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Antologia de Poemas

PĂĄginas Soltas da Vida

JosĂŠ Francisco Nunes Guilherme Albufeira, 2008


A caminho do Infinito‌


Índice Dedicatória

2.4. A Magia do Brinquedo

Nota Prévia

2.5. O momento

Do eterno carrossel da dúvida

2.6. Dançar ao luar 2.7. O Menino Jesus Vem aí

1. “Physis”. Manifestações da Natureza

2.8. O comboio dos sonhos

1.1. Viver entre Mitos

2.9. Natal da natureza

1.2. O Sentido e a Alquimia

2.10. Amanhecer

1.3. «O Tempo»

2.11. Menino Imperador

1.4. Oceano e Destino 1.5. Estrelas

3. Vida. Questões e destinos

1.6. Conservação

3.1. Lógica do viver

1.7. Ode à Natureza

3.2. A foz do rio

1.8. ADN e Causalidade

3.3. O destino

1.9. Natureza Diamantina

3.4. Perda

1.10. A magia do girassol

3.5. O silêncio

1.11. A Metafísica da diferença

3.6. Aquilo que é e não foi…

1.12. Memória

3.7. Esperança

1.13. Cristais da alma

3.8. O sonho

1.14. A essência do ser

3.9. O olhar brilha na esperança

1.15. Aurora boreal

3.10. Até amanhã

1.16. Natureza

3.11. O farol 3.12. Místicos Viajantes

2. Infância. Recordações na aurora da vida

3.13. O Tesouro

2.1. Brincadeiras felinas

3.14. Não chores

2.2. Gira bola

3.15. A bem aventurança

2.3. Infância


4. Amor. Sentimentos afins

5. Sociedade. Sensibilidade Social

4.1. Ecos do universo

5.1. Máscaras rudes

4.2. Relatividade

5.2. «Poder» só o amor

4.3. Natureza do amor

5.3. Ventos lusitanos

4.4. A multifocalidade do amor

5.4. Portugalidade

4.5. Amor, antídoto da distância

5.5. Finisterra atlântida

4.6. Cumprindo o destino

5.6. Inaudita atmosfera

4.7. Os deuses também amam

5.7. O nosso mar

4.8. A alquimia

5.8. Capital

4.9. Alegria

5.9. Trezentos

4.10. Bondade

5.10. As rotas da seda

4.11. Ingenuidade

5.11. Egipto

4.12. O paraíso

5.12. Cinderela

4.13. Luz

5.13. Folia carnavalesca

4.14. A ressonância do teu amor

5.14. Ensinar

4.15. Luzes da ribalta

5.15. O mestre Ti Chico

4.16. Anjos da guarda

5.16. O apito da fábrica

4.17. A essência do amor

5.17. Erva azeda e berbigão

4.18. Na esperança do além

5.18. O baile da pinha 5.19. Sofrimento igual a ignorância 5.20. Direitos


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Dedicatória Aos nossos pais À memória daqueles que nos colocaram no mundo… Mãe a palavra OBRIGADO parece tão pequenina para tão grande lição de AMOR que o perfume da tua existência semeou!...


Do eterno carrossel da dúvida José Guilherme apresenta-nos o testemunho da sua vivência ontológica com uma antologia de poemas a que dá o nome de “Páginas soltas da vida”; como se a vida fosse uma árvore de onde se desprendem memórias e destas se depreendessem frutos. Trata-se, pois, de uma vasta colheita de ordem estética, entendida esta no sentido grego de aiesthesis, ou seja, de sensibilidade, esse estado susceptível de percepção e de reacção face àquilo que o autor constata na realidade. Recuperar memórias é resgatar um tempo outro; escrevê-las, é renascer pelas palavras; ousar partilhar essas palavras é sempre uma forma de resistir a um fim que nos está ditado desde a nascença. Dividida em cinco partes, esta obra recorre fortemente ao passado quando nos fala da infância – “recordações na aurora da vida” e do amor – “sentimentos afins”. Como se um tema estivesse umbilicalmente ligado ao outro. Diz-nos em “O comboio dos sonhos” que “o reencontro da lareira espera-nos,/ afectos e salpicos coloridos, /são acendalhas para o fogo da vida” e logo na parte dedicada ao amor, refere “as noites não são escuras/porque são salpicadas de estrelas / a minha vida não é vazia, /pois a tua alma a inunda”. Estes versos notáveis, a par de tantos outros que preenchem a segunda e a quarta parte da obra, testemunham igualmente estarmos perante um documento de pendor filosófico, no qual a estética vigente aponta para um autor cujas energias da mente e da inteligência estão em permanente despertar – para despertar as energias cognitivas e emotivas do seu leitor. E aqui entramos na


primeira e terceira parte do livro. A primeira dedicada à “Physis. Manifestações da vida”, e a terceira à própria “Vida. Questões e destinos”, onde nos diz que “a utopia alegre e sempre adiada/ a tristeza sentida e partilhada /jorram lágrimas rebeldes e incontidas,/ muitos seres espreitam…/no grande vale, os espíritos recebem todas as águas, /que a criança dentro de nós alimenta!...” Este intercalar de infância e destino, de manifestações unas e universais, de Natureza e sentimentos, faz-nos lembrar Ortega y Gasset, que apontado a necessidade de transcendermos as nossas próprias convicções, concebia o horizonte de uma pessoa como “um órgão vivo”, um horizonte que “emigra, dilata-se, ondula”, ou seja, movimentos semelhantes aos da respiração. Efectivamente, pensar a palavra estética, a palavra arte, a palavra beleza, a palavra literatura, envolvidas num processo de transformação que os dicionários e manuais não acompanham, é repensar as nossas próprias convicções, e respirar mais fundo. E é isso o que o autor nos transmite – este respirar consciente sobre a vida. Veja-se com flui o poema “Oceano e destino”, logo no início da obra: Entre oceanos, Na imensidão da espuma… No desbravar do destino! O insondável surge realidade, A realidade funde-se no oceano…

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Mas há mais do que memórias – há uma ânsia latente do autor em mudar o mundo, de provocar nos outros uma reacção que possa levar à criação de situações existenciais inusitadas. E nisto, este punhado de memórias vira punhal de combate – não agressivo, mas acutilante, um golpe recuperado pela palavra para desencadear um novo comportamento verbal, capaz de ser responsável por uma mudança nas novas condutas do quotidiano mais comezinho que possa existir nas nossas vidas. Diz-nos isso mesmo na última parte da obra, dedicada à “Sensibilidade social”. Note-se o pendor humanamente reformador do poema “Ensinar”: Olhar pelos jovens é como reparar as janelas do tempo, Tentar ajudar é amar o outro lado do espelho!... Investir no semelhante equivale a semear esperança, Enquanto existir luz, há conhecimento genuíno… E é na esperança de formar pessoas genuínas que ensinamos, Aspirando a ser guerreiros da luz existimos, É dentro do rio do amor que trabalhamos.


José Guilherme diz-nos assim que ainda existe esperança por parte dos poetas em transformar e mobilizar todo um colectivo pela arte. E tal esperança no poder da palavra só pode corresponder a uma esperança vital no poder auto-renovador da própria humanidade. Mas se existe esperança, existe dor. A dor da vida, companheira indissociável das alegrias pois só sente tristeza quem deseja a felicidade ou já experimentou alguma alegria. A dor é um ingrediente necessário da arte, da literatura. São muitas as vezes que Guilherme invoca Madre Teresa, Dalai Lama, Gandhi, Krisnamurti e outros cujo conhecimento foi obtido mediante uma experiência dolorosa e lúcida face à realidade. Talvez com estas nomeações, esta ausência de fronteiras, de raças e de credos, o autor (que comunga até na forma dos versos de um certo orientalismo, com Tao à cimeira) nos esteja a dizer que este é o momento de reencontrar a arte, a literatura, não como simples entretenimento ou até como jogo sofisticado, “inteligente”, de imagens, sons e palavras, mas para preencher o vazio da reflexão, da compreensão e da auto-compreensão, vazio esse causado por inúmeras vicissitudes de um tempo que presencia actualmente terríveis tensões, agravadas pela consciência dessas próprias tensões. Não é por isso à toa que este livro se socorre constantemente do elemento água – apesar da abundância dos restantes elementos, este impera. É que água é transparência, é leveza, é cordialidade e solidariedade – as águas desconhecem fronteiras, são dádiva e fonte de vida para homens e mulheres de todas etnias e condições sociais. E, lamentavelmente, tudo o que a água simboliza, tendo vindo a ser perdido, a par do afastamento do ser humano das suas origens, dos seus valores e crenças imemoriais.

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Recordemos que uma das imagens filosóficas mais belas, a de Heráclito para ilustrar o eterno fluir da Vida, só poderia ter conexão com o elemento primário: não se pode banhar duas vezes nas mesmas águas do rio. Para Tales, a água era a origem de tudo. Para Empédocles, a água era um dos quatro elementos – ao lado da terra, fogo e ar – que formam tudo o que existe. Não estranhe pois o leitor de José Guilherme por encontrar sucessivamente referências à liquidez, ao rio, à chuva, cristais, bolas de sabão, nevoeiro, oceano e todas as formas que a água pode ter, assim como referentes a ela ligados, como marinheiros, portos, faróis e outros. Mas água é também música. E um dos mais sedutores aspectos desta obra, é deveras a sua musicalidade – assim como a graça que também imprime à tradição que irrompe do país que viu nascer o autor. Deleitemo-nos pois, para terminar, com o riso à boca da alma - e saboreemos o poema da “Erva azeda e berbigão”:


O cão aguarda solenemente que cumpra a tradição! Que é no dia de Entrudo ir ao berbigão, A mula é generosa, rebocando carroça e vizinhança… Cão e mula, parecem adivinhar dieta, E precipitam-se comendo era azeda a caminho do destino… A praia da Espregueira espera pelos semi-nómadas exploradores!... Colhem-se, sacrificando a vida com sacas e sacas destes preciosos bivalves! As crianças pressentem vamos entrar na dinastia da dieta do berbigão… E mula e cão cismando: cumpra-se o destino Da dieta da erva azeda e berbigão!

Luísa Monteiro Albufeira, 8 de Outubro de 2008

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Nota Prévia Por vezes, as múltiplas realidades constrangem-nos. O mundo não nos pode ser alheio! O desabrochar de uma flor, o olhar de um felino ou o sorriso de uma criança emociona-nos. Mas também o sofrimento de um geronte ou as mordaças de um operário português afecta-nos profundamente. A vida mesmo difícil permite-nos pensar na manifestação da própria vida. O amor daqueles que em nós investiram, pode ser por vezes reflectido e partilhado naqueles que amamos. E assim, vamos sentindo a nossa existência…


01. «Physis» Manifestações da Natureza


Viver entre mitos Com Tao, há sol e sombra, Mas não há é morte e vida. Porque o panteísmo é amante de todas as coisas, É assim a transfantasia mitologizante.


O Sentido e a Alquimia Nem sol, nem sombra, Nem ouro em pó, nem estrume… Estar no cume e estar no ventre da Terra, Equivale a uma grande distância, Entre o ser e o não ser.

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«O Tempo» Tic-TAC, Tic-TAC… Chronos é um deus reciclável. O ser é, o ser foi, o ser será, Um eterno Tic-TAC.


Oceano e destino Entre oceanos, Na imensidão da espuma‌ No desbravar do destino! O insondåvel surge realidade, A realidade funde-se no ocenao.

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Estrelas Plantadas no firmamento, parecem olhar fixamente, A quem as contempla. E o aventureiro, vagueia ao encontro de coincidências. Desenrola-se a vida, cumpre-se o destino… Para sempre permanecerão as estrelas com as suas memórias, Serão apreciadas por muitos milhares de aventureiros, Formarão muitos laços de cumplicidade com os seus admiradores, Só a alma pode resistir, a tão extraordinária viagem no tempo.


Conservação Todos os dias tenho saudades, De adormecer e sonhar. Ver estrelas, rios e planetas. Duendes, animais carinhosos e plantas sorrindo… Ver respeitados os ciclos cósmicos, E acordar na esperança de a natureza ver humanidade.

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Ode à Natureza Quantum, neurónio, genial. Rio, estrela, galáxia… Curiosidade, sabedoria, informação; Lince, albatroz, medusa; Cor, pensamentos, mil sonhos… Tudo a natureza contempla!...


ADN e causalidade Jogo, roleta, devir. ADN surge na lógica do acaso! A massa crítica manifesta-se… Do intangível nómeno, Aparentemente se passa ao fenómeno.

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Natureza Diamantina A vibração da genuína saúde, O brilho do olhar da pantera, A pura cor dos diamantes, O mágico cintilar das estrelas, São como o ingénuo sorriso das crianças. Só o sol pode ombrear, O iluminar da natureza diamantina.


A magia do girassol Descobrindo na magia do amanhecer, Um raio de luz no prismático pulular da natureza. Espreitam gatos, raposas, avestruzes, Nas místicas planícies alentejanas; Quão prendadas de tão misteriosa beleza!... Um raio de sol descobre e dá sentido, Ao esplendor da magia do girassol. E nós pessoas? Somos como as flores! O Sol só nos faz bem…

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A Metafísica da diferença Bifurcações, equivalências e antíteses, Simetrias do inverso, Naturezas complementares. In e Ian, complementam o Tao. Do feio, com o tempo bonito lhe parece, E o outro é o nosso reflexo… Em última análise, tudo parece uno!...


Memória O que os pensamentos evocam a partir dos sentimentos! As águas que os rios transportam nas suas afinidades. O registo do olhar da águia que desce dos céus, As características que o ADN perpetua na vida. A rota que as andorinhas traçam no seu regresso primaveril, A infinitesimal solução que a homeopatia contempla, A memória colectiva de uma etnia que se projecta para além das gerações, O aroma da díade mãe/cria que o amor une, Os registos akarshicos que viajam no cosmos!... A memória entranha-se no ser e este expande-se na memória.

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Cristais da alma Os pensamentos coloridos podem ser forjados a partir de muitas realidades, O fascínio das flores, o brilho dos diamantes ou o cantar dos golfinhos. E a neblina de uma manhã salpicada pelos primeiros raios de luz, A quente noite mediterrânea recheada de estrelas, O dançar de um cardume de peixes multicoloridos nas cristalinas e translúcidas águas do Índico, Ou a orquestral sinfonia no âmago da estridente selva amazónica. Se fosse possível concentrar tal panóplia de coloridos denominaria: sortido de cristais da alma!


A essência do ser Sou medusa que saboreia o mar salgado, Condor que sobrevoa os continentes dos céus, Salmão que se orienta contra a corrente dos rios, Lobo que perpetua a sua mística personalidade nas neves, Pantera que descobre a lua como cúmplice companheira de caça, Cão que afectuosamente memoriza os seus na familiar companhia, Chimpanzé que não compreende o motivo de tanta graça, Cavalo que galopa através dos cruzados, Descobridor navegante que carimba no seu mastro a bandeira de sua pátria, Vivo nas multidões que manifestam a sua fé, Refugio-me no silêncio árido e reconfortante do deserto… Também sou mil cores e ao mesmo tempo translúcido no existir do pensamento, Algum dia, sentir-me-ei em parte alguma e em toda a natureza, Viajo na vacuidade, mas sou trespassado pela lança do amor. Fui projecto, manifesto-me na vida… Integro-me no panteísmo quântico do devir, Sou corpúsculo e onda, no evoluir da essência do ser.

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Aurora boreal A noite traz-nos magia, Irrompe a aurora boreal… Acendem-se os corações, O urso transporta afagosamente o bebé! A claridade multicolorida extasia-nos, Sonha o místico…


Natureza A natureza Ê bela. Impþe-se, sem precisar de palavras. Expressa.se sem intençþes ou fronteiras, utiliza todas as leis do universo, E, nem precisa de pensar coisa alguma, Basta apenas existir, manifestar-se... Ser fonte de vida.

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02. INFÂNCIA Recordações na aurora da vida


Brincadeiras felinas Acorda, espreguiça-se e vai, Como que reagindo ao desconhecido! Às vezes teimosamente persiste, Perpetuando infantis tarefas; Bolinha cá, bolinha lá… Como que dizendo: O mundo da infância deveria somente resumir-se a brincadeiras felinas!...

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A magia do brinquedo Aguardando na esperança do brinquedo prometido, O brilho do olhar parece encontrar paralelismo, No brilhante cintilar prateado do firmamento. A criança confia às estrelas, O sonho na esperança guardado. Não sabe se é à noitinha ou p`la madrugada? O encontro com a magia novidade do brinquedo. Em tons alquimistas, suspenso continua o cenário, Na novidade magia do brinquedo…


Gira bola Telefonias teimosas ecoavam, Nas persistentes tardes que se prolongavam, Eusébio, golo, golo… Nos salpicados coloridos da mente desfilavam, Vermelho, verde, azul… Fundiam-se nos cromos das chicletes, Aromas, cores e sons, Sonhos de grandes feitos despertavam…

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Infância Música, flores, arco-íris, Ursinhos saltitões e brincalhões. O existir da vida, A dança do teu encanto, Começa no teu ventre imaculado!...


O momento Pirolitos, mais pirolitos, Estrelinhas cristalinas, Beijinhos mais beijinhos, Mil abracinhos, Comungam mil pensamentos‌ Que se fundem num momento.

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Dançar ao luar O luar torna canais espelhosos, Derramada pela noite prateada, a música do seu encanto! Por entre a azáfama da serpenteada eira palco da desfolhada, Mil sorrisos, mil esperanças e (re)encontros!... O aroma da canela dos bolinhos acicata a vida, Acompanhando o despertar mágico dançar dos felinos, No Agosto luar da desfolhada.


O comboio dos sonhos Nos empinados caminhos da serra, Almas voam por entre sonhos e reencontros! É como o trespassar do denso nevoeiro, Que as brumas da nossa mente projectam. O reencontro da lareira espera-nos, Afectos e salpicos coloridos, São acendalhas para o fogo da vida.

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O Menino Jesus vem aí Os campos cobrem-se de neve, As famílias extasiadas pela boa nova, Espelham rostos de espanto encantado. O sentimento de alegria do universo, Entroniza-se na musicalidade cósmica divina! As luzes das cidades, Confundem-se com a expansão do colorido dos mágicos pirilampos. Os reis magos reiniciam a mágica expedição da esperança. Alguns choram de alegria, exultando o milagre da vida. E tudo parece solidário: rios, planetas, aves, cães, peixes… Quando o mundo percepciona: o Menino Jesus vem aí.


Natal da Natureza Papagaio e mente do menino imperador esvoaçam ao sabor do momento, As searas do dourado trigo acariciam-no. Sob a égide do sol resplandecente, um lustroso urso olha ternamente parecendo querer apadrinhar este acontecer… As águas cristalinas que descem vertiginosamente da montanha suspiram de felicidade! A surpresa vem da chuva que surge quanticamente entrelaçada ao arco-íris, A atmosfera do Império do Espírito Santo extasia o Menino Imperador, querendo adivinhar o Natal da Natureza…

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Amanhecer Não sei que verde tão colorido, Espreitaria tão carismáticos raios solares; Sinais são múltiplos… Aromas, folhas, orvalho e o autocarro palmilhando a encosta. Café e pão quente com manteiga estimulam, E até a inesperada visita serrana acicata o sentir!... Enquanto a avó prepara no sorriso esmaltado frescos bolinhos, O burrito parece engenhosamente descobrir por entre a encosta, A melhor forma de desbravar caminho, No amanhecer dos raios de sol.


Príncipes de Aladino As horas esfumam-se no lúdico, O tempo está sujeito às leis da utopia! O brincar na criança tem tanto poder… E a natureza apresenta facetas deveras alquimistas, Cores, sons, risos, brilhos e pensamentos, Ecoam em qualquer galáxia do firmamento, Quando os príncipes de Aladino brincam.

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03. VIDA Quest천es e destinos!...


Lógica do viver Alvorada, magnitude, Solenitude no pensamento, Abstracção na comtemplação. É um vai e vem constante, Onde mito e racionalidade, Se digladiam perenemente…

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A foz do rio Para quê tanta azáfama? Se o leito do rio fica já ali. Corre, corre, em direcção ao nada! Na alçada do simples aspiramos à felicidade, E porque a felicidade se pode desmontar em pequenos acontecimentos, Vivamos o quotidiano. O ser é, o ser foi, o ser será; Tudo é ser…


O destino Sonhos, precipícios, alucinações, Tudo passa e tudo jaz. Como a magnificência do «apheiron», A contemplar a ânsia maravilhosa! A inquietude da quietude intransigente, Que o «destino» nos lança…

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Perda Gladíolos e lágrimas irrompiam, Na cinzenta tarde sentença. O destino mostrava-se implacável! Aterrador desfecho suspendia a respiração, Mil pensamentos e profunda tristeza, Tapavam o véu da esperança. E tudo parecia ter acabado…


O silêncio Quando o verbo não ecoa, E se o coração sufoca, Não se sabe onde está a alma. Se o abandono é ser parecido com o silêncio, E o colorido não se vê, Cinzento e preto são cores, Porque este silêncio não sorri, E a alma não encontra colorido.

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Aquilo que é e não foi… À utopia alegre e sempre adiada, A tristeza sentida e partilhada. Jorram lágrimas rebeldes e incontidas, Muitos seres e deuses espreitam… No grande vale, os espíritos recebem todas as águas, Que a criança dentro de nós alimenta!...


Esperança A luz cristalina espreita, A angústia inquietante amplia o aguardar, O destino dos sinos algum dia é tocar. Quem sabe se não é chamar, Seres celestiais com a luz cristalina, Algures aparecerem para nos afagar!...

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O Sonho Não sei quem mais sonha: Se é aquele que adormece e julga estar acordado, Ou o que ama demasiado viver e diz nunca ter adormecido, Talvez a criança que brinca projectando no futuro… E porque não, o que lamenta recuando no tempo, o que não foi possível viver. Na realidade, também sonha aquele que vive amando!...


O olhar brilha na esperança Já vi meninos a soprarem bolas de sabão… Sem dúvida, provocam coloridos extasiantes. E também, observei gerontes moribundos soltando olhares de esperança!... Não sei, onde há mais brilho e fé? Se no afecto alegre olhar momentâneo da criança, Se na sabedoria e ressurreição daqueles, Que muito sabem da vida!...

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Até amanhã Algum dia vai acontecer!... Celtas, romanos, árabes, visigodos viajam no tempo. As nuvens envolvem o sol, A lua ilumina o mar, A inspiração guia os marinheiros, O Sol descobre-nos radiosos dias, Há sempre uma criança dentro de nós, Que nos ilumina, sussurrando: até amanhã.


O farol Todos temos um farol!... Como uma cega luz que nos guia, Talvez esteja dentro de nós? Ou em qualquer ponto de alguma galáxia, Sabemos é que parece um jogo! Em que quente e frio; amargo e doce; Alegria e tristeza; solidão e amparo. Surgem como sinónimos para o mesmo faroleiro!

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«Culpabilidade» Existem erros e erros, Alguns podemos remediar. Mas há aqueles que a roda do tempo e da vida não podem recuperar! Se cometeres suicídio ou eutanásia, Vais abrir uma brecha no espaço / tempo cósmico, Que não imagino como a roda do destino vai reparar!... E esse reflexo, começa logo desde cedo, Com a tortura mental que é a culpabilidade!...


Místicos viajantes Talvez desde que somos, assumamos ser viajantes. Viagens ligadas ao fluxo quântico do pensamento, Projectos em crenças, superstições e icons. Enraizamentos em fé que a tecnologia não explica. Numa incessante procura, sonhamos com imagens para lá da densa neblina!... Imaginamos mundos dentro de universos abrangendo outras realidades, Na realidade fantástica que são os viajantes dos nossos pensamentos!...

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O tesouro Quando caminhamos no deserto e sentimos que estamos perdidos, Se algo implacável nos consome, Gritamos silenciosamente pelo eterno devir!... E sonhamos com a imagem da nossa imaculada mãe. Talvez, procuremos uma reparação que seja o retorno à natureza. Ou, aquele pequeno grandioso tesouro, que todos temos no nosso mais profundo âmago.


Não chores! Conheci muita gente corajosa, Convivi com operários que não sabem se conseguem chegar ao final da jornada de trabalho, Ouvi pais que desconhecem onde vão ganhar o pão para os filhos, Vi aqueles que partindo, vão na incerteza de regressar. Testemunhei ainda seres que nada temendo apenas se preocupam com os outros, Apercebi-me também dos que têm a coragem de dizer o que lhes vai na alma… Curiosamente todos estes seres magníficos em humanidade consolavam e encorajavam aqueles que vertiam lágrimas temendo o seu destino, verbalizando: não chores!...

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Sete chaves Quem não tem segredos? Não será que múltiplos pensamentos sempre assaltavam a nossa mente?!... O que diremos dos salteadores da nossa psique?!... Levantamos os muros e fechamos a nossa babilónia mental? Ou partilhamos o filme surpresa que é a nossa mente… É tudo uma questão de preconceito! Atente-se à natureza, que usa estratégias para evitar o sofrimento… E, para nós, o que é mais inteligente?!...


A bem aventurança Na vida sonhamos, Aspiramos a ser famosos, Subimos às mais altas montanhas, Observamos o não limite dos oceanos, E até a liberdade do espaço sideral. Queremos a utopia do poder, Mas às vezes só atingimos a essência, No momento da claridade divina, Que nos surge num ápice de fé e bem aventurança!...

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04. AMOR Sentimentos afins


Ecos do Universo Olhando para a beleza da Natureza e do Universo, ficamos extasiados. Mas, a beleza do teu olhar, E, a profundidade dos teus sentimentos, São infinitamente superiores‌


Relatividade Às vezes os dias sabem a anos, Os anos podem reduzir-se meramente, A noites, tardes, horas… Talvez por estarmos enraizados à filosofia do momento, E a máquina do tempo alongar ou condensar. Afinal, são as leis da física, que só o coração percepciona Na lógica quântica do amor…

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Natureza do amor Se soubesses o que anseio por um amor justo, Esperarias pelo mundo serenamente. Se conseguisses imaginar o meu íntimo, Nada temerias, nem agora e muito menos amanhã. Quando ouvires um passarinho a cantar, Lembra-te que é para te segredar, O quanto amada és no universo. E se olhares para o meu olhar, Percepciona-o como o reflexo holográfico, Do que é a natureza do amor.


Multifocalidade do AMOR As noites não são escuras, Porque são salpicadas de estrelas, A minha vida não é vazia, Pois a tua alma a inunda.

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AMOR antídoto da distância Espelhos, galáxias e simetrias, Luz, distância e proximidades, São como o apertar do teu coração, As distâncias que só o amor une.


Cumprindo o destino Não sei se é nostalgia do futuro, Se um sentimento de eterno retorno pelo passado, A meiguice do lobo que uiva no frio da montanha, Ou o desespero daquele que ama e foge para a solidão… Talvez seja ler o indecifrável, Cumprindo o destino que se apaga quando não se sonha.

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Os deuses tambĂŠm amam Krisnamurti, Dalai-Lama ou Madre Teresa, Certamente todos riram e choraram. E porque nĂŁo, alguma vez jĂĄ amaram?!... Porque em todas as mitologias, Os Deuses tinham caprichos humanos, E a maior virtude destes homens, Foi expalhar o amor entre humanos.


A alquimia Subitamente irrompe a claridade, O milagre renova-se, As leis da física são ultrapassadas, O campo vibracional harmoniza-se, Os seres encontram-se… A pedra filosofal é descoberta, E a alquimia do amor assim o justifica!...

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Alegria O dia pode amanhecer cinzento, A noite ter sido recheada de fantasmas, O aproximar do local estar eivado de dificuldades, Mas quando se descobre rostos de jovens alunos sorrindo na esperança!... Amarguras desaparecem num åpice, Um momento mågico tem lugar, É a alegria de poder aprender e ensinar.


Bondade Carinhosos, são os que aceitam a diferença, Aqueles que tudo dão e nada recebem em troca. Por vezes parecem ser inesgotáveis em altruísmo, Olhando atentamente para estes seres, vislumbramos; Muita dedicação pelo outro e, compaixão. Não sabemos se são naturais da terra, de que planeta vieram, E para onde vão!... Apenas sentimos que inexplicável bondade, Ficou para sempre registada no nosso coração…

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Ingenuidade Crianças sorrindo aos raios de sol, Ursinhos brincando na pradaria sob a égide do arco-íris, Lobos uivando à lua distante… A mão que rega a esperança de um amanhã melhor, O geronte que acredita recordando o passado com a fé do presente, A cumplicidade do bebé e lua, Os que têm esperança e dão as mãos vislumbrando luz, Mesmo na noite mais escura… Porque a ingenuidade tem mesmo muita luz e sabedoria!


O paraíso Água pura e cristalina, céu azul, verdes plantas, Sol radioso! Firmamento iluminado por estrelas de sonho… A imortalidade garante a seres felizes, Habitarem para sempre espaços multiverdejantes e coloridos… Mas também há, quem consiga elevar-se ao paraíso, Sobrevivendo em cenários deveras cruéis e inóspitos, Vivendo e bebendo apenas do elixir da fé e do amor!...

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Luz Mil sóis iluminam muitos universos, Milhares de barragens e centrais atómicas, Podem dar energia para iluminar centenas de metrópoles. A iluminação dos iluminados pode trazer luz à consciência dos mais cépticos… Jesus Cristo pode fazer o milagre de dar à luz ao que não vê! Mas, banhado pela fé e pelo amor, tudo pode ter claridade: O que não vê e o que não quer ver!...


Anjo da guarda Entidade que é hóspede de muitas estalagens, Coexiste magicamente em muitos caminhos de luz, Ser que se projecta quanticamente em muitos pontos siderais, Espelho holográfico de realidades divinas. Parece querer abraçar num só trago de amor e compaixão, Os que sofrem e os que precisam, Assim é a natureza do anjo da guarda…

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As luzes da ribalta Todos os seres devem procurar a luz, Dentro das múltiplas realidades, do vasto espectro de universos. Também sabemos que as nossas consciências, É que fazem realidades tão diferentes! Vários tipos de cinestesias projectam-nos Para maravilhosos contextos de luzes da ribalta… A vista aérea de quem viaja e se distancia dos seus, Olhando para as miríades de luzinhas, Que pululam ao longe trazendo à memória que o mundo já não pode ser igual… Aquele que labuta na madrugada, percorrendo a cidade, E vê uma atmosfera rodeada de cores,


73 Mas onde o frio da emigração não o permite fazer desistir de perseguir sonhos próprios das luzes da ribalta!... O lavrador que viaja regressando de um monte vizinho, após ter prestado ajuda nas lides da ceifa E observa sonhando ao longe com as luzes da ribalta da cidade que gostaria que fosse sua anfitriã. E as luzes da ribalta do ser que aproximando-se de outra dimensão, Se prepara para uma viagem em que a coroação da sua passagem alimentada pela fé não tem paralelismo, Com as luzes da ribalta desta dimensão!... Parece-nos que as luzes da ribalta têm mais faces que rostos tem a lua!


A ressonância do teu amor Não faço ideia onde estás, Mas tenho esperança e avanço adivinhando. Com a mesma coragem que te vi partir, E na certeza que nas mais bonitas estrelas que cintilam, Algures no firmamento, estás olhando pelos teus. E, esperando serenamente! O mágico encontro da família. Entretanto no aguardar, Jogamos, jogos sérios da vida. Cultivados no amor, no encanto e na magia, Que encontram significado, Ao tentar cultivar o amor que semeaste.


Na esperança do além Vagueio, por entre a multidão das almas, Com o coração aberto ao amor. Sou projecto no infinito, vizinho do pólen das flores. Amante das estrelas do mar, Transporto comigo a nostalgia do amor. Olha-me, estuda-me, sente-me, Venera-me, saboreia-me… Sorve-me num só trago, como se a alma fosse finita. Partilha-me de luz e de esperança, Entrelaça-me nos teus caminhos, Considera-me no teu amor. E jamais me esquecerás, mesmo quando partir, Na esperança do além…


A essência do amor Sendo uma palavra mágica, Também é mais do que um conceito. Pois só cada coração o pode entender. Não está sujeito às leis da mecânica física, Sendo omnipresente e omnipotente, É transcendente e assume fazer milagres… Mas, também pode ser solitário e optar por não se revelar! Cura, mata, alimenta e consome!... E só consegue perceber, quem verdadeiramente ama.


05. SOCIEDADE Sensibilidade social


Máscaras rudes Na neblina surge o místico, Os caretos acentuam a tradição, Tanta honra alimenta a Portugalidade. Na bravura para lá dos montes, Apenas a fé aproxima e descodifica a profundidade, Do puro sentir das máscaras rudes!


«Poder» só o amor Vimos, ouvimos e lemos, Generais, imperadores, governantes!... Povo, destinos e sonhos legítimos, Todavia de tão sabedora lição, onde só altruísmo e alteridade têm lugar. Também Gandhi e Dalai Lama, Se inspiraram na iluminação que é o amor.

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Ventos lusitanos Sagres, agreste e ventosa, Testemunha o Portugal robusto. Do ilustre Infante, às corajosas caravelas, Homens de acção, honra e palavra, Assinam para a história exemplos, Que a negligência de alguns responsáveis jamais conseguirá apagar! Tal a força e pureza dos ventos lusitanos!...


Portugalidade Oh, Portugal! Terra de lusitanos. Quem te profana e apunhala?!... Não te deixes abater, Lembra-te de Camões e Pessoa, Pois o V Império está sempre omnipresente, E não pode haver espaço para os que não têm alma…

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Finisterra atlântida Um som místico abre brechas no espaço / tempo, Ciclicamente renovado, a mensagem projecta-se no além! Que as misteriosas brumas no atlântico escondem!... De tão deusa carga psicológica inspirada, Espaço-tempo e som fundem-se… Na comunhão do fascínio que o farol finisterra oferece. É que no nosso mais profundo íntimo: todos aspiramos a ser faroleiros!...


Inaudita atmosfera Há espaços que parecem privados de sofrimento, Onde a lei da gravidade muitas vezes nem tem lugar, Tal o peso da força mental Que tulipas e o gato das botas gostam de testemunhar. Acordados passeamos sonhando, Na magia de Florença, com vontade de não acordar…

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Nosso mar Gostava de mergulhar no teu ventre, Saborear essa parte da vida, Sentir esse trago salgado, E mesmo, se o destino fosse ouvir o hino! Aí que honra, nos incentiva a Portugalidade. Que só pode sentir, quem deveras é português. E a esperança persegue-nos nos patrióticos sonhos.


Capital Roma respira impondo a sua majestosa imponência… Avé César, Augustus e Tito Lívio! Imperial, colossal, capital. Nem a grandiosidade de Séneca e Cícero, Testemunha na íntegra, a atmosfera sentida… Quando se passeia e apreende a magia de Roma!...


Trezentos Contaram-se por trezentas as almas, Que em mediterrânea tarde soalheira fizeram história! Do medo, sentindo o dever passaram à bravura… Tão honrados guerreiros, Termopilas será para sempre palco da imortalidade, De trezentos heróis que persas para sempre temerão!...


As rotas da seda De Veneza ao Estremo Oriente, Todos buscaram um casulo! Percorrendo caminhos, vales e rios, Observando flores, animais e esmeraldas, Nada desejando e apenas divagando‌ Caminhando pelos impÊrios do sonho, Construíram-se as rotas da seda.

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Egipto Terra de lendas, heróis e fascínios. Transporta para o sonho qualquer humano. Serão a beleza do pôr do sol, a força viva do Nilo, as pirâmides? Ou algo que não sabemos e nos transcende?!... O que sentimos quando estamos neste tesouro de sonhos? Um estranho dejá-vu, que mais parece um chamamento, Do que outra qualquer viagem. Não sabemos se é mensagem do além, Ou entronização do eu cósmico e do eu pessoal. Percepcionámos sim, que algo acontece no espaço-tempo sideral, Na confluência divina.


Cinderela Paris, Tóquio ou Nova Iorque, Têm as suas cinderelas. Rostos bonitos, corpos esbeltos, brilho no olhar. A natureza salpica a juventude com a sua beleza! Mas também temos cinderelas mas ceifeiras do Alentejo, Nas operárias fabris ou nos lares da terceira idade. E, também proliferam cinderelas, na Guatemala, Etiópia ou Portugal. Porque a iluminação que contempla a beleza e que tem referência no exterior, Encontra a sua genuína fonte na alma daquele que ama!...

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Folia carnavalesca Cores vivas aromatizam a vida, O momento impõe-se por tradição, Sons musicais ritmados irrompem pelas ruas, O imaginário dos foleantes teima em surpreender… Verde, rosa, amarelo e azul dão cor às fitas que se despenham, Gargalhadas estridentes perdem-se no além… A vida são dois dias e o carnaval três, É o disfarce da agonia que perpetua!...


Ensinar Olhar pelos jovens é como reparar as janelas do tempo, Tentar ajudar é amar o outro lado do espelho!... Investir no semelhante equivale a semear esperança, Enquanto existir luz, há conhecimento genuíno. E é na esperança de formar pessoas genuínas que ensinamos, Aspirando a ser guerreiros da luz existimos, É dentro do rio do amor que trabalhamos.

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Erva azeda e berbigão O cão aguarda solenemente que cumpra a tradição, Que é no dia de entrudo ir ao berbigão, A mula é generosa, rebocando carroça e vizinhança, Cão e mula, parecem adivinhar dieta, E precipitam-se comendo erva azeda a caminho do destino… A praia da Espregueira espera pelos semi-nómadas exploradores. Colhem-se, sacrificando a vida com sacas e sacas destes preciosos bivalves! As crianças pressentem: vamos entrar na dinastia da dieta do berbigão… E mula e cão, cismando: cumpra-se o destino, Da dieta da erva azeda e berbigão!


O baile da pinha Na véspera a aldeia está alerta! Aperaltam-se as princesas… O tocador dá os últimos retoques no rom-fom-fom da concertina, As crianças brincam fugindo ao controle das mães, Os homens ensaiam as primeiras cervejas e copos de três na venda!... Por vezes não faltam umas murraças a abrilhantar a festa! Olhos de mouras encantadas e brilhantes a colorir rostos felizes fazem corar… Os mais pequenos, alambuzam-se com o «cravance» dos chocolates! O conjunto do Zé da Gaita irrompe pela noite adentro, Repetindo vezes sem conta as mesmas músicas, E as almas, movimentam-se ao ritmo dos sons musicais estridentes, Num permanente e fervoroso rodopio!... As senhoras de mais idade, tentam controlar tocando ora aqui, ora ali, Sempre aconselhando as meninas a não destapar o xaile das pernas. E, lá se vai cumprindo mais um baile da pinha, com sentimentos de felicidade, diversão, sonhos e desejos, até que o gale cante! É assim o famoso baile da pinha!...

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O mestre Ti Chico Surgindo na barra neblina, lá vem a traineira, Apinhada de gente e entusiasmo, Fruto de pescaria sob a sageza do mestre, Sardinhas cheirosas e vivinhas, Dão alento à azafama do caís. Os cardumes parecem compreender, Sacrificando-se à alegria dos bons homens pescadores. Alegre corrupio na lota, Faz lembrar o baile mandado algarvio, E o Ti Chico ordenando a festa do sagrado ritual.


O apito da fábrica Nem sei que horas eram, Seriam horas de beijinhos azuis e cor de rosa. Recordo-me da azafama de uma mãe operária despedindo-se pela madrugada, Parecia um hino de amor às crias. Nem comboio ou autocarro eram solidários, Pois as dificuldades exigiam o sacrifício de percorrer… Corajosamente por entre caminhos, valados, penhascos, Horas e horas, caminhando… E transportando na sesta viveres de sobrevivência, Alimentados pelo amor à família, Na obediência humilde ao apito da fábrica.

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Sofrimento igual a ignorância Quem pode ser insensível ao afecto de um cão? Ou ao desespero de uma criança que ficou sem os pais… E alguma vez já sentiram a agonia de uma cria de elefante órfão de mãe? Já entrevistaram um artista no cativeiro, Por não poder expor a sua arte de forma livre? E aqueles que não têm pão para partilhar com os filhos?!... Nem esperança de trabalho para poder sonhar… E quem não sente o cheiro terrorista da máquina neo-liberal selvagem, que tudo tenta triturar? Que pensariam personalidades como Luís de Camões, Aristides de Oliveira ou Fernando Pessoa, se revisitassem este Portugal?!... Certamente concluiriam, como o príncipe Sidharta, Que causa de tanto sofrimento é a ignorância.


Direitos O fim é tão bonito como o princípio, As noites são tão bonitas como os dias limpidos e de céu azul. O silêncio é tão eloquente como a mais nobre sinfonia, A alegria qunto ao futuro é tão forte num gerente como numa criança. E os sentimentos de quem perde com honra, são tão nobres como o que vence sem esforço. O mendigo merece tanto o sol da vida , como o rei do maior império. E as flores são tão sábias, quanto a princesa que as colhe! Tudo é perfeito!...

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Livro Antologia