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Vida

secreta X

REVISTA DE LITERATURA E IDEIAS

2ª = Donizete Galvão, Elvira Vigna, Juliana Frank e muito +


DIVULGAÇÃO

Comentada no site vidasecreta.weebly.com Esta revista é uma surpresa no meio online. Trará mais edições? Desejo que o secreto se espalhe. E vida longa! Helena Brandão, Salvador, BA Fazia tempo que não lia, ou melhor, que eu não dava esforço para ler algo duradouro e bem feito na web. Claúdia Ferraz, Belo Horizonte, MG Também escrevo e é um prazer saber que vozes tão expressivas aparecem assim para admiradores. Sérgio Rodolfo, Pombos, PB


 Carta ao leitor z

Quem diria, mais uma vez. E com muito regozijo pelo êxito, ofertamos a tão aguardada segunda edição. Agora, que se diga, vamos movidos pela segurança do que funcionou, do que se deseja eficaz no meio literário online. E nisso, nesse segredo solto pelo compartilhar, surgiu mais perícia na composição. As exigências também nos foram efetivas junto às críticas e louvores pelo primeiro número. E dessa forma nos firmamos, já nos primeiros passos, como veículo de acolhimento para os autores iniciantes. Uns, mais experientes, foram atraídos, e aqui aparecem no interesse de encontrar o novo tão enviesado no difícil de lançar-se com grande projeção. Nesta #2, fomos presenteados com autores publicados pela renomada Companhia das Letras: Elvira Vigna e sua prosa antisentimental; Juliana Frank com sua ironia aguçada; Paulo Nunes, que é poeta e compositor, com o seu O corpo no escuro. E, ainda, Donizete Galvão, das perdas súbitas de 2014. Porém a novidade é que contamos com textos não ficcionais, também fotografias, na seção Modo de ver, trabalho das duas entusiastas Taciana Oliveira e Vanessa Carvalho que escrevem ficção e clicam o instável dos lugares. Acenamos Geórgia Alves e Jr. Bellé, ambos jornalistas, para perceber nelas, isto é, trazer mais encanto a quem permite brilhar os olhos diante destas páginas. Com textos e entrevistas, reveja Adrienne Myrtes e Bruno Latorre, dois autores da #1 em Ininterruptos. A apresentação de ideias no Quem te toca, por Pedro Paz, também está de se buscar. Já como Leitor secreto, convidamos o escritor e jornalista Cícero Belmar para resenhar detalhes desse recorte. De saída, Priscila Merizzio, nossa mediadora da cena cultural. Mas há muito mais. Boa leitura, e até breve.

João Gomes Editor/Idealizador


JOUKE BOS

 Colaboradores

Quem te toca?

                 

Juliana Frank Ana Guadalupe Raphael Gancz Donizete Galvão Regina Azevedo João Gomes Carla Diacov Adriane Garcia Elvira Vigna Bobby Baq Eder Asa Tânia Consuelo Jussara Salazar Valdir Oliveira Paulo Nunes Mariposa Cartonera Boca Santa Três Meia Cinco


Modo de ver

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Adrienne Myrtes Bruno Latorre [Aqui jaz um ignoto] Taciana Oliveira Vanessa Carvalho Graça Taguti Cícero Belmar

 2ª Vida Secreta  Arte, edição e projeto gráfico João Gomes  Revisão Luna Vitrolira  Colaborações especiais Geórgia Alves, Jr. Bellé, Pedro Paz e Priscila Merizzio  Interação vidasecretacontato@gmail.com facebook.com/leiavidasecreta

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Ininterruptos

Leitor secreto


LUCIANA URTIGA

Juliana Frank Nasceu em SP, em 1985. Roteirista e escritora, publicou Quenga de plástico e Cabeça de pimpinela, ambos pela 7Letras, e o romance Meu coração de pedra-pomes, do qual reproduzimos, em 2012 pela Companhia das Letras.


TAKUROU TOYAMA

 Meu coração de pedra-pomes É parte da acaralhação da vida ficar lutando contra a sujeira. Me pego limpando esse chão toda hora. Eu sou paga pra lutar nesta batalha contra a imundície. Existem alguns tipos de sujeira aqui, as partículas sólidas, fuligem, poeira, e as de origem oleosa, como a graxa e manchas indecifráveis. Também tem as que mais amedrontam as pessoas: bactérias, germes e gotas de sangue. Enfim, as porcarias naturais. O mundo está repleto de misofobia, o medo patológico da imundície. Limpo até poder ver meu reflexo nessa ilustríssima rua de limpeza onde desfilam doenças. Por que não o bordel?, eu me pergunto. Mas não me respondo nada. Vou limpando com o esfregão amarelo como se ele fosse uma seta que está sempre à minha frente. Só que aqui já está limpo, espelhado. O hospital deve ser higienizado de hora em hora. Tem sangue de pacientes semivivos por todos os cantinhos. Gosto de esconder alguma sujidade, dessas microscópicas, em cantos imperscrutáveis. Me dá prazer reconhecê-los, dia após dia, intactos! Livres da vassoura dos outros funcionários com os olhos atentos da assepsia. Chamo essas sujeirinhas de pequenas heroínas. As pessoas, no geral, não gostam. Tratam-nas como se fossem memórias de ascrilégios, carnificinas e crimes. Muito mal informados, todos. É só olhar para o chão e ver o tamanho real das intervenções de poeiras e manchas. Não existe nada a ser decifrado. Não se trata de uma ciência oculta. Não há mistérios por trás da sujeira. Já está quase na hora da saída. Quando eu chegar

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em casa, vou fazer a macumba que eu mesma criei. Tirar uns pentelhos e colocar no liquidificador, misturar na sopa de músculo. Vai ficar um bálsamo. O José Júnior adora sopa. O José Júnior é meu amante. Adoro dizer “amante”, está em desuso. E ele só toma sopa, desde que a mãe morreu. Sopa também é uma coisa antiquada. Me enche de tédio ver alguém sorvendo aquele líquido rançoso de comida massacrada. José Júnior também só senta do lado direito do sofá, porque o lado esquerdo era o da mãe. Ele é um perfeito velho tradicional. A diferença é a pouca idade. Não bebe, acha infantil cuspir em corrimão, dar nomes a besouros ou costurar borboletas. Enfim, meus passatempos preferidos. Mas José Júnior, além de ser um bom ateu praticante, é um homuserectus. Seu pau está sempre disponível. Na praia ele fica ruborizado, porque o pau se anuncia como uma afronta no sungão azul maneiríssimo. Jantares de família, com todos compartilhando inutilidades e escondendo suas deslealdades, lá está o pau quase furando a calça jeans. Todos ficam em silêncio. As tias se entreolham na esperança de que as outras não tenham notado. Pensam: “Espero que Gessi não tenha visto. Não quero compartilhar este segredo secretíssimo com ela”. Se a outra perceber, está feito o desastre. Todas vão comentar sobre a beleza do pão saído do forno e engolirão em seco o pau inconveniente do sobrinho. Lembram dele no carrinho de bebê, de sua meiguice no olhar. Ah, tempos passados. Agora essa miséria. O pau duro desfilando pela sala. Uma miséria! Nair prossegue seu pensamento: “Tomara que Gessi não tenha visto, ou vai pensar secretamente em tocar.

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Há anos não vê um pau. Quiçá o chaveirinho que seu ex carregava entre as pernas. Aquele homem, sempre de verde, com piadas enfadonhas, tinha o pau chaveiro. Uma lembrança de pau. Uma amostra grátis de pau. Tenho quase certeza, mas jamais irei perguntar a ela. Tem, sim. É um homem inseguro. Tem!”. Nair fecha seu pensamento, de forma forçada, engole seco e diz: — Gessi, meu bem, passe o pernil. Gessi passa o animal adornado com abacaxis, pensando: “Só dá pernil nessa casa, não sei como ela suporta fazer todo sábado. Mas é uma receita que funcionou, não quer errar a mão. Deve ter desconto no açougue”. Depois diz, convicta: — Adoro seu pernil, Nair. É melhor que o do Estadão. Se eu fosse a mulher oficial de José Júnior, chegaria gritando na sala: “Este homem tem um pau, ouviu? Tem um pau!”. É assim que eu imagino as tias, sempre pérfidas, com suas pernas compridas e desproporcionais demais ao resto do corpo. E, portanto, quem vai me questionar? José Júnior acha que minha imaginação fede. “Exagerada e doentia”, ele diz. Mas, xoxotamente falando, comigo está feliz. Quando ele está no lugar que eu chamo de “mansão dos falidos”, com a família toda reunida em comunhão de males, mando fotos comoventes para ele. Coloco uma lingerie e vou clicando enquanto tiro as peças com delicadeza. Começo com as alças do sutiã, depois vou descendo até ficar completamente nua. Sempre tiro fotos

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dos meus lábios ferinos, abertos como se gemessem. Vou mandando pelo celular aos poucos, é sempre importante demorar entre uma foto e outra, para deixá-lo entretido no meio da refeição. Ele implora por mais fotos, ruge, promete joias e sapatos de pele de peixe. Eu mando. Depois, para finalizar com beleza o serviço, ligo para ele e me masturbo com força e habilidade. Daí gozo bem rápido e alto. Nesse momento, ele é obrigado a levantar e ir lá fora, no quintal da mansão em ruínas, me ouvir gemer. Quando ele chega aqui na minha casa, sentamos na minha cama de meteorito e ele logo me pede para nunca mais fazer isso, que é vexatório e Constrangedor. Digo, revoltada: — Como assim, vexatório e constrangedor? Ou uma coisa ou outra. Ele não se importa: — Dá no mesmo. — Como, dá no mesmo? São completamente diferentes. — Nada disso. São sinônimos. Levanto do sofá, inconformada: — Não acredito em sinônimos. Nesta casa eles não são bem-vindos. Ou vexatório, ou constrangedor. Escolhe um! Pego no pescoço do meu amante e grito baixo: — Escolhe um deles! Ele arregala os olhos de pânico: — Vexatório! Se é assim, faço de propósito, e também para estimu-

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lar a ereção e divertir o imaginário deletério das tias. Ontem, já mais calma, pedi para ele os presentes prometidos, muito educada. Nunca vingou. Por isso tenho uma listinha, que penduro sempre no espelho em frente à minha cama. Quando ele me come de quatro, pode ver suas pendências. Depois de gozar, chora e jura voltar para a mulher original sem pecado capital. Estou planejando outra traquinagem com o José Júnior, quero fazer com que ele sente do lado esquerdo do sofá. Já tenho um plano. Vamos ver se funciona. Macumbas sempre funcionam, cada dia eu invento uma inédita. O José Júnior, com sua falta de emoção e ausência de ímpeto para abrir a boca, faz com que todos acreditem que ele é bom. Durante nossos atos sexuais xinga Deus o tempo todo: “Deus é um pulha, Deus é um crápula, Deus é um menisquente”. Mas se comporta como um bom religioso praticante. Anda por aí com a cruz na mão, o terço na cintura, a cara apatetada. Conclusão: todos acreditam na sua beatificação interpretada. Descobriu cedo, o exímio pesquisador da vida, que o bom é aquele que cala. Numa mesa em que todos urram suas opiniões, lá está José Júnior, triunfando em sua apatia e sempre levando vantagem. No fim da reunião, os convidados o elegem: o correto. Quando eu o sacudo e jogo sua cabeça na parede, ele diz: “Não senti nada”. É tão tétrico ser Xosé. Às vezes, quer dizer, sempre acho que ele vai desmembrar sua mulher legítima e ocultar as partes num vaso de uva, lá na mansão dos falidos. Depois, vai vir aqui em casa, com aquele sorriso frouxo de menino cria-

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do pelas tias. E, aí, vai começar a maldizer o Deus Todo. Até ser a minha vez de ser jogada contra a parede. Para me prevenir, toda vez que encontro meu amante uso um capacete. Passeamos, os dois, pelas ruas. Todos estranham o objeto redondão na minha cabeça. Mais de uma vez já disse para os caixas de supermercado que estava treinando os patins. Ninguém acredita. Mas ele, o crédulo, acha normal. Acha tudo normal e bom. Menos Deus. Só eu sei desse seu segredo terrível. Mas ainda pretendo descobrir outros. Por exemplo: por que tem essa mania de querer ficar só com a mulher dele? Eu imagino que ela seja frígida, que trepe apenas na horizontal, e tem os gemidos parecidos com o som de uma buzina, e morde travesseiro. Não, mentira. Ela não geme, não goza. A mulher dele nunca goza, não na minha imaginação. Ao contrário, ela retrai a xoxota, dá tapas na cara dele, xinga e grita: “Goza logo! Goza fora!”. A mulher dele sempre quer o esperma fora. Só eu coleciono esperma dentro de mim. Às vezes, transamos várias vezes e não me banho, pra ir juntando o esperma. Depois eu bebo só umas gotinhas. O resto eu guardo num vidrinho de veneno que comprei em Paris pela internet. Tudo à vista, com o dinheiro do hospital. Não da limpeza, com o dinheiro de coisas escusas que faço lá dentro, e sempre me pergunto: por que não o bordel? Mas essa é outra história. Termino de passar meu enorme esfregão e me preparo para me retirar à insignificância do quartinho de empregados. Preciso me trocar. Tirar essa roupa sem predicados e ir embora como se o caminho não fosse retroativo (uma rua que sumisse depois que eu passasse,

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construída para eu nunca mais voltar). Mas um belo rapazote me aborda, quer saber que horas são, onde fica o bebedouro e o setor de infectologia. No começo, eu o considero bonito. Mas parece muito com Marjinho, o marido da minha mãe. Por isso, começo a detestar esse rapazote. Quando não gosto de uma pessoa, odeio de brinde qualquer outra que se assemelhe fisicamente ou tenha, por uma coincidência, o mesmo nome que ela. Também estou enraivecida por luzir o chão, e, sem perceber, esse simpático moço pisa com seus sapatos sujos sobre minha limpeza, deixando pegadas como as ancestrais, só que de mocassins. Oh, Malditos Deuses Todos, odeio mocassins! Ele fixa um sorriso no rosto e me pergunta novamente suas dúvidas. Pessoas simpáticas são sempre falsas. Como o detesto! Gostaria de dizer isso a ele. Mas não vou dizer. Pelo menos não agora. Dou as informações embaralhadas. Ele desfaz o sorriso cansado do rosto, descontrai os músculos e relaxa. Continua caminhando pelo exlímpido chão e o deixa completamente preto. Por onde andou? Ponho meu esfregão para funcionar e tento me concentrar novamente no José Júnior. Todos os dias, para limpar o chão, eu relembro ou imagino coisas. Quando minha criatividade me abandona, imagino as mesmas cenas do dia anterior, só que em cores diferentes. Amanhã, se eu estiver infértil, vou imaginar o José Júnior em preto e branco, e ficará mais dramático, o que combina com ele. A fiscal da limpeza, Lucrécia, passa com seu nome

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vilanesco, narizinho empinado de princesa etrusca, e flagra as marcas de passos. Me acusa, com seu olhar inquisidor, de não ter feito nada: “Dá um jeito nisso”. Faço que sim num movimento rápido de cabeça, fingindo uma obediência silenciosa. Não existe obediência barulhenta, não é mesmo? Ela aceita o gesto, mas desconfia secretamente que é falso. Levanta seu nariz de cão farejador disfarçado de imperioso, infla o peito como um pavão com uma pena enfiada no cu e faz minha expressão favorita: a de quem está trabalhando. Essa aí não precisa pegar no pesado, já sabe fazer de conta o sofrimento e a severidade. Esperta, ela. Eu ainda não sei fazer essa cara capaz de enganar multidões a respeito da minha eficiência e utilidade na Terra. Mas um dia desses aprendo.

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Ana Guadalupe Nasceu em Londrina, PR, em 1985. Seus poemas foram publicados em antologias, sites e revistas literárias no Brasil, Espanha, Chile, México e Estados Unidos. O seu primeiro livro, Relógio de pulso, foi publicado pela 7Letras em 2011. Escreve no blog Roxy Carmichael nunca voltou.


ANDREW B. MYERS

Vamos perder e retornar o contato vamos perder o contato? visto que não há motivo para mantê-lo por meio de encontros e recados se a cada dia acordamos outro e não vamos manter nem em sonho nosso outro de ontem outrora foi mais fácil cortar os laços todos vamos retomar e perder o contato só no arquivo permanente do passado o outro ficará pra sempre lacrado prêmio que apenas antecipamos cromo raríssimo pacote intacto

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Lagarta na banana quantas frutas serão por mim analisadas com atenção em busca de lagartas até o fim da vida lembrando aí que esqueci de levar os óculos pro mercado deve ser por isso também a tontura cada volta na prateleira é um zumbido novo nas orelhas a vontade mista de ficar e ir embora aprendi recentemente a comprar ovos, brócolis, farinha ainda não aprendi a levar companhias: ir ao mercado sem ninguém é mais rápido não é preciso esperar outra pessoa hipnotizada olhando temperos ou chinelos enquanto pães de centeio são por mim esmagados enquanto finalmente encontro a lagarta que vive na banana e jogo longe o cacho 18


M. T. SULLIVAN

O dono do ônibus será aqui embaixo da cadeira ou será o amigo da frente com dor ou doce de leite estragado no estômago os filhos são fortes candidatos ao lado dos leitores em movimento o que pensam esses que leem no transporte público como depois se levantam e saem vivendo uma senhora pergunta se alguém tá sentindo a outra responde que desde o início a primeira diz que aconteceu há pouco todo mundo procura no ônibus o dono do cheiro de vômito como se depois de encontrado este pudesse receber um certificado e cumprimentar os passageiros fui eu que fiz o trabalho imagine obrigado 19


JEFF HAHN

A pior das conexões até parece o horizonte o papel de parede uma tela pintada quando você vem surgindo a gente vê no mesmo horizonte o outro saltando e correndo num esporte que envolve quedas e partes cortadas na paisagem todas as perguntas interrompidas eu querendo saber a sua cor preferida você levantando e caindo como fruta corro pra oferecer água da torneira não sobra nada se um de nós não volta

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JEFF HAHN

Quando cortam a internet quando cortam a internet coisas absurdas acontecem mas não sem a tentativa de refresh e do refresco de cogitar antes um lapso passageiro raios insetos no aparelho quando a página some levando embora um link que se perderá pra sempre, é aí que uma coceira aparece então descobre-se que o eu lírico carregava meses de urticária ou brotoejas ou micose da pior espécie quando ninguém mais digita palavra nenhuma, nosso herói ou heroína se levanta com tontura pra ir à esquina descobre árvores inesperadas na sacada, quatro ou cinco parentes desacordados na escada de casa 21


ULRIKE BIETS

Marisa Tomei analisar marisa em mais um dos papéis de esposa do traficante amante do lutador de boxe garçonete que se apaixona pelo cardíaco triste e tímido que tremerá de corpo inteiro ao tocar a pele lisa e macia de marisa marisa é vendedora de calcinhas divorciada com filhos pequenos dançarina no escuro das boates marisa nunca está numa boa e mesmo assim marisa se diverte chega aos 60 com cara de 20 toma limonada e refrigerante tiros sem perder o sorriso facadas na sacada do flat mais facadas numa quitinete 22


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Horrível letra de mão quanto mais feia for a sua letra de mão mais comoção devo sentir em especial com as menores e mais redondas deitadas como pedestre atropelado e deixado nas linhas conhecidas como ‘letra do atrasado na escola’ ou ‘caligrafia de quem já nasceu com as teclas’ alguém que talvez precise usar régua pra alinhar as coisas que talvez precise de ajuda e recuperação que talvez precise de mim talvez precise de mim

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ROS OTTAVIANO

Raphael Gancz Nasceu no Rio de Janeiro, em 1980. Publicou o livro de manifestos poĂŠticos ContraBandos pela Edith. Tem contos em diversas antologias, como Granja e Maus Escritores. Autor de Selva, que integra o coletivo Boca Santa, do qual reproduzimos trecho.


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 Para Selva e mais ninguém Desculpa Não sei onde eu estava com a cabeça eu assumo Nem sabia por onde a minha cabeça andava Só sei, Selva, que ela não estava aqui presa, presente, apoiada no pescoço Talvez estivesse na sala, sentada no sofá, recostada na almofada as pernas pro alto, assistindo a algum programa de auditório safado com dançarinas cavalas Talvez estivesse jantando, cotovelos na mesa, cabeça mal-educada, comendo comida de ontem, deixada dentro da panela o teflon todo arranhado A cabeça em cima da pia, talvez, próxima a pratos sujos de sopa seca detergente de limão nas vistas, bolhas de sabão voando pelas narinas 25


JEFF HAHN

Não sei se a cabeça estava na privada, aos soluços & solavancos, se sentindo enjoada respingos de vômito nas bochechas, no queixo, na barba Talvez estivesse no parapeito, meio tonta, olhando pra baixo reparando como, assim de longe, as pessoas parecem estar sempre a passeio A cabeça inclinada sobre três carreiras de cocaína, talvez as carreiras em cima de uma edição capa dura do Apanhador marcada na página 53 Embaixo do tapete, talvez, a cabeça comendo poeira, lambendo fios de cabelo farelo, formigas, sujeira Dentro do saco de lixo de dias, cabeça-camundongo, revirando sobras de líquidos, cacos de vidro, maços vazios Talvez numa bandeja, a cabeça sendo servida, com batatas ao murro, a imperadores excêntricos, talvez num

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despacho mais elaborado, num ritual satânico improvisado A cabeça enfeitando, talvez, a parede de um caçador canibal Talvez Em mim, Selva eu garanto a cabeça não estava Selva Não tenho vergonha na cara nem no resto do corpo Não tenho vergonha na pele, nas palmas das mãos dentro das orelhas Não tenho vergonha nas pálpebras, nos pulsos, no céu da boca Não tenho em cima dos ombros nem nos músculos das costas Não tenho vergonha nas falhas Não tenho vergonha nas dobras Quando você apareceu, eu avisei

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JEFF HAHN

Sou publicitário E fiz questão de deixar claro: daqueles típicos No começo, você achou graça Depois, viu melhor do que se tratava Você, uma escultora consagrada Uma artista de verdade Se relacionando comigo, um Diretor de Criação de agência de publicidade A profissão que, como você provocava, mais comporta adultos que não cresceram É verdade, Selva Hoje eu percebo o quanto o meu talento era ingênuo o quanto eu era tolo perto da sua totalidade o quanto a nossa troca era injusta Você tentando me dizer o que é Pátina, Relevo, Entalhe, Repoussé Eu falando que o estagiário tem mais é que se foder

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Você tentando me explicar as belezas do bronze Eu me gabando pelo ouro que ganhei em Cannes Você tentando me introduzir à obra de Rodin Eu admirando os anúncios do Nizan Eu e meu humorzinho detestável Meu humorzinho show de calouros Humorzinho informal, que pede sempre uma confirmadinha no final Né? Não é mesmo? Humor de quem acha que quando não riem é porque não entenderam a piada É porque “levam tudo muito a sério” Selva, eu aceito: tudo bem você não achar graça Tudo bem me enxergar como uma farsa Debochar do meu cabelinho Dos meus oclinhos quadrados, da minha

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JEFF HAHN

salinha de vidro Das bandinhas indie de amigos Da minha Fender parada, enferrujada de fábrica Das minhas frases de efeito sobre tudo que eu julgava serem sábias e mordazes mas cujo único efeito era quase sempre pueril, precário, pífio Quase sempre bobíssimo Aquilo que você falava, Selva, sabe? De que todo publicitário é, por essência, um pouco esquizofrênico porque fala em nome de alguém que não é ele com uma voz que não é a dele amparado por um BANCO uma SEGURADORA uma IMOBILIÁRIA Faz sentido, sabe, Selva? Me escondi atrás de tantas marcas, que acabei me tornando uma Sério, Selva, volta Você é a santa que me redime

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A entidade que me entende Preciso do seu aval, do seu julgamento Dependo da sua bênção Eu me achava um mar de sabedoria capaz de banhar os 5 continentes com minhas águas habitadas por peixes abissais Você botou uma máscara de mergulho na minha cara segurou firme a minha nuca e me deu um caldo Me fez enxergar que o meu mar, apesar de amplo, não passava de dois dedos de profundidade Selva Sinceramente Só posso dizer obrigado

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ROS OTTAVIANO

Donizete Galvão Foi um poeta brasileiro, nascido em Borda da Mata, MG, em 1955, e radicado em SP. Deixou sete livros de poesia, entre eles, Ruminações, Mundo mudo e O homem inacabado. Falecido em 2014, tivemos permissão de herdeiros.


ROS OTTAVIANO

Escoiceados Meu pai e eu nunca subimos num alazão que galopasse ao vento. Tínhamos um burro cinza malhado: o Ligeiro. Foi apanhado de um conhecido por ninharia. Chegou com fama de sistemático, cheio de refugos.

De trote tão curto que dava dor nas costelas. De certa vez, caímos do burro. Meu pai e eu. Eu e meu pai. Embolados. Joelhos esfolados no pedregulho. Levamos bons coices. Meu pai e eu. Os dois nunca subimos na vida. Ruminações (1999)

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CHYRUM LAMBERT

Resposta Na infância, o que se grava na carne permanece. O sentimento de humilhação por se sentir torto fraco desastrado quatro-olhos. Aprende-se a viver inacabado, a esconder, constrangido, o corpo nas penumbras. Como querer que o homem velho, com sua parca energia já gasta, mude o registro consolidado? Como querer que ande horas sob o sol e faça exercícios vigorosos como se fora um ginasta? O homem inacabado (2010)

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Solilóquio de Nina Simone Habitou-me um deus espesso. Sangue cor de fígado. Veneno talhado, macerado e amargoso. Fez morada em cada célula. Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas. Expande a veia do pescoço. Sangra pelas gengivas. Lateja nas têmporas e nos pulsos. Planta arrancada da terra africana, deita suas raízes fundas de baobá e traz gosto de lama à boca. Tem sabor atávico a relembrar o lodo de que se originou o homem. Habitou-me um deus exigente, que me fere e exaspera. Que espezinha o que eu era. Que fala o que eu não pensara e, dizendo-me ao contrário, faz-me gostar do calvário que, às cegas, eu criei. Nomeio que não tem nome: Raio de Iansã, trovão, ciclone, Sopro de Orixá, c´est moi Nina Simone. O homem inacabado (2010)

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IKE IDEANI

Fachada Logo vai terminar o prazo para o homem construir sua fachada. Ele continua em andaimes. ProvisĂłrio. Exibe mĂĄscaras cambiantes. Sua face inconclusa, sustentada por ferragens, parece esconder que, em todos esses anos de obra, ergueram-se inĂşteis plataformas para edificar um escombro. O homem inacabado (2010)

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GARY WILLIAMS

Visita Que ela chegue sem clarins ou trombetas, entre como facho de luz pelas gretas da janela e atravesse o quarto na sua claridade. Que ela chegue inesperada, como a chuva na tarde calorenta e faça subir o odor de poeira molhada. Que ela chegue e se deite ao meu lado, sem que a perceba. Que me lave com água de fonte e me cubra com o bálsamo branco do silêncio. Mundo mudo (2003)

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ROS OTTAVIANO

Regina Azevedo Nasceu em Natal, RN, no ano de 2000. Como autora, publicou Das vezes que morri em você. É colaboradora do site O Chaplin. Solta seus escritos em reginavazdo.tumblr.com/. Lançou Por isso eu amo em azul intenso.


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o tempo tem pressa te passa a perna e você cai na cama dele

nove entre os dez batimentos cardíacos são vestígios do seu corpo inteiro

chegar ao ponto de olhar uma pipa e decolar

seu futuro brinca de balanço e mira alto

o tempo é um viajante que não senta

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Azul intenso o tamanho da dor é a força do voo por isso amo em azul intenso a brasa metálica do corpo dele e a vista da beleza longe por isso olho fundo nos teus olhos e respondo tudo sobre meu futuro, vovó já que você não vai vivê-lo e é pela fantasia costurada no meu peito desde os 7, quando recusei medicina que vejo esperança no céu admirando o cavalo livre distante e torcendo pra que ele venha até a cerca porque a vista é linda mas na volta pra cidade o ar já me escapa 40


LUKASZ WIERZBOWSKI

A palavra decolagem bagunça foi embora sem dizer um pio já que todo canário belga tem seu fim assegurado pela lei meia quatro do código penal que diz que todos precisam decolar um dia eu ainda o vejo sempre que acordo sem música e vou até à varanda com grades e tenho vontade de quebrá-las com toda força e mesmo que meu lado ave frature as costelas toda vez que lembro do seu sangue cor de jambo prefiro pensar que essa história de morte foi só uma desculpa que ele encontrou pra poder voar uma vez na vida 41


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Tratado compor uma canção que dite o rumo das águas navegáveis até o fim do séc. XXI para que nossos filhos venham ao mundo com a vida entreaberta e nenhum pirata os diga que a felicidade é um navio que afunda pois garotos precisam de carinho e uma mão que aponte além horizonte para que possam caçar semiventos e ancorar seus ombros fortes que são portos de sal e ferrugem num oceano maior que o nosso

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ROS OTTAVIANO

Sangue seco seca vem quente que a gente tá fervendo morrendo sofrendo sozinho porque isso não dá ibope não aparece na novela das nove. eles vão ver quando a televisão apagar a gente ainda lá na nossa terra quente coração na mão acendendo vela pra santo, tomando banho de sal grosso porque nosso gado não está comendo está só o osso, mainha lá em nós não tem água nem pra lavar o sangue antes de enterrar. só nos resta a prece ajoelhar pro sol e pedir pra que amanhã ainda estejamos aqui pra vê-lo surgir já que o sol é só o que nasce por aqui. 43


DIVULGAÇÃO

Esse sábado existirá para sempre enquanto houver tempo à tarde o corpo pesa e cai na cama tipo um jambo maduro você apenas fita por um instante o rosto de quem te ama depois vê no quarto iluminado o ar dos novos dias é a primavera vindo, amor e de repente você sente no meu corpo todo o cheiro das flores e quando alguém fala flores lembro apenas do beta enterrado no jardim do condomínio mas você faz um origami e de repente ganha nova estrutura óssea na mandíbula vendo assim até parece que a boca já nasce grudada no peito como um pássaro ou como um bebê que precisa do leite da mãe tanto quanto preciso do seu

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RYAN MCGINLEY

Caldo o amor dos homens no mar não traz onda alguma a virgem de peixes já muito machucada se joga à beira apenas pra ficar úmida

o olho de mãe luiza escorre feito fosse um boneco de cimento e sorte ela resiste à inundação e sorri no meio da sua vida morta penso que é isso a inspiração do poeta mas no final acaba que uma chuva não derruba o forte

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KOTIS PAVLU

João Gomes Nasceu nas ilhas do Recife, PE, em 1996. Articula no portal Interpoética. Publicou nas antologias Granja, Sub 21 e Capibaribe vivo. E ainda nas páginas da Germina e Rosa. Apronta seu Falo enterrado.


ROS OTTAVIANO

 Ensaio para voos futuros Preservo, salvos no Word, dezenas de poemas que estou cismando neste mesmo tempo em que me dedico, também, a este texto, ainda que lá, no arquivo “Poemas”, o resultado seja incerto. Isso porque nem todos estão perdidos e vejo, ao menos em alguns, um tido destino de transporte. Crer que estão bons também é complexo: logo surge o pesar por tê-los exposto sem as agitações futuras. Como poesia se vende a conta-gotas, demoraria a emendar em novas edições. Seria mesmo um martírio, se ficasse me relendo na obra publicada. Concebam alguém com TOC no escrever e que se reconstrói para vir poeta. Pensem alguém que tenta lançar um começo. Pretendo neste artigo falar de caminhos ocorridos na literatura. Se você lê poesia ou se registra o que assim chama e espera pelo título de poeta soprado pelos outros, há uns nomes que falarão a você. Alguém já disse que nenhum começo é involutário? Disse inverso? Pois bem, nisso acredito que os ensinamentos de composição artística servem à vida, se o artista se diferencia pela sua capacidade. Por isso articulo a todos, artista ou apreciador. Que seja como um pequeno manual feito da trajetória de alguns autores. Com idas e vindas, iniciemos. O poeta, filósofo e também letrista da MPB Antonio Cicero publicou seu primeiro livro de poesia, Guardar, e laureado com o extinto Prêmio Nestlé de Literatura, em 1996. Em falas a entrevistas, afirmando que sua pretensão não era ser poeta, Antonio Cicero diz: “embora eu tenha sempre amado a poesia, eu achava que era uma coisa fácil, que era em parte um jogo, um brinquedo”. E

47 uma coisa fácil, que era em parte um jogo, um brin-


lembra que assim pensava o jovem que rascunhava os primeiros escritos quando ambas, a poesia e a filosofia, ocupavam sua adolescência. “Por isso, valorizando mais o difícil do que o mais fácil, eu achava mais importante ser filósofo. Achava que poeta praticamente qualquer um podia ser.” Agora garante achar tudo complexo, em especial a poesia, e creio que por nos enganar com facilidade. Ao dizer da filosofia, sobre ela parecer mais séria que a poesia, Cicero adverte que “é porque, nela, faculdades como a razão e o intelecto são muito importantes, enquanto a poesia é produto não apenas dessas faculdades, mas de muitas outras”. Ponderar que essa é mais fácil, talvez, seja torná-la ainda mais difícil, “você tem que usar todos os seus recursos, toda a sua cultura, toda a sua inteligência, toda a sua sensibilidade, todo o seu erotismo”. Ainda diz que quem julga um poema também o faz por esses ingredientes e que um poema, mesmo muito inteligente e planejado, “pode ser ruim”. Já o poeta e professor Eucanaã Ferraz, que publicou recentemente Sentimental, reuniu, em livro, as letras de Caetano Veloso e, junto com Cicero, organizou a obra de Vinicius de Moraes, acredita que “a literatura é um desses 'objetos' sem serventia que estranhamente começamos a produzir, movidos por um motivo quase que secreto”. A poesia de Eucanaã não contradiz sua fala. Em cuja criação autoral é visível o afeto pela palavra, pelo o que elas têm a expor com seus sons, mas “num país como o nosso, estamos tão aquém dos objetos mágicos que não temos acesso sequer ao gesto mínimo da mágica, que é juntar uma palavra com a outra”, declara em sua participação no Paiol Literário do Jornal Rascunho.

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Para Eucanaã poesia é, sobretudo, ritmo. E também, é claro, imagem. Ao ler um poema, sente espaçosa alegria, “porque a beleza é algo que verdadeiramente me emociona – a capacidade de, com palavras, produzir beleza”. Como aficionado pela poesia escrita, reconhece que um poema não lhe garante trazer um conhecimento, “não me ensina exatamente uma coisa para eu usar na vida, mesmo na minha vida afetiva, psíquica. Não tem algo que eu aprenda, exatamente. Mas é uma ativação afetiva, intelectual”. Na tentativa de se esforçar para pegar/colocar algo no poema, é necessário tempo livre e obstinação, tanto para rever a linguagem como para ingressar na densidade possivelmente cogitada. Para o filósofo Sartre, em se tratando do falante da língua, “a linguagem é uma estrutura do mundo exterior”, com todos os seus objetos visíveis e imaginados, porém “ele a manipula a partir de dentro, sente-a como sente seu corpo”. Vem deste efeito mágico, que fala Eucanaã, e que todos podem conhecer se trouxer o mérito de juntar as letras na leitura de um poema, ou levando o ouvir a uma récita. Eucanaã não lembra quando decidiu se tornar poeta. Nesse ponto, isso do vir a ser sem antes não ter escrito/publicado, dificulta reconhecimento como tal, mesmo que ainda caiba abarcar poetas repentistas, empenhados cantadores nordestinos, que improvisam com o verso rimado, sem registro. À época de colégio, revela que escrever poesia tinha lá suas vantagens: “gasta menos papel, faz mais rápido e já mostra para alguém”. Até que, para os teimosos do ofício, “depois você vai entendendo que não tem rapidez nenhuma”. No seu úl-

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timo livro, conta haver curiosidades, tantas que “há poemas que levei mais de vinte anos escrevendo”. Há casos de muitos que dizem ter escrito seus grandiosos poemas no jorro de uma ventada noite, iluminados pelo divino, quando lhes oprime dizer que passaram anos de rascunhos e versões. A vaidade pode destruir um autor. Para os poetas deste século, foram democratizados os meios de publicação. Espaços como blogs, arquivos PDF, transformados em revistas como Vida Secreta e redes sociais podem igualar o livro impresso, guardando textos com maior alcance e sem exorbitantes custos. Então os escritores do agora, vindos do tempo que escreviam e, céleres, mostravam no caderno pautado, hoje soltam suas crias na rede de internet. E vira obsessão dizer-se. Acreditam que os comentários instantâneos ante aos erros da pressa em se mostrar fazem surgir daí o reconhecimento. Isso quando há mesmo julgamento, pois, no máximo das vezes, é mais um olhar distraído. Não que adequados e capazes apenas sejam os engavetados, os que passam anos esperando pelo orçamento e atualização de catálogo, por gênero, de editoras de grande porte, como a Companhia das Letras ou a Record – as que publicam, respectivamente, Eucanaã e Cicero. É que possuímos gratuitamente o suporte, podendo claramente faltar o pensamento crítico, a reflexão direta no que se está fazendo. Cada poema terá seu tempo, e Eucanaã adverte que “em arte, tempo não é garantia de coisíssima nenhuma”. Sobre o andamento na confecção/maturação do poema, aqui, numa fala maior, ainda diz Ferraz: “E o outro [poema] que leva uma semana, um mês ou um ano pode

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ser muito melhor. Aquele que levou meia hora pode ser melhor. Significa só que você trabalha com tempos muito dilatados e com dinâmicas que são próprias daquele objeto: não do seu método de trabalho, mas que o poema impõe. Então tem poema que nasce torto, errado, complicado e você precisa se virar com aquilo. E tem outros que nascem já com aquela cara de 'vim ao mundo pronto, vou arrasar'”. Questionado sobre escrever sonetos – se supõe que hoje, para isso, temos que adicionar nessa forma fixa um tanto de ironia, como fazem os poetas Paulo Henriques Britto e Glauco Mattoso – Cicero recusa leis, recordando que em décadas passadas afirmava-se que o soneto estava morto, e ele provoca ainda ao indagar que “como poderia [o soneto] resistir ao novo mundo do telégrafo, do telefone e da televisão?". Para ele, não é possível afirmar “que não surgirão sonetos extraordinários nos próximos anos”, ou, pior, “decretar como devem ser para serem aceitos”. E não radicaliza quando diz que “quase todos os sonetos são ruins” para sair dessa forma poética e concluir que “a verdade é que quase todos os poemas são ruins”. Em se tratando do soneto, “por que essa mania de cagar regra?”. Tudo deve ser julgado, caso por caso, poema por poema, ele recomenda. Já Ferreira Gullar, que é poeta e crítico de arte, em resposta a Veja, diz que nunca escreveria um poema por apenas possuir a técnica amadurecida nos muitos anos que vem escrevendo poesia, mas que só escreve quando entra em estado de espanto – “porque só o que não se sabe é poesia”, escreveu no seu mais recente e premiado livro Em alguma parte alguma. No ato de escrever, tudo 51


do passa por decisões, tantas que, para Gullar, “o ressentimento só dói na gente, não dói no outro”, e “poesia é uma alquimia de transformar dor em alegria”, diz ao Suplemento de Minas Gerais. E a candura será optativa. A escritora, poeta e dramaturga Hilda Hilst, falecida em 2004 e hoje cultuada, publicou seu primeiro livro às duas décadas de vida. Os seus três primeiros, reunidos pelo crítico e professor Alcir Pécora em único volume intitulado de Baladas, podem servir àqueles que se reconhecem maus poetas e torcem, antes da lápide que pode ser de nódoas, por reparar o vindouro. Se temas numa obra repetem-se, o eu lírico de uma voz superior permeia a obra de Hilst, sendo só nos livros maduros que se expõe máxima coerência, diferente do também poeta Roberto Piva, amadurecido numa fase vital próxima, mas iniciando em antologia, com já indícios, em sua poesia, da conhecidíssima, nele, vida noturna paulista. Outro crítico e também poeta, Mário Faustino, em ensaio sobre a trajetória de outro escritor, Jorge de Lima, falecido precoce há mais de 60 anos, antes de publicar o seu válido calhamaço poético que é Invenção de Orfeu, escreve que Jorge de Lima tinha a “vantagem de estar morto”, por ter encerrado com a obra citada considerada o ponto alto de sua literatura. Pouco se tem a exaltar, na opinião de Faustino, sobre seus livros anteriores, pois esses eram apenas gestos do que sucederia. Teriam, assim, os seus livros primeiros, mais valor histórico que literário. E penso que cada erro autoral lavrado numa antologia, ou em cada publicação cheia de desleixo, possua este único valor – histórico – até o intrépido esperado. Em entrevista aos Cadernos de Literatura Brasileira,

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Hilda revela que suas influências foram, inclusive, a obra final de Jorge de Lima, e sua extensão persistente também se deu por um comentário elogioso vindo da escritora Cecília Meireles. Mas foi depois de ler um livro que lhe tocou em profundo que se fixou na chamada Casa do Sol. Precisava confiar e investir no seu possível, pois acreditava que, ou vivia a vida noturna de São Paulo, a mesma que Roberto Piva fez a sua poesia, ou bem se dedicava na obra que continuava naquele momento. Aos críticos de sua estreia, destacou-se em Presságio, primeiro do volume único já citado e que não trazia o nome de Hilda Hilst, como aponta o pesquisador Bernardo Nascimento Amorim, o livro apresenta “caráter 'imediatamente acessível', calcado em 'palavras simples e fáceis', avesso aos hermetismos ou à exigência da 'nobreza de linguagem', tão buscados no período”. Na dissertação de Amorim, é citado o crítico Sérgio Buarque de Holanda ao discutir a imaturidade da jovem Hilda Hilst: “ar de abandono ao primeiro movimento da inspiração” e também o “desgoverno da expressão e da forma”. E por que visitar isso, se Hilst é hoje venerada por sua capacidade de falar do que está perto com imagens tão distantes? Porque a Hilda Hilst da fase inicial possuía o contorno sobre o sagrado, mas, como alegamos, faltavalhe ainda sua distinção. Eram apenas vestígios. E ao fazer crítica pelo descaso dos especialistas quando suas produções caminhavam para alcançar a totalidade, inclusive na época da ditadura, então esse seu início, nada involuntário por já conter seu estilo, foi-se ponderando sua força expressiva. Passaram-se quatro anos para que lançasse Roteiro do silêncio, seu livro seguinte, e vale

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lembrar que a autora posteriormente ocultou os três primeiros de edições de reunião da sua poesia. Sabemos que todos não terão a paciência que o poeta alemão Rilke recomenda nas suas Cartas a um jovem poeta – e a mesma que Hilda teve ao se recolher para viver, até os últimos dias de sua vida, longe do intenso convívio urbano. Com delongas, que isto não é regra, e porque apenas estar numa aldeia não garante a ninguém ser um Alberto Caeiro ou Zaratustra. Porém Hilst, que também recheou sua lírica com influências portuguesas e filosóficas, afirma ter se isolado para reaprender tudo do começo, para não se distrair com outras atividades, e a solução de tudo, para ela, sempre foi pôr-se a escrever. Se o leitor pouco sabia da vida de Hilda, só na imaginação se aconselha ser outro, no sentido de ter outra história, e talvez a sina seja nem saber guiá-la para criar. Podendo ser um alucinado que não consegue se expressar – e foi isso que aconteceu ao pai da autora, Apolônio de Almeida Prado Hilst, fazendeiro de café e também poeta, que sofria de esquizofrenia. Ao ver que a obra do pai havia sido detida, conta que tentou “fazer uma obra muito boa para que ele pudesse ter orgulho” dela, ligando todo o seu trabalho ao paterno. Elevada missão e feita, presumivelmente, de inquietas exigências. Mas para Hilda, que lançou toda a sua vida, quero dizer, deu a existência a isso por saber possuída de sua grandeza. Digamos, e você? À trajetória de todos aqui e os seus princípios no que diz respeito ao criar, tudo pode alavancar quando o decisivo ato de pensar nos compromete. Não é abandonar o subjetivo, mas se empenhar numa obra arquitetada conscientemente. As escolhas na nossa

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arte acontecerão no tempo que a concebemos para proferir o que conseguimos, ainda que, em termos de resultado, não seja o que desejamos no oscilar satisfatório. E sempre fica a fé de que os textos, assim como as pessoas, podem melhorar – é o que diz o escritor Caio Fernando Abreu, na introdução de um livro seu. Sabendo que possuir bagagem é tão essencial quanto ser singular, encerro com o argentino Jorge Luis Borges, quando em conferência apontou que “a criação poética, ou o que chamamos de criação, [é] mistura de esquecimento e de lembrança daquilo que lemos”. Fica ainda pensar o que de fato merecemos e se nós somos mesmo capazes do que nos definimos. Porque no ofício poético é mais que válida a expiração naquele que se achar apenas inspirado. Aconselho que, ao só contemplar ou decididamente anotar, vamos lá, arrisque-se. * Título emprestado de Bernardo Nascimento Amorim. Para saber mais, algumas informações. Sobre Antonio Cicero, o leitor pode encontrar uma reunião relevante de suas entrevistas na coleção Encontros, publicada pela Azougue Editorial, em edição referente. As falas de Eucanaã Ferraz foram apreciadas em transcrição do Jornal Rascunho e podem ser lidas no site do mesmo. O que se traz do existencialista Jean Paul Sartre, o leitor encontra no seu O que é a literatura?. As falas aspeadas de Ferreira Gullar foram dadas ao jornalista João Barile, na edição de março/abril de 2014 do Suplemento Literário de Minas Gerais que pode ser lido online. Mauro Faustino, em suas observações, foi lido em ensaio da recente edição do livro Invenção de Orfeu, lançado pela Cosac Naif. As entrevistas de Hilda Hilst foram reunidas no volume Fico besta quando me entendem, publicado pela editora Globo. O de Caio F. Abreu que se encontra a nota explicando a reedição é Ovelhas negras, publicado pela L&PM.

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CRAZY IVORY

Carla Diacov Nasceu em São Paulo, em 1975. Publicou o e-book Fazer a Loca pelo selo digital Ellenismos. Tem poemas na Coyote [n°25]. Apareceu também em edições das páginas de Zúnai, Cruviana, Mallarmargens, Germina etc.


DIVULGAÇÃO

Dona queridinha fez noventa e dois coça o cu há dez cheira os dedos faz oito é feliz desde o corrimão quando aos quinze livrou-se do tapume sua religião é a colher de pau mas ajoelha-se e rola com qualquer deus gosta de mão calejada veste palmilha ortopédica na calcinha quando vai a cavalo sempre chega sorrindo gosta muito de chegar colhe espinafre e quiabos sem dobrar os joelhos mas ajoelha-se e rola com qualquer diabo 57


RYAN MCGINLEY

Tapume onde põe-se o tapume o ato obsceno de assoprar a comida quente a primeira gota do chuveiro a primeira a lamber a auréola do teu mamilo do teu pênis a mulher corta pepinos como quem corta cordões umbilicais onde põe-se o tapume no prato para um só grão seus grãos pendentes o garfo espetado na batata quente a mulher que sentava a pomba em purê de abóboras a vizinha que se esfregava na pilastra enquanto pedia empresta-me uma inconveniência de açúcar o ato obsceno de assoprar o dado as mãos daquele teu ex-armador havia um coração flechado para cada caderninho adolescente onde põe-se o tapume tua púbis minha barba

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JEFF HAHN

A vida joaninha joaninhas se aninham acasalam-se entre entre gravetinhos entre joanetes entre joaninhas acasalam-se anteninhas bolinhas molhadinhas joaninhas e linguinhas asinhas se esfregam são lírios são lindas são lesmas e são joaninhas e quando alguém aponta um dedo de advertência ai joaninhas desmaiam joaninhas sorridentes desmaiadas vi isso bordado na camisola de uma menina que [andei lambendo 59


RYAN MCGINLEY

Liquidificadores jana estava proibida de entrar em lojas de departamento jana se descobriu desejo no dia em que sua primeira vitamina de abacate uma gota fofuxa desceu seu pescocinho correu o peitoral ainda liso e alojou-se no corte jana achava que era o corte do nascimento a gotona tocou a cicatriz do cordĂŁo umbigo era outra coisa e melou-se uma ideia Ăşnica na cabecinha de jana tinha barulho de liquidificador e liquidava qualquer outro alimento agora era colecionar mas jana estava proibida de entrar em lojas de departamento 60


DIVULGAÇÃO

O carteiro certificado joão pimentel meu nome esta profissão me escolheu escolho através desta acarinhar a cabeçola da minha bronha e entregar-lhe a carta ou a encomenda com muito mais alargamento do sentido da distância certifico-me de que o objeto chegue a ti cheio de nostalgia e assim cheio de um tanto de alguém de quem você não sabe bem mas ali está na goma-áurea das “novas” eu sei que você irá sorrir oh eu sei 61


RYAN MCGINLEY

Mariposinhas a mãe de uma amiga não gostava de dizer e nem de ouvir boceta encorajava-nos a chamar a boceta de mariposinha também conheci uma senhora que chamava a dela de rita dizia AS RITAS QUE ME PERDOEM MAS ESTOU COM UMA COCEIRA NA MINHA RITA minha mãe chamava a minha de pombinha claro bem antes de saber que a pombinha bicaria outra pombinha entre um pinto e outro numa briga linda e frenética imperativo gritar viva a penugem, mamãe!

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JEFF HAHN

Angélica no fretado seu jeito de virar a página isso era a umidade da angélica pensando o homem ao seu lado seu cheiro de lamber a ponta do dedo isso era o acertamento das coxas da angélica seu pescoço de cavalo suado farejando o feno fresco isso era angélica tratando o feno o homem era um leitor e isso o homem a revista o fretado o faro isso era a angélica escorregadia do mais profundo [secreto amor cortar as unhas era circuncisar a diversão e angélica não gostava de se divertir sem temeridades

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FREDDIE ARDLEY

Adriane Garcia Nasceu em Belo Horizonte, MG, em 1973. Historiadora, funcionária pública, arte-educadora, atriz. Escreve poesia, infanto-juvenis, contos e dramaturgia. Autora de Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Nacional de Literatura do Paraná, Helena Kolody) e de O nome do mundo.


GARY WILLIAMS

Negações A velha morreu sozinha Cachorro algum lhe lambeu as botas Nem lhe mordeu as pantufas Mulher feita de mármore Quebrou a maca dos bombeiros Que lhe quebraram a porta Que nenhum filho atravessou Amigo não conhecia Ninguém que por ela chorasse O toque mais profundo Que foi a mão do legista. Abre-te,

sésamo

O menino emprestou-se Pra dizer o mais profundo de si E desceu aos infernos. De lá saiu dono De duras verdades suas E abriu as mãos Com esses tesouros: Duas lágrimas em pedra, Um sorriso perdido, Um dente sem fada. Guardou-os, não tinha baú. Incrustou-os nas entrelinhas De suas pinturas rupestres. 65


OLYA-O

A senhora de chapéu A falsidade quando quer instalar-se Veste roupa bonita e pede entrada Treina sorrisos como quem não invade Bate na porta e espera. Falsidade tem sempre um chapéu Que esconde um chifre proeminente Às vezes dois, às vezes, cobras Que um olhar inocente petrificam. A falsidade tem nome de amigo Blasfema a mais pura poesia Põe asas de ganso, coroa Maria Entrega palmas de espinhos. Falsidade arranca lágrima De peitos eternamente vítimas Da insistência de amar o humano Da decência de crer no mundo.

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OLYA-O

No dia do casamento A negra entrou sorrateiramente No quarto E ficou a sós com o branco Vestido. Tesoura em punho Furou-o cem vezes, Todas com requintes de crueldade. E enquanto não se deram Em sangue Os farrapos, Não parou de chorar seu riso.

A pequena sereia na cozinha Trocou a voz por um homem E muda casou-se com ele Não viu o naufrágio, viu âncora Na tábua de corte Perdeu O rabo E o desejo. 67


JEFF HAHN

Enformação Mulheres do meu tempo Usam espartilhos De sex shop Colocam próteses mamárias E veem filmes pornôs Escondido Mulheres do meu tempo Dirigem carro, moto, avião Viajam, morrem solteiras Divorciam Casam, têm filhos In vitro Mulheres do meu tempo Beijam, lambem, sugam Outras mulheres Saem de mãos dadas na rua Enxergam mal o delegado Um olho roxo

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OLYA-O

Mulheres do meu tempo andam Em pernas de pau de 15 centímetros Para aumentar a panturrilha Empinar a bunda E ganhar salários Menores Mulheres do meu tempo Chutam baldes Alimentam crias Fazem jornada tripla E pedem desculpa Quando o marido erra.

De horror A criatura escalou-me O pescoço E cravou-lhe os dentes. O pior é que eu gostei. Naquele tempo Qualquer sombra Era boa companhia.

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DIVULGAÇÃO

Digaocachê Bancou e poupou nesta página. Publicou vários tomos, todos ao intento de ter chelpa. Sem tanta passagem, apostara que estando na Vida Secreta os seus livros iriam fretados. Nunca expediu seus escritos jamais plagiados e aqui está paga sua remuneração.


GARY WILLIAMS

"A arte é um retrato natural da existência humana, e daí permitir que nela o homem reconheça, numa só ação, a proximidade e a distância, o estar-vivo imediato e a mediatíssima perspectiva em que a vivência foi objeto da consciência e da crítica, foi degrau na marcha de um autoconhecimento que se relativiza a cada etapa de história. Arte é mimese, mas não do produto da vida, e sim da vida em produção. Nisso o artista é frequentemente um bom calculador do futuro; mas não por adivinhação, é apenas por extraordinária agudeza na percepção do presente onde já está, em germe, cada futuro."

José Guilherme Merquior, em A razão do poema.

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JEFF HAHN

Elvira Vigna É escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, pela Companhia das Letras, Nada a dizer, O que deu para fazer em matéria de história de amor e Por escrito, do qual reproduzimos.


JEFF HAHN

 O fim das viagens É primeiro de janeiro e lembro disso por causa do passeinho que fizemos de manhã. Dormi na tua casa. Nesse dia ainda chamo tua casa de tua casa embora saiba que vá virar nossa casa logo depois. Essa, a que vai, não hoje, eu aqui escrevendo, mas a qualquer momento, virar tua casa outra vez. Dormi na tua casa de véspera porque é isso que faço em caso de viagens, embora não assuma. “Dorme aqui, te levo.” “Não precisa.” “Ah, precisa.” “Bem, o.k.” “O.k.” O diálogo mais uma vez repetido e mais uma vez as risadinhas, a minha e a tua, no entendimento de que não se trata só de carona para o aeroporto, mas de trepada, um queijo, tomates, vinho, o braço em cima de mim pelo menos nos primeiros minutos depois de a luz apagada, eu gostando do teu braço em cima de mim, o olho aberto adivinhando o teto por alguns minutos, talvez muitos, até que me viro, agora o olho aberto adivinhando a parede ao lado, umas apagadas rápidas num sono que nem parece sono. E a claridade da futura manhã. Você não fecha a persiana, então não me preocupo, chegam rápido, as manhãs na tua casa. São insônias confiantes, essas. O avião sai às cinco e cinquenta da tarde, check-in às três e cinquenta, são sete e pouco da manhã e a cama,

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arrumada, tem, nesse dia, a maleta de mão já fechada, em cima e, por cima da maleta, o casacão antiquado, pouco prático (branco), mas é o único, então é ele. Depois, no aeroporto, vou tomar nota do passeinho da manhã e é fácil dizer que não sei por que tomo nota, mas sei. É a ideia de fim. Porque quando acabam, as coisas, tenho essa vontade de que não acabem, mesmo quando, como é o caso aqui, nesse dia e hoje, eu aqui sentada, as coisas não propriamente acabem, mas são acabadas, e por mim, que fico então com uma vontade de que não acabem. E, nesse dia, em que ainda nem começamos o que chamamos de casamento, e que chamamos de casamento meio que para diferenciar o nosso juntos separados de tanto tempo, e que chamamos de casamento sempre rindo que é para deixar claro, para quem escuta e para quem fala, que se trata de coisa ridícula, casamento, e a boca entorta para baixo, as risadas. Mas, nesse dia, em que ainda nem começamos o que depois iríamos chamar de casamento, então não é o casamento que acaba. Não ainda. São as viagens. Seria a última, me digo nem me dizendo, me testando para ver como soa, nem me testando. Não disse em voz alta: “Olha, é a última viagem afinal.” Olha, quando eu voltar, venho de vez pra tua casa, largo as viagens e ficamos os dois, o dia todo, um de costas pro outro, cada um numa tela do facebook. Ô vida boa, né, benhê. Não disse. Não disse nem para mim mesma. Mas fo-

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tografo tudo, anoto tudo, os detalhes. Para que não sumam. Para que não acabem. Primeiro cenário: eu anuncio mal entro no escritório: adeus. Ou, mais provável, eles me despedem, aproveitando minha recente diatribe no telefone com o aspargo que é o meu chefe. Ou ambos: “Foi minha última viagem, adeus.” E a resposta incluindo um até que enfim, que alívio, achei que ia ter de te despedir, no “que pena” educado. A maleta está em cima da tua cama. Não gosto dela. Antes havia a mochila amarela. Você é quem enche meu saco dizendo que mochila não seria apropriado, e me dá a maleta. Nunca despacho bagagem, carrego eu, sempre, minhas próprias pedras. Olho para essa maleta ausente como se ainda estivesse lá, ela, e eu, na frente dela. O casacão por cima, e umas botas, espantosas, no chão. Vou de botas e essa é minha única decisão firme do dia. Não sei o que farei a teu respeito, bem pouco sobre o apartamentinho da Domingos de Morais que comprei e do qual não gosto, e, quanto ao trabalho, os berros no telefone talvez indiquem um caminho por mim, tomem a decisão que não tomo. É minha esperança. Vou de botas. É botas ou tênis. Não cabem dois pares de sapato na maleta de mão. Tem o evento, que é chique. E mais um motivo, é inverno em Paris. As neves do Kilimanjaro. Não tem mais neve no Kilimanjaro, nem em Paris. Começo a calçar as botas. “Você vai de botas?”

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Você se refere ao passeinho. São sete e pouco da manhã. Se vou de botas no passeinho. “Vou.” Posso enumerar a lista de motivos, terminando com as neves do Kilimanjaro, mas não espero que você entenda. Não espero que você entenda nada nunca. Então, digo só que vou de botas no nosso passeinho com o cachorro, ali na Paulista, num primeiro de janeiro, sete e pouco da manhã. E com chuva. Uma chuvinha fina, suja. “É mais prático. Assim já fico pronta.” Você só me olha. Sabe que não entende nada. Nem tenta. Descemos. O cachorro está contentíssimo. O cachorro costuma ficar contentíssimo com frequência. Por exemplo, quando me vê: gane, se mija todo, abana o rabo. Você podia aprender. Tomo nota, depois, sentada no aeroporto, desse passeinho, como quem toma nota de datas e nomes em documento importante, papel a ser encontrado em urna de metal lacrada dentro de cratera da lua. Não precisava. Eu lembro. A rua está suja. Primeiro de janeiro, o réveillon acaba de acabar e chove. Então a sujeira vira lama. Tem arquibancada sendo desmontada, tem garis de roupa laranja dançando danças de palhaços em suas fantasias laranja e fazem isso há muito tempo. Estão lá, dançando essa dança, há muito tempo, vindos de um réveillon muito antigo, de antes mesmo de a Paulista ser a Paulista, e o réveillon o réveillon. Um caminhão de lixo puxa meu

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corso de fordes-bigodes, e melindrosas riem e todas elas sou eu, a mão na boca, hi, hi, hi. Fico rindo lá, um hi, hi, hi mudo e imutável, em branco e preto, por muitos séculos, parada nos meus passos duros que se repetem, toc, toc, dentro das botas. Decido jogar um talco para o ar. Quem sabe ao cair, apaga todo o resto, você. Você fala. “Que coisa, hein, o Pedro casando!” Ah, sim, porque tem mais um motivo para eu não ir de tênis. Tem o evento no qual trabalharei e no qual, portanto, devo estar com roupa na faixa do aceitável porque estou representando a empresa etc.; tem a maleta onde não cabem dois pares de sapato: devo escolher um e usar esse um durante toda a estada, que é em Paris, portanto, inverno, portanto, sapato fechado, neca de sandalinha, pequena, leve, sapato fechado e eu radicalizo: botas. E tem o casamento do Pedro, e Pedro, desconfio, tornou-se parisiense e deve olhar tênis com horror. Você espera mais do que uma resposta, você quer uma conversa. Mas: “Pois é.” É só o que sai. E balanço a cabeça, quem sabe o chacoalho rearruma as coisas lá dentro e cai algo de interessante no slot, a boca. Não cai. E você então continua. “Bem, é bom pra ele.” “É, acho que sim, não sei.” Deveria ter parado no acho que sim. O não sei é ex-

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cessivo. Você está muito sensível em relação a hesitações explícitas de minha parte quando se trata de casamento. Você quer que a gente more junto, já, nesse dia. Você quer que a gente more junto há muito tempo, já, nesse dia. Casamento é bom para homens. Divisão de despesa, uma cretina que se preocupa com as chatices da casa e que emite a cola emocional/afetiva necessária. E nenhuma obrigação de retorno com nenhuma dessas três coisas. Subimos a Haddock, chegamos na Paulista e eu já sei. As botas serão um problema. Já doem. Quanto mais com quinze dias disso. Sei também, naqueles primeiros passos, que nosso passeinho usual, ir de uma ponta à outra da Paulista, e voltar, também será um problema. Tudo fechado. Ninguém na rua. Tirando os garis cantando modinhas e dançando com suas vassouras para as famílias burguesas que, da janela das mansões, atiram confetes coloridos sobre eles. Há vários no chão. Confetes, não garis. Não são confetes. São pedaços rasgados de papéis variados. Sacos de Doritos, os enfeites da prefeitura que estavam nos postes até há pouco, panfletos de saunas gays. Mas são coloridos, então servem. Corajosamente, avançamos metros e séculos, céleres em direção à inevitável contemporaneidade: o McDonald’s, única porta aberta de todo o percurso. O café deles se torna ótimo, e melhor ainda porque, no patiozinho, deixam entrar cachorro. Ficamos os três lá.

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E depois voltamos, desviando de uma sessão de platitudes com um siiinging in the rain tornado possível a partir de um guarda-chuva estripado na sarjeta. Seria outra espécie de não passagem de séculos e de metros, pois em inglês, essa presença imutável, e em volta do poste, ou seja, num espaço circular. Qual não é. Depois, já na sala, chegamos no ponteiro das nove e quinze. Você está de pé, lendo o jornal aberto em cima da mesa. Digo: “Vamos?” Ponho o ponto de interrogação para adocicar. Você diz: “Já?!” Também com um ponto de interrogação. Mas com um ponto de exclamação. Eu até acreditaria, você surpreso com minha proposta de já irmos, não fosse a cena: você de pé, lendo o jornal de pé, pronto para ir, a qualquer momento. E vamos. No elevador, tentamos adocicar mais um pouco com sorrisos, balbucios sobre o trânsito, sempre tão ruim o trânsito, e omitimos se tratar de um primeiro de janeiro, ninguém nas ruas. E chegamos. A escolha é entre comida ruim e cara à la carte e comida ruim e cara de lanchonete. Escolhemos a lanchonete, nos parece mais rápida, para mim e para você, embora isso seja o que se chama de entendimento táci-

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to. Não dito. Combo número cinco para mim, o três para você. A diferença é uma batata frita, que você não come. Às onze e quarenta passo o portão sem volta da polícia federal. Nada apita e me viro. Você está num canto, espremido no canto onde poderá me ver por mais tempo. Mas acabo que sumo, ou é você. Antes dou um adeusinho e um suspiro, você só vê o adeusinho. E vou contente, rápida, para o universo maravilhoso das cadeiras pré-moldadas da sala de embarque, onde tudo passa, nada fica. Sento. São onze e quarenta e cinco. Até as cinco e cinquenta não é nada, não dá para nada, uma miséria, mas não me queixo. Aceito a dádiva e estico as pernas. Tenho as botas à minha frente. Pus uma segunda meia para que doam menos. Não irá adiantar. Não deviam estar lá, não pertencem aos meus pés. No papelzinho em que tomo nota do que se passa nessa manhã está escrito que não há pinheirinhos na Paulista em primeiros de janeiro. Também não há pinheirinhos nos outros dias do ano. Então, o que tomo nota no papelzinho é na verdade uma ausência de uma ausência. A condição de sem-pinheiro não seria notada, não é para ser notada, já que essa ausência de pinheiros é a presença estabelecida, esperada, no cenário em questão. Mas sei por que tomo nota das ausências, eu sei. É isso, isso aqui que escrevo. É uma questão do que está na nossa frente e nem notamos, o que está ausente mas presente. Qual dos ontens será o amanhã.

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Em Paris, haverá pinheirinhos. De metro em metro, ao longo do Sena, em cada porta de cada edifício. E pelas janelas fechadas (o frio) dos apartamentos térreos, verei a iluminação amarelada (quente) dos ambientes, a família à mesa (papá, maman), o caldeirão fumegante pendurado sobre a lareira, as crianças francesinhas (les petits) cantando em coro um frère jacques sob o olhar benevolente dos pais que trepam, discretos, um sentado no colo do outro, à mesa, o sorriso fixo, o gemido discreto no tom exato da música. E, num canto, o pinheirinho que pisca. É o que verei. O que deixo para trás, para lá da polícia federal, é a proposta feita por você, e há quanto tempo: eu e você, sentados um no colo do outro, trepando discretos enquanto à nossa frente, sobre a mesa, as pastas de capa colorida de nossa empresa. Gestão cultural. Eu no papel de Zizi. Porque esse é o mesmo plano que você e tua mulher fazem em um tempo outro, que faz tempo mas que não passa. E, entre um ui e um ai, sai um assina aqui benzinho. Isso você, que é o marqueteiro. Um homem prático, portanto. É o que deixo para trás. Ainda dá, nesse dia. É difícil dizer, eu lá sentada horas a fio. Ou fácil, porque tenho uma lista e posso citar qualquer coisa da lista. Zizi, Molly, a viagem talvez última, o apê da Domingos de Morais ou tudo junto. Mas não é nenhum desses itens. Faço isso desde sempre. Sento em qualquer lugar que não seja um lugar específico. E fico. Nessa época, são aeroportos, halls de hotéis, quartos de hotéis e sarjetas de cidades desconhecidas. Para a

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superhelga – a alemoa de dois metros de diâmetro que matou e assumiu o emprego de meu superego anterior – estou lá, esborrachada, sem fazer nada, pensando na minha difícil vida. É justificável, dirão todos e eu mesma. Mas, na verdade, não penso. Só fico. Tem uma imagem que me redime. A dos carros em alta velocidade mas que emparelham. Então, por um momento, quem está dentro de um e de outro terá a impressão de estar parado. Mas não estão. Estão a mil por hora. É isso que me digo. Eu lá, parada, a bunda já nem mais doendo de tão parada, e me digo: “Não estou parada. Estou a mil por hora. É que não dá para perceber.” Antes de sair para o aeroporto e deixar teu quarto, faço o que sempre faço quando saio de um lugar para onde acho que posso não mais voltar: olho em volta. Olho demoradamente em volta. Sempre me digo que é para guardar na memória detalhes que depois vou gostar de lembrar. Mas é o contrário. Olho procurando por detalhes que eu gostaria de lembrar, e serve o que não tem. Qualquer coisa. Pinheirinhos, lantejoulas do século passado, uma neve que seja. E olho outra vez. E ficaria olhando horas a fio não fosse o sentido de ridículo. E o medo de chegar alguém e dizer: “Nada, não é?” E eu ter de concordar. Fiz isso essa viagem inteira. Fiquei olhando. Sei dos detalhes. Todos eles. Mas o principal eu quase perco.

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RYAN MCGINLEY

Bobby Baq Nasceu em São Paulo, em 1992. É radialista e escritor. Publicou O ano em que as coisas falaram – 365 microcontos, Eu findo mundo e Suspensivos. Está também nas coletâneas literária Granja e Tudo o que não foi.


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Ao meu corpo, resta o serviço de sempre servir aos seus vícios.

Se eu tenho um medo É o de cair em mim E descobrir não muito cedo Que a queda não tem fim.

Haja pálpebra, tempo e falta de luz pro olho enxergar por dentro imagens que a alma produz.

Não é imposto esse afago. Me aluga, eu te pago. Ali, onde o solo oscila e o céu se lava, longe de qualquer palavra, existe o exato limite entre o existir e o nada, entre o hesitar e a estrada.

Seu tronco é a casa onde pousam de mansinho meus brancos braços-asas em busca do abraço-ninho.

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OLYA-O

Não me foi dado destino. Talvez, só uma brincadeira, em que pra viver eu precise descobrir a fórmula certa de me afogar numa fogueira.

Quem dera eu só fosse número, estúpida tabuada. Partir do zero absoluto e morrer múltiplo em conta errada. Seus joelhos não me dobram mais

Continuam verdes alguns sentimentos maduros: vertendo de um pus ainda mais puro. Por maior que seja a moldura, já não cabem nessa tela todos seus pontos de fuga.

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Atravessou a cama e comeu minh’alma como quem caminha. Toda assim, calada. Bem assim, calminha.


OLYA-O

Eu escorrego, você desliza, eles tropeçam... E no final a noite cai pra todo mundo.

Na quina de algum quando, andando por não sei onde, longe do que é bastante, nesse mesmo instante, se esconde um homem meio poente, deitado por cima da ponte, vestindo completamente toda a linha do horizonte. Entender que o ofício é isso: dissolver-se e ser sempre início.

Neste solo eu cultivo o meu motivo pra partir. Sendo sincero pra valer: até os cílios eu considero como empecilhos pra te ver.

Nossos pés se descobrem na cama. Andei em círculos pelas quadras cruzei calçadas calcei a estrada e fiquei sem compreender: se não existe o caminho como posso me perder?

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Eder Asa É mineiro, ator e nascido em 1994. Não concluiu as graduações que começou nem publicou os livros que Idealizou. Escreve poemas, frases fritas e umas cartas para C.


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pari sozinha. já era escuro e mais treva fazia a dor. grito clareia esse breu? cala-se vagalume vagando nas pupilas dilatadas! ai de mim que sempre amei a luz da lua. uma vez vi uma mula morrer ela deitada de lado estrebuchando e respirava pesado igual eu ali. mordi o lábio inferior e o sangue correu decerto que com alívio de sair daquele corpo mirrado aberto e se abrindo. EU NÃO TE ALCANÇO MENINO. o ventre doendo desesperos e por que é que não ajudaram a mula coitada? papai disse que a mula era velha mas o que é velho não devia morrer feliz? a juventude é um embuste. ai de mim que fracasso em fazer vida e morro. do tanto que eu suava babava chorava sangrava o menino vai provar que não sou seca. setenta por cento do corpo é água menino por que você só não escorre pra fora? já vem tão sólido o menino porque se nasce de tanto sofrimento e solidão que há de enfrentar menino se não te alcanço para puxar a este mundo e tem de se esgueirar sozinho por meus tubos se os ecos do teu choro em mim reverberam e me estufam se menino esmurro a terra maldita de tão dura e me arregaço na imagem de um figo maduro desabrochando e figo maduro não serve mais pra nada? – “você sabia que figo não é fruta mas uma flor que abre pra dentro?” – o que antes foi vagina hoje é ferida. me rasgo em gretas e lembro que ainda pequena achava greta garbo um nome lindíssimo e quando vi a mulher era ainda mais lindíssima mas desde quando 89


RYAN MCGINLEY

ser mulher é lindo? e grito. já te sinto menino me fendendo dilacerada gasta e rugosa no seu primeiro sentir sentindo minha cabeça toda fria e pesada eu toda desfeita. te expulso porque não te comporto mas quisera eu fazer pela boca ou pelos poros agora se comporte pequeno e vem já pra fora que nem me importo se vens sujo não vou ralhar que tenhas demorado e me feito preocupada pode vir sem medo que te acolho menino. ao forçar como que pra lançar um olho pra fora da fronte vi pedaço ovalado luzir do vale de minhas coxas e compreendi a semelhança dos termos parto e partir. vinha ele no puro empenho de nascer em mundo tão torpe como um deus que vai aos poucos aprendendo a ter corpo. já fugia o menino de sua primeira casa que um útero é do tamanho de um punho com luvas de box e um bicho sai de dentro do outro irado de terror. pois me despontava outra cabeça pra fora e me sentia palíndromo amaldiçoado e solitário temendo histericamente machucar tão frágil semente que cinza e sem respirar não chorava ao passar por meus canais com os ombros contorcidos as mãozinhas juntas e gélidas como numa prece – uma prece meu deus – eu ainda não havia pensado em deus e nem pensaria fosse por mim mas o menino que eu já puxava e era tão compacto não chorava como a mãe que ele ainda habitava. ai deus que se diz justo não sejas tão arrogante nisso de sempre fazer tuas vontades porque claro que almejas tão luminoso 90


menino entre os anjos mas deixa-o aqui como último consolo a este caco que já foi mulher e hoje sou. o faça chorar senhor deus que seja a minha morte mas dá-lhe grito e ar porque é cruel mesmo pra ti isso de deixá-lo morrer de silêncio. pois perdoo vossos vícios senhor deus se deres início ao menino que nada tem e nada é bem menos do que tu tiveste cristo porque nasceu de pai mãe e burro e havia manjedoura e uma estrela veio lhe brindar o natal e este que agora nino conta até com céu nublado mas ainda assim é desejo que viva e que chore para selar seu começo de martírio que no entanto é seu destino. o então menino no resvalo de quem cai num abismo moveu-se de ar lhe entrando e gritou estridente canção imunda e monotônica estreando o diafragma mesmo sem saber usarlhe e eu mãe amniótica achei-o o pavarotti dos tempos um fadista nascido. pense em nós dois líquidos e derrotados ligados ainda por cadarço orgânico corda de carne que nos mantinha um e manteria mesmo depois de torada fio de vida que indicava aquele laço. e eu nunca havia pensado na vida como um fio. eu nunca havia pensando na vida com um filho.

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RYAN MCGINLEY

Tânia Consuelo Nasceu em dezembro de 1982, no Recife, PE. É educadora. Posta seus textos de vivências introspectivas em literandoon.blogspot.com/. Lançará A vez de Cecília, do qual selecionamos.


ROS OTTAVIANO

 Olhos acesos do companheiro Idiossincrasia era a palavra mais referente que Cecília já tinha visto. Peculiar era o seu físico sobre o verbete do dicionário. Eram seis quilos acima do peso (dito ideal) quando tudo parecia mesmo um absurdo. Deixou para trás marido e logo comprou um apartamentozinho na zona leste da cidade. Agora que seu filho Levi estava casado, nada seria empecilho ao seu maior desejo. Sem sequer consultar alguém, foi para o seu único imóvel – isso, diga-se, depois de tantos anos longe desse que era a uns passos da praia e que comportava a saudosa boemia tão presente em sua juventude. Não queria mais saber de folga – não queria chamar assim aquela vida – e encontrou coragem para dar o maior giro em sua vida fútil. O tempo que restava para viver seria somente seu. Talvez fosse o maior egoísmo, aliás, sabia que o marido ia se virar com a empregada. Nada. Era isso que esperava do marido. O que mesmo importa quando as correntes se rompem? Foi no cabeleireiro de costume, cortou chanelzinho o cabelo. Era forte a influência da estilista em sua vida. Personalidade forte, sem nenhum acaso, e mergulhou de cabeça. Era tudo que lhe apetecia. Nada vulgar, somente a independência completa sem renúncia à pátria e aos bons costumes. Bastavam já os anos de um casamento massacrante cuja perspectiva de um estar saudável e feliz era mínima. Agora, no seu pequeno apartamento-quarto-e-sala num bairro agradável, descansava o suficiente antes de fazer as primeiras compras que permeariam estáveis nes-

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sa alavanca. Estava mesmo sentindo-se bela por lembrar um pouco Chanel – para ver como um corte, sem ser regra, salva do aniquilamento. E nada custava sonhar em ser dona do seu próprio nariz. As unhas sempre rubras. E o batom, bem aceso, marcando a boca expressiva. A tarde caiu. Quando despertou, viu que não tinha nada para comer. Mas por que se preocupar se havia tantos lugares apetitosos na redondeza? Entrou num vestido de claras nuances e desceu os dois andares para se divertir com sua liberdade. Caminhou até dobrar esquinas, depois sentou numa creperia deleitosa. Apesar dos seis quilos acima do peso, continuava esbelta e com bons hábitos. Desde que saíra de casa, naquela tarde, não tinha percebido quantos pensamentos positivos tinham lhe cruzado. Foram muitos, isso é certo, e todos levavam à força de existir. Pensou em costurar sua própria roupa e se tornar budista. Apreciava o budismo, mas nunca fez tempo a ele. De sobressalto, pensou em como estaria o marido. Não era uma mulher má, que fugia porque devia algo. Afinal a mudança veio rápida, de uma semana para outra. Cecília era muito cuidadosa com a aparência e, principalmente, esplêndida. Uma beleza suave, que só chamava atenção de quem realmente se preocupava em observar o singelo no corriqueiro. Não tinha custos com a sua autoestima, aceitava ser apreciada por poucos. E mesmo assim, com o que domava em si, já era satisfatório. Sobre ser popular, estava aí a sua graça: não tinha o menor propósito. Depois de um crepe e uma taça de vinho, ficou dis-

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posta a costurar. Retornou aos dois andares de escada e sentou na única cadeira do seu apartamento. Tinha se programado para comprar o resto dos móveis no dia seguinte, já que era domingo e sua vontade de ficar faziase em esperas. Então sentou e costurou um avental. Achou atraente pensar em um avental, (e depois poderia ficar como saia ou camiseta). Um avental significava, naquele momento, mais do que uma peça de roupa que viesse lhe dar muito prazer. Aquele seria o primeiro de tantos que lhe forçaria prazerosamente a construir seu espaço, a fazer seu alimento, a plantar umas sementes no jardim do edifício. Depois do avental pronto, tomou um banho morno, e com lençóis claros cobriu o seu colchão. Durante o banho havia pensado no que precisaria. Pela manhã, os suprimentos para cozinha e à tarde os móveis. Uma cama de casal, uma mesinha de cabeceira, um abajur, um sofá para duas pessoas e um tapete. Antes de deitar colocou no rádio um disco de bossa e acendeu um cigarro. Fumar era um ritual que gostava de fazer, e sempre à noite. Três da manhã teve outro sobressalto, descobrindo que não estava só. Procurou a cabeça do que tanto se remexia e apalpou Samuel. Não fazia questão de dividir a sua cama com um gato, talvez fosse mais fácil de lidar do que com o ronco do seu arredio companheiro. Então pensou que não tinha nada melhor que um gato de patas negras e olhos acesos para escoltar sua noite. Percebeu também que ele não estava inquieto, como se aquele lugar fosse mais dele que dela. Era Samuel, pois foi o primeiro nome que pensara e tão análogos eram aos olhos verdes de alguém que já tinha

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sido seu xodó. Coisas do frescor, que retornavam. Quando acordou foi preparar o desjejum, nada mais que uma fruta, uma caneca de café e duas fatias de pão com queijo. Pena não ter leite para Samuel naquele momento. Não sabia que amanheceria ao seu lado, tão instinto que foi ele decidir assim, e encontrá-lo ao chegar. Então ao seu companheiro de sono não tinha nada. Precisava fazer compras. Agora era tudo diferente, só para ela e não gostava de empurrar o supérfluo. Às sete da manhã já estava pronta ao encontro de um lugar que se colorisse de frutas e verduras. Ao sair de casa, pouco custou em deixar seu carro – na verdade deixara os luxos, tudo que não lhe era mais benéfico –, agora o que aspirava era coser sensações. A tarde chegou e via frutas e verduras todas guardadas. Na bandeja estavam os morangos, que tanto lhe distraiam. Fechou a porta da geladeira e agora precisava achar um supermercado e terminar de abastecer seu armário. Cecília não podia esperar mais para compor seu apartamento com os móveis. Eram peças imprescindíveis para se sentir bem. Porque já possuía a mesinha – onde ficava a máquina de costura – e uma cadeira. Além do armário da cozinha e do quarto e um colchão. Percebeu que não ficaria só: Samuel ainda estava lá quando voltou da feira. Na verdade não era leite que ele precisava, e sim um pote de ração. Ele era encorpado, de pelo viçoso e muito branco e de olhos sempre acesos. Ficava se esgueirando pelos cantos da casa. Tinha uma manha benévola que conquistava. Preparou então uma salada rápida e saiu novamente em busca de móveis e artigos industrializados. Foi assim

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que se saiu o incomum dia de Cecília, muitos afazeres, mas tudo metodicamente premeditado. A noite veio e lá estava ela na pequena varanda ao lado de Samuel, agora seu grande companheiro, e com um cigarro aceso. Numa das retiradas à tarde encontrara uma amiga que há muito não via. Marta acabara de se casar (mais uma vez) e estava comprando alguns móveis para a nova casa. Foi a primeira pessoa conhecida que Cecília via. Sem muitas cerimônias, repassou o seu endereço e disse que quando Marta quisesse poderia visitá-la. Depois, algumas perguntas e menos explicações, ficou acertada a visita. Numa longa tragada, Cecília começou a divagar sobre a relatividade da vida. Como era capaz que, com tão pouco, pudesse habitar aquela paz? Era voraz a vontade de viver e de mudar aspectos dentro dela. Pensou no quanto podia fazer com o dinheiro que recebia dos investimentos feitos até agora – nesse ponto era muito cuidadosa. Uma das primeiras coisas seria se matricular numa escola de dança. Achava muito sentido na contemporânea. Os pormenores do corpo são mesmo basais no molde de relação para uma vida ativa. Aos poucos, todas as coisas começavam a se acomodar dentro dela. Quando entrou no quarto para se preparar para dormir, Samuel passou por suas pernas pedindo cama. Era incrível aquela ligação tão instantânea. Davam-lhe prazer os caprichos de um gato (tão folgado). Deitou e ao lado via os olhos fixos do seu mais novo companheiro.

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GARY WILLIAMS

Jussara Salazar É poeta e artista plástica. Publicou, entre outros, Carpideiras, este pela 7Letras, e O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas pela Arqueria e do qual selecionamos.


OLYA-O

Senhor que as nossas vacas andem prenhes e as ovelhas plenas de lã que a chuva prepare a terra no estrume pungente da manhã e fecunde os campos Senhor dai-nos o canto dos doidos desenganados dos lobos esganiçados e os frutos senhor bicados marcados apodrecidos no chão em que os pássaros os estranhos pássaros revolveram exalando semeando transpirando latejando revirando a terra em busca de outro amanhã

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RYAN MCGINLEY

Noli me tangere para construir um céu para tingir um vestido para cantar o morto derrubar um obelisco enquanto escrevo o poema o céu desaparece e eu desapareço ao meio-dia entre valas e ratazanas da rua 48 para o poema que nunca foi escrito que venham os espíritos e os cães vadios ditem palavras bebam do veneno roam o osso e depois cantem sobre o meu velho corpo para costurar a mortalha agulha sombra e silêncio ir do fim ao princípio e alinhavar cada parte unindo o algodão branco ao visgo do barro negro e à sombra do verso torto 100


para desmanchar o poema dobrar o sudário porque amanheceu e as luzes se apagaram e não há mais dor nem palavras para o velho amigo morto agulha sombra e silêncio para as cruzes de agosto para esquecer o poema às 5 enquanto lavo o rosto e visto o casaco e o século acaba sem velas acesas sigo o cortejo pés descalços oh jardins destruídos cadeiras ensolaradas caminho pela cidade entre os desastres da tua guerra e um último raio de luz

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JEFF HAHN

O colecionador de peles Aquela mulher aguarda na fila do supermercado. Como um cão vadio aguarda as portas abrirem para escapar quando amanhecer como um cão vadio quer escapar pela rua ela aguarda palavras de amor num poema. Debaixo da pele debaixo da roupa além da pele seu corpo marcado aguarda. Aquela mulher não sabe que o colecionador de peles está tão próximo. Aquela mulher aguarda com seu corpo tatuagens marcas e a sombra do violinista de smoking surrado os retratos de casamento o display o quiosque de hot-dogs o silêncio do futuro

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JEFF HAHN

o teto com nuvens pintadas e as vitrines de natal turvam-lhe a visão. Hoje no noticiário avisaram: as águas do canal invadiram a grande avenida Aquela mulher é Guido Anselmi escapando. Fugindo pelo teto do carro para flutuar sobre a cidade. Fugindo dos vivos fugindo dos mortos. Presos entre os vidros. Fellini. Animal em retirada e a procissão passa. O relógio está quebrado toda beleza suspensa serve apenas para lembrar o garoto na noite anterior. E as águas do canal baixaram debaixo da pele, debaixo da roupa além da pele o corpo daquela mulher aguarda 103


JOAN MARRERO

Geada negra há dois homens no jardim das coníferas e eles conversam com jamil snege um corta a grama o outro carrega um resto de crepúsculo nos ombros já que a vista no jardim das coníferas é morrer um pouco entre os escombros e há dois homens que conversam com jamil snege no jardim imaginário e eles carregam o sol cortam a grama conversam sem palavras – ciprestes sequoias e pinheiros bravos – há dois homens no jardim das coníferas e quando jamil snege desaparece o dia se vai porque já é tarde a brisa morna do jardim se apressa e desenha a tempestade

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JEFF HAHN

Corpo inconsútil a linha do rio costura o céu e a terra a linha da terra costura o céu e o mar a linha do céu dobra o inferno ao meio contornamos o sol a linha do tempo não se dobra mas fia teia de si mesma acalenta o vento e costura a linha dos dias

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OLYA-O

https://www.facebook.com/photo.php?fbi d=1064035126958539&set=a.223607864 334607.69425.100000561857367&type=1 ร‰ jornalista, publicitรกrio e escritor. &theater\\\

Valdir Oliveira Autor de roteiros jรก televisionados, de dramaturgias e infanto-juvenis. Publicou, entre outros, Depois do desejo, do qual selecionamos.


EYLÜL ASLAN

 Os seios de minha mãe O quarto onde minha mãe morava comigo acomodava, entre outros objetos, uma cama de casal, um fogão, um armário e um porta-retrato na parede com as fotos de meu avô e da minha avó. No berço onde eu ficava as imagens eram muito além da mera descrição do ambiente. Havia movimento, muito movimento. Desde a mais tenra idade eu vi homens entrarem no quarto meu e da minha mãe. Senhores de diferentes idades, ávidos por raparigas que tivessem, como a minha mãe, beleza rara, semblante de anjo, garbo de estrela. Eles brincavam com ela, eu brincava com o maracá. Mas eles também costumavam, após o gozo, como quem bate o sino da vitória, aproximar-se do berço onde eu estava e também mexer no meu maracá. Ainda distante eu ouvia pés nos degraus da escada andando ao encontro do quarto de primeiro andar onde ficávamos eu e minha mãe. Um homem se aproximou da porta pelo lado de fora, bateu levemente e aguardou. Era Alfredo, um senhor de traços finos, de roupas elegantes, com uma expressão de quem convivia com amarguras e que era em minha mãe onde encontrava refúgio para suas mágoas. Ele demonstrava grande expectativa diante da aproximação da mulher por quem era apaixonado. Alfredo quis beijar minha mãe, mas ela disfarçou pegando na mão dele e o conduzindo para dentro do quarto. Alguns passos e ele soltou a mão dela seguindo em direção ao berço. Olhou para mim, fez uma gracinha e logo caminhou para os braços da minha mãe. Ela pôs a música na radiola e os dois começaram a dançar. Alfredo acariciou as sobrancelhas, as faces, os lábios de minha mãe, já nem se importando com a minha presença. Instantes depois, com

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EYLÜL ASLAN

volúpia, desabotoou o vestido que despregou-se do corpo denunciando que minha mãe estava sem calcinha. Tinha no corpo apenas um sutiã vermelho. Eu vi toda a cena. O homem tomou minha mãe nos braços e jogou-a na cama. Em meio às carícias, ela parecia ter consciência da minha presença e por isso, de vez em quando, ficava acanhada. Notei quando puxou o lençol encobrindo parte do seu corpo. Alfredo não se conteve e tentou soltar o sutiã vermelho. Havia um conflito, o movimento deixou-me inquieto. O homem foi mais bruto e tentou arriar o sutiã. Quis beijar os seios de minha mãe, mas a firmeza das palavras afastaram o intruso. — Não. Os seios não. Impossível esquecer aquela cena. Minha mãe disse àquele homem que os seios dela eram meus. Entregou a ele todo seu corpo, menos os seios. Eram meus. Os seios da minha mãe eram só meus. Muitos outros homens de sorrisos desconfiados e cheiro de cachaça entraram no quarto meu e da minha mãe, mesmo quando eu já sabia andar. E eu permanecia no berço, fingindo que nada escutava. Mas escutava. Fernando, um senhor de 40 anos, sorriso desconfiado, traços rudes, avançou sobre ela com a sofreguidão de quem desfruta das intimidades de uma princesa. Mário, um boêmio com cheiro de cachaça e semblante de poeta, entrou no quarto com uma garrafa na mão. Sorriu como um bêbado, transou como um bêbado, amou como um boêmio. Antunes, um senhor de aproximadamente 60 anos, com terno e gravata, deu-lhe uma bíblia de presente antes de leva-la nos braços até a cama. Lembro quando um desses homens perguntou à minha mãe se havia outros. Meu coração estremeceu e tive vontade de chorar quando ela disse que não. Não porque tivesse outros homens, verdade que eu já assimilava,

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mas porque ouvi minha mãe mentir. Havia conhecido o rapaz em um parque da cidade e este ficara encantado com o jeito dela. Mostrava-se galante e apaixonado. O rapaz que atendia pelo nome de Crispin, 17 anos apenas, transou com minha mãe. E depois, crente de que fosse o primeiro, sorriu satisfeito. O rapaz tinha a voracidade de quem oferta sua virgindade à primeira mulher de sua vida. Beijou minha mãe, alisou suas coxas, apalpou suas nádegas, tocou a língua em seu umbigo, arriou o sutiã e ameaçou tomar posse dos seios dela. Ouviu um não. Ela fez amor com Crispin uma, duas, três vezes, mas preservou o que me cabia. — Eram meus. Minha mãe disse àquele moço que os seios dela eram só meus. Entregou a ele todo seu corpo, menos os seios. Eram meus, os seios de minha mãe eram só meus. Hoje já não sei por onde anda minha mãe. Voltei à procura do quarto que eu pensei fosse meu e dela, mas o lugar não existe mais. Fugi quando tinha 15 anos de idade e agora não sei por onde anda minha mãe. Ela também não sabe que, como ela, muitos homens frequentam um quarto que tem um retrato seu na parede. A foto de minha mãe me policia, não nego, mas não posso tirá-la da parede... Minha mãe não sabe da foto, e nem sabe que os homens também não tocam em meus seios. Entrego a eles todo o meu corpo, menos os seios. Como os de minha mãe, os meus seios são só meus. Boêmios, poetas, cachaceiros, homens raparigueiros, todos avistam a foto da minha mãe, mas é a mim que procuram. Entrego a eles todo o meu corpo, menos os seios. São meus, meus seios são só meus.

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CRAZY IVORY

Paulo Nunes Nasceu em Patos de Minas, MG, em 1965. Poeta e letrista musical, jรก colaborou com diversas revistas e jornais literรกrios. Do seu livro de poesia, O corpo no escuro, publicado pela Companhia da Letras, selecionamos.


2ORTECA

Velho tema Não era nada, era a morte que tarde da noite (nunca é tarde), bateu à porta e impaciente esperava. Não foi o vento, não foi o braço seco da árvore morta ou, distraída, aquela asa – nada por ali voava. Nem foi a noite, a noite, a noite coitada, que finalmente sentindo medo, pedia uma companhia, e entrava. Nada disso, quem bateu mesmo com as mãos vazias nada queria: era a morte. Quem abriu já não estava.

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TIMELESSE SEEKER

Intervalo Adiado o agora, em qual tempo ser? Negado o passado, esquecido o futuro, debaixo de qual árvore? Sim, é noite, chove (amanhã fará sol), uns pregos teimosos furam a madeira, escrevo este poema... Mas entre a minha mão e a tua, pendida, os milênios caem, os teus gestos migram – e vens, numa brisa indagar pelos rios? Eu que te pergunto: se não houver chão, onde passarei férias?

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GARY WILLIAMS

Instruções a um morto Melhor deitar e cerrar os olhos, pois é cansativo tantas visitas (não vá querer conversar com nenhuma senão as outras entram logo na fila). E, se viver foi fingir, que ainda seja: não deixe transparecer no seu rosto este cansaço de gente que chora mas que no entanto não perdeu o almoço. Nem deixe o cheiro destas flores mortas misturado ao fedor das quatro velas lhe entrar pelas narinas: não respire, sobretudo se há o risco do espirro. E, para o bem geral, fique sereno, não namore a moça nem espante a mosca e, mais que paciência, tenha fé: que logo logo apagarão a luz.

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TIMELESSE SEEKER

A preguiça de Jacó Acima Deus e depois os anjos, logo em seguida o médico, a morte, o padre e estendido sobre a escada este tapete vermelho e dourado, quando o corpo sequer consegue saltar da cama para o caixão. Ao lado homens, insetos e toda a vida invisível, mas que sabemos presente também insistindo em ser vida, nada além ou menos – um tédio feliz, aqui tão quente, domingo, sem subir nem descer escada.

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Porém o velho Jacó se cansa de suas redes de veias, nervos, intrigas enfim, do próprio trabalho burocrático, hormonal de se continuar vivo e buscar, além de tudo dura tarefa, um sentido. Deixa então crescerem barbas unhas, cabelos, desprezo ao que vem para ser cortado, e ao se cansar do pijama achando-se o mesmo escravo, aceita o conselho médico: “não há mais nada a fazer”. E o nada agora é quem faz.

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JAKE HEGEL

Um indeciso O corpo está cansado de não ser outra coisa: parado, pede passagem. Os olhos sonham em ser pedra, as mãos querem ser bichos, os pelos, brotarem verdes. E os pés pensam em fugir disfarçados de raízes ao tédio de haver dedos. A alma suspira e chama o barro transpirante de lágrimas, suor, música: vem, vem significar bem acima da matéria o que a matéria é.

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Porém, o corpo não vai, pois o que nele é alma também está cansado se sempre ser somente isto e nunca sentir a carícia de uma nuvem, o veludo que há nas pedras. E de repente perdido entre tantos apelos e instintivas razões, vem de longe uma notícia confirmada por um grito e eis que o corpo estremece: sabe que perde a si mesmo mas, corpo, não se conforma.

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ROS OTTAVIANO

Informação Teus óculos ficaram cegos, teus sapatos, desanimados e já em outra companhia só hoje tuas roupas saíram. Tua voz ecoou até ontem, quando esqueceu o que dizia e tua sombra, esta, de tão triste sumiu: ninguém nunca mais viu. Sim, anda tudo muito quieto, e se algo de ti ainda teima e mesmo morto não desiste pairando sem borda e sem haste na casa fechada, trancado por dentro, no silêncio úmido teu guarda-chuva está de luto e a chave vai se enferrujando.

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CHYRUM LAMBERT

Quem te toca? Mariposa Cartonera TrĂŞs Meia Cinco Boca Santa Ideias

Pedro Paz Texto


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 Matéria-prima nada comum O desafio de criar, a partir de elementos pouco utilizados no mercado editorial brasileiro, é o motor do desenvolvimento de projetos que trabalham de modo bastante peculiar. A editora Mariposa Cartonera, ao seduzir os leitores com livros personalizados, feitos através de materiais recicláveis. Nada mal para um selo independente, menos de três anos de estrada, 18 títulos. Já as produções do coletivo Boca Santa têm como ponto de partida os polissêmicos palavrões (puta, porra e caralho, por exemplo). Eles já renderam oito livros, uma música e um curta-metragem em fase de finalização. Sem preocupação comercial, o Três Meia Cinco inventa poemas a partir do recorte de notícias não muito inspiradoras. Trabalhar, diariamente, a potência de palavras comuns é a especialidade do grupo. O Movimento Cartoneiro teve origem numa época de crise, na Argentina. Estávamos no ano de 2003 quando ocorreu um colapso industrial nesse país e, consequentemente, crescimento da pobreza. Com o desemprego em alta, as ruas de Buenos Aires ficaram repletas de “cartoneiros”, mais conhecidos como catadores de lixo no Brasil. Da janela de um café, lu-

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um café, lugar-comum de jovens escritores sem chance profissional, Washington Cucurto e o artista plástico Javier Barilaro viram, nos entulhos carregados pelos cartoneiros, uma possibilidade de se tonar autônomo no fazer literário. Criaram, então, as edições Eloisa, que, alguns meses depois, transformaram-se na Eloisa Cartonera. Em pouco tempo, várias editoras independentes, que tinham o lixo como matéria-prima, abriram as portas em todo o mundo. O Brasil, naturalmente, passou a fazer parte desse mapa criativo. Após uma oficina para catadores e escritores na cidade de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, em 2012, o escritor Wellington de Melo, idealizador da editora Mariposa Cartonera, começou a compreender as vantagens de uma editoração independente. Na ocasião, conheceu Lúcia Rosa e Andrea Emboava, do coletivo Dulcineia Catadora, precursor do Movimento Cartonero no Brasil. Um ano depois, publicou o primeiro título do selo, O caçador de mariposas, que escreveu para seu filho mais velho, que é autista. Em seguida, sentiu a necessidade de difundir a filosofia cartonera. “Publicamos livros de forma artesanal, com capas feitas de papelão reutilizado, pintadas e costuradas à mão. Também capacitamos outros coletivos, para que tenham seus próprios núcleos de produção e possam usar essa tecnologia para fins educativos.”, explica em entrevista por e-mail. A Mariposa Cartonera já lançou 18 títulos até agora, entre eles B de Bruxa, de Micheliny Verunschk, e uma coleção de autores brasileiros traduzidos para a língua espanhola, em parceria com o selo La Sofía Cartonera

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CIETE SILVÉRIO

Mariposa Cartonera na Balada Literária

(Argentina), além de dois volumes da antologia Inquebrável, Estelita para cima, cuja renda foi revertida para o movimento #OcupeEstelita, que discute o urbano no Recife. Todas as publicações foram viabilizadas pela iniciativa privada. Contudo, nos últimos três meses, realizou campanha para projeto de financiamento coletivo. Deu certo e o primeiro de dez livros será Atlântico, do Ronaldo Correia de Brito. Todos serão partilhados com as 200 editoras cartoneras em atividade no mundo, com o intuito de gerar renda para os coletivos. A Mariposa também disponibiliza acervo, coedições e traduções. De acordo com Wellington, o foco será sempre publicar a literatura que a editora considera de qualidade. “Isso deve ser a essência de qualquer projeto editorial, não

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importa a tecnologia que se utilize. Trabalhamos numa lógica diferente da do mercado. Preocupa-nos o leitor. Nos interessa saber que temos livros na sexta ou oitava edição, que são lidos, que são únicos (nenhuma capa é igual à outra).”, defende. Ao flertar com valores contemporâneos como o da sustentabilidade, engana-se quem pensa que isso é apenas uma estratégia de marketing. “As pessoas se aproximam do movimento porque temos uma visão mais justa das relações de consumo e de trabalho que envolvem a cadeia produtiva do livro. O Mariposa representa autonomia. Os autores de renome, que participam do projeto, sabem que isso pode incentivar a leitura, o protagonismo local dos escritores e a própria construção dos conteúdos de cultura.”, orgulha-se. CIETE SILVÉRIO

Welligton de Melo (curvado) na Balada

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Com o objetivo de problematizar a gramática formal do mainstream literário brasileiro, o coletivo Boca Santa, formado por cerca de 20 artistas, surgiu há um pouco mais de dois anos, unido por um tema comum, o palavrão. A partir de uma palavra considerada obscena ou grosseira pelo senso comum (filho da puta, porra, caralho ou merda, por exemplo), são desenvolvidas as criações. Dessa brincadeira, já saíram oito livros, uma música e um curta-metragem está em processo de finalização. O publicitário paranaense Luis Rafael Monteiro é o criador do projeto. A ideia surgiu quando ele escrevia um monólogo sobre um ator de teatro viciado em cocaína. Durante essa experiência, veio à tona a palavra "merda", utilizada, no teatro antigo, para desejar sorte aos atores antes da entrada em cena. “A partir dessa ligação da história com o palavrão, pensei em trabalhar com outros impropérios. Como não tinha condições de escrever tudo sozinho, convidei amigos e conhecidos.”, conta.

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Desse insight, surgiu a editora Carniceria Livros e a produtora audiovisual Oficina do Santo. O grupo já expeliu oito livros e o romance Memória da Bananeira, da Isadora Krieger. No capítulo “Masturbação”, da publicação Cabaço, por exemplo, Patricia Chmielewski e Haydee Uekubo brincam com a lenda de que estimular os próprios órgãos genitais faz crescer cabelos nas mãos. “Das mãos, os pelos começaram a se espalhar também pelo corpo. Subir pelos braços, peito, axilas e avançar até o pescoço. Era só meu pau ficar meia-bomba e eles brotavam por toda parte.”, descreve o eu lírico das garo-tas, numa espécie alucinação mágica e erótica. Segundo Luis Rafael Monteiro, a ideia de trabalhar com palavras “sujas” tem um ar de deboche e de provocação. “A caretice impera nesse nosso jeitinho-contemporâneo de escrever e fazer livros e vídeos. A literatura dos centros, do mainstream, é careta. Por mim, pode continuar assim.”, critica.

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Logo mais, o Boca Santa lançará o selo musical A Casa de Locos e a loja online Mercado Pirata. Para o segundo semestre deste ano, estão previstos uma coletânea de contos chamada A Puta Ria, um curtametragem e uma coleção de novelas eróticas. “Antes disso, nós já tínhamos publicado a Granja (coletânea de contos) pela Oficina do Santo, em parceria com o selo A Casa Impressora de Almeria.”, recorda Monteiro, que cuida de todas as edições, da comunicação e da produção-executiva do grupo. O irmão dele, João Gabriel Monteiro, é responsável pelos vídeos e design de todas as capas. “Queremos que nosso trabalho seja essa grande confusão mesmo, com livros, vídeos, fotos, desenhos. Uma cois surgindo da outra, completando a outra. Nossa intenção é sempre aproximar, acrescentar um novo olhar, fazer diferente.”, define o cabeça do projeto.

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Em contrapartida às provocações do Boca, o Três Meia Cinco é quando o jornal vira poesia. A partir de recortes de notícias de jornal impresso, Felipe Valério, Fernando Andreazi e Tata Scaroni fazem a seleção das palavras. “O Três Meia Cinco, em referência ao número de dias de um ano, nasceu de três sensações. A primeira, quando eu e o Fernando percebemos que as notícias do jornal faziam parte do dia a dia, mas em nada nos inspiravam. A segunda, quando, ao recortar palavras de seus universos informativos, podíamos não apenas elevá-las ao um novo olhar, mas também reconstrui-las de maneira mais poética. E a terceira sensação foi quando observamos, como seres apaixonados por palavras, que elas mereciam muito mais embalar um oceano azul do que o peixe do dia seguinte.”, justifica Valério.

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No processo criativo do Três Meia Cinco, não há método para a produção dos recortes. O único cuidado do trio é inventar algo além da informação. “Certa vez, recortamos as palavras ‘partidos políticos’ e simplesmente mudamos a ordem para ‘políticos partidos’. Um exercício simples, mas que, para o cenário de indefinição política que vivíamos na época, carregava um significado muito mais provocador do que o original.”, exemplifica. O grupo também não adotou um jornal específico como recurso. A maior parte do material utilizado vem do lixo. “Eu adoro papel. O cheiro, a manchinha preta que fica no polegar. Mas tem uma coisa que importa mais: o que está escrito nele. Queremos permitir que as pessoas enxerguem mais beleza na vida cotidiana. Podemos não ser livres na escolha das palavras, mas podemos escolher a nossa liberdade dentro delas.”

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Em se tratando de jornalismo, os poemas não têm comprometimento com o real. No entanto, essa regra pode ser quebrada. “Em alguns casos, como o do Amarildo, a gente sente a necessidade de participar da discussão, trazendo uma provocação que não poderia passar despercebida. Amarildo, por exemplo, é formado pela palavra ‘amar’. E foi exatamente isso que faltou em quem o assassinou, um mínimo de amor. Por isso fizemos o recorte ‘Amar ildo’. Foi a nossa forma de destacar em seu nome a palavra que mais deveria nos mano.”, explica Valério. “Em dezembro, por exemplo, su-

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bimos na página do projeto o recorte “escoltado por les amis”. “Quando a gente relaciona esse texto ao atentado contra o Charlie Hebdo, na França, que aconteceu um mês depois, esse recorte ganha um novo significado, muito mais provocador.” Inevitavelvente, durante a conversa com Felipe Valério, foi discutida a crise do jornalismo contemporâneo. Afinal, o jornal é a matéria-prima do projeto. Para ele, ocorre, hoje, uma perda de credibilidade na mídia brasleira e a remixagem de conteúdo tem tornado as histórias menos interessantes. “Não esqueço quando li em um jornal a reação de uma mãe, ao ver seu filho no cai-xão. Ela dizia: "Sai daí, meu filho, isso é só madeira." Veja a carga de mensagem que essa frase carrega. Veja a força que ela gera. Talvez seja isso que falte: mais carinho e coragem com as histórias por trás da informação.” Inicialmente, o Três Meia Cinco duraria somente um ano. Porém vem crescendo e não tem mais data para terminar.

Pedro Paz É jornalista. Cresceu em Moscouzinho, PE e amadureceu nas pistas de dança. Teria um caso com Tulio Carella e é fã de Nomi Ruiz, Shaun Tan, Will & Grace e Lars Von Trier. 131


Ininterruptos Adrienne Myrtes e Bruno Latorre

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HODAKA YAMAMOTO

Adrienne Myrtes Artista plástica e escritora, já pintou uns quadros e publicou alguns livros, entre eles, o romance Eis o mundo de fora. Acredita que a literatura salva sua vida todos os dias e espera que a humanidade dê seu jeito.


JEFF HAHN

Amores diminutos incêndio na umidade do teu corpo plantei meu fogo. floresceu brinquedo quando eu te vejo meu coração pula amarelinha dentro do peito fica comigo melhor não. o sexo fode a amizade último pedido sem caixão! quero beijar a terra enquanto ela me come até a morte companheira pra vida inteira? minha sombra

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PETER THOENY

 O inferno de enxergar o efêmero Adrienne, para você, qual seria a importância de uma publicação como Vida Secreta? João, querido, pra começar preciso dizer que admiro sua disposição e competência para fazer circular a literatura; fico honrada e grata pelo o convite para a entrevista. Para dizer da Vida Secreta começo dizendo de seu suporte, a internet, o fenômeno mais abrasador dessa nossa era, chegou chutando a porta e alterando as relações humanas em vários níveis; para a literatura trouxe uma democracia absurda e maravilhosa nas publicações. Permitiu o surgimento de sites, blogs e revistas eletrônicas as mais diversas. Em meio a essa paisagem a Vida Secreta nasceu trazendo textos de excelente qualidade aliados a um tratamento gráfico primoroso, sem rasgação de seda, acredito ser uma das belas publicações dos últimos tempos; sem dúvida muito importante para divulgar a literatura e incentivar a leitura na rede.

Pelo microconto ser um gênero dedicado à concisão dos 140 caracteres, há alguma obsessão em escrevêlos pela facilidade de vir e se editar? De fato quando comecei a escrever microcontos foi por desafio de Marcelino Freire e nosso limite era de cinquenta toques, sem contar o título. A antologia Os cem menores contos brasileiros do século é de 2004, não existia ainda o Twitter e seus 140, o meu microconto que lá está possui 41 caracteres. A inspiração para o projeto do Marcelino foi o escritor Guatemalteco, Augusto Monterroso, autor do microconto mais famoso do mundo, a saber: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. O Twitter facilitou o desafio.

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Acredito que o microconto é um excelente exercício e finda por viciar, vivo fases nas quais exercito bastante essas micronarrativas e o raciocínio fica afiado, eles passam a surgir naturalmente. Não chega a ser uma obsessão, penso que eles estão por aí e a gente entra na sintonia de reconhecê-los ou coisa que o valha.

O que precisa um bom microconto? Tenho dificuldade para ditar regras, por natureza prefiro quebrá-las daí eu ficar sem jeito para sujeitar pessoas a escolhas, que em última análise são minhas. Por isso vou dizer dos caminhos que transito nessa escrita. Quando enveredo pelos microcontos além da síntese, óbvia, gosto de adicionar doses de insinuação, sugestão e silêncio, muito silêncio para que a história se complete ou se desenvolva em sua incompletude na cabeça do leitor.

Respectivamente, em ambos dos seus textos, publicados na primeira edição, percebe-se um gosto por metáforas e certeira ironia, vontade de fazer o leitor sorrir. No primeiro, "Chá para formigas", como consegue esconder o que deseja dizer apenas para o leitor atento? Acredito que as palavras dizem mais do que o significado primeiro que lhes atribuímos, gosto de brincar com esses dizeres não ditos, com as possibilidades oferecidas pelo relacionamento entre elas; universos nascem a partir disso. Quando escrevo histórias costumo abrir espaço para as palavras exercerem ambivalências, e no caso específico do personagem de Chá para as formigas, coloco esse exercício a serviço da loucura do personagem que por vezes entende, por vezes não entende a dimensão de seus atos. Utilizo sim me-

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táforas e ironias para esse fim e pretendo provocar riso, mesmo que um riso interno, amarelado. Fato. No geral procuro encontrar o lado risível das situações porque acho muito chato me levar demais a sério; além do que tenho ciência das já referidas ambiguidades, se existe luz mesmo dentro da sombra não há razões para não reconhecer o risível nos dramas e saber ainda que a recíproca também é verdadeira.

No segundo, que vence pelo desfecho, como se deu o processo? Este conto veio pronto, descreve uma história que vivi. O trabalho foi narrar de maneira literária, tratar as palavras de forma a tornar interessante um acontecimento cotidiano.

Olhando para a literatura publicada apenas em blogs, feed das redes sociais, como você avalia a produção atual? Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa, já dizia o Rosa e eu pego carona na frase pra especular, vivemos um momento de necessidade de expressão e exposição, aliado a isso a contemporaneidade é ditada pela rapidez de informação, urgência na comunicação, é o que observo. Tudo é notícia e precisa ser consumido de imediato sob pena de sofrer desatualização. Penso que a escrita dos blogs e feed de redes sociais surge em resposta a esse quadro. De qualquer forma é complicado avaliar com propriedade ou fazer julgamento de valor a respeito de um fenômeno social no qual estou emersa, não tenho o distanciamento necessário para tal, nem conheço a fundo todos os vórtices que cercam essa nossa realidade. Assim, assumindo meus limites, penso que apesar da internet e em especial as redes sociais, alimentarem-se dessa fluidez, desse eterno atualizar-se, e em con-

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contraposição literatura pedir mergulho e silêncio, a vida é contraditória e essa contradição, a exemplo de como ocorre com a vida, pode servir de meio e/ou alimento para a angústia do autor, gerando daí textos interessantes, com fôlego para adquirirem esqueleto e musculatura e extrapolarem essa plataforma por serem 'maiores' que ela.

Para terminar, em sua minibio lemos que a literatura salva sua vida. Contaria um pouco desse salvamento, desse encontro com a palavra? Sou uma pessoa cuja cabeça ferve, vivo sob intensa atividade cerebral, construo, reconstruo e descontruo meus próprios argumentos o tempo inteiro; costumo afirmar que meu inferno de bolso é enxergar com clareza a ambivalência e a efemeridade dos fenômenos que me cercam. Por lidar essa peleja interna, esse questionamento de princípios e motivações próprias, creio que vivo dançando à beira do abismo, a um passo da loucura e é nesse sentido que a literatura me salva. Meu encontro com a palavra é necessidade diária, serve de asas para plainar sobre esse abismo, serve de pedras para me manter abismada. Desde muito cedo, escrever passou a ser ordenar e pacificar minhas incoerências, apaziguar a dor de reconhecer minha humanidade e saber que, boa parte do tempo, a humanidade é uma roupa na qual eu não caibo.

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2ORTECA

Bruno Latorre Funcion谩rio p煤blico, reside em Votuporanga, SP. Escreve poemas, contos e cr么nicas. Tem trabalhos publicados na revista eletr么nica Germina e no Escritoras Suicidas.


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Luiz o jantar à luz de velas emprestadas da vizinha já está na mesa com copos de plástico do Wallmart que a gente ia esqueci de pagar as contas ó meu deus quem se esquece de pagar as contas? quando o pior esquecimento é o seu? você foi tão longe que sua escova de dentes já está seca sou somente eu e o meu fiapo de noite escura você consegue ouvir os vizinhos do 208? cara, isso sim é selvagem isso sim é amor isso sim interrompe o meu silêncio agora venha e feche todas as janelas tire a roupa pois a brancura da tua pele me orienta no breu se não enxergo nesta casa é que Luiz é que me falta aquilo que é meu

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ANDREW B. MYERS

A servidora pública a servidora pública com seu óclinho sério e a sandália da promoção pergunta sem olhar em seus olhos – RG e CPF, por favor e suas tabelas tão apáticas, tão céticas listam nomes sem vida a servidora pública eternamente segura o café no copo plástico e passeia pelo corredor em sorrisos falsos de miss a servidora pública trabalha num prédio velho e sua mesa de madeira feia, esconde o colorido das revistas da Avon

a servidora pública sai do seu prédio às 17 horas com cara de tédio mas ela vai pra casa ela vira mulher ela olha para o marido ela é quem quer e termina o dia a servidora púbica

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PETER THOENY

 A necessidade urgente do poema Há alguma conexão da profissão [funcionário público] com os teus escritos? Porque Drummond, em alguns poemas de A rosa do povo, relaciona algo. E no seu caso? O narrador de Murilo Rubião, escritor brasileiro, em seu conto O ex-mágico da Taberna Minhota diz que “Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos”. Creio que o significado do suicídio nessa sentença seria negligenciar a vida, torná-la uma rotina entediante à espera da morte. Eu, como funcionário público e escritor, travo todos os dias uma batalha com o tédio, com as atividades rotineiras, mecânicas e desprazerosas, o que vem a acrescentar um spleen baudelairiano aos meus poemas, donde só o humor ácido pode me (nos) salvar, como satirizo no meu poema A servidora pública que é o dia todo apenas a servidora pública, que sai do seu prédio, às 17h, com cara de tédio, e apenas à noite, em casa, com o seu marido, é uma mulher: ela é quem quer.

É necessário que o poeta seja assim tão burocrático e organizado? A burocracia e organização do funcionário público podem estar na escrita dele, que é sempre rigorosa e exata, ainda que o poeta, mesmo sendo funcionário público, seja o caos em pessoa. O poeta é uma organização feita de desordem.

Isso de recriar persiste sempre e é de deleite seu por homenagear os provedores do texto original? Uma vez um escritor me disse que a paródia e outros re-

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cursos de emulação já estão desgastados e perderam a originalidade, depois do intenso uso no Modernismo. Acredito que em tempos de Ctrl C + Ctrl V, de discursos automáticos, memes e outras fórmulas comunicacionais e estilísticas, a subversão do discurso e da forma são meios da expressão fragmentária da contemporaneidade, criticando os discursos ou até os homenageando, mas não os canonizando como formas fixas. Quando eu crio sobre um poema da Angélica Freitas, me apropriando da forma, mas tematizando a minha realidade gay, ou quando parodio o poema Traduzir-se do Ferreira Gullar, mudando o tom de reflexão filosófica para um tom de comédia, estou homenageando-os, mas sem canonizar as formas criadas, como se fossem interditas à subversão.

A poesia rabiscada na espera pelo busão tem que ser sempre levada à mesa do escritório? Fala um pouco do espaço físico de tua criação poética e de quando chega o “agora posso publicar” ainda que recriando. Ainda não tenho a poesia como obrigação, pois não trabalho com escrita. Tenho o meu trabalho e meus afazeres que eliminam o “ócio criativo” tão caro à poesia, portanto, quando escrevo, é que o poema surgiu de uma necessidade urgente, em que levanto da cama ainda insone para anotar os versos que me ocorreram, para poder, no dia seguinte, digitá-los durante o almoço da minha chefe.

Para você, qual o valor de uma publicação como Vida Secreta? Uma publicação independente é um termômetro de como está e como será a produção literária contemporânea e ter iniciativas espontâneas como essas não significa que o que se publica é de má qualidade, no mais é novo e precisa ser

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descoberto e pensado.

Em relação ao que se publica em blogs, feed das redes sociais, como você avalia a produção atual? A internet é um território livre para publicação. Não podemos dizer que o que se publica nela é ruim, porque hoje até bons escritores se utilizam dessa plataforma para publicar seus novos e antigos trabalhos. O filtro do que se lê depende muito do leitor.

E sobre as panelinhas, os lambe-lambes das amizades públicas de escritores nas redes sociais? Artistas se atraem e se repelem mutuamente conforme suas inclinações artísticas, seja para se inspirar, seja para criticar. Porém com as redes sociais foi adicionado um item nos relacionamentos entre os escritores: não se relacionam apenas pelas suas obras, mas também pelas suas vidas sociais. A formação de “panelinhas” e “lambe-lambes” se tornou inevitável e traz benefícios a uns e prejuízos a outros. Apenas esperamos que a crítica não se envolva nessa área “afetiva”.

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Modo de ver Taciana Oliveira Vanessa Carvalho Fotografias

Ge贸rgia Alves Jr. Bell茅 Textos

Vanessa Carvalho, 2014


 O breve apreendido em cliques Nossos olhos de todo dia estão automatizados, sem dúvida, na maioria das vezes são incapazes de reparar nas sutilezas que passam diante deles corriqueiramente, que param diante deles e acenam, que assopram nos seus cílios e os fazem balançar como bambuzais na ventania, e não o fazem para tirar algum cisco, mas justamente para que cismem com alguma coisa, para que pisquem e voltem a enxergar. Por isso, esse trabalho de Vanessa Carvalho e Taciana Oliveira é aberto: elas aperceberam-se dessa rapidez liquefeita na rotina e resolveram parar, mirar, atentar para os cenários tão triviais por onde o quotidiano desfila incansavelmente para uma plateia desinteressada, alheia, insensível. Elas posicionaram as câmeras e clicaram – como se um clique fosse capaz de desvendar – a beleza do banal, a singularidade do que é costumeiro. “As fotos são, na sua grande parte, registros pessoais dos lugares que eu frequento aqui na cidade ou nas minhas viagens. Há algumas que são registros do cotidiano mesmo, pois caminho muito por conta do trânsito pavoroso do Recife e termino fazendo esses registros.”, conta Taciana, que prestou atenção à desatenção da plateia e celebrou ambas com um registro tocante, em um instante que parecia incondensável e, no entanto, de repente, se viu fisgado. “É um olhar afetivo-urbano”, conclui. 147


Vanessa concorda em partes: “O meu processo é mais uma fobia de brevidade”. A brevidade não é um sintoma, mas um efeito colateral da desautomatização do olhar. Depositar atenção nas belezas fugidias do dia a dia nos faz apercebermo-nos do quão ligeiro elas são e quanto nos farão falta. “Tenho receio de algum dia, no interior, esquecer esses momentos, por isso fotografo essas cenas, gente que queria sempre levar, lembrar”, explica Vanessa. Ela acha o “mistério do desconhecido” algo “maravilhoso” e tenta reconhecer nele algo de si mesma, com sorte descobrir algo novo para ela e para todo este mistério e toda esta maravilha: “Então eu mostro pros outros, pra ver o que eles podem sentir da imensidão dessa cena passageira”. É possível capturar um pouco de uma cidadezinha, de uma fazenda e da selva, do corpo humano – na vida se adaptando e morrendo –, e até do Recife, por onde Taciana e Vanessa se esgueiraram para fotografar. A capital de Pernambuco é a metrópole mais rica do norte e nordeste e o 15° PIB entre as cidades brasileiras. É também Chico Science e o manguebeat, João Cabral de Melo Neto e Gilberto Freyre. Alguns destes foram, e outros ainda são, parte de seus quase quatro milhões de habitantes. Não há como precisar se os anônimos flagrados pela dupla de fotógrafas cometendo o delito de viver são, de fato, recifenses. Em realidade isso não interessa, o ponto central é que eles fazem parte da cidade, são o elemento vivo de um determinado instante, o pedacinho de imensidão no meio da celeridade. Jr. Bellé

148 Taciana Oliveira, 2014


As cores e aspectos recifenses Um milésimo de segundo. Um frame. Um instante capturado. O rio e os telhados do Recife. As conversas na calçada. O estandarte do vendedor de algodão doce e as pastoras do bloco lírico no Carnaval do Recife. Cor de rosa. Cores doces. Cores em brasa. De uma cidade em sua cartela de cores. Cartier Bresson e o reflexo do homem vira bicicleta. Taciana Oliveira e Vanessa Carvalho e a tradição viram sorriso tríplice. A nostalgia vira um quadro de Edward Hopper. Mantendo acesa uma esperança de inspiração por mais uma geração. O Recife não é o mesmo. É outro e outro e outro e mais outro Recife. Ares do Recife, dos arrecifes, das pedras e paralelepípedos. Cada suspiro do balão de gás hélio, cada abraço do manequim despido, cada poça d'água mostra que eu respiro o Recife. Não o Recife de sempre, e sim outro Recife. E outro e outro e outro e mais outro Recife. Imagens felizes, instantes tristes; instantes tristes, imagens felizes. E o pós-olhar resiste porque a saudade existe, a vontade insiste, e a paixão mais recifense é o riso. Onde não há o que contar, pode se fazer um chiste. Você viu? Vira "visse"? Ave Maria, vixe, oxente, menina amostrada, menino danado, calor da gota, amor de muito, porque tudo no mundo é só um modo de ver. Tudo de novo. Do começo. E como diria Vilém Flusser, no estudo da "Filosofia da Caixa Preta", realidade é tudo aqui que esbarramos no caminho para a morte, portanto tudo que nos interessa. Ver é um modo de ver. Geórgia Alves

149 Vanessa Carvalho, 2014


Taciana Oliveira, 2014


Vanessa Carvalho, 2014

Vanessa Carvalho, 2014 DIVULGAÇÃO


Taciana Oliveira, 2014

Taciana Oliveira, 2013


Taciana Oliveira, 2014

Vanessa Carvalho, 2014


Taciana Oliveira, 2015

Vanessa Carvalho, 2014


Vanessa Carvalho, 2014

Vanessa Carvalho, 2014


Taciana Oliveira, 2012


Vanessa Carvalho, 2014

Vanessa Carvalho, 2014


Taciana Oliveira, 2014

Vanessa Carvalho, 2014


Taciana Oliveira, 2014

Geórgia Alves

continua no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife. Vive nas nuvens, entregue aos ares que a cidade empresta.

Jr. Bellé

mora em SP e é jornalista, vem colaborando com a Revista da Cultura e é autor do livro de poemas Trato de levante.

Taciana Oliveira

vive no Recife, desafinada, atropelada e tecnicolor. Seu ofício é mesmo seu vício e pratica no habitual a escrita de poemas.

Vanessa Carvalho

reside em Igarassu/PE, gosta fortemente de clicar a redondeza donde se encontra e o centro do Recife. Também escreve.


JOAN MARRERO

Graça Taguti É jornalista, publicitária e escritora. Nasceu em Madrid, mas atualmente mora no Rio de Janeiro. Já publicou suas crônicas na Revista Bula e é cativada por realidades alternativas.


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 Amar é achar alguém para ficar completamente perdido Onde você mora? Em uma casa coberta de amêndoas recheadas. Em qual bairro? Na página 37 de um livro que eu ganhei ainda na pré-adolescência: “Torne o seu amor mais gostoso”. Humm. Crunch. Nham. Mas preste atenção. Você está caminhando com os olhos colados no céu. Cuidado pra não tropeçar em cometas. Minha vida vem sendo pintada de azul. Se vai caber um arco-íris nela, com pote de ouro e tudo, ainda não sei. Se ela vai se intrometer num vaso abusado de girassóis e rodar ao vento, distribuindo ramalhetes nessa paisagem que dança leve e fresca, ignoro. Meu endereço, mesmo, perdi. Ando flutuando pelas ruas. Sobrevoando montanhas. Não preciso mais de sapatos. Nem de carro ou bike. Com essa paixão que incendeia vários pedaços do meu corpo, eu piso no acelerador dos sonhos, abro as janelas das possibilidades e viro meu próprio veículo. Eu me levo além do horizonte. Muito longe mesmo. Espera. Vou tentar explicar. Tudo aconteceu porque você apareceu me pedindo carona, com esses olhos meio mel, meio azeitona, que bem podiam virar tiragosto de bar. Eu estava estacionando meu patinete numa esquina arborizada. Às vezes saio de skate, mas, por acaso, nesse dia, não saí. Você chegou manso como um cãozinho dengoso e

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com um jeito pidão suplicou. “Se você me deixar no Cine Lua, quatro esquinas mais à frente, te dou um picolé de manga em forma de estrela. Quer? Essa é a ultima exibição de um filme dos anos dos 60, ‘Dio Come Ti Amo’, protagonizado pela Gigliola Cinquentti, grande cantora. Mas você não deve conhecer... é muito gatinha ainda. Nem sabe miar. Mia, vai, que eu duvido.” Não miei só de teimosia. Importa é que eu conheço de cor as falas e os vários silêncios que explodem segredos no meu coração. Parecem com os rojões de festejos nas favelas quando as drogas chegam. Entretanto esse filme não vi. Nunca assisti. Pensei mas não disse. Ele se chamava Rafael e fui pra Lua com ele, quer dizer pro Cine Lua. Decidimos junto catar estrelas, juntar histórias ainda virgens, escorrendo aquarelas, quando eu aceitei o tal sorvete de manga de cinco pontas, e deixei meus sentimentos suspensos no ar, girando como transparentes bailarinas. Durante a sessão, pode acreditar, comecei a ser muitas outras. Ana, Luiza, Helena, Luana. De cabelos curtinhos, cor bronze. Cacheados até os ombros, feito trigo puro. Mechas desfiadas em tom acaju, raspando os ombros tatuados. Eu crescia e encolhia. Como sanfona em feliz atividade no coreto da praça aos domingos. Do bolso dianteiro da minha saia curtinha caiu minha carteira de identidade, enquanto eu beijava o Rafael. Aí percebi que estava gostando dele em várias línguas. Que conseguia penetrar nele, vasculhando seu corpo quente enquanto fincava bandeirinhas de con-

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quista ao alcançar alguns de seus órgãos. Era como se inaugurasse as regras de um game visceral. O fígado, pâncreas, baço, me apossei de tudo. Até do coração dele que tinha cor e aroma de vinho tinto da melhor qualidade, tomei conta. Registrei minhas vitórias num cálice de cristal francês. Repeti a dose. Mais vinho, por favor. Outra garrafa de Pinot Noir. Merci. Uma coisa é certa: quando a gente se perde em alguém, sente como se estivesse embriagado de anseios, sem nome nem sobrenome. Joga fora junto com os medos residuais a velha programação do nosso código genético. Pisa num GPS distraído. Atira a velha bússola do avô, cachoeira abaixo. Balanceia e respira fundo. A paixão asfixia e manda recados através de certos tremores nas mãos. Ainda assim prossigo, como valente amazona. Meto bala em preconceitos imbecis. Esqueço as lições sem nexo do pai e da mãe querendo a todo custo me preparar pra trilhar alguns rumos, sem início, meio ou fim, traçados na neblina e nos escaninhos da triste infância. Hoje não me interessam países, oceanos, nem continentes. Sou atravessada por processos geográficos e psíquicos, constantemente fertilizada pelo sêmen do universo, convivendo livre com reticências, vírgulas e interrogações. A verdade é que deixei meu melhor sorriso agarrado ao teu pescoço em delirante mordida. Te enrolei nos meus cabelos feito cobra pantaneira, já que nesse momento meus fartos cabelos atingiam a cintura. Costurei

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RYAN MCGINLEY

duas asas com raiz de linhaça e folhas de palmeira nas tuas costas, pra te ensinar novos passeios e voos nessa vida enlouquecida que estrutura e desorganiza tudo, num simples segundo. Perdi meu rosto quando te achei. Mas ganhei um monte de expressões lindas, que guardei num pote de vidro, onde minha avó acumulava balas de coco e gengibre. Rugas, rubores, algumas dúvidas complexas alojadas entre as sobrancelhas. Depois de meditar quietos dias e noites a fio, percebi também que amar é enxotar o egoísmo, sempre grudado em ganâncias de todo tipo. Demitir das falas as certezas dos discursos ressecados, a escuridão bandida. Deixar os abandonos pegando sereno fora da porta. Perdi meu rosto, conta bancária, demandas sem nexo, projetos vazios depois que te encontrei. Nada me fazia falta, então. Porque agora, aliviada, eu constatava algumas delícias. Entendia que amar é achar alguém para ficar completamente perdido. * Título emprestado do poeta Zack Magiezi.

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JOAN MARRERO

Ao passar esta página, ficará visto o nosso leitor secreto dessa segunda edição. Ele notou tudo que está aqui previamente, e colaborou também. Dividamos juntos: >>.

Deseja colaborar? Envia, em até oito páginas, teu(s): Artigo com abordagem em cultura; Conto(s) sem necessitar erotismo; Poema(s) de estrutura livre; Romance (trecho) até no prelo; ou tua Crônica de tipo atemporal. Inclui tua minibio de três linhas na fonte Arial 12 e umas fotos para

vidasecretacontato@gmail.com


ROS OTTAVIANO

Leitor secreto CĂ­cero Belmar Convidado


ROS OTTAVIANO

 Afinal, quem é secreto? João me propõe o imponderável. Que eu seja o leitor secreto. E que, nessa condição, eu diga o que achei dos textos que compõem essa revista. Ele me entrega os textos para eu ler e só então me deparo com a porta. Não tenho a chave. Pensava que ela estava dentro da bolsa e a procuro, inutilmente. Definitivamente, não a acho. Não a chave dos outros. De mim mesmo. A porta é apenas a minha dificuldade de julgar. Todas às vezes tenho a sensação de que falando do outro é de mim mesmo que falo. Como diz a música “Sangue e Pudins”, de Fagner, eu sou bem secreto. E não acho a chave de mim. Sem saber quem sou, como vou falar dos outros? Mas, enfim, preciso dizer alguma coisa. Aqui e agora. Pois bem, pude ler cuidadosamente cada texto. Mensagem compreendida. Entendi os relatos. E os recados. Quem escreve manda recados. Muito foi dito. Outras coisas não precisam mesmo ser expostas, pois o subtexto grita mais alto que a palavra escrita. E, finalmente, precisamos reconhecer, nesses textos também está presente o inútil. Mas, todos nós, que nos aventuramos a escrever anseios, angústias e conflitos, somos nossos primeiros críticos. Não precisamos de dedos em riste a nos acusar. Sabemos bem o que é sublimação e o que é catarse. Assim como sabemos o que não é uma coisa nem outra. Escrever, estou convencido, é um ato de rebeldia. SoSSomente os insatisfeitos que nasceram para destoar da 167


mente os insatisfeitos que nasceram para destoar da maioria, se aventuram a dizer barbaridades. Ou fazer poesia. Sublimação e catarse deixam de ser elas mesmas quando viram poesia. Então, não serei eu a apontar defeitos naqueles que. Também não posso abrir a boca para dizer que aqui estão reunidos de Graciliano a Hemingway. Ou que todos, sem exceção, têm estilos cristalinos e arejados. O que posso, e digo, é que este é um caleidoscópio inesperado. Há muitas coisas surpreendentes. Na vida. E nesses textos que li. No geral, afirmo, não são textos congestionados. Não são. Alguns, de autores formados, textos perfeitos, irretocáveis. Outros, um brotinho ainda. E digo mais: são composições honestas, de autores que deram – e dão – o melhor de si. Textos que buscam significar. E também ressignificar. Desde o mais jovem, ao mais teatral, o jornalístico-artístico, passando pelo mais preconceituoso, o não assumido, o lírico, o visceral, o ensaio consistente, a narrativa forte, o texto da feminista, aquele que não mergulha e fica só na superfície, o que ainda está em construção, as fábulas para adulto. Gostei. Recomendo. Gostei até mesmo daquele que fiquei com uma vontade irresistível de ninar, cantando: “Você precisa saber da piscina...” (Obrigado, Caetano). Gostei, ainda, daquele outro que, se tivesse num frente a frente com o autor, ou autora, numa mesa de bar, aconselharia: “Peça meu livro, querendo eu lhe empresto...” (Valeu, Luiz Melodia).

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Mas, quem sou eu? O papa da religião? Jamais, meu nêgo. Leio e reflito: todos têm um ponto em comum. Positivíssimo, inclusive. Ninguém aqui faz a linha conformado. Ou conformada. Quem tenta estabelecer uma nova realidade, embora não rompa totalmente com ela, já tem a arte no desejo. Os textos apresentados nesta revista falam mais de seus autores do que se possa imaginar a nossa vã filosofia. Juliana Frank, Ana Guadalupe, Rapahel Gancz, Donizete Galvão, Regina Azevedo, Carla Diacov, Adriane Garcia, Elvira vigna, Bobby Baq, Eder Asa, Tânia Consuelo, Jussara Salazar, Valdir Oliveira, Paulo Nunes, Adrienne Myrtes, Bruno Latorre, Diego Moraes, Graça Taguti. Entre esses, há novidades. De pessoas e estilos. Há consagrados. Grandes promessas. De pessoas e estilos. E promessas vãs. Basta. Até aqui estou falando dos autores que são apenas a parte mais visível dessa revista. A turma da berlinda. Mas, para não dizer que não falei da flor, dedico as próximas linhas a João. O Gomes. João Gomes, o editor, tenta ficar, mas não é invisível. Afinal, foi ele quem selecionou esses autores, escolheu seus textos, identificou tendências e ramificações. O trabalho do Gomes revela alguém que tem faro para as pessoas que escrevem com tensão, com tesão e com leveza. Disfarçada de. Seleção é naturalmente subjetividade. Tudo o que é selecionando por alguém fala sobre essa pessoa. É psicologia: o objeto escolhido tem a pessoa como referência. Essa revista é, portanto, uma obra literária em construção. 169


cia. Essa revista é, portanto, uma obra literária em construção. E digo mais: ela contém capítulos de uma mesma revolta. João é. É um rebelde. Primeiro porque ele escreve. E segundo porque lê. Os autores que ele escolheu para publicar nesta edição são a sua contratransferência. Eles se irmanam na atualidade. Na concisão. Nessa literatura extraída do cotidiano. Há quem goste do conteúdo e outros da forma. Eu sou bi. Também gosto dos textos curtos. Vejo que João selecionou as formas breves de narrativa, que só podem ser experimentados em contos e crônicas, e nos poemas. É a tendência. Os textos escolhidos são frutos de uma viagem de leituras. Mas buscam uma conexão. João quer estabelecer diálogos através de suas escolhas. Um primeiro diálogo seria entre os autores e ele mesmo (João); o segundo, dele (o editor) com os leitores; e o último diálogo, dos leitores com os autores. Estava pensando seriamente em colocar um ponto aqui. Mas, já que estamos falando de literatura, que tal uma brincadeira do tipo literatura policial, gênero de que eu adoto, e cujos livros sempre desvendam um mistério no final? Hora do recreio. Ao fazer parte da equação dos diálogos, caro leitor, você termina constatando que faz parte de uma conspiração. A conspiração da leitura. Desde o começo, foi informado de que o leitor secreto aqui sou eu. Mas, lamento informar, você caiu como um patinho. A verdade é que eu sou o único leitor que, de fato, 170 Porque eu sou aquele que não é secreto. Sabe por quê? se revela. Até um minicurrículo é apresentado para mi-


Mas, lamento informar, você caiu como um patinho. A verdade é que eu sou o único leitor que, de fato, não é secreto. Sabe por quê? Porque eu sou aquele que se revela. Até um minicurrículo é apresentado para minha identificação e sua verificação. A verdade é que há vários leitores secretos. João Gomes é o primeiro. Se ele leu e selecionou tudo o que há nessa revista, antes de todos tomarem conhecimento, somente o Poderoso ficou sabendo dos outros autores que não entraram nessa coletânea. Os autores que não passaram pelo seu controle de qualidade. Sujeito oculto ou não é? Finalmente, os demais leitores secretos são vocês. Isso mesmo. Não há tecnologia possível, até o presente, que possa identificá-los no momento da leitura. Vocês estão protegidos pelo anonimato, nesse instante. Analisam. Julgam. Aprovam. Rejeitam. Reescrevem. Isso, sim, é o que eu chamo de secreto. Grand finale.

Cícero Belmar É jornalista, dramaturgo e biógrafo. Nascido em Bodocó, PE, é escritor e reside no Recife. Autor de, entre outros, Tudo na primeira pessoa e Aqueles livros não me iludem mais.

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De saída Priscila Merizzio Correspondente

O “povo brasileiro” em relação à arte. CRAZY IVORY


ROS OTTAVIANO

 Independência é morte? Muitas revistas e jornais literários digitais ou impressos sem fins lucrativos procuram fazer um excelente trabalho aos leitores, artistas, pesquisadores e outros participantes, como jornalistas, entrevistados etc. Quando se diz “sem fins lucrativos”, pensa-se também nas publicações cuja anuidade ou valor por exemplar servem apenas para cobrir os custos de produção e serviço de correios. Um bom número de publicações independentes que hoje realmente fazem um trabalho relevante à cultura artística do país (englobando qualidade de produção, exigência de forma e conteúdo estético dos convidados) infelizmente não podem bonificar financeiramente seus convidados. Para escrever o presente artigo, pesquisaram-se nomes de editores que desempenham ou já desempenharam grande serviço ao meio literário brasileiro, e pôde-se constatar que a maioria mantém ou manteve seus jornais ou revistas à custa do próprio bolso. Concluiu-se que todos os envolvidos nesses meios independentes – colaboradores e corpo editorial – fazem esse trabalho por amor à arte e ao próprio labor. Na cena literária independente, assim como em qualquer outro meio que trabalha com arte e curadoria, é natural que existam níveis diferentes de qualidade de edição, ideais estéticos, sistemas internos de pontualidade e organização. Nem todos têm a chance de terem patrocínio privado ou projetos aprovados em editais, como foi o caso do Jornal Rascunho, fundado e editado pelo jornalista e escritor Rogério Pereira, que após 15

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anos sendo mantido com a ajuda financeira do editor, ano passado teve auxílio da Lei Rouanet e nesse ano poderá talvez, finalmente, conseguir manter-se através das anuidades de assinatura e auxílio dos patrocinadores. O Rascunho, que tem 60 colaboradores e presta grande serviço à literatura nacional, estando entre as melhores e mais procuradas publicações pelos amantes das letras e escritores delas, está tentando novamente a Lei Rouanet para 2015. Por outro lado, nem todos os editores querem ser patrocinados. É o caso de Lima Trindade, mestre em Literatura e editor-chefe da Verbo21, criada por ele e por Wilton Rossi, que dividiu a função de edição com Lima até 2001. Após 15 anos, a revista parou suas atividades em abril de 2014. Sem fins lucrativos, com domínio próprio e ISSN a revista contava com a colaboração de escritores, artistas e pesquisadores. À curadoria e edição, feitas por Lima, via-se o apuro nos conteúdos mensais. Segundo o editor, Verbo21 teve papel importantíssimo à literatura nacional e contou com a colaboração de autores estrangeiros e brasileiros, tanto nos textos literários como na seção de entrevistas. Foi uma revista de carreira independente. Os custos de sua manutenção eram todos de Lima, que nunca aceitou patrocínios, pois se pautava na filosofia do “Do it yourself” para não submeter-se à aprovação de terceiros e ter liberdade plena de ação e poderes. Os colaboradores participavam por acreditar na relevância de serem publicados. Segundo Lima, “a escolha de um meio independente traduz a busca de uma completa autonomia, uma não submissão ao status quo,

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uma não adequação ao sistema de produção artística e cultural que só enxerga valor no dinheiro. Nosso produto era o valor simbólico. O poder da palavra e a capacidade de provocar a reflexão em favor de uma maior criticidade”. As publicações literárias independentes são importantes para além do discurso passional. Com a autonomia que a internet dá aos artistas, hoje é possível a qualquer um lançar sua própria revista ou jornal digital sem dispor custos financeiros de impressão. Isso significa que artistas que não se sentem incluídos em determinados espaços que reúnem pequenos poderes e benefícios, seja por não terem sido aceitos ou por não concordarem com as políticas internas de tais, estes têm a chance de fazerem florescer sua própria voz. Quando se fala sobre serviço intelectual fica difícil estimar preços. Há muito tempo escritores discutem entre si e politicamente sobre receberem ou não cachê por seus trabalhos, sobretudo os poetas, que fazem parte de uma classe artística bem rejeitada pela sociedade. É sabido que o gênero escolhido por tais vende menos por, na hora de peitar livros, a massa preferir romances. Alguns escritores vêm questionando que se os organizadores de eventos ou revistas artísticas têm lucros, os convidados também devem ter seu quinhão financeiro. É quase unânime, contudo, que ser artista tem mais a ver com liberdade do que com qualquer outra coisa. Por outro lado, é importante alterar a posição ideológica do pêndulo e pensar nas implicações desfavoráveis do cenário independente que, quando em longo prazo,

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podem tornar-se um tiro no pé que alguns editores e jornalistas dão em si mesmos por trabalharem “de graça” às revistas e jornais culturais. Armando Antenore, jornalista, e durante oito anos editor da extinta revista BRAVO! defende veementemente a ideia de que prestar serviços sem cobrar por eles é desvalorizar os anos de esforço que a classe dos jornalistas empenhou para ser valorizada. Formado na USP e atuando como tal desde a década de 80, Antenore admite ter vivido a fase de ouro do jornalismo brasileiro e que jamais escreveu de graça. No entanto, deixa claro que não condena quem age e pensa diferente dele, inclusive reconhece que há pessoas talentosíssimas trabalhando voluntariamente ao meio independente. E ainda levanta problemáticas cruciais à reflexão do tema. Antes, adverte que não tem uma posição assertiva sobre o assunto. Tem apenas sua posição, e que ela é sempre dubitativa. Segundo ele, “sob a ótica do jornalismo profissional, essas publicações (as independentes) não resolvem o nosso problema. Porque o jornalismo profissional precisa ser remunerado. No capitalismo, uma profissão só existe se for exercida em troca de dinheiro. Se os jornalistas continuarem a trabalhar de graça, ajudarão a tornar a profissão cada vez mais inviável; sem dinheiro, não se vai longe. A questão já transcendeu o jornalismo cultural. Hoje, há vários coletivos em São Paulo que tratam de temas como segurança pública e que funcionam como essas publicações culturais ou coletivos de jornalistas sobre a questão hídrica. A discussão da remuneração é permanente dentro desses coletivos, porque há quem enxergue o jornalismo como

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militância e quem enxergue como profissão. Os que enxergam como profissão estão parando de colaborar com esses meios. Pessoalmente, eu sempre encarei esses ofícios como profissão. Só escrevo de graça no meu blog. É uma posição pessoal. Faço parte de uma geração imediatamente posterior a da profissionalização do jornalismo e vi o quanto foi duro para os colegas do passado conseguirem melhorar a remuneração e tornar o jornalismo uma profissão mais viável. Então, desde jovem, sempre me posicionei assim. E via isso como uma postura política. Só que, por ironia, a profissão caminhou por outro lado. E houve cada vez mais uma desmobilização dos jornalistas enquanto classe profissional. Eu acho isso um erro e que se é o caso de abraçar uma luta política, que abracemos então a de valorizar a profissão como tal. Lutar para que a sociedade entenda que tudo isso é trabalho. E que esse trabalho merecer ser comprado. David Carr, jornalista do NY Times que morreu recentemente se batia muito nisso. Ele dizia que é preciso financiar o trabalho dos jornalistas. Como financiar é outra história. Porém, entregar os pontos e aceitar que não é mais uma profissão é complicado. Não criticarei quem escreve de graça. Só digo que esse movimento me preocupa porque a profissão não pode ficar reduzida a iniciantes que ainda não precisam se sustentar ou às pessoas que trabalham o dia inteiro em outras coisas e se dedicam ao jornalismo nas horas extras”. Quando a Abril quebrou, em 2013 suspendeu a BRAVO! e deixou a Playboy nas bancas. Fica clara a preferência do país. Quem é que pagaria para ler conteúdo de

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arte na internet? Discutindo com Antenore, concluímos que na parte que toca as classes menos abastadas não é a questão financeira que pesa, mas a das prioridades e da concepção atual de mundo. Por uma questão cultural, muitas das pessoas mais desfavorecidas sentem-se rejeitadas não porque não podem comprar uma revista de 20 reais, mas um tênis de marca de 200. E quanto aos que têm condição financeira de adquirir livros e revistas, estes preferem investir em outras coisas, como almoços caros, produtos de beleza, roupas de marca, cigarros, bebidas, objetos supérfluos de decoração etc. A desigualdade social do país e a péssima qualidade do ensino público influenciam diretamente na falta de interesse às revistas de arte. E entre as classes mais abastadas existe uma ignorância saliente e prioridades discutíveis. Quando questionado sobre o fato de que se as revistas, jornais e editoras independentes se mobilizassem para não publicarem mais não fariam falta alguma e que a massa continuaria suas vidas, Antenore articulou “por que não pode haver gente tentando convencer de que ler um livro ou ir a uma peça pode ser tão importante quanto trocar de tênis todo ano? Você fala em as pessoas não sentirem falta das revistas, porque elas não são essenciais. O que é essencial afinal? 90% do que consumimos não é essencial. Tornou-se essencial por uma questão de marketing”. O jornalista admite que a situação cultural no Brasil é grave, no que diz respeito à falta de valorização das publicações independentes de arte e as implicações negativas disso. Ele acredita que alguma ação coletiva deve

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ser feita, mas não consegue definir o quê nela. É algo que precisa ser pensado. E completa: “se os jornalistas e mesmo os escritores não se posicionarem seriamente sobre essa questão, abrindo uma discussão na sociedade e dentro do próprio ambiente profissional/sindical a respeito do valor que queremos dar a esse tipo de trabalho (em favor ao meio editorial, ao jornalismo cultural), ninguém o fará por nós. Os patrões não farão. O consumidor não fará. Para o patrão interessa pagar cada vez menos e o consumidor está cada vez mais se habituando à ideia de essas coisas chegarem de graça”. Ainda sobre o mercado independente, existem editoras dando vezes a muitos escritores iniciantes ou mesmo experientes e que têm pouca atenção das maiores, fazendo um trabalho gráfico impecável com pouquíssimo lucro ou nada. Ao contrário, algumas têm altas despesas e se mantêm funcionando por ideologia e por reconhecerem sua importância no mercado editorial. Afinal, alguém precisa dar oportunidade aos artistas que obviamente não teriam chance de serem publicados e divulgados pelas campeãs de vendas. É o caso da editora Cousa (do Espírito Santo), do coletivo Boca Santa, da Boitempo, Conrad, Demônio Negro, Descaminhos (essa aposta em publicações na plataforma KDP, da Amazon), Gato Preto, Lumme, Patuá e da Penalux (estas de São Paulo, SP); Substância (Fortaleza, CE); Beleléu e Confraria do Vento (Rio de Janeiro, RJ); Sol Negro (Natal, RN); Bernúncia, Cultura e Barbárie (ambas de Santa Catarina), Medusa (Curitiba, PR) etc. O meio literário comercial é uma torre de marfim, ina-

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cessível à maioria dos escritores. Como observam os próprios editores independentes e críticos, há atualmente no Brasil mais escritores que leitores. Infelizmente o nível de exigência estética do público comum é baixíssimo e escritores preocupados em realizar uma arte de maior qualidade têm pouco espaço em selos comerciais. É claro que existem escritores e poetas de porte considerável sendo publicados pelas grandes editoras – a questão não é somente essa, quando é recomendável nunca generalizar, em nenhum dos lados. E o objetivo do presente artigo não é ater-se a pensamentos de estética literária. Eduardo Lacerda, editor da Patuá, é conhecido pelo trabalho missionário que realiza no Brasil, publicando escritores de todos os cantos, gêneros, classes sociais, raças e estilos. No momento, é a editora independente com maior lançamento de novos autores. Futuramente é bem possível que o serviço que está prestando à literatura independente brasileira seja reconhecido como o divisor de águas, entre o muro que divide as grandes editoras e seus escritores selecionados a dedo dos iniciantes e pouco conhecidos que estão tentando seu lugar ao sol. A maioria dos escritores e poetas disputa entre si o legítimo desejo de terem ascensão nacional na chegada às grandes editoras, que possibilitam contratos mais rentáveis financeiramente, além do prestígio que a equipe de marketing faz aos seus autores publicados, a maior chance de traduções de suas obras e oportunidades de feiras e palestras no país e exterior. No meio desse jogo, às vezes velado, às vezes desca-

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rado, nasce a já citada Patuá, cujo editor faz tudo sozinho, inclusive embalar e enviar os livros pelos correios. Até mesmo está conseguindo infiltrar alguns de seus autores publicados nos maiores prêmios nacionais, além de ter a atenção de nomes relevantes ao meio intelectual brasileiro e o respeito de vários artistas. Infelizmente, vende pouquíssimos livros, se não dispõe dos artifícios publicitários das grandes editoras e também ainda não tem condição de oferecer um contrato que beneficie financeiramente o autor, em virtude da própria dificuldade em vender livros. Novamente retorna-se à discussão tida com Armando Antenore, de que a concepção de mundo impede as pessoas de comprarem livros independentes no lugar de superficialidades. Sobre a cena literária independente em si e em como escritores e poetas podem migrar dela para as editoras maiores ou ficar ululando entre os dois mundos, Ronaldo Bressane, jornalista, escritor, editor e importante divulgador do cenário independente dá seu parecer. Segundo ele, a importância das revistas, jornais e editoras literárias independentes é total. “Sem os indies não há oxigênio na literatura. Respira-se um ar muito viciado no mainstream, pouco afeito ao risco, à ousadia. É muito frequente, inclusive, que os indies virem mainstream, mas que tenham passado por essa fase antes. E os que passam por essa fase antes seguem, mesmo no mainstream, autores desafiadores, provocadores. Veja Marcelino Freire, que editou os próprios livros no começo (hoje na Record). Ou Joca Reiners Terron (hoje na Companhia das Letras), que foi editor da Ciência do Acidente, ou

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Daniel Galera e Daniel Pellizzari (da Livros do Mal) ou Antonio Xerxenesky (da Não, hoje na ROCC). Eu comecei editando um site de literatura (a Revista A, entre 1996 e 2000 – foi o primeiro site de literatura do Brasil) e editei quase todos os meus livros de maneira independente, mas hoje também tenho livros editados pela Companhia das Letras e Cosac Naify, e posso dizer: a adrenalina de publicar indie é 100 vezes maior e melhor. Breve vou lançar meu segundo livro de poesia, depois de 13 anos sem publicar, e também será indie, em um esquema de crowdfunding. Autor que fica esperando por editora pra ser descoberto ou ser lido ou meramente ser editado não entendeu nada a ideia de literatura. Deve ser por isso que volta e meia sou assaltado pela vontade de, mais uma vez, editar uma revista indie de literatura”. A Revista A, editada por Bressane, existiu na época anterior à popularidade dos blogs e não existe mais na internet, de tão inicial que foi. “Pena, porque era linda. Fizemos 4 edições, 1997, 1998, 1999 e 2000. Ali lancei nomes como Emilio Fraia, Indigo, Jorge Cardoso, sem falar em muitos artistas e ilustradores hoje no mercadão. Editei meu primeiro livro em 1999, também do começo ao fim – tirei os fotolitos eu mesmo da impressora e os levei à gráfica. Em 1997, quando comecei, só havia o Daniel Pellizzari, a Indigo e o Xico Sá na internet. Já havia um site chamado Não, editado pelo Jorge Furtado em Porto Alegre, que trazia ficções. Em 1998 ou 1999 surgiu um site chamado Blocos, em que o Daniel Galera colaborou. E só em 2001 apareceu o Cardosonline.” O tema apresentado anteriormente é amplo e repleto

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de nuances e detalhes importantes. Infelizmente, não foi possível aprofundá-lo da forma como poderia ter sido e nem todas as revistas, jornais e editoras existentes puderam ser citadas. Contudo, registra-se aqui o respeito e admiração por todas as publicações independentes do Brasil e seus editores e colaboradores. E também a todos os escritores e poetas que escrevem com toda a sinceridade e lutam, ao seu modo, para serem melhores como pessoas, artistas e como cidadãos engajados na evolução do país. A seguir, a quem tiver interesse, uma pequena lista de revistas e jornais literários independentes, impressos e digitais: Carcasse, Caros Amigos, Cronópios, Diversos Afins, Ellenismos, Entreverbo, Errática, escamandro, Escritablog, Gente de Palavra, Germina, Mallarmagens, modo de usar & co, Musa Rara, Coyote, RelevO, Sibila, USINA e Zunái. No site Letras Partilhadas, de Lara Souto, existe uma lista generosa de várias revistas acadêmicas brasileiras de reconhecimento nacional e internacional, além de outras publicações de arte.

Priscila Merizzio É curitibana/PR. Editora convidada na Germina, integra o time das Escritoras Suicidas e colabora na Zunái. Publicou também Minimoabismo, pela Patuá. 183


OLYA-O

Lista de autores já publicados Adelaide do Julinho (MG) Adrienne Myrtes (SP) Ale Safra (SP) Aymmar Rodriguéz (PE) Allan Jones (SE) Bárbara Nunes (PE) Bruno Latorre (SP) Cida Pedrosa (PE) Cleyton Cabral (PE) Felipe Valério (SP) Francisco Pedrosa (PE) Gerusa Leal (PE) João Gomes (PE) Luna Vitrolira (PE) Mara Amavara (PE) Marcelino Freire (SP) Maria Luíza Chacon (RN) Micheliny Verunschk (PE) Noemi Jaffe (SP) Patricia Chmielewski (SP) Renato Pessoa (CE) Taciana Oliveira (PE) Teodoro Balaven (SP) Wilson Freire (PE): 1ª edição. Deseja participar? Volte na página 165 e descubra as condições. Detalhe: a maioria dos autores vistos aí acima não colaborou erotizando. O que leva a pensar que essa fora, sobretudo pela foto de capa, uma edição de textos com temática tal. Fica aí o se iludir. Sabemos que por meio da literatura pode-se falar de tudo. E aqui há muito de preferência alusiva, isto é, de um que ousa procurar na seleção a harmonia folheada numa antologia. Depois desta segunda, ficará manifesto que o ser mulher ocupou, intuitivamente, parte das colaborações. Por isso uma mulher na capa. Refez-se assim nossa proposta, o processo evolutivo dessa edição, todas as ideias.

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DIVULGAÇÃO

Galerias visitadas © Clement Bavaloine © Sam Chirnside © Jouke Bos © Luciana Urtiga © Taroku Toyama © Andrew B. Myers © M. T. Sullivan © Jeff Hahn © Ulrike Biets © Ros Ottaviano © Chyrum Lambert © Ike Ideani © Gary Williams © Lukasz Wierzbowski © Ryan McGinley © Kotis Pavlu © Crazy Ivory © Olya-o © Joan Marrero © Eylül Aslan © 2ORTECA © Timeless Seeker © Jake Hegel © Hodaka Yamamoto © Peter Thoeny © Alex Abodnar © Michael Cina Autores: fotos de divulgação.

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DIVULGAÇÃO

ODACHROME’S MYERS

Vida Secreta

é uma publicação literária online sem fins lucrativos. Nossa proposta, desde a primeira edição, é difundir a literatura, ajudando a criar um imaginário da palavra em resposta ao nosso tempo. Todas as imagens que colorem as páginas da revista são reproduções da internet. Nosso esforço em tentar dar os créditos foi abrangedor mas nem sempre foi possível. Então solicitamos aos detentores que nos procurem, caso queiram a remoção ou pôr os devidos créditos. Ficaremos vibrantes se toda a estética aqui construída venha agregar a todos justamente.

MARÇO/2015: VIDASECRETA.WEEBLY.COM

Leia a 1ª ed. espalhe nosso segredo

Revista Vida Secreta (#2)  

2ª Vida Secreta

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