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Projeto Experimental em JORNALISMO GCO 09196

Universidade Federal Fluminense Centro de Estudos Gerais Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS) Curso de Comunicação Social

Rádio Búzios FM

Projeto Experimental apresentado por Victor Ribeiro da Glória Lopes 202.30.120-3 como requisito obrigatório para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social – habilitação Jornalismo – sob a orientação da professora Ana Baumworcel

IACS/UFF Niterói Julho/2008


Resumo Este trabalho conta a história da Rádio Búzios FM, na perspectiva de contribuir para a reflexão sobre a viabilidade de seu modelo enquanto rádio alternativa. Para recuperar essa trajetória foram gravados depoimentos de dois ex-funcionários e de uma ex-ouvinte, atualmente, experiente locutora de rádio. A partir da coleta de arquivos de áudio, de dados documentais e de depoimentos, elaborou-se um programa de rádio, no padrão de rádio jovem em FM. 1.Rádio Búzios FM. 2.Rádio jovem. 3.Rádio alternativa.


Dedicatória Dedico esta pesquisa a todos aqueles que ajudaram a chegar até aqui: meu pai, Lizardo, e minha mãe, Otília, por tudo mesmo; ao meu irmão, Wagner, pela compreensão e paciência; à minha orientadora, Ana Baum, peça fundamental neste processo, pois foi ela quem me apresentou profissionalmente ao rádio e me ensinou a trabalhar com este veículo (ela é a culpada!); aos meus ex-professores, especialmente Adilson Cabral, Afonso Henriques, Alceste Pinheiro, Alexandre Farbiarz, Antonio Serra, Dante Gastaldoni, João Batista de Abreu e Sylvia Moretzsohn, que me ensinaram a ser um jornalista capaz de atuar em diferentes veículos e editorias; aos entrevistados neste trabalho, Amaury Santos, Mário Azevedo e Selma Boiron, pela atenção; aos meus ex-chefes e hoje amigos José Roberto Mahr e Selma Boiron, que sempre apostaram no meu talento em lidar com rádio e me ofereceram oportunidades de exercê-lo; ao meu outro ex-chefe e também amigo Walen Jr., que, de uma forma ou de outra, também apostava em mim mais como radialista do que como redator da sua agência de design; aos meus amigos e a quem acreditou em mim. Muito obrigado a todos.


Sumário Resumo ........................................................................................................................... 2 Dedicatória ...................................................................................................................... 3 Introdução ....................................................................................................................... 5 Capítulo 1 – O contexto das rádios jovens no Rio de Janeiro ........................................ 7 Capítulo 2 – No ar: Rádio Búzios FM ............................................................................ 9 Capítulo 3 – O fim da Búzios FM ................................................................................. 11 Capítulo 4 – O futuro está na internet? .......................................................................... 12 Capítulo 5 – Além da rádio: a questão ambiental e a TV Búzios .................................. 14 Capítulo 6 – Conclusão .................................................................................................. 15 Referências bibliográficas ............................................................................................. 16 Anexo 1 – Perfis das fontes entrevistadas ..................................................................... 17 Anexo 2 – Roteiro do programa .................................................................................... 18 Anexo 3 – Lista de músicas usadas no programa .......................................................... 25


Introdução Este trabalho iniciou-se de uma forma, trilhou caminhos imprevisíveis e terminou de modo inesperado, pelo menos pra mim. Tudo começou em 2005 – ainda bem longe do momento de defender esta monografia –, com a idéia de contar a história da Rádio Fluminense FM. Mas, no final de 2006 eu decidi não falar mais sobre este assunto. Comecei, então, a procurar um outro tema, mas não conseguia encontrá-lo. Sabia que acabaria fazendo sobre rádio, mas qual rádio? E qual enfoque? Eu me questionei, então: por quê falar sobre rádio? Simples: porque nestes meus quatro anos entre estágios, empregos e trabalhos autônomos, durante mais de três anos eu atuei em rádio. É a minha praia. É o veículo que eu mais domino. Bom, mas ainda não chegamos à Rádio Búzios. Para explicar isso, vou recorrer aos meus pais. Eu passei quase dois anos na Fluminense FM, recebendo muito menos que meus amigos em outros estágios, mas só saí de lá porque a rádio acabou. Fui para a Rede Venenosa FM de rádios rock e, apesar de me dedicar demais, fui demitido sem uma boa razão. Nos dois casos, levei uma bronca da minha mãe, que acha rádio um meio extremamente ingrato, que eu tenho de “esquecer esse negócio” e procurar algum lugar que seja digno e me valorize mais do que me chateie. Meu pai, mais reservado, não fala muito, mas concorda sempre com a minha mãe. Fato é que eu não comecei a ouvir rádio quatro anos atrás. Eu sempre ouvi muito rádio. Minha casa sempre foi muito musical. Fui uma criança que ouviu muito mais rádio do que viu televisão. Isso porque meus pais me colocavam para ouvir rádio ou os discos de vinil, que só há pouco tempo eu comecei a entender de verdade. Foram meus pais que me apresentaram às rádios Cidade, Transamérica, 98, Globo (AM e FM) e à Rádio Búzios. Eles criaram o “monstro”. Então, eles gostem ou não, eu estou me formando em jornalismo, mas já sou radialista há muito tempo e jamais deixarei de sê-lo. Na universidade, tive oportunidade de participar, como aluno, da atividade de extensão “Universidade no Ar” e depois, em 2006, voltei a ele como bolsista de extensão, quando ficamos em segundo lugar na nossa categoria durante a Semana Acadêmica. Um ano depois, eu voltava à Semana Acadêmica na condição de monitor das disciplinas de rádio, para apresentar o projeto “Rádio e Juventude”, desenvolvido pelos alunos da disciplina Documentário de Rádio, que nos rendeu o primeiro lugar na categoria.


Este trabalho fala sobre uma paixão, sem a pretensão de ser uma pesquisa definitiva, mas baseando-se na minha experiência de rádio e nas experiências pessoais de três personagens ligados à Búzios FM. Esta emissora ficou menos de uma década no ar, deixou um sem-número de ouvintes órfãos e sobre a qual praticamente não há registro histórico. O objetivo é exatamente localizar a Rádio Búzios no tempo, contextualizá-la e mostrar que aquele momento foi único. Vamos voltar mais de vinte anos atrás, mas em alto astral, sem aquela nostalgia chata.


Capítulo 1 – O contexto das rádios jovens no Rio de Janeiro A transmissão das emissoras de rádio no Brasil começou, de forma bastante irregular e restrita, em 1922, como parte das comemorações do centenário da Independência. Somente no ano seguinte seria inaugurada oficialmente a primeira emissora, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (atualmente Rádio MEC). Durante as primeiras décadas, as transmissões eram feitas somente no padrão amplitude modulada (AM), que sofria muita interferência das condições atmosféricas. Já a programação, mesclava músicas, notícias e programas de auditório, sendo incluída, mais tarde, a dramaturgia. Em 1933, estreou nos Estados Unidos a primeira rádio a emitir suas ondas em freqüência modulada (FM), que sofre muito menos interferência da atmosfera, o que era ideal para a execução de uma grande quantidade de músicas em seqüência, mas possui raio de alcance menor. Por aqui, só em 1955 a Rádio Imprensa inaugurou a transmissão em FM, mas ainda não havia receptores domésticos. Sem patrocínio e sem locução, a emissora era fundamentada em música ambiente. Os receptores produzidos eram locados aos clientes, que normalmente instalavam as caixas de som em salas de espera e elevadores, o que fez o rádio FM ser conhecido como “rádio de elevador”. A Rádio Imprensa teve exclusividade de mercado até 1976, quando começaram a surgir várias outras rádios FM. Destas novas emissoras, a Rádio Cidade, que entrou no ar no dia 1º de maio de 1977, foi a mais importante, como descreve Luiz Artur Ferraretto: A história da freqüência modulada no país muda de rumo em 1977, quando entra no ar a Cidade FM, do Rio de Janeiro, ligada ao grupo Jornal do Brasil, um dos principais diários cariocas. (...) Os 102,9 MHz passaram a ter como alvo o jovem em uma programação inspirada nos modelos norte-americanos. (Ferraretto, 2007, p. 158)

A influência do modelo estadunidense se fazia notar na programação jovem, com sucessos contemporâneos, na plástica dinâmica, na informalidade da locução e até mesmo no nome da rádio, que “traduzia” o nome de uma das emissoras que a inspirou, a Radio City of America. Esta fórmula deu certo. Ainda de acordo com Ferraretto, “em pouco tempo, a Cidade obtém a liderança na audiência. Emissoras de todo o país copiam o seu formato de programação” (Ferraretto, 2007, p.158). Uma outra mudança significativa seria causada em março de 1982, quando entrou no ar a Rádio Fluminense FM: “Surgia uma alternativa ao estilo mais comercial


da Cidade e de suas seguidoras. Na realidade, começava também a se firmar o conceito de segmentação” (Ferraretto, 2007, p. 159). As duas emissoras polarizavam a audiência jovem no rádio carioca: de um lado, a Rádio Cidade, extremamente comercial; de outro, a Fluminense FM, que ganhou o apelido de “Maldita”, exatamente por se dedicar à cena alternativa e tocar músicas que nenhuma outra rádio tocava. A Rádio Fluminense ficou famosa por sua programação segmentada no rock, mas isso só ocorreu na segunda metade da década de 1980. Durante os quatro primeiros anos, a rádio tocava tanto rock quanto blues, jazz e MPB. Já a Rádio Cidade, que tinha programação originalmente voltada para a música pop e dance, no final da década de 1980 já incluía na sua programação alguns sucessos de rock e, seguindo a moda, também, executava axé music e lambada. Enquanto na Fluminense a locução procurava ser sóbria e deixar a música sempre em destaque, os locutores da Cidade já não estavam mais agradando: a informalidade que marcou o início da rádio estava se excedendo. O radialista Amaury Santos, atual gestor de rede da Rádio Nacional, atua em rádio desde 1974 e estava nas equipes que criaram as rádios Fluminense FM e Búzios FM. Ele analisa e classifica de “palhaça” a forma como a locução da Rádio Cidade era feita na segunda metade dos anos 80. Neste contexto, em junho de 1987, um grupo de empresários liderado por Cleófas Uchoa recebeu uma outorga para explorar um canal de radiodifusão no município de Cabo Frio (Armação dos Búzios foi distrito de Cabo Frio até 1995), na Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro. No meio do segundo semestre daquele ano começaram os testes e a rádio operou em caráter experimental até o dia 18 de dezembro, uma sexta-feira, quando entrou no ar oficialmente.


Capítulo 2 – No ar: Rádio Búzios FM A Búzios FM estreou com a direção de Amaury Santos, que foi indicado por André Uchoa, sobrinho de Cleófas. Na locução, Ájax Camacho, Edson Paes (folguista), Mário Azevedo, Maurício Santos e Tony Lessa. Maurício acumulava os cargos de produtor de comerciais e redator, enquanto Ájax também era coordenador de locutores e programador musical da rádio. O diretor Amaury Santos atuava em todas as áreas, exceto na locução. O perfil da rádio pode ser definido como jovem alternativo, uma vez que a programação não seguia a lógica comercial da chamada playlist e a linguagem da rádio era destinada ao jovem. As músicas incluídas (ver Anexo 3) são um exemplo da diversificação desta programação, que trazia rock, blues, soul music, jazz e MPB. Outra característica marcante desde o início da Búzios FM é a grande identificação local. Para a radialista Selma Boiron, que começou a carreira inaugurando a Fluminense FM, em 1982, e, quando conheceu a Búzios FM já havia passado pelas rádios Jovem Pan, Transamérica e 89 FM, todas em São Paulo, Rádio Cultura, em Santos, Manchete FM, no Rio de Janeiro, e Rádio Cidade, em Lisboa, o regionalismo era o grande trunfo da Búzios FM: “Não tinha rádio comercial que fizesse concorrência à Rádio Búzios, porque ela tinha muito o espírito do lugar”, justifica. A rádio funcionava numa casa, à beira da Estrada de Geribá, passagem obrigatória para quem saía do Rio para passar o fim de semana em Armação dos Búzios. Tanto os ouvintes, quanto os artistas se sentiam à vontade para descer do carro e conhecer a emissora. Ao analisar os formatos de programações radiofônicas, André Barbosa Filho comenta a importância da identificação da rádio com a comunidade em que está inserida: “O regionalismo é uma marca fundamental do rádio, pois oferece visibilidade às informações locais. Esse princípio dinamiza as relações entre rádio e comunidade” (Barbosa Filho, 2003, p. 46). O apelo regional era favorecido pela topografia da Região dos Lagos, que tem muitos morros, o que até hoje cria regiões de “sombra”, onde os sinais das rádios da Região Metropolitana não conseguem chegar. Além disso, em grande parte da área alcançada pelas rádios da capital do estado, o sinal chega chiando. Em geral, os moradores da Região dos Lagos acabavam, normalmente, não tendo opção e ouviam as rádios locais.


Quando começou, a Búzios FM tinha programas mais voltados aos estilos musicais, como “O Melhor do Jazz”. Havia ainda programas com novidades do rock e um outro dedicado exclusivamente aos Beatles. Já na década de 1990, a rádio abriu espaço para programas como “Chez Michouz no Ar”, programa de variedades patrocinado pela creperia instalada na badalada Rua das Pedras (para onde a rádio também se mudou nos anos 90; também lá os estúdios funcionavam numa casa) e “Nas Ondas da Búzios”, que trazia boletins sobre as condições do mar e a previsão do tempo. Praticamente não há registros dos programas. O pouco que sobrou foi o que Mário Azevedo conseguiu gravar e conservar em fitas cassetes. Mesmo assim, só há gravações de algumas falas e vinhetas do programa “O Melhor do Blues”. Nem mesmo os nomes dos outros programas os ex-funcionários conseguiram lembrar. A idéia de fazer os programas patrocinados, no início dos anos 90, foi, talvez, o grande plano para viabilizar comercialmente a rádio, mas acabou não dando tão certo quanto os donos da Búzios FM esperavam. Para Mário Azevedo, a programação alternativa era pouco popular e isso inviabilizava a rádio comercialmente: “Ao mesmo tempo que ela era uma rádio muito boa, comercialmente não era tão viável, porque tinham outras rádios que eram mais populares e que conseguiam ter mais anúncios porque tinham a audiência maior. Acho que a Búzios devia ter popularizado um pouquinho mais. É complicado uma rádio muito alternativa, porque as vezes não é tão comercial e não consegue se manter”, argumenta. Foi o que aconteceu com a Rádio Búzios.


Capítulo 3 – O fim da Búzios FM Em 1996, a Rádio Búzios foi arrendada para a Rede Transamérica Sat e ocorreu, então, um fato inusitado: a emissora de Búzios repetia o sinal de São Paulo, nos 102,5 MHz, com apenas os intervalos comerciais gerados em Cabo Frio (sede da outorga da rádio), enquanto a Transamérica Rio já alcançava boa parte da Região dos Lagos pelos 101,3 MHz. Ou seja, naquela região, duas emissoras numa mesma rede de rádio competiam entre si. Como a Transamérica Rio tinha muita programação local e criava mais programas do que a sede, em São Paulo, acabou sendo a escolhida pelo público. Bom lembrar que o programa que atualmente é o carro-chefe da Rede Transamérica, “Transalouca”, é feito em São Paulo hoje e transmitido para todas as afiliadas. Mas este programa surgiu no Rio de Janeiro, antes mesmo do fim da Búzios FM, e só era transmitido no âmbito local. Normalmente, os contratos de arrendamento vigoram por um período que varia entre três e cinco anos. Neste caso da Transamérica, no entanto, o contrato durou cerca de um ano. Em 1997, a freqüência foi vendida. A Transamérica Sat continuou no ar até 1998, quando a Rádio Tropical ocupou a freqüência por pouco tempo e, no mesmo ano, deu lugar a uma emissora da Rede Aleluia, de rádios evangélicas, que está no ar até hoje.


Capítulo 4 – O futuro está na internet? Assim como existem ouvintes e profissionais que sonham com a volta de rádios como a Cidade e a Fluminense FM, muitos sonham que, um dia, a Rádio Búzios volte ao ar. Tanto que no dia 19 de dezembro de 2006, estreou na internet a Búzios FM Online. Trata-se, claro, de uma webradio, inicialmente bancada pela Embratel e hospedada no portal da telefônica. Esta emissora possui locução ao vivo durante o horário comercial, nos dias de semana, com uma programação de variedades, que inclui programas especiais, além de entrevistas e debates sobre a cidade. Para garantir a divulgação e uma audiência mínima, a Embratel criou, no Centro de Búzios, um cyber café, em que os visitantes podem acessar, gratuitamente, a Búzios FM Online. A programação segue o modelo “jovem contemporâneo”, criado pela Fluminense FM em 2003, que mistura o repertório pop atual, jovem, com flashbacks de sucesso; ou seja, transita entre o perfil jovem e o perfil adulto contemporâneo. Na Búzios FM Online não há espaço para artistas independentes ou alternativos, nem oportunidades de experimentações. A programação é bastante pop. Com isso, nem os ouvintes, nem os profissionais da Rádio Búzios consideram esta nova versão a retomada daquele trabalho desenvolvido entre 1987 e 2006. Um dos ex-funcionários, Mário Azevedo, decidiu, então, criar uma outra webradio: Nova Búzios FM. A emissora ainda não está pronta, mas Mário afirma que ela entra no ar ainda no segundo semestre de 2008. De acordo com ele, esta rádio vai resgatar programas, vinhetas e músicas da rádio original, além de contar com alguns profissionais que trabalharam na Búzios FM. Eis um grande desafio: resgatar material, postura e estilo de até 20 anos atrás e continuar uma emissora jovem, uma vez que 33,9% dos usuários de internet estão na faixa etária de 15 a 17 anos, seguidos pelos 24,4% de internautas com idades entre 10 e 14 anos (IBGE, 2005). Ou seja, o público da Búzios FM, que era jovem no período em que a rádio ficou no ar, hoje tem cerca de 40 anos de idade, fora, portanto, dessa grande massa que usa a internet com mais freqüência. Além disso, estamos desconsiderando as mudanças nos hábitos de consumo de música: na época ainda estávamos na transição dos vinis e cassetes para o CD, enquanto hoje ouve-se centenas de arquivos de áudio em pequenos tocadores portáteis.


A conclusão é óbvia: se esta Nova Búzios FM, liderada por Mário Azevedo, se prender ao passado, corre o risco de ter uma audiência ínfima. Quanto à volta da emissora ao dial, depende da concessão de um novo canal ou da compra ou arrendamento de um já existente. Até agora, nenhum grupo empresarial demonstrou interesse em fazer isso. Já o canal 102,5 MHz em FM da Região dos Lagos, transmite o sinal da Rede Aleluia, da Igreja Universal do Reino de Deus, mas não faz parte das 40 emissoras de rádio desta igreja espalhadas pelo país, citadas pela jornalista Elvira Lobato na reportagem “Universal chega aos 30 anos com império empresarial”, publicada pela Folha de São Paulo, em dezembro de 2007. Isso porque a freqüência não pertence à igreja, mas sim a uma empresa cujo controlador (identificado apenas como B.C.) é um prestador de serviços para o Grupo Salgado de Oliveira, primo dos três irmãos que, por sua vez, são os acionistas majoritários do grupo empresarial, Jefferson, Wallace e Wellington Salgado de Oliveira. De acordo com um levantamento do portal Transparência Brasil, “Salgado doou, por meio de suas empresas e de dois irmãos, um total de R$ 1,377 milhão à campanha de seu titular ao Senado em 2002. Essa quantia representa mais da metade arrecadada à época pela campanha de Costa, nomeado ministro das Comunicações em 2005”. Em setembro de 2006, o Grupo Salgado de Oliveira inaugurou uma rede de emissoras comerciais de rádios rock, com estúdio no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, mas com sede legal em Rio Bonito. A “cabeça de rede”, para o Ministério das Comunicações, é classificada como “rádio educativa”. Desde o lançamento até meados de 2007, o portal da emissora, www.venenosafm.com.br, anunciava que, além de Rio Bonito, Paraty, Uberlândia e Goiânia, seriam incorporadas à rede uma repetidora em Bom Jesus de Itabapoana, no Norte do Estado, e outra, em Búzios. Os anúncios foram retirados do ar e, de acordo com o próprio B.C., o arrendamento da freqüência rende R$ 60 mil por mês ao Grupo Salgado de Oliveira, que controla ainda três emissoras de rádio no Nordeste, a retransmissora do SBT em Uberlândia e a retransmissora da TV Bandeirantes em Goiânia, mas tem como principal negócio a Universidade Salgado de Oliveira (Universo), com campi em dez municípios.


Capítulo 5 – Além da rádio: a questão ambiental e a TV Búzios Talvez o aspecto mais importante da história da Rádio Búzios que não tenha sido abordado ainda seja o engajamento institucional em questões ambientais. De acordo com Amaury Santos e Mário Azevedo, a rádio já nasceu sob esta bandeira verde, porque os sócios queriam preservar o balneário como um paraíso. A opção por não incluir este assunto no trabalho em áudio se deve ao fato de nenhuma das fontes lembrar de detalhes acerca do assunto e não haver material de áudio disponível. Sabe-se que regularmente a emissora veiculava campanhas e realizava shows com a intenção de conscientizar a população sobre a importância da conservação de pontos turísticos como a Lagoa de Araruama, que tem às suas margens cinco municípios: Araruama, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia, onde ocorreu um show da cantora Elba Ramalho, no início dos anos 1990. Ou, então, a campanha contra o lançamento de esgoto na Praia do Forte, em Cabo Frio, que apresentou a então desconhecida Cássia Eller. Ainda na mesma época, Gilberto Gil e o projeto Tamar, de proteção às tartarugas marinhas, realizaram um outro show na Restinga de Massambaba, que separa a Lagoa de Araruama do Oceano Atlântico. A população se mostrou tão receptiva às campanhas ecológicas, que André Uchoa reuniu os amigos que gostavam de trabalhar com vídeos e, também no início dos anos 90, fundou a TV Búzios (ou EcoTV), repetidora do sinal da TV Educativa do Rio de Janeiro, com um telejornal diário e alguns outros programas locais, sempre com foco na conservação do meio-ambiente. A equipe inicial da TV Búzios contava com muitos funcionários da Rádio Búzios e, desde o início, os dois veículos compartilhavam o material noticioso, o que hoje conhecemos por “sinergia”. Muitas vezes eram os próprios locutores da rádio que apresentavam os programas locais, a TV exibia os shows realizados pela rádio e, eventualmente, a locação dos programas era a própria sede da Búzios FM. Ou seja, o trabalho da rádio foi fundamental para que a TV conseguisse se consolidar.


Capítulo 6 – Conclusão A primeira conclusão a que chegamos ao final deste trabalho é que, assim como a Búzios FM, são inúmeros os casos de veículos de comunicação locais que se tornaram importantes, mas praticamente não possuem registros de sua existência. Felizmente a tecnologia digital parece, enfim, ser uma solução para esta dificuldade de documentar momentos históricos. A segunda conclusão, óbvia, é que a Rádio Búzios teve sua importância histórica por ter uma equipe que soube aproveitar o momento e as qualidades locais da região onde a emissora funcionava. Por isso, não seria exagero pessimista considerar que, hoje, esta mesma fórmula fosse ineficiente, porque as demandas da audiência são muito diferentes daquela de duas décadas atrás. Seguindo por este caminho, concluímos ainda que este processo de “ressuscitar” emissoras que fizeram sucesso no passado, como “a Fluminense FM de 82” ou “a Rádio Cidade de 77” é impossível e pode se revelar uma tática, no mínimo, frustrante, por não atender às expectativas dos antigos ouvintes e se manter distante do atual público de rádio. Bom lembrar que o ser humano é romântico demais e costuma guardar as memórias boas e esquecer as ruins. Tanto é que ninguém lembra, por exemplo, como a produção da Búzios FM era artesanal. Verificamos isso nas vinhetas e nos depoimentos das fontes, que confirmam esse jeito quase amador de fazer rádio. Apesar de não acreditarmos na ressurreição da Rádio Búzios, lembramos que é cada vez maior a segmentação dos veículos de comunicação e, neste aspecto, talvez seja menos difícil uma rádio com o perfil alternativo da Búzios FM consolidar uma audiência fiel e se tornar comercialmente viável. Desde que conheça bem o público a que se destina, ou seja, se pretende atingir os jovens do passado, hoje já adultos, ou se o público alvo são os jovens de hoje? Sem contar que as questões ambientais e locais ganham, cada vez mais, importância nos meios de comunicação, uma vez que temos a popularização de temas como aquecimento global e desenvolvimento sustentável, nos veículos que procuram expor sua agenda de forma interativa, incentivando a participação do público. Finalmente, é possível concluir que aquela Rádio Búzios FM que existiu entre 1987 e 1996 ficou antiga, mas o modelo que ela apresentava permanece contemporâneo e, talvez, seja mais válido desenvolver a idéia de uma nova rádio do que tentar reproduzir exatamente o que foi feito há duas décadas.


Referências bibliográficas ANGÉLICO, Fabiano. “O Senado e seus suplentes”, In: Transparência Brasil, abril de 2008. Disponível em http://www.excelencias.org.br/suplentes.pdf. Acesso em 28 de junho de 2008. BARBOSA FILHO, André. Gêneros radiofônicos: os formatos e os programas em áudio. São Paulo: Paulinas, 2003. FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio – o veículo, a história e a técnica. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 2001. IBGE. “Acesso à internet e posse de telefone móvel celular para uso pessoal”, In: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 2005. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoainternet/default.shtm. Acesso em 3 de julho de 2008. LOBATO, Elvira. “Universal chega aos 30 anos com império empresarial”, In: Folha de

São

Paulo,

15

de

dezembro

de

2007.

Disponível

em

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u373561.shtml. Acesso em 1º de julho de 2008.


Anexo 1 – Perfis das fontes entrevistadas Amaury Santos: começou a trabalhar em rádio em 1974 e, em 1º de março de 1982, fundou a Rádio Fluminense FM junto com Luiz Antonio Mello e outros radialistas. Amaury também foi gerente da Rede Manchete FM e foi o primeiro diretor geral da Rádio Búzios FM. Atualmente Amaury Santos é o gestor da rede Rádio Nacional, da Empresa Brasil de Comunicação. Mário Azevedo: começou a trabalhar em rádio em 1986, na Rádio Serramar, passou pela Bandeirantes AM e pela Rádio Sucesso, de Cabo Frio, até ser um dos locutores da estréia da Rádio Búzios FM. Atualmente Mário Azevedo coordena a ARWTV, uma escola de locução, dublagem e telejornalismo, no Rio de Janeiro. Selma Boiron: ouvinte da Búzios FM, estreou como a primeira locutora a entrar no ar na Rádio Fluminense FM, em 1982. Depois trabalhou nas rádios Manchete e Globo FM, no Rio de Janeiro; também atuou em São Paulo, nas rádios Jovem Pan, Transamérica e 89 FM, onde também foi a voz que marcou a estréia da emissora; Rádio Cultura, em Santos; Rádio Stereovalle, em São José dos Campos, e Rádio Cidade, em Lisboa; de 2006 a 2008 dirigiu o departamento artístico da Rede Venenosa FM e atualmente é locutora da Rádio Paradiso FM.


Anexo 2 – Roteiro do programa Vai música 1 e cai para BG LOC

(Joy Division – Transmission) No ano de mil novecentos e oitenta e sete, as emissoras de rádio musical do Rio de Janeiro passavam por mudanças. // A Maldita Fluminense FM se radicalizava no rock. // A Rádio Cidade completava dez anos no ar, mirando no modelo da Rede Transamérica, com a descontração dando lugar ao escracho. // A juventude ainda esperava continuar ouvindo rádios com atitude. // Os profissionais, apesar de testarem muitas fórmulas, ainda não haviam encontrado a rádio perfeita. // A saída, talvez, fosse o interior do estado, onde o mercado não estava tão saturado e a qualidade de vida era melhor. // Não havia a pressão das pesquisas de audiência e o espaço para experiências ainda estava aberto. /// Neste contexto, o já badalado balneário de Armação dos Búzios, recebia estrangeiros, artistas e uma grande quantidade de jovens da elite carioca e viu surgir, no finalzinho daquele ano, uma rádio local. // O processo da criação é lembrado pelo primeiro diretor da emissora, Amaury Santos. ///

Sobe música 1 e cai para BG Sonora Amaury Santos LOC Sonora Amaury Santos Vai música 2 e cai para BG LOC

Sonora Mário Azevedo

Vai música 3 e cai para BG

Quando foram montar a rádio, pediram a uma pessoa um projeto pra rádio e aí houve um problema: essa pessoa que ficou de fazer não fez. A solução encontrada por André Uchoa, sobrinho do principal acionista da rádio, foi convocar os amigos Ájax Camacho, Maurício Santos e Amaury Santos. /// O André faz um contato comigo e acabamos acertando e tal. E aí, eu comecei a entrar na história. Então aí é que nós começamos a pensar em como seria a programação. Dire Straits – Sultans Of Swing O locutor Mário Azevedo também fez parte do primeiro time da Búzios FM. // Ele nos conta como foi parar lá e como a rádio estreou, naquela sexta-feira, dezoito de dezembro de oitenta e sete. /// Dois amigos meus da Rádio Sucesso, o Tony e o Édson Paes, iam pra Rádio Búzios e eu pedi: “Pô, me leva também, que eu quero ir pra Rádio Búzios e tal”. Aí, eu fui trabalhar lá e nós inauguramos a rádio. Não tinha ninguém ainda, foi na fase experimental. Só tinha um gravador de rolo. Primeiro foi o Ájax, se eu não me engano, que abriu a rádio. Aí entrou o Tony, depois eu entrei, depois veio o Édson Paes. O Édson ficou nas folgas, no início. A rádio entrou com a música do Joe Euthanazia, “O Sonhador”. (Joe Euthanazia – “O Sonhador”)


LOC Sonora Mário Azevedo LOC Vai trecho do programa “O Melhor do Jazz” e prefixo da rádio LOC Sonora Mário Azevedo

Sobe música 3 e cai para BG LOC Sonora Amaury Santos Sobe música 3 e cai para BG LOC

Sonora Selma Boiron

Mário, quais eram as orientações que vocês recebiam para fazer a locução? /// Ah, sim. Eles diziam pra gente falar descontraidamente, naturais, soltos, tipo a Rádio Cidade. Não podia fazer piada de mau gosto, falar baixaria. Tinha que estar pra cima, alegre, e também um pouco elegante, porque tocava jazz, aquela coisa toda... Vamos ouvir, então, Mário Azevedo e um trecho do programa “O Melhor do Jazz”. /// - Que barato, hein? ‘O Melhor do Jazz’ pra você. Liza Minelli, ‘Just You, Just Me’ e ainda ‘New York, New York’. - Você ouviu ‘O Melhor do Jazz’ na Búzios FM. - ZYD 504, Rádio Búzios FM estéreo. 102,5 MHz. Cabo Frio, Rio de Janeiro. Mário continua comentando o perfil da locução da Rádio Búzios. /// Na Búzios, alguns gostavam e até tinham o jeito de falar mais parecido com o do pessoal da Transamérica, mas uma outra parte tinha mais a ver com a Rádio Cidade, que era eu, um amigo meu, o outro, o Édson. E outros ainda gostavam do estilo da Globo FM, que não falava muito. Dizia: “Búzios FM, território livre do pensamento”. Tinham outros que falavam mais. Eu falava mais, fazia passagens, conversava. O Édson falava em cima das músicas. Quer dizer, era um estilo mais natural, tinha mais liberdade de você poder ser você mesmo, do que no Rio, que o pessoal criava um personagem e tinha aquela coisa de falar muito rápido ou falar que nem um robô. Então, era uma coisa mais descontraída. Já o então diretor, Amaury Santos, parece não gostar do modo como os locutores da Rádio Cidade falavam no ar. /// A locução não era uma locução assim de muita gaiatice, mas também não era uma locução muito séria, muito formal. Era uma locução coloquial, mas também não tinha muita palhaçada. Porque a Rádio Cidade virou uma rádio palhaça e era a base das outras. A radialista Selma Boiron trabalhou entre outras rádios, na Fluminense e na Manchete FM, no Rio. // Jovem Pan, Transamérica e 89 FM em, São Paulo. // Cultura, de Santos, e Rádio Cidade, em Portugal. // Com a experiência acumulada, Selma era, sem dúvida, uma ouvinte mais atenta. // Ela avalia a locução da Rádio Búzios. /// A locução tentava ser um pouco sem formato, assim como era a programação. Eu acho que as pessoas tinham vontade e falavam as coisas, mas, no fundo, no fundo, acho que eles se preocupavam em ser poéticos, em... Sei lá, não falavam de forma muito informal no ar. Eles procuravam guardar uma solenidade na hora de falar, uma coisa assim. Parecia que eles estavam levando a sério, sabe? Quando, na verdade, eu acho que não era muito pra levar a sério. Eu lembro que uma vez ouvi o locutor... Ele botou uma música instrumental e ficou falando assim, papo de cinco minutos, sobre o


Vai música 4 e cai para BG LOC Sonora Amaury Santos Sobe música 4 e cai para BG LOC

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Sonora Amaury Santos

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pôr-do-sol. Eu falei: “Gente, o cara tá viajando no ar, é isso mesmo?”, mas tinha a ver, né? Lá pra Búzios tinha a ver. Não tinha nenhuma rádio comercial que fizesse concorrência à Rádio Búzios, entendeu? Porque ela tinha muito o espírito do lugar. Aí, isso era muito legal. (April Wine – I Wouldn’t Want To Lose Your Love) Amaury Santos também destaca esse espírito tipicamente buziano da rádio. /// O propósito era esse: uma coisa muito descontraída. Búzios é isso, né? Então, a rádio conservava essa vida de Búzios. As pessoas às vezes paravam lá pra conversar com a gente e tava todo mundo trabalhando de bermuda e camiseta. Um exemplo que ilustra bem essa liberdade criativa da rádio é uma promoção que ocorreu no verão de oitenta e oito, o tal “Verão da Lata”. // Foi quando vinte mil latas, cada uma com um quilo e meio de maconha, foram jogadas ao mar do Rio de Janeiro e acabaram chegando às praias. // Logo depois desse episódio, o pessoal da Rádio Búzios e da gravadora CBS jogaram milhares de latas no litoral do balneário. // O conteúdo, neste caso, era um kit, com camisetas, adesivos e discos. /// “Colorindo sua vida com músicas (FM), te deixando como o mar de Búzios (FM), 102,5” (Sade – Smooth Operator) É normal que um veículo de comunicação que está começando encontre dificuldades. // No caso de uma rádio alternativa no interior do estado, numa época em que não havia, por exemplo, telefones celulares, nem internet, os obstáculos eram multiplicados. // Amaury Santos conta agora como a equipe driblava a falta de acervo musical. /// Como nós não tínhamos material, mesmo, nós começamos a fazer a rádio com os discos que eu tinha, que o Maurício tinha, que o Ájax tinha. O início da rádio foi com a nossa discoteca. Aos poucos a gente foi começando a fazer contatos com as gravadoras e tal, mas sempre pegando as coisas que não eram o “carimbado” das gravadoras. Investir no chamado “lado b” era apenas uma das táticas usadas pela equipe da Rádio Búzios. // Outro recurso foi convencer as gravadoras a fazerem pré-lançamentos de músicas na rádio. // A conversa da rádio com as gravadoras era mais ou menos assim: “olha, a gente oferece o espaço para estes pré-lançamentos e informa para vocês como o público recebeu as músicas; aí, vocês podem lançar com maior segurança nos grandes mercados”. // As


gravadoras concordaram, mas quem não gostou nem um pouco desta exclusividade foram as rádios do Sistema Globo e do Sistema Jornal do Brasil. // Aí, quando algumas dessas grandes emissoras reclamava, o pessoal da Rádio Búzios dizia que os ouvintes que viajam para fora do país é que traziam as novidades. // Isso aliviava o lado das gravadoras e mantinha a parceria velada. /// Entre os artistas que tocaram primeiro na Rádio Búzios e depois fizeram sucesso nos grandes mercados brasileiros está Sade, que nós estamos ouvindo. /// Sobe música 5 e corta em fade Vai vinheta 2 Vai música 6 e cai para BG LOC Sonora Selma Boiron LOC Sonora Selma Boiron

LOC Sonora Selma Boiron

Sobe música 6 e cai para BG LOC

Sonora Amaury Santos

“Búzios FM. O tempo todo com você” (Celso Blues Boy – Sempre Brilhará) Selma Boiron. /// Ah, eu acho que foi no início dos anos noventa, quando eu freqüentava Búzios com mais freqüência assim. Eu lembro de ter ouvido algumas vezes a Rádio Búzios e não acreditei no que eu estava ouvindo. Por quê? /// Porque ela tocava de tudo a qualquer hora, não tinha um padrão lógico... Eu acho até que eram os apresentadores que faziam a programação, porque eu lembro de um apresentador sair do ar e ter tocado um artista e pouco depois um outro apresentador entrar e tocar uma música do mesmo artista. Então, eu acho que o negócio era meio: “Deu vontade, eu vou tocar, sim; e daí?”. E, nossa, não tinha noção! Tocava um pouco de tudo, mesmo. Sem critério. Você achava isso bom? /// Achava. Achava que tinha a ver com o clima do balneário, que era uma coisa assim muito misturado. Muito gringo, muito brasileiro; muito velho, muito jovem. Tinha muito de todas as tribos, então a rádio acompanhava bem a vibe do local. Era muito de tudo. Muito. Sem preconceitos e sem muita lógica. O caráter alternativo da rádio se manifestava na variedade de estilos. // Seja no estilo de fazer locução, de fazer promoção ou na programação musical. // Um grande trunfo de uma rádio alternativa é descobrir músicas desconhecidas, com potencial para cair no gosto popular. // Ou executar faixas um tanto quanto esquisitas. // Ou, ainda, tocar uma verdadeira obra-prima, que seja boa o suficiente para inquietar os ouvintes. // Amaury Santos tem uma história curiosa sobre isso. /// Eu nunca vou esquecer um dia que o Ájax estava no ar, de tarde, e aí nos estávamos conversando e tal e surgiu uma idéia: “Pó, vamos dar uma surpreendida nesse pessoal?”, “Vamos!”. E aí, nós estávamos conversando e: “Agüenta aí, que daqui a pouco vai tocar um baita flashback”. Estava na moda o filme “Amadeus”. O filme fez um grande sucesso e que falava da vida de Mozart.


Entra música 7 em BG Sonora Amaury Santos Sobe música 7 e cai para BG Sonora Amaury Santos

Sobe música 7 e corta Vai música 8 e cai para BG LOC Sonora Mário Azevedo

Sobe música 8 e corta em fade Vai vinheta 3 Vai música 9 e cai para BG LOC

Sonora Mário Azevedo

Sobe música 9 e cai para BG LOC

(Mozart – The Abduction From Seraglio, Turkish Finale) E que rodava toda hora comercial na televisão, chamada pro filme e tal, com um tema de Mozart... “Amadeus, Amadeus”. E aí o Ajax, antes de sair pro intervalo comercial, falou: “Daqui a pouco vocês vão ouvir um tremendo flashback” e aí, inseriu logo depois o CD justamente do “Amadeus”, de Mozart, no meio da história. Isso num sábado, às três horas da tarde, pegando fogo a cidade, gente à beça, todo mundo na praia e aí o telefone... Todo mundo ligando: “Vocês são loucos”, “Que coisa maluca”, “Vocês não têm mais o que fazer”. E as coisas eram meio assim. A gente dava umas piradas as vezes assim, mas que era uma coisa interessante, porque você surpreendia o ouvinte. (Talking Heads – And She Was) Já o locutor Mário Azevedo, acredita que o fato de ser alternativa segmentava demais a audiência e inviabilizava a rádio comercialmente. /// Mas ao mesmo tempo que ela era uma rádio muito boa, ela comercialmente não era tão viável, porque tinham outras rádios que eram mais populares e que conseguiam ter mais anúncios porque tinham a audiência maior. Acho que a Búzios devia ter popularizado um pouquinho mais. É complicado uma rádio muito alternativa, porque as vezes não é tão comercial e não consegue se manter. “Búzios FM, o tempo todo com você” (Steppenwolf – Born To Be Wild) Dentro de um mercado já bastante competitivo, a geografia ajudou a Rádio Búzios. // O terreno bastante acidentado da Região dos Lagos dificultava a chegada dos sinais das emissoras da capital, que costumavam chiar bastante nos rádios de lá. // Além disso, a Búzios FM se dedicou a um nicho ainda inexplorado na região. // Quem fala agora é Mário Azevedo. /// Uma novidade... O pessoal todo começou a ouvir a rádio, porque não tinha nada assim. Só tinha a Rádio Sucesso, que era uma rádio mais tipo a 98. Não era brega como é assim a 98, pagode e não sei o quê, mas era uma rádio que era mais popular. Tinha a Rádio Litoral, em Arraial do Cabo, mas parecia mais com a com a Rádio Cidade. Antes de se tornar o primeiro diretor da Búzios FM, Amaury Santos era gerente da Rede Manchete FM. // Ele não foi o único a


Sonora Selma Boiron

Sobe música 9 e corta em fade Vai vinheta 4 Vai música 10 e cai para BG LOC

Sonora Selma Boiron

largar um emprego na capital para trabalhar numa rádio do interior. // Quem explica o contexto em que estas mudanças ocorriam é Selma Boiron, que trabalhou em emissoras de Santos e São José dos Campos, antes e depois voltou ao Rio de Janeiro. // Selma compara o mercado de rádio nas capitais e no interior na época. /// Pelo que eu me lembro, já era bem como hoje: muito competitivo, muito saturado. Acho que as pessoas acabaram indo fazer a Rádio Búzios meio porque naquela época começou a nascer o conceito de qualidade de vida. Eu acho que é por isso, porque nos anos oitenta a moda era workaholic, mas aí, na virada da década, as pessoas começaram a prestar mais atenção nessa parada de “eu vou ganhar menos, mas vou trabalhar menos e vou viver num lugar mais legal”. Eu cheguei a pensar de ir trabalhar lá só pra viver lá, só pra não ter que voltar pra cá. “Búzios FM” (The Police – Message In A Bottle) A Búzios FM passou por muitas fases, até que, em mil novecentos e noventa e seis, deu lugar a uma retransmissora da Rede Transamérica Sat, que repetia o sinal gerado em São Paulo e concorria com a Transamérica Rio. // A rádio durou pouco tempo no ar e, em noventa e oito, acabou. // Em seu lugar, entrou a Rádio Tropical, que no mesmo ano se afiliou à Rede Aleluia de rádios evangélicas, que está no ar atualmente. // Com todas essas mudanças, Amaury Santos não sabe como estaria a Búzios FM hoje, se continuasse no ar. /// Já para Selma Boiron, a Búzios FM de hoje talvez não fizesse sucesso entre os ouvintes de Búzios, se mantivesse a mesma filosofia. /// Acho que Búzios está um balneário pasteurizado já hoje. Não é mais tão “reunião e encontro de ex-hippies”, como era na época. Não sei se daria certo por isso, né? Eu acho que hoje todo mundo lá espera uma coisa mais “profi”.

Sobe música 10 e cai para BG LOC No dia dezenove de dezembro de dois mil e seis, entrou no ar a webrádio Búzios FM Online, hospedada no portal da Embratel. // Nem os profissionais que trabalharam na Rádio Búzios, nem os ouvintes a consideram extensão daquele trabalho. // Daí, surgiu a idéia de fazer uma segunda webrádio, que deve entrar no ar no segundo semestre deste ano. // Quem está na liderança da Nova Búzios é Mário Azevedo, que revela alguns detalhes. /// Sonora Mário Vão ter programas com alguns dos locutores que participavam. Eu Azevedo não conversei com todos ainda. Alguns eu ainda não sei. Vai ter uma programação assim contemporânea também com umas coisas atuais de rock, de coisas que a gente conhece, MPB. E vai ter espaço pra blues, pro jazz e tudo como tinha na rádio. A gente


fazendo a rádio, a gente coloca mais ou menos aquela coisa de volta, né? E tem um menino que também era ouvinte da rádio e mandou umas músicas pra mim que ele ouvia na época e ele botou assim: “Faço qualquer coisa pra ajudar a botar a Búzios no ar” e tal e ele tá no Japão. Sobe música 10 e cai para BG LOC É, Mário, melhor focar mesmo na internet. // Para o Ministério das Comunicações, a freqüência 102,5 megahertz, com outorga em Cabo Frio, é controlada por uma empresa com sede no mesmo endereço da emissora. // Rua Teixeira e Souza, número cento e noventa e nove, grupo trezentos e nove. // Na verdade, o canal está em nome de um prestador de serviços do grupo Salgado de Oliveira, primo dos controladores da empresa, os irmãos Jefferson, Wallace e Wellington Salgado de Oliveira. // Detalhe: Wellington, que financiou mais da metade da campanha de Hélio Costa para o Senado Federal, foi escolhido suplente do senador. // Quando Hélio Costa virou ministro das Comunicações, em julho de dois mil e cinco, Wellington Salgado assumiu o cargo de senador da República. /// O Grupo Salgado de Oliveira inaugurou em dois mil e seis uma rede de rádios rock e anunciou que a tal freqüência da Rádio Búzios seria incluída, mas depois recuou. // O contrato de arrendamento do canal para a igreja evangélica rende sessenta mil reais por mês para o Grupo Salgado de Oliveira. /// Sobe música 10 e cai para BG LOC Este programa faz parte do projeto experimental “Rádio Búzios FM” do curso de graduação em Comunicação Social, habilitação Jornalismo, da Universidade Federal Fluminense, defendido em julho de dois mil e oito. /// Trabalhos técnicos de Arthur Marins. // Reportagem, locução e edição, Victor Ribeiro. // Orientação, professora Ana Baum. /// Sobe música 10 e toca até o final


Anexo 3 – Lista de músicas usadas no programa Por ordem de execução: 1 – Joy Division – Transmission 2 – Dire Straits – Sultans of Swing 3 – Joe Euthanazia – O Sonhador 4 – April Wine – I Wouldn’t Want To Lose Your Love 5 – Sade – Smooth Operator 6 – Celso Blues Boy – Sempre Brilhará 7 – Mozart – The Abduction From The Seraglio, Turkish Finale 8 – Talking Heads – And She Was 9 – Steppenwolf – Born To Be Wild 10 – The Police – Message In A Bottle

Rádio Búzios FM  

Projeto experimental de conculsão de curso de jornalismo pela Universidade Federal Fluminense.

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