e ideologias. Que o faça feliz. A nossa acção é de Solidariedade Social. Nós, voluntários da solidariedade, temos de nos preocupar com o bem-estar dos nossos companheiros, na ocupação dos seus tempos livres. E, como sugestão, lembramos-lhe o prazer na aquisição do SABER. Porque, como diz o nosso povo, o saber não ocupa lugar. Porque o saber é de todas as idades. Porque o saber pressupõe uma actividade do corpo e do espírito. Um intercâmbio de todos os

monumentos, que é convívio agradável, que ajuda a saúde, que encoraja e fortalece. Líamos há pouco, numa revista francesa para a 3ª idade, que uma forma de preencher o tempo agradavelmente pode ser encontrada na troca dos saberes. Por exemplo: ensinar a sua língua a estrangeiros e aprender a deles ou ficar a conhecer os seus usos e costumes, história, etc. E quantas coisas mais?! Pensemos, pois, na riqueza que temos dentro de nós e repartamo-la com os outros. Que tipos de saber? Os mais variados, desde o cozinhar à utilização da Internet, passando pelo artesanato, pelas línguas e pela filosofia; e podendo estender-se ainda à natação, jardinagem, dança, pintura, enfermagem, socorrismo… Intercâmbio de SABERES. É esta uma das nossas propostas actuais: que cada grupo de voluntários crie uma rede de troca de conhecimentos. Para fomentar a pluralidade dos saberes num gesto de reciprocidade. Alheio a problemas de dinheiro, tendo em vista só o prazer de dar e receber, de semear e colher. Porque somos todos sábios e ignorantes, simultaneamente. Uns de umas coisas, outros de outras. Todos podemos ser, simultaneamente,

* Licenciada em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras de Lisboa, 1965. Doutoramento de Estado ès-Lettres, pela Sorbonne, Paris, 1975; Professora Catedrática. Leccionou na Universidade de Aix-en-Provence, França; na Universidade dos Açores; na Universidade Aberta de Lisboa e na Universidade da Ásia Oriental, em Macau. Tem publicado perto de cento e cinquenta trabalhos (livros e artigos) sobre literatura, linguística, etnografia e história. Actualmente é aposentada e Presidente da Associação de Solidariedade dos Professores (4º mandato).

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Universidade Sénior de Santa Maria da Feira - Escócia Julho de 2006. 112

professores e alunos, podendo até reunir-se maturidade e juventude, sem hierarquia. Dar e receber conhecimentos são, pois, formas agradáveis de preencher os tempos livres na aposentação, as quais contribuirão, certamente, para nos tornar mais felizes. Continuar a aprender e a ensinar são uma excelente forma de terapia ocupacional. Sofre de solidão não propriamente aquele que vive sozinho, mas o que tem o espírito no desemprego. Aquele que tem a alma vazia. É que estar desocupado é o pior que nos pode suceder, pois, permaneceremos num silêncio de morte, a olhar sem ver, atormentados pelo nada. A olhar para trás, esquecidos de que é no presente que vivemos. Teremos é de descobrir como é agradável estarmos activos, nas nossas duas dimensões corporal e espiritual – movimento físico e pensamento. Com o voluntariado, desejamos ajudar todos os idosos a descobrir a arte de transportar-se na comunhão da diversidade: a arte da terapia ocupacional, em que passado, presente e futuro se fundem no gosto pela vida.

Dança ritual Fogo.


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Aula na Faculdade de Letras de Coimbra pela Prof. Drª. Ofélia Monteiro - 2004.

“Fome, peste e guerra”. Fogaceiras 500 anos.


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Entoando o velhinho Hino da Vila da Feira.

Sarau Anual 2005.


SÃO PETERSBURGO Jorge Pais de Amaral* De entre as muitas cidades dos vários países que já visitei esta foi, sem dúvida, uma das que mais me fascinou. Por isso, não resisto a escrever algo sobre ela. Não foi fácil a organização da viagem. O número de pessoas inscritas ultrapassou largamente as três centenas. Tão grande afluência fez com que a agência de viagens sentisse o problema do transporte tanto mais que se estava na chamada “época alta”. Fomos então confrontados com a necessidade de recorrer a todas as transportadoras aéreas disponíveis. A nossa resistência à utilização dos serviços de uma delas, foi superada pelo pedido que nos foi feito no sentido de não nos opormos se as pessoas consultadas aceitassem viajar nesses aviões. Para compensar, o preço seria um pouco inferior. Como cada pessoa é livre de escolher o que lhe aprouver, depois de suficientemente elucidada, acabámos por aceder. E tudo correu normalmente. Só não se pode dizer normal o episódio que aconteceu a uma senhora do grupo na viagem de comboio de Moscovo para São Petersburgo. A viagem foi feita de noite em carruagens cama. Tinha sido * Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.

recomendado a todos os utentes que trancassem a porta por dentro para não serem surpreendidos por algum visitante indesejado. Na verdade, tendo a porta um ferrolho no seu interior (um trancão, como diria um brasileiro), era de supor que, depois de corrido, o acesso se tornaria impossível, mesmo que fosse utilizada uma chave. Parece, porém, que assim não era. Pelo menos a referida senhora, que viajava sozinha, quando acordou deu pela falta do seu porta-moedas. Ficou, porém, muito agradecida ao intruso pelo profissionalismo que evidenciou, visto que entrou e saiu sem provocar barulho que a tivesse despertado. Assim, pelo menos não passou pelo susto de verificar que em determinado momento tinha companhia. São Petersburgo tem uma história relativamente recente e é interessante poder afirmar-se que é conhecida a data exacta da sua fundação. O nome da cidade é devida ao seu criador – Pedro, o Grande – que era filho do 2º casamento do czar Aléxis I. Este, ao morrer, deixou três filhos do 1º casamento: Teodoro, Ívan e Sofia. A Aléxis sucedeu Teodoro, mas foi efémero o seu reinado. Foi depois imposta a proclamação de Ívan e Pedro sob a regência de Sofia. Em 1689, Pedro prende os conselheiros de Sofia, encerra esta num convento e anula o poder de Ívan.

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Monumento a Pedro I. Palácio de Mijáilouski.

Palácio de Verão - jardins.

Em 1697 Pedro viajou pela Europa para adquirir conhecimentos sobre construção naval. Diz-se que, de maneira incógnita, chegou a trabalhar num estaleiro da Holanda como calafate. Constituía sua grande determinação encontrar uma passagem livre para o Báltico. Esta ambição levou-o, em 1700, a declarar guerra à Suécia, que era então um dos países mais poderosos da Europa. E, em 1703, conquistou o vale do rio Neva até à foz. Estava assim aberta uma “janela para a Europa”. Para conservar em seu poder as terras conquistadas, havia necessidade de dispor duma grande esquadra e na tarefa de a construir se empenhou verdadeiramente. Em conjugação com esse esforço, Pedro I começou a construir, em 27 de Maio de 1703, na ilha de Zaiatachi, a fortaleza de Pedro e Paulo para proteger dos constantes ataques suecos a cidade a cuja construção havia dado início. Aqui foi fundada a primeira Igreja, em madeira, que foi a precursora da Catedral de São Pedro e São Paulo. Esta data é considerada como a do início da cidade, que se estendeu pelas duas margens do rio Neva. Pedro, o Grande, estava de tal modo determinado em construir a cidade que proibiu em todo o Império, enquanto a obra não se concretizasse,

qualquer outra construção de pedra ou tijolo, de modo a que os materiais não faltassem em São Petersburgo. O impressionante ritmo da construção ceifou muitas vidas dos operários, para o que também contribuíram as cheias do rio, tendo a primeira ocorrido três meses depois do início das obras. Já nos nossos dias, foi construído um dique no golfo da Finlândia, em frente da embocadura do Neva, com o fim de pôr termo às inundações. Pedro I convidou os melhores arquitectos e especialistas em fortificações dos vários países da Europa, entre os quais, Leblond, Trazzini e Rastrelli. Em 1712, São Petersburgo passa a ser a capital do Império Russo, tornando-se em 1726 o porto mais importante do País. Nesta cidade viveram conhecidos escritores e poetas russos como A. Pushkine, N. Gogol. L. Tolstoi, F.Dostoievski, A. Akhmatova,I. Brodski. Como curiosidade, podemos referir que foi Pedro I que ordenou que os anos passassem a contarse a partir do 1º de Janeiro em vez do 1º de Setembro. Sendo uma cidade de contrastes, onde os ricos no percurso para as lojas de luxo se cruzavam com ébrios, mendigos e prostitutas, não admira que tenha sido palco de várias revoluções. Na verdade, aqui começaram a Revolta dos Dezembristas contra o czar,


Palácio de Inverno e coluna de Alexandre.

Palácio de Catarina I.

em 14 de Dezembro de 1825, a de Janeiro de 1905 e a de Fevereiro de 1917. Durante a II Guerra Mundial, São Petersburgo esteve cercada pelas forças alemãs durante 900 dias – desde o dia 8 de Setembro de 1941 até ao dia 27 de Janeiro de 1944. Nessa ocasião morreram mais de 1 milhão dos seus habitantes (perto de um terço da sua população), sendo cerca de 640.000 devido à fome. Houve uma altura em que as pessoas recebiam apenas 125 gramas de pão por dia. Cerca de 500.000 foram enterrados no cemitério da cidade, o maior do Mundo. Durante o cerco, por cada quilómetro quadrado da cidade caíram, em média, 16 bombas explosivas, 324 bombas incendiárias e 3290 projécteis de artilharia. Apesar de tudo isto, a cidade não capitulou. Ficou, porém, muito danificada, como se compreende. Mas, graças às obras de restauro, em 1985 recebeu a Medalha Europeia de Ouro pela conservação e restauração dos seus monumentos de cultura. Três vezes a cidade mudou de nome: em 1914, quando a Rússia estava em guerra com a Alemanha, passou a chamar-se Petrogrado; em 1924 tomou o nome de Leninegrado em homenagem a Lenine; e, finalmente, em 1991 recuperou o nome por que começou a ser conhecida.

A cidade e alguns dos seus monumentos. São Petersburgo tem um traçado com largas avenidas, grandiosas praças, vários canais, pontes, palácios e templos. Estende-se por várias dezenas de ilhas do delta do rio Neva, sendo por isso apelidada de “Veneza do Norte”. Possui 160 quilómetros de rios e canais cuja água, gelando no Inverno, os transforma em espelhos das fachadas das sumptuosas mansões que as ladeiam, sob o brilho das Noites Brancas. O Neva permanece gelado pelo menos quatro meses por ano, mostrando os primeiros indícios de degelo geralmente em Março. A abertura oficial da navegação é anunciada pelas autoridades portuárias em meados de Abril. Antes da Revolução o anúncio era feito no meio de grande cerimonial. As ilhas encontram-se actualmente ligadas por centenas de pontes ladeadas por esculturas, candeeiros trabalhados e obras de ferro forjado, que lhe dão grande beleza. Pedro I, inspirado em Amesterdão, conservou os numerosos cursos de água como forma de drenar o terreno pantanoso. As águas sobem, em média, uma vez por ano, mas houve quatro cheias que provocaram grandes estragos: em 1777, em 1824, em 1924 e em 1955. Em 1824 a cidade ficou submersa e 462 edifícios

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diversos monumentos arquitectónicos que abundam pela cidade. Para quem pretende deslocar-se a pé, é aconselhável um passeio muito agradável pela Avenida Nevski, que é a principal artéria de São Petersburgo. As lojas exibem, a par dos bens de marcas mundialmente consagradas, os famosos ícones, jóias, antiguidades e artesanato.(1)

A Virgem com o Menino, de Leonardo da Vinci. Museu Hermitage. 118

ficaram totalmente destruídos. Este acontecimento inspirou o poema O Cavaleiro de Bronze, no qual Puskin (1833) dá vida à famosa estátua de Pedro o Grande. Puskin era casado com uma mulher de rara beleza, Natália, que brilhava nos bailes da corte oferecidos por Nicolau I, no Palácio de Anitchkov, situado na esquina da Avenida Nevsky e do cais do Fontanka. Puskin foi atingido mortalmente num duelo que teve lugar num bosque a norte da cidade, em 27 de Janeiro de 1837. Em Novembro de 1836, recebera uma carta anónima que lhe conferia o título de “Grão Mestre da Sereníssima Ordem dos Maridos Enganados”. Havia sido enviada por um oficial de cavalaria que durante muito tempo andou a cortejar a bela mulher de Puskin. Este desafiou para um duelo o autor da carta, mas teve a infelicidade de o seu rival ter disparado primeiro. Puskin faleceu aos 38 anos de idade. A ponte Anitchkov sobre o rio Fontanka é conhecida em todo o mundo devido aos quatro grupos escultóricos de P.Clodt “Domadores de cavalos”, que representam rapazes segurando cavalos bravos. Uma das grandes atracções turísticas consiste em efectuar um passeio de barco pelos canais. É uma oportunidade para apreciar, além da beleza dos canais e das pontes que os unem, a sumptuosidade dos

É muito grande a quantidade de belos edifícios de vários estilos arquitectónicos que vão desde o barroco Palácio Stroganov até à neoclássica Catedral Kazan e ao estilo moderno da Casa dos Livros. A Catedral Kazan é uma das Igrejas mais majestosas da cidade. A sua construção demorou entre os anos 1801 e 1811, sendo o projecto do Arquitecto Andrey Voronikhin que se inspirou na Catedral de São Pedro de Roma. A Avenida Nevski foi outrora conhecida pelo nome de “Rua da Tolerância” por ter várias igrejas de diversas comunidades religiosas, que ali se instalaram entre finais do século XVII e início do século XIX. Já fizemos referência à Fortaleza de Pedro e Paulo, construída para proteger a construção da cidade dos ataques dos Suecos. A Catedral de São Pedro e São Paulo – à qual também já nos referimos – passou a ser o sepulcro dos membros da dinastia Romanov desde o fundador da cidade e, em 17 de Julho de 1998, para lá foram levados os restos mortais do último czar russo, Nicolau II, e de sua família e criados. Existe aqui um edifício, “Mint”, onde se cunhavam ouro, prata e bronze, cujo arquitecto se chamava António Porto, e muito provavelmente seria português.(2) Os bastiões da Fortaleza estão unidos por muralhas de 12 metros de altura e 20 metros de largura. Entre as paredes exteriores e interiores das muralhas encontravam-se as casamatas para aquartelar a guarnição e guardar as armas. Mais tarde serviram A propósito de jóias, lembro-me de ter lido há dias uma notícia sobre os ovos Fabergé. Estes eram encomendados pelos czares Alexandre III e Nicolau II ao famoso joalheiro de São Petersburgo, Peter Carl Fabergé para ofertas da Páscoa. A notícia dizia que a maior colecção destes ovos – 9 em cerca de 50 existentes a nível mundial – ia ser vendida em leilão, em Nova York, estando avaliada em mais 74 milhões de euros. (2) Cfr. “Volta Ao Mundo”, nº 36, pág. 76. (1)


de prisão com grande segurança. Nela foi encarcerado A. Radischev devido ao seu livro Viagem de Petersburgo a Moscovo e também os revolucionários Dezembristas, tendo cinco deles sido enforcados. No local da execução foi erigido um obelisco de granito. Em 1957, depois de restaurada a fortaleza, restabeleceu-se a tradição de todos os dias, às 12 horas, se fazer uma salva de artilharia. Para assinalar o bicentenário da cidade, foi construída, em 1903, a ponte Trotski (da Trindade), cujo tabuleiro se pode levantar a meio para deixar passar as embarcações. A partir da ponte pode observar-se, na margem esquerda do Neva, o Jardim de Verão, o Campo de Marte, a Avenida Dvortsovaia, o Almirantado, a Catedral de Santo Isaac e a Strelka (cabo) da ilha Vassilievski. O Jardim de Verão recebeu o nome do Palácio de Verão de Pedro I, o mais antigo palácio de pedra de São Petersburgo. Era nele que o czar e sua família passavam a estação do estio. Actualmente é um museu onde se encontram objectos pessoais da família do czar. Na parte do jardim existem várias esculturas e fontes ornadas com figuras das personagens das fábulas de La Fontaine. Pedro I desejava que o jardim se assemelhasse ao do palácio de Versalhes. Do lado do rio o jardim está cercado por uma grade feita entre 1770 e 1784. Em 1920, negociantes da América do Norte propuseram entregar 20 locomotivas em troca do gradeamento, mas tal proposta foi recusada. Ao sul do Jardim de Verão foi construído o Castelo Mikhailovski para o Imperador Paulo I, filho de Catarina II. Receando alguma conspiração, não queria morar no Palácio de Inverno. O castelo foi rodeado de um fosso com pontes levadiças. Neste refúgio, o Imperador não viveu mais de 40 dias, tendo sido assassinado por conspiradores. No Campo de Marte em 1957 foi aceso o Fogo Sagrado. Em 1820 foi construído o castelo onde foi instalada a Escola de Engenharia Militar. Entre os seus graduados figura o escritor F. Dostoievski. Foi nesta Escola que sentiu despertar a sua vocação literária devido ao contacto com outros autores russos e ocidentais. Escreveu romances de profunda observação

psicológica e de grande intensidade dramática, dos quais se destacam, Crime e Castigo, A Casa dos Mortos, Diário de Um Escritor... Sendo um fervoroso democrata, devido às suas tendências revolucionárias foi condenado à morte (1849). Já no local da execução, com todo o cenário montado, foi-lhe comutada a pena em quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria, pelo czar Nicolau I. O cabo Strelka (flecha) divide o Neva em dois braços: o Grande Neva e o Pequeno Neva. No centro do Strelka fica a praça Birjevaia (da Bolsa) onde se encontra o edifício da antiga Bolsa. Diante da Bolsa erguem-se duas colunas rostrais, de 32 metros de altura, ornadas com proas dos navios vencidos. Seguiu-se uma tradição da Roma antiga que ornava as colunas de triunfo com proas dos navios vencidos de Cartago. No pé das colunas estão representadas figuras que simbolizam os principais rios da Rússia: Dniepre, Volga, Neva e Volkhov. Nos cálices de cobre que encimam as colunas acendiam-se faróis a óleo para indicar a localização do amarradouro do porto. Actualmente são acesas nos dias de festa. No século XVIII e princípio do século XIX não havia pontes permanentes sobre o rio Neva. Por isso, as instituições do governo foram sendo gradualmente transferidas para a margem esquerda. São Petersburgo foi centro do mecenato e um alfobre de criatividade. De entre os escritores, além dos nomes de Dostoievsky e de Puskin, que já referimos, podemos ainda destacar Nicolai Gogol (1809-1852) – autor da comédia O Revisor e do romance Almas Mortas, etc. – e Joseph Brodsky (1940-1996), que veio a receber o prémio Nobel da literatura em 1987. Teve músicos como Nicolai Rimsky Korsakov (1804-1908), Igor Stravinsky (1882-1971). Teve artistas como Ilya Repin (1844-1930), Alexandre Benois (1870-1960) e Marc Chagall (18891985). Como é sabido, é lendário o valor dos bailarinos russos, dos quais destacamos a mundialmente famosa Anna Pavlova (1885-1931).

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No domínio da ciência lembramos o nome de Ivan Pavlov (1849-1936), que ganhou o Prémio Nobel da medicina pela sua teoria de reflexos condicionados, demonstrada por experiências feitas em cães. A Biblioteca Nacional conta com cerca de 30 milhões de livros, alguns deles editados antes do ano de 1500 (incunábulos) verdadeiras preciosidades entre os quais se conta O Evangelho de Ostromir, manuscrito do século XI, biblioteca pessoal de Voltaire, autógrafos de D.Pedro I, Erasmo de Roterdão, Rosseau, Robespierre, Napoleão, Byron, etc.

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Para terminar, faremos uma breve referência ao Ermitage. É o maior Museu da Rússia e um dos maiores do Mundo. Conhecendo, além de outros, os Museus do Louvre, do Prado e Metropolitano, o Ermitage foi dos que mais me fascinou. É claro que apenas o visitei uma vez, sendo certo que, para uma apreciação mais sedimentada, necessárias seriam dezenas de visitas. A sua fundação pode dizer-se que remonta ao ano de 1764 quando ao Palácio de Inverno chegaram 225 quadros, que incluíam pintura flamenga e holandesa, adquiridos em Berlim – a colecção Gotskowsky – para decorar o Palácio. Nos aposentos pessoais da Imperatriz Catarina II havia espaço destinado à conservação de jóias, porcelanas e gemas. Este espaço era costume ser designado por uma palavra francesa “ermitage”, que significava “lugar de retiro, refúgio do ermitão”. Foi este nome que passou para o Museu. Em 1774 a colecção já integrava 2080 telas e foi continuadamente crescendo até atingir hoje mais de 2.800.000 obras de arte, cultura e história, distribuídas por mais de 400 salas. Actualmente o Museu está instalado em vários edifícios construídos pelos melhores arquitectos russos ao longo dos séculos XVIII e XIX que foram acrescentados ao Palácio de Inverno. Durante muitos anos o Ermitage foi uma galeria privada e só em 1852, no tempo do czar Nicolau I, abriu as portas ao público. No Museu podemos encontrar diversas colecções que vão desde as múmias egípcias, antiguidade oriental, arte europeia, história da cultura

russa, numismática, etc. Só a arte euro-ocidental ocupa 125 salas. Entre as obras-primas do Museu existem telas de Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Ticiano, Rafael, Rubens, El Greco, Velásquez, Rembrandt (a maior colecção de obras deste pintor). Possui uma das melhores colecções da pintura impressionista, mas também valiosas obras da pintura flamenga, italiana, francesa e espanhola. O Museu expõe também escultura, colecções arqueológicas e artes decorativas (porcelanas, móveis, tapeçarias, ourivesaria) e ainda uma importante biblioteca. Muitíssimo mais haveria para referir sobre esta magnífica cidade de que tanto gostei, mas o artigo já vai mais longo do que inicialmente havia planeado.


Ao acender a luz:

Orações da noite (individuais) Padre Domingos A. Moreira* Ao fazer o sinal da cruz: Cruz na testa, Cruz no peito, Cruz na cama, Onde me deito (L 11) Com Jesus me deito, Com Jesus na boca, Com Jesus no peito. Jesus no meu leito Para sempre, Amém (CPR 126) Cruz no monte, cruz na fonte, Nunca o diabo me encontre Nem de noite nem de dia Nem à hora do meio-dia. Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria (L 11) * Pároco de Pigeiros.

Boas noites nos dê Deus, Pregado na sua cruz, Salvação p’rás nossas almas, Graças p’ra servir a Deus Para sempre, Amém, Jesus (L 11) Ao ver uma estrela cadente: Deus te guie, Deus te torne a guiar, Deus te torne a pôr Em teu lugar (RL 11. 106) Antes de deitar-se: a) A mãe a deitar o filho: A bênção de Deus E da Virgem Maria Desça sobre ti

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E te faça um santo Para ires para o céu Um dia (Nama 94) b) Nos outros casos: Nesta cama vou deitar-me, Com esta mortalha me cubro. Se a morte vier buscar-me, Os anjos do céu me acudam (CPMB 128)

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Nesta cama me vou deitar, Minha alma a Jesus vou entregar. Se a morte me vier buscar E eu não puder falar, Dirá o meu coração três vezes: Jesus, Jesus, Jesus, Vinde-me salvar. Pai-Nosso, Avé-Maria, Glória ao Pai (CPMB 130) Nesta cama me vou deitar P’ra dormir e descansar. Se a morte vier de noite E eu não puder falar, Valha-me a Virgem Maria Que é boa companhia, Que me guarde nesta noite E amanhã por todo o dia. Ó Jesus do coração, Ouvi minha oração! Perdoai os meus pecados, Bem sabeis quais eles são. Dai-me nesta vida a graça E na outra a salvação (CPMB 130) Nesta sepultura me vou deitar P’ra dormir e descansar. Se a morte vier de noite E eu não puder falar, Fale Nossa Senhora por mim,

Valha-me a Virgem da Conceição. Respondei nesta aflição Para minha salvação. Credo, Jesus, José e Maria Assisti-me na agonia. Pai-Nosso, Avé-Maria (CPMB 130) Na sepultura da vida me deitarei, Não sei se amanhecerei. Confesso-me na vossa graça, Comungo na vossa lei (CPR 116) Hei-de morrer não sei como, Serei julgado não sei quando. Se fosse esta noite, que contas daria? Que sentença me tocaria? De salvação ou condenação? P’los meus pecados: acto de contrição (CPR 114) Candeia apagada, Jesus Cristo nesta casa, Nosso Senhor e a Virgem Aqui amanheçam Com a sua divina graça. Deito-me com a luz, Abraço-me com a cruz (CPR 123)

Ao deitar: Ao deitar-me nesta cama, Faço o meu sinal da cruz E entrego a minha alma Ao santo nome de Jesus. Os anjinhos a cantar, Nossa Senhora a adorar. Oh! Em que bonita hora Vou dormir e descansar (L 20)


Ao terminar este dia, Nós Vos pedimos, Senhor, Que sejas o nosso guia E o nosso protector. Afastai os sonhos maus E as nocturnas tentações. Livrai-nos do inimigo, Guardai nossos corações, Concedei-nos vossa graça, Ó Pai, nosso criador, Por vosso Filho Jesus Em espírito de amor (L 12) Graças a Deus, que já me deitei, Sete anjinhos encontrei: Três aos pés, quatro à cabeceira, Jesus Cristo na dianteira. Botei os olhos ao céu, Pensamento à glória, Jesus Cristo na custódia. O Senhor é meu padrinho, A Senhora minha madrinha. Para que faz a cruz na testa? Para que o diabo me não impeça

Nem de noite nem de dia Nem ao pino do meio dia. Jesus Cristo, Avé-Maria (FN 5) Nesta cama me deito, Encomendo-me a Jesus. O Santíssimo Sacramento me acompanhe, O Divino Espírito Santo me dê luz (RP 61) A cruz se deite comigo, A cruz e a Divindade. A cruz se deite comigo E a Santíssima Trindade. Que desça do céu à terra E se ponha a par de mim (CPMB 130) Deitai-vos, Senhor, co’a minh’alma, Fazei dela travesseiro, Pelo descanso que tivestes Na árvore da bela cruz Por amor de meus pecados, Amantíssimo Jesus (RL 12. 283)

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Graças a Deus que me deitei, Não sei se me levantarei. Peço perdão a Deus Por todas as vezes que eu hoje pequei (O 7) Jesus vivo esteja comigo, Jesus morto esteja em meu corpo, Jesus crucificado esteja a meu lado (L 12)

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Com Deus me deito, Com Deus me levanto Com a divina graça do Espírito Santo. Se eu coberta com o seu manto for, Não terei medo nem temor, Se eu morrer, alumiai-me, Se eu dormir, acordai-me. Quatro centos tem a casa, Quatro velas estão a arder. Os Anjos me guardem, Se eu esta noite morrer (O 5) Nesta hora em que me encosto, Lembra-me a hora da morte E o inferno que é tão forte. Lembra-me a Virgem Maria Que é minha companhia. Graças a Deus, já estou deitado, De sete anjos acompanhado, Três aos pés, quatro à cabeceira, Nossa Senhora na dianteira. Deitei os olhos ao céu, O pensamento à glória. Graças a Deus, que já vi Jesus Cristo na custódia. Ó meu Jesus crucificado, Filho da Virgem Maria, Guardai-me por esta noite E amanhã por todo o dia, O meu corpo seja salvo E guardada a minha alma Por teu sangue derramado (L 22)

Nesta cama me vou deitar, Com Jesus quero falar: Jesus na minha boca, Jesus no meu peito, Jesus na cama onde me deito. Apego-me aos cravos, Abraço-me à cruz, Entrego a minha alma Ao Menino Jesus (L 23) Nesta cama me deito, Com a mortalha me cubro. Os anjos me guardem Enquanto eu durmo (L 17) Meu padre S. Francisco, Dai-me do que vos deu Cristo: Uma paz de paraíso, Uma dor de contrição (FCV I.65) Arca do Santo Sacrário, Virgem pura do Rosário: Dai-nos, Senhora, a salvação E o tempo necessário RE 145) Quantos vão p’ra cama sãos E aparecem mortos nela! Faz o acto de contrição, Encosta-te à Sentinela. Chorai, meus olhos, chorai Lágrimas de contrição. Se nesta noite morrer, Sirvam-me de confissão (L 24) Nosso Senhor dê muitas boas noites, Salvação para as almas, Graça para servir a Deus (RP 59)


Dai-me fala até à morte Para me poder confessar E um coração sempre forte Para nunca mais pecar. Senhor Jesus do Calvário, Ó meu Divino Cordeiro, Eu Vos adoro na hóstia Como no céu verdadeiro (L 23) Na sepultura me deito, Não sei se me erguerei. Jesus me perdoe Quantas vezes eu pequei. A três santos me entrego, Jesus, Maria, José. Valei-me na vossa última hora Da minha agonia (RL 9. 233) Boa noite, meu Anjo da guarda, Boa noite a ti, boa noite a mim. Quando fores para o paraíso, Pede lá a Deus por mim, Depois por meu pai, Por minha mãe e meus avós E por todos, Amém (RP 57) Na sepultura dos vivos estou deitado. Se a morte me vier buscar, Qu’eu já não possa falar, Diga o coração por mim “Jesus, Jesus, Jesus”, Me salve a alma Para sempre, Amém, Jesus (RP 60) Boa Noite, meu Jesus! Boa Noite, minha mãe do céu! Boa Noite, meu anjo da guarda! (O 10)

Adoro a Jesus Do meu coração, Não hei-de morrer, Hei-de ir para o céu Se o merecer. Ó glória dos Anjos Quem Vos logrará! Quem fizer por isso, Para o céu irá. Nesta minha cama Eu me vou deitar (L 25) Bendito sejais No meu coração. Não me deis a morte Sem a confissão (ES 498.499) Valei-me nesta aflição Para minha salvação. Credo, Jesus, José e Maria, Assisti-me na agonia. Pai-Nosso, Ave-Maria CPMB 131) Vou-me deitar nesta cama, Com esta mortalha me cubram. Se a morte me perseguir, Os anjos do céu me acudam (Ob 131) Nesta cama me vou deitar. Se eu com Jesus não tornar a falar, Jesus, Maria, José E os anjos do céu me venham acompanhar (Mens 117.16) Trago Jesus no meu peito, Jesus no meu coração, Preso de duas colunas No acto de contrição (RE 148)

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Senhor, nesta cama me deitei Que é sinal de sepultura. Se eu amanhã amanhecer em vida, Afinal quero confissão dizer Para a minha se não perder [reza-se a confissão] Senhor, dai-me uma boa noite, Salvação para as almas E paz para todo o mundo (O 12)

É confissão, Santa- Unção E os Óleos Santos, Pai, Filho e Espírito Santo (OPP 98)

Ó Jesus da minha testa, Ó Jesus do meu olhar, Ó Jesus do meu falar, Ó Jesus do meu coração, Permiti, Senhor, qu’eu não morra Sem confissão. Pai-Nosso, Ave-Maria (DL 126)

Se a morte me vier buscar, A Virgem me venha acordar, P’ra qu’eu possa dizer três vezes: “Jesus, Jesus, Jesus” me venha salvar Nesta cama me venho deitar. Se a morte me vier buscar E eu não puder falar, Que o meu coração se lembre: “Jesus, Jesus, Jesus” p’ra me salvar (AB 3.254)

Quem me dera nesta hora Ter grande arrependimento, Qu’as minhas lágrimas fossem de sangue Para maior sentimento (AB 4.303) Em louvor da Virgem Maria, Dona do meu coração E mãe minha, Salve Rainha (CPR 110) Senhor, se nesta estância Me quereis levar, Eu vos peço a unção E a santíssima bênção, Deus, Amem, kyrie eleison (FCV I.50) Estou-me despindo Para me deitar. Três coisas peço ao Senhor Para me salvar:

Minha alma vos entrego. Se eu adormecer, acordai-me. Se eu morrer, alumiai-me. Se eu viver, acompanhai-me (A 250)

Nesta cama me deito, Não sei se me levantarei. Confesso-me ao Senhor E comungo na sua Santa Lei (OPP 94) Ó anjos, fazei sentinela Dentro do meu coração: Que não venha o demónio Com grande fúria Em busca da minha perdição (Mir 267) Senhora, já estou deitado Na sepultura da vida, Se esta noite eu tiver de morrer, Vinde, Senhora, acordar-me. Quatro coisas quero pedir: Confissão, Santa Unção Com óleo bento, Bendito e louvado seja O Santíssimo Sacramento (AB 3.254)


Bendita seja a noite Com as esperanças do dia, Par que eu seja guardado Pelo Filho da Virgem Maria. Pai-Nosso e Ave-Maria Oferecidos em seu louvor (AB 3.255) As minhas três potências da alma (1) Entrego-as ao Bom Jesus: Que me queira perdoar À presença duma cruz (AB 4.303) Hei-de morrer não sei como, Serei julgado não sei quando. Se fosse esta noite, Que contas daria? Que sentença me tocaria? de salvação ou condenação? P’los meus pecados: acto de contrição (CPR 114) Nesta cama me deito, Com Jesus no peito, Com Jesus a luz, Com Jesus na cruz (CPR 117) Nesta cama me deito, Sabe Deus se me levantarei. Confesso-me na Vossa graça, Comungo na Vossa Lei (OPP 95) Nesta cama me deito, Não tenho por quem esperar. Espero por Nossa Senhora Que me venha acompanhar (OPP 94) Na presença de Deus estou À mão direita de Deus Pai. 1)

Memória, inteligência e vontade.

Nossa Senhora me acompanhe, Padre S. António me guarde (AB 3.254) Fui-me deitar E pus-me a pensar Que hora teria Para me salvar (RE 145) Vinha-me deitar E pus-me a considerar Que remédio teria P’ra me salvar: Veio o meu anjo da guarda, Trouxe-me por guia: Que fosse devoto Da Virgem Maria (AB 3.254) A Deus me entrego, À Virgem Maria, À Hóstia Sagrada, Ao santo do dia: Me guardem de noite E amanhã de dia Na doce presença Da Virgem Maria (CPR 114) Senhor, eu dormir quero, A minha alma Vos entrego. Se eu aqui morrer sem fala, Que por Vós não possa chamar, Senhor, mandai-me buscar P’ra Vosso eterno lugar (DL 128) Anjinho da minha guarda, S. José, S. Joaquim, Santos e Santos do céu, Rogai a Jesus por mim (PL 268)

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Nesta cama me deito, Co’esta manta me cubro. Se me vir aflito, Os anjos do Céu me acudam (PL 268) Valham-me as Onze Mil Virgens Agora que vou para a cama. Também os onze apóstolos Me acompanhem a minha alma [...................................................] Prometei, Senhor, que eu não morra Sem receber o Santíssimo Sacramento (ES 492-493)

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Chorai, olhinhos, chorai Lágrimas de coração. Se esta noite morrermos, Sirva-nos de confissão (UB 121) Ó meu Padre Santo António, Confessor de Jesus Cristo, Companheiro de S. Francisco, Pelo hábito que vestistes, Pelo cordão que cingistes, Pelas armas que guardais, Pelos caminheiros que encaminhais, Peço-te que me guardeis Esta noite, toda a noite, E amanhã todo o dia Assim como Jesus foi guardado Nas entranhas da Virgem Maria (OPP 114) Senhora das Dores, Senhora da Guia, Levai a minha alma P’ra vossa companhia. P’ra vossa companhia Numa boa hora. Salvai a minha alma Prò reino da glória.

Amado Jesus Do meu coração, Perdoai as minhas culpas Pela vossa paixão. Eu fui ao calvário, Achei lá uma cruz: A cama e mesa De Cristo Jesus (RL 11.103) Eu vou-me deitar Com Nossa Senhora da Conceição Para que me não deixe morrer Sem a verdadeira confissão (TP 144) Jesus a meu lado, Jesus a meu peito, Jesus meu lugar Aonde me deito (PL 267) Eu deitei-me nela, Pus-me a considerar Que modos eu teria P’ra Deus me salvar Além vem Jesus, Que Lhe quereis vós? - Eu quero ir co’Ele, Qu’Ele leva a cruz (RL 11.104) Fui-me deitar, Pus-me a pensar Que remédio teria Para me salvar (OPP 99) Jesus, que eu vou para o céu, Os anjos me vão levando. Tudo me vai esquecendo, Só Jesus me vai lembrando (OPP 89)


Se viver, ajudai-me. Se morrer, alumiai-me E mandai-me buscar Por os anjos e arcanjos E as pessoas da SS.ma Trindade (PL 266) Nesta cama me deito, Com esta mortalha me cubro, Nossa Senhora me valha, Os anjos do céu me acudam (PL 267) Na minha cama me deito, Na sepultura da vida. Bem sei que me estais vendo Muito mal arrependida, Que os meus pecados são tantos Como folhas há no campo E areias há no mar. Espero em Deus De a minha alma se salvar (RL 38.9) Ofereço este Pai-Nosso e esta Ave-Maria Ao Senhor Jesus da Coluna, Ao Senhor Jesus de Nazaré, Ao Senhor Jesus crucificado E ao Filho da Virgem Maria Para que me guardem esta noite, Por toda a noite E amanhã por todo o dia (OPP 105) No céu toca à missa, Os anjos a adoram. Bendita seja a minha alma Que se deita a esta hora (RL 38.75) Jesus é meu E eu sou de Jesus. Jesus está comigo E eu estou com Jesus.

Jesus de Nazaré Comigo é. Jesus crucificado Comigo deitado. Jesus preso à coluna À porta da rua (OPP 96) Com Deus me deito, Com Deus me levanto Com a graça de Deus E do Divino Espírito Santo. Nossa Senhora me cubra Com seu divino manto. Se eu bem coberta ficar, Não terei perigo nem temor (F 175) Nesta cama me deitei, Não sei se me levantarei. Confesso-me e comungo A Vossa Santíssima Lei (PL 273) Assim como Pedro e Paulo Se benziam no altar Antes de missa rezar, Assim me benzo esta noite Antes de em meu leito entrar. Benzo também minha cama Pra dormir e descansar (L 14) Os anjinhos a cantar, Nossa Senhora a adorar! Oh! Em que bonita hora Eu me vim deitar (ET 60) Que me guie p’ra Jesus. Dai-me, Senhor Jesus Cristo, Amor do meu coração, A paz para a minha alma, A dor no meu coração

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E não me deixeis morrer Sem a Vossa absolvição (L 16) Deitai-vos, Senhor, co’a minh’alma, Fazei dela travesseiro Pelo descanso que tivestes Na árvore da bela cruz Por amor de meus pecados, Amantíssimo Jesus (RL 12.283) Boas noites e boas horas, Salvação p’ras almas. Nosso Senhor que aqui nos juntou, Nos junte no seu Santo Reino (F 174) 130

Na cama me vou deitar P’ra dormir e descansar. Se a morte vier buscar-me E eu não puder falar, Apego-me aos cravos, Encosto-me à cruz, Entrego a minha alma Ao meu bom Jesus (L 13) Nesta cama me deitei P’ra dormir e descansar. Se a morte vier, Que me deixe falar. Encosto-me ao cravo, Abraço-me à cruz, Entrego a minha alma Ao Menino Jesus (F 175) Se morrer sem fala E por Deus não puder chamar, Três vezes direi no meu coração: Jesus, Jesus, Jesus, Eu me quero salvar (FN 5)

Nesta cama me estou deitando, Com Jesus Cristo estou falando. A minha alma anda doente Porque pecou mortalmente. Se me vierem buscar E eu estiver por confessar, Ó meu corpo, reza e chora, Que te vais deitar agora (L 20) Nesta cama vou deitar-me Com boa fé de me erguer. Se lá pela noite fora Um anjo vier dizer Que eu estou para morrer, Eu hei-de lhe suplicar: Anjo do Céu enviado, Eu não estou preparado Para contas a Deus dar (L 22) Botei os olhos ao Céu, Pensamento à glória, Jesus Cristo na custódia. O Senhor é meu padrinho, A Senhora é minha madrinha (FN 5) Graças a Deus que me deitei, Não sei se me levantarei. Peço perdão a Deus Po todas as vezes que eu hoje pequei (O7) Botei os olhos ao Céu, Pensamento à glória E a Jesus de Nazaré: Minha alma vossa é. Encomendo-me a Jesus, À Flor onde nasceu, À Hóstia consagrada E à cruz onde morreu. Na sepultura da vida me vou deitar. Se a noite vier e me quiser levar E se eu por Jesus quiser chamar,


Meu corpo não seja preso Nem minha alma perdida (FN 5) Senhor, eu deitar-me quero, A minha alma Vos entrego. Se adormecer, acordai-me; Se eu morrer, alumiai-me. Se a morte me quiser levar, Digo de todo o coração “Jesus, Jesus, Jesus” (Três vezes Jesus) P’ra minha alma se salvar (Ar 209) Nesta sepultura me deito, Com a mortalha me cubro. Se Deus me chamar a contas, Os anjos do céu me acudam (L 14) Nesta cama me vou deitar P’ra dormir e descansar. Se a morte vier de noite E eu não puder falar, Valha-me a Virgem Maria, Que é boa companhia, Que me guarde nesta noite E amanhã por todo o dia. Ó Jesus do coração, Ouvi minha oração! Perdoai os meus pecados, Bem sabeis quais eles são. Dai-me nesta vida a graça E na outra a salvação (CPMB 130) Ó minha alma bendita, Quando deixarás meu corpo? Talvez a morte já espere Que eu comece a adormecer, Para te arrancar de mim, Te levar à eternidade E meu corpo à sepultura.

Ai de mim! Que hei-de eu fazer, Se os pecados deste dia Me fazem estremecer? Vou dizer, do coração, O acto de contrição (L 13) Nesta cama me vou deitar, Com Jesus quero acordar. Se o inimigo me vier buscar E trouxer a tentação, Hei-de o mandar embora E dizer-lhe sem demora: Já não tenho coração, Entreguei-o a Jesus (L 20) Na vossa santa fé católica Quero morrer. Ó meu amorosíssimo Jesus, Amado do meu coração, Confessai-me e sacramentai-me, Lançai-me a absolvição. Dai-me nesta vida a graça E na outra a salvação (OL 56) Nesta cama me deito, A cama é sepultura, O lençol é a mortalha, A terra é o cobertor. Aqui venha Jesus Cristo, Que será meu confessor. Confesso-Lhe os meus pecados, Ele sabe quantos são. Pelas suas benditas chagas Me deite a sua Bênção (L 18) Que me guie p’ra Jesus. Dai-me, Senhor Jesus Cristo, Amor do meu coração, A paz para a minha alma, A dor do meu coração.

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E não me deixeis morrer Sem a vossa absolvição (L 16)

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Com Deus me deito, Com Deus me quero deitar. Se eu não puder falar, Entrego-me a Jesus, Aos cravos da cruz, Ao Santíssimo Sacramento, Às três relíquias que tem dentro, Aos três círios pascais, Às três missas de Natal E à Virgem Santa Maria Que ande em nossa companhia Quer de noite quer de dia E ao Anjo da guarda Que nos guarde do perigo E das tentações do inimigo. Pai-Nosso, Avé-Maria (L 21) Adoro a Jesus Do meu coração. Não hei-de morrer Sem a confissão. Sem a confissão Não hei-de morrer. Hei-de ir para o céu Se o merecer. Ó glória dos anjos, Quem vos logrará? Quem fizer por isso Para o céu irá. Nesta minha cama Eu me vou deitar. Que os anjos me levem Se eu não acordar (L 25) Ó Anjo da minha guarda, A quem o Senhor me entregou: Tomai conta da minha alma, Que eu não sei para onde vou.

Na minha cama me deito, Com esta roupa me cubro. Se a morte me vier buscar, Meu coração dirá 3 vezes: Jesus me salve, Jesus me salve, Jesus me salve (L 25) Com Deus me deito. Que Jesus crucificado Livre o meu corpo do perigo E a minha alma do pecado, De sonhos maus consentidos, De pensamentos estragados (L 21) Se a morte me vier buscar E eu não puder falar, Direi três vezes “Jesus”. Cristo, Rei da glória, Lembrai-Vos da minha alma Que se deita a esta hora. Encomendo-me a Deus Pai Que me dê a sua luz, Encomendo-me a Deus Filho Que me ampare com a cruz, E à Virgem Nossa Senhora (L 15) Cruz de Cristo, cai sobre mim. Demónios malditos, apartai-vos de mim. Nesta cama me deito, Com esta mortalha me cubro. Se os demónios me vierem buscar, Os anjinhos do céu me acudam (Ar 210) Nesta cama me vou deitar. Se a morte me vier buscar, Direi três vezes “Jesus” (L 16)


Alma minha, quem é a tua luz? - É Jesus. Quem é a tua guia? - É Maria. Quem é o teu protector? - É São José. Se na glória quiseres entrar Com amor e fé, Chama por Jesus, Maria e José (O 11)

E deu-me uma guia: Que fosse eu devota Da Virgem Maria (RE 145)

Senhor crucificado na minha testa, Senhor crucificado no meu peito Senhor crucificado na cama onde me deito Jesus crucificado na minha testa Jesus crucificado na minha boca Jesus crucificado no meu peito, Jesus crucificado na cama em que me deito, Em nome do Pai e do Espírito Santo, Amém (AB 4.303 e O 5-6)

Senhor, deito o meu corpo nesta cama E Vós deitai a minha alma nos vossos braços. Se me deitar neste mundo E acordar na eternidade, Tomai conta da minha alma (PL 268)

Amados Jesus, José e Maria, Meu coração vos dou e a alma minha. Amados Jesus, José e Maria, Assisti-me na última agonia. Amados Jesus, José e Maria, Expire em paz entre vós a alma minha (O 10) Dai-me fala até à morte Para me poder confessar; E um coração sempre forte Para nunca mais pecar. Senhor Jesus do Calvário, Ó meu divino cordeiro, Eu Vos adoro na hóstia Como no Céu verdadeiro (L 23) Fui-me deitar E pus-me a pensar Que hora teria Para me salvar. Veio o Espírito Santo

Jesus a meu lado, Jesus a meu peito, Jesus meu lugar Aonde me deito (PL 267)

Levanta-te, ó pecador, Não te deites em pecado, Que podes amanhecer, No inferno, condenado (ES 496-497) O Senhor me cubra com o seu manto. Se eu com ele coberto for, Se eu dormir, embalai-me, Se eu morrer, acompanhai-me Com três velas em círio Da Santíssima Trindade (O 6) Eu nesta cama me deito E nela me vou deitar. Se a morte vier ao meu leito, Peço a Deus p’ra me salvar (Mens 91.17) Apegar-me-ei à voz de Nosso Senhor Jesus Cristo: Jesus Cristo, meu pai, Santa Maria por minha mãe, Os apóstolos por meus irmãos, Tão verdade sejam eles nesta noite, neste dia Como foi Filho da Virgem Maria [...................................... ]

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Guardai-me hoje toda a noite E amanhã por todo o dia O meu corpo de prisão, A minha alma de perdição (EP 9.468) Além vem Jesus, Que Lhe quereis vós? - Eu quero ir co’Ele, Qu’Ele leva a cruz (RL 11.104)

Salvador do mundo, Que a todos salvais, Salvai a minha alma, Bendito sejais.

Fui-me deitar, Pus-me a cuidar Na hora que tinha Para me salvar. Senhor, eu deitar-me quero, Minha alminha vos entrego. Se viver, ajudai-me; Se morrer, alumiai-me E mandai-me buscar Por os anjos e arcanjos E as pessoas da SS.ma Trindade, Amém (PL 266)

Vou-me deitar, Não tenho por quem esperar. Espero por Nossa Senhora Que me venha acompanhar.

Valham-me as Onze Mil Virgens Agora que vou para a cama. Também os doze apóstolos Me acompanhem a minha alma À beleza das Onze Mil Virgens (ES 492-493) Na sepultura da vida me deito, Não sei se me levantarei. Confesso-me na vossa graça E o mundo na vossa lei (CP 237) A cruz se deite comigo E o Senhor crucificado Livre a minha alma de penas E o meu corpo de pecado (RE 148)

Sem a confissão Não hei-de morrer Que a Virgem Santíssima Nos há-de valer (ES 498-499)

Senhor que na cruz estais Para nunca mais morrer; Senhor, dai-me bom viver E graça para Vos servir. Deitai-me a vossa bênção, Senhor, quero dormir (Mens 117.16) Deus morto esteja à porta, Deus vivo esteja comigo, Jesus crucificado comigo deitado (OL 69) Senhora das Dores, Senhora da guia, Levai a minha alma P’ra vossa companhia, P’ra vossa companhia Numa boa hora. Salvai a minha alma Pr’ò reino da glória. Amado Jesus Do meu coração, Perdoai as minhas culpas Pela vossa paixão (RL 11.103)


Guardai-me hoje por esta hora E amanhã por todo o dia. Que o meu corpo não seja preso Nem o meu sangue derramado Nem a minha alma perdida. Em louvor de Deus e da Virgem Maria Todos os anjos e santos Me guardem a minha alma Pai-Nosso, Avé-Maria (Mir 260) Ó anjo da minha guarda, Semelhança do Senhor. Acompanhai-me a minha alma Quando eu deste mundo for. [.......................................] Jesus é meu, Eu vou com Jesus. Jesus vai comigo Que é o Senhor da Cruz (ES 493) Nesta cama me deitei Com sete anjinhos me encontrei: Três aos pés, quatro à cabeceira, Jesus Cristo na dianteira (Mir 262) “Jesus” aos pés, “Jesus” à cabeceira, “Jesus” na boca, “Jesus” no peito, “Jesus” na cama Aonde me eu deito [.........................] Santo nome de “Jesus”, Aonde está o santo nome de “Jesus”, Não acontece mal nem p’rigo nenhum, Santíssimo Coração de Jesus 3 vezes Rogai por nós (AB 3.254)

}

Encomendo-me a Deus Pai E ao filho que me guarde, À Virgem Nossa Senhora

E à Santíssima Trindade E à árvore da Vera Cruz Que é bandeira de Jesus Onde foi crucificado Para me livrar do diabo (EE 164) Minha alma Vos entrego. Se eu adormecer, acordai-me. Se eu morrer, alumiai-me. Se eu viver, acompanhai-me (A 250) Amorosíssimo Jesus, Amor do meu coração, Perdoai-me os meus pecados, Vós sabeis quais eles são. Dai-me, nesta vida, paz E, na outra, a salvação. Botai-nos a vossa bênção, Dai-me a vossa absolvição Pelas vossas cinco chagas, Pela vossa sagrada morte e paixão (EE 166) Quem me dera nesta hora Fazer uma confissão geral, Que as minhas culpas são tantas Que só vós as sabeis contar (AB 4.303) Ó meu Menino Jesus, Nada tenho p’ra te dar: Dou-te o meu coraçãozinho P’ra minh’alma se salvar (CPR 120) Nesta cama me deitarei, Não sei se me levantarei. Se a morte por mim chamar, Se a fala me tardar, Acorde a minha memória, Acorde o entendimento E o meu coração diga três vezes: Valha-me o Santíssimo Sacramento (CPR 119)

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Na cama da vida me deito, Quantos se deitarão E não se levantarão!... (Mir 258) Com três cravos me persigno, Que me abrasa uma luz P’ra que sempre me acompanhe Santo Nome de Jesus (AB 4.303) Se eu dormir e não acordar E a morte me vier buscar, Acorde-me Deus p’ra me salvar. Quatro coisas quero pedir: Óleo bento, comunhão, Santa Unção e salvação (AB 4.304) 136

Estou-me despindo Para me deitar. Três coisas peço ao Senhor: É confissão, Santa-Unção E os óleos santos, Pai, Filho e Espírito Santo (OPP 98) Se a morte me vier buscar, A Virgem me venha acordar, Para que eu possa dizer três vezes “Jesus, Jesus, Jesus” me venha salvar (AB 3.254) Nesta cama me venho deitar. Se a morte me vier buscar E eu não puder falar, Que o meu coração se lembre: “Jesus, Jesus, Jesus” p’ra me salvar (AB 3.254) Se dormir, despertai-me; Se morrer, alumiai-me Com as sete candeinhas da Santíssima Trindade; Três aos pés, quatro à cabeceira,

Filho da Virgem Maria, Guardai-me hoje por esta hora E amanhã por todo o dia (Mir 221) Com Jesus me deito, Com Jesus crucificado, Que se deite no meu peito, Que me meta no Seu lado, Que me livre a minha alma, Que não morra em pecado (EE 166) A Deus me entrego, À Virgem Maria, À Hóstia sagrada, Ao santo do dia. Me guardem de noite E amanhã de dia Na doce presença Da Virgem Maria (CPR 114) Nesta cama me deito Com Jesus no peito, Com Jesus a luz, Com Jesus na cruz (CPR 116) Nesta cama me deito, Com esta mortalha me cubro. Se a morte chamar por mim, Anjinhos do céu me acudam. Ó Jesus na minha testa, Ó Jesus no meu olhar, Ó Jesus no meu falar, Ó Jesus no meu coração, Permiti, Senhor, qu’eu não morra Sem confissão. Pai-Nosso, Avé-Maria (DL 126)


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Ao apagar a luz: Luz apagada, Deus nesta casa. Assim sejam apagados Todos os meus pecados, Que em bem eu amanheça, Jesus Cristo me apareça (L 28) Apagou-se a luz, Deitei-me na cruz, Abracei-me à Mãe Do Menino Jesus. Que Ela me queira ajudar E à hora da morte Me venha alumiar, Amém (CAD 74) Eu me entrego a Jesus, Aos seus cravos e à cruz, E ao sangue do seu lado, Ao Senhor crucificado (Nama 96-97)

Ó meu Senhor Jesus Cristo, Que estais lá nessas alturas, Alumiai a minha alma, Não a deixeis às escuras (L 27) Deus nos veja E o pecado cego seja, Que nunca nos veja (RL 12.288) Luz apagada, Deus nesta casa. O Senhor nos amanheça Com sua divina graça (L 28)


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Ao tocar às almas (6 ou 9 badaladas no sino pelas 9h da noite = 21h ou 8h da noite no Inverno): Tocam os sinos nesta hora, Feliz a alma que se deita agora. Graças a Deus, já estou deitada, Com sete anjos acompanhada, Três aos pés, quatro à cabeceira, E Jesus Cristo na dianteira. Muitos anoitecerão E não amanhecerão. Dai-me a graça de me confessar Para na vossa glória entrar. Se eu dormir, acordai-me; Se eu morrer, alumiai-me Com os onze mil círios a arder Na casa de Jesus além Pelos séculos sem fim, Amém (L 28) Em louvor de Santa Maria, Pelas Almas do Purgatório, Pai-Nosso, Avé-Maria (CAD 69)

À meia-noite: Ó meu Anjo da guarda, Nesta hora de terror, Livra-me das más visões, Do diabo tentador. Põe a minha alma em guarda Dos perigos da tentação. Afasta-me os sonhos maus E os pesadelos do coração. Ó Anjo da minha guarda, Por mim pede à Virgem Mãe Que me afaste dos perigos Enquanto for vivo, Amém (L 29) Ao acordar a meio do sono: Senhor, que do horto fostes preso e fostes morto, Perdoastes a vossa morte tão cruel e tão forte, Perdoai-me os meus pecados, são tantos e tão continuados (MC – E 14)


Às 3 horas da madrugada: Subi ao Calvário, Olhei para a cruz, Vi a cama feita Do meu ai Jesus. Deitei-me ao pé dela E pus-me a pensar: Oh! Que sorte a minha, Se eu me salvar! Ditosa é a alma Que tal sorte tem! São três horas dadas E Jesus não vem. Abri-me a porta, Que lá vem Jesus De braços abertos Pregados na cruz. Meu doce Jesus, Meu supremo Bem, Levai-me p’ra glória Para sempre, Amém (L 29)

Ao cantar o galo: Já os galos cantam, cantam, Já os anjos se levantam, Já o Senhor subiu à cruz Para sempre, Amém, Jesus (L 30) Canta o galo, vem a luz, Vêm os anjos com a cruz. A cruz bendita me salve Para sempre, Amém, Jesus (L 31) Canta o galo, vem a luz P’ra salvar as nossas almas Para sempre, Amém, Jesus (L 30)

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Ao romper a aurora: Lá vem a manhã rompendo, Lá vem o claro dia, Lá vem a Virgem Maria. Senhor, eu confessar-me queria. Não vejo padre nem sacerdote A quem confessar os meus pecados. Deus é meu Pai, eu sou seu (sua) filho (a), Entrego-me a Deus e à Virgem Maria. Pedi que me desse a sua bênção E à Sagrada Morte e Paixão Pedi confissão (O 14)

Orações da noite (colectivas, “rezas da ceia” em família) - Rezemos em louvor do Santíssimo Sacramento, assim como nos deu p’ra hoje, nos dê p’ra todo o sempre, graças para O servir e não para O ofender. P. N. A. M. - Rezemos um Padre Nosso a S. Salvador do Mundo, assim como salvou o mar e a terra, nos salve as nossas almas p’ra diante de Deus Nosso Senhor, quando deste mundo formos. P. N. A. M. - A Santo António Milagroso que nos guarde todos os bichinhos vivos e nascidos. P. N. A. M. - A S. Bentinho bendito que nos guarde dos maus vizinhos da porta, de quem bem nos fala e mal nos quer P. N. A. M. - A S. Sebastião que nos livre da fome, peste, guerra e ferros de el-rei. P. N. A. M. - A Santa Bárbara bendita que nos livre de raios e mortes repentinas. P. N. A. M.


- A Santa Luzia bendita que nos dê vista e claridade na alma e no corpo. P. N. A. M.

mais novos beijarem a mão aos mais velhos, sobretudo quando estes são pessoas de família e de respeito.

- Rezemos por todos aqueles que andam sobre as águas do mar, para que o Senhor os traga a porto de salvamento; e aqueles que estão no estado da sua divina graça o Senhor os conserve nela; e aqueles que estão em pecado mortal o Senhor lhes dê o verdadeiro arrependimento dos seus pecados. P. N. A. M.

(in Barros da Fonte, Lourenço Fontes, Alberto Machado, Usos e Costumes de Barroso, Chaves, 1972, pp. 126-127)

- A S. Nicolau bendito que nos livre de males desconhecidos, nascidos e por nascer. P. N. A. M. - A S. Brás para que nos livre dos males da garganta e outros da mesma raça. P. N. A. M. - Rezemos um credo ao Divino Espírito Santo, para que o Senhor nos acabe no estado da sua divina graça e nos faça fortes e firmes na fé: credo. (Reza-se em voz baixa). Seguidamente (também em voz baixa) reza-se a Salvé Rainha a Nossa Senhora, até: - Rogai por nós, Santa Mãe de Deus: - Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amen. Rezam-se em seguida algumas Avé-Marias pelas almas do Purgatório e outras intenções, incluindo as Trindades, quando não são rezadas na hora própria ao toque do sino. O acto de contrição põe termo a estas invocações, terminando o oferecimento com a oração seguinte:

Em louvor de Nossa Senhora do Livramento, para que nos livre de quem bem nos fala e mal nos quer, dos maus vizinhos de ao pé da porta, de homens imprudentes, gananciosos, invejosos. Pai-Nosso – Ave-Maria. Em louvor de Nossa Senhora da Memória para que me dê memória, juízo, entendimento, até à hora da nossa morte. Pai-Nosso – Ave-Maria. Em louvor de Nossa Senhora da Guia, por todos os que andam sobre as águas do mar. Que Ela guie os navegantes e a todos traga a porto de salvamento. Pai-Nosso – Ave-Maria. Em louvor de Nossa Senhora do Rosário, que nos proteja e guarde, sob o seu manto maternal. Pai-Nosso – Ave-Maria. Em louvor de Nossa Senhora da Conceição. VaIei-nos na vida e na morte. Pai-Nosso – Ave-Maria. Em louvor de Nossa Senhora dos Remédios. Que Ela nos dê a salvação e remédio aos nossos males. Pai-Nosso – Ave-Maria.

Deus que benzeu o mar e a terra, benza esta mesa e mais quem comeu nela, dentro e fora dela e aceite estas orações mal rezadas por muitas e bem rezadas. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amen.

Em louvor do Santíssimo Sacramento, para que não nos deixe morrer sem O recebermos na Sua Divina Graça. Pai-Nosso – Ave-Maria.

Aqui todos se benzem pedindo a benção ao pai e à mãe, se estiverem presentes, ou à pessoa que presidiu, se for a mais idosa. É também costume, os

Em louvor de São Sebastião para que nos livre de todos os males do corpo, da alma, da fome, peste, guerra e doenças contagiosas. Pai-Nosso – Ave-Maria.

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Em louvor do nosso Padre Santo António, para que nos aventure animais, frutos e tudo quanto for nosso. Padre-Nosso – Ave-Maria. Em louvor do Anjo da Guarda, para que nos guarde e encaminhe bem. Padre-Nosso – Ave-Maria. Em louvor da Sagrada Família para que nos ilumine na educação a dar aos nossos filhos. Padre-Nosso – Ave-Maria. Em louvor de Santa Quitéria para que nos livre dos cães danados. Padre-Nosso – Ave-Maria. 142

Em louvor de S. José, para que nos socorra nas nossas misérias. Padre-Nosso – Ave-Maria. Em louvor das almas do Purgatório. Que Nosso Senhor, as leve para o Céu. Padre-Nosso – Ave-Maria. Em louvor de Santa Marta, para que abençoe os nossos frutos e árvores. Padre-Nosso – Ave-Maria. Em louvor de Santa Filomena, que nos dê uma esmolinha de saúde e nos guarde das tentações do demónio. Padre-Nosso – Ave-Maria. Seguia-se a reza dos actos, e, antes do «Acto de Contrição», diziam sempre: Eu me acuso, eu me arrependo de todas as minhas faltas cometidas. Jesus da minha alma, Jesus do meu coração, perdoai os meus pecados e dai-me a absolvição. A terminar: Nosso Senhor que nos juntou no mundo, nos junte no Seu Reino. Muitíssimas graças e muitíssimos louvores, Vos sejam dados pelo muito que me tendes feito e pelo muito que por mim tencionais fazer.

Nosso Senhor nos dê muito boa noite e salvação para as nossas almas, graça para O amar e servir. Seja tudo pelo Seu Divino Amor. Outros terminavam assim: Estas orações são poucas e mal rezadas; Nosso Senhor as aceite por muitas e bem rezadas; nos dê graça e amor para o servirmos e salvação para as nossas almas. (Ob 138-139) A Santa Luzia, que nos dê vista e claridade na alma e no corpo. A Santo António, o pastor das coisas perdidas, que seja o pastor das nossas almas, para que se não percam, e guarde os nossos gados, para que não tenham perigo. A S. Gonçalo, que nos livre dos aleijões. A S. Frutuoso, que nos dê frutos e benções. A S. José, Santa Ana e toda a Família Sagrada, que peçam ao Senhor por nós. Ao mártir S. Sebastião, que nos livre da fome, peste e guerra. A S. Bernardino, que prenda o inimigo na hora da nossa morte. À Senhora da Saúde, que nos dê a esmola da saúde. À Senhora da Pena, que nos livre das penas do inferno. À Senhora dos Remédios, que nos dê remédio para o corpo e salvação para alma. A S. Bento, que nos livre das coisas ruins e dores de dentes. A Nossa Senhora da Conceição, que nos dê a graça da salvação. Ao Sagrado Coração de Jesus, que nos dê um bom coração para O servir e amar. A todos os Santos, que sejam nossos advogados e protectores, durante a vida e principalmente na hora da nossa morte. Amem.

(continua)


O Vidro (4). Conclusão. Jorge António Marques* Os benefícios resultantes dos Alvarás concedidos à Fábrica do Covo, mormente à pessoa do Desembargador Ignácio Lemos e Menezes, vão permitindo que aquela Casa do Covo mantenha o fausto de uma corte, com gastos inconcebíveis. Aquele desembargador vai, porém, alimentando a obra daqueles que foram os seus avoengos, pela renovação de Alvarás e mercês. Mas, em 1807, o desembargador morre, no dia 10 de Março, em Lisboa, sem geração. E, nessa condição de não ter deixado descendência directa, seu irmão – Duarte de Castro Lemos – herda o comando e governação da Casa da Quinta e da Fábrica do Covo. Havia nascido, aquele Duarte, – como referi – aos 8 dias de Junho de 1756 e contraiu matrimónio com Dona Maria Joanna da Piedade Bravo Pereira Forjaz, natural de Alenquer. Duarte Lemos Menezes, como seus avós, pais e irmãos, foi fidalgo da Casa Real. * Historiador.

Dos vários documentos notariais sabe-se que Duarte Menezes, já em 1808, era o senhor do total património do Covo. O seu casamento consta de documento, em meu poder, por fotocópia, e que transcrevo: Arquivo Distrital de Aveiro Livro de Recebimentos de Vila Chã de S. Roque Número 5 – A Folhas 149 verso À margem: – Ano de 1813 Duarte de Castro e Dona Maria Joanna “Em os seis dias do mês de Fevereiro do anno de mil sete centos e treze, pelas honze horas da manhã, nesta Igreja Paroquial de São Pedro de Vila Chã depois de feitas as diligências do estilo sem se descobrir impedimento algum e por despacho do Doutor Provisor deste Bispado se – Receberão Solenemente – em face da Igreja com palavras de presente – Duarte de Castro Lemos e Menezes, natural da cidade de Aveiro e assistente no Covo desta freguesia de São Pedro de Vila Chã, filho legítimo de Sebastião de Castro Lemos e Menezes e Dona Maria Magdalena Magalhães de Menezes; neto paterno de António Carlos de Castro e Dona Joanna Luiza de Menezes e materno de Fernando

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de Magalhães e mulher Dona Luiza de Magalhães e Menezes. Cónego Luiz Barbosa de Faria Abbade desta freguesia de São Pedro de Villa Chã como procurador da excelentíssima Dona Maria Joanna da Piedade Bravo Pereira Forjaz filha legítima de António Xavier Bravo Pereira do Lago e Dona Antónia da Arrábida Pereira Forjaz Coutinho assistente na villa de Alenquer patriarcado de Lisboa e isto na presença do padre José da Costa do lugar de Bustelo desta freguesia de licença minha e das testemunhas o padre Joaquim Gomes Luiz, de Villa Chã e meu irmão José Barbosa de Faria de que fiz este assento que assignamos.” Duarte de Castro Lemos e Menezes morreu, sem geração, no dia 16 de Maio de 1814, em Alenquer, local onde se encontrava, na companhia dos sogros. Na administração dos vínculos sucede-lhe seu irmão Gaspar. Gaspar Maria de Castro Lemos e Menezes foi o quarto filho de Sebastião António de Castro e Lemos. Enveredou pela carreira das armas, tendo assentado praça, a 16 de Agosto de 1788. Combatente destacado, pelo seu valor e coragem, nas batalhas de Roussillon e da Catalunha – período de 1793 a 1795, atingiu o posto de capitão.

Ignoro a data do seu matrimónio, mas sei que a sua mulher se chamou Dona Maria Isabel de Melo e Menezes Vilhena de Castro e Vasconcelos, natural de Figueiredo das Donas, tendo havido geração: – Sebastião e António. Gaspar Maria faleceu, sem testamento, no dia 11 de Outubro de 1822. À morte de Gaspar Maria, seu filho primogénito – Sebastião – era de idade, apenas, de 12 anos e, por isso, sua mãe toma o governo da imensa Casa do Covo, da Quinta e da Fábrica, tendo obtido o título de Tutora, Administradora e Provisionária. Sebastião Maria de Castro – já em idade avançada – com 36 anos, casa no dia 2 de Setembro de 1846 com Dona Emília Maria José Pamplona de Sousa Holstein, filha do visconde de Beire, tendo havido geração: Gaspar – Manuel – Maria Isabel – António Maria – Maria Helena – Anna Maria – José Maria e Maria da Conceição. O filho primogénito de Sebastião Maria de Castro nasceu na cidade do Porto, como o comprova a seguinte transcrição:


Oliveira de Azeméis

Arquivo Distrital de Aveiro Livro de Baptismos de Vila Chã de São Roque Número 6 – Folhas 115 À margem: – Ano de 1847 “Gaspar Maria de Castro e Lemos de Menezes Pamplona, filho legítimo do Excelentíssimo Sebastião de Castro e Lemos de Magalhães e Menezes, natural de Sancta Maria Maior de Figueiredo das Donas, bispado de Viseu e da excelentíssima Dona Emília Maria José Pamplona de Souza natural d’esta freguesia de Cedofeita e ambos residentes na sua Casa e Quinta do Covo, freguesia de São Pedro de Villa Chã e actualmente hospedados em casa de seu sogro e pae o excelentíssimo Visconde de Beire. – Neto paterno de Gaspar Maria de Castro Menezes e Lemos natural da villa de Viana do Minho e da excelentíssima Dona Maria Isabel de Mello Menezes Figueiredo e Castro Vasconcelos natural de Figueiredo das Donas e materno do excelentíssimo general Visconde de Beire Manuel Pamplona Carneiro Rangel, natural de São João de Canellas, julgado de Gaia e da excelentíssima Viscondessa de Beire, Dona Maria Helena de Souza Holstein, natural do Patriarcado de Lisboa. – Nasceo a oito de Junho de mil oito centos quarenta e sete e foi solenemente baptizado no dia treze

do dito mês e anno, na Capella particular da Casa e Quinta de Santo Ovídio, do excelentíssimo Visconde de Beire, avô materno do baptizado pelo reverendo Padre António de Santo Rito Álvares Pereira, por comissão concedida pelo excelentíssimo senhor Bispo desta diocese, com a minha assistência. Forão padrinhos o Ilustríssimo António Carlos de Castro Lemos Magalhães e Menezes, tio paterno do baptizado, morador em Villa Chã e a excelentíssima Viscondessa de Beire, Dona Helena de Sousa Holstein, avó materna do baptizado. – Mandei fazer este assento.: – padre António Santos Rito Pereira: – António Carlos Castro Lemos, Viscondessa de Beire, Dona Maria Helena de Sousa”. Dona Maria Isabel de Melo e Menezes, que foi mulher de Gaspar Maria de Castro e Menezes, mãe, portanto, do menor Sebastião de Castro Lemos, inteirou-se, de forma conclusiva, da situação caótica da sua Casa, da Quinta e da própria Fábrica. Mas, nessa sublime condição de mãe, pretendendo criar e educar seu filho, à Dona Maria Regente fez a sua súplica; que obteve da futura soberana a seguinte resposta: “Provisão de 9 de Outubro de 1827, pela qual se renovam os privilégios concedidos à Fábrica do Covo, em 1800.”

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“Donna Maria, Infanta Regente dos Reynos de Portugal & – Faço saber que Donna Maria Isabel de Mello e Menezes Vilhena de Castro, viúva de Gaspar Maria de Castro Menezes, Tutora Provisionária e Administradora de seo filho menor Sebastião de Castro Lemos e Menezes me representou: – que entre os demais bens do Morgado que ficarão por óbito do dito marido de que o referido seo filho hé legítimo sucessor hé a antiga fábrica de vidros denominada do Covo estabelecida na quinta que tem a mesma denominação, no termo de Oliveira de Azeméis, commarca da Feira; que esta fábrica, pela provizão de vinte e cinco de Agosto de mil outo centos e quinze que apresentava expedida a requerimento do dito seo marido, ficou gozando os privilégios, isençóens e liberdades concedidas à Fábrica da Marinha Grande pelos alvarás de 7 de Julho de 1786 e 30 de Julho de 1794, em tudo que lhe pudessem ser aplicáveis, sem distinção alguma, como já estava determinado no alvará de 7 de Janeiro de 1800; e por ella suplicante durante a menor idade do mesmo seo filho pretende fazer laborar a predicta Fábrica com o mesmo cuidado com que seos antepassados sempre sustentarão e promeverão Me pedia a graça de nova provisão, concedendo-lhe as Graças, Privilégios e mais liberdades e isençóens asima declaradas; e tendo consideração ao exposto: Hey por bem que a Suplicante possa continuar durante a menor

idade de seo filho a laboração da dita Fábrica gosando as Graças Privilégios e Isençoens referidas na indicada Provisão, no que forem compatíveis com a actuais Instituiçoens, cumprindo-se esta Provisão como nelle se contém. A Senhora Infanta Regente, em nome de ElRey, o Mandou pellos Menistros abaixo assignados Deputados da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação destes Reynos e seos Domínios: – Anselmo José Ferreira de Passos a fes. Lisboa nove de Outubro de mil outo centos e vinte e sete.”... Dona Maria Isabel não era, mesmo com a manutenção de Alvarás, Mercês e Privilégios, a pessoa vocacionada para gerir a imensa barca, já, se não no seu todo, pelo menos, adornada em parte. Surge o mês de Maio de 1832 e um tal Francisco da Rocha Soares arrenda a Fábrica. É aquele ano de 1832, muito referido nos livros paroquiais de Vila Chã de São Roque, pelos casamentos das raparigas vindas, como vidreiras, da Marinha Grande ou de rapazes, daquelas paragens. Francisco da Rocha Soares obtém, mesmo como arrendatário, a manutenção dos Privilégios da Fábrica do Covo e, disso, não restam dúvidas, porque a seguinte transcrição o confirma:


Transcrição. Provisão de 9 de Junho de 1832, pela qual são confirmados em favor do arrendatário da Fábrica do Covo os privilégios a esta então concedidos. “Dom Miguel, rey de Portugal e dos Algarves & – Faço saber que Francisco da Rocha Soares Me representou que tendo tomado de Renda a Dona Maria Isabel de Mello Menezes e Castro como Tutora de seu filho Sebastião de Castro de Lemos Magalhães e Menezes a sua Fábrica de vidros denominada do Covo, termo de Oliveira de Azeméis, Me Suplicava por isso necessária Authorização: Ao que tendo respeito e em vista dos documentos produzidos, informação a que mandei proceder a resposta do Dezembargador Procurador Fiscal: Hey por bem que o Suplicante durante o tempo do mencionado arrendamento que teve princípio no primeiro de Maio do anno corrente e ha de findar na véspera de outro dia de mil oito centos trinta e cinco, fique gozando neste período todas as Graças e privilégios concedidos à referida Fábrica. E nesta conformidade Mando a todas as Justiças e mais pessoas a que o conhecimento desta pertencer a cumprão e guardem como nella se contém e declara. El-rey Nosso Senhor e mandou pellos Menistros abaixo assignados Deputados da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação destes Reynos e seos domínios: – João Camillo da Silva Souza Lopes de Carvalho a fes. – Lisboa nove de Junho de mil oito centos e trinta e dois. – Na ausência do Deputado Secretário a fes escrever e assignou João Thomaz de Carvalho. – Registado a folhas 39 do L.º 2.º do Registo de semelhantes Provisoens.”

Conclusão A escritura do arrendamento da Fábrica do Covo, Dona Maria Isabel de Mello e Menezes, é um instrumento notarial longo e que seria fastidioso transcrevê-lo. Sabe-se que Francisco da Rocha Soares era um indivíduo do Porto. O documento consta do Arquivo Distrital de Aveiro, no livro notarial número 505, folhas 111 Verso, do tabelião de Oliveira de Azeméis – Raymundo José Almeida Cabral. Foi efectuada, essa escritura, no dia 19 de Março de 1832, mas o arrendamento teve efeitos, de facto, a partir de 1 de Maio daquele ano. Parece – sem elementos comprovativos – que esse arrendamento teve renovações. Mas a Fábrica do Covo deixou de ser um património, único, da família que descendia de Pedro Moreno – o tal galego. Alguns elementos da família nobre dos Magalhães Meneses, na tentativa de salvar um património avultado e, por isso, muito importante, até pela independência da estirpe, estabelecem várias sociedades. E, por isso, outras fábricas surgem, na sequência daquela do Covo: a) – Fábrica de Vidros do Bustelo; b) – Fábrica de Vidros da Pereira, da firma Castro Cunha & C.ª Ld.ª, bem junto a São Tiago de Riba Ul. c) – Fábrica de Vidros do Cercal – Fábrica de Vidros Progresso, Ld.ª; d) – Fábrica Nova ou Fábrica de Vidros de Nossa Senhora de La-Salete; e) – Fábrica de Botões de Vidro ou Sociedade Industrial Vidreira do Norte de Portugal; No que concerne, porém, a estas novas Fábricas, em Oliveira de Azeméis, sobre elas não me debruço. E que foram, de forma exuberante e belamente descritas, pelo meu particular e querido amigo – Aurélio Guerra –, descritas em 1997, em “Estudos e Documentos – N.º 4 ”, com impressão em Dezembro de 1998.

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Ali, de facto, se fez a história, interessantíssima, da vida do vidro, por esse rincão encantador, berço dos meus sonhos, nos verdes anos das ilusões.

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Importa dizer que Aurélio Guerra foi rapaz que casou em Esgueira (1944), criado no ambiente do vidro – bem o conheci, na minha adolescência – filho de Augusto de Oliveira Guerra, este, homem preponderante a viver a arte do vidro, na Marinha Grande. Augusto de Oliveira Guerra foi elemento de alto relevo e prestígio, na Fábrica Real da Marinha Grande. Augusto Guerra faleceu, em 1941 e seu filho Aurélio é o herdeiro documental e visual da actividade de seu pai. Aurélio Guerra faleceu, recentemente, em Aveiro. São estas minhas breves referências que me inibem – em meu próprio proveito – de me sentir atraído para descrever a situação do Covo, para além da descendência do Pero Moreno. Mas a indústria do vidro, no concelho de Aveiro, tendo a Fábrica da Vista Alegre por parceria, motiva muito interesse. Vejamos: O Vidro no Côjo de Aveiro Os Mesquitas Trata-se de uma família portuguesa que procede de cinco irmãos – Pimenteis – naturais de Vila Real de Trás-os-Montes e que acompanharam D. Afonso V, na tomada de Arzila. Mas, em determinado momento – era a batalha infernal – os mouros aprisionaram os irmãos Pimenteis e enclausuram-nos, em certa mesquita. Aqueles irmãos, na ligação dos seus cintos, escalaram as ameias e, fuga iniciada, reuniram-se ao arraial português. O rei – esse – ufano, desde logo os apelidou de Mesquitas. Pois bem! Em Aveiro e oriundo de Santiago de Besteiros, concelho de Tondela, arribou a Aveiro um determinado indivíduo, homem abastado de bens, filho de Jacob

António de Loureiro e de Clementina Jacinta, que fixou residência em Esgueira e se chamava Manuel António Loureiro de Mesquita. Mas este Manuel António Loureiro, dinâmico e empreendedor, casou na freguesia da Vera-Cruz de Aveiro. O matrimónio consta do livro paroquial de recebimentos da Vera-Cruz – número 22 a folhas 85 – e ocorreu no dia 29 de Novembro de 1851 e teve como mulher Dona Ana Augusta Xavier de Magalhães, filha de Luiz Rodrigues de Melo e Dona Maria Clementina Xavier de Magalhães. Deste enlace houve geração: – Maria Olímpia – Ulusinda (nascida em 1852) – Ausênda (nascida em 1856) e Egoberto (nascido em 1862). Dona Maria Olímpia ficou solteira. Ausênda Alda casou com José Noronha de Abreu e Lima, proprietário e assistente nas Caldas da Rainha. Egoberto casou com Dona Maria Luiza Monteiro Pereira da Silva. Manuel António Loureiro Mesquita faleceu, em Aveiro, na sua residência da Viela do Rolão, no dia 17 de Abril de 1898. Houve partilhas amigáveis – pelo menos desconhecem-se quezílias – o que contraria o pensamento do Dr. António Salazar quando alguém lhe referiu que os irmãos dessa pessoa eram profundamente amigos, ao que o governante retorquiu: “E, já fizeram partilhas...?”. Egoberto de Magalhães era silvicultor; conhecia, pois, os segredos da erva maçacote e não ignorava que as presas (grande e pequena) constituíam, naquele local do Cojo, o sítio próprio, pela abundância de água e pelas matas e pinhais de então, estas, destinadas ao alimento voraz dos fornos. Dessas presas subsistem os vestígios, com os seus esteiros, bem junto ao lugar da Forca e mesmo o lugarejo limítrofe ainda dá pela toponímia de Presa, com a sua capelinha de São Giraldo, terra onde nasceu minha tia-avó, Maria Marques, com ligações ao saudoso padre Manuel Marques, dali natural – por alcunha o Mata-Belhas. Por outro turno, o esgueirense Manuel Rocha era filho de um abastado marchante – António Rocha


– este, sócio de Anselmo Ferreira, nos negócios da compra e venda de gado, abastecedores dos típicos açougues. Entenderam, naturalmente, o Egoberto e o Manuel Rocha, constituírem uma sociedade com destino ao fabrico de vidro. A tal projecto se aliaram, também, Fernando Eduardo Pereira, natural de Ílhavo e um técnico francês – George Bracourt. A sociedade foi estabelecida, face às notas do notário de Aveiro – António Augusto Duarte da Silva – no dia 19 de Fevereiro de 1888, usando a denominação de Rocha, Mesquita & Companhia. O capital social constituído era do valor global de dois contos de reis e o sócio maioritário foi Egoberto, com o valor de oitocentos mil reis. Importava, pois, dar início ao projecto e, para o efeito, por escritura, nas notas do mesmo notário Duarte Silva, no dia 16 de Março do referido ano de 1888, é estabelecido um contrato de prestação de serviços entre a sociedade e um indivíduo da Marinha Grande – Colombo Gomes – que havia sido exposto, na roda da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, casado, com reconhecidos méritos na arte do vidro. Havia, nele, as competências assumidas de ter a seu cargo as oficinas, das olarias, obrar, por dia, na manufactura das pedras de seixo ou outras, amassar os barros, ensinar a arte aos ajudantes, tendo especial atenção ao fabrico da vidraça, da qual o mercado era bem carente. O seu labor era de seis dias semanais e, por semana, auferia quinhentos reis. Certo é que, como que de imediato, – no dia 1 de Março de 1888 – o director técnico, Fernando Eduardo Ferreira, cessa a sua quota ao reverendo Emídio Eduardo Pereira, pároco em Sepins de Cantanhede, por escritura, ainda nas notas do mesmo notário. Entretanto, por nova escritura, no tabelião Duarte Silva, em 26 de Maio de 1888, o sócio George abdica da sua quota e a sociedade fica, na sua exploração, tão somente na posse do Egoberto e do Rocha. Com prejuízos, maus resultados de fabrico, seguro ficou que a fábrica teve o seu inglório fim.

Mas sempre se foi dizendo, por este Aveiro desse tempo distante, que os maus-olhados e as invejas estavam na origem do fracasso...! A Vista Alegre e o Vidro José Ferreira Pinto Basto, homem natural do Porto, pai de 15 filhos – há quem afirme que foram 19, o que não comprovo – conhecedor do meio geográfico de Aveiro, onde possuía vastas propriedades – particularmente na região de Oiã – era portador de um forte desejo, qual fosse de o instituir uma fábrica de vidro, de porcelana, de cristais e de produtos químicos. Homem radicado a Lisboa, bem projectado na política daquele seu tempo, tinha conhecimento e muito apreço pelos interessantes cristais franceses e ingleses e pela fina porcelana da China, produtos que iam chegando à capital deste reino. E nesse conhecimento da zona de Aveiro não ignorava que a Vista Alegre era o ponto primordial para a erecção da Fábrica – essa imensa fábrica projectada no seu espírito. A Vista Alegre oferecia, com efeito, condições interessantes: banhada por meio fluvial, abundante de águas e de imensas matas e pinhais, a breve distância de Aveiro. Em 1812, José Ferreira Pinto Basto compra a Quinta do Paço das Ribas Antas da Ermida e, em 1815, torna-se senhor da chamada Quinta da Vista Alegre, com todas as pertenças, nelas se incluindo a bela capela de Nossa Senhora de Penha de França, mandada construir pelo bispo de Miranda, com os túmulos destinados a si e à mulher que amou na vida. Com projectos concretizados, solicita ao monarca português uma provisão que, no dia 1 de Julho de 1824, foi concedida pelo rei e que é do teor seguinte: Provisão Régia de 1 de Julho de 1824, autorizando o estabelecimento de uma Fábrica. “Dom João por Graça de Deos, rey do Reyno Unido de Portugal, Brasil, e Algarves, d’aquem e d’alem mar em África, Senhor da Guiné &. – Faço saber que José Ferreira Pinto Basto Me representou por sua petição que elle pretendia irigir para estabelecimento de

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todos os seus filhos com igual interesse, ainda mesmo os menores, logo que cheguem à idade competente, huma grande fábrica de Louça, porcelana, vidraria e processos chimicos, na sua Quinta chamada da Vista Alegre da Ermida, Freguesia de Ílhavo, Comarca d’Aveiro, vizinha à barra, pedindo-Me que Eu houvesse por bem de autorizar este estabelecimento na forma proposta e conceder-lhe a isenção de direitos de todos os materiais que necessários lhe forem para a sua laboração, assim como também das manufacturas que exporta para o Brasil ou para qualquer parte deste Reyno e dos Países Estrangeiros e todas as mais Graças, Privilégios e Isenções de que gosão ou gosarem de futuro as Fábricas Nacionais e particularmente a dos Vidros da Marinha Grande, ao que lhe forem aplicáveis. – E tendo Eu consideração ao dito requerimento e constando-Me por informação do corregedor da comarca, a que mandei proceder, que o projectado estabelecimento deve ser de grande utilidade para os povos pela vastidão dos seus diferentes ramos; que hé construído em edifício próprio em que já se tem feito avultadíssimas despesas, que o seu local hé o mais vantajoso por ficar nas margens de hum rio navegável, rodeado de pinheiros e outros materiais combustíveis assim como de excelentes barros, areias finas e brancas, o seixo cristalizado, tudo próprio para as vidrarias e porcelanas como se tem verificado por felizes ensaios; e finalmente que o suplicante hé um dos negociantes mais ricos e grande proprietário de muitos prédios tanto naquela comarca com nas do Porto e Penafiel, sendo além disso dotado de hum génio emprehendedor a quem as dificuldades não embaração, nem desanimão as despesas; por todos estes motivos: – Hey por bem de aprovar o mesmo estabelecimento na forma pedida, concedendo-lhe todas as graças, privilégios e isenções de que gosão ou vieram a gosar as outras fábricas de idêntica natureza; e mando a todas as Justiças e mais pessoas a quem o conhecimento desta pertencer que assim o cumprão e fação cumprir como nella se contém, sem dúvida, ou embaraço algum. El Rey Nosso Senhor o mandou pelos Ministros abaixo asignados, deputados da Real Junta do Commércio, Agricultura, Fábricas e Navegação. – Anselmo Correya e Mello a fez. No impedimento do

Deputado Secretário: José António Gonçalves a fez escrever. -: José Manoel Plácido Morais. José António Gonçalves” Nova provisão surge em 1826 e, em 1828 e 1829, outros privilégios foram permitidos à Fábrica do Vidro da Vista Alegre. Julga-se que os primeiros trabalhos tenham sido orientados por um tal Francisco Miller, de origem alemã. Não é aquele apelido “de Miller” o mais correcto, já que se trata, em boa verdade, de “Muller”. Era natural de Oliveira de Azeméis. Os trabalhos, em 1826, passaram a ser dirigidos por João da Cruz e Costa, vindo de Lisboa. Para os trabalhos de lapidagem surgiu um inglês – Samuel Hunles, tendo feito escola de vulto, nos aprendizes. Muito pouco se sabe do historial da Fábrica do Vidro da Vista Alegre, mas há indícios de que o período áureo foi aquele que decorreu de 1837 a 1846. Em 1880 extingue-se o fabrico do vidro naquela unidade fabril. É esta minha descrição uma achega para quem deseje inteirar-se de como tudo se processou, no distrito de Aveiro, quanto ao vidro.


Resquícios de um Natal Judite Lopes* É mais um virar de página, como tantos outros, na cinzenta e majestosa Londres, onde tudo acontece. O frio vítreo da manhã empresta, de quando em vez, uma réstia de sol à movimentada urbe, em que uma mescla de raças enxameia as ruas e avenidas, num multicultural emaranhado de gentes. Estou prestes a apanhar o expresso para o aeroporto, de regresso a casa, a Portugal. Entretanto, degusto um almoço apressado e deixo que as lembranças me povoem o pensamento que flui, sem rédeas, como água cristalina de um regato límpido. Guardo nos olhos as luzes da noite londrina que presenteiam a zona ribeirinha do Tamisa com uma sumptuosidade e encanto únicos. É uma mistura de tradição e vanguarda onde o futurismo e o passado se encontram, frente a frente, sem chocar! O hálito da última noite do ano, repleto de sonhos e desejos, ainda enche a alma de uma contagiante e mágica ansiedade. Restam-me imagens recentes e bem vivas que significam o concretizar de um sonho, guardado * Licenciada em Animação Sociocultural. Autora do livro de poemas “Vislumbres”.

no crepúsculo do meu imaginário povoado de versos e emoções. Revejo o brilho e grandiosidade de Westminster Palace, que alberga o parlamento britânico (Houses of Parliament) e a sua famosa torre do relógio, Big Ben, cujas últimas doze badaladas de 2005 ainda me soam aos ouvidos, no meio da euforia de uma multidão apinhada. Do outro lado da ponte de Westminster, lá está o Aquário de Londres, ladeado por obras escultóricas de Salvador Dali. Perco o olhar na roda gigante, London Eye, que permite avistar grande parte da capital do Terceiro Milénio e cuja vista é fabulosa. Ofusca-me a avenida Piccadilly iluminada de azul e ouro. Deixo pegadas de espanto em Piccadilly Circus, Trafalgar Square, Oxford Street... Da capital inglesa ficam-me, também, retratos das vermelhas e antigas caixinhas ambulantes, de dois andares, os autobus, sempre a abarrotar de gente e que nos levam a todo o lado. Meu pensamento é barco ancorado num mar de fantasia, ao sabor das emoções, num bailado frenético e reconfortante. Mas eis que me acordam as sinetas de uma realidade que rasga o íntimo e arranca das entranhas pérolas de luz. Logo ali, do outro lado da rua onde me encontro a almoçar, uma pobre velhinha vai esmolando

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da caridade alheia o seu magro sustento. Tem com ela uma cadeira onde se senta, um colchão de espuma, desdobrável, e uma mala de viagem bastante usada. Estes são todos os seus haveres e a rua é o seu abrigo a tempo inteiro. Entretém-se a dar migalhas de pão a um bando de pombos que lhe faz companhia e seus passos sozinhos, na multidão perdida em caminhos de indiferença, traçam arabescos de mágoa em busca de migalhas de afecto. Vai-se-me o sorriso do pensamento vadio e estalam-me os olhos como cristais açoitados pela crueza da vida. Não há como evitar ou ignorar a situação e o peito abre-se-me em frangalhos, rasgado pelas flechas de uma globalização que torna a sociedade cada vez mais desigual, cheia de disparidades incontornáveis. Enquanto pelas ruas da cidade se pavoneiam limusines antigas, ferraris e outros veículos de marcas de renome, agarrado ao esqueleto das horas do nada, ali jaz um ser que nada tem, no palco abandonado da vida, à espera dos pombos, seus companheiros de jornada, com quem reparte seu mísero e escasso pão de cada dia.


A PROPÓSITO DE JEANNE D’ARC Joaquim Máximo* Já ouvi alguém dizer, a propósito de determinada qualidade de temperamento da Jeanne D’ Arc, que ela era uma «mulher de tomates». Ao seu nome é dada, por uma ou outra pessoa aqui em Portugal, a tradução «Joana do Arco», que não acho nada apropriada, até porque um ou outro incauto, mais ignorante, pode julgar, com essa tradução, que, nas pelejas em que tomou parte, ela só sabia disparar flechas. Isso que se diz, a respeito do temperamento da Jeanne D’Arc, dizse, com muito mais frequência, de algumas mulheres contemporâneas, como é, por exemplo, o caso típico da Leonor Beleza, da Manuela Ferreira Leite, ou ainda da Margaret Tatcher: são «mulheres de tomates». É claro que tenho, em parte, de concordar com a introdução de uma expressão nova numa língua, que só a enriquece. Mas não sei se será de bom-tom atribuir a expressão «mulher de tomates» a uma santa, como é o caso da Jeanne D’ Arc, ou mesmo a outras, muito menos santas, como é o caso da Leonor Beleza, da Manuela Ferreira Leite, ou da Margaret Tatcher. É que a expressão é feia, e, em princípio, poderia ser substituída

por outra de igual riqueza, mas mais decente. Mas, por mais que pensasse, não me ocorreu outra que servisse, até que a encontrei, finalmente, aliás por acaso. Foi no Livro intitulado Elogio Histórico, datado de 1751 e da autoria de Theodósio de Santa Martha, acerca do qual é interessante falar, préviamente, um pouco, antes de mencionar o que nesse livro encontrei. A parte do livro que aqui nos interessa faz parte do Capitulo XXVII, onde se descreve a Real Ascendência dos Noronhas, e que começa assim: «Os senhores Reys D. Fernando de Portugal, e D. Henrique de Castella, querendo Capitular pazes em Santarém, em argumento de firme concordia, resolveram consagrar os pactos; assim contratárão, que dessem mutuamente a mão de esposos, a Senhora D. Isabel filha do Senhor Rey D. Fernando, e o Senhor D. Affonço, filho D’ElRey D. Henrique, porque levando às portas da Igreja este laço do Matrimónio futuro, buscassem o sagrado para fiel garante da liga, e ella mais indossolúvel, quando recebia a perpetuidade à semelhança do sacramento. ElRey de Espanha dotou seu filho do Condado de Gigon, e Noronha, com amplos domínios nestes estados. A Magestade Portuguesa concedeu à sua filha, em dote, a cidade de Viseu, as

* Joaquim Máximo de Melo e Albuquerque de Moura Relvas, nasceu em Coimbra e reside em Vila Nova de Gaia. Tem o curso de Engenharia Electrónica da Universidade do Porto. Exerceu a actividade profissional na Administração Geral dos CTT e obteve a especialidade de Instalações Exteriores de Transmissão; União Eléctrica Portuguesa, integrada depois na EDP; Professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, como Professor Associado; Colégio de Gaia onde leccionou disciplinas relacionadas com a Electrónica Digital. Faz parte da Direcção da revista Politécnica. É membro da Ordem dos Engenheiros da “American Association for the Advancement of Science”, da “New Iork Academy of Sciences” e da “Planetary Society”.

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Villas de Celorico, Linhares, Algodres, com todos os seus termos, regalias e preminencias de juro e herdade; dominios tão largos em desempenho do amor, e poder dos dois soberanos, que queriam estabelecer uma casa em semelhança de Reino.» E a narração continua, mencionando o casamento de 1377 (tinha ele 9 anos e ela 18), a sua anulação, a pedido de D. Afonso, em 1379, a anulação desta anulação, pedida pelo mesmo D. Afonso e o falecimento de D. Henrique, a quem sucedeu o seu irmão D. João I de Castela, que às tantas se ausentou para Badajoz para casar com a Infanta D. Beatriz. E então:

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“... com a ocasião da ausencia d’ ElRey D. João em Badajós, se fez jurar o Senhor D. Affonço em Rey das Asturias pelos vassalos de Gijon, e Noronha; ocorreu El-Rey de Castella ao esbulho, revedicado com mão armada os usurpados dominios...» E a narração prossegue, mencionando a prisão de D. Afonso, acompanhada da de D. Isabel, a morte do Rei D. João I de Castella, o Rei D. Henrique que lhe sucedeu, a fuga de D. Afonso para França e a de D. Isabel para Gijon. E então: “Em tanto a Senhora D. Isabel, retirada aos seus estados de Gijon, se fortificou nelles, fazendo opposição a todo o poder de Castella, com espiritos varonis em sexo debil...» E pronto! Cá está a expressão desejada: «mulher com espíritos varonis em sexo débil», muito decorosa e elegante, e admirável substituta da muito mais ordinária «mulher de tomates». Então, como fecho, apresento, uma admirável sugestão da resposta que uma dama de bem deve dar a quem a apelide de «mulher de tomates».

SE FORES DO SEXO FRACO... Se fores do sexo fraco e alguém Te disser que és mulher de tomates, Não lhe respondas com disparates. Será melhor levares a coisa a bem. Tomates? É o homem que os tem. Bem como os machos d’outros animais. Também aparecem em vegetais. Mas não se vêem em mulheres de bem. Informa-o que, para descrever As mulheres que têm em si poder, Dizer «de tomates» é causa vil. É que muito melhor se descrevem Dizendo que são mulheres que têm Espíritos varonis em sexo débil.


LARANJEIRA E ANTHERO, connosco hoje Celestino Portela* Um Místico – Laico, o outro Laico somente. Ambos poetas, um voltado para o lado trágico da vida, o outro saboreando-a lentamente, gozando o prazer de a viver como quem saboreia um cigarro, ou até uma cigarrilha, mesmo obscena. Um, condenado a naufragar, outro, entre cantos e desencantos lança pontes de salvamento em ondas poéticas que contemplam os quartos crescentes da esperança rumo a um futuro melhor que ambos sonham. Os livros, a paixão de escrever, de estudar, o teatro, o ensaio, as prosas dispersas por jornais e revistas são pontos de união entre dois espíritos sequiosos de Luz. Naturais do concelho da Feira, de freguesias contíguas, um de Mozelos, o outro de S. Paio de Oleiros. Ambos trabalharam na sede do Concelho, um como perito médico no Tribunal da Comarca, de que temos notícia pela polémica em que se envolveu com o Dr. Augusto Aguiar Cardoso, nas páginas do Porto Médico, o outro como funcionário dos Serviços * Advogado.

Municipalizados. Dessa polémica fica-nos o temperamento de polemista terrível que foi Manuel Laranjeira, enquanto Anthero nos escreve a Lia que Lia Lia com a suavidade que encanta os jovens. Ambos apaixonados pelo mar, com grande vivência em Espinho, um que aí se fixou quando a tabes se principia a manifestar, o outro quando na Escola Sá Couto é professor. Pontos de encontro e desencontro, a vida no seu devir constante, juntou os dois ilustres escritores e são o motivo do nosso encontro hoje e aqui. Ouvi falar a primeira vez de Manuel Laranjeira ao Padre João de Morais, meu Professor de Literatura, no Colégio João de Deus, no Porto, quando me disse, sabendo de onde era natural: “És da Terra do Grande Manuel Laranjeira”. Por essa altura comprei a 2ª. Edição do Commigo, editada em 1923 pelo filho Flávio, que facilmente encontrei num alfarrabista, por abrir e a preço mínimo, julgo que 2$50. E quis a vida que no ano do centenário do nascimento de Manuel Laranjeira exercesse funções autárquicas, o que permitiu dar dignidade à efeméride. Em 25 de Janeiro de 1977, nesta mesma sala, apresentei uma proposta para a comemoração do

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Centenário de Manuel Laranjeira, que ia ocorrer a 17 de Agosto. O assunto foi adiado para estudo e em 25 de Abril a Câmara Municipal aprovou a proposta. E daí a medalha comemorativa, o belo monumento que se encontra no Largo do Murado, ambas esculturas de José Aurélio, a colocação de uma placa na casa em que nasceu, a atribuição da medalha de prata de Mérito Municipal – Cultura, a título póstumo, que foi entregue ao neto, Dr. Flávio Laranjeira, e a edição das obras completas por contrato assinado com o escritor Egito Gonçalves, que, posteriormente, informou a Câmara do seu desinteresse. Peço desculpa destas recordações pessoais e voltemos à razão primeira do nosso encontro. E quero aqui deixar ao Sr. Dr. Anthero Monteiro a minha admiração pela obra que está a realizar, da estima pessoal e do prazer de o termos aqui em cerimónia do lançamento do seu Misticismo Laico de Manuel Laranjeira, e agradecer a honra que me concedeu, que não mereço, de ser parte dos apresentadores. X O livro que aqui nos trouxe será apresentado por pessoas mais conhecedoras da matéria. Esta edição, da Roma Editora, é o estudo muito amadurecido de alguém que buscou em trabalho árduo e intenso apresentar-nos um Manuel Laranjeira, a um tempo erudito e acessível, permitindo assim que seja um elemento de trabalho próprio para iniciados que, assim, ficarão presos da força cultural que emana do livro, das questões suscitadas, das propostas apresentadas permitindo ao leitor uma visão global da problemática mística em Manuel Laranjeira. Anthero Monteiro não se poupou a esforços a buscar a perfeição que o seu temperamento exigia. Uma investigação profunda “à recepção polémica de Manuel Laranjeira”, em que são referenciados os prós e os contras, em que sublima um Laranjeira racional, penetrantemente lúcido e de espírito fulgurante para uns, para outros uma inteligência mal direccionada; um Laranjeira sentimental, empenhado em não deixar que a força do sentimento embotasse a agudeza

do espirito, para uns, que roçou demasiado o grotesco, para outros; um Laranjeira de ideais, que defendeu coerentemente até ao fim, e para outros transviado pelo apego à insubmissão; um Laranjeira que uns consideram intransigente até à intolerância e que para outros exerceu austeridade de caracter também consigo próprio; um Laranjeira egoísta para uns, solidário para outros; um Laranjeira que foi um herói a lutar contra as amarras da sua enfermidade para uns, e um libertino a quem a doença e o próprio suicídio assentam como castigo divino. E daqui, desta análise exaustiva ao redor de “quem foi Manuel Laranjeira” parte Anthero Monteiro ao encontro do Místico ou do misticismo em Manuel Laranjeira – ou do seu drama. O drama de Laranjeira começou com ele próprio, com o seu nascimento de uma mulher com 53 anos, uma idade imprópria para a concepção e desenvolvimento sadio da gravidez. Os problemas degenerativos que o acompanharão até ao leito de morte podem encontrar aqui a sua causa. A sífilis é uma doença contagiosa que só é transmissível por contacto íntimo, quasi sempre sexual. A tabes dorsal, com ausência dos reflexos que coordenam os movimentos voluntários e o equilíbrio, evolui até à paralisia geral. Os estudos primários revelaram a superioridade intelectual e a inferioridade física. Não podia ser carpinteiro como o pai. Graças ao dinheiro do brasileiro, tio da esposa do irmão Salvador, retomou os estudos aos 18 anos. Aos 22 anos a família muda-se para Espinho, em busca da saúde, pois Laranjeira já necessita do auxílio de bengala. A morte do pai e de 4 irmãos com a tuberculose acompanham-no sempre que tosse. Nas suas críticas não poupa os brasileiros, os benfeitores, os lentes, a Justiça, a Sociedade, a burguesia, “a gente honesta, a virtuosíssima canalha”, Deus, tudo, a própria Augusta.


Câmara Municipal. No Salão Nobre foi apresentado o livro de Anthero Monteiro.

Um idealista de um amanhã... em que o homem não tenha que sofrer o que ele confessa que sofre na extensa correspondência com os amigos. Médico. Vive uma vida quase solitária em Espinho. Um filho de uma serviçal, solteira; um outro de uma florista, viúva, e no intervalo três anos e tal de amantismo com a Augusta e as reticências que Alberto de Serpa colocou no “Diário Intimo”. Os amigos estão longe, com quem se corresponde intensamente. E vive cada vez mais “ enojado dos homens, do mundo e da vida”, em que” ao redor tudo desaba, tudo se afunda, tudo liquida na mesma lama, na mesma porcaria sentimental”, escreve em 1903, com 25 anos de idade. A sua correspondência é um constante desabafar os problemas de saúde que tanto o apoquentam. Vive problemas financeiros. Os livros não se vendem, oferece-os. As redacções não pagam, e está farto de escrever de graça. Não vai a Paris porque tem de carregar o fardo de alguns destinos. Tudo se conjuga para acentuar a sua rebeldia com os homens, com a sociedade, com Deus.

Uma sociedade de “Feras”, uma sociedade “doente de santidade”, uma sociedade que só será justa...”amanhã”. Mas hoje, a seis anos do centenário da morte de Manuel Laranjeira, ao vermos o estado em que se encontra o mundo – os homens continuam a ser feras, as doenças de santidade crescem em fanatismo todos os dias, as utopias caem como muros e mostram toda a miséria que encerram, e o amanhã... é cada vez mais distante. E Laranjeira teve consciência disso. Com o regicídio, com a implantação da República, com os actos eleitorais em que viu a soberania popular a cair de bêbada pelas ruas de Espinho. Falharam as suas crenças no Homem, em Deus e... no Amanhã. Porque o que falhou verdadeiramente foi a vida, a alegria de haver vida, o acreditar. É preciso acreditar... para lutar pelo que se acredita. Laranjeira terminou escrevendo: “ Já não tenho fé na morte”. X E fica a obra de um intelectual que quis acreditar nos homens, que quis mudar a sociedade, que quis acreditar que valia a pena lutar contra as Feras, contra as doenças de santidade, contra a hipocrisia social, e, acima de tudo, lutou contra a doença que o foi minando, destruindo. É esta luta do espírito contra o corpo, que nos sublima o Místico contra o Laico, pese embora o laico vença o místico, e o “remédio é naufragar” – última cena. X E hoje, para compreender Laranjeira, devemos libertar-nos do “seu drama pessoal” e lermos apenas a sua obra, a obra maravilhosa que nos legou.

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Apreciemos o espirito criador, deixemos o corpo que se destruiu até à morte voluntária. Para mal de Laranjeira muitas leituras vão ao encontro da coragem do suicida, que pede uma pistola para defesa pessoal. Mas será assim ? A Sífilis, a Tabes e a Tuberculose vão minando o seu corpo de há muito debilitado. “Laranjeira foi médico e o seu mais aturado paciente”, diz-nos Anthero Monteiro. Pela doença vê-se coagido inúmeras vezes a ficar retido no leito, em que já não podia escrever pelo próprio punho. A plena consciência da subvida que é obrigado a viver, o espectáculo que o espera de se ver morrer. 158

Os amigos pensavam que “da cama onde se encontrava jamais se levantaria”, refere Orlando Silva. Uma pistola, expressamente encomendada a um amigo, embora alegando motivos de defesa. “o seu corpo reduzido a quase um esqueleto nos últimos dias em que guardava o leito”, diz-nos Roberto Fernandes, que conversara com Laranjeira naquela tarde e voltara á casa logo que soubera do suicídio, e vira o corpo que se sumia sob as roupas depois de morto”. X Anthero Monteiro no seu apaixonado e profundo estudo sobre o drama de Laranjeira, prestou um valioso serviço à cultura portuguesa, abriu portas e janelas que nos permitem pensar, sobre os dados que nos apresenta, outras perspectivas. Ouvir hoje “ecos do tiro desfechado sobre si próprio”, “ou tentar compreender o enigma que foi a sua vida e a sua morte”, como nos sugere Anthero Monteiro de forma tão feliz. Segui este caminho, como quem procura a chave do enigma.

Manuel Laranjeira amava a verdade e a vida. Não era no leito de morte que ia mentir a um amigo pedindo uma pistola para defesa pessoal. Nem o amigo podia acreditar na necessidade de defesa! Vejo aqui uma cumplicidade do amigo que lhe leva a pistola sabendo bem o que pretendia Laranjeira. O amigo foi verdadeiramente amigo, foi o Cireneu que Laranjeira encontrou no seu Calvário. Manuel Laranjeira tinha o direito de se matar, “Se te queres matar, mata-te”, disse Pessoa. Laranjeira no leito de morte já não tinha forças para a procurar. Pediu a colaboração de um amigo, que lhe proporcionou a morte pelo gesto ainda possível de premir um gatilho. Quem tiver ajudado Laranjeira teve que silenciar o seu comportamento pois que prestar ajuda ao suicídio constituía crime previsto e punível pelo artigo 354 do Código Penal de 1886. Eutanásia, uma teoria que defende que um médico deveria ter o direito de abreviar as agonias lentas e dolorosas. Laranjeira usou em si próprio esse direito? Uma pequena janela que Anthero Monteiro abriu no meu espírito. E que aqui, com o preito da minha amizade, da minha admiração e do meu agradecimento, lhe deixo na esperança de que me permita, nos permita, ver melhor e mais longe. Muito obrigado.


O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira de Anthero Monteiro Orlando da Silva* O Poeta Anthero Monteiro não é nenhum neófito nestas coisas das literaturas, da poesia a das análises psicanalíticas, freudianas, sobre autores que lhe dão desmedido prazer e gozo dissecar, entrar no mais fundo dos seus íntimos, como se psiquiatra arguto fosse, senhor dos fios que tecem o que ninguém vê por detrás da máscara que todos infelizmente afivelamos. Paixões, sentimentos e emoções, enganos e desenganos, alegrias e tristezas, tudo isto caldeado ou individualizado, o nosso Poeta, Escritor a Ensaísta Anthero Monteiro, assim o fez agora, sobre o Homem da Vergada por nascimento, e de Espinho por amor e devoção à terra onde viveu a maior parte da sua curta e atribulada vida, e que lhe viria a guardar, em campa rasa, os seus mirrados ossos. Passo a passo, de degrau em degrau, com metodologia rigorosíssima e conhecimento profundo – sublinho profundo, da matéria versada, o Poeta Anthero Monteiro desnuda para nós, no livro que aqui e agora é apresentado, O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira, a parte mais furtiva, mais complexa e * Publicista.

controversa da alma de Laranjeira, entendendo-se por alma tudo o que esta palavra alberga de imaterialidade, a tal imaterialidade de que se constroem os sonhos, as aspirações, as quimeras, as utopias, o irrealizável, o incognoscível. Pessoalmente não acreditamos em eternidades perpétuas, venham estas agarradas a religiões lúcidas e tolerantes, ou a seitas fanáticas e intolerantes. Acreditamos sim, numa eternidade ocasional, aquela eternidade que acontece no exacto momento em que os vivos se lembram dos mortos. Por isso, temos a alegria de vos dizer, que Laranjeira é, neste preciso momento, Eterno, porque o Poeta Anthero Monteiro, com o seu extraordinário livro, trouxe à nossa memória uma das figuras mais paradigmáticas da cultura portuguesa dos finais do século XIX, princípios do século XX, que pelo registo de baptismo se chamou Manuel Fernandes Laranjeira, que em vida, obsessivamente, “demandou a Verdade, a Justiça, o Desconhecido sempre incognoscível, o Infinito inabarcável, a Perfectibilidade sempre furtiva, emancipado do Divino mas crente do Uno”. Sendo ateu, Laranjeira foi um Crente. “Acreditou na realização dum ideal de felicidade universal”. Um Apóstolo, porque pretendeu “Agir de maneira que a máxima das nossas acções se possa converter em lei universal”.

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A Mesa na sessão no Salão Nobre da Câmara Municipal: Orlando Silva, Mário Vale Lima e Celestino Portela - Comentadores; Alfredo Henriques - Presidente da Câmara; José Vicente - Director da Roma Editora e Anthero Monteiro. Manuela Correia faz a apresentação do Autor do Livro “O Misticismo Laico em Manuel Laranjeira”.

Um Místico, com a mesma tendência à “universalização da vontade” que atribui a todos os místicos no seu famoso e polémico ensaio sobre “A Doença da Santidade”. É banal dizer-se que o melhor preito que se pode prestar a um escritor é ler os seus livros. Comungamos plenamente desta opinião. Assim, pedimos que leiam o livro do escritor Antero Monteiro. Ao lê-lo, irão, por certo, sentir a mesma ânsia que nós sentimos para rapidamente chegar ao seu fim, de tal forma está estruturado, arrumado, simples a ao mesmo tempo tão profundo na procura da génese a explicação dos vários misticismos convocados para a cabal clarificação do misticismo sem Deus, de Manuel Laranjeira. Sendo o autor de “Comigo” um ateu confesso, mas com uma alma do tamanho do mundo, não posso deixar de citar aqui uma frase que me acompanha desde a adolescência, lida num livro cujo autor se chamava J.P. JACOBSEN; uma das personagens, ao ver o amigo morrer que era descrente, tem este desabafo: – “Se eu fosse Deus preferiria conceder a salvação eterna aos que morrem sem se converter.” Laranjeira sempre sentiu que não precisava da eternidade de que falam as muitas crenças a seitas religiosas. Possivelmente preferiria a eternidade

que atrás referimos. Se era esta que quereria gozar, afirmamos que a gozou plenamente hoje aqui, porque esteve junto de quem o ama e admira, vivo, sonhador, actuante, como se estivesse sentado no “Café Chinês” com a bengala entre os joelhos e o cigarro ao canto da boca. Bem hajas, Professor, por nos teres dado a ler um livro que é a pedra angular da caminhada que temos vindo a fazer para guindar o autor de o “ Amanhã” ao lugar que de justiça lhe pertence nas letras e no pensamento português. Orlando da Silva, 14-06-2006


Na apresentação do livro O MISTICISMO LAICO DE MANUEL LARANJEIRA (Intervenção do Autor) No dia 19 de Junho de 2004, há sensivelmente dois anos, no lançamento aqui na Feira do meu opúsculo sobre Manuel Laranjeira – O Misticismo em Manuel Laranjeira –, editado pelas Edições LAF, considerei que se tratava apenas de um aperitivo para um trabalho que continuaria apostado em alargar e aprofundar acerca deste insigne concidadão santamariano e espinhense e prometi que, um dia, iria incomodar-vos com novo convite para conhecerem uma obra um pouca mais vasta, mais densa, porventura mais convincente. Esta obstinação em vencer-me a mim próprio, quando eu mesmo não estava muito convencido, aprendi-a certamente com o lutador incansável que foi Manuel Laranjeira. Foi a ele, que muitos consideram ter desistido de viver, que fui buscar forças para levar a cabo o que me propus. Dois anos depois, a promessa cumprese: o livro aqui está, pelo menos materialmente mais alargado e mais pesado, não sei se mais persuasivo.

Competirá aos leitores confirmarem-no. Mas o momento é de reconhecer, com natural modéstia, que o mérito não é apenas meu. Uma «inúmera mão», como diria o poeta Ruy Belo, ajudou-me a amassar este pão que hoje se oferece às bocas. E eu, que colho os louros, venho aqui submerso em gratidão. Não queria, porém, afogarvos em palavras, porque elas atraiçoam o mais bem intencionado. Na última página do meu livro já eu intentei deixar gravados de uma forma mais indelével, que é a escrita, os nomes daqueles que me empurraram para o rio desta aventura, daqueles que quiseram nadar ao meu lado, dos que me lançaram bóias de salvação, dos que da outra margem me chamaram, incitaram, aplaudiram. Nessa página deixai exarados agradecimentos a professores, elementos do júri e colegas de Mestrado, àqueles que me apoiaram com livros, documentos, sugestões, conselhos e achegas de todo o tipo, aos familiares que me introduziram no mundo da escrita e àqueles que me propiciaram todas as condições de trabalho e a quem supliciei com horas, dias e meses monótonos de aparente esquecimento. Não quero agora ser fastidioso, mas, sob pena de ser indelicado e arrogante, não poderei evitar tentar pagar ao menos com um obrigado mais algumas dívidas

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de gratidão.

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Anthero Monteiro na apresentação do seu livro sobre Laranjeira.


Basta ver a moldura humana que me cerca para me sentir emocionado só pelo facto de terem correspondido ao meu convite. Basta atentar nos companheiros desta mesa, para não poder esquecer o acolhimento dado a esta obra pela Roma Editora e pelo Dr. José Vicente, a quem agradeço a confiança em mim depositada, sem mesmo me conhecer, a permanente simpatia e cordialidade e todo o cuidado posto na qualidade desta publicação e no cumprimento dos prazos que nos impusemos: desde a data da defesa desta tese na Universidade de Aveiro até ao lançamento de hoje, foi uma gestação de 9 meses exactos, sem grandes sobressaltos, que deixam naturalmente felizes o pai da criança (o autor) e a mãe (a editora). Nesta mesa estão também aqueles a quem solicitei um primeiro olhar pelo livro e uma primeira opinião sobre ele, de modo a abrirem algumas pistas que permitam uma penetração mais fácil até ao âmago da obra. Não é tarefa fácil e por isso não deveria tê-la solicitado a verdadeiros amigos que todos eles têm sido para mim. Por outro lado, pareceu-me que não seria fácil encontrar quem mais soubesse pronunciar-se sobre algo que diz respeito a Manuel Laranjeira como eles: o Dr. Celestino Portela que, além de renomado causídico, é laranjeiriano confesso e promotor de obras e iniciativas que envolveram o maior polígrafo das terras da Feira e de Espinho. Causaria perplexidade não o vermos também neste evento cultural e eu agradeço-lhe a honra que me dá; o meu particular amigo Orlando da Silva, o grande biógrafo de Laranjeira numa obra monumental e única, indispensável a quantos queiram abeirar-se do tema Manuel Laranjeira, autodidacta como ele, vergadense como ele, como ele um homem de princípios e ideais humanistas, a quem recorri desde a primeira hora, a quem recorro também neste momento, agradecendolhe a permanente disponibilidade sem quaisquer reticências; o Dr. Mário Vale Lima, aquele que menos conhecia o escritor espinhense, mas que rapidamente se interessou pela sua polémica personalidade e tudo quis dele saber em tempo recorde e de quem já eu recolhera tantas achegas no âmbito da Psicologia e da Psiquiatria, ciências imprescindíveis para se penetrar no mistério do autor de A Doença da Santidade.

Imaginei, pois, que uma apresentação tripartida deste livro, com a perspectiva do advogado, do psiquiatra e do autodidacta, nos daria – como deu – triplicadas razões para os ouvirmos. Ouvi-os, pelo menos eu, com particular interesse, e não saio defraudado. Por isso, lhes agradeço esta luminosa lição. Não está nesta mesa aquele que foi meu orientador de Mestrado e será sempre o meu guia intelectual, o Professor Doutor Luís Machado de Abreu, como esteve na brilhante apresentação que fez do meu anterior opúsculo dedicado a Laranjeira. Achei que não tinha o direito de novamente lhe solicitar a sua vinda propositada da capital e roubar-lhe o precioso tempo que tem obrigatoriamente que dedicar a outros muitos assuntos académicos. Ele não está nesta mesa, mas está neste livro, em cada linha que eu escrevi sob a sua paciente mas nunca constrangedora supervisão. Está nos objectivos declarados para a tarefa que me propus, está na própria sugestão do tema, está na extensa bibliografia que fui obrigado a compulsar e que me ajudou a integrar num todo coerente, está, enfim, – e isso dá-me um especial prazer e uma honra não inteiramente isenta de vaidade – no talvez demasiado brilhante prefácio que elaborou propositadamente para uma obra tão modesta quanto a minha. A palavra que mais vezes lhe dirigi nestes três anos de trabalho conjunto foi, sem dúvida, a palavra “obrigado”. E vejome obrigado a reiterá-la, juntando à gratidão profundos sentimentos de respeito, admiração intelectual e a amizade nascida sobretudo da convivência com alguém que esplende pelo saber e atrai pela afabilidade e pelo fino trato. Mas este livro teria ficado na gaveta, esquecido e inútil, se não fora o apoio concreto dos patrocinadores. Felizmente que houve entidades que compreenderam que o serviço que o escritor presta à sua comunidade tem que ser complementado com aquilo a que se refere a expressão “apoio concreto”, com tudo o que tem de odiosa e simultaneamente incontornável. Foram anos de aturado, obsessivo e quase solitário trabalho do autor, foram dispêndios difíceis de orçar, mas que se podem imaginar por exemplo, pela lista imensa de bibliografia compulsada e em grande parte adquirida. Um livro é sempre uma dádiva, um

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serviço à comunidade. E este é-o tanto mais quanto a figura que se pretende promover, fazer ressurgir do limbo do injusto esquecimento, é uma personagem fundamental, porventura a mais representativa, da Literatura, da História e do Património Cultural dos concelhos onde nasceu, viveu e morreu, se movimentou e muita coisa fez movimentar com a sua capacidade de intervenção a todos os níveis. Foi isso certamente o que a Câmara feirense compreendeu unanimemente e foi por isso que o Senhor Presidente, mesmo nos tempos críticos que vivemos, não quis deixar de contribuir para viabilizar esta edição. São motivos suficientes, Senhor Presidente, para não se arrepender de apoiar quem coopera no crescimento intelectual e espiritual do concelho e tenta ajudar a preservar os seus valores patrimoniais e culturais. Obrigado, pois, pelo modo simpático, pronto e acolhedor com que me recebeu a mim e a esta publicação. À boa-vontade desta Câmara associou-se a boa-vontade da edilidade espinhense, a quem fiz já público agradecimento, e a da minha conterrânea Fundação Comendador Joaquim de Sá Couto, na pessoa do seu director, Dr. Fernando Sampaio Maia, aqui presente, a quem dirijo uma vez mais a expressão da minha admiração pela atenção que devota também à causa da cultura, todo o meu apreço e o mais fundo reconhecimento. Uma palavra também de gratidão ao Gabinete de Comunicação e de Relações Públicas, na pessoa da Dr.ª Gilda, sempre solícita e eficiente, e seus colaboradores, que tudo fizeram, com o seu profissionalismo e natural simpatia, para promover este evento e dar-lhe todo o apoio logístico indispensável. Agradeço também à amiga poetisa feirense Manuela Correia, que, de um modo prestável, acedeu desempenhar este papel de “mestre de cerimónias”. Peço desculpa se, inadvertidamente, esqueci alguém. Não gostaria que tal acontecesse e é por isso que não deixo sequer de citar os Cafés onde fui escrevendo estas páginas, onde pude ligar o computador e ter o tal ruído de fundo, o tal caos anterior e indispensável à criação, sem me pedirem qualquer contrapartida: o Café Lausanne, em Espinho, e o Net Café, em Santa Maria da Feira.

Vão longos os incontornáveis agradecimentos. Permitam-me apenas alguns parágrafos sobre o livro e sobre Manuel Laranjeira. Ao contrário de muita gente que escreveu sobre ele, eu não pretendi julgá-lo e atirá-lo, sem contemplações, para a geena do fogo, só porque o seu pensamento era livre e irreverente, ou porque «desprezava as fórmulas feitas», denunciava todas as hipocrisias e corrupções morais ou porque decidiu abreviar ainda mais o pequeno parágrafo que foi a sobvida que lhe coube em sorte. Tentei apenas compreendê-lo, achar um sentido ou os sentidos possíveis para o misterioso complexo de paradoxos que ele representou, o mais possível à luz de todas as condicionantes da sua vida, desde as afecções do corpo e do espírito, que tanto o apoquentaram, ao contexto especial da passagem do século XIX para o XX. É interessante saber que, hoje, talvez a ciência e a medicina conseguissem salvá-lo, mas isso não ajuda nada a compreender nem deve servir para julgar os seus actos de há quase um século atrás. Também ele se esforçou por se conhecer e autocompreender, porque era alguém bem consciente do seu destino e da sua missão, alguém que denodadamente buscou um significado para a vida e que conviveu longamente com os mistérios do ser. Ora ser místico (“místico” e “misterioso” são palavras da mesma família) é, em sentido lato, isso mesmo: demandar a compreensão do enigma das coisas, de todos os seres e de si próprio; encontrar uma unidade, uma coerência, um sentido que reúna a solução de todos os mistérios. É saber-se uma parcela do Universo e buscar incessantemente a comunicação, a unidade com o Todo. Os místicos religiosos têm a sua tarefa facilitada: já encontraram a verdade que lhes foi revelada, resta-lhes trilhar os caminhos bem iluminados e já definidos. Não acontece o mesmo com os místicos a-confessionais, que, agindo à margem das verdades absolutas, querem verificar por si próprios, buscam a verdade por sua conta e risco no meio da absoluta escuridão, assumem-se protagonistas do seu próprio percurso, sem admitirem intermediários. Tratando-se de alguém incómodo para a sociedade, para a ideologia dominante e para certos


valores considerados intocáveis, o tratamento desta figura pode levantar-nos alguns problemas e gerar alguma polémica. Mas há aspectos que nele se podem considerar modelares e consensuais e que convém salientar, ainda que em breves traços. Manuel Laranjeira, como estudante, foi-o da maneira mais autónoma possível, autodidactismo que prolongou pela vida fora. Foi na instrução primária – sabe-se – um aluno capaz de observações fora do comum, denotando argúcia e inteligência. Só tendo podido iniciar os estudos secundários aos 18 anos, concluiu-os apenas em 3 anos. Sabia mais línguas do que qualquer estudante hoje e lia o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen na língua original. Obteve 19 valores na sua tese de doutoramento. Como místico que era, o seu olhar dirigia-se para cima, não onde se imagina Deus, mas onde deve subir o Homem, amparado no Homem seu irmão, para formar o Homem Novo. «É preciso, dizia, que o homem se resolva enfim a olhar mais para si, [porque] demais já ele olhou para Deus.» E a verdadeira ascese do Homem residiria, para ele, na instrução e alfabetização generalizadas, no acesso ao pão, à arte, à cultura. O novo critério de Justiça que advogava este médico solidário era «que a terra fosse de todos e o pão, que tem sido de alguns homens que se aproveitam do trabalho alheio, seja do Homem» (com maiúscula). O seu lema era «trabalhar, trabalhar, trabalhar incessantemente», pensando em transformar o Mundo num lugar mais habitável, já Amanhã, palavra mágica para ele, que a adoptou para título de uma das peças teatrais mais importantes do Naturalismo. Foi um homem interveniente, exemplo de cidadania, membro e dirigente de várias associações, um apóstolo de causas, sobretudo contra o obscurantismo, e um crente da ciência, da biologia, da vida, da capacidade perfectiva do homem e, sobretudo, da sua própria. Um místico esforça-se por universalizar o seu ideário. Laranjeira era, pela acção, um testemunho vivo desses ideais. Este esforço de compreensão, que representa afinal o meu livro, exerce-se também no que diz respeito à sua morte voluntária, que hoje se poderia interpretar como auto-eutanásia. Todos os suicidas morrem duas vezes: às próprias mãos e às mãos da sociedade, da religião e de todos aqueles que se apressam a condenar

os seus semelhantes. Bastará lembrar que os corpos dos suicidas eram antigamente arrastados pelas ruas e sepultados em terrenos baldios, entre muitos outros castigos post-mortem. Não encontrarão no meu livro um único dedo em riste contra o self-killer. Talvez encontrem algum elogio, mas eu precisei de franca admiração para compreender o gesto de quem preferiu «morrer de pé a viver de joelhos». Como não quero impacientar-vos com delongas, direi apenas em síntese: Optei por ressuscitar Manuel Laranjeira a matálo de novo. Optei por realçar tudo quanto nele nos pode servir de modelo, por retirá-lo da sombra, onde alguns, por despeito, por incompreensão, por preconceito, por facciosismo, quiseram sepultá-lo para todo o sempre. Esses nunca compreenderão que, como diz Fonseca Gaspar, «Laranjeira é um construtor [...] de um tempo que ainda não existe, e que talvez nunca venha a existir [...]. Laranjeira representa uma possibilidade de solução que pertence (pertencerá?) ao futuro, nunca ao nosso tempo». Também eu sou daqueles que me recusarei sempre a estrangular o sonho e a utopia. Se lerem o meu livro, talvez descubram que, se o tal Amanhã nunca mais chega, é porque continuamos a precisar de Manuel Laranjeira bem vivo e actuante, para acreditarmos que é possível cumprir os ideais de beleza e de virtude sonhados pelo místico para a ascese do Homem a um lugar mais alto e sempre mais além. Santa Maria da Feira, 16 de Junho 2006 Anthero Monteiro

165


166

O SONHO QUE IDEALIZO Ilda Maria* Gostava de ser ternura, Qualquer coisa que sorrisse À dor e à desventura! Gostava de ser carinho Para espalhar pelo mundo, Ter a ternura do ninho, A força do mar profundo! Gostava de ser flor Ter a beleza do céu Encher o peito d’ amor Ter a leveza do véu Gostava de ser o grão. Ser mansa como as espigas, Ser alegre, ser perdão, Trazer na boca cantigas! Então, sim, eu cantaria De noite meus madrigais. Desafios eu faria Com rouxinóis e pardais.

Faria do mundo inteiro Um jardim multicolor E seria o jardineiro Desses canteiros d’ amor A noite não haveria Desde então até final Pois pr’a ela teceria Uma rede de cristal, E as crianças seriam No sonho que idealizo Anjos que transformariam Este vale no Paraíso!

* Poeta. Faleceu em 20/07/1981


Postais do Concelho da Feira Postais Ilustrados Ceomar Tranquilo* Série de quatro postais da Casa “Villa Dôres - Feira”, que pertenceu a Fortunato Meneres. Neste Prédio se encontra hoje a Congregação das Irmãs Passionistas.

44 – Villa Dôres - Feira Trechos das salas de visitas e jantar. * Caminheiro por feiras, lojas e mercados.

167


168

45 – Villa Dôres - Feira (Frente)


46 – Villa Dôres - Feira (Lado Poente)

46 A – Reverso do mesmo postal, circulado de Villa da Feira para a Figueira da Foz, com selo de 1. C. cor, verde, com escrita cruzada.

169


47 – Villa Dôres - Feira (Lado Nascente) 170

47 A – Reverso deste postal. Circulou de Villa da Feira, 27 - Dez - 1917, para a Figueira da Foz, 29 - Dez 1917. “Desejando as B. F., fazem votos para felicidades no ano de 1918”.


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Índice Alfabético de Autores* PRIMEIRO LUSTRO NÚMEROS

DE

UM

A

QUINZE

2002 - 2007

ABREU, Luís Machado de - Na apresentação de Misticismo em Manuel Laranjeira, de Anthero Monteiro ADEGAS, Mário Martins - Monumento a Fernando Pessoa - VIII Intervenção do Presidente da Assembleia Municipal ALFERES, Padre Albano de Paiva - Monumento a Fernando Pessoa - V Apresentação do Ministro da Educação José Augusto Seabra - Saudação no Castelo da Feira

* Compilação de Joaquim Carneiro. Designer Gráfico.

15

11

11

140

8

135

13

9


AMARAL, Jorge Augusto Pais de - Mulher e a Evolução da Lei - O Casamento - A Viuvez - S. Petersburgo AMORIM, Elísio Costa - Cultura daqui para Longe (Mensagem)

172

6 9 10 15

47 79 51 115

10

5

ANACLETO, Mário - Lamas de gente ilustre - Abelardo e as Magnólias

8 10

81 45

AREZES, João Fernando - Visionarium - A Ciência à Mão de Semear... em Santa Maria da Feira

2

7

AURÉLIO, José - Comemoração dos Quinhentos anos da Festa das Fogaceiras

11

40

12 13

13 13

14

143

AZEVEDO, D. Carlos - O carácter do Bispo da Beira, através da correspondência com dois padres milheiroenses - Homilia na Festa das Fogaceiras. Santa Maria da Feira - S. Sebastião 2006 - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - X D. Sebastião Soares de Resende - Centenário do Nascimento. 1906-2006” BALSEMÃO, Paula - A Defesa das Liberdades e Privilégios Municipais da Cidade do Porto

2

61

3

63

BATISTA, Herlando António Ferreira - Breves da História 1 - Destruição que o Terramoto de 1755 causou em Vila da Feira

2

71

BRANDÃO, Artur - Mensagem

7

5

BRANDÃO, Francisco Azevedo - Mensagem - Mensagem - Família Azevedo Aguiar Brandão - Paços de Brandão, Santa Maria da Feira - A - Dicionário Biográfico de Personalidades Feirenses

4 14 14 15

5 7 8 41

BRÁS, Sebastião - D. Sebastião Soares de Resende, Feirense com Projecção Universal

12

69

BARROS, Maria da Luz Ferreira de - Direito de Pousada: Um factor de contestação na sociedade medieval portuguesa (séc. XIV-XV)


CANCELA, Mário Fernandes da Silva - Memorandum

13

7

CARLOS, Roberto - Pórtico - Ao Redor do Convento dos Lóios - Dom Sebastião Soares de Resende nas páginas do Correio da Feira

9 9 12

3 141 73

CARNEIRO, Edgar - Menina do gato (Poesia) - Confissão (Poesia) - O Sol é grande (Poesia) - Revivendo (Poesia) - Jornada (Poesia) - A Sorte (Poesia) - No Princípio era o Fim (Poesia) - Paisagens (Poesia) - Anthero Monteiro. Ao Poeta Amigo (Poesia) - A língua (Poesia)

5 6 7 8 10 11 13 14 15 15

118 104 88 70 130 42 104 104 10 16

CARNEIRO, Joaquim - Cartões Telefónicos - Colecção Feira - Homenagem ao pintor António Joaquim - Cédulas de Vila da Feira - Pórtico - Indíce Alfabético de Autores

173

1 4 7 15

65 107 3 171

11

139

CONCEIÇÃO, Manuel Joaquim Santos - Milheirós de Poiares (Século XVI a XVIII)

13

19

CORREIA, António Gil Carneiro Alves - A Propósito de uma Fogaça!

13

139

CORREIA, Manuela - Águas revoltas (Poesia) - Poema (Poesia) - Terraço (Poesia) - Falésia (Poesia) - Era... (Poesia) - Acontece (Poesia) - Apetecia-me Hoje (Poesia) - Instante de Eternidade (Poesia)

5 6 7 8 10 11 14 15

108 70 122 90 12 54 126 102

COSTA, Barbosa da - Homenagem ao Padre Manuel Leão - Santa Maria da Feira - 23/12/2004

10

37

CARVALHO, Joaquim Dias de - Monumento a Fernando Pessoa - VIII Intervenção do Presidente da Câmara Municipal


174

COSTA (José Manuel Moreira Cardoso da) - Dr. Belchior Cardoso da Costa - Notícia Biográfica - Agradecimento na Câmara Municipal - Agradecimento na Casa da Torre, S. João de Ver - Mensagem.

6 6 6 12

7 113 121 7

DUQUE, Ana - Edição do dia (Poesia) - Meia Feita (Poesia) - Cheia de Graça (Poesia) - São migalhas, meu senhor (Poesia) - Toponímia de Agora (Poesia)

9 10 11 13 14

134 112 6 18 74

8

31

11

141

12

125

FARIA, Álvaro - Vaz Ferreira - Gastronomia e Vinhos na obra de Eça de Queirós

6 7

93 119

FERREIRA, Conceição - Viagem (Pórtico)

5

5

5

61

FIGUEIREDO, José Valle de - O Caminho (Poesia)

8

6

GASPAR, Fonseca - A Caricatura em Portugal

3

71

GHILAN, Maxim - Fernão de Magalhães

4

112

GONÇALVES, D. Jaime Pedro - D. Sebastião Soares de Resende, nosso primeiro Bispo.

12

11

GROSSMANN, Irene - O desenvolvimento dos Castelos

5

85

GUIMARÃES, Fernando - Fernando Pessoa e o movimento saudosista

7

67

EANES, António Ramalho - A inevitabilidade de Abril e a feira de legitimidade com o PREC O regresso ao propósito originário - Monumento a Fernando Pessoa - VIII Intervenção do Senhor Presidente da República - Monumento a Fernando Pessoa - IX Intervenção do Senhor Presidente da República - Encerramento

FERREIRA, José Vitor - A beleza plástica e a saúde no séc. XVIII: Uma pequena reflexão a partir da literatura médica


GUIMARÃES, Serafim - Pedro Homem de Mello, um Amigo que gostou de Santa Maria da Feira - O Zeca Afonso que eu conheci - Guilherme Braga, um nome das Letras com íntimas ligações a Santa Maria da Feira - A visita de D. Manuel II às Terras de Santa Maria - Mensagem - Homenagem a António Joaquim - As fogaceiras e a peste - Edith Stein - O Sr. Zé Talaia

2 3 4 7 8 10 11 14 15

49 51 55 43 5 7 43 89 101

HENRIQUES, Alfredo de Oliveira - Mensagem do Presidente da Câmara - Homenagem ao Professor Doutor José Manuel Moreira Cardoso da Costa - Mensagem - Comemoração dos Quinhentos anos da Festa das Fogaceiras - Comemoração dos Quinhentos anos da Festa das Fogaceiras - Apresentação do livro Capela da Senhora das Necessidades - 1º Centenário de Dom Sebastião Soares de Resende

1 6 9 11 11 11 12

5 106 5 33 41 98 9 175

HIGINO, Luís Filipe - Marcos Caldeira - Um jovem missionário beatificado natural da Feira

10

113

JESUS, Maria de - Profundidade (Poesia) - O que se viveu (Poesia) - Fogaceiras (Poesia) - Quando sinto não sei escrever (Poesia) - Tempo (Poesia) - Nasci nota (Poesia)

1 3 4 6 7 10

47 70 114 32 6 120

JOAQUIM, António - Suspeições (Poesia) - Agradecimento

3 10

6 13

2 3 4 5 6 6

3 3 97 113 99 105

7 7

111 115

7

123

8

127

LAF, Executivo - Pórtico - Pórtico - Monumento a Fernando Pessoa - I - Monumento a Fernando Pessoa - II - Monumento a Fernando Pessoa - III - Efemérides Homenagem ao Professor Doutor José Manuel Moreira Cardoso da Costa - Em memória de “António Carneiro / António Luso” - Monumento a Fernando Pessoa - IV Fernando Pessoa em Fiães - Efemérides Passagem do General Ramalho Eanes e esposa pelo Monumento a Fernando Pessoa - In Memoriam


176

Professor Doutor José Augusto Seabra - Monumento a Fernando Pessoa - V Fernando Pessoa em Arrifana - Monumento a Fernando Pessoa - VI - Efemérides Apresentação do n.º 1 da revista Villa da Feira - Terra de Santa Maria - Henrique Veiga de Macedo - Efemérides Padre Manuel Leão - Monumento a Fernando Pessoa - VII Eduardo Lourenço em Vila da Feira - Comemoração dos Quinhentos anos da Festa das Fogaceiras 19 de Janeiro de 2005 - Apresentação do Livro e da Medalha - Apresentação do livro Capela da Senhora das Necessidades Nadais - Escapães, 14 de Junho de 2003 - Monumento a Fernando Pessoa - VIII Inauguração pelo Senhor Presidente da República - Efemérides Apresentação do livro Capela da Senhora das Necessidades do Padre Domingos A. Moreira e Inauguração da Capelinha - Monumento a Fernando Pessoa - IX Sessão Solene na Escola Preparatória - Monumento a Fernando Pessoa - X No Castelo de Santa Maria da Feira (Conclusão)

8

131

9 9

135 153

10 10

115 121

10

123

11

33

11

93

11

139

11

145

12

121

13

131

LAF - Liga dos Amigos da Feira - “O Céu Aberto na Terra” - Pórtico - Congresso História Medieval - Congresso História Medieval - Evocação do 90.º Aniversário do Nascimento do Dr. Henrique Veiga Macedo - Homenagem ao Padre Manuel Leão - Em Santa Maria da Feira - 23/12/2004 - Pórtico

1 2 2 3 7 10 14

6 3 60 62 1 41 5

LAF, O Director - Pórtico - A Poesia de Ilda Maria - Pórtico - Evocação do 1.º Centenário do Nascimento do Dr. Belchior Cardoso da Costa - Pórtico - Pórtico

1 1 4 6 12 13

3 56 3 1 5 5

LEÃO, Fernando - Mensagem

2

5

LEÃO, Padre Manuel - Doutor Guilherme Moreira, Ilustre Feirense - Obras no Castelo

4 5

29 51


- Mensagem - Mercadores de Vinhos da Feira - A Propósito da Segunda Invasão Francesa - Segunda Invasão Francesa e o Comércio Marítimo - No Rescaldo das Invasões Francesas - Agradecimento - Um Enfiteuta Britânico em Milheirós - Portugal visto por Estrangeiros - D. Sebastião Resende - Uma Evocação no seu centenário - A Pirataria Norte-Africana no século XVII - Notas Camilianas - Estalagens e Tendas

6 6 7 8 9 10 10 11 12 13 14 15

5 27 53 47 77 41 49 113 19 97 69 41

LOBO, Maria Fernanda Calheiros - Ausência (Poesia) - Sou moldura de jardim (Poesia) - O Mar esconde-se no Sargaço dos dias (Poesia) - Em tempo de acreditar (Poesia) - O lugar que Deus me deu (Poesia) - Auto-retrato (Poesia) - Chinês (Poesia) - Matisse (Poesia)

7 8 9 10 11 12 14 15

74 98 158 40 86 84 136 24

LOPES, Judite - A globalização cultural - Postigo de fantasia (Poesia) - O rumo da Animação Sociocultural - Como cantata ao sol-pôr (Poesia) - As gentes (Poesia) - O sorriso (Poesia) - Fantasia breve (Poesia) - Ecos de saudade (Poesia) - Resquícios de um Natal - Sonho de Luz (Poesia)

2 3 5 8 11 11 11 13 15 15

73 104 89 86 32 68 152 96 151 50

LOURENÇO, Eduardo - O Mito Pessoa

10

17

LUSO, António - O Castelo da Feira na Filatelia - A Mala-Posta de Lisboa/Porto - Igreja de Nossa Senhora da Nazaré - Luanda - Sé Catedral de Sá da Bandeira - Angola - Uma viagem a Malange

2 3 4 5 6

87 81 91 105 95

LUZ, Alfredo - As personagens - Receita

4 9

111 1

177


178

MACEDO, Henrique Veiga de - Para ti, Mulher! (Poesia) - Ascensão - tema que não cansa - (Poesia) - Maçã... Manhã - (Poesia) - O melhor Português que conheci no Brasil - Mensagem sem resposta (Poesia) - Platão à luz da sua Ideia sobre o Estado e o Direito - I - Nuno Álvares Pereira (Poesia) - Platão à luz da sua Ideia sobre o Estado e o Direito - II - Homenagem ao Professor Doutor José Manuel Moreira Cardoso da Costa - Platão à luz da sua Ideia sobre o Estado e o Direito - III - Sebastião da Gama (Poesia) - Guerra Junqueiro (Poesia)

2 3 4 4 5 5 6 6 6 7 11 14

MAIA, Ângelo Sampaio - Casa da Torre em Terra de Santa Maria - S. João de Ver

3

MAIA, Carlos Gomes - Pórtico - Apresentação do livro Capela da Senhora das Necessidades

6 11

3 93

MAIA, Fernando Sampaio - Casa da Torre em Terra de Santa Maria - S. João de Ver - Pórtico - Homenagem ao Professor Doutor José Manuel Moreira Cardoso da Costa

3 5 6

7 3 117

1 badana da capa 1 a 15

6

MARIA, Francisco de Santa - “O Céu Aberto na Terra” - “O Céu Aberto na Terra MARIA, Ilda - Loucamente (Poesia) - Sozinha, terrivelmente só (Poesia) - Um Tema (Poesia) - O meu prazer é este (Poesia) - A uma andorinha (Poesia) - Crispando meus anseios (Poesia) - Vigília (Poesia) - Um Tema (Poesia) - Grinaldas (Poesia) - A minha perda inútil (Poesia) - Campo de Batalha (Poesia) - Escrevo a poesia nas estrelas (Poesia) - Eu gosto de escrever (Poesia) - Antes (Poesia) - O Sonho que Idealizo (Poesia)

1 1 1 2 3 4 5 6 7 9 10 11 11 14 15

6 88 6 49 6 67 6 61 118 75 102 118 7

57 58 59 86 49 48 104 60 84 76 26 112 136 125 166


MARQUES, Jorge António - Evocações de uma Era - Uma Terra, um Povo, uma Lenda ou uma História - Aveiro - José Estevão Coelho de Magalhães - I - Evocações de uma Era - Uma Terra, um Povo, uma Lenda ou uma História - Aveiro - José Estevão Coelho de Magalhães - II - Evocações de uma Era - Uma Terra, um Povo, uma Lenda ou uma História - Aveiro - José Estevão Coelho de Magalhães - III - Evocações de uma Era - Uma Terra, um Povo, uma Lenda ou uma História - Aveiro - José Estevão Coelho de Magalhães - IV - Evocações de uma Era - Uma Terra, um Povo, uma Lenda ou uma História - Aveiro - José Estevão Coelho de Magalhães - V - Evocações de uma Era - Uma Terra, um Povo, uma Lenda ou uma História - Aveiro - José Estevão Coelho de Magalhães - VI - Evocações de uma Era - Uma Terra, um Povo, uma Lenda ou uma História - Aveiro - José Estevão Coelho de Magalhães - VII - Evocações de uma Era - Uma Terra, um Povo, uma Lenda ou uma História - Aveiro - José Estevão Coelho de Magalhães - VIII - Evocações de uma Era - Uma Terra, um Povo, uma Lenda ou uma História - Aveiro - José Estevão Coelho de Magalhães - IX - Conclusão - No Tempo e no Espaço - O Vidro (1) - No Tempo e no Espaço - O Vidro (2) - No Tempo e no Espaço - O Vidro (3) - No Tempo e no Espaço - O Vidro (4) - Conclusão

3

105

4

65

5

73

6

83

7

89

8

71

9

109

10

81

11

123

12 13 14 15

113 113 119 143

MARQUES, Ludgero - Homenagem ao Professor Doutor José Manuel Moreira Cardoso da Costa - Cem anos de progresso e criação de emprego - Apresentação do Castelo após conclusão da 1.ª fase de obras

6 8 14

118 19 75

MARTINS, Carlos - Mensagem

2

MARTINS, José Soares - D. Sebastião Soares de Resende, Feirense com Projecção Universal

12

69

MÁXIMO, Joaquim - Uma aurora de Janeiro - A propósito da Noruega - O David - O Cão - Animais e Homens - Crianças do Passado - O quilo do Senhor Conde - A Camisa de Noite - O pó de talco - Despedidas - Nas Cavernas de Waitomo - Recordações Desportivas

2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13

75 57 83 91 67 85 99 131 99 137 119 127

5

179


- Natal (Poesia) - A propósito de Jeanne D’Arc

180

14 15

137 153

MELO, António M. Barbosa de - Homenagem ao Professor Doutor José Manuel Moreira Cardoso da Costa

6

107

MELLO, Pedro Homem de - Livramento (Poesia)

2

56

MÉSSEDER, João Pedro - All Blues (Miles Davies) (Poesia) - Doxy (Miles Davies, Sonny Rollins, Harace Silver...) (Poesia) - Sem Nome (Poesia)

12 13 15

112 64 46

MIRANDA, Miguel - Reflexões sobre o Misticismo em Manuel Laranjeira ou o Autodiagnóstico de um médico Doente de Santidade

15

17

3 4 5 6

116 104 66 53

7

59

8 8

7 101

9 10 11 11 11 12 13 15 15 15 15

7 16 26 38 99 90 138 7 25 10 161

7 9 10 14

126 162 138 142

12

27

MONTEIRO, Anthero - Lavoisier (Poesia) - Testamento (Poesia) - Pertença (Poesia) - Misticismo em Manuel Laranjeira: O autodiagnóstico de um médico doente de santidade - Capítulo I e II - Misticismo em Manuel Laranjeira: O autodiagnóstico de um médico doente de santidade - Capítulo III e IV - S. Sebastião: A História, a Lenda e o Mito - Misticismo em Manuel Laranjeira: O autodiagnóstico de um médico doente de santidade - Capítulo V e VI - A Festa das Fogaceiras e o Feriado Municipal de Santa Maria da Feira - O Poeta (Poesia) - Insónia (Poesia) - Comemoração dos Quinhentos anos da Festa das Fogaceiras - A Festa da Senhora da Saúde em S. Paio de Oleiros - Poema ou Rosa (Poesia) - (Obs)cena (Poesia) - Mensagem - Na apresentação de Misticismo em Manuel Laranjeira - Encontros (Poesia) - Na apresentação do Livro O Misticismo Laico de Manuel Larajeira MONTEIRO, Maria Virgínia - Recado (Poesia) - Sous le pont Mirabeau (Poesia) - Autobiografia (Poesia) - Se (Poesia) MOREIRA, Adriano - D. Sebastião Resende - Profeta em Moçambique


MOREIRA, Pe. Domingos A. - Observações Toponímicas - Capela da Senhora das Necessidades em Nadais - Capítulo I - Capela da Senhora das Necessidades em Nadais - Capítulo II e III - Capela da Senhora das Necessidades em Nadais - Capítulo IV - Capela da Senhora das Necessidades em Nadais - Apêndice I, II e III - Nome da Freguesia de Escapães - I - Nome da Freguesia de Escapães - II - A Propósito do Aditamento ao Estudo do “Tipo Hidronímico UM” - Sobre a integração do rio “Odres” na linguística Indo Europeia - Considerações Linguísticas sobre “Teja” (Afluente do Douro) - Apresentação do livro “Capela da Senhora das Necessidades” - Antologia Prática de um Devocionário Tradicional Popular - I - Antologia Prática de um Devocionário Tradicional Popular - II - Antologia Prática de um Devocionário Tradicional Popular - III - Antologia Prática de um Devocionário Tradicional Popular - IV - Sobre algumas perspectivas da problemática da pré-latinidade do nome “Tarouquela” “Gaia” - Sobre o Hidrónimo “Febros” - Antologia Prática de um Devocionário Tradicional Popular - V MOREIRA, Rogério Pinto - No 1.º Aniversário da Morte do Professor Pinho Leão

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 11 12 13 13 14 15 15

35 25 25 21 23 19 35 43 71 107 94 103 93 105 105 127 103 121 181

12

91

3 5 6 7 10

61 60 46 34 127

NEVES, Paulo - Escadas para o Céu

12

111

NOGUEIRA, D. Eurico Dias - Singelo depoimento sobre o primeiro Bispo da Beira

12

23

OLIVEIRA, Domingos de - Vendo passar o Cáster (Poema)

7

102

OLIVEIRA, Eduardo Vaz de - A Terra de Santa Maria - O Território; os Homens; a História; E Hoje?

1

27

OLIVEIRA, Samuel de Bastos - Homenagem ao Padre Manuel Leão - Um Feirense Ilustre - Travanca: a informação paroquial de 1758 e uma retrospectiva do seu passado

10 10 11

41 43 87

NAVARRO, António Rebordão - A casa do Pintor Domingos Pinho (Gerês) (Poesia) - A casa da Mariana (Poesia) - A Ilha (Poesia) - A casa do Pintor-Escultor José Encarnação (Poesia) - Monumento a Fernando Pessoa - VII Apresentação do Professor Eduardo Lourenço


182

PAIS, Rosa Maria - Amores Universais de D. Pedro e D. Inês de Castro no Castelo de Santa Maria da Feira

5

95

PEREIRA, Padre Américo Dias Apresentação do livro Capela da Senhora das Necessidades

11

97

PEREIRA, Manuel Castro - Caminho de Ferro do Vale do Vouga - “Os primeiros passos...”

8

57

PEREIRA, Sérgio - A matriz da escuridão (Poesia) - Alfabeto Estelar (Poesia) - A dicção da nervura (Poesia) - La sueur du paysage (Poesia)

5 6 9 10

16 52 86 122

PESSOA, Fernando - Uma carta a (João de Castro) Osório de Oliveira

6

125

PINHEIRO, Aurélio Gonçalves - O Monumento a Fernando Pessoa

11

27

PIRES, Maria Adelaide - Aspectos da vida pública e da acção cultural de Henrique Veiga de Macedo

7

PINHO, Pe. José Alves de - A Capela de Campos - Casa da Feira - Fundamentos para o Brasão de Fornos - Mensagem - Estatutos da Confraria do SS.mo Sacramento de Sanfins - 1735

4 6 10 11 11

37 33 59 5 71

PORTELA, Celestino - Padre Albano de Paiva Alferes - Ainda o centenário de José Régio - Aquele triste e ledo dia - História de um pequeno Castelo - Domitilla de Carvalho - Uma carta inédita de Fernanda Pessoa - O cartão de visita de Pena Gabriel - D. Fernando de Tavares e Távora - Ao redor da sentença de D. Manuel I contra D. Diogo Pereira - Laranjeira e Anthero, connosco hoje

1 2 3 4 5 6 7 9 11 15

7 77 75 87 17 123 103 155 69 155

PORTELA, Celestino Augusto - Pórtico

8

7

3


PORTELA, Celestino e CARNEIRO, Joaquim - O Castelo da Feira e a Filatelia - I A - Postais - “Tudo pela Nação” 1937-1952 - O Castelo da Feira e a Filatelia - II A - Postais - “Caravela” 1953 - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - I Medalhas do escultor José Aurélio “Terras de Santa Maria” “Manuel Laranjeira” “FACOL - Fábrica de Cortiça de Lourosa” “Academia de Música de Santa Maria” “Luís de Camões” “Fernando Pessoa” “Cidades e Vilas” “Termas das Caldas de S. Jorge” “Misericórdia de Santa Maria da Feira” “10 anos Cidade” - O Castelo da Feira e a Filatelia - III B - Selos - “Castelos de Portugal” 1946 - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - II Medalha do escultor Alves André “Homenagem 2003, António Joaquim” - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - III Medalha da escultora Maria Amélia Carvalheira “Castelo de Santa Maria da Feira, Ano Mariano” - Filatelia (aditamento) Selo do designer Carlos Aguiar “Torneira Panda” - CIFIAL 1998 - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - IV - Medalhas da escultora Irene Vilar “Correio da Feira / Cem Anos ” “90 Anos da Comissão do Castelo” - O Castelo da Feira e a Filatelia - IV B - Selos - “Paisagens e Monumentos” 1973 - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - V Medalha do escultor José Aurélio “500 Anos do Voto 1505-2005 - Festa das Fogaceiras 20 de Janeiro” - O Castelo da Feira e a Filatelia - V B - Selos - “Castelos e Brasões de Portugal” 1986 - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - VI Medalha do escultor Paulo Neves “25 Anos 1997 - Clube Académico da Feira” - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - VIII Medalha do escultor Assunção Diniz “Castelo da Feira” - O Castelo da Feira e a Filatelia - VI B - Selos - “XIV Exposição Iberoamericana’90” - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - IX

5

109

6

127

6

129

7

127

7

129

8

139

8

141

9

159

9

163

10

129

10

131

11

147

12

127

12

129

13

141

183


Medalhas do escultor José Rodrigues “Cinca - 25 Anos” “Bombeiros Voluntários de Lourosa” - A medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - X Medalha da escultora Irene Vilar “D. Sebastião Soares de Resende - Centenário do Nascimento. 1906-2006”

184

14

143

RIBEIRO, João - Solitaire Beaudelaire (Poesia) - A lua com a mão escondida (Poesia) - Herói conhecido (Poesia) - BI (Poesia)

2 3 4 8

70 56 36 46

ROCHA, Clara Crabbé - Fernando Pessoa - Poeta do Desassossego

12

85

9 10

51 27

11 11 12

7 55 31

13

65

14

62

15 15

5 33

SANTOS, António de Almeida - D. Sebastião Soares de Resende, profeta da minha particular predilecção

12

29

SANTOS, Augusto - Índia terra mãe, das mil e uma noites aos contrastes chocantes - I - Índia terra mãe, das mil e uma noites aos contrastes chocantes - II

7 8

107 91

SANTOS, Maria José Ferreira dos - Museu do Papel - Terras de Santa Maria

4

7

RODRIGUES, David Simões - Fogaceiras - Oitocentos anos de história - I - Fogaceiras - Oitocentos anos de história - II Suposta peste valeu 30$000 réis - Rio Meão Histórico - Igreja - Em 1502 - Sentença de D. Manuel I contra o Conde da Feira - Versão actualizada - D. Sebastião Soares de Resende Percurso de uma vida entre o berço, Milheirós de Poiares - Feira, 14. 6. 1906 e para além do túmulo, Beira - Moçambique, 25. 1. 1967 - Triângulo Litigioso Os Lóios da Feira, Nogueira da Regedoura e Malta-Rio Meão - I - D. Sebastião Soares de Resende Nas Celebrações da morte e centenário de nascimento - Pórtico - Da Lavandeira à Azenha

SEABRA, José Augusto - Fernando Pessoa a Poesia e o Mito - Monumento a Fernando Pessoa - IX Intervenção do Senhor Ministro da Educação

8 12

51 122


SILVA, Abílio Ferreira da - Seria aquela... “A Ilha dos Amores”? - A última geração da Escola Primária que Manuel Laranjeira frequentou - Aquele Dr. Ricardo Reis - Fernando Pessoa

8 9 14

109 127 79

SILVA, Armando Sousa e - Nogueira da Regedoura: Fragmentos do Passado

6

71

SILVA, Domingos Orlando - Quinta da Portela de Baixo

8

125

SILVA, Francisco Ribeiro da - Os Frades Lóios, a Câmara Municipal e o Ensino - Sucessão dos Senhores e Condes da Feira, segundo as Doações e Confirmações Régias - Comemoração dos Quinhentos anos da Festa das Fogaceiras - Fogaças e Fogaceiras de Santa Maria da Feira - História e Tradição

2 10 11 11

57 55 34 49

SILVA, José Manuel da Costa e - Pórtico

14

5

SILVA, Maria Lisdália de Oliveira e - Milheirós de Poiares (Santa Maria da Feira) na Idade Média

9

87

SILVA, Orlando - Três Poetas, três Sonetos, três Gerações, um denominador comum - As encruzilhadas de Régio - Frei Simão de Vasconcelos - Um Frade liberal mártir da Liberdade - O Pinheiro das Sete Cruzes da Vergada - Um Padre digno da sotaina que vestia - Lisboa Revisitada - 1923 - Diálogo de Sinos - Um pedaço de vida - O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira

1 2 3 4 5 8 15

51 83 89 93 101 121 159

12

99

TELMO, Augusto - Padre Jesuíta, de Arrifana de Santa Maria, em Terras de Vera Cruz, no séc. XVI

9

139

TRANQUILO, Ceomar - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados

1 2 3 4 5 6 7

69 93 117 115 119 143 131

SOTTOMAYOR, D. Maria da Conceição de Lemos Magalhães de Motta de - 1.º Centenário da morte de José Estevão Discurso da Ex.ª Senhora D. Joana Inês de Lemos Coelho Magalhães

185


- Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados - Postais do Concelho da Feira: A - Postais Ilustrados

186

8 9 10 11 12 13 14 15

143 165 139 149 131 145 147 167

TRIGO, Salvato - Fernando Pessoa e a Poética da Nostalgia

9

43

VALENTE, Gastão - Apresentação do livro Capela da Senhora das Necessidades

11

96

VIEIRA, Teresa - Termas de S. Jorge - Duzentos anos passados, iniciam um novo capítulo na sua história

5

7

1

60

2

96

VILHENA, Maria da Conceição - O primeiro automóvel - Homenagem ao ACP no Primeiro Centenário - A Leitura - Um pouco da História dos Jogos Florais - Camões na Provença há um século - Camões na linha dos Trovadores - Linguagem e Preciosismo - Para a Biografia de Manuel de Arriaga - Vitorino Nemésio e a viagem múltipla - Para a Cura da solidão: Terapia ocupacional

4 8 9 10 11 12 13 14 15

75 87 133 101 117 103 119 93 111

“VILLA DA FEIRA”, Equipa - Pórtico - Pórtico

10 11

3 3

VILA, J. M. de Matos - Cântico Tinto Uma paródia ao “Cântico Negro” de José Régio - Serenata Feirense


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Lojas de venda de calçado directamente da fábrica ao público Santa Maria da Feira Pinhel Lordelo/Guimarães Póvoa de Varzim Viseu

Rohde - Sociedade Industrial de Calçado Luso - Alemã, Lda. Lugar do Cavaco Santa Maria da Feira

Apartado 11 4524-909 Feira Portugal

Tel. 00 351 256 377 000 Fax. 00 351 256 377 008 E-mail: rohdefeira@rohde.pt


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Villa da Feira 15  

1 2 3 4 Assim este Pórtico somente pela Vida em que nos introduz. Sonho? Mistérios da Vida? Mas, queiramos ou não, cada um de nós, mais que...