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INFERNO 1ª edição Todos os direitos reservados.

Editor: Victor Hugo Pereira Capa e Diagramação: Victor Hugo Pereira Uma obra de A.C. Junior.

Contato do autor: juniormazah02@gmail.com Contato do diagramador, capista e editor: torugo.arcade@gmail.com

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INFERNO -------------- PARTE I -------------

Com um rápido beijo na testa, Peter se despediu

de sua filha. Sua esposa o olhava com um olhar de admiração enquanto o marido se entregava a névoa que cobria a cidade aquela manhã.

No aconchego de seu carro, trajado de suas mel-

hores roupas de frio, acelerava para longe de sua família, sabendo que no entardecer estaria de volta para eles.

Na solitária estrada Burningtown, o ser, agora

solitário, cantarolava uma música que falava sobre arrependimento.

A fina camada de gelo na pista era presente, o car-

ro então derrapou repentinamente. Dois altos estouros foram ouvidos, uma árvore havia sido atingida.

Peter desceu do veículo, estava meio zonzo com o

impacto. “Meus pneus já eram!” Murmurou revoltado.

Em sua frente a estrada se perdia na névoa, em

suas costas a mesma coisa. Sabia que quilômetros a frente havia um posto de gasolina. Quilômetros atrás,

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apenas solidão.

Aborrecido caminhou em passos largos em frente,

a névoa ainda era espessa, a hora parecia não passar. Passaram-se trinta longos minutos, uma hora por fim. O suor brotava em sua testa por diversas vezes. “Mas que droga de lugar distante.” Mais uma vez soltou aborrecido.

Subitamente a névoa começou a se dispersar, ela

sumia de encontro ao chão.

Aquilo fez com que Peter parasse, bem no meio da

estrada. Com sua testa franzida, o homem se viu confuso em relação ao que se revelava para ele.

A névoa ia sumindo e um jardim conhecido sur-

gia. Ele sorriu ao ver, ou melhor, ele o via sorrir.

Devia ter uns seis anos. Estava sentado ao balanço

do parque de recreação da escola. Balançava-se sozinho, enquanto outras crianças brincavam juntas.

Era Peter assistindo a Peter.

O pequeno Peter balançava, o grande Peter ob-

servava, com o mesmo sorriso no rosto. Ele não conseguiu manter por muito tempo. Um garoto alto se aproximava do pequeno Peter, ele ria do pequeno Peter.

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“Deixe-me em paz.” O pequeno Peter pedia. O garoto alto havia roubado todo o dinheiro do pequeno Peter. Socos e chutes no pequeno Peter.

O grande Peter sentia tudo aquilo de novo. Era

sua infância, infeliz infância, retratada de uma forma inacreditável.

O pequeno Peter chorava largado ao chão, o

grande Peter chorava revivendo aquilo.

A névoa voltava, todo o cenário ia sumindo aos

poucos.

O grande Peter queria ajudar o menor, queria faz-

er algo para que o garoto alto não o infernizasse mais. Era triste, o seu tempo havia acabado. Havia acabado há tempos.

Tudo era branco novamente.

“Mas… mas o que…?” Peter tinha um poço de lágrimas nos olhos. Não fazia ideia do que havia acabado de acontecer. “Para onde devo ir? Estou perdido?” Sussurrava para si. “Estou louco?”

Seguiu a estrada, por fim.

A promessa do posto já estava ficando esquecida.

Ele já havia feito aquele trajeto pela estrada Burning-

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town centenas de vezes em sua vida, não sabia o porquê de tudo estar tão confuso agora.

Uma hora a mais havia se passado.

Tudo em sua frente era branco e espesso, a névoa

era uma solidão.

Inesperadamente, mais uma vez, ela seguiu em

direção ao chão. Calmamente tortuosa para Peter, ela ia revelando um cenário um tanto diferente dessa vez.

Seu coração se contraiu, seus olhos repudiaram a

cena.

Era um Peter jovem.

Um Peter jovem e sua madrasta. Ele tinha uma

expressão de negação, ela insistia em toca-lo nos lugares mais indevidos. Aquilo fazia o estômago do jovem Peter se contrair, a moça parecia satisfeita com aquilo. “PARA COM ISSO!” o grande Peter gritou para a cena, mas isso não impediu que ela continuasse. O grande Peter chorava revivendo aquilo. “Para com isso.” O jovem Peter insistiu para a madrasta, que não o dava ouvidos e continuava sua sessão de abusos.

O grande Peter fechou seus olhos, apertando-os

fortemente para não ser obrigado a assistir nem mais um

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segundo daquilo que fora sua adolescência.

Ele não contava com o fato das Imagens surgirem

através de suas pálpebras. Ele estava fadado por algum motivo a assistir aquilo.

Não durou muito, até que a névoa voltou a apare-

cer na vida de Peter.

Ele se negou. Ele disse não.

“Não quero mais isso. O que esta acontecendo?” Gritou com as mãos na cabeça. Estava confuso, triste, esgotado.

Ele quis ajudar o jovem Peter, assim como o pe-

queno Peter. Era triste, seu tempo havia acabado. Havia acabado há tempos.

Caiu, então, sobre seus joelhos. As lágrimas in-

sistiam em cair, sua mente era confusa. “Eu não posso continuar… Por que isso está acontecendo?” Sussurrou a primeira frase, a segunda por sua vez fora berrada.

A névoa voltou ao chão.

Peter tinha medo do que viria a seguir, mas estava

esgotado. Passara as últimas duas horas tentando chegar a lugar nenhum, sendo obrigado a reviver seus momentos de dor do passado.

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Ele realmente estava esgotado.

O ambiente dessa vez revelado era difuso e con-

fuso. O grande Peter via o grande Peter chorando sobre uma poça de sangue imensa. Ele era adulto. “NÃO, NÃO, NÃO!” Peter gritou. “MINHA FILHA!” gritou novamente.

O grande Peter da cena sussurrava coisas, o

grande Peter da estrada parecia entender perfeitamente do que tudo se tratava. “Eu sinto muito, minha filha” a frase partiu do grande Peter da estrada, ele chorava intensamente revivendo aquilo.

Ele queria ajudar o grande Peter… ele queria se

ajudar. Era triste, seu tempo havia acabado. Havia acabado há tempos.

Sua companheira de viagem havia retornado. A

névoa já havia coberto o cenário. “POR QUE TUDO ISSO? O QUE QUER DE MIM?” perguntou direcionado aos céus. Peter não sabia, mas qualquer divindade celeste existente já o havia abandonado àquela realidade. Ele estava só, vivendo de seus próprios fragmentos de memória.

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Com suas últimas gotas de energia, Peter se levan-


tou. “Eu preciso chegar ao posto.” Disse meio aéreo. Peter estava enlouquecendo.

Alguns metros a frente, avistou alguém. O frentis-

ta do posto, ele pensou.

Aproximou-se do estranho. A névoa ainda era es-

pessa e ele não via nada semelhante a uma construção em quilômetros. “Olá, o senhor sabe o que acontece?” Perguntou ao estranho que estava de costas para si. O homem era negro e vestia cor branca feito a névoa. “Ah, eu sei sim. O senhor está no inferno.” Disse, virando-se a Peter, que teve seus dois olhos arregalados sobre o estranho. “Inferno?” Perguntou Peter “Como Inferno?” “Você sabe que fez coisas ruins” o homem de branco disse. “Você só não sabe que morreu.”

Peter ficava cada vez mais confuso ao ouvir o est-

ranho. “Isso é algum tipo de palhaçada!” Afirmou, sorrindo. “Eu não morri, e…e isso aqui nem se assemelha ao inferno.” “Oh, o que você esperava? Toda aquela coisa com

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fogo e uma multidão de pessoas gritando? Não, desculpe te decepcionar. Este é o seu inferno, sua tortura particular. Todo mundo vive de forma tão individualista… por que teriam de compartilhar o inferno?” Peter custava a acreditar. “Por que estou aqui afinal?” Ele indagou “Se tudo isso que diz é verdade, como morri?”

O estranho em sua frente apenas sorriu, fez um

movimento para baixo com as mãos e a névoa mais uma vez fora de encontro ao mesmo.

O grande Peter via-se sentado atrás de sua mesa

chique, em seu escritório chique. Estava feliz, sua vida estava ótima.

Não tinha mais o garoto alto para lhe azucrinar,

tampouco a madrasta má para lhe abusar. O sorriso era grande em seu rosto.

Ele não conseguiu manter por muito tempo. A

madrasta havia entrado em sua sala, estava drogada, bêbada talvez. Muito tempo havia se passado, Peter não a via há anos.

Alguém sucedeu seus passos, adentrando a sala.

“O que faz aqui, maldita?” Perguntou o grande Peter do escritório.

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O grande Peter da névoa tinha um olhar triste

sobre aquela cena. Ele sabia que não podia fugir, sabia que mesmo que fechasse os olhos, ele seria obrigado a assistir aquilo novamente.

Reviver aquilo novamente.

“Vim trazer sua filha, Peter. Nossas noites de amor em sua casa deram-me fruto. Esta é sua filha.” Ela disparou. O grande Peter do escritório havia arregalado seus olhos, a menina franzina era fruto de noites de abusos sem fim, vindos de sua madrasta. “Isso não pode ser verdade. Por que só agora, mulher?” Estava desesperado, chorava intensamente. “Eu já estou morta mesmo, ela precisa de alguém.” E então a madrasta dispara para fora do escritório chique. Deixando ali apenas recém pai e filha.

A menina nada dizia.

O grande Peter do escritório estava completa-

mente devastado. Se levantou e caminhou lentamente, revivendo cada momento do jovem Peter. Que, ao ser abusado, reviveu cada momento do pequeno Peter.

Aquilo era demais para sua mente.

“NÃO FAZ ISSO, SEU IDIOTA!” O grande Peter da névoa gritou para o grande Peter do escritório.

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No ápice de sua confusão mental, o grande Peter

do escritório acertou a menina sua filha diversas vezes com um abridor de cartas pontudo. A menina agonizava em seus braços sobre uma poça de sangue.

O grande Peter chorava. Ambos.

“Eu sinto muito.” Sussurravam juntos. Passado e presente.

Eles queriam ajudar a menina franzina. Era triste,

o tempo havia acabado.

Havia acabado no momento em que o garoto alto

atacou o pequeno Peter, e ele não reagiu.

No momento em que a madrasta má atacou o

jovem Peter, e ele não reagiu.

E, por fim, deixou para reagir sobre uma menina

franzina, inocente acima de tudo.

Ele entendia agora.

“É por isso que está aqui, Peter.” O estranho disse, trazendo a névoa de volta. “Você atirou na própria cabeça duas semanas depois. Simplesmente não conseguiu conviver com isso.”

Peter estava estático. Não piscava, não falava.

“Eu devia ter reagido.” Disse, então. “É, devia.” O estranho disse. “Vamos, você tem de

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recomeçar.”

Eles caminharam poucos metros e já estavam de

volta a casa de Peter. Ele já não estava mais suado, seu carro estacionado bem no portão. O estranho o levou até sua porta, onde sua mulher e filha o esperavam, e logo depois desapareceu.

E Peter recomeçou, e estava fadado a fazer aquilo

por toda a eternidade. Em seu inferno particular.

Com um rápido beijo na testa, Peter se despediu

de sua filha. Sua esposa o olhava com um olhar de admiração…

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PARAÍSO -------------- PARTE II -------------

Era mágico para ela. A felicidade, agora

instalada de forma permanente em seu peito, tomava conta de seu ser. “Eu me sinto tão feliz agora!”…

A noite era chuvosa e gélida. Elas, mãe e filha, cor-

riam multidão adentro. Apressadas... Esgotadas. Elas almejavam o escritório de advocacia de Peter.

Elas estavam decididas quanto essa decisão.

Adentraram o prédio, cujo endereço fora obti-

do bem facilmente ao julgar pela fama de Peter nessas épocas.

Não ligaram para formalidades. Adentram de

uma vez a sala do homem.

A moça mais velha, arrastando a menina mais

nova ao seu impasse, parecia chorar timidamente. Peter estava chocado ao vê-la mais uma vez. Seu rosto, cada expressão dele, o fazia lembrar-se do passado que o assolava até os dias atuais.

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A menina aguardou, poucos segundos, ao lado de

fora. Ela queria que não fosse dessa maneira.

Mas, esse sempre fora um de seus grandes dese-

jos. Conhecer o pai, finalmente.

Eles discutiram, Peter e a Madrasta.

Ela se foi, deixando apenas pai e filha ali.

A menina, ali permaneceu. Franzina e acanhada,

esperando as primeiras palavras do pai para si.

Ela não esperava. Nunca, em um milhão de anos,

ela esperava que ele fosse a empalar com diversos golpes de um objeto que não fora identificado pela mesma.

Ela sofria, ela sentia dor. Uma dor insuportável.

Suas últimas lembranças foram de muito sangue.

Em seus braços, ela conseguiu ouvir seus choros

de arrependimento. “Eu sinto muito, minha filha!” Peter gritava, ele parecia arrependido.

Ela abriu um sorriso, bem repentino.

“S-sim” ela disse fitando o nada a sua frente. Ainda com o sorriso no rosto “Me leve!” Ela estava delirando.

Peter não entendia.

E então, ela deixou seu último suspiro. Aquela

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sala se encontrava silenciosa como nunca. “Eu sinto muito!” Peter disse mais uma vez. Ele chorava agora.

Todo o arrependimento não o impediu de enco-

brir o assassinato. Não o impediu de arrastar o corpo até um lugar terroso que ficava na parte de trás do escritório. Não o impediu de cavar um buraco de cinco metros de profundidade e desovar sua filha como se fosse um saco de lixo.

Ele tinha uma carreira, ela não podia acabar dessa

forma.

“É como se… Como se a tristeza nunca

tivesse existido em minha vida...”

Quatorze longos dias haviam se passado. Peter es-

tava enlouquecendo. Ele não conseguia comer sem lembrar-se do sangue, não conseguia dormir sem lembrar-se dos gemidos de dor.

Ele estava enlouquecendo de verdade.

“Esse lugar... Esse lugar é tudo que você

precisará em toda sua eternidade, minha filha! Você herdou seu próprio paraíso!”

Um homem adentrou seu escritório, Peter teve de

deixar seus pensamentos culposos de lado para tentar fo-

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car em trabalho.

“Olá, desculpe-me incomodar” disse o homem

negro de feição preocupada a sua frente “Eu já estou fic� cando louco, quase perdendo minhas esperanças. Disseram-me que a viram entrar aqui com a mãe.” Ele puxou algo de sua bolsa.

Era uma foto.

Era a foto da menina franzina morta pelo Peter,

juntamente com a madrasta. “Elas moravam na avenida onde eu moro, ao fim da Rua Treze. Tomei muito apreço sobre essas duas. Elas desaparecem há umas semanas, a última pista que tenho é bem aqui, em seu escritório.” O homem proferiu tais palavras, fazendo Peter gelar em seu assento. “Q-qual é o nome dela?” Perguntou Peter, incerto de seus atos. Sua voz era falha. “Anna!” O homem em sua frente respondeu, por fim. “Anna!” Peter repetiu perdido em pensamentos analisando a fotografia em suas mãos. “Anna!”.

“Eu não consigo me lembrar de coisas ru-

ins que aconteceram em minha vida, como se minha mente filtrasse apenas os bons momen-

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tos... Como isso é possível?”

“Você está no paraíso, Anna! Aqui, apenas

o que lhe foi prometido ao nascer, e conquistado por você ao longo de uma vida pura e direita, será lhe dado! Você está bem de agora para todo sempre!”

“Eu sinto muito, infelizmente não posso ajuda-lo,

não me lembro delas aqui.” Peter disse, enxugou timidamente uma lágrima que insistia em brotar em seus olhos. Entregou, por fim, a fotografia ao homem em sua frente.

“Eu já não sei mais o que fazer!” O homem disse,

sem esperanças. “Ela é como uma filha pra mim. Lembro-me de quando íamos brincar na Av. Treze, durante a manhã de garoa. Ela simplesmente esquecia todos os problemas e dificuldades que era obrigada a enfrentar todos os dias. Brincávamos como pai e filha, enquanto a garoa caia sobre as nossas cabeças e o sorriso não sumia de nossos rostos.” Aquilo fez Peter se perder em pensamentos. Aquilo fez Peter se lembrar de uma parte feliz da sua infância. “Eu costumava a brincar com meu pai dessa forma.” Disse, sua voz denunciava sua vontade de cair em prantos. “Ao invés da garoa, tínhamos a espessa névoa

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na estrada Burningtown. A gente brincava por horas e horas... E-eu amava tanto aquilo.” Peter não aguenta mais. Peter desaba em choro. “Por que sua alma me parece tão pesada, rapaz?” O homem em sua frente o perguntou.

Peter deu um gole em uma bebida que estava

próxima, em sua mesa. O alto teor alcoólico era estimável, ao julgar por sua careta. “E-eu... Eu fiz coisas ruins, senhor!” Ele desabafou por fim. “Coisas ruins? Ok. Você já tentou pedir perdão a respeito dessas coisas ruins? Talvez isso seja tudo que você precisa rapaz!” O homem disse. Um tom esperançoso tomou conta de sua voz. “Perdão?” Soltou acompanhado de uma risada fraca. “Não acredito nessa coisa de perdão, em todos os casos são apenas palavras vazias, ditas na tentativa de mascarar com um falso arrependimento o ser podre que realmente é.” Peter diz tudo aquilo de uma vez.

O homem o fitava sério.

“Você é um ser podre, rapaz?” Perguntou, seu tom ameno revelava sua calma com aquela pergunta. “Temo dizer que sim!” responde ríspido. “Apo-

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dreci ao longo do tempo, senhor!”

Deu mais um gole em sua bebida forte.

O homem, calmo, sorriu de lado para com a cena

em sua frente. Tinha um olhar conformado agora. “Bom, deixe-me ir, tenho de continuar minha busca por elas.” Levantou-se ainda em sua calmaria, e com um aperto de mãos se despediu do advogado bêbado em sua frente.

O homem caminhava lentamente para fora da

sala, cruzou a porta batendo-a atrás de si. “Eu tive de tentar!” Manifestou-se parado, bem de frente àquela porta.

Ele parecia contar os segundos como se soubesse

o que estava prestes a acontecer.

Um clarão forte, seguido de um alto estourou vier-

am da sala de Peter. Era como um tiro.

Um tiro.

Peter estava morto.

O homem negro estava cercado por névoa desta

vez, vestia branco intenso, assim como outros que o cercavam. “Certifiquem-se de que nos primeiros momentos ele tenha seu peito cheio de esperanças, que fragmentos

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de sua memória da infância; a névoa; a estrada Burningtown; passem pela sua mente, afinal ele amava esses momentos. Depois, quero que tirem tudo isso dele, que o deixem definhar com suas próprias memórias. Quero que ele sinta o que Anna sentiu, quando chegou a seu escritório, estava esperançosa, e ele tirou tudo dela.” O homem negro disse.

Ele lembrava bem daquele momento.

Ele estava lá, quando Anna suspirou pela última

vez.

O homem, então, se ajoelhou sobre o sangue,

onde Peter chorava segurando nos braços a menina que agonizava.

Peter não o via.

O homem segurou uma das mãos da menina, ela

estava padecendo. “Você é tão jovem” ele disse, num tom triste, lastimando profundamente “Não se preocupe. Você irá para um lugar muito melhor agora, o seu paraíso lhe está aguardando.” Um sorriso brotou em seu rosto por fim. “S-sim” a menina, já sem forças e com um sorriso no rosto, disse. “Me leve!” Aquilo deixou Peter confuso. Aquilo o fez preferir sussurros indecifráveis.

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Para ele, não havia mais ninguém ali.

Mas ela via o homem.

Ela foi com o homem para um lugar onde tudo

seria mais fácil.

Era mágico para ela. A felicidade, agora

instalada de forma permanente em seu peito, tomava conta de seu ser.

“Eu me sinto tão feliz agora!” Anna camin-

hava pela Avenida Treze, ao lado do homem negro. Ela sorria radiante. “É como se… Como se a tristeza nunca tivesse existido em minha vida...”.

O homem sorriu para ela.

“Esse lugar... Esse lugar é tudo que você precisará em toda sua eternidade, minha filha! Você herdou seu próprio paraíso!”

Anna sorria. O homem sorria.

“Eu não consigo me lembrar de coisas ru-

ins que aconteceram em minha vida, como se minha mente filtrasse apenas os bons momentos... Como isso é possível?”

“Você está no paraíso, Anna! Aqui, apenas

o que lhe foi prometido ao nascer, e conquistado

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por você ao longo de uma vida pura e direita, será lhe dado! Você está bem de agora para todo sempre!”

E então, sob a fraca garoa, ela corria pela

Avenida Treze, em sua felicidade eterna… sua eterna inocência.

“Eu tentei, tirar dele um pedido de perdão. Mas

como ele mesmo disse, estava podre. Eu serei o primeiro a recebê-lo, no primeiro dia em seu inferno particular, verei sua face pela última vez!”

O homem negro dispensou os outros que o acom-

panhavam, algumas lágrimas escorrerem de seus olhos.

De suas costas, ouviu passos. A voz em seguida

era conhecida.

“Olá, o senhor sabe o que acontece?” Era a voz de

Peter.

Limpando a última gota de lágrima, o homem en-

tão, trajado de suas mais brancas vestes, se vira para o outro.

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“Ah, eu sei sim. O senhor está no inferno.”


“Ao sair de casa para trabalhar, Peter sofre um acidente de carro. A partir daí, coisas estranhas começam a acontecer na estrada, Peter se vê no meio de uma confusão misturada a toda a névoa que pairava pela cidade àquela manhã.”

Inferno, por A.C. Junior  

“Ao sair de casa para trabalhar, Peter sofre um acidente de carro. A partir daí, coisas estranhas começam a acontecer na estrada, Peter se v...

Inferno, por A.C. Junior  

“Ao sair de casa para trabalhar, Peter sofre um acidente de carro. A partir daí, coisas estranhas começam a acontecer na estrada, Peter se v...

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