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índice apresentação: Uma luta, obrigatoriamente, de raça e classe I - neoliberalismo e racismo: uma perversa parceria II - capitalismo e racismo: lado a lado desde sempre III - as bases ideológicas do racismo brasileiro: coisificação, teoria do embranquecimento e democracia racial IV - as muitas faces da opressão racista no Haiti e no Brasil V - a importncia de defender as políticas de reparações, ações afirmativas e cotas VI - venha para este quilombo VII - um programa de raça e classe Expediente: EXPEDIENTE: ORGANIZAÇÃO EDITORIAL: Julio Condaque e Maristela Farias. TEXTOS: Wilson H. Silva, Maristela Farias, Julio Condaque, Herz Dias. REVISORES : Wilson H. Silva e Maristela Farias. DIAGRAMAÇÃO: Vicente Saraiva (vigosa16@gmail.com / www.issuu. com/vicente.gs / (21) 9208-5812) GRÁFICA: Gráfis TIRAGEM: 10.000


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Negros Negros que escravizam e vendem negro na África não são meus irmãos negros senhores na América a serviço do capital não são meus irmãos negros opressores em qualquer parte do mundo não são meus irmãos Só os negros oprimidos escravizados em luta pela liberdade são meus irmãos

Para estes tenho um poema grande como o Nilo.

Solano Trindade


Cartilha Quilombo Raca e Classe

Uma luta, obrigatoriamente,

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apresentação

de RACA E CLASSE

O poema na página anterior foi publicado no início dos anos 1960 pelo poeta, agitador cultural e militante comunista Solano Trindade. Ao abrirmos essa cartilha com “Negros”, em primeiro lugar, queremos prestar nossa homenagem a este quilombola fundamental para a história da luta contra o racismo no Brasil e cuja ausência nos livros didáticos e na “história oficial” da Literatura Brasileira é, por si só, uma prova do quanto à discriminação e a opressão racial se fazem presentes na sociedade brasileira. Mas não só isso. A poesia combatente de Solano traduz muito do que nós, do Quilombo Raça e Classe, queremos “discutir” com você leitor ou leitora. O poema foi escrito no momento em que, na África, milhões lutavam pe¬la independência e contra a opressão imperialista e, nos Estados Unidos, os movimentos pelos direitos civis expunham para o mundo a farsa da democracia dos ricos que, ao contrário das promessas feitas séculos atrás, nunca sequer pensou em garantir “igualdade, liberdade e fraternidade” para negros e negras. Uma situação que, poucos anos depois, em 1964, também foi comentada por Malcolm X, outro líder negro que é uma referência para nós: “Todos os países que, nos dias de hoje, estão se libertando das amarras do colonialismo estão caminhando na direção do socialismo. Eu não acho que isto seja uma coincidência. A maioria dos países que foram potências coloniais eram países capitalistas e o último bastião do capitalismo, hoje, são os Estados Unidos (...) Não há capitalismo sem racismo”. Nas páginas seguintes, iremos abordar e discutir a questão racial na visão do Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe. Pretendemos demonstrar como a própria História (e, inclusive, o conceito) do racismo se confunde com a do capitalismo. Na sequência, iremos abordar como a ideologia racista assumiu características específicas no Brasil, através de “teorias” como a do “embranquecimento” e da “democracia racial”. Centralmente queremos dar ênfase a nossa principal Campanha Internacional, contra a ocupação militar do Haiti pelas tropas da ONU – Chefiadas pelo Brasil. Por fim, queremos lhes apresentar quem é o Quilombo Raça e Classe e o que defendemos. Com este material, pretendemos contribuir e dar continuidade à luta. dos


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quilombolas de Zumbi aos marinheiros revoltosos de João Cândido, de guerreiras como Dandara e Luíza Mahin às nossas irmãs que se juntaram aos Panteras Negras, de Malcon X, Solano Trindade e tantos outros que vieram antes de nós. Uma luta que, ao contrário do que muitos afirmam hoje, é cada vez mais necessária, como prova o genocídio da juventude negra no Brasil, a persegui¬ção e superexploração de migrantes na Europa em crise ou as péssimas condições de vida em que se encontram a maioria de negros e negras, seja na África ou em qualquer outro canto do mundo. Uma luta que continua viva nas revoluções no Norte da África, nos protestos que varrem as ruas da Europa, na resistência do povo haitiano à ocupação vergonhosamente chefiada pelo governo brasileiro, ou em qualquer canto, Brasil afora, onde um negro ou uma negra se levanta contra o preconceito, a discriminação, a opressão e a exploração decorrentes do racismo. Uma luta que para nós, do Quilombo Raça e Classe, precisa ser travada lado a lado com as mulheres, os homossexuais, a juventude, quilombolas, indígenas e todos demais oprimidos. E, acima de tudo, em estreita unidade com os trabalhadores. Jamais depositando qualquer ilusão ou buscando qualquer tipo de “conciliação” com os patrões e os governos que, hoje, alimentam e se beneficiam do racismo e da exploração. Por isso mesmo, temos o orgulho de sermos filiados a CSP Conlutas – Central Sindical e Popular, que desde sua fundação tem se caracterizado pela luta cons¬tante e sem tréguas contra todo e qualquer forma de opressão e exploração, e com uma concepção que incorpora o setor sindical, popular, opressões e juventude. Neste mesmo sentido, esperamos que esse material também sirva como um instrumento para dialogarmos com o Velho Movimento Negro, buscando resgatar a história e a concepção de luta do povo negro brasileiro. Da mesma forma, esperamos que a cartilha seja uma ferramenta para todos os negros e negras, organizados ou não em movimentos, a se engajarem na luta contra a opressão. Boa leitura. E juntem-se a nós nesta luta, saudações negras; Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe Abril de 2013


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Neoliberalismo e racismo: uma perversa parceria “De fato, para a grande maioria da humanidade a globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades. O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades como a Sida [Aids] se instalam e velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, a despeito dos progressos médicos e da informação. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, a corrupção (...). Todas estas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao processo de globalização.” O texto acima do geógrafo negro Milton Santos (“Por uma outra globalização”, 2000). Vendida e propagandeada como uma “nova ordem mundial”. A globalização nada mais é do que a atual fase do capitalismo, o neoliberalismo, cujas teorias e práticas podem ser resumidas em uma frase: a submissão do Estado e de todos os aspectos da vida – da economia à cultura e a arte; da política ao mercado de trabalho – à lógica do mercado e aos interesses privados; ou seja, dos patrões, banqueiros e latifundiários. Pois, se é verdade que a “globalização” acirrou as múltiplas desigualdades e perversidades do capitalismo, também é um fato que isto tem sido ainda mais profundo para aqueles que, desde sempre, são considerados “menos iguais”. Exemplos não faltam. Ano após ano, relatórios das Organizações das Nações Unidas (ONU) e pesquisa com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgam dados que, com a hipocrisia típica dos “senhores do poder” não deixam dúvidas sobre isso. Primeiro, um exemplo de como o neoliberalismo afeta a todos, independente da raça. Em 2003, um relatório do Banco Mundial revelou que “uma minoria da população mundial (17%) consome a maior parte de recursos do mundo (80%), deixando quase 5 bilhões de pessoas vivendo com 20% restantes. Como resultado, milhões de pessoas vivem sem as necessidades básicas da vida -- alimentos, FOTO: www.1.bp.blogspot.com


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água, habitação e saneamento”. Comparando alguns dados sobre dois países como: o “coração” do capitalismo, os Estados Unidos, e a África do Sul, cuja história de luta contra o racismo é um marco mundo, podemos perceber as contradições do racismo no capitalismo.

Racismo no coração do capitalismo Em um artigo intitulado “War, Racism and the Empire of Poverty” (Guerra, racismo e o império da pobreza), Andrew Gavin Marshall cita um relatório produzido em novembro de 2009, um ano depois da explosão da última crise do sistema, que é exemplar de como ter Barack Obama à frente do governo não amenizou, em nada a situação dos negros(as). Segundo o relatório, apesar de comporem apenas 13% da população do país, negros acumulam as piores estatísticas sociais. Um dos dados mais alarmantes é o fato de que a taxa desemprego entre jovens homens negros, de 16 a 24 anos, era de 34,5%, equiparando-se aos índices da Grande Depressão de 1929, quando o capitalismo enfrentou sua maior crise até a atual. Esse número é mais de três vezes maior do que a taxa para a população em geral dos EUA. E entre as jovens negras, a situação não é nada diferente: o desemprego entre elas era de 26,5%, enquanto o índice para o resto da população de mulheres entre 16 e 24 anos era de 15,4%. Lembrando que negros compõem 13% da população dos EUA, é 40% da população carcerária; enquanto os brancos (60% da população) formam 34% dos encarcerados. Uma situação que tem como um de seus maiores símbolos o Pantera Negra Múmia Abu Jamal, “A voz dos sem voz”, que está preso injustamente desde 1981. E cabe lembrar que o fato de Obama ter chegado ao poder significou apenas que sua pena de morte foi transformada, em 2008 em prisão perpétua.

África do Sul: sem apartheid, mas ainda racista Em agosto de 2012, todo e qualquer ativista dos movimentos sociais e, em particular, dos movimentos negros, ficou estarrecido com a notícia de que a polícia sul-africana assassinou 34 operários (e feriu outros 78) durante a repressão a uma manifestação de 3.000 trabalhadores em greve na mina Marikana. E apesar de todas as simpatias que cercam Nelson Mandela e o Congresso Nacional Africano (CNA) por terem liderado a luta contra o Apartheid, é impossível não responsabilizá-los pelo o que ocorreu. Ao desviarem a luta direta – que, no final dos anos 1980, estava colocando o regime racista em xeque – para acordos com a burguesia branca, Mandela e o CNA criaram as condições para que o racismo sobrevivesse ao fim do Apartheid e provocasse tragédias como a de Marikana.


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A morte dos mineiros, todos eles negros, vinte anos depois do fim do regime racista, é, acima de tudo, um exemplo daquilo que afirmamos no início desta cartilha: “não há capitalismo sem racismo”.

A transformação do “21 de março” em “Dia Internacional Contra a Discriminação Racial” é um exemplo do quanto a luta dos sul-africanos inspirou e mobilizou negros e negras em todo o mundo. Motivo pelo qual MASSACRE AOS MINEIROS sulafricanos gerou grande o Massacre de Marikana é, literalmente, campanha de solidariedade internacional inaceitável. E os resultados não poderiam ser outros. Enquanto 5% da população apropriam-se de 43% do rendimento do país, a maioria dos negros (mais de 80% da população) vive sob condições de vida que pouco diferem da existente na época do Apartheid. Exemplos não faltam.

FOTO: www.ftpvisao.aeiou.pt/

A indignação deveu-se não só apenas à brutalidade e covardia do massacre, mas também porque ela fez lembrar os piores momentos da história da África do Sul, como o Massacre de Soweto (em junho de 1976) o de Shaperville, no dia 21 de março de 1960, onde centenas de jovens protestavam contra a “lei dos passes”, uma das marcas mais nefastas do Apartheid.

Hoje, 39% da população vive com menos de 432 rands por mês (8 rands equivalem a cerca de 1 dólar americano) e 25% dos sul-africanos vivem com menos de 1,25 dólares diários, considerado mundialmente o piso da miséria e da fome.Além de preservarem o domínio dos brancos – que, gentilmente, passaram a compartilhar seu poder com uma minúscula elite negra que floresceu na sombra do Estado. Outro exemplo gritante é que, sob o governo do CNA, a relação entre o rendimento de negros e de brancos continua quase a mesma dos tempos do infame apartheid. Em 1993 os brancos tinham um rendimento 8,5 vezes maior que o dos negros. Em 2008 essa relação era de 7,68 vezes. FOTO: www.rededemocratica.org/


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Capitalismo e racismo: lado a lado desde sempre “Longe de ser um resultado inevitável da interação entre povos diferentes, o racismo e a opressão racial emergiram na Europa durante a transição do Feudalismo para o Capitalismo. (...) Especificamente, o racismo emergiu na Europa Ocidental como uma conseqüência do tráfico negreiro, como uma justificativa ideológica para a escravidão. Existiam preconceito contras os estrangeiros (xenofobia) e distinções entre “bárbaros” e “civilizados”, mas não na forma do moderno racismo”.

Este excelente resumo histórico foi feito por Ahmed Shawki, no livro “Black Liberation and Socialism” (Liberação negra e socialismo, 2006., p 18). E, de fato, foi na época do ancestral do neoliberalismo, o Mercantilismo (nome dado à primeira fase do capitalismo, nos anos 1500, quando a burguesia começou a trilhar seu caminho em direção ao poder) que começou a ser construída a ideologia racista tal qual conhecemos hoje. Uma ideologia que já nasceu a serviço da exploração e opressão . Na época, através de uma de suas formas mais vergonhosas, criminosas e imperdoáveis: a escravidão. E, como, na época, a burguesia estava apenas no início de sua gananciosa jornada e acumulava seu precioso Capital na sombra da nobreza e da Igreja Católica que, mesmo sem o poder absoluto exercido no Feudalismo Medieval (mais ou menos dos anos 300 e 1400), ainda continuavam dando as cartas, foi na Bíblia que os poderosos foram buscar as bases para a construção do racismo.

“Amaldiçoados”: a origem do racismo de Marco Feliciano O mês de março de 2013, foi marcado pela explosão de protestos, nos mais diversos cantos do país e de forma constante nas redes sociais, contra a eleição do pastor e suspeito de estelionato Marco Feliciano, deputado federal do Partido Social Cristão (PSC-SP), para a Comissão de Direitos Humanos e Minorias do Congresso Nacional. A indignação tem motivos de sobra. Graças a manobras e acordos (espúrios, como sempre) dos partidos da base governista, PT à frente, o pastor se apoderou de uma Comissão que teria como papel combater exatamente gente racista, homofóbico e machista. Dentre os muitos absurdos divulgados pelo Deputado – como “a podridão dos senti-mentos dos homoafetivos leva ao ódio e ao crime” – um tem tudo a ver com a história que, desde sempre, liga capitalismo e racismo.


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Em suas pregações, Feliciano defende que os “africanos descendem de um ancestral amaldiçoado por Noé”. E como prova de que seu racismo é incorrigível, em uma entrevista à revista “Veja”, o sujeito ainda teve o descaramento de afirmar que nunca teria dito que “africanos são todos amaldiçoados. Até porque o continente africano é grande demais. Não têm só negros. A África do Sul tem “brancos” mais são minorias.

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O pior é que este argumento não é pura invenção da mente deturpada do pastor. Muito pelo contrário. Esta é primeira versão que o Capitalismo, também com a benção de uma Igreja, utilizou para colocar a opressão a serviço de sua ganância sem limites. Foi aí que nasceu o conceito de “raças”. “A descoberta de ouro e prata nas Américas, a expropriação dos recursos, a escravidão e reclusão de povos indígenas em minas, o começo da conquista da Índia, a conversão da África em uma reserva para a caça comercial de negros foram fatos que caracterizaram o amanhecer da produção capitalista. Estes procedimentos são os carros chefes da acumulação capitalista” Karl Marx, “O Capital”, p. 915

Raça: uma idéia a serviço do Capital Como os que se opõem às políticas de ações afirmativas (como cotas) gostam de lembrar – no caso, mergulhados nas piores intenções – do ponto de vista estritamente biológico e genético, de fato, nunca existiram “raças humanas”. Isto é um fato. Não existem diferenças entre nós que justifique tal coisa. Para se ter uma idéia do que estamos falando, basta lembrar que, segundo os pesquisadores do Projeto Genoma (que está mapeando o DNA humano), considerando-se os cerca de 25 mil genes que “formam” o ser humano, as diferenças “aparentes” entre grupos (como cor da pele, textura dos cabelos, formato do nariz etc.) são determinadas por um grupo insignificante de genes: são apenas 0,005% (cinco milésimos) do nosso

Saiba mais: Ideologia Segundo Marx, a cada momento histórico, a classe dominante formula e divulga (através das escolas, dos meios de comunicação, das igrejas e uma infinidade de formas e instituições) um série de idéias falsas, criadas para garantir e aumentar seu poder e sua exploração. É isto que chamamos de “ideologia”. Ou, como foi definido por Tom Bottomore, no Dicionário do Pensamento Marxista: “certas idéias se originam e se difundem porque sancionam [legitimam] relações sociais existentes ou promovem determinados interesses de classe”.


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DNA que diferencia um negro africano e um branco nórdico. O correto, de fato, seria falar em etnias e nações banir de uma vez por todas o conceito de “raças”. Contudo, o que os teóricos desta tese se esquecem (ou, propositalmente, deixam de lembrar) é que a idéia não só foi criada como hoje está amplamente disseminada pelo mundo. E mais: apesar de inexistente e falso, ele é concretamente utilizado, todos os dias, contra a vida de bilhões de não-brancos ao redor do mundo. Prova disto, inclusive, é o deputado Feliciano, cujo injustificável racismo é “explicado” em base aos argumentos que deram origem a esta história nefasta. Na época em que a burguesia começava a acumular o Capital, no período das Grandes Navegações e conquista de continentes e exploração de continentes inteiros, era preciso criar uma ideologia que justificasse (inclusive para os trabalhadores que eram explorados por eles) o seqüestro, tortura e escravidão de milhões de negros e negras começaram da África. Ou seja, o conceito de “raças” e os muitos estereótipos nos quais ele se sustentou (cor da pele etc.), como se lê citação nesta página, nasceu para “naturalizar” a escravidão. Para justificar uma suposta diferença entre os conquistadores brancos europeus e o restante da humanidade. Uma idéia fundamental para garantir o privilégio de tratar a África como “depósito de peças” e seres “menos humanos”. Ou seja, “na carne mais barata do mercado”. “Eis aqui, a origem da escravidão negra. A razão era econômica, não racial; isto não tinha a ver com a “cor” da mão-de-obra, mas como o fato dela ser barata. (...) O aspecto físico dos homens, seu cabelo, sua cor e dentição, suas características “subumanas” tão alardeadas, foram apenas racionalizações posteriores utilizados para justificar um fato econômico simples: as colônias precisavam de mão-de-obra e empregou o trabalho Negro, porque era ela a mais barata e a melhor. Isto não era Feliciano é mais um um teoria, foi uma conclusão prática” reprsentante Eric Willians “Capitalism and Slavery” (Capitalismo e escravidão, p. 30).

E lembrando que, na época, a Igreja ainda era a responsável pela controle ideológico e a propagação dessas falsas ideias. A base do conceito remete a uma história da mitologia cristã contada na Bíblia, envolvendo o personagem Cam (Can ou, ainda, Cão, a depender da tradução), que teria FOTO: www.clichoje.com.br

da opressão capitalista


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Saiba mais: Etnia

ou Nações

Termo derivado do grego ethnos ou ethnikos, utilizados para designar “gente ou nação estrangeiras”. Hoje, refere-se a comunidades unidas e definidas por afinidades lingüísticas, culturais ou territoriais.

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sido filho de Noé e, depois de desrespeitar o pai, foi amaldiçoado com a seguinte condenação: “Que ele seja o último dos escravos de seus irmãos” (Gênesis, 9: 5-27). Ainda segundo o texto bíblico, Cam teria sido marcado por uma mancha escura no rosto, para que todos o reconhecessem. Esta ideia foi retomada em um congresso realizado pela cúpula católica em meados do século 16, na Espanha, onde foi discutido a quem caberia o “fardo” da escravidão.

As “opções” eram os povos indígenas das Américas ou os negros africanos. Evidentemente, ninguém questionava que a escravidão como fator fundamental para a expansão do poder econômico, inclusive do próprio Vaticano. A conclusão foi que os povos indígenas seriam descendentes diretos de Adão e Eva (e viviam numa espécie de Jardim do Éden) e, conseqüentemente, eram dotados de uma “alma” intacta e poderiam ser catequizados, algo fundamental para o projeto da Contra-Reforma, criado para combater o surgimento dos protestantes.Já os negros tinha um “pecado original” e, consequentemente, não possuíam uma alma, o que os colocava no mesmo nível dos animais ou “objetos”. Ou seja, predestinados à servir como escravos, já que seriam de uma “espécie” diferente do resto da humanidade. Nascia, assim, desta forma funesta, o conceito de “raças”, a serviço da acumulação colonialista e exploração capitalista, como Marx nos lembra na citação nesta página. Um objetivo que faz, inclusive, que a forma de escravidão inaugurada pelo burguesia seja diferente de toda e qualquer outras que tenha existido antes dela. Mais do que servos ou inimigos escravizados em disputas e guerras, os escravos da burguesia se transformaram em “mercadorias”; moeda valiosa no tráfego negro, “peça” fundamental para todo o processo produtivo.

Eugenia: a “ciência” a serviço do Imperialismo Foram pelos mesmos motivos, exploração e maiores lucros, que o conceito de “raças” ganhou sua forma atual, e ainda mais força, a partir do século 19. Em meados dos anos de 1800, durante a II Revolução Industrial, e quando a Igreja já havia deixado de ser o centro do poder, foi a vez da “ciência” renovar a ideologia. E a resposta veio na forma das teses eugênicas (veja abaixo), formuladas sob medida para o projeto e a fase Imperialista do poder burguês, que tinha como principal objetivo


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tomar de assalto, explorar e expropriar ainda mais a África, a Ásia e as Américas. Desta vez não só para retirar seus recursos naturais, mas também para fazer escoar a crescente produção, alimentada pelo início do uso do petróleo e da eletricidade na produção. Em poucas palavras, as teses eugênicas estão por trás das idéias de raças “superiores” e “inferiores”, um absurdo “comprovado”, na época, por bizarras e sinistras experiências (sem nenhuma base ou valor científico), como a medição de cérebros, a análise da capacidade intelectual e umas tantas outras bobagens criminosas. Algo que muitos “intelectuais” e demais agentes da burguesia da época e ainda hoje descaramento “douram” com ares humanitários: o que os europeus estavam fazendo com o resto do mundo era praticamente levar a “civilização” àqueles que, por serem inferiores na escala humana, jamais poderiam desenvolvê-la. Não por acaso, estas idéias foram legitimadas e propagadas pela principal potência imperialista da época: o Império Britânico. Foram nas universidades de Londres, que surgiu, em 1908, a “Sociedade de Educação Eugênica” que se encarregou de dar verniz “acadêmico” e “intelectual” para o saque imperialista.

Saiba mais:

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Parte das teses que sustenta- win, que Galton apresentou como uma ram a consolidação do conceito de raça “nova ciência”, a eugenia, dedicada foi baseada numa pseudo-ciência de- “ao estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar senvolvida Francis Galton (1822 – 1911), na segou empobrecer as qualiunda metade dos anos dades raciais das futuras de 1800, e propagerações seja física ou mentalmente”. As congadas por outros “cientistas” como seqüências destas Arthur Gobineau teses são inúmeras, no decorrer do lamentáveis e esséculo. tiveram por trás de O termo, alguns dos maiores derivado do grego crimes contra a hu(“eu”/bom e “genmanidade: do Nazismo esis”/geração) e traao Apartheid; da segduzido como “bem cis regação institucional nos T FO Ga lto nascido”, deu nome a Estados Unidos às demonn, t eórico da Eugenia uma distorção grosseira das strações cotidianas de racismo e teorias da evolução de Charles Darsegregação que vemos mundo afora.


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A eugenia na versão brasileira: Nina Rodrigues e Silvio Romero FOTO: www.obviousmag.org

Foram eles que, em livros como Os Africanos no Brasil (1932), expuseram de forma bastante contundente a ideologia racista:

LOGO DA CONFERÊNCIA internacional de eugenia de 1921

Aqui no Brasil, dois dos maiores porta-vozes das teses eugênicas foram Nina Rodrigues – que, como exemplo dos bizarros experimentos a que nos referimos, se apoderou da cabeça decepada de Lampião para “estudar” as origens de seus atos violentos – e Sílvio Romero.

“A raça negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incontestes serviços à nossa civilização, por mais justificadas que sejam as simpatias de que a cercou o revoltante abuso da escravidão (...) há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo”. “A constituição orgânica do negro, modelado pelo habitat físico e moral em que se desenvolveu, não comporta uma adaptação à civilização das raças superiores, produtos de meios físicos e culturais diferentes”.

Piada que não tem graça A reprodução de estereótipos baseados na tentativa de animalização de negros e negras é uma das mais fortes características do racismo brasileiro. No final de 2012, o “comediante” Danilo Gentilli, representante de um tipo de humor atolado em preconceitos, enviou o e-mail abaixo em respostas aos protestos de Thiago Ribeiro, um ativista do movimento negro, contra as constantes piadas racistas divulgadas por Gentilli. FOTO: www.entretenimento.r7.com


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As bases ideológicas do racismo brasileiro: coisificação, teoria do embranquecimento e democracia racial Para que entendamos a profundidade do racismo em nosso país, é preciso mergulhar ainda um pouco mais no universo das ideologias e justificativas que as classes dominantes, em distintos períodos históricos, utilizaram para superexplorar a população negra. Não por acaso, em nossas terras a história acompanhou, passo a passo, as ideologias européias. E, quando necessário, as adaptou para “versões nacionais”, como a teoria do embranqueci mento e o mito da democracia racial. No início da colonização, a tese de que os africanos eram “amaldiçoados” foi fundamental para desenvolver a base de sustentação de qualquer sistema escravocrata: a violência sem limites. “O escravo era, ele próprio, uma mercadoria de propriedade privada, a quem era perpetuamente negada a posse dos meios de produção, o controle sobre o seu trabalho, a produção e reprodução (além de seu próprio corpo). Isso não acontecia com o servo nem com os camponeses da Antiguidade, que era preso à terra, não ao seu senhor (chegando a ter alguns instrumentos de produção). Na Grécia e Roma, também, a escravidão correspondia a uma parcela menor do território e da produção e convivia com diversos outros sistemas de trabalho”. Frank M. Snowden, “Before color prejudice: the ancient view of blacks” (Antes do preconceito de cor: a antiga visão sobre os negros, p. 63)

Compondo uma gigantesca maioria da população colonial, negros e negras precisavam ser controlados “com rigor”. Para se ter uma idéia dos temores da elite branca, vale lembrar que, em Minas Gerais, em 1742, no auge do período da mineração, 70% da população era escrava. Já em Salvador, no ano de 1775, dos 35.253 habitantes da cidade, apenas 12.720 (36%) eram brancos. Parte fundamental da manutenção do poder baseou-se assim na “coisificação”, ou retificação, como diria Marx: a “transformação dos seres humanos em seres semelhantes a coisas que não se comportam de forma humana. A retificação é um caso especial de alienação”, da “separação” do indivíduo dos meios de produção e da até mesmo da consciência de si próprio.Na lógica escravocrata, a melhor forma disto era a repressão


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violenta. E, também aqui, as teses da Igreja serviram como base para este crime. E, talvez, a mais explícita delas tenha sido formulada por uma figura que é presença garantida nos livros didáticos (e não por esta declaração), o Padre Antônio Vieira. Traduzindo a seu modo as orientações do Vaticano, o Padre Vieira defendia que “os negros foram escolhidos por Deus e feitos à semelhança de Cristo para salvar a humanidade através do sacrifício” e que a escravidão era “um estado de milagrosa felicidade, por meio do qual o africano podia se salvar do inferno”. Uma teoria defendida em seu “Sermão 14”, pronunciado em 1633 aos escravos da Irmandade dos Pretos de um engenho: “Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado (...) porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão (...) Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isso se compõe a vossa imitação, que se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio”. xo:

Uma tortuosa lógica, que não era exclusiva de Vieira, como provam as citações abai-

Em 1758, um padre defendia: “Nas fazendas, engenhos e lavras minerais (...) a primeira hospedagem que lhes fazem logo que comprados (...) é mandá-los açoitar rigorosamente, (...) inculcando-lhes, que só eles nasceram para competentemente dominar escravos, e para serem por eles temidos e respeitados, (...) e para que desde o princípio se façam, e sejam bons”. Outro religioso, o jesuíta Jorge Benci, que se dizia defensor de castigos “moderados”, pregava, em 1700: “Haja açoites, haja correntes e grilhões, tudo a seu tempo e com regra e moderação de vida e vereis como em breve tempo fica domada a rebeldia dos servos; porque as prisões e acoites (...) lhes abatem o orgulho e quebram os brios”. Silvia Hunold Lara, “Trabalhadores Escravos”, publicado na Revista dos trabalhadores (1989, pág. 7).

Teoria do embranquecimento: “brancura e progresso” Na medida em que o capitalismo se desenvolvia no Brasil, a ideologia tinha que ser ajustada. Foram os mesmos Nina Rodrigues e Silvio Romero que contribuíram para a formulação da novas teses “científicas” para justificar a opressão e a exploração.Apesar de suas ressalvas em relação à miscigenação, os intelectuais brasileiros acreditavam que “a vitória na luta pela vida, entre nós, pertencerá no porvir [futuro], ao branco”. Uma crença alimentada por uma “necessidade”, dentro de sua lógica racista: para haver


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“progresso”, seria necessária “ordem”, algo que só os brancos, ou seja, os “civilizados”, poderiam impor. A chamada “teoria do embranquecimento” contaminou todas as esferas da elite brasileira. Foi abertamente defendida por parlamentares que estimularam a massiva migração de europeus. Inspirou artistas que a mesclaram com a tese da maldição (vide o quadro).

A mesma tese também animou um “profeta do embranquecimento”: João Batista Lacerda, representante brasileiro no Primeiro Congresso Universal de Raças (Londres, 1911), que defendeu que o Brasil seria completamente branco, no máximo, em um século. E se é verdade que a estapafúrdia tese jamais poderia se transformar em realidade, também é um fato que ela cumpriu um importante papel naquilo que mais interessava para seus defensores: a marginalização social de negros e negras e, conseqüentemente, a manutenção de níveis de exploração próximos ao da escravidão. Exemplo disto foi o “embranquecimento” do mercado de trabalho assalariado que começava a se desenvolver. Segundo George Andrews, no livro “Negros e brancos em São Paulo” (1978, p. 112), o censo realizado na cidade, em 1893, “mostrou que 72% dos empregados do comércio, 79% dos trabalhadores das fábricas, 81% dos trabalhadores do setor de transporte e 86% dos artesões eram estrangeiros”. Ou seja, brancos. A mesma situação detectada em 1902, quando a força de trabalho na cidade era composta por 90% de imigrantes. Já em 1913, o “Correio Paulistano” estimou que 80% dos trabalhadores do setor de construção eram italianos; porcentagem semelhante, em relação aos têxteis. Todos nós festejamos o fato de que, pela primeira vez, desde 1972, a população negra apareceu com uma representação mais próxima da realidade nacional: 51%.Onde durante o período do regime da ditadura Militar ocultava-se do censo populacional o quesito “cor” e “raça”.

FOTO: www.planeta.coppe.ufrj.br

No quadro de Modesto Broccos, pintado em 1895, a história da maldição voltou à tona, mas já embalada pelas teses eugênicas. Na imagem, a velha negra ergue as mãos para os céus para agradecer que sua filha “mestiça” (ou seja, inevitavelmente fruto de um estupro) casou-se com um branco o que fez com que seu neto fosse “salvo” do tal pecado original (como indica o fruto na mão do garotinho, que faz um gesto “perdoando” sua avó pela sua negritude.


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Contudo, este número guarda uma enorme contradição derivada da “teoria do embranquecimento”: deste total, apenas cerca de 7% se declaram negros e os demais ficaram sobre a equivocadíssima definição de “pardo” (que consideramos negros, como a maioria do movimento). Vale lembrar que, fruto das lutas, o resultado de 2010 é inegavelmente melhor do que o de 1980, quando os não-brancos responderam ao censo com 136 “cores” diferentes, como alva escura, branca morena, branca suja, bronzeada, cor firme,morena bem chegada, parda clara, pouco clara, puxa para branca, quase negra ou regular. Um absurdo que foi devidamente interpretado pelos sociólogos responsáveis pela pesquisa. O total de 136 cores que apareceram demonstra que “a Identidade e a consciência étnica são penosamente escamoteadas pelos brasileiros. Ao seja a auto-analisarem, procuram sempre elementos de Identificação com os símbolos étnicos da camada branca dominante”.

FOTO: www.fernandovasconcelos.com/

Porta-vozes fundamentais da ideologia dominante, os meios de comunicação, até hoje, tentam manter viva a “teoria do embranquecimento”, com o patrocínio do governo Dilma. Em um recente anúncio comemorativo dos 100 anos da Caixa Econômica Federal, o escritor negro Machado de Assis, apesar de suas próprias limitações em aceitar sua negritude, foi definitivamente “embranquecido”, sendo representado por um ator quase albino.

“Eu não sou preto, né?” Amparada em seu polpudo renpreto, né?”. O absurdo praticamente dimento e iludido pela ideologia repetiu a fala do “fenômeno” Rodominante, o ídolo do futebol naldo Nazário que, em junho de Neymar, em abril de 2010, ao 2005, comentou o racismo nos ser perguntado “Já foi vítima estádios afirmando: “Acho que de racismo? respondeu: “Nuntodos os negros sofrem (com o ca. Nem dentro e nem fora de racismo). Eu, que sou branco, FO br m. TO co . : ww a r campo. Até porque eu não sou sofro com tamanha ignorância”. w.portaldafei


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Os muitos estragos do mito da democracia racial

A versão popular desta tese é que “somos todos brasileiros, iguais e, no fundo, todos mestiços”, algo que, milagrosamente, teria nos imunizado dos efeitos de 400 anos de escravidão. O nome desta “tese” é mito (ou farsa) da democracia racial e é esta ideia que está por trás da resistência (senão a completa negativa) dos brasileiros em encarar o debate racial. A frase que melhor expressa essa ideia é “no Brasil não há racismo”, repetida à exaustão não só pelo próprio povo, mas também nos meios de comunicação, nas salas de aula e Brasil afora. E, como toda ideologia, este “mito” contamina inclusive (ou principalmente) a cabeça dos próprios negros e negras que, muitas vezes, não “enxergam” o quanto o racismo afeta suas vidas Como veremos a seguir esta ideia não se sustenta na realidade. E, mesmo no campo ideológico, a idéia de que brasileiros se vêem como iguais cai facilmente por terra, como demonstram alguns dados da pesquisa da Fundação Perseu Abramo, a seguir: Em uma pesquisa realizada pela Fundações Perseu Abramo e pelo instituto alemão Rosa Luxemburg Stiftung, em 2003, as respostas dados pelo entrevistas revelam a farsa da “democracia racial”. Vejam a porcentagem da população que concorda parcial ou completamente com frases exemplares do racismo brasileiro:  20,6% “As únicas coisas que negros sabem fazer são música e esportes”  26,2% “A maioria dos negros é pobre porque não trabalha”  29,8% “Negro bom é negro de alma branca”  12,2% “Negro quando não faz besteira na entrada, faz na saída”

FOTO: www.transversaldotempo.blogpsot.com

Poucos países fizeram e fazem tanto esforço como o Brasil para negar sua herança racista. Onde quer que se vá é possível ouvir que o nosso país é um “paraíso racial”, um lugar onde “mulatas” sorridentes e pretos faceiros convivem com brancos em paz e harmonia. E, além disso, possuem as mesmas oportunidades e são tratados sem nenhuma distinção pelo Estado.


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No decorrer de nossa história, a ideia de que todos brasileiros “são iguais”, independentemente de sua origem étnico-racial, tem sido amplamente realimentada pela elite dominante e seus governos de plantão. Algo que, diga-se de passagem, também está por trás dos discursos de Lula e Dilma e a farsa de “um país de todos” que tem embalado as campanhas petistas. Uma nova forma de se referir a uma velha farsa, cujas bases foram lançadas por Gilberto Freyre em seu famoso livro “Casa Grande e Senzala” escrito em 1933. Em suma, Freyre defendia que existia uma pré-disposição dos portugueses em conviver com outras “raças”, fruto da ocupação de Portugal por árabes, no período medieval. Seguindo o mesmo raciocínio, o escritor pernambucano chegou à conclusão de que, aqui, a miscigenação não só foi bem-vinda e positiva. Veja abaixo a sua citação : “Híbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se construiu mais harmoniosamente quanto às relações raciais: dentro de um ambiente de quase reciprocidade cultural que resultou no máximo aproveitamento dos valores e experiências dos povos mais atrasados pelo adiantado; no máximo da contemporização da cultura adventícia com a nativa, da do conquistador com o conquistado” Gilberto Freyre, “Casa Grande & Senzala”, 1987, p. 91.

Para sustentar seu malabarismo intelectual, Freyre não titubeou sequer em por terra abaixo a hipocrisia do celibato que supostamente seria imposto aos padres que atuaram no período colonial. Tudo isto em prol da “melhoria da raça”: “O intercurso sexual de brancos dos melhores estoques — inclusive eclesiásicos, sem dúvida nenhuma, dos elementos mais eugênicos na formação brasileira — com escravas negras e mulatas foi formidável. Resultou daí grossa multidão de filhos ilegítimos — mulatinhos criados com a prole legítima, dentro do liberal patriarcalismo das casas-grandes; outros à sombra dos engenhos de frades; ou então nas “rodas” e orfanatos” Gilberto Freyre, “Casa Grande & Senzala”, 1987, p. 91.

Essa ideologia fez enormes estragos na sociedade brasileira, como foi bastante bem sintetizado pelo historiador Ricardo Salles: “Segundo esta visão, a flexibilidade, a tolerância e a mestiçagem seriam características principais da história brasileira (...). O resultado deste fato é que no Brasil não haveria racismo como nos outros países (...). As desigualdades entre brancos e negros seriam devidas a problemas sociais e não a qualquer ideologia racista existente e operante na sociedade brasileira” É está visão que, hoje, por exemplo, alimenta os argumentos de muitos que defendem que não deveriam existir “cotas raciais”, mas apenas “cotas sociais”. Como também, é este “mito” que dificulta, em muito, a construção, por parte de negros e negras, do que chamamos de identidade racial, um fator fundamental para que se organizem contra o racismo.


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Requentando a velha farsa: o Estatuto da (des)Igualdade Racial

Exemplo lamentável disto foi o que ocorreu com o Estatuto da (des)Igualdade Racial, aprovado por Lula, em 2010. O texto construído pelo movimento negro nos anos de luta anteriores foi totalmente mutilado em acordos promovidos pelo senador petista Paulo Paim e a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) com os setores mais conservadores do congresso, como o comprovadamente corrupto Demóstenes Torres (DEM-GO), representante da bancada ruralista. O resultado não poderia ser outro: se não nega completamente a existência do racismo, o Estatuto “ameniza” de forma absurda a discriminação racial no país e, principalmente, tenta evitar que medidas concretas sejam tomadas para combatê-lo.

FOTO: www.oqueeuvejodaquibyplaka.blogspot.com

Para começar, foram retirados, de todas as partes do texto, os termos “raça”, “escravidão” e “identidade negra“. Para piorar, também foram excluídas quaisquer menções às cotas ou à regulamentação e titulação das terras quilombolas. Ou seja, resultou num texto que, assim como o velho mito da democracia racial, não tem nada a ver com a história real e a vida dos negros e negras brasileiros. Um desserviço vergonhoso do governo petista e dos setores elitizados da direita organizada.

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A persistência do mito é estimulada cotidianamente por diversos instrumentos, como o sistema educacional e a mídia, que difundem a idéia da negação das diferenças, tentando nos convencer, o tempo inteiro, que ser negro não significa absolutamente nada.


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IV

As muitas faces da opressão racial no Haiti e no Brasil 9 ANOS DE OCUPAÇÃO MILITAR NO HAITI DE LULA A DILMA

Fora Tropas brasileira do Haiti!

Graças ao cultivo da cana de açúcar, o Haiti se converteu em uma das colônias mais ricas do mundo. Os ecos da Revolução e as aspirações de liberdade chegaram à ilha através de Toussaint Louverture, o Espartaco Negro, que, em 1804, levou o Haiti à conquista de sua independência, numa revolução na qual mais de 200 mil pessoas, a maior parte negros, morreram. Foi não só a primeira revolução anti-colonial triunfante na América Latina dirigidas pelos negros e negras escravizados como, também, a primeira revolução vitoriosa de escravos no mundo.

A Primeira República Negra Revolucionária! A guerra pela independência na América espanhola e uma larga série de guerras civis que sucederam impediram também a unidade de ambos os processos revolucionários. Ao mesmo tempo, a França, que ameaçava invadir o país, exigiu uma compensação no valor de 150 milhões de francos em ouro, para indenizar os colonos e só reconheceu a independência do Haiti, em 1838, sobre a base da aceitação dessa “dívida”, agora reduzida a 90 milhões de francos (cujas parcelas foram pagas pelo Haiti até 1883). Durante o século XIX, o peso dessa dívida nas finanças do Haiti, a devastação das florestas e o empobrecimento do solo causado pela exploração excessiva durante o período colonial afetaram o desenvolvimento da nova República negra. Os choques internos originaram várias guerras civis e até a divisão temporária do país. Sucederam-se golpes de Estado, motins e golpes.

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O Haiti é o país mais pobre do continente. Dois terços de sua população vive na mais absoluta pobreza. Muitas famílias sobrevivem com menos de um dólar por dia e a expectativa de vida média da população chega a apenas 45 anos. Isto é resultado de brutal pilhagem colonial e imperialista que o país sofreu ao longo de sua história. História que também está marcada por lutas heróicas.


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DOIS BRASIS: o racismo divide até a nossa classe Apesar e de forma contrária a todas as teorias que foram ou possam ser criadas para mascarar o racismo no Brasil, qualquer negro ou negra deste país conhece, literalmente na pele, os efeitos cotidianos da opressão racial: das humilhações que se perpetuam nas piadas à violência policial ou protagonizadas por neofascistas declarados ou fascistóides da classe média; dos salários miseráveis às enormes dificuldades de acesso à saúde e educação de qualidade. A verdade é que o Brasil é uma terra onde o racismo é tão enorme e profundo que o abismo por ele criado deu origem a dois países. Dois Brasis. Um branco e outro negro.

MERCADO DE TRABALHO: opressão a serviço do Capital e do lucro A combinação entre a exploração econômica e o racismo acirrou-se no início do processo de industrialização brasileiro a serviço do projeto de inserção do país no mercado capitalista moderno. No final da década de 90, o Sindicato dos Bancários de São Paulo fez um levantamento que demonstrava que, apesar de todas as dificuldades, os trabalhadores negros/as têm quatro vezes mais chances de ser empregados num banco estatal do que num privado. As profundas diferenças salariais existentes entre negros e brancos originam uma situação óbvia. Segundo dados também divulgados pelos debates do movimento negro brasileiro, os negros representam 69,3% da camada constituída pelos 10% mais pobres e, apenas, 8,2% da constituída por 1% mais ricos. Para subsidiar o debate, iremos listar abaixo outros dados que, coletados em diferentes fontes, ratificam a profunda relação em marginalização racial: Crianças e jovens negros começam a trabalhar mais cedo comparativamente aos brancos. Na região metropolitana de Salvador, por exemplo, cerca de 53,6% dos jovens negros se dedicam apenas aos estudos; enquanto entre os brancos, este número salta para 72,3%. A jornada de trabalho dos negros é duas horas superior a dos brancos: em média, os brancos trabalham 42 horas semanais, contra 44 horas de trabalho dos negros e negras. Na região de S. Paulo, 45,3% dos trabalhadores negros possuem jornada superior à


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jornada lega ao passo que 38,6% dos brancos encontram-se nesta situação.

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UM ABISMO DE RAÇA E CLASSE

 Média salarial (IBGE – 2010) Outra faceta fundamental dos projetos neoliberais é a precarização e  Indígenas: R$ 345,91 vulnerabilidade do trabalho. Ou seja, trabalhadores sem carteira assinada,  Pardos: R$ 496,04 “autônomos”, empregados domésticos  Pretos: R$ 539,96 etc. Em Salvador, enquanto 32,2% dos trabalhadores brancos viviam  Amarela: R$ 994,22 nesta situação no final dos anos 90, o índice entre negros chegava a 42,2%.  Brancos: R$ 1.020,00 Já no Recife, a relação era de 36,8% (brancos) e 44,7% (negros). E em POA 67% dos trabalhadores da construção civil são Negros (IPEA)

Em nível nacional, enquanto no setor privado, 59,7% dos trabalhadores brancos têm carteira assinada, somente 39,8% dos negros têm acesso a estes direito e ao aplicarmos corte de gênero esse número aumenta. Há muito se sabe que, em média, uma mulher negra ganha um terço do que é pago aos homens brancos. Contudo, cabe ressaltar que, mesmo entre as mais exploradas, o racismo impõe diferenças: a renda média de uma empregada doméstica branca é de R$ 405, a de uma negra é de R$ 354 (12,4% a menos).

EDUCAÇÃO: fora da escola ou acorrentados à submissão do racismo no mundo Defendemos uma politica imediata de alfabetização e formação escolar da população negra, que vise por um fim á enorme desigualdade que existe hoje,neste campo, entre negros e brancos neste sentido, também exigimos uma completa modificação na estrutura educacional brasileira(básica,fundamental,ensino médio, técnico, profissionalizante e ensino superior) que vise a eliminação de todos os traços racistas, discriminatorios e esteriotipados em relação a população negra e pobre. A inclusão da disciplina de História da Àfrica e do Negro e Indigena nos curriculos escolares, visa a conscientização da população em relação à questão Racial e Indigena – LEI 10.639 e 11.645 com suas implicações e implantação sem corte de verbas. Reivindicamos que o governo faça uma campanha de permanência dos alunos e alunas da periferia na vida escolar, pois os negros e negras são os primeiros setores sociais a abandonar os bancos escolares para ajudar suas famílias a complementar a renda, ou mesmo por falta de perspectiva negada desde sempre aos negros neste país.


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SAÚDE: uma morte premeditada pelo Estado e as lutas contra a privatização

Entendemos que são milhões de trabalhadores que sofrem com o descaso do governo, a falta de acesso e o sucateamento da rede hospitalar pública (enquanto os ricos tratam de suas doenças em verdadeiros hotéis cinco-estrelas) as mazelas provocada pela corrupção, e pelas privatizações na Saúde com novos modelos de gestão: como as OSS, Ocips e Fundações de direito privado promovida pelos gestores das três esferas de governos . O governo Dilma tem aprofundado os modelos privatizantes e dado continuidade aos ataques Neoliberal iniciado por Lula com a proposta da EBSERH nos HUs (Hospitais Universitários), Universidades Públicas e nos Hospitais Públicos, comprometendo o Financiamento do SUS. Quando combinada com as desigualdades relacionadas ao racismo, esta situação torna-se ainda mais letal. Uma pesquisa intitulada Saúde da População Negra no Brasil, coordenada por Fernanda Lopes, com dados referentes ao ano 2000, revelou que, por exemplo, na faixa de 10 a 64 anos, a taxa de óbito por transtornos mentais, doenças infecciosas e relacionadas à gravidez e ao parto entre os negros é, em média, o dobro da registrada entre os brancos, uma diferença que se repete, ainda que em menor grau, em 14 das 16 causas de mortes analisadas no levantamento divulgado. Segundo a pesquisadora, no caso das mortes por transtornos mentais, o fato de eles estarem geralmente relacionados ao alcoolismo e ao consumo de drogas é um indicativo da falta de expectativa gerada pelas desigualdades econômicas e sociais e pelo preconceito: “Enquanto que, entre os brancos, o transtorno mais comum é a demência, ou seja, algo fisiológico, entre os negros são doenças decorrentes do estresse cotidiano e da falta de esperança”. Já o índice de mortes provocadas por doenças infecciosas na população adulta, que é de 17,14 por cada 100 mil hebitantes entre os brancos, chega a 30,58 entre os habitantes negros. Considerando-se isoladamente os casos de infecção por HIV, os números vão para 15,64 por mil (brancos), contra 23,13 por mil (negros). Este tipo de câncer pode ser tratado (com 100% de possibilidade de cura) quando detectado rapidamente. Mais isto geralmente não acontece devido à dificuldade de acesso à rede pública de saúde. Considerando-se que problemas de saúde relacionados à gravidez também incluem aqueles decorrentes de abortos espontâneos ou não, que

FOTO: www.tribunadonorte.com.br

Em um país onde os governantes fazem questão de atacar diariamente as condições de vida e trabalho da população, os problemas de saúde, obviamente, atingem a todos,não resta dúvida que a origem social e étnica dos negros e negras faz deste setor os menos favorecidos pelo SUS e já se somam mais de 30 anos de ataques a esse sistema público de saúde no país.


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ocorrem em péssimas condições, tem-se visto um quadro bastante grave, que afeta com muito mais profundidade as mulheres negras, base da pirâmide social. Exemplo destas doenças é a anemia falciforme – uma alteração da célula sanguínea, de origem genética, ou seja, transmitido dos pais para os filhos, que pode afetar o sistema reprodutivo feminino – geralmente não é detectada pelos médicos porque eles, ao diagnosticarem os sintomas (dores no abdômen e nos ossos) simplesmente não levam em consideração essa possibilidade.Outro problema genético mais comum entre os negros é a deficiência de lactose, uma enzima importante para a digestão do leite, que faz com que as crianças cresçam com um quadro de desnutrição crônica que prejudica o seu desenvolvimento físico e mental.Quanto aos homens negros, pesquisas revelaram que eles são muito mais suscetíveis ao desenvolvimento de um quadro de hipertensão, que pode provocar enfartes e acidentes vasculares cerebrais. Segundo pesquisadores da USP existe uma morte branca, definida como “morte morrida”, e uma morte negra, decorrente do “infortúnio.

VIOLÊNCIA: a “cor padrão” de um verdadeiro genocídio

Segundo o relatório do Desenvolvimento Humano (PNUD), publicado em 2005, os registros do sistema de saúde, baseados nas declarações de óbito, não deixam dúvidas de que “ser preto, jovem, de sexo masculino e solteiro significa ser o alvo preferencial da violência letal no Brasil”. Mesmo quando escapam da “morte desgraçada”, os jovens negros têm que conviver com o medo e humilhações permanentes. Uma pesquisa feita em 2003, pela Universidade Cândido Mendes (RJ), com 2.250 cariocas entre 15 e 65 anos revelou que 37,8% dos entrevistados tinham sido parados alguma vez pela polícia. Dos que se declararam pretos, mais da metade (55%) disse ter sofrido revista corporal, contra 38,8% dos pardos e 32,6% dos brancos. A mesma pesquisa também indicou que os brancos constituíam 60% da população total do estado, 40% da população carcerária e apenas 30% das vítimas policiais. Já os que se declaravam pretos, que eram apenas 8% da população, totalizavam 33% dos presos e 30% dos assassinados por policiais. Em 2010, o pesquisador Julio Jacobo Waisefist, pesquisador do Sangari e responsável pelo estudo realizado do “Mapa da Violência” iniciou estes estudos, do Mapa da Violência, atualizando em 2012.

FOTO: www.coletivodar.org

Ser negro e sobreviver à “morte desgraçada” está longe de significar viver em segurança. Muito pelo contrário. Se é verdade que a violência e a criminalidade são preocupações constantes de boa parte da população brasileira, também é um fato que, para negros e negras, isto é muito mais do que uma preocupação, é uma realidade com a qual se pode encontrar em cada esquina.


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Quando o pesquisador do Sangari e responsável pelo estudo realizado do “Mapa da violência 2012”, diz que os dados são “alarmantes” e representam uma “pandemia de mortes de jovens negros”, não está cometendo nem um exagero na comparação, mas usa um adjetivo sutil para caracterizar o que a muito denunciamos, que há um extermínio da juventude negra no Brasil. Realmente os índices são para se ter uma reação de pânico e comoção. Principalmente se comparado aos resultados apresentados da pesquisa que apontam estados, onde a morte de jovens negros ultrapassa a marca de 100 homicídios para cada 100 mil habitantes, se calcularmos os mortos no ano - o que, em números absolutos, com certeza serão superiores à média anual de conflitos como o da Chechênia (25 mil), entre 1994 e 1996, da guerra civil de Angola (1975-2002), com 20,3 mil mortos ao ano, a média também é superior as 13 mil mortes por ano registradas na Guerra do Iraque desde 2003, inclusive superior ao do massacre do Carandiru “por dia”, numa referência à morte de 111 presos no centro de detenção do Carandiru (SP), em 1992, ou até mesmo com as recentes mortes dos 107 palestinos. Um dos fatores apontados pela pesquisa para explicar a migração da violência de cidades de grandes centros para menores, e também o aumento dos conflitos agrários ou ambientais, zonas de fronteira ou rotas do tráfico – Fato que temos constatado nos conflitos quilombolas e indígenas por todo o Brasil. É importante caracterizar que apesar do aumento dos índices de violência terem aumentado absurdamente em estados não muito comuns as estatísticas, não significa que houve reduções nas grandes capitais, até porque a própria realidade em estados como São Paulo e Rio, tem nos espantado dia a dia. Desde a década de 90 durante o governo FHC quando foi efetuada a reforma do estado brasileiro, retirando da administração direta do estado, pastas sociais como educação, saúde, assistência social e ciência e tecnologia, possibilitou a entrada de organizações da sociedade civil (ONGs, OSSs, OSCIPs, Cooperativas e Fundações) “sem fim lucrativos” repassando os orçamentos públicos para as parcerias pública e privada, reduzindo o orçamento das instituições públicas, desobrigando o estado de seu papel fim, de proteção estatal e social, contribuindo para o avanço do estado mínimo, estamos rumando para um aprofundamento e perdas das conquistas sociais da classe trabalhadora, que apesar de todo o crescimento econômico alardeado pelo governo Lula e agora Dilma, não estão conseguindo impedir que estejamos no Ranck dos países com um dos IDH (Índices de Desenvolvimento Humano) mais baixos, e isto se expressa também nos altos índices de violência constatado na pesquisa. Decorrente da falta de políticas públicas consequentes por parte dos governos e da Seppir, em emprego, moradia, saúde, e principalmente de investimentos reais em educação. Mas também de uma ação deliberada de extermínio da população negra, que vem sendo caracterizado ao longo de um processo histórico na sociedade brasileira, pela ausência de ações compensatórias e reparatórias de fato a população negra, disfarçada numa falsa “democracia racial”, e pelo processo de internacionalização da economia imposto pelas empresas estrangeiras.


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MÍDIA E CULTURA: o racismo está no ar!

Mas não só isso. Por um lado, é também no campo cultural que o racismo da burguesia fica particularmente evidente; por outro, a depender dos interesses do setor da burguesia que domina os veículos e meios culturais, negros e negras se vêem entre um processo que vai da mais completa demonização à total mercantilização. Mas, obviamente, rappers e outras expressões da música negra contemporânea não são os únicos exemplos na sociedade brasileira. Há do samba ao pagode, dos afoxés aos blocos, da mais pura MPB ao legítimo rock brasileiro, do mangue-beat ao reggae, a música negra se faz presente em todos os cantos do país.Apesar da resistência da indústria fonográfica, das transmissoras de TV e de Rádio, a cultura hip hop cada vez mais faz parte do cotidiano de milhões de jovens, principalmente, nos principais centros urbanos do país. Muitas vezes associada somente à sua expressão musical (o rap, nome originário da abreviação do termo, em inglês, “ritmo e poesia”), o hip hop é formado ainda por outros elementos, como a dança (break) e a arte visual (grafite), todos eles utilizados com a intenção de mobilizar e organizar a juventude marginalizada das periferias. O crescimento do movimento negro e sua vigilância e pressão em relação aos meios de comunicação, o aumento da consciência racial, bem como a necessidade de ser “politicamente correto”, fizeram com que os poderosos donos das emissoras de TV tomassem algumas providências para mascarar seu racismo mas estamos longe da democracia racial.

FOTO: www.pragmatismopolitico.com.br

Falar sobre todas as tradições e os problemas que envolvem a cultura negra seria praticamente impossível. Mas uma coisa é certa. Localizada em meio a um complexo e permanente processo de luta e assimilação, a cultura negra tem sido um dos maiores e mais fortes focos de resistência à dominação.


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MULHERES NEGRAS: machismo rima com racismo “A história nos ensina que em todos as épocas foi por seu próprio esforço que os oprimidos se libertaram de seus senhores” Emma Goldman A soma das discriminações e marginalização resultantes do racismo e do machismo atingem em cheio a mulher negra, tornando sua situação particularmente dramática. Logo após a abolição, uma grande maioria de mulheres negras se deparou com uma realidade que até hoje, lamentavelmente, marca suas vidas. Como vimos, na virada do século, diante das dificuldades que os homens negros encontravam no mercado de trabalho, muitas foram as mulheres que tomaram para si a responsabilidade de sustentar a família, exercendo os chamados serviços domésticos para os quais haviam sido treinadas nas “casas grandes”. Segundo o estudo “A População Negra em Mercados de Trabalho Metropolitanos”, do Dieese, as mulheres negras são maioria entre trabalhadores sem carteira e empregados domésticos ou trabalhos familiares ou não remunerados. E mesmo com a conquista da “Lei das Domésticas” recentemente, a luta ainda é muito árdua para este setor, tendo em vista que há uma resistência e vários questionamentos de um setor que contrata estes serviços. O que provavelmente vai pressionar os parlamentares a criarem mecanismos de flexibilizar direitos e precarizar este setor de trabalho mais ainda.

Além de todas as conseqüências concretas da marginalização social, mulheres negras são cotidianamente vitimadas pelo abuso e a violência sexual. Por fim, três vezes mais mulheres negras morrem na idade reprodutiva por complicações na gravidez, parto e puerpério (pós-parto) na comparação com as mulheres brancas.

FOTO: www.thiagosurian.files.wordpress.com

Cerca de metade das trabalhadoras negras ocupam vagas no chamado trabalho vulneráveis, em São Paulo (50,7%), Salvador (53,1%) e Recife (50,9%). Em Belo Horizonte o índice vai a 46,4%; em Porto Alegre, 47,5%; e no Distrito Federal, 41%. Ainda segundo o Dieese, as negras, em média, trabalham mais. A jornada média mensal, no Distrito Federal, por exemplo, é de 38,4 horas para as negras e 38 horas para as mulheres brancas.


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COMUNIDADES QUILOMBOLAS E INDÍGENAS: o desrespeito à nossa história

Em 1978 o então Ministro do Interior, a pretexto de emancipar Índios de qualquer tutela, queria “emancipar” as terras indígenas e coloca-las no mercado. Este ano também foi o marco inicial de mudanças no debate público no país, sobre a população indígena – Em plena “Ditadura Militar”. A sociedade mesmo impedida de se manifestar protagonizou uma mobilização sem precedentes em favor do Direito do Índio – Contribuindo para avanços significativos na demarcação de terras. Outro marco veio dez anos mais tarde, com a Assembleia Constituinte onde o direito as terras indígenas foi novamente conclamado e especificado. Com o debate tendo sido transferido para o que se podia ou não fazer nas terras indígenas – Dois temas dominaram esse debate: Mineração e Hidrelétricas. O significativo nesta ocasião foi à defesa realizada pela Coordenação Nacional dos Geógrafos – Que não se minerasse em terras indígenas – Que deveriam ficar como reserva mineral para o Brasil. Em 1992, na Convenção da Biodiversidade, um tema novo de debates surgiu, o dos direitos intelectuais dos povos indígenas e quilombolas – Sobre seus conhecimentos. Com a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), estariam sendo realizados debates de que forma colocar em prática o ”Direito dos Povos Indígenas e quilombolas” – Como serem consultados sobre projetos que os afetam diretamente. Mas até então, o que temos visto são muitas controvérsias, em especial no Governo Lula, e agora com mais profundidade no Governo Dilma – Como, por exemplo, o caso de Belo Monte e hidrelétricas no Tapajós, além de situações dramáticas como as que envolvem os Awá no Maranhão ou dos Kaiowá no Mato Grosso do Sul, onde recentemente um jovem indígena de 15 anos foi brutalmente assassinado, e ainda a violenta desocupação realizada no dia 22 de Março da Aldeia Maracanã no Rio de Janeiro – Tudo em detrimento dos ruralistas, mega empresários e do dito “fim social”.

FOTO: www.fw.atarde.uol.com.br/

Desde o descobrimento do Brasil que a população indígena vem tendo suas terras ocupadas e ou distribuídas. No período colonial passou a vigorar para os indígenas o princípio do direito as suas terras – “Neste direito ninguém mexia”.


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Viva a luta de Zumbi e a luta quilombola As comunidades quilombolas e indígenas estão vulneráveis, há constantes conflitos com o setor agrário. Ataques que se dão contra a garantia do direito de regulamentação da titulação de terras, que sofre uma ação direta de inconstitucionalidade (ADIN) impetrada pelo DEM, no Supremo Tribunal Federal (STF). São 3.554 comunidades quilombolas identificadas pelo governo federal de acordo com a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR-2006), pouco mais de 1.008 possuem o título, sendo menos de 100 titulados segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA e a Fundação Palmares).

Na Bahia, vimos à ofensiva da Marinha Brasileira em relação ao Quilombo Rio dos Macacos, que foram encurralados dentro de suas próprias casas, sob a ameaça de serem expulsos de suas próprias terras. Este processo se assemelha a situação dos quilombolas da Ilha da Marambaia no Rio de Janeiro. Em Minas Gerais com a família Ventura- nas terras do antigo Quilombo dos Ambrósio e com a mobilização dos quilombolas do Brejo dos Criolos, que em setembro de 2011, sob muita pressão, conseguiram que a presidente Dilma assinasse um decreto de demarcação da área em favor dos quilombolas. O que por si só não bastou, pois a inércia do governo em retirar os fazendeiros ocupantes destas terras levou na comunidade a sofrer com a violência e os ataques de seus jagunços, no dia 17 de setembro/12. Segundo a CPT-MG, no confronto ouve uma pessoa baleada, cinco quilombolas presos e nove estão com mandados de prisão, até hoje. Além do mais o agronegócio só tem aumentado o seu poder político com a Votação do Código florestal – O Governo tentou se colocar como “árbitro do decepcionante resultado a favor do agronegócio”. Denúncias estas de Violações dos direitos Humanos e Sociais que não foram respondidos pela secretaria de Direitos Humanos, nem pela CONAQ, nem pela SEPPIR. Dentre as comunidades que estão mais vulneráveis, com possibilidade real de confronto, despejo ou que já tem vítimas de violência, mortes destacamos:

FOTO: www.racismoambiental.net.br/

O Maranhão é apresentado como líder do ranking de conflitos de terra no país, com 224 registros, ou seja, 23% dos assassinatos. É também “campeão nacional” de ameaçados de morte no campo, com 116 pessoas ameaçadas e sete assassinatos. Em São Luís e nos municípios de Paço do Lumiar, Raposa e São José de Ribamar várias lideranças estão ameaçadas de morte e despejos forçados.


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Relação de comunidades quilombolas com maior grau de violência no estado do Maranhão • Santa Maria dos Moreiras, Codó-MA, 370 km da capital São Luís • Três Irmãos, Queimadas e Monta Barro, Codó-Ma, 370 km da capital São Luís • São Pedro, Município de São Luiz Gonzaga-Ma, 220 km da capital São Luís • Santarém, Município de São Luiz Gonzaga-Ma, 220 km da capital São Luís • Charco, Município de São Vicente Férrer, 200 km da capital São Luís • Santana-São Patrício, Município de Itapecuru-Mirim, 110 km da capital, São Luís • Salgado/Pontes- Município de Pirapemas, 240 km da capital São Luís • São João da Mata, município de Anajatuba, 92 km da capital São Luís • Comunidade Puraquê, município de Codó, 370 km da capital São Luís • Samtarém, Município de São Luiz Gonzaga, 220 km da capital São Luís • Comunidade Pirinã, Município de Presidente Sarney, 170 km da Capital São \luís • Comunidade Boa Esperança, Pedro do Rosário, cerca de 180 km de São Luís • Comunidade Alto Bonito, Brejo, cerca de 360 km de São Luís

FOTO: www.fotografia.folha.uol.com.br

Pelo fortalecimento da Luta Popular e contra criminalização da pobreza e dos movimentos sociais! Devemos seguir o exemplo da ocupação do Pinheirinho onde organizam a classe trabalhadora no movimento popular por moradia no Brasil para unir o campo e a cidade pela construção do socialismo. O projeto “Minha casa, Minha vida” não atende a demanda de milhares de trabalhadores negros e negras pobres sem moradia.

OCUPAÇÃO DO PINHEIRINHO FOI SÍMBOLO da resistência do povo negro e pobre na luta por moradia e divulgou para o mundo os métodos de luta da CSP-Conlutas

Hoje a luta na cidade orquestrada pelos movimentos sociais é criminalizada e reprimida com prisões dos dirigentes e militantes, o Quilombo


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Raça e Classe e a da CSP Conlutas (Central Sindical e Popular) devem estar a serviço da luta pela Reforma urbana. O caminho é o fortalecimento da luta dos Sem- terras e dos quilombolas contra a frente popular do governo Dilma e dos latifundiários em defesa da Reforma Agrária e contra os Mega eventos e a especulação imobiliária. Só assim rumaremos para uma sociedade sob controle dos trabalhadores. Apesar de vivermos num chamado “Estado Democrático de Direito”, a “questão social” é tratada como caso de polícia. Então, mediante a situação de miséria a que a população negra foi submetida, ao invés do investimento em políticas públicas voltadas para a educação, saúde, saneamento, habitação, lazer, esporte, trabalho que garantam melhores condições de vida, o que assistimos é a pobreza nas favelas e periferias e a militarização do estado para matar nossos filhos e filhas e os governos do PMDB E PSDB exigem a Maioridade penal para resolver a democracia dos Eike Batistas e empresas e bancos tratando a luta da classe trabalhadora como crime. Seja nos morros do Rio de Janeiro, nas favelas de São Paulo, de Recife, Salvador, São Luís, Alagoas e Salvador. O que está presente é o braço armado do Estado, além de um setor a serviço de garantir políticas sociais compensatórias –“Bolsa Familia”, “Bolsa Crack” e Bolsa escola de Dilma e da frente Popular, que deveriam ter caráter emergencial, mas que na prática são tomadas como medidas permanentes que reiteram a baixa estima do povo negro, e fortalecem uma política meramente eleitoreira.

Luta contra a Homofobia Mais do que um debate sobre leis, queremos debater a violência que sofrem os homossexuais e os assassinatos de centenas de casais homoafetivos nas ruas, que são discriminados e colocados em condições de humilhações cotidianas nos locais de lazer, trabalho e estudo. A saída é construir uma nova sociedade de cunho socialista e anti-homofobica. É preciso questionar as demissões por motivo de preconceito, o assédio moral e sexual, a evasão escolar de trans-gêneros, o preconceito da grande mídia, a violência policial, entre outras demonstrações de homofobia pelos grupos neonazistas e alguns fundamentalistas religiosos.

CSP-CONLUTAS PAUTOU LUTA CONTRA AS OPRESSÕES durante campanhas salariais e lutas de diversas categorias de trabalhadores

É necessário disputar a consciências da classe trabalhadora contra a divisão que gera esse debate quem ganha é o patrão e os governos que usam o preconceito,a discriminação e o racismo para não construir com as verbas públicas políticas de estado para gays, lésbicas e travestis da classe trabalhadora. Para o movimento nacional Quilombo Raça e Classe e a


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FOTO: www.mariapreta.org

CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular) esse é o debate central, a conexão que há entre opressão e exploração, divide nossa classe trabalhadora para lutar nas campanhas salariais e no cotidiano na hora de lutar pelos direitos sociais e econômicos e pela liberdade de diversidade sexual, e que isso permite desnudar as bases materiais do regime capitalista, patriarcal e heterossexual que oprimem a maioria da classe trabalhadora e aqueles que são marginalizados pelo sistema capitalista e superexplorados pelos patrões e dentre outros elementos que, são direitos legais e legítimos , mas que avançam lentamente no Congresso, se traduzem em ganhos materiais nas campanhas salariais para GLBTs da classe trabalhadora. A campanha para prefeito em São Paulo trouxe à tona a questão do kit “Escola sem homofobia”, formulado pelo MEC quando Fernando Haddad, ministro da educação na época, e hoje prefeito da Cidade de São Paulo. O kit foi usado por José Serra e Celso Russomano (aliado a setores evangélicos de diferentes denominações) para atacar Haddad durante o processo eleitoral – que se esquivou das críticas e evitou defender o kit durante a campanha.Contraditoriamente, setores do movimento LGBT defenderam Haddad como responsável pelo material, enquanto nós o responsabilizamos pelo veto. O debate do PLC-122/06, projeto de lei que criminaliza a homofobia, ganhou visibilidade, ocupando o centro não somente nas atividade e atos do movimento, mas também em igrejas evangélicas em todo o país, de modo que a gigantesca “Marcha pra Jesus” que acontece todo ano em São Paulo, se tornou uma verdadeira “Marcha pela homofobia” e contra a PLC-122/06. E, na sua campanha eleitoral Dilma Rousself selou o apoio político às igrejas evangélicas que todos os anos em Brasília levam seus fiéis a protestar contra o PLC 122/06 (Marcha da Família), chamado por Silas Malafaia, que reuniu milhares de fiéis em 2013. Oposição ao PLC-122/06 unifica católicos e evangélicos no Congresso Nacional, e estes setores tem mobilizado milhares de pessoas em defesa da “família” e da “vida” e a ascensão do pastor Marcos Feliciano, que já demonstrou em suas pregações e entrevistas que é racista , homofóbico e machista, fatos que mais que justificam porque não deveria estar a frente da Comissão Ministerial pela defesa dos Direitos Humanos. Por isso não nos representa, gritamos Fora Feliciano, Já!

FOTO: www.dc4cor.wordpress.com


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V

A importância de defender as políticas de reparações, ações afirmativas e cotas Muitos brasileiros e brasileiras perguntam por que devem reparar os afro-brasileiros? Porque são herdeiros daqueles que morreram vitimados, de tortura, do estupro, da animalização, além do modo de trabalho que deixou marcado gerações e gerações como “escravo”, “inferiores”, “sem alma”, filhos dos cativos da senzala , que vieram do continente africano como prisioneiros, por uma migração forçada, durante 350 anos. E esta “herança maldita” é tão perversa e profunda, que mesmo nos dias de hoje, após 124 anos de uma “falsa” abolição, a população negra ainda sofre reflexos e consequências. Senão, não seríamos quantitativamente a maioria da população de um país, ainda marginalizada pela sociedade, ainda localizada nos estratos mais pobres, mais periféricos, nos piores empregos, sofrendo com a precarização dos serviços públicos, ou com a ausência de políticas realmente consequente, e ainda sofrendo com a violência racista e estrutural, com o extermínio da juventude negra, etc. ainda tão presente no cotidiano da sociedade brasileira! A população judia, a população oriental, os próprios vitimados da ditadura reivindicaram reparação, foram e estão sendo reparados, com a devida justiça. Por que, quando a reivindicação é feita pela população negra, que sofreu tanto quanto, e até mais, já que foram 350 anos, que ainda se estendem até os dias de hoje, se questiona tanto! Afinal ainda temos 24.000 trabalhadores em profissões análogas a escravidão no Brasil, na atualidade, incluindo mulheres e crianças. É preciso acabar com a noção de que os negros e negras são sinônimos de “vilões sempre” ou aqueles que não tem cultura, história e identidade própria. São necessárias iniciativas para frear e acabar com o racismo no Brasil, que está impregnado pelo “Mito da Democracia Racial”. As politicas de reparação e de ação afirmativas, são necessárias para que corrijam o atraso humano, cultural, econômica de gerações. E punir, concretamente os que de alguma forma se beneficiaram, ou continuam se beneficiando e lucrando com as humilhações, torturas, o extermínio de grupos etnicos e nações africanas e indígenas. Crimes estes que já foram caracterizados e comprovados como tortura e genocídio, além de ser imprescritível, por diversos organismos e organizações internacionais. Foi necessário tres Conferências Internacionais, num período de trinta anos, para que a escravidão e o racismo de estado, praticado pelos governos brasileiros por centenas de anos, fosse reconhecido como FOTO: Sérgio Koei


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crime de lesahumanidade pela ONU, OEA e o Tribunal de Haia (Durban 2001). Apesar do Brasil ser signatário destas conferências, para constituir legislações e normas que reparassem, compensassem e afirmassem a população negra, por esses crimes imprescritíveis, como uma forma de fazer justiça social aos negros e negras brasileiras, ao longo destes 11 anos, ocorreram iniciativas mínimas por parte do governo Lula, e agora Dilma ao longo dos 10 anos de governo do PT atuaram na contramão do movimento negro, na realidade, criaram estruturas públicas e espaços que só serviram para cooptar os dirigentes do movimento negro (que lutaram anos por esta ação), e artificializaram as políticas públicas, tão necessárias ainda para a população negra, além de colaborarem com o recuo de organizações históricas do movimento negro. O racismo se enraizou na sociedade, e pode da mesma forma, ser retirado do nosso convívio se houver uma participação ativa da população e da classe trabalhadora de conjunto. Não se trata de utopia, mas de um objetivo a ser alcançado, o qual deve, acima de tudo, eliminar os seguintes dados de uma vez por todas do cenário brasileiro: 

Cerca de 60% dos negros brasileiros estão na faixa de analfabetismo;

Apenas 18% dos negros tem possibilidade de ingressar na universidade;

 A expectativa de vida dos negros é de apenas 59 anos (brancos 64 anos);

A qualidade de vida do Brasil o leva a ocupar a 63ª posição mundial, separando só a população negra o Brasil passa a ocupar a 120ª posição;

15,5% dos réus negros respondem em liberdade (brancos 27%);

O negro é o primeiro a entrar no mercado de trabalho e o último a sair;

ANEL LANÇA CARTILHA para conscientizar estudantes da importância das cotas

A participação do negro em áreas “elitizadas” é ínfima;

As mulheres negras ocupadas em atividades manuais representam 79,4% do total;

Apenas 60% das mulheres negras que trabalham são assalariadas;

As condições de moradia dos negros são quatro vezes pior que a dos brancos;

Dentre a população negra economicamente ativa apenas 6% está ocupada em atividades técnicas, científicas, artísticas, administrativas;

Muitas mulheres negras saem do país como artista e são recebidas como prostitutas;

As mulheres negras estão nas piores condições de vida do país.


FOTO: Sérgio Koei

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VI

Venha para este quilombo! MEU QUILOMBO TEM RACA, MEU QUILOMBO TEM CLASSE! Hertz Dias, do Quilombo Urbano e Quilombo Raça e Classe (MA)

Somos milhões de negros e negras espalhados por esse planeta e esse país, mas nossa negritude não é acéfala e nem a-histórica. Desde que o primeiro de nossos antepassados foi arrancado da África e pisou nesse continente, dizemos: temos negritude! Nossa negritude brotou da necessidade de resgatar a nossa humanidade, e isso só foi possível se rebelando contra o capitalismo escravocrata. Nossa humanidade e nossa negritude nasceram como negação da escravidão e do capitalismo. Somos homens e mulheres com raça, somos homens e mulheres com classe. Sua igreja criou as bases para justificar nossa condição de coisa. Seus padres, seus Vieiras, seus Antonís disseram que não tínhamos almas. Seus intelectuais negaram nossa humanidade. Mesmo isolados, sós, por conta própria, nunca fomos sectários, construímos alianças com os mais diversos grupos sociais oprimidos. Em nossos quilombos eram bem vindos índios, brancos pobres, prostitutas. O capital nos jogou nos guetos,mas nosso lugar nunca foi esse. Estivemos nos principais movimentos de libertação desse país, fomos balaios, cabanos, malês, farrapos. Nossa consciência negra não abriga falsos heróis que a história dos ricos forjou.

D. Pedros e Izabel’s podem até ser até homenageados com nome de escolas de samba, mas não desfilam na passarela de nossas consciências. Meu Quilombo tem raça, meu quilombo tem classe. Meu quilombo é o de Luiz Gama é daqueles que se

FOTO: quilombourbano.blogspot.com

Manuel Beckmam, morto por querer escravizar índios e adquirir negros, não é herói de nossas consciências. Nossa consciência negra não expõe nossas crianças ao sol quente dos desfiles do 7 de setembro para comemorar a independência de um país que manteve a escravidão existindo por mais 66 anos.


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propõe a defender e conceder liberdade ao escravo que ousa enrolar no pescoço do seu senhor as correntes que outrora os aprisionavam. Nossas menções honrosas são para as milhares de mulheres negras que arrancavam de suas entranhas o filho mestiço fruto do estupro do senhorzinho branco. Maldito sejam eles! Bendito sejam elas! O teu país mestiço, racista, não é fruto de amor, pois minhas bisavós não eram objeto de prazer e nem barriga de aluguel. Meu Quilombo, minha negritude, é internacionalista, é de Malcolm, é de Steve Biko, de Winie, das Dandaras. Sou negro sim, irmão do povo líbio, sírio, egípcio, iraquiano, afegão.Minha negritude não suporta ditadura, não suporta opressão. Sou negro palestino, por que a intifada é negritude, sou negro irmão da classe trabalhadora européia que ora se levanta contra seus governos e patrões. Sim, são meus irmãos, e por que não? Minha negritude é de classe. Sou a prova viva que Huanda, Uganda, Etiópia e todos os meus países africanos que hoje estão mergulhados na barbárie do capitalismo irão se levantar, irão te destruir, não tenha dúvida imundo mundo capitalista.

FOTO: Sérgio Koei


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Precisamos destruir o sistema que gera o racismo. Sim irmão Malcolm, assim fez os meus irmãos haitianos. Nações brancas, capitalistas, imperialistas, escravocratas, caíram aos pés de nossos irmãos e irmãs do Haiti. Dessalines, Tousantine, não é Lula, não é Dilma, não é Obama. Mãos imundas, retirem suas tropas do Haiti. A ONU não representa os interesses do meu povo, A ONU representa os interesses daqueles países que há dois séculos expulsamos da ilha de São Domingos. Meu Quilombo renasce com raça e com classe nos morros ocupados do Rio de Janeiro, nas cadeias superlotadas de presos políticos cor de ébano, nas greves dos canteiros de obras do PAC. Renascemos nas comunidades Quilombolas. No Charco, em Frechal, renascemos como milhares de Flavianos sedentos por justiça, por que nossa negritude é imortal pra você capitalista, pra você latifundiário. A teu 13 de maio minha consciência opõe o 20 de novembro. Tua abolição concentrou terra, me negou educação, me jogou nas favelas, nos manicômios, nas cadeias. As portas e os muros da tua universidade eurocêntrica irei derrubar um a um, uma a uma, com minha história, minha cultura, minha ciência, minha inteligência que, aliás, não pode ser medida pelo seu padrão individualista de conhecer o mundo, de estabelecer relações sociais. A cultura daquela que tu nega eu reivindico. Sou sim África e daí? Quero a parte que me cabe, mas não transformar meu direito a educação em uma mercadoria. Quero cotas nas universidades públicas e vou brigar por isso, odeio teu “PRO-UNE” mercadológico. Devolve o que é nosso, meu povo nunca te pediu nada, exigimos, brigamos, morremos, matamos. Minhas irmãs nunca foram dondocas, não querem só igualdade de gênero, aliás, em seu imundo Brasil colonial, estávamos lá lado a lado com nossos irmãos africanos; nos canaviais, nas senzalas, nos quilombos, sem frescura. Só queimar sutiã não serve pra mim, quero igualdade de classe, mulher que explora não é minha irmã. Meus irmãos e irmãs não oprimem e não exploram. No sangue de Obama e Condoleza Rice não tem DNA de quilombola e sim de capitão do mato.Nas minhas veias corre o sangue de Magno Cruz, Zumbi, Anastácia, Firmina, Dandara, Clóvis Moura, de Silvia Cantanheide. Estou de volta com Raça e Classe, de volta às ruas, aos becos, as favelas, nas rimas do rap, nas pernadas da capoeira, na ginga do reggae, nas salas das escolas, das universidades, estou de volta não para te reformar capitalismo imundo, não para te humanizar racista democrático, estou de volta para te destruir enquanto estrutura e superestrutura. Meus pêsames, eu sou o germe de tua destruição, meu nome é Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe.


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VII

Um programa de Raça e Classe  Reparação, Cotas e ações afirmativas ao povo negro já! Terra, Trabalho e Moradia e igualdade racial e social. Fim do genocídio dos jovens negros!  Negras e Negros Querem mais concursos públicos e: salários iguais para trabalho Igual! Aumento de salário, transportes público dignos e tarifa social, passe-livre e empregos dignos!  Nenhuma confiança em Barak Obama! Queremos governos socialistas de trabalhadores que não produzem guerras na Àfrica, na Síria e na Palestina!  Não à violência racista e imperialista !Fora tropas brasileira e da ONU do Haiti!  Basta de Extermínio da Juventude Negra, Quilombola e Indígenas. Pela Prisão dos mandantes e assassinos de Quilombolas e Indígenas!  Não à criminalização dos movimentos sociais e abaixo a faixa-étnica e as remoções violentas da Copa e das Olimpiadas!  Legalização e descriminalização do Aborto no SUS e das Drogas!  Defesa das ocupações dos sem-terra e sem-teto! Moradia não é mercadoria!  Pela Implementação da Lei 10.639 e 11.645. Queremos Saúde e Educação anti-racista Pública, de qualidade e 100% Estatal!  Titularização de terras de quilombolas e indígenas! Pela aplicação e implementação do Art.68 e 169 0IT e pelo decreto 4.887/03 que titula as 5.000 comunidades quilombolas e demais terras indígenas no Brasil!  Liberdade para Múmia Abu Jamal, liderança do movimento negro norte-americano!  Reabilitação e reparação total João Cândido e sua família!  Abaixo intolerância religiosa e Fora Feliciano e Bosonaro da Comissão de Direitos Humanos no Congresso nacional.Pela Liberdade de expressão para cultura afro-brasileira (candomblé ,capoeira ,blocos de afoxé, hip-hop,etc..)!


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Bibliografia de citações e dados 1. Base dos textos – Cartilha de Globalização e Racismo 2. Solano Trindade (Poesia) 3. Milton Santos (“Por outra globalização”, 2000) 4. Artigo intitulado “War, Racism and the Empire of Poverty” (Guerra, racismo e o império da pobreza), Andrew Gavin Marshall cita um relatório produzido em novembro de 2009 5. Ahmed Shawki, no livro “Black Liberation and Socialism” (Liberação negra e socialismo, 2006., p 18) 6. Tom Bottomore, no Dicionário do Pensamento Marxista 7. Revista “Veja” 8. Karl Marx, “O Capital”, p. 915 9. Eric Willians “Capitalism and Slavery” (Capitalismo e escravidão, p. 30) 10. Gênesis, 9: 5-27 11. Francis Galton (1822 – 1911) 12. “Cientistas” como Arthur Gobineau 13. Charles Darwin, que Galton 14. Nina Rodrigues e Sílvio Romero - livros como Os Africanos no Brasil (1932) 15. Frank M. Snowden “Before color prejudice: the ancient view of blacks” (Antes do preconceito de cor: a antiga visão sobre os negros, p. 63) 16. Silvia Hunold Lara, “Trabalhadores Escravos”, publicado na Revista dos trabalhadores (1989, pág. 7) 17. João Batista Lacerda, representante brasileiro no Primeiro Congresso Universal de Raças (Londres, 1911) 18. George Andrews, no livro “Negros e brancos em São Paulo” (1978, p. 112) 19. Gilberto Freyre em seu famoso livro “Casa Grande e Senzala” escrita em 1933 20. Historiador Ricardo Salles 21. Pesquisa intitulada Saúde da População Negra no Brasil, coordenada por Fernanda Lopes 22. Pesquisador Julio Jacobo Waisefist, pesquisador do Sangari e responsável pelo estudo realizado do “Mapa da Violência” 23. Dados de pesquisa: Dieese, Fundações Perseu Abramo e pelo instituto alemão Rosa Luxemburg Stiftung, em 2003, PNAD, INCRA, Fundação Palmares, SEPPIR, CTP, IDH, OIT.


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Realização:

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Apoio:

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Cartilha do Quilombo Raça e Classe  

Cartilha elaborada pelo Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe para apresentação do movimento e de suas convicções.

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