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nicípio. O bairro abriga complexos luxuosos, frequentados apenas por quem “pode”, se é que você me entende. Só para citar, é naquela região que fica a Daslu Villa, marca chique de artigos de moda, e o Shopping Cidade Jardim, no qual incríveis sessões de cinema custam até R$ 56 por pessoa. Mais do que 10% do salário mínimo brasileiro, com o qual milhares de pessoas sobrevivem durante um mês inteiro. Alguns metros a frente, a impressão é de que a cidade vai se fechando ao redor da Marginal. Durante um longo trecho do percurso não há muito além de árvores e dezenas de carros para observar. A essa altura, a ponte João Dias, uma espécie de Muro de Berlim que separa o lado rico do pobre, já ficou para trás. Pouco tempo depois, a Marginal Pinheiros desaparece e chego, enfim, à via Guido Caloi. Ali já posso sentir o clima mais intimista, típico das periferias, misturado ao desconcerto de chegar em um lugar totalmente desconhecido. Até chegar ao próximo destino, indicado no mapa retirado do Google, demora um pouco mais – graças ao trânsito caótico e desordenado de São Paulo, que sim, sai do centro e chegacom força às franjas da cidade. Enquanto espero até a chegada à Avenida Guarapiranga, uso o tempo para analisar as pessoas espremidas nos ônibus ao lado. “Por quanto tempo será que aquela moça está em pé, na mesma posição?”, me pego questionando. Os olhos enfastiados, encaixados em um rosto envelhecido pelo cansaço, me fizeram acreditar que não era pouco e, pelo jeito, o caminho ainda seria longo. Não é apenas a literatura que chega com atraso às beiradas da sociedade, o transporte público também. Minha atenção mudou de foco logo que o carro atravessou a Avenida Guarapiranga e chegou, enfim, na Estrada do

Universo Periférico  

O ponto final aponta para um novo começo COOPERIFA

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