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Com ele a assegurar a voz, o álbum teria sido muito diferente. Afinal, não é conhecido por ter uma voz limpa. É verdade que queria trabalhar com ele. Antes de mais, somos grandes amigos e pessoas muito ocupadas. É claro que o conceito inicial do álbum era tanto diferente do actual. O facto de eu ter decidido assumir todo o trabalho relacionado com a voz levou-me a escolher canções diferentes, que procurei combinar para construir uma visão coerente do futuro. Isto é algo prioritário para mim, portanto é essencial que os elementos-chave estejam disponíveis, caso surjam boas oportunidades para fazer espetáculos. Geralmente, nas entrevistas que faço, peço para me falarem de uma faixa em particular – geralmente aquela de que gostei mais –, mas como, desta vez, o meu entrevistado é o gramde Mitch Harris vou pedir-te que me fales de duas: “I Live With Your Ghost” e “Painted Rust”. São duas canções que me parecem muito pessoais e obscuras. Podes dizer-nos alguma coisa sobre elas? Ahahahaha, boa! Ora bem, o riff de guitarra que usei na primeira andou a assombrar-me durante quase 2 anos. Por alguma razão, andava sempre a soar na minha cabeça. Por isso, usei a palavra “ghost” no título da canção. Acabei por gravar a canção com o Russ e fiquei muito entusiasmado. Era tal e qual assim que eu a via. Tinha uma letra com cerca de 12 páginas para essa canção e a minha filha Sequoia ajudou-me a escolher a parte que tinha mais a ver com a minha situação corrente. Queria gravar um vídeo para essa canção, portanto escrevi a letra como se fosse uma espécie de guião, para orientar e inspirar a animação. Era algo sobre “sentir-me invisível”, interrogar-me sobre se alguém daria pela minha falta, se eu desaparecesse. Pensamentos dolorosos, que era preciso exprimir. No fundo, trata-se de uma reflexão sobre a coexistência com alguém que, em tempos,

foi muito importante para ti, de fechar um capítulo e passar à página seguinte. “Painted Rust” tem uma introdução atmosférica e progressiva. Também andou na minha cabeça durante muito tempo. Tinha um cariz épico, era muito sentida e descrevia o modo como eu me sentia naquele momento da minha vida, com as paredes a desmoronarem-se à minha volta. Tudo o que podia correr mal estava a acontecer. Eu era o último a abandonar o barco que estava a afundar-se. Estava a perder a minha casa e vivia lá sem aquecimento, acordava às 5 da manhã, enregelado, com o nariz a pingar, embrulhado num cobertor. Estava no pórtico na parte da frente da casa, a pensar nas ideias vocais que me vinham à cabeça. Apercebi-me de que eram 4 da manhã e de que me ia embora no dia seguinte, para nunca mais voltar. Fui para a sala de estar e pus-me a cantar às 4 da manhã. Experimentei muitas coisas, porque tinha páginas e páginas de letras. Isso ajudou-me a criar uma representação mais clara da forma como me sentia perdido. Sabia que era algo que tinha mesmo de fazer e foi a última coisa que gravei. Penso que foi o culminar de tudo o que eu tinha aprendido a cantar as outras canções. É um arranjo singular, mas produz o efeito desejado e ajuda a contar a história. No fundo, podem sair coisas muito positivas dos momentos em que te sentes a soçobrar. Sem esse escape, eu ter-me-ia afundado. São instantâneos de um momento temporal. A minha vida modificou-se desde essa altura e sinto-me grato por poder seguir o meu caminho com alguns dos melhores músicos à superfície da Terra. Abençoados sejam! Vi que N. Manzan toca violino, violocelo, viola, que podemos ouvir em “Painted Rust” ou “To the Marrow”. A orquestração é muito subtil e dá ainda mais relevo ao álbum. Mostra como fizeram este trabalho de forma séria. Foi ideia tua ou do Manzan? Bem, nem sempre é muito subtil. Já tínhamos muitas coisas feitas e, por vezes, mesmo as melodias mais grandiosas complicam tudo e afastam-nos dos aspetos-chave das canções. “Painted Rust” dava mais espaço para esse tipo de manobras, porque eu fiz um trabalho minimalista nessa altura. No caso de “To the Marrow”, eu tinha pensado nas linhas para os instrumentos de cordas e o Nick expandiu as minhas ideias. “Painted Rust” foi totalmente arranjada por ele e os arranjos que fez converteram uma estrutura essencialmente acústica e progressiva numa canção épica. Adorei tudo o que o Nick acrescentou e o apoio que ele me deu durante todo o processo. É um amigo fiel e sempre capaz de me compreender. É maravilhoso trabalhar com alguém que tem tanto 9

Versus Magazine #31 Junho/Agosto 2014  
Versus Magazine #31 Junho/Agosto 2014  

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