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25 de abril de 1974 eu estava lá

no Bar  das  Letras,  UL,  40  anos  depois  

por Delfina  Teixeira  Tamulonis  

Universidade de Lisboa-na hora da despedida Em abril de 1974 era eu finalista na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e estava naturalmente ansiosa por receber nesse verão o meu diploma de licenciatura e entrar no mundo do trabalho, ou seja, no mundo real. Um mundo onde eu já estava, de facto, a tempo parcial como professora de inglês no Liceu D. Pedro V, visto que com o “bacharelato” (três anos) completo, tinha “habilitação própria” para lecionar no Ciclo Preparatório, hoje 5º e 6º anos, e no Liceu/Secundário. No entanto, mal podia adivinhar que não era só a minha vida pessoal que estava prestes a mudar drasticamente. O meu país aproximava-se vertiginosamente do fim de um longo caminho da sua longa história, de onde se tornou inevitável o salto, que acabou por ser abrupto, para um novo tempo e uma nova dimensão. O Portugal que nós, a geração de ’70, conhecíamos, com todo o seu universo de valores, dilemas, conflitos, receios, mas também entusiasmo, alegria e principalmente muita esperança, deixou de existir em escassas horas naquele dia, a 25 de abril de 1974. Vinte e cinco anos após a Revolução dos Cravos escrevi pela primeira vez sobre este momento histórico; um relato em inglês visando informar a comunidade internacional residente na Linha de Cascais sobre o que realmente aconteceu nesse dia, entrecortado aqui e ali por vivências, emoções e pontos de vista pessoais. Em 2014, no 40º aniversário do “25 de Abril”, achei que era altura de reescrever o artigo em português, dirigido não só às novas gerações de portugueses nascidos após Abril de 1974, mas também a toda a comunidade lusófona. Antes, porém, de procurar encontrar as palavras certas para expressar o meu estado de espírito e sensações que eram também de toda uma geração de jovens portugueses, filhos da repressão e cativos dos horrores de uma guerra longínqua, mas tocando todos tão de perto, algo me impeliu a revisitar o espaço físico que marcou a minha vida nos cinco anos que precederam a Revolução dos Cravos. Assim, de novo subi a larga escadaria de pedra da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Notei que as colunas de mármore avermelhado haviam resistido intactas à passagem do tempo. A Alameda da Universidade era agora um manto de relvado bem cuidado, muito diferente do campo lamacento no inverno e extensão de mato seco envolto numa nuvem de poeira no verão. Cada movimento para subir mais um degrau transportava-me de volta a um detalhe, a uma vivência pessoal ou coletiva num mundo que desabou cerca de três meses antes de eu subir e descer estas escadas pela última vez como estudante. Que pensava eu, então uma jovem finalista universitária? Que sonhos, preocupações, medos, dúvidas, alegrias e planos para o futuro? quanto mais as coisas mudam, mais ficam na mesma O Bar das Letras era ponto de encontro de alunos de todas as faculdades da Universidade de Lisboa, simplesmente, porque aqui a população estudantil era maioritariamente feminina. E ter um namorado /namorada a sério era um objetivo a atingir ao longo dos cinco anos, tão importante como obter o canudo. Aliás, casar muito jovem era prática comum na minha geração em todas as classes sociais. Alguns pares de namorados vindos da província davam o nó ainda na Faculdade com pronta autorização dos pais e exigida por lei para menores de vinte e um anos. Pais que se autoconvenciam com dois argumentos

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deveras convincentes. Um era de cariz moral, sinal dos tempos, que em Portugal eram incipientes na questão da liberdade sexual, uma verdadeira revolução social e nos costumes que no resto da Europa ocidental já tinha tido o seu tempo há mais de uma década. Só que, residindo, na sua maioria, em pacatas vilas e cidades de província, preferiam que fossem outros jovens que não os seus filhos os revolucionários. A outra razão era simplesmente económica: ficava muito mais barato os dois jovens partilharem um quarto ou um pequeno apartamento. Viver juntos sem a benção da Igreja ou papel passado pelo registo civil era um ato de rebeldia ao qual nem os mais rebeldes se atreveriam. Muitas jovens recém-licenciadas e de todos os estratos sociais acompanharam os maridos no cumprimento do serviço militar obrigatório por dois anos no “Ultramar” ou seja, em Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau. Entrando no Bar, o aroma tão familiar de café acabado de moer e de croissants ainda quentes asseguraram-me que neste país há coisas que nenhuma revolução, integração europeia, recessão económica, crise política, troika, comida de plástico ou tecnologia de ponta conseguem mudar. Os versos imortais de Luís de Camões 1“mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” parecem não aderir à realidade quanto a esta e outras pequenas e simples vontades no quotidiano dos portugueses. universidades em 1974 - solo fértil de mudança O Bar das Letras não me pareceu muito diferente; apenas um novo balcão à direita e uma porta na parede dos fundos que teria dado muito jeito, teria poupado momentos de pânico a dezenas de estudantes que subitamente se viram atacados pela polícia de choque, a apenas algumas semanas da da Revolução de Abril de 1974. Marcelo Caetano, o sucessor de Salazar, prometera aliviar a repressão, incluindo nas universidades. Acedera mesmo à exigência do professor Veiga Simão como condição para aceitar o cargo de ministro da Educação: todos os processos judiciais contra estudantes seriam arquivados. Contudo, a contestação estudantil subiu de tom e culminou a 12 de outubro de 1972 com a morte trágica de um estudante, vítima de um confronto com agentes da PIDE/DGS, em sequência da invasão do ISCEF pela polícia de choque. O governo decretava tolerância zero para com os protestos nas universidades. Ex-tropas especiais da Guerra Colonial, os “gorilas”, percorriam, à paisana, os corredores de várias Faculdades e tinham como missão dar ordem de “dispersar” sempre que vissem mais de três estudantes a conversar. Era a última tentativa do regime ditatorial para calar a voz da nova geração clamando por paz e liberdade, para abafar a indignação de toda uma geração de rapazes portugueses, que ao completarem dezoito anos eram chamados para cumprir o serviço militar e logo a seguir obrigados a embarcar para a África, onde Portugal defendia três das cinco colónias, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau contra os movimentos de libertação. Os jovens universitários eram uma minoria privilegiada, visto que tinham até aos vinte e quatro anos para acabarem a licenciatura; os de Medicina só eram chamados para a tropa aos vinte e sete anos de idade. Naquele dia de primavera, em 1974, rapazes e raparigas apinhavam-se sentados à volta das mesas quadradas em animada cavaqueira, como era habitual. As bebidas limitavam-se a sumol, laranjada, sumo de fruta Compal, leite, café e galão. Não me lembro de ver ninguém a beber vinho ou qualquer outra coisa com algum teor de álcool, se bem que nas nossas casas, a qualquer refeição, a garrafa de vinho, o jarro da água e o pão eram as primeiras coisas a pôr na mesa e as últimas a tirar. Os pais não só não proibiam como até ofereciam um gole de tinto, branco ou champanhe aos adolescentes em almoços e jantares de família. Talvez por não serem fruto proibido, as bebidas alcoólicas não eram fruto apetecido. Tínhamos, sim, curiosidade era em experimentar a tão badalada Cola-Cola, marca da juventude nos países desenvolvidos tais como os Estados Unidos, a Inglaterra e a Alemanha. De repente, um estudante levanta-se e convoca os colegas para uma reunião, um gesto corajoso e desafiante da regra que os gorilas estavam mais do que dispostos a fazer cumprir zelosamente. Ou a bem, com a palavra mágica “dispersar”, uma cena que nos era tão familiar quanto normalmente breve, visto que levávamos esta

                                                                                                              1  1524-­‐1580  maior  poeta  português    

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gente muito a sério. É que pela cidade universitária circulavam estórias arrepiantes supostamente protagonizadas por estes indivíduos, envolvendo manejo de armas brancas algures no mato africano. Ou a mal, como, de facto, aconteceu. Tudo, porque desta vez, o colega manteve-se firme, destemido, exortando-nos a fazer o mesmo. Coragem contagiante que como um íman fez juntar um pequeno grupo à volta do estudante-orador. O “gorila” solta mais um grito: dispersar. Como ninguém arredava pé, passa da palavra à ação: pega numa cadeira, que era de madeira, ergue-a furiosamente acima da cabeça e depois parte-a contra a perna esquerda. O pobre ex-comando não havia sido treinado para negociar ou apaziguar. Agir e reagir com violência era a sua arte e ofício. Agarra numa perna da cadeira e começa a bater em todos e em tudo a eito, a torto e a direito. Um segundo gorila apareceu em menos de um minuto e nem se deu ao trabalho de partir cadeira nenhuma. Limitou-se a atirá-las para onde calhava. Os estudantes ripostaram arremessando garrafas, pratos, e outros objetos ali à mão, em cima das mesas. Eu e alguns colegas, encurralados lá ao fundo, na última fila de mesas, tínhamos que pensar rapidamente numa forma de escaparmos ilesos. Assim, esgueirámo-nos bem junto à parede lateral à direita e conseguimos alcançar a saída. Respirámos fundo, de alívio, correndo em direção às escadas para o primeiro andar. Mas a polícia de choque, a postos, diariamente, dentro de uma carrinha escondida no matagal, ao lado da Faculdade de Letras, onde hoje é a Torre do Tombo, já tinha sido alertada. Seguiram-se bastonadas cegas e investidas canídeas contra os estudantes e quem quer que se encontrasse na escadaria, ou seja, no lugar errado na hora errada. Através da parede de vidro da biblioteca onde me refugiei, vi colegas meus entrando, em sangue, para a ambulância. manhã em família, 25 de abril de 1974 No dia 25 de abril de 1974, cerca das 7h30, a minha Mãe abriu a porta da rua, como de costume, recolheu o saco do pão que o padeiro deixava todos os dias pendurado na maçaneta da porta e pegou nas duas garrafas que o leiteiro trocava por outras vazias. Cerca das 8h00 preparávamo-nos para o que deveria ser um dia normal. Após o pequeno almoço, consistindo de café com leite e pão com manteiga, o meu pai, professor de português, latim e grego iria dar as suas aulas no Liceu Camões e a minha mãe, professora de matemática, seguiria para o Liceu Dona Leonor. As três filhas mais velhas, de sete irmãos (eu sou a segunda), já andavam andavam na Faculdade, dois irmãos e uma irmã estavam no Liceu e o mais novo no Ciclo Preparatório (5o e 6o anos hoje). No andar moderno e espaçoso que os meus pais haviam comprado uns anos antes, viviam também a minha avó materna e uma empregada para cuidar dela. De repente o telefone tocou. Uma chamada a uma hora inusitada e que foi o arauto de uma nova vida para a nossa família e para todas as famílias portuguesas, aqui, em Portugal, e principalmente no Ultramar, como eram designadas as cinco colónias portuguesas em África e os dois pequenos territórios na Ásia, Timor-Leste e Macau. Para os portugueses filhos-do-Império, Portugal era a Metrópole. Pela rádio fomos avisados que não devíamos sair de casa, pois havia sido declarado recolher obrigatório, devido ao movimento de tropas nas ruas. Milhões de portugueses se interrogavam se a sublevação militar seria um golpe da extrema direita, da esquerda ou de um movimento simplesmente democrático. Marcelo Caetano era atacado tanto por ultraconservadores por “evoluir” demasiado na continuidade do regime como pelos defensores de uma transição rápida para a democracia. cocktail explosivo Apesar da censura prévia, o “lápis azul” do regime, a imprensa foi revelando um diferendo entre o governo de Marcelo Caetano e os oficiais de carreira, provocado pelo Decreto # 353/73 1973, o qual conferia os mesmos direitos e regalias a um número crescente de capitães de “tubo de ensaio”, isto é, feitos à pressa, que usufruíam os militares “de carreira”. Este decreto acabou por despoletar uma vaga de indignação entre estes últimos e precipitou a demissão do General António de Spínola do cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas por ter tomado o seu partido. Mais dois ingredientes adicionados ao cocktail já de si explosivo do descontentamento da população em geral, principalmente da nova geração que projetava o seu o futuro vivendo em paz e plena fruição de todas as liberdades

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democráticas e direitos cívicos que constituíam os pilares das sociedades ocidentais modernas. Sem polícia política, sem Censura e livre para votar no partido da sua escolha. Tardava aquela sensação de liberdade, de poder expressar soluções para acabar com a Guerra Colonial, a qual atingia todas as famílias de todos os estratos socioeconómicos e ceifara já a vida a 9.000 jovens portugueses e portugueses-africanos. Muitos jovens abandonavam o país antes de completarem os dezoito anos a fim de fugirem à “chamada para a inspeção”, que conduziria ao serviço militar e logo a seguir ao inevitável embarque para África. Alguns passaram a fronteira após já terem feito o “juramento de bandeira”, passando também imediatamente para a lista dos desertores. Foram bem recebidos em países como a França, a Suécia e o Canadá, cuja postura oficial era contra o “colonialismo” e “imperialismo”, considerados ultrapassados pela Europa ocidental do pós-guerra. o poder das palavras Para fazer explodir este cocktail só faltava o rastilho: o livro Portugal e o Futuro, que chegou às livrarias em fevereiro de 1974 e foi um bestseller instantâneo, pois dizia precisamente o que os portugueses queriam ouvir. O autor era o General António de Spínola, prestigiadíssimo veterano da Guerra do Ultramar e a sua mensagem era muito clara e música para os ouvidos de todos: a solução para a guerra em África não era militar, era política; o governo português tinha que negociar com os movimentos de libertação. O General defendia o direito dos territórios africanos sob administração portuguesa à autodeterminação, mas não recomendava independência total e imediata. Federalismo era o sistema que preconizava. Ele próprio teria já encetado conversações secretas com alguns dos movimentos de libertação beligerantes e com o acordo velado do governo. operação militar de 22 horas Às 22h00 do dia 24 de abril de 1974, o Major Otelo Saraiva de Carvalho chega ao Regimento de Engenharia Nº1, na Pontinha, em Lisboa, onde, com a ajuda de outros oficiais, monta um centro de comando, escondido num anexo. Daqui coordenaria as operações militares planeadas para todo o território nacional e consideradas necessárias para imobilizar os pontos vitais do Estado. A canção Depois do Adeus, interpretada por Paulo de Carvalho e que representaria Portugal no festival da Eurovisão daí a uns dias, foi para o ar nos Transmissores Associados de Lisboa às 22h55 como palavrapasse para o início das operações. A primeira quadra de outro tema, Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso, foi transmitida à 00h20 pela Rádio Renascença, a Rádio Católica Portuguesa, como segunda palavra-passe e a luz verde para os militares envolvidos no golpe militar em todo o território. O Comando General Militar de Lisboa, o bastião das forças do Regime, o Aeroporto Internacional da Portela, todas as estações de rádio, a RTP, o Banco de Portugal, todos os Ministérios e demais organismos públicos foram ocupados pelos militares revoltosos. A Marinha e a Força Aérea declinaram o convite para aderir ao golpe militar; afiançaram, porém, o MFA de que permaneceriam neutras. Pelas 4h26 do dia 25 de abril de 1974, o jornalista Joaquim Furtado lê o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas aos microfones do Rádio Clube Português. Na Escola Prática de Cavalaria, em Évora, o capitão Salgado Maia, trinta anos de idade e responsável pela artilharia pesada, recebeu o sinal para seguir para Lisboa com os seus 240 homens (todos voluntários) em veículos de combate/tanques Patton M47. Ficou para a história a imagem do jovem capitão colocando a vida em risco ao caminhar de encontro ao Brigadeiro Junqueira dos Reis, o único oficial de alta patente que se manteve leal ao governo do Regime. Na Ribeira das Naus, no Terreiro do Paço/Praça do Comércio em Lisboa, Salgado Maia, erguendo bem alto um lenço branco, avançou no intuito de convencer o Brigadeiro a juntar-se pacificamente à Revolução, mas este ordenou “fogo”. Os seus homens não obedeceram e o Capitão Salgado da Maia tornou-se o herói da Revolução dos Cravos.

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ordem de rendição a uma nova ordem O presidente do conselho de ministros, Marcelo Caetano, hoje denominado primeiro-ministro, foi informado do que se passava às 5 da manhã pelo Major Silva Flores, diretor da DGS, antiga PIDE, a muito temida e sinistra polícia política. Reconhecia que a situação era deveras “grave”, que “a revolução está na rua” e aconselha Marcelo Caetano a refugiar-se no Quartel General da Guarda Nacional Republicana no Largo do Carmo, onde chega, de facto, às 5h30. Às 15h15, são dados dez minutos ao comando Central da GNR para se render. Instala-se o pânico também dentro do quartel do Carmo onde viviam militares da GNR com suas famílias. Eram 15h25, quando se ouviram disparos contra a fachada do quartel. Marcelo Caetano rende-se e transfere o governo de Portugal para o General António de Spínola a fim de evitar o perigo de o poder “cair na rua”. a caminho do exílio No dia 26 de abril de 1974, às 7 da manhã, Marcelo Caetano, escoltado pelo General Spínola e pelo Capitão Salgado, entra numa Chaimite que os conduz ao quartel da Pontinha. No dia seguinte, o último presidente do conselho de ministros, o Presidente da República, Américo Tomás e outras figuras relevantes do Estado Novo encontram-se no Aeroporto de Lisboa, de onde partiram para o Funchal, Madeira. Um mês depois Marcelo Caetano chegava ao Brasil, país de exílio, onde retomou uma carreira académica brilhante como professor e autor na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro e veio a falecer em 1980. missão cumprida Às 19h50 o MFA informa os portugueses: “concretizou-se a queda do Governo, tendo Sua Exª o Professor Marcello Caetano apresentado a sua rendição incondicional a Sua Ex.ª o general António de Spínola.” Às 20h00, aos microfones do Rádio Clube Português, o Movimento das Forças Armadas “proclama à Nação a sua intenção de levar a cabo um programa de salvação do país e da restituição ao povo português das liberdades cívicas.”2 Era 1h30 do dia 25, quando os portugueses viram, finalmente, na televisão a preto e branco as novas caras do poder em Portugal: Junta de Salvação Nacional, composta pelo seu presidente, o General António de Spínola, e mais seis militares de alta patente representando os três ramos das Forças Armadas. armas e cravos Não se sabe ao certo por que razão e como é que os cravos vermelhos se tornaram o símbolo da Revolução de 25 de Abril. Uma estória credível é a de uma florista que fazia uma entrega de um grande ramo de cravos vermelhos num hotel, quando foi surpreendida por um soldado que num gesto brincalhão lhe surripiou um e o colocou na ponta do cano da sua G3. Num gesto igualmente espontâneo e de agradecimento aos soldados por estarem a restituir a Liberdade aos portugueses, a dita senhora pôs-se a distribuir cravos por todos os militares. O cravo vermelho tornou-se também símbolo da transição pacífica para a democracia, a qual influenciou outros países como a vizinha Espanha. Uma transição que, de facto, não foi totalmente pacífica. No dia 25 de abril foram assassinadas quatro pessoas a tiro por agentes da DGS. Por outro lado, as Forças Armadas Portuguesas depuseram as armas em África, mas em Angola e Moçambique militantes dos movimentos de Libertação continuaram a disparar, agora uns contra os outros e contra civis. revolução guina para a esquerda O triunfo dos Capitães de Abril foi saudado com genuíno entusiasmo e esperança a rodos pela grande maioria dos portugueses que ansiavam por Paz e Liberdade, sem dúvida. O MFA prometia Democracia,

                                                                                                              2  abreviado    

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Descolonização e Desenvolvimento, os três Ds. De imediato foram tomadas algumas medidas, tais como a libertação de todos os presos políticos e a abolição da Censura. A DGS foi desmantelada e foram legalizados os sindicatos e partidos políticos. Álvaro Cunhal, líder tão carismático quão misterioso do muito organizado e até então clandestino Partido Comunista Português, e Mário Soares, líder do Partido Socialista, fundado em 1973, foram as rostos mais conhecidos da oposição ao Regime entre muitos outros exilados que regressaram ao país no famoso “comboio da Liberdade”. Para Salazar e seu sucessor Marcelo Caetano, os comunistas eram o verdadeiro inimigo do Estado Novo. Perseguidos pela DGS, operavam principalmente no Alentejo. O PCP prometia terra aos sem-terra no Alentejo e melhores salários aos assalariados nas fábricas da cintura industrial de Lisboa, na margem sul do rio Tejo. Nas universidades, o PCP também tinha alguns representantes, que, no entanto, se confundiam com simpatizantes de outros movimentos esquerdistas. Logo a seguir ao 25 de Abril, o PCP e outros movimentos de esquerda, chamaram a si os valores da Revolução e em modo de campanhas de esclarecimento, procuraram incutir nas populações a ideia que a Revolução visava estabelecer um regime socialista. verão quente 1975 O Partido Comunista Português e outras forças políticas da esquerda tentaram influenciar o MFA no sentido de estabelecer em Portugal um regime pró-soviético. Inicialmente, conseguiram transpor dois obstáculos. O primeiro foi a 28 de setembro de 1974, quando o primeiro-ministro, General Vasco Gonçalves, pró-comunista, e outros militares obrigaram o General Spínola a demitir-se de Presidente da Junta de Salvação Nacional após este ter alertado os portugueses para o perigo eminente de uma outra ditadura, desta vez da esquerda. O governo reagiu com um decreto e o MFA com uma determinação proibindo uma manifestação da “maioria silenciosa” de apoio a António de Spínola. Uma vitória da ala mais à esquerda do MFA que gerou rumores sobre uma suposta lista negra de militares e civis ditos “reacionários” a eliminar pelo COPCON (Comando Operacional do Continente, chefiado pelo major Otelo S. de Carvalho), da qual constava António Spínola. Nova vitória da esquerda, mas foi sol de pouca dura, pois nas primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte, a 25 de abril de 1975, após quarenta e um anos de um regime de partido único, o Partido Socialista obteve 38% dos votos e o PCP não foi além dos 12%. A participação foi de 90% numas eleições que suscitaram curiosidade em todo o mundo. O Diário de Notícias revelava a presença em Lisboa de seiscentos jornalistas, na sua maioria franceses, espanhóis, ingleses e americanos, mas também da União Soviética, Brasil e Austrália. Os duzentos e cinquenta deputados eleitos tinham um mandato popular para redigirem a constituição da 3ª República. Assim que os trabalhos foram dados por concluídos, a 2 de abril de 1976, a Assembleia Constituinte foi dissolvida. Porém, este período foi tudo menos pacífico tanto na Assembleia Constituinte, como na sociedade portuguesa em geral, nas colónias em África e no pequeno território de Timor-Leste na Ásia. Apesar da vitória clara do PS e do PSD nas eleições para a AC, o PCP acabou por dominar o governo de coligação e apressou-se a implementar uma agenda de reformas a caminho do “socialismo”. Na ordem do dia, além das nacionalizações, passaram a estar saneamentos (purga política) dos “fascistas” na administração pública e nas empresas públicas. O pró-comunista Presidente da República, General Costa Gomes, no dia das eleições, fez mesmo um apelo aos eleitores para que votassem “em partidos autênticos que não barrem a via socialista”. batalha da Guerra Fria A OTAN/NATO entrou em pânico. Um regime pró-soviético num país da NATO não seria tolerado. Em outubro de 1974, em Washington DC, o secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger alertava o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Mário Soares, e o Presidente da República, General Costa Gomes, para a infiltração comunista no governo, nas instituições, nos média e nos sindicatos. Mário Soares refutou as alegações, mas Kissinger não ficou nada descansado. Replicou que ele, Mário Soares, podia muito bem vir a ser ”o Kerenski português”. Ao que Mário Soares terá retorquido “Mas eu

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não quero ser o Kerenski!” “O Kerenski também não queria!” Disse Kissinger. Pelo sim e pelo não, Washington nomeia uma equipe de três diplomatas fluentes em português para a sua embaixada em Lisboa. Um deles era o novo embaixador, Frank Carlucci, um quadro da CIA que acabou por ter um papel crucial nas relações entre Portugal e os EUA nesta época conturbada. De Lisboa, envia um relatório a Washington, salientando que Mário Soares é que tinha as rédeas da situação. Mário Soares estava, de facto, determinado a livrar o país da “ameaça vermelha” e no “verão quente” de 1975, tornou-se a voz mais sonante e o líder mais empenhado em estabelecer e cimentar a democracia em Portugal. Uma vaga de indignação contra a “ditadura comunista” começou a formar-se no norte e centro do país e rapidamente alastrou para sul. Os protestos descambaram em violência; no norte foram vandalizadas e incendiadas várias sedes do Partido Comunista Português. A situação era tensa e perigosa. O confronto entre as forças moderadas e esquerdistas tornou-se inevitável, quando a 20 de novembro, Vasco Lourenço, um militar moderado, é nomeado para o comando da Região Militar de Lisboa, em substituição de Otelo Saraiva de Carvalho. Na manhã de 25 de novembro de 1975, paraquedistas ligados a facções militares esquerdistas ocupam quatro bases da Força Aérea e o Comando operacional deste ramo em Monsanto. Foi a ordem rápida do General Ramalho Eanes para atacar estas bases e, assim, dominar os militares revoltosos, que evitou uma guerra civil. Determinante foi também a postura do Presidente da República, General Costa Gomes, que embora fosse simpatizante comunista, apoiou a intervenção militar. desenvolvimento e se ...? Em 1973, a revista TIME publicou um artigo sobre “o milagre económico português.” A economia portuguesa vinha crescendo em média 7% por ano, apesar do esforço da Guerra Colonial absorver 40% do Orçamento do Estado. Havia um fluxo contínuo de investimento estrangeiro, as multinacionais estabeleciam-se cada vez em Portugal, a indústria metalúrgica e os estaleiros navais cresciam a olhos vistos. A atividade na Bolsa de Valores era intensa e investir em ações era um jogo no qual o ganho era a norma. Fizeram-se pequenas e grandes fortunas na compra e venda de ações. O turismo estugava agora o passo que iniciara na década de sessenta. Nas praias mais conhecidas de norte a sul do país, viam-se todos os anos mais e mais turistas, principalmente espanhóis, franceses, ingleses e alemães. E as famílias portuguesas afluíam também à beira-mar em número cada vez maior de ano para ano, sinal visível de uma classe média em ascensão. Apesar da postura salazarista de que o papel e o lugar femininos eram restritos ao seio da família, nos anos ’60 as mulheres afluíam ao mercado de trabalho a um ritmo alucinante. A educação e qualificação dos portugueses é que não acompanhavam este ritmo, de todo. No início da década de ’70, era evidente a discrepância entre a baixa qualificação dos jovens e a procura crescente de trabalhadores qualificados no setor terciário. Em 1974, Angola era a segunda maior economia em África, logo a seguir à África do Sul. De facto, Angola desenvolveu-se mais em treze anos de guerra do que em 500 anos de História. O “milagre” português em Portugal e na nossa maior colónia, porém, não teve assim tanto de milagroso. O arranque do crescimento económico deveu-se principalmente à abertura de Portugal ao investimento e comércio externos, resultante de Salazar ter, finalmente, autorizado a entrada de Portugal na EFTA (European Free Trade Association), Associação Europeia de Comércio Livre, em 1960. A Revolução de Abril de 1974, criou naturalmente expectativas nos portugueses de continuação da melhoria das suas condições de vida. Afinal o que é que podia correr mal agora que tinham recuperado a liberdade e viam, finalmente a paz ao fundo do túnel? E se a transição para a democracia e a paz tivesse sido pacífica sem terramotos socio-político-económicos? E se os ventos das forças pró-soviéticas, que levaram à nacionalização de 60% da economia em seis meses, não tivesem assolado o país? E se os líderes militares que restituíram aos portugueses a liberdade e os governantes que se seguiram tivessem conseguido evitar as guerras civis em Moçambique e Angola? E se a economia portuguesa tivesse continuado a crescer a 7% ao ano em democracia e em paz?

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as pessoas são o que verdadeiramente importa Estima-se que centenas de milhares de pessoas tenham perecido na guerra civil que eclodiu em Angola logo a seguir à proclamação da independência em 1975. A paz só foi alcançada em 2002 com a morte de Jonas Savimbi, líder do movimento de libertação pró-ocidental UNITA, hoje o maior partido político da oposição. Cerca de 300.000 portugueses/colonos, portugueses/europeus nascidos na África e africanos/portugueses abandonaram Angola através da “Ponte Aérea” da TAP, a companhia aérea nacional, montada por um período de oitenta e quatro dias. Homens, mulheres e crianças fugiram em pânico da violência da guerra civil. Portugal terá recebido um total de 500.000 retornados, como ficaram conhecidos. Não tendo o termo nada de abonatório, foi considerado mesmo ofensivo por aqueles que tinham nascido em África ou consideravam Angola ou Moçambique o seu país. Eram simplesmente refugiados. Não são conhecidos os números das pessoas chacinadas a caminho do aeroporto ou algures no vasto território angolano. Foi o maior êxodo da história colonial da África e a página mais negra da História de Portugal. Na ONU calaram-se as vozes contra o colonialismo português assim que Portugal concedeu a independência a todos os cinco territórios africanos. À violência e à violação sistemática dos direitos humanos em Moçambique, Guiné Bissau e principalmente em Angola, a comunidade internacional reagiu com silêncio. Ideologias sobrepuseram-se às pessoas, que apenas desejam viver em paz neste planeta, num “mundo sem mapas”, como expressa a personagem do filme Um Paciente Inglês, que ganhou vários Óscares em 1997. Em Portugal, o dia 25 de abril é feriado nacional, Dia da Liberdade. Comemora-se a Revolução dos Cravos com uma cerimónia formal na Assembleia da República, casa da democracia. A maior parte dos deputados ostenta na lapela um cravo vermelho e um representante de cada partido e o Presidente da República proferem discursos sobre as conquistas de abril e o que falta cumprir. Rematam a sua intervenção agradecendo aos “Capitães de Abril” por terem devolvido a Liberdade aos portugueses. Mais de quatro décadas volvidas, tarda cumprir um dever nacional: o Senhor Presidente da República pedir um minuto de silêncio em memória das centenas de milhares de portugueses, portugueses-africanos e timorenses, vítimas de um processo descolonização que redundou em tragédia e lhes usurpou o direito à vida. “Nas colónias portuguesas, os civis portugueses, muitos nascidos em África, ficaram sozinhos com a História contra eles.” Observou o militar Silvestre Félix. "A História é também a soma total de tudo que podia ter sido evitado.” Afirmou Konrad Adenauer 3, eleito Chanceler da República Federal da Alemanha em 1949. © Delfina  M.  Videira  G.  Teixeira  Tamulonis  2018  

                                                                                                              3  1876-­‐1967    

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Art 25 de abril, 1974 eu estava lá  

Portugal, 25 de abril, 1974. Factos e experiência pessoal.

Art 25 de abril, 1974 eu estava lá  

Portugal, 25 de abril, 1974. Factos e experiência pessoal.

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