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edição 229 • agosto | setembro 2014

na prática A cidade está repleta de camuflados, indivíduos em situação de vulnerabilidade social e invisíveis para muitos. Conheça o projeto que está dando visibilidade a essas histórias

reportagem Alimentação adequada é um direito fundamental. Alimentar-se mal pode ser mais prejudicial do que ser fumante

Agora é a hora Após protestos, é hora de exercer a cidadania e as eleições que se aproximam serão a prova real das discussões por um país mais justo


estrĂŠia: 28/08

estrĂŠia: 11/09


índice capa

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GI GAN TE

acordou?

ESTAÇÃO PUC

MUNDO MELHOR

mercado de trabalho

filhos da puc

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Já ouviu falar do Bliive? Uma rede onde as horas e os minutos do seu dia se transforam em moeda de troca e podem comprar de aulas de sapateado a conselhos empresariais.

Tempo é dinheiro literalmente

DNA

mundo afora

Por trás das lentes

vida docente

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Apaixonado por videogames desde a infância, Bruno Campagnolo de Paula é também organizador da Global Game Jam, maratona de desenvolvimento de jogos virtuais.

A participação dos professores da PUCPR em eventos, lançamentos e congressos é destaque na Vida universitária, com direito a muitas fotos.

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na prática

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Conheça as histórias de Lama Padma Samten e da organização Médicos Sem Fronteiras, que abrem mão de suas rotinas e experimentam a realização da ajuda humanitária e da ascensão espiritual.

qualidade de vida

drops

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Segunda-feira de cão

espirutualidade

Camuflados no caos urbano

FALANDO SÉRIO

Perigo na palma da mão

Fotos e registros dos acadêmicos que participaram de eventos, premiações e diversas oportunidades dentro e fora da Universidade.

REPORTAGENS

vem aí

especial

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Estudantes e professores antenados em eventos, palestras e grandes atividades podem reservar em suas agendas um espaço para atividades selecionadas sobre a esfera acadêmica.

Conheça Dom Rafael Biernaski e saiba o que a figura de um grãochanceler representa para a Universidade.

VEJA + reportagem

reportagem

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Para consumir, você é consciente?

Frida revelada

De hijab no ocidente

diário de bordo

registro

sintonia cultural

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ENQUANTO ISSO

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O

Às vésperas das Eleições 2014 e um ano depois dos protestos que pararam o Brasil, é hora de fazer um balanço: o que o movimento trouxe para a democracia nacional e de que forma as redes sociais vêm alterando nosso exercício de cidadania?

26 Moda vegana, maquiagem orgânica e construções sustentáveis já são realidade e revelam que uma transformação na maneira de consumir está por vir.

reportagem

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Educação que transforma

Prato dentro da lei

entrevista

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O grande conselheiro

pesquisa

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Software desenvolvido por pesquisadores da PUCPR identifica o aliciamento virtual de menores de idade e evita a Software poderá ocorrência de evitar abuso sexual abusos sexuais.


editorial

A transformação da sociedade está em nossas mãos Estamos próximos de um período muito importante para todos nós, brasileiros: as eleições. É a expressão máxima de nossa democracia, o momento em que toda a sociedade deposita nas urnas não só o seu voto, mas também seus sonhos e crenças num país melhor. O voto é instrumento de transformação de nossa realidade. Por sabermos da importância desse momento e como uma Universidade, que é local de formação e transformação de diversas pessoas, decidimos abraçar em nossa matéria de capa a temática das eleições sob o ponto de vista do jovem: tentamos descobrir o que essa importante fatia do eleitorado pensa da política atual, seu nível de engajamento, qual é o papel das redes sociais nesse momento? É claro que não pretendemos esgotar em nossas páginas uma temática tão rica, desejamos muito mais fomentar o debate e levar a discussão para além desta publicação impressa, para isso teremos diversos movimentos em nossa Pontifícia Universidade Católica do Paraná que, em muito breve, afetará o dia a dia de toda nossa comunidade acadêmica, com o objetivo de refletirmos sobre nosso papel na construção da política. Ainda nesta edição abordamos também a vida de pessoas que abriram mão do conforto de suas rotinas e da estabilidade profissional para mudar o mundo com as próprias mãos, como é o caso de profissionais de organizações como Médicos sem Fronteiras. Ainda no viés de ações que mudam o mundo, em nossa editoria Pesquisa mostramos um software, que com muito orgulho foi desenvolvido em nosso Programa de Pós-Graduação em Informática, e que é uma importante ferramenta para prevenir aliciamento de crianças e adolescentes na Internet e evitar a ocorrência do abuso sexual. Projetos como esse nos deixam orgulhosos e com a certeza de que a função principal da Universidade é propiciar pesquisas que contribuam para a evolução de nossa sociedade. Também falamos de uma iniciativa muito importante para nós: a Missão Henri Vergés. Nesta edição, vocês irão conferir o trabalho que é realizado no Complexo do Maciço, em Florianópolis, em uma comunidade em situação de vulnerabilidade social. A iniciativa do Grupo Marista, que atua na região fortemente, nos mostra o poder que a educação tem na transformação dos jovens e toda sua comunidade. Espero que nossas páginas incitem os debates transformadores, os sonhos inspiradores e que sejam um convite à transformação de nossa realidade. E, mais uma vez, reforço o convite para que vocês participem da construção de nossa publicação. Acessem vidauniversitaria.pucpr.br e nos inspirem com suas ideias!

Boa leitura a todos! Waldemiro Gremski Reitor

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GrãO-ChAnCELEr Dom Rafael Biernaski

VIDA UNIVERSITÁRIA é uma publicação bimestral da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Registrada sob o nº 01, do livro B, de Pessoas Jurídicas, do 4º Ofício de Registro de Títulos, em 30/12/85 - Curitiba, Paraná COnsELhO EditOriAL – PuCPr REITOR Waldemiro Gremski VICE-REITOR Paulo Otávio Mussi Augusto PRÓ-REITOR DE GRADUAÇÃO Vidal Martins PRÓ-REITORA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO Paula Cristina Trevilatto PRÓ-REITOR COMUNITÁRIO José Luiz Casela PRÓ-REITOR ADMINISTRATIVO E DE DESENVOLVIMENTO Paulo de Paula Baptista DIRETORA DE RELACIONAMENTO Silvana Hastreiter EdiçãO DIRETORIA DE MARKETING E COMUNICAÇÃO DO GRUPO MARISTA Eduardo Correa Vivian Lemos rEdAçãO JORNALISTA RESPONSÁVEL Rulian Maftum - DRT 4646 SUPERVISÃO Maria Fernanda Rocha EDIÇÃO DE ARTE Julyana Werneck PrOjEtO GráFiCO E LOGOtiPO Estúdio Sem Dublê | semduble.com rEVisãO tEXtuAL Lumos - Bureau de Traduções PrOPAGAndA Lumen Comunicação Rua Amauri Lange Silvério, 270 Pilarzinho – Curitiba – Paraná Cep: 82.120-000 www.grupolumen.com.br Para anunciar, ligue: (41) 3271-4700 iMPrEssãO GRÁFICA: Leograf Gráfica e Editora LTDA. TIRAGEM: 10.000 exemplares COntAtO Rua Imaculada Conceição, 1155 - 2º andar Prado Velho – Curitiba – Paraná Caixa Postal 17.315 - CEP: 83.215-901 Fone: (41) 3271-1515 www.pucpr.br conteudo@grupomarista.org.br

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Revolução que vem da escola

O transformador social André Gravatá compartilha suas impressões sobre como a educação pode ser revolucionária, principalmente, em contextos de vulnerabilidade social Por Michele Bravos

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Uma revolução silenciosa sobre os aspectos da educação está por vir. É no que acredita André Gravatá, jornalista de formação, mas, acima disso, transformador social. Longe de ser utópico, ele coloca sonhos de mudança em prática, almejando criar possibilidades para uma sociedade mais crítica. Em seu currículo de ativista está a coliderança do Movimento Entusiasmo – de interferência no centro de São Paulo, por meio da educação –; a participação no Coletivo Educação, que percorre o mundo em busca de novas perspectivas para a educação contemporânea; e a coautoria do livro “Volta ao Mundo em 13 Escolas”, resultado das experiências garimpadas pelo Coletivo. Gravatá esteve na PUCPR para o workshop do Observatório das Juventudes PUCPR com o tema “Jovens e Horizontes Utópicos: educação”, promovido pela Instituto Ciência e Fé. Nesta entrevista, ele fala sobre o poder de transformação da educação e como ele age em contextos de risco.

© Foto: Arquivo pessoal

entrevista


O que podemos classificar como um ensino de qualidade atualmente?

O ensino de qualidade é aquele que emancipa os alunos e os educadores. Como diria o filósofo Jacques Rancière, “ensinar sem emancipar é em-

brutecer”. Quanto mais qualidade, mais o aluno desenvolve sua criatividade e autonomia.

O alcance da autonomia de um indivíduo e do coletivo passa, necessariamente, pela educação? Como você vê isso?

A educação está na essência do movimento humano no mundo. Somos educados para nos tornarmos “civilizados”. Assim, também podemos aprender criatividade e autonomia. É pela educação que lapidamos nosso olhar, que pintamos

nossos horizontes. Por isso, considero que a educação genuína é como o fogo, um movimento constante, vivo, ativo, que é muito intenso quando se acende.

Quanto a atuação da escola é decisiva na vida das crianças e dos jovens em territórios de risco?

A escola pode ser o lugar onde crianças e jovens encontram espaço para entender melhor o que querem, o que sonham e o que são capazes de

fazer. Mas, infelizmente, hoje em dia a escola tem sido um centro de embrutecimento, tornando ainda mais vulneráveis as condições já frágeis.

Como um ensino de qualidade pode ser transformador em um contexto social vulnerável?

O ensino de qualidade vai provocar o aluno a realizar seus sonhos e a explorar suas capacidades com muito mais profundidade. Costumo dizer que a educação, hoje, tem dois desafios principais: resgatar seu sentido para o indivíduo e para o coletivo. Resgatar o sentido para o indivíduo quer dizer despertar o encantamento pela aprendizagem – e para que isso aconteça, ainda mais num contexto vulnerável, é fundamental que se dê espaço para que a singularidade do aluno seja

respeitada, para que suas aspirações sejam lapidadas de maneira cuidadosa, longe de métodos que padronizam e retiram o relevo dos diferentes jeitos de olhar. Outro desafio da educação é cultivar seu sentido coletivo, para que o que acontece na escola tenha impacto no entorno dela, para que existam mais projetos dos alunos e educadores que gerem transformação social e aprendizado ao mesmo tempo.

O que a figura do educador representa em um espaço de vulnerabilidade?

O educador tem um papel muito importante e especial: expandir o olhar dos seus alunos, para que eles percebam a realidade para além da vulnerabilidade; para que percebam suas potências e não suas carências.

Quais as responsabilidades que a escola acaba assumindo em ambientes assim? Você acha que é diferente se comparada a uma escola em um contexto mais favorecido?

Há uma escola chamada Cieja (Centro Integrado de Educação para Jovens e Adultos) em Campo Limpo, no bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, que assumiu para si um papel muito presente na vida da comunidade local. O Cieja é como um centro cultural, um banco, uma praça. A escola fica com as portas abertas e na hora do lanche até moradores de rua entram para se alimentar. Esse exemplo é claro para ilustrar o fato de que, em cenários mais vulneráveis, a escola que busca uma educação de qualidade acaba se tornando um ponto de encontro para além das aulas.

“Considero que a educação genuína é como o fogo, um movimento constante, vivo, ativo, que é muito intenso quando se acende.” | 7


É essa a ideia do Movimento Entusiasmo? Qual o sonho do projeto?

O sonho do Movimento Entusiasmo é potencializar a criação de comunidades de aprendizagem. Acreditamos que uma comunidade de aprendizagem é um território em que escolas dialogam entre si, em que espaços públicos dialogam com as escolas, em que as pessoas se percebem como educadoras e realizam ações constantes para potencializar a

aprendizagem que acontece em todo lugar. Nosso movimento iniciou ações no centro de São Paulo no início do ano, com um evento que mobilizou milhares de pessoas, chamado Virada Educação, e agora continuamos a relação com esse território, planejando encontros e ações que mobilizem mudanças enraizadas na dinâmica local.

Como você avalia a inserção de disciplinas não convencionais nas escolas – por exemplo, aulas de Música e Expressão Corporal?

A inserção de disciplinas como Música e Expressão Corporal é sempre bem-vinda, claro, mas há um ponto aí que vale uma reflexão. Quando falamos numa mudança na educação que atinja as raízes do padrão atual, não dá para esquecer a excessiva fragmentação dos conteúdos. Por isso, a divisão por disciplinas é, sem dúvidas, uma prática que devemos ressignificar para potencializar uma aprendizagem significativa e conectada. Veja só, visitei uma escola pública nos EUA, a Quest to Learn, onde não há matérias e os conteúdos e experiências são divididos em cinco domínios de aprendizagem: Bem-Estar; Como as Coisas Funcionam; Esportes para a Mente; Ser, Espaço

e Lugar; e Mundo dos Códigos. Lá, há uma preocupação muito enfática em mostrar aos alunos a realidade do jeito interconectado como ela já é. Por exemplo, no domínio Bem-Estar, os alunos entram em contato com temas de nutrição, ciências e educação física de uma vez só. Pegando o molde da Quest to Learn, já pensou se repensarmos nossa estrutura educacional de forma que Música se conecte com Matemática e Expressão Corporal se conecte com Física, Química ou até Português? Se no dia a dia as áreas do conhecimento aparecem para nós intimamente conectadas, por que temos que separá-las tão ferrenhamente nas escolas?

Você está fazendo um doutorado informal. O que seria isso?

Logo que terminei a universidade, fiquei bastante instigado a experimentar seguir meus estudos fora das estruturas formais. Então, procurei alguns mentores que estão me ajudando a criar um

percurso de aprendizagem independente, uma pesquisa sobre literatura e questões sociais que chamei de doutorado informal.

Qual o poder de transformação da educação, afinal?

A educação é feita por pessoas. Então o poder de transformação da educação é o mesmo poder que

as pessoas têm de transformar a si mesmas e o ambiente. Um poder sem fim.

“O educador tem um papel muito importante e especial: expandir o olhar dos seus alunos, para que eles percebam a realidade para além da vulnerabilidade, para que percebam suas potências e não suas carências.” 8 |

© Foto: Arquivo pessoal

entrevista


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GI GAN TE

acordou? acordou

Às vésperas das Eleições 2014 e um ano depois dos protestos que pararam o Brasil, é hora de fazer um balanço: o que o movimento trouxe para a democracia nacional e de que forma as redes sociais vêm alterando nosso exercício de cidadania? Por Claudia Guadagnin, especial para a Vida Universitária

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Há pouco mais de um ano, entre junho e julho de 2013, diversas cidades brasileiras sediaram um evento que comoveu a nação e entrou para a história. Carregando bandeiras e entoando gritos de ordem, protesto e o Hino Nacional, milhões de pessoas foram às ruas acreditando, essencialmente, na chegada de duas transformações: o Brasil teria acordado e não haveria retorno ao normal. Uma pesquisa do Ibope mostrou que as manifestações tiveram o apoio de 84% dos brasileiros e especialistas chegaram a afirmar que seu impacto poderia ser comparado ao impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992, quando denúncias de corrupção motivaram a renúncia do então presidente da república. A maior diferença entre os episódios, no entanto, está na forma como foram organizados. Na década de 1990, o movimento estudantil caras-pintadas – em alusão às cores verde e amarelo pintadas nos rostos dos manifestantes – organizou e deu início aos protestos. Ano passado, as redes sociais, como Facebook e Twitter, foram decisivas para envolver e encorajar os cidadãos a irem às ruas. Só o primeiro canal conta com 67 milhões de perfis cadastrados no Brasil.


VAi VOtAr PELA PriMEirA VEZ?

A partir de reivindicações contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo (de R$ 3 para R$ 3,20), a indignação se generalizou em poucos dias e passou a tocar em questões como corrupção, má qualidade dos serviços de saúde, educação, segurança, mau uso do dinheiro público e gastos com a Copa, por exemplo. O caráter popular dos protestos e a falta de um foco específico foram decisivos para envolver quem não tinha uma causa pela qual lutar, mas dizia desejar um país melhor. De acordo com o Ibope, as razões que contribuíram com o movimento foram a revolta (opinião de 37% dos entrevistados) e a sensação de abandono e descaso dos governantes (32%). Outro recorte mostra que os jovens foram os principais apoiadores da causa: 90% têm entre 16 e 24 anos. Uma pesquisa da consultoria Serasa Experian apontou que 70% dos brasileiros utilizaram o Facebook para comentar os protestos no dia 13 de junho. O Twitter, por sua vez, registrou cerca de 11 milhões de tweets com a palavra “Brasil” e dois milhões com o termo “protesto”, entre os dias 6 e 26 de junho. Poderes Executivos e Legislativos sentiram a pressão e prometeram mudanças. Uma das medidas foi voltar a praticar o valor antigo das passagens nas capitais que sofreriam o aumento. O sinal deixado pelo acontecimento foi claro: a parceria entre

redes sociais, smartphones e internet é capaz de fazer revolução e proporcionar uma cobertura alternativa dos fatos. Entretanto, às vésperas das eleições para presidente, deputados federais, estaduais, senadores e governadores – que ocorrem dia 5 de outubro – algumas questões ainda aguardam respostas: a população vai exigir o cumprimento das promessas? Continuará vigilante e disposta a lutar por seus direitos? As manifestações já estão tendo consequências para o país? Estamos preparados para utilizar a internet como aliada de um debate político qualificado?

rEsPOnsABiLidAdE VirtuAL E EnGAjAMEntO POLítiCO Sheila Leal é professora de Direito Civil na graduação e Direito Civil e Eletrônico na especialização da PUCPR e acredita no protesto como forma de transformação social. “Protestos conscientes e responsáveis deveriam ocorrer sempre e precisam ser vistos como livre exercício da democracia, mas a violência não pode ser aceitável, nem por parte dos manifestantes nem da polícia”. Para ela, os cidadãos estão mais conscientes e as chances de votarem munidos de conhecimento neste ano aumentaram significativamente. “A internet e as redes sociais ampliam a velocidade e a abrangência dos conteúdos

e isso tem implicações positivas e negativas. Ao ler uma informação, é preciso certificar-se sobre a veracidade antes de repassá-la. Fatos mal apurados e falaciosos lesam o direito individual e a honra das pessoas. Quando a verdade vem à tona, raramente damos a mesma importância”. Sheila também lembra a necessidade de vigiar a postura nas redes sociais. “Os jovens têm muitos ideais democráticos, mas nem todos estão preparados e maduros para mensurar as consequências do que ajudam a propagar. Possivelmente, sem perceber, podem sofrer com a influência de grupos políticos articulados e organizados, que delineiam estratégias claras para utilizá-los como ‘massa de manobra’, incentivando-os a repassar informações tendenciosas sobre partidos ou políticos, por exemplo. Toda informação requer averiguação”, orienta.

© Fotos: Valter Campanato/ABr Elza Fiúza - Agência Brasil

Antes, acesse a página do simulador de Votação na urna Eletrônica. Lá você vai poder treinar a votação para todos os cargos em disputa nas eleições deste ano do mesmo modo como ocorrerá no dia 5 de outubro, como se estivesse diante de uma urna eletrônica. Faça o teste acessando bit.ly/UkeKLa

uma pesquisa do tribunal superior Eleitoral (tsE), divulgada em julho deste ano, mostrou que tanto o Paraná como o Brasil evoluíram quanto a grau de instrução do eleitor. Em 2010, o estado tinha 300,4 mil pessoas que não sabiam nem ler nem escrever, o que representava 3,9% do eleitorado. Para as atuais eleições, o porcentual caiu para 3,4% (271 mil pessoas). Em todo o país, o número de analfabetos chegava a pouco mais de oito milhões de eleitores (5,9%). Em 2014, houve uma redução de 617 mil pessoas nessa condição e o número baixou para 7,4 milhões (5,2% do total de eleitores).

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capa

MAniFEstAçõEs PELO MundO

MArCO CiViL dA intErnEt O Marco Civil da internet, uma espécie de constituição para reger o uso da internet no Brasil, entrou em vigor em junho deste ano, após ser sancionado pela presidente dilma rousseff em 23 de abril. A medida estabelece princípios, direitos, deveres e garantias a internautas e empresas. Entre outros pontos, a novidade considera o acesso à internet essencial para o exercício da cidadania, garante ao internauta que sua vida privada não será violada e define que seus dados só sejam repassados a terceiros se ele aceitar, ou mediante solicitação judicial. se algum usuário sentir-se ofendido por conteúdos disponíveis no ambiente virtual, no entanto, a partir de agora precisa procurar a justiça para pedir a retirada, e não as empresas ou os canais que disponibilizaram os dados, como era feito até então. Para a professora sheila Leal, as mudanças trazem prós e contras. “Existem situações que são, inquestionavelmente, lesivas e vexatórias e até quem é leigo pode perceber. Aguardar a decisão do judiciário para um conteúdo ofensivo ser retirado da rede ou não pode ser moroso e prejudicar a integralidade do indivíduo. Acredito que, em breve, o Marco precisará ser revisto”, opina.

Um levantamento feito pelo Instituto Paraná Pesquisas indicou que os protestos recentes contribuíram com o protagonismo político do curitibano. A pesquisa comparou o interesse e a atuação política dos eleitores da capital do Paraná neste ano em relação a 2013 e revelou que enquanto em 2013 apenas 5% dos entrevistados disseram participar de alguma manifestação, este ano o índice subiu para 10%. O interesse dos curitibanos pelo assunto também parece ter mudado: mesmo 60% dos entrevistados admitindo não se interessar por política, o percentual de pessoas que

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© Foto: Giselle Durigan

não é de hoje que o poder das redes sociais na organização de manifestações no mundo vem sendo tema de discussões e análises críticas. Antes mesmo de o Brasil entrar nessa onda, em dezembro de 2010 países do Oriente Médio organizaram as primeiras grandes revoltas com a contribuição do Facebook. A chamada Primavera árabe teve início na tunísia e reuniu milhares de protestantes interessados em derrubar ditaduras atuantes em diversos países árabes. Os efeitos do movimentou se alastraram e conquistaram alguns avanços democráticos na tunísia e no Egito. Em 2011, foi a vez da Espanha ver suas ruas serem ocupadas por cidadãos que questionavam a corrupção, faziam críticas ao sistema político e à crise financeira que assolava o país desde 2008. Em poucos dias, convocados e estimulados a participar do ato pelas redes sociais, centenas de milhares de manifestantes reuniram-se, principalmente em Madri, e a aglomeração virou acampamento. O exemplo da capital inspirou outras cidades a fazerem o mesmo e, em uma semana, mais de 20 mil pessoas deram forma ao movimento, conhecido como Los indignados. também em 2011 os Estados unidos viveram uma situação parecida. O movimento Occupy Wall street levou milhares de cidadãos norteamericanos, estudantes e ativistas de todo o tipo a protestar contra a corrupção do sistema político, a economia, a cobiça empresarial e a desigualdade. As manifestações também chegaram a Boston, Chicago, Los Angeles e Washington.

buscam notícias sobre o tema aumentou de 47% para 58%. A quantidade de indivíduos que pesquisam informações sobre as atividades dos parlamentares nos sites da Câmara de Curitiba, da Assembleia Legislativa ou do Senado Federal, por exemplo, também cresceu no último ano. O representante do Secretariado-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Juventude, Ahmad Alhendawi, esteve no Brasil ano passado e defendeu que os jovens precisam ser diretamente envolvidos na política. “Com as mídias sociais, eles reagem, comentam tudo e querem fazer o mesmo com o governo e as decisões que afetam suas vidas”. Luan de Rosa e Souza tem 20 anos, é ativista por direitos humanos e educação política e foi um dos mobilizadores das manifestações do ano passado em Curitiba. Nos últimos dois anos, ele conta que já contribuiu com a promoção de mais de 200 mobilizações para diversos assuntos na capital e em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Uma delas foi o Dia do Basta, que ocorreu em abril de 2012, simultaneamente, em 42 cidades brasileiras, no qual os manifestantes exigiram um melhor uso do dinheiro público e mais atenção a temas referentes à saúde, educação, voto aberto dos parlamentares e a caracterização da corrupção como crime hediondo, por exemplo. “Acredito que a existência de um poder público para suprir as necessidades de todos não basta, por isso, vejo a participação popular como fundamental para a democracia”, opina. Souza acompanhou todos os dias de protestos e disse ter notado o desejo dos participantes em ver o início de uma mudança efetiva. “Acho que a rua é a forma

mais primitiva e pura para a participação social. Ainda não temos uma imprensa totalmente imparcial e existem interesses partidários influenciando algumas vontades, mas a mobilização social que vimos foi um grande avanço para o protagonismo comunitário da população”, defende. Ele conta que partidos como o PSOL (Partido Socialista) e o PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados) estiveram presentes nas passeatas, assim como integrantes do PT (Partido dos Trabalhadores) e PSDB (Partido da Social Democracia). “Mesmo tentando exercer alguma influência, o público em geral não demonstrou preferência por nenhum em específico”.

“Ainda não temos uma imprensa totalmente imparcial e existem interesses partidários influenciando algumas vontades, mas a mobilização social que vimos foi um grande avanço para o protagonismo comunitário da população.” [Luan de rosa e souza, ativista]


BLACk BLOCs um grupo que ganhou destaque nas manifestações brasileiras foram os chamados Black Blocs (Blocos negros). Eles estiveram envolvidos em diversas denúncias de depredação e excessos durante os protestos e se caracterizam por usar roupas pretas e máscaras para cobrir os rostos, a fim de dificultar suas identificações. A ideologia surgiu na Alemanha, na década de 1970, e reúne seguidores em diversos países. Eles se dizem contra o capitalismo e o processo de globalização e, por isso, seus alvos de depredações principais são fachadas de bancos, shoppings e empresas multinacionais, por exemplo.

rECOnstruçãO POLítiCA E APArtidArisMO O desejo por uma reforma política no Brasil também foi objeto de outra pesquisa recente do Ibope. Os dados revelam que 85% da população se diz favorável à medida. Das 1.500 pessoas entrevistadas em todo o país com mais de 16 anos, apenas 7% se mostraram contrárias à mudança, 4% são indiferentes e outros 4% não souberam ou não opinaram. Outro dado do levantamento mostra que 78% da população é contrária ao financiamento de partidos ou candidatos por empresas e 80% defende um limite máximo do uso de dinheiro público nas campanhas eleitorais. Luis Carlos Galófaro Junior tem 36 anos e é o administrador da página Apartidários no Facebook. Com mais de 6.400 mil seguidores, ela foi criada no auge das manifestações de 2013. Ele diz que o crescimento mais expressivo no número de fãs ocorreu de junho a setembro do ano passado e a maioria dos seguidores são jovens de 13 a 24 anos.

“Para mim, ser apartidário expressa a insatisfação com todos os partidos políticos existentes no Brasil atualmente. Desejamos a criação de uma nova cultura política”, explica. Galófaro Jr. fala que nos posts que publica procura manter a isenção, sem favorecer nenhum partido ou incitar a violência. “Isso seria retroceder. Noto que posts que falam sobre a necessidade de mudanças em diversas áreas são os que geram mais engajamento”. Ele também diz acreditar no sucesso de um sistema em que os políticos pensem única e exclusivamente em servir. “Alguns países, como Alemanha e Bélgica, por exemplo, estão anos-luz à nossa frente nesse sentido. A carga tributária que a sociedade paga é alta, mas o retorno do que é investido é proporcional. Este ano, pretendo avaliar os candidatos com menores chances de vitória e dedicar minha escolha ao qual merecer. Votar nulo é favorecer o candidato que está na vantagem”.

“Para mim, ser apartidário expressa a insatisfação com todos os partidos políticos existentes no Brasil atualmente. Desejamos a criação de uma nova cultura política.”

adversário, caminharemos para uma mudança”, defende. Cezar Bueno, sociólogo e professor da PUCPR, complementa que as eleições representam o momento de exigir resultados sobre o que foi cobrado até agora. “É a hora da reinvindicação efetiva, mas uma sociedade democrática não pode se contentar com o processo que concede aos eleitores o direito de ir às urnas a cada quatro anos. Junto com isso, é imprescindível construir mecanismos efetivos de participação política, em que grupos e movimentos sociais controlem constantemente a atuação das autoridades políticas que se elegeram”, sugere. Ele também crê na informação como a defesa mais poderosa para evitar a manipulação do jogo político, tão comum na fase que antecede a decisão. “A campanha eleitoral deste ano será marcada pelo radicalismo ideológico contra e a favor de Dilma. Cabe ao eleitor pesquisar a fundo os candidatos, analisar seus planos de governo e ampliar a capacidade de obter informações, lendo conteúdos de diferentes veículos: da Folha de S. Paulo à Carta Capital, por exemplo”.

© Foto: João Borges

© Foto: Divulgação

No que se refere à eficiência do atual sistema democrático brasileiro, Souza fala na necessidade de uma “reconstrução política”. “Espero uma democracia plena, que proteja as minorias e dê possibilidades de ascensão e vida digna a todos. Acho que essa utopia pode nos fazer avançar para uma condição semelhante no futuro”, diz.

[Luis Carlos Galófaro jr., administrador da fanpage Apartidários] Doutor em Sociologia, professor da Escola de Comunicação e Artes e coordenador do MBA de Marketing, Política e Propaganda Eleitoral da Universidade de São Paulo (USP), Victor Aquino credita a uma insatisfação generalizada a razão para esse descontentamento. “O apartidarismo é cada vez mais forte no Brasil porque o modo como esquerda e direita se posicionam tem sido muito parecido. Programas semelhantes que apenas mudam de nome conforme mudam de partido são comuns. Candidatos que se vendem como produtos da publicidade também”. Para Aquino, “o dia em que um político descobrir que, para ser eleito, precisa mostrar resultados, propostas consistentes, estar próximo das pessoas e não atacar com agressividade o

“É a hora da reinvindicação efetiva, mas uma sociedade democrática não pode se contentar com o processo que concede aos eleitores o direito de ir às urnas a cada quatro anos.” [Cezar Bueno, sociólogo e professor da PUCPR]

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capa MiLitânCiA OnLinE Com postagens frenéticas que misturam frases de autoajuda a ataques constantes ao Governo Federal, a página TV Revolta no Facebook ganhou expressividade e chamou atenção pela defesa de um discurso conservador e por seu crescimento fora do comum nos últimos tempos. São mais de 3,6 milhões de curtidas atualmente. Quando foi criada, em 2011, tinha cerca de 1,2 milhão se seguidores. Apesar de se declarar apartidária, a página chegou a ser acusada de crescer via financiamento, valendo-se do recurso oferecido pela rede social que possibilita, por meio de investimentos financeiros, ampliar o alcance das postagens. Para Cezar Bueno, o conteúdo divulgado pela TV Revolta é questionável pela ausência de embasamento e pela superficialidade das críticas, no entanto, ele vê a estratégia como parte do jogo político. “A política costuma portar um tipo peculiar de ética diferente daquela que definimos como válida na vida cotidiana. Mesmo assim, a liberdade é um direito conquistado e por isso precisamos ser responsáveis pelo que publicamos e compartilhamos”. Bueno também comenta que a internet contribui para tornar o debate e a circulação da informação mais livre, contudo, as redes sociais não favorecem, necessariamente, um entendimento eficiente sobre nenhum assunto. “Há situações claras em que a rede propicia o analfabetismo político, principalmente quando se propõe a destruir a representação política por considerá-la a causa da corrupção e de todos os males que assolam a vida dos brasileiros”, alerta. Em eleições passadas, os candidatos à presidência já conheceram o poder da militância virtual. Em 2006, Geraldo Alckmin, do PDSB, foi acusado de desejar a privatização da Petrobrás. Depois, foi a vez de Dilma Rousseff ser envolvida numa polêmica sobre a defesa do aborto. De acordo com reportagem recente do jornal O Globo, os candidatos da campanha deste ano terão grupos responsáveis por monitorar a circulação de conteúdos difamatórios nas redes. Aécio Neves (PSDB), segundo a matéria, contará com o apoio jurídico de sete advogados especializados em direito digital. Eduardo Campos (PSB) e Dilma Rousseff (PT) também já vêm preparando militâncias para se defenderem dos ataques. Questionado sobre a possibilidade de o Brasil ter mesmo “acordado”, como anunciavam os manifestantes, Bueno se mostra reticente e acredita que as manifestações foram mais um capítulo da história social

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FiChA LiMPA A Lei Federal de Acesso à informação de 2011 entrou em vigor em maio de 2012 e regulamenta o direito constitucional de acesso dos cidadãos às informações públicas, sendo aplicável aos três Poderes da união, dos Estados, do distrito Federal e dos Municípios. Para conferir dados gerais sobre despesas, licitações, remunerações e benefícios ou outras informações sobre as ações dos parlamentares, acesse o Portal da transparência. l www.portaltransparencia.gov.br l www.tse.jus.br

e política brasileira. “Historicamente, são frequentes rupturas como essa no processo democrático”. A estudante Amanda Brixner Mendes, de 19 anos, participou como observadora do movimento em Curitiba e também tem dúvidas sobre o domínio de uma nova mentalidade nacional. Para ela, o protesto foi legítimo como manifestação do poder democrático, mas as reinvindicações precisam ser reforçadas e levadas adiante. “Acho que a grande maioria das pessoas que estava lá não está ligada à política diretamente e continua agindo como antes”. A menos de dois meses das Eleições 2014, algumas boas práticas podem fazer com que a decisão pelos candidatos seja mais segura. “Buscar informar-se diariamente sobre política, conhecer a visão de mundo defendida pelo candidato e saber da vida pública que ele mantém são atitudes importantes”, orienta Bueno. Victor de Aquino , professor da USP compartilha da opinião e acrescenta: “Confio em políticos que estão realmente próximos da população e dispostos a atender necessidades coletivas. São as ações, e não o discurso, que provocam mudanças e precisam ser consideradas”, orienta.

VOCÊ COnhECE O rAnkinG dOs POLítiCOs? O portal apresenta e compara o desempenho dos parlamentares de todo o Brasil, apresentando pontos negativos e positivos sobre cada um. A intenção do projeto é incentivar que os cidadãos votem em políticos que mantenham boas práticas no exercício do mandato e denunciar aqueles que não contribuem com interesses públicos. Entre os itens avaliados estão a frequência em sessões plenárias, a proposição de “matérias relevantes”, o respeito às leis, o combate à corrupção e aos privilégios e a redução do desperdício de dinheiro público. Acesse o portal em www.politicos.org.br/ranking

“Confio em políticos que estão realmente próximos da população e dispostos a atender necessidades coletivas. São as ações, e não o discurso, que provocam mudanças e precisam ser consideradas.” [Victor de Aquino, professor da USP]


reportagem

Para consumir,

Pesquisa revela que apenas 5% dos brasileiros consomem de forma responsável, mas mudanças de hábitos simples e novidades como vestidos de noivas veganos e construções sustentáveis revelam que uma transformação vem aí Por Claudia Guadagnin, especial para a Vida Universitária

Em abril deste ano, foram divulgados os resultados de uma pesquisa sobre o Consumo Consciente promovida pelo Instituto Akatu – uma ONG que trabalha pela conscientização da sociedade para o consumo responsável. De acordo com o levantamento, o índice de consumidores responsáveis no Brasil é de 5%. A porcentagem foi a mesma das outras duas últimas edições, feitas em 2006 e 2010. Foram entrevistadas 800 pessoas de todas as regiões do país e analisadas as respostas para 13 indicadores de responsabilidade, entre eles o hábito de reciclar, comprar produtos orgânicos e ler os rótulos antes de fazer uma compra, por exemplo. O estudo indicou, entretanto, que a população vem adotando práticas mais responsáveis, ainda que de maneira indireta e não contínua. Os hábitos sustentáveis que mais se popularizaram nos últimos dois anos foram os de planejar a compra de alimentos e roupas, que sofreram um aumento de, respectivamente, 11% e 7%. Para Aron Belinky, coordenador técnico da pesquisa, essa é a diferença entre consumo consciente e consumismo. “Ninguém defende que as pessoas deixem de comprar, mas que façam compras melhores, com mais sabedoria”. Para Jelson Oliveira, coordenador do curso de Filosofia da PUCPR e professor da pós-graduação, o consumo responsável acompanha as preocupações com crise ambiental e os direitos dos trabalhadores. “A exploração da natureza e a violação das leis trabalhistas acabam alterando o preço dos produtos, que ficam mais baratos na mesma proporção em que beneficiam apenas os proprietários, fazendo mal à sociedade”. Para ele, a educação é capaz de alterar esse cenário. “Defendo a inserção da temática do consumo consciente como disciplina escolar. A cultura hedonista e imediatista atual é o grande empecilho para que

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a população desenvolva a capacidade de pensar sobre o que consome. Ainda acreditamos que, para sermos felizes, precisamos estar cheios de coisas. É uma visão mercantil e individualista. Se um produto me faz bem, mas não é bom para a sociedade porque escraviza pessoas e destrói o meio ambiente, então, ele não traz felicidade verdadeira”, sugere.

A mudança se anuncia A pesquisa também revelou que o brasileiro está mais exigente e leva em conta o comportamento das empresas em suas decisões de consumo. Entre as questões mais consideradas estão não maltratar animais (52%), ter boas relações com a comunidade (46%), ter selos de proteção ambiental (46%), ajudar na redução do consumo de energia (44%) e ter selo de garantia de boas condições de trabalho (43%). Já entre as práticas que mais denigrem as imagens das organizações estão a venda de produtos que causem danos à integridade física das pessoas (72%) e a realização de propaganda enganosa (71%). Aline Baroni, 26 anos, é jornalista e integra o time dos consumidores conscientes. Ela é vegetariana há mais de dois anos – não consome carne, ovos, nem derivados de leite ou outros produtos de origem animal, como mel de abelha, por exemplo – e se diz “no processo” para tornar-se vegana. O veganismo reúne adeptos de uma alimentação ainda mais restrita e comprometida com o bem-estar animal. Além de rejeitar o consumo de animais e derivados, não utiliza produtos como couro, lã, seda ou maquiagens testadas em qualquer espécie. Representa um estilo de vida mais amplo, não apenas alimentar. Aline é responsável pelo blog Le Pixel Gourmet, especializado em receitas veganas, e defende que nossos hábitos


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você é consciente

COnFirA Os LOCAis E hOráriOs EM QuE ACOntECEM As FEirAs OrGâniCAs Curitiba l Circuito da Feiras Orgânicas bit.ly/1nC3Onr

Maringá l Feira Verde bit.ly/1pSum2w

Londrina Feira Orgânica Acontece às segundas, das 9h às 14h, no Serviço de Bem Estar à Comunidade (Sebec) da UEL. l

nutrientes e geram qualidade de vida a quem os produz, sem falar na economia de embalagens poluentes, tão comuns nos mercados tradicionais. E os preços não são mais altos como muita gente pensa. Encontro opções bem econômicas”, sugere. Aline também procura utilizar marcas de cosméticos e roupas que não fazem testes em animais nem estão envolvidas em denúncias de trabalho escravo. “As opções de maquiagens ainda são restritas no Brasil e, ao pesquisar, vejo que muita coisa vem da China, onde essas práticas são ainda mais comuns. Infelizmente, elas ocorrem por lá e aqui”, lamenta.

MOdA VEGAnA Renata Buzzo tem 27 anos, é estilista, vegana há dois anos e criou, em 2013, em São Paulo, a marca Renata Buzzo, especializada em vestidos de noivas e festas. As criações não utilizam nenhuma matéria prima derivada de animais, como pérolas naturais, seda ou botões de ossos, por exemplo. “Opto pelos derivados vegetais e os sintéticos tecnológicos de alta performance. Meu critério é não utilizar nada fruto de exploração animal ou humana. Procuro pesquisar, saber a procedência de tudo o que uso. Meus fornecedores jogam limpo quanto à composição dos tecidos. Eles também fazem visitas periódicas às fábricas que produzem a matéria-prima para ver se tudo caminha certinho. Meu gosto por moda começou quando ainda era pequena, mas meu amor pelos animais existe desde ainda mais cedo”. Ela conta que faz o descarte adequado dos refugos têxteis e opta por tingimentos naturais que não agridem a natureza. “Além disso, utilizamos rendas antigas e damos vida nova a peças ou materiais que seriam jogados fora. Também procuro ser responsável em todos os campos da minha vida: do xampu que utilizo à ração que compro para meu cachorro”. Renata Buzzo, 27 anos, estilista e vegana.

l Feira do Produtor Acontece aos domingos, das 7h às 13h na Rua Benjamin Constant.

l Feira Livre Acontece às sextas, na Avenida Parigot de Souza, das 17h às 21h.

© Foto: Divulgação

toledo

© Foto: Divulgação

alimentares estão diretamente relacionados ao consumo responsável. “Além do sofrimento para os animais de criação, que sofrem em vida e ao morrer, o consumo de carne gera problemas de saúde e ambientais”. Para ela, a alimentação das espécies, composta por soja, hormônios e outros grãos transgênicos, comprometem o organismo no longo prazo. Além disso, o desmatamento de florestas para criação de gado ou soja para ração prejudica a conservação ambiental, dizimando a biodiversidade e até comunidades indígenas. “Esses fenômenos também contribuem para o crescimento da bancada ruralista no Brasil. São 120 deputados federais e 13 senadores, 23,4% da Câmara e 16% do Senado. Damos dinheiro para políticos que vão ao Congresso e ao Senado inibir iniciativas de reforma agrária, criação de Unidades de Conservação, direitos de indígenas e quilombolas, combate ao trabalho escravo e controle dos transgênicos”, alerta. Outro comportamento responsável que a jornalista adota é a compra de produtos orgânicos. “Todos os sábados, acordo cedo e vou à feira orgânica ao invés de buscar opções industrializadas no mercado. Além da ausência de agrotóxicos, os orgânicos têm mais

Segundo ela, o perfil das clientes é de mulheres bem instruídas, algumas vegetarianas ou veganas, na faixa de 25 a 35 anos. Os custos das peças de festas variam de R$ 3 mil a R$ 15 mil e para noivas, de R$ 5 mil a R$45 mil. Agora, Renata se prepara para apresentar uma nova coleção no Vancouver Fashion Week, que acontece no Canadá em setembro deste ano. “Ser convidada pela coordenação do evento foi uma surpresa maravilhosa. O que posso adiantar é que o desfile vai ter tema bem vegano e fará uma crítica construtiva a um ato humano. O resto ainda é segredo!”.

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reportagem

A empresária Ananda Boschillia compartilha da preocupação com o consumo consciente e também inovou: trouxe ao Brasil a primeira linha de maquiagem vegana e orgânica reconhecida pela Ecocert, considerada a maior certificadora de produtos orgânicos do mundo. A Alva Brasil, com sede em Joinville (SC), é representante da fabricante alemã Alva, que tem quase 30 anos de tradição, não faz testes em animais, nem utiliza componentes químicos, artificiais ou derivados de petróleo, que contribuem para a contaminação ambiental. Os produtos são provenientes de plantações sustentáveis, que não utilizam agrotóxicos nem métodos agressivos à natureza. Daí a razão para a marca ser considerada, além de vegana, também orgânica. Outros elementos presentes em grande parte dos cosméticos convencionais, como chumbo, alumínio, óleo mineral, álcool, corantes, aromatizantes, conservantes e parafinas também não são utilizados. A linha conta com itens como batom, sombra, rímel, pó compacto, base, corretivo e gloss, além de produtos estéticos e de tratamento para a pele e o cabelo. São 11 linhas – de maquiagem a desodorantes totalmente naturais. “Trouxemos a marca ao Brasil há pouco mais de seis anos e notamos que, com o passar do tempo, a procura vem crescendo. Cerca de 90% das nossas vendas hoje se concentram em São Paulo. O site (www.alvastore.com.br) representa 30% do nosso faturamento”, conta Ananda. Além da capital paulista, a marca também é comercializada em 30 lojas de cidades como Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Campinas, Assis, Brasília, Belo Horizonte, Maceió e Arapiraca. Ananda reforça que a preocupação com a responsabilidade na produção da linha é uma questão de valor para a empresa na Alemanha e no Brasil. “Toda nossa cadeia, desde o plantio até a colheita e o transporte, não tem nada que prejudique o ser humano, os animais ou o meio ambiente. O processo é todo certificado. Nossas fórmulas têm muito estudo, pesquisa e matéria-prima de alto valor, uma opção diferente de outras marcas, que investem mais em mídia do que em tecnologia”, compara. As embalagens são totalmente recicláveis e a opção por serviços regionais também contribui para incrementar a preocupação da empresa com o meio ambiente. Em breve, Ananda espera abrir um SPA da Alva Brasil em São Paulo e vender os produtos por meio de catálogos e revendedoras. “A conscientização das pessoas é nosso trabalho principal. O maior desafio é convencê-las sobre os benefícios para a saúde que os cosméticos conscientes podem gerar, mas estamos no caminho”, conclui.

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© Foto: Divulgação

Maquiagem orgânica

Construções Sustentáveis Gabriel de Oliveira Bertran é arquiteto, urbanista, pós-graduado em Economia e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e fundador da G. Bertran Construções Sustentáveis, empresa que, desde 2005, atua em Curitiba e Região Metropolitana e presta consultoria a arquitetos e construtoras, oferecendo alternativas para construções mais responsáveis. A utilização da madeira ecológica, por exemplo, tradicional dos Estados Unidos desde a década de 1970 – quando a escassez do material tornou-se mais perceptível no planeta – passou a ser difundida no Brasil há cerca de cinco anos. “A madeira é ecológica quando reaproveita resíduos de madeira de construção e plásticos descartados e coletados por recicladores. O aspecto fica idêntico ao da madeira natural e ela dura mais de 70 anos, sem exigir reformas ou mais gastos. Um produto como esse evita diversos problemas ambientais. Hoje, a madeira ecológica vem substituindo com vantagens decks e fachadas até então feitos com madeira natural e que duravam muito pouco”, explica Gabriel. Ele afirma que alguns arquitetos já conseguiram utilizar em obras 100% de materiais naturais ou fabricados com o mínimo de impacto possível. “O caminho para isso passa pela consciência ambiental de cada pessoa, que leva ao consumo responsável. Isso não envolve apenas a construção civil, mas todas as atividades humanas. Quanto mais avançada e bem educada for uma sociedade, mais ela tende a consumir produtos sustentáveis e exigir isso das empresas e dos governos. Precisamos compreender que o sustentável também é econômico e que a tendência é que sejam cada vez mais baratos. Basta que as pessoas utilizem mais essas tecnologias”, orienta.

Lista Suja O Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE) atualizou a chamada Lista Suja do Trabalho Escravo com a relação dos empregadores que exploram mão de obra análoga à escravidão no Brasil. Veja em que estados os índices foram maiores:

l 1º Pará (27%) l 2º Minas Gerais (11%) l 3º Mato Grosso (9%) l 4º Goiás (8%) Foram 609 infratores, entre pessoas físicas e jurídicas, com atuação no meio urbano e rural. As atividades mais envolvidas com a prática são a pecuária (40%), a produção florestal (25%), a agricultura (16%) e a indústria da construção (7%).

“Ninguém defende que as pessoas deixem de comprar, mas que façam compras melhores, com mais sabedoria.” [Aron Belinky, coordenador técnico da pesquisa promovida pelo Instituto Akatu]


© Foto: Divulgação

mercado de trabalho

tempo é dinheiro, literalmente Rede social fundada em Curitiba se baseia no conceito de economia colaborativa e oferece um serviço em que minutos valem muito mais do que qualquer moeda Por Mahani siqueira, especial para a Vida Universitária

Uma iniciativa criada por brasileiros é a prova de que a expressão “tempo é dinheiro” nunca fez tanto sentido. Na rede social Bliive, fundada em Curitiba no segundo semestre de 2013, as horas e os minutos são as moedas de troca e funcionam para seus usuários comprarem todo e qualquer tipo de experiência, de aulas de sapateado a conselhos empresariais. A lógica da ferramenta é simples e prática. Qualquer pessoa pode se cadastrar em bliive.com e fornecer determinado serviço ou ensinar alguma coisa por um período de tempo, ganhando em troca um valor pré-estabelecido de TimeMoney (moeda de troca oficial da rede social), que depois pode ser usado para obter qualquer tipo de serviço oferecido na comunidade. Em pouco menos de um ano no ar, a startup já tem 38 mil usuários cadastrados em 78 países diferentes e acumulou, nos primeiros cinco meses de serviço, mais de mil trocas, com aproximadamente 41 mil horas oferecidas. Uma das fundadoras do site, a empresária Lorrana Scarpioni, teve a ideia do projeto ao assistir a documentários sobre colaboração on-line e economias alternativas e resolveu adaptar para o ambiente virtual a experiência dos bancos de tempo, que já funcionam em pequenas comunidades ao redor do mundo. “O Bliive tem como objetivo revolucionar a ideia de valor, propor uma alternativa ao sistema que existe hoje e mostrar que todos têm importância e algo a acrescentar. Independentemente do seu saldo bancário, qualquer um, com um pouco de tempo, pode viver experiências, crescer e conquistar”, comenta Lorrana. Co-fundador da rede social, o designer José Henrique Fernandes, comenta que a

equipe já está trabalhando na ampliação do serviço e deve implementar, em breve, uma ferramenta específica para universidades e empresas construírem grupos privados dentro do Bliive. Segundo ele, a diversidade é o ponto que torna a ideia tão valiosa. “Qualquer pessoa com uma habilidade ou conhecimento para compartilhar é bem-vinda ao Bliive, que nasceu do conceito de economia colaborativa. Queremos mostrar como podemos ganhar se dividirmos conhecimentos. A rede também é importante para mostrar que todos têm o seu valor e que é possível realizar sonhos e viver experiências através da colaboração”, conta José Henrique, que revela conhecer casos de novos contatos profissionais, amizades e até casais formados graças à rede social. A distância do Brasil não foi um obstáculo para a estudante de Medicina Tassia Zinser utilizar a proposta do Bliive. Ela mora em Munique, mas foi beneficiada pela ferramenta ao oferecer serviços de guia turística na cidade onde vive e, depois, trocar o TimeMoney por valiosas dicas que precisava de brasileiros. “Em uma sociedade sedenta pela colaboração, a popularidade desse tipo de rede tende a crescer, pois beneficia todos os envolvidos”, avalia a estudante. A empresária Jessica Maris Maciel, por sua vez, disponibilizou seu tempo para dar aulas de inglês e conselhos sobre produtividade. Depois, utilizou as moedas recebidas para fazer aulas de canto. “O Bliive é uma ferramenta útil e permite que os usuários façam trocas divertidas. Isso gera uma possibilidade de socialização com pessoas que têm os mesmos interesses que você”, completa.

Os empreendedores Roberto Pompeu, Zeh Fernandes, Lorrana Scarpioni e Murilo Mafra transformaram, de fato, tempo em dinheiro.

VAMOs Às trOCAs? Confira algumas atividades e experiências oferecidas pelos usuários da rede social Bliive. saiba qual o melhor carro para comprar descrição: Conselhos sobre relação custo-benefício, marcas e modelos, melhores anos, carro novo, seminovo ou antigo. Companhia para café descrição: Faço companhia para tomar um café e ter uma boa conversa. Como escolher uma empilhadeira? descrição: Serão analisadas as classes de equipamento disponíveis globalmente, revisaremos estruturas de empilhamento, comprimento e largura de corredores e utilizações diversas. Também falaremos sobre a variedade de marcas e modelos de máquinas. Morando sozinho/a descrição: Ajudo com um bate-papo (virtual mesmo) sobre como se organizar sozinha/o e o que fazer. Troca de experiências.

FALAndO nissO O filme “O Preço do Amanhã” (2011), protagonizado por Justin Timberlake e Amanda Seyfried, retrata um futuro apocalíptico em que todas as transações financeiras são feitas por meio do tempo de vida restante das pessoas. Com um relógio acoplado ao punho, as pessoas pagam com horas ou minutos, literalmente, qualquer coisa que queiram comprar. Como não poderia ser diferente, o sistema gera uma distribuição de “renda” bastante desigual e acarreta em diversos problemas sociais. Vale como passatempo e reflexão.

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© Fotos: Gilberto do Rosário

vida docente

Bem mais do que

uma fase

Por volta dos 10 anos de idade, quando pegou gosto por jogos de videogame como H.E.R.O – para o famoso e finado Atari –, Super Mario 3, Civilization e Doom, Bruno Campagnolo de Paula não descobriu apenas um hobby e uma diversão que duraria o resto da infância e adolescência. Os momentos em frente à TV e cada batalha para passar de fase ou derrotar vilões formados de pixels representavam, na verdade, o início de uma longa trajetória ligada aos jogos virtuais. O que era entretenimento e passatempo se transformou em profissão. Especialista em jogos, formado em Engenharia da Computação e mestre em Informática Aplicada, Campagnolo hoje é professor na PUCPR e dá aulas para alunos de Sistemas de Informação, Design Digital e também para a pós-graduação em Jogos Digitais. A paixão por videogames ganhou um novo significado com o envolvimento em projetos de professores do segundo grau. Depois, já formado, Campagnolo trabalhou em uma das primeiras empresas de jogos do Brasil, onde desenvolveu um jogo de estratégia chamado Inferno. A relação entre o professor e os videogames foi se estreitando cada vez mais e hoje ele é coordenador regional no Brasil e organizador da

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Apaixonado por videogames desde a infância, professor da PUCPR é coordenador regional e organizador da Global Game Jam, maratona de desenvolvimento de jogos virtuais Por Mahani siqueira, especial para a Vida Universitária

sede na PUCPR da Global Game Jam, uma maratona de desenvolvimento de jogos com duração de 48 horas. O evento, que teve cobertura completa da Revista Vida Universitária na edição 227, é mundial e acontece simultaneamente em diversas cidades, onde os desenvolvedores se dividem em equipes multidisciplinares para criar, cada uma, um novo jogo. A PUCPR já participou de cinco edições da maratona e, em 2014, foi uma das maiores sedes do mundo, com mais de 350 participantes. “Passei a trabalhar com a Global Game Jam devido ao meu interesse em desenvolvimento de jogos, e, principalmente, ao perceber a quantidade de projetos bem-sucedidos que surgem em eventos desse tipo. Outro ponto que me fez ter interesse é o estímulo da interação entre alunos de diferentes cursos e perfis, o que, na minha opinião é essencial dentro do meio universitário”, conta Campagnolo. O professor revela que o envolvimento com o evento tem sido fundamental para a carreira, pois permite o contato com diferentes pessoas e auxilia no crescimento do ecossistema de jogos da região. Campagnolo lamenta, no entanto, que o mercado não seja mais aberto e ofereça tanta resistência para novos profissionais dentro do Brasil.

“O mercado brasileiro consome muito o produto internacional. Não existe ‘o grande jogo’ brasileiro. Os impostos são altos demais, não há muita gente especializada em áreas-chave: negócios, game design, etc. O brasileiro é pouco humilde e tem que parar de ter vergonha de se misturar com os bons exemplos e as parcerias que vêm de fora”, avalia, além de deixar claro que, para se dar bem na área, é necessário ter dedicação, foco no mercado externo e gostar de trabalhar com pessoas dos mais variados perfis. Atualmente, a agenda cheia só permite que Campagnolo desenvolva jogos e projetos de curta duração, geralmente durante as edições da Global Game Jam. Ainda assim, ele garante que os games podem ter uma participação muito importante na formação acadêmica de qualquer pessoa, principalmente se for levada em conta a interatividade que oferecem. “Acredito que os jogos digitais podem ter o mesmo papel que filmes, livros, quadrinhos e aplicativos. Ou seja, games são mídias válidas para qualquer uso: educação, treinamento, entretenimento. A vantagem é que os jogos são interativos e, assim, permitem reflexões a mais, provocadas justamente por essa característica”, completa.


filhos da puc

Por trás das lentes © Foto: Divulgação

Agosto é o mês da fotografia. Nada melhor do que trazer para as páginas da Vida universitária um fotógrafo que iniciou a sua paixão por essa arte ainda nos bancos da Universidade Por janaína Fogaça, especial para a Vida Universitária

BEM nA FOtO mente, prefiro quando estou atrás das lentes”. Dentre os trabalhos de fotografia realizados por ele, estão uma série de exposições que merecem destaque e das quais Bucair orgulha-se muito em falar: “Participei da exposição Biblioteca Pública do Paraná Lentes Virgens (2007), também participei de uma exposição na Galerie de la Comédie, em Montpellier, na França (2011), e de uma exposição na Impact Hub Curitiba, a Photo-Type Playlist (2014), entre outras”. rEFErÊnCiAs... Henri Cartier-Bresson Robert Capa Moholy-Nagy Josef Koudelka Annie Leibovitz Olaf Heine Astrid Kirchherr

CINEMA

Comida é o tempero do trabalho de Bucair. Ele está em constante especialização das fotos de gastronomia. “Acredito que com o tempo e a experiência, vamos afunilando cada vez mais nossas aptidões e preferências. Escolher um nicho não é tão simples quanto parece, é mais fácil escolher o que não se quer fazer do que o contrário”, analisa o profissional. Além de gastronomia, Bucair também trabalha com editoriais, fotojornalismo e fotografia de shows e espetáculos, além de produção de vídeos institucionais. Embora, atualmente, trabalhe de maneira autônoma, no currículo de Bucair estão trabalhos realizados no navio Queen Victoria, da Cunard Cruise Lines, logo após a graduação, uma experiência que ele define como um grande aprendizado e que, acima de tudo, ajudou-o a afunilar ainda mais o nicho da fotografia. “No momento atual, troquei o home-office por um espaço de coworking. Isso me fez mais satisfeito, minha produtividade aumentou significativamente, assim como a rede de contatos”, afirma. Como a maior parte dos fotógrafos, ele diz que não gosta muito de aparecer: “Sincera-

FOTOGRAFIA

Em tempos de selfie, aquela foto que muitas pessoas tiram de si mesmas e compartilham nas redes sociais, a fotografia tem ganhado ainda mais importância. De repente, somos todos fotógrafos. Mas, é assim, por meio da fotografia profissional e alguns trabalhos no ramo audiovisual e design gráfico, que Munir Bucair Filho ganha a vida. Bucair iniciou seus estudos em Curitiba assim que veio de Cuiabá, em 2006. Em 2008, ele partiu para um intercâmbio na Universidade de Vigo, na Espanha. Depois de concluir o curso, em 2010, o fotógrafo optou por uma especialização em Design com foco em Cinema. De acordo com Bucair, a fotografia começou a fazer parte da sua vida ainda na faculdade. “Em 2006, juntamente com o curso de Publicidade e Propaganda, que fiz na PUCPR, as aulas de fotografia foram um grande catalisador de uma antiga paixão. Entrei para o Núcleo de Fotografia Caixa Preta, ministrado pelo professor André Zielonka, grande referência que preservo até hoje”, afirma. O fotógrafo aproveitou de forma intensa seus anos de faculdade, participando de atividades e vivenciando as disciplinas ofertadas pelo curso. “O ambiente acadêmico abre muitas portas, assim como as ciências humanas. Lembro que nas primeiras aulas de História da Arte sempre fui buscar referências. A graduação me ajudou a abrir a mente para o mundo, e uma vez aberta, resta seguir em frente”. Bucair sempre viu na fotografia uma forma de expressão e a escolha por trabalhar com essa arte fez despertar dúvidas no fotógrafo ainda em início de carreira: “Inicialmente, a ideia de trabalhar com foto sempre foi um conflito interno, optar entre arte ou comercial ainda é um questionamento, mas a possibilidade de coexistência tem funcionado bastante bem”, diz.

Stanley Kubrick Darren Aronofsky Michel Gondry Wes Anderson Gaspar Noé Pedro Almodóvar

Os trabalhos de Munir podem ser acessados por meio do portfólio online do fotógrafo:

www.munirbucair.com

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mundo afora

De hijab no ocidente A intercambista Rasha Hussein, do Sudão, conta como está sendo sua experiência no Brasil e o que pensa sobre a figura feminina na sociedade

© Fotos: Gilberto do Rosário

Por Michele Bravos

Ela tem 29 anos, é solteira e divide o apartamento com uma amiga. Formou-se em Medicina, faz mestrado em Nefrologia Pediátrica e pesquisas em um hospital de referência. Ela também já viajou o mundo: Egito, Turquia, Emirados Árabes, Malásia, China, Estados Unidos. O nome dela é Rasha Hussein, sudanesa, muçulmana. Ao relacionar a vida de Rasha às impressões previamente estabelecidas sobre seu país e sua religião, muitos preconceitos caem. A revista Vida Universitária acompanhou o dia a dia dela durante o mês do Ramadã (um tempo de jejum, de renovação da fé e de fortalecimento dos valores familiares e religiosos vividos por muçulmanos) para a produção desta matéria. A seguir, as opiniões e ideias reveladas nessa convivência.

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Diferença cultural Durante o mês do Ramadã, os muçulmanos jejuam do nascer ao pôr-do-sol. Eles podem se alimentar nas 12 horas restantes (das 17h às 5h). Nesse mês, eles continuam fazendo suas atividades normalmente: rezando, trabalhando, passeando. Mesmo em um país em que a religião predominante não é a muçulmana, Rasha cumpre à risca o jejum e diz, com bastante tranquilidade, que não se incomoda de ver os seus colegas comendo durante o dia. “Eu não estou passando fome. Eu terei as mesmas 12 horas para comer do pôr–do-sol ao nascer”. Ela lembra que tudo é uma questão de respeito e que, felizmente, no Brasil, ela se sente muito bem. “Eu tenho amigos de outras religiões e convivo bem com eles. Não precisamos julgar uns aos outros”.


Religião Rasha estuda na PUCPR e faz estágio de mestrado no hospital Pequeno Príncipe. Durante a sua rotina, ela reserva alguns minutos para fazer suas orações cinco vezes ao dia, como manda o Corão. É comum que, nos horários de oração, os muçulmanos se desloquem até uma mesquita, mas a prática também pode ser feita em qualquer lugar. Rasha gosta da natureza e, quando está na PUC, costuma ir a algum espaço com grama. Para falar com Alá é preciso estar purificado, por isso, antes de orar, os muçulmanos lavam pés, mãos, antebraço e rosto – principalmente a boca, de onde sairão as palavras para Ele.

Mulheres na universidade Quando Rasha estudou Medicina, em Khartoum, capital do Sudão, em sua sala havia tanto mulheres quanto homens. “Hoje, as mulheres são incentivadas a estudar”. Rasha acredita que pais que têm acesso à educação formal até o Ensino Superior ou mais podem fazer um bem maior para os filhos. Ela afirma que ainda existem, em seu país, meninas que casam com 13 anos, mas que isso tem mudado. Ao passo que as novas gerações estão mais informadas, vai se percebendo também uma nova forma de viver. “Hoje, a mulher muçulmana pode escolher a sua educação, o seu marido, o seu caminho”. Rasha é um exemplo e tem desfrutado da autonomia adquirida. Foi por intermédio de um amigo brasileiro que Rasha conheceu o Dr. Roberto Pecoits, professor da PUCPR e diretor científico da Sociedade Brasileira de Nefrologia, com quem tem realizado suas pesquisas de mestrado. “Eu sou muito grata ao Dr. Pecoits. É por influência dele que hoje estou no Brasil, podendo realizar minhas pesquisas”. Rasha conquistou uma bolsa de estudos pela Sociedade Internacional de Nefrologia, o que tem garantido sua permanência por aqui. Seu principal objetivo, no Brasil, é aprender em um país mais desenvolvido que o seu e poder replicar modelos e estudos na África. “Assim que voltar para o Sudão, pretendo ficar lá cerca de três anos e depois dar continuidade aos estudos”.

Roupa Há muita curiosidade em torno de uma mulher de hijab (nome do véu que as muçulmanas usam para cobrir os cabelos). Quando Rasha anda na rua, as pessoas observam, fixam o olhar em todos os detalhes. Se ela resolve sair de abaya (uma espécie de túnica longa e de mangas compridas), ela pode ir preparada para os flashes. “As pessoas me param e pedem para tirar uma foto comigo”.

Ela lembra a vez em que foi a Copacabana, RJ, e entrou no mar vestida e de hijab. “Todo mundo ficou me olhando e perguntando por que eu estava com tanta roupa”. Rasha acredita que a figura feminina é algo muito precioso, valioso como um diamante – diz o Corão – e, por isso, não pode ficar exposta para qualquer pessoa em qualquer lugar. “Na minha casa, com minha família, posso usar outras roupas e não preciso ficar de hijab”.

Paladar Chá é a bebida dos sudaneses. Na verdade, toda a região do norte da África, Turquia e a extensão até o Oriente Médio são grandes apreciadores de chá. Rasha costuma tomar chá preto com leite e lembra que em seu país há algumas opções de chás com especiarias e ervas que ela adora. “Gosto muito de chá com menta”. Os hábitos alimentares do Sudão para cá são diferentes também. “Lá, assim que acordamos, todos da família tomam um chá com biscoito juntos. Depois, às 9h, 10h, tomamos o café da manhã, com pães, queijos e ovos. Às 14h, 15h, almoçamos. Por fim, às 20h, 21h, jantamos. Entre uma refeição e outra, muito chá!”. Rasha indica o restaurante Armazém Califórnia, localizado no Centro de Curitiba, para quem quer experimentar comida árabe tradicional. “É muito parecida com a comida do meu país”.

Viagens Rasha já viajou o mundo estudando. Participa de congressos, pesquisas e não mede esforços para o desenvolvimento de sua carreira. Ela costuma viajar sozinha sem problemas. Mas quando viaja a passeio, normalmente para a Arábia Saudita, é preciso ir acompanhada. “Lá, eles não veem com bons olhos uma mulher sozinha”. É na Arábia Saudita que ela também costuma fazer compras. Afinal, a coleção de abayas muda todo ano. Elas podem ser estampadas, bordadas e de outras cores além do preto. “Eu gosto mesmo das abayas pretas com bordados. São bonitas”. Um carimbo que ainda falta no passaporte de Rasha é o da Itália. “Meu sonho é conhecer Veneza, com aquelas gôndolas”.

Amor A preservação da mulher, que fica explícita na vestimenta, tem muito a ver também com o seu futuro ao lado de um homem. “Eu acredito que existe um homem para uma mulher e somente uma mulher para um homem”. Pelo Islã, mulheres e homens só podem dar as mãos, beijar-se e ter relações sexuais após o casamento. “Minha religião é muito fácil e simples. Se com cada pessoa que eu conhecesse eu tivesse relações, o risco de uma gravidez indesejada ou de contrair uma doença seria maior. Como ocorre muitas vezes, mesmo com prevenção”. Rasha também conta que, atualmente, quando há o interesse por alguém, o futuro casal pode sair junto e é incentivado que se conheçam como amigos. Ela afirma que a escolha do parceiro não é uma decisão masculina, nem da família. “Eu posso dizer se eu quero ou não conhecer uma determinada pessoa ou até escolher quem eu quero conhecer. A mulher muçulmana também tem escolhas”.

FIQUE POR DENTRO O livro iCover: Um Dia na Vida de uma Garota Americana Coberta traz retratos de mulheres muçulmanas independentes, como Rasha, que atuam no mercado de trabalho e vivem com autonomia sem abandonar suas crenças. Algumas fotos estão disponíveis aqui: muslima.imow.org/content/icover A designer Dian Pelangi, da Indonésia, ficou conhecida no cenário da moda internacional por mostrar um estilo muçulmano colorido e criativo. Um compilado de seus looks está no livro Hijab Street Style e no link: bit.ly/1kdYojI

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pesquisa

Software poderá evitar

abuso sexual

Um software desenvolvido por pesquisadores da PUCPR tem como objetivo identificar o aliciamento de menores de idade e evitar a ocorrência de abusos sexuais Por Michele Bravos

Pornografia infantil está no topo da lista de denúncias de crimes virtuais, segundo um levantamento da ONG Safernet, que atua na preservação de direitos humanos no mundo cibernético. Só em 2013, foram 80.195 ocorrências, sendo parte delas envolvendo o aliciamento de crianças e adolescentes em salas de bate-papo. Diante desse contexto, a PUCPR desenvolveu um software que busca detectar o aliciamento virtual, evitando que essa etapa evolua para o abuso sexual ou gere conteúdo para pornografia. Segundo a professora Cintia Freitas, coordenadora da pesquisa, é comum o aliciador pedir para a vítima enviar fotos, ou ligar a webcam, como foi identificado durante as pesquisas. Com o software instalado no computador, é feita uma varredura nas conversas que ocorrem ali, avaliando palavras e contextos. Conforme a probabilidade de ocorrência de um abuso aumenta, um sinalizador, localizado na barra de ferramentas, indica o risco por meio de cores, como um sinaleiro. “A ideia é, também, que a própria vítima tenha autonomia para identificar uma situação de risco”, explica Priscila Santin, cuja tese de mestrado esteve atrelada a essa pesquisa.

EMOCiOnAL A pesquisadora Priscila afirma que a análise de dados foi algo muito pesado e impactou toda a equipe emocionalmente. “Tivemos que analisar as conversas entre agressor e vítima e aquele que está aliciando não tem pudor nas palavras. Incomodava saber que o objetivo final daquilo era concretizar o abuso”. Segundo a equipe, o peso emocional era tamanho que um dos estudantes envolvidos nas pesquisas pediu para ser retirado do projeto.

EVOLuçãO Neste momento, os esforços estão voltados para reunir uma base de dados em português para que o software possa ser aplicado aqui. “No Brasil, as informações a respeito do tema estão dispersas. Existem dados, mas não existe uma base”, diz Cintia. Os pesquisadores afirmam que o software poderá ser utilizado publicamente, nos computadores em casa, em lan houses, nas escolas. Por isso, a fase atual é também de busca de financiamento.

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1 | PriMEirO COntAtO O agressor entra em salas de bate-papo ou grupos de redes sociais frequentados por menores de idade e estabelece um primeiro vínculo. Com o software instalado, inicia-se uma varredura nas palavras de todas as conversas que acontecem naquele computador.

2 | EnGAnO sem que a vítima perceba, o agressor vai começar a fazer parte do seu dia a dia, estando cada vez mais presente, mesmo que virtualmente. no começo, as conversas são amigáveis, sobre assuntos banais (o que gosta de fazer, com quem e onde mora). É nesse diálogo que o agressor costuma perguntar onde fica o computador na casa e como é a relação com a família. informações que vão facilitar o aliciamento, como pedindo para a vítima enviar fotos despida. O software faz uma análise de palavras e de contexto e informa, por meio de um sinaleiro na barra de ferramentas do computador, quão perigosa é determinada conversa.

3 | nAturALidAdE Conhecendo mais da vítima, o agressor passa a elogiá-la e a tratar o sexo como algo prazeroso e que pode ser vivido por uma criança ou adolescente. O agressor convencerá a vítima que não é preciso esperar para experimentar isso. A conotação passada é de relaciomento. Outra abordagem também possível, é tratar o sexo como algo banal e vulgar, tentando tornar natural gírias sexuais e imagens pornográficas. nesse estágio, o software já identificou que a conversa não é amigável e pode progredir para a concretização do abuso sexual. A ideia é a que a própria vítima possa perceber isso, tendo como referência o sinaleiro.

4 | isOLAMEntO O agressor isola a vítima do seu contexto social. Ele se torna o melhor amigo, o confidente da vítima.

5 | EnCOntrO A etapa final é a do encontro físico, em que a vítima está totalmente vulnerável e confiante da relação que tem com o agressor. nesse momento, o abuso pode se concretizar.

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reportagem

Educação que transforma Iniciativa educacional aplicada em comunidade vulnerável aposta em ensino de qualidade e direitos humanos para a transformação dos cidadãos e do seu entorno © Fotos: Michele Bravos

Por Michele Bravos

A educação no Brasil precisa ser vista e entendida pelo olhar da criança.

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A história de Cida se encaixa nas lacunas de uma sociedade desigual. Ela não tem muito estudo. Teve dez filhos – dos quais três foram assassinados pelo tráfico. Ela mesma teve seu caminho entrelaçado com o das drogas. E isso a levou para a prisão. Ao ganhar a liberdade de novo, ela tentou uma vida diferente. Foi trabalhar como doméstica. Mas quando seus ex-patrões descobriram seu passado, ela foi mandada embora com bruteza. Cida se revoltou contra a humanidade e tudo, hoje, caminha lentamente, com dificuldade. Quem seriam os vilões dessa história: o chefe do tráfico, os filhos usuários ou os ex-patrões? O fato é que Cida nunca deveria ter entrado no mundo do crime e sido presa. Os filhos dela nunca deveriam ter se envolvido com o narcotráfico. A chave desse problema está na educação. Para o sacerdote Pe. Vilson Groh, líder do Instituto Pe. Vilson Groh (IVG)* e há 30 anos morador do Maciço Morro da Cruz, região de alta vulnerabilidade social de Florianópolis e onde Cida se criou e mora até hoje, é fundamental pensar em ensino de qualidade quando se fala em territórios marcados por conflitos, como é o caso do Maciço. “Vivemos disputas do narcotráfico, eleitorais, de organizações internas. A violência é uma coisa aprendida, mas que pode ser desaprendida. Essencialmente, quando o ensino é de qualidade, ele orienta a pensar e implementa projetos que desencadeiam processos diferentes. Quando uma criança aprende a pensar, ela aprende a olhar a si, a olhar o outro, a olhar o mundo. Ela sabe decodificar processos, tornando-se alguém mais crítico. Assim, o papel da escola é extremamente humanizador e humanizante. O colégio é um grande espaço de humanização e socialização”. A aluna Maria Eduarda Teles, 13 anos, está na 7ª série e, apesar da pouca idade e da timidez, mostra que já tem opinião e sonhos para o próprio futuro. “Eu sonho em ser veterinária porque gosto muito de animais. Sei que vou precisar estudar para isso”. É na tentativa de interferir positivamente no desenrolar de muitas histórias de crian-

ças e adolescentes do Morro que professores de alta qualificação sobem e descem ladeiras íngremes diariamente. Do pé do morro até o Centro Educacional Marista Lucia Mayvorne (CEMLM) – única escola de Ensino Fundamental do local e mantida pelo Grupo Marista, mas com prestação de serviço público – são pelo menos 20 minutos de caminhada e algumas gotas de suor. Para os que estão no horário, uma linha de ônibus municipal – conquistada pelos próprios moradores – faz o trajeto. Segundo a diretora Luciêni Braun, o modelo educacional propõe que o professor trabalhe em sala de aula um cidadão de direitos. “A escola é focada em direitos humanos. Trabalhamos com disciplinas que têm esse viés. Por exemplo, nas aulas de Matemática ou Geografia podemos abordar a questão do trabalho infantil e trazer isso para uma realidade próxima, que é a do trabalho infantil doméstico”. A assistente social Kátia Regina Madeira complementa que cabe à escola ensinar democracia e cidadania e que “os professores são alavancas para o mundo”. “Se um professor não souber transmitir a importância da educação, não existirá aluno que chegue a ser médico, engenheiro, advogado. Colocar em prática um projeto de ensino de qualidade aqui onde estamos é mostrar que é possível existir e gerar bons resultados na comunidade”. Pe. Groh reforça que a aprendizagem é um ato amoroso que passa pela relação entre educador e educando, possibilitando a compreensão da natureza do belo, até mesmo no morro. “Há beleza no morro”. Em um contexto vulnerável, a escola é o grande portal para um mundo diferente e de novas possibilidades. “Dessa escola já saíram médicos. Eles não são menos que os outros e não devem ser vistos assim”, diz.

“Quando uma criança aprende a pensar, ela aprende a olhar a si, a olhar o outro, a olhar o mundo. Ela sabe decodificar processos, tornando-se alguém mais crítico. Assim, o papel da escola é extremamente humanizador e humanizante. “ [Pe. Vilson Groh, líder do Instituto Pe. Vilson Groh ]

A transformação Em 2012, quando o Centro Educacional era apenas Escola Lucia Mayvorne e ainda de responsabilidade pública, atendia 80 alunos e, há anos, o ambiente em nada se parecia com uma instituição de ensino. Julia Graciela de Oliveira era aluna nessa época e, hoje, trabalha na unidade. Ela reconhece as mudanças que o projeto de educação fez por ali. “Antes, o colégio tinha cheiro de urina, o ambiente era sujo e ponto de tráfico. Agora, é uma escola de verdade”. Do alto do Maciço Morro da Cruz, uma vista privilegiada de Florianópolis.

*O IVG atua como uma holding social, representando sete projetos sociais voltados para populações menos favorecidas em Florianópolis e região. Entre eles, estão três projetos educacionais.

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© Fotos: Michele Bravos

reportagem parceria entre o Centro Educacional, o IVG e a Universidade proporcionou que jovens fossem à região em uma viagem missionária, a Missão Universitária Ir. Henri Vergès, para expandir o impacto positivo na comunidade, por meio atividades diversas – de oficina com crianças à construção de uma casa. No caso, a de Cida. “Ao reconstruir a casa dela, estamos reconstruindo o afeto e a importância da instituição familiar. Estamos criando um lar e mostrando para a Cida e o seu filho Lucas, de cinco anos, que o futuro pode ser diferente. É pensando no Lucas que tudo isso deve ser feito”, afirma Pe. Groh. Impressões

O universitário Diego Alves, do curso de Letras, conta como a Missão influenciou o seu olhar sobre a educação

Kátia explica que foi preciso abraçar, junto com a comunidade, a luta por um ensino de qualidade e destinado a todos. O Centro Educacional fica em uma região de divisa entre comandos do tráfico, o que, antes, dificultava o acesso das crianças e dos adolescentes das duas regiões. “Com o nosso trabalho, conseguimos desconstruir preconceitos, mostrando que os moradores são cidadãos, pessoas de direitos, e que todos têm o direito de estudar. Hoje, temos um envolvimento político. Participamos ativamente de conselhos e lutas por projetos. Vivemos uma luta individual pensada para o coletivo”. Motivada pelo engajamento da escola com a comunidade veio a pavimentação da rua que dá acesso ao CEMLM. É com orgulho que Julia conta que seus filhos estudam no Lucia Mayvorne. “Por conta do envolvimento com as atividades da escola, meu filho foi até para o Peru representando os jovens Maristas. Agora, ele será anfitrião aqui em nosso país de jovens Maristas estrangeiros que virão para um encontro”. Atualmente, a escola possui 358 alunos – um número quatro vezes maior em dois anos –, dos quais 86% estão no ensino integral, proposta inovadora do Centro Educacional. Maria Eduarda é uma das alunas do período integral. Ela conta que por meio dos incentivos da escola começou a ler mais. Durante a entrevista para esta matéria, Maria Eduarda foi até uma das estantes da biblio-

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teca do CEMLM e tomou em mãos o seu livro favorito, um de Fernando Pessoa. “Gosto de poesia”, diz a menina.

A primeira vez que participei de uma missão universitária foi nesta edição de 2014 e superou as minhas expectativas. Depois dessa experiência, entrarei em uma sala de aula seguro da importância do envolvimento do professor com seus alunos e que dependendo da educação que for cultivada serão grandes os benefícios para a sociedade. Não há como pensar em educação sem pensar em cultura e a relação que ambas exercem. A cultura de um povo é a educação que será praticada; e a educação praticada gera mudanças na cultura. A educação atua sobre o indivíduo que atuará sobre seu contexto. Dentro de um ambiente de vulnerabilidade, o professor, que é instrumento para levar os educandos à consciência da sua situação, precisa estar comprometido com as questões sociais, políticas, educacionais e econômicas do local, caso contrário ele não ajudará na formação de indivíduos que geram mudança dentro do seu contexto, mas estará levando-os para o agravamento dela.

Para o estudante Celso Vieira, do 6º período de Engenharia Civil, a construção de uma casa pode simbolizar o resgate de um indivíduo. “Por vezes, não temos noção do impacto da construção de uma casa para uma sociedade. Na minha vida futura, eu não vou só projetar prédios. A gente pode resgatar uma pessoa, uma família. Ficam os questionamentos: qual a nossa responsabilidade social sobre isso? Na sociedade de que eu faço parte, eu vou ficar só olhando as casas sendo construídas ou vou lutar por políticas públicas para moradias de qualidade, por exemplo? Como universitários, estamos recebendo conhecimento e temos o dever de retornar isso para a sociedade”.

Sem tempo ocioso Mais que sala de aula O CEMLM tem uma atuação que vai além das salas de aula e, em julho deste ano, contou com o apoio de universitários da PUCPR. Uma

A proposta de um ensino integral para um contexto de vulnerabilidade social ganha relevância quando se entende a escola como um ambiente de possibilidades e que formação integral não significa, simplesmente, passar o dia todo na escola.


educandos, suas histórias e seu tecido social. É preciso que ele se sinta em casa dentro da escola e perceba que ela se interessa por ele, para que haja uma intervenção em sua vida”.

O futuro

O entorno

Iniciativas voltam o olhar para a comunidade Pensar sobre as problemáticas e as belezas da comunidade faz parte do dia a dia dos alunos do Centro Educacional Marista Lucia Mayvorne. Entre as atividades que proporcionam isso, estão as aulas de Iniciação Científica, lideradas pela professora Geórgia Aragão. “Nesta aula, provocamos os alunos a pensarem na realidade deles. É preciso que eles criem os próprios processos de perguntas”. No momento, a disciplina está desenvolvendo um projeto de pesquisa com sobre lixo e desmatamento. A professora conta que já houve mudança no comportamento dos alunos. “Antes jogavam chicletes na rua, lixo no corredor da escola. Se eles não sabiam o que fazer com o lixo, hoje, eles se perguntam e vão atrás das respostas. Fazer perguntas é o primeiro passo para um pensamento crítico”. Outra iniciativa de valor é a TV Blá, coordenada pelo educador social Jeferson Lima. O educador conta que o objetivo é que os alunos conheçam e reconheçam a comunidade onde vivem, lançando sobre ela olhares dispostos a entendê-la e transformá-la de forma positiva. Semanalmente, um grupo de alunos circula pela comunidade, acompanhados pelo professor, com câmera e microfone a postos em busca de situações que possam ser noticiadas e que sejam de interesse dos moradores.

Segundo a assistente pedagógica Vanessa Seibel, no CEMLM o ensino integral envolve a formação do ser humano como um todo e, por isso, atividades que fogem da grade tradicional encontram espaço nesse formato e contribuem para que o aluno seja estimulado a pensar de várias formas. Intercaladas com as aulas de Matemática, Português e Biologia, os alunos têm aulas de Expressão Corporal, Iniciação Científica e Música, além de projetos pontuais, como as aulas de tangram (quebra-cabeça chinês que estimula a criatividade e o raciocínio lógico), e os projetos desenvolvidos a longo prazo, como a TV Blá (uma TV comunitária, produzida pelos alunos, sob a orientação do educador social Jeferson Lima). Ensino tradicional não faz parte da forma de trabalho no CEMLM. Para Pe. Groh, é preciso pensar nas necessidades e nos desejos desses alunos para que estudar faça sentido. “O adolescente do morro quer trabalhar, quer ter as suas coisas. Como eu vou conciliar os aspectos profissionais com os educacionais, por exemplo? Escola humanizante, como essa se propõe a ser, é aquela que acolhe seus

“As pessoas, às vezes, nos perguntam se o que estamos fazendo está dando certo”, conta a diretora Luciêni. Para ela, a resposta está nos exemplos de crianças que vêm para o Centro Educacional por vontade própria e declaram isso. A aluna Maria Eduarda é também a prova de que o esforço não está sendo em vão. Com o livro de Fernando Pessoa sobre a mesa, ela busca com precisão o trecho de que mais gosta, o qual diz assim: “Que o Destino quis pôr nas minhas mãos, não se encontra um vestígio de premeditação formal, de voluntária intelectualidade”. Questionada se ela entende o que está escrito ali e por que essa frase lhe chama a atenção, ela responde: “Porque eu sinto que é para mim. É para mim que ele está dizendo isso. O destino colocou em mim a vontade de ser veterinária, do meu futuro ser esse”. Luciêni afirma que é intenção do Centro Educacional que a criança saia de lá com o mínimo para seguir nos estudos. Está nos planos do Centro a implantação do Ensino Médio para o ano que vem, sendo que o espaço já conta com uma estrutura que viabiliza o ensino a distância para cursos superiores oferecidos pela Universidade Católica de Santa Catarina. Pensando a partir do potencial da criança e do seu olhar menos estereotipado, o contexto vulnerável deve ser avaliado pela ótica da infância. É o que conclui Pe. Groh. “Eu tenho

que olhar pelo olhar da criança e, a partir disso, compreender o ato educativo. A educação deve proporcionar que meninos e meninas se tornem sujeitos desses processos externamente, rompendo com os guetos e ampliando os horizontes, mas sem fugir dos espaços de origem e tornando-os espaços comunitários. É nesse rumo que temos trabalhado”.

“Na sociedade que eu faço parte, eu vou ficar só olhando as casas sendo construídas ou eu vou lutar por políticas públicas para moradias de qualidade, por exemplo? Como universitários, estamos recebendo conhecimento e temos o dever de retornar isso para a sociedade.” [Celso Vieira aluno do 6º período de Engenharia Civil]

Missionários responsáveis pela construção da casa de Cida.

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espiritualidade

Em busca de um

© Fotos: Gilberto do Rosário

ideal

Com o objetivo de ajudar os outros, algumas pessoas abrem mão de suas rotinas e experimentam a realização da ajuda humanitária e da ascensão espiritual. Histórias como a do Lama Padma Samten e da organização Médicos Sem Fronteiras transformam vidas e levam a cura aos locais mais distantes do mundo Por janaína Fogaça, especial para a Vida Universitária

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Fazer o que se gosta e ainda ser remunerado por isso. Quem nunca teve esse sonho? Mas e quando os ideais são maiores e dinheiro nenhum no mundo pode pagar a satisfação de fazer o que se gosta? Para muitas pessoas, isso acaba gerando um conflito interior, afinal, o mundo é capitalista e nossos ideais nem sempre são remunerados materialmente. Fazemos parte de uma cultura que prega que tempo é dinheiro, que ganhar cada vez mais é necessário, que ter condições financeiras é ter poder, e isso vai afastando as pessoas dos seus propósitos, ideais e as faz menos felizes.


Foi em busca de um ideal que Alfredo Aveline, 65 anos, mestre em Física, deixou a universidade em que lecionava no Rio Grande do Sul, no ano de 1982, para seguir rumo ao budismo e anos depois se tornar o Lama Padma Samten, o primeiro Lama brasileiro. “Eu gostava dos meus alunos, gostava do que eu fazia, pensava que jamais iria sair da universidade, afinal de contas, além de gostar da minha profissão, eu era pago para fazer aquilo. Mas ao longo do tempo, fui percebendo que tinha alunos fora da universidade, como se fossem discípulos. Eles tinham mais continuidade, mais profundidade do que os acadêmicos, que estão ali por um semestre, de maneira passageira, mas não para transformarem as suas vidas”, diz o Lama. A simplicidade de Padma Samten chama a atenção; no dia a dia, ele prefere passar despercebido, sem usar os trajes típicos dos Lamas: “Prefiro a comunicação horizontal, gosto que as pessoas me vejam como um cidadão comum, sem holofotes”, diz ele.

trAnsFOrMAndO VidAs

“Eu percebi que as pessoas que recorriam a mim queriam buscar algo a mais em suas vidas e que, por meio de tudo aquilo em que eu acreditava e havia estudado, eu poderia transformar a vida dessas pessoas”, afirma o Lama. Desistir da universidade e da vida estável que tinha foi um “tiro no escuro” para Padma Samten. “Eu não tinha outras fontes alternativas de recursos, não sabia bem como iria fazer. Eu me demiti da universidade, saí sem nada, sem salário. Tinha algumas ideias do que fazer, tinha uma pequena editora, mas todas as atividades anteriores entraram em colapso”. A partir de 1996, quando foi ordenado Lama por Chagdud Rinpoche, Padma Samten começou a ser convidado para dar ensinamentos e palestras, foi então que sua vida começou a se abrir além dos portões da universidade. Atualmente, Padma Samten viaja o Brasil ministrando retiros e palestras e atu-

ando nos CEBB – Centro de Estudos Budistas Bodsatva –, fundados por ele e com 33 unidades espalhadas pelo país. Para propiciar a transformação de pessoas por meio das lições do budismo, Padma Samten mantém sete comunidades que abrigam famílias que, assim como ele, acreditam nas coisas simples, na conexão com a natureza, na pureza do ser humano e na importância das relações humanas. “Aos poucos, fomos adquirindo terras com base no interesse das famílias em ocupá-las. As famílias plantam, usam a terra, não temos portões, os espaços são abertos a quem quiser frequentar, e as crianças recebem os ensinamentos desde muito cedo. Estamos plantando nelas a semente que amanhã estará pronta para que elas sejam transformadores de vida no futuro”, diz.

sEM FrOntEirAs

Atuar em outros países, levando ajuda médica de emergência a vítimas de conflitos armados, epidemias, desastres naturais e exclusão do acesso à saúde são atividades desenvolvidas pela organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF). Criada em 1971 por médicos e jornalistas, a organização também tem o compromisso de denunciar o sofrimento das pessoas que atende e os obstáculos encontrados na tentativa de oferecer ajuda. Engana-se quem pensa que somente médicos participam das ações da organização. “As pessoas que atuam em MSF têm perfis profissionais bem distintos. Além dos profissionais de saúde – médicos, enfermeiros, psicólogos, farmacêuticos, entre outros –, temos administradores, economistas e logísticos”, diz a diretora-geral da MSF-Brasil, Susana de Deus. Cerca de 100 brasileiros, distribuído em 40 países trabalham nos projetos da organização. O amor à profissão e a vontade de ajudar o outro, muito além da remuneração financeira, é o que mantém o trabalho dos profissionais do MSF. “A remuneração não é a motivação

principal para trabalhar em MSF. As pessoas que trabalham aqui fazem isso porque querem levar ajuda humanitária a quem sofre em situações de conflitos, epidemias e outros. Um profissional que vai trabalhar com MSF pela primeira vez recebe entre 700 a 1.040 euros por mês. Além da remuneração muitas vezes não ser competitiva, se comparada com o mercado de trabalho, a escolha por atuar em locais inóspitos, longe de casa e da família por longos períodos não é fácil, a pessoa tem mesmo que estar interessada em trabalhar com ajuda humanitária para fazer essa opção”, afirma Susana. se você deseja dedicar algumas horas do seu tempo para causas sociais e humanitárias, a Vida universitária dá algumas dicas para orientá-lo na sua busca. Centro de Ação Voluntária Com o slogan de “O que você faz transforma o mundo”, o Centro de Ação Voluntária promove palestras para pessoas que desejam realizar trabalhos voluntários e empresas que querem desenvolver atividades de voluntariado junto a seus colaboradores. (41)3322-8076 Voluntários Online O portal é uma ferramenta que possibilita o encontro na internet entre pessoas dispostas a ajudar e organizações que precisam do voluntariado. Hoje, o VOL conta com mais de 50 mil voluntários cadastrados e 700 ONGs em todo o país. voluntariosonline.org.br Projeto Atitudes do Bem Projeto voluntário que visa auxiliar setores da sociedade que, de alguma forma, estejam vulneráveis. O objetivo é promover ações em diversas áreas que atendam crianças, jovens, homens, mulheres, idosos, portadores de necessidades especiais e animais, buscando melhorar a realidade em que estão inseridos. www.facebook.com/ProjetoAtitudesdoBem projetoatitudesdobem@gmail.com santa Casa de Curitiba Oferece à sociedade civil a oportunidade de desenvolver o trabalho voluntário, fundamentado na perspectiva solidária e humanizadora, junto aos usuários/clientes do hospital. (41) 3322-8076

“Estamos plantando nas crianças a semente que amanhã estará pronta para que elas sejam transformadores de vida no futuro.” [Lama Padma samten]

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A campanha Se Liga no Livro é uma iniciativa da Lumen FM com a Rede Marista de Solidariedade para incentivar a leitura em Curitiba. Todos os dias na 99,5 você fica por dentro de projetos, iniciativas e diversas ações que incentivam a leitura na cidade, no Brasil e no mundo. E aos domingos, a união das linguagens da música e literatura no Se Liga na Letra, com o professor e poeta Marcelo Sandmann.

Se Liga no Livro

Diariamente às 8h, 12h30, 18h30 e 21h.

Se Liga na Letra

Domingo às 18h30. Reprise às quartas-feiras, às 23h.

Apoio:

www.lumenfm.com.br/seliganolivro


reportagem

Prato

{dentro} da lei

Direito Humano à Alimentação Adequada está na Constituição e é tão importante quanto qualquer outro Por Mahani Siqueira, especial para a Vida Universitária

Foi apenas em 2010, em pleno século XXI, que o Direito Humano à Alimentação Adequada tornou-se um direito constitucional de todo e qualquer cidadão brasileiro, graças à aprovação da Emenda Constitucional nº 64, que incluiu a alimentação entre os direitos sociais do país. Embora pareça algo evidente e que deveria estar presente na Constituição desde que ela foi escrita, o assunto é mais complexo do que se imagina e tem uma série de detalhes que exigem cuidados e o trabalho árduo de muita gente – de nutricionistas a juristas – para que funcione verdadeiramente e ofereça aos cidadãos brasileiros o que a lei, de fato, recomenda. Nas últimas décadas, o Brasil assinou acordos internacionais que reconhecem e valorizam a alimentação adequada como fundamental para a vida de qualquer pessoa, mas nenhum tem a importância da recente emenda. O longo processo que desembocou na inclusão do tema na Constituição brasileira teve marcos de grande relevância (ver box ao lado). Ainda assim, por mais que já tenha sido adotado ao redor do mundo e também em terras brasileiras, onde os passos são mais curtos e lentos, o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) segue despertando discussões e estudos. Por definição, o DHAA é alcançado quando todos os homens, mulheres e crianças, sozinhos, ou em comunidades, têm acesso físico e econômico, em todos os momentos, à alimentação adequada, ou um meio para sua obtenção. O conceito de “adequação” refere-se às calorias, proteínas e outros nutrientes mas, também, às condições sociais, econômicas, culturais, climáticas e ecológicas, entre outras. Abrangente e complexo, o assunto ainda esbarra na necessidade de mais conhecimento da população para ter mais possibilidades de ser cumprido no Brasil.

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LINHA DO TEMPO Marcos importantes na história da busca pelos direitos humanos à alimentação adequada

1948 A ONU promulga a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que reconhece a alimentação como parte do direito mais amplo ao padrão de saúde e bem-estar. 1966 O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC) inclui um artigo que coloca o direito de estar livre da fome dentre as condicionalidades necessárias para assegurar um nível de vida adequado. 1999 A Cúpula Mundial de Alimentação define o conceito de direito humano à alimentação adequada. 2004 O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) instala a Comissão Permanente de DHAA. 2006 Com o objetivo de garantir o Direito Humano à Alimentação Adequada, é aprovada a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional e a criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. 2010 A Emenda Constitucional nº 64, que inclui a alimentação entre os direitos sociais, é aprovada e torna o DHAA um direito constitucional de todo cidadão brasileiro.


Segurança Alimentar e Nutricional do Paraná, o problema passa, desde o início, pela forma como muitos dos nossos alimentos são produzidos. “A hegemonia de um modelo de agronegócio que prioriza tecnologias ainda consideradas inseguras na produção de alimentos e o uso de outras sabidamente prejudiciais à saúde, como as tecnologias envolvendo organismos geneticamente modificados e os processos de industrialização que permanecem gerando produtos com excesso de nutrientes prejudiciais à nutrição, além do descontrole sobre a aplicação de agrotóxicos e a permanência de seus resíduos que contaminam os alimentos naturais são situações que ilustram os exemplos mais emblemáticos de não cumprimento do DHAA”, avalia Maria Teresa. A professora, que tem um longo histórico de envolvimento com o direito humano à alimentação adequada, entende que essa discussão tem a ver com a “garantia de acesso permanente e regular, de forma socialmente justa, a uma prática alimentar adequada aos aspectos biológicos e sociais dos indivíduos”, conforme um recente debate entre órgãos ligados ao assunto. Ela reforça também que a adequação deve levar em conta cada fase da vida, além da existência de necessidades alimentares especiais e de tradições culturais locais. Maria Teresa ainda falou de outros fatores que compõem o panorama geral do DHAA.

“O governo tem se mobilizado no sentido de cumprir suas obrigações de promover e proteger o DHAA, mas é fundamental que a população participe de forma ativa.” [Carla Corradi, professora de Nutrição da PUCPR ]

ESTUDO DE CASO

© Foto: Dreamstime

“Na minha opinião, a população não tem conhecimento suficiente sobre os seus direitos fundamentais, dentre eles o da alimentação. E quando o tem, não sabe como exigi-los. A partir da apropriação política por parte dos cidadãos, as pessoas saberiam reclamar ou demandar seus direitos. O governo tem se mobilizado no sentido de cumprir suas obrigações de promover e proteger o DHAA, mas é fundamental que a população participe de forma ativa”, comenta Carla Corradi, professora de Nutrição da PUCPR e responsável por orientar dois trabalhos de conclusão de curso sobre o assunto (ver box ao lado). A dificuldade em cumprir os direitos humanos ligados à alimentação adequada tem relação, também, com fatores muito além do alcance dos cidadãos. Segundo Maria Teresa Gomes, especialista no assunto, professora de Nutrição da PUCPR e membro do Conselho de

O Direito Humano à Alimentação Adequada encontra outro obstáculo quando trata de pessoas internadas que precisam receber cuidados especiais. Um dos trabalhos de conclusão de curso orientados por Carla Corradi na PUCPR empreendeu uma pesquisa sobre como o DHAA é respeitado em pacientes que recebem terapia nutricional enteral (TNE), via alternativa de alimentação, administrada através de uma sonda. Segundo Eloísa Gonçalves, estudante do oitavo período de Nutrição e uma das integrantes do grupo, o trabalho consistiu em acompanhar a realidade de um hospital universitário por quatro meses em busca de fatores relacionados à inadequação da dieta dentro das necessidades nutricionais dos pacientes. O resultado do projeto deixou clara a existência de lacunas no acesso ao DHAA. “A maioria dos pacientes não teve nenhuma intercorrência ou complicação que interferisse na administração das dietas prescritas. Porém, não podemos ignorar a porcentagem que não recebeu a dieta adequadamente, demostrando que ainda existem fragilidades relacionadas à nutrição ofertada para o pacientes. No entanto, muitas vezes essas fraquezas estão relacionadas à própria doença da pessoa ou à nutrição enteral”, explica Eloísa. Orientadora do TCC de Eloísa, Carla Corradi comenta que a terapia nutricional enteral está cada vez mais apta a atender os pacientes que necessitam desse tratamento. A eficiência, contudo, ainda não é completa e esbarra em diversas barreiras que causam deficiências em relação aos direitos humanos. “Pudemos observar que um pouco menos da metade dos pacientes recebeu uma dieta adequada tanto em quantidade quanto em qualidade. Percebemos que muitos fatores contribuem para essa realidade, como as intercorrências inerentes à doença ou ao próprio tratamento. Por exemplo: diarreia, náuseas e vômitos, ou jejum para exames e procedimentos. Não podemos deixar de afirmar que a TNE evoluiu nas últimas décadas em relação às regulamentações, aos protocolos e à disponibilidade de produtos, mas ainda encontramos fragilidades no atendimento da totalidade das necessidades nutricionais dos pacientes”, comenta Carla.

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reportagem

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ALiMEntAçãO nA MirA Não é segredo para ninguém que o cigarro oferece péssimas perspectivas à saúde. Porém, uma recente declaração do relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, Olivier de Schutter, revelou que mais perigoso do que fumar é se alimentar de maneira inadequada. Ele avisa que medidas precisam ser tomadas o quanto antes.

© Foto: Divulgação

“dietas pouco saudáveis são, agora, uma ameaça muito maior para a saúde mundial do que o tabaco. tal como o mundo se uniu para regular os riscos do tabaco, uma ousada convenção sobre dietas adequadas deve ser acordada.” [Olivier de Schutter, em entrevista ao site da ONU]

O relator falou ainda quais são as medidas mais urgentes para fazer com que a alimentação global tenha um futuro melhor. Confira.

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Taxas sobre produtos pouco saudáveis; Regulação de alimentos ricos em gorduras saturadas, sal e açúcar; Redução da publicidade de comidas prejudiciais à saúde; Revisão dos sistemas de subsídios agrícolas; Apoio à produção local de alimentos.

“Não podemos analisar o direito à alimentação de forma isolada. Devemos considerar que o Brasil, em nível mundial, é um dos países que tem maior PIB e, ao mesmo tempo, um dos maiores índices de desigualdade social.” [Carla Corradi, professora de Nutrição da PUCPR e pesquisadora do tema]

© Foto: Dreamstime

“Algumas dimensões devem ser atendidas, como os princípios da variedade, do equilíbrio, da moderação, do prazer, do sabor, do gênero e da etnia. Por fim, uma alimentação adequada ainda deve considerar que os alimentos consumidos sejam produzidos mediante modelos ambientalmente sustentáveis e livres de contaminantes físicos, químicos, biológicos e de organismos geneticamente modificados”, finaliza a professora. Para Carla Corradi, a alimentação, a partir do momento em que se trata de um direito constitucional, exige uma avaliação dentro de um contexto maior. E se a realidade do local (país, estado ou cidade) é um fator que faz diferença dentro desse panorama geral, o Brasil deve ser analisado como um caso à parte, em que a população não tem acesso completo aos direitos humanos, como preveem as leis e os acordos internacionais. “Não podemos analisar o direito à alimentação de forma isolada. Devemos considerar que o Brasil, em nível mundial, é um dos países que tem maior PIB e, ao mesmo tempo, um dos maiores índices de desigualdade social. Nesse contexto, os direitos fundamentais, de maneira geral, não são plenamente respeitados. Nosso país tem, portanto, demandas diferentes em relação a outras nações desenvolvidas, cujas estratégias estão focadas em investimentos de longo prazo em projetos agrícolas, enquanto o Brasil trabalha em programas com efeito mais imediato para tentar atender, mesmo que parcialmente, os direitos fundamentais das pessoas”, opina. Segundo Eduardo Biacchi Gomes, doutor em Direito e professor da disciplina de Direito Internacional na PUCPR, o Brasil apresenta um atraso dentro desse assunto porque não pratica uma série de ações que poderiam minimizar o problema e proporcionar um atendimento que aumentasse o acesso público aos direitos humanos. “No Brasil, inquestionavelmente, os casos mais graves de violação ao DHAA decorrem da falta de execução de políticas públicas com o intuito de concretizar os direitos constantes nos tratados que abordam o tema. Os principais desafios encontrados nesse sentido estão na necessidade de promover a maior inclusão das classes mais pobres de nossa sociedade, isso é, aqueles que ainda não são contemplados pelos programas sociais”, completa Gomes.


FridA REVELADA

sintonia cultural

Exposição inédita no Brasil exibe fotos que contam a história e revelam as dores, as alegrias e os amores da icônica artista mexicana Por Mahani siqueira, especial para a Vida Universitária

uMA VidA EM FOtOs Dividida em seis seções, a mostra retrata, em seu primeiro núcleo, a interferência que os pais de Frida e suas fotos (principalmente os autorretratos) tiveram na vida da artista. A segunda seção destaca a Casa Azul, residência na Cidade do México que teve grande importância para a família e hoje abriga o museu. As outras partes da exposição vão do lado íntimo da pintora a imagens relacionadas a questões políticas, passando por fotos de seus amores e até cartões de visita do século XIX e recortes fotográficos mutilados em que a mexicana eliminava ou elegia alguns dos protagonistas. A soma de tudo isso representa uma síntese do que foi a vida de um dos maiores ícones da arte em todos os tempos. “O acervo reflete, de maneira clara, os interesses que a pintora teve ao longo de sua tormentosa vida: a família; o seu fascínio por Diego Rivera e seus outros amores; o corpo acidentado e a ciência médica; os amigos – e alguns inimigos –; a luta política e a arte; os índios e o passado pré-hispânico, tudo revestido da grande paixão que teve pelo México e pelos mexicanos”, afirma Pablo Ortiz Monasterio, curador da exposição. O público que comparecer ao MON terá acesso a fotos muito marcantes e que têm um significado imenso para a vida e a obra de Frida Kahlo. A diretora do Museu Frida Kahlo, Hilda Trujillo Soto, deu um aperitivo de quais são as imagens mais populares entre os visitantes da mostra. “As fotos que ela mesma tirou são as mais procuradas. Em uma delas, Frida representa o acidente colocando uma boneca caída junto a um carrinho de madeira; em outra, há uma caveira no jardim, que depois serviu de modelo para uma de suas obras de arte. Outras fotos mostram como ela se via sensual diante da câmera, deixando de lado sua condição física até mesmo na época em que teve poliomielite”, finaliza Hilda, com a certeza de que personalidade e intensidade nunca faltaram à Frida.

© Foto:s Museu Frida Kahlo

A vida de Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón se caracterizou, durante breves 47 anos, pela intensidade. Artista conhecida por suas pinturas de cores fortes e contrastantes, a mexicana teve que conviver, desde os 18 anos, com a enorme dor e as impressionantes limitações causadas por um acidente de bonde que a obrigou a passar meses entre a vida e a morte e a submeteu a severas cirurgias e à necessidade de passar o resto da vida ligada a equipamentos ortopédicos. No amor, as paixões efervescentes e um caso cheio de reviravoltas com Diego Rivera, o eterno namorado e marido, não negam: Frida Kahlo sempre foi muito intensa. A intensidade inerente à vida da pintora mexicana poderá ser conferida pelos curitibanos até o dia 2 de novembro no Museu Oscar Niemeyer. A exposição Frida Kahlo – As Suas Fotografias reúne 240 registros fotográficos da artista desde a infância até seus últimos anos, tiradas por familiares, fotógrafos profissionais que conviveram com a artista e também pela própria, além de imagens que ela gostava de guardar para olhar e se inspirar. Em solo brasileiro, a capital paranaense será a única cidade a receber a exposição, que conta com fotos exibidas ao público pela primeira vez apenas em 2007. O acervo, rico e diverso, mostra como a relação de Frida com a fotografia teve um papel fundamental na evolução da artista durante toda sua vida. Segundo Hilda Trujillo Soto, diretora do Museu Frida Kahlo, no México, as imagens são indispensáveis na trajetória da pintora. “A arte da fotografia e a vida de Frida estão intimamente ligadas, uma vez que as imagens foram fontes de inspiração e lhe permitiram uma aproximação com as suas raízes e seu país. Ela não apenas colecionava fotos, como também as recortava e se apropriava delas. As imagens não ajudam apenas a explicar a biografia da artista, mas mostram como ela vivia com um corpo destroçado e transformava dor em cor, em vida e em obra de arte”, comenta Hilda.

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na prática

Camuflados

© Fotos: Acervo Kmuflados

no caos urbano

Ronaldo Chaime Macedo, de 41 anos, já não é mais um “camuflado” em Curitiba.

Grupo de jovens de Curitiba cria projeto para oferecer oportunidade de recomeço a moradores de rua da capital. Iniciativa busca retirar pessoas do anonimato por meio da divulgação de vídeos na internet Por Claudia Guadagnin, especial para a Vida Universitária

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Foi durante uma ida ao trabalho de bicicleta que Eduardo França Xavier, de 25 anos, percebeu o que parece não ser visto por grande parte da população diariamente. Ele notou a presença de “camuflados” em Curitiba. Moradores de rua em situação de vulnerabilidade saltaram-lhe aos olhos e a percepção incomodou. Por alguns segundos, imaginou como seria valioso conhecer a vida de cada um e poder ajudar. A inspiração tornou-se ideia, ganhou forma e virou projeto. Escolher o nome foi fácil. O Kmuflados surgiu em 2013 com o objetivo de apoiar um morador de rua por vez, tirá-lo da invisibilidade e, por meio de vídeos expostos na internet, divulgar sua história. Hoje, além do fundador, integram a proposta sete jovens da capital. O apoio também vem de outras dezenas de pessoas, que contribuem com doações, dinheiro, tempo ou orienta-

ção jurídica, por exemplo. “Os moradores de rua existem e camuflam-se entre prédios, carros e a nossa pressa diária. Com os vídeos, queremos mostrar que eles têm histórias e motivos que os levaram à atual condição. Acreditamos que todos os relatos são valiosos e oferecem aprendizados a quem escuta”, diz Eduardo. A proposta busca oferecer o incentivo inicial para o recomeço. E o primeiro resultado já apareceu. Ronaldo Chaime Macedo, de 41 anos, veio para Curitiba após desentender-se com a família. Deixou Rosário do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, e as histórias do passado. Na nova cidade, trabalhou em um parque de diversões itinerante, envolveu-se com drogas, foi preso e, ao sair, viu-se deprimido. A rua virou casa e a coleta de material reciclável, trabalho. Macedo viveu as adversidades da vida na rua. No vídeo


nO inVErnO, AçõEs dA FundAçãO sOCiAL dE CuritiBA (FAs) sãO intEnsiFiCAdAs de quase cinco minutos produzido pela equipe do Kmuflados, ele lembra dificuldades do período, mas revela consciência. “Ninguém é perfeito, mas a gente pode alcançar isso com o passar do tempo. Exige muita oração e união”. O contato inicial entre ele e o projeto ocorreu em outubro de 2013, quando a noiva de Xavier notou a presença do homem na rua. No carrinho, ele carregava cinco cachorros. “Já na primeira conversa, ela percebeu que se tratava de uma pessoa que precisava de uma chance. Naquele instante, notamos que era hora de dar início ao projeto”, lembra Xavier. Menos de um ano depois, no início de junho deste ano, Macedo abandonou a vida em baixo de uma ponte no bairro Guabirotuba para viver em um abrigo da prefeitura, longe das ruas e do frio típico da cidade. Resistiu por um período porque não abria mão de levar os animais de estimação para onde fosse. Permaneceu no espaço por 15 dias e saiu em busca de outro lugar para morar e trabalhar. Hoje, ele reside em uma chácara na BR- 116 e contribui com os serviços gerais do local. Acompanhado pelos cachorros, que considera família, se diz feliz e mais respeitado. “Sou muito grato às pessoas que me ajudaram. Uma oportunidade de recomeço me foi dada e agradeço por isso”. Segundo ele, a vontade de mudar de vida veio depois de assistir ao filme com a própria

“Ninguém é perfeito, mas a gente pode alcançar isso com o passar do tempo. Exige muita oração e união.” [ronaldo Chaime Macedo, ex-camuflado]

história. “Tive disposição para recomeçar”. Macedo também conta que após a divulgação das imagens, mais pessoas o procuraram para doar comida, roupas, cobertores, dinheiro e até ração para os animais. O Kmuflados também possibilitou seu contato com a família, distante há mais de uma década. “Conversando, mostramos que uma reaproximação com a mãe e as irmãs poderia ser positiva. Eles se falaram por telefone e uma das irmãs, inclusive, começou a acompanhar o que postávamos sobre ele pelo Facebook do projeto”, conta Xavier. Para fazer a aproximação e fortalecer os laços de relacionamento com o apoiado, a equipe conta com um psicólogo, que é quem conduz a conversa do depoimento filmado. Xavier lembra que nos primeiros meses do projeto, investiu cerca de R$ 4 mil em equipamentos, entre câmera fotográfica, filmadora e microfone de lapela para as gravações. “De lá pra cá, fiz cursos de fotografia e edição de vídeo e me apaixonei por tudo isso”. O grupo agora busca encontrar outra pessoa para ser ajudada. Quem tiver indicações a fazer, pode entrar em contato com a equipe pelo blog (www.kmuflados.com) ou Facebook do projeto. “Precisamos encontrar um novo camuflado para tirar do anonimato”, convida Xavier.

O último levantamento oficial sobre a população de rua no Brasil é de 2008. De acordo com a pesquisa nacional referente ao assunto, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, existem mais de 2.700 indivíduos nessa condição em Curitiba. O levantamento foi feito em 71 cidades brasileiras e identificou os principais motivos que fazem alguém ir morar na rua. Problemas com alcoolismo e drogas estão em primeiro lugar, sendo a causa apontada por 35,5% dos entrevistados. Em segundo fica o desemprego (29,8%) e em terceiro, as desavenças familiares (29,1%). Dados do IBGE revelam que o número de moradores de rua em todo país pode chegar a 1,8 milhão. Jucimeri Silveira, superintendente de planejamento na Fundação Social de Curitiba (FAS) e professora do curso de Serviço Social da PUCPR, explica que se a quantidade de habitantes e pessoas em situação de rua for comparada, Curitiba fica entre as cidades com um dos maiores índices. No entanto, ela conta que desde 2013 ninguém morreu de frio nas ruas da capital graças à Operação Inverno, que, durante o ano passado, prestou atendimentos para a proteção contra o frio. “Essa meta precisa ser mantida e exige pró-atividade das equipes que atendem às chamadas do 156 e atuam em pontos estratégicos. São mais de 200 servidores públicos trabalhando apenas com população de rua. No inverno passado, ofertamos acolhimento emergencial para uma média de 591 pessoas por dia. Em uma única noite, a FAS chegou a acolher 719 indivíduos, além da entrega de cobertores e agasalhos aos que recusam acolhimento”, explica. Ela calcula que até o fim da operação mais de 15 mil pessoas foram ajudadas. A docente também acredita na contribuição social que a Universidade pode fornecer, favorecendo o engajamento de estudantes e professores na discussão de temáticas como essa. Como coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, defende a manutenção de uma sociedade democrática, justa, plural, igualitária e solidária. “O desenvolvimento de novas tecnologias sociais e de políticas públicas são algumas formas de apoiar a população de rua e outros grupos específicos que sofrem violações de seus direitos. Nesse sentido, a participação estudantil é fundamental”, conclui.

VOCÊ tAMBÉM POdE COntriBuir! l diVuLGuE Para aumentar a relevância da iniciativa, pessoas, órgãos, empresas, OnGs e governos podem ajudar. Para isso, é possível curtir e compartilhar os conteúdos da página do projeto no Facebook ou apresentar o assunto à imprensa, por exemplo. l dOE Para colaborar com necessidades básicas, você pode doar roupas, calçados, cobertores, alimentos, remédios, entre outros. também são aceitas doações financeiras. Elas são utilizadas, exclusivamente, para fins do projeto e prestações de contas são feitas nos meios de comunicação do kmuflados. l sEu tEMPO É VALiOsO Para que as possibilidades de reinserção social do morador de rua aumentem, apoios na realização de atividades sociais, culturais e profissionais também são buscados. É possível ajudar com suas próprias habilidades ou indicando possibilidades que possam interessar a eles. l sEjA uM AMiGO todo ser humano precisa de atenção e carinho, portanto, os apoiados pelo projeto podem ser apresentados a você. Vínculos de amizade e confiança são possíveis de serem construídos e haverá aprendizado para ambas as partes. l idEntiFiQuE E indiQuE uM CAMuFLAdO Algum morador de rua chamou sua atenção? Apure o olhar para perceber e indique uma pessoa para ser ajudada. l COntriBuA COM A rEinsErçãO sugestões sobre oportunidades de trabalho e lugares para onde o morador de rua possa se mudar e recomeçar a vida também são importantes. utilize seus contatos e contribua!

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© Fotos: Gilberto do Rosário

diário de bordo

ChEGAdA

rEsPOnsABiLidAdE

triAGEM

AdOçãO

É segunda-feira e a recepção do Hospital Veterinário está lotada. A culpa é do fim de semana, período em que o local não funciona. O Hospital abre às 7h30 para distribuição de senhas – são apenas seis por período e duas por pessoa – e às 8h iniciam os atendimentos. O relógio marca 7h e já tem mais de dez proprietários com seus cachorros por ali. Aqueles que não conseguem pegar uma senha para o período da manhã devem retornar às 13h30 para tentar ser atendidos à tarde. O expediente termina às 18h e o Hospital não funciona à noite. Por dia, são atendidos cerca de 60 casos, entre avaliações de emergência, reconsultas e cirurgias – normalmente, quatro por dia. Nesta segunda-feira, uma delas será a de uma cachorrinha que entrou em trabalho de parto há uma semana, porém não recebeu o atendimento necessário e, por isso, está muito debilitada. A equipe de reportagem da Vida universitária acompanhou todo o processo.

Com as senhas em mãos, o proprietário deve preencher uma ficha de cadastro e assumir a responsabilidade sobre o animal. “Se a pessoa acha um animal na rua e o traz para cá, ela é considerada responsável por ele, mesmo que não seja a dona. Isso significa que ela deve arcar com os gastos gerados e amparar o animal. Muitas vezes, as pessoas trazem o bichinho e o abandonam aqui. O Hospital não pode assumir a responsabilidade sobre os animais de rua”, diz a professora Ana Paula Lopes, coordenadora da UHAC. Ela ainda reforça que abandono é crime. O Hospital tem fins acadêmicos e é o ambiente de estágio e residência de graduandos e pesquisadores.

Após o cadastro, os animais passam por uma triagem. Segundo a professora Ana Paula, a UHAC recebe muitos casos de alta complexidade, principalmente por ser um hospital universitário. Os casos mais recorrentes são de doenças de pele. “O atendimento dermatológico acontece uma vez por semana e isso aqui fica lotado. São os casos mais comuns entre os animais de companhia”. Durante toda essa segunda-feira foram atendidos apenas cachorros. A coordenadora afirma que o número de caninos que chegam para ser tratados é significativamente maior. Além desses atendimentos, uma vez por semana animais do Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), da PUCPR, que precisam passar por algum procedimento específico são encaminhados para lá. Enquanto isso, a cachorra que a equipe está monitorando aguarda para ir ao centro cirúrgico. Provavelmente, o procedimento acontecerá à tarde. Já se sabe que os filhotes não sobreviveram. O caso dela é prioritário.

Numa área verde do Câmpus São José dos Pinhais, há um canil com alguns cães que foram abandonados no Hospital. Busca-se um lar para eles por meio de campanhas de adoção. As pessoas interessadas devem ir até a recepção do Hospital e informar o interesse para que sejam dados os próximos passos. Vale dizer que todos os animais são vacinados, o que é um incentivo a mais para a adoção. A direção do Hospital reforça que o canil é um espaço que deve ser ocupado pelos animais em tratamento e que, atualmente, já está lotado. Enquanto aguardam para ser adotados, naturalmente, surge um vínculo entre a equipe e os bichinhos. Nos cinco minutos de folga de uma segunda-feira “de cão”, a enfermeira Eliane Mendonça sai para correr com um dos cachorros que estão por lá. Ele late alto enquanto corre com ela.

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A equipe de reportagem da revista Vida universitária acompanhou a rotina da Unidade Hospitalar para Animais de Companhia (UHAC) da PUCPR, mais conhecida como Hospital Veterinário. Por dia, são atendidos cerca de 60 casos. Agilidade e precisão são fundamentais para o bom atendimento no local Por Michele Bravos

diAGnÓstiCOs

OdOntO

disPEnsáriO

CirurGiA

PÓs-OPErAtÓriO

Trabalham atualmente na UHAC cerca de 25 profissionais, nos setores de clínica médica, cirúrgica, anestesiologia, funções administrativas, técnicas (como as áreas de enfermagem e radiologia) e de limpeza. No próprio hospital são feitos exames de raios X e ultrassom quando necessário. Há salas e profissionais específicos para isso. O resultado do raio X é imediato e a leitura da imagem leva em torno de 30 minutos. Coleta de sangue, urina e fezes também é feita no Hospital, da mesma forma que as análises, uma vez que é preciso agilidade. A urina deve ser analisada em até três horas, caso contrário, os resultados se alteram. Em caso de resultados inconclusivos, eles são encaminhados para fora do país, para instituições parceiras, segundo a professora Celina Duque.

Fazer a limpeza dos dentes dos animais também é considerado um procedimento cirúrgico, uma vez que é preciso anestesiá-lo. A veterinária explica que algumas cardiopatias estão ligadas diretamente à falta de higiene bucal do animal. Foi o caso de outra cachorra atendida nessa segunda-feira. Os tratamentos para uma doença do coração não estavam surtindo efeito. Ao ser avaliada com minúcia, percebeu-se que a falta de limpeza dos dentes – situação agravada pela alimentação inadequada – poderia estar interferindo na melhora da cachorra. “As pessoas não têm o hábito de limpar os dentes dos animais. Mas, a exemplo da nossa boca, também é preciso escovar a dentição deles. É indicado que isso seja feito três vezes por semana, com pasta própria para animais. Evita-se, assim, uma gengivite, que pode acarretar não só em doenças no coração, mas também nos rins e no fígado, e até na perda dos dentes, o que prejudicaria a qualidade de vida do bicho”, diz a professora Antônia do Prado.

É o dispensário do Hospital que controla a compra de medicamentos e equipamentos. Grandes aquisições são feitas semestralmente e quantidades menores são solicitadas mensalmente. É também no próprio Hospital que é feita a esterilização de materiais e roupas. A única exceção são os matérias ortopédicos, como placas e pinos, cujo processo é terceirizado. A rotina no dispensário é agitada. Os profissionais chegam a todo momento para solicitar o que precisam. O Hospital tem um ritmo acelerado devido à grande demanda de atendimentos –principalmente nas segundas-feiras. O que se ouve nos corredores é: “Esse lugar está uma loucura hoje”.

Sete em cada dez casos atendidos no Hospital são de cirurgia. Algumas são de alto risco, como a da cachorra que a Vida universitária está acompanhando. Há uma semana, ela entrou em trabalho de parto. Para tentar ajudá-la, a proprietária puxou o filhote, porém, pela inexperiência, houve mutilação do animal. Como a cachorra não foi encaminhada para o hospital imediatamente, uma infecção se espalhou pelo seu corpo. Fica o alerta: quando o animal estiver tendo filhotes, é preciso deixar o parto fluir espontaneamente. Se em duas ou três horas os filhotes não nascerem, é preciso levar a cadela a um hospital. Durante a cirurgia realizada, o útero foi retirado como forma de prevenção. A coordenadora Ana Paula explica que em casos em que é preciso intervir no sistema reprodutor é indicado fazer a castração. Foi uma hora e meia no centro cirúrgico e, apesar da tensão, tudo correu bem. A equipe veterinária afirma que, nessas situações, o mais difícil é o pós-operatório.

O pós-operatório imediato ocorre numa sala climatizada em torno de 26ºC. Como o Hospital não é 24 horas, os animais que necessitam de cuidados especiais, principalmente nesse momento depois da cirurgia, devem ser levados para alguma clínica veterinária. Se o proprietário não tiver condições financeiras de fazer essa transferência, o animal precisa ir para a casa do seu responsável. Foi a situação da cachorrinha. Os veterinários reforçaram com os proprietários a necessidade de cuidados extremos com ela. Em 2015, o Hospital será deslocado para o Câmpus Curitiba e espera-se, com isso, um atendimento 24 horas, além de uma estrutura que possa atender com qualidade mais solicitações. São almejos revelados durante uma parada de nem dois minutos para um cafezinho na cozinha. Desejos de veterinários que exercem muito mais que uma função no Hospital, que trabalham com o coração na loucura de uma segunda-feira “de cão”.

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registro INTERNACIONAL PUCPR lamenta a morte de seu grão-chanceler Dom Moacyr Vitti

Treze executivos das áreas de educação, saúde e solidariedade do Grupo Marista, dentre eles o Superior Provincial, Ir. Joaquim Sperandio; o presidente do Grupo, Ir. Délcio Balestrin; e o reitor da PUCPR, Waldemiro Gremski, visitaram a PUC Chile com o objetivo de trocar experiências. A Universidade chilena ultrapassou a Universidade de São Paulo (USP) na liderança do ranking internacional do grupo Quacquarelli Symonds (QS), que avalia a 100 melhores instituições da América Latina. A PUCPR é a única paranaense particular a figurar entre as 100 melhores desta lista.

© Foto: João Borges

A Pontifícia Universidade Católica do Paraná lamenta a morte de seu grão-chanceler, o arcebispo de Curitiba Dom Moacyr José Vitti. O arcebispo tinha papel fundamental na Universidade, pois era o mediador das relações da Instituição com a Igreja Católica. “Sempre que foi necessário, ele interveio a nosso favor, cumprindo o papel de preceptor da Igreja perante a Universidade”, lembrou Waldemiro Gremski, reitor da PUCPR. “Além disso, era um amigo da PUCPR e sempre teve orgulho de sua função”, disse o reitor.

© Foto: Divulgação

nota de falecimento

CONQUISTA

© Foto: Divulgação

O professor de Direito Ambiental da PUCPR Vladimir Passos de Freitas recebeu do Comando do Batalhão de Polícia Militar Ambiental do Paraná a medalha de Mérito Ambiental pelos serviços prestados à defesa do meio ambiente. Freitas dedicase à matéria desde 1973, quando era promotor de justiça. Posteriormente, como presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, criou as primeiras Varas Federais Ambientais do Brasil. Tem dez livros publicados na área, centenas de artigos e palestras, inclusive em 18 países no exterior.

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A coordenadora do CETAS da PUCPR Ana Carolina Fredianelli recebeu da Polícia Militar Ambiental do Paraná uma medalha de Mérito Ambiental. O título foi entregue na cerimônia em comemoração ao 57º aniversário da entidade. Segundo o coronel Péricles de Matos, subcomandante-geral da PM, Ana Carolina esteve na lista dos homenageados por conta de seu trabalho e sua dedicação à preservação da fauna silvestre nativa, bem como pelo apoio técnico nunca antes fornecido à Polícia Militar Ambiental e por sua personalidade frente às ações de combate ao tráfico de animais.

© Foto: Arquivo pessoal

© Foto: Divulgação

A PUCPR recebeu o Selo ODM – Edição 2014/2015 pelo trabalho desenvolvido em prol do alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Essa certificação é realizada pelo SESI do Paraná e concedida por meio do Movimento Nós Podemos Paraná. A cerimônia de premiação ocorreu na FIEP – Câmpus da Indústria, em Curitiba. O selo ODM está na sua quarta edição, reconhecendo e destacando projetos e ações de organizações que contribuem para o desenvolvimento de suas localidades. Em 2014, foram certificadas 148 instituições de 49 municípios.

© Foto: Divulgação

As equipes de natação e atletismo do projeto CEDE/PUCPR (Clube Esportivo do Deficiente) conquistaram 16 medalhas de ouro na etapa do Circuito Loterias Caixa Rio-Sul, no Rio de Janeiro. Além das de ouro, os atletas conquistaram ainda 13 de prata e nove de bronze, totalizando 38 medalhas. A equipe é treinada pelo professor da PUCPR Rui Menslin.


ranking

© Foto: Divulgação

Congresso

COMEMORAÇÃO

Com o intuito de discutir o futuro da Universidade, sua capacidade de resposta às demandas da sociedade atual e sua projeção iberoamericana no contexto mundial, o reitor da PUCPR, Waldemiro Gremski, participou do III Encontro Internacional de Reitores Universia. Com o tema “A universidade do século XXI: uma reflexão a partir da Ibero-América”, o evento reuniu, no Rio de Janeiro, mais de mil reitores e presidentes de universidades de 46 países para analisar a formação dos jovens.

No dia 04 de setembro, o Círculo de Estudos Bandeirantes (CEB), órgão cultural da PUCPR, completa 85 anos. Peça fundamental para a formação da UFPR e da PUCPR, foi agregador de talentos, de intelectuais e instrumento divulgador da cultura paranaense. Hoje, é um local de estudos e pesquisa, com um acervo bibliográfico de quase 20 mil exemplares, entre eles obras raras dos séculos XVII, XVIII, XIX e XX, além de manuscritos, periódicos e documentação histórica.

© Foto: Diego Teider

© Foto: Divulgação

De acordo com o ranking divulgado pelo grupo Quacquarelli Symonds (QS), em maio deste ano a PUCPR foi a 9ª universidade brasileira com mais citações de artigos científicos. Esse critério avalia o impacto da pesquisa desenvolvida na PUCPR mensurado pelas citações de artigos em jornais acadêmicos internacionais. Na comparação geral, a Universidade está em 21° lugar entre as instituições de ensino brasileiras e em 92° quando comparada com as latino-americanas. É a única paranaense particular a figurar entre as 100 melhores da América Latina. Outros destaques da Universidade são o quesito “artigos publicados”, que coloca a PUCPR em 38° lugar no Brasil, e o quesito “número de professores com Ph.D.”, com a 29° posição ocupada pela PUCPR.

© Foto: Divulgação

A PUCPR recebeu visita de Roger Epp, vice-reitor da Universidade de Alberta, no Canadá. O objetivo do encontro foi propor parcerias entre as duas instituições. O contato inicial com a universidade canadense foi realizado pelo diretor de Relações Internacionais da PUCPR, Marcelo Mira, no NAFSA, maior evento de internacionalização da educação mundial.

A PUCPR e a Nokia Networks inauguraram o Laboratório de Estudos Avançados em Redes Móveis de Telecomunicações. Mais um fruto da parceria que existe desde 2009, o novo projeto incentivará a inovação para o desenvolvimento nacional das redes 4G e 5G, estreitando o relacionamento entre a universidade e a empresa. As redes heterogêneas de telecomunicações formarão a base das pesquisas.

© Foto: João Borges

PESQUISAS

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© Fotos: Gilberto do Rosário

qualidade de vida

PERIGO na palma da mão Dependência de conexão com a internet existe, é estimulada pelo uso de tablets e smartphones e pode se transformar em doença Por Mahani Siqueira, especial para a Vida Universitária

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O despertador não tocou e acabei acordando mais tarde do que de costume. Como sempre, tateei a mesinha de cabeceira em busca do celular. Foram necessários alguns segundos de susto, sem encontrar o smartphone, para que eu lembrasse que o aparelho estava desligado, guardado e que eu não poderia acessá-lo até o dia seguinte. Em um instante, tudo fazia sentido: estava claro o motivo do despertador não ter tocado e de eu já me sentir distante da caixa de entrada de e-mails, que não pude bisbilhotar durante a madrugada, como sempre faço. Para escrever esta matéria, que trata dos perigos do vício no uso de smartphones, tablets e computadores, aceitei a experiência de ficar um dia e duas noites sem nenhum contato com qualquer uma das plataformas. Logo nos primeiros momentos da tentativa, percebi que tenho, sim, uma certa relação de de-


pendência com a internet e tive que controlar a ansiedade para não correr para o celular em busca de conversas no WhatsApp ou novos e-mails. O jeito foi resolver coisas na rua. Aproveitei para pagar contas no caixa do banco (algo que não fazia há um bom tempo) e marcar reuniões que não exigiriam o uso da internet. Não tenho como negar que foi difícil me manter afastado por mais de 24 horas da tecnologia com a qual convivo diariamente e com que mantenho uma relação tão próxima (o trabalho exige, afinal de contas). No entanto, consegui atingir o objetivo e devo até dizer que foi, de certa forma, libertador. A experiência também serviu para eu entender que, com o tempo e mesmo sem notar, me tornei dependente de algo sobre o qual eu não tinha controle. A entrevista que fiz com o

psicólogo e psicoterapeuta Leonardo Araújo me ajudou a perceber que seria importante tomar alguns cuidados. “Precisamos definir uma fronteira entre o ‘normal’ e o patológico na relação das pessoas com o celular e as redes sociais. O normal é passar pouco tempo conectado, o suficiente apenas para trocar algumas informações com seus contatos e preferir vivenciar o restante ao vivo, diretamente com as pessoas. Do outro lado da fronteira, está o patológico, é quando o usuário passa a preferir ficar conectado a viver a vida real, dando preferência a trocar mensagens com seus contatos do que vivenciar algo ao vivo”, comenta. A declaração não representa exatamente o que acontece comigo – eu levo uma vida completamente normal e sei separar o real do virtual –, mas saber da existência de uma patologia séria é um estímulo a prestar mais atenção nas minhas atitudes com relação ao uso da internet. Segundo Araújo, uma boa dica para quem sofre do problema é separar bem os momentos com e sem acessórios conectados à rede. “Nos casos de uso exagerado, procuro sempre orientar a estipular momentos para usar o celular; caso contrário, fica algo sem controle. O importante é criar momentos de qualidade em que o celular fique de lado. Viver mais momentos entre os amigos e a família. Guardar o aparelho quando andar na rua e voltar a perceber tudo à sua volta. Praticar exercícios físicos, andar de bicicleta, nadar, são atividades que movimentam o corpo e deixam suas mãos ocupadas”, avalia o psicólogo, que afirma atender cada vez mais pacientes viciados no uso da internet. A publicitária Michelle Ferreira da Costa não hesita em responder “sim” quando perguntada se considera ter um vício no uso da internet. Ela garante permanecer conectada 24 horas por dia, seja em smartphones, tablets ou computadores. Além de trabalhar em uma área que exige conhecimento em redes sociais e tecnologias, ela afirma ser apaixonada pelo assunto. No entanto, a publicitária se viu influenciada a mudar um pouco as atitudes quando ouviu críticas por passar tanto tempo em frente às telas. “As críticas que recebi me fizeram rever as minhas prioridades. Isso não significa que deixei de usar a internet, apenas consegui organizar melhor as minhas atividades e fazer com que a tecnologia trabalhasse a meu favor.

Além de usá-la no meu trabalho, gosto muito disso e, portanto, uso também na minha vida pessoal, o que explica eu estar 24 horas conectada e talvez umas 18 ou 19 horas acessando a internet e suas ferramentas”, complementa Michelle, ciente de que o vício pode ser perigoso, mas controlável, desde que se tome cuidado. Provavelmente agora, enquanto você lê essa matéria, eu mesmo estarei com o celular ao meu lado, atento caso chegue alguma notificação de e-mail ou mensagem. Mas fique tranquilo, prometo sair para tomar um ar e encontrar com meus amigos de carne e osso assim que possível.

“As críticas que recebi me fizeram rever as minhas prioridades. Isso não significa que deixei de usar a internet, apenas consegui organizar melhor as minhas atividades e fazer com que a tecnologia trabalhasse a meu favor.”

FIQUE ESPERTO Doenças relacionadas ao uso descontrolado da internet e de smartphones, embora sejam relativamente recentes, existem e precisam ser tratadas. Pesquisadores, inclusive, batizaram o vício no uso de celulares de iDisorder (uma “homenagem” ao iPhone). No livro “iDisorder: Entendendo Nossa Obsessão com a Tecnologia”, o psicólogo norte-americano Larry D. Rosen considera real e preocupante a possibilidade de os acessórios causarem doenças mentais, especialmente em pessoas propensas ao narcisismo, à depressão ou a qualquer transtorno obsessivo compulsivo. O sonambulismo digital (em inglês, popularmente chamado de sleep texting) também vem ocupando espaço nas discussões de psiquiatras e terapeutas e faz com que as pessoas enviem mensagens ou até realizem compras pelo celular no meio da noite, enquanto dormem. Em caso de ocorrência de algum episódio parecido, é importante ficar atento e procurar ajuda médica. No livro “Sleeping With Your Smartphone” (“Dormindo com o Seu Celular”), Leslie Perrow, professor na Escola de Negócios de Harvard, discute diferentes formas de deixar os aparelhos de lado na hora do sono para levar uma vida mais saudável e produtiva no trabalho.

[Michelle Ferreira da Costa, publicitária]

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drops Visita ao pequeno Príncipe

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POR DENTRO DO GOOGLE

Depois de passar por etapas classificatórias, apresentações em vídeo e uma entrevista, o aluno de Marketing da PUCPR Marcelo Pinheiro foi um dos selecionados no Programa Estudantil Embaixador do Google – Google Student Ambassador Program (GSA) – e assumiu a missão de ser um dos embaixadores da empresa no Brasil. Depois de escolhido, o estudante já passou por um treinamento no México, junto com outros 90 embaixadores da América Latina. Na função, ele terá o papel de ser o canal entre o Google e a PUCPR.

Acadêmicos do curso de Psicologia da Escola de Saúde e Biociências do Câmpus de Toledo da PUCPR realizaram visita técnica ao Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba. O objetivo era o aprofundamento da disciplina eletiva “Psicologia na Saúde”. Durante a visita, a turma pôde conhecer as instalações do hospital, acompanhada pelos psicólogos da instituição e profissionais da área que realizam residência.

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VISITA ESPECIAL

Um dos campos de atuação do profissional farmacêutico é a indústria de cosméticos. Por isso, os alunos do curso de Farmácia do Câmpus Toledo da PUCPR aproveitaram muito bem a visita à fábrica da Natura Cosméticos, na cidade de Cajamar, em São Paulo. O passeio pela empresa foi liderado pelo professor Tiago Rafael Sausen, que leciona a disciplina de Tecnologia de Cosméticos e mostrou em detalhes a estrutura e o funcionamento da fábrica.

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FARMACÊUTICOS EM CENA

Se é verdadeira a máxima de que a vida imita a arte, os alunos do curso de Farmácia da PUCPR estão bem preparados. Em parceria com o curso de Teatro, os estudantes produziram uma peça em que atendiam pacientes e usuários de medicamentos que não seguiam as prescrições médicas corretamente, interpretados pelos atores Luann Vianna e Cleverton de Freitas. Segundo Cynthia Bordin, coordenadora do curso de Farmácia, a atividade tem como objetivo introduzir novas práticas pedagógicas, com foco na formação dos profissionais.

NA FINALÍSSIMA

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1ª turma de Animação Digital com dupla titulação

A PUCPR acaba de formar a primeira turma de especialização em Animação Digital com dupla titulação. A conclusão do curso também dá direito ao título da British Columbia Institute of Technology, do Canadá. O programa de aprendizado, intensivo e inovador, foca no desenvolvimento da criatividade em computador e possibilita aos alunos um aperfeiçoamento nas áreas de animação 2D e 3D, modelagem, texturização, iluminação, efeitos visuais, jogos digitais, computação gráfica 3D e áudio para animação.

Aluna do quinto período do curso de Jornalismo da PUCPR, Roberta Costa Gonçalves de Almeida é uma das seis finalistas do 2° Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental, premiação nacional realizada em parceria com o jornal O Estado de São Paulo. A estudante chegou à final graças a uma reportagem com a temática “É possível crescer sem destruir o meio ambiente?”. Pela classificação, Roberta ganhou uma viagem e vai poder visitar áreas florestais do Paraná. Caso vença o concurso, ela irá para Austin, nos Estados Unidos, onde participará de um programa personalizado no Centro Knight para Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas.

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vem aí

Programe-se CONVITE

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Fique mais próximo da Vida Universitária! Envie-nos suas dúvidas sobre o mundo acadêmico, sugestões de pautas, informações sobre eventos e críticas. Assim, você estará sempre conectado com a equipe da revista e vai ter acesso aos conteúdos de seu maior interesse. Participe! conteudo@grupomarista.org.br vidauniversitaria.pucpr.br

SALÃO_DO_ESTUDANTE O Salão do Estudante é a maior feira de intercâmbio da América Latina. Entre mais de 200 instituições de 22 países, o evento traz uma grande variedade de cursos no exterior e as melhores empresas de intercâmbio do Brasil. A feira traz também informações sobre passagens aéreas, vistos, tipos de hospedagem, seguro saúde e carteira de estudante, além de seminários e palestras para você esclarecer tudo sobre como fazer intercâmbio. salaodoestudante.com.br

CONGRESSO_MARISTA Congresso Marista para as Infâncias A Rede Marista de Solidariedade realiza, nos dias 26 e 27 de setembro, a quarta edição do Congresso Marista para as Infâncias de Curitiba. O evento é voltado para educadores, pesquisadores, gestores, agentes da rede de proteção à criança e estudantes de instituições públicas e privadas. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo site. bit.ly/1o9Kuyl

25_a_28_DE_agosto Com o tema “Percursos e Desafios na História da Educação Luso-Brasileira”, o evento congregará profissionais do campo da história da educação, representados por pesquisadores e professores desses dois países que, no decurso dos anos, têm fortalecido laços acadêmico-científicos por meio de diferentes trocas que substanciam profícuas parcerias pelo aprofundamento de questões comuns de investigação que requerem mobilidades interinstitucionais coletivas e individuais. anweb.com.br/evento

SALÃO_DO_ESTUDANTE GIBICON Por quatro dias, Curitiba se tornará a capital das histórias em quadrinhos. Entre os dias 4 e 7 de setembro acontece a Gibicon – Convenção Internacional de Quadrinhos, um evento internacional com atividades gratuitas: minicursos, oficinas, palestras, debates, lançamentos de livros e exposições com a presença de artistas gráficos e quadrinistas do Brasil e de outros países. A Gibicon prestigia os artistas locais e a força de sua produção no cenário nacional ao mesmo tempo em que apresenta quadrinistas do mundo todo. gibicon.com.br

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Curitiba recebe, no dia 30 de setembro, mais uma etapa do Fórum de Marketing Digital 2014. O Fórum de Marketing Digital é o maior evento itinerante do setor na América Latina e irá passar por 14 capitais em 2014, reunindo profissionais do mercado e promovendo debates sobre temas da área. digitalks.com.br/


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especial

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grande conselheiro

A figura do grão-chanceler, o representante local mais próximo do papa, concentra importantes decisões de uma universidade católica e zela pela sua integridade Por Michele Bravos

© Foto: Gilberto do Rosário

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Em eventos oficiais da Universidade, formaturas e também no expediente desta revista, menciona-se o cargo do grãochanceler. Mas, afinal, o que esse papel representa? Atualmente, a função é exercida por Dom Rafael Biernaski, que assumiu as responsabilidades após o falecimento de Dom Moacyr Vitti. Essa figura é responsável por dar posse ao reitor, participar de cerimônias oficiais religiosas, de comemorações, de aberturas de grandes eventos, de outorga de títulos, como Honoris Causa, e também presidir a celebração eucarística em datas importantes da Universidade. Para Dom Rafael, seu papel não é político, mas de serviço à comunidade acadêmica. “O grão-chanceler não é um articulador de interesses de grupos, absolutamente. Na imagem dele está também a imagem do bispo, que é pastor e que deve zelar pelo bem de suas ovelhas. Com isso, quero dizer que não se trata de uma função de prestígio, mas de serviço à comunidade acadêmica e a todo povo de Deus ligado à grande família universitária”.

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No dia a dia de um grão-chanceler, uma agenda de muitas reuniões. Entre elas, com o reitor da PUCPR, Waldemiro Gremski, e com o presidente do Grupo Marista, Ir. Délcio Balestrin. Segundo o reitor, o grão-chanceler deve ser consultado e informado sobre grandes decisões. “Ele pode apoiar a Universidade no cumprimento de sua missão, dar o aval da Igreja às ações da Universidade e ser consultado para aconselhamento de matérias pertinentes. Ele é uma presença institucional e de zelo espiritual. Em casos extremos, de alguma ingerência indevida, ilegal ou ilícita que seja atentada ou impetrada contra a Universidade, o grão-chanceler pode, se julgar necessário, ser um porta-voz em defesa da integridade e da autonomia da Universidade”, explica Gremski. Dom Rafael reforça esse papel de conselheiro. “O grão-chanceler é aquele que exorta e colabora para que os órgãos competentes tomem decisões acertadas, sempre de acordo com a moral católica. Cito, para estarmos unidos ao Santo Padre, o Papa Francisco, que, no início deste ano, em uma audiência, lembrou às universidades católicas da necessidade de preservar e defender sua identidade, dando um testemunho inequívoco e indispensável para defender e sustentar a mensagem cristã e os ensinamentos da Igreja”.

“[...] não se trata de uma função de prestígio, mas de serviço à comunidade acadêmica e a todo povo de Deus ligado à grande família universitária.” [dom rafael Biernaski, Grão-Chanceler ]

GrAndEs dECisõEs

Entenda o papel de um Grão-Chanceler em uma decisão importante, como a escolha de um reitor.

no caso da PuCPr, que está ligada aos irmãos Maristas, o Grupo Marista envia uma lista com indicação de três nomes para reitor, podendo deixar explícita a sua primeira escolha.

uma vez definido o nome do reitor e sob o consentimento do grão-chanceler, ele encaminha a informação para a nunciatura Apostólica, em Brasília.

A nunciatura Apostólica informa o pedido ao Vaticano.

depois que o Vaticano concordar com a decisão, o grão-chanceler dá posse ao novo reitor e o Vaticano lhe envia o seu diploma.

na Europa da idade Média, o título de grão-chanceler era concedido ao alto-escalão de funcionários da coroa. normalmente, eram os responsáveis por selar os documentos importantes do rei e da rainha. O posto de um grão-chanceler era visto, por vezes, com a mesma importância que o de um primeiro-ministro atualmente. É ainda nessa época que esse título aparece também para se referir ao presidente de uma universidade.

hiErArQuiA O grão-chanceler é o representante local mais próximo do papa. l Papa l Cardeal l Arcebispo: ele é o representante local de maior importância para a Igreja Católica. É essa figura que ocupa a função do grão-chanceler l Bispo l Padre l diácono l Leigo


A Feira de Cursos e Profissões da PUCPR.

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Vida Universitária | 229  
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