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a arte que liberta  •  89

menina da periferia, ir para a faculdade é um marco”, declara Rose Dorea. Na periferia de Sérgio Vaz, Marco Pezão, Rose Dorea, Lu Souza, Márcio Batista, Preto Will e de muitos outros, não existe ponte que impeça o povo de atravessar o mundo. Não importa se a travessia acontecer em algum sonho de criança ou se for descrita em um papel rascunho. Na Rua Bartolomeu dos Santos, até quem não vê com os olhos é capaz de enxergar o mundo descrito através das palavras. É o caso de Dona Edith, a “pedra preciosa” da Cooperifa, como diz Rose Dorea. Famosa, no boteco do Zé Batidão D. Edith tem cadeira cativa, sempre ao lado de D. Isabel. “É a D. Isabel quem lê as poesias para ela ou então grava em um CD e ela vai decorando”, explica Rose. Sentada em uma mesa em frente ao microfone, D. Edith assiste às declamações com um singelo sorriso nos lábios. Os olhos, cobertos por uma discreta nuvem cinza, parecem ver melhor do que muitas pupilas brilhantes que andam por aí. Dona Edith enxerga muito bem: porque olha com a alma. As duas mãos, unidas como em prece, só se separam no momento de bater palmas para o poeta que acabou de apresentar seus versos. Algumas poesias ela já conhece e acompanha baixinho, movimentando os lábios discretamente. Com delicadeza, D. Edith arruma os cabelos grisalhos, colocando-os para trás e logo depois deixa as mãos à vista novamente, mostrando as unhas pintadas de cor de rosa. Por volta das dez horas da noite, Rose Dorea anuncia a vez da jovem senhora. “Dona Edith, a Diva da Cooperifa”. Na frente de todos e com a voz um pouco rouca começa a declamar os versos de sua poesia preferida, Vozes D’África, de Castro Alves.

Universo Periférico  

O ponto final aponta para um novo começo COOPERIFA

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